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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
FEVERBRO

1960

ERGUNTE

Responderemos

ANO ///
ÍNDICE

I. CIENCIA E RELIGIAO

1) "Seria possível averiguar exatamente qual o pensamento


de Einstein a respeito de Deus ?
Einxtein teve fe mi nao ?" -47

II. DOGMÁTICA

2) "Como será possível a ressurreicdo geral dos corpos hu


manos professada pelos católicos, visto que os cadáveres se esface-
lam em partículas múltiplas, as quais entram na composigáo de
outros seres ?" °J
3) "Em última análise, nao se pode dizer que reencarnacSo
e ressurreigáo sao o mesma coisa ?" 57

III. SAGRADA ESCRITUBA

i) "A fé ensina que realmente o mundo foi criado em seis


días de 2.4 horas, como se costuma afirmar em nome da Escritura
Sagrada ?
E como seria possível que já houvesse luz, dia e noite antes
da criacüo do sol, da lúa e das éntrelas, como insinúa a mesma
Escritura ?" c>í
5) "Dado que se ndmitam funlen na redagüo do Génesis e dos
livros bíblicos em geral, como se pode aínda asseverar que tais li-
vros sao inspirados por Deus ?" 70

IV. MORAL

6) "Até que ponto será lícito ao médico pesquisador utilizar,


para suas experiencias, os corpos de pessoas vivas ?
Que pensar no caso particular dos condenados ¿i marte ?
Nao toca as autoridades civis o direito de sacrificar a xaúde
ou a existencia de certos siíditos em prol da ciencia e do bem
comum da humanidade ?" ~í
7) "A Igreja é Ulo alheia ao progresso da ciencia que na
Idade Media o Papa Bonifacio VIII parece ter proibido até viesmo
experiencias em cadáveres !" 71

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

8) "Qual a origem e qual o significado da devocáo a Via


Sacra do Senhor ?" *c

COM APROYACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano III — N' 26— Fevereiro de 1960

I. CIENCIA E RELIGIAO

ESTUDIOSO (Rio de Janeiro) :

1) «Seria possível averiguar exatamente qual o pensa-


mento de Einstein a respeito de Deus ?
Einstein teve fé ou nao ?»

A questáo é Interessante, pois, sendo o físico e matemático Alberto


Einstein considerado como um dos genios dos últimos tempos, a sua
posicáo perante o problema de Deus nao deixa de ter significado.
Verdade é que, para aderir a Deus, nao basta ao homem possuir
urna inteligencia; muitas vézes o julgamento desta se desvia da verdade
por causa de diíiculdades de ordem moral ou por causa das conse-
qüéncias práticas que a aflrmacáo da verdade acarretaria consigo.
Como quer que seja, será sempre útil o conhecimento das afirmagOes
de homens inteligentes.
Proporemos abaixo, portanto, um esbógo biográfico de Einstein,
ao qual se seguirá breve análise do pensamento filosófico-religioso
desse cientista.

1. Esbógo biográfico

Alberto Einstoin nasceu de país israelitas na cidade de


Ulm (Alemanha) aos 14 de margo de 1879. Passou a juven-
tude em Munique, onde seu pai trabalhava em eletrotécnica.
Em 1896 matriculou-se na Escola Politécnica de Zurich (Suíga),
doutorando-se em 1905.

Os inicios dos estudas de Einstein em Zurich nao foram alvis-


sareiros. pois o iovem candidato se viu reprovado no exame de
admissáo á Escola Técnica Superior da cidade. O pequeño revés
se devia ao fato de que. embora muito preparado em Física e Matemá
tica. Einstein nao possuia bom as línguas modernas nem tampouco
a Botánica e a Zoología.

A partir de 1901 o sabio já publicava artigos sobre eletro-


-dinámica em revistas alemas, o que Ihe granjeou fama cres-
cente. Em 1905 editou pequeño opúsculo sobre a «eletrodinS-
mica dos corpos em movimento», opúsculo que continha em
germen a teoría da relatividade.
Em 1909 tornou-se catedrático de Física na Universidade
de Zurich, ficando em exercício até 1913. Tendo-se aumentado
o prestigio de Einstein, o Imperador Guilherme II da Alemanha

— 47 —
nessa data convidou-o para a cátedra de Física na Academia
de Ciencias da Prússia ; no ano seguinte (1914) o mestre su-
cedeu a Jakob Van't Hoff na direcáo do Instituto de Física
de Berlim. Foi-se tornando membro eleito das grandes Aca
demias de Ciencias do mundo inteiro, enquanto as Universi
dades lhe iam conferindo o título de doutor «honoris causa».
Em 1921, Einstein foi condecorado com o premio Nobel de
Física. Exonerado de obrigagóes académicas, o sabio dedicava
seu tempo ao estudo, a conferencias e debates em diversas
nagóes sobre a teoría da relatividade. Apregoava ao mesmo
tempo a filantropia, o pacifismo, mostrando-se adversario de
todo imperialismo e grande fautor do movimento sionista ou
dos interésses do povo de Israel.
Em 1933 Einstein, que já vivía na Inglaterra ou nos Es
tados Unidos da América, rompeu com o regime nacional-
-socialista, pedindo sua demissáo as Academias de Ciencias
da Prússia e da Baviera ; nao perdeu a ocasiáo de censurar
entáo as sociedades de cientistas alemáes por condescenderem
com um govérno que arbitrariamente denegava a muitos es
tudiosos os meios de viverem e trabalharem na Alemanha :
«Eu nao poderia pertencer, dizia ele, a urna comunidade que
adota tal atitude, embora esta seja extorquida por pressáo».
Na mesma época (1933) Einstein aceitou o cargo de
Reitor da Universidade de Jerusalém; passou, porém, a residir
nos Estados Unidos, na qualidade de professor da Universidade
de Princeton. Após urna carreira de estudos cada vez mais
brilhante, foi nesta cidade que o cientista entregou a alma
ao Criador aos 18 de abril de 1955.

Interessa-nos agora reconstituir o perfil filosófico-religioso do


grande varao. Para tanto, beneficiar-nos-emos dos estudos recente-
mente publicados por Karlheinz Schauder, nos «Frankfurter Hefte»,
e G. Jasper, no «Deutsches Pfarrerblatt»; estes dois autores, trazendo
á tona novos íatos e ditos concernentes a Einstein, possibilitaram-nos
um conhecimento mais fiel da mentalidade do cientista alemao.

2. Einstein e o problema de Dcus

1. Nao seria inútil notar aqui, em primeiro lugar, o trago


marcante da personalidade de Einstein, a saber: a sua independencia
de caráter. Esta se maniíestava principalmente pelo desejo de se
emancipar das convengSes e dos hábitos, por vézes avassaladores,
da vida social. Diz-se que o sabio nao se intimidava por andar
de sandalias, sem meias, com a cabeleira em desorden!, prestes a
mostrar a lingua a um fotógrafo indiscreto; chegou a declarar:
«Nunca pertenci de todo o coracáo a algum país ou Estado, nem
a um circulo de amigos, nem mesmo á minha própria familia».
— Casou-se com antiga colega sua na Escola Politécnica de Zurich,
tornando-se pal de dois filhos, que ele muito amava; divorciou-se,

— 48 —
porém, e em conseqüéncia separou-se também dos íilhos, contraindo
novas nupcias com sua prima Elza. Éste foi o episodio mais doloroso
da vida de Einstein.

2. A tal independencia de caráter associou-se outro fator


importante para a configuragáo do pensamento do estudioso
israelita. Filho de pai que zombava da Religiáo, Alberto re-
cebeu sua primeira formagáo numa época em que mestres
e livros costumavam apregoar oposigáo frontal entre um evo
lucionismo exagerado, de tendencias monistas, e a tradicional
fé em Deus ; ainda ressoava nos ouvidos de muitos a sátira
de Haeckel, que afirmara ter conseguido transformar o Deus
dos cristáos em um «vertebrado gasoso». — Influenciado pela
mentalidade da época, o jovem Einstein desde cedo abandonou
a sinagoga ; nao se tornou ateu, mas passou a professar urna
religiáo «cósmica», de caráter panteísta e vago ; como ele
mesmo dizia, acreditava na «existencia de urna fdrga pensante
superior que se manifesta pelo insondável universo».

Significativo é o episodio seguinte: em 1919 ou 1920, tendo o


Cardeal de Bostón assinalado Einstein entre os ateus da época,
um rabino de Nova Iorque telegrafou ao dentista nos seguintes
termos: «Cré V. S. em Deus? Resposta paga, 50 palavras». Ao que
Einstein respondeu: «Creio no Deus de Spinoza, que se manifesta
na harmonía dos seres... Nao em um Deus que se importe com as
sortes e as acdes dos homens».
De passagem diga-se que Baruque de Spinoza foi um filósofo
judeu do séc. XVII (tl677), o qual professou o panteísmo ou a
identificacáo de Deus com o mundo.

A ideología de Einstein, como a de Spinoza, negava a


liberdade de arbitrio do homem, como se éste fósse habitual-
mente impelido a agir por urna necessidade interior. — Ne
gando que a Divindade se importe com o destino e os atos do
homem, Einstein estava naturalmente bem longe do conceito
de Deus revelado pelas Escrituras de Israel, as quais descre-
vem a Providencia Divina a zelar carinhosamente pela sorte
das criaturas.
3. Contudo o pensamento de Einstein nao se fixou defi
nitivamente em táo pálidas nogóes religiosas. Em 1950, numa
entrevista á imprensa, declarava:

«A opiniáo comum de que sou ateu, repousa sobre grave erro.


Quem a pretende deduzir de minhas teorias científicas, nao as
entendeu... Creio nuin Deus pessoal, e posso dizer com sinceridade
que nunca em minha vida cedi a urna ideología atéia».

Na mesma entrevista, Einstein fazia observar outrossim


que os homens de ciencia concordam em afirmar 'que nao há

— 49 —
oposigáo entre Ciencia e Religiáo ; reconheceu contudo haver
dentistas que ainda em nossos dias abragam os pontos de
vista de seus predecessores em 1880. E, para firmar bem sua
oposigáo radical ao ateísmo, Einstein em 1950 nao hesitava
em asseverar que ja aos 18 anos «considerava as teorías evo
lucionistas de Darwin, Haeckel e Huxley como teorías irreme-
diávelmente antiquadas».

Entre parénteses seja lícito notar: nao é o evolucionismo como


tal que se opde á crenca em Deus, mas é o evolucionismo mccanicista
ou casualista, que abstrai da agáo de um Deus Criador e Providente.
O evolucionismo pode-se conciliar com a fé crista; cf. «P.R.»
4/1957, qu. 1.

4. A verificagáo désse roteiro espiritual suscita espon


táneamente a questáo: poder-se-iam indicar os fatores que
levaram Einstein a trocar o panteísmo pela profissáo de fé
num Deus pessoal, distinto do mundo ?
Schauder, nos estudos citados, assinala dois elementos
que teráo feito amadurecer de tal modo o pensamento do
mestre:
a) a percepgáo adquirida nos últimos anos por Einstein
e pelos dentistas em geral, percepcao de que no interior do
átomo nao reinam a harmonía e a regularidade que os estu
diosos costumavam pressupor. Com efeito, no átomo apenas
se depreendem leis prováveis, formuladas na base de esta-
tisticas. Ora essa indeterminaeáo ou essas lacunas no plano
da materia abrem lugar á intervengáo de urna causa extrín
seca, diferente da materia, causa que equilibra e harmoniza
as reagóes dissemelhantes ou contraditórias da materia. Assim
Einstein terá considerado as lacunas da ordem dentro da
materia como o ponto de encontró do finito com o Infinito,
da criatura com o Criador, sendo Éste essencialmente distinto
daquela.
b) A bomba atómica também concorreu poderosamente
para abalar o pensamento de Einstein. Tendo colaborado para
a fabricagáo dessa arma, o grande cientista impressionou-se
profundamente com as conseqüéncias da mesma. Avivou-se
néle o senso da respdnsabilidade moral. Schauder julga mesmo
que nos dizeres do velho Einstein se encontram esparsos os
indicios de consciéncia do pecado e de atitude de oracáo. A
idéia de Deus, em conseqüéncia, deixou de ser pálida e vaga
na mente de Einstein, como fóra outrora, para tornar-se muito
viva. Ele reconheceu que, junto ao misterio do mundo (que,
alias, Einstein sempre respeitou), existe o misterio de Deus,
misterio que requer fé da parte do homem.

— 50 —
SSo, sem dúvida, palavras do sabio consignadas em carta á
sua irma: «O fundamento de todos os valores humanos é a moralidades.
Em outra missiva, dirigida a Max Born, detentor do premio Nobel,
escrevia Einstein:
«O que cada individuo pode fazer, é dar o exemplo da retidáo
de vida, e conceber a coragem de sustentar seriamente as suas
convicc6es éticas em meio a urna sociedade de cínicos. Há muito
tempo que, com sucesso desigual, procuro comportar-me désse modo».
Ora nao resta dúvida de que o fundamento de toda a moralidade,
táo vivamente apregoada por Einstein, é Deus, e Deus distinto do
homem. Providente e Solicito para com a sua criatura.

5. Quanto a Jesús Cristo em particular, perguntaram


certa vez ao sabio se acreditava na existencia d'Ele. Ao que
respondeu:

«Sem dúvida. Ninguém se pode iludir a .respeito désses íatos:


Jesús viveu, e suas palavras .sao admiráveis. Ainda que um ou outro
pensador da antigüidade se tenha manifestado de maneira semelhante
á de Jesús, nenhum déles se exprimiu de modo táo divino».
«Ninguém pode ler os Evangelhos sem tomar consciéncia da
realidade de Jesús. A sua personalidade vibra em cada urna das
suas palavras. Fábula nenhuma se apresentaria táo penetrada de
vida. Muito diferente é a impressao que colhemos das narrativas de
heróls legendarios de tempos remotos, como, por exemplo, Teseu;
todos ésses carecem do fidedigno dinamismo de Jesús».
«Sou judeu. Contudo a figura brilhante do Nazareno exerceu
extraordinaria influencia sobre mim».
Fato notável: quarenta anos antes de se exprimir do tal modo,
Einstein costumava colocar Jesús no mesmo plano que Kant e Goethe!

6. A respeito da Igreja Católica, apraz ainda consignar


a seguinte observaeáo de Einstein :

«A Igreja Católica foi a única a levantar a voz contra o assalto


dirigido por Hitler contra a liberdade. Até aquela época a Igreja
jamáis detivera a minha atencáo. Hoje, porém. exprimo minha grande
admiragáo e meu profundo apego a essa Igreja que, a sos, teve
a inabalável coragem de lutar em prol da liberdade espiritual e moral».
Assím Einstein, do seu modo, professava o caráter único (diria
mos : sobrenatural) da Santa Igreja Católica.

