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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memorisun)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confisca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO III

34
0 U T U B R <

1 9 6
ÍNDICE

Pág.
L CIENCIA E RELIGIAO

1) "Os monstros que nascem de casáis humanos, terdo real


mente alma humana? Deverño ser tratados como seres humanos?" 399

IL DOGMÁTICA

2) "Que significa o Batismo em favor dos morios a que se


refere Sao Paulo em 1 Cor 15,29 ?" j,o¡

m. SAGRADA ESCRITURA

3) "Como se deve entender a estranha afirmagáo de Jesús:


'A todo aquéle que já possui, dar-se-6 mais, e possuirá em abun
dancia ; mas a quem nao possui, será tirado até o que possui'
(Mt 25,29)?
Nao haverá contradi^áo nessa frase ?" 405

IV. MORAL

i) "Qual a posicáo da consciéncia crista frente a eutanasia?


E que dizer do uso de analgésicos que tenham influencia sobre
a duracüo da vida humana ?" 410

5) "O escándalo de vida don que deveriam ser puros, deso


rienta a nociedade.
Como se explica que haja escándalo entre os próprios católicos?
E como se poderia delinear a germina atitude- do cristáo pe-
rante os escándalos ?" * 420

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

6) "Em relaeño. ao servico militar, dis-se que a Igreja nos


primeiros sáculos condenava too paga e sanguinaria atividade.
Como se explica que hoje em dia a mcama Igreja reconheca
a legitimidade do servigo militar ? Nao se terá ela profanado, con-
descendendo eom as inetituifdes pecaminosas déste mundo?" ... 429

CORRESPONDENCIA MIÜDA (Porque condenar o racismo?).. íS7

COM APBOVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano III — N' 34 — Outubro de 1960

I. CIENCIA E RELIGIAO

PAI DE FAMILIA (Porto Alegre) :

1) «Os monstros que nascem de casáis humanos, terao


realmente alma humana ? Deverao ser tratados como seres
humanos ?»

Por «monstro» entende-se o individuo que apresenta urna


ou mais anomalías tais que o tornam gravemente aberrante
em relagáo aos demais seres da sua especie. Entre individuo
«monstro» e individuo «anómalo» há apenas diferencia de grau
de aberracáo. Interessa-nos aqui o monstro humano, do qual
focalizaremos sucessivamente dois aspectos: 1) o que se re
fere á genética ou a biología, e 2) o que diz respeito á filosofía
e á moral.

1. O aspecto genético ou biológico

Os monstros sempre mereceram especial atencáo dos ho-


mens de ciencia. Na antigüidade atribuia-se-lhes origem fan
tástica, como se fóssem descendentes degenerados de.-deuses
ou de demonios. Algumas figuras de monstros tornaram-se
mesmo famosas na literatura e na arte, como, por exemplo,
a Esfinge, o Dragáo, a Sereia, a Quimera, as Hárpias (ani
máis alados, com cabega, peito e bracos de mulher).
No século XVI o estudioso Ambrosio Paré comegou a
investigar de maneira mais objetiva e científica os individuos
monstruosos. Contudo sómente no séc. (XIX) é que a biología
enquadrou devidamente tais fenómenos : Estéváo Geoffroy de
Saint-Hilaire enunciou o principio de que a monstruosidade se
deve a perturbagóes verificadas na fase embrionaria de um
novo vívente ; finalmente seu filho, Isidoro Geoffroy de Saint-
-Hilaire tornou-se o fundador da Teratología (estudo dos
monstros) sistemática.

Hoje em dia a formagáo de um monstro é tida como


conseqüencia de alteragóes do óvutououjio espermatozoma na
fase anterior á fecundágáo ou támbém resultado de desórdens
registradas no ovo . fecundado. Quanto mais cedo se dá a
anomalía, tanto mais pode afetar a constituigáo do novo ser,

