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Perícia antropológica no MPU:

um breve estudo do caso de Alagoas

Romero Galvão Maia

A justiça necessária a uma situação de litígio está na razão direta da formação da convicção judicial acerca do contexto relativo. A atuação do Ministério Público da União (MPU) visa à efetivação da justiça por meio de sua vocação ao trabalho em prol dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Estes não estão vinculados necessariamente ao interesse manifesto de uma pessoa isolada, nem de grupos

delimitados, mas de uma série indeterminada de cidadãos sobre os quais se reconhece direitos inalienáveis. Uma vez reconhecidos esses direitos que são relevantes para toda a sociedade, resta ao Judiciário a complexa tarefa de determinar a justiça, considerando o contexto no qual o litígio se apresenta.

O esclarecimento sobre tal contexto só terá validade e confiabilidade quando

fundamentado em investigação científica apropriada, isto é, que faz uso de métodos especiais e aprovados pela tradição acadêmica para solucionar problemas de conhecimento, questões teóricas ou práticas. Como dito acima, o contexto é relativo. Toda análise de contextos litigiosos sói demandar perícias interdisciplinares. Porém, quando se discute, em juízo, questões relacionadas especialmente aos direitos dos índios

e de remanescentes de quilombos, temos a Antropologia como a ciência mais adequada para a fundamentação da decisão jurídica.

A análise antropológica, quando acrescida aos autos, fornece a segunda faceta

inerente ao trabalho de juiz, a saber, a decisão social 1 . Um julgamento que se quer justo

faz bem mais que meramente aplicar a lei. Se apenas a isso se resumisse a incumbência de um juiz, “um processador autômato de informações, alimentado de códigos, tendo na sua entrada o caso e, na sua saída, a sentença, faria melhor” (CASSANO Jr., 2007) 2 . A relevância do humano na decisão é, tal qual afirmou certa vez o famoso enxadrista

Aprovado em 1º lugar no 5º concurso público federal (2007) do Ministério Público da União para o cargo de Analista Pericial em Antropologia, com lotação em Alagoas. E-mail: romeromaia@gmail.com 1 No sentido utilizado por: BORGES, Wilson Hilário. Decisão social e decisão jurídica: uma teoria crítico-historicista. São Paulo: Germinal, 2000. 2 CASSANO Jr., Luiz Carlos. A decisão do juiz. Rio de Janeiro: Revista da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, nº 19, 2007.

Kasparov, que o homem é capaz de julgar as regras às quais se sujeita, enquanto uma máquina limitar-se-ia a aplicá-las de forma lógica e rigorosa. “O ato de julgar pressupõe, portanto, uma reflexão a respeito das regras, seja da sua validade e pertinência para a situação singular que se apresenta, seja na forma específica e adaptada de aplicação, para atender as peculiaridades imprevistas destas situações” (idem).

A demanda sociojudicial para serviços de perícia antropológica capazes de legitimar cientificamente a decisão jurídica é premente no Brasil. Até 2004, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) contava 620 terras indígenas em situação de conflito no Brasil, sendo a região Nordeste a segunda mais afetada com 15% dos focos de tensão. A FUNAI também aponta a principal motivação dos litígios envolvendo indígenas: “Em primeiro lugar, com 36% dos casos, estão fazendeiros, agricultores e posseiros” 3 . Em Alagoas há cerca de 20.000 índios divididos em onze etnias, a saber: Aconã (Traipu), Geripancó (Pariconha), Kalankó (Água Branca), Karapotó (São Sebastião), Kariri-Xocó (Porto Real do Colégio), Karuazú (Pariconha), Katoquim (Pariconha), Koiupanká (Inhapi), Tingui-Botó (Feira Grande), Xucuru-Kariri (Palmeira dos Índios) e Wassu Cocal (Joaquim Gomes). 4 Em todos esses territórios indígenas vemos um cenário grave de violação de direitos. Na área indígena de Traipu há sérios problemas de esgotamento sanitário, como relatado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. 5 Além disso, sabe-se que a área apresenta uma das mais baixas pontuações do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano. 6 Em Pariconha e Água Branca, os índios se dedicam à reivindicação pelo direito a demarcação de suas terras. 7 Neste caso, é pré-requisito o reconhecimento formal das tribos locais como nações indígenas. Tal processo, e isso é de conhecimento geral, exige a atuação de uma perícia antropológica. Mas o trabalho de análise de um antropólogo no MPU não se encerra aí. Em Inhapi, por exemplo, há um

3 Disponível em< http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/brasil/2004/04/21/jorbra20040421011.html>. Acesso em 9 mar. 2009.

