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Gui Duarte Meira Pestana

O Sucesso Comunicativo no Desporto Estudo do feedback do treinador e do desportista no ensino das actividades físicas

e do desportista no ensino das actividades físicas Universidade da Beira Interior Departamento de Ciências do

Universidade da Beira Interior Departamento de Ciências do Desporto 2003 Covilhã

O Sucesso Comunicativo no Desporto Estudo do feedback do treinador e do desportista no ensino das actividades físicas

Dissertação elaborada sob a orientação do Professor Doutor João Carlos Ferreira Correia, com vista à obtenção do grau de Mestre em Ciências do Desporto

à obtenção do grau de Mestre em Ciências do Desporto Orientador: Professor Doutor João Carlos Ferreira

Orientador: Professor Doutor João Carlos Ferreira Correia

Orientando: Gui Duarte Meira Pestana

Universidade da Beira Interior Departamento de Ciências do Desporto 2003 Covilhã

Dedicatória

Dedico este trabalho aos meus pais, aos meus irmãos e à minha avó.

Índice Geral

ÍNDICE GERAL

ÍNDICE GERAL

 

i

ÍNDICE DE QUADROS

vi

ÍNDICE DE FIGURAS

vii

ÍNDICE DE GRÁFICOS

viii

ÍNDICE DE ANEXOS

ix

AGRADECIMENTOS

x

INTRODUÇÃO

1

I PARTE

4

I CAPÍTULO

5

1.

AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

5

1.1.1. O fenómeno comunicacional

5

1.1.2. A comunicação interpessoal

9

1.2.

O que é a comunicação?

12

1.3.1. Teoria matemática da comunicação de Shannon e Weaver

17

1.3.2. Modelo de Shannon e Weaver: desenvolvimento de DeFleur

23

1.3.3. Modelo Circular de Osgood e Schramm

25

1.4. Formas e tipos de comunicação

28

1.5. Comunicação

verbal

29

1.6. Comunicação

não verbal

32

1.7. Comunicação

diádica

43

Índice Geral

 

1.8. Comunicação em grupos

46

1.9. Papéis

53

 

1.10. Normas

56

 

1.11. Relação entre a comunicação e o desporto

58

1.12. A relação treinador-desportista

61

II

CAPÍTULO

65

2.

FEEDBACK

65

2.1.

O que é o feedback?

65

II

PARTE

73

I

CAPÍTULO

74

1.

OBJECTO DE ESTUDO

74

1.1. Objectivo de estudo

74

1.2. Introdução

74

1.3. A

escolha da modalidade: natação

75

1.4. A formação profissional dos treinadores 2 de natação

75

1.5. Enunciado do problema

76

1.6. Hipóteses e justificações

77

1.7. Pressupostos e limitações do estudo

79

II

CAPÍTULO

81

2.

MÉTODOS E PROCEDIMENTOS

81

Índice Geral

2.1. Introdução

 

81

2.2. Caracterização da amostra

 

81

2.3. Os Treinadores

 

82

2.4. As Turmas

 

83

2.5. Os Treinos

84

2.6. As Variáveis

 

84

2.6.1. Variáveis

de

presságio

84

2.6.2. Variáveis

de

processo

85

2.6.3. Variáveis

de

contexto

86

2.6.4. Variáveis

de

programa

86

2.7.Sistemas de Observação

 

87

2.7.1.

Sistema de observação do feedback pedagógico

 

87

2.7.1.1.

Dimensão: objectivo

 

87

2.7.1.2.

Dimensão:

forma

88

2.7.1.3.

Dimensão:

direcção

88

2.7.1.4.

Dimensão:

afectividade

89

2.7.2.

Sistema

de

observação

da

reacção

do

desportista

ao

feedback

pedagógico

 

89

2.7.2.1. Dimensão: atenção do desportista ao

 

90

2.7.2.2. Dimensão: resposta do desportista ao feedback

 

90

2.8.

Codificação

 

91

Índice Geral

 

2.9. Registo das observações

 

92

2.10.

Tratamento dos dados e procedimentos estatísticos

 

93

III

CAPÍTULO

 

94

3.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

 

94

3.1.

Análise

do

feedback

entre

os

treinadores

licenciados

em

educação

física/desporto e os treinadores

 

94

3.1.1.

Introdução

 

94

3.2. Análise descritiva da análise do feedback entre os treinadores licenciados em

educação física/desporto

 

95

3.2.1.

Dimensão: objectivo

96

3.2.2.

Dimensão: forma

96

3.2.3.

Dimensão: direcção

96

3.2.4.

Dimensão: afectividade

 

97

3.2.5.

Dimensão: Atenção do desportista

 

97

3.2.6.

Dimensão: Reacção do desportista

97

3.3.

Análise

descritiva

da

análise

multidimensional

do

feedback

entre

os

treinadores

 

98

3.3.1. Dimensão: objectivo

 

99

3.3.2. Dimensão: forma

99

3.3.3. Dimensão: direcção

99

3.3.4. Dimensão: afectividade

 

100

Índice Geral

3.3.5. Dimensão: Atenção do desportista

100

3.3.6. Dimensão: Reacção do desportista

100

3.4. Comparação entre os treinadores licenciados em educação física/desporto e

os treinadores, no que diz respeito à análise multidimensional do feedback

101

3.5. Análise da atenção e reacção ao feedback entre os treinadores licenciados

em educação física/desporto

110

3.6. Análise da atenção e reacção ao feedback entre os treinadores

112

3.7. Comparação da atenção e reacção ao feedback dos desportistas, entre os

treinadores licenciados em educação física/desporto e os treinadores

114

3.8. Comparação e análise da taxa de feedback/minuto entre os dois grupos de

treinadores

115

CONCLUSÕES

119

RECOMENDAÇÕES

124

BIBLIOGRAFIA

125

ANEXOS

136

Índice de Quadros

ÍNDICE DE QUADROS

Quadro 1: Caracterização dos treinadores

82

Quadro 2: Distribuição dos treinadores pelo

Distrito, Concelho e

Escalão de

Formação

83

Quadro 3 Percentagem dos valores médios das frequências do feedback em todas as dimensões e categorias, entre os treinadores licenciados em educação

95

física/desporto

Quadro 4 Percentagem dos valores médios das frequências do feedback em todas

98

as dimensões e categorias, entre os treinadores

Quadro 5 Comparação entre os dois grupos de treinadores, em todo o treino, em

102

todas as dimensões e categorias

Quadro 6 Valores médios totais das frequências do feedback na dimensão

110

atenção, entre os treinadores licenciados em educação física/desporto

Quadro 7 Valores médios totais das frequências do feedback na dimensão

reacção, entre os treinadores licenciados em educação física/desporto

111

Quadro 8 Valores médios totais das frequências do feedback na dimensão

atenção, entre os treinadores

112

Quadro 9 Valores médios totais das frequências do feedback na dimensão

113

reacção, entre os treinadores

Quadro 10 Comparação entre os dois grupos de treinadores, nas dimensões

114

atenção e reacção

Quadro 11 Comparação entre os dois grupos de treinadores, na taxa de

116

feedback/minuto

Índice de Figuras

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1: O modelo de comunicação de Shannon e Weaver

18

Figura 2: Modelo de Shannon e Weaver desenvolvido por DeFleur, introduzindo o

feedback (McQuail e Windahl, 2003,

24

Figura 3: Modelo de Osgood e Schramm (McQuail e Windahl, 2003,

25

Figura 4: As fases da comunicação e respectivos elementos, (Alves 2000)

26

Figura 5: Exemplo de comunicação em grupo

49

Figura 6: Modelo conceptual para examinar a equipa desportiva como um grupo

(adaptado de Carron, 1988, citado por Cruz, 1996a)

 

51

Figura

7:

Modelo

de

estudo

do

feedback

(Hoffmam,

1983,

in

Piéron

1988, p.129)

 

69

Índice de Gráficos

ÍNDICE DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Comparação entre os dois grupos de treinadores na dimensão objectivo,

103

em termos de taxa feedback/minuto

Gráfico 2: Comparação entre os dois grupos de treinadores na dimensão forma, em

104

termos de taxa feedback/minuto

Gráfico 3: Comparação entre os dois grupos de treinadores na dimensão direcção,

em termos de taxa feedback/minuto

 

106

Gráfico

4:

Comparação

entre

os

dois

grupos

de

treinadores

na

dimensão

afectividade, em termos de taxa

 

107

Gráfico 5: Comparação entre os dois grupos de treinadores na dimensão atenção,

108

em termos de taxa

Gráfico 6: Comparação entre os dois grupos de treinadores na dimensão reacção,

em termos de taxa

 

109

Gráfico

7:

Comparação

entre

os

dois

grupos

de

treinadores

da

taxa

de

feedback/minuto

 

115

Índice de Anexos

ÍNDICE DE ANEXOS

Anexo 1. Ficha exemplo: sistema de observação do feedback

137

Anexo 2. Ficha exemplo: sistema de observação de atenção e reacção do aluno ao

feedback

 

138

Anexo 3. Tempo observado entre os dois grupos

 

139

Anexo

4.

