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ISSN 1518-7632

Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem - Unisul

Tubarão - SC

v. 5, n. 2., p. 241-432, jan./jun. 2005


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Ficha Catalográfica
Linguagem em (Dis)curso / Universidade do Sul de Santa
Catarina. - v. 1, n. 1 (2000) - Tubarão : Ed. Unisul,
2000 -

Semestral
ISSN 1518-7632

1. Linguagem - Periódicos. I. Universidade do Sul de


Santa Catarina.
CDD 405
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Diretor: Barcelos de Souza Fernandes
Maria José Werner Salles – Francês Estagiário: Gabriel Estevão da Silva
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Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 241-432, 2005


Sumário/ Contents

Editorial 247

ARTIGOS DE PESQUISA / RESEARCH ARTICLES

Quando a ficção invade a prosa: práticas discursivas não-canônicas


no discurso acadêmico/ When fiction invades prose: non-canonical
discursive practices in academic discourse
Anna Elizabeth Balocco 249

No fio do discurso: análise do discurso sobre o trabalho no artigo


opinativo do jornal Correio Riograndense/ On the line of discourse:
analysis of the discourse about work in articles from the newspaper
Correio Riograndense
Maria Helena Bortolon Rech e
Heloísa Pedroso de Moraes Feltes 267

Articulação adverbial no discurso religioso/ Adverbial articulation


in religious discourse
Mariangela Rios de Oliveira, Maria Maura Cezario e
Filipe Viana Luiz Albani 295

A carapuça da discórdia: uma análise dos discursos que emanam de


um gesto presidencial/ The hood of discord: an analysis of the
discourses that emanate from a presidential gesture
Inês Staub Araldi 323
ENSAIOS/ ESSAYS

Defining a CALL activity/ Definindo uma atividade de CALL


Vilson J. Leffa 337

Vozes sociais citadas e sobrepostas: a polifonia e a dialogia/


Quoted and superposed social voices: polyphony and dialogy
Ingo Voese 357

Tempo na frase e tempo no texto: as teorias de Reichenbach e de


Rojo e Veiga/ Tense at the sentence level and at the textual
level: The theories of Reichenbach and Rojo &Veiga
Raquel Meister Ko. Freitag 389

RESENHA/ REVIEW

BALTAR, Marcos. Competência discursiva e gêneros textuais:


uma experiência com o jornal de sala de aula. Caxias do Sul, RS:
EDUCS, 2004. 173 p. 415
Por/By Adair Bonini
Freitag

TEMPO NA FRASE E TEMPO NO TEXTO: AS TEORIAS DE


REICHENBACH E DE ROJO E VEIGA*

Raquel Meister Ko. Freitag**

Resumo: Este artigo apresenta um estudo comparativo das teorias de Reichenbach (1947) e de Rojo
e Veiga (1999) para a estruturação lingüística das relações temporais no âmbito da frase e do discurso.
Em um primeiro momento, compara as teorias no que se refere à orientação, representação e arranjo.
Em seguida, analisa as propostas de estruturação temporal estabelecidas para além dos limites da
frase, ou seja, como as teorias estruturam o tempo no texto.
Palavras-chave: tempo lingüístico; estudo comparativo; estrutura temporal.

1 INTRODUÇÃO

A expressão lingüística do tempo1 é a manifestação de uma característica


cognitiva universal: todas as línguas têm em sua gramática um componente
responsável pela codificação do tempo cronológico. Comrie (1985, p. vii),
por exemplo, define o tempo gramatical como a gramaticalização da localização
no tempo cronológico.2

*
Agradeço à Profª. Drª. Luizete Guimarães Barros pelo encorajamento e orientação neste trabalho e aos professores
Drª. Márluce Coan e Dr. Heronides Melo Moura, pela leitura atenciosa e pelas sugestões.
**
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail:
<rmkf@terra.com.br>.
1
A palavra tempo, em português, é polissêmica, e recobre pelo menos duas entidades distintas: tempo cronológico
– tempo medido – e tempo gramatical – tempo codificado lingüisticamente. O tempo cronológico se gramaticaliza
(no sentido de entrar para a gramática da língua) como tempo gramatical. Línguas como o alemão e o inglês têm
palavras distintas para tempo gramatical (Tempus, tense) e tempo cronológico (Zeit, time), conforme aponta
Weinreich (1968, p. 14-15).
2
Nas línguas, a expressão do tempo está estreitamente relacionada com a expressão de aspecto e de modalidade.
Embora tempo, aspecto e modalidade freqüentemente se sobreponham (uma mesma expressão, seja item lexical
ou gramatical, é responsável pela codificação de tempo, aspecto e modalidade) em uma dada situação, é preciso
elencar um domínio e isolá-lo para descrever seu comportamento e chegar a uma classificação. Por isso, na
análise a seguir, mesmo que outros domínios semânticos também sejam codificados por uma dada forma verbal,
apenas o significado temporal será considerado.

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Tempo na frase e tempo no texto:...

Apresento, a seguir, duas propostas que tentam explicar como o tempo


cronológico passa ao tempo gramatical nas línguas. A primeira proposta, de
orientação lógico-positivista, é a de Hans Reichenbach (1947), e a segunda,
de orientação funcional-descritiva, é a de Guilherme Rojo e Alexandre Veiga
(1999). É preciso salientar que as propostas não são concorrentes no papel
de “a melhor explicação” para a estrutura gramatical do tempo (como será
visto no desenvolvimento deste trabalho). A explicação lógico-formal de
Reichenbach é mais adequada no nível frasal, enquanto que a explicação
funcional-descritiva de Rojo e Veiga é mais adequada no nível do texto.
Especificamente, (i) comparo as teorias no que se refere à orientação,
representação e arranjo, e (ii) analiso as propostas de estruturação temporal
estabelecidas para além dos limites da frase, ou seja, como as teorias estruturam
o tempo no texto.
O texto escolhido para dar suporte à análise das propostas de estruturação
temporal é “Guerra no Iraque derruba mitos”, publicado no Diário Catarinense
do dia 13/04/2003. Este texto caracteriza-se pela variedade de recursos temporais,
determinada pelo seu tema: a comparação das expectativas antes da invasão
americana ao Iraque com o que aconteceu de fato durante a invasão.

2 TEMPOS VERBAIS: A TEORIA DE HANS REICHENBACH

Para elaborar sua teoria para a estruturação dos tempos verbais,


Reichenbach parte do pressuposto de que os tempos verbais determinam o
tempo em relação à referência e ao momento do ato de fala de um dado
enunciado.
Assim, denomine-se momento da fala3 ao momento da enunciação. A
partir da definição deste ponto, podemos estabelecer três relações: antes do
momento de fala, simultâneo ao momento da fala e posterior ao momento da
fala. A fixação de apenas um ponto nos fornece somente essas três relações

3
No original, consta speech point. Preferi traduzir point por momento, seguindo os demais trabalhos que tomam
por base Reichenbach (cf. COAN, 1997, 2003; GIBBON, 1998).

