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Levados pela correnteza

Pr. Alcenir
21 de setembro de 2008
Hebreus 2:1-10

Não sei se todos conhecem a expressão “Maria vai com as outras”.


Ela tem um conteúdo repulsivo. Quer dizer que a pessoa não tem opinião própria. Que a pessoa é
facilmente convencida. Dá razão ou acredita em qualquer um por muito pouco. Essa pessoa também é
conchecida como “sem personalidade própria”, é imitadora, veste o que todos vestem, faz o que
todos fazem, gosta do que todos gostam. Pessoa assim tem muita dificuldade de tomar decisão pois
não consegue discernir entre o que é certo ou o que é errado. Essa pessoa é candidata a entrar em
situações das mais complicadas possíveis por desconhecimento, ingenuidade, porque não sabe
identificar o que é certo ou errado, o que é perigoso ou seguro.
Essa pessoa é como criança, dependente, têm que ter alguém para tomar
decisão por ela. Essa dependência às vezes é desastrosa, pois, quando a pessoa fica sozinha diante de
situações em que têm que fazer uma opção, entra em desespero porque teme tomar a decisão errada,
mas não consegue descernir o que é apropriado ou não.
A criança é assim, dependente dos pais, dos adultos que cuidam delas, pela inocência, ainda
não conhecem nada da vida. Toda criança é instruída a dizer para qualquer adulto que aproxime dela
e que ela não conheça a dizer que não pode falar com estranhos ou que não pode ir com estranhos.
É por isso que vemos tanta pedofilia e as autoridades às voltas com os monstros
exploradores de crianças. Isto porque as crianças são presas fáceis.
Assim são certas pessoas. Presas fáceis. São como um barco sem âncora, facilmente
arrastado pela correnteza. Quando percebem, estão sem remo e longe da borda, sem meios para
navegar de volta.

Os crentes da Igreja do pregador de Hebreus eram presas fáceis


O pregador de Hebreus se vê preocupado com o que está acontecendo com os crentes.
A comunidade tinha uma diversidade muito grande. Vemos aqui uma igreja onde havia
muitos Judeus Cristãos que vieram da comunidade Judáica. Havia muitos Gentios convertidos ao
Judaísmo e que se converteram ao cristianismo.
Haviam Judeus da diáspora, aqueles que foram espalhados pelo mundo, mantinham a
religião judáica, mas tinham assimilado a cultura do lugar onde viviam, falavam grego, e agora
estavam nesta comunidade. Haviam também os Gentios.
Os gentios eram povos que não tinham influência do judaísmo. Eles professavam religiões
pagãs e agora convertiam-se ao cristianismo.
Às vezes comparo essa igreja de que trata Hebreus com a diversidade da igreja brasileira
nos EUA. São crentes provenientes das mais diversas denominações, às vezes com visões e
interpretações totalmente divergentes dos fundamentos da comunidade a que pertecem. Assim, os
mais variados conflitos acontecem.
O povo da comunidade de Hebreus contava ainda com uma sociedade estruturada sobre um
sistema de poder compartilhado, onde o Império Romano detinha o poder político central e
delegava poderes limitados às províncias. Os Judeus eram uma comunidade que havia sido cooptada,
ou seja foi dada a ela uma certa autonomia, de tal forma que podia administrar a religião e ter uma
certa liberdade para impôr suas leis religiosas sobre a população israelita.
Soma-se aqui o fato de que a cultura dominante era a cultura grega. A língua mais falada
era o grego. As filosofias seculares e o pensamento religioso pagão dominava os gentios. E até os
judeus e cristãos eram altamente influenciados pelas filosofias gregas.
Vale ressaltar que a filosofia mais geradora de pensamento herético era o chamado
“dualismo grego”. O dualismo grego é a base do gnosticismo.
O que vem a ser isto?
O gnosticismo considera que existe uma realidade perfeita no além, uma realidade
transcendental. A realidade que vivemos aqui na terra é imperfeita. A heresia proveniente disso é de
que a matéria, a carne é imperfeita. E o que é espiritual pertence à realidade perfeita e não pode
habitar na realidade imperfeita. Isto quer dizer que o Espírito de Deus não pode habitar na pessoa
humana, carne, imperfeita.
Seguindo este raciocínio, o gnóstico não aceita a natureza divina e humana
simultaneamente em Jesus Cristo. Dizem que Jesus Cristo era como um fantasma e tudo que
aconteceu foi porque ele era capaz de encenar tudo, pois ele era espírito.
Se a natureza de Cristo é negada, segue-se que o sacrifício dele é falso, e nós estamos
perdidos por que o sacrifício não tem valor.

