Você está na página 1de 42

Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
JANEIRO
1958

ERGUNTE

Responderemos

ANO I
ÍNDICE

I. CEBNCIA E RELIGIÁO

I) "As reportagens sobre discos voadores dúo por vézes a en


tender que há habitantes em antros planetas. Nao se se<¡rtii-
ria dai a necessidade de reformarmos nossas concepcóes reli
giosas ? O espiritismo vé em ludo isso um argumento em
favor de suas teses .'" •*
s>) "Que <li:vr da pretensa viiujem a Lúa ? Nao deve o homem
observar um Hmile em unan investií/acóci ?" 5

II. DOGJIÁTICA

S) "Em vista de um folketo divulgado entre nos, tornarse, para


mim um enigma a proposic&tí de um Deus em tres Pessoas.
Parece-me milito mais mito pagño do que urna verdade reve
lada na Biblia".

U) "Se urna das características da substancia de Deus é a sim-


plicidade absoluta, como conciliá-la com a tripersonalidade
divina ?" 7
5) "Que é a grava santificante ?" 11
6) "Donde e de quando vem o casamento civil ? — Km que se
apoiam os protestantes para aceitar o mero contrato civil
como meio lícito para se viver a vida conjugal ?" -12
7) "As pessoas que nao silo católicas vño para o inferno ?" .. 18

III. SAGRADA ESCRITURA

8) "Na parábola dos trabaUuidores e das diversas horas de, tra-


balho (Mt 20, 2-1G), nao se vé por que é proclamada a justica
do pagamento feito; principalmente -mío se entende por que
muitos sao chamados e poucos escolhidos" **
S) "Por que os católicos nao obedecem a Biblia guardando o
sábado ?" **

IV. MORAL

JO) "Parece-me haver certa confus&o no que concerno as o6ras


proibidas nos domingos c días de preceito. Afinal sera licito
ou nao bordar, cuidar do pomar, tratar de correspondencia
comercial ?" 26
II) "Que pensar do chamado nu artístico ? Que é o pudor ?" .. 31

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

12) "Qual o papel dos católicos na famosa noité de Sao Bartolo-


meu (U de agosto de 1573) ?" S3

COM APROVAC&O ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano I — N« 1 — Janeiro de 1958

I. CIENCIA E RELIGIÁO

JOÁO SISUDO (Rio de Janeiro) :

1) «As reportagcns sobre discos voadores dao por vézes


a entender que lia habitantes em outros planetas. Nao se seguiría
daí a ncccssidade de reformarmos nossas conceocóes religiosas?
O espiritismo vé em tudo isso umj argumento em favor de suas
teses!»

A maneira como se tem tratado o assunto dos discos voa


dores é por vézes um tanto pueril. Abordemo-lo com a devida
sobriedade.

1. Antes do mais, importa frisar que a hipótese de exis-


tirem habitantes em outros planetas nao sofre objegáo por parte
da fé católica. A Sagrada Escritura e a Tradigáo nada ensinam
a seu respeito, pois o' conhecimentó do assunto nao interessa
imediatamente á salvagáo eterna dos homens e o Senhor houve
por bem revelar-nos apenas verdades atinentes á nossa santi-
ficagáo. A questáo, portante, fica fora do ámbito da Palavra
de Deus a nos transmitida; deverá ser estudada á luz das cien
cias e das observagóes empíricas; o católico reconhecerá a res-
posta que o cientista lhe comunicar,' desde que nao seja for
mulada de modo contraditório á verdade revelada.

Foi no sáculo passado que comegou, entre os teólogos, a


ser focalizada com certa atengáo a hipótese de haver outros
planetas habitados. Alguns entáo tentaram torná-la plausivel,
fazendo valer, entre outros argumentos, o seguinte : existe enor
me quantidade de materia espalhada pelos espagos cósmicos; a
materia, porém, só pode preencher a sua finalidade (dar gloria
a Deus) no conjunto das criaturas, caso haja seres inteligentes
que a cónhecam e, mediante ela, se elevem até o Altíssimo;
seria, por conseguinte, harmonioso que o Criador tivesse colo
cado nos astros seres semelhantes aos homens, destinados a se
servir do respectivo mundo material para prestar louvor ao
Todo-Poderoso. O argumento nao deixa de ter sua convenien
cia. Destarte se vé que a empolgante hipótese, longe de con-
tradizer á fé, pode sem dificuldade ser incorporada a urna visáo

— 3 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 1

profundamente teológica do universo. Vé-se igualmente que a


habitagáo de outros planetas e a possibilidade de comunicagoes
inter-siderais sao teses de todo independentes da ideología es
pirita e da teoría da reencarnagáo, por muito que os espiritas
explorem o noticiario dos jomáis em favor de suas crengas.
As pretensas mensagens do Astral, as «comunicagóes de Ra-
matis» captadas por via mediúnica nao sao senáo produtos da
subconsciencia e da fantasía, hoje mais do que nunca excitadas
pelos «boatos» e as conjeturas : posto em estado de transe, o
«médium» pode dar expressáo a nogóes latentes em seu íntimo,
combinando-as num enredo mais ou menos fantástico, corres
pondente a sugestóes que receba por parte de agentes externos.
Para fundamentar a tese da existencia de marcianos e de
seus apregoados discos voadores, a S. Escritura nao oferece
texto algum, apesar do que as vézes se lhe quer atribuir.

2. Admitida a hipotética existencia de habitantes em ou


tros planetas, surge a questáo : como se configurarían! ésses
individuos ?
a) Do ponto de vista físico, é de crer que constem de
espirito e materia, alma e corpo ; provávelmente, porém, sao
dotados de constituicáo fisiológica diferente da nossa, a fim de
poder viver em condigóes de atmosfera, pressáo e clima bem
diversas das nossas.

A rigor, também nada há contra a hipótese (abordada em


reportagem) dn que tenham emigrado da Torra para o planeta
onde atualmenlc residom. Neste caso, podoriam ser descen
dentes de Adáo (teriam entáo o pecado original), como pode-
riam ser filhos de urna hipotética humanidade que haveria
vivido sobre a Térra antes do aparecimento de Adáo (nao se
poderia dizer com precisáo quando é que Adáo existiu). Sobre
a hipótese dos «pré-adamistas», veja E. Bettencourt, Ciencia
e Fé na historia dos primordios, cap. VI.
b) Do ponto de vista religioso, os marcianos estariam
sujeitos á mésma leí natural que nos, isto é, teriam urna cons-
ciéncia moral igual á nossa. Portante, também entre éles
estaría em vigor o preceito básico de toda a moralidade:
«Faze o bem, evita o mal», assim como as conseqüéncias que
déste decorrem : «Nao matar, nao roubar, náoí adulterar, etc.»
A razáo disto é que a lei natural é um reflexo da Lei eterna
de Deus ; ela exprime a infinita santidade de Deus, a qual é
imutávri : para o Senhor. as categorías do bem e do mal nao
sao sujeitas a reforma nem a tempos e lugares, pois nao de-
pendem apenas de um ato da Vontade divina, mas do imutável
Ser de Deus.

— 4 —
HABITANTES EM OUTROS PLANETAS?

Em se tratando de leis positivas, os habitantes de outros


planetas poderáo estar sujeitos a determinagóes diferentes das
que o Altíssimo promulgou para nos (tais sao o dever de guar
dar um dia entre sete, o de recorrer aos sacramentos, etc.).
É provável que, urna vez criados os marcianos, o Senhor
tenha havido por bem submeté-los a urna provagao, dando-lhes
assim o ensejo de afirmar livre e conscientemente a sua adesáo
ao Bem Supremo. É o que se afirma, visto o modo como o
Criador procedeu com os homens e com os anjos.
Sujeitas á prova, teráo aquelas criaturas superado a tenta-
gáo ou, antes, sucumbido ao pecado?
Esta pergunta já nos coloca muito longe no castelo das
hipótcses... Digamos, porém, que, se rosistiram ao mal, os
seres extra-telurianos foram provávelmente confirmados no
bem, á semelhanga do que se deu com os anjos bons. Se peca-
ram, podem ter sido agraciados por urna Redengáo. Neste
caso, é possível que lhes estejam sendo aplicados os méritos de
Cristo adquiridos na Térra há vinte sáculos atrás, méritos mais
do que suficientes para extinguir os pecados de muitos mundos,
como também se pode pensar que o Filho de Deus se tenha en
carnado outra vez em outro planeta.
Divagar por tantas conjeturas se torna, em última análise,
ocioso ; váo é ao homem procurar respostas para quest5es que
pertencem estritamente aos arcanos da Sabedoria de Deus.
Certa atmosfera de pavor e perplexidade chega a se criar em
virtude da previsáo de guerras interplanetárias... Com isto,
nao poneos dos nossos contemporáneos pordom de vista a ta-
refa da hora presente ; para o cristáo, urna coisa é segura:
quer existam, quer nao existam marcianos, ele tem que pro-
gredir diariamente na uniáo com Deus, despojando-se todos os
dias um pouco mais do velho homem, e revestindo-se da nova
criatura (cf. 2 Cor 4,16 ; Ef 4,24); fazendo isto, o cristáo ganha
a sua vida na Térra e chegará a ver face a face a infinita Sa
bedoria de Deus, com seus misteriosos designios. Eis, porém,
que as múltiplas hipóteses arquitetadas em torno dos discos
voadores impedem a muitos de rezar e viver na presenga de
Deus e, por conseguinte, de considerar o mundo como ele deve
ser considerado.

D. M. (Altinópolis) :

2) «Que dizer da pretensa viagem a Lúa ? Nao deve o


homem observar um limite em suas investigagóes ?»

Nao se poderia condenar, em nome da Moral crista, o


plano de se realizar urna viagem á Lúa. Foi o Criador mesmo
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 2

quem confiou á criatura racional a missáo de dominar a natu-


reza (cf. Gen 1,28). Ora, enquanto o homem nao tenha evi
dencia de que Deus lhe veda alguma tentativa neste sentido,
é-lhe lícito experimentá-la.

O que ñas experiencias modernas há para lamentar, é


apenas urna contingente conseqüéncia das mesmas : em alguns
círculos, tende a se implantar mais ou menos sorrateiramente
a opiniáo de que o homem caminha na senda de um progresso
sem termo; caso a Térra se torne inóspita, pensa-se em per
petuar a especie humana pela transferencia da nossa clviliza-
Cáo para outro planeta ; as previsóes concernentes ao futuro
váo sendo arquitetadas sem que se ouca urna só referencia ao
Supremo Autor e Legislador do Universo. Com isto vai sendo
implícitamente veiculada a ilusáo de que Deus é desnecessário
a grandeza do homem.

Muito a propósito vém as palavras do Santo Padre Pió XII


dirigidas aos membros do VII Congresso da Federacáo Inter
nacional de Astronáutica em 20 de setembro de 1956 :

«Nao vos escapa, senhores, que um projeto de semelhante enver


gadura (viagem interplaneteria) comporta aspectos intelcctuais e
moráis, que é impossível ignorar; postula urna certa concepcüo do
mundo, do seu sentido, da sua finalidade. O Senhor Deus, que depositou
no coracáo do homem o desejo insaciável de saber, nSo teve a intencáo
de por limite aos seus esíorcos de conquista, quando disse: «Sujcitai
a térra» (Gen 1,28). Foi a criacáo inteira que Ele lhe confiou e que
file oíerece ao espirito humano, para que ai penetre e possa assim
compreender sempre mais a fundo a grandeza infinita do seu Criador.
Se até agora o homem se sentia, por assim dizer,. encerrado na térra
e devia contentar-se com as informagoes fragmentarias que lhe che-
gavam do universo, agora parece que se lhe oferece a possibilidade de
quebrar essa barreira e de ter acesso a novas verdades e a novos
conhecimentos, que Deus colocou em profusáo no mundo. O mero
motivo de curiosidade ou de aventura jamáis conseguiría orientar
corretamente esfdrcos de tal amplitude. Ante as situacOes novas acar-
retadas pelo desenvolvimento intelectual da humanidade, a consciéncia
deve tomar posicao; o homem deveria aprofundar o seu conhecimento
de si mesmo e de Deus para se situar com mais exatidáo no conjunto
do mundo, para medir melhor o alcance de seus gestos. Ésse esfórco
comum de toda a humanidade em prol de urna conquista pacifica do
universo deve contribuir para imprimir na consciéncia dos homens o
sentido da comunidade e da solidariedade, para que todos tenham mais
a impressáo de constituir a grande familia de Deus, de ser os filhos
de um mesmo Pai. Mas, para penetrar essa verdade, faz-se mister...
nao menor submissáo á realidade, nao menor coragem, do que para a
investigacáo científica. As mais audaciosas explorares do espacp só
servirüo para introduzir entre os homens novo fermento de desunióes,
se nao andarem de par com urna reflexüo moral mais profunda e urna
atitude mais consciente do dcdicacjio aos interesses superiores da huma
nidade» (Discorsi e Radiomessagi, vol. XVIII pág. 461-462).

