COLETÂNEA DE ARTIGOS SOBRE A FAUNA DE PEIXES

Espírito Santo - Brasil Volume 01

Edson Perrone
2013

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Fotos das capas – Adequadas http://ultradownloads.com.br/ http://www.pbase.com/anaspinola/image/93434913

[2]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Apresentação
Estudos sobre peixes realizados no Estado do Espírito Santo são poucos. O Departamento de Biologia do Centro de Estudos Gerais (GEG) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) durante as décadas de 1980 e 1990 realizou vários estudos em diversos mananciais aquáticos e muitos dados foram obtidos e analisados. Uma importante coleção (ZUFES - Coleção Zoológica da UFES) foi organizada para servir como testemunho das espécies estudadas e ser um banco de dados para futuros trabalhos. O Departamento de Biologia, após a aposentadoria dos principais pesquisadores da área, doou o acervo para o Museu de Biologia Professor Mello Leitão em Santa Tereza, ES. Com a publicação dos resultados em diversos periódicos, hoje fica difícil localizar essas fontes de dados e muitos pesquisadores atuais entram em contato com os autores, solicitando dados para servir de base para as suas pesquisas. Objetivando facilitar a consulta desses dados, resolvi montar essa coletânea, com dez artigos (Volume 1) e divulgar de forma gratuita na internet (www.scrib.com) e na forma de livro (www.clubedeautores.com.br), para quem quiser ter um volume organizado e impresso. Como os periódicos onde os artigos foram publicados seguem padrões de edição diferentes, mantive o conteúdo original e adequei em uma nova edição os artigos para se ter um padrão na organização. Algumas figuras foram refeitas devido o original não apresentar condições boas de visualização. Espero estar contribuindo para o conhecimento da ictiofauna do nosso estado, e que esse livro sirva de base para estudos futuros, principalmente, para o monitoramento da qualidade ambiental das áreas estudadas.

[3]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

[4]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Artigos
Distribuição sazonal e época de reprodução de peixecachimbo, Oostethus lineatus (Pisces: Syngnathidae) em um trecho do Rio Jucu – ES. Edson Campos Perrone Rev. Cult. UFES (41/42): 127-129. 1989. Ocorrência e período reprodutivo de Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. Edson Campos Perrone Fábio Vieira Ciência e Cultura – SBPC, 42(9): 707-710. 1990. Aspecto da alimentação e reprodução de Oostethus lineatus (Kaup, 1856) (Pisces – Syngnathidae) no Rio Jucu (Espírito Santo – Brasil). Edson Campos Perrone An. Soc. Nordest. Zool., 3: 249-260. 1990. Hábito alimentar de Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil Edson Campos Perrone Fábio Vieira Rev. Brasil. Biol., 51(4): 867-872. 1991 Composição preliminar da ictiofauna do litoral da Ilha do Frade, Vitória, Espírito Santo. José Luiz Helmer Edson Campos Perrone Rev. Cult. UFES (44/45): 69-78. 1991.

Página

07

17

28

41

53

[5]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A fauna ictiológica associada às macrófitas aquáticas no Rio Jucu, Vila Velha, Espírito Santo. Edson Campos Perrone Simp. Ecos. Costa Brasil., 3(1): 39-45. 1993. Projeto Sapé do Norte, realidade interinstitucional. Edson Campos Perrone José Luiz Helmer Orlindo F. Borges-Filho Rogério P. Bastos Revista Silvicultura, 53: 20-23. 1994. Composição da ictiofauna do Reservatório Águas Claras, Aracruz, Espírito Santo, Brasil. Edson C. Perrone Orlindo F. Borges-filho Carlos E. Scardua Bol. Mus. Biol. Mello Leitão (N. Sér.) 2: 23-33. 1995. Reproductive and feeding biology of freshwater and estuarine populations of the opossum pipefish, Oostethus lineatus from southeastern Brasil. Rogério L. Teixeira Edson C. Perrone Bol. Mus. Biol. Mello Leitão (N .Sér.) 8: 3-12. 1998 Os peixes-cachimbo que ocorrem no Brasil. Edson Campos Perrone João Luiz Gasparini Habitat (71). 2002 http://editoramarcelonotare.com/peixe-cachimbo_36.html

66

80

90

106

120

[6]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Distribuição sazonal e época de reprodução de peixe-cachimbo, Oostethus lineatus (Pisces: Syngnathidae) em um trecho do Rio Jucu – ES.
Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura da UFES (41/42): 127-129. 1989.

Edson Campos Perrone
Departamento de Biologia – CEG – UFES

Resumo
Foram analisados aspectos ecológicos e reprodutivos de um total de 158 exemplares de Oostethus lineatus capturados em 6 coletas bimestrais de outubro de 1987 a agosto e 1988, entre macrófitas aquáticas marginais, em um trecho do Rio Jucu, município de Vila Velha, ES. Essa espécie foi considerada constante, sendo encontrada em todas as coletas realizadas. No mês de outubro foi capturado o maior número de exemplares e no mês de agosto, o menor. Essa espécie possui dois períodos reprodutivos: um no verão, provavelmente no mês de dezembro e outro no inverno, em menor escala, provavelmente, no mês de junho.

Abstract
It was analyzed the ecological and reproductive aspects of 158 exemplaries of Oostethus lineatus, captured in six bimonthly collection from october 1937 to august 1988, between marginal aquatics weeds in a space at Jucu river, in Vila Velha, a city I in ES. This kind of fish was considered constant, and met in all of the collection realized in October was captured the biggest number of the exemplars and in august the smallest. This kind of fish has two

[7]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

reproductive periods: one in summer, probably in December, and the other in winter in a small scale, probably in June.

Introdução
O peixe-cachimbo, Oostethus lineatus, pode ser encontrado no Atlântico ocidental de Nova Jersey, EUA, até o Estado de São Paulo, Brasil, sendo considerado como Oostethus brachyurus lineatus (Dawson & Varri, profundidade, 1970). Habita águas litorâneas de pouca em águas salobras de regiões predominando

estuarinas, podendo penetrar em águas doces (Dawson, 1970; Figueiredo e Menezes, 1980). Segundo Dawson (1979), juvenis dessa espécie podem ser encontrados em regiões pelágicas, distantes cerca de 100 km da praia. Existem poucos estudos sobre a distribuição sazonal e reprodução dos peixes-cachimbo, principalmente, sobre a espécie

Oostethus lineatus. Segundo Wallace (1981), os ovários dos
signatídeos possuem um desenvolvimento assincrônico, constituídos de uma lâmina tubular em onde um lado possui os oogônias vão e, se progressivamente, direção oposta, oócitos

desenvolvendo e sendo liberados. Herald & Dawson (1972) citaram que a reprodução de O. lineatus ocorre em ambientes marinhos e de água doce. Dawson & Varri (1982) evidenciaram a reprodução em água doce ou estuarina. Este estudo pretende contribuir para o conhecimento da distribuição sazonal e determinar os períodos reprodutivos de

Oostethus lineatus em um trecho do rio Jucu, ES.

[8]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Materiais e Métodos
As coletas foram realizadas bimestralmente, de outubro de 1987 a agosto de 1988, utilizando uma peneira com malha de filó de 3 mm em um trecho de aproximadamente 150 metros nas margens do rio Jucu, município de Vila Velha, ES. Os exemplares coletados foram fixados e conduzidos ao laboratório, onde se anotaram dados sobre o comprimento padrão (mm), o sexo e o estádio de maturação (imaturos e maduros). Para a análise do estádio de maturação das fêmeas foram utilizados os critérios descritos por Vazzoler (1981). Os machos foram considerados imaturos quando não apresentavam na região ventral e abdominal a bolsa incubadora, e foram considerados maduros (reproduzindo-se) aqueles capturados com ovos na bolsa incubadora. Foram calculadas as freqüências relativas do número de indivíduos por classe de comprimento e a freqüência de indivíduos imaturos e maduros ao longo do período de estudo.

Resultados e Discussão
Durante o período de estudo, foram capturados um total de 158 exemplares de Oostethus lineatus, sendo 73 (46%) fêmeas e 85 (54%) machos. Os indivíduos foram agrupados em 9 classes de comprimento de 5 mm cada, iniciando com indivíduos menores que 95 mm até indivíduos iguais ou maiores que 130 mm. O menor e o maior exemplar coletado foram machos, possuindo o comprimento padrão de 87 e 163 mm, respectivamente.

Oostethus lineatus pode ser considerada uma espécie
constante entre as macrófitas aquáticas marginais, pois foi encontrada durante todas aas coletas realizadas (tabela 01). Essa tabela mostra a frequência de ocorrência da espécie ao longo do

[9]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

período de estudo. No mês de outubro foi coletado o maior número de exemplares e no mês de agosto, o menor. Tabela 01Número de exemplares por classes de

comprimento de Oostethus lineatus capturados bimestralmente nas margens do rio Jucu, entre outubro de 1987 a agosto de 1988. Classes (mm) OUT DEZ FEV ABR JUN AGO TOTAL 95 07 03 02 12 95-99 10 02 15 03 01 02 33 100-104 08 01 05 05 01 03 23 105-109 03 02 01 08 02 16 110-114 02 04 01 04 06 17 115-119 02 03 01 01 05 02 14 120-124 03 01 02 07 01 14 125-129 02 03 01 03 02 11 130 02 01 05 02 05 03 18 TOTAL 39 20 30 26 30 13 158 Segundo Perrone (1990), as fêmeas de Oostethus lineatus atingem o comprimento médio da primeira maturação sexual com 109 mm e os machos iniciam a formação da bolsa incubadora com 112 mm. Com base nestes dados, e analisando a distribuição bimestral da freqüência relativa do número de indivíduos pelas classes de comprimento (figura 01), podemos dizer que nos meses de outubro, fevereiro, abril e agosto encontramos um número elevado de indivíduos com comprimentos que caracterizam peixes imaturos; nos meses de dezembro, junho e agosto, maduros.

[ 10 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 OUT DEZ FEV ABR JUN AGO Meses

Figura 01- Frequência de indivíduos imaturos de Oostethus lineatus nos meses amostrais A análise macroscópica das gônadas revelou que a população apresenta um grande número de indivíduos imaturos nos meses de outubro, fevereiro, abril, junho e agosto, com valores modais em outubro e fevereiro (figura 01). Nos meses de dezembro, junho e agosto, apresentaram grande número de indivíduos maduros, com valores modais em dezembro e junho (figura 02). Os resultados da distribuição da freqüência relativa do número de indivíduos pelas classes de comprimento e das análises das gônadas quanto à maturação gonadal foram semelhantes, indicando que esta espécie, tanto para os indivíduos imaturos quanto para os maduros, possui distribuição bimodal, caracterizando dois períodos reprodutivos com continuidade temporal. Um período reprodutivo ocorre no verão, onde uma moda de indivíduos maduros, em dezembro, segue-se de uma moda de indivíduos imaturos, em

Frequência (%)

[ 11 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

fevereiro. No inverno, ocorre outro período reprodutivo em menos escala, onde uma segunda moda de indivíduos maduros, no mês de junho, segue-se de uma moda de indivíduos imaturos, em agosto.
100

Frequência (%)

80 60 40 20 0 OUT DEZ FEV ABR JUN AGO Meses

Figura 02- Frequência de indivíduos maduros de Oostethus lineatus nos meses amostrais Gilmore (1977) encontrou machos com ovos na bolsa incubadora durante os meses de julho e novembro no leste da Flórida, e de junho a setembro no Mississipi. No rio Jucu, encontramos machos com ovos nos meses de dezembro, fevereiro, abril e junho, sendo o maior número de exemplares coletados no mês de dezembro. Os machos capturados com ovos na bolsa incubadora confirmam o período de verão como a época de maior intensidade de reprodução. Já o período reprodutivo de inverno, apesar de termos capturado machos com ovos na bolsa incubadora, não foi

[ 12 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

evidenciado. Esse fato deve-se, provavelmente, ao baixo número de exemplares capturados, devido às dificuldades de captura da espécie.

Conclusão
No rio Jucu, o peixe-cachimbo, Oostethus lineatus, foi considerado uma espécie constante, encontrada durante todas as coletas realizadas entre as macrófitas aquáticas marginais, seu principal microhabitat. No mês de outubro, foi encontrado o maior número de exemplares, e no mês de agosto, o menor. Possui dois períodos reprodutivos: um no verão, provavelmente em dezembro; e outro em menor escala, no inverno, provavelmente, no mês de junho. Figura 01- Distribuição da freqüência de ocorrência dos exemplares de Oostethus lineatus entre as classes de comprimento padrão (mm) no rio Jucu. OBS: A espécie Oostethus lineatus vêm sendo identificada de forma

equivocada por vários autores devido a utilização do principal manual de identificação de espécies da costa do Brasil de Figueiredo & Menezes 1980). Na realidade trata-se de uma espécie nova, do gênero Microphis. Tal peixe é uma espécie endêmica de lagoas e estuários costeiros do Brasil e está em processo de descrição (Carvalho & Guimarães, 2000).

[ 13 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Tabela 02- Frequência de ocorrência (5) de indivíduos nas classes de comprimento (mm)

[ 14 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Referências Bibliográficas
CARVALHO, P. H. & GUIMARÃES, R. Z. P. Duas novas espécies da família Syngnathidae (Teleostei: Gasterosteiformes) da costa do Brasil. XXIII Congresso Brasileiro de Zoologia . Cuiabá, Mato Grosso. Resumo. 2000. DAWSON, C. E. A Mississipi population of the opossum pipefish,

Oostethus lineatus (Syngnathidae). Copeia 1970 (4): 772-773.
1970. DAWSON, C. E. Review of the polytypic Doryrhamphine pipefish,

Oostethus lineatus (Bleeker). Bulletin of Marine Science, 29 (4):
465-480. 1979. DAWSON, C. E. & VARRI, R. P. Fishes of the Wstern North

Atlantic. Part eight. Sears Foudation for Marine Reseach, Yale
University. 1982. FIGUEIREDO, J. L. e MENEZES, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. III. Teleostei (2): Museu de Zoologia da
Universidade de São Paulo. 1980. GILMORE, R. G. Notes on the opossum pipefish Oostethus lineatus from the Indian river lagoon and vicinity, Florida. Copeia 1977 (4): 781-783. 1977. HERALD, E. S. DAWSON, C. E. A new sub-species of the golf pipefish,

Sungnathus scovelli makaxi (Pisces: Syngnathidae). Copeia, 1972 (4): 781-784. 1972.
PERRONE, E. C. Aspecto da alimentação e reprodução de Oostethus

lineatus (Kaup, 1856) (Pisces – Syngnathidae) no Rio Jucu (Espírito Santo – Brasil). Ana. Soc. Nordest. Zool., 3: 249-260. 1990.

[ 15 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

VAZZOLER, A. E. A de M. Manual de Métodos para Estudos

Biológicos de Populações de Peixes. Reprodução e Crescimento. Brasília, CNPQ. Programa Nacional de Zoologia. 1981.
WALLACE, R. A. Cellular and dinamic espects of oocyte growth in the teleosts. Amer. Zool., 21: 325-343. 1981.

[ 16 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Ocorrência e período reprodutivo de Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil.
Artigo publicado originalmente na revista Ciência e Cultura – SBPC, 42(9): 707-710. 1990.

Edson Campos Perrone e Fábio Vieira
Departamento de Biologia – CEG - UFES

Resumo
Foram analisados 253 exemplares de Eleotris pisonis quanto a ocorrência e reprodução. O maior número de exemplares foi coletada no mês de abril e o menor no mês de fevereiro. O período reprodutivo iniciou-se após o pico do período de cheia, com a primeira maturação sexual ocorrendo quando as fêmeas atingem um comprimento médio de 35 mm; a partir de 45 mm todas estão adultas. Eleotris pisonis mostro-se intimamente associado à comunidade de macrófitas aquáticas marginais, evidenciando a importância dessas pelo menos em parte do seu ciclo de vida.

Abstract
Occurrence and reproductive period of Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) in the estuarine region of the river Jucu, Espírito Santo, Brasil. The occurrence and reproduction of E. pisonis has been analysed in 253 examples. The largest number of samples were collected in April, and the shortest in February. The reproductive period has begun after the flood period, with the first sexual maturation occurring when the females get the length of 35 mm; and, reaching 45 mm, they are all adults. E. pisonis has been shown

[ 17 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

intimately associated with aquatic marginals macrofit community, showing their importance at least in part of their life cycle.

Introdução
Eleotridídeos são peixes de pequeno a médio porte, encontrados no mar, em águas salobras e doces, principalmente, em regiões tropicais e subtropicais (Nelson, 1984; Nordlie, 1981). No Brasil, os representantes dessa família habitam preferencialmente o baixo curso dos rios, sempre nas proximidades do mar (Menezes e Figueiredo, 1985). Esse fato tem sido constatado para exemplares pertencentes ao gênero Eleotris, que frequentemente são capturados em associação com vegetação flutuante, principalmente o aguapé (Nordlie, 1981; Lowe-MacConnell, 1975; Nordlie, 1979). A espécie Eleotris pisonis ocorre da Carolina do Sul (EUA) até Ubatuba, São Paulo (Menezes e Figueiredo, 1985). Na região estuarina do rio Jucu, ocorre em grande número, e é considerada uma espécie abundante (Helmer et al., 1987). Apesar da ampla distribuição, são poucas as informações na literatura sobre a biologia dessa espécie. No presente trabalho são tratados alguns aspectos sobre a ocorrência e reprodução de E. pisonis na região estuarina do rio Jucu, município de Vila Velha, Espírito Santo.

Materiais e Métodos
As coletas foram realizadas bimestralmente, de outubro de 1987 a agosto de 1988, entre as macrófitas aquáticas marginais, em um trecho de aproximadamente 150 metros, na região estuarina do rio Jucu, município de Vila Velha, Espírito Santo. Os exemplares foram capturados utilizando uma peneira revestida com tela de náilon de 3 mm de malha, sendo

[ 18 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

imediatamente fixados em formalina 10% e levados para laboratório, onde foram anotados os dados relativos a comprimento-padrão (mm), sexo e estádios de maturação dos ovários. Os estádios de maturação dos ovários foram determinados a partir de análises macroscópicas, conforme Vazzoler (1981). A partir dessas análises, aas gônadas foram consideradas: imaturas, em repouso, em maturação e maduras. Para análise do período reprodutivo as fêmeas com gônadas imaturas e em repouso foram agrupadas. A primeira maturação sexual de fêmeas foi determinada pelo tamanho em que 50% das fêmeas constituintes da população entraram ativamente na fase de maturação sexual. Para a distribuição de frequência das classes de comprimento, machos e fêmeas foram agrupados em 14 classes com 5 mm de intervalo, iniciando com indivíduos menores que 20 mm até indivíduos iguais ou maiores que 80 mm. Para a determinação dos períodos de seca e cheia, utilizou-se a mensal do nível da água do rio, calculada a partir das informações sobre o nível médio diário (cm), cedido pelo 5º Distrito do DENAEE, relativo à estação Rio Jucu, fazenda Jucuruaba.

Resultados
O sexo foi determinado em 236 indivíduos de um total de 253 exemplares capturados. Nesses, a razão sexual foi de 126 (35%) machos e 110 (47%) fêmeas. O menor e o maior exemplar mediu, respectivamente, 15 e 109 mm para os machos e 15 e 90 mm para as fêmeas. A distribuição de frequência dos 253 indivíduos por classes de comprimento e o número de exemplares capturados ao longo do período de estudo são mostrados na figura 01. O maior número de

[ 19 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

exemplares ocorreu no mês de abril e o menor em fevereiro. Exemplares de grande porte (≥80 mm) ocorreram em baixa frequência, enquanto que exemplares de pequeno porte (< 20 mm) foram abundantes durante todo o período, exceto no mês de fevereiro.

Figura 01- Distribuição de frequência por classes de comprimento padrão de fêmeas e machos de Eleotris pisonis na região estuarina do rio Jucu, ES. A figura 2 mostra a ocorrência de fêmeas durante o período de estudo. Fêmeas jovens (≤ 35 mm) foram mais freqüentes nos meses de agosto a dezembro, enquanto que adultas (> 35 mm) foram mais abundantes no mês de fevereiro.

[ 20 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

100 90 80

Frequência (%)

70 60 50 40 30 20 10 0 OUT DEZ FEV ABR JUN AGO

Jovens

Adultas

Meses

Figura 02- Distribuição de frequência de fêmeas jovens e adultas de Eleotris pisonis, na região estuarina do rio Jucu, ES. A primeira maturação sexual ocorre quando as fêmeas atingem um comprimento médio de 35 mm e, com um comprimento médio a partir de 45 mm, todas estão adultas (figura 03), podendo participar do processo reprodutivo. A análise da frequência dos estádios de maturação (figura 04) mostra que as fêmeas com gônadas imaturas ou em repouso foram mais abundantes nos meses de junho a dezembro. Gônadas em maturação foram encontradas nos meses de dezembro a abril, com pico no mês de fevereiro. Fêmeas com ovários maduros ocorreram de fevereiro a junho, registrando maior frequência nos meses de fevereiro a abril.

[ 21 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 03- Frequência relativa de fêmeas adultas de Eleotris pisonis por classes de comprimento padrão, na região estuarina do rio Jucu, ES. (Lm= Tamanho da primeira maturação sexual) A análise da variação mensal no nível médio do rio evidenciou como período de cheia os meses de novembro a fevereiro e o de seca de abril a outubro. A correlação desses dados com o desenvolvimento

[ 22 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

das gônadas (figura 04) indica que o período reprodutivo inicia-se após o pico do período de cheia.

Figura 04- Frequência dos estádios de maturação gonadal de fêmeas de Eleotris pisonis e as cotas médias mensais do nível do rio Jucu, ES.

