Você está na página 1de 3

Ernest Mandel: O Capitalismo Tardio. Nova Cultural. São Paulo. 1985. Cap. 16 (“A ideologia na fase do capitalismo tardio”). P. 351 a P. 357.

Editado por Ney Jansen

Assim como a marcha triunfal do capitalismo ascendente foi seguida de uma convicção profunda da onipotência e excelência da concorrência, a retirada do capitalismo decadente está sendo acompanhada pela proclamação generalizada das vantagens da organização. A expressão mais óbvia dessa “crença na organização” é o ideal capitalista tardio de uma “sociedade arregimentada”, onde cada um tem (e mantém) o seu lugar, enquanto os legisladores visíveis e invisíveis asseguram o crescimento estável e contínuo da economia, dividem os benefícios desse crescimento de maneira mais ou menos “equitativa” entre todas as classes sociais e protegem um número cada vez maior de setores do crescimento econômico e social das repercussões de uma

A crença na onipotência da tecnologia é a forma específica da

ideologia burguesa do capitalismo tardio. Essa ideologia proclama a capacidade que tem a ordem social vigente de eliminar gradualmente todas as possibilidades de crise, encontrar uma solução “técnica” para todas as suas contradições, integrar as classes sociais rebeldes e evitar explosões

políticas. A noção de uma “sociedade pós-industrial” (Daniel Bell), na qual se supõe que a estrutura social é dominada por normas de racionalidade funcional, corresponde à mesma

tendência ideológica. Nas “camadas superiores”, ela se expressa por meio de um estruturalismo estático que herdou de Hegel a categoria de totalidade, mas não a de movimento ( ) A ideologia da organização é um reflexo direto do capitalismo tardio, em que a sociedade

burguesa não pode viver sem a função controladora do Estado. (

unidimensional (Marcuse) parece inteiramente predeterminado. Mas na realidade, o capitalismo tardio não é de forma alguma uma sociedade completamente organizada. É apenas uma combinação híbrida e bastarda de organização e anarquia. O valor de troca e a concorrência não foram abolidos de maneira alguma. Em nenhum sentido a economia baseia-se em produção planejada de valores de uso destinados a satisfazer as necessidades do homem. A busca de lucro e a valorização do capital continuam sendo o motor de todo o processo econômico, com todas as contradições não resolvidas que elas geram de modo inexorável. Na estrutura dessa ordem econômica de capitalismo privado, a direção e a orientação estatal da economia são apenas paliativos para remendar as rachaduras e adiar as explosões. ( A tese da abolição, reconciliação ou repressão de todas as contradições fim de todas as ideologias (Daniel Bell)- não passa, ela mesma, de ideologia ou falsa consciência. Sua função objetiva é convencer as vítimas do trabalho alienado que não faz sentido rebelar-se contra ele. ( )

A ideologia do “racionalismo tecnológico” pode ser apresentada como uma mistificação

O destino do homem

economia de mercado “pura”. (

)

)

Kofler. Todo burguês e muitos teóricos que se consideram marxistas apregoam a onipotência da tecnologia, elevando-a a um mecanismo completamente independente de todos os objetivos e decisões humanas, que age independente da estrutura e da dominação de classe, de forma

automática, como uma lei natural. A distinção entre história natural e história humana, essencial para o materialismo histórico, na verdade desaparece. Desse modo Habermas, endossando a tese

de Gehlen (

)

chega a conclusão equivocada de que:

“na medida de que a organização da natureza humana não muda, e que temos de manter viva por meio do trabalho social e de instrumentos que são substitutos do trabalho, é impossível ver como poderíamos algum dia nos descartamos da tecnologia, na verdade de nossa tecnologia, para uma tecnologia qualitativamente diferente. (HABERMAS, Jurgen. Técnica e Ciência como Ideologia).

Continua sendo um mistério por que homens e mulheres em condições sociais

diferentes, cada vez mais liberados do trabalho mecânico e desenvolvendo progressivamente suas capacidades criativas, não conseguiram promover uma tecnologia que respondesse às necessidades de uma “individualidade rica”. Commoner, ao contrário de Habermas, mostrou de forma convincente, a partir de exemplos de mau uso de fertilizantes químicos, da difusão de detergentes e da poluição do ar, que ameaças ao meio ambiente não respondem a nenhuma “necessidade técnica”, mas sim a decisões tecnológicas perniciosas determinadas por interesses privados perniciosas do ponto de vista dos interesses da humanidade-. E chega a seguinte conclusão:

