ALENTEJO – uma SEARA VOCABULAR – 10 “CRÓNICAS DO AVÔ CHICO” “SENHORA DA TAPADA” de Pedro Jardim Chiado Editora, 2011 - 2012

10 PJardim

Ver resumo do livro em: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&category_id=0&flypage=flypage.tpl&product_id=362&optio n=com_virtuemart&Itemid=&vmcchk=1&Itemid=1 José Rabaça Gaspar – 2013 04

contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013

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Nota a abrir com dados da Chiado Editora: «Crónicas do Avô Chico - Nostalgia da Minha Infância no Alentejo», da Chiado Editora, é um livro de crónicas autobiográficas, episódios da infância do autor por terras alentejanas, em Vila Viçosa. «Pedro Jardim imortalizou um pouco das suas vivências, homenageando os actores da sua vida, principalmente o seu avô materno Francisco da Silva Jardim, conhecido como o Chico das Maravilhas. E fê-lo de forma poética, apesar de apresentar um livro em prosa. «Trata-se de um autor português, que conta a suas vivências e aventuras de menino, a história das suas gentes, bem como nos dá a conhecer muito das tradições e cultura alentejana. A narração desenrola-se em cenários deslumbrantes, que todos nós conhecemos (ou pelo menos ouvimos falar) e depois de lermos o livro ficamos com uma grande vontade de as (re)visitar e até conhecer. Cada episódio é acompanhado de ilustrações e poesias (do seu avô Chico, na sua maioria) que enquadram e ajudam a introduzir cada uma das cenas. Utiliza ainda uma linguagem muito própria e regional, o que nos ajuda a experienciar melhor todo o livro. «Um livro de afectos, puros e genuínos. Um livro transversal que pode ser lido por pessoas dos oito aos oitenta e oito anos.» Como ainda não tive oportunidade de aceder a este livro, aqui fica o espaço para uma possível recolha de vocabulário e expressões mais típicas e características do Alentejo…
Vertb –

Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim

Glossário

3 Obra autor
PJardim01 PJardim01 PJardim01 PJardim01

Termo
à briga à da à do adonde alevanta

origem

citação
«… Eram só a Maria e o Zé que estavam à briga enquanto tomavam o pequeno-almoço.» Ajudava a minha avó nos recados (mandados) à da vizinha Hermínia e à do Carraquico.

p.
21 75 25 91

Onde Levanta

Ai! Jesus, valha-me Deus! Adonde* eu me vim meter!... Se és galo alevanta* a crista, Se és frango larga a penuge*. Se o desafio é comigo, Ata os sapatos e fuge*. Deita o sangue na candeia, Alumeia-te* a minha luz. (quadra) ligada a um pequeno farol, alumiava* o caminho de noite

alumia-te alumiava

Ilumina-te Iluminava

PJardim01 PJardim01

101 77

aviou-lhe o pedido. artesanal. Bebe mas é o café. feito à mão. que conhecia muito bem PJardim01 a minha avó. o qual possui um buraco ao centro. PJardim01 PJardim01 PJardim01 60 21 21 124 botas da lavoura PJardim01 94 . quer dizer: Língua de fora estava agora na cozinha a ensebar as suas botas da lavoura. PJardim01 19 avio azeites beja bofes beijo A senhora que lá estava. dá-me uma beja*. de metal.» Disse ele em tom matreiro. Vou ver o que o meu avô está a fazer. já gasto de todos os invernos d’apanha da azeitona. ata as botas e fuge. «…Eu já não quero jogar mais.» Disse com os bofes* de fora. «Chega cá. próprio para cortar azeitonas. Peça em metal rectangular. Muito utilizado na expressão “bofes de fora”.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 4 artefacto Que estranho artefacto*.» Respondeu a Maria já com os azeites.