[ 23 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Discussão
Nordlie (1979, 1981) registra a presença de cinco espécies de eleotridídeos no estuário do rio Tortuguero, Costa Rica, das quais duas pertencem ao gênero Eleotris: Eleotris amblyopis, que é o eleotridídeo mais abundante do sistema e Eleotris pisonis, que é considerada uma espécie incomum. Na região estuarina do rio Jucu, ocorrem três espécies de eleotridídeos: Eleotris pisonis, Dormitator maculatus e Guavina

guavina (Perrone e Vieira, 1989). E. pisonis é considerada uma das
espécies mais abundantes nessa região (Helmer et. al., 1987), sendo encontrada conjuntamente com Dormitator maculatus entre a vegetação marginal. G. guaviva deve explorar outro habitat ou ser rara na área de estudo. O comprimento padrão máximo registrado para os exemplares de E. pisonis analisados, foi de 109 mm; entretanto, Menezes e Figueiredo (1985) citam que a espécie chega a atingir 200 mm. No estuário do rio Tortuguero, Costa Rica, Nordlie (1981) encontrou E. pisonis com tamanho máximo de 110 mm, sendo também registrado por Caldwell (1959), para a área, um exemplar com 280 mm. O fato de não terem sido capturado exemplares com comprimento acima de 110 mm, tanto por Nordlie (1981) como no presente estudo, parece estar relacionado com o local onde foram realizadas as coletas (entre as macrófitas aquáticas marginais). Isso sugere que os exemplares maiores, se presentes na área, são raros ou ocorrem em estratos não amostrados. De acordo com Nordlie (1979, 1981), E. pisonis foi encontrado principalmente entre e próximo às raízes de aguapé, na região estuarina, apesar de também ocorrer em pequena quantidade em riachos tributários do sistema estuarino, desprovido de vegetação.

[ 24 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A ocorrência de E. pisonis rio acima, em ambientes tipicamente de água doce, desprovidos ou com pouca vegetação marginal, t Em sido constatada no rio Jucu, onde alguns exemplares foram capturados a aproximadamente 30 km da foz. Entretanto, nessas áreas a sua abundância é baixa, o que reforça a idéia de que a área preferencial da espécie seja a região estuarina, com abundante vegetação marginal. Em rios, a variação do volume de água, por mudanças estacionais, afeta diretamente as comunidades existentes (LoweMacConnell, 1975), refletindo principalmente em mudanças na alimentação, reprodução e tamanho das populações (LoweMacConnell, 1967). Embora a área de estudo seja uma região estuarina, esta se modifica com as variações estacionais no nível do rio, decorrentes das chuvas que ocorrem em toda a bacia. Essas variações refletem-se basicamente em um aumento na velocidade da corrente, o que provoca o carreamento de grande parte das macrófitas aquáticas flutuantes, reduzindo consideravelmente o principal habitat utilizado por E. pisonis, com conseqüente redução no número de exemplares capturados. A reprodução de E. pisonis na área em estudo parece ser influenciado pelo regime das águas, pois o início do período reprodutivo é observado logo após o pico da estação de cheias.A conseqüente diminuição do nível das águas e da correnteza após esse período resulta em um ambiente mais favorável à instalação de macrófitas aquáticas flutuantes, proporcionando maiores condições de sobrevivência aos jovens da espécie.

[ 25 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Conclusão
E. pisonis é encontrada intimamente associada às macrófitas
aquáticas marginais, seu principal habitat na região estuarina do rio Jucu. Alterações no nível do rio, devido a chuvas em sua bacia, provocam modificações na velocidade da corrente acarretando mudanças na estrutura da população, alterando o número de indivíduos e induzindo o período reprodutivo, o qual inicia-se logo após o pico do período de cheia. Agradecimentos Ao Sr. Angelo Antônio Agostinho (NUPELIA), aos profs. José Luiz Helmer e Claudio Zamprogno (UFES) pela leitura e sugestões apresentadas ao manuscrito; ao Dr. Geraldo Teixeira de Souza (DNAEE) pelo fornecimento dos dados referentes às cotas médias diárias e aos colegas Rogério P. Bastos, Queila S. Garcia e Lilia R. Daniel pelo apoio.

Referências Bibliográficas
CALDWELL, D. K., OGREN, L. H. & GIOVANNOLI, L. Systematic and ecological notes on some fishes collected in the vicinity of Tortuguero, Caribbean Coast of Costa Rica. Rev. Biol. Trop., 7: 7-33. 1959. HELMER, J. L. SANTANA, E. B. VIEIRA, F. e PERRONE, E. C. Levantamento preliminar R. da H. ictiofauna do rio Jucu, ES.

In

Crongresso Brasileiro de Zoologia, 14. Resumos. 1987.
LOWE-McCONNELL,

Fish

Communities

in

Trpical

Freshwaters. London, Longman. 1975.
LOWE-McCONNELL, R. H. Some factors affecting fish populations in Amazonian waters. Atas Simp. Biota Amazônica, 7: 177-186. 1967.

[ 26 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

MENEZES, N. A. e FIGUEIREDO, J. L. Manual de peixes marinhos

do Sudeste do Brasil. V. Teleostei (4). São Paulo, Museu de
Zoologia. 1985. NELSON, J. S. Fishes of the World. John Wiley & Sons, XIII. 1984. NORDLIE, F. G. Feeding and reproductive biology of eleotrid fishes in a tropical estuary. J. Fish. Biol., 18. 1981. NORDLIE, F. G. Niche especifities os eleotrid in a tropical estuary.

Rev. Biol. Trop., 27(1): 35-50. 1979.
PERRONE, E. C. e VIEIRA, F. Biologia alimentar de Eleotris pisonis (Osteichthyes: Eleotrididae) no estuário do rio Jucu, ES. In

Congresso Brasileiro de Zoologia, 16. Resumos. 1989.
VAZZOLER, A. E. A de M. Manual de Métodos para Estudos

Biológicos de Populações de Peixes. Reprodução e Crescimento. Brasília, CNPQ. Programa Nacional de Zoologia. 1981.

[ 27 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Aspecto da alimentação e reprodução de Oostethus lineatus (Kaup, 1856) (Pisces – Syngnathidae) no Rio Jucu (Espírito Santo – Brasil).
Artigo publicado originalmente nos Anais da Sociedade Nordestina de Zoologia, 3: 249-260. 1990.

Edson Campos Perrone
Departamento de Biologia – CEG - UFES

Resumo
O peixe-cachimbo, Oostethus lineatus (Kaup, 1856), é eurialino habitando águas regiões litorâneas estuarinas. de pouca profundidade, coletados 300 preferencialmente Foram

exemplares no Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil, entre setembro de 1985 e fevereiro de 1988, para análise do conteúdo estomacal e determinação do comprimento da primeira maturação sexual de fêmeas e do aparecimento da "bolsa incubadora" nos machos. Dos estômagos analisados, 80% continham insetos, 69% crustáceos e 17% peixes. A primeira maturação sexual de fêmeas inicia-se aos 109 mm e o aparecimento da "bolsa incubadora" nos machos aos 112 mm.

Abstract
The pipefish, Oostethus lineatus, is euryaline that habit in littoral water with little depth, preferentially um estuarine areas. 300 of the exemplaries were analyzed at Jucu River in Espírito Santo, Brasil, between September 1885 and February 1988 in order to analyze their stomachal content and the determination of the length of the first sexual maturation of the females and the appearing of the “incubator pouch” in the males. 80% of the analyzed stomach had

[ 28 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

contained insects, 69% crustaceans and 17% fishes. The beginning of the first sexual maturation in the female was at 109mm and the appearing of the “incubator pouch” in the males at 112mm.

Introdução
Os peixes singnatídeos (cavalos-marinhos e peixes-cachimbo) têm sua biologia pouco estudada, principalmente, quanto a sua alimentação e reprodução O peixe-cachimbo, Oostethus lineatus (Kaup, 1856), pode ser encontrado no Atlântico Ocidental de Nova Jersey, EUA, até o Estado de São Paulo, Brasil (Dawson & Varri, 1982). Habita águas litorâneas de pouca profundidade, mas predomina em águas salobras de regiões estuarinas, podendo penetrar em água doce (Dawson, 1970; Figueiredo e Menezes, 1980). Essa população é considerada por Dawson e Varri (1982) como Oostethus brachyurus lineatus. Os movimentos lentos, a coloração e os hábitos protegem esse peixes nos ambientes em que vive (Figueiredo e Menezes, 1980), confundindo-o com a vegetação marginal ou com detritos carregados pelas águas dos rios. O presente estudo tem por finalidade investigar a dieta, os comprimentos médios da primeira maturação sexual de fêmeas e do aparecimento da “bolsa incubadora” nos machos de Oostethus

lineatus no rio Jucu, Espírito Santo, Brasil.

Material e métodos
As coletas foram realizadas na vegetação marginal próxima da foz do rio Jucu, município de Vila Velha (Figura 01), utilizando-se uma peneira com malha de 3mm, em um trecho de aproximadamente 100m, com profundidade média de 80cm, nos meses de setembro de

[ 29 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

1985, setembro de 1986, outubro, novembro e dezembro de 1987 e fevereiro de 1988.

Figura 01- Local de coleta no rio Jucu, Vila Velha, Espírito Santo, Brasil. No campo os indivíduos foram fixados utilizando-se solução de formol a 10% e no laboratório, após 48 horas, foram conservados em álcool a 70%. Para estudos das relações corporais de cada exemplar, foram medidos o comprimento padrão, segundo Laevastu (1965) e da “bolsa

[ 30 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

incubadora” dos machos que a possuíam, ambas medidas expressas em milímetros. Os ovos presentes nessas “bolsas” foram contados. Para a análise do conteúdo estomacal utilizou-se 141 exemplares. Esses foram agrupados em 5 classes de comprimento, com intervalos de 10mm, iniciadas com exemplares menores de 95mm até exemplares iguais ou maiores que 125mm. Utilizou-se para a análise o método de frequência de ocorrência descrito por Hyslop (1980). A identificação dos itens alimentares foi feita até a menor categoria taxonômica possível (Tabela 01). Tabela 01- Frequência de ocorrência (F.O) dos itens alimentares no conteúdo estomacal de Oostethus lineatus no rio Jucu, Vila Velha, ES. ITENS ALIMENTARES INSETOS Larvas de plecópteros Larvas de dípteros Larvas de efemerópteros Restos de insetos Larva de odonata Hemípteros (gerridae) CRUSTÁCEOS Larvas de carídeos Copépodos Ovos de carídeos Jovens de carídeos (Macrobrachium SP.) Anfípodos Isópodos PEIXES Jovens não identificados Jovens de Eucinostomus SP. F.O. % 48,4 34,4 14,1 9,4 1,6 1,6 25,0 18,8 17,2 12,5 7,8 1,6 12,5 6,3

[ 31 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Para a análise dos comprimentos da primeira maturação sexual de fêmeas e do aparecimento da “bolsa incubadora” nos machos, 80mm. Em relação à maturidade sexual, as fêmeas foram consideradas jovens quando apresentavam suas gônadas imaturas e adultas quando estavam nos demais estágios de maturação (Vazzoler, 1962 e 1981); os machos foram considerados adultos quando possuíam na parte ventral e abdominal duas expansões laterais de placas ósseas (“Bolsas incubadoras”). A estimativa do comprimento médio, no início da primeira maturação sexual das fêmeas foi calculada segundo Vazzoler (1981) e o comprimento médio em que aparece a “bolsa incubadora” nos machos foi determinado pelo momento em que 50% dos machos estavam adultos. Foram calculadas as correlações entre o comprimento padrão dos machos e o comprimento das “bolsas incubadoras”, entre o comprimento padrão e o número de ovos e entre o comprimento das “bolsas incubadoras” e o número de ovos. Alguns dos exemplares coletados estão depositados na seção de peixes da Coleção Zoológica da Universidade Federal do Espírito Santo (ZUFES). os exemplares foram divididos em 16 classes de comprimento, com intervalos de 5mm, iniciando pelo comprimento de

Resultados
No Rio Jucu, o peixe-cachimbo, Oostethus lineatus, é encontrado entre a vegetação marginal, caracterizada por gramíneas e macrófitas aquáticas marginais, da foz até aproximadamente 30km rio acima. Foram analisados um total de 300 exemplares, 109 coletados durante o dia e 32 durante uma coleta noturna, sendo 159

[ 32 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(53%) machos e 141(47%) fêmeas. O comprimento padrão variou de 82 a 163mm entre os machos e de 87 a 147mm entre as fêmeas. Na população estudada, a relação entre jovens e adultos (Figura 02) foi de 30% para machos jovens (sem “bolsa incubadora”), 23% para machos adultos, 22% para fêmeas e 25% para fêmeas adultas.
35 30 Jovens Adultos

Porcentagem

25 20 15 10 5 0 Machos Fêmeas

Figura 02- Proporção de indivíduos jovens e adultos na população de Oostethus lineatus do rio Jucu. Na coleta diurna, 64 (59%) dos exemplares encontrava-se com alimento no estômago e 45 (41%) dos exemplares com estômagos completamente vazios (Figura 03). Os exemplares coletados durante o período noturno estavam com seus estômagos vazios. O item alimentar insetos, presente em 80% dos estômagos analisados, predominou em exemplares de calsse de comprimento até 104mm (Figura 04), permanecendo nas demais classes com porcentagens decrescentes. As larvas de plecópteros, dípteros, efemerópteros e restos de insetos contribuiram com 97% do total e o

[ 33 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

restante

(3%)

representou

larvas

de

oconata

e

hemípteros

(gerrídeos) (Tabela 01).
30 25
Números de indivíduos

Estômagos vazios Estômagos com alimento

20 15 10 5 0 <95 95-104 105-114 115-124 >=125
Classes de comprimento padrão (mm)

Figura 03- Frequência de ocorrência de indivíduos de Oostethus lineatus, com ou sem alimentos no estômago. Em todas classes de comprimento os crustáceos (69%) estiveram presentes (Figura 04), representados por ovos, larvas e jovens de carídeos, copépodos, anfípodos e isópodos (Tabela 01). Em indivíduos de 95 a 114mm de comprimento, as larvas de carídeos, copépodos, anfípodos e isópodos foram encontrados em maior quantidade. Os ovos e jovens de carídeos foram representados com porcentagens crescentes nas demais classes de comprimento. Os peixes (17%), apareceram em estômagos de exemplares de 105mm de comprimento a 109mm (Figura 05), e o aparecimento da “bolsa incubadora” nos machos (Figura 06) ao comprimento de 112mm. Dos 159 machos analisados, 89 (56%) foram considerados jovens, tendo o comprimento padrão de 82 a 125mm e 70 (44%) adultos com o comprimento padrão de 99 a 163mm. Entre os machos

[ 34 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

adultos, 40 (69%) exemplares possuíam de 49 a 565 ovos em suas “bolsas”. Esses ovos estavam em vários estágios de desenvolvimento.

Figura 04- Frequência de ocorrência dos itens alimentares de Oostethus lineatus, pelas classes de comprimento.

[ 35 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 05- Distribuição das frequências relativas de fêmeas de Oostethus lineatus, por classes de comprimento padrão.

Figura 06- Distribuição das frequências relativas de machos de Oostethus lineatus, por classes de comprimento padrão.

[ 36 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A correlação entre o comprimento padrão dos indivíduos e o comprimento da “bolsa incubadora” foi de 0,889, demonstrando uma proporcionalidade entre esses parâmetros. Entre o comprimento padrão e o número de ovos e entre o comprimento da “bolsa incubadora” e o número de ovos, existe uma baixa correlação, respectivamente, 0,426 e 0,621.

Discussão e Conclusão
O peixe-cachimbo, Oostethus lineatus, está intimamente relacionado com a quantidade de vegetação marginal, principalmente, macrófitas aquáticas marginais, que lhe fornecem abrigo e alimento. O alimento é um fator ecológico importante. Conforme a quantidade e a abundância exercem influência em vários fatores, principalmente, na reprodução (Dajoz, 1978). Segundo Herre (1940), a alimentação dos peixes-cachimbo é composta de larvas de insetos. Gilmore (1977) estudando larvas desses peixes em aquário registrou uma dieta composta por crustáceos planctônicos. Segundo Figueiredo e Menezes (1980), os singbatídeos alimentam-se de organismos planctônicos, geralmente, crustáceos. No Rio Jucu, Oostethus lineatus, é uma espécie carnívora. Utiliza seu focinho tubular para adquirir por sucção seus alimentos. Esse peixe modifica seu hábito alimentar à medida que cresce (Figura 04). Peixes com comprimentos até 104 mm alimentam-se preferencialmente de larvas de insetos (Tabela 01). A partir de 105mm de comprimento surge o item peixes com porcentagens crescentes e os crustáceos, principalmente os planctônicos, que assumem como principal alimento. Essa modificação alimentar leva-se a supor que esses peixes utilizam recursos alimentares diferentes,

[ 37 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

sendo esse aspecto importante na repartição dos recursos intraespecíficos. O conhecimento da biologia da reprodução é empregado para estabelecer o comprimento que os peixes alcançam ao atingir o amadurecimento sexual (Holden e Rait, 1975). Segundo Horald e Dawson (1972), Oostethus lineatus, reproduz-se no mar e em água doce. Dawson e Varri (1982) indicam que a reprodução ocorre em água doce ou estuarina e que o jovem pode desenvolver-se em água doce, estuarina ou aceânica. Essa espécie no Rio Jucu, reproduz-se, provavelmente, durante o ano inteiro entre a vegetação marginal, próximo à desembocadura no mar. A identificação sexual na espécie Oostethus lineatus é feita pela presença de uma “bolsa incubadora” nos machos. Esse fato torna difícil identificar o sexo de um peixe jovem. Segundo Gilmore e Hesting (1963), são considerados peixes jovens aqueles com comprimento até 100 mm. No Rio Jucu esses jovens são encontrados com comprimentos maiores, pois as fêmeas iniciam a maturação sexual com 109 mm de comprimento padrão semelhante ao comprimento médio de 112mm para o aparecimento da “bolsa incubadora” nos machos. Não foi possível coletar indivíduos menores que 87 mm. Esses jovens devem habitar locais diferentes dos demais, possivelmente, entre os detritos do substrato ou vegetais submersos com os quais são facilmente confundidos, ou serem carregados pela correnteza que, segundo Os Dawson e Varri (1982), às ocasionalmente correlações entre são o encontrados a 60 km da praia. baixos valores relativos comprimento padrão e o número de ovos e entre o comprimento da “bolsa incubadora” e o número de ovos, podem estar relacionados à

[ 38 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

falhas no mecanismo de transferência dos ovos das fêmeas para a “bolsa incubadora” dos machos; às diferenças de comprimentos entre as fêmeas maduras e os machos; ou ainda, mais de uma fêmea deposita seus ovos em apenas um macho. Agradecimentos Agradeço ao colega Rogério Luiz Teixeira, aos professores Claudio Zamprogno, José Luiz Helmer, Orlindo Francisco Borges Filho pelas sugestões; ao colega Helio dos Santos Sá pela identificação dos crustáceos e insetos; a Fabio Vieira pela ajuda no laboratório; a Luiz Carlos Spagnol, Angela M. Spagnol Perrone e Lila R. Daniel pelo apoio.

Referências Bibliográficas
DAJOZ, R. Ecologia Geral. São Paulo, Vozes e Edusp. 1978. DAWSON, C. E. A mississi population of the pipefish, Oostethus lineatus (Syngnathidae). Copeia, 1970 (4). 772-773. 1970. DAWSON, C. E. & VARRI, R.P. Fishes of the Western North Atlantic. Part eight. New Haven, Sears Foundation for Marine Reseach. Yale University. 1982. FIGUEIREDO, J. L.; MENEZES, N. A. Manual de peixes marinhos do sudeste do Brasil. III. Teleostei (2). São Paulo, Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. 1980. GILMORE, R. G. Notes on the opossum pipefish, Oostethus lineatus, from the Indiam river lagoon and Vicinity, Florida. Copeia, 1977 (4): 781-783. 1977. HERALD, E. S. & DAWSON, C. E. A new subspecies of the Gulf pipefish, Syngnathus scovelli (Piscis: Syngnathidae). Copeia, 1972 (4): 781-784. 1972.

[ 39 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

HERRE, A. W. C. T. Mosquito larvae aas pipefish food. Copeia, 1940 (3): 203. 1940. HOLDEN, M. J. & RAITT, D. F. S. Manual de ciência pesquera. 2métodos para investigar los recursos y su aplicación. Documentos técnicos de La FAO sobre La pesca, 115 (1). 1975. HYSLOP, E. J. Stomach contents analysis - A review of methods and their applications. J. Fish. Biol. (17): 411-429. 1980. LAEVASTU, T. Manual of methods in fisheries biology. Manual fish. Sci., 1 (9). 1965. VAZZOLER, A. E. A. de M. Sobre a primeira maturação sexual e destruição de peixes imaturos. Bolm. Inst. Ocean., 12 (2): 5-38. 1962. VAZZOLER, A. E. A. de M. Manual de métodos para estudos

biológicos de populações de peixes. Reprodução e crescimento. Brasília, CNPq. Programa Nacional de Zoologia. 1981.

[ 40 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Hábito alimentar de Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil
Artigo publicado originalmente na Revista Brasileira de Biologia, 51(4): 867-872. 1991

Edson Campos Perrone * Fábio Vieira **
* Departamento de Biologia – CEG – UFES ** Departamento de Zoologia – ICB – UFMG

Resumo
A alimentação de Eleotris pisonis constituiu-se basicamente de dípteros (larvas e pupas), crustáceos (brachiúros e carídeos) e peixes. Díptera foi o principal item alimentar utilizado por exemplares com até 40 mm de comprimento padrão (jovens), enquanto exemplares de maior tamanho (adultos) utilizaram, principalmente, peixes e crustáceos. Essa diferenciação no hábito alimentar entre jovens e adultos evidencia o amadurecimento sexual como um dos prováveis fatores que influenciam a ontogenia trófica da espécie. Mudanças qualitativas e quantitativas foram constatadas na hábito alimentar de E. pisonis durante os períodos de seca e cheia. Essas alterações podem estar relacionadas com as mudanças que ocorrem na estrutura da vegetação marginal, principal sítio de refúgio e alimentação da espécie. Canibalismo foi registrado com baixa frequência (0,6%), evidenciando ser um hábito pouco comum à espécie.

