QUE É A CIENTIFICIDADE?

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Para alguns, a ciência se identifica com as ciências naturais ou com a pesquisa em bases quantitativas: uma pesquisa não é científica se não se conduzir mediante fórmulas e diagramas. Sob este ponto de vista, portanto, não seria científica uma pesquisa a respeito da moral em Aristóteles; mas também não o seria um estudo sobre consciência de classe e levantes camponeses por ocasião da reforma protestante. Evidentemente, não é esse o sentido que se dá ao termo “científico” nas universidades. Tentemos, pois, definir a que título um trabalho merece chamar-se científico em sentido lato. O modelo poderá muito bem ser o das ciências naturais tal como foram apresentadas desde o começo do século. Um estudo é científico quando responde aos seguintes requisitos:

1. O estudo debruça-se sobre um objeto reconhecível e definido de tal maneira que
seja reconhecível igualmente pelos outros. O termo objeto não tem necessariamente um significado físico. A raiz quadrada também é um objeto, embora ninguém jamais a tenha visto. A classe social é um objeto de estudo, ainda que algumas pessoas possam objetar que só se conhecem indivíduos ou médias estatísticas e não classes propriamente ditas. Mas, nesse sentido, nem a classe de todos os números inteiros superiores a 3725, de que um matemático pode muito bem se ocupar, teria realidade física. Definir o objeto significa então definir as condições sob as quais podemos falar, com base em certas regras que estabelecemos ou que outros estabeleceram antes de nós. Se fixarmos regras com base nas quais um número inteiro superior a 3725 possa ser reconhecido onde quer que se encontre, teremos estabelecido as regras de reconhecimento de nosso objeto. É claro que surgirão problemas se, por exemplo, tivermos que falar de um ser fantástico, como o centauro, cuja inexistência é opinião geral. Temos aqui três alternativas. Em primeiro lugar, podemos falar dos centauros tal como estão representados na mitologia clássica, de modo que nosso objeto se torna publicamente reconhecível e identificável, porquanto trabalhamos com textos (verbais ou visuais) onde se fala de centauros. Tratar-se-á, então, de dizer quais as características que deve ter um ente de que fala a mitologia clássica para ser reconhecido como centauro. Em segundo lugar, podemos ainda decidir levar a cabo uma pesquisa hipotética sobre as características que, num mundo possível (não o real), uma criatura viva deveria revestir para poder ser um centauro. Temos então de definir as condições de subsistência deste mundo possível, sem jamais esquecer que todo o nosso estudo se desenvolve no âmbito daquela hipótese. Caso nos mantenhamos rigorosamente fiéis à premissa original, estaremos à altura de falar num “objeto” com possibilidades de tornarse objeto de pesquisa científica. Em terceiro lugar, podemos concluir que já possuímos provas suficientes para demonstrar que os centauros existem de fato. Nesse caso, para constituirmos um objeto viável de discurso, deveremos coletar provas (esqueletos, fragmentos ósseos, fósseis, fotografias infravermelhas dos bosques da Grécia ou o mais que seja), para que também os outros concordem que, absurda ou correta, nossa hipótese apresenta algo sobre o qual se possa refletir. Naturalmente, esse exemplo é paradoxal, e não creio que vá alguém fazer teses sobre centauros, em especial no que respeita à terceira alternativa; o que pretendi foi mostrar como se pode sempre constituir um objeto de pesquisa reconhecível publicamente sob certas condições. E, se se pode fazê-lo com centauros, por que não com noções como comportamento moral, desejos, valores ou a idéia de progresso histórico?