para alegrar os trabalhadores e assim estes trabalhavam mais alegres e tinham mais rendimento Cheios de sede despejávamos uma cantarinha de PJardim01 barro inteira de água. Soava a cantar tão bem onde eu estava a guardar as favas. Podia ser amarelo. PJardim01 cantarinha canto 45 143 casa alentejana é uma casa muito branquinha e só de rés-doPJardim01 chão. 103 . esse não é qualquer braseira a picão que o afugenta. saias. «Querem levar a minha filha para o canto mas não a levam não. rodapé que variava de cor consoante a tinta que lhe era colocado. etc.» Os homens que vieram a Vila Viçosa de propósito ficaram muito magoados. PJardim01 83 143 5 O destino não quis que ela fosse cantadeira*. Neste contexto as cantadeiras eram as mulheres do rancho que cantavam fados. frio. PJardim01 Parecia a Amália que cantava. como mandam as regras e os costumes alentejanos. Tinha nos meus tempos de menino e moço.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim braseira a picão cantadeira Cantora E quando chega o inverno.

As telhas eram muito vermelhas e o seu beiral era de cor branca. Era a sua imagem de marca. chaminé Cale-te daí boca aberta Rodilha* da chum’nei*. grandes e abertas. lá ia comprar um novo e sempre de cor preta. onde os antigos faziam lume para se aquecer por debaixo dela. Uma coisa era certa. última moda e quando um ficava um pouco mais gasto. chaminé chaminé chaminé é daquelas antigas. tinha de ser de feltro. Raparigas coma* ti Trago eu ao pontapéi*! Faziam-se três buracos no chão e depois tínhamos de ir passando os berlindes de uma cócora para a outra.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 6 vermelho ou azul. o Jardim não tinha muitas posses mas o seu chapéu. PJardim01 20 chapéu de feltro PJardim01 87 chum’néi PJardim01 65 cócora PJardim01 114 . Tem um quintal que dá para as traseiras e guarda ainda hoje muitos tesouros escondidos.

já que bacalhau não tinham os meus avós. nativas. amoras que só para os conhecedores da zona se entregavam. Raparigas coma* ti Trago eu ao pontapéi*! Almoçámos uma bela açorda com ovos e pescada. É servido frio ou quente e há quem o adoce com açúcar.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim cõma Como a Cale-te daí boca aberta Rodilha* da chum’nei*.» PJardim01 … «São um fruto silvestre que nasce nas silvas e é muito bom para comer. «Vamos às amoras pretas. «Então podes ajudar o avô a pisar as azeitonas PJardim01 142 comeres amoras pretas 94 96 19 comeres . PJardim01 65 7 comeres açorda com ovos e pescada comeres Almece coalho do leite PJardim01 68 Comemos almece*. mas temos de ter cuidado porque há frutos muito parecidos no campo. Não nos podemos enganar… Amoras selvagens. Soube muito bem estávamos PJardim01 cheios de fome e… Comida típica alentejana à base do.

É normalmente acompanhado de chouriço ou azeitonas. para quem quiser. cebola. pão às fatias e gelo. Era um corno de touro cheio de azeitonas e um de vaca cheio de azeite. Vinagrada PJardim01 19 20 comeres bolachas Maria comeres caspacho 53 141 A carne que sobrava era guardada para o PJardim01 caspacho*. Eu era muito novinho e punha-me a chorar ao pé dos molhos*.» …o meu bisavô devorava umas quantas bolachas Maria molhando-as primeiro no leite. É também conhecido com . as cordovis e as outras cortadas. alho.» Azeitonas cordovis PJardim01 «Então podes ajudar o avô a pisar as azeitonas enquanto eu corto as pretas. O manageiro* da aceifa ou ceifa era um senhor muito bom. fria.» Note-se que umas eram pisadas. feita à base de tomate. as cordovis e as outras cortadas. que naquele caso eram pretas. que naquele caso eram pretas.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 8 azeitonas pisadas comeres azeitonas verdes enquanto eu corto as pretas.» Note-se que umas eram pisadas. Comida tradicional alentejana.

