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Homossexualidade, Discurso e Identidade Em Tempos Finais da Ditadura:

Uma análise a partir do jornal Lampião da Esquina.

Linha de Pesquisa: História, Cultura e Arte.

Resumo: Este projeto de pesquisa busca analisar a partir das produções discursivas existentes no jornal homossexual, Lampião da Esquina (1978-1981), as construções identitárias de homossexuais no Brasil no final dos anos de 1970 e início dos anos 1980. Período este marcado pelos processos de abertura política no país e pela emergência na cena pública brasileira dos movimentos de assunção gay. Busca se, assim, entender as relações históricas que se pode estabelecer entre sexualidade, discurso, identidade e poder no período, no que se refere a problemática da homossexualidade.

Palavras-chaves: Homossexualidade, discurso, identidade sexual e movimentos políticos.

MARCIANO VIEIRA DE ANDRADE

Teresina, 10 de outubro de 2012

SUMÁRIO:

1 .Problematização e delimitação do tema

02

2. Enquadramento Teórico da Pesquisa

05

3. Objetivos

08

4. Justificativa

08

5. Metodologia e Fontes

10

6. Bibliografia

12

1.

PROBLEMATIZAÇÃO E DELIMITAÇÃO DO TEMA:

Segundo Regina Facchinni 1 , foi na década de 1970 que a questão da homossexualidade no Brasil surge como movimento político organizado, com o surgimento de grupos militantes como o grupo SOMOS em São Paulo em 1979 e diversos outros grupos de menor expressão. Tratava se de um período marcado pelo processo de reabertura política do pais depois de anos sob as sombras de um regime ditatorial e que teve como um de seus aspectos marcantes a intensificação das mobilizações sociais encabeçadas por movimentos que se antes assumiam uma postura mais tímida, agora passavam a sair da clandestinidade para ganhar o espaço público. Nesse contexto, se antes as manifestações em prol da homossexualidade surgiam desvinculadas de um projeto político, agora passavam a se manifestar a partir de movimentos militantes que, mesmo desvinculados da chamada “esquerda tradicional”, buscavam contestar a sociedade e a ordem vigente na época. Segundo Guacira Lopes Louro no artigo, Teoria Queer: uma teoria pós-identitária para a educação 2 , na década de 1970, a homossexualidade

deixa de ser vista (pelo menos por alguns setores) como uma

condição uniforme e universal e passa ser compreendida como atravessada por dimensões de classe, etnicidade, raça, nacionalidade etc. A ação política empreendida por militantes e apoiadores torna-se mais visível e assume um caráter libertador. Suas críticas voltam-se

contra a heterossexualização da sociedade. 3

) (

É nesse contexto de militância política e de uma busca identitária de auto afirmação dos homossexuais que surgiu o jornal o Lampião da Esquina. Esse jornal produzido por um conselho editorial assumidamente homossexual 4 e que circulou entre março de 1978 a junho de 1981, com 37 edições, foi, segundo Marcio L. G. Bandeira 5 ,

1 Cf.: FACCHINNI, R.Movimento homossexual no Brasil: recompondo um histórico. Cadernos AEL, V. 10, N. 18/19, Campinas, 2003. P. 83-123. Este artigo faz parte da sua dissertação de mestrado em Antropologia Social pela UNICAMP, intitulada: Letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo.(2000) 2 Cf.: LOURO, G. L. Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação. Estudos feministas. Florianopólis/SC, v. 9, n.2, p. 541-553, 2001. Disponível no endereço eletrônico:

http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8639.pdf. Acessado em 15 de setembro de 2012.

3 Ibid. p. 543.

4 O conselho editorial da primeira edição do jornal tinha os seguintes membros: Adão Costa, Aguinaldo Silva, Antônio Crysostomo, Clóvis Marques, Darcy Penteado, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, Jean-Claude Bernardet, João Antônio Mascarenhas, João Silvério Trevisan e Peter Fry. (Lampião da Esquina, n. zero, 1978, p. 2)

5 Cf.: BANDEIRA, M. L. G

Dissertação (Mestrado em História), São Paulo: PUC/SP, 2006.

