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RECENSÃO CRÍTICA DE UM ARTIGO

“O Respeito Caloroso na Relação de Ajuda em Enfermagem”


Paula Matos Vieira

INTRODUÇÃO
O artigo “O Respeito Caloroso na Relação de Ajuda em Enfermagem”, de Mª Alzira
Nunes, Mª Anabela Ferreira Santos, Mª Isabel Costa e Silva e Mª José Garoupa A.
Bicudo, Mestres em Ciências de Enfermagem, retrata o respeito, nas diferentes
perspectivas de distintos autores, como um valor incondicional e inerente ao ser
humano.
O título é ilustrativo do real conteúdo do texto, inspirado no discurso que as autoras
fazem sobre o respeito na relação de ajuda. A sua leitura leva-nos a reflectir, enquanto
prestadores de cuidados.
Numa primeira abordagem, as autoras, descrevem o que é respeito e sua evolução,
enquadrando-o na dimensão da pessoa e relação de ajuda, e finalizam com as formas de
manifestação e as condições que dificultam o seu desenvolvimento.
É meu objectivo evidenciar e analisar criticamente, nas páginas seguintes, os conceitos
que considero mais relevantes na discussão do respeito caloroso na relação de ajuda em
enfermagem.

A EVOLUÇÃO DE CONCEITOS
Nos anos 60 deu-se em Portugal, uma evolução impetuosa da Enfermagem com a
reforma do seu ensino, afastando-a decididamente do modelo biomédico. No espaço de
uma geração houve uma grande evolução ao nível dos conteúdos formativos, da
filosofia do cuidar e consequentemente da identidade profissional.
A emergência dos modelos holísticos, a evolução do conceito de saúde para um
projecto individual de responsabilidades partilhadas com o cliente, o conceito de ajuda,
orientado pelo e para o cliente, vieram evidenciar a complexidade dos cuidados e
desenvolver novas identidades da essência do processo do cuidar.

Definição de Conceitos
Paula Cristina De Almeida Matos Vieira
Recensão crítica

“O respeito caloroso na relação de ajuda em enfermagem”

Através das Palavras-chave, como Respeito, Pessoa e Relação de Ajuda, retiradas do


texto, penso ser pertinente a conceitualização dessas mesmas palavras, que passo de
imediato a referir.

 Respeito
GAUT & LEININGER (1991) identificam o “respeito como uma condição necessária
na relação de cuidados”.
LAZURE (1994:51) “Respeitar um ser humano é acreditar profundamente que ele
próprio é único, e que devido a essa unicidade só ele possui todo o potencial específico
para aprender a viver da forma que lhe é mais satisfatória”.
Segundo ROGERS (1971), o respeito é gratuito, não tendo o outro de fazer nada para o
receber, sendo merecedor do mesmo, pelo simples facto de ser pessoa única.

 Pessoa
A “pessoa” de HENDERSON (1978) é um ser biológico, psicológico e social que tende
para a independência na satisfação das suas catorze necessidades fundamentais.
HENDERSON concebe pessoa como um indivíduo que requer assistência para alcançar
a saúde e a independência ou a morte pacífica. A mente e o corpo são inseparáveis.
Para PEPLAU (1990), pessoa é “um sistema composto de características e de
necessidades bioquímicas, físicas e psicológicas.”

 Relação de Ajuda
LAZURE (1994:13) salienta que para “se poder ajudar de forma adequada, a
enfermeira deve, em primeiro lugar, saber e acreditar que o cliente, independentemente
da natureza do seu problema de saúde, é o único detentor dos recursos básicos para o
resolver.”
BRAMMER (1973) diz-nos que relação de ajuda é “uma relação na qual o que ajuda
fornece ao cliente certas condições de que ele necessita para satisfazer as suas
necessidades básicas.”

Análise do texto

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“O respeito caloroso na relação de ajuda em enfermagem”

Optei por fazer uma análise por capítulo por pensar conseguir desta forma, descrever
melhor as minhas ideias.

 Respeito, uma dimensão da pessoa


Concordo com as autoras, pois considero que o respeito pelo outro só é possível se eu
me respeitar, aceitar e me reconhecer como única, pois só assim poderei aceitar com
facilidade e naturalidade que o outro seja diferente. Segundo HESBEEN (2000:111)
“Respeitar a diferença é fazer com que a pessoa seja um ser singular”.
Entendo ainda que só o enfermeiro que interiorizou valores como o respeito e a pessoa,
poderá compreender, cuidar e estar atento ao outro.
GAUT & LEININGER (1991) dizem-nos que se “os cuidados são um acto humano
intencional, então, o respeito pelas pessoas funcionará como o princípio subjacente a
todas as trocas de cuidados”.

 O respeito na relação de ajuda


O Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros define como uma
característica do cuidado de enfermagem a Relação de Ajuda estabelecida com o
cliente, por isso a abordagem das autoras está correcta e em concordância com um dos
muitos princípios pelos quais rejo a minha prestação de cuidados ao cliente.
Pois, para mim, a relação de ajuda deve ser entendida como uma troca pessoal entre
dois seres humanos, sendo também uma relação igualitária, na qual as duas pessoas
devem respeitar-se mutuamente na qualidade de pessoa única. Assim, penso que o
enfermeiro deve compreender e aceitar o outro tal como ele é, sem tentar modificá-lo,
mas tentando fornecer-lhe as pistas necessárias para a resolução dos seus problemas.
Embora essa ajuda só seja eficaz se o enfermeiro compreender perfeitamente qual o
problema do outro.