Vou só lavar as mãos. … Côdea do pão ou parte mais dura do pão. avó. Depois de lavar as manitas*.» Disse a minha avó com um grande sorriso. PJardim01 35 9 franguinho Toma o pequeno-almoço que hoje temos de ir à mata buscar um franguinho assado para o almoço.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim o nome de gaspacho ou vinagrada… comeres coida comeres franganito Côdea …o meu avô Chico que já comia de entrada uma coida* de pão com azeitonas.» Disse eu a bocejar. «Está bem. A minha avozita Idalina metia tudo em cima da PJardim01 87 PJardim01 94 . Nem manteiga havia. PJardim01 60 comeres pão com toucinho ou banha pão com banha e açúcar comeres pão com banha e açúcar comeres Leite simples ou com café e o pão não se fazia de PJardim01 rogado com um bom pedaço de toucinho ou banha. 87 Ainda me lembro de comer pão com banha e açúcar.

estranhei tal manja. Habituado a “frango do aviário” como quem diz. 37 53 . Assim é que se começa bem o dia. Peixe vulgar PJardim01 21 36 60 comeres merenda comeres migas com entrecosto comeres sardas comeres sopas de pão 21 95 Comi que nem um abade e adorei a manja. com os meus tios. Sopas PJardim01 de Tomate acompanhadas de umas belas e vistosas sardas cozidas. Que PJardim01 bela manja. à mata buscar a manja para o almoço. Estalava já a merenda ao lume quando o Zé Pirico PJardim01 terminou o serviço …degustei um belo almoço. Deu uma trinca e comeu deliciado. eu e a minha avó Idalina. «É Maria.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 10 merenda matutina comeres manja mesa e lá me desenrascava a tratar da minha merenda matutina. …lá fomos nós. era um PJardim01 regalo. Sopas de pão com leite e açúcar por cima. Migas com entrecosto frito.

come. Faltava a asa que permitia o papagaio voar. Deixe os molhos e não precisa de chorar. Zona onde eram colocados os cestos de vime com os objectos pessoais das pessoas do rancho. Quem é que quer dar a volta à santinha?» Se fosse nos dias de hoje não era preciso tanta corremaça.» Mas ainda não tínhamos terminado a nossa contenda. queria dizer. bem como a comida e a água Após tamanha corremaça o meu avô Chico disse: PJardim01 «Estes gaiatos não param um bocadinho. PJardim01 PJardim01 36 116 11 copa O senhor manajeiro dizia-me: menino traz o PJardim01 comer e a água a tempos e a horas para a nossa copa*. bastava meter a série a gravar. a sua cauda. é bom. Olhem lá uma coisa. sempre roupa ao pé da gente*. não é? 141 corremaça 44 134 .Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim com leite comeres sopas de tomate contenda tarefa «Ó avozita! Que sopas são estas?» … «São sopas de tomate.

Se és frango larga a penuge*. Era como que um ritual. Faziam-se três buracos no chão e depois tínhamos de ir passando os berlindes de uma cócora para a outra. o objectivo era PJardim01 PJardim01 87 fezada fuge 21 21 91 PJardim01 115 gaiatos jogo berlinde PJardim01 114 .» Se és galo alevanta* a crista. os maganos?» Rapazes. Se o desafio é comigo. ata as botas e fuge. Eu que tinha seis. sete anos de idade. Nos intervalos de cada uma. adorava jogar ao berlinde.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 12 ensebar o Chico das Maravilhas ensebava todos os dias as PJardim01 suas botas com sebo. Intuição «…Bebe mas é o café. «Mas o que é que estes gaiatos* estão fazer. todos os dias sem falta. Ata os sapatos e fuge*. Meninos Este jogo era muito popular na altura. Fé foge …tenho uma fezada* que de hoje não escapa Estar com a impressão.