Abstract
The diet of Eleotris pisonis includes mainly Díptera (larvae e pupae), Crustacea (Brachyura and Caridea) and fishes. Diptera was

[ 41 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

the main item consumed by young. E. pisonis (up to 40 mm), while larger individuals (adults) fed proncipally on fishes and crustaceans. This difference in feeding habit shows that sexual maturity is probably one of the factors that influence the trophic ontogeny of the species. Qualitative and quantitative changes were shown in the feeding habit of E. pisonis during the dry and flood seasons. These can be related to changes in the structure of marginal vegetation which is the main feeding and sheltering site of this species. Cannibalism was registered with low frequency (0,6%) showing that this is an uncommon habit in this species.

Introdução
Segundo Nordlie (1981) os eleotridídeos são geralmente considerados predadores, apesar de poucos trabalhos terem sido feitos sobre seus hábitos alimentares.

Eleotris pisonis é um eleotridídeo de pequeno porte que se
distribui da Carolina do Sul (EUA) até Ubatuba, São Paulo, Brasil (Menezes e Figueiredo, 1985). Na região estuarina do Rio Jucu ocorre em grande número, sendo considerada uma espécie abundante (Helmer et al., 1987; Perrone, 1990). Nessa área, E. pisonis utiliza a vegetação marginal como abrigo, vivendo, principalmente, entre as raízes de aguapé (Perrone e Vieira, 1990). Esse fato havia sido constatado por LoweMacConnell (1975) e Nordlie (1979, 1981) em estudos realizados em outras regiões. Apesar da ampla distribuição, pouco se conhece sobre a biologia de E. pisonis Em relação ao hábito alimentar, a espécie tem sido considerada como estritamente carnívora (Hildebrand, 1938), predadora (Sterba, 1966) e onívora (Nordlie, 1981).

[ 42 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

O presente estudo teve como objetivos a determinação do hábito alimentar de E. pisonis em relação ao crescimento, e a verificação das alterações entre os períodos de seca e cheia na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil.

Material e Métodos
Os exemplares foram capturados bimestralmente, de dezembro de 1987 a novembro de 1988, entre a vegetação aquática marginal, em um trecho da região estuarina do Rio Jucu, município de Vila Velha – ES. Esse trecho localiza-se próximo à rodovia do sol e distancia-se cerca de 2 km do mar. Após a captura, realizada com uma peneira revestida com tela de náilon de três milímetros de malha, os exemplares foram imediatamente fixados em formalina a 10%, sendo, posteriormente, transportados para o laboratório, onde o comprimento padrão foi medido, em milímetros, e o conteúdo estomacal analisado. A análise do conteúdo estomacal foi realizada sob microscópio estereoscópico e os itens encontrados foram identificados até a menor categoria taxonômica possível. Foram utilizados os métodos de frequência de ocorrência (F.O.) e peso seco (PS). O peso seco foi obtido por pesagem de cada item em balança analítica, com precisão de 0,0001g, após secagem em estufa a 60 oC. A variação do habita alimentar foi analisada sob dois aspectos: em relação ao crescimento e ao período estacional (seca e cheia). Para se determinar as variações com o crescimento, os exemplares foram agrupados em oito classes de comprimento, com intervalos de 10 mm, iniciando-se em exemplares menores ou iguais a 20 mm até indivíduos maiores que 80 mm. A determinação dos períodos de cheia (dezembro, fevereiro e novembro) e seca (abril, junho e agosto) foi baseada nos dados

[ 43 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

fornecidos pelo 5º Distrito do DNAEE (Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica), referentes às cotas médias mensais do nível da água do Rio Jucu. Os dados referentes às porcentagens de peso seco e frequência foram correlacionados utilizando-se o índice alimentar proposto por Kawakami e Vazzoler (1980), com modificações:

Onde: IAi= índice alimentar i= item alimentar Fi= frequência de ocorrência (%) do item PSi= peso seco (%) do item A similaridade trófica entre as classes de comprimento foi analisada pela aplicação do índice de similaridade proporcional (Brower & Zar, 1984) aos valores relativos de peso seco, sendo os resultados submetidos à análise de cluster.

Resultados
Foram analisados 251 exemplares de Eleotris pisonis, dos quais 157 (63%) apresentaram algum tipo de alimento no estômago. A dieta de E. pisonis constitui-se basicamente de dípteros, crustáceos e peixes (Tabela I). Os dípteros foram representados por larvas e pupas. Os crustáceos constituíram-se, principalmente, de carídeos (Palaemon padaliformis e Macrobrachium SP.) e brachiúros (Sesarma SP.), sendo encontrados em menor proporção cladóceros e ostrácodas. Os peixes predados, cuja identificação foi possível, pertencem às famílias Centropomidae (Centropomus SP.), Eleotrididae

[ 44 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(E. pisonis), Mugilidae (Mugil SP.), Poeciliidae (Poecilia SP.) e Gobiidae. A análise do índice alimentar por classes de comprimento (Figura 01), mostra uma variação no hábito alimentar. Exemplares com comprimentos inferiores a 40 mm alimentaram-se, principalmente, de dípteros, enquanto indivíduos acima de 50 mm predaram, preferencialmente, crustáceos (carídeos e brachiúros) e peixes. Exemplares medindo entre 41 e 50 mm parecem não ter uma preferência alimentar definida. As relações tróficas entre as classes de comprimento foram sumarizadas pela análise de cluster, baseada na porcentagem de peso seco (Figura 02). Peixes menores que 40 mm e maiores que 50 mm formam dois grandes grupos com similaridades superiores a 62%. Exemplares com comprimentos entre 41-50 mm apresentaram baixa similaridade (41%) em relação às demais classes, fortalecendo a observação sobre a identificação trófica. A Tabela I mostra que os principais itens alimentares utilizados por E. pisonis ocorreram com frequência semelhantes para os dois períodos considerados (seca e cheia), excetuando-se o item carídeo, que foi mais freqüente durante a seca. Os dados de peso seco apresentaram maior variação, sendo que dípteros e brachiúros ocorreram em maior proporção durante o período de cheia e peixes durante a seca. O índice alimentar mostra que os principais itens alimentares durante o período de seca foram carídeos (0,44) e peixes (0,34), enquanto que durante o período de cheia a dieta de E. pisonis foi composta, principalmente, por larvas e pupas de dípteros (0,47) (Figura 03).

[ 45 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 01- Frequência de ocorrência, porcentagem de peso seco e índices alimentares de Eleotris pisonis por classes de comprimento padrão, na região estuarina do Rio Jucu. (M.N.I= Material não identificado).

[ 46 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 02- Análise de Cluster da similaridade trófica entre as classes de comprimento de Eleotris pisonis na região estuarina do Rio Jucu.

Figura 03- Frequência de ocorrência, porcentagem de peso seco e índices alimentares de Eleotris pisonis durante os períodos de cheia e seca na região estuarina do Rio Jucu. (M.N.I.= Material não identificado.

[ 47 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Tabela I- Itens alimentares utilizados por Eleotris pisonis, na região estuarina do Rio Jucu, durante os períodos de seca e cheia, baseados na análise de 157 exemplares F.O. (%) Itens alimentares Crustacea Brachyura Caridea Cladocera Ostracoda Restos Total Insecta Diptera Outros (*) Molusca Gastropoda Teleostei Ovos (*) Vegetal Não identificados Cheia 3,8 5,0 2,5 3,8 1,3 16,4 60,0 11,3 5,0 15,0 Seca 6,5 23,4 5,2 2,6 37,7 55,8 1,3 1,3 7,8 3,9 1,3 6,5 Total 5,1 14,0 1,3 4,5 1,9 26,8 57,9 6,4 0,6 6,4 1,9 0,6 10,8 P.S. (%) Cheia 29,75 20,47 0,15 0,22 1,75 52,34 7,02 5,26 32,89 2,49 Seca 19,93 21,28 0,14 1,94 43,29 1,83 0,25 1,59 50,26 2,16 0,21 0,41 Total 23,13 21,08 0,05 0,17 1,88 46,31 3,52 1,74 1,07 44,61 1,52 0,14 1,09

(*) Não identificados F.O.= Frequência de ocorrência P.S.= Peso seco

Discussão
Em estudo realizado no sistema estuarino de Tortuguero, Costa Rica, Nordlie (1981) constatou se Eleotris pisonis uma espécie onívora alimentando-se, principalmente, de aguapé e, em menor proporção, de pós-larvas de camarão, isópodes, copépodes e peixes.

[ 48 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Na região estuarina do Rio Jucu, E. pisonis tem hábito alimentar essencialmente carnívoro, predando, principalmente, dípteros, crustáceos e peixes. O aguapé, principalmente, Eichhornia

crassipes, apesar de ser encontrado em abundância na região, não
fez parte da dieta da espécie. O item vegetal, ao qual se faz referência nesse estudo, além de baixa frequência (0,6%), refere-se a raízes de gramíneas, as quais são, provavelmente, ingeridas acidentalmente quando E. pisonis captura suas presas entre a vegetação marginal. Diversos estudos têm evidenciando mudanças nos hábitos alimentares durante o desenvolvimento para várias espécies de peixes (Darnell, 1958; Carr & Adams, 1973, Ross, 1977, 1978). A variação no hábito alimentar de uma espécie de peixes durante seu desenvolvimento é uma adaptação que visa diminuir a competição por alimento ou suprir necessidades fisiológicas que o peixe possa ter em função de migração, maturação sexual e reprodução (Braga & Braga, 1987). Na área estudada, não foi observada segregação espacial entre jovens e adultos de E. pisonis, os quais coabitam sob a vegetação marginal, formada pela comunidade de macrófitas aquáticas (principalmente o aguapé) e o emaranhado de raízes submersas e folhas pendentes de gramíneas. Entretanto, constatouse segregação trófica, a qual proporciona uma redução na competição intraespecífica e, consequentemente, favorece o desenvolvimento da espécie na região. Na região estuarina do Rio Jucu, a primeira maturação gonadal das fêmeas de E. pisonis foi determinada em 35 mm, sendo que todos os exemplares estavam maduros a partir de 45 mm (Perrone e Vieira, 1990). A mudança alimentar foi marcante na classe de comprimento 41-50 mm, que engloba a transição entre peixes

[ 49 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

jovens e adultos, fato este que evidencia o amadurecimento sexual como um dos prováveis fatores que induzem à ontogenia trófica observada para a espécie. A variação do hábito alimentar em função do amadurecimento sexual também foi enfatizada por Ross (1978) para Prionotus scitulus, citando como prováveis causas um aumento na demanda de energia ou um decréscimo no período de forrageamento. Mudanças na estrutura da comunidade vegetal da área estudada (Perrone, 1990; Perrone e Vieira, 1990), podem ser um dos fatores relacionados às alterações tanto qualitativas como quantitativas observadas no hábito alimentar da espécie em relação aos períodos de seca e cheia. Segundo estes autores, as mudanças mais significativas na estrutura da vegetação ocorrem em relação às macrófitas aquáticas flutuantes que são abundantes no período de seca, sendo, porém, arrastadas pela corrente na cheia. A diminuição desta cobertura vegetal, que é utilizada como principal sítio de refúgio e alimentação da espécie, pode implicar em uma oferta diferenciada de presas durante os dois períodos, induzindo assim, às mudanças observadas. Nordlie (1981) registrou a presença de um exemplar jovem do gênero Eleotris no conteúdo estomacal de E. pisonis, não sendo possível determinar a espécie. Canibalismo também foi registrado neste estudo, entretanto, com baixa frequência (0,6%), demonstrando que esse hábito deve ser ocasional para a espécie. Agradecimentos Agradecemos ao Dr. Angelo Antonio Agostinho e a Profa. Norma Segatti Hahn (NUPELIA) pelas sugestões apresentadas ao manuscrito; ao biólogo Hélio dos Santos Sá (UFES) pela ajuda na identificação dos macro-crustáceos e ao Dr. Geral Teixeira de Souza

[ 50 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(DNAEE) pelo fornecimento dos dados de cotas médias mensais do nível da água do Rio Jucu.

Referências Bibliográficas
BRAGA, F. M. S. e BRAGA, M. A. A. S. Estudo do hábito alimentar de

Prionotus punctatus (Bloch, 1797)(Teleostei, Triglidae), na região da Ilha Anchieta, Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Brasil. Biol., 47(1/2): 31-36. 1987.
CARR, W. E. S. & ADAMS, C. A. Food habits of juvenile marine fishes occupying seagrass beds in the estuarine zone near Crystal River, Florida. Trans. Am. Fish. Soc., 102: 511-540. 1973. DAENEEL, R. M. Food habits of fishes and larger invertebrates of lake Pontchartrain, Louisiana, na estuarine community. Publ. Inst. Mar.

Univ. Tex., 5: 353-416.
HELMER, J. L. SANTANA, E. B. VIEIRA, F. e PERRONE, E. C. Levantamento preliminar da ictiofauna do rio Jucu, ES.

In

Crongresso Brasileiro de Zoologia, 14. Resumos. 1987.
HILDEBRAND, S. F. A new catalog of the freshwater fishes of Panama. Fld. Mus. Nat. Hist. (Zool.) 22: 217-359. 1938. KAWAKAMI, E. C. e VAZZOLER, G. Método gráfico e estimativa de índice alimentar aplicado no estudo de alimentação de peixes. Bolm.

Inst. Occeanogr. São Paulo, 29: 205- 207. 1980.
LOWE-McCONNELL, R. H.

Fish

Communities

in

Trpical

Freshwaters. London, Longman. 1975.
MENEZES, N. A. e FIGUEIREDO, J. L. Manual de peixes marinhos

do Sudeste do Brasil. V. Teleostei (4). São Paulo, Museu de
Zoologia. 1985.

[ 51 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

NORDLIE, F. G. Feeding and reproductive biology of eleotrid fishes in a tropical estuary. J. Fish. Biol., 18. 1981. NORDLIE, F. G. Niche especifities os eleotrid in a tropical estuary.

Rev. Biol. Trop., 27(1): 35-50. 1979.
PERRONE, E. C. Alguns aspectos sobre a biologia dos peixes

associados à vegetação marginal em um trecho do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. Monografia de Especialização. Núcleo de
Pesquisa em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (NUPELIA)/ Universidade Estadual de Maringá, PR. 1990. PERRONE, E. C. e VIEIRA, F. Ocorrência e período reprodutivo de

Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. São Paulo, Ciência e Cultura 42(9):
707-710. 1991. ROSS, S. T. Patterns of resource partitioning in searobins (Pisces: Triglidae). Copeia 1977: 561-571. 1977. ROSS, S. T. Trophic ontogeny of leopard searobin Prionotus scitulus (Pisces: TRiglidae). Fish. Bull., 76(1): 225-234. 1978. STERBA, G. Freshwater fishes of the world. London: Studio Vista. 1966.

[ 52 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Composição preliminar da ictiofauna do litoral da Ilha do Frade, Vitória, Espírito Santo.
Artigo publicado originalmente na Revista de Cultura da UFES (44/45): 69-78. 1991.

José Luiz Helmer Edson Campos Perrone
Departamento de Biologia - CEG - UFES

Resumo
Para avaliar a composição da ictiofauna do litoral da Ilha do Frade, Vitória, Estado do Espírito Santo, foram realizadas coletas nas praias e em poças entre marés, feitas observações através de mergulho em apneia e, também, um levantamento dos espécimes depositados na Coleção Zoológica da UFES (ZUFES). Foram determinadas as espécies constantes e a similaridade de Czekanowki entre as espécies coletadas em praia e entre marés. Um total de 148 espécies pertencentes a 52 famílias de peixes são aqui citadas. Nas coletas de praia foram registradas 82 espécies pertencentes a 34 famílias, sendo 17 espécies constantes. Nas poças entre marés foram registradas 38 espécies pertencentes a 20 famílias, com 8 espécies consideradas constantes.

Abstract
The ictiofauna composition of the Frade Island shoreline was evaluate by sampling in the beach and tides pool; observations through skin diver and a collection reseach in the fishes deposited in the Zoological Collection of UFES (ZUFES). It was determined the species constants and the similatity of Czekanowki among the species sampled in the beach and tides pool. A total of 148 species belonging

[ 53 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

to 52 families are cited here. In the beach sampling were registred 82 species related as 34 families, being 17 species constants. In the tides pool were observed 38 species of 20 families, with 8 species constants.

Introdução
Palácio (1982) propõe o nome de Província Paulistana à zona de transição entre a fauna tropical e subtropical, cujo limite norte está entre os Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro e o limite sul entre o Estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai, apesar de considerar impossível, segundo o princípio de Forber, fixar com exatidão uma demarcação faunística. A localidade de Vitória apresenta-se dentro do "limite" norte da Província Paulistana, portanto, o estudo da composição de suas comunidades assume um papel importante na compreensão da composição das extensões das províncias biogeográficas do Atlântico Ocidental Sul e, em particular, dos "limites" entre as províncias Tropical e Paulistana. Os estudos da composição de comunidades de peixes marinhos realizados no Espírito Santo são poucos, resumindo-se aos trabalhos de Helmer e Barbosa (1987). Este estudo preliminar tem por objetivo contribuir para o conhecimento da composição da comunidade de peixes encontrada no Espírito Santo e, em particular, na área metropolitana de Vitória. Estes dados permitirão, no futuro, realizar comparações de mudanças na composição da fauna, resultantes do crescimento populacional e industrial que está em curso na região.

[ 54 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Descrição da área
A Ilha do Frade está localizada na entrada da Baía de Vitória (Moraes, 1974),
o o

entre

as seguintes coordenadas geográficas:

40 16'30'' e 40 17'10''W e 20o18'15'' e 20o18'17''S (Figura 01). O litoral da ilha é caracterizado por pequenas praias arenosas entre formações rochosas onde ocorrem poças entre marés.

Figura 01- Locais de coleta em praias, poças entre marés e observações em mergulho na Ilha do Frade, Vitória, ES.

[ 55 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Procedimento
Os peixes capturados na Ilha do Frade foram provenientes de coletas em praias, poças entre marés, mergulhos em apneia e ainda utilizamos para estudo exemplares depositados na seção de peixes da Coleção Zoológica da Universidade Federal do Espírito Santo (ZUFES). Os peixes observados nos mergulhos e depositados na ZUFES não foram incluídos no cálculo de constância, pois não provêm de dados quantitativos. Nas praias, utilizou-se uma rede "picaré" de 10 metros de comprimento com malha de 24 mm entre nós opostos. As coletas foram realizadas semestralmente, durante o período de 1982 a 1986. Cada amostragem foi composta por 6 lances de aproximadamente 13 metros de arrasto. Nas poças entre marés, os peixes foram capturados com uso de timbó em pó durante 6 coletas realizadas no período de junho, agosto e outubro de 1982 e março e maio de 1983. Na Coleção Zoológica da Ufes (ZUFES), foram pesquisados os registros de todas as espécies provenientes da Ilha do Frade. Os mergulhos foram realizados em apneia, no período de verão, para complementar as informações obtidas por coletas com rede "picaré" e solução de timbó. As observações limitaram-se aos peixes que apresentavam atividades diurnas junto à ilha. Alguns exemplares de espécies de difícil identificação foram capturados para confirmação. Durante as coletas na "Praia das Cocotas" foi tomada a temperatura da água por meio de um termômetro de mercúrio com sensibilidade de 0,1o C, e, após detectadas a condutividade, foi possível obter a salinidade. Essas medidas foram tomadas durante um ciclo diário com intervalos de 3 horas em um dia em março ou abril

[ 56 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(primeiro semestre) e agosto ou setembro (segundo semestre) entre 1982 e 1985. Para se determinar as espécies nas praias e nas poças entre marés, utilizou-se a seguinte fórmula (Dajoz, 1978): c=p.100/P Onde: c= Constância de ocorrência. p= Número de coletas contendo a espécie em estudo. P= Número de coletas realizadas. De acordo com o valor de "c", podemos considerar espécies constantes, quando "c" for maior ou igual a 50. Determinou-se a similaridade de Czekanowki entre as comunidades de peixes coletados na praia e poças entre marés. Na identificação dos peixes foram utilizados os trabalhos de Figueiredo (1977), Figueiredo e Menezes (1978, 1980), Menezes e Figueiredo (1980, 1985), que são as principais referências da presente relação. Além desses, os trabalhos de Bohlke e Chaplin (1968) e Fisher (1978) são muito importantes para a identificação dos peixes da região, assim como os de Norman (1934) e Dawson e Varri (1982).