Distribuição

dos

valores

absolutos

e

relativos

nas

diferentes

dimensões

 

140

Anexo 5. Taxa de feedback/minuto nas várias dimensões

 

148

Anexo 6. Média da taxa de feedback/minuto dos treinadores licenciados e dos

treinadores

156

Anexo 7. Estatística descritiva básica NPar Tests & Kruskal-Wallis Test

157

Agradecimentos

AGRADECIMENTOS

Desejo agradecer a todos os que de uma forma ou de outra, contribuíram para a

realização do seguinte estudo:

Ao Professor Doutor João Carlos Ferreira Correia, pelas indicações fornecidas e

pela sua colaboração ao longo de todo o trabalho.

A todos os colegas e professores do II Mestrado em Ciências do Desporto.

Aos dez treinadores de natação que voluntariamente colaboraram e contribuíram

para a realização do estudo.

A todas as escolas de natação que contribuíram para a realização das observações.

A todos aqueles que de uma forma indirecta contribuíram para a sua execução.

Introdução

INTRODUÇÃO

Em 1909 dizia-se que a comunicação é “ o mecanismo através

do qual existem e se desenvolvem as relações humanas.”

(Cooley: citado por Santos, 2000, p.9).

A comunicação é assim apontada como elemento fundamental para a existência do

próprio homem, facilita relações, promove interacções e clarifica procedimentos.

A comunicação é uma necessidade humana tanto de sobrevivência, como de

interacção e integração dos indivíduos. Treinadores e desportistas directa ou

indirectamente podem ser considerados comunicadores. O treinador porque utiliza

várias formas comunicacionais na sua actuação e através delas revela atitudes,

gestos, fala, personalidade, sentimentos e interesse pela evolução do desportista. É

através da comunicação que ele procura relacionar-se e interagir com o seu grupo

de actuação. O desportista é comunicador, na medida em que interage e relaciona-

se como os outros. A capacidade de saber comunicar por parte de um treinador

poderá influenciar, positivamente ou negativamente, a prestação de um desportista.

Introdução

Como menciona Sequeira (1998, p.1), são muitos os factores inerentes à relação

pedagógica. No entanto, existe um que é preponderante em qualquer tipo de

relação, seja ela pedagógica ou não, que é a comunicação. Para Martens (1996,

referido por Sequeira, 1998, p.1), não basta aos treinadores dominar apenas o

envio, o conteúdo e a parte verbal, mas também, a recepção, a parte não verbal e a

parte psicológica de uma comunicação.

Pretendemos, com este estudo, contribuir para a pesquisa sobre a utilização do

feedback, no treino nos escalões de formação. Para além disto, pretendemos

também contribuir para a análise da influência da formação profissional no processo

ensino-aprendizagem.

Iremos,

também,

aproveitar

para

confrontar

treinadores

com

duas

formações

distintas, ao nível Universitário / Politécnico e ao nível federativo, como forma de

verificar

qual

a

influência

da

formação dos

treinadores

num

importante como parece ser o feedback.

instrumento

tão

Dar retornos de informação (feedback) requer observar, analisar e avaliar os

desempenhos daqueles que connosco trabalham, tomando sempre como referência

os objectivos que nos propomos alcançar e a definição previa de tarefas que

efectuámos (Araújo, 2001, p.6).

O feedback é definido pelo comportamento de ensino que consiste na reacção do

professor, verbal ou não verbal, à prestação motora do aluno, com a intenção de o

aperfeiçoar, intervindo no processo de aprendizagem, e com a função de avaliar a

sua

prestação,

de

descrever

o

movimento,

de

prescrever

uma

técnica

ou

Introdução

componente crítica, e de o interrogar sobre o que fez ou como o fez (Januário, 1992,

p.95).

Este estudo tem como objectivo a caracterização do sucesso comunicativo no

desporto, nomeadamente do feedback pedagógico por parte dos treinadores de

natação e da atenção e reacção dos desportistas ao feedback nos escalões de

formação. Como referimos atrás será um estudo no qual iremos comparar um grupo

de treinadores com formações e experiências profissionais diferenciadas.

Por outro lado, sustenta-se a tese que o feedback é preferencialmente obtido

através da comunicação não-verbal.

I Parte

I PARTE

I Capítulo: As Relações Interpessoais

I CAPÍTULO

1. AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

1.1.1. O fenómeno comunicacional

O homem, como animal social, vive em comunicação com o seu semelhante;

recebe, armazena e transmite informação tanto de natureza emocional como

intelectual; e é enquanto indivíduo, um sistema de auto-comunicação, pois o acto de

pensar é por muitas vezes a forma de uma conversa interior. A comunicação

engloba assim uma vasta gama de experiência e comportamento humano (Cohen,

1972, p. 211).

O indivíduo é um sistema aberto: como tal, os comportamentos de comunicação

constituem um dos modos essenciais da sua relação com o meio. Mas sendo um

sistema aberto, o homem não é um sistema qualquer; pode ser apropriadamente

definido como sistema biopsicosocial de comportamentos, isto é, um sistema em que

os

comportamentos de relação com o meio apresentam complexas características

de

significação e conteúdo simbólico, apoiados numa linguagem em que coexistem

elementos e normas lógicas com elementos e normas sócio-afectivas e emocionais.

A comunicação é um fenómeno que se impõe à observação mais casual e

descuidada, pois é a expressão da ligação entre os indivíduos e o seu meio

(Parreira, 1991, p.22).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

O processo de comunicação no seu sentido profundo e autêntico é o motor que

desenvolve e sustenta a relação interpessoal. Este processo, implica um conjunto de

atitudes, sem as quais a relação pedagógica não passa de uma gama de técnicas

didácticas ao serviço de teorias ou de ideias mais ou menos vagas sobre educação.

No

âmbito

desta

proposta,

a

análise

da

comunicação

será,

centrada

não

exclusivamente no aluno, ou no professor, mas precisamente na relação entre essas

mesmas pessoas, como se de um sistema se tratasse. Para isso, necessitamos de

considerar

também

a

relação

pedagógica

como

um

todo

sistémico 1 .

Este

é

qualitativamente superior à soma das suas partes: é a emergência de algo que não

é exclusivamente do professor, do aluno, da relação interpessoal ou da instituição de

ensino, mas resultante da interinfluência de todas elas (Dias, 2001).

De acordo com Von Bertalanffy (1968, p.57), o criador da Teoria Geral dos Sistemas,

sistema é o “conjunto de unidades em inter-relações mútuas”. Para Morin (1977,

p.99) o sistema é “uma inter-relação de elementos que constituem uma entidade ou

unidade global”.

1 ) A abordagem sistémica constitui, de facto, uma nova visão da realidade, pelo menos quando contraposta à abordagem

científica clássica, analítica e mecânica. A abordagem analítica concentrou-se no estudo dos elementos em si, dos objectos enquanto individualidades. Cada objecto foi descrito profundamente, foi caracterizado, decomposto em outros objectos mais simples. O objecto foi assim isolado do contexto de outros objectos e isolado do observador. Cada ciência teve o seu objecto básico, cada vez mais pequeno e cada vez mais decomposto. A Física teve o átomo, a Biologia a célula. No entanto esta abordagem tornou-se insuficiente quando na Física se descobriu partículas mais pequenas que o átomo, os quarks, que eram difíceis de descrever, o que trouxe uma crise epistemológica à forma como a ciência estuda e se desenvolve. Passou-se então a estudar a relação de cada objecto com outros objectos próximos. Nasceu a ideia da abordagem sistémica que se centra nas interacções entre os elementos. Enquanto a abordagem tradicional tendia a ver uma família através das pessoas que a compõem, a abordagem sistémica observa a família através das interacções dos seus componentes, sejam eles quais forem. E é, de facto, notável observar como uma família ou uma comunidade tende a manter um determinado comportamento, mesmo que as pessoas que a compõem sejam substituídas por outras. O que se mantém, dentro de um sistema social, são mais as interacções entre as pessoas ou elementos que o compõem, do que as próprias pessoas em si.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

A celebre fórmula de Lasswell (1948, p.49), sobre o processo da comunicação:

“Quem diz o quê a quem, por que canal, com que efeito?” é uma referência a todos

os elementos da comunicação e uma síntese do próprio processo de comunicar. A

identificação dos intervenientes da comunicação, o emissor e o receptor, é de

primordial importância, pois qualquer tipo de comunicação entre eles só terá sucesso

se houver intersecção entre os respectivos repertórios culturais.

Além disso, é necessário que todo o processo funcione correctamente, ou seja, que

as

operações

descodificação

de

codificação

(processo

de

(processo

de

construção

da

mensagem)

e

de

desconstrução

da

mensagem)

se

realizem

convenientemente

e

que

a

transmissão pelo

canal físico

escolhido

não

seja

dificultada por “ruídos” ou “interferências” que deturpem a mensagem enviada.

Como refere Lasswell (1948, p.50), o processo de comunicação na sociedade

desempenha três funções: a) vigilância do meio ambiente, revelando ameaças e

oportunidades que possam afectar a posição da comunidade e das suas partes

constituintes, em termos de valores; b) correlação dos elementos que constituem a

sociedade, como resposta ao meio exterior; c) transmissão da herança social.