Com essa força motriz o pião ganhava balanço e girava. O pião que é de madeira. … Coitado do pião era novinho em folha e começou a ficar todo caniçado… 125 13 126 . Quem acertasse mais vezes nas cócoras ganhava os berlindes dos rivais. girava na terra vermelha. Depois de bem enrolada a guita e após prenderem bem a carica entre os dedos da mão. «Ao pião?» Questionei rapidamente. lançavam o pião contra o chão.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim acertar nos berlindes dos adversários para os afastar para longe e poder assim ganhar.» PJardim01 Esclareceu. jogo pião «Não sabes que estão a jogar ao pião. Desenrolavam a guita com uma força que até se ouvia um barulho seco no ar. tem um bico em aço e era nesse bico que começavam a enrolar a guita.

foi-se juntar a nós.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 14 jogo .pião canicado jogo . Era uma verdadeira área de convívio. quanto queres pela minha burra. …e atirou ao ar… Quando me levantei não estava em casa e eu que PJardim01 me levantava com as galinhas… Eu lá fiquei a imaginar como eram os tempos em PJardim01 que as pessoas faziam lume de chão por baixo da chaminé e como faziam as refeições à sua volta. apanhou o pião entre os seus dedos ainda a rodar e assim ficou até se ter levantado. «Ó Zé. … vi então o meu avô baixar-se nos calcanhares e com a sua mão direita como quem pega uma flor.… … Era o local onde comiam. cantavam e até namoravam. onde falavam. porque sem carena o pião não roda.pião carena … Coitado do pião era novinho em folha e começou a ficar todo caniçado… PJardim01 126 126 O meu tio que já tinha partido a carena do pião PJardim01 do “Pachorra” e não podiam jogar mais. Está PJardim01 levantar com as galinhas lume no chão 51 22 magana 53 .

capataz. mas até sabe cantar. «Mas o que é que estes gaiatos* estão fazer. Pessoa responsável pelo rancho e aquele que dirige o trabalho das ceifas ou outros. o magano ainda não tinha voltado da sua demanda matutina. Por falar nele. os maganos?» Mãos Toma o pequeno-almoço que hoje temos de ir à mata buscar um franguinho assado para o almoço. assim conhecido devido ao negócio. magano(s).» Disse a minha avó com um grande PJardim01 52 15 manajeiro PJardim01 141 143 mandados manganos manitas PJardim01 PJardim01 PJardim01 75 115 60 . a magana. Malandreco(s) …senhor manajeiro dizia-me: menino traz o comer e a água a tempos e a horas para a nossa copa*… O manajeiro era o Zé das Burras. Ajudava a minha avó nos recados (mandados) à da vizinha Hermínia e à do Carraquico.» Disse o Quim Manel para o Zé das Burras.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim velha.

Recebia ordens do Manajeiro e tratava de servir as pessoas com água e comida. … …empregado que tinha a seu cargo a guarda dos manteis na casa real. “mochos” por PJardim01 141 mocho 20 . Ia buscar a comida ao monte. Depois de lavar as manitas*.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 16 mantel / mantéis mantieiro sorriso. para onde quer que fosse o rancho.» Disse eu a bocejar. Vou só lavar as mãos. Toalha de mesa ou altar PJardim01 148 “(…) fui mantieiro*. Em meu mocho* sentado. Era também conhecido no tempo da corte. «Está bem. avó. recordo-me como se fosse hoje… Estavam sentados nuns bancos. PJardim01 neste caso ao Monte da Herdade da Vigária…” (avô Chico 2007) Normalmente era sempre um rapaz novo que acompanhava o rancho (grupo de pessoas) na apanha da azeitona. pelo empregado que tinha a seu cargo a guarda dos mantéis na casa real.