— 6 —
O MISTERIO DA SSMA. TRINDADE

II. DOGMÁTICA

T. J. (Rio de Janeiro) :

3) «Em vista de um folheto divulgado entre nos, torna-se


para mim um enigma a proposigao de um Deus em tres Pes-
soas. Parece-me muito mais um mito pagao do que urna ver-
dade revelada na Biblia».

PROBLEMÁTICO (Rio de Janeiro) :

4) «So urna das características da substancia de Dcus é


a simplicidadc absoluta, como conciliá-la com a tripcrsonali-
dade divina ?»

Ao falar da Santíssima Trindade, toca-se na reálidade mais


íntima da vida de Deus, que necessáriamente há de ser um mis
terio. Se Deus «coubesse» todo dentro da exigua inteligencia
humana, seria realmente Deus ? Nao; seria exiguo como o
próprio homem. De antemáo, pois, é de prever que a sua natu-
reza ultrapasse o alcance da nossa inteligencia (sem, porém,
lhe impor absurdo).

Vejamos, por conseguinte, sucessivamente os fundamentos


revelados do misterio da Ssma. Trindade e a maneira como
pode ser ilustrado. Concluir-se-á que tal misterio, Ionge de ser
um enigma especulativo, constituí verdáde sumamente bela e
vital.

1. Os fundamentos bíblicos

A fim de evitar o perigo de politeísmo no povo israelita


cercado de nagóes idólatras, a Revelagáo feita aos judeus incul-
cava o mais estreito monoteísmo, silenciando tudo que pudesse
ser mal entendido no assunto.
Quando, porém, o Messias veio ao mundo na plenitude dos
tempos, «manifestou o nome de Deus aos homens» (cf. Jo 17,6),
isto é, disse-lhes que Deus é nao sómente Criador e Legislador,
mas também Pai, o qual desde toda a eternidade vive em
comunháo com o seu Filho Unigénito (segunda Pessoa Divina)
no ósculo ou no Amor sagrado, que é o Espirito Santo (ter-
ceira Fessoa Divina). É essa paternidade que se estende a todo
cristáo no dia do seu Batismo.
Há explícitas fórmulas trinitarias no Novo Testamento,
como Mt 28,19 ; Jo 14,26 ; 15,26 ; tenham-se em vista também
as cenas da Anunciacáo, do Batismo de Jesús e da Trans-
figuragáo, em que se manifestam as tres Pessoas Divinas
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 3 e 4

(Le 1,32-35 ; Mt 3,16 ; 17,1-5). Os textos do S. Evangelho em


que Jesús professa subordinagáo ao Pai, se referem á santís-
sima humanidade, e nao á natureza divina do Salvador (cf. Jo
5,30; 8,17; Mt 26,39).

Modernos historiadores das religióes tém asseverado ori-


gem paga para a doutrina da Santíssima Trindade. Apontam
o fato de que varios povos antigos professavam tres deuses
supremos ; os egipcios, por exemplo, conheciam Osiris ou Sera-
pis (o Touro Sagrado), Isis (a Lúa-Vaca) e Horus (o Filho);
os babilonios, Anu, Enlil e Ea ; os budistas cultuam Dhama
(a Lei), Budha (o Propagador da Lei), Sangha (o Fruto da
propagagáo da Lei ou a uniáo dos ascetas entre si), etc. Con-
tudo tais autores nao saberiam explicar como a concepeáo
paga entrou ñas Escrituras do Novo Testamento ; váo seria
afirmar, como querem alguns, que a Trindade só comegou a
ser professada pelos cristáos sob o Imperador Constantino no
séc. IV ; os testemunhos do Evangelho e de Sao Paulo sao de
masiado explícitos no caso.

Em verdade, .nao se pode provar influencia da ideología


paga sobro a concepeáo crista. Ao contrario, a um .observador
atento torna-se clara a divergencia de mentalidades pressu-
posta pelas tríades pagas e a Trindade crista. Entre os pagaos,
os tres elementos constituem tres deuses distintos, colocados
no ápice de urna escala de muitos deuses; désses tres seres
supremos, um é geralmente elemento feminino ou materno ; a
trindade paga vem a ser entáo a familia humana transposta
para o mundo dos deuses, refletindo por vézes o regime social
ou económico vigente em tal ou tal povo antigo ; outras vézes,
as tríades pagas implicam a personificagáo de fórgas da natu
reza. Em oposigáo a essas concepgóes, a doutrina crista é es-
sencialmente monoteísta, inculcando nao menos a unidade de
Deus do que a Trindade ; nunca, portante, o cristianismo admi
tirá distingáo entre as Pessoas Divinas tal que rompa a unida-
de divina; éste trago revela bem que a fe católica se inspira
de pressupostos totalmente diversos da mentalidade politeísta.

Explica-se sem dificuldade que os pagaos espontáneamente


tendessem a conceber a existencia de tres deuses no ápice do
mundo supremo. Com efeito, segundo a mística dos números
(táo cara aos antigos), tres é o número da perfeigáo (haja vista
o triángulo equilátero, que está sempre em pé, sempre igual a
si mesmo) ; era, por conseguinte, o número da divindade, por
isto freqüentemente associado a esta ñas especulagóes do poli
teísmo. — Ao contrario, a Ssma. Trindade da Revelagáo crista,

— 8 —
O MISTERIO DA SSMA. TRINDADE

como se verá adiante, nada tem que ver com a mística dos
números, assaz arbitraria e subjetiva ; ela se radica em prin
cipios muito mais profundos, derivados do conceito de Ser Per-
feito ; em conseqüéncia, é principalmente usando da inteligencia
e desvencilhando-se de concepcóes religiosas infantis que os cris-
táos conseguem ilustrar o misterio da vida íntima de Deus. Ten
temos fazé-lo no parágrafo abaixo.

2. A ilustrado do dogma

Deus é espirito, 6 semelhanca do qual a criatura humana


(mais precisamente : a alma humana) foi feita (cf. Gen 1,26).
Será, pois, pela consideragáo da alma humana que lograremos
aproximar-nos do misterio da Ssma. Trindade.

Todo espirito possui duas faculdades características me


diante as quais exerce a sua vida : a inteligencia e a vontade.
Pela inteligencia conhecemos : os objetos que estáo fora de
nos imprimem-nos urna semelhanga de si, fecundando o nosso
intelecto e levando-o a conceber ou gerar urna imagem (quase
urna «chapa fotográfica») désses objetos ; projetamos essa
imagem ante a nossa inteligencia e a contemplamos. É o que se
chama «conceber urna idcia» ou «pronunciar urna palavra in
terior». Acontece, porém, que o conhecimento da verdade nao
pode deixar de suscitar o amor ; passamos entáo a gravitar em
torno do objeto conhecido, pondo em acáo a nossa segunda
faculdade espiritual, que é a vontade. Ao passo que a inteligen
cia como que atrai o objeto a si (pelo conhecimento recebemos
urna semelhanga do objeto), a vontade se deixa atrair ; tende
a ir buscar e a possuir plenamente o objeto conhecido, para
finalmente deleitar-se néle. Urna vez conseguido éste deleite,
dá-se por satisfeita e repousa. — Ora nossa vida humana cons
ta de urna serie de ciclos désse tipo ; dotados da capacidade de
apreender o Infinito, aqui na térra só conhecemos objetos fini
tos ou conhecemos o Infinito (Deus) á semelhanga das coisas
finitas, de modo que nunca alcanzamos a quietude definitiva ;
vamos sucessivamente conhecendo os aspectos da verdade,
passamos a gravitar em torno déles, obtendo de cada vez al-
gum deleite ; éste, porém, sendo finito, nao nos sacia plena
mente. Por conseguinte, sempre recomegamos a conhecer e
amar neste mundo. Sómente no céu, onde os justos véem a
Deus face a face, é que conhecimento e amor estáo definitiva
mente estabilizados.

Pois bem. A atividade espiritual que se dá no homem


com tanta imperfeicáo, verifica-se em Deus de maneira per-

— 9 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 3 e 4

feita. Deus tem também o seu conhecimento e o seu amor. O


conhecimento divino, porém, nao é progressivo como o nosso,
mas num só ato apreende a Verdade — a Verdade, que nao é
distinta de Deus, mas que é o próprio Deus. Assim Deus, num
ato único, eterno como eterna é a vida divina, conhece a Si
mesmo de maneira exaustiva ; o que significa : num só ato
concebe-Se ou pronuncia-Se a Si mesmo na eternidade : o pro-
duto dessa concepgáo nao é urna imagem parcelada da verdade,"
como em nos, mas é a própria Verdade, o próprio Deus a
subsistir diante de Deus ; é Pessoa Divina, como o sujeito do
conhecimento é Pessoa Divina. A esta segunda Pessoa a S. Es
critura dá o nome de Logos (Palavra, Imagem mental) ou de
fllho (já que todo filho é a expressáo subsistente de seu geni
tor) , ficando o título de Pai reservado á primeira Pessoa.

Contemplando a sua infinita Perfeigáo, Deus nao pode


deixar de comprazer-se em Si. Ora esta complacencia é outro
ato em que Deus se afirma com toda a sua perfeigáo ; é o Amor
de Deus ou Deus que ama ; é o Amor subsistente que vincula
o Pai ao Filho e o Filho ao Pai, rematando (por assim dizer) o
processo da vida divina. A esta terceira Pessoa a Escritura d& o
nome de Espirito Santo.

Faz-se mister ainda notar as duas seguintes notas das «pro


cessóes» divinas (assim se chamam os dois atos característicos
da vida divina) :
a) elas nao implicam divisáo da infinita Perfeigáo ou da
Substancia de Deus ; esta fica- sendo urna só e a mesma, afir-
mando-se, porém, tres vézes. Destarte a Trindade de Pessoas
nao derroga em absoluto á unidade e simplicidade da natureza
divina. As tres pessoas só diferem entre, si por aspectos rela
tivos, nao por títulos absolutos, isto é, diferem porque a pri
meira é Deus que concebe e a segunda é Deus mesmo que cor
responde a éste ato de conceber ; por sua vez, a terceira Pessoa
é Deus que corresponde ao ato de amor emitido pelo Pai e o
Filho. As tres Pessoas, portanto, tém (ou sao) toda a Perfei
gáo Divina, que se diversifica apenas por tres modos de subsis
tir ; e ésses tres modos se apelam mutuamente, sao correlativos
e inseparáveis entre si, mas nao se podem identificar uns com
os outros, porque os termos correlativos, por definigáo, se
opóem um ao outro (todo pai, na medida em que é pai, se dis
tingue de seu filho, embora só seja pai caso exista o filho).
b) As processóes em Deus se verificam sem sucessao cro
nológica nem subordinagáo; nossa pobre linguagem, porém, nos
leva a falar, como se entre elas houvesse anterioridadé e pos-
terioridade. Desde que Deus existe, isto é, desde toda a eter-

— 10 —
QUE & A GRACA SANTIFICANTE ?

nidade, Deus é Pai, Filho e Espirito Santo ; a geragáo e o deleite


amoroso sao a própria vida de Deus, nao sao atos adventicios
a ela. Vé-se assim que táo necessária e essencialmente como
Deus é uno, Deus também é trino; vé-se outrossim que Deus
nao poderia subsistir nem em duas, nem em quatro ou cinco
Pessoas, mas é muito lógicamente uno e ao mesmo tempo trino.
A Trindade nao é menos necessária do que a unidade em Deus.

«Ser em tres Pessoas», Pai, Filho e Espirito Santo, é na


realidade a mesma coisa que «ser Deus», embora a nossa inte
ligencia nao perceba logo a equivalencia destas proposigóes.
Se podemos separar os dois enunciados, isto se dá porque conhe-
cemos a Deus indiretamente, através das criaturas, no regime
da fé ; no céu, porém, perceberemos claramente o fundamento
da sinonimia.

SEQUIOSO (Niterói) :

5) «Que é a graga santificante?»

A graga santificante é um dom criado que Deus se digna


conceder á alma do justo, a fim de o tornar filho adotivo de
Deus (cf. 1 Jo 3,1-3); habilita-o assim a produzir, dentro da
sua capacidade de criatura, os atos de conhecimento e amor
do próprio Deus. Por ésse dom o homem vem a ser realmente
consorte da natureza divina (cf. 2 Pdr 1,4), templo do Espirito
Santo (cf. 1 Cor 3,16) ou da Ssma. Trindade (cf. Jo 14,23).