Será que ele é?: Sobre quando Lampião da Esquina colocou as Cartas na Mesa.

o primeiro mensário de circulação na nacional, produzido por homossexuais no eixo Rio - São Paulo e que propôs uma discussão ampla sobre os sentidos das experiências vividas por indivíduos que desejavam se relacionar com outro do mesmo sexo 6 .

Deste modo, o Lampião da Esquina teve um importante papel não apenas na articulação de diversos grupos militantes, mas também, um papel importante ao dar voz a diversos sujeitos envolvidos com a causa homossexual, militantes ou não. Em seu projeto político expresso em sua edição numero zero, de março de 1978, podemos identificar os pontos que norteariam a atuação do jornal ao longo de sua trajetória. Em primeiro lugar, consistia em criticar e desfazer uma imagem negativa e depreciativa acerca do homossexual difundida e sustentada pelos saberes médicos, religiosos, jurídicos e jornalísticos vigentes na época, onde o homossexual era visto e representado como figura sombria, a viver pelas sombras da noite, e como “sujeito desviado” de uma suposta heterossexualidade essencialista, do ponto de vista natural, e normal, do ponto de vista social. Como o próprio Lampião da Esquina colocava:

O que nos interessa é destruir a imagem padrão que se faz do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que encara sua preferência sexual como uma espécie de maldição, que é dado aos ademanes e que sempre esbarra, em qualquer tentativa de se realizar mais amplamente enquanto ser humano, neste fator capital:

seu sexo não é aquele que ele desejaria ter. 7

Por outro lado, buscava se, através do jornal, dar voz a homossexualidade, possibilitando a esta um “lugar ao sol” na cena pública brasileira, tirando a homossexualidade dos seu isolamento social, onde escrever tornava se, como coloca os próprios editores do jornal uma forma política de dizer “não ao gueto e em consequência, sair dele”. O que significa dizer que o Lampião da Esquina reivindicava em nome dos homossexuais, não apenas o assumir-se e ser aceito pela sociedade, mas resgatar para eles uma

condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que homossexuais são seres humanos e que,

(

)

6 Ibid. p. 31.

7 Saindo do Gueto. Lampião da Esquina, n. zero, 1978, p. 01

portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização enquanto tal. 8

Assim, o que se colocava em jogo era uma forma de emancipação publica e social da homossexualidade cujas formas de sociabilidades e desejos não deveriam se restringir aos guetos, ou seja, se isolar a lugares de tolerância, distantes do olhar normatizador de uma moral heterossexual dominante perseguidora às formas de subjetividades e desejos que lhe escapavam as regras. Deste modo, o Lampião da Esquina buscou se contrapor as formas de representação e interpretação que desqualificavam a figura do homossexual associando-o ao obscurantismo, a maldição e a anormalidade, construindo neste momento de emergência de discursos e movimentos de assunção gay no país, uma outra imagem da homossexualidade, vista como direito e luta de uma minoria e como manifestação da condição humana. Para tal empresa, o jornal trazia além de ensaios, expondo as ideias e opiniões de seus editores, denuncias de violências contra homossexuais, entrevistas com personalidades famosas da época, sugestões e critica de literatura, musica e cinema, reportagens diversas e uma seção de cartas, onde tanto os editores do jornal quanto pessoas comuns de diversas partes do país, podiam expor suas opiniões e trocar experiências entre si. Deste modo, o intuito de nossa pesquisa será analisar os discursos produzidos pelo Lampião da Esquina, enquanto elementos formadores de uma auto afirmação identitária, ou mais claramente colocando, analisar de que modos homossexuais, através de um meio comunicação de massa: um jornal impresso, buscavam construir imagens e identidades afirmativas de si próprios, num contexto que, embora ainda tivesse como marca o preconceito e a discriminação dos sujeitos que não se enquadrassem num modelo heterossexual e cristão de vivência afetiva e amorosa, passava agora a ver a irrupção de movimentos organizados em defesa da homossexualidade como forma de critica ao modelo de vida afetiva dominante. Assim, buscaremos primeiramente entender como os homossexuais eram vistos no Brasil durante o período marcado por uma ditadura militar e entender de que modo o Lampião da Esquina surge como parte dos movimentos de assunção gay no país em fim da década de 1970 e início da década de 1980, buscando assim analisar de que modo se deu a atuação e do jornal nesse processo de contestação a ordem vigente e de auto afirmação de diversas minorias enquanto sujeitos de uma luta política e social. E é nesta empresa que nos voltaremos aos “discursos lampiônicosno intuito de analisar as múltiplas formas de auto