Era um corno de touro cheio de azeitonas e um de vaca cheio de azeite.» Preguiça. Eu era muito novinho e punha-me a chorar ao pé dos molhos*. azinho.) preparado de forma artesanal. Malandrice PJardim01 43 17 29 molhos A carne que sobrava era guardada para o PJardim01 caspacho*.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim sinal. Pedaço de tronco (por exemplo oliveira. Molhos de trigo que eram atados manualmente na altura da ceifa. etc. 141 mona Cabeça A imagem do casal alentejano ao lume não me saía da mona* PJardim01 21 . em frente à porta de entrada e falavam de coisas de gente popular. O manageiro* da aceifa ou ceifa era um senhor muito bom. moina «… Começa a missa daqui a pouco e eu aqui na moina*. para servir de banco.

a sua cauda. É verdade o meu tio tinha uma bicicleta. Coisa rara para aqueles lados. PJardim01 136 93 PJardim01 PJardim01 28 116 pasteleira PJardim01 76 pedra penuge Penugem Pedaço de pedra mármore utilizado para pisar as PJardim01 azeitonas cordovis. Se és galo alevanta* a crista. que os alentejanos chamam pasteleira. Mas ainda não tínhamos terminado a nossa contenda. foi até num ano em que nevou em Vila PJardim01 Viçosa. bicicleta Naquele dia estava a andar na sua pasteleira. Se és frango larga a penuge*. Ata os sapatos e fuge*.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 18 neve no Alentejo ouro dos pobres Seara de pão Paço Ducal papagaio Por acaso. PJardim01 91 . Se o desafio é comigo. (anos 80?) …um vasto manto de trigo dourado. …param junto ao largo do Paço Ducal e vão a pé para o Santuário. Ouro dos pobres que em foices arrancados demonstram todo o seu valor. Faltava a asa que permitia o papagaio voar.

Raparigas coma* ti Trago eu ao pontapéi*! Cale-te daí boca aberta Rodilha* da chum’nei*. ruins na quinta casa. Canções O meu avô Chico. mas fados dos primeiros fadistas portugueses. mas muito amigos. PJardim01 Sim. Quando era tempo de pinhões parávamos longos minutos a apanhar pinhas. não um fado qualquer. Pontapé Cale-te daí boca aberta Rodilha* da chum’nei*. alentejanas cantarolava com sua voz de rouxinol. Havia também saias* que o meu avô cantava e eram PJardim01 96 19 pontapéi 65 rodilha PJardim01 65 ruins na quinta casa saias PJardim01 PJardim01 67 76 . Fados. fados de outrora. Raparigas coma* ti Trago eu ao pontapéi*! Pano de cozinha para limpar as mãos e a boca brigávamos por tudo e por nada.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim pinhões Destes pinheiros nascem pinhas que dão pinhões. Como sabem. nem todas as pinhas dão pinhões. sempre altivo em sua pose.

pegou no cantarinho e foi à fonte (…)». eu por ti dou minha vida.. já que todos éramos vencedores. Santuário de Nossa Senhora da Conceição. amor do meu coração. batoteiros de renome.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 20 mais ou menos assim: «Anabela era um mimo de formosura. sinto na alma paixão (. era a moça mais linda de todo o monte e numa noite escura. Naquele dia era oito de Dezembro.. Outra também de marca era esta: «Ó minha amada querida. PJardim01 44 Santuário PJardim01 27 . salganhada Era uma completa salganhada.» É por causa destas cantorias que também era apelidado de “Rouxinol do Bairro de Santa Maria”. Padroeira de Portugal. muito escura.). acabávamos sempre todos à briga.

… Colocava água numa tina de metal. queria dizer. Pedaço de terra após ser lavrada Levava-lhe uma tina de metal cheia de água morna para cortar a sua barba. PJardim01 PJardim01 PJardim01 22 21 soninhos de pisco tarrões tina de metal 52 96 51 trazer sempre roupa ao pé da gente PJardim01 141 . O senhor manajeiro dizia-me: menino traz o comer e a água a tempos e a horas para a nossa copa*.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim semalha Cimalha A zona social mais activa era por debaixo da PJardim01 semalha* de uma lareira de lume de chão. É muito utilizado para colocar peças em barro ou cobre. decorada com flores vermelhas ao centro e com riscas azuis que ladeavam as suas bordas. Deixe os molhos e não precisa de chorar. … Nem os tarrões* o faziam abrandar. dormia soninhos de pisco e antes que o sol nascesse lá ia ele andar. Parapeito das chaminés de lume de chão. Correctamente escrita é Cimalha Escrevia até às tantas. sempre roupa ao pé da gente*. muito branca também por sinal.