No caso específico da comunicação linguística, mediante a linguagem o indivíduo

torna-se objecto para si mesmo, no mesmo sentido que os outros são objectos para

ele; a sociedade existe mediante a comunicação, porque é através do uso de

símbolos significativos que tomamos as atitudes dos outros, como por sua vez, os

outros podem apreender as nossas atitudes para eles (Mead, 1934, p.41).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

A comunicação humana é, antes de mais, um facto do comportamento; um

comportamento

ou

uma

série

de

comportamentos

de

relação

entre

sistemas

comportamentais; estes comportamentos de relação sejam verbais ou gestuais, têm

como característica comum o facto de desencadearem novos comportamentos nos

comunicadores (Parreira, 1991, p.23).

Que se passa quando indivíduos pertencentes a diferentes culturas encontram-se e

estabelecem um processo de relacionamento?

Com efeito, quando comunicam, os indivíduos fazem muito mais do que “devolver a

bola”; existe uma série de mecanismos que é regulada por diversos factores

culturais e que controlam os diferentes processos de existência (Hall, 1986, p.15).

Entendemos, por comunicação, o processo pelo qual partilhamos uma informação,

uma ideia, uma atitude ou um sentimento. Podemos ainda vincular à comunicação a

ideia de participação. Participar é precisamente a possibilidade de fazer parte de um

todo, pois quem está isolado não tem qualquer possibilidade de fazer parte desse

todo, logo não participa. Comunicar é, então, fazer participar num projecto global,

trazendo para a comunidade de interesses o que dela estava separado, através da

informação pertinente e objectiva, o que permite tomar decisões racionais em

relação à adequação ao meio ambiente (Dias, 2001).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.1.2. A comunicação interpessoal

A comunicação interpessoal é o processo de criação de relações sociais entre pelo

menos duas pessoas que participam num processo de interacção. A comunicação

interpessoal, pode ser definida como o processo pelo qual a informação é trocada e

entendida por duas ou mais pessoas, normalmente com o intuito de motivar ou

influenciar o comportamento. Comunicar não é só enviar informações. O processo

de

comunicação

acontece,

quando

duas

pessoas

interagem

reciprocamente,

colocando-se uma no lugar da outra. A interacção envolve, pois, uma incorporação

de papéis recíproca, e uma empatia mútua de habilidades. Os objectivos da

interacção são: um interligar-se com o outro, a completa habilidade de antecipar,

prever e comportar-se de acordo com as necessidades recíprocas de um e de outro.

A impossibilidade de não comunicar origina que qualquer situação comportamental

de duas ou mais pessoas seja uma situação interpessoal, uma situação de

comunicação (Watzlawick et all, 1972, p.69).

Sob um ponto de vista racional e mecânico, o processo de comunicação poderia ser

representado do seguinte modo:

Pessoa A <-----------------------------------------------> Pessoa B

Ou seja, Adiz alguma coisa e Bouve o que Adisse. Contudo, raramente as

comunicações são assim tão simples. As comunicações são muito mais do que

I Capítulo: As Relações Interpessoais

palavras ditas entre as pessoas. Todo o comportamento transmite uma mensagem.

Quando estudamos o conceito de comunicação interpessoal, temos de examinar a

relação interpessoal como um todo.

No exemplo representado atrás, Atransmite na interacção com Bmuito mais do

que o conteúdo da mensagem que deseja transmitir. Ele transmite-a como pessoa.

Atem uma imagem de si próprio como pessoa e tem também, embora em vários

graus de especificidade e intensidade, um conjunto de atitudes e de sentimentos em

relação a B. A mensagem que Adirige a B, para além de um certo conteúdo,

poderá conter uma série de pistas:

a) Sobre o modo como Ase sente como pessoa (por exemplo, confiante e seguro

versus não confiante e inseguro); b) sobre o modo como Asente Bcomo pessoa

(por exemplo, amável e receptivo versus frio e fechado) e c) sobre o modo como A

espera que Breaja à sua mensagem.

A focalização, até aqui, tem sido em A”, o emissor. Mas uma imagem reflexa opera

em relação a Bno que se refere à sua imagem e às atitudes em relação a A.

Tudo o que Atransmitir (intencionalmente ou não) será recebido por Batravés do

seu conjunto de filtros perceptuais. Logo a resposta de Ba Aserá em parte uma

função do que Bouviu. Porém ouvir é um processo selectivo, ouvimos o que

queremos e esperamos ouvir.

O aperfeiçoamento das boas relações interpessoais é um dos objectivos decisivos

no desporto, podendo contribuir para a facilitação das relações com a família com os

I Capítulo: As Relações Interpessoais

amigos, colegas, a relação com o professor ou treinador ou com os diversos grupos

sociais onde se vai inserindo e com a comunidade como um todo (Rosado,

1998, p.57).

No caso das comunicações interpessoais, a própria presença de uma pessoa na

situação pode ter um impacto na natureza da interacção. Falar com uma pedra é um

processo estático, pois que a pedra não reage; falar com outra pessoa é um

processo dinâmico, pois a outra pessoa reage, como tal a sua reacção influencia as

nossas reacções subsequentes.

O desenvolvimento das relações interpessoais envolve o desenvolvimento da

capacidade da relação com os outros, também em situação de conflito; e a criação

de estratégias para a resolução desses conflitos interpessoais, devem constituir um

conteúdo de intervenção educativa (Rosado, 1998, p.65).

Definimos então comunicação interpessoal como um processo de interacção social

recíproca

entre

duas

ou

mais

pessoas,

cuja

relação

poderá

influenciar

no

comportamento, na motivação e no estado emocional do emissor ou do receptor. Tal

processo

ocorre

nas

relações

das

pessoas

como

sujeitos

membros

de

um

determinado grupo social e cultural. Este processo, pelo qual ideias e sentimentos se

transmitem de indivíduo para indivíduo, tornando possível a interacção social, é

fundamental para o homem, enquanto ser social e cultural.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.2. O que é a comunicação?

A comunicação é um processo que viabiliza a troca de mensagens entre pessoas. É,

portanto, uma actividade cada vez mais utilizada nas relações sociais humanas

modernas. Devido à sua complexidade actual e aos amplos campos de interesse fica

cada vez mais conflituante a sua definição.

“Entendemos

por

comunicação

tanto

os

processos

de

transacção

entre

os

indivíduos como a interacção dos indivíduos com a natureza, dos indivíduos com as

instituições sociais e ainda o relacionamento que cada indivíduo estabelece consigo

próprio” (Adriano Rodrigues, 1994, p.67).

A palavra comunicação significa "tornar comum", trocar informações, partilhar ideias,

sentimentos, experiências, crenças e valores, por meio de gestos, actos, palavras,

figuras, imagens, símbolos, etc. Comunicar tem o sentido de participar e estabelecer

contacto com alguém num intercâmbio dinâmico e interactivo.

Segundo Lampreia (1983, p.23), a palavra comunicação vem do latim “Communis”

que significa “comum”, “entrar em relação com”. Portanto a primeira noção a ter em

conta é que só há comunicação quando aquilo que é comunicado tem significado

comum para os dois pólos, emissor e receptor.

Aranguren

(1975,

p.11),

define

Comunicação

como,

qualquer

transmissão

de

informação por meio de: (a) emissão, (b) condução e (c) recepção de (d) uma

mensagem.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

O´Sullivan (1999, citados por Ferim, 2002, p.21), atribui ao termo «comunicação»,

duas acepções: numa acepção, comunicação é um processo pelo qual Aenvia

uma mensagem a Bprovocando um efeito; numa segunda acepção, existe uma

negociação e uma troca de sentidos entre emissores e receptores, sendo que as

mensagens, pessoas, culturas e realidades interagem e são capazes de produzir,

quer novas significações, quer novas formas de compreensão.

Para Fiske (1993, p.14), a comunicação é uma “interacção social através das

mensagens”. O mesmo autor distingue duas escolas principais no estudo da

comunicação,

a

primeira

observa

a

comunicação

como

uma

transmissão

de

mensagens, como um processo pelo qual uma pessoa afecta o comportamento ou

estado de outra; a segunda escola vê a comunicação como uma produção e troca

de significados. As duas escolas definem a comunicação como interacção social

através das mensagens. A primeira define a interacção social como o processo pelo

qual uma pessoa se relaciona com outra ou afecta o estado de comportamento,

estado de espírito ou reacção emocional de outra e, vice-versa. Neste caso verifica-

se que a segunda definição de comunicação de Fiske coincide de forma mais

aproximada com uma concepção de comunicação interpessoal.

Charles Cooley (1909, citado em Santos, 1998, p.9), observou que a comunicação é

o mecanismo através do qual existem e se desenvolvem as relações humanas. A

definição de Cooley é de uma lucidez espantosa, porque remete para a noção de

que o acto de comunicar é uma das formas fundamentais da existência. Tudo o que

I Capítulo: As Relações Interpessoais

é vida é comunicação, porque implica a condução de ideias e objectos de um lado

para outro.

Comunicar significa essencialmente transmitir sentimentos casuais ou intencionais,

de um ponto para outro. Comunicar é sobretudo significar, através de qualquer meio.

Durante milénios, isso quis dizer que o acto de comunicação se limitou aos sinais

sonoros, visuais e sensoriais emitidos pelo corpo humano. Mas houve uma altura em

que o homem entendeu que este era um meio demasiado limitado para comunicar e

precisou de alternativas (Santos, 1998, p.10).