— 399 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960, qu. 1

acarretando-lhe entáo aberragóes de grande vulto. As causas


de tais perturbagóes no processo genético sao assaz variadas:
assinalam-se, por exemplo, anomalías dos elementos sexuais
(esperma dotado de mais de urna cabega ou de mais de urna
cauda), a influencia de molestias hereditarias, de intoxicagáo
(principalmente do alcoolismo), de alguma molestia infecciosa
crónica, de um estado psicopático, de cqnsangüineidade... ;
é controvertida a importancia de causas meramente psíquicas,
como impressóes, emogóes, etc.
A deformacáo monstruosa pode afetar o corpo inteiro
do individuo ou apenas urna parte déste, ocasionando os mais
diversos tipos de anomalías : assim há o monstro «sinadelfo»,
dotado de oito membros, um so tronco e urna só cabega; o
monstro «polidatílico», dotado de extraordinario numero de
dedos; o monstro «amélico», privado de membros ; o mons
tro «hermafrodita» ou bissexual; o monstro «ciclópico», por
tador de um só ólho no meio da testa. Registrám-se também
casos em que dois individuos aparecem ligados um ao outro,
seja pelo cránio, seja pelo tórax, seja por alguma extremidade
do corpo; as vézes um désses dois individuos é parasitario
(de constítuigao física menor e incompleta, alimenta-se á
custa do outro).
A vitalidade dos monstros depende do grau de defor-
magáo que os atinge : alguns sao incapazes de vida fora do
seio materno, ao passo que outros chegam a numerosos anos
de existencia. Dentro de limites relativamente exiguos, as
deformagóes podem ser corrigidas mediante intervengáo ci-
rúrgica.

Um dos exemplos mais famosos de individuos monstros é o dos


chamados «Irmáos Siameses». Tais eram dois gémeos denominados
Chang e Eng, xifópagos, isto é, unidos entre si por meio de urna
membrana cartilaginosa á altura do ventre; nasceram voltados face
á face um para o outro. A membrana de ligacSo, porém, gozava de
alguma flexibilidade, permitindo-lhes, com o progresso da idade e
o exercicio, virar-se um pouco para os lados.
Nasceram em 1811 no reino de Siam; tinham a tez e os traeos
característicos da raga mongólica, embora a testa fdsse menos larga,
mais alta, e a estatura do corpo inferior á media comum. Foram
levados para os Estados Unidos da América do Norte, donde sairam
a percorrer a Europa e o Novo Mundo, a íim de prover á sua subsis
tencia mediante exibigOes em palco.
Os dois irmaos, que quase nSo podiam girar sobre o seu eixo,
, f apresentavam comportamento, por asslm dizer,'uniforme: o que um
■ déles resolvía, era logo executado pelo outro; verdade é que nem
sempre o mesmo decidla, mas ora a um ora ao outro tocava dar
o alvitre. Nao havla desarmonia entre éles.
Contudo o capitSo Coffin, comandante da nave em que viajaram
os dois irmáos para os EE.UU., aponta um caso, um só, de desen-

_ 400 —
OS MONSTROS HUMANOS

tendimento ocorrido a bordo entre os dois gémeos: íoi ocasionado


por um banho..írio, que um quería tomar e o outro rejeitou por
.causa do rigor do invernó; a reconciliacáo, porém, se obteve sem
demora, pois os companheiros lhes deram a compreender que um
nao devia desejar prazer algum que í&sse nocivo ao outro.
Os dois irmáos, de resto, mostravam-se joviais em sua conduta
de vida, e assaz inteligentes; davam atencao a tudo que ocorria em
torno déles, e eram muJto sensíveis a qualquer testemunho de apreco.
Sem demora aprenderam o jógo de damas e o de xadrez. Conforme
se reíere, nunca falavam um com o outro, embora tivessem prazer
em conversar com um jovem siamés que os acompanhava. Desde
¡que nao se tratasse de movimentos corpóreos, o «eu» autdnomo
ou o psiquismo próprio de cada um dos dois irmáos se manifestava
marcadamente; foram vistos, por exemplo, a conversar independeji-
temente um do outro, com duas pessoas, um dos Irmáos servindo-se
de sinais, e o outro proferindo algumas palavras de inglés. Eram
também muito vivazes, correndo e pulando com agilidade sirpre-
endente. Sentiam sonó á mesma hora, nutriam-se da mesma quanti-
dade de alimentos, e preenchiam simultáneamente as mesmas funcóes
da natureza; para despertarlos do sonó, bastava tocar o corpp de um
só dos dois irmáos. Gozavam de boa saúde, a qual se traduzia num
olhar calmo e satisfeito.
Após terem arrecadado em viagem um bom capital íinanceiro,
Chang e Eng se casaram com duas irmás, das quais tiveram cada um
onze filhos, todos de saúdenormal! Quiseram também separar-se um
do outro mediante intervencüo clrúrgica; o caso entáo chamou a
atcncáo da Europa inteira no ano de 1868^ os irmáos íoram consultar
o famoso professor Syme em Edimburgo (Escocia), o qual, após
minucioso exame, declarou que a operacáo acarretaria perigo de
vida para ambos; outros especialistas compartilharam esta opiniáo,
de sorte que os dois gémeos desistiram do intento, vindo a morrer
em 1874, com a idade de '63 \anos, no Estado de Carolina do Norte
(U. S. A.); Chang foi encontrado morto de manhá, e Eng sobreviveu-
• -lhe algumas horas. A autopsia revelou que existia urna comunicagáo
venosa (por meio de veia) entre os dois individuos, os quais também
tinham em comum extensa zona de tecido hepático.