serrote e martelo. ao menos em teoria. por conseguinte. a importância científica se mede pelo grau de indispensabilidade que a contribuição estabelece. chamados “notas de lavanderia”. Tratar-se ia. Há contribuições após as quais os estudiosos. em sua vida privada. no máximo. e se todos os futuros trabalhos sobre o mesmo tema tiverem que levá-lo em conta. São textos de valor ínfimo. portanto. a propósito de rigorosíssimos filólogos alemães. pelo menos do pedagógico) escrever um bom livrinho de divulgação que conte a vida e fale das obras daquele autor. todos concordaram que era fundamental tê-lo em conta para a compreensão do desenvolvimento do escritor irlandês. existem admiráveis interpretações de Ulisses onde a personagem Molly foi focalizada com exatidão sem o recurso àqueles dados. dados deste gênero também são úteis. notas que o autor havia tomado das despesas a serem feitas naquele dia. Não é que se deva desencorajar aqueles que se divertem fazendo tais pesquisas. se não as tiverem em conta. O estudo deve dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma óptica diferente o que já se disse. E há outras que os estudiosos fariam bem em considerar. pregos. se não o fizerem. Um artigo que apresente nova descoberta sobre o comportamento das partículas elementares é útil. qualquer um poderia trazer à luz um daqueles documentos. a primeira versão do romance de Joyce Retrato do Artista quando Jovem. mas. de uma útil contribuição científica. publicaram-se cartas que James Joyce escreveu à esposa sobre picantes problemas sexuais. 4. sendo bem mais útil (se não do ponto de vista científico. uma vez que nada acrescentaria ao que já sabemos. Apenas uma coisa cumpre ter presente: um trabalho de compilação só tem utilidade científica se ainda não existir nada de parecido naquele campo. pois podem conferir um tom de humanidade sobre o artista. constituem insignificantes curiosidades biográficas e carecem de qualquer valor científico. Recentemente. como se . Analogamente. Um trabalho é científico se (observados os requisitos 1 e 2) acrescentar algo ao que a comunidade já sabia. Da mesma maneira. porém. de Joyce. nada poderão dizer de positivo. de um bom trabalho de divulgação. poderá valer-se do conhecimento de que. Trata-se. o mundo não se acabará. Esse é um requisito fundamental. mesmo havendo pessoas que ganham fama de pesquisadores incansáveis trazendo à luz semelhantes ninharias. Havendo já obras comparativas sobre sistemas de construção de casinhas de cachorro.2. fazer outra igual é pura perda de tempo. Trata-se. Por certo. de uma contribuição dispensável. mas uma obra que confronte e discuta todos os métodos conhecidos para construir o dito objeto já apresenta algumas modestas pretensões à cientificidade. que todos supunham isolado do mundo. portanto. Joyce atribuía à esposa uma sensualidade vivaz e desenvolvida como a de Molly. (Metodologia)O estudo deve fornecer elementos para a verificação e a contestação das hipóteses apresentadas e. mesmo uma tese de compilação pode ser cientificamente útil na medida em que o compilador reuniu e relacionou de modo orgânico as opiniões já expressas por outros sobre o mesmo tema. Um artigo que narre como foi descoberta uma carta inédita de Leopardi e a transcreva na íntegra é útil. Naturalmente. O estudo deve ser útil aos demais. para uma continuidade pública. quem estudar amanhã a gênese da personagem Molly Bloom no Ulisses. um manual de instrução sobre como fazer uma casinha de cachorro não constitui trabalho científico. Outras vezes. mas para tanto devo: (a) fornecer provas (pelo menos um osso da cauda. mas não é possível falar aqui em progresso do conhecimento humano. Por outro lado. quando não plágio. Como já dissemos. 3. Posso tentar demonstrar que existem centauros no Peloponeso. quando se publicou Stephen Hero. nada acrescentam ao que já se sabia. Às vezes. Um trabalho matematicamente exato visando demonstrar com métodos tradicionais o teorema de Pitágoras não seria científico. freqüentemente ironizados. Ao contrário. Era uma contribuição científica indispensável. ou revelam que naquele momento ele vivia na mais extrema pobreza. como um manual que ensinasse a construir uma casinha de cachorro usando madeira.

se fosse encontrado. provas e procedimentos de confirmação e contestação. não se podia considerar como membro do grupo um indivíduo que fazia parte dele segundo a polícia. Pode haver também uma tese que narre uma experiência de informação alternativa mediante sistemas audiovisuais numa comunidade operária: ela será científica na medida em que documentar. Nesse sentido. partindo do princípio de que. e devo mostrar ainda que critério adotei para atribuir o dito material probatório aos membros daquele grupo. Por um lado. deverei mostrar quais os critérios que me levaram a considerar certas pessoas como membros do grupo: inscrição. se eles expressaram depois aquelas idéias. vê-se que não existe oposição entre tese científica e tese política. E. Pode-se fazer uma tese política observando todas as regras de cientificidade necessárias. (c) informar como se deve fazer para achar outros. que tipo de osso (ou outro fragmento qualquer) mandaria ao espaço minha hipótese. mas a outros fatores que não considerei. Se minha tese serviu para estimular alguém a começar novos experimentos de contrainformação entre operários (mesmo sendo ingênuas as minhas presunções). preciso dizer se considero como expressão do grupo apenas o material teórico produzido por seus membros até aquela data (mas então. tem sempre um valor político positivo (tem valor negativo toda ação que tenda a bloquear o processo de conhecimento). Por exemplo. Escolhi de propósito temas bizarros justamente para demonstrar que os requisitos de cientificidade podem aplicar-se a qualquer tipo de pesquisa.) para demonstrar que tenho razão. havia dois componentes. participação em