O Pastorzão de Hebreus adverte sobre as correntezas revoltas da diversidade

Diante desse emaranhado de circunstâncias com as quais é difícil de se lidar, eu imagino o


escritor de Hebreus como aquele pastorzão de barba meio grisalha, vestindo talvez um vestimenta de
Palestino com um turbantezinho na cabeça, puxando um tamborete já envernizado de tanto uso,
sentando no meio de uma roda de crentes adultos, jovens e crianças e pregando para eles: “olha meus
filhos. Tomem cuidado. As heresias estão soltas aí, convencendo as pessoas. Meditem na palavra que
eu ensino todos os dias. Prestem atenção ao vocês ouvem aqui para que vocês não se desviem. Vocês
esqueceram do valor da salvação oferecida por Cristo?
Esse Jesus, como diz o salmo 8, foi feito homem, um pouco menor do que os anjos, mas
morreu e ressuscitou em glória. A lei foi uma revelação através de anjos e serviu para redenção e
guia do povo. Agora a revelação foi pelo próprio filho de Deus que ressurgiu em glória.
Quando os Judeus vem falando para vocês que vocês devem seguir também a lei,
circuncidarem, sacrificarem, considerem o seguinte: os sacrifícios que fazem aqui são imperfeitos,
porque começam e acabam aqui e vocês têm que repetí-los constantemente. Jesus fez o sacrifício da
perfeição, ou seja, ele desceu do Céu, se tornou homem para passar pelo sacríficio em nosso lugar e
retornou ao céu. Agora esse sacrifício do cordeiro perfeito, é permanente, estamos redimidos para
sempre. Agora não esperamos a realidade perfeita do grego, ela já aconteceu”.

As correntezas do mar de iniquidade do nosso século


Será que hoje estamos imunes às correntezas de iniquidades que afastam os crentes da fé?
Pelo contrário o desenvolvimento da tecnologia democratizou o pecado. Hoje basta um telefone
celular ou um Ipod para que um mar de sujeiras, de podridão, de perversão, de prostituição, de
pornografia, de libertinagem, de orgia, além das heresias e paganismos sejam acessados livremente.
No final da década de 80, lembro que um casal de libanezes naturalizados brasileiros, ele
um evangelista, viajaram do Iraque para o Brasil e tiveram que dormir em um hotel em Frankfurt. Os
dois estavam muito cansados e resoveram recostar um pouquinho e pegaram no sono. Quando
acordaram, os dois filhos de 6 e 8 anos estavam vendo na televisão um filme pornográfico. Eles
simplesmente ficaram estarrecidos e nem souberam o que fazer ou falar para os meninos porque o
estrago na educação deles já estava feito. Hoje os pais têm que ter cuidado triplicado, tal é a
facilidade de acesso a essas coisas.
Por outro lado, nós crentes temos que vigiar constantemente, nos fiscalizar, e pedir a Deus
que o Espírito Santo nos dê sabedoria para discernir o que é líscito e o que nos convém.
O arsenal de coisas pecaminosas é tão grande que pode aos poucos, como nos adverte o
texto, ir nos arrebanhando aos poucos.
A bíblia em inglês usa a palavra “drift away”. É um termo náutico que significa que o
barqueiro deixa o barco sem ancora e o movimento leve das ondículas vai movimentando lentamente
o barco. Aos poucos ele vai se afastando da borda, até que se acha tão distante que não dá mais para
ser alcançado.
Se não estivermos bem ancorados na verdade, na palavra de Deus, essa correnteza de
iniquidades vai movimentando lentamente o nosso barco da vida e quando nos damos conta já
estamos em alto mar.

Pelo menos três lições muito importantes nós devemos levar daqui hoje.

1. A palavra de Deus, as verdades da salvação, tem que ser contantemente


assimiladas e praticadas no dia-a-dia.

É só assim que quando vierem as correntes de iniquidades, pecados e heresias nós


estaremos bem ancorados para não sermos arrastados pela correnteza.
Há um cântico de quarteto que diz “quando rugirem as ondas do mar, podes confiar, podes
confiar na rocha que é Deus ...”.
Esta semana eu vi uma reportagem sobre as chuvas de granizo em Minas em que
mostraram um casal sendo arrastado pela enxurrada. Eles tentaram sair mas foram consumidos pelas
águas e não houve nóticias se foram encontrados mais tarde.
Da mesma forma a enxurrada de coisas imprestáveis pode nos arrastar e afundarmos de
vez, se não estivermos firmados nas verdades das escrituras, em Cristo.
Deus advertiu a Josué na travessia do Jordão, assim como o escritor de Hebreus nos
adverte,: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas
cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho”.

2. A negligência tem sido o grande pecado do século


Por causa do que a tecnologia disponibiliza em termos de informação e entretenimento, o
povo não tem mais tempo para nada.
A agenda das pessoas têm as coisas espirituais na última prioridade.
Comenta-se que certos crentes americanos só vêem a bíblia uma vez por semana durante
uma hora. Quando chegam na igreja no domingo abrem o porta-malas do carro, pegam a bíblia, uma
hora depois colocam de volta no mesmo lugar. Muitos brasileiros certamente também fazem isto.
A negligência vai esfriando a fé e aos poucos o barco da salvação vai se desgarrando e
tornando-se o barco da perdição. O crente passa por caminhos tortuosos. E muitas das conseqüências
negativas são naturais, como resultado do comportamento dele. Entretanto, não entendem porque
estão passando por situações difíceis. Certamente, é a negligência. Medita nele (o livro) dia e noite ...

3. Não há como escapar se negligenciarmos a salvação


A advertência do pregador é muito dura. Ele adverte e explica. Grande foi a revelação em
Moisés, através de anjos. Maior foi a revelação em Jesus Cristo, o sacrifício da cruz é perfeito. A
mensagem salvadora foi anunciada por ele e pelos que a ouviram. Se essa salvação for descartada,
não há outro meio, outra chance.

Conclusão
Nós estamos constantemente expostos à ação de correntes de opinião, hábitos, valores,
cultura, que tendem a nos afastar, sem sentirmos, da posição que deveriamos estar.
Como as “Maria vai com as outras”, se não formos fortes e bem fundados na verdade que é
a palavra de Deus e a salvação em Cristo, certamente sofreremos as conseqüências graves da ação das
“correntezas” na nossa vida.
Pode acontecer uma reconversão na nossa vida, mas até isso acontecer estragos profundos
na nossa vida secular e na nossa vida espiritual já terão sido feitos de tal forma que a recuperação se
torna excessivamente difícil.
Lembro-me do Jessé cantor. Freqüentou a mesma igreja que eu. Lembro dele no orgão fólis
tocando e cantando em quarteto com a mulher, o irmão e a cunhada. A carreira o forçou a ir se
afastando, estava envolvido demais. Chegou a gravar um disco de hinos entitulado “Ao meu pai”.
Nos seus últimos dias já tinha se divorciado da primeira mulher e estava já com outra, quando depois
de horas de shows e festejos teve um acidente de automóvel e não resistiu.
Encontrei o filho dele alguns anos depois como tecladista de um grupo de louvor em
Brasília, grande músico como o pai, mas caminhando por veredas mais saudáveis.
Vamos lembrar desta advertência ao sermos confrontados com as perversidades, imundícias
e iniquidades no nosso dia-a-dia: estejamos fortemente ancorados na palavra de Deus para não
sermos arrastados pela correnteza.