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O contador de histórias como agente facilitador no ensino de literatura infantil

Sueli do Nascimento 1

Resumo: Este artigo tem como objetivo principal apresentar uma reflexão acerca da investigação da atividade desempenhada pelo contador de histórias enquanto agente no campo pedagógico do ensino de Literatura Infantil do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental I. A autora faz uma reflexão fundamentada em sua experiência pessoal

adquirida na Escola Municipal Profª. Geni Leite da Silva, entre os anos letivos de 2010

e 2011, no município de Birigui, localizado na Região Administrativa de Araçatuba.

Para isso, se utilizou de uma análise qualitativa e do referencial bibliográfico, a partir de material histórico e contemporâneo. Este estudo propõe a analisar a figura do contador de histórias como agente facilitador num processo de envolvimento e interação com o Ensino de Literatura Infantil, partindo do pré-suposto de como esta interação é favorável

e dinâmica para o desenvolvimento cognitivo infantil.

Palavras-chave: Contador de Histórias. Literatura. Literatura Infantil. Pedagogia.

1 Pós-graduada em Docência no Ensino Superior pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP).

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1. O CONTADOR NO CONTEXTO HISTÓRICO

“O contar de um povo revela os seus usos e costumes, o seu falar e o seu dizer, o cotidiano e a esperança de um devir, o que percebe como real e como produto da imaginação. A vida expõe-se no ato de contar”. Maria Claurência Silveira

A contação de histórias é considerada uma arte milenar e incide da

linguagem oral, numa forma remota de comunicação entre os sujeitos en- volvidos, cujo processo de manifestação aparece fundamentado numa var-

iedade infinita de contos e de fábulas. No Brasil, supostamente esta arte milenar teve sua origem consolidada entre a comunidade por intermédio do resgate do folclore, presente na cultura indígena, nas comunidades qui- lombolas, nas apresentações artísticas de grupos circenses e teatrais ou na simples disseminação das atividades artístico-culturais dos romanceiros, cantadores de viola, trovadores, poetas e carpideiras passadas de geração a geração. Enfim, pode ser compreendida como típica manifestação da cultura popular brasileira.

A literatura científica acerca da contação de histórias – seja relacio-

nada ao surgimento ou ao desenvolvimento desta manifestação artística no país – ainda é bastante escassa. Porém, os poucos registros disponíveis

consideram que esta arte milenar recebeu a influência cultural de diver- sos povos que relatavam os episódios de seu cotidiano ou que idealizavam narrativas que simplesmente desafiavam o imaginário e a criatividade de seus ouvintes, causando admiração, interesse e muita comoção. Na antiguidade, alguns relatos demonstram que a contação de histórias era compreendida como sendo algo inferior à escrita. Contudo, tal julgamento não impedia que seus praticantes e disseminadores se re- unissem para comunicar os fatos ou resgatar as histórias, pluralizando costumes e difundindo sua cultura. No Brasil, esta arte milenar de contar histórias supostamente se consolidou a partir do século XIX, com os ín-

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dios e os escravos dos engenhos de cana-de-açúcar. Com o correr dos anos, os romanceiros também passaram a contar histórias de forma poética e lírica, assim como os cantadores de viola e as carpideiras no interior do país. Atualmente, o contador de histórias assumiu uma postura diferente ao de seu antecessor, sendo reconhecido como figura atuante no âmbito educacional e cognitiva das crianças, com atuação em bibliotecas, feiras de livros, livrarias e unidades de ensino. No entanto, é importante ressaltar que – assim como se dá com o teatro – há várias teorias que abarcam o surgimento desta arte milenar. Brockett (1995), pesquisador das origens teatrais, cita a contação de histórias como referência histórica para o teatro, a partir da hipótese de que rituais primitivos e a contação de histórias impulsionaram o apareci- mento desta arte por volta de 80.000 anos a.C. No Brasil, a arte de contação de histórias está relacionada ao surgi- mento da Literatura Infantil, o qual, segundo Lajolo e Zilberman (1987), coincide com a abolição da escravatura por volta do século XIX. Neste período, diversos fatores, como, por exemplo, a extinção do trabalho es- cravo, o crescimento da população urbana e a própria modernização socio- cultural, contribuíram para o fortalecimento da Literatura Infantil e, con- sequentemente, com a sua difusão por meio do ato de contar histórias. Ao longo do tempo, como se pode notar por educadores e pesqui- sadores da área educacional, a contação de histórias serviu como instru- mento de propagação da religião, como divertimento para os membros da corte etc. E, no final do século XX, ela apareceu no cinema, na televisão e, mais recentemente, está se difundido com a convergência das mídias.