assembléias. como se viu. obtive qualquer coisa de útil. talvez camufladas. de modo a que outros possam continuar a pesquisar naquela direção. que minhas observações estavam erradas porque. por exemplo. (b) contar como procedi para achar o fragmento. mas. num movimento extraparlamentar de 1969. se possível. Suponhamos que eu faça uma tese para demonstrar que. pode dizer-se que todo trabalho científico. não só forneci as provas para a minha hipótese. quer para descobrir que os meus haviam sido casuais e de fato não se deviam à minha intervenção. de modo público e controlável. ou se considero também os textos produzidos pelos exmembros do grupo após a sua dissolução. isso significa que já as tinham em mente. é possível fazer-se uma tese “científica” mesmo sem utilizar logaritmos e provetas. cumpri dizer que toda empresa política com possibilidade de êxito deve possuir uma base de seriedade científica. terei de dizer como procedi para encontrara aquele material e onde o encontrei. artigos. O bom de um procedimento científico é que ele nunca faz os outros perderem tempo: até mesmo trabalhar na esteira de uma hipótese científica para depois descobrir que ela deve ser refutada significa ter feito algo positivo sob o impulso de uma proposta anterior. durante o período ativista do grupo. mas que nunca fora reconhecido como tal pelos outros membros. Tudo o que disse nos reporta à artificiosa oposição entre tese “científica” e tese “política”. atas de assembléias. embora se supusesse que ele fosse homogêneo. . a julgar pelos documentos disponíveis. se o grupo se desfez em 1970.disse). O mesmo sucede com qualquer outro tema. Só assim fornecerei aos outros a possibilidade de encetar novas investigações e mostrar. para contestá-la ou confirmá-la. na medida em que contribui para o desenvolvimento do conhecimento geral. etc. digamos. por outro lado. Terei assim apresentado uma hipótese. Devo apresentar documentos (panfletos. (d) dizer. a minha experiência e permitir a alguém refazê-la quer para obter os mesmos resultados. suposições da polícia?). mas procedi de maneira a permitir que outros continuem a pesquisar. Desse modo. um leninista e outro trotskista.

Como sua tese será modesta. aprova-os e utiliza desabusadamente o trabalho deles como se fosse seu. sugeriu várias idéias e. um carregador de água que se limita a recolher penosamente material que depois outros irão interpretar. alguns inconvenientes possíveis: 1. ao contrário. põe os estudantes a trabalhar. Ou seja. e decide valer-se dos candidatos como membros de sua equipe de trabalho. In: Como se faz uma tese. tal como. O estudante torna-se. ao abordar um determinado professor. O professor raciocina que. por seu lado. O professor está entusiasmado com seu próprio tema e violenta o candidato que. até porque não se lhe pode atribuir nenhuma idéia precisa. quando o professor opta por essa segunda via. uma idéia acerca de sua lisura. E isso é útil até didaticamente porque o candidato poderá valer-se de conselhos da parte de um professor muito bem informado sobre o assunto. terá seus próprios horizontes alargados. não citando sequer o estudante. para a qual são necessários inúmeros dados. caso execute um bom trabalho. aceita a sugestão do professor a quem pede a tese. COMO EVITAR SER EXPLORADO PELO ORIENTADOR* Por vezes o estudante escolhe um tema de seu próprio interesse. não conseguimos mais recordar quais as idéias que perfilhávamos de início e quais as que assumimos depois por estímulo alheio. determinará teses concernentes a setores particulares. ao elaborar a tese definitiva. destarte. depois de uma acalorada discussão coletiva. O professor é desonesto. esse segundo critério é o mais honesto e generoso. Há. Assim. São Paulo: Perspectiva. no entanto. sucederá que o professor. Que é a cientificidade. é porque confia no candidato. E normalmente lhe diz explicitamente que o tema é novo para ele também e que está interessado em conhecê-lo melhor. 2. Em geral. Ora. o candidato pode esperar uma publicação ao menos parcial de seus resultados. os professores podem seguir dois critérios diferentes: indicar um assunto que conheçam bem e onde não terão dificuldades em acompanhar o aluno. tal critério é não apenas legítimo mas também cientificamente útil: o trabalho de tese contribui para uma pesquisa mais ampla. Humberto. Há aqui. Como evitar tais inconvenientes? O estudante. que contribui para temperar o rigor de muitos e inclinálos a uma maior compreensão. talvez só use algumas partes do material recolhido. mesma na atual situação da universidade de massas. p. ele orienta as teses numa direção específica. entram fatores imponderáveis de estima e confiança. casos específicos em que o professor está fazendo uma pesquisa de grande fôlego. nesse caso. Fique claro que. algum tempo depois. pois se quiser avaliar bem o candidato e ajudá-lo em seu trabalho terá que debruçar-se sobre algo novo.* ECO. . com o fito de estabelecer um quadro completo do assunto. feita no interesse coletivo. 14ª ed. talvez no âmbito de uma obra coletiva. Ao sugerirem temas. 21-5. acompanhando uma tese dessas. Terá lido seus livros e descoberto se o autor costuma mencionar ou não seus colaboradores. já terá entrado em contato com diplomados anteriores e possuirá. Outras vezes. entretanto. Existem professores que se recusam a orientar teses sobre assuntos surrados. No mais. 1996. não tem o mínimo interesse naquela direção. e utilizar como material de fundo e de comparação as teses já elaboradas por outros estudantes sobre temas afins. durante alguns anos. Se for um economista interessado na situação da indústria em um dado período. ou recomendar um tema que conhecem pouco e querem conhecer mais. contrariamente à primeira impressão. Às vezes se trata de uma desonestidade quase de boa fé: o mestre acompanhou a tese com paixão. não mais destingue sua contribuição da do estudante.