Em conclusáo : ó de crer que o Senhor em sou justo juízo


nao terá desprezado tudo quanto de belo e nobre Ele mesmo
colocou na alma de quem táo certeiramente soube elevar-se
da materia visível á Realidade invislvel.

II. DOGMÁTICA

AFONSO (Rio de Janeiro) :

2) «Como será possível a ressurreicao geral dos corpos


humanos professada pelos católicos, visto que os cadáveres se

— 51 —
esfacelam cm partículas múltiplas, as quais entram na com-
posicáo de outros seres ?»

Por muito ardua que pareca, esta questáo se resolve com clareza
desde que o estudioso se disponha a raciocinar lealmente. É o que
vamos fazer, explanando em primeiro lugar alguns dos fundamen
tos revelados do dogma da ressurreicáo; feito isto, abordaremos as
duas explicares que hoje se propóem para as diíiculdades daí
resultantes.

1. Alguns dados da Rcvelacáo

É dogma de fé crista que todos os homens ressuscitaráo


um dia em corpo nao só específicamente, mas também numé
ricamente igual ao corpo em que vivem na térra.

Identidade especifica significaría, no caso, uniáo da alma com


um corpo humano qualquer, exigindo-se apenas que fósse verdadeiro
corpo humano. Identidade numérica, porém, diz uniáo com um
corpo portador das mesmas notas individuantes ou dos mesmos
tragos pessoais que hoje o caracterizan!.

O dogma cristáo, por conseguinte, professa que a carne


da qual hoje se serve a alma como de instrumento de méritos
e deméritos, compartilhará a sorte eterna dessa alma, unindo-
-se-lhe de novo.
Esta verdade se deduz de repetidas afirmacóes do Senhor
Jesús, tais como :
«Nao vos admiréis, pois vem a hora em que todos os que
estáo nos túmulos ouviráo a voz do Filho do Homem, e salráo; os
que tiverem praticado o bem, ressuscitaráo para a vida; os que
tiverem cometido o mal, ressuscitaráo para a condenacáo» (Jo 5,28).
«Os filhos déste sáculo esposam e sao esposados; aqueles, porém,
que tiverem sido julgados dignos de tomar parte no mundo futuro
e na ressurreicáo dos mortos. nao esposaráo nem seráo esposados;
também nao poderáo morrer, pois seráo semelhantes aos anjos e
seráo filhos de Deus, urna vez ressuscitados» (Le 20, 34-36).

Sao Paulo chega a dizer categóricamente :

«Se se apregoa que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem


alguns dentre vos dizer que nao há ressurreicáo dos mortos? Se
nao há ressurreicáo dos mortos, também Cristo nao ressuscitou.
Mas, se Cristo nao ressuscltou, vá é a nossa pregacao, va é a
vossa fé» (1 Cor 15, 12-14; cf. 20-22; 42-49).

Quanto á identidade de corpo mortal e corpo ressuscitado,


ela se verificou em Cristo ; era condigáo absolutamente neces-
sária para que houvesse Redencáo. Justamente a finalidade
da vinda do Senhor á carne humana era colocar a imortali-
dade na mesma materia que era portadora da morte, depo
sitar gloria nos mesmos corpos marcados pela ignominia. Rea-

— 52 —
lizando tal inversáo de sortes em sua carne, Cristo a anunciou
a todos os homens.
A Igreja, no decorrer dos tempos, explicitou a mensagem
de Jesús :

«Creio também na verdadeira ressurreicáo da mesma carne de


que agora sou portador» (Símbolo de íé redigido pelo Papa Sao
Leáo IX em 1053; Denzinger, Enchiridion 347).
«Com o coragüo eremos e com os labios professamos a ressurreigáo
desta carne que agora trazemos, e nao de outra» (Inocencio III,
em 1208, profissáo de fé para os Valdenses; Denzinger 427).
Sto. Agostlnho (t430), por sua vez, escrevia:
«Esta carne há de ressuscitar, esta mesma que é sepultada,
que morre; esta que se vé, que é apalpada, que precisa de comer
e beber, para poder subsistir; esta que conhece a doenga, soíre
dores, esta mesma há de ressuscitar» (serm. 264,6).

É de toda conveniencia a identidade assim apregoada : a


alma aqui na térra nao decide a sos a sua eterna sorte, mas
para isto usa do corpo, o qual de certo modo lhe marca e
caracteriza a fisionomia espiritual; é lógico, portante, que
essa alma nao participe a sos da sua recompensa eterna, res-
posta aos ates da vida presente, mas também nisto esteja
associada ao corpo.
Eis, porém, que tal doutrina suscita dificuldades desde
os inicios do Cristianismo. Pergunta-se, com efeito: como se
há de entender a identidade numérica de corpo mortal e corpo
ressuscitado, já que o cadáver se dissolve em poeira, a qual
se espalha pelos quatro ventos, entrando fácilmente na com-
posigáo de outros organismos ?
A esta questáo os teólogos propóem duas respostas, que
passamos a analisar.

2. As duas sentengas.. .

1. A tese aparentemente mais natural afirma que a


mesma materia da qual constava o corpo antes da morte,
deverá concorrer para a reconstituicáo da carne no fim dos
tempos. Nao será necessário, porém, que todas as cinzas do
cadáver sejam recomidas donde quer que se achem no dia
da ressurreicáo ; bastará que urna parte das mesmas, até
urna parte muito exigua, entre no novo organismo ; o que, por
um motivo qualquer, vier a faltar, Deus o suprirá em sua
Onipoténcia. Sao Tomaz (f 1274) acrescentava que, nos casos
de antropofagia, a carne humana consumida por outro homem
ressuscitará no corpo a que tiver pertencido primeiramente ;
dado que o individuo antropófago só se tenha alimentado de
carne humana por todo o decurso da sua vida, ressuscitará

— 53 —
com a carne que seus pais lhe tiverem comunicado ao nascer
(Suma c. Gentíos 4,81). — Sao Tomaz, Sao Boaventura
(f 1274), Scoto (t 1308), Suarez (t 1617) eram da opiniáo
de que, conforme Mt 24, 12, os anjos colaboraráo para a res-
surreigáo dos mortos, reunindo as cinzas dispersas e prepa
rando-as para a reintegragáo dos corpos.

A título de ilustrado, citamos aínda as seguintes consideragóes


de Sao Tomaz sobre a materia dos corpos ressuscitados.
Estes teráo a estatura ou as dimens5es que lhes conviriam na
idade madura (que sería a idade de Cristo ressuscitado). Ninguém,
poi.s, ressuscitará na estatura de crianca ou de anciáo. Caso a
natureza, num ou noutro individuo, haja produzldo algum defeito
ou algum excssso de crescimento desarmonioso, Deus reduzirá essa
anormalidade ao tamanho normal. É, pois, de crer que ninguém
ressurgirá num corpo ridiculamente alto ou ridiculamente baixo (cí.
Suma c. Gentios 4,81).
Dada a sobriedade da Revelacáo Divina no que se refere aos
pormenores, nao se atribuirá demasiado peso a tais conjeturas refe
rentes ao tamanho dos corpos ressuscitados. Contudo nao se pora
em dúvida que estes carecerüo de qualquer vestigio de mutilacao
ou defeituosidade.

A sentenca ácima, tendente a explicar a identidade dos corpos


ressuscitados, era muito comum entre os teólogos medievais; ainda
hoje goza de favor. Parece, alias, ser a única forma de elucidar
o fato de que ressuscitaremos na mesma carne que agora trazemos.
Além disto, alguns autores se comprazem em sublinhar que ela
muito póe em realce a índole misteriosa da ressurreicáo: assinala
largas partes á Onipoténcia Divina na reconstituicáo dos corpos.

2. Contudo ó preciso frisar que tal sentenga nao cons-


titui a única elucidagáo do problema. Hoje em dia bom número
de teólogos dá preferencia a outra tese, que parece muito
mais condizente tanto com os dados da Teologia como com os
da reta Filosofía. Consideremos tal outra sentenga, pro
curando tornar táo claras quanto possível algumas nogóes es
peculativas que ela necessáriamente pressupóe.
Leve-se em conta a distincáo entre forma e materia, dis-
tingáo nao forjada por teólogos católicos para dar base ao
dogma, mas proposta já pelo filósofo Aristóteles (f 322 a.C).
Materia e forma sao as duas substancias incompletas que
entram na composigáo de todo e qualquer corpo. A forma é
o elemento ativo, que traz todas as notas positivas e caracte
rísticas do sujeito ; a materia é pura potencia, pura capaci-
dade de receber. Esta pura capacidade, porém, nao é mero nada.

O fato de que nao é mero nada, se pode ilustrar por urna, ana-
logia, que, embora nao seja de todo adequada, como nao o sao em
geral as analogías, concorre para elucidar a nogáo. Tenha-se em
vista um pedaco de mármore; néle dizemas que há potencia para
receber as cinzeladas artísticas ou a atuacüo que um escultor lhe

— 54 —
quelra dar, a fim de o tornar bela estatua (de César, por exemplo).
Esta mesma potencia, porém, nao pode ser atribuida a uma quantia
de agua; esta é de todo incapaz de receber a atuacáo ou a determina-
c3o que um artista, mediante o cinzel, lhe deseje imprimir. Assim,
embora o mármore bruto e a agua nao representem os tragos de
César, contudo nSo podem ser equiparados entre si: no mármore
há, sim, uma potencia real a se tornar estatua de César, coisa
que nao há na agua.
Tal analogía serve ao menos para ilustrar como a potencia
(na distincáo aristotélica entre «potencia» e «ato» ou «materia» e
«forma») nao é mero nada, mas é parte constitutiva de um ser
completo: a estatua de César nunca se concretizaria se so houvesse
a arte do artista, e nao existisse a potencia que o mármore oferece
(e que a ágüa nao oferece).

Pois bem ; a alma, em relagáo ao corpo, se comporta como


forma (ou ato) em relagáo á materia. A materia unida a alma
traz as notas características de materia humana, de corpo, e
de corpo bem determindo pelos tragos individuáis de Pedro.
Tiago, María, etc. É materia penetrada pela sua forma res
pectiva, materia «atuada» ou materia segunda, como dizia
Aristóteles.
Uma vez separada da alma pela morte, nao se julgue que
essa materia continuará a guardar as notas características
de tal individuo (Pedro, Tiago, María...). Nao; ela, as perde,
porque lhe sao comunicadas pela alma. Donde se segué que
a materia do corpo, pela morte, volta a ser pura potencia,
pura capacidade, materia primeira (diría Aristóteles), aberta
para receber outra forma ou outras formas que nao a alma
humana. Em geral, o cadáver passa a ser calcio, ferro, hidro-
génio, oxigénio, carbono...; o que quer dizer: a respectiva ma
teria é reduzida á pura potencia e neste estado recebe novas
formas (as formas do calcio, do ferro, do hidrogénio...) que
lhe dáo a capacidade de reagir típicamente como calcio, ferro,
hidrogénio, e nao mais como carne ou ossos humanos.

Em vista de maior clareza, poder-se-ia repetir a mesma doutrina


do seguinte modo: é a forma que faz que tal materia seja a materia
correspondente a tal forma. Donde se segué que, por si, a materia
é capaz de receber qualquer forma e assumir, em uniüo com esta,
as mais diversas notas especificas e individuáis; assim a materia de
per si é indiferente a se tornar a materia de uma planta (isto
é, a ser informada por uma forma vegetativa), a de um animal
irracional (isto é, a ser informada por uma forma sensitiva), a de
um animal intelectual (isto é, a ser informada por uma alma humana).

De quanto foi dito se depreende que nao há motivo para


que o Senhor Deus no fim dos tempos recolha as pretensas
parcelas do corpo humano esparsas pelo universo, a fim de
ressuscitar tal corpo. As parcelas materiais que pertencem a

— 55 —
um organismo, pela morte deixam de possuir suas notas indi
viduantes, características de tal organismo; conseqüentemente
qualquer potencia, qualquer materia primeira poderá desem-
penhar com igual resultado o papel de receptáculo da alma,
dando o mesmo corpo, portador das mesmas notas individuáis,
características do corpo anterior á morte e á ressurreigáo.
Basta, para a identidade do conjunto, que a alma (de Pedro,
de Maria...) se conserve a mesma no intervalo que medeia
entre a morte do ser humano e a ressurreigáo ; ora, na ver-
dade, a alma nao perde sua identidade ou suas notas determi
nantes, quando se separa do corpo, de sorte que ela pode per-
feitamente reconstituir o mesmo corpo, caso o Senhor Deus
no dia da ressurreigáo a queira de novo associar á materia
ou á pura potencia receptiva.
Em conseqüéncia destas nogóes, verifica-se que o dogma
da identidade numérica de corpo mortal e corpo ressuscitado
de modo nenhum implica que, por ocasiáo do juízo universal,
a Onipoténcia Divina se ponha a congregar a materia déste
ou daquele ser, de preferencia á materia de outros seres, a
fim de reconstituir o corpo de Joáo, Pedro, Maria, etc.. Nao;
a reconstituigáo dar-se-á simplesmente desde que o Senhor
una de novo a alma de Joáo, Pedro, Maria a urna pura poten
cia (qualquer que tenha sido a historia anterior dessa poten
cia), a fim de que tal alma reproduza a individualidade carac
terística do corpo de Joáo, Pedro, Maria...

Ainda se pode ilustrar esta doutrina pela observacáo seguinte:


o corpo humano vivo está em continuo processo de evolucao, de
sorte que de sete em sete anos toda a sua materia se acha renovada,
nada íicando da anterior. Ora, nao obstante as mudancas, o corpo
conserva suas notas típicas por todo o decurso da vida; fala-se
do mesmo corpo de Pedro desde o nascimento até a morte. Esta
jdentidade numérica lhe provém nao da identidade da materia, mas
da identidade da forma (alma), que anima um corpo sempre em
evolucáo e renovacáo.

Em conclusáo : nada há que obrigue a exigir mais do


que identidade de alma, para que haja identidade do individuo
humano ressuscitado no último dia.

Esta solugáo pode ser tida como a conseqüéncia bem lógica da


doutrina de que a alma é a forma substancial do corpo, tal como
a entendem unánimemente os teólogos tomistas. Notáveis autores
modernos (Billot, Feuling, Michel, Hugueny...) a professam sem
detrimento para a reta fé. Urna vez admitida tal sentenca, torna-
-se va a pergunta: como reunirá Deus no último dia as partes dos
diversos cadáveres dispersas pelos quatro cantos do mundo ou
agregadas a outros corpos? Tal questáo poria um problema que
absolutamente nao existe neste novo quadro de idéias.

— 56 —
Apenas com relagáo as reliquias dos santos (fragmentos dos
corpos ou dos ossos) se poderia notar que, conforme julgam os
teólogos, o Senhor Deus aproveitará as que subsistirem no dia da
ressurreicáo final, a fim de reconstituir diretamente com elas os
corpos dos respectivos justos. Daí especial motivo de veneracao as
reliquias sagradas!