Resultados e Discussão
Os dados de salinidade e temperatura médias diárias obtidas para as águas que banham as costas da Ilha do Frade constam da tabela 1; observou-se que os valores de salinidade são maiores no período de inverno do que no verão. Na região de Vitória, na qual a área de estudo está inserida, as precipitações médias mensais no período de 1980 a 1986 foram maiores para o verão do que para o

[ 57 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

inverno (Carmo, 1987). Desse modo, a salinidade da água em torno da ilha do Frade está, provavelmente, influenciada pelo aumento do aporte de águas continentais por ocasião do período das chuvas. Tabela 01- Variação da temperatura e salinidade médias da água durante os dias de coleta na "Praia das Cocotas" - Ilha do Frade - ES, no período de 1982 a 1985. Ano/Semestre 82/1 82/2 83/1 83/2 85/1 Temperatura (o C) 26,4 23,7 25,7 25,0 26,2 Salinidade (g/l) 31,9 35,6 33,2 36,0 32,6

Rushi (1965) listou para o Estado do Espírito Santo 439 espécies, pertencentes a 112 famílias de peixes de água doce e salgada. Nosso estudo registra um total de 148 espécies, pertencentes a 52 famílias de peixes marinhos. Na Tabela 02 estão registrados, em ordem alfabética, os nomes das famílias e espécies dos exemplares coletados na Ilha do Frade. Nas praias foram coletados 1667 exemplares, pertencentes a 82 espécies e 34 famílias. As espécies que contribuíram com o maior número de indivíduos foram: Ulaema lefroyi (245), Eucinostomus

argenteus (180), Oligoplites saurus (159) e Trachinotus falcatus
(148). As espécies consideradas constantes foram: família ALBULIDAE, Albula vulpes (80%); ATHERINIDAE, Xenomelaniris

brasiliensis (80%); CARANGIDAE, Oligoplites saurus (60%), Selene

[ 58 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

vomer (80%), Trachinotus carolinus (100%) e Trachinotus falcatus (100%); CLUPEIDAE, Lile piquitinga (80%) e Sardinella brasiliensis (60%); GERREIDAE, Eucinostomus argenteus (100%), Eucinostomus gula (60%) e Ulaema lefroyi (60%); LUTJANIDAE, Lutjanus synagris (80%); POLYNEMIDAE, Polydactylus virginicus (60%); SCIAENIDAE, Menticirrhus americanus (100%) e Umbrina coroides (60%); TRIGLIDAE, Prionotus punctatus (100%) e TETRAODONTIDAE, Sphoeroides spengleri (60%).
Nas poças entre marés foram coletados 749 exemplares, pertencentes a 38 espécies e a 20 famílias. As espécies que contribuíram com maior número de indivíduos foram: Bathygobius

soporator (203), Xenomelaniris brasiliensis (112) e Abudefduf saxatilis
(35). As espécies consideradas constantes foram: ACANTHURIDAE,

Acanthurus fasciatus

bahianus

(60%)

e

Acanthurus

chirurgus

(60%);

BLENNIDAE, Scartella cristata (80%; GOBIESOCIDAE, Tomicodon

Bathygobius soporator (60%); LABRISOMIDAE, Labrisomus nuchipinnis (60%) e Malacoctenus delalandii (60%) e POMACENTRIDAE, Abudefduf saxatilis (100%). A ocorrência de um grande número de Xenomelaniris brasiliensis nas
(60%); GOBIIDAE, poças entre marés deve ser acidental, pois essa espécies só foi encontrada em uma vez, não sendo considerada constante. As comunidades de peixes de praia e poças entre marés da Ilha do Frade são distintas, apresentando baixa similaridade (0,029). A ocorrência de uma determinada espécie característica de um ambiente em outro se deve, provavelmente, ao aprisionamento acidental nas poças que se formam durante a baixamar ou por ter sido nas praias em áreas próximas às regiões de pedras, ou ainda, em épocas de ocorrência de algas de arribação. Neste estudo verificou-se que foram encontradas, na região da Ilha do Frade algumas espécies cuja distribuição, até agora, estava

[ 59 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

restrita às regiões costeiras do norte e nordeste do Brasil, tendo, portanto, aumentada a sua distribuição geográfica. Essas espécies são: Lile piquitinga, Malacoctenus triangulatus, Myricthys acuminatus,

Myricthys aculatus e Micrognathus crinitus.
Embora essa listagem represente uma visão abrangente da composição da ictiofauna marinha da Ilha do Frade, porque foram analisadas amostras de quatro anos de coletas, não podemos considerá-la completa, visto que existem várias outras espécies já coletadas em áreas adjacentes e que, possivelmente, podem explorar, com baixa intensidade, a ilha, como por exemplo: Rhinobatos

percellens que é encontrada com frequência na Baía do Espírito
Santo, dentro da qual a Ilha do Frade está inserida. Tabela 02- Relação preliminar dos peixes que habitam águas litorâneas na Ilha do Frade, Vitória, ES., depositados na Coleção Zoológica da Ufes (Zufes)(CZ), observados por mergulho (ME), coletados nas praias (CP) e nas poças entre marés (PM). (-) significa ausência e (X) presença.
FAMÍLIA - ESPÉCIE CHAETODONTIDAE CLUPEIDAE NOME VULGAR Borboleta Borboleta ? Olhuda Sardinha Sardinha ? Corongo Voador Baiacu-espinho Manjuba Manjuba Manjuba CZ x x x x x ME x x x x x x x CP 01 02 73 30 01 02 03 02 PM 04 -

Chaetodon sedentarius Poey, 1860 Chaetodon striatus Linnaeus, 1758 Brevoortia pectinata (Jenyns, 1842) Harengula clupeola (Cuvier, 1829) Lile piquitinga (Schreiner & Ribeiro, 1903) Pellona Harroweri (Fowler, 1917) Sardinella brasiliensis (Steindachner, 1789)
CONGRIDAE

Ariosoma opisthophthalma (Ranzani, 1838)
DACTYLOPTERIDAE DIODONTIDAE ENGRAULIDAE

Dactylopterus valitans (Linnaeus, 1758) Chilomycterus antillarum Jordan & Rutter, 1897 Anchoa spinifera (valenciennes, 1848) Anchoa januaria (Steindachner, 1879) Anchoa lyolepis (Evermann & Marsh, 1902)(?)

[ 60 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

FAMÍLIA - ESPÉCIE Anchoa marinii Hildebrande, 1943 (?) Anchoa tricolor (Agassiz, 1829) Anchovia clupeoides (Swainson, 1839) Anchoviella cayennensis (Cuvier, 1828) Cetengraulis edentulus (Cuvier, 1828) Lycengraulis grossidens (Agassiz, 1829) EPHIPPIDAE Chaetodipterus faber (Broussonet, 1782) EXOCOETIDAE Hemiramphus brasiliensis (Linnaeus, 1758) Hyporhamphus roberti (Valenciennes, 1816) Hyporhamphus unifasciatus (Ranzani, 1842) FISTURALIDAE Fistularia petimba Lacepede, 1803 Fistularia tabacaria Linnaeus, 1758 GERREIDAE Eucinostomus argenteus (Baird & Giard, 1854) Eucinostomus gula (Cuvier, 1830) Eucinostomus melanopteura (Bleeker, 1863) Ulaema Lefroyi (Goode, 1860) GOBIESOCIDAE Acyrtops beryllina (Hildebrand & Gisburg, 1927) Gobiesox strumosus Cope, 1870 Tomicodon fasciatus (Peters, 1860) GOBIIDAE Bathygobius soporator (Valenciennes, 1837) Coryphopterus glaucofraenum Gill, 1863 Gobionellus boleosoma (Jordan & Gilbert, 1882) Gobionellus smaragdus (Valenciennes, 1837) Gobiosoma hemigynnum (Eigenmann, 1888) HOLOCENTRIDAE Holocentrus ascencionis (Osbeck,1765) KYPHOSIDAE Kyphosus sextratrix (Linnaeus, 1758) LABRIDAE Bodianus rufus (Linnaeus, 1758) Halichoeres maculipinna (Muller & Troschel, 1848) Halichoeres poeyi (Steindachnner, 1867) Halichoeres radiatus (Linnaeus, 1758) LABRISOMIDAE Labrisomus kalisherae (Jordan, 1904) Labrisomus nuchipinnis (Quoy & Gaimard, 1904) Malacoctenus delalandii (valenciennes, 1836) Malacoctenus triangulatus Springer, 1958 Paraclinus fasciatus (Steindachnner, 1876) LUTJANIDAE Lutjanus analis (Cuvier, 1828) Lutjanus jocu (Bloch & Schneider, 1801) Lutjanus synagris (Linnaeus, 1758) Lutjanus vivanus (Cuvier, 1828) Ocyurus chrysurus (Bloch, 1791) MONACANTHIDAE Stephanoleps hispidus (Linnaeus, 1766) MUGILLIIDAE Mugil curema Valenciennes, 1826

NOME VULGAR Manjuba Manjuba Manjuba Manjuba Manjuba Manjuba Paru-branco Agulha Agulha Agulha Agulha Agulha Caratinga, Caratinga, Caratinga, Caratinga, permitunga permitunga permitunga permitunga

CZ x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

ME x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

CP 02 03 01 06 06 03 06 04 03 01 01 180 55 04 245 01 55 01 01 24 26 76 01 01 02

PM 22 27 203 03 08 06 01 07 02 20 20 04 01 11

Peixe-ventosa Peixe-ventosa ? Moréia Moréia-vidro Moréia Moréia ? ? Coara, entorta panela Bodiano, budião Sabonete Sabonete Sabonete Moréia Moréia Moréia Moréia Moréia Sirioba Dentão Arioco Caranho Rabo-aberto Peroazinho Tainha

[ 61 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

FAMÍLIA - ESPÉCIE MULLIDAE Upenes parvus (Poey, 1853) Pseudupneus maculatus (Bloch, 1793) MURAENIDAE Gymnothorax funebris Ranzani, 1840 Gymnothorax moringa (Cuvier, 1829) Gymnothorax vicinus (castelau, 1855) OGCOCEPHALIDAE Ogcocephalus notatus (valenciennes, 1837) Ogcocephalus vespertilio (Linnaeus, 1758) OPHICHTHIDAE Ahlia egmontis (Jordan, 1884) Myrichthys acuminatus (Gronow, 1854) Myrichthys aculatus (Kaup, 1856) Ophchthus gomesii (castelau, 1855) Ophchthus parilis (Richardson, 1844) Ophchthus ophis (Linnaeus, 1758) POLYNEMIDAE Polydactylus virginicus (Linnaeus, 1758) POMACANTHIDAE Holacanthus ciliaris (LInnaeus, 1758) Pomacanthus paru (Bloch, 1787) POMACENTRIDAE Abudefduf saxatilis (Linnaeus, 1758) Stegastes fuscus (Cuvier, 1830) Stegastes variabilis (Castelau, 1855) POMADASYIDAE Anisotremus bicolor (Castelau, 1850) Anisotremus surinamensis (Bloch, 1791) Anisotremus virginicus (Linnaeus, 1758) Conodon nobilis (Linnaeus, 1758) Haemulon aurelineatum Cuvier, 1829 Haemulon plumieri (Lacepede, 1802) Haemulon steindachneri (Steindachener, 1882) Orthoprister ruber (Cuvier, 1830) Pomadasys corvinaeformis (Steindachnner, 1868) Pomadasys crocco (Linnaeus, 1766) POMATOMIDAE Pomatonus saltator (Cuvier, 1830) SCARIIDAE Nicholsina usta (Valenciennes, 1839) Scarus guacamaia Cuvier, 1829 Sparisoma rubripinne Valenciennes, 1839 SCIAENIDAE Menticirrhus americanus (Linnaeus, 1839 Menticirrhus littoralis (Linnaeus, 1860) Micropogonias furnieri (Desmarest, 1823) Paralonchurus brasiliensis (Stendachner, 1875) Pareques acuminatus (Bloch & Schneider, 1801) Umbrina coroides Cuvier, 1830) SCORPAENIDAE Scorpaena brasiliensis Cuvier, 1829 Scorpaena plumieri (Bloch, 1789)

NOME VULGAR Salamonete Salamonete Caramuru Caramuru Caramuru Peixe-morcego Peixe-morcego Murucutuca Murucutuca pintada Murucutuca pintada Corongo Corongo Corongo Barbudinho Peixe-anjo Frade Oá, sargentinho Maria preta Donzelinha ? Sargo de beiço Sargo de fita Roncador Corcoroca Boca-de-velho Corcoroca ? ? ? Enchova Batata Budião azul Batata Pescadinha Pescadinha Curvina Pescadinha Maria nagô Pescadinha Moréia-ati Moréia-ati

CZ x x x x ? x x x x

ME x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

CP 01 21 01 11 04 01 01 01 01 01 01 01 09 01

PM 01 01 03 02 13 01 01 35 03 01 01 01 02 10 01 01

[ 62 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

FAMÍLIA - ESPÉCIE SERRANIDAE Cephalopholis fulva (Linnaeus, 1758) Epinephellus adscencionis (Osbeck, 1771) Epinephellus itajara (Lichtenstein, 1822) Mycteroperca rubra (Bloch, 1793) SOLEIDAE Achirus lineatus Linnaeus, 1758 SPARIDAE Archosargus probatocephalus (Linnaeus, 1758) Archosergus rhomboidalis (Walbaum, 1792) Diplodus argenteus (Valenciennes, 1830) SYNGNATHIDAE Hippocampus reidi Gisburg, 1833 Micrognathus crinitus (Jenyns, 1842) Bryx dunckeri (Metzelaar, 1919) Syngnathus scovelli (Evermann & Kendalli, 1896) SYNODONTIDAE Synodon foetens (Linnaeus, 1766) TETRAODONTIDAE Lagocephalus laevigatus (Linnaeus, 1766) Sphoeroides greeleyi Gilbert, 1900 Sphoeroides spengleri (Bloch, 1797) TRICHIURIDAE Trichiurus lepturus Linnaeus, 1758 TRIGLIDAE Prionotus punctatus (Bloch, 1797) URANOSCOPIDAE Astrocopus ygraecum (Cuvier, 1829)

NOME VULGAR Catoá Garoupa pintada Mero Badejo Maria sapeba Sargo de dente Canhanha Pinta no cabo Cavalo-marinho Peixe-cahimbo Peixe-cachimbo Peixe-cachimbo Peixe-lagarto Baiacu arara Baiacu pinima Baiacu Espada Voador ?

CZ x x x x x x x x x -

ME x x x x x x x x x x x x x x x

CP 01 01 01 02 02 01 01 41 01 35 01

PM 01 01 03 -

OBS: As observações de mergulho foram feitas por João L. R. Gasparini

Referências Bibliográficas
BÖHLKE, J.E. & CHAPLIN, C.C.G. Fishes of Bahamas and Adjacent

Tropical Waters. Austin, University of Texas Press. Second Edition.
Revised. 1993. CARMO, R. M. S. Os mangues do norte da Baía de Vitória, Espírito Santo. In: Academia de Ciências de São Paulo. Simpósio sobre ecossistemas 1987. DAJOZ, R. Ecologia Geral. São Paulo, Vozes & Edusp. 1978. da costa sul e sudeste brasileira. Síntese de conhecimentos. Academia de ciências de São Paulo, Cananéia. V1.

[ 63 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

DAWSON, C. E. A mississi population of the pipefish, Oostethus

lineatus (Syngnathidae). Copeia, 1970 (4). 772-773. 1970.
FIGUEIREDO, J. L. & MENEZES, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. Teleostei (2).
Zoologia, Universidade de São Paulo. 1978.

São Paulo, Museu de

FIGUEIREDO, J. L. & MENEZES, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. Teleostei (3). São Paulo, Museu de
Zoologia, Universidade de São Paulo. 1980. FIGUEIREDO, J. L. & MENEZES, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. Teleostei (5). São Paulo, Museu de
Zoologia, Universidade de São Paulo. 2000.

FAO species identification sheets for fishery purposes. Western Central Atlantic (fishing area 31). Vols. 1FISCHER, W. 7. Roma, FAO. 1978. HELMER, J. L. e BARBOSA, P. S, B. Influência do ciclo diário e tipo de maré na ictiofauna ao norte da Bacia de Vitória, ES. In: Academia de Ciências de São Paulo. Simpósio sobre ecossistemas da costa sul e sudeste brasileira. Síntese de conhecimentos. Academia de ciências de São Paulo, Cananéia. V3. 267-282. 1987. MENEZES, N. A . Guia prático para conhecimento e identificação das tainhas e paratis (Pisces, Mugilidae) do litoral brasileiro. Revista

brasileira de Zoologia. 2 (1): 1-12. 1983.
MENEZES, N. A. & FIGUEIREDO, J. L. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. Teleostei (4). São Paulo, Museu de
Zoologia, Universidade de São Paulo. 1985.

[ 64 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

MORAES, C. Geografia do Espírito Santo. Vitória, Fund. CUlt. do Espírito Santo. 1974. NORMAN, J. R. A Systematic monograph of the flatfishes

(Heterosomata). V1. Psettodidae, Bothidae e Pleuronectidae.
Brish Museum (Natural History). 1934. RUSHI, A. Lista dos tubarões, raias e peixes de água doce e salgada do Estado do Espírito Santo e uma observação sobre a introdução do dourado no Rio Doce. Bol. Mus. Mello Leitão (25A): 1-24. 1965. PALÁCIO, F. J. Revision zoogeográfica marina del sur del Brasil. Bol.

Inst. Ocean., 31 (1): 69-92. 1982.

[ 65 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A fauna ictiológica associada às macrófitas aquáticas no Rio Jucu, Vila Velha, Espírito Santo.
Artigo publicado originalmente no Simpósio de Ecossistema da Costa Brasileira, 3(1): 39-45. 1993.

Edson Campos Perrone
Departamento de Biologia - CEG - UFES

Abstract
Some aspects analyzed about the influence of the season factors (dryness, flood) in the occurrence of the abundance of some fish species that habitat on the aquatic macrophytes at the river banks in a sections of Jucu River. In a total amount of 524 exemplaries of fish distributed in 16 species and 11 families, were collected during the period in October of 1987 and August of 1988. Between this species, 5 were considered constants, 3 accessories and 8 accidental. The main factors that probably change composition of ictiofauna were the alteration of water volume and stream velocity that the structure of margin vegetation and presence of migrant species, some typical from estuary region and others from fresh water.

Introdução
Em comunidades de peixes tropicais é comum encontrar um grande número de espécies utilizando um mesmo habitat. Segundo Pianka (1978), é necessária uma análise da estrutura dos nichos ecológicos para uma melhor compreensão dos fatores que determinam a existência dessa diversidade. As macrófitas aquáticas são vegetais que habitam brejos e até mesmo ambientes verdadeiramente aquáticos (Esteves, 1988),

[ 66 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

desempenhando

um

importante

papel

no

metabolismo

do

ecossistema, devido as altas taxas de produtividade (Wetzel, 1964, 1981; Davies, 1970; Rich et alii, 1971) e como fonte de proteínas e carboidratos solúveis para os animais aquáticos (Goevskaa, 1960 in Camargo, 1984). Em relação à fauna de peixes, a comunidade de macrófitas pode atuar como fonte de alimentos (Machado, 1976; Paula, 1978; Nordlie, 1981; Thomaz e Esteves, 1988), na dispersão de algumas espécies (Lowe-McConnell, 1975; Achaval et alii, 1979; Sazima e Zamprogno, 1985). No presente estudo foram analisadas as influências estacionais (seca e cheia) na ocorrência e abundância de espécies de peixes associados a macrófitas aquáticas marginais em um trecho da parte baixa do Rio Jucu, próximo ao mar.

Material e Métodos
As coletas foram realizadas bimestralmente de outubro de 1987 a agosto de 1988, sob as macrófitas aquáticas marginais em um trecho de aproximadamente 100 metros no Rio Jucu, distante cerca de dois quilômetros da foz. Em cada coleta foram realizadas 16 amostragens, utilizando-se uma puçá retangular (1 x 0,6m) com rede de 3mm de malha. A quantidade de macrófitas foi avaliada visualmente, no campo, de acordo com o seguinte critério:    S – Ausência de macrófitas. As margens apresentavam apenas gramíneas pendentes sobre o rio. P – Pouca quantidade de macrófitas. A área possuía apenas alguns grupos isolados. M – Quantidade média de macrófitas. Toda a margem possuía macrófitas, entretanto, em número reduzido.

[ 67 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A – Quantidade abundante de macrófitas. As margens possuíam uma área relativamente grande de macrófitas aquáticas.

Os peixes coletados foram fixados em formalina a 10% e junto com amostras de macrófitas, identificadas até a menor categoria taxonômica possível. Os peixes foram separados por espécies e de cada exemplar foi obtido o estádio de maturação gonadal (aspecto macroscópico), evidenciando peixes jovens ou adultos. Para a análise do índice de ocorrência “c”, utilizou-se a seguinte fórmula (Dajoz, 1978): c = p.100/P Onde: p = Número de coletas contendo a espécie estudada P = Número total de coletas De acordo com o valor de "c", pode-se considerar: espécies constantes, quando c > 50%; espécies acessórias, quando 25% <= c >= 50% e espécies acidentais, quando c < 25%. Foram também determinados o índice o índice de diversidade de Shannon, a equitabilidade e a riqueza de espécies. O índice de diversidade de Shannon “H’” é expresso pela seguinte equação (Odum, 1985). H' = -∑(ni/N).log(ni/N) Onde: H' = Índice de diversidade de Shannon Ni = Número de indivíduos da espécie i N = Número total de indivíduos

[ 68 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A equitabilidade, um dos componentes do índice de Shannon, representa a uniformidade do número de exemplares em cada espécie. Assim: E = H/Hmáx. Onde: E = Equitabilidade H’ = Índice de diversidade de Shannon Hmáx. = Log de S S = Número de espécies A riqueza de espécies foi calculada através do índice de Margalef (D), pois incorpora em sua fórmula o número de indivíduos capturados, sendo: D = (S-1)/log N Onde: D = Riqueza de espécies S = Número de espécies N = Número total de indivíduos Para determinar os períodos de cheia (novembro a fevereiro) e seca (abril a outubro), foram utilizados os dados hidrológicos referentes às cotas médias do nível do Rio Jucu, cedidos pelo 5º Distrito do DNAEE (Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica).

Resultados
Constância nas amostragens e abundância dos peixes No Rio Jucu, foi amostrado um total de 524 exemplares de peixes, distribuídos em 16 espécies e 11 famílias. Através da ocorrência “c” foi possível verificar que cinco espécies de peixes foram constantes, três foram acessórias e oito acidentais (Tabela 01).