In: Como se faz uma tese. Quem fez uma tese. Por roubo de trabalho científico entende-se. síndromes paranóicas à parte. Seja como for. cultural ou religiosa). que você fez. Nestes casos. a apropriação da transcrição de manuscritos raros que nunca tivessem sido transcritos antes de você. o estudante deve verificar se. evidentemente. as regras para a escolha do tema são quatro: 1. Ocupar-nos-emos daquelas situações em que se presume a existência de um candidato movido por certos interesses e um professor disposto a interpretar suas exigências. está se inserindo ou não num trabalho coletivo. Como evitar ser explorado pelo orientador. ao aceitar um tema de tese.Mesmo porque não convém cair na atitude neurótica de sinal contrário e julgarmo-nos plagiados sempre que alguém falar de temas semelhantes aos da nossa tese. * ECO. estejam ao alcance material do candidato. OUTROS EXCERTOS (PRECIOSOS) DE HUMBERTO ECO* 1. Quatro Regras Óbvias (p. Não estamos nos referindo. 3. não se julgue um gênio espoliado se algum tempo depois o professor. 2. a utilização de dados estatísticos que ninguém havia coletado antes de você. seu assistente ou um colega se ocuparem do mesmo tema. São Paulo: Perspectiva. p. privado de interesse e disposto a fazer mal qualquer coisa para se ver livre dela o mais depressa possível. 33-4. quantos outros já falaram sobre o mesmo assunto e quantas idéias comuns a todos os estudiosos. sem menção da fonte (pois. Aludimos antes ou àqueles em que a culpa é do professor. ou seja. 6): Pode acontecer que o candidato faça a tese sobre um tema imposto pelo professor. sobre as relações darwinismo e lamarckismo. estejam ao alcance cultural do candidato. Deste modo. ou àqueles em que a culpa cabe ao candidato. . de textos que não tinham sido traduzidos ou o foram de maneira diferente. teve oportunidade de ver. e pensar se vale a pena fazê-lo. todos têm direito de citar a tese). Que as fontes de consulta sejam acessíveis. sim. a utilização de dados experimentais que só podiam ter sido recolhidos fazendo essa dada experiência. isto é. sua atitude política. aos casos em que o candidato busca o conselho do mestre. Humberto. a utilização de traduções. percorrendo a literatura crítica. uma vez tornada pública. 1996. digamos. 14ª ed. Que as fontes de consulta sejam manejáveis. Tais coisas devem ser evitadas. Que o tema responda aos interesses do candidato (ligado tanto ao tipo de exame quanto às suas leituras.