Crespi (1998, citado por Ferim, 2002, p.22), define comunicação numa perspectiva

de

interacção

pessoal,

como

um

processo

mediante

o

qual

determinadas

informações

ou

significados

são

transferidos

de

um

ou

mais

indivíduos,

os

emissores, para outros indivíduos, os receptores. Considera este processo uma

interacção simbólica, na qual a possibilidade de transferir mensagens ocorre na base

dos

signos, segundo regras cultural e socialmente partilhadas.

 

O

conhecimento

pode

ser

adquirido

de

duas

maneiras:

inconsciente

e

conscientemente. O primeiro, no próprio decorrer do ciclo de vida do indivíduo, nas

suas interacções sociais, nas suas observações e adaptações; é um conhecimento

empírico não-sistematizado. O segundo é um processo de aquisição de informações

através de distintos sistemas como leituras, palestras e cursos. Os dois processos

são

extremamente

importantes.

Porém,

quanto

maior

for

a

informação

sistematizada, melhor compreensão terá o indivíduo desta área de conhecimento.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Há que distinguir informação e comunicação. Pela primeira entende-se quer a acção

de

informar,

quer, mais frequentemente,

o

conteúdo

(a

mensagem) de

uma

comunicação; pela segunda entende-se o processo que põe em relação os dois ou

vários

pólos

1983, p.23).

(emissores

e

receptores)

que

trocam

informações

(Lampreia,

Para Adriano Rodrigues (2000, p.29), comunicação é uma relação entre seres

humanos quer face a face, quer à distância, que utiliza diversas modalidades de

suporte. A comunicação distingue-se da informação: enquanto a informação consiste

na transmissão de um saber entre alguém que a detém e alguém que é suposto não

a deter; a comunicação consiste numa partilha de uma semelhante experiência da

vida por pessoas com uma identidade comum.

A comunicação é o processo de pôr algo em comum. O processo comunicacional é

baseado em trocas de natureza simbólica, na intercompreensão, na reversibilidade e

como tal capaz de gerar laços de sociabilidade (Tavares, 1995, p.22).

“Nosso

objectivo

básico

da

comunicação

é

tornar-nos

agentes

influentes,

é

influenciarmos outros, nosso ambiente físico e nós próprios, é tornar-nos agentes

determinantes,

é

termos

opção

no

andamento

das

coisas:

Em

síntese

nós

comunicamos para influenciar, para influenciar com intenção(Berlo, 1991, p.22).

A comunicação considera-se como um processo de negociação no qual cada

pessoa implicada que envia ou recebe uma mensagem procura um terreno comum

I Capítulo: As Relações Interpessoais

de forma a chegarem a um acordo. As experiências compartidas, uma cultura

comum, o uso de signos linguísticos e chaves comuns ajudaram na procura de um

significado consensual que sirva como um veículo para intercambiar ideias e

formalizar relações (Ellis e McClintock, 1993).

Apesar de utilizarmos a mesma língua e de comunicarmos pensamentos e afectos,

só raras vezes conseguimos comunicar o que de mais fundamental pretendemos

comunicar (Adriano Rodrigues, 1983, p.23).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.3.1. Teoria matemática da comunicação de Shannon e Weaver

Shannon e Weaver (1949, p.25), desenvolveram uma teoria que lhes permitia

estudar o problema de como enviar uma quantidade máxima de informação por meio

de um determinado canal, e de como medir a capacidade de qualquer canal para

transportar a informação.

A Teoria Matemática da Comunicação, ou Teoria da Informação, como também é

conhecida, é uma sistematização do processo comunicativo a partir de uma

perspectiva puramente técnica, quantitativa.

A diferença principal entre a abordagem de um engenheiro electrónico e a de um

especialista em comunicação cultural consiste no facto que um trabalha com um

conjunto de elementos simbólicos muito condensados, enquanto o outro tenta

descobrir o que acontece quando as pessoas falam, antes dos dados estarem

raiados com todas as suas tonalidades(Hall, 1994, p.116).

Segundo Weaver (1949, p.25), há três níveis de problemas em comunicação: a)

técnico; b) semântico e c) de influência. Os problemas técnicos referem-se à

precisão da transmissão de informações do emissor para o receptor; os problemas

semânticos referem-se à interpretação do significado pelo receptor, comparada ao

significado pretendido pelo receptor, por fim os problemas de influência ou eficácia

referem-se ao êxito de através do significado transmitido ao receptor, provocar a

conduta desejada de sua parte.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Nível

a)

técnico:

comunicação?

Com

que

precisão

se

podem

transmitir

os

símbolos

da

Nível b) semântico: Com que precisão os símbolos transmitidos são recebidos com o

significado desejado?

Nível c) pragmático: Com que eficiência o significado recebido afecta a conduta do

receptor no sentido desejado?

Shannon estava sobretudo interessado nos problemas técnicos. Mas torna-se claro

que eles são básicos para os outros níveis, e com eles estabelecem múltiplas inter-

relações. Para os estudar, havia que considerar o conjunto dos elementos em que

se baseava uma comunicação informativa, bem como as suas inter-relações.

Daí o célebre modelo da comunicação, de Shannon e Weaver, formulado do

seguinte modo:

Sinal Fonte de Mensagem Transmissor Sinal Canal Receptor Mensagem Recebido Destino informação Fonte de ruído
Sinal
Fonte de
Mensagem
Transmissor
Sinal
Canal
Receptor
Mensagem
Recebido
Destino
informação
Fonte de
ruído

Figura 1: O modelo de comunicação de Shannon e Weaver

A informação é emitida por uma fonte sob a forma de mensagens que, para serem

transmitidas, são codificadas por um emissor, que transforma estas mensagens em

sinais. A transmissão é assegurada pela via de comunicação, o canal ,até o receptor

I Capítulo: As Relações Interpessoais

que descodifica os sinais a fim de torná-los utilizáveis pelo destino. Toda a

degradação da informação durante a comunicação é devida aos efeitos de ruído ou

interferência.

Weaver e Shannon (1949, p.27), estabeleceram, então, o esquema de transmissão

de informação hoje clássico, com uma mensagem que parte de uma fonte, é

codificada e emitida por um transmissor, passa por um canal de comunicação, sofre

perturbações designadas por ruídos, e chega depois ao receptor, passando por um

sistema de descodificação. Ao falar de "uma mensagem seleccionada". Shannon,

refere-se a uma sequência informativa que pode ser escolhida entre muitas outras,

que aparecerão com iguais ou diferentes probabilidades. Define então a quantidade

de informação com base na sua incerteza ou dificuldade de previsão.

Alguns conceitos ligados entre si são as questões fundamentais a serem estudadas

neste sistema de comunicação.

A palavra informação não se refere tanto ao que você efectivamente diz, mas ao que

poderia dizer, isto é, a informação é uma medida de sua liberdade de escolha

quando selecciona uma mensagem. Diante de uma situação muito simples, em que

você

precisa

de

escolher

entre

duas

mensagens

alternativas,

afirma-se

arbitrariamente que a informação associada a essa situação corresponde a uma

unidade. O conceito de informação não se aplica às mensagens individuais, como

seria o caso do conceito de significado, mas sim à situação como um todo: a

informação indica que, nesta situação, tem-se um grau de liberdade de escolha na

I Capítulo: As Relações Interpessoais

selecção

da

mensagem,

que

convêm

encarar

como

uma

quantidade

padrão

correspondente à unidade (Weaver, 1949, p.28).

Ao falar de, uma mensagem seleccionada, Shannon refere-se a uma sequência

informativa que pode ser escolhida entre muitas outras, que aparecerão com iguais

ou diferentes probabilidades. Define então a quantidade de informação com base na

sua incerteza ou dificuldade de previsão.

A grande descoberta de Shannon e Weaver consistiu uma possibilidade de medir a

informação. Para isso ele recorreu à noção de probabilidade (que corresponde à

entropia de um sistema) e à redução da nossa incerteza sobre esse sistema através

de sucessivas divisões binárias.

Para ilustrar esta operação bastante simples, vamos considerar a existência de um

sistema cuja probabilidade de o conhecermos é de 1/16. Podemos imaginar um

quadro

com

16

números,

cada

qual

marcado

pelo

número

correspondente,

de 1 a 16. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
de 1 a 16.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
Imaginemos
que
pretendemos
escolher
um
número
que
foi
seleccionado

previamente, pressuponhamos, o número 11. A probabilidade de conhecermos este

número à partida é de 1/16, ou seja, só depois de 16 tentativas é que teríamos a

I Capítulo: As Relações Interpessoais

certeza de premir o botão certo. O problema que se coloca é saber quantas

perguntas

simples,

de

sim

ou

não,

são

necessárias

realizar

para

sabermos

exactamente qual é o número certo. Veremos que não são 16, mas apenas 4, pela

simples razão que 16 = 2x2x2x2, ou seja, 2 4 . Neste caso, 4 é o logaritmo na base 2

de 16.

A primeira pergunta simples consistirá em saber se o número está na metade

superior. A resposta é não. Ficaremos então a saber que o número corresponde a

um dos 8 inferiores, a segunda pergunta pode ser se o número está, de entre estes,

na metade esquerda. A resposta é novamente não, ficamos então limitados ao

quadrante inferior direito, onde temos 4 números. A terceira pergunta é saber se o

número, neste conjunto, está em cima, a resposta é sim. A quarta pergunta é saber

sé é o número da esquerda, ou seja, o 11, e a resposta é sim, se fosse não, só

poderia ser o número 12. A probabilidade então de acertarmos é de 100%.