“A terra não está poluída por que o homem seja uma espécie animal particularmente suja, nem porque sejamos muitos numerosos. O erro está na sociedade humana nas formas que a sociedade escolheu para ganhar, distribuir e usar a riqueza extraída do planeta pelo trabalho humano. Assim que as origens sociais de crise se tornarem claras, podemos começar a planejar ações sociais adequadas para resolvê-las. (COMMONER, Barry. The Closing Circle: Nature, Man and Technology”)

a ideologia da “racionalidade técnica” é incompleta, e por isso completamente Essa ideologia substitui a fé ingênua na perfeição do homem, característica da

burguesia ascendente dos séculos XVIII e XIX, pela “certeza” da “natureza” agressiva e

incoerente. (

) (

) (

)

incorrigivelmente má do homem. Um neodarwinismo grosseiro, um profundo pessimismo em relação à cultura e à civilização e uma misantropia fundamental servem de suporte auxiliar à ideologia da “racionalidade técnica” em sua justificativa global da ordem social vigente.

a suposta “integração” da classe operária à sociedade capitalista tardia depara-se

inevitavelmente com uma barreira intransponível –a incapacidade que tem o capital de “integrar” o trabalhador como produtor em seu local de trabalho e proporcionar-lhe um trabalho criativo, ao

invés do trabalho alienado, como meio de auto-realização. Os acontecimentos na Europa e fora

dela desde a rebelião francesa de maio de 1968 demonstram isso claramente. ( má interpretação dos fatos que levou Adorno a afirmar:

“O gesto pseudo revolucionário é o complemento da impossibilidade técnica e militar de uma revolução espontânea, sugerida anos atrás por Jurgen Von Kempki. Contra aqueles que controlam a bomba, as barricadas são ridículas; brinca-se, portanto, de barricadas, e os senhores deixam que se brinque à vontade durante algum tempo. (ADORNO, Theodor. “Marginalien zu Theorie und Praxis”)

) Foi uma trágica

) (

Adorno não conseguiu entender que a “tecnologia militar” não pode ser aplicada independentemente de pessoas vivas engajadas nas atividades sociais. Em última análise, Auschwitz e Hiroschima não foram produtos da tecnologia, mas sim das relações de forças

sociais em outras palavras, foram o ponto final (provisório) das grandes derrotas históricas do

proletariado internacional, depois de 1917. (

“tecnologia militar”, mas sim a crescente resistência à guerra por parte da população norte- americana que limitou o tipo de armas que os “senhores” podem desenvolver. Ao mesmo tempo, as barricadas nas quais os estudantes franceses supostamente “brincaram”, em maio de 1968, desencadearam uma greve de massa de 10 milhões de trabalhadores, empregados e técnicos, e provaram, por sua vez, que, dado certo equilíbrio de forças políticas e sociais, o uso de meios de repressão mortíferos, torna-se impossível ou não funciona nas ruas. ( )

Os filósofos que se tornam vítimas do fetichismo da tecnologia e superestimam a capacidade que tem o capitalismo tardio de conseguir a integração das massas se esquecem, de maneira característica, da contradição fundamental entre valor de uso e valor de troca, que

dilacera o capitalismo. (

“tudo” em mercadoria, inclusive a literatura marxista revolucionária. ( )

Pois a

pressão no sentido de cálculo e da quantificação exatos dos processos econômicos, gerada pela universalização da produção de mercadorias, vai de encontro à barreira instransponível da propriedade privada e da concorrência capitalista ( ) Essa contradição se manifesta no fato de que medidas microeconômicas tomadas pelos empresários com base em “cálculos racionais” levam inevitavelmente a resultados macroeconômicos que conflitam com elas. Todo boom de investimentos leva à supercapacidade e a superprodução. Toda aceleração na acumulação de capital acaba de levar à desvalorização do capital. Toda tentativa feita pelo empresário para “aumentar” sua taxa de lucro, forçando uma baixa nos custos de produção, leva, ao final, uma queda na taxa média de lucro. Se, em última instância a racionalidade econômica é considerada economia do tempo de trabalho poupança de trabalho humano- então a contradição inerente ao capitalismo entre a racionalidade parcial e a irracionalidade total ressurge no paradoxo de que a compulsão de poupar a maior quantidade possível de trabalho humano na fábrica ou empresa leva à um desperdício crescente de trabalho humano na sociedade como um todo. ( ) Godelier está evidentemente certo ao criticar Lange e outros autores por absolutizar o conceito de “racionalidade econômica” derivado de Weber e por postular regras universalmente válidas de “comportamento racional” abstraídas da estrutura concreta da economia e da sociedade. ( )

Fazem grande rebuliço em torno do fato de o capital transformar

A Guerra do Vietnã mostrou que não foi a

)

)

(

)

a ideologia da racionalidade tecnológica não passa de mistificação. (

)