2. O aspecto filosófico e moral

Pergunta-se agora: será que num corpo de individuo


monstro (esteja só, esteja ligado a outro corpo) há verdadeira
alma humana ?
O criterio para se responder a. questáo será o seguinte:
desde que tal corpo, embora deformado, aprésente a organi-
zagáo mínima necessária ao desempenho da vida humana,
pode-se assegurar que riele existe alma humana, ou seja, um
principio vitaJLdotado de inteligencia e vpntade (inteligencia
por vézes muito perspicaz, como no caso dos irmáos siameses).
A alma, sendo espiritual, nao tem extensáo, nao tem partes
quantitativas (cf. «P.R.» 5/1958, qu. 1) ; por istojiáo pode
ser mutilada ; acontece, porém, que muitas vézes éla nao sé
manifesta ou pouco se manifesta porque lhe falta o instrumento
do corpo devidamente ajustado para tal fim.

— 401 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. qu. 1

Quando, ao invés, o corpo do monstro nao apresenta a


estrutura característica de corpo humano (ao menos no que
ela tem de essencial e imprescindível para a vida humana ;
admita-se, por exemplo, que Ihe falta o coragáo.. .), quando,
em outros termos, ésse corpo se assemelha mais a u'a massa
de carne informe, é-de crer que néle nao há alma humana.
Difícil, porém, se torna em cada caso' concreto dirimir a ques-
táo com certeza. Em conseqüéncia, os códigos legislativos, por
cautela, geralmente mandam respeitar o monstro humano qual
verdadeiro ser humano; está, sim, em vigor na jurisprudencia
de varios países norma semelhante a que baixava o Supremo
Tribunal Alemáo aos 9 de julho de 1897:

«De acordó com principios fisiológicos, deve considerar-se como


criatura humana, e, por conseguinte, como possivel objeto de infan
ticidio, todo ser_ nascldo de mulher, embora parega dotado de órgaos
táo anómalos que excluám toda possibllidade de sobrevivencia».

O Código de Direito Canónico, segundo o principio de que


tudo que nasce da mulher é ser humano, determina :

«Monstra et ostenta semper baptizentur, saltem sub conditione...


Os monstros e os individuos disformes sejam sempre batizados, ao
menos sob condigno» (can. 748; condigáo «se és homem,...»).

Portanto, mcsmo os monstros acardiacos (destituidos de


coracáo) devem ser batizados condicionalmente. A massa de
carne que os moralistas costumam chamar «mola», e na qual
se distinguem pele, pelos, vértebras, aparéncias de cerebro e
de tronco humano, também há de ser batizada condicional
mente.

Os casos de monstros duplos ou múltiplos suscitam a dú-


vida: haverá ou nao duas ou mais pessoas (por conseguinte,
duas ou mais almas humanas) ai presentes ? — Na praxe
pastoral, as questóes háo de ser resolvidas á luz das seguintes
normas :

Se há duas cabecas e dois troncos, sendo comum apenas


\ a parte inferior do corpo, é clara a pluralidade de individuos
(portanto, de pessoas humanas) ; dá-se entáo, sem condigáo
e separadamente, o batismo a cada componente do monstro.
Caso a iminéncia da morte nao permita batizá-los separada
mente, derrama-se a agua sobre um e oütro ao mesmo tempo,
prbnunciando-se as palavras : «Eu vos batizo em nome...».
, Se há duas cabecas bem distintas e dois troncos pouco
distintos ou simplesmente um só tórax, dá-se o batismo pri-
meiramente, sem condicáo, a urna das duas cabegas ; a seguir,