cummings.) Abra parágrafos com freqüência. a tocar guitarra. vaidade ou desatenção) e depois não se vê à altura de seguir a tese. e sabe-se de teses dramaticamente abortadas justo porque não se soube colocar o problema inicial em termos tão óbvios.) Não pretenda ser e.. isto é. cumpre resolver como se escreve. Elimine o excesso de pronomes e subordinadas.. mas explicando por que motivo a linguagem dos doentes mentais não é uma linguagem “de loucos”. por razões de simpatia ou preguiça. uma linguagem que fala de outras linguagens. A finalidade da tese é demonstrar uma hipótese que se elaborou inicialmente. registre-os. Esta é uma recomendação importante. é exatamente assim. Cummings era um poeta americano que assinava com as iniciais minúsculas. (. ou escrever outras coisas antes de atacá-la. Se escrever sobre Caravaggio. cortava os versos. e razoavelmente.. Depois perceberá que o ímpeto lhe arrebatou a mão e o afastou do núcleo do tema. mas apenas em rascunho. Poderíamos acrescentar uma quinta regra: que o professor seja adequado.. O docente aceita (por simpatia. o resto) com boa antecedência antes da entrega da tese. estar convencido de que os doentes mentais são os únicos a exprimir-se como deve ser. Não receie repetir duas vezes o sujeito. De qualquer forma. E. Assim expostas. ou fazer a tese. há candidatos que. Problema difícil: se houvesse a respeito regras cabais. Use o orientador como cobaia. E.. Mas então terá duas alternativas: ou não fazer uma tese e manifestar o desejo de ruptura recusando os títulos universitários e começando.e. Se o orientador for uma pessoa muito ocupada (ou preguiçosa) . de fato. Quando for necessário. 2.(. evite escrever como um deles. aos poucos. onde não se respeitam as regras do discurso crítico. pois hoje em dia muita gente se mete a fazer teses de “ruptura”. para arejar o texto. Não imite Proust. por exemplo. querem fazer com o docente da matéria A uma tese que em verdade é da matéria B. pôr-se-á de súbito a pintar? Portanto. Mas você não é um poeta de vanguarda. pois escrever é também questão de treino.4. Elimine então as partes parentéticas e as divagações.. naturalmente. mas depois desmembre-os. Escreva o que lhe vier à cabeça. fazia tudo aquilo que um poeta de vanguarda pode e deve fazer. (. Faça-o ler os primeiros capítulos (e depois. mas quanto mais vezes melhor. O pseudopoeta que faz sua tese em versos é um palerma (e com certeza mau poeta). e não provar que se sabe tudo. ao falar do estilo dos futuristas. Com efeito. Que o quadro metodológico da pesquisa esteja ao alcance da experiência do candidato. em suma. Um psiquiatra que descreve doentes mentais não se exprime como os doentes mentais. estas quatro regras parecem banais e resumíveis na norma “quem quer fazer uma tese deve fazer uma tese que esteja à altura de fazer”. 115-21): Uma vez decidido a quem se escreve (à humanidade. As reações dele poderão ser de grande utilidade. seríamos todos escritores de proa. A linguagem da tese é uma metalinguagem. Montale não se formou e nem por isso deixa de ser um grande poeta. e para tal precisará empregar uma metalinguagem crítica compreensível a todos. Se ocorrerem. Não quero dizer que seja errado exprimir-se como eles: pode-se. colocando-as em nota ou em apêndice. usava vírgulas e pontos com muita parcimônia. Como se Fala (p. não ao examinador). Pode-se recomendar escrever a tese várias vezes. é possível dar alguns conselhos muito gerais. É poeta? Não se forme. Nada de períodos longos.) não diga que a violência poética “brota de dentro” de você e que se sente incapaz de submeter-se às exigências da simples e banal metalinguagem da crítica.

(. Não concordo... claro que introdução e índice serão continuamente reescritos à medida que o trabalho progride. o mais reconhecível por todos e que não se presta a equívocos..recorra a uma amigo. pois. Enganou-se de tese (ou de profissão). 3. a introdução e o índice final – ou seja. Talvez esteja mais preparado e documentado para o quarto capítulo. “é lícito supor”.) Um ensaio crítico ou um texto científico deveriam de preferência ser escritos em linguagem referencial (com todos os termos bem definidos e unívocos). ou “o artigo que citamos anteriormente”. Objetar-se-á que. nem faça ironias. O conselho parece paradoxal: começar pelo fim? Mas quem disse que o índice vem no fim? Em alguns livros aparece no início. . É assim que se faz. introduzir as opiniões próprias na primeira pessoa? Deve-se dizer “penso que. pareceria que toda a pesquisa não trouxera nenhuma idéia nova. “dever-se-ia dizer”. uma ironia ou uma litotes. (.. Se for um dos termos principais de sua tese e não conseguir defini-lo. você prometer muito menos que na primeira.) Defina sempre um termo ao introduzi-lo pela primeira vez. mas às vezes é útil empregar uma metáfora. de modo que o leitor faça desde logo uma idéia do conteúdo. abandone tudo. na tese. Certo.