Em linguagem metafórica, pode-se dizer que a graga santi


ficante é um hábito ou urna veste que recobre a substancia da
alma, dando-lhe urna entidade nova, um ser sobrenatural.
Ésse ser novo há de ter suas faculdades de agir, paralelas as
facuidades de agir da alma na ordem natural. Por isto a graga
santificante é sempre comunicada ao homem juntamente com
as virtudes infusas, dentre as quais se destacam a fé e a cari-
dade. A fé é um dom outorgado a inteligencia para que esta
possa conhecer a Deus como Deus conhece a Si; a caridade é
dom que se localiza na vontade, fazendo que o homem possa
amar a Deus e as criaturas como Deus ama. Conseqüentemente,
diz-se que, pela graga santificante e as virtudes da fé e da
caridade, Deus prolonga sua vida no justo; as processóes intra-
trinitárias se estendem ao cristáo : Deus Pai gera néle o seu
Verbo ou Filho, servindo-se dos atos de fé sobrenatural désse
justo ; Deus Pai e Deus Filho fazem proceder néle o Amor, ser
vindo-se para isto dos atos de amor sobrenatural dessa criatura.

— 11 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 6

O valor da graga aparece nítidamente se é considerado den


tro do seguinte quadro :
a pedra tem analogía com Deus na medida em que ela é
ou existe (Deus é o Ser por excelencia) ;
a planta tem analogía com Deus na medida em que ela
vive (Deus é a Vida por excelencia) ;
o homem e o anjo, por sua natureza, tém analogía com
Deus na medida em que possuem inteligencia (Deus é a pri-
meira Inteligencia).
Pois bem ; ácima da natureza angélica coloca-se o dom da
graga santificante, que confore á criatura semelhanga com Deus
enquanto c Deus mesmo, ou com Deus no misterio da sua vida
íntima. Pode-se, pois, dizer que, ácima dos reinos da natureza
(reino mineral, vegetal, animal, humano e angélico), está o
Reino de Deus, constituido pela vida íntima do Todo-Poderoso
e pela participagáo dessa vida outorgada, mediante a graga
santificante, as almas dos justos e aos anjos bons.
Esta escala nos dá a ver que um só ato de amor sobrena
tural a Deus emitido ocultamente por urna velhinha ou urna
alma simples no canto de urna igreja mais vale do que todas
as maravilhas da natureza reunidas ; Deus se compraz mais
nesse ato do que na existencia dos espagos cósmicos com seus
esplendores deslumbrantes.
A luz desta doutrina entendcm-se os adagios : «O reino
dos céus é a alma do justo» o «A graga é a sementé da gloria».
Com efeito, a gloria celeste já comega embrionalmente na térra
pela posse da graga santificante ; esta tende a mais e mais se
desenvolver, penetrando as faculdades da alma até o ámago,
de sorte que, ao terminar a sua peregrinagáo terrestre, o justo
vé irromper de sua alma a fonte da eterna felicidade ; a vida de
Deus está depositada no seu íntimo desde agora ; nao é preciso
que espere a morte para a receber.
Oxalá tivessem os cristáos consciéncia um pouco mais
profunda do «tesouro que trazem em vasos de argila» (cf. 2
Cor 4,7) !

QUINTINO (Curráis Novos, Rio Grande do Norte) :

<6) «Donde e de quando vem o casamento civil ?


Em que se apoiam os protestantes para aceitar o mero
contrato civil como meio licito para se viver a vida conjugal?»

O matrimonio é instituigáo baseada na natureza humana


e intimamente relacionada com a transmissáo da vida. Ora a

— 12 —
QRIGEM E SIGNIFICADO DO CASAMENTO CIVIL

vida sempre foi considerada por todos os povos como proprie-


dade divina ; é um bem que o homem nao deu a si mesmo, nem
pode conservar a seu bel-prazer. Atribuiam-lhe, pois, caráter
sagrado, caráter que conseqüentemente foi reconhecido á uniáo
conjugal.

Sendo assim, nao sómente o judaismo, mas também as


sociedades pagas anteriores a Cristo, consideravam o ato de
contrair matrimonio como algo que transcendia a esfera pura
mente profana ; era, sim, urna cerimónia religiosa. Os gregos,
por exemplo, conheciam os «deuses do casamento» (theoí ga-
mélioi), aos quais ofereciam sacrificios e dádivas por ocasiáo
das nupcias ; a primeira noite que a estas se seguía, era por éles
considerada a noite mística (nyx mystiké). Entre os romanos,
o ritual de nupcias costumava prescrever o oferecimento de
um sacrificio a Júpiter. Alias, bem compreensível é tal praxe:
os antigos povos nao separavam o foro civil e o religioso;
antes, julgavam que as instituicóes patrias eram sagradas e
vice-versa (por isto, também o juramento do soldado que in-
gressava na milicia imperial era, para os romanos, um sacra-
mentum, consagrado ao servigo da deusa Roma).

Em tal ambiente é que teve origem o Cristianismo. Éste


anunciava aos povos urna doutrina matrimonial bem definida':
o casamento é contrato natural, instituido pelo próprio Criador
(cf. Gen 1,28; Mt 19,4-6) e elevado pelo Redentor a nova
dignidade ou á categoría de sacramento, imagem da uniáo de
Cristo com a Igreja (cf. Ef 5,32) ; goza, por conseguinte, das
notas da unidade e da indissolubilidade (note-se que o divorcio
era livremente praticado pelos romanos). Os cristáos, profes-
sando tal doutrina, comeearam a se propagar no Imperio em
meio a urna civilizacáo e urna ordem de coisas instauradas
havia séculos; nao lhes era possivel remodelar bruscamente
as instituicóes vigentes. Por conseguinte, enquanto o Imperio
Romano subsistiu no Ocidente (Roma caiu em 476), duas
autoridades legislavam a respeito do matrimonio : a autoridade
civil e a da Igreja; verdade é que, após a conversáo de Constan
tino (313), os Imperadores mais e mais procuravam adaptar as
leis civis matrimoniáis aos costumes cristáos e prestigiavam
largamente a implantacáo déstes. Um eloqüente testemunho
de que a Igreja reivindicava para si independencia perante o
Estado em materia de direito conjugal, é o seguinte fato : as leis
romanas nao reconhedam o casamento de cidadáos livres com
escravos nem com libertos (chamavam-no contubernium, nao
matrímonium); nao obstante, o Papa S. Caliste (218-223) per-
mitiu que mulheres romanas de elevada posicáo social con-

— 13 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 6

traíssem matrimonio désse tipo. Mais tarde o Papa S. Leáo


(440-461), por sua vez, declarou o escravo apto a casar-se com
um cidadáo romano.

Após a queda da autoridade imperial no Ocidente, quando


foi preciso reorganizar a vida pública, pode-se dizer gue a
autoridade geralmente acatada na Europa era a dos bispos.
Estes, por conseguinte, aproveitando o que havia de sadio ñas
instituigóes romanas, foram restaurando a civilizagáo sobre
principios essencialmente cristáos. Desde entáo a legislagáo ma
trimonial, atinente que era a um sacramento, ficou sendo de
competencia da Tgreja; os novos germánicos, embora tivessem
suas tradigóes anteriores, iam cedendo as leis cristas; os reis
merovíngios e carolíngios (séc. VII/IX) apoiavam a estas o
mais possível. Em conseqüéncia, por toda a Idade Media foi re-
conhecida á Igreja jurisdicáo plena em tudo que concernía ao
matrimonio ; éste era tido como algo de essencialmente religioso
e cristáo.

No séc. XVI, porém, sobreveio Lutero, que introduziu


concepgóes novas. Tinha o matrimonio na conta de fungáo mera
mente natural, que interessava únicamente á fisiología e á psi
cología : para a mulher e principalmente para o varáo, seria
um remedio dado por Deus a fim de poderem ceder á concupis
cencia invencível e má sem que o pecado Ihes fosse imputado
(o ato conjugal seria por si mesmo pecaminoso !•). Daí se deri-
vava no Ps.-Reformador uma concepcáo sinistra do matrimonio :
julgava-o rescindível pelo divorcio ; dos seus principios concluía
outrossim que, se a um varáo nao bastasse uma esposa só,
deveria tomar duas simultáneamente. Eis algumas das suas
afirmagóes mais características :

«Apesar de todos os elogios que acabo de fazer á vida conjugal,


nao entendo conceder á natureza que na vida matrimonial nao haja
pecado; corrompiSos por Adáo, a carne e o sangue, como diz o salmo
50, sao concebidos e nascem no pecado. Por conseguinte, o devcr con
jugal nunca se cumpre sem pecado; mas, por misericordia, Deus perdoa
ésse pecado, porque o matrimonio é obra dÉle; por meio déste pecado,
Ele conserva todo o bem que Ele colocou e abencoou no matrimonio»
(íim do sermáo sobre o matrimonio. Vom ehelichen Leben; Werke
X b 304).

«Como diz o salmo 50, o dever conjugal é pecado, pecado própria-


mente furioso. Pelo ardor e a volúpia perversa que néle se atuam,
nao diíere em nada do adulterio e da fornicacao. Seria preciso, por-
tanto, nao lhe ceder, mas os esposos nao o podem evitar. E, por fim,
Deus nao Ihes imputa ésse pecado, por pura misericordia» (Julgamento
sobre os votos monásticos; Werke VIII 654.19).

— 14 —
ORIGEM E SIGNIFICADO DO CASAMENTO CIVIL

•iDeus cobre o pecado, sem o qual nao poderia haver gente casada>
(Werke XLII 582,30).

Imbuido de tais idéias, Lutero afirmava que o matrimonio


nao é sacramento, mas «um ato exterior e físico, do tipo das
outras ocupagóes ordinarias» (Werke X b 283,8), por isto de
pende ¡mediatamente da jurisdigáo civil:

«Como se deve tratar de questóes de matrimonio e de divorcio,


já o expus : devem ser entregues aos peritos em leis e colocadas ñas
müos dos magistrados civis. Com efeito, o casamento é coisa mundana
e secundaria, exatamente como o sao esposa e íilhos, casa e proprie-
dacles o o mais; por consoguinte, está sujeito á jurisdigáo do poder
civil, o qual por sua vez está subordinado á lei da raziio» (Werke
XLII 116).

Os príncipes luteranos nao hesitaram em valer-se déstes


principios, tomando a seus cuidados as causas matrimoniáis ;
instituiram cortes e instancias próprias as quais atribuiam
as antigás fungóes da curia eclesiástica de legislar na materia
e reconhecer os contratos matrimoniáis. Assim o casamento
passou a ser assunto do foro civil, do qual a religiáo nao era
própriamente banida, mas entrava apenas secundaria ou re
motamente ; o príncipe civil vinha a ser autoridade religiosa
autónoma. Um grande passo estava assim dado em diregáo da
total laicizagáo do casamento !

Nos séc. XVII/XVIII verificou-se na Franga o movimento


chamado «galicano», que, tendendo a constituir urna Igreja
nacional, emancipada da autoridade papal, atingía de muito
perto as questóes matrimoniáis; estas, conforme os galicanos,
deveriam ser julgadas nao na base das leis da Igreja Universal,
mas de acordó com a jurisprudencia do Estado, que legislaría
autónomamente em materia religiosa. Esta nova tendencia a
transferir da autoridade da Igreja para o poder civil os casos
de casamentos se estendeu a Austria, onde o Imperador José II
(1780-1790), imbuido de galicanismo veemente, estéve prestes
a declarar o cisma eclesiástico. Por influencia de um canonista
astuto e dissimulado sob o pseudónimo de Febrónio, os prin
cipados de Colonia, Tréviris, Mogúncia e Salzburgo, assim
como o Grao-Ducado da Toscana (Sínodo de Pistoia, Italia)
adotaram por sua vez idéias galicanas, separatistas, no decor-
rer do séc. XVIII. Observe-se que por essa época aínda nao
se celebrava o matrimonio meramente civil; contudo o valor
religioso que, ñas reivindicagóes galicanas, josefistas e febro-
nianas, ainda se reconhecia ao casamento, ficava inteiramente
subordinado as leis do Estado ; o que quer dizer que era des
virtuado ou sufocado.

— 15 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, gu. 6

Finalmente a Revolugáo Francesa de 1789 constituiu a


etapa final do processo. Os seus chefes apregoavam ao mundo
idéia até entáo inaudita, ou seja, a concepgáo de um Estado
meramente leigo, desconhecedor de qualquer valor religioso e,
nao obstante, pretensamente suficiente para atender a todas
as necessidades do homem; nesta perspectiva, o govérno civil
seria competente para legislar em qualquer setor da vida
humana, inclusive no do matrimonio, sem ter que responder a
alguma autoridade eclesiástica ; as crencas religiosas seriam
questáo de tendencia particular dos cidadáos.