[ 69 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Tabela 01- Relação das espécies de peixes, ordenadas de acordo com a constância “c”, coletadas bimestralmente sob as macrófitas aquáticas marginais em um trecho do Rio Jucu no período de outubro de 1987 a agosto de 1988.
ESPÉCIES CONSTANTES OUT 43 39 10 4 14 1 1 112 DEZ 43 11 2 1 11 3 2 2 1 76 FEV 28 30 1 3 1 63 ABR 52 26 10 3 5 96 JUN 45 30 10 5 4 1 2 2 2 101 AGO 45 13 14 1 3 76 TOTAL 256 149 45 15 15 15 12 3 3 2 2 2 2 1 1 1 524

Eleotris pisonis Oostethus lineatus
Centropomus parellelus

Poecilia vivípara Dormitator maculatus

ACESSÓRIAS

Eucinostomus sp. Geophagus brasiliensis Gobionellus boleosoma

ACIDENTAIS

Pseudophallus mindii Evorthadus lyricus Synbranchus marmoratus Astyanax cf fasciatus Mugil curema Hoplias malabaricus Characidium cf Fasciatum Gobionellus oceanicus

TOTAL

Entre as espécies amostradas, Eleotris pisonis e Oostethus

lineatus foram as mais abundantes, contribuindo, respectivamente,
com 48,8% e 28,4% do total de peixes coletados. As demais espécies tiveram frequências relativas inferiores a 10% do total. A análise de proporção de peixes jovens (65%) e adultos (35%), considerando-se somente as espécies constantes e acessórias, revelou que todos os exemplares de Poecilia vivípara eram adultos, enquanto que aqueles de Centropomus parallele, Eucinostomus sp. E

[ 70 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Gobionellus

boleosoma eram jovens. As demais espécies, Eleotris pisonis, Oostethus lineatus, Dormitator maculatus e Geophagus brasiliensis, eram constituídos por jovens e
nominalmente, adultos, com predomínio de jovens. Todos os exemplares das espécies acidentais foram identificados como jovens. Ocorrência e abundância relativa das macrófitas aquáticas Foram consideradas comuns no Rio Jucu 7 espécies de macrófitas aquáticas marginais, pertencentes a 6 famílias:

Eichhornia crassipes e Eichhornia azurea; Nymphaea sp.; ARACEAE, Pistia stratiotes; LENTIBULARIACEA, Utricularia foliosa; SALVINIACEAE, Salvinia atriculatus; HALORAGACEAE, Myriophyllum brasiliensis. Uma espécie
PONTEDERIACEAE, NYMPHAEACEAE, de gramínea não identificada, geralmente pendente sobre o leito do rio, funciona como apoio para a fixação das macrófitas aquáticas marginais, principalmente, as flutuantes. A estimativa da quantidade de macrófitas aquáticas marginais é mostrada na Figura 01. A maior abundância foi observada no mês de outubro, período de maior seca; quantidade média foi observada nos meses de junho e agosto, durante o período de seca; pouca quantidade durante os meses de dezembro e abril. No mês de fevereiro, após o período de maior cheia, não foram encontradas macrófitas na área, a vegetação marginal estava composta exclusivamente por gramíneas pendentes sobre o leito do rio. Distribuição sazonal dos peixes Durante o período de seca foi coletado o maior número de peixes, principalmente, nos meses de outubro (N=112) e Junho (N=101). O menor número de peixes foi amostrado no mês de fevereiro (N=63). Tabela 01.

[ 71 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Algumas espécies acessórias e acidentais tiveram ocorrência somente no período de cheia: Pseudophallus mindii, Synbranchus

marmoratus, Astyanax cf fasciatus, hoplias malabaricus e Characidium cf fasciatum. Outras espécies foram coletadas somente no período de seca: Gobionellus boleosoma, Evorthodus lyricus, Mugil curema e Gobionellus oceanicus. As espécies Eucinostomus sp. E Geophagus brasiliensis foram coletadas em ambos períodos, cada
uma delas predominando, respectivamente, no período de seca e cheia.

Figura 01- Variação das cotas médias mensais do nível do rio, estimativa de quantidade de macrófitas e número de exemplares de peixes no Rio Jucu, no período de outubro de 1987 a agosto de 1988.

[ 72 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Entre as espécies identificadas como constantes, Eleotris

pisonis apresentou uma distribuição regular durante o ano, enquanto que Centropomus parallelus e Dormitator maculatus foram
capturados, principalmente, durante o período de queda nos níveis fluviométricos. Poecilia vivípara e Oostethus lineatus, a despeito de terem sido abundantes nas amostragens realizadas quando o nível estava baixo ou descendo, mostraram frequência similares em dezembro e agosto, meses típicos de cheia e seca, respectivamente.

Figura 02- Índice de diversidade de Shannon, equitabilidade e riqueza de espécie (índice de Margalef (D)) no Rio Jucu, durante o período de outubro de 1987 a agosto de 1988.

[ 73 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Análise da estrutura da comunidade de peixes A diversidade específica (índice de Shannon), equitabilidade e a riqueza de espécies (índice de Margalef), são mostradas na Figura 02. O índice de Shannon apresentou maiores valores nos meses de outubro (H’=0,614), dezembro (H’=0,613) e junho (H’=0,654) e valores menores nos meses de fevereiro (H’=0,430), abril (H’=0,514) e agosto (H’=0,418). A equitabilidade mostrou maior uniformidade nos meses de outubro (E=0,726) e abril (E=0,735), enquanto que em fevereiro foi registrado o menor valor (E=0,642). Os valores obtidos para a riqueza de espécies estiveram maiores durante os meses de dezembro (D=4,254) e junho (D=3,991) e menores nos meses de fevereiro (D=2,223), abril (D=2,018), agosto (D=2,127) e outubro (D=2,928).

Discussão e Conclusões
Poucos estudos ictiológicos apresentam informações sobre a distribuição das espécies no ambiente (Uieda, 1984). Alguns desses estudos analisam a preferência de habitat de diferentes espécies, levando em conta características ambientais como o volume de água (Lowe-Maconnell) e a velocidade da corrente (Bussing & Lopez, 1977). Entre os trabalhos consultados, somente os de Zaret & Rand (1971), Uieda (1983, 1984) e Garutti (1988) tratam detalhadamente as relações existentes entre espécies de peixes na exploração dos recursos do ambiente. Segundo Lowe-MacConnell (1975), em rios tropicais as comunidades de peixes são afetadas por mudanças estacionais, devido a contração e expansão do meio aquático durante os períodos de cheia e seca. Esse regime estacional reflete-se, principalmente, em mudanças na alimentação (Lowe-MacConnell, 1967; Zaret & Rand, 1971; Uieda, 1983, Perrone e Vieira, 1991), reprodução (Lowe-

[ 74 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

MacConnell, 1967; Perrone e Vieira, 1990) e no tamanho das populações (Lowe-MacConnell, 1967; Perrone, 1990). Na região estudada, as mudanças estacionais não se apresentaram tão marcantes, mas podem ser notados os efeitos do ciclo estacional (seca e cheia) sobre a composição das espécies de peixes associados às macrófitas aquáticas marginais. Durante o período de seca, principalmente, nos meses de junho a outubro, gramíneas pendentes sobre o leito do rio criaram um ambiente favorável à instalação e o aumento da área de macrófitas aquáticas marginais, favorecendo o aumento do número de indivíduos de algumas espécies de peixes, principalmente, de jovens, poia ali conseguem abrigo e alimento. Ao contrário, durante o período de cheia, o aumento do volume da água e da velocidade da corrente promove uma desorganização na estrutura da vegetação marginal, principalmente, devido ao carreamento de grandes quantidades de macrófitas aquáticas flutuantes. Esse carreamento de macrófitas aquáticas sob a forma de “ilhotas” pode levar a uma dispersão de peixes (Sazima e Zamprogno, 1985) e de outros animais (Achaval et alii, 1979). Os valores relativos ao índice de diversidade de Shannon e a equitabilidade evidenciaram a influência do período estacional (seca e cheia) sobre a comunidade de peixes. Esses valores foram baixos no mês de fevereiro, provavelmente, em consequência do período de cheia que ocorreu de novembro a fevereiro. Durante a seca, os valores altos devem-se a uma maior estabilidade do ambiente, principalmente, devido a organização da vegetação marginal. Segundo Lowe-McConnell (1975), outro fator que modifica a composição da comunidade de peixes, além do período estacional, é a presença de espécies migrantes. Esses peixes juntam-se aos residentes por algum tempo para se alimentar e/ou se reproduzir.

[ 75 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Essas migrações devem-se a fatores ambientais influenciados, provavelmente, pelo regime estacional (Uieda, 1984; Garutti, 1988). As espécies constantes foram consideradas residentes, enquanto que as espécies acessórias e, principalmente, as acidentais, provavelmente, constituem os peixes migrantes que, de acordo com o período estacional, passam a fazer parte da comunidade de peixes que habitam sob as macrófitas aquáticas marginais. Algumas espécies, geralmente encontradas em locais de água salobra de regiões estuarinas, foram coletadas entre as macrófitas aquáticas durante o período de seca, provavelmente, devido a menor velocidade da corrente o que permite, nessa época, a penetração de água com maior teor salino. Ao contrário, durante o período de cheia, foram coletadas espécies típicas de água doce, evidenciando um revezamento de espécies no local de estudo. Esse fato justifica os valores altos referentes a riqueza de espécies obtidas durante a cheia, no mês de dezembro, e seca, no mês de julho. Agradecimentos Agradeço ao Dr. Ângelo A. Agostinho (Nupelia) pela orientação e apoio; à Dra Norma S. Hahn, Sidnei M. Thomaz (Nupelia) e a Dra Tânia M. S. do Carmo (UFES) pelas sugestões; ao Prof. Oberdan J. Pereira e ao Biólogo Luiz Cláudio Fabris pela identificação das macrófitas aquáticas; ao Dr. Geral T. de Souza (Dnaee) pelo fornecimento dos dados referentes ao nível do Rio Jucu; aos companheiros Fabio Vieira, João Luiz Gasparini e Adriano Perrone pela ajuda nas coletas e a Patrícia G. Noronha pelo abstract.

Referências Bibliográficas
ACHAVAL, F., GONZALEZ, J.G., MENEGHEL, M. & MELGAREJO, A.R. Lista comentada del material recogido en costa Uruguayas,

[ 76 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

transportado por camalotes desde el Rio Paraná. Acta. Zool. Lilloana, 35: 195-200. 1979. BUSSING, W. A. & LOPEZ, S. M. I. 1977. Distribuicion y aspectos ecológicos de los peces de la cuenca hidrográficas de Arenal, Bebedoro y Tempisque, Costa Rica. Ver. Biol. Trop., 25 (1): 13-37. 1977. CAMARGO, A. F. M Estudo ecológico de três espécies de mestrado. Univ. Fed. São Carlos. São Carlos, SP. 1984.

macrófitas aquáticas tropicais: macroinvertebrados associados e decomposição de biomassa. Dissertação de
DAJOZ, R. Ecologia Geral. São Paulo, Vozes e Edusp. 1978. DAVIES, G. S. Productivity of macrophytes in marion lake, British Columbia. J. Fish. Res. Bd. Canada, 27: 71-81. 1980. ESTEVES, F. A. Fundamentos de limnologia. Rio de Janeiro, Interciência: FINEP. 1988. GARUTTI, V. Distribuição longitudinal da ictiofauna em um córrego da região noroeste do estado de São Paulo, Bacia do Rio Paraná. São Paulo, Rev. Bras. Biol., 48(4): 747-759. 1988. LOWE-McCONNELL, R. H. Fish Communities Freshwaters. London, Longman. 1975.

in

Tropical

LOWE-McCONNELL, R. H. Some factors affecting fish populations in Amazonian waters. Atas Simp. Biota Amazônica, 7: 177-186. 1967. MACHADO, C. E. M. Grandes barragens e meio ambiente, dois aspectos importantes. Anais do I Encontro Nacional Sobre Limnologia, Piscicultura e Pesca Continental. Belo Horizonte: 301-339. 1976. NORDLIE, F. G. Niche specifies os eleotris in a tropical estuary. Rev. Biol. Trop., 27(1): 35-50. 1979. ODUM, E. P. Fundamentos de Ecologia. Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian. 1985.

[ 77 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

PADUA, J. E. de. Estudo sobre a vegetação aquática e marginal relacionada com a vida dos peixes. Brasília, SUDEPE. 1978. PERRONE, E. C. Alguns aspectos sobre a biologia dos peixes associados a vegetação marginal em um trecho do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. Monografia. Nupelia/Universidade Estadual de Maringá, PR. 1990. PERRONE, E. C. e VIEIRA, F. Hábito alimentar de Eleotris pisonis (teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. Ver. Brasil. Biol., 51 (4): 867-872. 1990. PERRONE, E. C. e VIEIRA, F. Ocorrência e período reprodutivo de Eleotris pisonis (Teleostei: Eleotrididae) na região estuarina do Rio Jucu, Espírito Santo, Brasil. São Paulo, Ciência e Cultura 42 (9): 707-710. 1991. PYANKA, E. B. Evolutionary Ecology. 2 ed. New York, Harper & Row. 1978. RICH, P. H; WETZEL, R. G; VAN THUY, N. Distribution, production and role of aquatic macrophytes in a southern Michigan Marl Lare. Freshweat. Biol. , 1: 3-21. 1971. SAZIMA, I. e ZAMPROGNO, C. Use of water hyacinths as shelter, foraging place, and transport by young piranhas, Serrasalmus spilopleura. Environmental Biology of fishes 12 (3): 237-240. 1985. THOMAZ, S.M. & ESTEVES, F. A. Estudo da biomassa de algumas macrófitas aquáticas tropicais quanto ao seu valor nutritivo. An. Sem. Reg. Ecol. IV: 439-467. 1984. UIEDA, V. S. Ocorrência e distribuição dos peixes em um riacho de água doce. Rev. Bras. Biol., 44 (2): 203-213. 1984. UIEDA, V. S. Regime alimentar, distribuição espacial e

temporal de peixes (Teleostei) em um riacho na região de Limeira, São Paulo. Dissertação de mestrado, Unicamp. 1983.

[ 78 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

WETZEL, R. G. A comparative study of the primary productivity of higher aquatic plants, periphyton and phytoplankton in a large, shallow lake. In: Rev. Ges. Hydrobiol., 49: 1-64. 1964. WETZEL, R. G. Limnologia. Philadelphia, W. B. Saudars Company. 1981. ZARET, T. M. & RAND, A. S. Competition in tropical stream fishes: support for the competitive exclusion principle. Ecology, 52 (2): 336-242. 1971.

[ 79 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Projeto Sapé do Norte, realidade interinstitucional.
Artigo publicado originalmente na Revista Silvicultura, 53: 20-23. 1994

Edson Campos Perrone (*) José Luiz Helmer (*) Orlindo Francisco Borges Filho (*) Rogério P. Bastos (**)
(*) Departamento de Biologia – CEG – UFES (**) Pós-graduação do Depto de Zoologia da Faculdade de Rio Claro

Resumo
Por meio de um convênio de cooperação técnica/científica, foram amostradas três áreas no norte do Estado do Espírito Santo, visando caracterizar a fauna de peixes, anfíbios e répteis. Após quatro campanhas, registrou-se 33 espécies de peixes, 31 de anfíbios e 32 de répteis.

Introdução
O Projeto Sapé do Norte é uma ação integrada de contribuição técnica e científica, envolvendo a Aracruz Celulose e a Universidade Federal do Espírito Santo, com a interveniência da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, e desenvolvida nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, no norte do Estado do Espírito Santo. Utilizando uma equipe interinstitucional, foi possível o emprego de técnicas e ampliação de conhecimentos dos recursos naturais, com base para novos avanços técnicos que permitem a reformulação dos processos de ocupação especial e uso racional do solo.

[ 80 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A caracterização da ictiofauna (peixes) e da herpetofauna (anfíbios e répteis) em áreas de produção silviculturais associadas a áreas de conservação natural e avaliação da estrutura de comunidades desta fauna é uma concepção moderna de abordagem das questões ambientais, que permite o emprego de técnicas de manejo ecologicamente prudentes. A integração universidade/empresa concretiza uma política cooperativa e participativa em busca de soluções para os problemas ambientais relativos ao Estado e se constitui em uma condição básica para um novo padrão de desenvolvimento baseado na utilização sustentada dos recursos naturais. O objetivo desse trabalho é de divulgar a listagem de espécies obtidas durante a primeira etapa do Projeto Sapé do Norte, que visa obter informações sobre a composição faunística e a estrutura de comunidades de três áreas da Aracruz.

Figura 01- Localização das três áreas amostrais da Aracruz Celulose.

[ 81 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Localização das áreas
As amostragens foram realizadas nas seguintes áreas (Figura 01):  AI-161 – Localizada no município de São Mateus. Possui 210,3 há de área com plantio de eucaliptos e 186,9 há com áreas de preservação.  AI-167 – Localizada no município de São Mateus. Possui 125,8 há de área com plantio de eucalipto e 75,9 há com áreas de preservação.  AI-155 – Localizada no município de Conceição da Barra. Possui 217,4 há com plantio de eucaliptos e 116,9 há com áreas de preservação.

Amostragem da fauna
As amostragens foram realizadas semestralmente, em janeiro e julho de 1991 e janeiro e julho de 1992. Uma campanha preliminar, em novembro de 1990, foi realizada com objetivo conhecer a realidade de campo, visando otimizar tempo, equipamento e adequar o esforço de captura. Análise da ictiofauna As amostragens de peixes foram realizadas nos rios São Domingos (AI-161), Preto (AI-167) e Itaúnas (AI-155). Foram utilizadas várias técnicas de captura de peixes: Rede manual – Com tamanho de 3,0 x 1,5 m e malha de aproximadamente 3 mm (tipo mosquiteira). Em cada ponto amostral foram realizadas sete amostras, sendo que cada era composta de cinco lances. Cada esforço de captura foi realizado entre e sob a vegetação marginal do rio ou no seu leito principal (Figura 02).

[ 82 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 02- Técnica de coleta utilizando a rede manual.

Peneira especial – Com armação de ferro retangular (0,7 x 0,5 m), malha de 3 mm e cabo de 2 m. Esse aparelho de captura foi usado nos locais que apresentaram profundidades maiores que 1,5 m, sendo operada de barco por uma pessoa submergindo-a sob a vegetação marginal flutuante.

Anzóis – Foram usados anzóis de vários tamanhos, com isca de peixe e minhoca. Em cada ponto amostral foram armados sete anzóis, que permaneceram na água durante um período noturno.

Rede de espera – Foram utilizadas redes com malhas de 15 e 20 mm entre nós opostos e comprimento de 10 m. Em cada ponto amostral foram armadas duas redes de cada tamanho de malha, onde permaneceram durante um ciclo de 24 horas. Periodicamente, também foram amostrados peixes com tarrafas, jiquis e redes tresmalho.

Os peixes capturados foram fixados, no campo, utilizando-se formalina a 10% e, em laboratório, identificados até a menor categoria taxonômica possível, contados e pesados. Para a identificação foram utilizados os seguintes trabalhos: Ellis (1931),

[ 83 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Ihering (1931), Eigenmann (1917-1921), Britski (1972), Britski et al. (1984), Weitzman & Isbrucker (1980ª, 1980b, 1980c). Análise da herpetofauna As coletas e observações de anfíbios e répteis foram realizadas em três tipos de ambientes: eucalipto, brejo e mata, através de visitas diurnas Para a obtenção dos dados quantitativos, utilizamos o método de procura/captura por unidade de tempo (Campbell & Christman, 1982 In: Karns, 1986). Esse método consiste em vasculhar cada ambiente (eucalipto, brejo e mata). Não há limites especiais definidos e sim número de horas. Para esse trabalho foram estabelecidas duas horas/homem de procura, totalizando seis horas de observação por ambiente. Todos os animais observados foram registrados. Para as coletas de anfíbios, nas áreas determinadas, foram explorados três tipos de ambientes: brejo, eucalipto e mata, por meio de visitas diurnas e noturnas. Nesses locais, todos os microambientes utilizados por anfíbios foram minuciosamente vasculhados, tais como: serrapilheira, frestas entre rochas, bromeliáceas, cavidades de troncos, ramos de vegetação emergente, etc (Figura 03). Os anfíbios adultos foram coletados manualmente, acondicionados em sacos plásticos umedecidos por dentro e transportados em caixas de isopor, a fim de evitar choques mecânicos e desidratação. No laboratório os animais foram anestesiados, fixados em formalina a 10% e, posteriormente, conservados em álcool a 70%. A identificação das espécies no campo foi feita, principalmente, por meio das vocalizações emitidas pelos machos. Para algumas espécies isso não foi possível, sendo necessária comparação com material de coleções herpetológicas e descrições na literatura. Espécimes testemunhas estão depositadas na Coleção

[ 84 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Zoológica da Ufes (ZUFES), no Departamento de Zoologia da UNESP, Campus Rio Claro e na Coleção de Fauna da Aracruz Celulose.

Figura 03- Aspecto do brejo (área AI-155), utilizado para amostragem de anfíbios e répteis. Os répteis foram coletados utilizando as seguintes técnicas: a) lagartos: coletados manualmente ou com auxílio de estilingues ou anzóis; b) quelônios: Coletados manualmente ou com auxílio de puçá; c) serpentes: as não venenosas, manualmente, e as venenosas, com auxílio de ganchos e laços apropriados. Após a captura, as serpentes foram transportadas em caixas de madeira e os demais répteis acondicionados em sacos plásticos e transportados em caixas de isopor. No laboratório, os animais foram anestesiados, fixados em uma solução de formalina a 10% e, posteriormente, conservados em álcool a 70%.