Com efeito, bastaram-nos 4 perguntas para adquirir informação sobre o sistema, ou

seja, para sabermos qual dos 16 números tinha sido previamente escolhido.

Admitia, por exemplo, que um emissor escreve a mensagem "boa noite", letra por

letra. Ao escrever as primeiras letras, há uma expectativa da parte do receptor, que

vê surgir as letras "b", "o", "a", um espaço, e depois "n", “o”, "i", “t” e o "e" no final,

mas esta ultima letra é quase inútil, pois sua probabilidade de ocorrência é tão

grande, para dar sentido à sequência anterior, que a quantidade de informação

transmitida por essa letra é muito menor que a transmitida pelas primeiras.

Também no exemplo de uma simples frase escrita, existem muitas letras que não

precisavam de lá estar para entendermos a mensagem, ou seja, existem nas

I Capítulo: As Relações Interpessoais

mensagens,

símbolos

que

não

parecem

necessários,

estão

a

mais,

são

redundantes.

A unidade menos entropia relativa é chamada “redundância”, o que vale dizer que

essa fracção da mensagem é desnecessária, no sentido de que, se estivesse

faltando, a mensagem ainda seria completa em sua essência, ou pelo menos

poderia ser completada (Weaver, 1949, p.32).

De facto, em nenhuma língua, nós podemos usar os símbolos arbitrariamente, como

se tirássemos à sorte cada uma das letras ou palavras, não o podemos fazer porque

existem regras: ortográficas, sintácticas, semânticas, da comunicação linguística e

são essas regras que reduzem a probabilidade de utilização aleatória dos símbolos,

ou seja: é à custa das regras que a redundância existe.

Então, o conceito de redundância relaciona-se com alta previsibilidade e o de

entropia com baixa previsibilidade.

Quando a informação é transmitida por um canal, sempre se perde alguma parte, o

que depende da qualidade da transmissão, do tipo de canal ou das interferências a

que ele é sujeito. Vulgarmente chamamos ruído às interferências no canal (o barulho

na sala de aula, os ruídos telefónicos ou electrónicos, as instabilidades ou o grão

num ecrã televisivo). Na concepção de Shannon, tal como a informação se mede,

também o ruído se pode medir. Ele corresponde à diferença entre a informação de

partida e a informação de chegada.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

O ruído perde assim a sua qualidade acústica, e passa a ser uma variável que se

pode generalizar a qualquer tipo de informação. Por exemplo, se fizermos uma

fotocópia, a qualidade da informação impressa pode ser razoável. Mas se fizermos

uma segunda fotocópia

do material fotocopiado, e uma

terceira

da segunda

fotocópia, a qualidade da informação vai-se degradando até se perder por completo.

A

noção de ruído pode ainda ser aplicada à comunicação inter-pessoal. Uma coisa é

o

que se quer dizer, outra é o que se diz, outra o que se ouve e outra, finalmente, o

que o auditor se lembra de ter ouvido. Em cada uma destas transmissões perde-se

inevitavelmente informação, pelo que muitos falantes se queixam de não serem

entendidos, não sabendo porém que isso é inevitável.

Este modelo ao centrar-se mais no processo de transmissão da mensagem do que

no

conteúdo

da

mesma,

menciona-se

frequentemente

como

um

modelo

de

transmissão ou de processo. Os pressupostos com os quais trabalha este modelo

são: a) que a comunicação vá directamente desde a fonte ao destinatário, b) que a

mensagem enviada está determinada pela fonte e c) desde que não haja obstáculos

ou distorções que impeçam a passagem da mensagem, recebida será a mesma que

terá sido enviada (Ellis e McClintock, 1993, p.101).

1.3.2. Modelo de Shannon e Weaver: desenvolvimento de DeFleur

“O modelo inicial de Shannon e Weaver tem sido criticado pela sua linearidade e

pela ausência de feedback(McQuail e Windahl, 2003, p.25).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

DeFleur em 1970 desenvolveu o modelo de Shannon e Weaver, acrescentando um

outro conjunto de componentes ao modelo original, com o intuito de mostrar que a

fonte recebe o seu feedback, possibilitando assim uma adaptação mais eficaz do

seu modo de comunicar com o destinatário. Aumentando, a probabilidade de se

alcançar correspondência entre os significados (McQuail e Windahl, 2003, p.24). Meio de comunicação de massas
alcançar correspondência entre os significados (McQuail e Windahl, 2003, p.24).
Meio de
comunicação
de massas
Sinal
Fonte de
Mensagem
Transmissor
Sinal
Canal
Recebido
Receptor
Mensagem
Destino
informação
Ruído
Destino
Receptor
Canal
Transmissor
Fonte de
informação
Sistema
de
feedback

Figura 2: Modelo de Shannon e Weaver desenvolvido por DeFleur,

introduzindo o feedback (McQuail e Windahl, 2003, p.25).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Como podemos observar na figura 2 em cima apresentada, Defleur desenvolveu o

modelo inicial de Shannon e Weaver, introduzindo o conceito de feedback.

1.3.3. Modelo Circular de Osgood e Schramm

Se o modelo de Shannon e Weaver pode ser classificado de linear, já o modelo de

Osgood e Schramm é amplamente circular como podemos ver em baixo na figura 3.

Mensagem Codificador Descodificador Intérprete Intérprete Descodificador Codificador Mensagem
Mensagem
Codificador
Descodificador
Intérprete
Intérprete
Descodificador
Codificador
Mensagem

Figura 3: Modelo de Osgood e Schramm (McQuail e Windahl, 2003, p.26).

No modelo de Osgood e Schremm ambos os intervenientes desempenham as

mesmas funções, ou seja, as partes actuantes são apresentadas como iguais,

realizando

funções

iguais,

nomeadamente

codificando,

descodificando

e

I Capítulo: As Relações Interpessoais

interpretando. O modelo é particularmente útil para descrever a comunicação

interpessoal (McQuail e Windahl, 2003, p.26).

Com efeito, é enganoso pensar que o processo de comunicação começa num

determinado lugar e acaba noutro. Na realidade, ele é interminável. Nós somos

pequenas centrais telefónicas recebendo e reencaminhando a grande corrente

interminável de

2003, p.26).

informação”

(Schramm, 1954,

citado por McQuail e Windahl,

Segundo Alves (2002, p.11), o processo de comunicação é constituído por cinco

elementos essenciais, passando a mensagem por cinco fases:

Decisão de

 

Codificação

 

Canal

 

Descodificação

 

Resposta

mandar uma

mandar uma da através do da mensagem interna do

da

mandar uma da através do da mensagem interna do

através do

mandar uma da através do da mensagem interna do

da mensagem

mandar uma da através do da mensagem interna do

interna do

mensagem

mensagem

qual a

pelo receptor

receptor

(Emissor)

(linguagem)

mensagem é

(Receptor)

(Feedback)

   

enviada

   

(Meio)

Figura 4: As fases da comunicação e respectivos elementos, (Alves 2000)

O emissor começa por elaborar uma ideia que pretende partilhar, ideia essa que a

seguir é codificada utilizando um código (linguagem) que seja comum ao receptor

com quem deseja partilhar a ideia; após a ideia ser codificada transforma-se numa

mensagem, sendo necessário escolher a forma pela qual ser transmitida (canal).

Recebida a mensagem pelo receptor, este descodifica a mensagem e integra-a no

seu esquema de referência repercutindo o efeito da mensagem (feedback) (Alves,

2002, p.11).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Por sua vez, a resposta por parte do receptor (feedback), permite ao emissor inferir

da eficácia da mensagem enviada e, simultaneamente, proceder à correcção da

transmissão efectuada.

A informação recebida depende, não apenas da descodificação e interpretação da

mensagem, mas também das atitudes e do quadro de referência do receptor que vai

fazer com que se interesse mais ou menos pelo assunto transmitido se esteja em

escuta activa, captando mais informação que integra nos seus esquemas de

referência, permitindo, em consequência, uma utilização mais eficaz do que lhe foi

transmitido (feedback). O feedback ou informação de retorno permite, deste modo,

ao emissor verificar se a informação foi ou não correctamente recebida.

É constituído não só pelas informações verbais que são reproduzidas, mas,

principalmente pelas repercussões emocionais observadas através dos sinais não

verbais (Alves 2002, p.12).

Devemos lembrar-nos de que, quando as pessoas falam, usam símbolos vocais

arbitrários

para

descrever

algo

que

aconteceu

ou

poderia

ter

acontecido.

É

necessário não esquecer também que não há forçosamente uma ligação entre

essas simbolizações e o que acontece (Hall, 1994, p.115).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.4. Formas e tipos de comunicação

O acto comunicativo é a mais pequena unidade capaz de fazer parte de uma troca

comunicativa e que uma pessoa pode realizar com uma única e bem definida

intenção. Pode ser constituído apenas pela emissão de uma única palavra ou de um

só gesto; mas é mais frequente compor-se de uma combinação de elementos

verbais e não-verbais (Bitti e Zani, 1993, p.25).

Podemos

distinguir

dois

tipos

de

comunicação

definidos

pelo

receptor.