Uma das conscqücncius mais notáveis da nova menlnli-


dade foi a introdugáo do casamento civil obligatorio, acom-
panhado de sua legislagáo própria (lista de impedimentos,
cláusulas favoráveis ao divorcio, etc.); o matrimonio religioso
e seus requisitos ficavam na conta de nao existentes.

O primeiro país a impor o casamento civil foi a Franga,


no ano de 1792. Esta medida talvez tivesse tido conseqüén-
cias restritas á Franga, se Napoleáo nao a houvesse adotado
no seu Código Civil (art. 191). O Imperador reconhecia, sim,
oficialmente a existencia da Igreja, nao, porém, para atribuir-
-lhc autoridade independenle, mas para torná-Ia instrumento
do Estado. «Toute influence qui ne vient pas du gouvernement
est un crime en politique», declarou ele certa vez.

O Código Civil de Napoleáo tornou-se,modelo inspirador


de numerosas legislagóes estrangeiras ; e, com ele, o matrimo
nio civil obrigatório ganhou difusáo... : a Italia, por exemplo,
o incorporou ao seu Código em 1866 ; a Suíga, em 1874 ; a Ale-
manha, em 1875 ; a Holanda, onde os franceses o haviam intro-
duzido em 1795, o agregou á sua legislagáo nova em 1833 ; a
Bélgica o fez em 1830. Estes novos sistemas legislavam sobre o
matrimonio em independencia ou em oposigáo para com as leis
da Igreja... Concorreram fortemente para que nos povos
outrora genuinamente cristáos se difundisse a idéia, hoje táo
comum, de que o casamento recebe do Estado o seu vigor de
contrato;... de que é preciso, portanto, absolutamente preen-
cher as condigóes da lei civil, nao sempre, porém, as da lei
eclesiástica, pois o aspecto religioso no caso é acessório.

Quem assim pensa, mal tem consciéncia de que estas idéias


constituem uma aberragáo aos olhos da razáo esclarecida e uma
inovagáo recentíssima no curso da historia ; há pouco mais de
cem anos atrás ainda causariam espanto em muitos homens de
pensamento profundo.

— 16 —
ORIGEM E SIGNIFICADO DO CASAMENTO CIVIL

Está claro que os contratos matrimoniáis interessam de


muito perto o govérno civil, o qual pode legítimamente reivin
dicar para si o direito de os controlar. É o que reconhecia per-
feitamente S. S. o Papa Leáo XIII na sua encíclica sobre o ma
trimonio cristáo, em 1880 : «A Igreja nao ignora nem contesta
que o sacramento do matrimonio, instituido em vista da con-
servagáo e da propagagáo do género humano, está associado
necessáriamente as circunstancias de vida que... pertencem
ao foro civil e a respeito das quais o Estado com razáo tem suas
exigencias o promulga justos decretos». Mas, como lombra o
Pontifico, disto nfio decorre para o Estado u nocossidudc de criar
seu tipo de casamento próprio, ao lado do religioso; ao contra
rio, um acordó amigável entre os poderes eclesiástico e civil
resolve melhor a situagáo (como o comprova, por exemplo, a
experiencia da Italia e da Espanha). Na verdade, pode-se dizer
que os fautores do matrimonio civil nao visam apenas realgar
o valor humano e nacional do matrimonio, mas tém procurado,
e em parte ainda procuram, desferir por essa via um golpe con
tra a Igreja e a mentalidade crista; a promulgagáo do casamento
civil obrigatório, embora nao exclua o religioso, sempre im
plica num juízo depreciativo publicamente proferido sobre éste.

Alguns autores tém procurado justificar a existencia do


casamento meramente civil, alegando que nos primeiros séculos
do Cristianismo a lcgislacáo matrimonial dependía do govérno
e que, por conseguinte, a volta ao estado de coisas antigo nao
pode ser tida como injuria feita á Igreja. O paralelismo, porém,
é de todo inconsistente. Nos primeiros séculos a Igreja já rei-
vindicava para si plena autoridade sobre o sacramento do
matrimonio ; encontrou, porém, no Imperio romano urna legis-
lacáo já feita, á qual só lentamente ela pode impor as neces-
sárias correcóes ; a partir do séc. IV, a tendencia que animava
os Imperadores era francamente a de aproximar mais e mais
a legislaqño civil da eclesiástica. Totalmente opor.ta é a sitúa-
gao moderna : depois de reconhecidos durante séculos os plenos
direitos do matrimonio-sacramento, procura-se voltar a um
estado de coisas que desde o inicio foi tido como alheio á men
talidade crista.

No Brasil, o contrato civil foi tornado obrigatório por lei


do govérno republicano de Janeiro de 1890. Hoje em dia, porém,
é facultado aos cidadáos o matrimonio religioso com efeitos
civis, instituigáo que merece alta estima por parte dos católicos,
pois os isenta de urna formalidade que em seu ámago equivale
a ama ofensa 'a consciéncia crista.
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 7

DA SILVA (Sorocaba) :

7) «As pessoas que nao sao católicas vao para o inferno?»

É tradicional dizer-se : «Fora da Igreja, nao há salvagáo.


O axioma, a primeira vista, causa espanto a muitos, pare-
cendo-lhes expressáo de mentalidade estreita, pouco condizente
com a Misericordia de Deus. Devidamente entendida, porém,
tal máxima desvenda um pouco da infinita Bondade do Criador.
Em análise sumaria, a proposicáo ácima quer dizer que
nao há salvavüo se nfio por meio do Cristo e da obra redentora
de Ci'isto. Ora Cristo vive através dos séculos e se prolonga
na Igreja. Donde se segué que toda salvagáo se obtém por
contato com a Igreja de Cristo. — Esta dedugáo é assaz lógica :
se o Filho de Deus se dignou tornar-se o Salvador dos homens,
compreende-se que nao haja graga que nao seja graga de Cristo,
outorgada através do «Corpo de Cristo que é a Igreja» (cf.
Col 1,29).
Dito isto, note-se que o indispensávei contato com a Igreja
de Cristo, longe de se estabelecer por urna só via, pode ser alean-
gado de diversas maneiras:
1) o modo mais obvio é o da incorporagáo á Igreja me
diante a recepgáo do batismo de agua e dos demais sacramen
tos. A Igreja é, sim, urna sociedade visível (porque Cristo quis
aparecer entre nos de forma sensível ou num corpo); é, pois,
normal que os que a ela pertencem, manifestem por algum
sinal exterior a sua pertinencia á Igreja.
Á categoría dos homens batizados se pode agregar a d&-
queles que, tendo tido conhecimento de Cristo e da sua Igreja,
se preparam para receber o primeiro sacramento ; estes (cate
cúmenos), embora aínda nao tenham o batismo de agua, já
possuem o désejo do mesmo (ou o batismo de desojo), désejo
explícito, professado, em virtude do qual se salvam.
Contudo, fora dos que assim demonstram de algum modo
pertencer á Igreja, contam-se outros muitos individuos, desti
tuidos de qualquer vinculo externo com a Esposa de Cristo.
Nao obstante, pertencem-lhe sem que o saibam e sem que, por
sua vez, Ela o saiba.
2) Coni efeito, há urna forma invisível de fazer parte do
Corpo Místico de Cristo.
Deus, em seus sabios designios, nao julgou necessário
fazer que todos os homens que vém a éste mundo cheguem ao
conhecimento explícito de Cristo (tal é o caso, entre outros,
dos milhóes de pagaos que viveram e vivem ñas selvas sem

— 18 —
SALVACAO ETERNA DE PESSOAS NAO-CATÓLICAS

ver missionário). O Senhor também permite que muitos dos


que ouvem falar de Cristo e da sua Igreja (seja em térras in
cultas, seja ém nossos países civilizados), o ougam de maneira
incompleta, lacónica ou nao adaptada á sua psicologia, de sorte
que, mesmo depois de ouvir a pregacáo da Igreja, nao experi-
mentam o «problema religioso», nao lhes aflora á confidencia
o dever de receber o sacramento do batismo; repelindo a Igreja,
podem até julgar estar repelindo o erro.

Contudo nenhum désses homens é abandonado pela Pro


videncia. O verdadeiro e único Deus se lhes dá a conhecer de
outro modo.

E como ?

No fundo de todo e qualquer individuo, faz-se ouvir um


imperativo espontáneo: «Pratica o bem, evita o mal». Éste
ditame supóe um Autor da Natureza humana capaz de lhe
impor preceitos e sancáo, pois tal imperativo antecede a deli-
beragáo do homem e o acompanha sempre, por muito que o
individuo faga para o sufocar (excetuam-se apenas casos de
extraordinario empedernimento voluntario). Assim quem, che-
gando á idade da razáo, toma consciéncia désse imperativo fun
damental e generalíssimo (e nao há quem nao o faga), toma
ao mesmo tempo consciéncia, mais ou menos confusa, mais ou
menos clara, de que Deus existe e é Remunerador dos que O
temem. Ora a afirmagáo destas duas proposigSes é suficiente
para a salvagáo eterna, pois nelas se acha compendiada toda a
doutrina revelada (cf. Hebr 11,6). Se, pois, alguém com toda
a boa fé segué a sua consciéncia, praticando tudo que esta lhe
indica como «bem» e evitando tudo que ela aponta como «mal»,
tal pessoa está seguindo a Deus ; por conseguinte, vai-se apro
ximando do único Deus e da bem-aventuranga sobrenatural.
Para uns, o ditame básico «Faze o bem, evita o mal» significará
talvez seguir tudo que, em doutrina e moral, é ensinado pelo
budismo; para outros significará seguir o islamismo ; para
terceiros, o protestantismo ou o espiritismo, etc. Se, porém,
cada um dos adeptos désses credos, aderir com fidelidade e
consciéncia absolutamente tranquila á sua religiáo, ele se en-
caminhará para o verdadeiro Deus. É Éste mesmo que se lhes
dá a conhecer e os chama por via daquela ideología que em
plena boa fé éles julgam ser verídica.

Diz-se entáo que tais pessoas possuem o batismo de desejo


nao explicito, mas implícito, pois, dotadas como se acham de
sinceridade na procura de Deus, se viessem a saber que o
Senhor fez do batismo sacramental e da pertinencia á Igreja

— 19 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1953, qu. 7

visível a via normal para chegar ao Criador, nao hesitariam


em pedir o sacramento. Repitamos, pois: se alguém, aderindo
a urna ideología náo-católica, reconhece que Deus existe e é
Providente, pode salvar-se, caso nao tenha dúvida nenhuma
sobre a veracidade de sua religiáo e pratique fielmente tudo que
esta manda. Nao seria demasiado, porém, frisar que, para con
seguir em tais casos a vida eterna, é absolutamente necessário
esteja a pessoa de boa fé, pois, desde que conceba alguma sus-
peita sobre a sua religiáo, nao sámente Deus, mas também a
dignidade humana, exige que tal individuo procure sair da hesi-
tacáo, investigando a verdade ; o homem, dotado de inteligencia,
é por sua natureza mesma movido a procurar em tudo a cla
reza; nao lhe será lícito, portante, em materia religiosa deixar-se
ficar voluntariamente na penumbra ou ñas trevas.
É assim que se entende que muitos e muitos individuos,
embora nao professem adesáo á Igreja, a esta pertengam e por
esta se salvem. Diz-se comumente que fazem parte nao do corpo,
mas da alma da Igreja — distincáo pouco feliz, pois corpo e alma
de um vívente sao inseparáveis um do outro ; fale-se, antes, de
pertinencia visível e invisível a. Igreja.

De quanto foi dito, seria totalmente falso deduzir que todas


as religióes sao boas... O homem foi feito para viver nao
sómente de boa fé, mas da v«rdadeira fe, pois a apreensáo da
verdade é a primeira das exigencias de sua natureza intelec
tiva (a luz necessária para se praticar o bem é a verdade). Ora
a verdadeira fé só pode ser urna: será a que Deus mesmo se
dignou revelar pelo monoteísmo judaico-cristáo, que continua
o monoteísmo primitivo da humanidade e se encontra na Igreja
Católica, ininterruptamente apregoado desde Cristo e os Apos
tólos. É normal, portante, que o homem procure viver de boa
fé dentro da verdadeira fé. A boa fé só supre a verdadeira fé,
caso as pesquisas em demanda desta nao sejam possiveis ao
homem, por bem intencionado que esteja. Consciente disto, a
Santa Igreja, tendo recebido de Cristo a ordem formal de
ensinar a todos os povos (cf. Mt 28,19s), nutre continuamente
o zélo de seus missionários.