LEGIONARIO (Rio de Janeiro) :

3) «Em última análisc, nao se pode dizer que reencar-


nagáo e ressurreicáo sao a mesma coisa ?»

A doutrina da reencarnacáo professa que urna alma, se-


parando-se de determinado corpo pela morte, volta posterior
mente a viver na carne ou num outro corpo humano.

Esta tese difere da chamada «metempsicose» ou «transmigra-


cao das almas», segundo a qual a mesma alma poderia reapare
cer na térra em corpos de especies e géneros diversos (em corpo
humano ou em corpo de animal irracional ou até num vegetal).

Quanto á doutrina da ressurreicáo, ela professa, nao há


dúvida, nova uniáo de alma e corpo. Tomada neste sentido
assaz vago, apresenta, sim, algo de comum com a doutrina
da reencarnacáo, pois também esta significa nova uniáo de
alma e corpo. Caso, porém, se examine de mais perto em que
termos a fé entende a ressurreicáo da carne, verifica-se que
o ensinamento católico é inconfundível com a tese da reencar
nacáo tal como é propalada por correntes filosóficas e religio
sas contemporáneas.
É a ésse exame que vamos agora proceder.

1. A ressurreicáo da carne : seus pressupostos filosóficos

1. A doutrina católica da ressurreicáo da carne supoe um con-


ceito que pertence nao sómente á Revelagáo bíblica, mas também
ao patrimonio da filosofía humana e perene, já professada pelo
grego Aristóteles (t322 a. C): o homem é um animal racional.
Isto quer dizer: o homem consta, essencialmente, de alma intelectiva
(racional) e de corpo. Alma e corpo se unem entre si como forma
e materia, segundo a terminología de Aristóteles, constituindo urna
só substancia ou um ser subsistente.

2. A Filosofía ensina ulteriormente que a materia é pura


potencia ; carece de qualquer nota individuante (veja-se o que
já foi dito na resposta n" 2 déste fascículo). Da forma é que
ela recebe toda a sua atualidade e suas características. Unin-
do-se, porém, á materia, a forma (no caso que nos interessa :
a forma humana ou a alma) nao apenas dá ; ela também

— 57 —
recebe. Com efeito, por sua natureza a alma se destina a
«informar» um corpo e a viver num corpo, sem o qual ela
deve ser dita «substancia incompleta» ; é sómente mediante
o corpo que ela preenche todas as suas fungóes e adquire per-
feigáo (mesmo as suas duas facuidades típicas, a inteligencia
e a vontade, a alma nao as desenvolve normalmente senáo em
uniáo com o corpo ; sem os sentidos é incapaz de adquirir
idéias, raciocinar e, por conseguinte, inclinar-se para deter
minado bem). Ora, dependendo do corpo no desenvolvhnento
de suas atividades, a alma humana nao pode deixar de receber
déle certos tragos que concorrem para definir o semblante
esp'ritual dessa alma ; falamos, sim, de um ánimo ou tempe
ramento sanguíneo, biliar, nervoso ou apático e flegmático,
de acordó com a influencia que o corpo exerce sobre a alma
á qual ele está unido. Em outros termos, diremos : embora
seja pura potencia, a materia, urna vez informada pela alma
humana, influencia o ritmo de vida e as afirmagóes dessa
alma ; marca-lhe de certo modo a fisionomía espiritual, assim
como, reciprocamente, a alma determina a fisionomía sensível
e as atitudes do corpo.
3. Disto se segué que alma e corpo sao duas substancias
correlativas entre si, destinadas a se prestar complemento
mutuo e a constituir o homem própriamente dito. Éste, com
sua personalidade e sua individualidade, só se define pela
uniáo de alma e corpo. Seja licito repetir: a criatura humana
consta nao sómente de alma (doutrina esta professada pelo
platonismo), mas de alma e corpo ; e tal homem consta de tal
alma e tal corpo. Disto decorre ulteriormente que tal individuo
ou pessoa nao pode existir pela encarnacáo de tal alma em
outro corpo ; com isto a individualidade ou personalidade se
destruiría.

Explicitando ainda a mesma doutrina, os filósofos ensinam que


tal alma é criada por Deus em vista de tal corpo, e vice-versa; em
outros termos: cada alma, desde a sua origem, é destinada a pro-
duzir urna personalidade psico-somática caracterizada por certas
notas precisas, e nao outras; as notas acidentais individuantes (tem
peramento ou caráter) de cada alma sao devidas, em parte, ao corpo
que ela informa; em conseqüéncia, a mesma alma em outro corpo
estaría «desadaptada».
Avicena, filósofo árabe náo-cristáo do séc. XI (tlO37), ilustrou
multo bem o pensamento de Aristóteles, recorrendo ás seguintes
metáforas :
«Admita-se que um corpo que nao tenha consistencia para
reter alguma figura, como a agua, é distribuido em recipientes diver
sos; urna vez extraído déstes, tal corpo nSo guarda as formas das
respectivas vasilhas. Ao contrario, conceba-se que o corpo seja capaz
de guardar a figura, como a cera; dado que o coloquem em vasos

— 58 —
diversos, conservará as diversas configuragSes, mesmo depois de
extraído dos recipientes. Ora a alma humana se comporta desta
segunda maneira. Ela continua a existir depois da dissohicáo do
corpo, guardando as notas que a individuam e tornam distinta das
demais almas, proporcionada ao respectivo corpo» (cf. S. Tomaz,
In II Sent., dist. XVII, qu. II a. 2c e ad 4).
A alma humana é, pois, de certo modo como a cera, que, uma
vez unida a determinado carpo, guarda indelévelmente os sinais da
uniáo com éste e s6 é apta a se unir de novo com o mesmo iorpo
(ou com materia que, uma vez «informada», dá um corpo igual
ao anterior), e nao com outro.

2. Ressurreicáo e reencarnacáo

1. As premissas ácima levam a ver que a sá Filosofía, anterior


mente a qualquer revelacáo ou dogma religioso, excluí o que comu-
mente se chama «reencarnacáo, ou seja, a tese segundo a qual
as almas, após se ter separado, pela morte, do corpo em que ora
se acham, voltam a éste mundo a fim de se unir a outro corpo
humano, ora mais. ora menos harmonioso, segundo o exijam os
méritos ou deméritos da alma respectiva.

A única possibilidade de «reencarnacáo» após a morte


é a volta da alma ao mesmo corpo, ou seja (á luz do que foi
dito na resposta n° 2 déste fascículo), a uma materia que
nao pode deixar de dar um corpo absolutamente (ou numé
ricamente) idéntico ao corpo anterior. Tal tipo de «reencarna-
qáo» toma o nome de «ressurreicáo da carne» ; é o que pro-
fessa a fé católica. Difere frontalmente da reencarnacáo que
o hinduísmo e o espiritismo admitem, pois a reencarnagáo
entendida por estes sistemas nao atribui importancia á iden-
tidade numérica do corpo, considerando-se a personalidade do
individuo como subsistente apenas na alma. As reencarnacóes
se podem suceder indefinidamente, ao passo que a ressurrei-
gáo da carne, sendo reintegragáo de um individuo composto
de tal alma e tal corpo, se verifica uma única vez ; a ressur
reicáo coloca o homem no estado definitivo após um estágio
previo de provacáo. Tendo sido a alma e o corpo feitos para
viver conjuntamente, é normal que, após uma provacáo ade-
quada (que termina com o desgaste do corpo e a conseqüente
separagáo da alma), alma e corpo se reunam, e reunam para
nao mais se separar. Á alma e ao corpo unidos, isto é, a cada
individuo humano, o Criador proporciona na térra uma opor-
tunidade ora mais, ora menos duradoura (mas sempre con
forme á justiga), para que afirme o tipo de vida (fiel a Deus
ou alheia ao Senhor) que deseja levar para todo o sempre ;
uma vez feita esta afirmagáo, o Senhor nao a destrói, mas
respeita-a.

— 59 —
2. A ressurreigáo, ou seja, a restauragáo definitiva da
uniáo da alma e do corpo, está bem na linha das aspiragóes
naturais da alma, como lembra Sao Tomaz no texto seguinte :

«Suposta paridade de outras circunstancias, é mais perfeito o


estado da alma unida ao corpo do que o estado da alma sepa
rada déste, pois a alma é parte integrante de um todo, e a parte
é feita para o todo» (Suma Teológica, Supl. 75, 1 ad 4).

Nao obstante a aspiragáo natural da alma a voltar a se


unir ao respectivo corpo após a morte, deve-se frisar que a
ressurreigáo nao pode ser obtida pela própria alma. Ao con
trario, a natureza de todo ser composto de materia (no nosso
caso: a natureza do homem) tende a se decompor e perma
necer em estado decomposto ; todo vívente corpóreo tende a
morrer e a ficar na morte sem se poder ressuscitar por si. A
Revelagáo crista, porém, ensina que Deus vai gratuitamente
ao encontró da aspiragáo inata das almas e lhes proporciona
a volta aos respectivos corpos na ressurreigáo da carne ; cf. os
textos citados na resposta n» 2 déste fascículo, págs. 52s.
A Sagrada Escritura é explícitamente contraria á reen-
carnagáo, quando, por exemplo, afirma: «Foi estabelecido,
para os homens, morrer urna só vez; depois do que, há o
julgamento» (Hebr 9,27) ;... quando refere as palavras de
Jesús ao bom ladráo : «Hoje mesmo estarás comigo no paraíso»
(Le 23,43). Os textos muito enfáticos em que Cristo e os Apos
tólos anunciam a ressurreigáo dos mortos e o inferno, sao
outros tantos testemunhos que se opóem á reencarnagáo ;
tenham-se em vista Mt 5,22; 13,50; 22,23-33; 24,41; Me 3,29:
9,43-48 ; Jo 5,28s ; 6,54 ; 1 Cor 15,13-19.

3. Por fim, pode-se notar que a diferenga vigente entre


ressurreigáo e reencarnagáo, em última análise, se prende á
diferenga de mentalidades que inspiram os propugnadores de
urna e outra destas duas teses.

Sim. A doutrina crista da ressurreicáo supóe um Deus, Pai


Bondoso, que toma a iniciativa de criar e também de salvar a criatura.
Esta salvagáo, Deus a. oferece ao homem no decurso de urna vida
passada na térra, vida durante a qual a graca do Salvador solicita
a criatura ao bem e á felicidade eterna. Em vista disto, a Sabedoria
Divina prové para que nenhum auxilio sobrenatural falte ao homem
no decor.rer de sua peregrlnacáo terrestre. Em conseqüéncia, ter
minada esta vida, é justo que a criatura humana entre na sua
sorte definitiva. Urna vez entáo restaurado, isto é, ressuscitado após
a morte, o individuo passa a vlver unido ou alheio/a Deus
para todo o sempre (lembremo-nos de que a alma é imortal, por
sua natureza mesma; cf. «P.R.» 2/1957, qu. 5). — Tal concepeáo
é profundamente religiosa, pois tributa a Deus a devida primazia

— 60 —
sdbre o humano c reconhece o caráter indébito e gratuito da sal-
vagáo.
Eis, porém, que nao se poderia dizer o mesmo da mentalidade
reencarnacionista. Com eíeito; quem aceita a reencarnagáo, sem
deixar de professar urna religiáo, engana-se a si mesmo, pois forzo
samente toma urna atitude religiosa falsa, ou melhor, urna atitude
que simplesmente nao é religiosa. Na verdade, a ideología da reencar
nagáo atribuí ao homem o poder de se remir, de se tornar perfeito
por seus esforgos, íazendo práticamente abstragáo do auxilio divino.
Pouco ou nada entra em linha de conta de um reencarnacionista
a auténtica nogáo de Deus, que é a de um Pai Bondoso e Providente,
o qual deu existencia aos homens, quis compartilhar e consagrar
o sofrimento e a morte do homem, e sem o qual a criatura nada
absolutamente pode. Nao admira, pois, que a reencarnagáo tenha sido
outrora, e aínda hoje seja, proíessada dentro de urna ideología
panteísta ou monista. Sim, as crengas hindus, que inspiram muitos
reencarnacionistas, cancelam a distingáo entre o Divino e o humano,
entre o Infinito c o finito, ensinando que a Divindade (a qual nesses
sistemas é concebida como substancia impessoal, neutra, «a Mente
Cósmica») «se realiza» no homem, «vai tomando consciéncia de si»
no homem, á medida que éste evolul ou se aperfeigoa. Esta tese
parece explicar que a criatura possa por si chegar á uniáo com
a Divindade; todavía constituí insustentável aberragáo nao sómente
religiosa, mas também filosófica, pois coloca o finito e o Infinito
na mesma linha, no mesmo plano: Deus, que por definigSo é o
Ilimitado, nao pode vir a identificar-se com o finito e o contingente,
nem mesmo transitoriamente; há um hiato intransponível entre o
homem e Deus, hiato tal que o homem só se aproxima de Deus,
caso o Todo-Poderoso se digne tomar a iniciativa de chamar e
amparar continuamente a sua criatura.

Na baso destas consideragóes, pode-se afirmar que a


doutrina da reencamagáo aprésenla, sim, algo de sedutor,
dado o misticismo e a sede de pureza que a inspira ; trata-se,
porém, de misticismo viciado em raiz por flagrante incoerén-
cia lógica e por urna ponta de soberba do homem que deseja
emancipar-se de um Deus Transcendente e Pessoal.

III. SAGRADA ESCRITURA

J. V. M. (Cipotánea) :

4) «A fé ensina que realmente o mundo foi criado em


seis dias de 24 hs., como se costuma afirmar em nomc da
Escritura Sagrada ?
E como seria possível que já houvesse luz, día e noite
antes da criacáo do sol, da lúa e das estrélas, como insinúa a
mesma Escritura ?»

As questSes ácima causam a muitos leitores da Biblia dúvidas


que lhes parecem decisivas contra a autoridade dos livros sagrados.
Ña verdade, trata-se simplesmente de problema mal formulado ou

— 61 —
mesmo irreal. As dificuldadcs levantadas no caso se resolvem em
principio mediante a observacáo seguinte: a Biblia, embora seia
um Livro divino, foi redigida por autores humanos (Moisés, Davi,
Isaías,...), que Deus se dignou, sim, utilizar, sem, porém, derrogar
ao costumeiro modo de escrever désses homens; a Sagrada Escritura,
por conseguinte, foi composta coníorme as regras de estilo usuais
no periodo que vai do séc. XIII a. C. (Moisés) até o fim do séc. I d.C.
(S. Joáo Evangelista). Torna-se entao evidente que nao se pode
perceber o significado auténtico das páginas sagradas sem se apli-
carem ao texto estudado os criterios de interpretacüo usuais na
análise de qualquer documento da literatura humana; ora entre estes
criterios se acham a consideracáo da mentalidade do autor respectivo,
da época em que escreveu, a veriíicagáo das fontes que usou, do
circulo de leitores que teve em mira... A exegese bíblica, por muito
que isto surpreenda, nao dispensa ésses recursos usuais em qualquer
exame literario; donde se vé que nao basta simplesmente a piedade
para se entender a Biblia (embora a piedade tenha partes preponde
rantes, sem dúvida), mas requer-se um pouco de cultura humana.