4 Disponível em: <http://www.indiosonline.org.br/blogs/index.php?blog=12&p=2786&more=1&c=1>. Acesso em 9 mar. 2009.

5 Disponível em: <http://www.saofrancisco.cbh.gov.br/DOCZ/20.06.02%20- %20Relat%C3%B3rio%20Encontro%20Regional-%20Pendedo%20-AL.doc>. Acesso em 9 mar. 2009.

6 Disponível em <http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=171733>. Acesso em 9 mar. 2009.

7 Disponível em: <http://anteriores.gazetaweb.com/2001/Abr/26/col/geral/geral.htm>. Acesso em 9 mar.

2009.

forte déficit educacional, 8 o que faz necessário um estudo sobre as tradições da etnia que viabilize, entre outras coisas, construção de escolas apropriadas, bem como a capacitação de pedagogos especializados. Segundo a agência BBC Brasil, a população não tinha qualquer contato com a língua escrita até 1997, quando o Programa Alfabetização Solidária foi iniciado. 9 Em São Sebastião, ano passado, foi descoberto um cenário desolador de subnutrição. Na aldeia Taboado, por exemplo, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) identificou que 90% das famílias vivem permanentemente em situação de fome e insegurança alimentar. 10 Os Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio experimentam o fracasso da municipalização da saúde. A suspeita é ingerência dos prefeitos e desvio de verba pública 11 . Os Tingui-Botó, reconhecidos como índios desde 1980, por Clovis Antunes, antropólogo da UFAL, seguem até hoje em conflitos de posse de terras por direito imemorial. 12 Em Palmeira dos Índios, verifica-se o sentimento generalizado de abandono dos indígenas à própria sorte ante os conflitos com grileiros e posseiros. “Estes (os índios) ficaram com uma parcela mínima das terras que, por direito, são suas e vivem em um espaço cada vez mais restrito”, assevera o jornalista David Motta. 13 Por último, não menos importante, há o relato, feito pela própria assessoria de imprensa do MPU em Alagoas, sobre os índios em Joaquim Gomes. Os Wassu Cocal já chegaram a bloquear a BR-101 em protesto contra o corte no fornecimento das cestas básicas distribuídas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a falta de incentivos à agricultura nas terras da aldeia por parte da FUNAI. Há a denuncia de que os Wassu Cocal estariam passando por extrema carência alimentar. 14

8 Disponível em: <http://www.achanoticias.com.br/noticia.kmf?noticia=5832800>. Acesso em 9 mar.

2009.

9 Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/depai05.htm>. Acesso em 9 mar. 2009.

10 Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=153543>. Acesso em 9

mar. 2009.

11 Disponível em: <http://anteriores.gazetaweb.com/2002/Fev/17/col/geral/geral.htm>. Acesso em 9 mar.

2009.

12 Disponível em:

<http://www.mj.gov.br/data/Pages/MJA63EBC0EITEMID69CF458FB7D54593972D3EFB9CE731CDP

TBRIE.htm>. Acesso em 9 mar. 2009.

13 Disponível em: <http://www.achanoticias.com.br/noticia.kmf?noticia=7132378>. Acesso em 9 mar.

2009.

14 Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/c/noticias?id=5726> e em:

<http://74.125.47.132/search?q=cache:yTBTivS2OToJ:www.pral.mpf.gov.br/noticias/home/mpf_se_rene

_com_lideranas_wassu_cocal_na_quarta-feira/+wassu+cocal+site:http://www.pral.mpf.gov.br&hl=pt-

BR&ct=clnk&cd=1&gl=br&client=firefox-a>. Acesso em 9 mar. 2009.

Diante do exposto, um flagrante desrespeito à lei e ao bem-estar jurídico (garantia dos direitos) das minorias, torna-se premente a qualificação máxima do trabalho do MPU na garantia da ordem jurídica e da cidadania plena desses povos. Afinal, o MPU tem a atribuição constitucional de defender em juízo os direitos e interesses das populações indígenas (art. 129, V). E mais: cabe ao MPU a proteção específica da organização social, dos costumes, das línguas, das crenças, das tradições, dos direitos originários sobre as terras dos índios. As demandas sociais elencadas acima são graves e urgentes. Todavia, poderia-se observar que o MPU em Alagoas tem um quadro de funcionários numericamente adequado para tal tarefa. Restando apenas encontrar alguma forma mais eficiente de realização de seu trabalho. Contudo, este não é o caso. Vemos no mapa abaixo que das onze nações indígenas de Alagoas, 10 ficam na jurisdição de Arapiraca.

de Alagoas, 10 ficam na jurisdição de Arapiraca. Na Procuradoria da República no município de Arapiraca

Na Procuradoria da República no município de Arapiraca não há sequer um único Analista Pericial em Antropologia. É possível antever, inclusive, que mesmo se houvesse ao menos um, ainda estaria numa situação de sobrecarga diante da dinâmica indígena verificada na região. Seriam razoáveis pelo menos dois antropólogos nesta Procuradoria. Não só por causa da magnitude da demanda, mas também por causa da

qualidade diferenciada do trabalho científico-pericial quando realizado em equipe. Hoje

só há um Analista Pericial em Antropologia para todo o estado, e ele está lotado na

Procuradoria da República em Alagoas. Isto é, não é de sua competência direta a imensa maioria da demanda pela garantia dos direitos dos povos indígenas, pelo menos em tese.

Na jurisdição de Maceió só há uma etnia indígena, as saber, a Wassu Cocal.

Como se não bastasse toda a problemática indígena no estado, o rol de provocações para a atuação do MPU enquanto “defensor do povo” também inclui os litígios envolvendo comunidades remanescentes de quilombos. Segundo pesquisa da UnB, Alagoas possui 46 comunidades quilombolas. São populações negras que os estudiosos definem como remanescentes dos escravos refugiados em quilombos. 15 A

mesma fonte afirma que essas comunidades existem em 21 municípios do estado, e em muitos casos ainda esperam pelo reconhecimento oficial de suas terras. A maioria desses 21 municípios nos quais residem comunidades remanescentes

de quilombos estão sob a jurisdição de Procuradoria de Arapiraca. De acordo com o

livro "Comunidades quilombolas alagoanas: uma releitura histórica" 16 , as comunidades localizam-se, em sua maioria, no Agreste e Sertão do Estado, em cidades como Batalha, Monteirópoles, Arapiraca, Poço das Trincheiras, Água Branca, Delmiro de Gouveia, Cacimbinhas e Major Izidoro. Na Zona da Mata, existem comunidades em União dos Palmares e Santana do Mundau.

Os problemas presentes nestas comunidades são bem semelhantes aos enfrentados pelos índios. Tão semelhantes que parecem advir da mesma origem, a

saber, a falta de capacidade do Estado em defender os direitos das minorias étnicas. Em entrevista ao Jornal GazetaWeb 17 , uma das autoras do livro, a socióloga Elis Lopes, afirma que “a infra-estrutura nestes locais é precária. As casas, em sua maioria, são feitas de taipa e não possuem saneamento básico. A falta de água é problema constante.

A questão da educação também é reflexo da precariedade em que vivem os

quilombolas, já que a pesquisa constatou que 70% das comunidades têm escolas, mas todas de Ensino Fundamental, o que obriga as crianças após a 4ª série a se deslocarem

15 Disponível em:

<http://www.maceiobrasil.com.br/2007/praias.php?noticia=2781&titulo=Paju%C3%A7ara>. Acesso em 10 mar. 2009.

16 LOPES, Elis; FERREIRA, Ana Márcia. Comunidades quilombolas alagoanas: uma releitura histórica. Recife: Bagaço, 2007.

17 Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/blogs/livro-faz-avaliacao-dos-quilombos-em-alagoas>. Acesso em 10 mar. 2009.

até a cidade para estudar”. Tais quais os índios, os remanescentes de quilombos também encontram dificuldades para serem reconhecidos formalmente. Como já dito, o laudo antropológico é, nestes casos, o instrumento por excelência de afirmação de direitos imemoriais e do princípio da tradição. O livro informa que apenas 22 comunidades são reconhecidas pelo Governo Federal. Os recentes concursos públicos (5º e 6º) para técnicos e analistas do MPU vieram justamente como um meio legítimo do Estado qualificar e aumentar sua capacidade de ação, na área jurídica, em localidades onde suas atividades em defesa do povo, dos interesses sociais e individuais indisponíveis, não dispõem da vazão adequada. Só assim se justificam os custos do processo de seleção pública. A realidade do estado de Alagoas esbanja razões objetivas para o incremento da perícia antropológica no âmbito do MPU. Os fatos mostram a relevância específica de um trabalho pericial que, dentro de cada contexto relativo, se coaduna com a vocação do Ministério Público da União e potencializa a realização da justiça.