Tais concepcóes foram ainda recentemente (8 de agosto


de 1949) afirmadas; pela S. Congregagáo do Santo Oficio. O en-
sejo disto foi o movimento excitado por duas entidades norte
americanas — o «St. Benedict Center» e o «Bostón College»
— em favor de urna interpretagáo mais estreita e rigorista do
axioma «Fora da Igreja, nao há salvacáo». Cf. «P. R.» 47/1961,
qu. 3.

— 20 —
A PARÁBOLA DOS OPERARIOS NA VINHA

DI. SAGRADA ESCRITURA

HOMEM DA VINHA (Rio de Janeiro) :

8) «Na parábola dos trabalhadores c das diversas horas


de trabalho (Mt 20,2-16), nao se vé por que é proclamada a jus-
tica do pagamento feito ; principalmente nao se entende por que
muitos sao chamados c poucos escolhidos».

1. As parábolas constituem um género literario que pede


ser interpretado segundo normas próprias. Dentre estas, inte-
ressa-nos particularmente a seguinte : deve-se considerar a his
toria parabólica como um conjunto que, como conjunto, signi
fica urna realidade superior (dogmática ou moral). Quanto
aos pormenores da pega, nem todos sao portadores de ensina-
mento religioso ; alguns ai figuram únicamente a fim de tornar
mais viva a narrativa. Sendo assim, para se fazer a exegese
de urna parábola do Evangelho, é preciso, antes do mais, ave
riguar qual a doutrina religiosa que Jesús quería ilustrar ao
narrá-la ; em fungáo desta é que se interpretaráo o conjunto
da historia narrada e os seus tragos particulares. Ora a mora-
lidade que o Senhor quería incutir mediante tal ou tal parábola,
ou ó enunciada pelo próprio Mestre (cf. Mt 13,18-23) ou se
deve depreender do contexto.

2. Dito isto, abordemos a seecáo de Mt que se refere aos


operarios angariados para a vinha.

O texto da parábola termina própriamente no v. 15 com


as palavras : «Será teu olhar malvado, porque eu sou bom ?»
Evidentemente, já nao pertence a pega literaria o v. 16 assim
concebido : «Por conseguinte, os últimos seráo os primeiros e
os primeiros os últimos, pois há muitos chamados e poucos
escolhidos». A historia que precede, nao dá ocasiáo a tais dize-
res, que aparecem imprevistamente, sem concatcnacáo nem pro
pósito no contexto. Com efeito, na narrativa parabólica nao é
o fato de serem os últimos operarios pagos antes dos primeiros
que tem importancia e provoca protestos, mas é o fato de re-
ceberem todos igual salario. Por isto a sentenca a respeito dos
últimos que se tornam os primeiros e vice-versa, parece ter
sido urna frase de Jesús que a tradigáo oral referia indepen-
dentemente de determinado contexto e que S. Mateus houve
por bem consignar duas vézes : em 19,30 e 20,16. Em Le 13,30
e Me 10,31 ela ocorre em contextos assaz diferentes. Sendo
assim, para se instituir a exegese da parábola dos operarios, será
licito (mesmo necessário) abstrair de tal sentenca do Mestre.

— 21 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958. qu. 8

Muito menos na interpretacáo da parábola se levará em


conta a frase anexa a anterior e concernente aos «muitos cha
mados e poucos escolhidos»; percebe-se sem dificuldade que estes
dizeres nao estáo no seu lugar lógico. Alguns códigos antigos
do Evangelho chegam a omití-los em Mt 20,16 e os referem
apenas urna vez, isto é, em Mt 22,14, onde tém realmente certo
nexo com a parábola do banquete anteriormente narrada. — A
propósito, deve-se notar que, segundo o modo semita de falar,
a sentenga significa : «Maior é o número de chamados, menor é
o número de escolhidos». Os semitas nao tinham forma grama
tical própria para indicar o grau comparativo; por isto enun-
ciavam a comparagáo justapondo simplesmente os dois termos
que éles queriam confrontar entre si (cf. casos análogos' em
Me 9,43. 45.47; Mt 5,29s; 18,6.8s; Le 17,2; 18,14). As palavras
de Jesús significam, pois, que maior é o número dos que sao
chamados á fé e ao batismo nesta vida, menor é o número dos
que possuiráo a vida eterna no céu (dentre os batizados haverá
ao menos um reprobo, simbolizado pelo homem que nao tinha
veste nupcial na parábola de Mt 22,1-14 e que por isto foi ex
cluido do banquete).

Após estas consideragóes, já estao dissipadas algumas difi-


culdades de interpretacáo da parábola dos operarios. Á última
frase «EU SOU BOM !» ó que se atribuirá importancia prepon
derante na exegese. Além disto, dever-se-á atender aos episo
dios que precedem a parábola: em Mt 19,16-26, por ocasiáo
da historia do jovem rico apegado aos scus haveres, Jesús in-
cutira a necessidade da renuncia absoluta para que alguém O
possa seguir; em resposta, Pedro, como que satisfeito consigo
mesmo, lembrara que ele e seus condiscípulos tudo haviam
abandonado; o Mestre propós entáo a recompensa máxima
tanto para Pedro como para os que lhe imitassem o exemplo
(19,27-29). Depois déstes epsiódios, os ouvintes de Jesús pode-
riam talvez crer que o Senhor viera a éste mundo pregar o puro
estoicismo, isto *é, a necessidade de esfórgo ascético baseado
táo sómente na energía natural do homem, abstragáo feita da
graga sobrenatural. Esta impressáo equivaleria a desvirtuar
totalmente a mensagem do Redentor. Foi justamente para cor-
rigí-la que Jesús se pos a contar a «desconcertante» parábola
dos operarios e do seu salario. Nesta dois tragos sao dominantes :

1) tudo que era de justiga foi cumprido pelo patráo


(pagou um dinheiro aqueles que, por contrato, tinham direito
a isto);

2) além da justiga e sem lesar a esta, manifestou-se a


bondade, dom gratuito ; aqueles com quem nao tinha feito

— 22 —
A PARÁBOLA DOS OPERARIOS NA VINHA

contrato nenhum, o patráo quis dar mais do que o que pró-


priamente lhes tocaría.

E — note-se bem — as partes da bondade gratuita foram


muito mais copiosas do que as da estrita justiga. Apenas com
urna turma, isto é, com os operarios da primeira hora, o patráo
usou de justiga estrita ; com quatro outras turmas usou dé pura
bondade.

É justamente éste predominio «escandaloso» da Bondade


(Misericordia) sobre a Justiga que a parábola quer acentuar,
inculcando que Deus trata de tal modo todo individuo humano
(o tratamento aplicado á^coletividade dos operarios na parábola
ó, na realidade cotidiana^ aplicado a cada individuo, cristáo ou
pagáo, em particular); a Bondade de Deus antecipa e ultrapassa
os direitos do homem; é ela quem a éste dá a capacidade de
merecer, e é ela quem recompensa as suas próprias obras no
homem. Em outros termos : os esforgos da alma virtuosa nao
sao algo de absoluto, como poderiam crer os discípulos, mas
sao suscitados e sustentados pela graga de Deus. Anteriormente
a esta, o homem nao tem título de justiga que ele possa fazer
valer perante Deus. Isto nao quer dizer que os fiéis se devam
desinteressar dos esforcos pela sua santificagáo. Jesús e Sao
Paulo inculcam repetidamente o dever que toca a todos, de
hitar enérgicamente pela sua salvagáo (cf. Le 13,23s; Mt 7,13s;
1 Cor 9,24-27; Flp 3,7-14). Exergam, portante, o máximo zélo
de que sao capazes. Saibam, porém, que seu esfórco nunca lhes
poderá ser motivo do vil gloria, pois é Deus quem lhes dá a
graga de se esforgarem ; e, a graga, Ele a dá a todos indistuv-
tamente, desejando que todos sejam salvos (cf. 1 Tim 2,4).
Portante, a frase final da parábola «Eu sou bom !» (ou
«Deus é bom ¡», pois o patráo representa a Deus, na narrativa)
é a palavra-chave da interpretagáo. As reclamagóes Sos ope
rarios ou (sem metáfora) das criangas que nao entendem os
procedimentos de Deus (sempre bom), se devem nao á pre
tensa injustiga de Deus, mas á mesquinhez do homem (o «olhar
malvado» do v. 15 significa «o modo de ver erróneo»); acontece
nao raro que, justamente quando Deus mais bondade exerce,
o homem menos compreende e mais tende a corrigir a Deus.
Costumam-se fazer da parábola algumas aplicacóes parti
culares. Estas scráo lícitas na medida em que se derivarem da
ligáo ácima exposta. Assim diz-se que Jesús se quis referir
á vocagáo dos judeus (operarios da primeira hora) e gentíos
(operarios posteriores) ao Reino de Deus. Esta aplicagáo tem
cabimento enquanto na vocagáo de Judeus e gentíos se mani-
festa a liberalidade de Deus para com uns (pagaos) sem derro-

— 23 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 9

gar á justica para com outros (judeus). — Quanto as horas


sucessivas em que os operarios sao chamados á vinha, nao se
poderia dizer que significam as idades do mundo, nem as ida-
des em que um individuo possa ser chamado á fé ; as diversas
horas sao mencionadas apenas para ilustrar quanto Deus ul-
trapassa os estritos direitos (ou méritos) do homem.

ADVENTISTA (S. Paulo) :

9) «Porque os católicos nao obedecem a Biblia guardando


o sábado ?»

A lei natural proscrow ao homem que, na qualidade de


criatura, reserve para o Criador unía parte de seu lempo.

A esta disposigáo natural sobreveio a lei positiva divina


no Antigo Testamento, determinando que o periodo dedicado
ao Senhor fósse o último dia de cada semana. De sete em sete
dias, portanto, os israelitas, seguindo alias um ritmo muito
natural, inculcado pelas fases da Lúa, se elevavam explícita e
demoradamente ao seu Autor. Além disto, o Senhor estipulou
as modalidades segundo as quais deveriam observar o sétimo
dia ( = sábado, da raíz hebraica shaba', que tanto significa
«repouso» como «sete») ; cf. Éx 20,8; 31,14; Lev 23,3; Dt 5,15.
Estas disposigóes positivas, por sua índole mesma, poderiam
ser mudadas, sem que por isso fósse ab-rogado o preceito na
tural de consagrar algum tempo ao culto do Senhor. Antes de
receber de Moisés no séc. XIII a lei do sábado, o povo de Israel,
desde as suas origens (séc. XVIII, época de Abraáo), prestava
culto ao verdadeiro Deus ; o preceito do sábado, portanto, com
as modalidades que a Lei de Moisés lhe atribuiu, nao é inerente
ao culto do único Deus.

Para mais inculcar ao povo a obrigagáo do repouso sema


nal, a Lei de Moisés, ao descrever a criacáo do mundo, apre-
sentava Deus como o Operario Qxcmplar que «trabalhou» du
rante seis dias e «repousou» no sétimo (cf. Gen 1). Tal apresen-
tagáo era, nao há düvida, meramente literaria, concebida para
dar fundamento autoritativo a urna lei (Deus mesmo teria sido
o primeiro a observar o sábado), nao para elucidar o modo
como Deus de fato criou o mundo. Contudo o sábado lembrava
aos judeus a ordem de coisas decorrente da criagáo e da Alianga
travada com o Senhor ao pé do monte Sinai. Cf. E. Betten-
court, Ciencia e Fé na historia dos primordios, cap. II.

Na plenitude dos tempos, veio o Redentor, Jesús Cristo.