8 Ibid.

afirmação identitária de homossexuais no Brasil dentro do contexto apontado, buscando analisar consequentemente como num dado período de nossa história, podemos articular discurso, sexualidade, poder e identidade, no que se refere ao problema da homossexualidade. Também deve se deixar claro que nesta empresa não buscamos inicialmente nos contrapor a bibliografia já existente sobre o Lampião da Esquina e de sua atuação e significado, mas sim, a partir das contribuições deixadas por trabalhos anteriores, poder contribuir para um maior e mais profundo entendimento do papel histórico Lampião da Esquina e também da homossexualidade enquanto fenômeno histórico, político e cultural em nossa sociedade.

2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Ao trabalharmos com formações identitárias a partir das produções discursivas de um jornal como o Lampião da Esquina e sua atuação no contexto do surgimento dos movimentos de assunção gay no Brasil, nos colocamos dentro de um campo de reflexão teórico com a qual pretendemos trabalhar ao longo da pesquisa. Esse campo de reflexão gira especialmente em torno do entrelaçamento entre homossexualidade, discurso e identidade e suas interfaces com as relações de poder. Quanto ao primeiro ponto, a homossexualidade como objeto histórico, torna se relevante o debate posto por Michel Foucault em sua obra, na qual o autor enfatiza a historicidade da homossexualidade. Na verdade, assim como fez com a sexualidade como um todo, tirando-a de sua “materialidade neutra” e inscrevendo-a dentro de relações de poder e saber, Foucault traz uma importante contribuição para o estudo da homossexualidade a medida que a compreende como invenção recente de nossa modernidade (a partir da metade do século XIX) e como produto das relações de poder-saber que se operaram no campo da sexualidade. Para Foucault, o que veio a chamar-se “homossexual” em nossa sociedade, não diz respeito a um sujeito idêntico a si mesmo e reconhecível ao longo da história, mas implica em processos de subjetivação diversos, ou seja, circunstancias históricas permeadas por tensas relações de poder-saber a partir da qual indivíduos passaram a se reconhecerem ou serem reconhecidos como homossexuais, em outros termos, que ela (a homossexualidade) pôs-se a falar por si mesma, a reivindicar sua legitimidade ou sua naturalidae. 9

9 História da Sexualidade I a vontade de saber. 2005, p.96

Assim, se para Foucault, uma história da sexualidade “deve ser feita antes de mais nada, do ponto de vista de uma história do discurso” 10 , o mesmo deve acontecer com a homossexualidade, na medida que esta constituiu-se por meio de discursos existentes em relatórios médicos, nos relatórios de confissão religiosa 11 , nas normas jurídicas, e nos matérias da imprensa em geral, discursos esses que se configuram co mo praticas articuladas historicamente enquanto formas de saber dentro de relações de poder dadas. Desta forma, o pensamento de Foucault, nos conduz não apenas a considerar a homossexualidade como “invenção histórica” no campo da sexualidade, mas também a entende-la em sua intima relação com as práticas discursivas, pois, Segundo o pensador Frances em trabalhos como A ordem do discurso, no que se refere a sexualidade, o discurso não é algo neutro, mas peça essencial a partir da qual se constituem verdades que atuarão nas relações de poder que instituem tanto processos de dominação, quanto práticas de resistência, pois,