— 402 —
BATISMO EM FAVOR DOS MORTOS

batiza-se sob condicáo a outra cabega, dizendo-se: «Se nao


estás batizado, eu te batizo...».
Se há urna só cabega e dois troncos, presume-se a exis
tencia de dois individuos. Batiza-se entáo a cabega sem con-
digáo ; depois confere-se o batismo a cada um dos troncos
de per si, usando-se a cláusula: «Se nao estás batizado...».
Torna-se necessário derramar agua sobre cada tronco, porque
nao se pode saber qual dos dois tenha sido batizado quando
foi batizada a cabega.
I É claro que no caso dos irmáos siameses se tratava de
dois individuos, cada qual com sua alma humana própria.
Eis quanto se pode dizer, do ponto de vista religioso, sobre
os monstros humanos e o tratamento que merecem. O seu
direito a sobreviver é estudado na questáo 4 déste fascículo,
assim como em «P.R.» 8/1957, qu. 10. ,

II. DOGMÁTICA

ENGENHEIRO (Sao Paulo) :

2) «Que significa o Batismo em favor dos morios a


que se refere Sao Paulo em 1 Cor 15,29 ?»

1. Na sua primeira carta aos Corintios c. 15, Sao Paulo


expde aos leitores os fundamentos da fé crista na ressurreigáo
dos mortos.
Cita, antes do mais (nos w. 20-28), duas razóes que evi-
denciam a solidariedade de todos os homens com Cristo morto
e ressuscitado: 1) Cristo ressuscitou na qualidade de «primicias»
dentre os mortos (as suas pegadas portante aínda seráo tri-
Ihadas por outros defuntos) ; 2) Cristo é o novo Adao, do
qual recebemos a vida eterna após passar pela morte.
A seguir, o Apostólo recorre a um argumento que vale
mais diretamente ainda para os cristáos de Corinto; havia,
sim, entre éles quem recebesse o Batismo em favor dos mor
ios. .. Ora, qual o sentido dessa praxe, perguntava o Apostólo,
se os mortos nao ressuscitam ?

«De outro modo (se nao houvesse ressurreicáo), que proveito


obteriam aqueles que se íazem batizar em favor dos mortos? Se
afinal os mortos nao ressuscitam, porque se fazem batizar em favor
déles? (1 Cor 15,29).

Poder-se-ia determinar em que consistía o rito assim men


cionado pelo Apostólo ?

— 403 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 34/1960. qu. 2

2. Conhecem-se aproximadamente quarenta sentenras que


visam explicar a passagem ácima transcrita... Procuremos
pausadamente penetrar o seu significado.
Notaremos, em primeiro lugar, que nao se devia tratar
de urna prática supersticiosa paga, pois o Apostólo a menciona
sem a censurar (como, alias, também nao a recomenda explí
citamente); o que Sao Paulo tinha em vista era apenas mos
trar aos corintios como a crenga na ressurreicáo da carne
estava arraigada entre éles, já que era pressuposta pela refe
rida praxe. Também nao se devia tratar de uso raro em Co-
rinto, uso limitado a pequeño grupo extravagante da comu-
nidade, pois em tal caso a argumentagáo do Apostólo pouco
alcance teria.

Feitas estas observagóes, consideremos as duas principáis


explicagóes dadas ao texto de Sao Paulo :

1) Muitos catecúmenos (pagaos convertidos) recebe-


riam o Batismo, alimentando a inten"áo de fazer participar
nos efeitos salvíficos déste sacramento ou seus amigos ou
parentes que houvessem morrido sem abracar a fé crista.
Essa praxe suporia naturalmente que o Batismo realiza
seus efeitos de modo mais ou menos mecánico ou mágico ou
apenas «por procuracáo», sem a colaborado direta e ativa
do respectivo sujeito ou destinatario. Ora é difícil admitir que
Sao Paulo tenha aludido a tal concepgáo sem a repreender
explícitamente...

Sabe-se que em grupos de herejes dissidentes da Igreja, e


sómente ?.í, estiveram em vigor scmclhantc idéia e scmelhante praxe.
Assim .-ntre os marcionistas (séc. II), conforme Sao Joáo Crisóstomo
(hom. 40); o concilio III de Cartago (397) mandou «aos irmáos
fracos na íé, nao acreditassem que também os mortos podiam ser
batizados» (can. 6); o mesmo sínodo proibu outrossim dar a Euca
ristía aos corpos de defuntos... De modo geral, os pregadores e
escritores eclesiásticos sempre rejeitaram qualquer tentativa de
administrar os sacramentos aos morios, lembrando, a propósito, que
após esta vida ninguém pode mais crescer na graca de Deus nem
adquirir méritos.