Tinha por missáo renovar o mundo, a antiga ordem de coisas,

— 24 —
SÁBADO OU DOMINGO?

e completar a revelagáo de Deus iniciada nos tempos dos Pa


triarcas. Jesús mais de urna vez incutiu aos homens o sentido
espiritual da Lei de Moisés e, em particular, do repouso do
sábado ; mostrou-lhe que éste nao era algo de absoluto, mas
relativo, subordinado ao Filho do homem e á sua missáo na
térra. É, por exemplo, o que afirma Cristo em Me 2,27: «O
Filho do homem é Senhor mesmo do sábado»; é o que se
depreende igualmente de Jo 5,18: «Os judeus mais ainda o
queriam matar, porque nao sómente violava o sábado, mas
também chamava Deus seu próprio Pai, fazendo-se assim igual
a Deus». .
Por finí, após haver pregado a «-Boa Noticia», o Senhor
houvo por* bem dar o remate ü sua obra nao cm um sábado,
mas na madrugada do dia seguinte, dia que era o primeiro da
semana hebraica (a «primeira feira») e que nos chamamos
«domingo» ( = dominica dies, dia do Senhor). Assim o sábado,
que era dia de alegría e festa no Antigo Testamento, foi no
fim da vida terrestre de Jesús, dia de silencio para os discí
pulos, dia em que se viram desconcertados, justamente porque,
tendo morrido na sexta-feira, Cristo passou o sábado no se
pulcro, como que subjugado pela morte. A nova criatura, ou
seja, o Senhor ressuscitado, o segundo Adáo, só foi tirado do
seio da térra (do sepulcro) no domingo. Desde entáo era lógico
que éste simbolizasse a nova ordem de coisas, a criagáo res
taurada por Cristo ; no domingo, e nao no sábado, é que os cris-
táos exprimiam por excelencia a sua fé.
Os autores do Novo Testamento atestam a praxe daí
decorrente:
em At 20,7 lé-se que Sao Paulo em Tróade reuniu os
fiéis para a celebragáo da liturgia «no primeiro dia da semana»
(dia subseqüente ao sétimo dia hebraico) ;
em 1 Cor 16,2 o mesmo Apostólo supóe que as reunióes
de culto se fagam habitualmente «no primeiro dia da semana»;
em Apc 1,10 Sao Joño chama explícitamente é.ssc dia «o dia
do Senhor», tendo sido entáo agraciado por urna visáo ;
os evangelistas nao costumam mencionar o dia da semana
em que se deu tal ou tal acontecimento da vida de Cristo
(a nao ser que se trate de um litigio sobre o sábado) ; fize-
ram-no contudo quando referiram a ressurreigáo do Senhor,
dando assim ao dia respectivo um realce especial, realce que
até entáo só tocava ao sábado : «Após o sábado, quando o
primeiro dia da semana comegava a despontar, María Mada-
lena e a outra Maria foram ver o sepulcro» (Mt 28,1; cf. Me 16,2;
Le 24,1; Jo 20,1.19).

25
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 10

Sob a direQáo dos Apostólos, as geracóes cristas compreen-


deram que o «repouso do Senhor» no Novo Testamento ó o dia da
'consumagáo definitiva assinalada pela ressurreigáo de Cristo.
Verdade é que em urna ou outra regiáo os fiéis nos primeiros
tempos ainda tendiam a observar o sábado; o último documento
que nó-lo atesta, é o can. 29 do concilio de Laodicéia (Asia
Menor, pouco após 381 ?) : rejeitava categóricamente a praxe de
«judaizar» (como se exprime o próprio canon) aos sábados e
inculcava a guarda do dia do Senhor (domingo) ; desde entáo
a observancia mosaica parece ter caído totalmente em desuso.

Após estas consideragóes, vé-se que querer impor a obser


vancia do sábado aos cristáos é desconhecer a consumaQáo da
ordem de coisas antigás; é afirmar o tipo e as figuras, quando
já veio o antítipo, a realidade definitiva, messiánica. Lógica
mente quem o quisesse fazer, seria obrigado a observar toda a
Lei de Moisés (alimentos puros e impuros, sacrificios ri-
tuais, etc.) e recair no regime essendalmente provisorio do
Antigo Testamento (cf. Gal 5,1-4) ; lógicamente seria obri
gado mesmo a nao acender o fogo e vigiar para que os animáis
domésticos nao fizessem trabalho algum no sábado, pois estes
pormenores pertencem á lei do repouso mosaico (cf. Éx 20,11;
23,12; 34,21; 35,3) !

IV. MORAL

DONA DE CASA (Rio de Janeiro) :

10) «Parecc-me haver certa confusa» no que concerne


as obras proibidas nos domingos e días de preceito. Afinal será
licito ou nao bordar, cuidar do pomar, tratar de corresponden
cia comercial ?»

Sabemos que, após a réssurreicáo de Cristo, o povo de


Deus passou a santificar o domingo, dia da nova criagáo, ao
qual corresponde no Antigo Testamento o sábado, dia da an-
tiga criacáo. Tendo caído em desuso a guarda do sábado, ces-
saram também as observancias que a Lei de Moisés (pedagogo
provisorio; cf. Gal 3,24-26) a éste associava; conforme a Tora,
o trabalho no sábado era punido com a morte mesma (cf.
Éx 31,15), de sorte que os israelitas nem ousavam preparar seus
alimentos nesse dia.
Quais entáo foram os costumes pelos quais os cristáos come-
caram a santificar o domingo ?

É mister distinguirmos entre a participagáo no culto sa


grado e a cessacáo dos afazeres cotidianos.

— 26 —
AS OBRAS PROIBIDAS NO DOMINGO

1. O ato mais característico com que os apostólos mar-


caram o dia do Senhor foi a celebragáo da S. Eucaristía
(cf. At 20,7; 1 Cor 16,2). Esta, sendo a comemoragáo sacra
mental da Paixáo e da Ressurreigáo do Senhor, constituí o ato
por excelencia da vida crista, até hoje intima e impreterivel-
mente associado ao domingo.

Deve-se dizer, porém, que até o séc. IV nenhuma lei ecle


siástica prescrevia a freqüentagáo da S. Missa; esta se baseava
num costume generalizado entre os fiéis. A primeira determi-
nagáo neste terreno se deve ao concilio provincial de Elvira
(Espanha), em 305, o qual infligía a excomunháo a quem por
tres vézes consecutivas faltasse as reunióes dominicais na igreja.
Aos poucos a legislagáo se foi tornando mais pormenorizada :
o concilio de Agde (Franga) em 406 exigía a assisténcia a
Missa inteira; o de Roma em 610 inculcou o dever de assistir
á Missa mesmo aos pastores e agricultores. As leis civis déste
ou daquele povo nao raro corroboravam a determinagáo ecle
siástica : por exemplo, o rei S. Estéváo da Hungría em 1016
mandou raspar os cábelos e infligir urna pena corporal aqueles
que habitualmente faltassem á Missa. A legislagáo antiga foi
de novo considerada no Código de Direito Canónico, que, pro
mulgado em 1917, prescreve a todos os cristáos a assisténcia
a S. Missa dominical (can. 1247).

2. Quanto á cessagáo dos trabalhos no domingo, deve-se


distinguir entre a praxe dos seis primeiros scculos e a das épocas
subseqüentes.

a) Nos seis primeiros séculos deixava-se de trabalhar no


domingo pelo motivo primario de que o culto sagrado o exigía;
era preciso, sim, suspender, total ou parcialmente, os afazeres
cotidianos para se poder celebrar com solenidade a Eucaristía.
Além disto, motivos de piedade e veneragáo para com a Ressur-
reigáo do Senhor fomentavam nos cristáos o costume de nao
trabalhar no domingo após a celebragáo da Eucaristía. Con-
tudo ate o séc. IV nao havia lei da Igreja que prescrevesse
estritamente o repouso dominical; o concilio de Laodicéia, pos
terior ao ano de 381, nos dá um dos primeiros testemunhos
neste sentido : manda que, se possível, os fiéis se abstenham do
trabalho no domingo (a cláusula explícita «se possível» indica
urna legislagáo mais branda que a do Antigo Testamento).
Acontecía mesmo que as vézes se recomendava aos cristáos o
trabalho no domingo após haverem participado do culto sa
grado, a fim de nao ficarem sujeitos aos perigos que o ocio
pode acarretar. É o que se lé, por exemplo, na «Didascalia
Apostolorum», colegáo jurídica da segunda metade do séc. m,

— 27 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 10

que, após prescrever a freqüentagáo da Liturgia dominical,


acrescenta :

«Vos todos, liéis, sempre e em qualquer época, cada vez que nao
estiverdes na igreja, sede assiduos ao trabalho, durante toda a vossa
vida... Sede atentos ao que é do vosso encargo, íazei vosso trabalho
e jamáis estejais ociosos... Trabalhai sempre, pois a preguica é vicio
que nao tem cura».

O autor da «Didascalia», portánto, nao conhecia outro


repouso no domingo se nao o que fósse motivado pela celebra-
gáo do culto.
Nos círculos de mbnges, que, sem dúvida, procuravam a
perfeiqáo, aparece o mesmo conceito largo de repouso domi
nical. É o que S. Jerónimo atesta, referindo-se a virgens e
matronas que, sob a sua direcáo, praticavam a ascese em Belém
da Palestina no séc. IV :

«Sómente no domingo iam á igreja, ao lado da qual habitavam...;


ao voltarem, todas juntas aplicavam-se ao trabalho rigoroso, e confec-
cionavam vestes para si ou para outrem» (epist. 108, 20).

A Regra de Sao Bento (+547), por sua vez, permite o


trabalho no domingo, desde que o ocio venha a ser nocivo para
o monge :

«No domingo todos se apliquem á leitura, excetuados aqueles


que tenham sido designados para os diversos encargos. Se, porém,
alguém fór táo negligente ou preguicoso que nao possa ou nao queira
meditar ou ler, dé-sclhe um trabalho, a íim de que nao fique ocioso»
(cap. 48).

Do seu lado, o Imperador Constantino (306-337), désejando


favorecer a vida crista, promulgou o seguinte edito :

«Todos, juizes, povo da cidade e artífices de todas as profissoes,


repousem no domingo. Contudo os agricultores poderáo continuar
o seu trabalho, pois acontece freqüentemente que nao há outro dia
em que se possa semear em boas condicóes. Nao venham a perecer
por urna questáo de dia os frutos que a Providencia celestial nos con
cede» (Cod. Justin. XIII 12,2).

Em suma, dir-se-á que nos seis primeiros séculos o do


mingo era primariamente considerado como o dia da S. Euca
ristía. Isto implicava naturalmente urna cessacáo do trabalho
habitual ao menos durante algumas horas do dia. A deyocáo de
muitos fiéis levava-os a dedicar as outras horas a práticas de
piedade, o que por vézes fazia do domingo um dia em que nao se
trabalhava. Havia, porém, nao poucos casos em que a devogáo
mesma ou a rudez de espirito induziam ao trabalho manual.

— 28 —
AS OBRAS PROIBIDAS NO DOMINGO

b) Do séc. VI em diante, a legislagáo eclesiástica se


tomou mais rigorosa no assunto, baseando-se na distingáo entre
obras servís e obras liberáis. Para se entender a evolucáo, te-
nha-se em vista o seguinte quadro histórico :
As invasóes bárbaras na Europa acarretaram inseguranea
social e económica para as populacSes dos territorios ocupados.
Derrabado o Imperio Romano Ocidental (476), fazia-se sentir
a falta de urna autoridade que garantisse os direitos dos cida-
dáos. Sómente os grandes proprietários se podiam defender da
vassalagem e do dominio alheio; os pequeños possuidores passa-
ram entáo a confiar aos senhores mais poderosos scus bens e
sua própria vida, em troca de protegáo na inseguranea gcral.
Teve assim inicio o regime senhorial e feudal da Idade Media :
a maioria da populagáo européia foi reduzida á condigáo servil,
tornando-se os homens vassalos ou servos da gleba.
Ora, sob o regime feudal, a maioria dos cristáos dedica-
va-se a trabalho bragal, nos campos ou ñas oficinas, sem ser
remunerada por salario. Por conseguinte, éste trabalho bragal,
«servil» (dos servos da gleba), é que passou a constituir o
eventual empecilho para que participassem do culto divino aos
domingos. Donde se entende que concilios regionais e as leis
dos reis cristáos, merovíngios e carolíngios, se tenham posto a
condenar tal trabalho bragal no dia do Senhor. A obra assim
proibida nao podia ser definida pela circunstancia de ser assa-
lariada (pois nao o era), nem pela intengáo, lucrativa ou mera
mente recreativa, de quem a executava (pois era trabalho náo-
-livre, servil), mas só podia ser designada pela sua natureza
intrínseca, isto é, pelo fato de ser o trabalho corporal ou me
cánico que os servos da gleba executavam.
O espirito, porém, que animava as novas disposigóes, era
o mesmo que outrora : nao se condenava o trabalho bragal no
domingo porque em si fósse mau, mas únicamente porque urna
circunstancia contingente, o regime social da época, o tornava
empecilho eventual para a freqüentagáo do culto divino. De-
ve-se mesmo dizer: se os servos da gleba fóssem profissionais
nao da agricultura, mas de urna carreira liberal (medicina,
pedagogía), nao há dúvida de que também a medicina, a pe
dagogía (hoje consideradas lícitas no domingo) teriam sido
proibidas no dia do Senhor, porque, á semelhanga do trabalho
manual, impediriam o culto divino.
Destarte é que se formou o conceito, aínda vigente, de
«obras servis proibidas no domingo». Sobre ésse fundo de his
toria, hoje em dia se costuma dizer: no domingo sao vedadas
as obras servis (trabalhos executados principalmente por ativi-

— 29 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 10

dade do corpo : lavrar, semear, ceifar, construir, costurar...)