(. Por linguagem referencial entendo uma linguagem onde todas as coisas são chamadas pelo seu nome mais comum. evite-o. como “cabe. “ao exame desse texto percebe-se que” etc. Comece por aí.. esse índice hipotético se vê obrigado a reestruturar-se várias vezes. pois. (. Não sabendo defini-lo.) Eu ou nós? Deve-se. redigir logo o índice como hipótese de trabalho serve para definir o âmbito da tese. Escrever é um ato social: escrevo para que o leitor aceite aquilo que lhe proponho. mostrando-se bem mais cauteloso. O que distinguirá a primeira e a última redação da introdução? O fato de.. talvez assumindo uma forma totalmente diferente. Pode-se falar uma linguagem absolutamente referencial ou uma linguagem figurada. Verifique se qualquer pessoa entende o que você escreveu. 81-4): Uma das primeiras coisas a fazer para começar a trabalhar numa tese é escrever o título. O índice e a introdução finais (que aparecerão no trabalho datilografado) serão diferentes dos iniciais. concluir que”. O objetivo da introdução definitiva será ajudar o leitor a penetrar na tese: mas nada de prometer-lhe o que depois você será incapaz de cumprir. “parece acertado que”. com a desenvoltura de quem já pôs em ordem os capítulos anteriores. É normal. na última.não é necessário dizer “o artigo que citei anteriormente”. deve-se procurar evitar o pronome pessoal recorrendo a expressões mais impessoais. basta dizer “o artigo anteriormente citado”. Do contrário... Ganhará confiança. Naturalmente você conta com um ponto de apoio no índice-hipótese. pois expressões assim não implicam nenhuma personalização do discurso científico. Entretanto.. Mas a reestruturação será mais bem feita se contar com um ponto de partida. Dizemos “nós” por presumir que o que afirmamos possa ser compartilhado pelos leitores. Em outras palavras.”? Alguns acham isso mais honesto do que apelar para o noi majestatis. Quando muito. tudo aquilo que os autores deixam no fim. Não use reticências ou pontos de exclamação. à medida que o trabalho avança. O Índice como Hipótese de Trabalho (p. Não se faça de gênio solitário. que vai orientá-lo desde o começo.) Fica. Não se obstine em iniciar no primeiro capítulo. é válido escrever “o artigo anteriormente citado nos demonstra que”. “conclui-se daí que”..

) 5. que lhe dissera ser aquele sujeito um imbecil (razão pela qual não o deveria ter consultado). se for muito mais curta do que o original. 140-1): Se alguém. por acaso. Pode ocorrer-lhe agradecer ou declarar seu débito para com um estudioso que seu orientador odeia. apesar de seus defeitos. não cite o outro. Mas há casos em que o autor diz coisas de grande conteúdo numa frase ou período curtíssimo.. O estudante fica com a consciência tranqüila porque informa. é claro. Essa forma de plágio é assaz comum nas teses. o tiver ajudado com conselhos orais. Ao passar para a redação da tese. e provavelmente copiará longos trechos das fichas. Agradecimentos (p. Do contrário. Paráfrases e Plágio (p. Mas pode suceder que esse orientador seja uma pessoa aberta. em nota de rodapé. já não terá sob os olhos o texto.128-9): Ao elaborar a ficha de leitura. percebe na página não uma paráfrase do texto original. antes ou depois. além do orientador. é preciso certificar-se de que os trechos que copiou são realmente paráfrases e não citações sem aspas. por obrigação. fê-lo. (. Mas a culpa cabe inteiramente a você. para publicá-la ou para avaliar sua competência. mas a quem que posteriormente estude a sua tese. você resumiu vários pontos do autor que lhe interessavam: isto é. lívido e dogmático – pessoa que jamais se deveria ter escolhido para orientador. neste caso. significando que não só não o copiamos como o entendemos. E também reproduziu trechos inteiros entre aspas. Como ter certeza de que uma paráfrase não é um plágio? Antes de tudo. ou com apoio de qualquer outro gênero é costume inserir no começo ou no fim da tese uma nota de agradecimento. não se deve descartar a eventualidade de ser ele um velho rabugento. pois às vezes é inevitável ou mesmo útil que certos termos permaneçam imutáveis. jamais fará deste fato matéria de discussões durante a defesa da tese. pois optou por ser da mesma estirpe que o mestre. mas uma verdadeira cópia sem aspas. em parte. que aceita o fato de seu aluno recorrer até mesmo a fontes de que ele discorde e. Mas o leitor que. que está se referindo àquele autor. A prova mais cabal é dada quando conseguimos parafrasear o texto sem tê-lo diante dos olhos. E isto não diz respeito apenas ao orientador. terá cometido um plágio. Deve confiar no orientador. não se deve preocupar doentiamente em nunca colocar as mesmas palavras. Se o ajudou. consultando muita gente.. Mas se quiser fazer mesmo a tese com ele porque. abomina e despreza. Grave incidente acadêmico. Neste caso. de sorte que a paráfrase deve ser muito mais longa do que o trecho original. Aqui. fez paráfrases e repetiu com suas próprias palavras o pensamento do autor. Ou então. lhe parece um bom protetor.4. É de mau gosto agradecer demasiado ao orientador. . Citações. pode tirar daí uma péssima impressão. Isto serve também para mostrar que você batalhou. então seja coerentemente desonesto. empréstimo de livros raros.