2) Em conseqüéncia, mais provável do que a anterior


é a sentenga de muitos autores antigos e da maioria dos mo
dernos, os quais interpretam o Batismo de 1 Cor 15,29 no
sentido de urna ablugáo associada ao sacramento do Batismo
com o fito de sufragar as almas dos defuntos ; seria um rito
distinto do sacramento, comportando, além da ablugáo, um
conjunto de oragóes comunitarias em favor dos defuntos;
ter-se-ia assim o que em linguagem especializada se chama

— 404 —
GENEROSIDADE HUMANA E OENEROSIDADE DIVINA

um «sacramental» em beneficio das almas dos mortos que


predsassem de expia;áo. Deve-se reconhecer que tal praxe,
por muito estranha que parega, estava bem na' linha da espi-
ritualidade do Antigo Testamento; com efeito, já no séc. n
a.C. Judas Macabeu mandou oferécer um sacrificio expia
torio pelos defuntos, «bela e nobre atitude inspirada pela idéia
da ressurreigáo» (conforme o autor de 2 Mac 12,43); além
disto, é notorio o ampio uso que os judeus contemporáneos a
Cristo faziam da agua entendida como elemento de purificagáo
sagrada ou como «sacramental» (praticavam locóes de peni
tencia, lustragóes rituais, batismos de purificagáo, etc.); nao
provocaría surprésa, portante, a ado~áo de semelhante cos-
tume entre os cristáos corintios aos quais Sao Paulo escrevia.
— O Apostólo, como dissemos, nao discute a oportunidade ou
o valor de tal rito ; apenas o menciona como indicio de que
os corintios, sufragando os defuntos, admitiam a ressurreigáo
dos mortos.
A praxe suposta por esta segunda senten^a ainde. apre-
senta um aspecto doutrinário muito interessante : supóe, sim,
que os fiéis viventes aqui na térra possam merecer algo em
favor de seus irmáos já falecidos ; muitos dos defuntos, em-
bora nao tenham morrido em pecado grave, nao estariam
ainda em condigóes de jozar da visáo de Deus face a face
logo após a morte ; precisariam de expiagáo ou purificagáo a
ser obtida após a morte — o que equivale ao conceito católico
de purgatorio. Conscientes disto, os ahtigos cristáos (como
também os atuais) os sufragariam com ritos e preces, (haja
vista na Liturgia contemporánea a praxe das absolvigóes com
agua benta dadas aos defuntos, á guisa de sufragio).
Assim a segunda sentenga aqui recenseada supóe urna
praxe muito consentánea com os costumes do Antigo Testa
mento e com a Dogmática crista. Entende-se entáo que Sao
Paulo a tenha mencionado sem a recriminar. A sentenga,
porém, nao deixa de ser conjetura..., conjetura, sim, por
causa da concisáo do texto paulino e por falta de testemunhos
paralelos que nos permitam penetrar melhor no pensamento
do Apostólo.

III. SAGRADA ESCRITURA

SEQUIOSO (Niterói) :

3) «Gomo se deve entender a estranha afirmacáo de Je


sús : 'A todo aquéle que já possui, dar-se-á mais, e possuirá

— 405 —
tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960, qu. 3

em abundancia; mas a quem nao possui, será lirado até o


que possui' (Mt 25,29) ?
Nao haverá contradigáo nessa frase ?»

Visando elucidar devidamente a passagem ácima, deter-


-nos-emos primeramente na exegese da mesma ; depois pro
curaremos perceber o seu sentido profundo na vida cotidiana
dos fiéis cristáos.

1. A exegese do texto

1. Deve-se de inicio notar que o adagio referido ocorre


mais de urna vez, e em contextos diversos, nos SS. Evange-
Ihos. Parece assim ter constituido urna das vigas mestras da
pregacáo de Jesús.

Eis os tres diferentes contextos em que se lé o adagio:

Mt 13,lls. DLsse Jesús aos Apostólos: «A vos íoi dado conhecer


os misterios do reino dos céus; mas aos outros, nao. Aqnéle que
possui bens, recebe aínda mais e suas riquezas ser&o abundantes;
mas aquele que nao possui, até o ipoueo que tem, lhe será tomado».