e permitidos os afazeres liberáis (executados principalmente
pelas faculdades do espirito : ler, escrever, desenhar, cantar,
tocar órgáo, dar aula, etc.).
Tal distingáo, porém, nao leva em conta a intencáo de
quem age : deseja ganhar dinheiro ou visa únicamente re-
crear-se? É, portante, distingáo demasiado artificial, que nao
corresponde ao espirito da lei do repouso dominical; esta foi
concebida para libertar o homem da absorcáo que o ganha-páo
cotidiano acarreta. Ora, se no domingo se permite um traba-
Iho que vise o lucro (dar aula, por exemplo), atendendo-se táo
somonte ao fato do nao ser trabalho brucal, nao se atinge a
finalidade da lei (permite-se que o homem seja «scrvilizado»);
e, se se proibe determinado afazer recreativo pelo simples fato
de exigir atividade do corpo, de certo impede-se o descanso
mental do individuo e a elevagáo do seu espirito a Deus (nao
se permite que o homem seja libertado).
Por isto os moralistas contemporáneos tendem mais e
mais a se agrupar em torno da seguinte doutrina : o Direito
Canónico prescreve, sim, a abstencáo de obras servis no do
mingo (can. 1248); nao indica, porém, o que torna tal obra
«servil». Ao estipular éste criterio, atenda, portante, o mora
lista nao tanto a participacáo do corpo e á do espirito que o
trabalho exija, mas, primariamente, á intencáo de quem age.
Sobre esta base podem-se estabelecer as seguintes normas para
a observancia do domingo :
a) sao certamente ilícitos os pesados trabalhos agrico-
las e mecánicos. A tradigáo da Igreja sempre se lhes opós por
que inevitávelmente materializam o homem. Também" ilícitos,
por prescricáo explícita do can. 1639, sao os atos judiciários
(as sessóes de tribunais, o pronunciamento de sentengas, etc.);
b) sao cei^amente lícitos os trabalhos que pertencem ao
ritmo normal da sociedade : a necessária limpeza doméstica,
a cozinha, o tráfego, a venda de certos comestíveis, etc.;
c) podem-se tranquilamente considerar como lícitos certos
trabalhos bragais nao pesados (por exemplo, coser, tratar de
aves, cuidar de plantas), realizados sem intengáo lucrativa, mas
únicamente a título de caridade ou recreio, ou seja, para se fa-
zer coisa diferente do que se faz durante a semana. Para quem
trabalha seis dias num escritorio ou numa fábrica, tais obras
sao o meio adequado para distender os ñervos e proporcionar
ao cristáo a libertacáo da mente visada pelo dia do Senhor;
d) quanto aos trabalhos preponderantemente intelectuais
(tratar de contabilidade, escrever correspondencia comer-

— 30 —
A ARTE E O PUDOR

cial...) executados com fim lucrativo, a rigor nao poderiam


ser tachados de ilícitos no domingo, já que o trabalho lícito e
o ilícito foram, durante sáculos, classificados únicamente de
acordó com a qualidade da obra, sem se ponderar a intengáo
do agente. Todavía justamente neste ponto é preciso que se
excite a consciéncia dos fiéis, a fim de que, guardando a letra,
nao violem o espirito da lei do domingo ; é preciso que neste
dia os cristáos criem para si um ambiente e um horario dife
rentes daqueles que as jornadas de semana oferecem !

AMIGO DA ARTE (Rio de Janeiro) :

11) «Que pensar do chamado nu artístico ? Que é o


pudor ?»

A questáo está relacionada com o aprégo que, da parte do


homem, merece o corpo humano.

1. Em primeiro lugar, portanto, pergunta-se : como ava-


liar a éste ?
A concepgáo auténticamente crista do mundo é otimista
no tocante ao corpo. Longe de coincidir com o esplritualismo
exagerado (que despreza a materia) e com o materialismo (que
a destituí de todo significado transcendente), o Cristianismo
ensina que a materia é criatura de Deus, vestigio da sabedoria
de seu Autor. Mais ainda : o espirito do homem é de tal
natureza que só atinge a sua perfeicáo mediante a materia; é
considerando os dados colhidos pelos sentidos que a inteligencia
adquire suas nogóes e se eleva as realidades supremas ou até
Deus.
Contudo o Cristianismo sabe outrossim que a materia foi
violentada pelo primeiro homem, Adáo, que inverteu a hierar-
quia dos valores 3 serviu-se do mundo visível e do seu corpo
(nao se poderia afirmar em nome da Biblia que Adáo tenha
pecado por haver comido urna fruta) em oposigáo ao Supremo
Bem, que é Deus ; desde entáo o corpo humano e os elementos
materiais que o cercam, acarretam perigo para o espirito ou a
alma do homem : em vez de o elevar a Deus, muitas vézes o
excitam contra o Criador, induzindo-o ao abuso ou ao pecado.
Por isto é que a Moral impóe restrigóes ao gozo dos sentidos
e dos valores materiais em geral. Entre outras coisas, exige
o uso de vestes para o corpo ; estas tém o papel de diminuir
a excitacáo dos sentidos e preservar o individuo de desmandos.
2. É á luz déstes principios que se deve julgar o nu ar
tístico.

— 31 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 11

Justifica-se a representacáo iconográfica ou plástica do


corpo humano como tal ou desnudo, caso se torne educativa
para o espirito, elevando-o a Deus ; o corpo pode, sim, elevar
ao Senhor, pois é artefato do Supremo Artista. Contudo note-se
bem que a confeccáo e a contemplagáo de urna obra de arte
nao sao valores absolutos : estáo subordinados a Deus e á adesáo
do espirito humano a Éste.

Disto se segué importante conclusáo : a Moral, que visa


aperfeicoar o homem em relacáo ao seu Último Fim ou de
• mane-ira total, paira ácima da Arte, que visa a perfeicáo do
homem em relacáo a um fim subordinado ou inferior (o esteta
ou artista perfeito nao é ainda homem perfeito enquanto ho
mem ; pode ser um indigno no plano da consciéncia ou no plano
humano própriamente dito). O artista que cultivasse as formas
estéticas independentemente de Deus ou contra Deus, faria da
arte o seu Deus, estaría produzindo ídolos...

Sao estas idéias que levam a Moral crista a condenar cer


tas liberdades na representagáo do Belo artístico. Tenham-se
em vista os dizeres de Sao Tomaz na Suma Teológica TL/TL 169,
2 ad 4, assim como o seguinte testemunho de Beaudelaire (que
foi, sem dúvida, um grande amigo das belas formas) :

«O gósto ¡moderado da forma leva a desordens monstruosas e


inauditas. Ahsorvidas pela paixño feroz do belo, do ensacado, do
intoressante, do pitoresco... «s nnn'ips do jtislica o vorclndo so esvnno-
cem. A paixüo frenética da arte 6 um cancro que devora tudo. E, ja
que a carencia de justiga na arte equivale á carencia de arte, o homem
inteiro se esvanece; a especializacao excessiva de urna íaculdade leva
ao aniquilamento» (L'art romantique).

Dir-se-á, pois, que o Cristianismo nao se opóe em princi


pio 'á representacáo do corpo humano desnudado; sabe, porém,
que tal objeto é,*mais do que qualquer outro, sedutor em mau
sentido; a contemplacáo demorada e deleitosa do corpo e de
suas imagens pode fácilmente excitar a concupiscencia e levar
a um ato contrajo <á lei da natureza, que é a Lei de Deus.
Por conseguinte, para que algum pintor ou escultor possa
licitamente executar o nu, deve possur sólida estrutura moral
e clara intuicáo dos valores que estáo em jógo, de sorte a
poder confeccionar um artefato que realmente eduque o espi
rito, fazendo indiretamente ver e amar a Deus. Isto nao é im-
possível •; a experiencia, porém, cnsina que, quando os estetas
entram na representacáo do nu artístico, por vézes caem no
aviltamento, na exploragáo, aberta ou dissimulada, das ten
dencias inferiores da carne. Mesmo quando executam urna obra

— 32 —
A «NOITE DE SAO BARTOLOMEU»

apta a construir e elevar, acontece nao raro que ésse objeto


exposto ao público vai provocar desordem nos espectadores.
Será sempre mister, portante, que o artista bem intencionado
zele para que seus artefatos nao sejam entregues a um público
incapacitado de os interpretar devidamente (adultos mal for
mados ou adolescentes).
Representar o nu artístico vivo e em movimento, como
acontece em bailados, é obra muito mais excitante e perigosa
do que a representagáo inanimada. Para que tais exibigóes sejam
isentas de culpa moral, requer-se mais rigorosamente ainda a
pureza de intengáo ou o desejo sincero de cultivar o Belo educa
tivo no sentido crisláo.
Servir de modelo para a confecgáo de um quadro de nu
artístico pode ser licito dentro das normas ácima. Use-se entáo
de toda a prudencia para que nao haja desvirtuamento de
intengáo nem abuso das circunstancias. Quanto as representa-
góes artísticas de criangas despidas, podem ser julgadas com
largueza, visto que tais cenas pouco (ou de modo nenhum)
excitam ao mal.
Como se vé, mesmo em se tratando de arte, impóe-se o
pudor, isto é, o recato necessário no uso do corpo humano, a
fim de que a concupiscencia desregrada nao seja indevidamente
excitada e nao se viole a hierarquia dos valores, em cujo ápice
está Deus.

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

MIRO (Rio de Janeiro) :

12) «Qual o papel dos católicos na famosa noite de Sao


Bartolomeu (24 de agosto de 1572) ?»

Para se entender o episodio, torna-se oportuno reconsti


tuir brevemente a situagáo religiosa da Franga em meados do
séc. XVI.
1. A Franga, país católico desde Clóvis (496), era após
a irrupgáo do luteranismo (1517) um objetivo muito visado
pela revolugáo religiosa ; dentre os cem milhóes de habitantes
da Europa, contava vinte milhóes, que viviam em prosperidade
industrial e comercial, justificando o adagio medieval: «A
Franga é o fórno onde se coze o pao do Ocidente».
As idéias dissolutórias do humanismo paganizante e do
protestantismo encontraram acolhimento ambiguo entre os
franceses, cujo govérno e cujo povo estavam profundamente
arraigados na fé católica. Contudo o calvinismo, instigado

— 33 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 12

por um francés (Joáo Calvino) estabelecido em Genebra


(Suíga), ia penetrando no reino ; recrutava seus melhoreS par
tidarios entre os nobres da corte, sofrendo, porém, represalias
por parte do govérno.
Em meados do séc. XVI, a aristocracia, em vista das ten
dencias centralizadoras de Francisco I (1515-1547) e Henri-
que II (1547-1559), se julgava vítima do poder regio, que aínda
era o representante da causa católica; queixumes também se
difundiam motivados pela inflagáo monetaria, de sorte que
muitos entreviam na introdugáo da reforma protestante em
Franca a ocasiáo de se emancipar da autoridade regia e resolver
a crise financeira mediante a secularizagáo dos bens da Igreja.
Foram-se assim formando duas faegóes assaz fortes entre
os nobres : a calvinista ou huguenote (nome provávelmente
derivado de «Eidgenosse», companheiro de juramento), che-
fiada pelos irmáos Chatillon ou Montmorency (dentre os quais
sobressaia o almirante Gaspar de Coligny) e pelos Bourbon
(dos quais Luís de Conde era o principal vulto) ; a católica,
encabegada pelos irmáos Francisco e Carlos de Guise. Note-se
bem que um e oütro déstes partidos, embora professassem a
defesa de idéias religiosas, estavam profundamente imbuidos
de ambigóes políticas, aspirando ambos a tomar a orientagáo
suprema do reino.
2. Em 1560 subiu ao trono o rei Carlos IX, com nove
anos de idade, ficando sob a regencia da rainha-máe Catarina
de Mediéis. Esta, oriunda de familia florentina católica, só tinha
um ideal: dominar na política, impor-se a todos por sua energía
e autoridade ; nao gostava, por conseguinte, de «fanatismo
religioso». Sendo assim, em sua regencia nao se empenhou nem
por católicos nem por calvinistas, procurando, ao contrario,
fazer política de neutralizagáo ; favorecía ora a estes, ora
aqueles, a fim de que nenhum dos dois partidos tomasse a
supremacía e a^ rainha mais fácilmente dominasse. Sabe-se
outrossim que era extraordinariamente perspicaz e hábil, che-
gando a servir-se de um grupo de donzelas para seduzir os
nobres que ela quería atrair ao seu partido.
Sob os governos de Catarina e de Carlos IX (1560-1574),
foi ganhando prestigio o almirante Gaspar de Coligny, homem
de bém, mas calvinista ardoroso. Em 1571, o rei Carlos IX
(declarado maior em 1563, mas dominado por Catarina até
1570), chamou-o ao seu conselho ; imaturo e influenciável como
era, o monarca dava a Coligny o título de «Pai».
Desde 1562, as duas faegóes — calvinista e católica — esta
vam em guerrilhas (o que bem se entende, pois fins políticos

— 34 —
A «NOITE DE SAO BARTOLOMEU»

moviam os partidarios). Em 1570 os beligerantes assinavam a


Paz de Sao Germano, favorável aos huguenotes. O acordó devia
ser selado pelo casamento da filha de Catarina — Margarida
de Valois — com Henrique de Navarra, chefe do partido cal
vinista. O matrimonio, porém, dependía de uma dispensa papal,
que S. Pió V nao quería dar. Nao obstante, em abril de 1572
os interessados se decidiram ao casamento. O partido calvinista
e a figura de Coligny pareciam triunfar i
Catarina, porém, inquietava-se com a situagáo; nao podía
permitir que Coligny tivesse mais ascendencia sobre Carlos IX
do que ela...