O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os

sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder

do qual queremos nos apoderar. 12

Olhar, portanto, a homossexualidade como invenção histórica do discurso, não significa negar que antes da modernidade não havia relações de afeto e desejo entre homens, mas sim, entender que aquilo que hoje compreendemos por homossexualidade é fruto de práticas discursivas que obedecem a determinadas relações de poder-saber no campo da sexualidade próprias de nossa época. E é, assim, no nível das práticas discursivas que a sexualidade, ou melhor a homossexualidade é enunciada, significada, compreendida e questionada. Seguindo uma perspectiva foucaultiana, compreendemos por outro lado que, se o que entendemos por homossexualidade é uma invenção da linguagem, a identidade homossexual também o é. Conforme observou Marcio L. G. Bandeira, devemos rejeitar a ideia de um sujeito homossexual universal e idêntico a si mesmo 13 , que depois de eras de repressão, passou a reivindicar o direito a uma identidade reprimida. Neste ponto, torna se

10 Ibid. p. 67 11 Sobre esse ponto é bastante interessante o trabalho de Durval Muniz de Albuquerque Jr: A pastoral do silêncio: Michel Foucault e a dialética revelar e silenciar no discurso cristão. Bagoas, Natal, n. 06, 2011, p. 69- 89, em que o autor trata a apartir da obra de Foucault, a constituição da homossexualidade dentro do discursos contidos no manuais de confissão da Igreja.

12 A ordem do discurso. 1999, p. 10.

13 Cf: BANDEIRA. Op. Cit., p. 20

também útil trabalhar a noção de identidade a partir do pensamento de K. Woodward 14 . Segundo Woodward, as identidades só adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais eles são representados. Pois, como a autora coloca,

A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais se baseia fornecem possíveis respostas a questões: quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? 15

Assim, é no nível dos discursos e dos sistemas de representação que se constroem os lugares a partir das quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar16 . Por outro lado, Woodward também enfatiza que é por meio da representação (ou das práticas discurivas e de seus sistemas simbólicos) que as identidades (assim como as diferenças) se ligam aos sistemas de poder historicamente dado, sendo por isso que a representação ocupa, segundo a autora, um lugar tão central na teorização contemporânea sobre a identidade e nos movimentos sociais ligados a identidade. Desta forma, articulando o pensamento de Woodward com o pensamento foucaultiano é que buscamos entender aqui as identidades, assim como os sujeitos as quais se referem, como representações simbólicas oriundas de práticas discursivas imersas em mecanismos de poder, constituídos historicamente. É passando por essa compreensão que ao trabalharmos com identidades sexuais no Brasil num dado período, devemos antes de tudo compreender o campo discursivo no qual essas identidades se constroem. E é nesta perspectiva que buscamos entender as condições históricas na quais se produziram práticas discursivas formadoras identidades afirmativas de homossexuais no Brasil, a partir da leitura de um jornal impresso e de seu papel num dado contexto político. Pois, como bem observou Marcio G. Bandeira, se quando nos voltamos aos discursos em torno da homossexualidade no Brasil na década de 1970 nos deparamos como diferentes homossexualidades contadas, narradas, pormenorizadas, assumidas, assim como diferentes campos discursivos que dela se ocuparam, e se, em cada um desses campos podemos perceber não só um principio de identidade mas os estilhaços de uma multiplicidade, sempre imbricadas em relações de poder e saber, então, questionar as condições de possibilidade de

14 Cf.: Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomas. T (org.);HALL, Stuart; WOODWARD, K. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petropólis: Vozes, 2009.

15 Ibid. p. 17.

16 Ibid.

uma homossexualidade assumida implica buscar, antes de mais nada, entender os poderes e saberes que a constituíram como tal. 17

3. OBJETIVOS DA PESQUISA:

3.1.Objetivo Geral:

Procurar entender, a partir de uma análise dos discursos contidos no Jornal Lampião da Esquina, como os homossexuais, num período marcado pelos movimentos de assunção gay no Brasil (fins da década de 1970 e início da década de 1980), viam e criavam suas próprias identidades como forma de luta contra os valores e normas de uma sociedade que os discriminavam.

3.2.Objetivos Específicos:

Analisar como os homossexuais enquanto grupo social eram visto na sociedade brasileira até os anos de 1970.