Mt 25,26-29. Na parábola dos talentos, dirigindo-se ao servo


negligente que nao íéz render o dinheiro de seu monarca, exclama o
rei, figura do Senhor Deus:
«Servo mau e preguicoso, sabias que colho onde nao semeio. e
congrego onde nao espalhei. Devias, portante, ter entregue o meu
dinheiro aos banqueiros, e eu, de volta, teria recebido com juros
o que é meu. Tomai-lhe, pois, o talento, e dai-o áquele que tem dez
talentos. Porque a todo aquéle que já tem, se dará mais, e terá em
abundancia: mas aquele que nao tem, será tirado até o que possui».
Texto paralelo; Le 19,26.

Me 4,24s. Jesús exorta: «Da i atengao ao que ouvis. Com a medida


com que medirdes, mediráo a vos, e aínda vos daráo alguma coisa de
acréscimo. Aqnele que já tem, mais lhe será dado; e üquele que nao
tem, até o que possui lhe será tirado». Texto paralelo: Le 8,18.

Em vista da íreqüéncia de tal máxima, percebe-se a sua impor


tancia na mensagem evangélica.

2. Procuremos agora penetrar no significado das pala-


vras de Cristo.
Certamente nao se referem ao juizo final (seja particular,
seja universal), porque éste nao acarretará nem acréscimo
nem decréscimo de dons e méritos (talentos) para quem quer
que seja; o Juiz Eterno apenas reconhecerá e confirmará o
estado de ánimo em que cada um dos homens se achar quando
comparecer diante d'Éle ; após a morte nao se modificará a
sorte de ninguém.

— 406 —
___ GENEROSIDADE HUMANA F GENEROSIDAD':: DIVIDA

É, portanto, á vida presente que a advertencia de Jesús


se refere. Eis o seu sentido auténtico:

Todos os homens recebem do Criador um cabedal de dons


(variável, sim, de individuo a individuo, pois Deus nada deve
a criatura alguma); trata-se de dons naturais (inteligencia,
certa fórca de vontade, alguma afetividade, habilidades técni
cas...) e sobrenaturais (a graca, as virtudes infusas, os
dons do Espirito Santo, em quem foi regenerado pelo Batismo
sacramental ou, ao menos, pelo desejo do Batismo). Além
disto, todos os homens recebem continuamente no decorrer
desta vida gracas atuais, ou seja, os auxilios necessários para
desenvolver o seu cabedal de dons naturais e sobrenaturais,
e assim encaminhar-se para o Criador, aperfeigoando-se e
santificándose. Deus a ninguém deixa de proporcionar táo
valiosas dádivas ; sob éste ponto de vista, portanto, deve-se
dizer que todos tém..., nao há quem nao possua...

Acontece, porém, que nem todos os homens se corrpor-


tam igualmente em resposta á Liberalidade Divina. Há quem
faca (nao interessa aqui ponderar se sao muitos ou poucos)'
o devido uso désse patrimonio; vivem como quem realmente
«possui» e tem consciéncia dos valores que possui, procurando
zelosamente dentro das suas possibilidades lucrar novos va
lores. Tais sao as almas fervorosas, que, permanecendo na
graga de Deus, fazem tudo o que fazem por amor a Deus,
mobilizando sempre todas as suas energias espirituais a fim
de que rendam cada vez mais ; tais almas váo granjeando
méritos crescentes para a vida eterna, de sorte que realmente
nelas se cumpre desde os dias presentes o ditame do Salvador:
«A quem possui, dar-se-á mais ainda».
Outros homens há que negligenciam o patrimonio espi
ritual e as dádivas subseqüentes que o Criador lhes dá. Vivem
como se «nao possuissem» ; embora na verdade possuam, abu-
sam dos dons de Deus, comportando-se indiferentemente.
Acontece-lhes entáo o que sucede a todo ser vivo : se nao
faz uso do seu potencial de vida ou, mais precisamente, de
algum de seus membros (braco, perna...), éste se atrofia e
perece. Com efeito; tais almas tibias váo perdendo cada vez
mais o senso de Deus ; a sua consciéncia se embota progressi-
vamente; alheiam-se mais e mais ao influxo da graga divina,
de modo a se verificar nelas a palavra de Cristo: «A quem
nao tem, até o que tem lhe é tirado»; o que quer dizer: se
alguém, de fato, possui um patrimonio de dons divinos, mas
nao vive conforme ésse tesouro, o Senhor Deus (que nao forga
a liberdade de ninguém) reconhece tal alheamento, o que vem
a ser ocasiáo de ruina espiritual para essa criatura.