Assim é que se começa bem o dia.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 22 Esta expressão era muito utilizada pelos manajeiros quando se dirigiam aos mantieiros. Que PJardim01 bela manja. 21 . água e comida) ande sempre junto dos trabalhadores. era este o trabalho de um mantieiro trinca Deu uma trinca e comeu deliciado.» O que quer dizer. Exemplo: «Ó Zé! Trata de “trazer sempre a roupa ao pé da gente”. é que o Zé mantieiro tem de garantir que a copa (cestos. neste caso. para onde quer que estes fossem. «É Maria. no fundo.

facebook. transmitidos por uma figura central: o Chico das Maravilhas". que ganham identidade social para todos aqueles que habitam ou possuem raízes nas terras alentejanas.t pl&product_id=789&option=com_virtuemart&Itemid= Podem ainda acompanhar este autor em https://www. e a histórias de encantar.product_details&category_id=0&flypage=flypage. Do imaginário decorre a certeza que o sonho comanda a vida Ana Paula Gil Ver em: http://www.75 23 .nostalgias da infância do autor no Alentejo .e relatos que apelam ao imaginário.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim Outra obra do mesmo autor: "As Crónicas do Avô Chico. ao sonho de menino. vivências da infância que se desenrolam em terras Alentejanas.A Senhora da Tapada são crónicas autobiográficas do autor alicerçadas em memórias familiares. histórias e conhecimentos. ao mesmo tempo.jardim. Do texto sobressaem valores que traduzem um forte espírito de família. cumplicidades e afectos.com/index. desenhados nas crónicas de Pedro Jardim. O texto está hermeticamente estruturado em relatos de memórias de infância . "São simples episódios da vida quotidiana.php?page=shop.com/pedro.chiadoeditora.

Como se costuma dizer.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 24 Termo à dos à dos alvoraçado anexim ata as botas e fuge cambulhada Carena do pião Ceifar de ar a ar Glossário origem citação Passava unicamente o período de férias à dos meus avós. estava alvoraçado. Sabem o que é? Eu explico.» … Isso é uma cambulhada de tolices. não sei porquê. como lhe chamavam. Ao meu tio Pedro chamavam a mesma coisa. ata as botas e fuge. Trabalhar de ar a ar é diferente de trabalhar de sol a sol. já que as pessoas começavam a trabalhar assim que havia luz e só paravam quando já mal se via.» Já era o quarto pião que ficava sem carena em pouco mais de uma semana …começou a ceifar com apenas doze anos de idade e trabalhava de ar a ar. Obra autor PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 p. o meu tio Miguel. mas quem realmente foi o primeiro a herdar esse anexim foi o meu tio Miguel. …quando era rapazito e estava no Alentejo à dos meus avós. 29 80 23 31 181 186 30 22 . Só alguns anos depois se começou a trabalhar quando o sol nascia e paravam ao pôr-do-sol. o “galela”.

filho. E essa é apenas uma das suas especialidades. até cheirava na boca como me costumavam dizer. o esparregado que cheirava na boca. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá. Vamos levá-los à avó para fazer um esparregado.» Nesse dia comemos um bom prato de feijão com espinafres e ao segundo prato. PJardim02 62 A avó vai partir-te uma fatia de pão e barrá-la com doce de tomate que fiz ontem à noite. foi aos espargos. PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 171 32 32 37 38 25 «Olha. com pedaços de frango frito. tarde de amêndoa. Fui então comer uma bela açorda com bacalhau cozido e ovo escalfado.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim cheirava na boca comeres ensopado comeres espargos comeres esparregado comeres feijão com espinafres comeres açorda com bacalhau e ovos comeres doce de tomate comeres doce de tomate … estavam a fazer as delícias na cozinha. e isto é só a PJardim02 PJardim02 66 67 . farófias. tigelada. sei lá. doce de banana. um pouco de ensopado que sobrou do jantar de ontem.» … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer.