Analisar a emergência dos movimentos voltados para a causa homossexual no contexto da emergência dos diversos movimentos políticos e sociais de contestação a sociedade brasileira no final dos anos de 1970.

Analisar a assunção de uma imprensa homossexual nos anos 70 como parte da chamada imprensa alternativa atuante durante o período da ditadura militar no Brasil.

Entender o processo de surgimento do Lampião da Esquina e analisar sua trajetória entre os anos de 1978 e 1981, bem como sua contribuição ou papel no debate em torno da sexualidade brasileira da época.

Analisar, a partir do tema apontado, as relações entre sexualidade, poder e identidade nas múltiplas manifestações discursivas contidas no jornal Lampião da Esquina.

4. JUSTIFICATIVA:

O objetivo de pesquisar uma problemática voltada a questão da homossexualidade no Brasil, advém de um interesse sempre presente mas nunca realizado que nos acompanha

17 Ver: BANDEIRA. Op. Cit., p. 28-29

desde os tempos de graduação. Pois, o contato com obras de autores como Michel Foucault, Sismund Freud, entre outros, sempre nos despertou para a relevância e complexidade da sexualidade enquanto objeto de estudo e campo fértil para compreensão da vida social, política e cultural Foi nesse contexto que nos veio o interesse para uma problemática relacionada a homossexualidade. Primeiro, por percebermos que maioria dos estudos históricos voltados às questões de gênero no Brasil têm se voltado mais para questões em torno das relações heteroafetivas e problemáticas em torno do feminino, enquanto sujeito histórico. Por outro lado, por observarmos que na literatura acadêmica sobre a homossexualidade no Brasil, a maioria dos trabalhos tem se desenvolvidos em campos como a Antropologia, Sociologia e psicologia, sendo poucos os nomes de historiadores profissionais engajados na compreensão e estudo da homossexualidade enquanto fenômeno histórico. Mesmo assim, embora a maioria não sejam historiadores profissionais, nomes como os de James Green 18 , Peter Fry, Edward Macrae, João Silvério Trevisan, Jurandir Costa Freire, Nestor Perlonghe, Regina Fachinni, entre outros, constituem uma relevante e aprofundada bibliografia que desde fins dos anos de 1980 têm contribuído para um entendimento da homossexualidade no Brasil enquanto fenômeno histórico, social, político e cultural. Destes nomes dois nos foram de importância decisiva, a saber: James N. Green e sua obra “Além do Carnaval: a homossexualidade no Brasil no século XX (1990)” em que o autor faz uma análise da homossexualidade entre homens no Brasil desde a década de 1930 até o início dos anos de 1980, e a dissertação de Mestrado em Antropologia social Pela UNICAMP de Regina Fachinni, intitulada: Sopa de Letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São

Paulo”(2000).

Ambas as obras nos trouxeram o interesse de se buscar pensar a homossexualidade no Brasil enquanto fenômeno histórico, a partir das atuações dos movimentos organizados de gays em favor da causa homossexual no país. E foi neste contexto que a partir destas obras nos voltamos para um momento especifico da história brasileira, a segunda metade dos anos de 1970. E isto por ser um momento marcado pelo inicio do processo de abertura política no país após anos da dura repressão do regime militar e pela emergência de diversos de movimentos políticos que buscavam contestar a ordem social e política vigente na época. Adentrando nesse recorte é que nos deparamos não só com o processo da emergência dos

18 Entre historiadores voltados aos estudos sobre a homossexualidade no Brasil. Destaca se o no nome de James N. Green que publicou trabalhos importantes, como: Alem do carnal: a homossexualidade masculina no Brasil no século XX (1990)