A

comunicação intra-pessoal ou diálogo interno, em que o nosso o interlocutor somos

nós mesmos e a comunicação inter-pessoal, quando o receptor é alguém exterior a

nós. Este tipo de comunicação será o nosso objecto de estudo. A comunicação inter-

pessoal pode ser verbal ou não verbal.

“A conversação é um fenómeno de comunicação por vários canais que envolve

sinais verbais e não verbais numa relação altamente estruturada. A linguagem é,

obviamente, a actividade central neste tipo de interacção social, ainda que, muito

oportunamente, vários autores ponham em evidência a importância e a função dos

sinais não-verbais, quer do tipo vocal (qualidades da voz, entoação, pausas) quer do

tipo não-vocal (olhar, expressão facial, gestos, posturas e movimentos do corpo)

(Bitti e Zani, 1993, p.187).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.5. Comunicação verbal

A linguagem verbal não esgota todas as modalidades da relação comunicacional.

Porém, é na interlocução que encontramos o modelo da relação comunicacional, já

que é no discurso que todas as outras modalidades comunicacionais encontram a

sua

tradução

eventual.

O

mesmo

autor

define

comunicação

verbal

como,

interlocução envolvendo vários intervenientes que utilizam a linguagem, oral ou

escrita, para se relacionarem entre si. A comunicação verbal pode ser em presença,

isto é, face a face, ou à distância(Adriano Rodrigues, 2000, p.29).

A comunicação verbal congrega quase sempre uma intenção deliberada: transmitir

uma mensagem a alguém em algum lugar, sem contemplar se a mensagem é

recebida ou compreendida por aqueles a que é dirigida

1993, p.59).

(Ellis e McClintock,

Aranguren (1975, p.12), diz que o método mais completo de comunicação entre

pessoas é obviamente a linguagem verbal. Esta é usada quando duas ou mais

pessoas

estão em

comunicação,

sendo um evento social; nenhum dos dois

locutores inventou o meio de comunicação que está utilizando, mas cada um

adquiriu-o do grupo ou da sociedade a que pertence.

A linguagem verbal utiliza palavras com significado próprio, num conjunto de regras

gramaticais que permitem conjugar eficazmente o sentido da nossa mensagem.

Essa

comunicação

poderá

ser

escrita

ou

oral.

Todas

as

outras

formas

de

I Capítulo: As Relações Interpessoais

comunicação que não reúnem estas características, como a linguagem gestual,

codificada ou simbólica, táctil, por sinais (visuais ou acústica), por acção e química,

chamam-se comunicação não verbal ou, em abreviatura, CNV (Cardim, 1990, citado

por Figueiredo, 2000, p.29).

Como refere Johnson-Laird (1990, p.11), “Os processos que nos permitem falar e

compreender uma linguagem operam a todos os níveis desde a identificação dos

sons do discurso individual até às rápidas inferências automáticas que fazemos para

descarnar o conteúdo explícito do que é dito. Estas inferências são vitais porque o

uso da linguagem está quase sempre dependente do contexto e particularmente dos

pressupostos subjacentes partilhados pelo orador e pelo ouvinte.”

Na

sociedade

actual,

o

ser

humano

relaciona-se

através

de

dois

níveis

de

comunicação: o verbal e o não verbal. A comunicação verbal é a forma discursiva,

falada ou escrita, na qual mensagens, ideias ou estados emocionais são expressos.

A comunicação humana não verbal é a forma não discursiva, efectuada através de

vários canais de comunicação (Mesquita, 1997, p.158-159).

“A

comunicação

humana

normalmente

começa

e

acaba

com

mensagens

conscientes,

mas

os

processos

mentais

implícitos

são

quase

totalmente

inconscientes(Johnson-Laird, 1990, p.15).

Deve-se ter em conta o aspecto verbal da comunicação, que compreende a

informação e a maneira de apresentar a informação e também os aspectos não-

I Capítulo: As Relações Interpessoais

verbais da comunicação, porque certas mímicas, certos sinais gestuais são os

indicadores de um estado, os índices de uma intencionalidade; estas formas não

verbais de expressão como o sorriso, o olhar, o franzir do sobrolho, o trejeito, os

movimentos da cabeça, que aprovam ou desaprovam, os gestos da mão dos dedos,

e muitos outros mais, são espontaneamente descodificados pelos alunos em sinais

positivos, negativos ou neutros (Postic, 1984, p. 131).

Ellis e McClintock (1993, p.57), menciona que as palavras utilizadas se consideram

como comunicação verbal, já todos os outros signos pertencem à categoria de CNV,

que de seguida apresentamos.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.6. Comunicação não verbal

A comunicação não verbal é parte integrante de um sistema de interacção que se

encontra no diálogo entre indivíduos. As mímicas e expressões faciais, gestos e

posturas

corporais

fazem

parte

de

um

conjunto

essencial

de

formas

de

acompanhamento

da

conversação

e

da

expressão

da

afectividade

(Cosnier,

1998, p.143).

O facto de ser possível confiar palavras ao papel sem qualquer aparente perda de

inteligibilidade

sugere

que

de

facto

existe

uma

divisão

concreta

entre

as

componentes lexical e não verbal da comunicação humana e que as chamadas

variantes cinéticas são apenas opcionais. Contudo, esta conclusão despreza a

distinção fundamental entre o significado de uma afirmação e o significado que o

orador deseja transmitir com essa afirmação; é importante compreender que aquilo

que o orador deseja exprimir é quase sempre definido pelos factores que se perdem

no processo de transcrição (Miller, 1990, p.116).

Segundo George Herbert Mead, a conversação por gestos está na origem de

qualquer linguagem. Ela é o modelo de qualquer comunicação, já que comporta dois

aspectos de qualquer processo social: a reacção de adaptação do outro e a

antecipação do resultado do acto (Cook, 1993, p.84-85).

A comunicação humana processa-se como um jogo intricado entre a fala e outros

modos

de

comunicação.

Quando

falamos

uns

com

os

outros,

quando

nos

I Capítulo: As Relações Interpessoais

empenhamos

numa

comunicação

plena

de

conteúdos,

atitudes,

personalidade (Johnson-Laird, 1990, p.11).

emoções

e

A espécie humana, antes da evolução da linguagem, comunicava através dos seus

corpos, gestos e grunhidos, estes, eram os meios de que dispunha para a

compreensão mútua, ou seja, a comunicação efectuava-se através de canais não-

verbais.

A

espécie

humana,

como

consequência

do

seu

processo

evolutivo,

elaborou e dominou códigos, articulados entre si, que foram e são utilizados tanto

para a comunicação oral, como para a escrita (Davis, 1979).

Como refere Fiske (1993, p.95), a comunicação não verbal realiza-se através de

códigos apresentativos como os gestos, os movimentos dos olhos ou os tons de voz.

Estes códigos apenas podem transmitir mensagens acerca do aquie agora. O

meu tom de voz pode indicar a minha presente atitude relativamente ao tema e ao

meu ouvinte, mas não pode emitir uma mensagem sobre a minha disposição na

semana passada. Os códigos apresentativos estão pois, limitados à comunicação

frente a frente ou à comunicação onde o comunicador está presente ou onde o

emissor e o receptor estão presentes.

Para Adriano Rodrigues (2000, p.33), a comunicação não verbal é uma interacção

que envolve vários intervenientes e utiliza formas de expressão não verbais, como a

mímica, o gesto, a imagem, o desenho, o grafismo.

O conceito de comunicação não verbal é um dos assuntos muito focados e

discutidos na literatura por diversos autores. Segundo Rector & Trinta (1985, citado

I Capítulo: As Relações Interpessoais

por Mesquita, 1997, p.158), alguns fazem objecção ao termo não verbal por ser

abrangente e pela oposição que faz ao componente verbal da comunicação

humana. Outros utilizam o termo interacção comunicativa frente a frente ou ainda

consideram a comunicação não verbal como actividade expressiva aquém das

palavras.

A comunicação não verbal é definida como os diferentes meios existentes de

comunicação entre seres vivos que não utilizam a linguagem escrita, falada ou os

seus derivados não-sonoros (Corraze, 1982).

Uma compilação de várias definições revelou que é CNV, qualquer movimento

corporal, postura, gesto, toque, expressão facial, tipo de sentar, movimento dos

olhos, característica vocal, vestuário ou adorno que, de certo modo, manifestem

sentimentos, atitudes, emoções ou comportamentos dirigidos para outra pessoa ou

grupo de pessoas” (Costa et all, 1994, p.27).

De acordo com Corraze (1982), para o ser humano as comunicações não verbais

processam-se através de três bases. A primeira é o corpo, nas suas qualidades

físicas, fisiológicas e nos seus movimentos. A segunda, no homem, ou seja, objectos

associados ao corpo como os adornos, as roupas, de rituais ou não; nesta base

ainda podem ser relacionados os produtos da habilidade humana que podem servir

à comunicação. Finalmente, a terceira base refere-se a dispersão dos indivíduos no

espaço. Este espaço engloba desde o espaço físico que cerca o corpo até ao

espaço a que ele se relacione, o espaço territorial.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Argyle (1972, p.245 - 251), estudioso e pesquisador dos comportamentos não

verbais, ao abordar o sistema não verbal, não apresenta a categorização de bases

mas sim distingue os seguintes canais:

1. Contacto físico; quem tocamos, onde e quando o fazemos parece transmitir

importantes mensagens sobre o relacionamento.