sei lá. farófias. e isto é só a doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais descrentes. sei lá. tigelada. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 26 comeres sericá doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais descrentes. E essa é apenas uma das suas especialidades. E essa é apenas uma das suas especialidades. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá. e isto é só a doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais descrentes. sei lá. doce de banana. tarde de amêndoa. tigelada. e isto é só a doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais descrentes. … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer. doce de banana. … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer. tigelada. E essa é apenas uma das suas especialidades. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá. sei lá. doce de banana. tarde de amêndoa. tarde de amêndoa. E essa é apenas uma das suas especialidades. … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá. e isto é só a doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais PJardim02 67 comeres tigelada PJardim02 67 comeres doce de banana PJardim02 67 comeres farófias PJardim02 67 . … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer. farófias. farófias. doce de banana. farófias. tarde de amêndoa. tigelada.

Para o segundo é pastelão e salada de tomate. Um repasto. que bom! PJardim02 PJardim02 PJardim02 142 142 166 as labaredas que assavam um bom naco de chouriço para o pequeno-almoço … Estavam nessa altura a preparar um prato de carne de porco com amêijoas para o prato principal e bacalhau cozido com couve. Para o segundo é pastelão e salada de tomate. sei lá. e isto é só a doçaria que amoleceria de certeza a boca dos mais descrentes. tarde de amêndoa. comeres tarte de amêndoa … é o melhor doce de tomate que alguma vez posso comer. Feijão com nabiças.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim descrentes. PJardim02 PJardim02 167 171 . …migas com entrecosto frito. PJardim02 67 27 comeres migas com entrecosto comeres sopa de grãos comeres pastelão comeres feijão com nabiças comeres naco de chouriço comeres carne de porco com ameijoas PJardim02 106 … Hoje é sopa de grãos e arroz com tomate. E as outras! Só de pensar já tenho água na boca: sericá. tigelada. … Hoje é sopa de grãos e arroz com tomate. doce de banana. E essa é apenas uma das suas especialidades. farófias.

Esse pequeno molho é. sonhos. e vivem sobretudo em zonas secas. arroz doce… hum. de cor preta. Fiquei com muitas interrogações na minha cabeça. o mantulho. PJardim02 171 PJardim02 170 À sobremesa comemos sericá e doce de banana que a minha mãe fez. para quem desconhece. PJardim02 PJardim02 PJardim02 PJardim02 174 152 32 22 grilos PJardim02 70 . que delicia. Depois quando a mão já não dá mais.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 28 comeres bacalhau cozido com couve comeres s/mesa filhoses sonhos fatias de ovos pão-de-ló arroz doce almece Comeres s/mesa sericá corrupio Custar caro a sair gavelas … Estavam nessa altura a preparar um prato de carne de porco com amêijoas para o prato principal e bacalhau cozido com couve. já que o sujo custava caro a sair. mas o meu avô velhinho explicou-me que os grilos são pequenos animais. Foi um corrupio toda a semana. pão-de-ló. as ceifeiras faziam pequenos molhos nas mãos. só de falar neles… Degustou uma tigelada cheia de almece com açúcar por cima. formam-se as gavelas. fatias de ovos com açúcar e canela. que são molhos um pouco maiores. Elas cozinharam filhoses. dentro de um túnel escavado por eles próprios.