A história narrada, lida, filmada ou dramatizada, circula em todos os

meridianos, vive em todos os climas, não existe povo algum que não

se orgulhe de suas histórias, de suas lendas e seus contos característi- cos. (TAHAN, 1961, p. 16).

A atividade de contação de histórias traz intrinsecamente as raízes do povo, que podem ser compreendidas como tradutoras do pensamento

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social nas formas do saber literário 2 . Por isso, o contador de histórias pode ser considerado contemporâneo – por propor o resgate dos contos e das fábulas, além de combiná-los aos fatos do cotidiano – e sobrevivente nesta era digital, por estar num constante processo de divisão de espaço com a tecnologia e a convergência das mídias. Tal conexão tecnológica e a figura do contador, consequência da sobrevivência do tradicional na moderni- dade, podem ser consideradas fatores essenciais no processo de formação dos contadores de histórias como agentes ativos pelo tempo – no campo pedagógico e na multimídia, multiplicador da Literatura Infantil –, e agentes ativos na constituição das atividades de concepção que tem por fi- nalidade o despertar de crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental para o processo de formação de leitores.

2. O ENSINO DA LITERATURA INFANTIL NO BRASIL

Antes de tratar sobre a experiência observada na Escola Municipal Profª. Geni Leite da Silva, partimos do pressuposto de que a reflexão

em relação à investigação da atividade desempenhada pelo contador de histórias enquanto agente ativo no campo pedagógico do ensino de Literatura Infantil 3 parte do entendimento de Vygotsky (1998) sobre o conceito de desenvolvimento cognitivo 4 . Isso ocorre num primeiro nível e num plano biológico, no qual os processos psicológicos acontecem em

função da maturação orgânica. Para Vygotsky (1998), esses “[

] processos

2 Considera-se saber literário, o conhecimento sobre textos literários e poéticos. No presente artigo, as for- mas de saber literário referem-se à variedade de textos literários, seja na música, nas artes plásticas ou no teatro. 3 O ensino de Literatura no Brasil evidencia-se no século XIX com a criação das primeiras Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras do país, fortalecendo o ensino e legitimando a produção ou reedições das histórias literárias, as quais condicionaram o padrão literário, pautando-o por periodização cronológica. Segundo Razzini (2000, p. 317), a disciplina tornou-se adjetivo pátrio a partir de 1925. 4 O desenvolvimento cognitivo consiste de um esforço para se adaptar ao meio em termos de assimilação

e acomodação. Piaget (1973, p. 27) descreve que as fases “[

independentemente das acelerações ou

retardamentos podem modificar as idades cronológicas médias em função da experiência adquirida e do meio social”.

]

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psicológicos naturais” são compreendidos como possíveis consequências de um demorado processo de mediação sociocultural.

Sabe-se muito bem que a criança é capaz de transições surpreen- dentes, e de associações e generalizações espantosas, quando o seu pensamento extrapola os limites do pequeno universo palpável de sua experiência. Fora dele, a criança frequentemente constrói com- plexos ilimitados, surpreendentes pela universalidade das ligações que abrangem. (VYGOTSKY, 1998, p. 82).