Finalmente as nupcias planejadas realizaram-se aos 18 de


agosto de 1572, com a afluencia de milhares de calvinistas e
católicos a París, os quais, juntamente com o rei, se entrega-
ram a festejos ruidosos, prazeres fúteis, enquanto a rainha-
-máe se fechava em si, revestida de seus trajos de viúva enlu
tada, com seu colarinho branco a por em realce uma fisionomía
severa, sem beleza, lívida como a cera. E refletia...
A ocasiáo era propicia para se desferir um golpe forte
contra os huguenotes. Catarina soube entrar em acordó com
Henrique, filho de Francisco de Guise, nobre jovem de 22 anos
de idade e audacioso, que desejava fazer carreira, movendo a
política contra os calvinistas. Devidamente apoiada, a rainha-
-máe aos 22 de agosto de 1572 mandou cometer em plena rúa
um atentado armado contra Coligny. O almirante, porém, es-
capou com vida, sabendo donde provinha a ordena de assassí-
nio. Como se depreende, a situagáo se tornou muito tensa; os
huguenotes ameagaram revoltar-se contra o rei, caso éste nao
lhes fizesse justiga. Catarina, por conseguinte, tinha a temer
nao sonriente por seu prestigio político, mas por sua própria
vida ; humanamente falando, só se salvaría recorrendo a outro
crime, ou seja, eliminando definitivamente Coligny e seus par
tidarios entáo residentes em Paris. Foi o que ela empreendeu.
No dia 23 de agosto a noitinha, passou duas horas em coloquio
com o rei Carlos IX, seu filho, que contava apenas 22 anos de
idade; usando ora de ternura, ora de acento imperioso, tentava
persuadi-lo de que sua coroa estava em perigo ; por fim, o mo
narca, vencido pelas instancias da rainha-máe e de ministros,
autorizou um golpe contra os huguenotes.
Francisco de Guise assufniu a direc.áo da manobra ou cha
cina, que teve inicio sem demora, ñas primeiras horas de 24
de agosto, festa de Sao Bartolomeu. Coligny foi logo assassi-
nado em sua residencia ; despertado imprevistamente e atónito,
o povo parisiense, meio-inconsciente do que se dava, associou-se

— 35 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 12

ao morticinio dos huguenotes ; muitos julgavam que se tratava


de reprimir urna revolugáo...

Na tarde de 24 de agosto, o rei quis mandar suspender a


carnificina, que continuava ; mas em váo ; estendera-se pelas
provincias da Franca, sendo que em algumas destas os magis
trados católicos e os bispos conseguiram deter a onda de furor,
impedindo o morticinio. Na verdade éste só cessou aos 27 de
agosto.

Teniendo entáo represalias por parte dos governos estran-


geiros, Catarina dirigiu a estes urna carta circular em que
aprcscntava a carnificina como medida tomada «nao por odio
aos huguenotes, mas para remover urna conspiragáo de alta
traigáo do almirante e de seus cúmplices». Igualmente ambi
guos foram os relatos transmitidos ao Papa Gregorio xm:
entre outras, urna carta de Luís de Bourbon, duque de Montpen-
sier, ao Pontífice, datada de 26 de agosto (e ainda hoje conser
vada), informava que o almirante Coligny quisera exterminar
o rei Carlos IX, Catarina e os grandes senhores católicos, a fim
de fazer subir ao trono de Franga um príncipe que impusesse o
calvinismo a toda a nagáo; mas, acrescentava, a conspiragáo
fóra descoberta em boa hora, e a intengáo do rei era a de res
taurar a religiáo católica em seu prestigio tradicional.

Estas comunicagóes ocultavam ao Santo Padre o verda-


deiro significado dos acontecimentos ; Gregorio XIII julgou sim-
plesmente que a Francja acabara de se libertar do perigo cal
vinista e que doravante se agregaría francamente as nagóes
católicas da Europa. Por isto mandou cantar um «Te Deum»
na igreja de Santa María Maior em Roma, e fez cunhar u'a
medalha comemorativa do comunicado oficial dado pelo Parla
mento ao povo : conspiragáo calvinista debelada ; por isto civis
e eclesiásticos, a pedido da corte, se reuniram em solene ceri-
mónia de agáo de gragas aos 28 de agosto. — De resto, cronistas
antigos referem como o regozijo de Gregorio XIII foi mes-
ciado de amargura : um gentil-homem que privava com o Pon
tífice, narra que o Papa derramou lágrimas ao receber a noticia
do morticinio ; interrogado entáo por um Cardeal sobre o mo
tivo por que tanto se afligia em vista da derrota dos inimigos
do Senhor, respondeu: «Lamento a agáo do rei, ilícita e proi-
bida por Deus» (cf. Brantóme, 1614, Mémoires III, Leyde
1722, 171). O episodio é confirmado por um relato do embai-
xádor da Espanha, Zuñiga, que aos 22 de setembro de 1572
dizia ter sido o Papa acometido de espanto («se espantava») ao
tomar conhecimento das ocorréncias da noite de Sao Barto-
lomeu (cf. Kervyn de Lettenhove, Relations ni 14, n. 4).

— 36 —
A «NOITE DE SAO BARTOLOMEU»

3. Na base distes dados, procuremos agora formular um


juízo sobre a atitude dos católicos no morticinio de S. Barto-
lomeu.

Os dois seguintes pontos parecem esclarecer suficientemente


a questáo:

a) a carnificina nao foi, como se divulgou na literatura


c no teatro (cf. as pecas «Charles IX» de Chénier, «Huguenots»
de Scribe), o produto de um movimento anticalvinista oficial
mente dirigido pelo Papa e as potencias católicas. Nao ; Cata
rina de Mediéis, órgáo de acáo no caso, nao era pessoa de com-
promissos e tálicas premeditadas ; nunca seguiu um plano de
atuagáo determinado, pois quería apenas dominar, obedecendo,
antes do mais, as normas do oportunismo e do maquiavelismo ;
no momento em que ela o julgou conveniente, mandou matar
seus adversarios. A Santa Sé nao foi consultada no empreen-
dimento ; nem se compreende que o fósse, pois as relacóes entre
a corte de Franca e Roma eram pouco amistosas, dada a ques
táo do matrimonio de Margarida de Valois, princesa católica,
com Henrique de Navarra, chefe calvinista, matrimonio que
os Papas S. Pió V (1566-1572) e Gregorio XIII (1572-1585),
nao queriam autorizar. — O Soberano Pontífice só tomou
conhecimento dos fatos — e conhecimento deturpado por falsa
versáo — quando já estavam consumados, ou seja, aos 2 e 5
de setembro, por meio de cartas oficiosas e oficiáis provenientes
da Franca ; foi por nao estar suficientemente inteirado do que
se dera, que Gregorio XIII mandou proceder a manifestacóes
de júbilo, julgando tratar-se da extirpagáo do perigo de heresia
na Franca, perigo que se tornara famoso após os estragos e
tormentos que acarretara para os católicos da Holanda (cf. o
caso dos mártires de Gorkum, Akmaar, Ruremonde, ocorrido
no mesmo ano de 1572).

Quanto á atitude pessoal de Catarina de Mediéis, deve-se


dizer que nao foi inspirada por amor ao catolicismo, mas por
interésses pessoais. A rainha-máe era táo pouco zelosa da con-
servagáo da fé católica que escrevera ao Papa Pió IV (1559-
-1565) urna carta em que lhe propunha reduzir a religiáo a al-
guns preceitos rudimentares, isto é, ao Decálogo, «a fim de per
mitir a uniáo de todos os cristáos»! Sua tática entre huguenotes
e católicos era a de compensar as Vitorias de uns mediante as dos
outros. Também a familia de Guise, associada a Catarina, sra
primariamente movida por ambicóes políticas, que se dissimu-
lavam talvez sob a aparéncia de zélo religioso. Muito significa
tivos, alias, sao os fatos seguintes ; urna das primeiras medidas
de Carlos IX após a noite de Sao Bartolomeu foi a de asse-

— 37 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 1/1958, qu. 12

gurar, por inspiragáo da própria Catarina, a protegáo da Franga


á metrópole calvinista, Genebra, que se julgava ameagada pela
Savoia e a Espanha. Uma vez desferido o golpe, a rainha-máe
procurou manter suas antigás relagóes de amizade com Elisa-
bete da Inglaterra e os príncipes luteranos da Alemanha. Estas
atitudes bem mostram que o govérno de Franga nao era «fa
nático» pelo catolicismo nem agia própriamente por inspiragáo
religiosa, mas, sim, por razóes de ordem política.

Consciente disso, o estudioso sincero nao associa o triste


episodio da noite de Sao Bartolomeu com a autoridade da Igreja
ou com o amor dos católicos á sua santa rcligiáo. Esta no
caso só foi evocada a título abusivo, ou seja, para fornecer
aparente justificativa a política pouco louvável de um govérno
maquiavélico.

D. Estévao Bettencourt O.S.B.

— 38 —
Pergunte e Responderemos
Caro amigo, nSo há quem se ponha a pensar e nao conceba
sem demora Importantes problemas («Aflnal que faco neste
mundo? Qual o sentido da vida presente? Que se lhe seguirá?»).
Nao sufonuo ncm despreze easas questoes. Sem luz sobre tal»
assuntos nlnguém se pode sentir plenamente tranquilo e feliz.

Para o ajudar na procura das solucSes que lhe interessam,


V. S. tcm ft Hiia dlspimlciio urna Cnlxa Fcrntul o um fascículo
mmisiil «lo 40 paRina» puhllaulcí h»I> <ih cuidado» <ln I>. li*tftviki>
ltnlt«tnr.iMirl O. S. H. Todera propnr qiiOHtfteH filosófica», moral* c
as ao seguinte cndcrCvo :

E RESPONDEREMOS»

Calxa Fontal 2GS6

Rio do Janeiro

A respoata sera enviada B'atultamonte a V. S. em fascículo


Impresso. Quelra, pols, indicar enderfico e pseudónimo.
A colecüo dos fascículos aPer^unte e Responderemos» podc-
-se obter também por assinatura (a «irle so inlclou cm marco
de 1957). Proco da assinatura anual: CrS 300,00. Número avulso:
Cr$ 30,00. Pedidos a Rúa Iteal Grandeza, 108, Botafoeo — Rio
de Janeiro (tcl. : 26-1822).

N. It. : Tuda que «o reToro si UKDACAO dovo sor enviudo u


I>. KstAvilo Bettcncourt O. S.B. (ou «Percunte o Responderemos»),
Calxa postal 2666, Rio de Janeiro. O que diz respelto & ADMJ-
NISTRACAO seja dirigido a Rúa Real Grandeza, 108, Rotuloso,
Rio de Janeiro.

DEPÓSITOS:

RIO DE JANEIRO :

Instituto Pió X do Rio do Janeiro — R. Real Grandeza, 108 —


Botafogo;
Llvraria iLnmen Chrlsti» — Calxa Postal 2666;
IJvrarla aVozes Ltda» — R. Senador Dantas, 118-A;
Llvrari» Missionárta — R. 7 de Setembro, 65-A.

SAO PATTLO (Capital) :

EdicSes Paulinas — Praga da Sé, 184 - 1» andar.

MINAS GERAIS:

Llvraria Editora «Lar Católico» — C. Postal 73 — Juiz do Fora.


«PEEGUNTE E RESPONDEREMOS»

REDAC&O ADMKSTISTBACAO
Calxa Postal 2G66 R. Kcal Grandeza, 108 — Botafogo
Río de Janeiro Tel. 26-1822 —Rio de Janeiro

Numero avulso : CR$ 30,00


Assinatura anual: CR$ 300,00 (a partir de 1959)