movimentos organizados em favor da homossexualidade no Brasil e mas também com um personagem singular nesse processo: o Lampião da Esquina. Trata se de um jornal tabloide inserido tanto no contexto da chamada imprensa alternativa no período da ditadura como no contexto da emergência de uma militância gay no Brasil nos anos de 1970, e que, circulando por todo território nacional, buscou despertar a sociedade brasileira da época para uma ampla discussão sobre os sentidos das diversas experiências vividas por pessoas que desejavam e se relacionavam com outras do mesmo sexo, tendo assim, segundo a critica, um papel importante na proliferação de grupos organizados de homossexuais por todo território nacional. Sendo o Lampião da Esquina o primeiro jornal de circulação em massa voltado para o problema da homossexualidade no país, sua atuação foi de inegável importância na história da sexualidade no Brasil, na medida que buscou conscientizar leitores, dar visibilidade as minorias sexuais e proporcionar trocas de experiências e ideias, estimulando desta forma o surgimento de debates, reflexões, inferências e epfanias que atuaram sobre a subjetividade homossexual da época, além de ter contribuído de forma na formação de identidades autoafirmativas de homossexuais, buscando desmistificar e criticar os discursos depreciadores propagados pelos saberes médicos, religiosos, jurídicos e midiáticos em vigor na época a cerca da sexualidade e que tinham como pilar de sustentação mais marcante a perpetuação de um padrão heterossexual e patriarcal consolidado em nossa sociedade desde longa data. Assim, é por termos no Lampião da Esquina um registro importante da história recente de nossa sexualidade e um acontecimento de relevância indelével de nossa historia, que nos propomos nesta empresa a estudá-lo como objeto de pesquisa, no intuito de poder contribuir, de algum modo, para o entendimento das manifestações homossexuais no Brasil, enquanto fenômeno histórico, cultural, político e social, podendo assim, contribuir ainda mais para a compreensão do papel histórico de um objeto que, dada sua relevância e singulariade, não pode ficar guardado apenas na memória de uma comunidade restrita

5. METODOLOGIA E FONTES:

Trabalhar em história

tendo como material

de pesquisa um jornal ou mensário,

não é tarefa fácil ao historiador. Como assevera Cruz e Peixoto 19 , os materiais da imprensa

19 CRUZ, Heloisa de Faria & PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na oficina do historiador; conversa sobre história e imprensa. In: Projeto História: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do

não existem para que os historiadores e cientistas sociais façam sua pesquisa 20 . Segundo as autoras, transformar um jornal ou revista em fonte historiográfica, implica numa operação complexa de

escolha e seleção feita pelo historiador e que supõe seu tratamento

teórico e metodológico no decorrer de toda pesquisa desde a definição do tema à redação do texto final. A imprensa é linguagem constitutiva do social, detém uma historicidade e peculiaridades próprias, e requer

] [

ser trabalhada e compreendida como tal, desvendando, a cada momento, as relações imprensa/sociedade, e os movimentos de constituição e instituição do social que esta relação propõe. 21

Isto implica que a analise de um historiador sobre um projeto editorial, assim como de outras partes de um jornal, deve conduzir, antes de tudo, a indagações sobre suas posições e articulações sociais num dado momento histórico. Ou seja, devemos buscar a “identificação de campanhas gerais e posições políticas defendidas pelo periódico, assim como de questões, sujeitos sociais, espaços e temas que prioriza para agenda pública remetem a correlação de forças e ao campo das lutas sociais do momento.” 22 É dentro desta compreensão que nos voltamos nesta pesquisa a uma análise das práticas discursivas de um jornal, buscando vê-lo não apenas como representação de um dado momento histórico, mas também, como parte e sujeito ativo do mesmo. Assim, nossa pesquisa terá como fonte principal as 37 edições do jornal Lampião da Esquina, que encontram-se digitalizadas e disponível ao interesse público do site do Grupo Diginidade 23 . Nossa proposta inicial, consiste numa análise do jornal como um todo, sem privilegiar esta ou aquela seção, no intuito de alcançarmos as variadas produções discursivas existentes no jornal voltadas a construção de uma identidade homossexual. Por outro lado, além da análise do jornal buscaremos trabalhar com as teses, dissertações e artigos sobre o jornal, bem como, com o conjunto de trabalhos que tratam da homossexualidade e dos movimentos de assunção gay no Brasil na década de 1970 e início da década de 1980. A leitura deste conjunto de trabalhos nos servirão não apenas para um maior aprofundamento no tema proposto, como também, para uma análise do contexto histórico citado e do papel do Lampião da Esquina nesse contexto. Paralelamente a este processo, far- se-á a leitura e análise de toda bibliografia complementar cuja finalidade é a fundamentação

Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, n. 35, p. 253-270, dez,

2007.