Tendo em vista estas premissas, passemos ao tema da


criacáo do mundo na Escritura Sagrada. Verificamos, logo
de inicio, que a Biblia em mais de urna passagem apresenta
a narrativa da criagáo ; assim, em Gen l,l-2,4a ; 2,4b-3,24 ;
Prov 8,25-31; Jó 38,4-35 ; SI 103. Contudo num só trecho,
isto é, em Gen l,l-2,4a, descreve a acáo de Deus dentro do
esquema de «seis días de trabalho e um de repouso» (donde
o nome de «hexaémeron» que toca a essa passagem:
em grego, hex = seis; heméra = dia). Ora isto já chama
a atengáo do critico, pois significa que o trecho de Gen l,l-2,4a
é bloco literario independente das passagens que versam sobre
o mesmo assunto ; parece obedecer a regras de estilo e a fina-
lidade próprias. Donde se segué que, para averiguarmos se
a Biblia realmente ensina a criacáo do mundo em seis dias, é
necessário apliquemos nossa atengáo á análise do chamado
«hexaémeron». É o que vamos fazer, considerando primeira-
mente o estilo da pega, para depois formular a sua genuína
interpretagáo.

Justamente urna das falhas dos nossos manuais de Historia


Sagrada consiste em que dáo simplesmente como doutrina da Biblia
os dizeres de Gen l,l-2,4a. sem levarem em conta os textos bíblicos,
paralelos referentes á criagáo do mundo nem as regras de estilo
esquemático e simbolista do «hexaémeron».

1. O estilo da narrativa dos seis dias

1. Q.% estudiosos sao unánimes em aíirmar que o bloco de Gen


l,l-2,4a, embora constitua a primeira página da Biblia, foi redigido
em época relativamente recente, ou seja, depois de muitas outras
páginas bíblicas; e... redigido em estilo poético, nao no estilo de
um documento de ciencias naturais.
Quais seriam as bases desta afirmagao ?

— 62 —
1) Já numa primeira aproximacáo chamam nossa aten-
cao o ritmo muito burilado e o estilo polido da pega. O con-
ceito de Deus que ai transparece, é assaz elevado ou filosó
fico : o Criador nao é descrito antropomórficamente, á guisa
de «Oleiro» nem de «Jardineiro», nem de «Cirurgiáo», nem
de «Arquiteto», nem de «Alfaiate», como na passagem se-
guinte (cf. Gen 2,7.8.21; 3,21). Ao contrario, o autor dá a
ver que, Cínicamente pela expressáo de sua vontade ou pela
sua palavra, o Senhor Deus comunica existencia a todos os
seres. Ora tais características manifestam urna fase da men-
talidade de Israel, humanamente falando, já bem amadurecida
na escola do Senhor.

2) Toda a narrativa se dispóe dentro dos moldes de


«sete dias», que parecem corresponder a sete estrofes de um
poema. Essas estrofes, exceto apenas a sétima, repetem com
certa variabilidade os sete seguintes elementos :

a) Ordem do Criador: «Disse Deus: Faga-se...».


b) Cumprimento da ordem; «E féz-se assim».
c) Execucao (mais precisa descricáo do efeito): «E Deus fez
o firmamento..., dois luzeiros... E a térra produziu a
crva...».

d) Aprovagáo da obra: «Deus viu que era bom...».


e) Imposigáo do nome: «Deus chamou a luz Dia..., o firmamento
Céu... o Seco Térra...».
f) Bencao divina.
g) Indicado do dia (conclusáo): «Houve tarde e manhá; foi o
1«, 2«, 3' dia...».

3) O simbolismo dos números ou o emprégo místico arti


ficioso de certas cifras domina todo o texto do «hexaémeron».

Sabemos que, para os antigos, os números muitas vézes repre-


sentavam nao quantidades, mas qualidades; atribuidos a determinado
sujeito, podiatn indicar proprledades moráis ou valores religiosos,
nao quantidades físicas nem valores matemáticos. Os números que
gozavam de maior estimacao, eram 3, 4, seus derivados 7 (=3 + 4),
12 (=3x4) e 10; cada um déles exprimía, do seu modo, a perfeigao.

Eis como o emprégo artificioso dos números se manifesta


no «hexaémeron :
A distribuigáo de toda a narrativa em 6 -f-1 dias (seis
dias de trabalho e um de repouso) obedece a um proceder de
estilo assaz usual ñas-antigás literaturas orientáis. Significava
que urna obra havia sido iniciada (6) e, por fim, consumada,
rematada (+1) ; os escritores punham em relevo na serie o
número 7 ou a sétima unidade (s'mbolo da plenitude ou per-
feicáo), para inculcar que a obra havia sido realmente levada

— 63 —
a termo feliz, coisa que nao sempre se dá nos empreendimentos
humanos.

Eis apenas um exemplo da literatura nao bíblica ilustrativo


de tal proceder estilístico:

A narrativa babilónica do diluvio apresenta a seguinte passagem:

«Junto ao monte do Nisir chega a nave,


O monte de Nisir deteve a nave, nao mais a deixou mover-se;
Um dia, um segundo día,
O monte de Nisir deteve a nave, nao mais a deixou mover-se;
Um terceiro, um quarto dia,
O monte de Nisir deteve a nave, nao mais a deixou mover-se;
Um quinto, um sexto dia,
0 monte de Nisir deteve a nave, nao mais a deixou mover-se;
Quando chegou o sétimo dia,
Fez sair urna pomba, deixou-a partir».
(Gilgamesh t. XI ce. 141-7).

Na literatura bíblica, veja-se o esquema 6+1 em Jó 5,19; Prov 6,16.

Além disto, os primeiros números sao, no «hexaémeron»,


empregados e realzados de maneira que bem se mostra in
tencional :

1 — Um só Criador, Deus (da unidade procede a multiplicidade);


2 — notem-se as pares «céu e térra», «informe e vazia», «luz
e trovas», «tarde e manhü», «térra e agua», «aguas inferiores
e aguas superiores», «luzeiro maior e luzeiro menor»;
3 — tres rcgiücs: céu, aguas e torra;
tres especies de plantas: ervas, cereais, arvores frutíferas;
tres especies de animáis aquáticos: monstr'os marlnhos,
peixes, voláteis (estes eram julgados habitar entre as aguas
inferiores e as superiores);
tres especies de animáis terrestres: domésticos, reptéis, sel-
vagens;
tres categorías de astros: sol, lúa e estrélas, com um conjun
to de tres funches;
tres imposicóes de nomo: 1,5.8.10;
tres béncáos: 1.22.2S; 2,3;
6 — seis días de trabalho;
7 — seto días em toda a narrativa;
sete aprovacSes;
se te vézes «E assim se fez»;
sete fórmulas que se repetem em toda a narrativa;
10 — dez vézes «Deus disse...»;
12 — Doze sao as agües atribuidas a Deus em toda a obra da
criacáo : criar, pairar, dizer, ver, separar, nomear. fazer,
colocar, abengoar, consumar, repousar-se, santificar;
doze vézes é mencionada a agua (elemento importantissimo
em Gen 1!).

4) Confirma-se a conclusáo decorrente dos itens ácima,


caso se compare o «hexaémeron» com os outros textos da

— 64 —
Sagrada Escritura que narram, também éles, a criagáo do
mundo. Embora aludam aos mesmos elementos mencionados
pelo «hexaémeron» (caos inicial, estrélas, aguas e térra, ani
máis irracionais e homem), de modo nenhum referem o es
quema de seis dias e a ordem de aparecimento das criaturas
que ocorrem no texto de Gen 1. Ora, se ésse esquema e essa
ordem fóssem realmente históricos, é de pressupor que os
outros textos os apresentassem ou ao menos insinuassem ; já,
porém, que isto nao se dá, conclui-se que a moldura dos seis
dias e a sucessáo de obras que éles enquadram, sao mero ar
tificio do autor do «hexaémeron».

2. A intengáo do autor sagrado

1. O exame literario do texto de Gen l,l-2,4a acaba de


evidenciar que o escritor nao tinha em vista redigir um do
cumento de índole científica para nos instruir sobre as fases
pelas quais passou o mundo na sua formagáo. Nao ; o setor
das ciencias naturais ou a «Física» ficava fora das preocupa-
góes do autor ; o que lhe interessava, era apresentar a «Meta-
I'física» ou o aspecto transcendente, religioso, do mundo e do
homem. Para realizar essa tarefa, é claro que o escritor cinha
que aludir as criaturas, mencionando as principáis categorías
destas, a fim de as relacionar com Deus. Em sua maneira de
aludir, teria podido servir-se (se o Espirito Santo o tivesse
iluminado especialmente) da nomenclatura usual no século XX:
haveria entáo falado da Via Latea e das galácias esparsas
pelos espagos cósmicos, haveria mencionado as eras geológicas
que conhecemos, a energia nuclear, a estrutura da materia
com seus eletrónios... Contudo, o Senhor nao quis revelar
tais nogóes ao antigo escritor judeu, pois as ciencias naturais
nao sao própriamente o objeto visado pela Biblia; para obter
o sen fim, bastava que o autor usasse da linguagem de sua
época antiga ; foi o que de fato se deu. Donde se vé quáo
importante se torna tomarmos consciéncia das concep;6es e
da nomenclatura de cosmología dos antigos judeus, para en-
tendermos devidamente o «hexaémeron».
2. Quais eram, pois, essas concepgóes ?
Os orientáis costumavam dividir o universo em tres re-
gióes circulares e concéntricas : a de cima seria a dos ares ;
a do meio, a das aguas, enquanto o globo central seria a re-
giáo da térra. Pois bem ; para dizer que essas tres regióes
com tudo que elas contém, sao obra de Deus, o autor israelita
apresentou a atividade do Criador distribuida por duas series
de tres dias de trabalho: na primeira serie ou nos tres pri-

— 65 —
meiros días ele quis descrever o Senhor a constituir as regióes
ou os compartimentos como tais ; a seguir, na segunda serie
ou nos tres últimos dias, mostrou o Senhor a colocar os habi
tantes ñas respectivas regióes.

Antes, porém, de mencionar a constituicao dos habitáculos, ou


seja, antes da primeira serie de tres dias, o autor sagrado referiu
a criacao da materia em seu estado primordial, caótico: essa materia,
diz 61c, constava de u'a massa de torra («a térra informo e vazia»;
1,2), envolvida de aguas («abismo», «aguas», 1,2), sendo isso tudo
cercado de trevas (1,2). — Do outro lado, ao terminar a serie
dos seis dias, o escritor quis apresentar o Senhor Deus á guisa
de operario que entra no merecido repouso após encerrada a sua
tarefa; donde o sétimo dia da serie (2,1-3).

Désses dados resulta o esquema seguinte:

I. Criacao da materia caótica


(térra, aguas, trevas): 1,1-2

II. Distincáo das tres regiOes III. Froducáo dos habitantes


do universo das regiSes

Dia Constitui-se a Sao produzidos os habitantes Dia


1' Regiáo do Céu .... 1,3-5 1,14-19 Astros 4*
2> Regiáo das Aguas 1,6-8 1,20-23 Peixes, voláteis 5»
3' Regiáo da Térra . 1,9-13 1,24-31 Animáis terrestre.3,
homem 6*

IV. Kepouso, béncño final


7° dia — 2,1-3

3. Como se vé, foram em parte os pressupostos contin


gentes da cosmología judaica que levaram o autor sagrado a
apresentar a criacao dentro do esquema de seis dias de tra-
balho e um de repouso. O escritor tinha necessáriamente que
recorrer a esses pressupostos, porque precisava de mencionar
as diversas criaturas visíveis ; nao intencionava, porém, dar
a autoridade de dogmas a tais informagóes cosmológicas. Sendo
assim, está claro que hoje em dia, urna vez ultrapassadas as
concepgóes de ciencia dos judeus, ninguém se deve julgar
obrigado (melhor aínda : ninguém se pode julgar habilitado)
a ensinar em nome da S. Escritura que o mundo foi feito den
tro da moldura de 3 + 3 dias.
Mais dois outros motivos (importantes, na mente do hagió-
grafo) devem ter concorrido para a descricáo da criacáo em
seis dias de trabalho e um de repouso. Seriam :
a) o simbolismo do número 7, principalmente quando
disposto segundo o esquema 6 -f 1 (tenha-se em vista o que
atrás dissemos neste particular) ;

— 66 —
b) o intuito de inculcar a lei do repouso semanal. Em
toda e qualquer fase da historia, é necessário que o homem
periódicamente se distancie de seus afazeres terrestres e, de
simpedido, eleve o espirito a Deus ; ora o próprio curso da
natureza sugere que tal distanciamento se dé de sete em sete
días, pois cada semana representa urna fase nova da Lúa,
fase que nao raro provoca mudanca no ritmo da vida terrestre.
Consciente, pois, da vantagem de que o povo de Deus obser-
vasse o descanso semanal, consagrando-o ao Senhor, Moisés
o formulou expressamente entre os preceitos da Lei; mais
tarde, visando dar o máximo de autoridade a tal mandamento,
um escritor sagrado de Israel, representando talvez a menta-
lidade dos levitas e sacerdotes, houve por bem (sob a mogáo
do Espirito Santo) apresentar em Gen l,l-2,4a o próprio Deus
á semelhanga de Operario Modelo,... Operario Modelo que
enquadra sua atividade dentro da moldura de seis dias de
fadiga seguidos por um sétimo de descanso. Por conseguíate
retenha-se que o esquema de seis dias de trabalho e um de
repouso, em Gen l,l-2,4a, foi influenciado pela leiydo sábado
já anteriormente vigente em Israel; nao se julgue que, ao
contrario, o mundo foi primeiramente criado em seis dJas e
que, por causa disto, Moisés instituiu o repouso do sétimo dia.

Estas consideracñes nos permitem proferir um juizo sobre a


tese (dita «concordista») que equipara os seis dias da criagáo de
Gen 1 a seis eras de formacáo do mundo descritas pelos geólogos.
— Os fautores de tal sentenca supOem que o escritor sagrado tenha
nutrido a mesma intencáo que o geólogo: a intencáo de ensinar
ciencias naturais; em conseqüéncia, julgam-se obrigados a desco-
brir ñas páginas bíblicas os mesmos ensinamentos (de ordem cien
tífica e profana) que se léem nos compendios de ciencias naturais.
O pressuposto, porém, é falso; por conseguinte, errónea também é
a equiparado dos seis dias do «hexaémeron» a seis eras geoló
gicas. Ademáis a mencionada sentenca nao leva em conta a intencáo
(suficientemente patenteada pelo hagiógrafo) de adaptar a sublime
atividade do Criador ao esquema de atividade previamente concebido
para o povo escolhido, esquema de seis dias de 24 horas, em que
há manha e tarde...; note-se bem como o hagiógraío insistentemente
repete que cada dia da criacáo teve sua manhá e sua tarde...
A respeito do «concordismo», veja «P. R.» 23/1959, qu. 3.

Recapitulando, verificamos que o esquema de seis dias de


trabalho e um de repouso, sem pretender incutir alguma tese
de ciencias naturais, se explica pelos tres seguintes motivos:

1) o autor sagrado, visando ensinar qual o sentido que éste


mundo tem aos olhos de Deus, teve que se servir da linguagem
que os antigos israelitas usavam quando se referiam ao mundo;

— 67 —
ora entre os característicos dessa linguagem estava a mencáo das
tres clássicas reglSes que constituiam o arcabouco do universo: a
regiáo dos ares, a das aguas e a da térra...;
2) convinha, segundo a mentalidade simbolista do autor, enqua-
drar a obra do Criador dentro do esquema 6 + 1, para inculcar
que era e é muito boa;
3) tornava-se oportuno dar o máximo de autoridade a lei do
repouso semanal; daí a apresentacáo meramente literaria do Ope
rario Divino a dar o exemplo de observancia da semana...

4. Quanto á ordem de aparecimento das criaturas em


Gen 1, também é decorrente das antigás concep^es judaicas.

Com efeito. Os judeus julgavam que a luz e as trevas eram


entidades positivas, subsistentes em si mesmas; daí a separacáo
de luz e trevas na regiáo dos ares ou logo no primeiro dia da
criacáo, anteriormente & producáo do sol e das estrélas...
Os israelitas imaginavam outrossim que sobre a térra (conside
rada como grande disco plano) se estendia um firmamento ou urna
cúpula gigantesca de metal lino ou de cristal (cf. Jó 37,18); sobre
essa cúpula havia resérvatenos de aguas, aguas ditas «superiores»,
donde emanavam a chuva, a geada, o granizo...; da mesma cúpula
pendiam o sol, a lúa, as estrélas e os demais corpos celestes, cada
qual com seu roteiro fixo. Por debaixo do disco plano da térra,
a^reditavam haver aguas «inferiores», que vinham á tona ñas fontes,
nos ríos, ñas lagoas e nos océanos... É o que explica a separacáo
de aguas e aguas no segundo dia,... a enumeracáo das aves entre
os habitantes da regiáo das aguas (os pássaros voam, sim, entre
as aguas inferiores e as superiores).
Os judeus nos diriam também que a vegetacao é o forro ou
o tapete verde inseparável da térra. Dai o aparecimento das plantas
no terceiro dia, logo que se constituí a crosta terrestre, antes mesmo
da producáo do sol.
Mais ainda: os israelitas concebiam o sol, a lúa e as estrélas
á semelhanca de um exército que povoa os ares e disciplinada
mente obedece ás ordens do Senhor. Dai a obra do quarto dia...
Mais urna vez digamo-lo: o autor sagrado serviu-se de tais
concepcóes porque em sua época eram aptas a inculcar um ensina-
mento de fndole religiosa, nao porque Ihes quisesse atribuir auto
ridade dogmática.

Tudo quanto até aqui foi dito, visava chamar a atencáo do


leitor para a auténtica mensagem do texto sagrado, que vamos
agora explícitamente propor.

3. A mensagem do «haxaémeron»

Urna vez entendidos os artificios poéticos de Gen 1, per-


gunta-se : que se deverá reter da Ieitura de tal passagem
bíblica ?
— A mensagem do «hexaémeron», que é estritamente
«metafísica» ou teológica, pode ser resumida nos seguintes
termos :

— 68 —
1) A respeito de Deus :
a) Deus é Um só. Os astros, os bosques e os animáis,
freqüentemente cultuados pelos povos antígos, sao meras cria
turas de um só Criador, destinadas a servir ao homem, que
é o imediato lugar-tenente de Deus neste mundo. Por conse-
guinte, também nao há fato nem inelutável destino;
b) Deus é eterno. Nisto distingue-se radicalmente do
mundo, que comegou no tempo e foi tirado do nada (contra
riamente ao que pretendem o panteísmo e o monismo) ;
c) Deus é perfeito, pois tudo que Ele cria é muito bom.
Cria nao por necessidade, nem por aventura (comió ñas nar
rativas da mitología), mas únicamente a fim de derramar a
sua bondade. OmaLno mundo, porjeonseguinter-náo^yem de
Deus, mas é ocasionado pela criatura mesma, como refere o
texto sagrado no documento justaposto ao «hexaémeron» (cf.
Gen 2,4b-3,24 e «P. R.» 5/1957, qu. 1).

2) A respeito do mundo :
a) O mundo nao é eterno. Exclui-se, portante, qualquer
dualismo de principios — o Principio do Bem (Espirito) e o
Principio do Mal (Materia) — que disputem entre si as sortes
da historia;
b) o mundo nao se originou por si mesmo nem por
acaso, mas teve um inicio, que Deus Ihe deu. Urna vez criada,
a materia pode ter evoluído dos graus inferiores para os graus
superiores dos seres materiais, segundo as leis que o Criador
Ihe incutiu. Naohá, pois, dilema entre, criagao e eyolngao.;
c) as criaturas~s!o originariamente boas, destinadas a
reproduzir, cada qual do seu modo, urna faceta da infinita
perfeicáo divina.

3) A respeito do homem:
a) o ser humano é algo de totalmente novo entre os
demais. O autor nada diz sobre a maneira como o corpo do
primeiro homem se originou ; nem sequer menciona o barro
(cf. Gen l,26s). Pode-se admitir, portante, para o corpo hu-
l'mano, qualquer teoría fixista on evolucionista que reconheca
a criacáo da materia inicial por parte de Deus. Quanto á alma
humana, o autor sagrado insinúa a sua transcendencia sobre
a materia. Com efeito ; o homem é dito imagem e semelhanca
de Deus ; ora tal dignidade — exclusiva da criatura humana —
nao Ihe compete por parte do corpo (pois Deus nao tem corpo),
mas, sim, por parte da alma intelectiva, espiritual. Esta, por-
tanto, nao sendo corpo, nao se pode ter originado do corpo
ou da materia ; só pode ter sido diretamente criada por Deus;

— 69 —
b) igual dignidade convém ao varáo e a mulher, pois
ambos foram feitos á imagem e semelhanga de Deus;
c) o matrimonio é algo de santo, instituido e abengoado
pelo próprio Deus, nao simplesmente para que o homem sa
tisfaga a si, mas a fim de que cumpra um designio divino.
Eis as verdades perenes que o texto sagrado, sob vestes
literarias anteriores á era crista, tem a dizer ao homem do
sáculo XX! Nessa escola, sem dúvida, muitos estudiosos con
temporáneos teráo algo que aprender.

5) «Dado que se admitam fontes na redacáo do Génesis


e dos livros bíblicos em geral, como se pode aínda asseverar
que tais livros sao inspirados por Deus ?»

A resposta se evidencia sem dificuldade desde que se tenha


em mente o genuino conceito de inspiragáo bíblica.
Como Já dissemos em «P. R.» 21/1959, qu. 5, a inspiracáo bíblica
nao significa revelacáo, isto é: inspirando urna página da Sagrada
Escritura, Deus de modo nenhum comunicava. ao autor sagrado
verdades que ele nao tivesse aprendido na escola de seu povo e
de sua época mesma. Verificava-se apenas o seguinte: supondo o
cabedal de noches religiosas ou profanas já existentes na mente do
escritor, o Senhor iluminava a éste de tal modo que ele percebesse,
com a clareza e a certeza do próprio Deus, serem tais e tais
nogóes previamente adquiridas os veiculos fiéis da mensagem que o
Senhor Deus quería transmitir aos homens;... serem tais e tais outras
nocoes ineptas para ésse fim. Em conseqüéncia dessa iluminacáo,
o que o autor escreveu e consignou na Biblia Sagrada, é dito «inspi
rado por Deus». Tal é o alcance da inspiragáo bíblica; nao seria
licito dilatá-lo arbitrariamente.

Faga-se agora a aplicagáo de tal conceito de inspiracáo


ao problema das fontes utilizadas na Biblia. Tais fontes ou
documentos (como, por exemplo, os códigos J, P, E, Dt no
Pentateuco) podem ter sido redigidos diretamente sob a in
fluencia da inspiracáo bíblica ou nao. No primeiro caso, nao
há problema. No segundo caso, acontecía o seguinte: quando
o documento redigido independentemente da inspiracáo bíblica
estava para ser utilizado pelo hagiógrafo (fósse éste o redator
principal de um livro bíblico, fósse apenas um autor posterior
que completasse determinado livro bíblico), tal hagiógrafo re-
cebia a iluminacáo de que falamos atrás ; tudo que, em con
seqüéncia desta iluminagáo, o autor transcrevesse de sua fonte,
passava a ser a palavra do hagiógrafo ou — em outros ter
mos — a Palavra de Deus inspirada ao hagiógrafo.
«Dando a luz da inspiracáo,... Deus comunicava a vontade do
hagiógrafo o impulso necessário... para rejeitar ou para admitir.
Desde entáo essa página humana tomava outra índole: fazendo-a

— 70 —
elementos, em sua origem primaria, sumariamente... em sua exis
tencia, essa página se tornava divina, garantida por Deus, inserida
no livro de Deus, por especial efeito de sua vontade» (Lagrange,
L'inspiration des livres saints, em «Revue biblique» 1896, 215s).

Em conseqüénda, deve-se dizer que todos os textos bíbli


cos sao inspirados, qualquer que seja a sua origem; para se
afirmar isto, basta que sejam textos canónicos, isto é, textos
que integram realmente o Livro Sagrado reconhecido pela
Santa Igreja.

IV. MORAL

ENFEBMEIBA (Itajubá) :

6) «Até que ponto será lícito ao médico pesquisador uti


lizar, para suas experiencias, os corpos de pessoas vivas ?
Que pensar no caso particular dos condenados a morte ?
Nao toca as autoridades civis o direito de sacrificar a
saúde ou a existencia de certos súditos em prol da ciencia e
do bem comum da humanidade ?»

AGALIÉME (Salvador) :

7) «A Igreja é táo alheia ao progresso da ciencia que


na Idade Media o Papa Bonifacio Vlll parece ter proibído até
mesmo experiencias em cadáveres !»

Fato digno de nota : o Cristianismo, embora se oponha


frontalmente a todo materialismo, nutre profundo respeito
pelo corpo humano, justamente porque sabe que éste é sede
de urna alma nao material, mas espiritual. É a presenta do
espirito na materia que leva o cristáo a estimar a própria ma
teria do corpo humano. Para abordar devidamente o tema,
em primeiro lugar teremos que definir o que se entende por
«experiencia médica» ; a seguir, proporemos os principios que
regem a consciéncia crista perante os problemas formulados
nesse setor.

1. O conceito de experiencia médica

Há quem queira definir a experiencia médica como sendo o


tratamento infligido a um organismo sadio, com o fim de se averiguar
a eficacia de determinada terapéutica cujos resultados ainda sao
mcertos ao operador. Disto se seguirla que tratamentos semelhantes
aplicados a organismos doentes já nao cairiam sob a nocáo dé expe
riencia médica. — Tal conceituacáo nao parece adequada, pois é

— 71 —
sua, o autor tornava-a também obra de Deus. Humana em seus
evidente que também a um organismo enfermo se podem aplicar
processos terapéuticos que sao meras provas ou ensaios.

Sem nos deter na análise de outras sentengas, diremos


que o melhor conceito de experimentagáo médica tem-na na
conta de ensaio feito em qualquer organismo doente ou sadio,
para ampliar os conhecimentos ou verificar urna hipótese de
Medicina. A experiencia, por conseguirte, — e éste trago é de
importancia capital para nosso estudo — nao visa por si o
bem do sujeito ao qual ela se aplica, embora possa beneficiar
ou curar a éste.
Vejamos agora qual o juízo que a consciéncia crista pro-
fere a respeito de tal empreendimento.

2. As normas da Moral crista

. A. As restrigoes

Há quem deíenda a liceidade — e liceidade irrestrita — da


experimentagáo, apelando para um dos tres seguintes fatores: a) os
interésses da ciencia, b) as vantagens do paciente; c) o bem da
sociedade.
Examinemos o alcance de cada um désses tres elementos.

a,) Os interésses da ciencia

A medicina, alegam alguns, só pode progredir devidamente


caso instaure experiencias. Ora nao se pode restringir sistemá
ticamente o ámbito destas a animáis irracionais, pois a capa-
cidade de reacáo do homem varia em confronto com a dos vi-
ventes inferiores, varia mesmo de idade a idade, de raga a
raga, etc. Donde se percebe a conveniencia da experimentagáo
nos mais variados organismos.

Bilroth chegou a afirmar que o progresso da medicina passa


por cima de u'a montanha de cadáveres. Alias já o sabio romano
Pllnio notava sarcasticamente que os médicos «aprendem a custa
nossa e instituem suas experiencias através da própria morte» (Hist.
nat. XXXIX 1).

Pois bem; a quem assim raciocina, será oportuno recor


dar o seguinte : a reta hierarquia dos valores assevera que
no binomio «Homem e Ciencia» a ciencia é mero meio, o
homem é o fim ¡mediato desta; a ciencia é destinada a pro
mover o bem-estar do homem, mesmo do paciente ao qual ela
se aplica, e nao vice-versa. Com efeito, a personalidade hu
mana é tal que ela se relaciona diretamente com Deus, nao
estando subordinada a fim algum intermediario ; por isto toda

— 72 —
personalidade, seja sadia, seja doente, seja de raga branca,
seja de raga negra, tem algo de sagrado e intangível aos inte-
résses temporais, anida que sejam os interésses da cultura e
da ciencia.

Em urna palavra: o íim nao justifica os meios; o que


no caso quer dizer: o progresso da ciencia nao justifica tal crime
que é a extorsao da saúde ou da vida de urna pessoa humana.
Quem reduz o próximo á categoría de instrumento da ciencia, vili
pendia o valor sagrado que Deus atribuí a toda personalidade. Nao
há «cobaia humana».

b) As vantagens do enfermo

Pode haver casos em que o médico julgue que tal trata-


mente novo, pouco comprovado pela experiencia, é apto a
produzir em tal paciente resultados benéficos... Que dirá
entáo a Moral crista ?
Nao vedará a ésse médico, de maneira formal, a aplicagáo
da referida terapéutica, mas, entre outras cláusulas (de que
abaixo mais explícitamente trataremos), impor-lhe-á obtenha
o consentimento do respectivo doente para a execugáo do tra-
tamento ; nao será lícito ao clínico ou ao cirurgiáo empreender
o referido tratamento por simples iniciativa sua. Com efeito;
as relagóes entre o médico e o enfermo estáo baseadas na en
trega de si que éste faz áquele ; donde se vé que a intervencáo
do módico jamáis poderá ultrapassar os limites do consenti
mento ou da entrega do cliente. — Éste, por sua vez, jamáis
poderá outorgar ao médico direitos que ele mesmo, paciente,
nao possui; na verdade, nenhum homem é proprietário de
sua vida ; todos sao meros administradores da mesma, tendo
como dever primordial o de a conservar zelosamente (em
vista, sim, de urna existencia superior, ultraterrestre, que se
vai configurando na vida presente) ; em conseqüéncia, a ne
nhum individuo, enfermo ou sao, é lícito entregar sua vida a
urna técnica nova, mais ou menos desconhecida, que, visando
fazer experiencias, ponha em perigo a existencia do respectivo
sujeito.

É o que o Santo Padre Pió XII recorda no seguinte inciso


de discurso dirigido aos membros do I Congresso de Histopatologia
em 13/DC/1952 :
«O médico só tem sobre o paciente o poder e os direitos que
éste lhe dá, seja explícita seja implícita e tácitamente. O paciente,
por sua vez, n&o pode conferir mais direitos do que possui...
O paciente nao é senhor absoluto de si mesmo, do seu corpo
e espirito. Nao pode, por conseguinte, dispor livremente de si mesmo
como Ihe agrade... Ele está ligado á teleología imánente, fixada pela
natureza. Possui o direito de uso, limitado pela finalidade natural, das

— 73 —
facilidades e das fórcas da sua natureza humana. Pois que é usufru-
tuário e nao proprietário, nao tem poder ilimitado de por atos de
destruicao ou de mutilacáo de caráter anatómico ou funcional...
Portanto o paciente nao tem o direito de comprometer a sua inte
gridade física e psíquica em experiencias ou investigacóes médicas,
quando estas intervenc8es acarretem consigo ou após si destruigóes,
mutilacSes, ferimentos ou perigos serios» (transcrito da «Revista
Eclesiástica Brasileira» XII [1952] 948s).

Sómente num caso os interésses do doente exigiriam o


sacrificio de alguma parte do seu corpo, a saber: no caso em
que essa parte, enferma ou sadia, pusesse em perigo a saúde
ou a vida do sujeito. Tal norma entende-se bem, dado que a
vida do corpo representa um valor superior ao da integridade
de seus órgáos.

c) O bem da sociedade

1. A sociedade, dizem-nos, pode exigir seja, em expe


riencias de medicina, sacrificada a saúde de alguns individuos
em favor da higiene pública. Sendo assim, as autoridades civis,
a quem compete promover o bem comum, será lícito outorgar
aos médicos plenos poderes para o exercicio de suas experiencias.
A esta argumentáQáo responder-se-á que o bem comum,
sem dúvida, exige e justifica as pesquisas das ciencias.
Mas que é própriamente o bem comum ?
É o que resulta do acumulo de muitos bens particulares
dispostos na hierarquia ou na ordem devida. O bem comum,
embora distinto dos bens particulares, nao destrói a estes, mas
os completa e aperfeigoa. Em outros termos, diríamos: o in
dividuo humano nao está subordinado as utilidades e vantagens
da sociedade, mas, ao contrario, a sociedade é que existe por
causa do individuo; a comunidade é o grande meio estabele-
cido pela natureza e por Deus para ajudar cada individuo a
desenvolver plenamente a sua personalidade.

A mesma doutrina é ilustrada ainda pela seguinte observacao :


distinga-se entre unidade física e unidade moral.
A unidade física é aqueta que compete a um organismo vivo (de
vegetal ou de animal): nenhuma das respectivas partes, fora do
organismo, tem sentido ou finalidade; cada urna está inteiramente
a servico do todo a que pertence; disto se segué que, num organismo,
os interésses do conjunto podem legítimamente exigir o sacrificio de
urna ou mais das' partes integrantes.
A untdade moral, ao contrario, é aquela que compete a urna socie
dade: cada individuo ai conserva sua definicSo e sua face próprias;
nenhum é própriamente parte integrante désse todo que é a socie
dade: nenhum se relaciona sob todos os pontos de vista com os
demais e com a coletividade; o único laco que na sociedade prende

— 74 —
os individuos entre si, é a tendencia para os mesmos objetivos ou
fins; disto se depreende que a autoridade pública, encarregada de
promover o bem social, pode, sim, exigir a colaboracáo dos indi
viduos em demanda dos fins da sociedade, mas carece de poder
direto sobre o físico ou sobre a personalidade dos individuos; qual-
quer atentado contra esta última vem a ser um abuso de autoridade;
equivale a destruir um bem particular, quando justamente a socie
dade tem por fim promover o bem comum, completando e aperíei-
coando os bens particulares.

2. Dir-se-á, porém : no caso de aplicacáo da pena de


morte, a sociedade nao destrói o ser físico de seus membros ?
— Nao trataremos aqui da legitimidade ou nao da pena
de morte, pois o assunto já foi abordado em «P. R.» 7/1957,
qu. 15.
Interessa-nos realcar diretamente, nesta ordem de idéias,
que o caso da pena de morte supóe e representa um problema
diferente do que aqui estamos considerando. De fato, neste
artigo estudamos a hipótese de se querer promover o bem
comum (a saúde pública) a custa de individuos particulares
(reduzidos a «cobaias»), quando estes sao de todo inocentes,
ou quando a existencia déstes nao é por si nociva ao bem
comum. No caso de pena de morte, ao contrario, supóe-se um
individuo que por sua conduta de vida seja-gravemente pre
judicial ao bem comum, ocasionando um conflito entre bem
individual e bem coletivo; caso éste conflito nao se possa
solucionar por outra via, diz a Moral Católica ser lícito eli
minar o bem individual (a vida do réu incoercível) a fim de
permitir a devida existencia do bem comum.— Nesta hipótese,
alias, a autoridade civil só faz eliminar a vida corporal e tem
poral do réu; a éste fica sempre assegurada a possibilidade
de conseguir a salvacáo eterna mediante um arrependimento
sincero e (desde que goze de assisténcia religiosa) a recepgáo
do sacramento da Penitencia. Destarte a pena de morte, em
teoría, nao se opóe aos principios da Moral crista.

Dito isto. seja licito acrescentar, de passagem, ligeira observacao:


é muito difícil, principalmente em nossos dias, chegar-se á certeza
de que, em tal e tal caso concreto, o conflito entre bem individual
e bem comum é insolúvel ou nao se pode resolver senáo pela morte
do individuo. Por isto, a pena de marte, embora seja justificada em
teoria, na prática pouco se recomenda, pois pode fácilmente tomar
o caráter de pena meramente vingativa ou de represalia do taliáo.

Aínda a propósito observe-se: suposto que alguém seja


realmente segundo a Justina condenado á morte (o que é difí
cil de se averiguar), alguns moralistas inclinam-se a admitir
como lícito, seja o réu entregue á experimentacáo dos médi
cos ; caso escape a estas incólume, seja definitivamente isento

— 75 —
da pena, em reconhecimento dos servigos prestados á sociedade
no ato de se sujeitar as experiencias (tais servigos equivalem
a urna reparagáo dos crimes cometidos pelo réu). A razáo
por que os referidos moralistas assim pensam, é que pela en
trega do réu as máos dos estudiosos apenas se faz mudar a
modalidade pela qual se executa a sentenga capital. — A rigor,
nada se pode objetar contra os autores que. deféndem ésse
parecer. Na prática, porém, será preciso absolutamente evitar
que dé ocasiáo ao proferimento de sentengas injustas, inspira
das pelo desejo de fornecer material humano aos laboratorios
médicos.

B. O lícito e o ilícito

As experiencias médicas podem, em certas circunstancias, tor


nar-se licitas, quando realizadas em enfermos ou em cadáveres; sao,
porém, na maioria dos casos, ¡licitas, quando efetuadas em pessoas
sadias.

a) Em pessoas enfermas

1. Inegavelmente ocorrem casos em.que, com probabili»


dade de éxito, se podem experimentar em pessoas doentes no-
vos processos de cura. Com efeito, a Medicina é ciencia, em
grande parte, empírica. Como foi dito atrás, a constituigáo
fisiológica própria de cada enfermo pode fazer que reaja a
certos tratamentos de maneira pessoal, diversa do modo como
tenham reagido animáis anteriormente experimentados; por
conseguinte, há situagóes em que determinada terapéutica
pode produzir nao sómente os efeitos previstos, mas também
resultados imprevistos aptos a "beneficiar de novo modo o
paciente. Toma-se lícita entáo a sua aplicagáo, desde que se
observem as seguintes condisóes :

a) o tratamento que se vai aplicar ao doente, nao seja por si


nocivo, mas já haja dado bons resultados em certos casos;
b) nao se conheca, ou nao se possa aplicar, remedio de eficacia
mais segura:
c) ponderem-se bem os efeitos bons e os efeitos maus do trata-
mentó em foco, de sorte que se possa dizer que, mediante a apli-
cacáo do mesmo, há realmente esperanca de promover o bem do
paciente. Em outros termos: os efeitos bons previstos com pro-
babilidade deveráo ser tais que compensem o risco dos efeitos maus
previsiveis;
d) tomem-se todas as cautelas para evitar os efeitos daninhos
desnecessários;
e) consintam o enfermo ou, ao menos, seus responsáveis na
aplicacao do tratamento; caso o paciente esteja para correr perigo
de morte, proporcionar-se-lhe-á a devida assisténcia religiosa.

— 76 —
Estas cláusulas nada mais sao do qué aquilo que a Moral sempre
exige para a liceidade de urna acSo que tenha duplo efeito. É ao
médico que, em última análise, compete avaliar as circunstancias
próprias de cada caso e julgar, diante de Deus, a moralidade da
referida terapéutica.

2. Em se tratando de moribundos, parece que se podem


permitir experiencias que, sem lhes afetar o ritmo da doenca,
possibilitem ao médico determinar com mais seguranza a
morte do paciente e deter de certo modo a decomposicáo do
corpo após o falecimento.

3. Estas normas já indicam o que pensar da objecáo segundo


a qual a Moral católica é tida como contraria ao progresso da ciencia.
A objecao carece de fundamento. O que a Moral visa, é fazer
que o médico trate o paciente na qunlidade de médico, ou seja, de
incondicional promotor do bem do enfermo. O profissional, por conse-
guinte, so poderá ter um objetivo com relacáo ao doente: curfi-Io.
É claro, como notamos atrás, que a procura do bem do paciente
pode sugerir o emprégo de novos métodos, que tenham riscos anexos
a si. A Moral está longe de exigir que se exclua todo risco na tera
péutica; isto ultrapassaria as possibilidades humanas, parausaría a
ciencia e prejudicaria o próprio enfermo. A consciéncia católica
apenas afirma que, além de certo grau de riscos e perigos, nSo
é licito ao médico proceder, pois, se assim fizesse, já desdiría o
seu mistar, deixando de ser o amigo do enfermo para ser um frió
intelectualista colocado diante de sua cobaia. Posta esta restricáo, que
visa salvaguardar os direitos da pessoa humana, ainda resta ampio
campo de investigado para os dentistas; tenha-se por certo que
as normas de Moral nunca constituiram obstáculo para o verdadeiro
progresso da humanidade; ao contrario, elas só fazem canalizar os
esforcos do genio humano, a fim de que nao se desvirtuem, procurando
bens ilusorios em vez do bem auténtico.

b) Em cadáveres

Durante muito tempo dizia-se que o Papa Bonifacio Vm


em 1299 publicou urna bula a proibir o exame médico de
cadáveres ; hoje em dia, porém, reconhecem os críticos que
essa versáo nao passa de pura lenda. O estudo de anatomia
sobre cadáveres, já há varios séculos, é oficialmente reconhe-
cido por leis tanto civis como eclesiásticas (a ressurreicáo da
carne, como sabemos, nao depende do tratamento que se dé
aos corpos dos defuntos).
Tenta-se em nossos dias fazer a transposieáo de tecidos
(da córnea, por exemplo) e órgáos de um cadáver para um
organismo vivo. Do ponto de vista moral, nada se pode objetar
contra tais operacóes, desde que o doador seja um corpo real
mente morto, nao um ser ainda agonizante ; enquanto a vida
persiste num individuo humano, é ilícito mutilá-lo, ainda que
isto se faga em beneficio de outrem.

— 77 —
Contudo, em se tratando do aproveitamento de cadáveres para
ílns medicináis, os familiares dos deíuntos ou outras pessoas legíti
mamente vinculadas a estes teráo sempre o direito de se pronunciar
e até de se opor a tal uso; os sentimentos de tais pessoas deveráo
merecer todo o acato, de modo que nao será licito aos médicos
contrariá-los. Semelhantemente, ás autoridades civis compete o direito
de legislar a respeito da utilizacáo medicinal dos cadáveres, respei-
tando ou protegendo os afetos de parentes e amigos, impedindo a
mutilacáo antes de estar verificado, o respectivo desenlace, vedando
sejam entregues aos experimentadores os corpos de quem haja
morrido de marte criminal ou de quem acarrete perigo para a
saúde pública.
A consciéncia crista julga outrossim injusto serem os cadáveres
dos pobres falecidos em clínicas públicas e hospitais destinados aos
servicos da medicina, ficando isentos disto os corpos dos menos
pobres.
Ainda a tal propósito, será preciso irisar bem que um cadáver
humano, principalmente de um fiel batizado, deverá sempre ser
tido como digno de todo o respeito e consideracáo.

c) Em individuos sadios

1. Assim como a Moral católica aprova as experiencias


feitas sobre doentes e cadáveres ñas circunstancias descritas,
assim ela repudia tratamento análogo infligido a pessoas que
gozem de boa saúde. Nao é, por conseguinte, lícito provocar
nestas uma doenga qualquer a fim de se averiguar a eficacia
dos remedios com que o mal será combatido. Como dissemos,
porém, alguns moralistas excetuam aqui as pessoas sadias que
tenham sido, por legítima sentenca, condenadas á morte;
cf. pág. 75 déste fascículo.

2. Contrariamente as leis da Ética, o rei Átalo III Filometor,


de Pérgamo (tl33 a. C), experimentava o poder terapéutico das
ervas de seu horto, servindo-as aos convidados de sua mesa; de modo
semelhante parece ter procedido o rei Mitridate Eupator, do Ponto,
em colaboracao com o seu médico Cratena, experimentando venenos
e contra-venenos.
Os escravos foram na antigüidade também indevidamente utili
zados para semelhantes iins. Nao faltaram no decorrer da historia
médicos que, julgando demasiado dispendiosas as experiencias com
animáis irracionais, preconizaram fazé-las com enancas; assim Ti-
schendorf, no século passado, instilava pus blenorrágico nos olhos
dos pequeninos para fomentar ai a conjuntivite blenorrágica que leva
á cegueira.
Após a última guerra mundial, as buscas realizadas na Alemanha
sobre os procedimientos do govérno nacional-socialista revelaram
ampio recurso aos prisloneiros dos campos de concentracao a fim
de se realizaren» experiencias médicas: os estudiosos costumavam
pedir ás autoridades pollciais tantos individuos para tais pesquisas,
tantos outros para tais outras experiencias, etc. — Alias, desde inicios
do séc. XIX os médicos em larga escala tém recorrido a experimen-
tagáo em pessoas sadias; por exemplo, num Congresso reunido em

— 78 —
Píalz no ano de 1855 um dentista enviou seu relatório descre-
vendo como inoculara a sífilis em 23 pessoas; fez questao, porém,
de silenciar a sua identidade (donde o titulo de «Anónimo de Píalz»
que lhe íoi atribuido). — Tudo isso sao aberragóes.

3. Merece atengáo especial o caso de se provocar em


organismos humanos sadios urna doenca já incutida em irra-
cionais de modo tal, porém, que estes foram restaurados saos.
Em vista da fundada esperanga de recuperagáo da saúde, a
Moral permite semelhante procedimento com seres humanos.
É o que se dá em geral quando se quer comprovar em termos
definitivos o poder medicinal de certas vacinas. Seja, porém,
permitido recordar com que escrúpulos; Pasteur aplicava a
individuos humanos a vacina contra a raiva, mesmo depois
de a ter repetidamente experimentado, com feliz éxito, em
caes de toda idade e condicáo.
4. Quanto ao seu próprio corpo, o médico nao goza de
maior liberdade do que em relagáo ao corpo do próximo ; por-
tanto nem a si mesmo o médico pode transformar em cobaia.

C. O Código do médico experimentador

A guisa de conclusáo de quanto foi dito até aqui, transcrevemos


abaixo as dez normas para o médico experimentador baixadas pelo
Tribunal de Nürnberg aos 19 e 20 de agosto de 1947. Sao regras
que a consciéncia católica, esclarecida pelas explicacóes que precedem,
aceita sem dificuldade:
«Os principios fundamentáis que devem reger toda a tarefa de
experiencias médicas sao os seguintes :
1) Haja consentimento voluntario do sujeito que tenha capaci-
dade legal e total de consentir, sem coacao de parte alguma e com
conhecimento minucioso da natureza dos riscos da experiencia. O
experimentador nao pode transferir a outrem sua responsabilidade
neste setor.
2) A experiencia seja necessária e nao se possa realizar de
maneira diversa (menos perigosa).
3) A experiencia deve ter sido preparado por provas em animáis
e por um estudo profundo da questao.
4) A experiencia deve evitar todo soírimento e todo risco des-
necessário.
5) Requer-se nao haja perigo de marte nem de invalidacáo
perpetua, excetuado o caso de auto-experimentacáo (l).
6) O médico deve esforcar-se por evitar todo eventual perigo.
7) Os riscos nao devem exceder as vantagens reais da experiencia.
8) O experimentador deve ser perito qualificado.
9) Ao paciente reconhecer-se-á o direito de mandar interromper
a experiencia (2).

(1) A Moral católica nao reconhece esta excecáo.


(2) Evidentemente a interrupcao desejada pelo paciente pode
acarretar graves danos para o próprio doente. Incumbirá entáo ao
médico fazer-lhe ver os perigos a que se expóe, e terminar quanto
antes o tratamento, evitando conseqüéncias desagradáveis para o
enfermo.

— 79 —
10) O experimentador deve estar disposto a interrompé-la em
caso de possível perigo».

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

PEREGRINO (Belo Horizonte) :

8) «Qual a origem e qual o significado da devogao a Via


Sacra do Senhor ?

Por «Via Sacra» entende-se um exercício de piedade segundo o


qual os fiéis percorrem mentalmente com Cristo o caminho que
levou o Senhor do Pretorio de Pilatos até o monte Calvario; compre-
ende quatorze estac.5es ou etapas, cada urna das quais apresenta urna
cena da Paixáo a ser meditada pelo discípulo de Cristo.
Embora semelhante exercicio seja assaz antigo na historia do
Cristianismo, as modalidades que ele hoje em dia apresenta sao
recentes. Percorramos, portanto, rápidamente o histórico da «Via
Sacra» para entendermos o significado dessa prática.

1. Peregrinaeao em miniatura

Há certas devocSes do povo cristáo que nada mais sao do que


a forma simplificada de formas anteriores tidas como próprias de
urna élite ou como dependentes de circunstancias históricas ultra-
passadas.
Tal é o caso, por exemplo, do Santo Rosario. Na antiga Igreja
os ascetas tendiam a rezar diariamente ou, ao menos, a intervalos
regulares os 150 salmos da Escritura Sagrada. Com o teinpo, porém,
esta tarefa tornou-se impraticável, seja porque a vida cotidiana se
complicou. seja porque os fiéis foram perdendo o entendimento dos
salmos; daí a substituyao déstes por 150 «Ave Marías» distribui
das em dezenas, cada urna das quais representa um dos misterios
de nossa Redencao (por sua vez, os salmos nos falam dos mis
terios do Redentor e do seu Reino na térra).
Tal é o caso também do hábito monástico. Esta veste significa
consagrado a Deus e pertinencia a urna familia religiosa cumulada
de beneficios espirituais. O uso, porém, do hábito monástico nao é
permitido a cristáos que vivem no século, embora éles se anexem,
dentro das suas possibilidades, á dita familia religiosa. Dai a reducáo
do hábito á forma de «escapulario», peca que pode fácilmente (e
com notáveis vantagens espirituais) ser usada pelos seculares.
As ñoras canónicas ou as preces oficiáis da Igreja constituem urna
forma de oracáo muito digna e rica de sentido, mas longa e difícil
para o comum dos fiéis. Em conseqüéncia, compds-se o «Oficio Parvo»
ou «marlano», acesslvel aos leigos mais simples, que o recitam até
de cor.
Pois bem; nesta serie devele enumerar também a Via Sacra.
Já que a peregrinaeao aos lugares santos da Palestina é um ideal
para todo cristáo, ideal, porém, que poucos conseguem realizar,
a Santa Igreja consentiu em que os fiéis pratiquem urna peregrinacáo
em espirito, enriquecida de gracas semelhantes ás que estáo anexas

— 80 —
a urna verdadeira peregrinacáo. É o que se dá justamente no exercício
da Via Sacra.
A éste vamos agora voltar nossa atengáo, considerando esque
máticamente

2. O histórico da devocáo á Via Sacra

1. Desde os primordios do Cristianismo, os fiéis dedicaram


profunda veneracáo aos lugares santificados pela vida, a morte e a
glorificado do Senhor Jesús. De longinquas regióes afluiam á Pales
tina, a íim de lá orar, deixando-nos em conseqüéncia suas narrativas
de viagem, das quais as mais importantes na antigüidade sao a
de Etéria e a do peregrino de Bordéus (séc. IV). Voltando as suas
patrias, ésses peregrinos nao raro procuravam reproduzir, por meio
de quadros ou pequeños monumentos, os veneráveis locáis que haviam
visitado.

2. A tendencia a «reproduzir» se acentuou por efeito


das Cruzadas (séc. XI/XHI), que proporcionaran! a muitos
fiéis o ensejo de conhecer os lugares santos e de se nutrir da
espiritualidade dos mesmos. Entáo, principalmente nos mos-
teiros, se foram erguendo cápelas ou monumentos que recor-
davam os diversos santuarios da Térra Santa e eram objeto
de «peregrinagáo» espiritual dos monges e das monjas que
nao podiam viajar em demanda do Oriente.

Conta-se, por exemplo, que a bem-aventurada Eustochium (t 1491),


pobre Clarissa de Messina. construiu no interior da clausura um
recintozinho que lembrava a Natividade do Senhor, outro que evocava
a casa de sua Máe Santíssima, e outros mais que signiíicavam
respectivamente o monte das Oliveiras, o Cenáculo,as casas de
Ana e Caifaz, o pretorio de Pilatos, o monte Calvario e, por fim, o
Santo Sepulcro. Visitava diariamente ésses monumentos e, «como
se houvera assistido ás cenas que éles representavam, contemplava
com lágrimas a bondade do Celeste Esposo e todos os feitos déste
na sua respectiva sucessáo» (Wadding, Annales Minorum, ad an. 1491).
Um dos casos mais expressivos da piedade fervorosa da Idade
Media é o seguinte : no mosteiro cisterciense de Louvao (Portugal),
havia, provávelmente no séc. XV, urna Religiosa conversa que, antes
de se consagrar a Deus no claustro, levava vida muito mortificada;
entre outros atos de piedade, emitirá o voto de peregrinar á Térra
Santa. Tendo, porém, entrado para o mosteiro, já nao podía dispor
de si para empreender tal viagem; achava-se, por conseguinte, con
tinuamente preocupada com a lembranca da promessa feita ao Senhor;
os escrúpulos a torturavam. Orava, porém, e mort¡ficava-se ardente-
mente, na esperanca de conseguir realizar seu designio. Foi entáo
que o Santo Padre o Papa promulgou um jubileu solene. concedendo
aos confessores faculdades extraordinarias, inclusive a de comutar
votos. A irma, feliz, resolveu entáo recorrer ao confessor, pedindo-lhe
comutacao (embora nao precisasse disto, pois sua profissáo religiosa
solene anulara qualquer voto de devogáo). O confessor, para dar-lhe
a paz de alma, respondeu-lhe que ela poderia fazer no mosteiro
mesmo urna peregrinacáo espiritual protraída por tanto tempo quanto

— 81 —
duraría a viagem á Térra Santa. Diante disto, a Religiosa, tendo obtido
o consentimento da sua Superiora, resolveu empreender o itinerario
espiritual: um belo dia despediu-se das Irmas e cessou o intercambio
com elas; doravante pelo prazo de um ano pós-se a peregrinar dentro
da clausura de um altar ou de um oratorio para outro, identifican-
do-os com os lugares santos que os peregrinos da Palestina costuma-
vam percorrer; tomava suas frugáis refeicdes depois que a comuni-
dade saia do refeitório, deixando para os pobres a mor parte dos
alimentos que lhe eram destinados; a noite dormía no chao, no
lugar mesmo em que se encontrava quando tocava o sino para o
repouso.

Após doze meses de tal regime, na tarde em que devia encerrar


a peregrinacao espiritual, a Irma íoi para a igreja, onde entrou
em oracáo diante do Santissimo Sacramento, com as máos erguidas;
ficou nessa atitude até a manhá seguinte, quando a Irma Sacrista,
tendo aberto a igreja, resolveu avisa-la de que os íiéis iam entrar
na igreja para assistir á Sta. Missa. Eis, porém, que a «peregrina»
estava morta, de joelhos, irradiando do seu semblante urna lumi-
nosidade extraordinaria...
O fato causou profunda impressáo nos fiéis da localidade, que
mais tarde disseram ter obtido gracas milagrosas por intercessao da
santa Religiosa... (cf. Frei Bernardo de Brito, Primeira Parte da
Chronica de Cister, 1. VI c. XXXIV fol. 463, Lisboa 1602).
Fique o episodio aqui consignado, a titulo de ilustracáo!...

3. De acordó com a documentacáo que nos resta, parece


que até o século XII só havia, para os peregrinos da Palestina,
guias e roteiros que orientavam a visita dos lugares santos
em geral, sem focalizar de maneira especial os que diziam
respeito á Paixáo do Senhor; em 1187, porém, apareceu o
primeiro itinerario que visava a vía percorrida pelo Senhor
Jesús ao carregar a cruz: é o opúsculo francés «L'éstat de la
Cltéz de Jhérusalem». Somente no fim do séc. XIH comeca-
ram os fiéis a distinguir nesse itinerario etapas ou estacóes,
cada urna das quais dedicada a um episodio do carregamento
da cruz e consagrada por urna oracáo especial. Por causa das
restrigóes ditadas pelos maometanos que ocupavam a Pales
tina, foi-se registrando, entre os cristáos, a tendencia a fixar
cada vez mais um programa determinado e quase invariável
para a visita dos lugares concernentes á Paixáo de Cristo ;
no fim do séc. XIV tal roteiro comum já existia : percorria
em sentido inverso a Via Dolorosa de Cristo, partindo da
igreja do Santo Sepulcro (monte Calvario) para ir terminar
no monte das Oliveiras (donde se vé que nao havia própria-
mente a intengáo de acompanhar em espirito Nosso Senhor
na sua caminhada dolorosa).

Eis aqui o itinerario que o peregrino inglés William Wey. tendo


estado duas vézes na Térra Santa (1458 e 1462), propunha sob a

— 82 —
forma de versos mnemotécnicos (Wey, alias, é o primeiro autor a
designar como «stationes», estacoes, as etapas da Via Dolorosa):
«Lap strat di trivium flent sudar sincopizavit
Por pis lapque schola domus her Symonis Pharlsey».

A explicagáo latina das Em tradugáo portuguesa


abreviagóes seria a seguinte :

1. Lapis cum crucibus super Pedra com cruzes sobre a qual


quem Christus cecidit cum cruce. Cristo caiu com a cruz.
2. Strata per quam Christus A estrada pela qual Cristo
transivit ad suam passionem. passou para padecer.
3. Domus divitis negantis mi A casa do ricago que negava
cas daré Lázaro. as migalhas a Lázaro.
4. Trivium ubi Christus ceci A encruzilhada na qual Cristo
dit cum cruce. caiu com a cruz.
5. Locus ubi mulleres flebant O lugar onde as mulheres cho-
propter Christum. ravam por causa de Cristo.
6. Locus ubi vidua sive Vero- O lugar em que a viúva ou
nica posuit sudarium super ía- Verónica colocou o véu sobre a
ciem Christi. face de Cristo.
7. Locus ubi beatissima Maria O lugar em que a mui bem-
sinoopizavit -aventurada Maria desmaiou.
8. Porta per quam Christus A porta pela qual Cristo pas
transibat ad passionem. sou para padecer.
9. Piscina in qua aegroti sana- A piscina onde os doentes eram
bantur tempore Christi. curados no tempo de Cristo.
10. Lapides super quas stetit As pedras sobre as quais Cris
Christus quando iudicatus erat to estéve quando o condenaram
ad mortem. a morte.
11. Locus ubi beata Maria tran O lugar em que a bem-aven-
sivit ad scolas. turada Maria íreqüentou a es
cola.
12. Domus Pilati. A casa de Pilatos.
13. Domus Herodis. A casa de Herodes.
14. Domus Simonis Pharisey. A casa de Simáo o Fariseu.

Como se vé, as estagóes désse itinerario estáo longe de coincidir


com as do exercicio da Via Sacra moderro; apenas quatro estagoes
da lista de Wey sao aínda em nossos dias observadas, a saber:
4. Trivium ou o encontró com o Cireneu;
5. Flent, ou o encontró com as santas mulheres que choravam;
6. Sndarlum, ou o encontró com a Verónica;
7. Sincopizavit ou o encontró com Maria Santíssima.

As outras estagSes do itinerario de Wey assim se explicam :


1. «Pedra com cruzes...»: havia urna pedra assinalada por
cruzes no patio (liante da igreja do Santo Sepulcro, pedra que
designava o lugar em que Jesús, ao carregar a cruz, caira pela
ultima vez (esta estagáo do itinerario de Wey poderia ser identificada
com a estagáo referente á terceira queda de Cristo no percurso
hoje em dia usual).
2. «Strata»: supunha-se estar pavimentada a estrada que levava
ao Calvario.
3. Alusáo á parábola narrada em Le 16,19-31.

— 83 —
8. Trata-se da Porta do Julgamento da antiga cidade de Jeru-
salém.
9. Referencia á piscina probática mencionada em Jo 5,2.
10. Alusáo as duas pedras talhadas que constituiam o arco do
«Ecce Homo».
11. Referencia á escola freqüentada por Maria Santíssima.
12. 13 e 14. Alusáo a casas que remotamente se prendem á
historia da Paixáo do Senhor.

Alguns autores de fins do séc. XV, entre os quais Félix


Fabri (1480), compraziam-se em afirmar que o itinerario
entáo adotado, do Calvario ao monte das Oliveiras, era aquéle
mesmo que a Virgem Santíssima costumava percorrer, recor
dando outrora os episodios da Paixáo de seu Divino Filho ;
tal assergáo, porém, era sugerida apenas pela devogáo, care-
cendo de fundamento na realidade histórica.

Note-se de passagem que os peregrinos da Térra Santa no


íim da Idade Media davam certamente provas de extraordinario fervor,
pois, para satisfazer á sua piedade, deviam submeter-se nao sómente
aos perigos moríais da viagem marítima (piratas e peste), mas tam-
bém a duras humilhacOes e dificuldades que os muculmanos ocupan
tes da Palestina lhes impunham. Tal fervor nao podia deixar de
provocar imitadores cada vez mais numerosos entre os cristaos que
estavam impedidos de empreender a viagem á Térra Santa; estes
deviam experimentar o vivo dcsejo de substituir a peregrinacáo local
ao Oriente por algum exercício de piedade que pudesse ser realizado
ñas igrejas ou nos mosteiros mesmos do Ocidente. É a ésse désejo
crescente que se deve o ulterior desenvolvimento do exercicio do
Caminho da Cruz.

4. O fervor levou, sim, os fiéis a querer percorrer o


Caminho Doloroso do Senhor Jesús nao na ordem inversa
(do Calvario ao monte das Oliveiras), mas observando a su-
cessáo mesma dos lugares e dos episodios que tecem a historia
da Paixáo: urna narrativa de viagem devida ao sacerdote
inglés Richard Torkington e datada de 1517 mostra que já
nesta data os fiéis seguiam o Caminho da Cruz em demanda
do Calvario, isto ó, na diregáo mesma que Nosso Senhor to
mara— o que lhes possibilitava reviver mais intensa e férvi
damente as etapas dolorosas da Paixáo. A partir de 1517, nao
se registra mais nenhum documento que refira as estagóes
sagradas a partir do Calvario.
No Ocidente as reprodugóes, em pintura ou escultura,
das estagóes da Via Dolorosa eram variadas. Algumas se con-
tentavam com a enumeragáo de sete etapas, também ditas
«Sete quedas de Jesús», porque em cada urna délas Cristo
aparee'a ou prostrado por térra ou ao menos vacilante sob o
peso da cruz e desejoso de se reerguer.

— 84 —
Assim, por exemplo, em fins do séc. XV se enumeravam:
1) o encontró de Jesús com su?. Máe Santíssima;
2) o encontró de Jesús com o Cireneu;
3) o encontró de Jesús com as mulheres de Jerusalém;
4) o encontró de Jesús com Verónica;
5) a queda de Jesús sob a cruz, a 780 passos da casa de Pila tos;
6) a prostracjio do Senhor sob a cruz, a 1000 passos da casa
de Pilatos;
7) a deposigáo de Jesús nos bracos da sua Máe Santissima.
Podiam-se enumerar na inconografia e na devoro dos Ocidentais
oito estacoes assim concebidas:
1) Jesús é condenado á morte;
2) Jesús cai pela primeira vez;
3) Simáo o Cireneu ajuda o Senhor a carregar a cruz;
4) a Verónica enxuga a face de Jesús;
5) o Senhor cai pela segunda vez;
6) Cristo encontra-se com as lilhas de Jerusalém;
7) Jesús cai pela terceira vez;
8) Jesús é despojado das suas vestes.
(Serie devida a Pedro Steckx ou Petrus Potens, de Lovaina, depois
que voltou de Jerusalém em 1505).

Também no sáculo XV alguns devotos tendiam a venerar,


juntamente com as sete quedas de Jesús, as sete dores de
Nossa Senhora, ou as tristezas da Virgem Santissima por con
templar, de cada vez, o seu Filho prostrado ou padecente sob
a cruz.

Alguns autores ocidentais de livros de piedade ou de


obras de arte sacra enumeravam por vézes 19 ou 25 ou até
37 estagóes na Via Dolorosa de Jesús. Parece aqui merecer
especial mencáo o fato de que foi na Alemanha e na Holanda
que nos séc. XV/XVI mais floresceu a devogáo para com a
Via Sacra do Senhor, ocasionando naturalmente grande número
de monumentos literarios e artísticos dedicados a tal tema.
5. Finalmente, entrou em cena na literatura ocidental
um livrinho que devia por remate á evolugáo do santo exer-
cício do Caminho da Cruz : era o opúsculo do carmelita fla-
mengo Jan Pascha (ou Jan van Paesschen), intitulado «A
peregrinagáo espiritual» (1563).

A viagcm espiritual ai descrita devia durar um ano, sendo assina-


lado para cada dia urna parte determinada do roteiro «Lovaina —
Térra Santa»; essa parte cotidiana era acompanhada de um tema de
meditacáo e de exercfcios de piedade. No primeiro dia, por exemplo,
o peregrino imaginava que ia viajar de Lovaina a Tirlemont, e
devia meditar sobre o tema «Deus, último Fim de todas as criaturas»;
no segundo dia, «viajava» de Tirlemont a Tongres, e meditava sobre
a criacáo dos anjos. etc. No 188» dia, porém, estando o «peregrino»
no horto das Oliveiras a contemplar a agonia de Jesús, advertía
Jan Pascha:
«Aqui comeca a primeira prece da longa caminhada da cruz.
As preces déste caminho sao em número de quinze...»

— 85 —
A segunda estacáo íazia-se na casa de Ana, ao 193* dia;
a terceira estacáo, ao 196° dia, no lugar em que Jesús fóra
encarcerado e submetido ao escarnio da soldadesca;
a quarta estagao, ao 206* dia, se íazia no tribunal de Pilatos,
onde Jesús íóra condenado;
a quinta estacáo se detinha no lugar em que Jesús tomara a cruz;
a sexta estacáo considerava o encontró de Jesús com sua Máe
Santíssima, assim como a segunda queda do Salvador (a primeira
queda, nao explícitamente venerada, se dera logo após a tomada
de cruz por parte do Senhor);
a sétima estacSo se dava no lugar em que o Cireneu auxiliara
Jesús a carregar a cruz, tendo o Divino Mestre ai caido mais urna vez;
a oitava estacáo assinalava o encontró de Jesús com Verónica
e a quarta queda do Senhor;
a nona estacáo cultuava o encontró de Jesús com as íilhas de
Jerusalém;
a décima estacáo venerava a última queda do Senhor;
a undécima estacáo considerava o despojamento de Jesús;
a duodécima estacáo, a cruciíixáo;
a décima terceira estacáo, a morte de Jesús sdbre a cruz;
a décima quarta estacáo, a deposicáo da cruz;
a décima quinta estacáo, por íim, venerava o sepultamento do
Senhor.
Observe-se que as diversas etapas ácima sao acompanhadas de
tantas minucias topográficas e arqueológicas que certamente a obra
de Jan Pascha deve ter causado a impressáo de estar baseada em
documentacao sólida e abundante.

Em 1584 outro autor, Adrichomius, retomava o itinerario


espiritual de Jan Pascha, e dava-lhe a forma que ele hoje tem:
fez, sim, comei;ar o Caminho da Cruz no pretorio de Pilatos,
onde Jesús foi condenado á morte, e, para atingir o número
de quatorze estagóes, dedicou especial veneragáo a mais duas
pressupostas quedas do Senhor. Por obra de Pascha e Adri
chomius, portante, o exercicio do Caminho da Cruz recebeu
no século XVI a sua configuragáo atual.
6. Urna verificagáo interessante se impóe agora ao es
tudioso : a escolha das etapas do Caminho da Cruz, hoje usual
entre os cristáos, se deve á piedade dos autores de livros de
devoqáo escritos no Ocidente, e nao a prática observada na
própria Cidade Santa, ou seja, em Jerusalém (Adrichomius
mesmo nunca estéve na Palestina).
O curioso fenómeno expíica-se muito bem : na cidade
de Jerusalém dos séc. XV/XVI nao se podía pensar em assi-
nalar aos peregrinos estagóes ou paradas para cultuarem as
diversas fases da Via Dolorosa de Jesús. Com efeito, os cro
nistas da época referem que o ánimo pouco amigo dos turcos
ocupantes da Térra Santa nao permitía que os fiéis cristáos
se detivessem diante das localidades sagradas do interior da
Cidade de Jerusalém ; deviam transitar com a máxima sobrie-
dade pela estrada que o Senhor percorrera com a cruz, con-

— 86 —
tentando-se com urna prece ou meditagáo puramente interna.
Sendo assim, entende-se que em Lovaina e Nürnberg, ou na
Flándria e na Alemanha em geral, o exercício da Vía Sacra
fósse celebrado com muito mais aparato e minucias do que
na própria Cidade Santa; foi, pois, nestas regióes, e nao
no Oriente, que a referida devogáo tomou sua forma hodierna.
Estas circunstancias explicam outrossim que as cenas
atualmente comemoradas ñas estagóes do Caminho da Cruz
em parte sejam conjeturáis: principalmente o que se refere
as quedas de Jesús fica sujeito a dúvidas (lembramo-nos de
que a principio se assinalavam sete quedas, quatro das quais
estayam associadas aos encontros de Jesús respectivamente
com María Santissima, com o Cireneu, com as piedosas mu-
Iheres de Jerusalém, com Verónica). O próprio encontró de
Jesús com Verónica nao é atestado pelos documentos escritos
senáo a partir do séc. XV; também nao se tem certeza de
um encontró de Jesús com súa Mié Santissima. É preciso
observar ainda que a serie na qual se sucedem os diversos
episodios do. Caminho da Cruz é, por sua vez, hipotética.
7. Tais afirmagóes talvez suscitem perplexidade em um
ou outro dos fiéis cristáos. A perplexidade, porém, se dissipará
sem demora após urna reflexáo serena sobre o assunto.
O cenário do Caminho da Cruz é proposto aos fiéis nao
á guisa de ensinamento histórico, para que os cristáos, mediante
ésse documento, enriquegam o seu cabedal de cultura e saber.
Nao ; as estagóes da Via Sacra sao propostas únicamente
para mover a piedade, fomentar o amor a Deus e a chama
da oragáo. Ora parece que, dentre todas as tentativas medie-
vais de elevar as almas a Deus mediante a meditagáo da Via
Dolorosa de Cristo, a que mais se prestou e presta a esta nna-
lidade é a que prevaleceu e hoje está em uso. Esta serie; em-
bora nao possa reivindicar para si fidelidade histórica apoiada
numa documentado critica adequada, nao implica em detur-
pagáo dos valores ou dos personagens postas em cena. Sendo
assim, a autoridade da Igreja pode aprová-la ; do seu lado,
o cristáo do séc. XX pode perfeitamente aceitá-la, nao para
estudar historia, mas para acender o seu amor na contem-
placáo dos atributos do Redentor que os diversos quadros da
Via Dolorosa póem, do seu modo, em realce ; por conseguirte,
nao queira o discípulo de Cristo deduzir conclusoes de histo
riografía ao folhear o seu manual de Via Sacra (tais conclusoes
seriam precarias; além do que, um tal trabalho contradiría as
intengóes dos autores de tais manuais, assim como as da Santa
Igreja) ; procure, antes, prorromper em atos de fé, esperanca
e caridade, mediante o percurso do Caminho da Cruz (tais
atos seráo certamente robustos, pois o alimento sugerido pelas

— 87 —
estagóes é substancioso e comprovado pela experiencia dos
sáculos). Assim fazendo, os fiéis já nao teráo motivo de in-
quietude e escrúpulo por causa do caráter conjetural desta
ou daquela estagáo da Vía Sacra.
Ademáis note-se o seguinte: para se ganharem as indul
gencias anexas á Via Sacra (das quais falaremos pouco adian-
te), requer-se que os fiéis percorram as estagóes assinaladas
por imagens ou cruzes devidamente bentas e instaladas. É
necessário, outrossim, que meditem a Paixáo do Senhor, sem,
porém, estarem obligados a seguir os quatorze episodios co-
memorados pelas respectivas estagóes (qualquer maneira de
meditar os sofrimentos de Cristo satisfaz as exigencias, no
caso).
8. Por fim, merece ser realcado o papel importante dos RR.PP.
Franciscanos na difusáo do exercicio da Via Sacra. Desde o séc.
XIV os filhos de Sao Francisco sao, sim, os guardas oficiáis dos
lugares santos da Palestina; entende-se, pois. que de modo especial
se tenham dedicado á propagacáo da veneracáo á Via Dolorosa do
Senhor; em suas igrejas e junto aos seus conventos, desde íins da
Idade Media, tomaram o hábito de erguer as estacSes da Via Sacra;
adotando a serie sugerida por Jan Pascha e Adrichomius, fizeram
que esta prevalecesse sobre todas as congéneres; íoram também os
filhos de S. Francisco que obtiveram dos Papas a concessáo das
numerosas indulgencias anexas a tal exercicio de piedade. — Grande
benemérito da devocáo á Via Sacra é Sao Leonardo de Porto Mauricio
O.F.M., que, por ocasiao de sua atividade missionária em toda a
Italia, de 1731 a 1751, conseguiu erguer 572 «Vias Sacras»; foi a
cedido désse santo oue n Papa Clemente XII. aos 3 ü<*. abril de 1731.
baixou o decreto intitulado «Mónita ad recte ordinandum devotum
exercitium Viae Crucis», decreto cujas normas concernentes á erecáo
da Via Sacra e as respectivas indulgencias foram, com poucas modi-
ficacdes, confirmadas pela Penitenciaria Apostólica aos 13 de marco
de-1938.
Nao hesitem, pois, os fiéis em usufruir dos beneficios da
Paixáo do Senhor tais como sao propostos pela Via Sacra, Via
Sacra que deve ser realizada segundo a mentalidade dos fer
vorosos peregrinos da Térra Santa !
D. ESTÉVAO BETTENCOURT O. S. B.

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