— 407 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/iflfiO. mi 3

Urna figura ilustra, ao menos em traeos gerais, a doutrina.


Todo veiculo costuma trazer um iarol ou urna lanterna que Ihe
ilumine a estrada durante a no'te. Admita-se que a instalado elétrica
do carro se ache em períeito estado e que o motorista nada fa-a que
contrarié ao bom funcionamento da iluminacao... Nao b&~ta isto,
porém; se ésse homem permitir que sobre o vidro da lanterna se
vao depositando a poeira. a lama e as gotas de chuva da estrada,
sem as remover, dentro em breve a superficie luminosa estará total
mente opaca; o_ v'ajante «terá luz» e «nao a tera»; possuirá o foco
d"? luz intato, sim mas, por se cemnortar negligentemente para com
éste, f'cará na situacáo de quem nao tem luz.
Algo de análogo se dá com as pessoas que vivem descu'dadas
dos dons que Deus lhes outorgou e outor-ga; embo-a nao penuem
morta'mente, o seu estado de rotina e tibieza torna-se-lhas cedo ou
tarde ocasiáo de ruina espiritual.

2. A profunda mensagem do texto

1. A doutrina que Jesús propñe nos termos incisivos e


aparentemente paradoxais do S. Evangelho, foi constante
mente repetida pela Tradigáo crista na fórmula seguinte : na
vida espiritual quem nao progride em virtude, recua ; nao é
poss'vel ficar parausado. Esta af'rmativa, desconcertante á
primeira vista, torna-ss bem compreensivel. se se leva em
conta que «vida» é algo de essencialmente dinámico : ou ela
se expande normalmente, seguindo a sua evolugáo própria,
ou, caso nao se permita isto, tentando-se reduzir o vívente &
estagnacáo. a vida definha e morre, embora nao se cometa
atentado direto contra ela.
Perguntar-se-á entáo : se assim é, que dizer de tantas e
tantas almas que, após sinceros exames de consciéncia, julgam
nao podsr apontar protrressos reais na sua vida espiritual ?
Esforgam-se por progredir no plano sobrenatural, mas recaem
constantemente ñas mesmas faltas; dir-se-ia que estáo para
usadas ; nelas nao aparece progresso, nem, de outro lado,
cometem pecados mais graves do que os de sua vida passada.
A tais almas dever-se-á recomendar que nao se preocupem
demais com a análise de suas fasss de vida espiritual, desde
que sejam sinceras no emprégo dos meios de perfeigáo. Mui-
tas e muitas vézes, o Senhor, visando preservar a humildade
de seus servos, nao permite vejam a virtude que realmente
praticam. Julgam entáo estar estagnados, quando na verdade
se váo ad'antando. Ss os justos tivessem sempra a consciéncia
de sua ascensáo espiritual, correriam forte risco de perder
todo mérito por motivo de vaidade e soberba. Qualquer que
S3ja o resultado de um sincero exame de consciéncia, será
sempre preciso saiba o cristáo que há muito ma's caminho a
parcorrer do que quanto percorreu até o momento atual. For

— 408 —
GENEROSIDADE HUMANA E GENEROSIDADE DIVINA

isto na prática nao importa muito saber se houve ou nao


progresso espiritual no passado ; o futuro continua a ser um
convite á luta, convite que o Ssnhor Deus dirige ao discípulo,
prometendo-lhe ao mesmo tempo a graca para que possa
vencer.

Em conseqüéncia, o criterio a que as almas devem re


correr para averiguar se estáo ou nao no caminho reto, é a
perseveran-a ou a tenacidade na luta em demanda da per-
feicáo espiritual; se alguém pode dizer que, apesar de veri
ficar suas continuas deficiencias, nao desiste de procurar ven-
cé-las, a fim de corresponder ao dom de Deus, esteja certo de
que nao vai recuando, mas, ao contrario, progredindo. É Sao
Bernardo (t 1153) quem o afirma em termos claros :

«O zélo incansável pelo progresso (espiritual) e o esfórgo continuo


em demanda da pcrfeigáo sao tidos como períeicáo. Se, pois, tender
a porfeicSo é ser perfcito, sem dúvida nao querer progredir é retro
ceder. Onde estáo, pois, os que co.=tumam d'zer: 'Basta-nos, nao
queremos ser melhores do que nossos pais'? ó monge. nao queres
progredir? — Nao. — Queres, entao, retroceder? — Da modo nanhum.
— Que, pois? Dizes-me: quero viver para mim como me acho, e
permanecer na íase a que cheguei; nao tolero que me torne pior,
nem desejo tornar-me me'hor. — Assim queres o que é impossível.
Pos que coisa nesfe século é permanente?... Donde claramente
se concluí que nao querer progredir nao é outra coisa do que retro
ceder» (epist. 254, 3-5).