mas sim de uma explicitação do objetivo final do trabalho marcado pelo ponto de vista do autor. cit.destacar na análise a idéia principal do trabalho. Uma dissertação deve ser estruturada da seguinte maneira: 1.delimitação do campo de estudo .indicar os métodos e técnicas a serem seguidos .definição do objeto . Conclusão: .definir e trabalhar a abordagem teórica a ser seguida . Referencial teórico-metodológico: .desenvolver uma crítica ideológica de toda a concepção e postura assumidos.colocação do background sociológico-histórico do objeto a ser pesquisado.* op.titular as partes e subdivisões .justificar e determinar os autores a serem seguidos .apresentar os possíveis argumentos contrários existentes .dividir de maneira coerente e equilibrada o conteúdo em partes . Não se trata portanto de um mero resumo do que foi desenvolvido. .responder de maneira inequívoca o problema colocado na introdução e desenvolvido no corpo do trabalho. Uma questão fundamental a ser colocada: A quem se refere o problema que está sendo formulado? Interesses pessoais? Interesses sociais ou de grupos? O segundo passo é demonstrar e justificar a importância do tema. INDICAÇÕES PARA ELABORAÇÃO DE UMA MONOGRAFIA* O primeiro passo para elaboração de uma monografia ou dissertação é examinar se a idéia do trabalho pode ser transformada em um problema formulável.expor de maneira clara e lógica as idéias centrais do trabalho . A conclusão é uma decorrência lógica e natural do que foi apresentado na introdução e desenvolvido no corpo do trabalho. 4. Corpo da exposição: .refutar as interpretações contrárias . 2. 3. Introdução: .problematização do objeto .resumir os argumentos fundamentais .colocar as dificuldades existentes em relação ao tema .definir as combinações teóricas a serem empregadas .

em ordem alfabética. nesse exame crítico: não estarei dando ao meu leitor uma impressão de timidez. Na transição do escrever ao redigir.” .. durante a disciplina Língua Portuguesa do Curso de Especialização em Gestão Escolar UNIR/SEMED. “mais ou menos” no português oral). quase. Razoavelmente (cf. parece.. que Luria provavelmente estava equivocado a respeito disso. A CAUTELA EM ESCRITOS CIENTÍFICOS: ALGUNS EXEMPLOS Como exemplificação do uso aparentemente adequado de acauteladores – os autores não poderiam ter sido categóricos. até certo ponto. geralmente (em geral. sugerimos um esquema provisório para a descrição do desenvolvimento lingüístico. dentre as quais a precisão conceitual e terminológica..” ‘É.” “Esses autores demonstraram. entretanto. 10. Duas perguntas-chave a fazer. relativamente. Ilinois. A COMUNICAÇÃO DO CIENTISTA: DA CAUTELA À CONVICÇÃO* INTRODUÇÃO A complexa.. desafiadora.. modéstia excessivas ao recorrer a formas acauteladoras? Ou. por outro lado.” “É razoável inferir que a cognição e a linguagem são relacionadas de modo complexo nos subnormais. a logicidade ou a coerência ideativa. bem possível que isso ocorra em situações diferentes das de nossa amostragem.* Extraído de apontamentos de aula da professora Jacinta Castelo Branco. estarei exagerando demais. aparentemente.).. importaria verificar até que ponto o cientista tem conhecimento explícito do repertório lexical disponível (que a sua língua materna oferece) para expressão de graus de incerteza ou de certeza informacionais.. o cientista precisa reler seu texto com atenção para seu uso de palavras e locuções que manifestem os dois extremos da escala comunicativa: cautela e convicção. entretanto. em minha opinião.. 2. 4... 9.” “A seguir. atribuindo expressões intensificadoras ou enfáticas a força que minhas assertivas já possuem. tentar e tender. 7. O lingüista americano Joseph Williams. perguntemo-nos. talvez. ao reler nosso texto.. a análise quantitativa também será útil. de itens acauteladores em português: 1. quantas vezes usamos palavras indicadoras de incerteza e quais dessas formas foram repetidas. a honestidade. Se considerarmos verdadeira essa afirmação. atividade redacional do cientista pressupõe o cultivo de várias virtudes. 6.. em sua obra Style: 10 lessons in clarity and grace (Glenview. sob certos aspectos. pelo menos. Eis uma listagem parcial. dada a possível natureza “aberta” ou controvertida dos problemas localizados – colhemos estes fragmentos de textos em obras de lingüística: “As crianças parecem evidenciar uma compreensão do mundo real antes de poderem compreender sua língua materna. em si mesmas? O bom senso comunicacional sugere (observe o uso do verbo sugerir. como expressão acauteladora. assim.. da representação escrita de nossa atividade cognitiva. Esse exercício contribuirá ao aprimoramento de nosso pensar e. conseqüentemente. a imaginação criadora. 5.) que ao ponderarmos ou “pensarmos” nossas palavras. 3.” “Talvez a data mais importante na história da afasiologia seja 1º de abril de 1861. o planejamento e a sistematicidade organizacionais.. procurar.. a humildade (ou a modéstia) e a convicção (ou autoconfiança). Scott Foresman and Company. 8. Convém acrescentar à listagem os verbos: esperar.. às vezes. 1981) afirma que “cada profissão possui sua fraseologia da cautela e da convicção”.