2. Proximidade; o grau de proximidade com que nos acercamos de alguém pode

transmitir uma mensagem quanto ao relacionamento que temos com essa

pessoa.

3. Orientação; o ângulo em que nos colocamos relativamente aos outros é uma

forma de emitir mensagens sobre o seu relacionamento.

4. Aparência; este código é dividido em duas partes: os aspectos sujeitos a

controlo voluntário, como por exemplo o cabelo, vestuário, etc.; e os menos

controláveis, como o peso a altura,etc.

5. Movimentos da cabeça; estes têm a ver, principalmente, com a gestão da

interacção.

6. Expressão facial; esta pode dividir-se em subcódigos do formato dos olhos,

formato da boca, posição das sobrancelhas e tamanho das narinas.

7. Gestos,

os

gestos

da

mão,

braços,

pés

e

cabeça

estão

intimamente

coordenados com a fala e complementam a comunicação verbal, podendo

indicar

estimulação

específicos.

emocional

em

geral

como

estados

emocionais

8. Postura; as formas como nos sentamos, levantamos ou deitamos, podem

comunicar uma porção limitada, mas interessante, de significados; a postura

I Capítulo: As Relações Interpessoais

relaciona-se com atitudes interpessoais, pode também indiciar um estado

emocional.

9. Movimento dos olhos e contacto visual; a duração, frequência e ocasião de

um

olhar

é

uma

forma

de

enviar

mensagens

importantes

sobre

o

relacionamento,

especialmente

para

mostrar

que

desejamos

que

esse

relacionamento seja de domínio ou de aliança; estabelecer um contacto visual

durante a primeira fase de um acto verbal indica o desejo de dominar o

ouvinte, o contacto visual posterior ou após um acto verbal indica mais uma

relação de aliança, um desejo de feedback, para observar como o ouvinte

está a reagir.

10. Os códigos paralinguísticos, que comunicam informação sobre o orador,

como por exemplo: o volume, o tom, o sotaque, a velocidade e erros de fala

indicam o estado emocional, a personalidade, o estatuto social, etc.

Knapp (1982), especialista neste campo das comunicações não-verbais, apresenta o

seguinte esquema de classificação da conduta não verbal. Esta classificação é

dividida em sete áreas de acordo com a literatura ou com as investigações

científicas. As áreas são:

a) Movimento corporal ou cinésica (emblemas, ilustradores, expressões

de afecto, reguladores e adaptadores);

b) Características físicas;

c) Comportamentos tácteis;

d) Paralinguagem (qualidades vocais, vocalização);

e) Proxémica;

I Capítulo: As Relações Interpessoais

f) Artefactos;

g) Meio ambiente.

Assim, os canais de comunicação do nível não verbal podem ser classificados em

dois grupos: o primeiro, que se refere ao corpo e ao movimento do ser humano e o

segundo, relativo ao produto das acções humanas. O primeiro apresenta diferentes

unidades expressivas como a face, o olhar, o odor, a paralinguagem, os gestos, as

acções e a postura. O segundo também apresenta várias unidades de expressão

como a moda, os objectos do quotidiano e da arte, até a própria organização dos

espaços: físico (pessoal e grupal) e ambiental (doméstico, urbano e rural).

Esta diversidade na categorização das condutas não verbais é reflexo da difícil

tarefa de conceituar ou classificar um determinado fenómeno. No entanto, a

diversidade de posicionamento permite verificar diferentes aspectos de uma mesma

temática e possibilita um leque maior de enfoques e reflexões.

Os gestos e os movimentos fazem parte dos inúmeros canais de comunicação que o

ser humano utiliza para expressar suas emoções e a sua personalidade, comunicar

atitudes

interpessoais,

transmitir

informações

nas

cerimónias, nos

rituais, nas

propagandas, nos encontros sociais e políticos e demonstrações de arte (Argyle,

1972, p.249).

Pesquisadores de diferentes áreas da ciência preocupam-se e dedicam-se ao

estudo da comunicação não verbal humana. Birdwhistell (1970), um dos grandes

I Capítulo: As Relações Interpessoais

especialistas neste campo de investigação, afirma que a comunicação entre pessoas

não se restringe à capacidade de codificar e descodificar sinais como um aparelho

emissor e receptor, ela é, antes de tudo, uma negociação, um acto criativo.

A comunicação não verbal, como um meio de transmissão e recepção de uma

mensagem, como um meio de interacção e entendimento entre os seres humanos,

não pode ser desvinculada do contexto individual ou de natureza social ao qual

pertence a informação. Grande parte das informações que são geradas e emitidas

por esses canais não verbais situa-se abaixo do nível da consciência (Davis, 1979).

Birdwhistell (1970) concluiu, através de seus estudos, que a relevância das palavras

numa

interacção

entre

pessoas

é

apenas

indirecta,

pois

grande

parte

da

comunicação processa-se num nível abaixo da consciência. Segundo este autor,

apenas 35% do significado social de uma conversa corresponde às palavras

pronunciadas, os outros 65% seriam correspondentes aos canais de comunicação

não verbal.

Segundo Rector & Trinta (1985, citado por Mesquita, 1997, p.159), os trabalhos de

Mehrabian e, mais recentemente, os de Appebaum e colaboradores mostraram que

a percentagem de comunicação não verbal na transmissão de qualquer mensagem,

numa interacção entre indivíduos, é muito elevada. Os estudos de Mehrabian

indicam que o verbal é responsável somente por 7% da eficácia da comunicação, o

para-verbal por 38% e o não verbal pelos 55% restantes.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Estas percentagens evidenciam que as relações interpessoais estão, muito mais

sujeitas às comunicações não verbais que, na verdade, ultrapassam o limiar do

corpo (movimento, roupas, ambiente, etc.). Esses meios são mais exactos e

fidedignos do que as palavras, pois não estão sujeitos ao controle da consciência.

Knapp (1982), diz que a habilidade de emitir e receber sinais não verbais é

decorrente da aprendizagem e da prática no decorrer da vida quotidiana. Esta

aprendizagem pode ocorrer por imitação, auto-modelação, adaptação às instruções

e retroalimentação a partir das reacções de outros indivíduos. Alguns factores têm

sido considerados no desenvolvimento das habilidades não verbais.

São eles:

a) Motivação;

b) Atitude;

c) Experiência;

d) Conhecimento.

Estes dois níveis de comunicação, o verbal e o não verbal, podem apresentar-se e

actuar simultaneamente nas interacções entre indivíduos, complementando-se ou

contrapondo-se no discurso. Em determinadas situações sócio-culturais, poderá

ocorrer uma justaposição de um nível sobre o outro como, por exemplo, nas

conversas telefónicas onde a fala está mais presente, embora a paralinguagem, um

dos canais não verbais, esteja também agindo. Por outro lado, quando se assiste a

uma peça de teatro, uma demonstração de ginástica ou a um espectáculo de dança,

o corpo e o movimento podem ser a forma mais privilegiada de comunicação. Assim,

I Capítulo: As Relações Interpessoais

a linguagem verbal pode ser usada para ampliar a não verbal e vice-versa

(Mesquita, 1997, p.159).

Estas duas formas de comunicação podem ainda corresponder no seu conteúdo

expresso ou ser discordantes, criando divisões entre o que o indivíduo está

verbalizando e o que seu corpo e movimento estão exprimindo (Corraze, 1982).

Uma das razões, do grande interesse pelos estudos da comunicação não verbal

pode estar, provavelmente, relacionado com a sua importância e representatividade

no processo de relacionamento e compreensão mútua entre seres humanos. Esta

importância é evidenciada pelo papel que a comunicação não verbal desempenha

no sistema global de comunicação, a enorme quantidade de sinais informativos que

proporciona em toda situação particular, e a que se utiliza nas áreas fundamentais

da vida quotidiana” (Knapp, 1982).

A motivação é um factor importante, pois permite que o indivíduo procure formas de

desenvolver

estas

habilidades.

Está

intrinsecamente

relacionada

com

as

necessidades da pessoa, tanto para melhorar o seu desempenho profissional, como

o seu procedimento na vida pessoal.

A atitude refere-se ao posicionamento positivo ou negativo do indivíduo frente às

suas experiências de aprendizagem. Por maior que seja a motivação para a

aprendizagem, o seu resultado também dependerá das atitudes frente a situações

vividas.

I Capítulo: As Relações Interpessoais

A

experiência

é

fundamental;

quanto

maior

for

a

variedade

das

próprias

experiências, maiores serão também as oportunidades de aprendizagem. Porém,

quando o objectivo é desenvolver habilidades, uma prática adequada (que permita

diversidade e especificidade de tarefas e processos bem como uma boa orientação

e

feedback

das

informações),

capacidades inatas do indivíduo.

auxiliará,

sem

dúvida,

o

desenvolvimento

das

Embora o conhecimento, a motivação e a atitude sejam fundamentais para o

desenvolvimento das habilidades de emitir e receber sinais não verbais, se não

ocorrer uma prática adequada as potencialidades inatas dos indivíduos não se

desenvolverão eficientemente.