Esta análise proposta pelo autor, com ênfase nas características de aprendizagem, sintetiza a capacidade de a criança se desenvolver num pro- cesso criado por ela a partir das interações que vivencia em seu cotidiano. Sendo assim, a Literatura Infantil, juntamente com a contação de histórias – considerada neste artigo uma atividade interativa e pedagógica –, por intermédio do educador, contribui para que haja este ambiente propício ao desenvolvimento integracionista da criança. Ao ponderar a possibili- dade de construção complexa ilimitada e surpreendente das ligações feitas pela criança, acreditamos no quanto o meio pode estimular o processo cognitivo a partir da atividade de contação de histórias. Ao refletirmos sobre este possível processo de ensino e aprendiza- gem, que é constituído por meio das intervenções sociais provocadas pela atividade de contação de histórias, notamos que a pluralidade cultural dos textos literários se torna outra importante evidência do desenvolvimento deste processo. Ao descrever, por exemplo, o resgate cultural citado neste artigo, seja pelo poeta ou pelo contador de histórias, identificamos a pos- sibilidade de vivência das crianças a partir da história contada, conjugan- do teoria e prática. Nas pesquisas de Coelho (2006), tal perspectiva sócio-histórica aparece fundamentada em contraste à definição de Vygotsky (1998), ao defender a ideia de que a literatura é uma herança cultural. Para a referida autora, a literatura opera como principal veículo de transmissão de con- hecimento histórico-cultural:

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Ao estudarmos a história das culturas e o modo pelo qual elas foram sendo transmitidas de geração para geração, verificamos que a lit- eratura foi o seu principal veículo. Literatura oral ou literatura es- crita foram as principais formas pelas quais recebemos a herança da Tradição que nos cabe transformar, tal qual outros o fizeram, antes de nós, com os valores herdados e por sua vez renovados. (COELHO, 2000, p. 16).

De acordo com o excerto, a autora propõe que a Literatura deve aux- iliar a reflexão sobre o estudo da história cultural. Neste sentido, concor- damos com a afirmação de que tanto a literatura oral quanto a escrita são

as principais formas pelas quais recebemos a herança da tradição”

(COELHO, 2000, p. 16), o que fundamenta a constatação de que a pre- sença do contador possibilita, de maneira ativa, a transmissão do con- hecimento cultural na forma da literatura oral. Ademais, a propagação da narrativa oralizada constitui um estímulo social para que a herança da

“[

]

tradição, descrita por Coelho, contribua para o movimento contínuo do pensamento para a palavra, conforme o entendimento de Vygotsky (1998, p. 156-157).

não é uma coisa mas um processo, um movimento contínuo de

vaivém do pensamento para a palavra, e vice-versa. Nesse processo, a relação entre o pensamento e a palavra passa por transformações que, em si mesmas, podem ser consideradas um desenvolvimento no sentido funcional. O pensamento não é simplesmente expresso em palavras; é por meio delas que ele passa a existir. Cada pensamento tende a relacionar alguma coisa com outra, a estabelecer uma relação entre as coisas.

] [

Nesta relação conceitual entre Vygotsky (1998) e Coelho (2006), o fato está intrinsecamente ligado ao processo de mediação sociocultural, visto que ambos fornecem de forma distinta a base sócio-histórica que o sujeito perpassa por intermédio de suas vivências em sociedade. É na atividade executada pelo contador de histórias que se possibilitou este

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estudo de caso e, por intercessão deste experimento pessoal, pudemos compreender o processo de mediação sociocultural e as estratégias cogni- tivas acerca da compreensão de textos pertencentes à Literatura Infantil.

Nesta troca extremamente cultural entre os sujeitos, é notável a transfor- mação resultante de experiências orais. Bettelheim (1980) considera a narração oral como caminho para o desenvolvimento da maturidade e a sedimentação da individualidade, uma vez que a criança se aproxima da autovalorização e da projeção, amadurecendo a convivência social pau- tada na consideração aos que fazem parte do seu meio social. Portanto, acreditamos que o contador de histórias, com sua postura dinâmica e interativa, considerando a linguagem humana como mani- festação cultural, relacionada com padrões de comportamento, crenças e costumes, pode contribuir efetivamente com o processo de transmissão e disseminação dos conhecimentos transmitidos numa representação sim- bólica de diversificados conceitos, possibilitando o resgate histórico de seu povo. Sob o mesmo ponto de vista, consideramos, em conformidade

a Vygotsky (1998), a linguagem como atividade, e é nessa ação descrita

que a linguagem surge como uma atividade por meio da qual o contador dialoga os textos literários ou não literários para as crianças, estimulando

o interesse pela leitura e, por conseguinte, cooperando para a relação entre

o pensamento e a linguagem. Entretanto, ao nos depararmos com o pensamento e a palavra, simul- taneamente, a instituição escolar surge como órgão responsável por esta or- ganização sistematizada, agregada à consolidação de um ensino de qualidade

que ajude o aluno a desenvolver a postura de cidadão participativo 5 , reflexivo

e autônomo, tal como postula os Parâmetros Curriculares Nacionais 6 .