[ 85 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Resultados e discussão
Peixes Foi amostrado um total de 33 espécies, pertencentes a 14 famílias. O rio São Domingos (AI-161) contribuiu com 22 espécies e 11 famílias; o rio Itaúnas com 22 espécies e 13 famílias e o rio Preto com 24 espécies e 12 famílias. A famílias Characidae foi a que mais contribuiu com o número de espécies (8), enquanto que os gêneros

Astyanax

e

Hyphessobrucon estiveram representados por duas espécies cada. A espécie Astyanax scrabipinnis foi mais abundante nos rios São Domingos e Preto e Poecilia vivípara no Itaúnas.
No rio São Domingos foi constatado a presença de nove espécies de peixes constantes, cinco acessórias e 10 acidentais; no rio Itaúnas, oito espécies constantes, seis acessórias e oito acidentais e no rio Preto, 11 constantes, sete acessórias e seis acidentais. Entre as espécies amostradas, duas foram coletadas exclusivamente no rio São Domingos, quatro no rio Preto e seis no rio Itaúnas. Essa diferença na composição da fauna de peixes está diretamente relacionada aos parâmetros ambientais que determinam o espectro da cada corpo hídrico. No rio Itaúnas, a proximidade do mar permitiu a amostra de exemplares típicos de locais estuarinos, como os representantes das famílias Carangidae, Mugilidae, Centropomidae e Eleotrididae. Pode-se observar, também, que 14 (42,4%) espécies de peixes foram amostradas nas três áreas estudadas. Esses resultados são de grande importância para o conhecimento de nossa ictiofauna, permitindo ampliar o acervo da Zufes e fomentar possíveis comparações com estudos futuros. Importante ressaltar a dificuldade de detectar influência do cultivo de eucalipto sobre a fauna de peixes. Caso existam alterações, essas devem ser lentas, não sendo possível registrar nesse estudo.

[ 86 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Anfíbios Um total de 31 espécies de anfíbios foi registrado para a região, representando seis famílias: Bufonidae (Bufo= 3), Caecilidae (Siphanops= 1), Hylidae (Aparasphenodon= 1,

Hyla=

9,

Phyllomedusa= 1, Scinax= 7 e Sphaenorynchus= 2), Leptodactylidae (Ceratophrys= 1, Eleutherodactylus= 1, Leptodactylus= 2, Physalaemus= 1), Microhylidae (Stereocyclops= 1) e Pseudidae (Pseudis= 1).
Como se pode verificar, existe uma predominância numérica de espécies (20) da família Hylidae, representando 64,5% do total amostrado. A família Leptodactylidae foi representada por cinco espécies (16,1%), a família Bufonidae por três (9,7%) e as famílias Caecilidae, Microhylidae e Pseudodidae por apenas uma espécie cada (3,2%). Considerando que as observações de campo foram realizadas nos meses de janeiro e julho do biênio 1991/1992, o registro de 31 espécies de anfíbios foi bastante significativo para o Estado do Espírito Santo. Outras áreas do Estado apresentam número de espécies similar ou maior, mas foram pesquisadas por um período maior, como por exemplo, a Reserva Florestal de Duas Bocas (30 espécies, com 12 meses de observação pessoal) e a região de Santa Tereza (42 espécies) (Cruz, 1980; Izecksohn, 1988; Peixoto, 1982; Peixoto & Weygoldt, 1987; Weygoldt, 1986 e 1989; Weygoldt & Peixoto, 1985e 1987). Algumas das espécies registradas nas três áreas como

Aparasphenodon brunoi (Sazima & Cardoso, 1980), Scinax agilis (Peixoto & Cruz, 1986), S. eurydice (Frost, 1985), Sphaenorynchis planicola (Frost, 1985), S. prasinus (Bokermann, 1973) e Stereocyclops incrassatus (Frost, 1985) apresentaram distribuição
geográfica restrita à Mata Atlântica. Segundo Lynch (1988), a região

[ 87 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Atlântica possui o maior endemismo genérico de anfíbios da América do Sul, com 22 gêneros exclusivos. Essas informações reafirmam a importância da Mata Atlântica para a preservação de diversas espécies de anfíbios brasileiros. Não obstante, é importante ressaltar que 50% das seis espécies acima citadas também foram registradas nas florestas plantadas de eucaliptos (A. brunoi, S. agilis e S.

eurydice), evidenciando uma necessidade de estudos específicos para
o melhor entendimento da distribuição dessas espécies em ambientes que integram ambientes nativos com florestas de eucaliptos. Na ocorrência dessas 31 espécies nos ambientes estudados (brejo, eucalipto e mata), 24 espécies foram amostradas em brejo, 19 em matas e 13 em eucaliptos. Durante a estação reprodutiva, as espécies que apresentam modos de reprodução dependentes de água acumulada, migram das áreas de abrigo para sítios aquáticos adequados para a sua reprodução. Excetuando Eleutherodactylus

binotatus, que se reproduz em cavidades de tronco ou no interior de mata muito úmida, e Siphonops spp., que não foi possível determinar
o modo de reprodução, todas as outras espécies aqui relacionadas dependem da água acumulada para sua reprodução. Dessa forma, ao redor dos corpos de água (brejos e poças) ocorre a formação de agregados multiespecíficos, o que proporciona maior diversidade animal. Répteis Foi registrado um total de 32 espécies de répteis, distribuídas em 14 famílias e duas ordens. A maioria das espécies de répteis (98,6%) pertence à ordem Squamata, sendo 17 (53,1%) representantes da Sub-ordem Serpentes (cobras), 13 (40,6%) da Sub-ordem Sauria (lagartos) e 1 (3,1%) da Subórdem Amphisbaenia

[ 88 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(cobras-cegas). A ordem Quelônia foi representada por uma espécie (3,1%). Em relação às famílias, o maior número de espécies de lagartos pertence a Teiidae, representando 23,1% do total amostrado, enquanto que o maior número de espécies de serpentes (11) pertencem à família Columbridae, representando 64,7% do total amostrado. Entre os ambientes analisados (mata, brejo e eucalipto), pode-se verificar que na mata foram amostrados 25 (78,1%) espécies, 12 (37,5%) no brejo e 9 (28,1%) no eucalipto. Entre essas espécies, 16 (50%) foram encontradas exclusivamente na mata, seis (18,8%) no brejo e nenhuma exclusivamente no eucalipto. Foi ainda observado que cinco (15,6%) espécies foram registradas em todos os ambientes.

Figura 04- Gráfico evidenciando as diferenças amostrais do número de fauna em relação às áreas de coletas.

[ 89 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Composição da ictiofauna do Reservatório Águas Claras, Aracruz, Espírito Santo, Brasil.
Artigo publicado originalmente no Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão (N. Sér.) 2: 23-33. 1995.

Edson Campos Perrone (*) Orlindo F. Borges-filho (*) Carlos E. Scardua (**)
(*) Departamento de Biologia – CEG - UFES. (**) Aracruz Celulose.

Resumo
Através de duas coletas de peixes realizadas no Reservatório Águas Claras (janeiro e Julho de 1992), foram amostrados 3247 exemplares, pertencentes a 14 espécies, 7 famílias e 5 ordens. Foram observadas diferenças na composição da comunidade de peixes entre as etapas analisadas, evidenciando que esse manancial está em fase de alterações ecológicas.

Abstract
A total sample of 3247 fishes was collected in two visits to Águas Claras Reservoir in January and July, 1992. It was observed 14 species, 7 families and 5 orders of fish. Differences between two collects were observed concerning the constitution of fish communities; these results suggest that in this reservoir is an occurring ecological modification.

Introdução
O estado atual do conhecimento taxonômico de um grande número de grupos de peixes de água doce neotropicais é insuficiente,

[ 90 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

principalmente, no que diz respeito à Bacia do Leste, onde poucos estudos foram realizados. Nessa bacia, segundo Gery (1969), Lowe-McConnell (1975), Bohlke et al (1978), ocorre um acentuado grau de endemismo, devido, segundo Menezes (1970), ao isolamento das grandes bacias fluviais, em geral por cadeias de montanhas. A história da sistemática de peixes de água doce no Brasil teve início com a publicação de Marcgrave (1648), onde aparecem descritas as primeiras espécies e prosseguiu com os trabalhos de zoólogos europeus que coletaram no Brasil nos séculos dezoito e dezenove (Menezes, 1992). No Estado do Espírito Santo, além das citações pontuais de ocorrência de espécies de peixes de água doce (Fowler, 1948, 1950, 1951 e 1954; Ruschi, 1965) entre outros, poucos estudos foram realizados, dentre os quais citamos: Alves et al (1983), que estudou a ocorrência dos peixes no Reservatório de Mãe Boa; Helmer et al (1987), que apresentam informações sobre a distribuição longitudinal das espécies no Rio Jucu; Zamprogno et al (1987), que apresentam uma listagem das espécies de peixes que habitam a Reserva Biológica de Duas Bocas; Perrone (1990, 1993), que estudou a associação da ictiofauna com a vegetação marginal em um trecho do Rio Jucu; Borges-Filho et al (1993), que apresentam a composição das espécies de peixes de três ambientes no norte do Estado. O objetivo desse trabalho é determinar as alterações na composição das espécies de peixes que habitam o Reservatório Águas Claras.

Caracterização da área
O Reservatório Águas Claras, localiza-se no distrito de Barra do Riacho, no município de Aracruz (40º07’W e 19º47’S), possui uma

[ 91 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

área de inundação prevista de 276 há em uma cota máxima de 29 m de profundidade. Sua construção foi executada conforme o projeto conceitual do sistema de águas brutas, relativos à expansão da Aracruz Celulose, em referência alternativa selecionada para a ampliação do sistema de abastecimento de água para a fábrica. Seu enchimento teve início em março de 1990, através do barramento do córrego Águas Claro e por gravidade até a cota de 14 metros através das águas do Complexo Santa Joana/Pavor. Acima deste nível são realizados bombeamentos periódicos visando atingir sua capacidade máxima.

Figura 01- Mapa evidenciando as áreas amostrais no Reservatório Águas Claras, Aracruz, ES.

[ 92 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Métodos
Para efeito de uma caracterização geral da ictiofauna foram realizadas duas amostragens, uma em janeiro e outra, após seis meses, em julho de 1992. No Reservatório foram demarcados 3 áreas amostrais (Figura 01), onde foram utilizados os seguintes aparelhos de captura: redes de espera, malhas 15, 20, 30, 40, 50 e 60 mm entre nós opostos; espinheis; peneira, com malha de 3 mm; tarrafa, malha 24 mm; picaré, malha de 24 mm revestida com malha de 3 mm e armadilha de fechamento manual, com malha de 3 mm. As atividade de coleta, em cada área amostral, foram repetidas 3 vezes, totalizando 9 amostras por etapa. Foram, também, realizados mergulhos livres, onde as espécies observadas foram registradas. Dos peixes amostrados foram tomados o comprimento total, em milímetros; o peso, em gramas, contados e identificados até a menor categoria taxonômica possível. Em ambas as etapas de amostragens, tanto para o número quanto para a biomassa, determinou-se a abundância baseada na captura total de cada espécie.

Resultados
Um total de 3247 exemplares de peixes, pertencentes a 14 espécies, 7 famílias e 5 ordens foram amostradas no Reservatório Águas Claras (Tabela I). Entre essas espécies, o mussum,

Synbranchus marmoratus e o barrigudinho, Poecilia caudimaculatus,
não foram qualificados. A primeira por ter sido encontrada no conteúdo estomacal da traíra, Hoplias malabaricus, e segunda por ter sido coletada somente na fase preliminar do trabalho, realizada em novembro de 1991. Analisando as duas amostragens, a primeira, no mês de janeiro, contribuiu com 2203 exemplares, representando 67,8% do

[ 93 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

total e a segunda (seis meses após, no mês de julho) com 1944 exemplares (32,2%). Considerando o total amostrado, o cará,

Geophagus

brasiliensis, contribuiu com 1792 exemplares (52,4%), a traíra, Hoplias malabaricus, com 615 (18,9%) e a piaba-vermelha, Hyphessobrycom bifasciatus com 447 (13,8%). As espécies menos coletadas foram: a tilapia, Tilapia rendalli, (N=1,003%), piaba-prata, Astyanax bimaculatus (N=2, 0,06%) e a piaba-branca, Hyphessobrycom reticulatus, com 3 exemplares (0,09%).
Durante o mês de janeiro, as espécies abundantes foram o

Geophagus brasiliensis (57,4%), a piaba-vermelha, Hyphessobrycom bifasciatus (18,4%) e a traíra, Hoplias malabaricus (16,8%). As espécies menos coletadas foram a piaba-prata, Astyanax bimaculatus, e a tilapia, Tilapia rendalli, ambas contribuindo com 0,05% e a piaba-branca, Hyphessobrycom reticulatus, com 0,14%
cará, exemplares (Tabela II). No mês de julho, as espécies mais abundantes foram o cará,

Geophagus brasiliensis (41,9%), o tucunaré, Cichla ocellaris (23,9%) e a traíra, Hoplias malabaricus (23,4%), enquanto que as espécies menos abundantes foram a piaba-prata, Astyanax bimaculatus (0,1%) e a cará-ferreira, Cichlasoma facetum (),5%) (Tabela II).
Analisando a abundância numérica na ocorrência dos peixes em cada área amostral, podemos verificar que durante o mês de janeiro as áreas A3 (N=1000) e a A2 (N=505) apresentaram maior e menor números de exemplares respectivamente, enquanto que, durante o mês de julho foram as áreas A1 (N=375) e A2 (N= 299). A biomassa (Tabela III), durante o mês de janeiro, apresentou maiores valores para as seguintes espécies: a traíra,

Hoplias malabaricus, representando 62,0% do total coletado e o cará, Geophagus brasiliensis (23,7%). As demais espécies contribuíram

[ 94 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

com porcentagens inferiores a 10%. A menor biomassa foi verificada para a piaba-branca, Hyphessobrycom reticulatus (0,001%). No mês de julho, as maiores biomassas foram da traíra, Hoplias malabaricus, representando 57,8% do total, do tucunaré, Cichla ocellaris (16,2%) e do cará, Geophagus brasiliensis (10,1%). As demais espécies contribuíram com porcentagens inferiores a 10%. A menor biomassa foi verificada para a piaba-prata, Astyanax bimaculatus (0,01%). No total, as maiores biomassas foram da traíra, Hoplias malabaricus (60,1%); do cará, Geophagus brasiliensis (17,4%); tucunaré, Cichla

ocellaris (8,6%); e do jundiá, Rhamdia quelen (6,0%). As demais
espécies tiveram biomassas inferiores a 5%. As espécies que contribuíram com as menores biomassas foram: piaba-branca, H.

reticulatus (0,0005%) e a tilápia, T. rendalli (0,003%).
Em relação às áreas amostrais, tanto no mês de janeiro quanto no mês de julho, a biomassa foi maior na área A3 e menor na área A2. A variação dos comprimentos totais de cada espécie é mostrada na Tabela II. O maior exemplar coletado foi uma traíra, H.

malabaricus, com 451 mm e os menores foram de piaba-vermelha, H. bifasciatus, e cará, G. brasiliensis, ambas com 17 mm. Em relação aos
comprimentos médios, as espécies que apresentaram maiores valores foram: o jundiá, R. quelen (335,8 mm), o morobá, Hoplias

unitaeniatus (270,2 mm), a traíra, H. malabaricus (255,1 mm) e o cumbaca, Trachycorystes sp. (230,7 mm). Os menores foram as piabinhas H. reticulatus (32,7 mm) e H. bifasciatus (36,8 mm).

[ 95 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Tabela I- Listagem das espécies de peixes coletadas no Reservatório Águas Claras, ordenadas de acordo com a classificação filogenética proposta por Lawder & Liem (1983). Também são mostrados os métodos de registros (R=rede de espera, N=peneira, P=picaré, A=armadilha, E=espinhel, M=mergulho. Identificação ORDEM CHARACIFORMES FAMÍLIA CHARACIDAE Nome popular Lambari, piaba Piaba-prata Piaba-vermelha Piaba-branca Traíra Morobá Cumbaca Jundiá Barrigudinho Mussum Cará Tucunaré Cará ferreira Tilapia Registro R,P,A,M R N,P,A,M P R,N,E,M R,E,M R R * * R,N,P,T,M R,P,T,M R T

Astyanax scabripinnis Astyanax bimaculatus Hyphessobrycom bifasciatus Hyphessobrycom reticulatus
FAMÍLIA ERYTHRINIDAE

Hoplias malabaricus Hoplerythrinus unitaeniatus

ORDEM SILURIFORMES FAMÍLIA AUCHENIPTERIDAE Trachycorystes SP. FAMÍLIA PIMELODIDAE

Rhamdia quelen

ORDEM CYPRINODONTIFORMES FAMÌLIA POECILIIDAE

Phalloceros caudimaculatus Synbranchus marmoratus Geophagus brasiliensis Cichla ocellaris Cichlasoma facetum Tilapia rendalli

ORDEM SYNBRANCHIFORMES FAMÍLIA SYNBRANCHIDAE ORDEM PERCIFORMES FAMÍLIA CICHLIDAE

(*) Espécies tratadas qualitativamente.

[ 96 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Tabela II- Frequência de captura em cada etapa de trabalho (janeiro e julho de 1992) e os comprimentos máximos (CT+), mínimos (CT-) e médios (CTm), em milímetros, de cada espécie de peixes coletada no Reservatório Águas Claras.
Espécies Janeiro 1265 371 405 11 83 25 27 11 3 1 1 2203 Julho 437 244 42 249 21 10 35 5 1 1044 TOT 1702 615 447 260 83 46 37 35 16 3 2 1 3247 CT+ 259 451 55 405 93 390 343 250 132 35 99 80 CT17 35 17 46 49 310 167 135 56 31 99 80 CTm 117,4 255,1 36,8 187,5 66,6 335,8 270,2 230,7 91,7 32,7 99,0 80,0

Geophagus brasiliensis Hoplias malabaricus Hyphessobrycom bifasciatus Cichla ocellaris Astyanax scabripinnis Rhamdia quelen Hoplerythrinus unitaeniatus Trachycorystes SP. Cichlasoma facetum Hyphessobrycom reticulatus Astyanax bimaculatus Tilapia rendalli
TOTAL

Taabela III- Biomassa (g) das espécies de peixes em cada período de trabalho no Reservatório Águas Claras, ES.
Espécies Janeiro 101.976,6 38.874,2 3.556,9 7.890,0 11.296,0 346,5 248,2 146,1 18,3 8,7 1,6 164.363,1 Julho 80.301,0 14.050,1 22.553,6 10.439,0 3.526,1 7.996,0 36,0 133,9 12,8 139.048,5 TOTAL 182.277,6 52.924,3 26.110,5 18.329,0 14.822,1 7.996,0 346,5 284,2 280,1 31,0 8,7 1,6 303.411,6

Hoplias malabaricus Geophagus brasiliensis Cichla ocellaris Rhamdia quelen Hoplerythrinus unitaeniatus Trachycorystes SP. Astyanax scabripinnis Hyphessobrycom bifasciatus Cichlasoma facetum Astyanax bimaculatus Tilapia rendalli Hyphessobrycom reticulatus
TOTAL

[ 97 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Discussão
Alves et al., (1983), realizaram uma caracterização da ictiofauna do Complexo Santa Joana/Pavor (Reservatório Mãe Boa que abastece o Reservatório Águas Claras), encontrando 14 espécies de peixes, sendo que apenas 5 espécies foram semelhantes às encontradas no Reservatório Águas Claras: o cará, a traíra, o morobá, o cumbaca e o Jundiá. Outras espécies encontradas por Alves et al. (1983) não observadas nesse trabalho foram: o sairú ( Curimata sp.), o robalo (Centropomus undecimalis), uma manjuba não identificada, a tainha (Mugil sp.), uma espécie denominada de dentuça não identificada, o piau (Leporinus SP.), o carapeba (Eugerris rhombeus), o ubarana (Elops saurus) e o xaréu (Caranx hippos). A ausência dessas espécies no Reservatório Águas Claras está, provavelmente, relacionada com a barreira física existente entre esses ambientes. Analisando os períodos amostrados, observam-se diferenças na composição de espécies, evidenciando uma influência do represamento sobre a ictiofauna local. A barreira física impede a migração das espécies reofilicas criando, segunda Paiva (1983), um ambiente lêntico ao longo do curso do rio que ocasiona alterações que beneficiam as espécies de hábitos lacustres, em detrimento das espécies de ambientes lóticos anteriormente existentes. Segundo Carvalho et al., (1992), um reservatório artificial leva ao empobrecimento da ictiofauna nativa, devido à seletividade de espécies de peixes pré-adaptadas, que foram recrutadas do sistema lótico anterior ao barramento. No Reservatório de Itaipú, após a sua formação, foi observado alterações na composição da ictiofauna, onde 20 espécies de peixes não foram encontradas no ambiente do reservatório (Agostinho et al., 1992). Entretanto, as alterações mais significativas

[ 98 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

foram as modificações na estrutura da comunidade, verificando, principalmente, alterações nas abundâncias de espécies. Na Tabela II podemos observar uma alteração significativa na composição icitofaunística entre amostragens realizadas. Espécies o cará, Geophagus brasiliensis, a piaba-vermelha, Hyphessobrycom bifasciatus, e o lambari, Astyanax scabripinnis, como tiveram uma redução significativa de seu número de exemplares do mês de janeiro para o mês de julho. Essa redução numérica das espécies forrageiras na amostragem do mês de julho, seis meses de diferença, traíra está relacionada, provavelmente, (aumento de com o aumento espécies proporcional do tucunaré (Cichla ocellaris) (aumento de 23,4%) e da (Hoplias

malabaricus)

6,5%),

caracteristicamente carnívoras (Uieda, 1983; Soares et al., 1986; Castagnolli & Cyrino, 1986) que utilizaram espécies de pequeno porte em sua dieta. A presença do tucunaré, C. ocellaris, nativo da bacia amazônica, no Reservatório Águas Claras merece atenção, pois em locais onde se introduziu essa espécie, ocorreram modificações desastrosas no ecossistema (Sato & Godinho, 1988; Zaret & Paine In: Carneiro, 1978; Welcome, 1988). Bons exemplos para essa afirmação podem ser encontrados nos trabalhos de Zaret (1982), onde o tucunaré introduzido no Lago Gatum, Panamá, provocou a extinção de 13 das 17 espécies nativas após 6 anos de sua introdução e Godinho e Formagio (1992) que evidenciaram uma redução progressiva da riqueza de espécies na Lagoa Dom Helvécio - MG, com a diminuição da abundância de espécies nativas. Por outro lado, Peixoto (1982), verificou que, no açude Lima Campos - CE, o tucunaré não exerce predação avassaladora sobre as demais espécies.