entre muitos outros. à pateira. do berlinde ou da pateira faziam as delícias dos mais novos. um bom jogo do pião.» Esse jogo é muito antigo. …fez um grande círculo à volta das pedras duas pedras onde irá assentar este pedaço de madeira mais pequeno. do berlinde ou da pateira faziam as delícias dos mais novos. agarrou então em duas pedras de mármore … e colocou-as no chão lado a lado. Pedrocas.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim jogo espeta Jogo da pateira Sugeri que jogássemos ao jogo do espeta. Jogávamos muito aos chamados jogos tradicionais: ao berlinde. um bom jogo do pião. Temos de defender o castelo. do berlinde ou da pateira faziam as delícias dos mais novos. …um círculo à volta das pedras… A esta zona dá-se a designação de “castelo”.» PJardim02 PJardim02 168 30 29 33 38 Jogo do berlinde Jogo do pião jogos berlinde pião pateira um bom jogo do pião. PJardim02 PJardim02 PJardim02 30 30 147 . que se irá chamar pateira. ao pião. lançando a pateira o mais longe possível. É muito conhecido aqui na região do Alentejo. deixando um espaço entre si.

com uma espiga de trigo que envolvia todo o molho. A paveia era por fim atada pelo homem. a minha avó meteu o pequeno ramo de rosmaninho em cima PJardim02 PJardim02 PJardim02 166 62 22 marrocate PJardim02 22 23 moreia PJardim02 22 pavia PJardim02 22 Porta dos Nós Ramo de PJardim02 PJardim02 82 37 . com uma espiga de trigo que envolvia todo o molho. Sim. A paveia era por fim atada pelo homem. um monte maior de trigo ceifado a que davam o nome de paveia. Este pão normalmente era feito para satisfazer as necessidades dos empregados nas quintas ou herdades ou das pessoas mais pobres. para quem desconhece. o mantulho. Esse pequeno molho é. formando desta feita uma moreia. Dos farelos que sobravam fazia-se ainda pão a que o povo dava o nome PEDRO JARDIM de marrocate.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 30 Lume de chão manja mantulho O lume de chão que tínhamos acendido parecia não aquecer os nossos corpos. Depois quando a mão já não dá mais. «Vamos lá ver da manja e já nos contas esse teu sonho. formando desta feita uma moreia. enquanto o pão feito com a farinha moída dos cereais era para as pessoas mais abastadas. um monte maior de trigo ceifado a que davam o nome de paveia. Pode ser?» …as ceifeiras faziam pequenos molhos nas mãos. formam-se as gavelas. a Porta do Nós que existe em Vila Viçosa. que são molhos um pouco maiores.

Eram muitas horas a trabalhar O meu avô. PJardim02 PJardim02 167 70 31 Trabalhar de sol a sol tubo para soprar o fogo PJardim02 PJardim02 22 166 . Os grilos comem serralha e quando estão fora das tocas cantam. as pessoas trabalharem de sol a sol.Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim rosmaninho semalha serralha da bancada da cozinha A minha avozita também deu a sua sentença. depois de aceso. ou seja. colocou os tijolos como queria. estridulam friccionando as suas asas umas às outras. Pedro. tinha na mão um tubo que servia para atiçar o animal quente e feroz. uma prateleira em mármore a servir de semalha «Sabes.

com/pedrojardim Dado o seu enraizamento no ALENTEJO.contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 32 Pedro Jardim tem também um PORTAL que pode seguir: http://jrradas.wix. em ALMÁSTICA… JRG – Fevereiro de 2013 . continuo convencido que pode ser um OBJECTO DE ESTUDO para enriquecer… esta IMENSA SEARA VOCABULAR deste imenso ALENTEJO… Aqui fica.

Alentejo – seara vocabular 10 – CRÓNICAS DO AVÔ CHICO – Pedro Jardim 33 trabalho realizado por @ JORAGA Vale de Milhaços. Seixal 2013 JORAGA JORAGA . Corroios.

joraga.www.net .2013 .contributo para uma imensa SEARA VOCABULAR – JRG 2013 34 10 – PJardim Corroios .