“Os processos não verbais são por vezes evidentes, por vezes dissimulados. No

entanto, parece importante apreendê-los e descodificá-los, mesmo porque alguns

pesquisadores argumentaram longamente que a maioria do significado é derivado

do não verbal e não a partir de pistas verbais, especialmente o significado dos

sentimentos emocionais em qualquer situação social(Costa et all, 1994, p.27).

Mesquita

(1997,

p.162),

desenvolveu

uma

pesquisa

sobre

a

percepção

da

psicodinâmica do movimento expressivo e a actuação de profissionais das áreas da

Educação Física, Medicina e Psicologia. Os resultados da análise das entrevistas

semi-estruturadas permitiram evidenciar que os profissionais destas áreas acreditam

que conhecimento, experiência e instrumentos relativos à observação e análise de

estados mentais/emocionais através de sinais não verbais do corpo e movimento

I Capítulo: As Relações Interpessoais

podem

constituir

um

instrumental

importante

para

tornar

o

profissional

mais

habilidoso na sua percepção e descodificação de estados subjectivos, contribuindo

desta forma para melhorar a eficiência e a competência profissionais. A análise dos

discursos também permitiu concluir que o conhecimento e experiência poderiam

estar mais inter-relacionadas a algum aspecto da actuação profissional, no qual a

capacidade inconsciente para desempenhar tarefas teria maiores subsídios a partir

destes factores.

Nem toda a comunicação utiliza apenas a palavra, a comunicação não verbal joga

um

papel

fundamental

no

processo

de

comunicação.

Deste

modo,

é

muito

importante para o sucesso do treinador que ele controle as mensagens não verbais

que envia aos seus desportistas, e reconhecer as que estes lhe enviam. Quanto

mais sensível for o treinador à comunicação não verbal, mais hipóteses terá de

avaliar correctamente os sentimentos e as atitudes dos seus desportistas (Piéron,

1991, p.8).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.7. Comunicação diádica

Comunicação diádica é aquela que ocorre entre dois interlocutores.

O contexto de comunicação diádica, comunicação entre duas pessoas, representa a

mais pequena unidade de interacção humana. Quando um indivíduo chega à

presença de outros, estes, geralmente, procuram obter informação a seu respeito

(Goffman, 1996, p.11).

Goffman (1996, p.11) menciona que a informação relativa ao indivíduo serve para

definir a situação, tornando assim os outros indivíduos capazes de conhecer

antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar. Portanto ao

estarem informados, estarão mais bem preparados para agirem e obterem uma

resposta desejada.

A interacção pode ser definida como toda a interacção que ocorre em qualquer

ocasião, quando, num conjunto de indivíduos, uns se encontram na presença

imediata de outros. No caso da interacção face a face pode ser definida, como a

influência recíproca dos indivíduos sobre as acções uns dos outros, quando em

presença física imediata.

A interacção face a face é o que mais se aproxima da comunicação diádica, pois

ocorre num contexto de co-presença, em que os interlocutores partilham um mesmo

sistema referencial de espaço e tempo. Além do carácter dialéctico, ela é multicanal,

I Capítulo: As Relações Interpessoais

isto é, intervêm múltiplos canais dos quais o sujeito participa a todo instante (além do

verbal, postura, roupas, gestos, distância, olhares, entonação de voz, etc.).

Pelo contrário, a interacção mediada: implica o uso de um meio técnico e possibilita

a suplantação do eu tu aqui agora em direcção a indivíduos situados em outro

espaço e outro tempo. É o caso, por exemplo, da conversa telefónica.

Enquanto que a quase interacção mediada situa-se na comunicação de massa,

distinguindo-a das anteriores por dois factores: a) a produção dirige-se a um número

indefinido de receptores potenciais; b) diferentemente das anteriores, que são

dialécticas, a quase interacção mediada é monológica, pois o fluxo de comunicação

é predominantemente de sentido único.

“Ela cria um certo tipo de situação social na qual os indivíduos se ligam uns aos

outros num processo de comunicação e intercâmbio simbólico” (Thompson, 1999).

As interacções sociais, ao nível das relações face a face, estão sujeitas à influência

de um conjunto de variáveis de carácter manifesto ou latente, que lhes determinam,

ou pelo menos influenciam, a condução dos processos comunicacionais. Os padrões

de interacção resultantes das relações entre os indivíduos são consequência, por

um lado, da aleatoriedade humana e, por outro, da previsibilidade que a vida em

sociedade possibilita. Comunicar torna-se, assim, uma capacidade de bem gerir

mensagens, enviadas e recebidas, nos processos interaccionais. Mas não só. O

tempo, o espaço, o meio físico envolvente, o clima relacional, o corpo, os factores

históricos da vida pessoal e social de cada indivíduo em presença, as expectativas e

os sistemas de conhecimento que moldam a estrutura cognitiva de cada actor social

condicionam e determinam o jogo relacional dos seres humanos (Dias, 2001).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

A interacção é uma reacção recíproca verbal ou não verbal, temporária ou repetida

segundo uma certa frequência, pela qual o comportamento de um dos parceiros tem

uma influência sobre o comportamento do outro, ela tem lugar tanto num sistema

diádico,

no

qual

1984, p.139).

a

acção

do

docente

afecta

o

aluno

e

vice-versa

(Postic,

I Capítulo: As Relações Interpessoais

1.8. Comunicação em grupos

O ser humano é simultaneamente um ser sociável e um ser socializado. Sendo

assim, entendemos com isso que ele é, ao mesmo tempo, um sujeito que aspira

comunicar com os seus pares e, também, membro de uma sociedade que o forma e

o controla, quer ele queira ou não.

O homem tem a preocupação constante de descobrir o significado das relações

entre indivíduos e grupos de indivíduos (Hall, 1994, p.118).

A comunicação nos grupos obedece a diferentes princípios complementares da

comunicação interpessoal, assim como da interacção, do estatuto, da personalidade,

juntamente com os efeitos da dinâmica de grupo, da sua estrutura, dos seus

objectivos e da sua identidade colectiva (Cabin, 1998, p.203).

“Para

determinar

a

eficiência

da

comunicação

num

determinado

contexto,

é

necessário ter em conta os valores em causa e a identidade do grupo cuja posição

está a ser estudada” (Lasswell, 1948, p.55).

O conceito de grupo está associado a um conjunto de elementos que participam na

identificação dos seus membros, situa o grupo num quadro de interdependência,

visto que as características que permitem a identificação dos membros do grupo

adquirem o seu significado através da comparação social (Jesuíno, 1996, p.260).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

Não especificado por um adjectivo ou pelo seu contexto de utilização, a palavra

”grupo”, é quase vazia de sentido, porquanto pode aplicar-se a conjuntos diferentes

pela sua dimensão, pela sua duração, pelo seu grau de inter-conhecimento e de

organização (Boudon et all, 1990, p.115).

Partilhando a opinião de Bar-Tal, (Morales, 1994, p.688) diz que as condições

necessárias e suficientes para que um determinado colectivo se converta num grupo

são três: 1) que os componentes desse colectivo se definam como membros do

grupo, 2) que compartilhem as crenças grupais, 3) que exista alguma relação de

actividade coordenada.

Cooley (1938), distinguiu grupos primários de grupos secundários, definindo grupos

primários como uma associação relativamente permanente e não especializada de

um número restrito de indivíduos unidos por relações directas, ou seja, frente a

frente, e bastante íntimas. São caracterizados por uma íntima cooperação e

associação face a face. São primários sob vários aspectos, principalmente porque

são fundamentais na formação da natureza social e nos ideais do indivíduo. O

resultado dessa associação íntima é, psicologicamente, a fusão das individualidades

num todo comum, de modo que o próprio ego individual se identifica, pelo menos

para vários fins, com vida e os propósitos comuns ao grupo.

Grupos primários são unidades sociais cujos membros comunicam directamente,

sendo a relação entre eles presencial; predominam as relações pessoais, directas e

I Capítulo: As Relações Interpessoais

espontâneas. Estes grupos normalmente são pequenos e o contacto entre os

membros do grupo é frequente, ex.: uma família, uma turma, um grupo de amigos.

Grupos

secundários

são

unidades

sociais

cujos

membros

comunicam

mais

indirectamente, sendo escassa a vinculação afectiva. Os contactos directos são

passageiros e pouco envolventes, ex.: um sindicato, uma empresa, um partido

político.

“A determinação das percepções, das opiniões, das atitudes e, portanto, dos

comportamentos

dos

indivíduos

depende

consideravelmente

dos

grupos

«primários», isto é, dos grupos muito pequenos, grupos de amigos, de colegas, etc.,

mas sobretudo, a família” (Burgelin, 1970, p.271).

Dentro de um determinado micro grupo, cada membro pode estar em comunicação

directa com todos os outros, colectivamente ou individualmente, ou talvez seja

invulgar comunicar-se directamente com qualquer deles, mas sim com frequência,

indirectamente, por meio de alguém que está em contacto com todos (Aranguren,

1975, p.95).

Se

a

comunicação

integral

entre

duas

pessoas

pode

não

oferecer

grandes

dificuldades o mesmo não se poderá dizer quando o número de intervenientes

aumentar, isto é, quando um emissor fala para vários receptores num discurso

(Lampreia, 1983, p.26).

I Capítulo: As Relações Interpessoais

À