[ 99 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Inicialmente capturava-se tucunaré somente no Complexo Santa Joana/Pavor, localizado abaixo do Reservatório Águas Claras, e hoje, ele é pescado com certa facilidade no Reservatório Águas Claras. Aparentemente, ocorreu disseminação gradativa da espécie através do bombeamento de água do Complexo Santa Joana/Pavor para Águas Claras. Segundo Sato e Godinho (1988), no Reservatório de Três Marias – MG, o tucunaré foi encontrado com gônada em estado avançado de maturação durante todo ano, sugerindo um forte acondicionamento reprodutivo nesse tipo de sistema. No Reservatório Águas Claras, embora em número gônadas reduzido, maduras. também Assim foram sendo, possíveis observados peixes com

consideramos inevitável a proliferação do tucunaré no Reservatório Águas Claras. Esse fato merece atenção, pois As conseqüências de sua ação sobre a ictiofauna nativa e, de modo geral, sobre o recente ecossistema formado, são de difícil previsão. Outra espécie exótica encontrada, de origem africana, foi a tilápia, Tilapia rendalli, que, embora de hábito onívoro, pode competir por alimento com as espécies nativas, ocasionando, desequilíbrio da comunidade íctica, principalmente, em ambientes recentes, como o reservatório aqui estudado. Novos estudos devem ser incentivados neste manancial, abordando, principalmente, o ciclo de vida das espécies.

Conclusão
As represas são empreendimentos de grande impacto sobre a ictiofauna, principalmente, em relação à abundância de espécies. A existência de poucos estudos antes e após o represamento, bem como o monitoramento sobre a estrutura e funcionamento do sistema, são fatores que impedem a definição dos impactos

[ 100 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

ambientais, bem como o sucesso das medidas mitigadoras. Nesse estudo, apesar de serem analisadas apenas duas amostragens, podese observar modificações na composição da fauna de peixes, evidenciando alterações na abundância numérica e biomassa dos exemplares. Essas modificações na comunidade íctica devem ser gradativas, sugerindo que as populações de peixes ainda estão se acomodando ao novo ambiente. Agradecimentos Agradecemos ao Dr. Lineu Siqueira Júnior (Aracruz Celulose) pela leitura e sugestões, aos estagiários Claudio Luiz Coutinho e Rodrigo Antônio Marquez Galvão a ajuda durante as atividades de campo e a Dra Eliete Rabbi Bortolini pelo “abstract”.

Referências Bibliográficas
AGOSTINHO, A. A., JÚLIO, Jr, H. F. e BORGHETTI, J. R. Considerações sobre os impactos dos represamentos na ictiofauna e medidas para sua atenuação. Um estudo de caso: Reservatório de Itaipú. Rev. Unimar, 14: 89-107. 1992. ALVES, J. E. M., CAMPINHOS, E. Jr., OLIVEIRA, J. B. e SLVA, J. A. Levantamento da ictiofauna das represas localizadas em áreas reflorestadas da Aracruz. Silvicultura, 8 (28): 26-29. 1983. BOHLKE, J. E., WEITZMAN, S. H. & MENEZES, N. A. Estado atual da sistemática dos peixes de água doce da América do Sul. Acta

Amazônica, 8(4): 657-677. 1978.
BORGES-FILHO, O. F., PERRONE, E. C., HELMER, J. L. e SCARDUA, C. E. "Projeto Sapé do Norte" - Ictiofauna do córrego São Domingos, Rio

[ 101 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Preto e Rio Itaúnas - Esp¡rito Santo. Resumos. São Paulo, X

Encontro Brasileiro de Ictiologia. 1993.
CARNEIRO, D. J. Observações sobre a dinâmica de populações

de peixes em uma represa. Monografia. FCA/UNESP. Jaboticabal,
SP. 1978. CARVALHO, E. D., FORESTI, F. e HENRY, R. A ictiofauna e os reservatórios artificiais: uma abordagem de manejo ecológico e zootécnico. Resumo. Peru¡be SP.

Encontro Nacional de

Aquicultura. 1992.
CASTAGNOLLI, N. e CYRINO, J. E. P. Piscicultura nos trópicos. 1 edição. São Paulo, Ed. Manole Ltda. 1986. FOWLER, H. W. Os peixes de água doce do Brasil (1 entrega). Arq.

zool. São Paulo, 6: 1-204. 1948.
FOWLER, H. W. Os peixes de água doce do Brasil (2 entrega). Arq.

zool.,São Paulo, 6: 205-404. 1950.
FOWLER, H. W. Os peixes de água doce do Brasil (3 entrega). Arq.

zool., São Paulo, 6: 405-628. 1951.
FOWLER, H. W. Os peixes de água doce do Brasil (4 entrega). Arq.

zool.,São Paulo, 9: 1-400. 1954.
GERY, J. The freshwater fishes of South America. pp. 828-848. In: E. J. Fittkau; J. Illies; H. Klinge; G. Shwabe e H. Sioli (Eds.).

Biogeography anal ecology in South America, Vol 2. the hague:
Junk. 1969. GODINHO, A. L. e FORMAGIO, P. S. Efeitos da introdução de Cichla

ocellaris e Pygocentrus sp. sobre a comunidade de peixes da lagoa

[ 102 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Dom Helvécio – MG. Anais X Encontro Anual de Aquicultura. Belo Horizonte. 1992. HELMER, J. L., VIEIRA, F., SANTANA, E. B., PERRONE, E. C. Distribuição longitudinal e composição da ictiofauna do Rio Jucu, ES. Vitória - ES. Resumos. VI SIPUFES. 1987. LAUDER, G. V. & LIEM, K. F. The evolution and interrelationship of the actinopterygian fishes. Bull. Mus. Comp. Zool., 150(3): 1983. R. H. Fish communities in tropical freshwaters: their distribution, ecology and evolution. London, LOWE-McCONNELL, Longman. 1975. MARCGRAVE, G. Historiae rerum naturalium Brasiliae.(8 partes: 1-292; parte 4, peixes: 142-181) In Piso, G., Marcgrave, G. Historia Naturalis Brasiliae, auspicio et beneficio illustris I. Mauritti Com. Nassau. Lugdun Batavorum apud Franciscum Hackium, et Amstelodami, apud Lud Elzeverium. 1648. MENEZES, N. A. Distribuição e origem da fauna de peixes de água

In: Comissão Interestadual da Bacia Paraná - Uruguai. Poluição e Piscicultura. Notas sobre poluição, ictiologia e piscicultura. São Paulo, Faculdade de Saúde Pública da USP e Instituto da Pesca
doce das grandes bacias fluviais do Brasil. da C.P.R.N. 1970. MENEZES, N. A. Sistemática de peixes. In: Situação atual e

perspectivas da ictiofauna no Brasil. Maringá , PR, UEM –
NUPELIA. 1992. PAIVA, M. P. Impacto das grandes represas sobre o meio ambiente.

Ciência e Cultura, 35(9): 1274-1282. 1983.

[ 103 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

PEIXOTO, J. T. Alimento de tucunaré “Cichla ocellaris” Bloch e Scheneider, no açude Lima Campos, Icó, Ceará. (Actinopterygii, Cichlidae). Col. Trab. Tec. DNOCS, Fortaleza, CE, 1: 159-170. 1982. PERRONE, E. C. Alguns aspectos sobre a biologia dos peixes

associados à vegetação marginal em um trecho do Rio Jucu, Esp¡rito Santo, Brasil. Monografia. Universidade Estadual de
Maringá - NUPELIA. 1990. PERRONE, E. C. A fauna ictiológica associada às macrófitas aquáticas no rio Jucu, Vila Velha, Espírito Santo. Simp. Ecos. Costa Brasil.,

3(1): 39-45. 1993
RUSCHI, A. Lista dos tubarões, raias e peixes de água doce e salgada do Estado do Espírito Santo e uma observação sobre a introdução do dourado no Rio Doce. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão, 25A: 124. 1965. SATO, Y. e GODINHO, A. L. Tucunaré‚ - Um peixe exótico na Represa de Três Marias, MG. Bras¡lia, CODEVASF. Associação Mineira de

Aquicultura, p.92-93. 1988.
SOARES, M. C. M; ALMEIDA, R. G. e JUNK, N. J. The trophic status of the fauna in lago Camaleão, a macrophyte dominated floodplain lake in the middle Amazon. Amazoniana, IX(4): 511-526. 1986. UIEDA, V. S. Regime alimentar, distribuição espacial e

temporal de peixes (Teleostei) em um riacho na região de Limeira, São Paulo. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual
de Campinas, 151p. 1983. ZAMPROGNO, C., VIEIRA, F. PERRONE, E. C., BASTOS, R. P., BARBOSA, P. S. B. e PAZ, P. S. Composição da ictiofauna na área de

[ 104 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

influência do reservatório de Duas Bocas, Cariacica, ES. Resumos. VI

SIPUFES. p.71. 1987.
ZARET, T. M. The stability/diversity controversy: a test of hypotheses.

Ecology, 63: 721-731. 1982.
WELCOME, R. L. International introductions of inland aquatic species.

FAO Fish. Tech. Pap., 294: 1-318. 1988.

[ 105 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Reproductive and feeding biology of freshwater and estuarine populations of the opossum pipefish, Oostethus lineatus from southeastern Brasil.
Artigo publicado originalmente no Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão (N .Sér.) 8: 3-12. 1998

Rogério L. Teixeira (*) Edson Campos Perrone (**)
(*) Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, Santa Tereza, ES (**) Departamento de Biologia - CEG - UFES

Resumo
Aspectos da biologia reprodutiva e alimentar de duas populações do peixe-cachimbo, Oostethus lineatus, foram estudados no Estado do Espírito Santo. As comparações foram baseadas em espécimes coletados no estuário do Rio Jucu e nas partes baixas do Rio Santa Maria. Em ambas as populações, a razão sexual não foi significativamente diferente da esperada (1:1). O número de ovos ou embriões contados na bolsa incubadora dos machos foi maior na população de água doce do que na estuarina, especialmente porque a população de água doce foi representada por exemplares de maior comprimento total. Na população de água doce o número de ovos ou embriões contados na bolsa incubadora variou de 280 a 897 (peixes de 119 a 173 mm CT), enquanto que na população estuarina foram encontrados de 49 a 508 ovos ou embriões (peixes de 101 a 165 mm CT). Machos de ambas as populações apresentaram características sexuais secundárias, no que se refere ao desenvolvimento de pigmentação diferenciada na região lateral da cabeça. Insetos predominam nos conteúdos digestivos dos espécimes de ambas populações. Entretanto, espécimes da população de água doce

[ 106 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

alimentaram-se exclusivamente de efemerópteros, enquanto que os espécimes da população estuarina consumiram mais odonatas, seguidos por mosquitos e efemerópteros. Diferenças na dieta foram associadas com a possível diferença na disponibilidade ou acessibilidade às presas.

Abstract
Comparisons were made between an estuarine and a freshwater population from different reverie basins. In both populations, sex ratio was not significantly different from the expected 1:1 ratio. Number of eggs (or embryos) found in male´s brood pouch were higher in the freshwater than in the estuarine population, perhaps because specimens of the freshwater population had larger size. The number of eggs/embryos in the male brood pouch varied from 280 to 897 (fish from 119 to 173 mm TL) for the freshwater population, and varied from 49 to 508 (fish from 101 to 165 mm TL) for the estuarine population. Males of both populations exhibited sexual dimorphic character, developing different coloration on the snout. Insects predominated in guts of fish from both populations, but freshwater fish contained only mayflies (100%) in the guts, whereas estuarine fish consumed more stoneflies (48,4%), followed by mosquitoes and mayflies. Differences in diet were associated to different availability of food items.

Introduction
In the Western Atlantic, the opossum pipefish, Oostethus lineatus, is known from New Jersey to the state of São Paulo, Brazil and from near the Pacific terminus of the Panama Canal (Dawson, 1982). Males of the opossum pipefish incubate the eggs received from females in a non-closure brood pouch located on the trunk. After

[ 107 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

receiving eggs from females, males care for them, while females take no further role in parental care. Breeding populations of opossum pipefish have been reported in both marine and freshwater habitats (Herald & Dawson, 1972). Dawson (1982), based on material contained in collections, indicated that breeding occurs in fresh or estuarine waters, and further stated that young may develop in freshwater, estuarine, or oceanic environments. The opossum pipefish is a weak-swimming fish that is protected from predation by its coloration and habits (Figueiredo & Menezes, 1980). In Brazil, the opossum pipefish is very common, but not abundant, under marginal vegetation in estuarine areas. They can be found upstream from the coast, occupying marginal vegetation of some major rivers and their tributaries in southeastern and northeastern Brazil. Dawson (1982) reported collecting opossum pipefish over a variety of spermatophyte grass beds including.

Sargassum and Spartina, marsh, and over a variety of bottom types,
from muddy mangrove swamps to rather densely vegetated streams. The biology and ecology of most syngnathid species are subject of limited study. This study attempts to compare the reproductive and feeding aspect of estuarine and freshwater population of the opossum pipefish, Oostethus lineatus.

Methods
Samples were taken at two different sites, both located in Espírito Santo State, southeastern Brazil. The first site was located in shallow waters of the lower Jucu River, the main river in its basin, at approximately 20o25'S. Single samples were taken in September 1985, September 1986, October, November and December 1987, and February 1988, in the estuarine portion of Jucu River using a 3mm

[ 108 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

mesh size dip net. The river at site 1 was devoid of submerged aquatic vegetation in the shallow waters. Therefore, all samples were taken under the marginal vegetation. The second site was located at approximately 19o43'S and 170 km from the coast in the lower Santa Maria river, a tributary of Doce River. Samples were taken in December 1992 (2 samples), January (4 samples) and February 1993 (3 samples) using a 4 mm mesh size dip net. Fish collected were fixed in 10% formalin, washed, and stored in 70% ethanol. In the laboratory, fish were measured for total length (TL mm), dissected, and ovaries were classified as immature. Males were considered immature when the pouch was not totally developed, and mature when the brood pouch was totally developed. Frequency of occurrence was used to evaluate food ingested by these pipefish. Because the pipefish possess an undifferentiated gastrointestinal tract, only the anterior one half of the alimentary canal was used to assess food habits. Prey was identified in mutually exclusive categories. For the freshwater population, the total wet weight of food ingested was recorded (± 0,001 g), in order to compare the total food ingested by pregnant males and gravid females. Fertility between the estuarine and freshwater populations was compared by regression analyses. Differences in wet weight of total food ingested between pregnant males and females were tested by one way analysis of variance (ANOVA). Data were log transformed in order to approach normality.

Results
A total of 249 (83-165 mm TL; 134 males, 165 females) pipefish from estuarine region of the lower Jucu river were analyzed. Male-female sex ratio was 1.16:1.00, which was not significantly

[ 109 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

different from an expected 1:1 sex ratio (x 2= 1,45; P>0,05). In comparison, a total of 149 (106-177 mm TL; 73 males, 76 females) freshwater pipefish from the lower Santa Maria river were analyzed. Male-female sex ratio was 1:1,04, which was not significantly different from the expected 1:1 sex ratio (x2= 0,006; P>0,05). Total length was compared between the two populations. Freshwater pipefish were larger than those in the estuarine population (Figure 01). Males and females from the estuarine population were similar in length, whereas, males were often larger than females in the freshwater population. Specimens smaller than 100 mm TL were only collected in the estuarine habitat. For the freshwater population, all females had ovaries ripe or running ripe and 66 males (90,4%) were pregnant. Those were not carrying eggs/embryos, and had egg vestiges (compartment remains) within the epithelium of the brood pouch, suggesting that embryos were release some days before. Fertility was higher in the freshwater population than in the estuarine population. For the freshwater population (Figure 02), the number of eggs/embryos found in the male brood pouch varied from 280 to 897 (mean = 626; n = 66; S.D. = 126,95) in fish from 119 to 173 mm TL. The relationship of the number of eggs/embryos (E) was linearly and weakly related with total fish length (E = -530,31 + TL 7,87; r2 = 0,41). For the estuarine population, the number of egg/embryos found in male brood pouches varied from 49 to 508 (mean = 207; n = 40; S.D. = 99,11) in fish from 101 to 165 mm TL. Like the freshwater population, there was a weak linear relationship of number of eggs/embryos (E) with total length (E = -348,04 + TL 4,59; r2 = 0,32). Males of the opossum pipefish develop sexual secondary characters, showing different colors around the snout (Figure 03).

[ 110 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figure 01- Comparative length frequency distribution in estuarine freshwater populations of the opossum pipefish, Oostethus lineatus, from southeastern, Brazil.

[ 111 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figure 02- Relationship between numbers of egg/embryos and total length in an estuarine and a freshwater population of the opossum pipefish, Oostethus lineatus, from southeastern, Brazil. Food habits of pipefish from both estuarine and freshwater population were also assessed. A total of 109 opossum estuarine pipefish were analyzed, and 62 (56,9%) had full or partially full guts. Estuarine pipefish apparently fed during daylight time, because empty guts occurred during nocturnal periods. A total of 149 freshwater opossum pipefish were analyzed for food habit comparisons, and all were collected during day light time with full or partially full guts. Followed by crustaceans and teleosts (Table I), insects were the most frequent prey found in guts of the estuarine pipefish population. Among the insects, stonefly (Plecoptera) larvae occurred in 48,8% of guts, followed by mosquito larvae (Diptera), and mayflies

[ 112 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

(Ephemeroptera). Among the crustaceans, caridean larvae occurred in 25,0% of guts, whereas copepods occurred in 18,8% of the guts. For the freshwater population, mayflies were the only food in the guts. Mayfly larvae occurred in 98,0% of all guts, while mayfly eggs occurred in 9,4% of the guts analyzed (Table I). The amount of food ingested was compared between pregnant males and females in the freshwater population. Mean wet weight of food ingested by pregnant males was 0,007g (Min = 0,002g; Max. = 0,016 g; S. D. = 0,003), whereas, for females it was 0,019g (Min = 0,005g; Max = 0,036g; S.D. = 0,007). Based on these datas females feed more actively than did males during the mating season (ANOVA, F1,92= 182,68; P<0,00001).

Figure 03- Sexual dimorphic coloration between male (upper) and female (lower) opossum pipefish, Oostethus lineatus, of southeastern, Brazil (modified from Dawson, 1982).

[ 113 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Table I- Percentage of food items found in the guts of estuarine and freshwater population of the opossum pipefish, Oostethus lineatus, of southeastern, Brazil.
Food items Fishes Gerreidae Estuarine population (%) 6,3 12,5 25,0 12,5 7,8 18,8 1,6 25,0 17,2 48,4 34,4 14,1 1,6 1,6 Freshwater population (%) 9,4 98,0 -

Eucinostomus spp.
Unidentified Crustaceans Caridea larvae

Macrobrachium spp.

Amphipods Copepods Isopods Unidentified larvae Eggs Insects Plecoptera larvae Diptera larvae Ephemeroptera eggs Ephemeroptera Larvae Odonata Hemiptera larvae

Discussion
Estuarine and freshwater pipefish populations were similar in their reproductive strategies. In both populations, sex ratios were not skewed toward a single sex, suggesting that neither males nor females are the limitant sex for reproductive success. Fertility appears not differ relevantly in both populations. Differences in the mean number of eggs/embryos found in male brood pouches are related to differences in total length obtained for both populations: freshwater pipefish were larger than those found in estuarine areas. This study provides evidence that the opossum pipefish reproduces in freshwater. However, no individual smaller than 106

[ 114 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

mm TL was collected during summer samples taken at lower Santa Maria River. Three hypotheses could explain this: 1) pipefish newly released from the brood pouch are brought downstream by runoff, making them inaccessible at the study site during my samples; 2) the predation rate and/or parasite infection could be high, making freshwater pipefish less abundant upstream; 3) newborn pipefish may not have a strong tolerance to freshwater, occasioning high natural mortality. Perrone (1990) found two reproductive peaks for opossum pipefish occupying the lower Jucu River: one during the summer, and one in a smaller scale during the winter. This author also pointed out that 50% of females are reproductively active when they reach 113 mm TL, and males with 116 mm TL. In Mississippi, pregnant males were reported from June to September (Dawson, 1970), while off East Florida, Gilmore (1977) collected pregnant males during July and November. With respect to coloration, Dawson (1982) pointed out that sub-adults and adults usually have a dark stripe or a series of irregular brown blotches on the snout, also there is a dark stripe on the upper one-third of opercula. In fact, the appearance of a stripe on the snout is not irregular, but rather, this stripe represents a sexual dimorphic characteristic for the opossum pipefish. Males have more coloration on the snout, which may represent a way for males to attract females during courtship. Sexual dimorphism has been described for other pipefish species, but these reports are of major modifications in body shape and color found only in females. For example, females of Nerophis ophidian have conspicuous blue stripes along the anterior part of the body, and during the reproductive period, females develop skins folds, which increase the overall appearance of the body (Rosenqvist, 1990). Gravid females of the

[ 115 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

northern pipefish, Syngnathus fuscus, are darker and larger than nongravid females and/or males (Teixeira, 1995). Snout size and shape limit Syngnathid diets. Member of the estuarine and the freshwater population preyed more on insect larvae, probably the most available food items for a fish that live mainly beneath the pendant marginal vegetation. Mayflies (Ephemeroptera) were the only food item the guts of opossum pipefish freshwater population collected in summer. Mayfly eggs, which are produced in great numbers, are usually oval, extremely small, of a great variety of colors, and are sometimes imbedded in a gelatinous material (Pennak, 1953). The last author also pointed out that the fully developed aquatic nymph (naiad) merely comes to the surface when it is ready to transform. At this phase, mayflies are probably more accessible to be preyed by the opossum pipefish. Copepods are the most important prey for small individuals and for other pipefish species (e.g., Brown, 1972; Howard & Koen, 1985; Ryer & Orth, 1987; Steffe et al., 1989; Franzoi et al., 1993; Teixeira, 1995; Teixeira & Musick, 1995). Size and width of snout limits feeding by suction, which must be concentrated on small planktonic and epibenthonic organisms. Snout size has also been considered as the most important structure for niche segregation and food partitioning in c0-occurring species (Brown, 1972; Brook, 1977; among others). Acknowledgments This study was funded by Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Proc. No 302657/878). This paper was benefited from critical appraisal by Thomas A. Munroe, John A. Musick, Robert J. Orth, Romuald N. Lipcius, Wolfgang Vogelbein, Thomas Orrel and William Coles.