20 Ibid. p. 260

21 Ibid.

22 Ibid. p. 264.

teórica sobre o tema da homossexualidade e suas interfaces com as problemáticas da

identidade e do poder em nossa sociedade. Frisamos ainda que outras fontes e matérias

bibliográficos ou procedimentos poderão ser incluídos na pesquisa de com acordo com as

necessidades que poderão se colocar ao longo do desenvolvimento da mesma.

Desta forma, como projeto inicial, nos propomos a realização de uma pesquisa

num prazo previsto de dois (02) anos e que buscará seguir o seguinte conograma abaixo:

 

1º Ano

2º Ano

 

Atividades

 

1º semestre

2º semestre

1º semestre

2º semestre

Leitura, análise e fichamento das fontes

X

X

X

 

Cumprimento dos créditos das disciplinas

X

X

   

Leitura, análise e fichamento da bibliografia sobre o tema e complementar

X

X

X

X

Elaboração

do

material

para

X

X

X

 

qualificação

Redação

definitiva

da

   

X

X

dissertação

Revisão do texto da dissertação

     

X

Defesa da dissertação

       

X

6. BIBLIOGRAFIA:

Sobre o Lampião da Esquina:

BANDEIRA, Marcio Leopoldo Gomes. Será que ele é?: Sobre quando Lampião da Esquina colocou as Cartas na Mesa. Dissertação (Mestrado em História), São Paulo: PUC/SP, 2006. MOTTA, Fábio. “À luz do Lampião”. Revista Júnior, São Paulo, no 30, 2009, p. 40- 43. SIMÕES JÚNIOR, Almerindo Cardoso. E havia um Lampião. Dissertação (Mestrado em Lingüística), Rio de Janeiro: UNERIO. 2006.

Sobre a Homossexualidade no Brasil:

COSTA, Jurandir Freire. O referente da identidade homossexual. In: PARKER, Richard e BARBOSA, Regina Maria (Orgs.). Sexualidades Brasileiras. Rio de Janeiro, Relume- Dumará; ABIA; IMS/UERJ, 1996. p.63-89. FACCHINI, R. Movimento homossexual no Brasil: recompondo um histórico. Cadernos AEL, V. 10, N. 18/19, Campinas, 2003. P. 83-123. Sopa de Letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo. 2000. Dissertação Mestrado

Universidade Estadual

de Campinas GREEN, James. “A luta pela igualdade: desejos, homossexualidade e a esquerda na América Latina”. In. GREEN, J. MALUF, S. (orgs.). Cadernos AEL: homossexualidade, sociedade, movimento e lutas. IFCH/AEL, v.10, n. 18/19. Campinas, SP: EDUNICAMP, 2003. Além do carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: EDUNESP, 2000. “Mais amor e mais tesão”: construção de um movimento brasileiro de gays, lésbicas e travestis. cadernos pagu n.15, 2000: pp.271-295.

em Antropologia Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,

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LOURO,

Estudos

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Teoria

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SILVA, Cristina L. C. da. Triângulo Rosa: a busca pela cidadania dos .homossexuais

Impressões de Identidade: Histórias e Estórias da Formação

Bibliografia de embasamento teórico e complementar:

ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz. A arte de inventar o passado. Ensaios de teoria da história. Bauro: Edusc, 2007. A pastoral do silêncio: Michel Foucault e a dialética revelar e silenciar no discurso cristão. Bagoas, Natal, n. 06, 2011, p. 69-89. ARIÈS, P. Sexualidades Ocidentais. São Paulo: Brasiliense, 1993. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. CECARELLI, Paulo R. A Invenção da homossexualidade. In: BAGOAS, Natal, n. 02, 2008, p.

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CERTEAU, Michel de. A escrita da história. (Trad. Maria de Lourdes Menezes. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. COSTA, J. F. Ordem Médica e Norma Familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

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(Trad.: Maria

A vontade de saber. Vol. I