 Modos de manifestar o respeito


As manifestações de atitudes / comportamentos de respeito descritas pelas autoras, que
citam EGAN, são corroboradas por QUEIRÓS [s.d.]. Assim, no meu entender, é
necessário que o enfermeiro seja verdadeiro, honesto, leal e seguro, pois e nesta vertente
e citando LAZURE (1994:51) “a enfermeira que respeita o cliente acredita nele,
escuta-o atentamente, abstém-se de o julgar e tenta compreender o seu ponto de vista.”

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 Condições que dificultam o desenvolvimento do respeito


No meu entender, penso que poderão surgir algumas dificuldades no desenvolvimento
do respeito pela pessoa., pelo que se requer o aprofundar de aptidões e faculdades dos
enfermeiros para ultrapassarem essas dificuldades. A Relação de Ajuda permite ajudar
a pessoa a conhecer-se e/ou a reconhecer os processos internos do seu organismo de
forma a mobilizar os seus recursos e a desenvolver o seu potencial, descobrindo
diferentes modos de perceber, aceitar e enfrentar as situações com vista ao crescimento
pessoal. Para mim, é papel do Enfermeiro oferecer ao cliente, sem impor, “os meios
complementares, que o permitam descobrir ou reconhecer os recursos pessoais a uti-
lizar como quiser para resolver o seu problema”, como diz LAZURE (1994:13).
A pessoa é assim um agente activo em todo o processo, que segundo CHALIFOUR
(1989:26), “terá sucesso na medida em que o Enfermeiro no enquadramento de uma
Relação de Ajuda, conjugue a sua sabedoria, o seu Know-how e o seu saber estar com
a do cliente, numa relação imbuída de aceitação, de compreensão, de acolhimento e de
amor”.

CONCLUSÃO
Penso ser inerente à nossa condição de Pessoa o facto de termos a idoneidade de nos
conhecermos a nós próprios, de partilhar com os outros o nosso ”EU” e o nosso saber,
de termos consciência e acreditar nos nossos valores e nos valores da profissão de
Enfermagem. Cabe-nos por isso, e na minha opinião, a nós, enfermeiros, utilizar estas
capacidades e mobilizá-las no sentido do auto-crescimento e auto-satisfação. A relação
de ajuda caracteriza-se por uma ajuda concreta, potenciadora do crescimento pessoal,
não correctiva e baseada na partilha.
A reflexão constante do desempenho e da actuação permitem uma intervenção activa
no processo ensino – aprendizagem. Assim, segundo LALANDA (1995:28), “reflectir
sobre o que fazemos e como fazemos”, permite olhar a prática dos cuidados de
Enfermagem como uma interacção social e reflectir sobre essa interacção, é em parte
posicionarmo-nos na estrutura existente.
Como ideias chave, penso que é de salutar importância que tenhamos bem presente que
respeitar, é acreditar que o outro é um ser único capaz de decidir o que é melhor para si.

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Afinal, segundo PEPLAU (1990:26), quando a “enfermeira permite ao utente expressar


o que sente e lhe oferece a ajuda necessária, o utente pode sentir a experiência da
doença, como uma experiência que reorienta os sentimentos e fortalece os elementos
positivos da sua personalidade.”
Assim, “é nosso dever tentar sempre exaustivamente conseguir entender o doente” (SÁ,
1999).

BIBLIOGRAFIA
BRAMMER, L. – The helping relationship: process and skills. Englewood Cliffs, N. J.,
Prentice – Hall, 1973.
CHALIFOUR, J. – La relation d'aide en soins infirmiers : une perspective holistique –
humaniste. Québec : Gaëtan Morin, 1989. ISBN 2-89105-312-5.
COLLIÈRE, M. – Promover a vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de
enfermagem. Lisboa: Lidel, Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, 1999. ISBN 972-
757-109-3.
EGAN, G. – Communication dans la relation d´aide. Montréal: Les Editions HRW
Ittée, 1987.
GAUT, D.; LEININGER, M. – Caring: the compassionate healer. New York: National
League for Nursing, 1991. ISBN 0-88737-518-9.
HENDERSON, V. – The concept of nursing. Journal of Advanced Nursing, Nº 3, 1978.
HESBEEN, W. – Cuidar no hospital: enquadrar os cuidados de enfermagem numa
perspectiva de cuidar. Loures: Lusociência, 2000. ISBN 972-8383-11-8.
HESBEEN, W. – Qualidade em enfermagem: pensamento e acção na perspectiva do
cuidar. Loures: Lusociência, 2001. ISBN 972-8383-20-7.
LALANDA, P. – A interacção enfermeiro – doente. Uma abordagem bioantropológica.
Revista Nursing. Lisboa, Ano 8, Nº88, Maio, 1995, p.28-32. ISSB 0871-6196.

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“O respeito caloroso na relação de ajuda em enfermagem”

LAZURE, H. – Viver a relação de ajuda: abordagem teórica e prática de critério de


competência da enfermeira. Lisboa: Lusodidacta, 1994. ISBN 972-95399-52.

PEPLAU, H. - Relaciones interpersonales en enfermeria. Barcelona: Salvat Editores,


1990.

QUEIRÓS, A. – Empatia e respeito. Ed. Quarteto, [s.d.]

ROGERS, C. – La relation dàide et la psychothérapie. Paris : Ed. Béatrice Nauwe


Laerts, Vol. I, 1971.

SÁ, E. – Comunicação com doentes ventilados. Revista Nursing. Lisboa, nº 129,


Janeiro, 1999, p.26-29.

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