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temporais. Dado o grande número de relações temporais existentes nas línguas,


é preciso estabelecer um sistema mais complexo.
Argumentando segundo a perspectiva deste autor, em uma frase tal Estados
Unidos invadiu o Iraque, o tempo expresso pela forma verbal de pretérito perfeito
está relacionado a dois parâmetros, cujas posições podem ser determinadas a
partir do momento da fala. Chame-se a esses dois pontos de momento da
situação4 e momento da referência. No exemplo em questão, o momento da
situação é o momento da invasão, tal que os Estados Unidos invadiram o Iraque;
o momento da referência é, neste caso, o próprio momento da fala. Em uma frase
individual, como a do exemplo, não é claro em que ponto está situado o momento
da referência, pois sua determinação é dada pelo contexto da fala. Tomem-se os
excertos que seguem (a simbologia utilizada é: R, para momento da referência;
F, para momento da fala; e S, para momento da situação):

(1) Após uma dura batalha em Karbala, a 3a Divisão de Infantaria dos EUA
penetrou na zona vermelha no dia 1° de abril, sem enfrentar maior resistência.
(col. 2 lin. 8-11)5

(2) O governo iraquiano dispõe de armas de destruição em massa. (col. 3


lin. 4)

4
No original, consta event point. Preferi adotar a tradução situação, que recobre eventos, processos e estados.
5
No parêntesis, col. refere-se à coluna e lin. refere-se à linha em que o excerto está situado no texto.

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Tempo na frase e tempo no texto:...

(3) Soldados leais a Saddam lançarão mão de armas de destruição em


massa. (col. 2, lin. 4-6)

O excerto (1) ilustra uma situação anterior ao momento da fala, o que


é expresso pela forma verbal de pretérito perfeito. O momento da referência é
1o de abril, após uma dura batalha em Karbala. Já o excerto (2) ilustra uma
situação (dispõe) que é simultânea ao momento da fala, e também simultânea
ao momento da referência; em outras palavras, a data da publicação do jornal
é, ao mesmo tempo, o momento da fala e o momento da referência, e também
é simultânea ao momento da situação. E, no excerto (3), há uma situação que
é posterior ao momento da fala (lançarão), mas cujo momento de referência
é coincidente com o momento da fala (a data da publicação do jornal é, ao
mesmo tempo, o momento da referência e o momento da fala), por disposição
da teoria de Reichenbach.
Quando não há referência temporal explicitada textualmente, o momento
da fala torna-se o momento da referência. Nos tempos verbais ilustrados de (1) a
(3), dois dos três pontos são simultâneos. A argumentação de Reichenbach aponta
para a necessidade de estabelecimento de três momentos para que se possa fazer a
distinção dos demais tempos do sistema verbal do inglês (e que pode ser estendido
às demais línguas). A dificuldade das gramáticas escolares em definir os tempos
verbais, segundo Reichenbach (p. 289-290), está no fato de elas não reconhecerem
a estrutura de três lugares na determinação das relações temporais. Por exemplo,
o excerto (4) não pode ser estruturado apenas com dois pontos6:

6
Para contraponto, vale apontar a proposta de Comrie (1985), que estabelece o momento de fala como centro
dêitico, a partir do qual três tempos básicos podem ser estruturados: presente passado e futuro. Tais tempos são
denominados tempos absolutos, em oposição aos relativos. Os tempos absolutos são os que tomam como ponto
de referência o momento da fala. Tempos relativos têm como referência algum outro ponto contextualmente
atribuído, e por isso, são ditos anafóricos.

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(4) “Antes da noite de sexta-feira, os EUA não haviam encontrado nenhuma


prova de armas químicas” (col. 4, lin. 5-6)

O excerto (4) refere-se a uma situação – o encontro de provas da


existência de armas químicas – que é anterior ao momento de referência –
a noite de sexta-feira, 11/04/2003 –, que, por sua vez, é anterior ao
momento da fala – a data da publicação do jornal, domingo, dia 13/04/
2003. Se nos valêssemos de apenas dois pontos, não conseguiríamos
codificar a nuança temporal existente na situação; com os três pontos de
Reichenbach, a nuança temporal codificada lingüisticamente fica mais
próxima da situação temporal ocorrida.
A ordenação do tempo a partir de três pontos permite treze
combinações lógicas, embora a gramática do inglês reconheça seis por meio
de forma verbal específica.
Tomando o momento da fala como ponto inicial, o momento de
referência pode ser anterior, simultâneo ou posterior; o que resulta em três
possibilidades. O momento da situação também pode ser anterior, simultâneo
ou posterior ao momento da fala, o que resulta em mais três possibilidades. O
arranjo entre as três possibilidades de momento de referência e as três
possibilidades de momento de situação resulta em nove formas, chamadas
formas fundamentais. As demais diferenças aparecem somente quando a posição
da situação em relação ao momento da fala é considerada; essa posição é
irrelevante normalmente. A forma F – S – R pode ser distinguida de F,S – R;
resta a relação entre F e R na primeira e S e R na segunda. Essas duas formas
não diferem, podendo ser representadas pela mesma fórmula.
O quadro sinóptico das relações temporais do inglês proposto por
Reichenbach, bem como a nomenclatura sugerida, é o que se observa na figura 1.

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Tempo na frase e tempo no texto:...

Tempo verbal do inglês

S-R-F passado anterior


S,R - F passado simples simple past
R-S-F passado posterior
R-F-S
S-F-R presente anterior
F, R, S presente simples present
F, R - S presente posterior
F-S-R
F,S-R futuro anterior
S-F-R
F - R, S futuro simples future
F-R-S futuro posterior

Figura 1 – Estruturas das relações temporais (REICHENBACH, 1947, p. 297).

Apesar de proposta para o inglês, a esquematização das relações


temporais pode ser aplicável a todas as línguas.7 Porém, existem situações
temporais mais complexas do que as esquematizadas. Quando mais de uma
oração se combinam para formar um período, os tempos verbais se ajustam,
de acordo com certas regras que os gramáticos costumam chamar de regras
de seqüenciação temporal.
As regras de seqüenciação temporal são tradicionalmente denominadas
consecutio temporum, ou concordância temporal. Weinreich (1968, p. 46)
propõe que existe relação entre os grupos temporais. Um tempo no discurso
está contextualizado; não pode ser ilimitadamente combinável com outros
tempos. Certas combinações são preferidas no contexto; outras são limitadas
ou inadmissíveis. As possibilidades de combinação entre os tempos são as que
se seguem no quadro 1.

7
Isto significa que em todas as línguas é possível determinar o momento da fala, o momento da referência e o
momento da situação, embora o arranjo entre estes três momentos seja variável.

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Quadro 1 – Relações de consecutio temporum (WEINREICH, 1968, p. 46-47).