5 O termo “cidadão participativo” atribui-se a todo aquele que conhece e aplica seus direitos e deveres em sociedade e, segundo Cotrim e Parisi (1979), é compreendido como a necessidade que se inicia desde a Educação Infantil: "Formar o cidadão crítico e participativo" 6 Os Parâmetros Curriculares Nacionais constituem um referencial de qualidade para a educação brasileira no Ensino Fundamental, segundo a Secretaria de Educação Fundamental mencionada no presente documento.

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Este artigo é fruto de um processo que teve origem nas informações obtidas durante as duas etapas citadas, analisando o quanto a interação com o ambiente poderá influenciar, de forma direta, a aprendizagem no contexto escolar. Seja por meio dos recursos disponibilizados pelo espaço físico, como livros infantis, cadeiras, almofadas ou tapetes que facilitam a imagem literária, como também pelo agente contador, objeto diferen- ciado da rotina escolar. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (1997) 7 reconhecem a importância do trabalho com o texto literário nas práticas cotidianas de sala de aula e recomendam a leitura de textos literários, ob- jetivando a formação do leitor. Porém, isso eventualmente acontece, em- bora os professores reconheçam que os alunos demonstram interesse pelas narrativas nas raras oportunidades em que eles entram em contato com a Literatura (AMARILHA, 1997).

Cabe à escola viabilizar o acesso do aluno ao universo dos textos que circulam socialmente, ensinar a produzi-los e a interpretá-los. Isso inclui os textos das diferentes disciplinas, com os quais o aluno se defronta sistematicamente no cotidiano escolar e, mesmo assim, não consegue manejar, pois não há um trabalho planejado com essa finali- dade. (BRASIL, 1997, p. 30).

Segundo Vygotsky (1987), a aprendizagem acelera os processos evo- lutivos internos que são capazes de atuar quando a criança se encontra em interação com o meio ambiente e com as outras pessoas. Ele ressalta que a importância desses processos pode ser mensurada pela internalização do ato pela criança. Desta forma, entendemos que a atividade do contador de histórias criará, por meio de sua ação e sua experiência, um ambiente interativo entre uma história literária, as crianças e os demais ouvintes 8 ,

7 O MEC, em 1997, por meio do documento norteador da educação básica: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, regido pela Constituição e fonte de jurisprudência sobre a educação nacional, lança os Parâmetros Curriculares Nacionais para as quatro séries iniciais do Ensino Fundamental.

8 As crianças são o foco de nossa pesquisa. Todavia, diretor, vice-diretor, coordenador, professores, merendei- ras, orientadores e secretário de escola integram o grupo de sujeitos envolvidos no processo.

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estimulando o apreço pela Literatura Infantil 9 . Tal contato requer estratégias de leitura criativas, que evoquem ex- periências e vivências pessoais, fugindo do mundo limitado da estrutura textual para ganhar concretismo na percepção do leitor.

3. ESCOLA MUNICIPAL

A pesquisa foi organizada em duas etapas: uma em abril de 2010,

outra em maio de 2011. A atividade consistiu em sessões de contação de histórias na Escola Municipal Profª. Geni Leite da Silva, que fica no mu- nicípio de Birigui, localizado na Região Administrativa de Araçatuba. Esta cidade possui 108,7 mil habitantes 10 ; a economia está pautada nas in-

dústrias de calçado, motivo pelo qual o município passou a ser conhecido como “capital nacional do calçado infantil”. Nesta realidade, encontramos

a principal fonte de renda dos pais e/ou responsáveis legais pelos alunos da referida unidade escolar.