“A evidência incompleta levantada neste capítulo. Se você optar por esta segunda estratégia. rumo a outro conceito também graduável: a certeza. o autor que escreve “Arrisco-me a afirmar que isto é falso” em vez de “Isto é falso” está aplicando duas virtudes à sua comunicação científica: humildade e coragem.) na utilização consciente. . os intensificadores em mente: indiscutivelmente. porém necessário.” ‘Quero apenas esclarecer que.. decide ir em frente.. A credibilidade de suas afirmações resultará mais de sua argumentação do que do uso exagerado de intensificadores ou enfatizadores. por outro. A COMUNICAÇÃO CONVINCENTE: NÃO ABUSE DA ÊNFASE Um dos princípios da comunicação científica eficaz é: redija para convencer.. ainda inexplorado nas gramáticas que se propõem a focalizar aspectos da comunicação em língua portuguesa. nunca. CONCLUSÕES O bom senso redacional sugere que as virtudes da cautela ou da prudência e da convicção ou da confiança sejam exercidas e cultivadas judiciosamente...”).. é de importância fundamental que (ou “é de fundamental importância que.. dele retiram preciosos pontos. Todo escritor tem o direito de escolher seu próprio estilo. Quando pouco ou nada contribuirá à expressividade de sua mensagem. definitivas ou conclusivas. o fato é que.. Até que tenhamos uma análise sistemática dos mesmos.. O estudo dos usos do vocabulário acautelador e da convicção.... empenhemo-nos (não disse “tentemos”. Cada usuário deve construir sua própria lista de referência (para autocontrole e aprimoramento redacionais). nenhuma razão pela qual. está à espera de pesquisadores. fazendo com que diminua a confiança no que você transmite.” O leitor saberá construir sua própria lista de referência em benefício de seu polimento estilístico. invariavelmente (cf. não para impressionar o seu leitor com exagero. ninguém. justamente. “sempre”). só.” “Não há.” “Esses dois fatores podem ter sido os dois pré-requisitos que levaram ao surgimento revolucionário da linguagem humana.. tudo..... somente.. objetivo de.. fazendo afirmações que não são decisivas. Por um lado manifesta seu “senso de limite”.... em nossas comunicações científicas. Assim. nem ser superconfiante e exagerado... Ao fazer uma leitura crítica de suas opções lexicais. Nem ser cauteloso demais. mas daremos alguns exemplos de itens a serem evitados ou parcimoniosamente usados – a releitura em voz alta para si ou para alguém ajudará a detectar o que é supérfluo ou desnecessário. sempre. refletida desse componente do universo semântico de que dispomos e que deve ser aprimorado constante e permanentemente. se quisermos ser mais enfáticos) distanciar o processador de seu texto. Por trás delas podem esconder-se generalizações falhas ou apressadas que em lugar de conferirem maior informatividade ao seu texto..” “Esta é uma revisão dos resultados ou achados preliminares. ênfase ou excesso de confiança. verifique se há alguma ocorrência de algumas dessas palavras: todos... poderá (irá. no balanço crítico de um autor atento.” “O objeto de trabalho desse autor tende a ser o texto em si. está claro que.. para não diminuir a confiança de seu leitor no que você assevera.. até onde possamos ver.” “Este capítulo tem o modesto. inquestionavelmente.” “Neste estudo tentamos explicitar. desde que assuma os riscos ou as conseqüências de suas tomadas de decisão.

. distribuído sem outras referências bibliográficas durante a disciplina Língua Portuguesa do Curso de Especialização em Gestão Escolar UNIR/SEMED.* Texto de MATOS. 1995. Francisco Gomes de (Letras e Psicologia. UFPE).

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