Para Reichenbach (1947), tais regras se resumem ao princípio de


permanência do ponto de referência: enquanto as situações referidas nas
orações constituintes do período podem ocupar diferentes momentos, o
momento de referência de todas deve ser o mesmo, em todo o período. Tome-
se o excerto:
(5) “A imprensa repercutiu versões que acabaram se tornando mitos, (que
são) hoje facilmente derrubáveis à luz dos acontecimentos.” (col. 1 lin. 8-
11)

A frase (5) é composta por três orações. Na primeira oração, a situação


S1 é a repercussão de versões pela imprensa, que é simultânea R1, e ambas
são anteriores ao momento da fala. Na segunda oração, a situação S2, acabaram
se tornando mitos, é simultânea ao momento de referência R2, e ambos são
anteriores ao momento da fala. E, na terceira oração, a situação S3, são
facilmente derrubáveis, é simultânea ao momento de referência e ao momento

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Tempo na frase e tempo no texto:...

de fala. O momento de referência para todas as situações da oração é o mesmo.


Por essa razão é que Reichenbach considera tal período regido pelo “princípio
de permanência do ponto de referência”.
Quando uma determinação temporal é adicionada, como agora, ontem,
ou 1o de abril, ela se refere não à situação, mas ao momento de referência da
oração. Portanto, em mitos são hoje facilmente derrubáveis, o advérbio
refere-se somente à situação, porque o momento da situação e o momento da
referência são coincidentes. Mas em antes da noite de sexta-feira, os EUA
não haviam encontrado nenhuma prova de armas químicas, antes da noite
sexta-feira é o momento de referência, e a situação do não-encontro de armas
pode ter ocorrido em um momento qualquer anterior à noite de sexta-feira.
Neste caso, Reichenbach fala do uso posicional do ponto de referência. O
momento de referência é apenas suporte da posição temporal. E quando dois
momentos temporais são comparados por palavras como quando, antes,
depois, as comparações se referem ao momento de referência, e não ao
momento da situação. Neste caso, a regra de permanência do ponto de
referência é substituída pelo uso posicional do ponto de referência, sendo
possível, portanto, que uma língua se oriente por mais de um princípio.8

3 TEMPO VERBAL, TEMPOS VERBAIS: A TEORIA DE GUILHERME


ROJO E ALEXANDRE VEIGA

Rojo e Veiga (1999) elaboraram uma teoria de relações temporais que


integra fenômenos deixados de lado por outras teorias. A primeira consideração
é que o tempo lingüístico é bidimensional e, portanto, pode ser anterior, simultâneo
ou posterior a outro. Essas relações temporais podem ser expressas por vetores
(V). Assim, por convenção, –V simboliza anterioridade; oV simboliza
simultaneidade; e +V, posterioridade. Convencione-se também que o ponto central

8
Reichenbach (1947) salienta que há línguas que se orientam mais por um princípio do que por outro. Ele
exemplifica com o inglês e o alemão; o inglês tende a requisitar mais o princípio do uso posicional do ponto de
referência, ao passo que o alemão tende a requisitar mais o princípio de permanência do ponto de referência.
As línguas podem ser regidas ora por um princípio, ora por outro, mas nunca pelo dois princípios ao mesmo
tempo (na mesma situação).

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das relações temporais é a origem (simbolizada por O), e as relações temporais


possíveis são O–V, OoV e O+V, para anterioridade, simultaneidade e posterioridade
de uma situação em relação a um ponto de origem. Rojo e Veiga mantêm a
convenção de representar o anterior à esquerda e o posterior à direita. As relações
temporais podem ser esquematizadas como no quadro que segue:

Figura 2 – Esquema de representação temporal (adaptado do gráfico 44.2 de


ROJO e VEIGA, 1999, p. 2877).

As relações temporais esquematizadas pelos vetores correspondem, por


exemplo, a:

(6) “Após uma dura batalha em Karbala, a 3ª Divisão de Infantaria dos EUA
penetrou na zona vermelha no dia 1º de abril, sem enfrentar maior
resistência.” (c.2 l. 8-11)
(7) “O governo iraquiano dispõe de armas de destruição em massa (químicas
e biológicas) e, por isso, representa uma ameaça aos EUA e ao mundo.” (c.
3 l. 4)
(8) “Soldados lançarão mão de armas de destruição em massa.” (c. 2, l. 4-
6)

Em (6), a relação temporal é de anterioridade à origem, simbolizada


pelo vetor O–V. Em (7), a relação temporal da situação é de simultaneidade à
origem, cuja representação é OoV. E, em (8), a situação tem uma relação
temporal de posterioridade à origem, cuja fórmula é O + V. Os advérbios
presentes em (6) convergem com os valores temporais das formas verbais em
uso. Porém, seu significado é próprio e independente.
Rojo e Veiga ressaltam que, a princípio, as “fórmulas” para
representação das relações temporais podem parecer complicadas, mas na
realidade são bem simples; devem ser lidas da esquerda para a direita,
Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 397
Tempo na frase e tempo no texto:...

respeitando-se as convenções. Uma fórmula como O–V se refere a uma situação


que é anterior (–V) à origem. Já uma fórmula tal como (O–V)+V refere-se a
uma situação que é posterior (+V) a outra situação, que por sua vez é anterior
(–V) à origem.
Assim, considerando um ponto de origem, as relações temporais
estabelecidas a partir desse ponto são apenas três: anterioridade, simultaneidade
e posterioridade. A existência de outras relações temporais mais complexas
não se deve ao aumento das relações temporais, mas sim ao encadeamento das
possibilidades iniciais, que é, teoricamente, ilimitado. Isso significa que um
ponto qualquer, orientado em relação à origem, pode ser convertido em
referência, sobre o qual se ancora uma situação, que será diretamente orientada
em relação a essa referência, e indiretamente orientada em relação à origem.
A possibilidade de encadeamento é ilustrada pelo quadro a seguir:

Figura 3 – Esquema de representação de estruturas temporais complexas


(adaptado do gráfico 44.3 de ROJO e VEIGA, 1999, p. 2877).

Tome-se a origem O. O ponto A, que é anterior à origem O, torna-se o


ponto de referência ao qual outras situações podem ser anteriores, como A’,
simultâneas, como S’, ou posteriores, como P’, resultando formulações vetoriais
O–V, OoV, e O+V, respectivamente. O ponto A’’ está orientado em relação ao
ponto A, que por sua vez está orientado em relação à origem O. A formulação
vetorial para cada uma das situações é (O-V)-V, (O-V)oV e (O-V)+V, e assim
sucessivamente, para A’’’, etc.
(9) “O mito de que Bagdá seria uma nova Stalingrado começou a ruir um
dia depois da chegada da 3ª Divisão de Infantaria do exército americano à
capital.” (c. l.)

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No esquema vetorial de Rojo e Veiga, seria é uma situação posterior ao


ponto de referência O, a situação da enunciação, assim como começou a ruir.
Porém, seria é uma situação posterior a começou a ruir. Começou a ruir
torna-se o ponto de referência para seria. Relativamente à origem, seria é
indiretamente anterior, e a começou a ruir, seria é diretamente posterior. A
representação vetorial da estrutura temporal da frase é a seguinte:

(10) “O mito de que Bagdá seria (O-V)+V uma nova Stalingrado começou
a ruir O-V um dia depois da chegada da 3ª Divisão de Infantaria do exército
americano à capital.” (col. 1 lin. 22-25)

Levando-se em consideração o significado condicional, seria tem outra


estrutura temporal. ‘Bagdá ser Stalingrado’ é um mito que se dará em
determinadas condições. Se tais condições não se dão – já que o mito ruiu –
então Bagdá não será Stalingrado (‘negação da hipótese’ ou ‘negação implícita’,
nos termos de Bello (1979 [1809])). Temporalmente, as situações ‘começou
a ruir’ e ‘ser uma nova Stalingrado’ são concomitantes, e seria tem a seguinte
estrutura vetorial (O-V)oV.
De acordo com a proposta de Rojo e Veiga, o encadeamento de
referências temporais secundárias, e a sua orientação em relação à origem,
não têm, em princípio, um limite teórico. Mas, na prática, sim. No espanhol,
por exemplo, a relação temporal mais complexa é representada pela fórmula
(O–V)+V)–V, que corresponde, em português, a uma construção como teria
bombardeado. As possibilidades de relação temporal no espanhol, e em
português, são as que seguem:

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 399


Tempo na frase e tempo no texto:...

Quadro 2 – Relações temporais no português e no espanhol (adaptado de ROJO e VEIGA, 1999, p.2885).

O encadeamento dos vetores para a formação de toda a gama de tempos


verbais do espanhol, e de todas as línguas, pode ser melhor visualizado no
quadro que segue:

Quadro 3 – Encadeamento vetorial (adaptado do gráfico 44.2 de ROJO e


VEIGA, 1999, p. 2884).

O valor temporal das formas verbais como de (11) se manifesta de fato


na sua relação com a referência, e não em sua relação com a origem. Por
exemplo, tinha penetrado expressa uma situação anterior a uma referência
anterior à origem. Logo, se a referência é anterior, e se a situação é anterior à
referência, pode-se deduzir que a situação também é anterior à origem. O
mesmo ocorre com uma situação simultânea a uma referência anterior à origem,

400 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


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que necessariamente também é anterior à origem. Porém, quando se trata de


uma situação posterior a uma referência anterior à origem, a situação posterior
fica indeterminada quanto à origem.

Rojo e Veiga afirmam que em todos os três casos, anunciaram tem


valor temporal anterior à origem e estariam expressa posterioridade à
referência anterior à origem. Porém, a forma verbal por si só não é capaz de
definir se é uma situação anterior, simultânea ou posterior à origem. Os
advérbios marcam de modo mais explícito essa relação, mostrando a relação
entre estariam e o ponto de origem.

Figura 4 – Esquema de representação de estruturas temporais (adaptado do


gráfico 44.4 de ROJO e VEIGA, 1999, p. 2878).

Sem expressões adverbiais de tempo, a situação fica indeterminada, e


pode corresponder a qualquer uma das possibilidades assinaladas no esquema
anterior, sendo o seu valor determinado em função do contexto.
As formas verbais orientam as situações expressas em relação à origem,
ao ponto central de todas as relações. Rojo e Veiga ressaltam que é uma
localização no sentido lato, pois uma situação pode ser dita anterior, simultânea
ou posterior à origem. Uma orientação estabelecida por uma forma verbal
pode ser mais específica, com o uso de um advérbio, como em (12).

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 401


Tempo na frase e tempo no texto:...

As formas verbais expressam relação com base na referência e possuem


uma orientação concreta em relação à origem. Os advérbios, porém, expressam
simplesmente anterioridade, simultaneidade ou posterioridade a qualquer ponto.
Porém, tanto as formas verbais como os advérbios expressam relação temporal
de anterioridade, simultaneidade e posterioridade em relação a um dado ponto.
Rojo e Veiga denominam formas alocêntricas as que indicam essa relação entre
um ponto e a origem. As outras formas mostram relação temporal em referência
à origem. Dado que a origem não é nada além do ponto zero do sistema, todas as
relações expressas por advérbios ou formas verbais são relativas. O fator
fundamental para defini-las é a relação temporal primária.
A origem é um ponto dado a partir do qual se orientam temporalmente
as situações expressas pelas formas verbais. As orientações podem ser diretas,
como as relações de presente, passado e futuro, ou indiretas, quando entre a
situação e a origem se interpõe um outro ponto, cuja relação com a origem
pode ser direta ou indireta. A origem é o centro dêitico de todas as relações
temporais. A questão que se coloca é: onde se situa esse ponto central? Rojo e
Veiga citam autores como Bello (1979 [1809]) e Reichenbach (1947), que
tomam como centro da referência, respectivamente, o “acto da palabra” e o
“speech time”. Porém, a identificação do ponto zero como o momento de
realização verbal da fala nem sempre é aceitável. É o caso do jornal: o “agora”
do jornalista escrevendo o jornal não resulta no “agora” do leitor; existe um
lapso de tempo entre os dois momentos. Não se pode identificar o centro das
relações temporais no momento da enunciação. Rojo e Veiga propõem que a
origem seja estabelecida no “momento da comunicação”.
Assim, Rojo e Veiga concluem que a localização da origem, centro dêitico
das relações do sistema temporal, pode ser variável. A mais habitual e espontânea
parece ser o momento da fala, mas determinados fatores podem alterar esse ponto,
levando-o para bem distante do “agora”, tanto do emissor quanto do receptor.

402 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

4 COMPARANDO TEORIAS

As teorias de estruturação temporal propostas por Reichenbach (1947)


e por Rojo e Veiga (1999) apresentam pontos divergentes. Para a teoria de
Reichenbach, apenas o estabelecimento do momento da fala não é suficiente
para estruturar toda a gama temporal das línguas. É necessário também
estabelecer outros dois momentos: o momento da referência e o momento da
situação, ainda que estes sejam coincidentes em alguns tempos verbais. As
possibilidades de arranjo entre estes três momentos resultam na diversidade
de estruturas temporais que as línguas manifestam. Já a teoria de Rojo e Veiga
(1999) toma um dado ponto como origem para uma orientação vetorial dos
tempos verbais. Normalmente, a origem coincide com o momento da fala, mas
nem sempre. Por isso, Rojo e Veiga postulam como ponto de origem do seu
sistema vetorial o momento da comunicação. A representação das variadas
estruturas temporais das línguas se dá pelo encadeamento de vetores.
O quadro 8 resume as principais propriedades de cada teoria, no que
se refere à orientação, representação e arranjo:

Quadro 4 – Quadro comparativo das teorias de Reichenbach (1947)


e de Rojo e Veiga (1999).

Quanto ao eixo de orientação, as teorias de Reichenbach e de Rojo e Veiga


diferem; uma assume a orientação anafórica enquanto a outra assume a orientação
dêitica. A noção de dêixis e anáfora, inicialmente proposta no plano nominal, quando

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 403


Tempo na frase e tempo no texto:...

passada para o plano verbal costuma ser ambígua. Tempos dêiticos tomam como
referência o momento da enunciação. E tempos anafóricos ancoram a referência
em outro tempo que não o momento da enunciação (cf. COMRIE, 1985).
De acordo com a proposta de Reichenbach, os tempos verbais têm
natureza essencialmente anafórica, uma vez que são estruturados a partir de
um momento de referência, ainda que coincidente com o momento da fala ou
o momento da situação.
Já para Rojo e Veiga, os tempos verbais são dêiticos, já que a orientação
de uma dada situação está relacionada à origem, que é coincidente com o
momento da comunicação. “Considerar que es una categoría deíctica
significa que establece un sistema centrado en una referência interna
que, en la interpretación más habitual, se identifica con el momento de la
enunciación” (ROJO e VEIGA, 1999, p. 2879). Tanto as formas verbais como
os advérbios expressam relação temporal de anterioridade, simultaneidade e
posterioridade em relação a um dado ponto. São ditas formas alocêntricas as
que indicam essa relação entre um dado ponto qualquer à origem do sistema.
As outras formas mostram relação temporal em referência à origem. Dado que
a origem não é nada além do ponto zero do sistema, todas as relações expressas
por advérbios ou formas verbais são relativas. O fator fundamental para defini-
las é a relação temporal primária.
A concepção do eixo de orientação das teorias de estruturação
temporal mostra diferenças quando a análise da estrutura temporal é estendida
ao nível do discurso.

5 RELAÇÕES TEMPORAIS NO TEXTO

A fala não é constituída por frases isoladas e independentes. O


encadeamento frasal resulta no texto. Como as relações temporais existentes
nas frases se encadeiam entre si para formar o texto? A resposta não está
explicitada em nenhuma das teorias. Mas podemos tentar elucidá-la a partir
dos seus pressupostos, especialmente considerando a noção de eixo de
orientação e as possibilidades de arranjo temporal. Tome-se o seguinte excerto:

404 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

(13) “Na segunda-feira, as tropas encontraram 14 tonéis suspeitos de conter


gases nervoso e mostarda. Mas testes revelaram que o produto não passava
de pesticida para lavoura.” (col. 4, lin. 8-12)

A análise considerando as situações expressas na frase em separado


leva às seguintes estruturações temporais:

Porém, analisando as situações em conjunto, o resultado é diferente:

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 405


Tempo na frase e tempo no texto:...

As situações expressas no excerto são semanticamente encadeadas do


ponto de vista temporal. Para realizar o teste é preciso encontrar o produto,
não ao contrário. Logo, no discurso, as seqüências frasais dão origem a uma
estrutura de representação relativamente complexa. De acordo com a teoria
de Rojo e Veiga, as possibilidades ilimitadas de arranjos vetoriais refletem tal
complexidade e podem reatualizar as nomenclaturas não fixadas apenas na
morfologia. Já na teoria de Reichenbach, as seqüências são coordenadas,
sempre respeitando o limite das nove possibilidades de combinações temporais.
Na teoria de Reichenbach, a referência das duas orações é segunda-
feira. A posição do evento em relação à referência é que nos faz ver que ‘revelar’
é posterior à ‘encontrar’, S2 é posterior à S1, conforme (3) de (15).
Como a teoria de Rojo e Veiga é baseada no discurso, possibilita novas
combinações. Isso significa que nem todo encontraram é só passado (O–V),
neste caso, é passado mais-que-perfeito. O valor temporal de encontraram,
considerando o contexto discursivo no qual está inserido, é muito mais do que
passado anterior. Observe-se:

(16) “Primeiro pretexto para a guerra, as supostas armas de destruição em


massa até agora não passam de um mito. Até a noite de sexta-feira, os EUA
não haviam encontrado nenhuma prova da existência de armas químicas ou
biológicas no Iraque. No máximo, indícios pouco críveis – máscaras antigás
e macacões contra armas químicas foram encontrados entre os equipamentos
dos militares mortos. Na segunda-feira, as tropas encontraram 14 tonéis
suspeitos de conter gases nervoso e mostarda. Mas testes revelaram que o
produto não passava de pesticida para lavoura.” (col. 4, lin. 1-12)

O excerto contém cinco situações – armas químicas não passam de um


mito, não haviam encontrado armas químicas; indícios pouco críveis foram
encontrados, as tropas encontraram tonéis, e testes revelaram – todas
estabelecidas relativamente ao momento da fala, na teoria de Reichenbach, ou
origem do sistema, na teoria de Rojo e Veiga, que é domingo, dia da publicação
do jornal. A estrutura das relações temporais do excerto, conforme a teoria de
Reichenbach, é a seguinte:

406 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

A primeira oração refere-se a uma situação que é simultânea ao momento


da fala e ao momento da referência (até agora as armas químicas não passam
de um mito); as segunda e terceira orações referem-se a situações que são
simultâneas à referência, mas anteriores ao momento da fala (até a noite de
sexta-feira, os EUA não haviam encontrado e indícios pouco críveis foram
encontrados); e as quarta e quinta orações referem-se a situações que são
simultâneas à referência e anteriores ao momento da fala (tropas encontraram
tonéis e testes revelaram)9.
Analisando individualmente os pares de situações, S 2,S 3 e S 4,S 5 são
caracterizados pela permanência do ponto de referência. Já o conjunto das
relações temporais do excerto é caracterizado pelo uso posicional do ponto
de referência.
Considerando a teoria de Rojo e Veiga, as relações temporais do excerto
são as seguintes:

9
Recorde-se que as situações não são simultâneas, conforme apontado anteriormente. O modelo de Reichenbach
não permite que se codifique com precisão a relação temporal estabelecida entre as duas orações.

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 407


Tempo na frase e tempo no texto:...

A primeira oração refere-se a uma situação simultânea à origem (até


agora, armas químicas não passam de um mito). A segunda oração refere-
se a uma situação que é anterior à origem (até a noite de sexta-feira não
haviam encontrado). A terceira oração refere-se a uma situação que é
simultânea à situação que é anterior à origem (indícios pouco críveis foram
encontrados). A quarta oração refere-se a uma situação que é anterior à
situação que é simultânea à situação que é anterior à origem (na segunda-
feira, as tropas encontraram tonéis). E, finalmente, a quinta oração é
posterior à situação que é anterior à situação que é simultânea à situação que
é anterior à origem (testes revelaram) (note-se que a quarta oração é mais
anterior que a quinta oração).
Assim, encontraram, no excerto, tem o seguinte valor temporal (O-
V)oO)-V). A recursividade da teoria de Rojo e Veiga garante que se possa
estabelecer o valor temporal para uma situação no discurso, sem atrelá-la
necessariamente ao seu valor temporal morfologicamente convencionado (no
caso do morfema –ra, seu valor modo-temporal é de pretérito perfeito ou de
pretérito mais-que-perfeito, que são homógrafos no português).
A estruturação temporal do discurso com base na teoria de Rojo e Veiga
permite que se visualize melhor as relações temporais estabelecidas, e isto é
devido ao fato de sua teoria tomar por base a origem do sistema, e não o
momento da enunciação, como faz Reichenbach. As relações são estabelecidas
a partir de uma origem, que nem sempre coincide com o momento da fala.
Considerando que o tempo verbal está vinculado ao tempo cronológico,
a noção de tempo absoluto, como propõe Comrie (1985), é, na verdade, ilusória,
de acordo com a teoria da Rojo e Veiga. O tempo verbal sempre será relativo,
uma vez que está atrelado ao tempo cronológico. Tome-se o texto que subsidia
a análise – “Guerra no Iraque derruba mitos”. O texto foi publicado no jornal
Diário Catarinense do dia 13 de abril de 2003. O tempo verbal empregado no
texto é relativo ao tempo cronológico da data da publicação. As frases que

408 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

seguem ilustram a relatividade do tempo verbal:

(19) “A temida Guarda Republicana parece ter se transformado em um


exército fantasma.” (col. 1 lin. 42-43)
(20) “O governo iraquiano dispõe de armas de destruição em massa
(químicas e biológicas) e, por isso, representa uma ameaça aos EUA e ao
mundo.” (col. 3 lin. 4)
(21) Como Stalingrado, a capital iraquiana, Bagdá, será palco de uma
sangrenta batalha urbana. (col. 1 lin. 20-23)

A partir do momento da publicação do jornal, toda leitura terá que


reatualizar os valores temporais das situações. Para o excerto (19), existem as
seguintes possibilidades de reatualização:

(19a) O jornal de 13 de abril de 2003 informa que a temida Guarda


Republicana parece ter se transformado em um exército fantasma.
(19b) O jornal de 13 de abril de 2003 informou que a temida Guarda
Republicana parecia ter se transformado em um exército fantasma.
(19c) O jornal de 13 de abril de 2003 informava que a temida Guarda
Republicana parecia ter se transformado em um exército fantasma.

Nos casos de reatualização temporal, a relação temporal existente não se


altera, apenas as formas da sua expressão. A relação temporal de (19), de acordo
com Rojo e Veiga, é a de uma situação simultânea à outra, que é a origem. Com a
reatualização temporal, a situação, em a-b-c, continua sendo simultânea à outra
situação, porém, a origem do sistema desloca-se para o momento da reatualização.
As relações temporais estabelecidas continuam sendo as mesmas, apenas são
realizadas por formas morfológicas diferentes. A escolha das formas morfológicas
na reatualização não é aleatória: segue o princípio do consecutio temporum
(WEINREICH, 1968), já discutido na seção 2.

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 409


Tempo na frase e tempo no texto:...

A teoria de Reichenbach, que estrutura os tempos em função de três


pontos linearizados, torna as relações temporais visualmente mais explícitas.
Mas, a partir do momento em que o escopo de análise é maior do que a frase,
a teoria de Rojo e Veiga tem maior valor explanatório, dado que as possibilidades
de combinação são, teoricamente, ilimitadas. A teoria de Reichenbach se limita
ao encadeamento das 9 possibilidades de arranjo dos pontos.

6 A REFERÊNCIA

Um dos pontos centrais que distingue as teorias de Reichenbach e de


Rojo e Veiga é quanto ao estabelecimento de um tempo de referência.
Rojo e Veiga, apesar de não fixarem um ponto de referência, discutem a
sua importância indiretamente, atribuindo aos advérbios o papel de melhor
explicitar as relações entre os verbos e a origem (cf. seção 3, exemplos 11 e
12). A importância da referência para a interpretação temporal é destacada
por Ilari (1997), pois é através da referência que se pode compreender certas
determinações temporais que a sentença sofre no co-texto, em particular, no
contexto narrativo. À falta de indicações mais específicas, dadas pelos adjuntos
de tempo, por exemplo, o co-texto anterior fixa geralmente o momento de
referência da oração seguinte.
A opção de não atrelar a orientação temporal a uma referência pode
estar relacionada à definição do estatuto da referência. Se considerarmos que
a referência faz parte da estrutura do tempo, é esperado que ela seja um dos
seus constituintes internos. Esta parece ser a concepção de Reichenbach: tempo
é uma articulação de três constituintes – momento da fala, momento da situação
e momento da referência.
Mas também podemos considerar a referência como uma categoria funcional
independente do tempo, assim como o aspecto e a modalidade. Coan (2003), por
exemplo, defende que a referência é uma categoria funcional independente.
A codificação de aspecto também necessita de uma referência,
especialmente o aspecto progressivo. O aspecto progressivo está relacionado
com a codificação de uma situação em andamento relativamente ao tempo de

410 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

referência (explícito ou implícito) em predicados dinâmicos: Maria estava


tomando banho (durante o jornal da noite).
A possibilidade de uma categoria de referência permite ganhos em
termos de economia descritiva. Ao invés de postular uma referência específica
para a codificação do aspecto e outra referência específica para a codificação
do tempo, é mais econômico postular uma categoria de referência que interage
com a categoria de tempo e de aspecto. A opção de não atrelar a referência ao
tempo permite supor que Rojo e Veiga considerem a referência como uma
categoria funcional independente.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foram apresentadas duas teorias formuladas para tentar explicar como o


tempo cronológico passa ao tempo gramatical nas línguas (REICHENBACH, 1947;
ROJO e VEIGA, 1999). A teoria de Reichenbach estabelece, a partir do momento
da fala, e outros dois momentos – o momento da referência e o momento da
situação – a gama temporal por combinações lógicas, ainda que estes momentos
sejam coincidentes em alguns tempos verbais. Já a teoria de Rojo e Veiga (1999)
toma um dado ponto como origem para uma orientação vetorial dos tempos
verbais. Normalmente, a origem coincide com o momento da fala, mas nem sempre.
Por isso, Rojo e Veiga postulam como ponto de origem do seu sistema vetorial o
momento da comunicação. A representação das variadas estruturas temporais
das línguas se dá pelo encadeamento de vetores.
No âmbito da frase, as duas teorias têm o mesmo poder explanatório.
Porém, no âmbito do texto, a teoria de Rojo e Veiga mostra-se mais adequada
para representar a complexidade das relações temporais. A diferença entre as
teorias resume-se à distinção entre dêixis e anáfora. De acordo com a proposta
de Reichenbach, os tempos verbais têm natureza essencialmente anafórica, uma
vez que são estruturados a partir de um momento de referência, ainda que
coincidente com o momento da fala ou o momento da situação. Já para Rojo e
Veiga, os tempos verbais são dêiticos, já que a orientação de uma dada situação
está relacionada à origem, que é coincidente com o momento da comunicação.

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 411


Tempo na frase e tempo no texto:...

Apesar de a teoria de Reichenbach tornar as relações temporais


visualmente explícitas, quando se trata de uma análise das relações temporais
no texto, a teoria de Rojo e Veiga tem maior valor explanatório, dado que as
possibilidades de combinação são, teoricamente, ilimitadas, desvinculando a
relação temporal das formas morfológicas características.

REFERÊNCIAS

BELLO, Andrés. Análisis ideológica de los tiempos de la conjugación castellana. In: ______.
Obra literaria. Caracas: Ayacucho, 1979 [1809]. p. 415-459.
COAN, Márluce. Anterioridade a um ponto de referência passado: pretérito (mais
que) perfeito. Dissertação (Mestrado em Lingüística) – Curso de Pós-Graduação em Lingüística,
Universidade Federal de Santa Catarina, 1997.
______. As categorias tempo, aspecto, modalidade e referência na significação
dos pretéritos mais-que-perfeito e perfeito: correlações entre função(ões)-forma(s)
em tempo real e aparente. Tese (Doutorado em Lingüística) – Curso de Pós-Graduação em
Lingüística, Universidade Federal de Santa Catarina, 2003.
COMRIE, Bernard. Tense. 4nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
GIBBON, Adriana. A expressão do futuro na língua falada em Florianópolis: variação
e gramaticalização. Dissertação (Mestrado em Lingüística) – Curso de Pós-Graduação em
Lingüística, Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.
ILARI, Rodolfo. A expressão do tempo em português: expressões da duração e da
reiteração, os adjuntos que focalizam eventos, momentos estruturais na descrição dos tempos.
São Paulo: Contexto, 1997.
REICHENBACH, Hans. The tenses of verbs. In: ______. (ed.). Elements of symbolic
logic. New York: The MacMillan Company, 1947. p. 287-298.
ROJO, Guilhermo; VEIGA, Alejandro. El tiempo verbal, los tiempos verbales. In: Bosque, I.;
Demonte, V. (Orgs.). Gramática descriptiva de la lengua española: las construcciones
sintácticas fundamentales, relaciones temporales, aspectuales y modales. Madrid: Espasa Calpe,
1999. v. 2, p. 2867-2935.
WEINREICH, Harald. Estructura y función de los tiempos en el lenguage. Tradução
de Federico Latorre. Madrid: Gredos, 1968.

412 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005


Freitag

Recebido em 14/10/04. Aprovado em 16/05/05.

Title: Tense at the sentence level and at the textual level: the theories of Reichenbach and Rojo &Veiga
Author: Raquel Meister Ko. Freitag
Abstract: The present paper makes a comparative study of the theories of Reichenbach (1947) and
Rojo & Veiga (1999) concerning the linguistic structuring of tense relations at the level of the sentence
and of discourse. First, these theories are compared in terms of orientation, representation and
arrangement. Next, the propositions for tense structuring beyond the limits of the sentence are
analyzed, that is, how these theories structure tense in the text.
Keywords: tense; comparative study; tense structure.

Tìtre: Le temps dans la phrase et le temps dans le texte: les théories de Reichenbach et de Rojo et Veiga
Auteur: Raquel Meister Ko. Freitag
Résumé: Cet article présente une étude comparative entre les théories de Reichenbach (1947) et de
Rojo e Veiga (1999) pour la structuration linguistique des rapports temporels dans le sein de la
phrase et du discours. Tout d’abord, on fait la comparaison entre les théories en ce qui concerne
l’orientation, la représentation et la disposition. Ensuite, on analyse les propositions de structuration
temporelle établies au-delà des limites de la phrase, c’est-à-dire, comment les théories structurent le
temps dans le texte.
Mots-clés: temps linguistique; étude comparative; structure temporelle.

Título: Tiempo en la frase y tiempo en el texto: las teorías de Reichenbach y de Rojo y Veiga
Autor: Raquel Meister Ko. Freitag
Resumen: Este artículo presenta un estudio comparativo de las teorías de Reichenbach (1947) y de
Rojo y Veiga (1999) para la estructuración lingüística de las relaciones temporales en el ámbito de la
frase y del discurso. Primeramente compara las teorías en lo que respecta a la orientación,
representación y arreglo. A continuación analiza las propuestas de estructuración temporal que
ultrapasan los límites de la frase, o sea, cómo las teorías estructuran el tiempo en el texto.
Palabras-clave: tiempo lingüístico; estudio comparativo; estructura temporal.

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-413, jan./jun. 2005 413


Tempo na frase e tempo no texto:...

414 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 389-414, jan./jun. 2005


RESENHA

BALTAR, Marcos. Competência discursiva e gêneros textuais: uma


experiência com o jornal de sala de aula. Caxias do Sul, RS: EDUCS, 2004. 173 p.

Resenhado por Adair Bonini (Universidade do Sul de Santa Catarina)

Este livro, adaptação de uma tese de doutorado defendida em 2003, possibilita


interessantes reflexões aos envolvidos com o ensino de linguagem, em especial aos
interessados em produção textual no ensino médio. Trata-se do relato, e conseqüente
análise, de uma experiência de ensino em dois colégios de Porto Alegre.
Ao recorrer às noções de competência discursiva, gênero textual e
projeto didático, Baltar constrói uma experiência inovadora e diametralmente
oposta à tradicional concepção de ensino de produção de texto,1 motivo pelo
o qual revela-se de grande utilidade aos professores da educação básica (ensino
fundamental e médio). Possibilita, a esses profissionais da educação, uma
paisagem bastante nítida das dificuldades e benefícios da implementação de
formas inovadoras de ensino. Além disso, serve como um pano de fundo a
partir do qual o professor poderá pensar a sua prática e inovações dentro do
mesmo tipo de experiência.
Outro público leitor que poderá se beneficiar desse material são os
pesquisadores do ensino de linguagem e da educação de modo geral, bem como
os analistas do texto e do discurso. A experiência de ensino relatada traz retorno
para a pesquisa em didática, de modo geral, mostrando-se relevante especialmente
aos estudiosos da pedagogia de projetos. Além disso, ao discutir as peculiaridades
da emergência de um gênero textual no contexto escolar (o jornal de sala de
aula), produz resultados relevantes para os estudos de texto e discurso.

1
Entende-se aqui por orientação tradicional do ensino de redação aquela que dá ênfase a aspectos formais da
linguagem e emprega exercícios de treino e fixação, tendo por base uma postura prescritivista decorrente de
uma visão positivista da ciência e do saber.

Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 415-419, jan./jun. 2005 415


Resenha

O livro está organizado em duas partes. A primeira, contendo três


capítulos, é O percurso teórico. O primeiro desses capítulos discute a noção
de competência, concentrando-se principalmente nas proposições de Chomsky
(1957), Hymes (1971) e Perrenoud (1999). É a partir da revisão histórica do
desenvolvimento dessa noção que Baltar postula o seu conceito de competência
discursiva. O segundo capítulo, sobre os gêneros textuais, traz uma exposição
sobre classificações empreendidas no estudo desse fenômeno e a exposição
da teoria de base do trabalho, a abordagem interacionista sócio-discursiva
proposta por Jean Paul Bronckart (1985, 1999) e desenvolvida no Brasil,
entre outros, por Anna Rachel Machado (1998, 2005). No terceiro capítulo, o
autor faz uma síntese das teorias, noções e conceitos considerados no estudo.
Procura, assim, contextualizar o leitor quanto o modo como a experiência de
ensino foi construída e, conjuntamente, apresentar os motivos dessa empreitada.
A segunda parte do livro, com o título O jornal de sala de aula, é onde o autor
expõe de fato a implementação e os resultados de sua pesquisa. No primeiro
dos dois capítulos dessa parte, há o relado histórico de como a experiência de
ensino foi realizada em duas escolas em momentos distintos. Nesse capítulo
também o autor procura contextualizar o leitor quanto à função do jornal na
escola, bem como quanto às experiências que têm sido desenvolvidas nesse
sentido. No último capítulo, é realizado o relato do transcorrer da experiência
bem como dos resultados alcançados.
Cabe acrescentar aqui também outros aspectos favoráveis em relação à
organização do livro. O primeiro deles é a excelente e atual bibliografia
considerada no estudo. O segundo é a incorporação, como anexo, de alguns
dos jornais produzidos pelos alunos. Isso não só confere credibilidade e clareza
ao estudo, como torna a leitura mais agradável. O terceiro aspecto relevante
são as introduções de duas importantes pesquisadoras desse campo de estudos:
Anna Rachel Machado (texto da orelha) e Angela Kleiman (prefácio).
Há poucos pontos no trabalho sobre os quais se possa levantar algum
questionamento. Um deles diz respeito ao conceito de competência discursiva,
que poderia ter sido explorado em maior profundidade seja em relação ao
trabalho de Perrenoud (op. cit.) seja em relação ao de Bronckart (op. cit.).
Cabe lembrar ainda que a noção de competência é controversa, pois a sua
interpretação é variável de acordo com o observador. Não é difícil determinar
a competência, quando se trata de um ensino profissionalizante, uma vez que

416 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 415-419, jan./jun. 2005


LemD

ela é, de certo modo, estabelecida no próprio meio. Em termos da educação


básica, contudo, essa noção pode variar bastante, pois é estabelecida em função
das demandas futuras a que o aluno estará submetido. A determinação dessa
demanda pode divergir consideravelmente entre os vários teóricos que venham
a discutir o tema. Sendo controverso, seria aconselhável que o autor tivesse
argumentado mais em favor de sua proposta.
Outro aspecto que, de certo modo, fragiliza o trabalho é o recurso que
Baltar faz, no capítulo 2, ao artigo de Petitjean (1989). A classificação de
gênero que esse autor propõe é pouco clara e não traz grande contribuição
para as discussões teóricas postas no livro. Dado que a maioria dos estudiosos
(incluindo Bronckart) defendem a idéia de que as tipologias de gênero são
artificiais e infrutíferas, o trabalho ganharia mais caso o autor tivesse
aproveitado esse espaço para aprofundar as relações do termo competência
discursiva com o aporte teórico do interacionismo sócio-discursivo.
Quanto aos aspectos positivos, vários podem ser mencionados. Entre as
qualidades da experiência realizada, é possível mencionar o fato de o
pesquisador/educador ter conseguido implementar práticas que fogem bastante
à artificialidade da produção escolar tradicional. Isso decorre, principalmente,
de Baltar ter recorrido a (ou construído) um gênero que é ao mesmo tempo
“suporte”, o que permite a imediata circulação social dos textos produzidos.
É importante notar adicionalmente que o jornal produzido passa, de
certa maneira, durante a experiência, de um caráter “escolarizado” para
“escolar” 2. Ao desenvolver-se desse modo, a experiência revela aspectos
interessantes sobre o que constitui um gênero, e isso é bem explorado pelo
autor, ao mostrar que as condições de produção escolares influíram
sobremaneira na construção dos textos, levando esse jornal a se caracterizar,
de fato, como “jornal de sala de aula”.
Dois aspectos podem ser vistos como bastante relevantes no que tange à
eficiência das práticas construídas em sala de aula. O primeiro deles é o próprio
surgimento de gêneros jornalísticos escolares. Nas palavras de Baltar (p. 138):

2
Rojo (2000) postula que os gêneros ocorrem sob duas formas na escola: como “escolares”, quando servem como
instrumento de comunicação na instituição escolar, e como “escolarizados”, quando são tomados como objetos
de ensino.

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Resenha

[...] a pesquisa estava apontando para o surgimento de gêneros textuais


novos, que poderiam ser denominados de gêneros textuais jornalísticos
escolares. Assim, a entrevista feita por Ricardo para a Gazeta poderia ser
classificada como petencente ao gênero entrevista escolar; a reportagem
das alunas do Testemunha Ocular poderia ser classificada como
pertencente ao gênero reportagem escolar. A notícia escrita por Igor seria
classificada como notícia escolar.

O segundo aspecto importante neste sentido é o fato de os alunos terem


se envolvido efetivamente na atividade, sendo que muitos deles conseguiram
chegar a produções autênticas. Esse envolvimento é, provavelmente, o fator
que garantiu a emergência dos gêneros como escolares e talvez seja o que
melhor revela a eficiência do trabalho com um projeto desse porte. Tais alunos
conseguiam visualizar um interlocutor e se preocupavam com isso, conforme
se pode notar nesse trecho do livro (p. 139):

Um ponto interessante do trabalho [...] foi a crítica voraz de alguns


alunos, que se sentiram prejudicados pelo fato de a impressão de sua
seção ter apresentado problemas de digitação. Os alunos, chamando a
atenção para os problemas de textualização: ortografia, acentuação e
até mesmo sintaxe, demonstravam seu interesse em preservar-se da pecha
de escrever errado.

Em termos de uma reflexão sobre o ensino de produção textual, o relato


dessa experiência leva a pensar pelo menos dois temas bastante relevantes.
Primeiramente, é possível uma reflexão sobre quais são os gêneros mais e
menos produtivos em um jornal de sala de aula. A entrevista e a reportagem,
por exemplo, revelaram-se mais produtivos em relação à crônica que, conforme
o autor (p. 131), foi pouco atrativa aos alunos. Outra reflexão importante é a
de qual papel o professor pode assumir na condução da experiência, pois ele
precisa decidir quais aspectos ficarão totalmente a cargo dos alunos e quais
serão dados como incumbência. Em face de seus objetivos de ensino, precisa,
portanto, solicitar que algumas seções específicas sejam incluídas no jornal e
que alguns temas sejam considerados.

418 Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubarão, v. 5, n. 2, p. 415-419, jan./jun. 2005


LemD

De modo geral, pode-se dizer que se trata de leitura não só prazerosa


como de grande importância aos interessados em melhorar as práticas e,
portanto, a qualidade do ensino no país.

REFERÊNCIAS

BRONCKART, J. P. Le fonctionnement des discours: un modèle psychologique et une


méthode d’analyse. Lausenne: Delachaux & Niestlé, 1985.
______. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-
discursivo. Tradução de Anna Rachel Machado. São Paulo: Educ, 1999.
CHOMSKY, N. Syntactic structures. The Hague: Mouton, 1957.
HYMES, D. H. On communicative competence. In: PRIDE, J. B.; HOLMES, J. (Eds.).
Sociolinguistics. Harmondsworth: Penguin Books, 1971.
MACHADO, A. R. O diário de leituras: a introdução de um novo instrumento na
escola. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
______. A perspectiva interacionista sócio-discursiva de Bronckart. In: MEURER, J. L.;
BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo:
Parábola, 2005.
PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed,
1999.
PETITJEAN, A. Les tipologies textuelles. Pratiques, n. 62, p. 86-125, 1989.
ROJO, R. Interação em sala de aula e gêneros escolares do discurso: um enfoque enunciativo.
In: CONGRESSO NACIONAL DA ABRALIN, 2, Florianópolis, 1999. Anais... Florianópolis:
ABRALIN; UFSC, 2000.

Recebido em 19/05/05. Aprovado em 28/06/05.

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