A Escola Municipal Profª. Geni Leite da Silva, que funciona desde

18 de fevereiro de 1942, sofreu a interferência política da municipaliza- ção do ensino, autorizada pela Lei Municipal nº 3658, de 28 de maio de 1999, baseando-se no Decreto 43072/98, e foi implantado o convênio “Programa de Ação de Parceria”. Cabe ressaltar que tais mudanças, impul- sionaram a autonomia do Município, e respectivamente das escolas, no que se refere ao planejamento e execução de novas e inovadoras diretrizes educacionais que permitiram o desenvolvimento desta pesquisa. Na primeira fase da pesquisa, desenvolvida em abril de 2010, a unidade escolar possuía 501 alunos que tiveram a oportunidade de par- ticipar do Projeto “Contos e Encantos” 11 , onde a pedagoga, professora e

9 Segundo Zilberman (1998, p. 61): “É uma modalidade de expressão que conhece limites definidos [ ] pode englobar histórias versistas ou fantásticas, miscigenar gente e animais antropomorfizados, simbolizar ou simplificar situações humanas existenciais”. 10 IBGE (2010). 11 Este projeto apresenta de maneira singela e singular, a magia dos contos, onde a contadora e músico interagem no encantamento artístico e lúdico. Para saber mais: http://contosseencantoss.blogspot.com/

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contadora de histórias Sueli do Nascimento desenvolveu a atividade de contação de histórias. Durante a atividade, pode-se notar o envolvimento das crianças na manifestação oral e corporal da profissional, os olhos nem piscavam no decorrer da narração, cada efeito sonoro utilizado enfatizava

a ideia subjetiva da narrativa, transpondo-a para a ação concreta da inter- pretação. Lembrando que o espaço utilizado nesta primeira etapa, fora o pátio da escola, sem microfone, todavia esses detalhes não impediram que

as crianças se detivessem àquele momento mágico e literário. Logo após, na segunda fase da pesquisa, em abril de 2011, ocorreu um aumento do corpo discente, totalizando 518 alunos, crédito da ad-

ministração e equipe escolar comprometimentos na liderança e na aplica- ção de projetos no município de Birigui/SP.

A infraestrutura predial da unidade escolar possui características ar-

quitetônicas da década de 1950. Porém, o prédio apresenta-se com estilo neoclássico 12 , que vem sendo preservado ao longo dos anos, tornando-se assim um ponto de referência do Bairro Silvares, situado em Birigui/SP. Tais características contribuíram para que a contadora de histórias re-

criasse alguns contos, conectando-os a imagem estrutural da própria es- cola, transformando o espaço no mundo imaginário das histórias através da narrativa.

A organização e disposição da infraestrutura física é outro ponto a se

destacar, dispõe de 23 salas de aula, dentre as quais quatro salas de Edu-

cação Infantil e 19 salas de Ensino Fundamental. Além de salas de aula, também é composta por biblioteca, laboratório de informática, quadra poliesportiva, refeitório, gabinete de dentista, parque infantil, sala dos professores, de secretaria, de coordenação pedagógica e de direção. A in- fraestrutura física possibilita o espaço de criação, imaginação e conheci- mento, ao mesmo tempo que influencia no desenvolvimento da apren- dizagem da criança, bem como as interações entre as crianças e educador.

A organização dos espaços constituídos dentro do contexto escolar ao ser

preparado para a criança, respeitando o direito dela construir sua autono-

12 O estilo neoclássico do prédio pertence ao período do século XIX, apesar desta construção ter sido feita no século XX (LLERA, 2006).

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mia, sua identidade, como também seu conhecimento é tomar consciência da função dos espaços que estabelece relações entre o mundo e pessoas.

3.1 Desenvolvimento da pesquisa

O experimento foi realizado no período de abril de 2010 a maio de 2011 e surgiu através da experiência da pesquisadora que, segundo Goode e Hatt (1969), é considerado um tipo de análise qualitativa. No primeiro ano de pesquisa, estiveram envolvidos 501 alunos e, em 2011, 518 alunos da Educação Infantil 13 e do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Foram planejadas sessões experimentais em meses alternados. Cada uma das sessões foi marcada por diversificados gêneros de tex- tos, como fábula, contos de fadas, contos autorais e lendas, contos region- alistas, além de criações da própria contadora, lembrando que os Parâmet- ros Curriculares Nacionais (1997, p. 34) citam que diversidade textual, que existe fora da escola, pode e deve estar a serviço da expansão do con- hecimento letrado do aluno. O foco de análise recaiu sobre os efeitos da recepção literária por meio das ações do contador de histórias, ressaltando que foram utilizados nas ações recursos visuais e sonoros durante a nar- rativa, tais como fantoche, varinha de condão, boneca de pano, avental, sino, balde com água, violão e o tradicional livro.

O livro é um produto intelectual, que se concretiza num certo suporte de material e envolve não só o autor e o leitor, mas diferentes pessoas que se incumbem de (re)organizar um conjunto de impressão, dis- tribuição e circulação dessa mercadoria. Uma mercadoria que, como tal, é objeto de produção e consumo. No encontro entre o livro edita- do e o leitor se produz um universo de crença no valor do seu produto (leitura é um bem necessário), construído e determinado pelo merca- do.Aleituravivedeumapropagandadelaprópriaqueédeinteressedos

13 Esta pesquisa não considerou o sexo dos educandos.

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agentes econômicos envolvidos na produção de objetos de leitura e que investem em (novos e mais) consumidores. (FERREIRA, 2001, p. 11)

Ao categorizar as estratégias do contador a partir da análise da rela- ção entre percepção, engajamento, experiência e compreensão entre o grupo observado, além de visualizar a atividade de contar histórias como cultural, artística e lúdica, como também pedagógica, é possível observar

o vínculo entre essa atividade e o Ensino de Literatura Infantil. O educador, ao utilizar este mecanismo em sala de aula, neste caso, fora utilizado pátio e quadra poliesportiva, em virtude da quantidade de crianças por período, estimula a imaginação dos leitores-ouvintes, desen- volve a capacidade cognitiva de percepção do objeto literário como in- strumento de motivação para que os alunos recorram ao suporte escrito dos textos literários, incorporando-se ao hábito de leitura. Esta pesquisa demonstra a sistematização da atividade de contação de histórias nas aulas de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental, em situações de aquisição da linguagem e vivência com o texto literário. Durante a experiência, constatamos que o agente contador estimula

a imaginação por intermédio de narrativas, da apresentação do conto à

sucessão de eventos/ações complexas até o desfecho; dinamiza o processo de leitura e escrita, facilitando a compreensão textual e contribuindo para as habilidades linguísticas em nível oral e escrito; e potencializa a lingua- gem infantil ao apreciar o texto literário, como prescreve o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, p. 145), ao mencio- nar que: “A leitura de histórias é uma rica fonte de aprendizagem de no- vos vocabulários”. Neste contexto social de aprendizagem, atribui-se ao contador a participação ativa na mediação pedagógica da construção do conhecimento e, nesse processo de aquisição, aliado com as experiências cognitivas das crianças. A partir do aprender e compartilhar o espaço de aquisição de conhecimento, as crianças estabelecem uma relação de diálo- go com o texto literário, o que não raro resulta num significativo aprimo- ramento de suas competências linguísticas. Considera-se a mediação pedagógica neste artigo tanto o diálogo

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pedagógico, coerente e coeso, como o didático e exemplificativo que o próprio contador-mediador permeia de maneira clara a Literatura Infan- til, gênero instável tanto quanto o gosto das crianças:

o conceito de infância, que gera as condições de produção, muda

de forma substancial; da mesma maneira, pode ser radicalmente difer- ente o modo como os textos são lidos, tanto por públicos primários ou secundários quanto por públicos de especialistas ou leigos. Tudo isso sugere um tipo de literatura definido mais em termos do leitor do que das intenções dos autores ou dos próprios textos. (CECCAN- TINI, 2004, p. 21).

] [

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo propôs uma reflexão inicial acerca da investigação da atividade desempenhada pelo contador de histórias, enquanto agente no campo pedagógico do ensino de Literatura Infantil do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental I. Ao término desta experiência e pesquisa, pudemos perceber a im- portância do contador de histórias como agente facilitador no campo pedagógico do processo de envolvimento entre o Ensino de Literatura In- fantil e o ambiente escolar, tanto por ser uma atividade humana dinâmica, quanto pela possibilidade de resgate histórico de seu povo como con- tribuição para o seu desenvolvimento cognitivo. As crianças durante a atividade demonstraram interesse e logo após a atividade, interrogaram sobre novos conceitos e conhecimentos expostos na narrativa, sempre en- tusiasmados com a postura dinâmica do ato de contar histórias. Muitos chegaram a acreditar nas histórias, perguntando se aquilo realmente aconteceu, se a contadora era a personagem da história, quando ela vol- taria, sobre a possibilidade de existência dos sonhos, como por exemplo, ao acreditar, tudo poderá acontecer um dia. Alguns recontaram trechos, interpretando e recriando a contextualização do real e imaginário. Isto demonstra o quanto a experiência literária proporcionada por este agente

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permite que a criança se desenvolva neste processo de mediação sociocul-

tural, bem como estimula a aprendizagem responsável pela aceleração dos processos evolutivos internos, rompendo as barreiras entre a vida real e a imaginação, estabelecendo um elo entre o ensino e a literatura.

O contador de histórias contemporâneo, diante da era digital, no

constante processo de “divisão de espaço” com a tecnologia, partindo do contexto de sobrevivência do tradicional na modernidade, estabelece vín- culo concreto com crianças, jovens e profissionais da educação.

Tal atitude, resultante de uma postura dinâmica, habilita-nos a con- siderar o contador um agente ativo pelos tempos, no campo pedagógico e

no que se refere ao desenvolvimento da potencialidade e da competência dos alunos, uma vez que este educador cria condições necessárias à partici- pação ativa, propositiva e transformadora discente. Ademais, valendo-se da multimídia disponível, ao utilizar recursos tecnológicos para divulga- ção e difusão desta arte, multiplica a Literatura Infantil e fomenta a for- mação de leitores.

O ato de contar histórias, portanto, é um meio de se criar no mundo

da criança um alicerce para a formação do futuro leitor, independente do espaço físico ser a sala de aula, todavia considerando também um espaço propício, onde é possível expressar sua ludicidade, estimulando a vontade ler, a apropriação dos signos gráficos, o gosto pela leitura, considerando-se como iniciação literária para uma extensão de leituras pela vida. Além disso, a didática utilizada pelo contador motiva e enriquece, estimula a aquisição da leitura de forma criativa, de tal modo que ultrapassa a decodificação do código linguístico, desenvolvendo o pensamento lógico-científico, ao estabelecer vínculo com a subjetividade e a emoção, compreendendo a realidade por meio de símbolos e, ao mesmo tempo, favorecendo os as- pectos psíquico e emocional da criança. A atividade, por si, promove e divulga os contos orais e escritos, frutos da pluralidade cultural brasileira, resgatando, assim, a tradição afro-indígena, dos romanceiros, cantadores de viola, trovadores, poetas, carpideiras e das cantigas de roda, tal como a típica manifestação do folclore brasileiro. A leitura é a compreensão do que se vê e se ouve, o quanto se desco-

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bre por ela, o enriquecimento humano por ela promovido, a possibilidade que todo e qualquer homem tem em suas mãos como fonte de pesquisa, é a afirmação e negação de si diante do mundo literário. Daí resulta sua característica formação humanística. Assim, à medida que estivermos diante da Literatura Infantil, seja pela arte de contar histórias ou pelo próprio objeto-livro, como profes- sores, educadores ou contadores de histórias, é necessário que saibamos refletir sobre nossa contribuição sócio-histórica diante do mundo con- temporâneo, a fim de que realmente incentivemos, por intermédio deste dispositivo de “contação”, a construção do conhecimento e, consequent- emente, a transformação social dos alunos.

REFERÊNCIAS

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Title: The storyteller as a facilitator in the teaching of children's literature. Author: Sueli do Nascimento.

ABSTRACT: This paper's main purpose is to present a reflection about the investiga- tion of the activity performed by the storyteller as an agent in the educational field of teaching Children's Literature from 1st to 5th year of Elementary School I. The author makes a reflection based on personal experience gained at the Municipal School “Prof. Geni da Silva Leite”, in the academic years 2010 and 2011, in the city of Birigui, lo- cated in the administrative region of Araçatuba, São Paulo, Brazil. For this, she used a qualitative analysis and bibliographic references, from historical and contemporary material. This study proposes to analyze the figure of the storyteller as a facilitator in a process of engagement and interaction with the Teaching of Children's Literature, from the pre-supposition as this interaction is positive and dynamic for the child's cognitive development. Keywords: Storytelling. Literature. Children's Literature. Education.

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