[ 116 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Referências Bibliográficas
BROOK, I. Trophic relationships in a segrass community ( Thalassia

testudinum), in Card Sound, Florida. Fish diets in relation to macrobenthic and cryptic faunal abundance. Trans. Amer. Fish. Soc., 106: 219-229. 1977.
BROWN, J. D. A comparative life history study of four species

os pipefish (Family Synganathidae) in Florida. Ph. D.
Dissertation, The University of Florida. 1972. DAWSON, C. E. A mississippi population of the opossum pipefish,

Oostethus lineatus (Synganathidae). Copeia (4): 772-773. 1970.
DAWSON, C. E. Family Synganathidae. In BOlKE, L. E. (Ed.) Fishes

of the western North Atlantic. Part Eight. Order Gasterosteiformes, suborder Syngathoidei. New Haven, Sears
Found, for Mar. Res., Yale University. 1982. FIGUEIREDO, J. L. & MENEZES, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. III. Teleostei (2). São Paulo, Museu de
Zoologia da Universidade de São Paulo. 1980. FRANZOI, P., MACCAGNARI, R., ROSSI, R. & CECCHERELLI, V. U. Life cycles and feeding habits of Syngnathus taenionotus and S. abaster (Pisces, Syngnathidae) in a brackish bay of the Po River Delta (Adriatic Sea). Mar. Ecol. Prog. Ser., 97: 71-81. 1993. GILL, T. The life history of the sea-horses (Hippocampids). Proc. U.

S. Mus., 28: 805-814. 1905.
GILMORE, R. G. Notes on the opossum pipefish, Oostethus lineatus, from the Indian River Lagoon and vicinity, Florida. Copeia (4): 781782. 1977.

[ 117 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

HERALD, E. S. & DAWSON, C. E. A new subspecies of the gulf pipefish, Syngnathus scovelli makaxi (Pisces: Syngnathidae). Copeia

(4): 781-784. 1972. Studies on the classification and interrelationshipd of the American pipefish. Ph. D. Thesis,
HERALD, E. S. Stanford University. 1943. HERALD, E. S. Living fishes of the world. New York, Doubleday. 1961. PENNAK, E. S. Fresh-Water Invertebrates of the United States. New York, The Ronald Press Company. 1953. PERRONE, E. C. Distribuição sazonal e época de reprodução do peixecachimbo, Oostethus lineatus (Pisces: Syngnathidae) em um trecho do Rio Jucu-ES. Rev. Cult. UFES, (41/42): 121-126. 1989. ROSENQVIST, G. Mate choice and sexual selection in two

species of sex-role reversed pipefish (Syngnathidae). Ph.D.
Dissertation, Sweeden, Uppsala University. 1990. ROSENQVIST, G. Sex role reversal in a pipefish. Mar. Behav.

Physiol., 23: 219-230. 1993.
RYER, C. H. & ORTH, R. J. Feeding ecology of the northern pipefish,

Synganathus fuscus, in a seagrass community of the lower Chesapeake Bay. Estuaries, 10 (4): 330-336. 1987.
SAS INSTITUTE, INC. SAS User’s Guide: Statistics, Version 5 Edition. Cary, North Carolina. 1985. TEIXEIRA, R. L. Reproductive and feeding biology of selected

syngnathids (Pisces: Teleostei) of the Western Atlantic . Ph. D.

[ 118 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Dissertation, Virginia Institute of Marine Science, The College of William and Mary. 1995. TEIXEIRA, R. L. & MUSICK, J. A. Trophic ecology of two congeneric pipefishs (Synganathidae) of the lower York River, Virginia. Environ.

Biol. Fish., 43: 295-309. 1995.
VICENT, A., AHNESJO, I., BERGLUND, A. & ROSENQVIST, G. Pipefish and seahorses: are they all sex role reversed? Tree, 7(7): 237-241. 1992.

[ 119 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Os peixes-cachimbo que ocorrem no Brasil.
Artigo publicado originalmente na Revista Habitat (71). 2002

Edson Campos Perrone João Luiz R. Gasparini
Departamento de Biologia – CEG - UFES Os peixes-cachimbo pertencem à família Syngnathidae, ordem Syngnathiformes, onde também estão agrupados os cavalos-marinhos (gênero Hippocampus). O nome “peixe-cachimbo” foi dado em alusão ao formato do corpo e, principalmente, ao do focinho, quase sempre alongado e com a boca voltada para cima, semelhante a um cachimbo. Como características gerais, possuem corpo envolvido por forte armadura constituída de anéis ósseos articulados, aberturas branquiais reduzidas e ausência de nadadeiras pélvicas. Em algumas espécies as nadadeiras peitorais também estão ausentes enquanto outras têm projeções e filamentos dérmicos na região da cabeça. Geralmente, os peixes-cachimbo não apresentam locomoção rápida. Costumam ser encontrados em águas litorâneas rasas e calmas, em recifes e pedras cobertos de algas ou entre a vegetação marginal de rios, estuários e manguezais. A sua coloração (tonalidades e padrões), que provavelmente está relacionada com o ambiente onde vivem, mostra grande diversidade, tais como negro, marrom, castanho, oliva, vermelho, verde e amarelo. Alguns apresentam barras verticais claras sobre fundo escuro ou barras escuras sobre fundo claro. O formato do corpo, o comportamento e o colorido garantem aos peixes-cachimbo excelente camuflagem, o que leva seus predadores e presas a confundi-los com o ambiente.

[ 120 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Dawson e Vari (1982) apontam 27 espécies de peixescachimbo para o Oceano Atlântico Ocidental. A identificação deste grupo baseia-se, sobretudo na disposição das cristas ósseas longitudinais, no número de anéis do corpo, no número de raios das nadadeiras e em algumas proporções corporais. O Brasil, apesar do incremento das pesquisas ictiológicas, permanece sendo uma lacuna de conhecimentos sobre essa família. Apenas muito recentemente, Carvalho & Guimarães (2000), iniciaram uma revisão taxonômica de alguns gêneros. Tal estudo, em andamento, já revelou que duas espécies bastante comuns e que anteriormente eram identificadas como as mesmas que ocorrem no Caribe — a saber: Bryx dunckeri (Metzalaar) e Microphis brachyurus lineatus (Kaup) — são, na verdade, formas ainda não descritas: Bryx sp.n. e Microphis sp.n. (esta última, trataremos, a seguir, como Microphis aff. lineatus). Além dessas duas espécies, ainda ocorrem no Brasil: Halicampus crinitus (Jenyns); Micrognathus erugatus Herald & Dawson; Pseudophallus

mindii
&

(Meek

&

Hildebrand), Pseudophallus

brasiliensis
e

(Dawson); Syngnathus follettiHerald; Syngnathus scovelli (Evermann Kendall);

Cosmocampus

albirostris

(Kaup);

Minyichthys

inusitatus (Dawson) (Figura 01). Outras espécies e novas ocorrências
são esperadas em futuros levantamentos faunísticos e revisões taxonômicas. As espécies encontradas com mais frequência são Microphis aff. lineatus, entre a vegetação marginal, nas partes baixas dos rios, principalmente nos estuários, e Syngnathus scovelli, no mar, a pouca profundidade, em regiões de bancos de algas. Os peixes-cachimbo mostram dimorfismo sexual. Os machos possuem uma bolsa incubadora na parte ventral do tronco ou da cauda. Esta bolsa desenvolve-se com o crescimento do peixe, sendo difícil identificar o sexo dos indivíduos jovens (Figura 02).

[ 121 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Aspecto da cabeça de algumas espécies de peixes-cachimbo. Figura 01- De cima para baixo: Pseudophallus mindii; Microphis

brachyurus lineatus; Amphelikturus dendriticus; Halicampus crinitus; Bryx dunckeri; Syngnathus scovelli. Desenhos: João Luiz Gasparini.

[ 122 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 02- Os machos possuem uma bolsa incubadora de ovos. Na foto acima, Microphis aff. lineatus. Nesta espécie, os ovos ficam expostos ao contato direto com o ambiente. Foto: Marcelo Notare. Segundo Edmonds (1989), o acasalamento envolve várias partes do corpo. O casal adota uma posição vertical, nadando um em volta do outro na tentativa de juntar os corpos. O macho utiliza sua cabeça para acariciar a cabeça da fêmea e move o corpo como um saca-rolhas até que fiquem entrelaçados. Após este ritual, a fêmea insere seu ovopositor na bolsa incubadora do macho e elimina os

[ 123 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

ovócitos, que são fecundados e carregados por ele até o momento da eclosão. Na maioria das espécies, os prolongamentos laterais da bolsa incubadora dobram-se para dentro, protegendo os ovos. Em outras, como Microphisaff. lineatus, os ovos ficam expostos ao contato direto com o ambiente. Os filhotes, após um período de incubação, são eliminados na água, existindo poucas informações sobre seu desenvolvimento. Muito exigentes no que diz respeito à alimentação, os peixescachimbo preferem comer presas vivas, tendo sua dieta composta de pequenos organismos de origem animal, sobretudo microcrustáceos encontrados em tufos de briozoários, zooplâncton, larvas de insetos e peixes jovens. Alguns criadores usam comida congelada para alimentar cavalos-marinhos, levando-nos a supor que este tipo de alimento também possa ser aproveitado em cativeiro. No entanto, para o aquariofilista, pode se tornar difícil conseguir suprimentos diários de microorganismos vivos ou quantidades suficientes para congelar, provendo as necessidades dos peixes-cachimbo. Essa exigência alimentar não significa, porém, uma barreira aos que se aventurem a pesquisar a criação destes peixes, uma vez que poderão alimentá-los com Artemia salina, fácil de encontrar nas lojas especializadas, e que deve ser ministrado na forma de náuplios, ou seja, logo após a eclosão dos cistos. As artêmias adultas também devem ser usadas como alimentação complementar. No Brasil, existem poucos estudos, provavelmente devido à dificuldade em realizar coletas de determinadas espécies com número satisfatório de exemplares, ou ao fato de sua sistemática ainda permanecer confusa. Entretanto, no exterior, os peixes-cachimbo vêm recebendo maior atenção, com espaço garantido nas grandes exposições.

[ 124 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Vale ressaltar que a coleta indiscriminada, muitas vezes sem permissão do IBAMA, somada à crescente poluição ambiental em ambientes estuarinos e aterro de manguezais (ainda comuns no Brasil, apesar de proibido), vêm ameaçando algumas espécies desta família, principalmente os cavalos-marinhos. Dentre as espécies de peixes-cachimbo que ocorrem no Brasil, a mais comum nas lojas de aquariofilia é Microphis aff. lineatus, vulgarmente chamada de cachimbinho,

trombetinha ou agulha. Trata-se de espécie eurialina (penetra na água doce), considerada constante no baixo curso dos rios, ocorrendo em águas salobras de regiões estuarinas. Habita locais de pouca profundidade e correnteza reduzida, em geral sob a vegetação marginal composta de gramíneas e macrófitas aquáticas, principalmente o aguapé (Eichhornia crassipes), onde encontra abrigo e alimento (Figura 03). Esta espécie chega a penetrar rio acima, podendo ser coletada a mais de 100 quilômetros do mar. A estabilidade do ambiente em que vive é função direta da pluviosidade da região. Durante o período de cheia, ocorre aumento da velocidade da correnteza, acarretando desorganização da vegetação marginal com grande carreamento de macrófitas aquáticas flutuantes, o que reduz de modo considerável seu habitat. É raro coletar indivíduos menores que 80 milímetros, pois os jovens habitam locais diferentes dos adultos, nadando ativamente (ou são carreados pela correnteza), encardumados, fazendo com que, segundo Dawson e Vari (1982), possam ser encontrados a 60 quilômetros da costa. O micro-habitat da espécie é formado de locais pouco profundos, com reduzida correnteza e margens providas de gramíneas (Brachyaria sp.) com partes pendentes sobre a água e outras submersas onde fixam-se as macrófitas aquáticas flutuantes.

[ 125 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

As coletas, para fins científicos, são realizadas utilizando-se uma peneira (ou confeccionar um peneirão retangular de canos de PVC com saco de malha de náilon tipo mosquiteira de três milímetros de abertura) (Figura 04) que deverá ser introduzida sob a vegetação em movimentos rápidos, tomando-se cuidado na hora de inspecionar o material vegetal acompanhante, pois Microphis aff. lineatus costuma ficar preso entre as raízes das gramíneas e das macrófitas aquáticas. Muitas vezes o próprio peixe é confundido com gravetos ou outros detritos vindos na amostragem.

Figura 03- Rio Jucu (ES), onde os autores realizaram pesquisas com Microphis aff. lineatus. Foto: Edson Perrone.

[ 126 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Figura 04- Atividade de coleta de Microphis aff. lineatus no Rio Jucu (ES). Fotos: Edson Perrone. Os exemplares capturados suportam bem o estresse da coleta, o acondicionamento e o transporte até o laboratório, uma vez que possuem movimentos lentos, facilitando o manuseio e o suprimento de suas necessidades, inclusive de oxigênio. Devem ser acondicionados em sacos plásticos com água do mesmo local de coleta e transportados em caixas de isopor (para evitar choques térmicos e mecânicos). Em aquário, Microphis aff. lineatus exibe comportamento discreto e bastante sociável, não competindo com outros peixes, razão pela qual não é aconselhável introduzir espécies agressivas e/ou vorazes. Sua movimentação lenta entre a vegetação deve-se às nadadeiras peitorais, enquanto que a caudal é utilizada para deslocamentos rápidos a curta distância. Quando parado, costuma ficar próximo ou apoiado com o dorso nas partes submersas da vegetação e com parte da região caudal voltada para baixo. Este comportamento garante uma perfeita camuflagem. Outra característica bastante interessante é a capacidade de movimentação

[ 127 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

independente dos olhos, comum a todas as espécies da família Syngnathidae. Tal característica facilita a localização de suas presas e de possíveis predadores.

Microphis aff. lineatus utiliza seu longo focinho para adquirir,
por sucção, os alimentos, entre os quais larvas de insetos, microcrustáceos e formas jovens de peixes. Perrone (1990) constatou ser Microphis aff. lineatus, no Rio Jucu (ES), uma espécie carnívora de hábitos diurnos, alimentando-se de insetos (larvas de plecópteros, larvas de dípteros e larvas de efemerópteros); crustáceos (ovos, larvas e jovens de carídeos e copé-podos); e peixes (Eucinostomus spp.) (Figura 05).
100 80
Porcentagem
Insetos Crustáceos Peixes

60 40 20 0
Itens alimentares

Figura 05- Principais alimentos de Microphis aff. lineatus. Fonte: Perrone (1990). Na natureza, modifica seus hábitos à medida que cresce. Os jovens alimentam-se de larvas de insetos, enquanto que os adultos, de crustáceos e peixes. Estas alterações no regime alimentar são de grande importância para a repartição dos recursos intraespecíficos. Em aquário, aceita com facilidade

Artemia

salina e Daphnia spp., além de larvas de mosquito. Outros alimentos

[ 128 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

que podem ser oferecidos: plâncton congelado e formas jovens de peixes ovovivíparos. Não se conhece muito sobre a biologia reprodutiva de Microphis aff. lineatus, supondo-se seguir padrões básicos de sua espécie irmã do Mar do Caribe, ou seja, com a reprodução ocorrendo no mar, na água doce e na região estuarina. Segundo Dawson e Vari (1982), o jovem da espécie caribenha pode se desenvolver em água doce, estuarina ou marinha. Na região estuarina do Rio Jucu, Perrone (1989) encontrou Microphis aff. lineatus reproduzindo-se durante todo o ano, com maior intensidade em dois períodos: dezembro e, em menor escala, junho (Figura 06). Em 40% dos casos, os machos coletados apresentaram de 49 a 565 ovos na bolsa incubadora. Alguns espécimes tinham suas bolsas completamente cheias, outros com espaços vazios entre os ovos e outros ainda foram capturados com poucos ovos dispersos de modo aleatório. Ao que tudo indica, esta variação do número de ovos na bolsa incubadora não está relacionada com o tamanho do peixe, mas sim com falhas no mecanismo de transferência dos ovócitos produzidos pelas fêmeas para a bolsa incubadora dos machos, ou seja, mais de uma fêmea deposita os ovócitos em um macho ou existe a ocorrência de predação dos ovos por outros peixes, uma vez que a bolsa incubadora desta espécie não apresenta estrutura de proteção. Como nas demais espécies de peixes-cachimbo, o dimorfismo sexual (macho com a bolsa incubadora formada) só aparece quando o peixe atinge determinado tamanho. Perrone (1990) constatou que as fêmeas entram na fase de maturidade sexual com um comprimento médio de 109 milímetros e que os machos começam a apresentar sua bolsa incubadora com um comprimento médio de 112 milímetros.

[ 129 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

A reprodução de Microphis aff. lineatus em cativeiro ainda não foi observada em sua totalidade. Apenas conseguimos acompanhar alguns machos com ovos na bolsa e a posterior eliminação dos filhotes. Quando nascem, os filhotes são pequenos, frágeis e passam a nadar sem direção através de movimentos rápidos, geralmente à meia água ou próximos do substrato. O fracasso na criação dos filhotes, conseguindo-se apenas uma sobrevivência de oito dias, deve estar diretamente relacionado com a dependência marinha da espécie.
100 90 80

Frequência (%)

70 60 50 40 30 20 10 0 OUT DEZ FEV ABR JUN AGO

Jovens

Adultas

Meses

Figura 06- Frequência de indivíduos de Microphis aff. lineatus imaturos e maduros, coletados no período de outubro 1987 / agosto 1988 no Rio Jucu (Perrone, 1989).

[ 130 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Agradecimentos Ao professor Claudio Zamprogno pelas sugestões e críticas apresentadas a este artigo. A Marcelo Notare, Fabio Vieira, Luiz Carlos Spagnol e Artur Alves França pelo apoio.

Referências Bibliográficas
DAWSON, C. E. A Missippi population of the opossum pipefish, Oostethus lineatus (Syngnathidae). Copeia, (4): 772-773. 1970. DAWSON, C. E. & VARRI, R. P. Fishes of the Western North

Atlantic (part eight). New Haven. Sears Foudation for Marine
Research, Yale University. 198 pp. 1982 EDMONDS, L., Pipefishes for the Marine Aquarium. Trop. Fish

Hobby. (TFH), 38 (8): 58-62. 1989.
FIGUEIREDO, J. L. & Menezes, N. A. Manual de Peixes Marinhos

do Sudeste do Brasil. III. Teleostei (2). Museu de Zoologia,
Universidade de São Paulo. 90 pp. 1980. GILMORE, R. G. & HASTING, P. A. Notes on the opossum pipefish Oostethus lineatus from the Indian river lagoon and vicinity, Florida.

Copeia, (4): 781-783. 1977.
GILMORE, R. G. & DAWSON, C.E. Observation on the ecology and distribuition of certain tropical peripheral fishes in Florida. Florida

Scientist, 46 (1): 31-51. 1983.
PERRONE, E. C. Distribuição sazonal e época de reprodução do peixecachimbo Oostethus lineatus (Pisces: Syngnathidae) em um trecho do Rio Jucu, ES. Revista de Cultura da UFES, (41-42). 1989.

[ 131 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

PERRONE, E. C. Aspectos da alimentação e reprodução de Oostethus

lineatus (Kaup,1856) (Pisces: Syngnathidae) no Rio Jucu (Espírito Santo-Brasil). An. Soc. Nordest. Zool., 3: 249-260. 1990.

[ 132 ]

Coletânea de artigos científicos – Edson Perrone

Livro associado

Esse livro tem como objetivo divulgar os estudos realizados com a fauna de peixes no Rio Jucu, Vila Velha, ES. Foram estudadas as espécies que vivem sob a vegetação marginal em um trecho do rio, considerando a estrutura de comunidade, principalmente os índices de diversidade de Shannon, a equitabilidade e a riqueza de espécie. Também foram analisados alguns aspectos sobre as influências de fatores estacionais (seca e cheia) na ocorrência e abundância de espécies de peixes, a composição da dieta das principais espécies de peixes e as similaridades que apresentaram na composição alimentar. Os dados contidos nesse livro podem servir de base para estudos futuros e monitoramento da qualidade ambiental.
Onde encontrar: Grátis - (pdf): http://pt.scribd.com/doc/125553580/jucu Comprar com desconto: http://www.clubedeautores.com.br/book/141187--Rio_Jucu

[ 133 ]

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful