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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
O'n memoriam)
APRESENTAQÁO
DAEDigÁOON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da

Esta necessidade de darmos


corita da nossa esperanca e da nossa fé
noje é mais premente do que outrora
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
^responderemos propóe aos seus leitores-
aborda questoes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Quelra Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR


Celebramos convenio com d. Esteváo
SnS08 aHdlsP°nibilizar ^sta área, o excelente
conteudo da revista teológico - filosófica "Peraunte »
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo
A d. Esteváo Bettencourt
depositada em nosso trabalho, bem
zelo pastoral assim demonstrados
31
J U L H C

1 9 6 I

ANO III
ÍNDICE
Pág.

I. FILOSOFÍA K RELIGIAO

1) "Que c o Socialismo e romo avaliá-la ?


Que rlizer tlti.i tentativa* moderna» de criar mu Socialismo
cristflo oh, no menos, rompatieel cotn os ¡iriuripios rristáos?" .. Su?

II. DOGMÁTICA

2) "Em materia de Reunido, u esseneial é proredimento reto


r (mtiitiide para cow todos os homens.. As quesliies de credo firum
sempre obscuras.

Don tro lado, a celchracao de ritos (• secundaria. Há militas


almas bonissimax que nao pratimm cerimonial atf/ttm 27G

■!) "Nao seria milito inelhor t/ite Deus se dir/nasae aparecer


vos incrédulo* e oh advertisse de que xbmeiitc o Cristiaitiumo é
o Caminbo e a Verdade ? Nao porin finí as di'ividas e ao pecado,
tirando tantos honiens da erise relif/ioxa cm que se ackam?" .. '¿s.:

4) "Como pode o Pai do Ccu, que é infinitamente bom, con


denar o liomew a mu inferno eterno, (¡uando o* puis va Ierra uño
citsliuam sen* fillios rom pimiriics sem finí ?

Certamen!r ¡leus há de prrdnnr nos jicrailorea que sr. ncham


un inferno !" ,.',v,'

III. SAGRADA ESCRITURA

"i) "O muñe <lc Ifitu.i mcrladn no Anlir/o Trsliniiiiitn ilirv ser
pronunciado JA Vfi ou JKOVA ?" Mil

IV. MORAL

n) "Quid o rnlor do licro 'Entre dois mundos', itv ¡\nlliriin


t/nlme {

.Wt'ii) *ir/nifirti que a vida de ron rento, iiupondo obediénria


estrita, imperte a plena expanuño da persnttalidude, drrendo por
isln .ser renwdeladn cm nosso.* ditix ?" ¿'.i.',

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

?) "Que lid de certo a respvito do viosteiro de l'ort-lioyitl,


a 'Tebaida, mística', ruja historia fui mnitn explorada pela lite
ratura e o teatro ?" •itio

CORRESPONDENCIA MIÜDA ¡o?

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano III — N° 31—Julho de 1960

I. FILOSOFÍA E RELIGIÁO

GRUPO DE ESTUDIOSOS (Cruz Alta) :

1) «Que é o Socialismo e como avaliá-lo ?


Que dizer das tentativas modernas de, criar um Socialismo
cristáo ou, ao menos, compatível com os principios cristáos?»
«Socialismo, coletivismo e comunismo» sao termos afins entre si
por designaren! um sistema económico-social que atribuí á coletividade
o direito exclusivo de possuir os meios de producáo e de controlar
o uso dos mesmos; ó "sistema visa, pois, transferir dos individuos
para a sociedade, representada em geral pelo Govérno, a posse e a
utilizagao dos bens produtivos.
A diíerenca que intercede entre os tres vocábulos vem a ser prin
cipalmente de índole cronológica. «Comunismo» é o termo mais
antigo. A palavra «Socialismo» tomou seu sentido técnico a partir
do «Manifestó» de Robert Owen, publicado na Inglaterra em 1820:
deslgnava entáo as tendencias opostas ao Capitalismo liberal. Quanto
ao termo «Coletivismo», entrou na nomenclatura dos sociólogos por
volta de 1850; hoje, porém, já nao tem significado específico.
«Comunismo» em nossos dias é própriamente o sistema coleti-
vista que Karl Marx (t 1883) concebeu; impoe n seus adeptos exi
gencias severas, apoiadas em ardentes concepgoes, que tocam as
raias do messianismo e da mística. — Q Socialismo seria um coleti
vismo mais atenuado em suas manifestacoes. Na prática, porém,
torna-se difícil indicar a diferenciacáo dos dois sistemas económico-
-sociais: o comunista (marxista) e o socialista. O uso dos termos varia
muito segundo os autores. Basta lembrar que a Rússia comunista
(marxista) se designa oficialmente como «UniSo das Repúblicas So
cialistas Soviéticas» (U.R.S.S.).
Ñas linhas que se seguem, proporemos algo do histórico e das
doutrinas do Socialismo; após o que, procuraremos formular um
juizo adequado sobre o sistema.

1. Traeos históricos e síntese doutrinária


do Socialismo

1. Os problemas intensamente focalizados pelo Socialismo moder


no nao sao de hoje nem de ontem.
Já na antigüidade pré-cristá a pobreza dos pequeninos e as suas
relagóes com os ricos chamavam a atencáo dos pensadores. Conseqüen-
temente, certos autores helenistas puseram-se a apregoar um ou
outro elemento de solucjio semelhantes aos do Socialismo moderno:
assim Platáo (t347), ñas «Leis», preconizava a imposicáo de deveres
as classes possu¡doras e a limitac.áo das riquezas; Faléia de Calce
donia desejava o nivelamento das posses materiais de todos os cida-

— 267 —
daos; outros autores, entre os quais Hipódamo de Milcto, propugnavain
só fósse reconhecido o direito de propriedade ás classes inferiores.
Já na era crista, os antigos bispos (S. Basilio, S. Gregorio de
Nazianzo, S. Joao Crisóstomo...) admoestavam freqüeritemente os
fiéis a utilizarem suas posses de modo a beneficiar os indigentes.
Na Idade Media, os movimentos populares de reforma dos costumes
(os dos Cataros, por exemplo, Valdeos.es, Patários, Arnaldinos...),
simultáneamente com dou trinas religiosas, íaziam ouvir teses afins
ás dos socialistas atuais: igualdade das classes sociais e coletivismo...

2. Pode-se dizer, porém, que as primeiras páginas de


inspiragáo socialista, no sentido 'moderno da palavra, se devem
ao século XVI, período em que surgiram os inicios do regime
capitalista : o modelo clássico de tais escritos é a «Utopia»
de T.omaz Moro (1516) : éste autor, exasperado pela trans
ferencia para o dominio particular, de térras até entáo deso
cupadas ou entregues ao uso comum, descreveu urna socie-
dade ideal, estritamente fundada no coletivismo (Utopia vem
da expressáo grega ouk-tópos = sem lugar, nao realizado na
térra ; tal seria a cidade de T. Moro...).

No séc. XVIII fizeram-se ouvir outros acordes de socialismo


devidos á nova coníiguracáo da vida pública: ia sendo atribuida
importancia crescente ao regime económico da sociedade; as ciencias
de financas tomaram caráter autónomo, independente da Moral;
formou-se urna concepcáo do Estado inteira'mente leiga, ou seja,
estranha a Deus; o desenvolvimento das industrias ocasionou a
formacáo de urna classc operaría sujeita ás exigencias dos grandes
proprietários e capitalistas. O liberalismo económico permitía a livre
concorréncia entre proprietários, provocando conflitos por vezes desu
níanos entre detentores do capital e assalariados.
As novas idéias e as míseras condicóes de vida na sociedade
explodiram na Revplucáo Francesa de 1789.
Calcula-se que, nos tempos ¡mediatamente anteriores a esta, havia
500.000 eidadáos errantes pelo territorio da Franca; Beer assegura
que na segunda metade do séc. XVIII e em principios do séc. XIX
nao menos de 2.280.000 hectares foram arrebatados aos pequeños
agricultores na Inglaterra.

O séc. XIX foi o século das reivindicagóes. Os anos de


1820 e 1850 tornaram-se especialmente importantes na evo-
lugáo das situagóes e das idéias. O estado de ánimos exacer
bado passou a se exprimir numa serie de veementes exigencias
dos operarios, que vieram a constituir o sistema socialista
contemporáneo : os trabalhadores, julgando-se iludidos pelas
promessas de melhores condigóes de vida provenientes dos reis
e poderosos da térra, resolveram finalmente propugnar por
seus próprios esforgos o levantamento de seu nivel social.
Nao faltaram escritores de responsabilidade que, com suas
afirmagñes, concorreram para exasperar a situagáo : Pierre

— 268 —
J. Proudhon, por oxemplo, num opúsculo fortemente antibur
gués intitulado «Que é a propriedade?», respondía simples-
mente ser esta um furto (1840).

A titulo de ilustraeáo, ainda consignamos o seguinte: um inqué-


rito realizado na Inglaterra em 1840 nos setores da industria, princi
palmente na das minas, revelou que mulheres e crianzas, algumas
destas com seis anos de idade apenas, se empregavam ñas minas,
raramente trabalhando menos de onze horas por dia.
Durante todo o século XIX. alias, a multiplicagao das massas
operarías constituiu fator de grande relevo para a difusáo das idéias
socialistas: a populagáo da Europa cresceu, desde o principio do
século XIX até 1914, de cérea de 180 milhSes para cérea de 452
milhóes; as massas concentraram-se cada vez mais ñas grandes
cidades, o que permitiu ao operariado ter urna visáo da realidade até
entáo menos conhecida.

O movimento de reivindicacSes tomou modalidades múltiplas,


em alguns casos mesmo románticas: sonhavam alguns com um tipo
de coletivismo irrealizável (vida comunitaria e exagerada valorizacüo
da natureza); os discípulos de Owen chegaram a criar colonias coleti-
vistas em Orbiston na Escocia, em Ralahire na Irlanda, em Queenwood
no Hampshire; o próprio Owen íundou urna dessas colonias (New
Harmony, 1825) nos EE.UU. da América...

3. E quais seriam as grandes linhas doutrinárias comuns


as diversas formas de socialismo ?
— Antes do mais, seja mencionada a «socializado» dos
meios de producáo e troca, isto é, a transferencia déstes bens
de propriedade particular para o dominio coletivo da socie-
dade. A fim de que a socializagáo assim concebida se torne
eficaz, deve ser acompanhada de campanhas adequadas de
educagáo, ética, estética, política.
Instaurando o regime do capital coletivo, o socialismo
visa estabelecer um sistema de exploragáo, arrecadacáo e
distribuigáo dos bens materiais que atinja a todos os cidadáos
igualmente dentre da naeáo (ou até no plano internacional).
Ficam destarte supressas a iniciativa particular no setor do
trabalho e a livre concurrencia entre produtores : compete
á coletividade, representada naturalmente pelo Estado, o
dever de controlar todo o sistema de produgáo de bens; para
exercer esta sua fungáo, o Estado pode valer-se de coopera
tivas e sindicatos. Tudo que o trabalho produza no interior
da nagáo, toca direta e exclusivamente ao Estado ; a éste
incumbe conseqüentemente a obrigagáo de fazer chegar a
cada trabalhador a devida remuneragáo. Para efetuar isto,
o Estado deve proceder a inquéritos que revelem quais as
verdadeiras necessidades de cada cidadáo; a seguir, o Govérno
estipula um programa indicando qual a cota de bens a ser

— 269 —
atingida no decorrer do ano de trabalho, a fim de que se possa
atender as indigencias dos cidadáos em particular e ainda
satisfazer as demais despesas que fagam parte do orcamento
nacional. O Estado deve mesmo procurar criar um fundo de
reservas que possam ser devidamente utilizadas nos anos em
que, por um acídente qualquer, a produgáo nacional venha a
ser insuficiente para cobrir as despesas orgamentárias.

Quanto aos cidadáos que nao produzem bens materiais, mas


prestam servicos ao Estado na qualidade de funcionarios graduados,
militares, juízes. artistas, homens de ciencia, etc., tais háo de perceber
urna cota calculada de acordó com o número de horas que aplicam
ao servico do bem comum (esta norma, porém, é assaz precaria, pois
¡ nao se pode avaliar o trabalho intelectual, levando-se em conta apenas
o número de horas empregadas em tal labor; as atividades liberáis
revestem-se de dignidade própria, que nao pode deixar de ser reco-
nhecida pela justica humana).

O sistema socialista é por vézes também marcado por


urna nota de forte nacionalismo: Rodbertus, Wagner, Bren-
tano, Schmoller e outros mestres muito inculcaram a «nacio-
nalizacjio» (ou seja, a atribuieáo á nagáo representada pelo
Estado) das grandes industrias do país ; sendo assim, o termo
«nacionalismo» hoje em dia é muitas vézes o rótulo sob o
qual se afirma e propaga a campanha socialista.
Karl Marx e seus discípulos abracaram as teses funda
mentáis do socialismo e as enquadraram, até as últimas con-
seqüéncias, dentro das concepgóes filosóficas do materialismo;
deram mesmo ao socialismo o valor de urna concepgáo geral
do mundo e do homem, cheia de dinamismo ou de poder de
irradiado, que toca os arraiais da mística, exigindo o em-
penho da personalidade de cada marxista (Marx chamava
justamente «socialismo utópico» o sistema de Saint-Simón,
Fourier, Owen e outros, que pretendiam conseguir radical
transformagáo da sociedade sem o recurso a meios violentos
e revolucionarios).

Para Marx, as formas de vida de urna época (a Religiáo. o


Direito, as instituiedes políticas, os eos turnes sociais. em suma, a cul
tura) nao sño mats do que expressfles das fórcas produtoras que
dominam tal época; «nao é a consciéncia do homem que determina
o ser ou o modo de existencia déste, mas vice-versa é a categoría
social do homem que determina a consciéncia» (Prefacio á «Critica da
Economía política»). O regime capitalista, acrescenta o marxismo,
alheou o homem a si mesmo; a revolucfio socialista concebida por
Marx o restituirá a si...
Nao nos detemas na explanacáo das idéias típicas do marxismo,
pois isto já foi feito em «P. R.» 3/1958, qu. 1.
O que acabamos de expor já é suficiente para tentarmos proferir

— 270 —
2. Um juízo sobre o Socialismo

1. Na primeira metade do sáculo passado, quando o socialismo


ioi tomando características marxistas, ouviu-se falar também de
«socialismo cristáo» e de «socialismo democrático». Na realidade,
porém, a forma de socialismo que mais se divulgou, é acompanhada
de filosofia materialista, que vem a constituir o clima no qual
geralmente as idéias socialistas e marxistas sao apregoadas. É, por-
tanto, essa forma materialista que havemos de considerar aqui em
primeiro lugar; a seguir, voltar-nos-emos para o chamado «Socialismo
cristáo».

Como entáo julgar o Socialismo comumente afirmado nos


tempos modernos ?

a) Do ponto de vista filosófico, o Socialismo contempo


ráneo é manifestagáo da mentalidade laicista e materialista
mais e mais divulgada a partir do séc. XVI. Os estudos de
financas foram de tal modo valorizados que geraram a con-
cepcáo de que o homem se pode explicar totalmente a partir
das suas funcóes económicas; o tipo humano fundamental
seria o «homo oeconomicus», do qual urna modalidade seria
o «homo sapiens», caracterizado pelos seus valores intelec-
tuais e moráis.

Seja aqui recordada urna obra que muito inspirou o pensamento


moderno referente ao homem. Em 1714, Bernard de Mandeville, füho
dos «libertinos» do século XVI, publicou o escrito «The fable oí the
Bees» (A fábula das abelhas), onde fez a apología dos vicios, insinuando
que o amor ao bem-eslar fisico, á satisfagáo dos sentidos e aos
prazeres da vida vem a ser o grande móvel que impele o género
humano ao progresso e á civllizacao.
Conforme Mandeville, «as sociedades humanas ehegarao á har
monía e ao equilibrio, nao por se constituirem de individuos chelos
de altruismo e sequiosos de solidariedade mutua, mas porque se
comporto de egoístas consumados, a viver em luta continua, cons-
trangidos pelo antagonismo mutuo e pela violencia das paixSes dos
adversarios a aceitar solucoes precarias que so atenderáo a interésses
particulares» (A Fanfani, Storia della dottrine economíche. II natu
ralismo. Milano 1946, 12).

Mandeville tornou-se o precursor das teorías modernas que só


levam em consíderacáo os valores materiais da vida.

Ora a concepeáo de que o homem é primariamente um


animal económico ou dependente da produgáo material des-
conhece simplesmente os verdadeiros valores do ser humano,
que sao os da inteligencia e da vontade livre (cf. «P. R.»
5/1958, qu. 1 e 6).
No séc. XDC a mentalidade darvinista influiu também
nos arautos do socialismo: o mecanicismo da sorte humana,
marcada pela luta em prol da vida, sem que haja na historia

— 271 —
a intervengáo de urna Providencia Divina, inspirou de perto
as idéias dos socialistas clássicos : estes consideravam pri
mariamente o homem como um «individuo», isto é, como
urna unidade dentro da massa humana material, nao tanto
como personalidade, ou seja, como criatura dotada de alma
espiritual, imortal e chamada a se realizar na adesáo incon
dicional ao Transcendente ou a Deus.

No século XVIII desapareceu da sociedade «a própria idéia da


íinalidade. Seu lugar foi tomado pela idéia de mecanismo. A concepcáo
de homens unidos entre si e de toda a humanidade unida em Deus
por meio de obrigacOes mutuas nascidas de sua relacáo a um íim
comum deixou de estar impressa no espirito dos homens... Vagamente
concebida e imperleitamente realizada, tal concepcáo fóra entretanto
a chave de cúpula que dava consistencia a todo o edificio social.
Tudo que ficou, quando retiraram a chave do arco, foram os direitos
e os interésses particulares, isto é, mais os materiais de urna socie
dade do que própriamente urna sociedade» (R. H. Taunay, The
acquisitive Society. London 1926. 13s).

As premissas laicistas e mecanicistas haviam de levar o


socialismo nao própriamente a neutralidade, mas, sim, á
hostilidade frente a Deus : na realidade, tende lógicamente
¡a remover a Religiáo e a Moral religiosa, afastando-se de
certas conceptees éticas tradicionais, a fim de dar lugar á
formacáo de novo homem ou do pretenso homem «genial»
beneficiado pelo novo regime económico e social.

Era o que preconizava em 1902 Kautsky, socialista rigorosamente


«científico»:
«Nao devemos entüo supor que sob essas condigñes (socialistas)
venha a nascer novo tipo de homem, que exceda os maiores tipos
que a cultura tenha até agora criado? Um Super-homem, se quiserem,
nao como excegao, mas como regra» (citado por W. Sombart, Der
proletarische Sozialismus I 323).

A guisa de ilustracáo. citamos também o seguinte testemunho,


embora provenha do socialismo marxista própriamente dito: em 1924,
Trotsky, companheiro do Lenin na campanha vitoriosa da Revoluc/io
russa, escrevia:

«•O homem se torna incomparávelmente mais forte, mais inteli


gente, livre. Seu corpo, mais harmonioso; seus movimentos, mais
rítmicos; sua voz, mais musical...; as formas do ser adquiriráo urna
teatralidade dinámica. A media humana se elevará até o nivel de
um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx» (Literatur und Revo-
lution 179).

Ora é vá qualquer concepcáo de grandeza humana inde-


pendente de Deus. A Religiáo, ou seja, o reconhecimento e
1 o culto do Criador constituí urna das mais espontáneas afir-
maeóes da inteligencia humana, como atestam os documentos

— 272 —
da pré-história, da etnología e da geografía (cf. «P. R»
19/1959, qu. 1).

De resto, nao se torna difícil averiguar a incoeréncia da


posigáo atéia afirmada pelo socialismo: o senso religioso é
táo natural e incoercivel no homem que o ateu nao faz senáo
transferir para a materia e os bens finitos déste mundo a
adesáo total que normalmente ele deveria dedicar ao invisível
Absoluto ou a Deus.

«O comunismo dos mestres, tanto quanto o das massas, é uma


especie de religiáo, urna especie de^Igreja. Dai se deriva o odio dos
comunistas contra a Kelfgiáo e especialmente contra a Igreja Russa.
O ateísmo comunista é demasiado amigo da luta para ser simples-
mente um ateísmo de incredulidade. Lenin tinha toda a razáo quando
dizia odiar a Deus como seu inimigo pessoal, pessoal, isto é, existente,
e ele Lenin defrontando-o» (L. P. Karsawin, Das religioese Wesen
des Bolschewismus, em «Der Stadt, das Recht und die Wirtschaft des
Bolschewismus». Berlín 1925, 43).
Deseamos agora a uma apreciacáo direta do programa económico
do socialismo.

b) Do ponto de vista económico, uma observagáo de


importancia primordial deve ser feita as idéias socialistas.
Nao é fácil manter o equilibrio dentro de uma nagáo em
que as iniciativas dos particulares em materia de economía
sao extintas, cedendo ao monopolio do Govérno ; no regime
socialista, ao Estado, e sómente a éste, compete solucionar
as crises de producto e de penuria, prever os extraordinarios
e contratempos, ocupar-se com as necessárias reservas de
capital e com o emprégo do mesmo... Éste monopolio, na
prática, acarreta desvantagens mais do que beneficios. Tor-
na-se destarte inevitável deixar certa liberdade de trabalho
i e consumo aos individuos, a fim de que haja interésse e cola-
boragáo da parte de todos na consecugáo do bem comum e
nao seja a personalidade humana reduzida ao nivel de autó-
mato, maquinalmente dirigido por uma instancia superior.
Quanto ao direito que todo individuo tem á propriedade
particular, já o explanamos em «P. R.» 23/1959, qu. 5.

A julfjar pela experiencia de certas nacóes contemporáneas «socia


lizadas», o ideal visado pelos grandes mestres do socialismo ainda
nao foi atingido, nem parece próximo de se realizar: o socialismo
tinha em vista, sim, libertar os cidadáos do constrangimento das
ccndicSes económicas burguesas e da engrenagem a que os prende
a organizagüo capitalista. Ora nos regimes socialistas tal libertacáo
nao se verifica: dada a Índole totalitaria désses governos, observa-se
que sob éles o individuo continua a viver em funcáo do capital,...
do capital nao já dos proprietários particulares, mas do Estado; éste
vem a ser o novo e grande capitalista que escraviza...

— 273 —
Tal resultado, penoso e decepcionante como é, torna-se inevitável
desde que nao se dé lugar a outros valores que os da materia, na
conceituacáo do homem e de sua verdadelra lelicidade.

2. Eis, porém, que nos últimos tempos, em certas nagóes,


como a Alemanha Oriental, a Austria, a Inglaterra, o Japáo,
tém-se esbogado movimentos socialistas que propóem afastar-se
do marxismo e só apresentar reivindicacóes conciliáveis com
os principios cristáos ; entre outras coisas, renunciariam á
socializagáo dos meios de producáo, respeitando o direito á
propriedade particular. É compreensível que tais programas
tenham chamado a atencáo do mundo e, em particular, dos
cristáos.
Ora, atendendo a tal estado de coisas, o jornal «Osserva-
tore Romano» (Vaticano) de 7/8 de Janeiro de 1960 publicou
um artigo de primeira página, nao assinado, em que chama
ia atencáo para a impossibilidade de ser alguém, ao mesmo
tempo, bom católico e verdadeiro socialista. Eis os principáis
pontos focalizados por ésse documento :
Depois de expor a situagáo de dúvida que se criou em
virtude da moderagáo de socialistas contemporáneos, o autor
encaminha a solugáo citando tongamente a encíclica «Qua-
dragesimo anno» do S. Padre Pió XI (1931), encíclica da qual
sejam também aqui transcritos alguns tópicos mais salientes:

«Nos tempos de Lea o XIII (íins do séc. XIX) podia-se dizer que
o socialismo era um só; propugnava principios doutrinais bem defini
dos e unidos num sistema; agora, ao contrario, vai dividido em dois
partidos principáis, que discordam as mais das vézes entre si, sao
mesmo inimigos encarnigados, mas, nao obstante, nao se afastam do
fundamento anticristáo que caracteriza o socialismo.
Com efeito, um partido do socialismo... se precipitou no comu
nismo, o qual ensina e propugna dois pontos, nao já por vias ocultas
ou por rodeios, mas abertamente e «om todos os meios...: a mais
agucada luta de classes e a aboligáo absoluta da propriedade particular.
... Mais moderado é o outro partido, que conservou o nome de
socialismo: nao só professa repelir toda e qualquer violencia, mas,
embora nao repudie a luta de classes o a abolicüo da propriedade
particular, abranda-a ao menos com atenuacóes e medidas... Dir-se-ia
que o socialismo se dobra de algum modo e se aproxima daquelas
verdades que a tradlcáo crista sempre e solenemente ensinou, pois
nao se pode negar que as suas reivindicacóes se aproximem, por vézes
e muito de perto. das que, com muita razáo, propoem os reformadores
cristáos da sociodade...
Que dizer, porém, do socialismo, dado que, no tocante á luta de
classes e á propriedade particular, ele se tenha realmente moderado
e corrigido, a ponto de nao haver mais nada que se lhe possa censurar
sobre ésses dois pontos? Porventura terá o socialismo, com isso,
renunciado subitáneamente k sua índole anticrista? Ai está a questáo
que mantém suspensas muitas almas. Nao poucos sao os católicos
que, bem conhecendo como os principios cristáos nao podem ser nem

— 274 —
abandonados nem apagados, parecem dirigir os olhares para esta Sé
Apostólica e pedir ansiosamente que decidamos se tal socialismo
emendou seus erros a tal ponto que, sem prejuízo de algum principio
cristáo, possa ser admitido e de algum modo aprovado. Para satisfazer,
de conformidade com a Nossa solicitude paternal, a ésses desejos,
declaramos o que se segué: o socialismo, quer seja considerado como
doutrina, quer como íato histórico, quer como acüo, se permanecer
verdaderamente socialismo, mesmo depois de ter cedido lugar á verda-
de e á justica sobre os pontos de que íalamos, nao se pode conciliar
com os ensinamentos da Igreja Católica, visto que o seu conceito de
sociedade é de todo contrario á verdade crista.
Com efeito, segundo a doutrina crista, o lim para o qual o homem
dotado de natureza sociável se acha sobre a térra, é que, vivendo na
sociedade e sob urna autoridade social ordenada por Deus, cultive e
desenvolva plenamente todas as suas faculdades, para louvor e gloria
do Criador, e, cumprindo fielmente os deveres de sua profissáo ou
vocacáo, qualquer que seja, chegue á posse da íelicidade temporal e
também eterna. O socialismo, ao contrario, ignorando por completo
essa táo sublime finalidade do homem e da sociedade, supóe que a
sociedade humana nao tenha sido instituida senáo para o exclusivo
bem-estar (material)».
Segundo a concepcao socialista, «os homens sao obrigados, no
tocante á producáo material, a se submeter inteiramente á sociedade;
!• o objetivo de se conseguir maior abundancia de riquezas que possa
servir ás comodidades da vida, é tido em tanta consideracao que se
lhe devem postergar os bens mais elevados do homem, especialmente
a liberdade, sacrificando-se tudo ás exigencias de urna producáo mais
eficaz. A .sociedade, pois, como ó imaginada pelo socialismo, nao
pode existir, nem se pode conceber, sem o emprégo de coagao real
mente excessiva; doutro lado, porém, ela goza de licenca nao nv»nos
íalsa, por lhe faltar urna verdadeira autoridade social, visto que
esta nao so pode íundar sobre as vantagens materiais e temporais
mas só pode vir de Deus, Criador e Fim de todas as coisas.
Dado que o socialismo, como todos os erros, contenha algo .le
verdade..., nao obstante ele se funda sobre urna teoría da sociedade
que lhe é própria e que é incompatível com o auténtico Cristianismo.
Socialismo religioso e socialismo cristáo, pois, sao termos contradi-
torios; ninguém pode ser bom católico e ao mesmo tempo verdadeiro
socialista».
A essa citacao o autor do artigo acrescenta o seguinte comentario:
«Nos casos que focalizamos, estamos diante de partidos que
repudiam mais ou menos explícitamente as posicóes clássicas do socia
lismo dito científico e parecem quase renunciar á solicitacáo dos
meios de produgáo e troca, a fim de apresentar, no setor económico
social, reivindicaeñes que, ao menos em teoría, nada mais tem que
repugne a verdade católica. Resta, porém, o nome, resta a inspiracáo...
Ésse novo socialismo que... se recusa a se deixar ligar pelos prin
cipios de Marx ou de Engels para nao se tornar urna seita, nao
declara qual é a sua nova regra de conduta, nem como atualmente
ele se distingue do individualismo liberal...
Mostramos, & luz do ensinamento da Igreja, que o socialismo,
mesmo em suas modalidades mais temperadas, mesmo que repudie
Marx, a socializacáo e a luta de classes, nao se pode conciliar com a
profissáo de catolicismo, e que ninguém pode ser bem católico e
ao mesmo tempo, verdadeiro socialista».
As linhas ácima dispensam qualquer ulterior comentario.

— 275 —
n. DOGMÁTICA

O. D. F. (Araxá) :

2) «Em materia de Religiao, o essencial é procedimento


reto e bondade para com todos os hotnens. As questoes de
credo ficam sempre obscuras.
Doutro lado, a celebracao de ritos é secundaria. Ha mui-
tas almas bonissimas que nao praticam cerimonial algum».

Para julgar adequadamente o conteúdo das proposicóes


ácima, deveremos considerar de per si cada um dos dois as
pectos que elas abordam : 1) Religiao e Verdade, 2) Reli-
giáo e culto externo.

1. Religiao e Verdade

A mental idade moderna tem posto em xeque nao sómente éste


ou aquéle ensinamento do Cristianismo (a Divindade de Jesús, a
presenca real do Senhor na Eucaristía...), mas também o próprio
conceito de «verdade religiosa»; quem professa alguma verdade em
nome da Religiao e quer defender os direitos que a mesma tem, de
nao ser equiparada ao erro, parece propugnar «dogmatismo» estreito.
hedionda mesquinhez de espirito, diante da qual alguns contemporáneos
«se escandalizam-». Parece que em Religiao o conceito de verdado é
relativo; Religiao seria, primariamente, manifestacáo do sentimento
ou do bom senso de cada individuo, nao, porém, algo que se possa e
deva exprimir em fórmulas universais, destinadas a ser reconhecidas
por todos os homens. Cada um, por conseguinte, teria o direito de
fazer «sua» religiao, de acordó com seus criterios pessoais, e todos
teriam a obrigagáo de dizer que as diversas formas de religiao assim
concebidas sao boas, contanto que os respectivos adeptos pratiquem
o bem.

«Praticar o bem», tal seria simplesmente o ideal do


homem. A filosofía religiosa e a teología seriam secundarias,
seriam valores subjetivos, reservados ao foro particular de
cada um.
Nao teriam razáo os que assim pensam ?
A resposta a esta questáo decorrerá claramente de urna
análise das causas de tal atitude. Ora parece que sao tres os
motivos désse relativismo religioso.
1) O homem moderno está muito imbuido da mentali-
dade procedente dos métodos das ciencias físicas e matemá
ticas ; tais métodos, que se baseiam estritamente no visível e
ponderável, parecem ao filho do nosso século ser os únicos
que levem á posse segura da verdade ; nos setores em que
a pesquisa empírica nao tem aplicacáo (como seriam os da

— 276 —
metafísica e da teología), julgam muítos pensadores que nao
se pode chegar á certeza. Sendo assim, as proposigóes que
nao possam ser provadas por tais métodos (como é o caso
das proposicóes religiosas) só parecem interessar ao senti-
mento e á vida afetiva de individuos ; preconiza-se o respeito
para com essas fórmulas ; julga-se, porém, que sao arbitra
rias, válidas apenas para quem as queira adotar.

A luz desta concepgáo, tende-se a fazer das nocdes de Deus e das


relacoes do homem com Deus (noeóes que nao podem ser formuladas
em laboratorio), algo de cada vez mais vago e pálido; «Deus» e
«Religiao» se tornam, aos poucos. conceitos táo diluidos que muitos
fácilmente os removem, sem julgar que nisto haja algum detrimento
real. Paúl Claurlel o observava muito bem: «A tentacüo do homem
moderno consiste em íazer crer que nao é necessária a arenca em
peus para se praticar o bem». O homem se consumaria na prática
do bem igualmente, tendo ou nao tendo Religiáo.

Com outras palayras aínda : em se tratando de Religiáo,


a mentalidade cientificista moderna leva o homem a nao se
preocupar muito com a VERDADE ; contenta-se apenas com
SINCERIDADE ou com as disposigóes pessoais dos individuos
«religiosos» ; substitui-se assim a nocáo de verdade (valor
objetivo) pela de sinceridade (valor subjetivo) ; julga-se que
pouco importa o que alguém professa (catolicismo, protes
tantismo, espiritismo, budismo...), contanto que o professe
sinceramente.
— Ora nao é preciso grande esfórco para se averiguar
quáo vá é tal posicio.
A sinceridade com a qual alguém professa urna ideología
ou propugna urna causa, nao é, de modo nenhum, argumento
em favor dessa causa ; o fato de que há comunistas sinceros
nao justifica o comunismo, como também o fato de que há
católicos sinceros aínda nao justifica o Catolicismo. A since
ridade é urna disposicáo subjetiva, independente das qualida-
des do objeto ao qual ela se aplica ; mesmo as causas mais
desastrosas tiveram adeptos fanáticos, de cuja sinceridade nao
nos seria lícito duvidar.

Ninguém nega o valor da sinceridade ou da boa fé. A boa fé,


porém. (disposicáo subjetiva) nao dispensa o seu complemento neces-
sário que « a verdadeira fé (ou a apreensáo da realidade objetiva
tal como ela é).

Em última análise, deve-se dizer que a atitude relativista


do homem contemporáneo frente a tudo que é metafísico e
religioso, significa decrepitude ou cansago da mentalidade mo
derna : quem renuncia a verdades objetivas para se prender

— 277 —
únicamente a criterios subjetivos na orientagáo de sua con-
duta, sofreu urna deformacáo em sua mentalidade. O homem
que só admite certeza no setor das ciencias positivas, fecha-se
intencionalmente a toda urna ordem de coisas ainda mais ricas
do que as coisas visíveis ; os objetos sens'veis sugerem con-
clusóes contingentes, muito sujeitas a ser reformadas (basta
lembrar como os cientistas váo sucessivamente remodelando
suas explicacóes dos fenómenos); ao contrario, a realidade
que fica além do empírico, a realidade metafísica, é, como
dizia o filósofo grego Aristóteles (f 322 a. C), «necessária,
eterna e imutável», oferecendo, por isto, certeza tal que as
ciencias empíricas geralmente nao conseguem obter.

Donde se vé que urna das larcfas mais prementes que incum-


bem ao homem moderno, é a de confiar de novo na sua inteligencia;
esta, utilizada sem preconceitos, indica ao estudioso a existencia do
Misterio ou de urna Inteligencia transcendente; indica, sim, a exis
tencia de Deus e das realidades invisiveis; ora, nao há dúvida, a
inteligencia humana, feita para captar a verdade, tem como vooacáo
primaria a apreensáo de tais realidades nao sujeitas á contingencia da
materia. Nao se justifica, portante o relativismo no setor religioso;
existe o Misterio, mas existe também intelecto humano capaz de o
apreender aos poucos. Cf. «P. R.» 8/1958, qu. 2.

Nao repetimos aqui o que já foi dito em «P. R.» 20/1959, qu. 1,
em favor das possibil idades de chegarmos ao conhecimento da verdadc.

2) Outro motivo, afim ao anterior, que explica a indi-


ferenga moderna em relagáo á fé, é o primado que hoje em
dia se atribuí á agao e aos valores práticos, com detrimento
para os valores especulativos. Muitos tendem a julgar o Cris
tianismo e, em particular, o Catolicismo pelas suas manifes-
tagóes externas ; em conseqüéncia, assim como há os que
muito admiram a Igreja por causa dos beneficios (educagáo,
instrucáo, morigeracáo...) prestados a humanidade, há tam
bém os que déla se afastam por causa de maus exemplos
dados pelos cristáos ; para nao poucos contemporáneos a pior
objegáo existente contra a fe crista é o comportamento de
cepcionante de irmáos tidos como católicos. Ao averiguá-lo,
ésses observadores julgam poder definir peremptóriamente a
sua atitude de condenagáo ; nao consideram aquilo que a fé
católica ensina, nem olham para os valores objetivos que a
mesma encerra, independentemente da infidelidade dos seus
pretensos adeptos.

— Ante tal tendencia, o católico reconhecerá, sem hesi-


tagáo, que a fé deve ser eficaz, que a conduta de vida há de
ser coerente com a crenga e que a verdade tem por fim trans
formar as almas ; nao há dúvida, ñas origens do Cristianismo,

— 278 —
foi o teor de vida exemplar dos cristáos que para muitos
pagaos se tornou a prova palpável da origem divina da Jgreja.

Mas, reconhecendo isso, o bom cristáo nao poderá deixar


de lembrar aos seus observadores a distingáo vigente entre
a verdade em si e a conduta pessoal, subjetiva, dos que pro-
fessam a verdade : «A verdade nada tem que ver com o
número de pessoas que ela persuade», dizia Claudel muito sa
biamente.

Sim; a verdade permanece de pé e tem sempre valor destinado


a todos os homens, ainda que os filhos da verdade nao lhe déem
testemunho prático. A verdade nao se desvirtúa pelo fato de que nao
é traduzida por atos concretos. Ela fica sendo sempre capaz de trans
formar a vida de quem a abrace, embora éste ou aquéle individuo que
a profere nao leve, por íraqueza humana, urna conduta de vida
conseqüente. «Muitas mentiras nao extinguem a existencia da verdade»
(Daniélou).

3) Em terceiro lugar, como fator de indiferenga pe-


rante a fé, pode-se apontar o orgulho de que muitas vézes
está imbuido o cidadáo do século XX.

Ésse garbo desregrado se dissimula sob íormas sutis. Em última


análise, o homem contemporáneo sabe que quem aceita a fé, aceita
ao mesmo tempo a irrupcáo, em sua vida, de Alguém que nunca mais
o deixará entregue a si mesmo; aceitar a fé implica renunciar ao
desejo que cada um tem de bastar a si, para aceitar a condicáo de
ser englobado mima corrente de vida que talvez leve a pessoa a sair
da sua mediocridade e a atingir objetivos mais elevados do que os
que ela quisera atingir. Em outros termos: aceitar a Deus e aceitar
o seu amor, como Ele se manifesta no Catolicismo, significa abracar
a perspectiva de ser desapossado da posicáo de «alfa e omega» que
cada um tende a atribuir a si mesmo. «Deus primeiro nos amou»,
diz S. Joáo (1 Jo 4,10), de sorte que ao homem compete aceitar ésse
amor e corresponder-lhe dignamente.

Em suma : a fé a muitos aparece como urna ameaca á


sede de autonomía que o filho do século XX traz em si. E por
isto que grande número de nossos contemporáneos, sem ter
a ousadia de renegar diretamente o Criador, preferem forjar
o seu conceito «próprio» de Deus e de Religiáo ; preferem
dizer éles mesmos quem é o Senhor e como se chega até Ele,
emancipando-se destarte de qualquer autoridade objetiva, de-
vidamente credenciada para propor as verdades religiosas.

— Sem dificuldade, percebe-se quanto o homem moderno,


nutrindo tal atitude, engaña a si mesmo. Nao pode haver
Religiáo sem fé, sem adesáo da razáo a verdades de ordem
superior, que o homem nao abarca com sua exigua inteli
gencia, mas que se lhe incutem por estarem devidamente cre-

— 279 —
denciadas. Sim; deve-se levar em conta, de um lado, que
Deus, por definigáo, é o Ser absoluto, infinitamente mais rico
do que o homem ; por conseguinte há de ter seus misterios.
Doutro lado, tendo criado o homem por benevolencia, Deu?
nao podia deixar de lhe revelar algo de seus designios, assim
como os meios necessários para que o homem volte ao Cria
dor. Pois bem ; tal revelagáo divina foi feita e há de ser aceita,
por vías objetivas, por um magisterio anterior e superior ao
individuo, devendo éste, por conseguinte, prestar fé. Nao há
dúvida, é mais cómodo ao intelecto humano criar ou inventar
do que simplesmente aceitar a realidade religiosa já feita.
Essa «comodidades, porém, é ilógica ; desvirtúa o conceito
de Religiáo, pois Religiáo significa entrega do homem a Deus,
Ser vivo, pessoal e transcendente. Será sempre preciso reco-
nhecer que Deus precede o homem,... que há efeitos sobre
os quais éste nao pode dispor, enfim... que ao homem toca
necessáriamente entrar numa ordem de coisas que ele nao
inventou.

De resto, observa-se que a íé de modo nenhum suprime a pesquisa


racional; deixa aberto vasto campo de estudos ao qual se aplica a
inteligencia; basta lembrar quanto a RevelacSo crista estimulou o
desenvolvimento da Filosofía e da especulagáo intelectual na Idade
Media. Do seu lado, a inteligencia humana, aplicando-se lógicamente
ao estudo, chega á conclusáo de que a única posigáo verdaderamente
razoável é a de quem tem íé. Sim; a razáo aos poucos descobre a
existencia do Misterio e do Transcendente que está na raiz de toda
a realidade; ora, tendo-o descoberto, é consentanco com os seus
próprios ditames que ela profira um ato de fé ou de adesáo ao Misterio
ou ao Absoluto.

2. ReligiSo e culto divino

1. Mencionamos ácima a marcante tendencia do homem moderno


á atividade. A multiplicagüo de tarefas que o progresso do saber e da
técnica acarretou, parece solicitar toda a atencáo do cidadáo, nao
deixando lugar nem tempo para grandes manifestares religiosas.
Dir-se-ia que as energías dedicadas aos atos religiosos sao seqües-
tradas á construcüo da cidade dos homens, cidade dos homens onde
tanta miseria requisita incessante colaboracáo.
Vejamos os graves senóes que nesse modo de pensar se encerram.

A esséncia da Religiáo e, em particular, do Cristianismo


está em que o homem reconhega sua dependencia em relugáo
a Deus e se una o mais possível ao Senhor ; o amor ao pró
ximo e o alivio da sorte alheia tém que ser considerados como
efluxos vivos désse amor a Deus.
Ora o homem nao pode limitar suas relacóes com Deus
ao plano do invisível, pois o ser humano é essencialmente um

— 280 —
composto de alma e corpo, dotado de índole social; a vida
do homem se desenvolve normalmente 1) mediante o uso de
suas faculdades corpóreas e 2) em ambiente comunitario;
cf. «P. R.» 15/1959, qu. 3.

Por isto deve-se dizer que o homem que nao reserva


periódicamente algum espaco de tempo para a oragáo (ou
seja, para a procura explícita da uniáo com Deus), e para a
oragáo comunitaria, tal homem nao vive como homem; sua
vida está mutilada. Pertencer á comunidade, aperfeicoar-se
na comunidade (familia, escola, igreja, profissáo civil ou re
ligiosa...) sao elementos essenciais á personalidade humana,
elementos sem os quais esta definha.

Esta afirmagáo é corroborada pelo fato de que os homens sempre


experimentaran! a necessidade de consagrar mediante ritos coletivos
ao menos as fases essenciais da sua existencia, ou os atos nos quais
Ihes parece tocar o misterio de Deus e da vida: o nascimento (surto
da vida), o casamento (contrato que visa multiplicar a vida) e a
morte (extingáo da vida); sempre que o homem se viu colocado
diante da realidade básica, que é a vida, ele procurou entrar em
contato com Deus de maneira comunitaria e senslvel.

De modo especial, o Cristianismo requer dos seus mem-


bros a prática dos sacramentos. Sim ; o Cristianismo é essen-
cialmente a Encamagáo do Divino no humano. Em primeiro
lugar, Cristo é o Filho de Deus feito homem; os que tomaram
contato com a sua Divindade invisível, tomaram-no por meio
da sua carne sensivel. Por sua vez, a Igreja é a continuagáo
da Encarnagáo ; Cristo Lhe confiou os misterios de Deus e
da Redengáo, que Ela traz encerrados dentro de moldes sen-
síveis e humanos ; por isto ninguém pode tomar contato com
as riquezas de Cristo a nao ser por meio da estrutura visivel
ou dos sacramentos da Igreja. Quem despreza a Igreja por
causa da índole sensivel dos sacramentos, está-se afastando
de Cristo e vai-se privando dos tesouros de santificagáo e
Redengáo que o Salvador nela depositou.

Pode-se dizer que Cristo é o Grande Sacramento ou o Sacramento


primordial; Ele se léz Filho do homem para que o homem se tornasse
filho adotivo de Deus; e, na quaiidade de Filho do homem, multip'icou
páes, transformou agua em vinho, tendo em vista por essa via levar
os homens ató a sua Divindade, ou mesmo até o Pai Celeste. Ora os
sacramentos nao sao senáo agua, pao, vinho. óleo, gestos e palavras
que Cristo hoje em dia administra por meio da sua Igreja (ou do
seu Corpo prolongado) a fim de comunicar aos homens a filiacáo
divina. Em conseqüéncia, vé-se que anticristáo seria querer afastar-se
do plano sacramental; o cristáo que o pretenderse, deixaria de ser
cristáo no sentido pleno da palavra, por muito que praticasse a bene
ficencia para com os indigentes (nao é preciso ser cristáo para ter

— 281 —
pena dos que soírem; basta ter o senso humanitario ou filantrópico
natural, que é comum a todos os individuos, antes mesmo que pro-
fessem alguma crenca religiosa positiva).
Nao .sem razáo, pode-se julgar que a recusa do aspecto sacramen
tal e ritual do Cristianismo é inspirada pelo orgulho do homem
contemporáneo; o recurso aos elementos materiais e sensíveis (agua,
pao, vinho, óleo...) instituidos por Cristo como cañáis da graga
parece ser algo de pequenino demais para o cidadáo do século XX,
o qual pouco compreende que Deus se revela aos humildes e pequeños
(cf. Mt 11,25).

2. Dir-se-á, porém: apesar de tudo, nao é mais útil e


premente praticar a caridade (dando de comer a quem tem
fome, vestindo a quem está desnudo.. .) do que ir á Missa
e participar de assembléias litúrgicas ?
— Vista a necessidade da oragáo, e da ora<;áo coletiva
(ou seja, do culto comunitariamente prestado a Deus), respon
deremos que por motivo nenhum o cristáo poderá menosprezar
ésse culto, instaurado pelo próprio Cristo.
Os homens procuram construir as cidades dos homens
neste mundo ; mas, para que tais cidades tenham consistencia,
deveráo deixar que Deus construa a Sua Cidade entre éles ;
se Deus nao construir a Sua Cidade, nem os homens cons-
truiráo a déles. Ora o Supremo Senhor edifica Sua Cidade
por meio dos Sacramentos ; é principalmente através déstes
que o Redentor age no mundo, comunicando-lhe valores eter
nos, que serviráo de esteio para os valores temporais.

«O servico explícito de Deus constituí urna experiencia tao funda


mental quanto o servico do próximo. Estas duas exigencias sao
igualmente incoerciveis. Um cristáo se engaña sempre que minimiza
urna ou outra. O mundo nao será digno déste nome se néle urna e
outra nao fórem respeitadas. Um mundo sem adoracáo é mundo tao
desumano quanto um mundo sem fraternidade. 'A verdadeira cidade,
diz La Pira, é aquela em que Deus e o homem tém cada qual a sua
casa'» (J. Daniélou, Déíense du pratiquant, em «Études» janv. 1958,12).
A construcao da oidade dos homens o o culto de Deus nao sao
incompativeis entre si. É preciso mesmo dizer que, se os cristaos
foram, nesta ou naquela fase da historia, infiéis ás suas tarefas
sociais, isto nao se deve a um presumido excesso de amor a Deus e a
casa de Deus. £ vá'a censura, feita aos cristáos, de que a sua fé
os subtrai aos afazeres temporais. As energías consagradas ao Senhor
nao sao furtadas aos homens, porque, na verdade, o amor aos homens
só é eficaz quando sustentado pelo amor a Deus e ao seu santuario.

3. Em último lugar, o observador náo-cristáo poderia


apontar o caso de mais de um cristáo para quem a Religiáo
se limita aos atos do culto... Há, sim, quem muito viva na
igreja, sem pensar em aliviar a sorte do próximo na cidade.
Tal tipo de fiéis nao redunda em desabono do ritual cristáo ?

— 282 —
— Na verdade, muito se deve lamentar a existencia de
tais cristáos. Sua atitude, pouco ou nada influente na vida
social, em parte terá dado motivo á reagáo dos náo-católicos
contra o culto católico. Contudo o proceder incoerente dos que
váo á Missa, mas nao difundem os frutos da Missa no mundo,
aínda tem significado: exprime na sociedade o desejo de nao
romper com Deus, mas de manter contato com Ele.

«Nao louvarei o cristáo para quem o Cristianismo se reduz a


alguns atos religiosos. Mas também nao lhe atirarei a primeira pedra
Néle respeitarei o pavio que ainda íumega, o canico que pode ser
reerguido. Quando essa ehamazinha se tiver extinto por completo,
teremos entrado no mundo das trevas, da morte espiritual, dos casa-
mentos meramente civis e dos enterros meramente civis. Vivemos
num mundo em que pode haver dedicacáo aos interésses da humani-
dade, do progresso ou da ciencia, mas em que essa dedicacáo in.ola
vidas humanas ao monstruoso Ídolo que é o orgulho coletivo do
hometn» (J. Daniélou, ibd. 6).
Á guisa de comentario, seja lícito repetir: o cristáo que freqüenta
o culto, mas nao irradia devidamente a sua caridade no convivio
social, é certamente merecedor de censura; contudo ele ainda cons
tituí de certo modo um testemunho contra a total laicizacao da vida
humana (casamentas e enterros meramente civis), laicizacáo que
está em frontal oposicáo ás concepcSes mais espontáneas da natureza
humana, como já tivemos ocasiáo de notar <ct. pág. 281).
Para sintetizar quanto até aqui foi dito, parece nao haver melhor
conclusao do que a que um profundo e equilibrado observador de
nossos tempos assim formula:

«Está claro que. se nao há Cristianismo sem sacramentos os


sacramentos nao bastam para fazer um verdadeiro cristáo. A prática
dos sacramentos é a condicáo primaria, sem a qual nao existe Cristia
nismo auténtico. É por isto que a diminuicáo da mesma será sempre
grave síntoma; contudo a prática sacramental é apenas um ponto
de partida. De um lado, a carencia de prática sacramental é motivo
de condenacáo para aqueles que desprezam os sacramentos; de outro
lado, porém, a prática sacramental por si só nao justifica aqueles
que deixam infecundos os sacramentos» (J. Daniélou, ibd. 13).

3) «Nao seria muito melhor que Deus se dignasse apa


recer aos incrédulos e os advertisse de que somonte o Cristia
nismo é o Caminho e a Verdade? Nao poria fim ás dúvidas
e ao pecado, tirando tantos homens da crisc religiosa em que
se acham ?»

A resposta á questáo se depreenderá da consideragáo dos


seguintes pontos :
1. Deus quer, sem dúvida, que todos os homens se salvem
(cf. 1 Tim 2,4 e «P. R.» 29/1960, qu. 2). Donde se conclui
que o Criador concede a cada individuo humano os meios
necessários á salvacáo.

— 283 —
2. Tais meios sao gcralmente consentáneos com o curso
natural das coisas; já que Deus é o Autor das leis que as
regem, Ele costuma utilizar as criaturas para executar seus
designios no mundo.

Por conseguinte, Deus se maniíesta a todo homem

a) pelos seres visiveis que o cercam, seres contingentes que só


se explicam pela existencia de urna Causa Absoluta, a qual é Deus. O
homem, portanto, usando de sua razáo, mediante o principio de que
tudo que cometa a existir tem urna causa, pode chegar ao conhecimento
da existencia de Deus e de alguns dos seus atributos (Onipoténcia,
Sabedoria. Bondade, Justica...);

b) pela lei natural, que no intimo de cada consciéncia clama:


«Faze o bem, evita o mal». Essa voz, anterior a qualquer deliberagáo,
é a voz do Autor mesmo da natureza. O homem que siga sincera
mente tal ditame, segué o bem, e, passando de bem finito a bem finito
(de ato bom, virtuoso, a ato bom, virtuoso), adquire comunháo cada
vez mais íntima com a Fonte de todos os bens e virtudes, que é Deus.

3. Além de se manifestar de modo natural (pelas cria


turas visiveis e pelos ditames da consciéncia), o Senhor Deus
houve por bem revelar-se aos homens de maneira sobrenatural,
isto é, falando pelos Profetas e por seu Filho único feito
homem (Jesús Cristo).

4. A revelacáo sobrenatural foi munida de credenciais


a fim de merecer a aceitaqáo inteligente e consciente dos
homens.

Entre essas credenciais, registram-se os milagres reali


zados por Cristo, dos quais o mais expressivo é a ressurreigáo
do próprio Senhor Jesús.

Pode-se dizer que todo o Cristianismo está baseado na proposicáo


da ressurreic&o de Cristo: «Se Cristo nao ressuscitou, vá é a vossa
fé», escreve Sao Paulo (1 Cor 15, 17). Ora a rossuiToic.íio de Jesús
deve tor sido um falo real, pois cortamente o mundo n<> qual ula
foi inicialmente apregoada, nao estava em absoluto predisposto a
aceitar tal fenómeno; ao contrario, os Apostólos e discípulos de Cristo
se mostraram assaz lentos para lhe dar fé (tenham-se em vista
S. Tomé, em Jo 20,25; os discípulos de Emaús, em Le 24,17-23).
Quanto aos pagaos, sabe-se que consideravam geralmente o corpo
como cárcere da alma, repudiando, por conseguinte, qualquer hipó-
tese de volta da alma á materia após a morte do individuo. Se, nao
obstante tal aversáo, a noticia da ressurreigáo de Jesús conseguiu
implantar-se entre os povos do Imperio Romano, a ponto de se tornar
o fundamento de vinte séculos de Cristianismo, o bom senso exige
que tal noticia fósse verídica ou correspondente á realidade histórica;
se nao, fácilmente haveria sido desmascarada pelos adversarios do
Evangelho, que nao eram pouco numerosos; cf. «P. R.» 8/1957, qu. 1.

— 284 —
Entre as credenciais da Boa Nova, devem-se notar outrossim os
milagres que acompanharam a pregagáo dos Apostólos (cf. At
5,12-17);... também a surpreendente propagacáo do Evangelho,
doutrina da Cruz, num mundo corrupto e hostil, que até 323 perseguiu
os cristaos...

Em suma, o Senhor fez que a implantagáo do Evangelho no mundo


íósse munida de testemunhos objetivos (que aqui nao váo minuciosa
mente explanados por nao pertencerem ao tema da questáo), teste
munhos objetivos suficientes para que até nossos dias a pregagáo de
Cristo e da sua Igreja possa ser inteligentemente aceita (e nao aceita
simplesmente de olhos fechados, por motivos de rotina, ou por impo-
sicáo de autoridade).

5. Dizíamos que a Providencia Divina houve por bem


efetuar numerosos milagres nos primordios da pregagáo do
Evangelho. Eram necessários em vista das circunstancias ñas
quais ressoava a palavra dos Apostólos, pregando um Messias
crucificado, «escándalo para os judeus, loucura para os gregos»
(cf. 1 Cor 1,23). Sujeitos as perseguigóes desde os tempos do
Imperador Ñero (64-67), os primeiros arautos do Evangelho
nao teriam conseguido resultado algum se nao fóra a inter-
vencáo extraordinaria de Deus em seu favor.

Urna vez, porém, passadas as circunstancias dos primeiros tempos,


a Providencia nao continua a suscitar os abundantes milagres de
outrora. Registram-se, sem dúvida, aínda hoje portentos que confirmam
a veracidade do Evangelho; tais sao, entre outros, os que se verificam
em Lourdes, Fátima, ñas canonizacóes dos santos, etc.; a Santa Igreja
faz questáo de submeter os apregoados fenómenos extraordinarios ao
exame de cientistas e teólogos, a fim de se certificar de que se trata
de verdadeiros sinais de Deus.

Os milagres, porém, sendo derrogagóes as leis que o


Criador sabio incutiu á natureza, nao podem constituir o re-
gime normal de salvacao para os homens : Deus, tendo dado
lois aos elementos, nao lhes faz excecóes sem finalidade pro-
porcionalmente importante ; em tudo Ele observa harmonía
e consonancia. Ora, para promover a conversáo dos homens,
existem nao sómente as credenciais objetivas que assinalamos
(principalmente a ressurreigáo de Cristo, base de vinte séculos
de Cristianismo), mas também os auxilios invisíveis da graga
dados aos homens que ouvem a palavra de Deus, para que
se convertam. Podemos estar certos de que o Senhor nao
deixa criatura alguma destituida dos elementos necessários á
salvagáo ; para isto, porém, nao precisa de fazer milagres
(excegóes); a graga de Deus, mesmo no setor das coisas ordi
narias, é muitíssimo variegada em suas vias...

— 285 —
6. Deve-se mesmo dizer (quase paradoxalmente) que,
para quem nao possui um ánimo sincero e dócil para aceitar
os meios ordinarios de salvacáo, nem mesmo os meios extraor
dinarios ou milagrosos servem de alguma coisa. Sim; a alma
mal disposta nao se rende nem diante dos sinais mais retum
bantes, mas está sempre pronta a retorcer e anular o signifi
cado de qualquer milagre.

É o que o Senhor mesmo se digna ensinar no S. Evangelho


mediante a parábola do ricaco e do mendigo Lázaro lef. Le 16,19-31): '
um homem, diz Jesús, banqueteava-se todos os dias, desprezando um
pobre e doente, Lázaro, assentado á porta de seu palacio. Morreram
o rico e o misero... Após a morte, o gozador experimentou tremenda
decepgáo, conseqüente ao seu egoísmo. Em sua amargura, entáo,
pediu ao Pai, permitisse que Lázaro reaparecesse na térra para
admoestar os cinco irmaos do ricaco. precavendo-os contra semelhante
desilusáo. Do céu, porém, recebeu a resposta seguinte: «Éles tém
Moisés e os Profetas; ougam-nos!»; o que queria dizer: «... tém os
meios ordinarios de salvacáo, os quais sao suí.cientes». Insistiu, porém,
o ricaco: «Mas, se alguém dentre os mor tos fór ter com éles, arrepen-
der-se-áo». Falsa esperanca! A voz do alto replicou: «Se nao ouvem
a Moisés e aos profetas, nao se deixaráo persuadir, mesmo que ressus-
cite alguém dentre os mortos!».

Esta parábola de Jesús incute claramente a todos os homens a


necessidade de se aproximarem de Deus nesta vida, contando com os
meios ordinarios da Providencia, e nao com recursos extraordinarios.
A ninguém é licito pretender recobor sinnis milagrosos do Deus para
abracar a verdadeira fe; engana-se aqucMe que julga que, se o Senhor
fizesse hoje em dia mais milagres ou um milagre de alcance universal,
todos ou quase todos os incrédulos se converteriam. Quem resiste
aos meios comuns de salvagáo, muitas vézes nao o faz porque careca
de evidencia objetiva para abracar a fé, mas porque criou hábitos
c disposicóes moráis que ele com sacrificio deveria remover, caso
um dia aderisse á fé; assim a paixáo desregrada pode deter o homem
diante de qualquer sinal de Deus!

7. Acontece que a Providencia Divina nao faz chegar a mensa-


gem do Evangelho a todos os homens, permitindo que uns vivam na
idolatría e outros na heresia. — Tais homens, que, sem culpa própria.
desconhecem a verdadeira fé, podem, sem dúvida, salvar-se, caso
observem com toda a fidelidade os ditames da sua consciéncia. entre
os quais é fundamental o seguinte: «Faze o bem (todo o bem que
vires ser obrigatório) e evita o mal (todo o mal que vires ser proibido)».

Está claro que a tais homens o Senhor nao pedirá contas de urna
profissüc de fé e de observancias religiosas que, sem culpa própria,
teráo ignorado ou jamáis teráo conhecido auténticamente. Seráo
julgados conforme a sua fidelidade aos ditames de sua consciéncia e
poderáo conseguir a bem-aventuranga celeste destinada a todos os
justos (contanto que perseveren» rigorosamente de boa íé no^ erro,
fazendo lealmente tudo que a consciéncia lhes mande, até o fim da
sua vida); cf. «P. R» 1/1958, qu. 7.

— 286 —
TEÓFILO (Sao Paulo) :

4) «Como pode o Pai do Céu, que é infinitamente bom,


condenar o homem a um inferno eterno, quando os país na
térra nao castigam seus filhos com punieres sem fim ?

Certamentc Deus há de perdoar aos pecadores que se


acham no inferno».

A dificuldade ácima provém de urna concepcáo errónea


do inferno : supóe, seja éste um castigo que Deus na hora do
juízo concebe mais ou menos arbitrariamente para atormen
tar a criatura ; em tal caso, a sentenca divina poderia ser re
formada ou até cancelada por anistia, á semelhanca do que
se dá nos tribunais humanos.. .
Na verdade, a condenagáo ao inferno nao depende pró-
priamente de um veredito divino pronunciado após a morte
do pecador; é, antes, a conseqüéncia muito lógica de certos
principios que caracterizam a existencia do ser humano, de
modo que se pode dizer que, anteriormente a urna sentenca
divina positiva, já o pecador lavrou sua sorte infernal; nao
é preciso que Deus tome alguma deliberagáo especial para
que o inferno se torne realidade para o pecador.

É o que vamos recordar sumariamente, remetendo o leitor para


ciuanto já íoi clilu sobre o inferno em -sP. R.* 3/19:i7, qu. 5.

1. Todo homem traz em si urna aspiragio inata e in-


coercível ao Bem Infinito, que é Deus (todos querem ser bem-
aventurados sem que possam assinalar limites a essa sua sede
de bem-aventuranga).
2. Para conseguir a felicidade a que aspiram, Deus ou-
torgou as criaturas humanas o livre arbitrio. Éste lhes confere
dignidade própria, fazendo que se movam, e nao sejam sim-
plesmente movidas, em demanda do Fim Supremo.
3. Se o homem, utilizando devidamente a sua liberdade
de arbitrio, adere ao Infinito ou a Deus, compreende-se que
esta atitude se lhe torne fonte de alegría e felicidade imensas;
pois entáo convergem para o mesmo objetivo as aspiragóes
i natas de sua natureza humana e a opgáo consciente da von-
tade livre.

4. Admita-se, porém, que a criatura humana livremente


preste adesio, e adesáo total, a um bem criado (dinheiro,
gozo, fama...), afastando-se conscientemente de Deus...

— 287 —
De tal atitude nao pode deixar de resultar tremendo dua
lismo ou penosa dilaceragáo dentro da alma humana ; a sua
natureza, feita para o Bem Infinito, continua a bradar por
Deus, enquanto a vontade adere a um bem finito.

Convém aqui lembrar que a adesáo a um bem finito capaz de


provocar tal dilaceracáo é chamada «pecado mortal», o qual só se
dá quando as tres seguintes condicóes sao simultáneamente pre-
enchidas:
a) haja materia grave,
b) haja pleno conhecimento de causa (ato da inteligencia),
c) haja vontade deliberada e consciente de aderir ao bem finito.
Caso estas tres eondigóes sejam preenchidas, toda a personalidade
humana (por suas faculdades características: o intelecto e a vontade)
está empenhada.

5. Enquanto o pecador é peregrino neste mundo, pode


mitigar o drama que ele traz em seu íntimo : ocupando-se
com as tarefas e as diversóes da vida cotidiana, vai encobrindo
aos seus próprios olhos a dura realidade de sua alma, e es-
quece, ao menos parcialmente, a dilaceragáo de sua perso
nalidade.
6. Suponha-se, porém, que tal individuo venha a morrer
nessa situagáo: sua alma se separa do corpo e deixa de usu-
fruir, da parte das criaturas sensiveis, os paliativos que a
consolavam neste mundo.
A conseqüéncia será clara : tal alma continuará a trazer
dentro de si o desejo profundo e espontáneo de se saciar no
Bem infinito ; tal desejo está impregnado na natureza humana
e é incoercivel; nenhuma criatura humana pode ser conce
bida sem essa aspiragáo ou sem ésse sinete característico. A
mesma alma, porém, tomará consciéncia clara da monstruosi-
dade de seu estado : sim, verificará que a sua vontade livre
terá dirigido toda a personalidade do individuo para um bem
limitado e lacunoso, incapaz de a satisfazer ; ao finito terá
dado a adesáo que devia ter prestado ao Infinito. E nao lhe
será possível «esquecer» essa situagáo, pois nao terá em torno
de si algum dos objetos sensíveis que lhe serviam de paliativo
neste mundo.
Daí redunda a mais profunda dilacerado de que seja
capaz a criatura: de um lado, haverá o brado espontáneo da
natureza, anterior a qualquer deliberagáo, brado voltado para
Deus, o Infinito ; do outro lado, existirá deliberada entrega
da vontade a urna criatura, ao finito ; estes dois clamores es-
taráo em luta entre si, dividindo ou retorcendo (por assim
dizer) a alma.

— 288 —
7. Tal é o estado em que, logo após a morte, entra na
turalmente a alma de quem tenha pecado gravemente. Vé-se
entáo como, antes mesmo que Deus profira alguma sentenga
sobre ela, essa alma já traz dentro de si o inferno, ou o maior
tormento possível. O juizo postumo que o Senhor formula a
seu respeito, nao vem a ser senáo o reconhecimento de tal
situagáo ; nada de novo induz na sorte que tal alma ocasionou
para si.
Mas porque é que o Senhor reconhece e nao muda essa
ordem de coisas vigente na alma do réu ?
O Senhor nao a muda, porque só o faria forcando ou
violentando a livre deliberagáo da criatura. Ora Deus, que
dotou de personalidade livre o ser humano, nao lhe retira a
dignidade assim outorgada ; antes, respeita-a plenamente.

Seja licito lembrar de novo o seguinte: todo pecado grave supSe,


da parte do homem, claro conhecimento do mal e pleno desejo de o
cometer; supSe, portanto, urna tomada de posicáo consciente e livre
de toda a personalidade humana frente á mais seria das questóes,
que é a questáo do Fim Ultimo. Nao se poderá, por conseguinte, tachar
de pecado mortal qualquer acáo que tenha aspecto de culpa grave,
pois nenhum observador humano é capaz de penetrar o íntimo das
conscióncias para lá discernir as possiveis atenuantes da culpabilidade.
Nao nos 6 licito, por conseRuinte, em caso algum supor ou afirmar
que determinada pessoa está no inferno. Se a justica humana leva
em conta os estados de obsessáo e diminuida responsabilidade dos
criminosos, multo mnis a Justica Divina os considera, de modo que
ninguém padece a triste sorte do inferno sem realmente se ter
encaminhado para ela.

8. Contudo talvez insista alguém : afinal, Deus, que é


sumamente misericordioso, nao poderia perdoar ?
— Sim ; Deus poderia perdoar, e de fato, perdoa as suas
criaturas, desde que, da parte destas, urna condigáo se verifi
que : naja repudio do pecado ou arrependimento ; em caso
contrario, isto é, se a criatura nao o quer receber, váo se
torna o perdáo. Ora acontece justamente que nenhuma das
almas que morrem em pecado mortal e, por conseguinte,
nenhum dos reprobos do inferno se quer arrepender e voltar
para Deus, por muito tormentosa que seja a sua situagáo.
Com efeito ; a alma só muda de disposigóes ou se arrepende
quando unida ao corpo; é só mediante a atividade dos sen
tidos externos e internos que ela pode conceber novos conhe-
cimentos e desejos; por conseguinte, quando se separa do
corpo ou dos sentidos, a alma humana se fixa irrevogável-
mente na última disposigáo que teve durante esta vida (amor
ou odio a Deus). O pecador, portanto, que morra com aver-

— 289 —
sao a Deus e apego apaixonado á criatura, para o futuro
sentirá, de um lado, a tremenda dilaceragáo que éste afeto
acarreta, mas, de outro lado, nao desejará em absoluto voltar
para Deus, desfazendo-se do seu amor desregrado ao finito ;
nao o desejando, está claro que o Senhor nao o forcará.
Ve-se assim algo de aparentemente paradoxal, mas su
mamente verídico e significativo : nao há quem esteja no in
ferno e daí queira sair; os reprobos sofrem, mas nao querem
abandonar o estado que lhes motiva o sofrimento. Se algum
déles pedisse perdáo, Deus nao lho negaría.

Esta afirmagáo é ilustrada pela parábola do filho pródigo (cf.


Le 15. 11-32). Nao há dúvida. tal trecho do S. Evangelho visa incutir
a suma confianca em Deus. cuja misericordia surpreende a expecta
tiva humana; o Senhor perdoa ultrapassando todas as categorías da
benevolencia humana. Contudo a parábola bem mostra que ésse
perdao só é outorgado á criatura que, cheia de arrependimento o
deseje e pega: «Pai, pequei contra o céu e contra Ti; já nao soü digno
de ser chamado teu filho» (Le 15, 18), exclamou o herói da narrativa.
Ora íoi justamente o íato de se ter reconhecido indigno que lhe
mereceu ser recebido como íilho bem-amado!... Oxalá os homens
que se afastam de Deus, procedessem até as últimas instancias como
o íilho pródigo! Entáo seriam sempre tratados como éste...

9. Deve-se observar outrossim que o estado aflitivo do


reprobo nao tem fim, porque a alma humana ó, por sua natu-
reza, imortal (nao consta de partes que se desgastem e de-
componham); cf. «P.R.» 2/1957, qu. 5.
Deus poderia, a rigor, aniquilar as criaturas que estáo no
inferno. Ele nao o faz, porém, pois a existencia désses seres
tem seu sentido no conjunto do universo. Note-se bem que o
centro ou o ponto de referencia de todas as criaturas nao é o
homem, mas Deus ; todas as criaturas sao chamadas a dar
gloria a Deus ; portante, desde que realizem esta finalidade,
sua existencia tem valor no grande quadro do universo. Ora
o pecador sofre no inferno justamente porque reconhece que
Deus é sumamente bom e que ele voluntariamente se incom-
patibilizou com o Sumo Bem (se nao reconhecesse a Bondade
de Deus, o reprobo nao sofreria). Vé-se entáo que o tormento
mesmo do pecador é proclamacáo da perfeigáo e da santidade
de Deus ; destarte a existencia do reprobo nao é vá, mas
preenche sua finalidade primaria e suprema.
A modalidade de que essa existencia, para o respectivo
sujeito, é infeliz, torna-se secundaria; Deus fez o homem para
ser, e ser sempre (claro está que... á semelnanga do Exem-
plar Divino, o qual é sempre feliz) ; a modalidade de ser feliz,
porém, Deus a quis tornar dependente da livre opeáo do
homem; éste a pode frustrar. Contudo, o bem fundamental

— 290 —
que é o ser, existir, Deus o quis tomar a seus exclusivos cui
dados; o Criador o dá irrevogávelmente; nao o retira, mesmo
que o homem nao cumpra a sua parte, abusando do dom do
Benfeitor. O homem, por conseguinte, existirá sempre, como
Deus planejou bondosamente, mesmo que, em conseqüéncia
de uma livre opeáo sua, nao exista feliz. Sua existencia, mesmo
nessas circunstancias, nao carecerá de significado e valor.
10. Talvez ainda nos aflore a mente uma última dúvida:
Deus, sabendo que tal ou tal criatura se perdería no inferno,
nao poderia ter deixado de a criar ? Nao deveria ter feito
apenas criaturas que usassem da sua liberdade para o bem ?
Refutamos um pouco sobre o valor dessa «sedutora» so-
lucáo do problema. «Liberdade» diz, por seu conceito mesmo,
variedade e multiplicidade de realizacóes ; é natural, portante,
que a liberdade humana se afirme na historia com essa mul
tiplicidade de formas que a caracterizam ; se tal variedade
nao se verifica, tem-se estranha liberdade,.. . liberdade arti
ficialmente canalizada numa só diregáo ; ora, isto nao sendo
normal, nao se poderia pretender que Deus procedesse assim.
O essencial é que nenhuma das criaturas Iivres, mesmo usando
plenamente da sua liberdade, deixe de ser uma expressáo da
santidade do Criador ; ora isto se verifica também nos repro
bos, os quais, por todo o seu ser, no inferno, proclamam a
Perfeicáo e, em particular, a Bondade do Criador.

O Senhor nao criou seros Iivres que artificialmente só optassem


por um alvitre, como também nao criou flores de papel, mas criou
flores naturais; é sómente o homem que. nao podendo produzir flores
naturais, fabrica flores artificiáis, flores que nao murcham,... mas
flores que parecem ser flores, quando, na verdade, nao o sao!
11. Outras questSes atinentes ao inferno já foram abordadas
em «P. R.» 3/1957, qu. 5. O que interessava, na presente questáo, era
mostrar que o inferno nada tem de arbitrario da parte de Deus;
nao é um castigo que o Criador estipule atendendo a um código de
penas o sancóes, a semelhanca do que se dá na justica humana, código
naturalmente reíormável... O inferno, em verdade, nao é renáo a
última conseqüéncia da violacáo dos principios que definem a estrutura
do ser humano: quem voluntariamente ingere veneno, morre, simples-
mente porque contradisse ás leis que regem a vida física do homem...

III. SAGRADA ESCRITURA

AMIGO DE DEUS (Sao Paulo) :

5) «O nome de Deus revelado no Antigo Testamento


deve ser pronunciado JAVÉ ou JEOVA ?»

1. Para se entender a resposta, será preciso, antes do mais,


observar que os judeus antigos, seguindo, alias, a praxe dos semitas

— 291 —
em geral, nao costumavam escrever senáo as consoantes de seus
vocábulos. As vogais deviam ser mentalmente supridas pelo respec
tivo leitor, de acordó com os seus conhecimentos gerais da língua
hebraica; algumas consoantes (ou semi-consoantes), tidas como «ma-
trizes ou indicadoras da leitura» (matres lectionis), serviam para
denunciar a presenca dos sons vocálicos.

2. Pois bem ; no ambiente de Israel, o verdadeiro Deus,


a pedido de Moisés, se dignou revelar aos homens o nome pelo
qual havia de ser invocado (cf. Éx 3,13-17) ; tal nome era
assinalado pelas consoantes e semi-consoantes YHWH, as
quais o leitor devia mentalmente associar as vogais A e E
assim distribuidas: YAHWEH. Destarte se explica a forma
JAVÉ, hoje em día comumente adotada quando se transcreve
o santo nome de Deus (ou o tetragrama sagrado) para as
línguas modernas.

Os antigos gregos, ao íazer a transcricáo para o grego, usavam


urna das seguintes fórmulas: Jabé. Jaoué, Jauai. Estas corroboram
a tese de que a pronuncia dos antigos judeus era JAVÉ.

Os exegetas propóem mais de urna interpretac.áo possível para


o nome Yahweh. Nao discutiremos aqui as diversas sentencas, mas
apenas mencionaremos a mais provável: Yahweh parece significar
«Eu sou Aquéle que é», em contraste com as criaturas, que sao e nao
sao...; Deus se terá destarte a presentado como o Imutável, em
particular como Aquéle que é fiel ás stias promessas.

3. Tal era a reverencia tributada pelos israelitas ao


nome divino que o tinham na conta de «Nome por excelencia,
Nome único, Nome glorioso e terrível, Nome oculto e miste
rioso». Temendo profaná-lo por uso indevido, evitavam mesmo
pronunciá-lo, a ponto de se tornar proibido, depois do exilio
(séc. VI), proferir o nome de Deus. Nao há dúvida de que
esta proibigáo estava em vigor no inicio da era crista, pois
o historiador judeu Flávio José, ao contar a revelagáo feita
a Moisés, julgava nao lhe ser lícito transcrever o nome do
Senhor (cf. Ant. jud. II XII 4). Éste entáo foi sendo consi
derado como «Nome que se escreve, mas nao se lé».

Os rabinos medievais quiseram justificar tal veto, interpretando


em sentido rigorista os seguintes dizeres do Levítico: «Aquéle que
amaldicoar (noqed) o nome de Javé, será punido com a morte» (Lev
24,16). O verbo naqad, aqui ocorrente, podia significar outrossim
«assinalar mediante pontos, designar distintamente».

A quanto se pode depreender do Talmud (colegáo de sentengas


dos rabinos anteriores e posteriores a Cristo), o santo nome de Javé
só era proferido pelo Sumo Sacerdote de Israel quando entra va no
«Santo dos Santos» do Templo no dia solene da Expiacáo anual, ou

— 292 —
pelos demais sacerdotes que abencoassem o povo no santuario, de
acordó com Núm 6,23-27; mesmo em tais casos, porém, parece que
era pronunciado em tom de voz muito baixa. Um autor do séc. XVII,
orientalista holandés, Johannes Leusden, diz ter oferecido a um judeu
pobre de Amsterdam elevadas quantias de dinheiro para que éste
proferisse o nome inefável; em váo, porém. Os exegetas créem mesmo
que alguns judeus antigos e modernos nao sabiam mesmo como se
pronunciava o tetragrama sagrado, por nao terem ocasiáo de o ouvir.
Os escrúpulos israelitas que acabamos de referir, deram ocasiáo
a que na tradicáo judaica, provávelmente a partir do séc. IV a.C, se
introduzisse o costume de proferir «Adonai» (Meu Senhor) todas as
vézes que se visse escrito o tetragrama JHWH.

4. Ora aconteceu que no séc. VI d. C. os rabinos ditos


«Massoretas» (coletores de tradigóes), visando preservar de
corrupgáo o texto bíblico, para isto, recorreram a um sistema
de pontos e traeos (símbolos das vogais) a ser colocados abaixo,
dentro ou ácima das consoantes. Destarte se removería a pos-
sibilidade de muitas dúvidas e inovagóes na leitura da Biblia
Sagrada.

A tradigáo judaica, porém, permaneceu fiel ao principio


de que o nome de Deus é inefável. Conseqüentemente, os mes-
tres de Israel tomaram as vogais A (= E) O A do apelativo
AdOnAy, e as puseram entre as consoantes do tetragrama
sagrado ; donde se formou o novo titulo JEHOWAH.

Para quem conhece a língua hebraica, é claro que o primeiro A


de Adonay só se explica pela presenca da gutural aleph (') desta
palavra. Éste A é própriamente um «sheva» ou um E mudo, e toma
tal valor em JEHOWAH, onde já nao figura ao lado da gutural aleph.
Quanto ao iod final (Y) de Adonay, nao é vogal. mas semi-consoante.
Note-se que no inicio da Idade Media a pronuncia do tetragrama
munido das vogais E O A continuava a ser simplesmente ADONAY.
Pergunta-se entáo: em que época precisa se terá adotado a pronuncia
Jeová, resultante direta do grupo de consoantes e vogais escritas?
Tal modo de pronunciar é pela primeira vez atestado por Raimundo
Martini, autor da obra «Pugio íideb no ano de 1270; parece, porém,
que já estava cm uso ñas escolas rabinicas anteriores. Só foi adotado
pelos cristáos no séc. XVI; principalmente os protestantes, tendo á
frente o calvinista Teodoro Beza de Genebra, Ihe deram voga.

É fato que os judeus antigos nunca pronunciaram Jeová;


nunca portanto o povo a quem o Senhor outrora dirigía a sua
palavra, se disse «testemunha de Jeová», nem mesmo após as
solenes proclamagóes de Isaías 43,10 e 44,8 : «Vos sois minhas1
testemunhas, diz o Senhor, e meus servos, que escolhi»; «Sois
testemunhas minhas ; haverá outro Deus fora de Mim?». O
povo a quem estas palavras imediatamente se dirigiam, ter-
se-ia intitulado : testemunha de Adonai.

— 293 —
IV. MORAL,

C. S. R. (Rio de Janeiro) :

6) «Qual o valor do Hvro 'Entre dois mundos', de Ka-


thryn Ilulme ?

Nao significa que a vida de convento, impondo obediencia


estrita, impede a plena expansao da personalidade, devendo
por isto ser remodelada em nossos días ?»

A questáo versa sobre o livro «The Nun's Story» (Historia de


urna Freirá) da escritora norte-americana Kathryn Hulme, publicallo
em setembro de 1956. A obra logrou sucesso extraordinario, atingindo
a tiragem de tres milhoes de exemplares nos Estados Unidos. Reco
mendada nesse pais pelo «Clube do Livro do Mes», pelo «Clube do
Livro das Selegdes» e pelo «Clube do Livro Católico», traduzida para
treze idiomas (para o portugués, sob o título «Entre dois mundos»,
ed. AGIR. Rio de Janeiro), essa pega literaria íoi também difundida
em filme da «Warner Brothers» (cf. a revista «Lite en español», 13
de julho de 1959).
Em última análise, o livro de Kathryn Hulme lanca graves ques-
t6es sobre o valor da vida consagrada a Deus por votos religiosos.
Há quem tenha, através da respectiva leitura. concebido mais clara
noca o da vida claustral; mas também há quem haja deduzido suas
conclusSes negativas... É, portanto, em meio ás diversas opiniSes que
nos importa tragar alguns fios condutores. Para melhor o conseguir,
reconstituiremos, antes do mais. o conteúdo da célebre obra; a seguir,
tentaremos avaliá-la serenamente.

1. A narrativa do famoso livro

Kathryn Hulme pretende relatar com fidelidade os dados


biográficos e o drama íntimo de urna Religiosa que, após 16
anos de vida regular, se julgou impossibilitada de continuar
no convento, a menos de se tornar hipócrita ; obteve entáo
da autoridade religiosa a dispensa de seus votos e voltou para
o século.

A protagonista do enredo chamava-se Gabrielle Van Der


Mal. Filha de um dos mais competentes cardiologistas da Bél
gica, resolveu aos 21 anos de idade entrar numa Congregacáo
Religiosa destinada ao servigo dos enfermos. Irma Lucas (tal
veio a ser o seu nome em Religiáo), tendo emitido os votos,
serviu em um hospital de alienados e foi mandada para o
Congo Belga, onde passou sete anos muito devotados aos
doentes ; havendo ela mesma sucumbido á molestia, viu-se de
novo chamada á Bélgica, justamente quando na Europa se
iniciava a segunda conflagracáo mundial ; durante a ocupa-
Cáo nazista, trabalhou no hospital da Trindade, junto á fron-
teira belgo-holandesa. Foi nesses anos de guerra que eclodiu

— 294 —
a sua crise de vocacáo, crise que, havia muito, se ia esbo
gando: a Irma Lucas, possuidora de temperamento assaz amigo
da autonomía, dotada outrossim de notável inteligencia e cul
tura, difícilmente se submetia a disciplina da Regra ; a título
de melhor praticar a caridade, postergava um tanto a fide-
lidade aos seus sagrados votos. Principalmente na Bélgica,
sob o regime nazista, a Religiosa tomou atitudes que a punham
em sucessivos conflitos com a Regra e as Superioras: ten-
tava auxiliar a resistencia aos nazistas, guardando em seu
coracáo ressentimentos e animosidade ; recebia, fora dos trá
mites habituáis da vida religiosa, jomáis clandestinos, me
diante os quais veio a saber da morte de seu pai assassinado
pelos nazistas. Consciente de que estava desempenhando no
convento um papel ambiguo, a Irma Lucas, nao obstante, nao
se sentía disposta a se reintegrar dentro da disciplina claus
tral ; o conflito assim chegou ao auge, impelindo finalmente
a Religiosa a pedir a dispensa de seus compromissos, embora
as Superioras muito Ihe aconselhassem tentasse readaptar-se
á observancia conventual... Gabrielle Van Der Mal acabou
voltando ao sáculo, devidamente desligada da sua profissáo
regular ; em 1945, num campo de deslocados da U.N.R.R.A.
encontrou Kathryn Hulme, a quem narrou aos poucos a sua
historia anterior. Ora foi justamente essa narrativa que a
escritora norte-americana pretendeu apresentar ao público
dez anos mais tarde sob forma de biografía, muito agradável
e atraente por seu estilo, intitulada «The Nun's Story».

2. E agora. .. como apreciar o livro ?

1. A primeira impressáo que se tem quando se acaba


de ler a obra de Kathryn Hulme é de que a vida claustral
(exemplificada por aquilo que tal autora descreveu) está
hoje em día estereotipada, reduzindo-se a urna serie de obser
vancias destituidas de espirito ; as Regras, em vez de fomen
tar a expansáo do amor e o desenvolvímenlo auténtico das
personalidades, seriam motivo de depauperamento ; o ideal
da Religiosa que por sua exatidáo se tornou «Regra viva»,
estaría em contraste com a realidade da vida. Os Superiores
Religiosos, através do mencionado livro, aparecem como pes-
soas que por suas ordens mortificam os súditos de maneira
arbitraria, sem procurar averiguar se seus preceitos estáo
ou nao estño acomodados as circunstancias próprias de
cada caso.
2. Po& bem ; diante de tal impressáo, certamente a pri
meira questáo que um espirito crítico e honesto deve propor,
é a seguinte : será que o enredo narrado por Kathryn Hulme

— 295 —
corresponde fielmente á historia que Gabriela viveu no
convento ?
— Em resposta, dir-se-á que, embora Kathryn nao tenha
tido a intengáo de fazer da vida de Irma Lucas um romance,
ela parece nao haver reproduzido com exatidáo a realidade
que a Irma Lucas experimentou. Com efeito ; cada um dos
quadros particulares que K. iHulme descreve, tem sua veros-
similhanca, podendo ser considerado fidedigno ; ninguém ne
gará falhas de orientagáo cometidas por Superioras Religio
sas pouco abertas á vida moderna ; ninguém desconhecerá a
necessidade de atualizacáo («aggiornamento») preconizada
pelo Santo Padre o Papa XII para as Ordens e Congregacóes
Religiosas. Falta de inteligencia e falta de generosidade podem
existir em toda parte onde naja criaturas humanas. Contudo
o conjunto que resulta dos quadros e episodios particulares
referidos por Kathryn Hulme, é demasiado seco e formalista
para que se possa crer corresponda a realidade de alguma
das comunidades religiosas hoje existentes na Santa Igreja.
Em particular, está averiguado que a Congregacáo Religiosa
(mantida no livro sob anonimato) a qual Gabriela Van Der
Mal pertenceu, longe de ser espiritualmente estéril, é, ao
contrario, movida por auténtico fervor. Á vista disto, a crítica
pergunta se Kathryn Hulme, desejosa de melhor realcar o
drama íntimo e as ligóes de psicología do enredo, nao «estili-
zou», exagerando alguns tragos do «formalismo», e omitindo
outros, que os contrabalancariam, sacrificando, em suma, algo
da plena realidade histórica, a fim de mais vivamente impres-
sionar os leitores e incutir-lhes profunda reflexáo sobre o
assunto. Há mesmo quem julgue ter Kathryn Hulme apre-
sentado urna «caricatura» da vida religiosa (quem assim pensa,
nao duvida de que a escritora norte-americana haja sido ani
mada por sincera intengáo de fazer crítica construtiva).
«O livro é perturbador pelo quadro que ele oíerece da vida reli
giosa. Exato na aparóneia. mas falso no fundo; materialmente veros-
símil, a obra, na verdade. faz caricatura. Pois a vida religiosa que
ela apresenta, é demasiado carecente de alma: observancia períeita-
mente correta, mas destituida de interioridade...
Se tal é a vida religiosa, se o culto da Regra pSe de lado a cari-
dade evangélica, compreende-se bem que a Irma Lucas nao a tenha
podido sustentar. Mas compreende-se menos bem que ela tenha susten
tado dezesseis anos... Ora justamente recuso-me a aceitar ésse quadro
da vida religiosa. Rejeito-o, porque nao é cristáo. Nao me venham
dizer que as cóisas em tal ou tal CongregacSo nao se apresentam
táo esteréis e formalistas. Tenho certeza de que em parte alguma
as coisas se dáo como o livro as descreve» (H. Holstein, em «Études»
décembre 1957, 427).

Nao podemos deixar de levar em conta a opiniáo de tais


críticos que julgam haver Kathryn Hulme visado finalidades

— 296 —
doutrinárias mais do que historiográficas ao compor os
quadros da vida de Irma Lucas. Tal sentenga nos parece
acertada.
3. Outra observacáo se impóe ao leitor sereno: se a
Irma Lucas suportou durante dezesseis anos a sua vida con
ventual e depois a abandonou, é de crer que éste passo final
nao tenha sido motivado exclusivamente pelas deficiencias da
mentalidade do ambiente. A própria narrativa sugere, sim,
que Gabriela, da sua parte mesma, foi declinando do fervor
inicial; foi perdendo seu espirito de Religiosa consagrada a
Deus, para mais e mais dar lugar á mentalidade de urna en-
fermeira ou de urna pessoa simplesmente zelosa em seu «mé-
tier» de tratar os doentes...

Entro parénteses fazemos questao de realcar que as observagOes


aqui propostas visam a «Irma Lucas> do livro de Kathryn, a qual
talvez nao se identifique com a Irma Lucas da realidade; sómente
Deus é capaz de julgar a consciéncia desta irmá; apreciamos aqui
apenas o que a narrativa escrita nos apresenta.
Nao há dúvida, tal narrativa refere na conduta da Irma Lucas
algumas infidelidades á Regra, que nao podiam deixar de ser ao
mesmo tempo infidelidades a urna consciéncia de Religiosa. Assim
em sua estada no Congo a enfermeira permitiu que seu coráceo se
apegasse cm tormos sentimentais e exagerados a certas pessoas;
conservou ésse apego levando consigo «lembrancinhas» que, de volta
á Bélgica, ela acariciava mentalmente, fugindo mórbidamente á nova
realidade em que se achava; durante a guerra, parece ter-se deixado
penetrar (temáis por sentimentos de aversáo aos invasores da patria
(o que níio condiz com o espirito de urna pessoa totalmente consagrada
a Deus); em suma, ca obediencia... como Cristo a praticou» tornou-se
o ponto em que a Irma Lucas mais e mais deliberadamente foi
falhando (cf. «Entre dois mundos» 413). Ora inegávelmente a vida
religiosa, com seu tres votos, só pode ser justificada e abracada (em
toda e qualquer época ou regiáo) em vista da mais perfeita imitacáo
de Cristo.

Estas observaeóes sugerem a conclusáo de que os conflitos íntimos


da Irma Lucas nao íoram todos devidos á visáo estreita e ao forma
lismo de suas Suporioras ou de suas Irmas de hábito. Em certo grau,
a luta interior o o mal-estar se introduziram na Irma Lucas porque
esta nutriu afotos que em caso algum (nem no mais atualizado dos
conventos) se justificariam: afetos, sim, fúteis e incoerentes, que signi-
ficavam contradicho ao ideal mesmo da vida religiosa, que é vida
de totalidade e plenitude para Deus.

A prova de que o ambiente da Congregagáo da Religiosa


egressa nao era realmente estéril do ponto de vista espiritual,
mas oferecia a urna donzela, filha do século XX, os genuínos
atrativos da vida religiosa, é que urna jovem secular, Lisa,
discipula da Irma Lucas, mesmo depois de conhecer a crise
a resolugáo final de Gabriela, resolveu ingressar nessa mesma
Congregagáo «com o único intuito de consagrar sua vida a

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Deus» (cf. «Entre dois mundos» 424) : «Neste momento, pa-
rece-me que sómente no claustro aínda existe um pouco de
fé deixada na térra», dizia Lisa ao reafirmar sua vocacáo
religiosa.

De resto, a própria Gabriela, de volta ao sáculo, após haver


assistido tres vézes ao filme-enrédo da sua vida passada, declarou:
«Nao tornarei a vé-lo, porque, se o íizesse, regressaria ao convento.
Ao avistar a cápela e as Religiosas... nao posso deixar de iicar
contemplando e de chorar amargamente, nao por arrependimento nem
por motivo semelhante, mas porque me sinto avassalada por tanta
beleza. É urna vida bela, a vida religiosa, para quem realmente a
vive, para quem a pode aceitar sem murmurar. Dizem que nao foi
íracasso o fato de ter eu deixado o convento. Nao me compreendem.
Tantas outras Religiosas perseveram e realizam devidamente essa
vida; sabem levá-la. Eu nao o soube e íracassei» (transcrito de «Life
em español», 13 de julho de 1959. pág. 38).

Como resultado final de quanto acabamos de ponderar,


parece que se pode dizer o seguinte : há suficientes indicios
de que Gabriela tenha recebido da parte do Senhor urna au
téntica vocagáo para a vida conventual (é o que explica ter
ela podido professar e viver tantos anos sob a Regra) ; aos
poucos, porém, por sen relaxamento terá desmerecido os au
xilios do Senhor necessários para se sustentar a vida religiosa,
que é essencialmente urna vida de fé, vida sobrenatural; ora,
a visáo da fé havendo-se-lhe embotado, mais teráo saltado aos
olhos da Irma Lucas as fallías humanas, que muilo possivcl-
mente se registravam em sua comunidade (falhas, porém,
que nao davam o cunho definitivo ao ambiente, nem impe-
diam que as almas fiéis á vocagáo se fóssem santificando).
A situaeño de confuto interior tendo-se finalmente tornado
intolerável, Gabriela, que conservava urna natural nobreza de
caráter, nao quis deixar de qualquer modo ou «apaixonada-
mente» o convento ; ao contrario, ainda teve o espirito de fé
necessário para pedir a dispensa de seus votos. I-Ioje, legíti
mamente desligada de compromissos com o claustro, vive no
século qual boa filha de Deus e da Santa Igreja, dedicando-se
ao servigo do próximo. Deus julga e julgará essa alma, que,
de um lado, nao pode ser tida como apóstata, mas, de outro
lado, nao constituí padrño para se avaliar devidamente a vida
religiosa em nossos dias.

3. Reflexáo final

1. O enredo apresentado por Kathryn Hulme tem ao


menos a grande vantagem de lembrar aos Religiosos e as
Religiosas duas importantes verdades :

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1) pode acontecer no claustro que o amor á observancia
externa deva ser sacrificado ao espirito da Regra ; admitam
os Superiores, em casos particulares, a necessidade de adaptar
a letra das Constituicóes a circunstancias novas, a fim de que
a caridade nao venha a sofrer detrimento, mas, ao contrario,
seja sempre favorecida pela vida regular. As leis, em Religiáo,
nao foram concebidas para sufocar a vida sobrenatural, mas,
antes, para assegurar-lhe o ambiente normal de expansáo.

2) Grande é o perigo que ameaca o Religioso ou a Re


ligiosa que conscientemente se entreguem a pequeñas infide
lidades á sua profissáo regular; cada um désses atos, por
muito insignificante que parega, concorre para turvar a clara
visáo da vida religiosa ; vai outrossim entibiando a generosi-
dade e o amor. Ora, já que a observancia claustral só pode
ser sustentada na generosidade e no amor, acontece que cada
golpe desferido contra estas qualidades contribui para destituir
de sentido e tornar absurda a vida conventual, provocando
quicá a ruptura defintiva com o claustro.

O lato de que o livro de Kathryn Hulme é porta-voz das mensa-


gcns ácima justifica, haja recebido das autoridades eclesiásticas o
«Imprimatur» ou a licenca para ser impresso; a sua leitura pode
lornar-se útil a militas almas no convento ou mesmo no século.
Contudo nao parece recomendável a quem nao conheca por outra
fonte o que é a vida religiosa; em virtude das lacunas que aponíamos,
pode desfigurar, aos olhos de quem nao esteja prevenido, o ideal
tía consafjracAo a Deus mediante os votos do pobreza, castidade e
obediencia. Será, portanto, prejudicial para nao poucos leitores e
leitoras.

2. De resto, a extraordinaria difusáo de que gozou essa


obra literaria bem atesta quáo vivo é o interésse do público,
mesmo náo-cristáo, pelo ideal da vida completamente entre
gue a Deus. Éste ideal ainda parece fascinar ; os homens se
empolgam pelo que diz respeito á sua autenticidade ou ao
seu desvirtuamento.

Será preciso, porém, chamar a atencáo para o fato de que a vida


religiosa, por mais bela que pareca, jamáis poderá ser entendida por
quem lhe aplique únicamente os criterios da razáo natural ou do bom
senso humano; a genuina vida religiosa terá sempre um cunho
paradoxal e misterioso, que só os criterios da íé saberao justificar
e avaliar adequadamente. Em outros termos: a vida religiosa será
sempre urna faceta daquele «tornar-se tolo por amor a Cristo» de
que fala Sao Paulo (cf. 1 Cor 3,18). Sim; a profissáo claustral poderá
exigir dos Religiosos, renunciem a bens que a razáo humana muito
recomendaría; poderá exigir mesmo, dexem de utilizar meios de
apostolado que parecam eficacísimos; e isto, a fim da que em toda
a conduta do Religioso e da Religiosa haja a oferta de um holocausto
a Deus, isto é, a oferta até mesmo da vontade própria. Éste é o dom

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mais precioso que o homcm possa apresentar a Deus, mais precioso
do que as próprias tarefas de tratar os doentes, ensinar aos que erram,
visitar os encarcerados, etc.; estes aíazeres sao obras externas que
no convento devem ser praticadas em espirito de renuncia total e
jamáis podem servir de ocasiáo ou de fomento ao culto da vontade
própria. As atividades, mesmo apostólicas, que os membros de Ordens
e Congregag5es exercem, para ser genuinas, háo de ser praticadas
segundo a Regra e a obediencia que cada um professou.

Com outras palavras: o Religioso e a Religiosa por


vocasáo tendem a desempenhar tarefas grandiosas em bene
ficio da humanidade... Contudo o valor da vida dessas pes-
soas consagradas nao se mede pela sua eficacia visivel, humana,
nem pelo esmero dos meios de que se servem, mas, sim, pelo
espirito de renuncia á vontade própria e de total entrega a
Deus que os deve animar. Quem esquece isto (como parece
ter sido o caso da Irma Lucas,... da Irma Lucas do livro ;
nao queremos com isto julgar a Irma Lucas da historia),
decai do seu ideal e arrisca-se a extinguir as grabas de Deus
necessárias para a sua perseveranca no claustro.

Em resumo, a posicáo do Religioso e da Religiosa no mundo


moderno está bem formulada nos seguintes termos:
«O éxito do apostolado de urna Religiosa nao deve ser julgado
segundo os mesmos criterios que o éxito do apostolado de um leigo:
o leigo guarda a sua liberdade na escolha dos respectivos meios de
agáo, ao passo que a Religiosa... deve nortear-se sempre pelo ideal
próprio ao qual ela se consagrou e que constituí a sua vocagáo. Fora
desta via, ela nao poderia pretender chegar á perfeicáo da caridade...
O papel da Religiosa... fica sendo, hoje em dia mais do que nunca,
aquéle que lhe compete há séculos: dar testemunho da pobreza, da
castidade, da obediencia da Igreja, na qual se continua o misterio
mesmo de Cristo, e, por ésse sacrificio renovado interiormente todos
os dias, dar os frutos de um auténtico apostolado» (M. Giuliani, La
Religieuse dans l'Église, em «Études». junho de 1957, 397 e 399).
Misterio de urna renuncia que ao mesmo tempo é exaltagáo; eis
o que constituí o ámago da vida religiosa! O Espirito Santo o vai
manifestando a quem lhe é fiel.

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

RAVIE (Rio dé Janeiro) :

7) «Que há de certo a respeito do mosteiro de Port-


-Royal, a 'Tebaida mística', cuja historia foi muito explorada
pela literatura e o teatro ?»

Depois de considerar sucintamente os fatos salientes da


historia de Port-Royal, deter-nos-emos em breve reflexáo so
bre os mesmos.

— 300 —
1. Os acontecimentos...

«Port-Royal» era urna famosa abadía de monjas cistercienses,


situada outrora a 25 km a SO de París. Teve importancia notável tanto
na vida religiosa como no desenvolvimento cultural da Franga, prin
cipalmente por ocasiáo da controversia jansenista (séc. XVII/XVIII).
Vejamos os grandes tragos do histórico désse mosteiro a íim de
poder avaliar devidamente o seu significado.

Diz-se que o rei Filipe-Augusto da Franga (1180-1223), passando


certa vez pelo vale de Chevreuse, perto de Paris, concebeu a idéia
de ai fundar um mosteiro; donde o nome que a éste coube de «Port-
Royal» iPórto Regio). A execugao da idéia se deve á dama Matilde
de Garlande, esposa de Mateus de Montmorency, a qual resolveu
construir o cenobio em 1204, esperando obter do Céu o feliz regresso
de seu marido, expedicionario da quarta Cruzada.

As monjas que povoaram o mosteiro, foram fiéis á sua


Regra até fins da Idade Media. Nesta época, porém, a obser
vancia se foi ressentindo da invasáo do espirito do mundo que
de maneira geral contaminava as comunidades religiosas.
Contudo a Providencia quis que déste mesmo mundanismo
brotasse o germen de urna reforma. Com efeito, de acordó
com os costumes da época, o advogado Antonio Arnauld, gen-
til-homem da corte de Henrique IV, procurava «encaminhar»
na vida as suas seis filhas. Para urna délas, Jacqueline, que
contava sete anos de idade, obteve o titulo de Coadjutora da
Abadessa de Port-Royal, passando entáo a jovem a habitar
no mosteiro. Tres anos depois, 1602, a Abadessa do cenobio
tendo morrido, a Coadjutora Jacqueline, em Religiáo Madre
Angélica, sucedeu-lhe no govérno da casa. O fato, alias, nao
se deu sem fraude contra as leis eclesiásticas : para obter da
Santa Sé a bula de nomeagáo de Madre Angélica, seus fami
liares declararam a Roma que já atingirá os 18 anos de
idade... O terrível pai Arnauld, aproveitando-se da fraqueza
da jovem, Ihe fizera assinar a renovagáo dos votos solenes, o
que muito abatia o ánimo de Madre Angélica...

A nova Abadessa, nao experimentando inclinagáo para a


observancia religiosa, julgava-se condenada a tedio mortal.
Possuia, porém, urna alma imbuida de idealismo, capaz de
entusiasmo e energía. Ora, para que estas qualidades nela
se acendessem, bastou que na quaresma de 1608 um Religioso
Capuchinho, Frei Basilio, fósse pregar em Port-Royal sobre
o aniquilamento de Cristo em sua Paixáo dolorosa. Abalada
pelo tema, Madre Angélica percebeu a miseria da vida leviana
que ela levava com suas irmás de hábito, e resolveu mudar
radicalmente de conduta.

— 301 —
Revestiu-se de rude la, pds-se a fazer os repugnantes curativos
das chagas de urna noviga, passou a levantar-se durante a noite para
orar, etc. O bom exemplo arrastou a comunidade, a qual sem demora
voltou a viver em estreita pobreza e austeridade. Aos 25 de setembro
de 1609, data famosa nos anais de Port-Royal e conhecida como
«Journée du Guichet», restaurou-se a clausura na Abadía, tendo a
Abadessa recusado a entrada do mosteiro a seu próprio pai; tal atitude
provocou protestos e súplicas da parte da íamília Arnauld. A Abadessa,
porém, nao se demoveu, obtendo assim a vitória final dos seus desig
nios de reforma.

Passada a indignagáo do primeiro momento, os parentes


de Madre Angélica reconheceram o valor do seu gesto ; o
próprio pai tornou-se entusiasta arauto do que se dava em
Port-Royal, de modo que toda a cidade de Paris tomou conhe-
cimento da bela renovacáo espiritual do mosteiro cisterciense:
sacerdotes e prelados piedosos e ilustres entraram em inter
cambio com a Abadía ; o próprio Sao Francisco de Sales, bispo
de Genebra, lá esteve em visita, mantendo a seguir devota
correspondencia epistolar com Madre Angélica.

O clima poueo sadio do vale Chevreuse, ocasionando a morte


prematura de muitas Religiosas, fez que a dedicada Abadessa em
1626 empreendesse a fundacño do novo mosteiro no suburbio parisiense
de «Saint-Jacques»; de entao por diante houve dois cenobios de
«Port-Royal», sendo um dito «de Paris» (ou também «Port-Royal du
Saint-Sacrement», por causa do culto ai especialmente prestado á
S. Eucaristía); o outro mosteiro, mais antigo, ficou sendo cognominado
«des Champs». A nova casa, situada ás portas da capital francesa,
pode exercer influencia aínda maior na vida religiosa da nacáo: para
lá afluiam, a fim de rezar e se restaurar espiritualmente, leigos e
eclesiásticos, grandes e pequeninos, de Paris. — Assim por volta de
1630 o recente mosteiro de Port-Royal aparecía como o modelo dos
cenobios reformados segundo o mais genuino espirito do Concilio
de Trento; nenhuma ponta de heresia ou de abuso disciplinar poderia
ai ser denunciado, nem sequer prognosticado... No entanto, os acon-
tecimentos caminhavam para o inesperado!

Foi-se aproximando de Port-Royal de Paris o famoso abade de


Sáo-Cirano, colaborador de Jansénio na confeccao do «Augustinus»
e citado em «P. R.» 30/1960, qu. 7; desde 1635 ficou sendo o Diretor
Espiritual da comunidade. Sao Cirano velo a ser de modo especial
o mestre e mentor de Antdnlo Arnauld, o irmáo mais jovem de Madre
Angélica, o qual havia de se tornar « o grande Arnauld». Éste, junta
mente com homons de cultura e ideal, foi residir junto á abadía de
Port-Royal des Champs, formando um grupo de vida austero, o grupo
dos «Solitarios de Port-Royal», entre os quais se conta o filósofo e
matemático Blaise Pascal; ésses varóes, de tempera ardente, prati-
cavam o estudo e o trabalho manual, rezavam em comum e em
particular, procurando reviver o ideal dos monges do deserto numa
nova Tebaida (famosa colonia monástica localizada no Egito dos séc.
IV/VI). Para conseguir influencia maior sobre a sociedade francesa,
SSo-Cirano instituiu em Port-Royal «Pequeñas Escolas» (Petites

— 302 —
Écoles) em que seria aplicada nova pedagogía destinada principal
mente á formacáo do caráter; as monjas (Les Vierges) puseram-se
a dirigir as escolas íemininas. ao passo que os ascetas (Les Messieurs)
se encarregaram da educagáo e do preparo dos meninos.

Sob a agáo de Sáo-Cirano e de Arnauld, as comunidades


de Fort-Royal foram-se imbuindo da mentalidade jansenista
principalmente no tocante ao rigorismo ascético. O orgulho
penetrou fundo dentro das monjas, revelando-se com muita
clareza por ocasiáo da controversia provocada pela condena-
gáo do «Augustinus» de Jansénio ; foi de Port-Royal que pro-
cedeu a resistencia mais tenaz contra a decisáo pontificia. As
monjas foram intimadas pelas autoridades eclesiásticas e civis
da Franga a assinar urna fórmula de submissáo á sentenca
de Inocencio X concernente as doutrinas de Jansénio. As Re
ligiosas responderam com recusas «elegantes», asseverando
que sinais do Céu as levavam a isso : apontavam, sim, para
a cura «milagrosa» de urna irmá da comunidade, sofredora
de reumatismo ; apontavam para o «estranho» fato de que
um dos arcebispos de Paris mais infensos a Port-Royal, Pedro
de Marca, morrera repentinamente tres dias depois de haver
iniciado suas fungóes...

Ao abrir o volume do Novo Testamento para encontrar luz na


situacao em que se achava, Madre Arnauld leu as seguintes palavras
de Jesús: «Eis a vossa hora e o poder das trovas* (Le 22,53); corrobo-
rou-se entáo na posicáo de vitima...

Bossuet, famoso pregador da época. íoi enviado as monjas para


esclarecé-las sobre a sua atitude; o arcebispo de Paris aos 9 de junho
de 1664 estéve pessoalmente com urna por urna no parlatorio do
mosteiro, sem obter resultado algum.

A cada instancia do poder eclesiástico ou civil replicavam com


a negativa, acrescentando em uníssono: «Bem-aventurados aqueles que
sofrem perseguicao por causa da justica» (ef. Mt 5,10).
Alegavam outrossim motivos de conscléncia para nao obedecer
á autoridade suprema da Igreja — o que é totalmente váo, pois nao
há objecáo de consciéncia válida contra a Igreja (esta é urna sociedade
nao sómente humana, mas também e principalmente divina de sorte
que quem se distancia da face humana da Igreja, se distancia ¡mediata
mente do próprio Deus e da verdadeira consciéncia).

As monjas de Port-Royal eram bem caracterizadas por M. de


Péréíixe; que as considerava «puras como anjos, orgulhosas como
demonios». """ - -

Aos 26 de agosto de 1664, o arcebispo de Paris, acompa-


nhado de homens da policía, foi ter ao mosteiro de Port-Royal
des Champs e promoveu a transferencia de doze Religiosas

— 303 —
para outros cenobios; estas, no «exilio», fecharam-se em seu
orgulho, escrevendo «relatónos de cativeiro». Diante disto, a
autoridade eclesiástica em 1665 mandou reunir de novo a
comunidade em Port-Royal des Champs e sobre ela lancou o
interdito, isto é, a privagáo de toda a vida sacramental!
Éste estado de coisas durou quatro anos, após os quais
o partido jansenista e as monjas resolveram subscrever urna
fórmula de submissáo, cujos dizeres eram anulados por de-
claragóes particulares dos signatarios. Como quer que seja,
o Papa Clemente IX deu-se por satisfeito com o teor oficial
da fórmula, promulgando em 1669 a «Paz Clementina».

Restaurou-se entáo a vida antiga e prestigiosa de Port-Royal;


as nobres amigas do mosteiro, Mme. de Longueville e Mlle. de Vertus
mandaram construir ñas oroximidados do mesmo cermeñas hospedarías
para si; Mme. de Sévigné, Mme. de Sable, Mme. de Liancourt multipli-
cavam suas visitas al; as carruagens das duquezas afluiam freqtien-
temente ao mosteiro; a gente simples de Paris nao hesitava em
peregrinar a pé até lá; as familias distintas disputavam entre si a
honra de mandar educar suas filhas pelas Religiosas; quem estivesse
para morrer, nao raro pedia ser sepultado junto á «santa mansáo».

A situacáo, porém, criada pela Paz Clementina nao se


pode manter, já que se baseava em cavilagáo da parte dos
jansenistas. Estes foram reafirmando abertamente sua reni
tencia, provocando, dessa feita, enérgica intervengáo do poder
regio, cansado de cavilacóes. O Papa Clemente XI, interpe
lado pelo rei Luís XIV, condenou mais urna vez o jansenismo
mediante a bula «Vineam Domini», de 1703. As Religiosas de
Port-Royal des Champs ainda quiseram furtar-se recorrendo
a dialética sutil. Em conseqüéncia, o Sumo Pontífice houve
por bem dissolver a comunidade. A policía francesa, muito
interessada na execueáo de tal medida, encarregou-se de lhe
dar cumprimento: por conseguinte, aos 29 de outubro de
1709 (exatamente cem anos após o famoso «Dia do Guiché»).
as autoridades entraram no mosteiro, reuniram as monjas na
sala capitular, leram-lhes a bula papal e o mandato regio de
execucáo ; a seguir, as vinte e duas Religiosas do mosteiro
foram, cada qual em urna viatura, levadas para outras casas,
ficando o mosteiro vazio. Contudo féz-se ouvir a geral emo-
cáo do povo, que nos meses seguintes. com lágrimas e preces,
se dirigiu em peregrinagáo a Port-Royal des Champs. Tal
reagáo exasperou os ánimos do reí, que acabou decretando a
destruicáo da Abadía : em Janeiro de 1710, durante um in
vernó de fome e frió terrive's, turmas de operarios foram
enviadas ao loca!, onde arrasaram o mosteiro, as casas adja-

— 304 —
centes e a própria igreja, deixando de pé apenas as «granjas»
dos Solitarios. Permaneceu, porém, o cemitério, ao qual passa-
ram a afluir os peregrinos ferrenhos. A vista disto, S. Majes-
tade ordenou outrossim a destruigáo da necrópole : as fami
lias interessadas foi permitido retirar os restos mortais de
seus caros defuntos (Racine, Sáo-Cirano, Nicole) ; os despojos
dos demais foram exumados e atirados numa fossa comum.
— Triste fim de um esplendor que estava baseado nao pró-
priamente em Deus, mas, sim, no garbo humano !

Quanto ao cenobio de Port-Royal de Paris. as respectivas Reli


giosas tendo-se submetido ás decisóes pontificias, lá permaneceram
até 1790, ano em que o govérno revolucionario francés, consoante
o seu programa anti-religioso, secularizou o mosteiro; éste, pouco
depois, foi transformado em prisáo, recebendo por ironía o nome de
«Porto Livre»; finalmente em 1814 foi alí instalada famosa Maternidade.

O espirito de Port-Royal sobreviveu nao sdmente ñas conseqüéncias


religiosas apresentadas em «P. R.» 30/1960, qu. 7, mas de certo modo
também nos seus métodos pedagógicos, que visavam tornar a escola
viva e mais apta a formar a personalidade do aluno.

Imp6e-se agora breve reflexao s6bre os episodios percorridos.

2. Koflexao final

Os temas de historia da Igreja nao podem ser estudados & seme-


lhanga dos de historia profana. Pela Igreja e sua historia, diz Sao
Paulo, se manifesta através dos séculos a multiforme sabedoria de
Deus; tal manifestacáo teve inicio na Encarnacao do Filho de Deus
e se prolonga no Corpo de Cristo místico (cf. Ef 3, lOs). Cada quadro,
portanto, da historia da Igreja apresenta urna dupla face, exatamente
como Cristo viandante na térra apresentava sempre aos seus conci-
dadáos urna dupla face: a externa, humana, visivel a todos; e a interna,
divina, patente a quem «tinha dlho para ver» (cf. Mt 13,43). Por isto
é que, depois de recordar as peripecias da luta jansenista desenrolada
em grande parte no mosteiro de Port-Royal, nao nos é lícito deixar-nos
ficar em atitude dcsconsertada pelas afirmagSes de fraqueza humana
que averiguamos ao historiar os acontecimentos.

«Factum audivimus; mysterium inquiramus. — Ouvimos o fato;


sondemos o misterio», diría S. Agostinho.

Seguindo esta norma, verificaremos em primeiro lugar


que o movimento de Port-Royal, enquanto foi produto de
fervor religioso, nao é senáo um sinal da agáo do Espirito
Santo, que desde o Concilio de Trento foi levando os membros
da Igreja a nova disciplina a fim de viverem um Cristianismo
mais profundo e rigoroso (haja vista a «conversáo» impre
vista da Abadessa Angélica Arnauld, cujos inicios de vida
monástica faziam prever os mais desastrosos resultados).

— 305 —
Vista, porém, em seu conjunto (com as suas manchas
negras), diremos que a historia de Port-Royal vem a ser mais
urna afirmacáo do principio solene que Sao Paulo já no limiar
da era crista ouviu do próprio Deus : «É na fraqueza (do
homem) que por excelencia se manifesta a fórca (de Deus)»
(2 Cor 12,9).

Fraqueza, dificuldade física e moral para sustentar o dom de


Deus e transmiti-lo ao mundo, eis urna realidade que sempre existiu
no homem e sempre caracterizou a conduta das criaturas no decorrer
da historia da Igreja. Por isto o sabio leitor nao se surpreende ao
tomar conhecimento das conns do deficiencia moral que ncabam de
ser descritas. Surpreender-se-á talvez, sim, ao averiguar que a miseria
humana assim expressa nao levou a Igreja á ruina, justamente numa
época (séc. XVIII/início do séc. XIX), em que a astucia dos gover-
nantes civis, usando de todos os requintes, estava desejosa de desíerir
o golpe mortal sobre a Esposa de Cristo. Porque nao terá caído esta,
mas ainda hoje subsiste depurada (e depurada pelos recursos da sua
própria vitalidade) de peias que a deviam levar á morte?

O bom senso nao responderá que isto se dá porque, de


fato, é o Senhor quem sustenta a Sua Igreja ? Esta nao é
obra dos homens, embora esteja envolvida no humano e
receba dos homens a sua configurac.áo de primeira face. Com
efeito, Deus quis e quer manifestar na historia de Port-Royal
que é justamente quando mais se afirma a miseria do homem
que mais se manifesta a fórga de Deus. — Eis o que, em
última análise, vai atestado pelo episodio de Port-Royal.

Obscrve-se outrossim que as mesmas Ordens Religiosas que, no


decorrer dos séculos, conheceram períodos de declínio, geralmente
tiraram de seu próprio seio o vigor e os elementos necessários para
se renovarem (o que é testemunho de que o Espirito de Deus vive
realmente dentro dos moldes humanos da Santa Igreja). O caso é
bem típico na Ordem mesma de Cister, de cuja historia acabamos de
descrever um episodio sombrío; simultáneamente com os aconteci-
mentos de Port-Royal, veriíicou-se um movimento de reforma interna
dos mosteiros da Ordem, movimento marcado nao somonte por extre
ma austeridade, mas também por obediencia e humildade a toda
prova: tal 6 a obra do Abade Jean Le Bouthillier de Raneé (t 1700),
iniciador do ramo cisterciense dito dos «Trapistas». Estes, por sua
fidelidade a urna disciplina das mais severas que se conh.ec.am, ainda
hoje constituem poderoso atrativo para grande número de jovens,
máxime nos Estados Unidos da América, onde Tomaz Merton, conver
tido do materialismo, levantou muito alto o nome da Abadía de
Gethsémani. — A mesma Santa Igreja, pois, da qual alguns íilhos
se desviaram em Port-Royal, teve e tem a vitalidade necessária para
gerar e alimentar os heróis da Trapa! A experiencia ensinou sempre
que quem sinceramente procura, encontra a saciedade de suas aspi-
racoes nessa Santa Igreja Católica de Cristo!

— 306 —
CORRESPONDENCIA MIÚDA

MILITANTE (Rio de Janeiro): "Conhego pessoas que recebem os


sacramentos na Igreja Católica e, ao mesmo tempo, sao filiadas á Ordem
de Rosa-Cruz ou a semelhantes escolas de Filosofía. Será isto tolerável ?"

Iies]>. : Nao. Tal associac.áo nao pode de modo nenhum ser justi
ficada aos olhos da consciéncia católica. A í-azáo desta negativa nao é
nina pretensa mentalidade sectaria ou estreita que se atribuí ao Cato
licismo. Lembremo-nos, antes, de que a dignidade humana mesma rejeita
qualquer incoeréncia ou contradicho do homem consigo mesmo ; ora
há contradi;áo da parte de quem quer aderir simultáneamente ao Cato
licismo c ao Rosacrucianismo ou ao ocultismo.
— Mas como há cr.ntradicáo se tanto o Catolicismo como a Ordem
de Rosa-Cruz o o ocultismo visam incitar seus ade|itos á plática do
hem o h fuga do vicio ?
— Verdade c que, no tocante as recomendacóes pláticas ou na
Ética, há major ou menor afinidade entre as citadas denominares.
Acontece, porém, que o homem nao pode platicar o bem sem saber
previamente o que é o bem e o que é o nial, ou, com outras palavras:...
sem ter urna certa filosofía da vida,... sem, antes do mais, estabelecer
urna hierarquia de valores. Ninguém pratica ou trabalha em alguma
coisa sem luz ; ora a luz, no nosso caso, é a filosofía. Pois bem ¡ a
filosofía da vida crista é diametralmente diversa da filosofía rosacru-
clana ou ocultista. Sim ; para o cristáo o primeiro Valor, Deus, é dis
tinto da natureza e do homem; c um Ser Fessoal, que conhece e ama,
a ponto de se apresentar como o "Pai nosso que está nos céus". Ao
contrarío, para a Ordem de Rosa-Cruz, Deus é urna substancia neutra,
identificada com o mundo e com o homem ; é a Mente Cósmica, que
vai tomando consciéncia de si dentro do homem, na medida em que
fist»! sv aporfuicoa ; ¡i criatura humana c urna centelha ou urna parte
de. L'i-us mesmo... (filosofía esta panteista ou monista).
Essas duas concepsóes, como se vé, nao se podem conciliar ; há
contiad¡c.5o entre elas como entre Verdade e erro. Errónea, sim, é a
filosofía que admite identidade entre Deus — o Absoluto e Infinito e
o homem — ser mutável e finito. Nao há transigáo do Infinito, Eterno
para o finito, temporal, e vice-versa ; cf. "P.R." 7/1957, qu. 1 e
30/U'fiO, qu. 4.
Xa prática, portanto, vem a ser ilógico, contraditório querer
ptofessar o Catolicismo, mediante a recepgáo dos sacramentes na
iKroia, c o Rosacrucianismo ou o ocultismo, mediante a par-
t¡cipnc.iio dos atos e cursos déste sistema filosófico. Quem tente fazer
ésse duplo papel, nao pode ser nem bom católico nein. bom rosacruciano;
somente a falta de esclarecimento pode justificar tal jógo... Verdade
ó fjDc a filosofía rosacruz, como alias todas as correntes de filosofía
l'antdsta-monista, encobre seu erro usurpando fórmulas semelhantes
as dos católicos para se referir a Deus, supondo destarte um Deus pes-
soal, transcendente, distinto do homem. É semiente por se dissimular
assir/: que o monismo-panteísmo pode captar a adesáo de católicos.
Verifica-se outrossim que a "Rosa-Cruz" faz questáo de dize- que
nao (■ ReligiSo e que, por isto, se concilia com qualquer religiáo. Na
:ealioade, porém, o Rosacrucianismo incute urna visáo do homem e do
universo táo característica que, na medida em que se revela, ela vai
exclvindo qualquer outro modo de ver ou qualquer religiáo. A "Rosa-
-Cruz" vem a ser a "ReligiSo" do seu discípulo.

— 307 —
De resto, um católico iosacruciano só pode íeceber válidamente a
absolvigáo sacramental e fazer uma comunháo eucarístíca frutuosa,
caso declare ao confessor que professou o Rosacrucianismo e proponha
firmemente nao mais o professar. Se nao há propósito firme de se
desligar da escola rosacruz, nao adianta perante Deus receber os
sacramentos católicos. Do seu lado, nenhum sacerdote pode em cons-
ciéncia permitir que o penitente continué a viver em contvadigáo con
sigo mcsmo e com Deus.
O mesmo se deve intimar as pessoas que pretenden) ser catóticas
e espiritas ao mesmo tempo. Embora o espiritismo nao professe o
panteísmo, contradiz em muitos pontos á verdade crista, de modo a
induzir á incoeréncia (consigo e com Deus) aqueles que julgant poder
fazer duplo jógo.
GUILGAMECHE (Uberaba): "Texto massorético" da Biblia é o
texto munido dos sitiáis de vogais tais como forain acrecentados pelos
rabinos do séc. VI d.C, de que falamos noste fascículo á pág. 293.
A colocagáo explícita de tais vogais pressupunha, ñas passagens
obscuras da Biblia, uma maneira de interpretar que os rabinos masso-
retas adotaram ora com mais acertó, ora com menos acertó. O texto
massorético tornou-se o texto do Antigo Testamento ainda hoje utili
zado. É sujeito a ser retocado e mclhorado, nao, porcm, em pontos de
significado essencial.
ABDIAS (Rio de Janeiro): A respeito da Igreja e da pronrfcdadc
particular veja "P.R." 32/1959, qu. 5.
Sobre a posigáo da Igreja peíante o seivigo militar, deverá em breve
sor publicada urna resposta fin "P.R.". Rntrementos poderá l.-r ulgo
a propósito da liceidade da guerra emi "P.R." 22/19M, qu. 4.
UM LEITOR PAULISTA: A página de livro que V.S. nos enviou
com sua pergunta, versa sobre "restiiíáo mental", tema abordado em
"P.R." 18/1959, qu. fi. K h luz dos principios ex postos nesse artigo
que V.S. entenderá o trecho do livix) citado ; a doutrina 6 a riiesmn
em ambos os casos.
FRANCISCO (Porto Ales/re): Em tese, nao é lícito fazer a alte-
rac.áo referida. Antes, poróm, de condenar o procedimento de alguém,
faz-se mister examinar as circunstancias próprias do caso; há íatfm-s
ocultos que podem mudar totalmente o problema.
Recebemos ainda varias outras consultas sem enderégo algum para
nossa referencia. Já que o espago desta correspondencia miúda é limi
tado, devenios pesarosamente resignar-nos ao silencio diante de tais
consultas.
D. ESTÉVAO BKTTKNCOÜRT O. S. «.

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