«Tender ii pcrfeiciío ,ja é perfelcáo». Possa esta frase do S. Doutor


serví»1 de reconforto ás a'mas que lealmsnte procu^am sanff:car-se!
No fim desta vida, o Senhor lhes fará ver que a luta perseverante
em prol da perfahao espir tual. embora agora parega frustrada, terá
sido altamente meritoria pelo fato mesmo d3 haver sido perseverante.

2. Por último, deve-se acrescentar que análoga norma


se aplica ao caso daqueles que, embora digam nao ter fé,
sinceramente a desejam ter. Enquanto tais pessoas envidam
os esforros necessários para chegar á devida clareza no to
cante a Daus e á Religiáo, enquanto procuram viver plenamente
de acordó com os ditames de sua consciéncia (na medida em
que esta lhes fala), podem estar seguras de que nao estáo
perdsndo tempo, mas, ao contrario, progredindo na dire^áo
do sau verdadeiro objetivo ; o Senhor nao deixará de Se
lhes manifestar plenamente na época e segundo as modalida
des que Lhe aprouverem, pois, em verdade, tais almas nao
procurariam a Daus, se de algum modo já nao O tivess3m
encontrado. É o Sanhor Deus mesmo quem, por sua graga,
suscita e sustenta o zelo dos que se dizem incrédulos..., mas
incrédulos sinceramente desejosos ds ter fé ! E nao o sustenta
em váo ; «Deus nao abandona senáo a quem O tenha primei-
ramente abandonado» (frase de S. Agostinho, repetida pelo

— 409 —
- «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. qu. 4

Concilio de Trento; cf. Denzinger, Enchiridion 804; note-se


que, mesmo quando abandona, Deus nao faz, em última aná-
lise, senáo respeitar a livre decisáo da alma que O rejeitou).

A respeito da incredulidade dos que desejam ter íé, veja «P. R.»
5/1957, qu. 2.

Eis o ensinamento profundo que o Senhor quis incutir


a mente de seus discípulos até hoje, ao Ihes falar no estilo
paradoxal de Mt 25,29.

IV. MORAL

MÉDICO (Salvador) :

4) «Qual a posicao da consciéncia crista frente á euta


nasia ?
E que dizer do uso de analgésicos que tenham influencia
sobre a duracao da vida humana ?»

«Eutanasia» (palavra composta dos vocábulos gregos


cu = bem, e thánatos = morte) significa, etimológicamente,
a arte de se promover a morte branda ou possivelmente indolor.
No vocabulario científico, «eutanasia» vem a ser o sistema
de se retirar a vida, mediante medicamentos e recursos sua
vizantes, a quem esteja sofrendo de molestia incurável e pro
fundamente aflitiva; implica em antecipar o desenlace final
do paciente por alguns dias, meses ou, raramente, anos. Tal
processo, conforme querem uns, nao deveria ser aplicado sem
o consentimento do enfermo ; outros profissionais preconizam
o seu emprégo mesmo sem consulta previa ao doente, talvez
após eventual entendimento do médico com a familia inte-
ressada.

Há quem alargue mais aínda o sentido de eutanasia, entendendo-a


como eliminacüo da vida de pe&soa considerada inútil para a socie-
dade, embora a vítima nüo padega graves soírimentos. Aplicar-se-ia
a anciáos, inválidos, loucos irrecuperáveis, criminosos, etc.; em tais
casos, os médicos executores do processo estariam dispensados de
pedir o consentimento do paciente ou de seus familiares, podendo
mesmo intervir á revelia déstes, baseando-se únicamente em criterios
de «utilidade pública» ou de «interésses de Estado» estipulados pela
legislacáo do pais.

Nesíe sentido ampio tem sido a prática da eutanasia adotada


por regimes de govérno totalitario, que assim visam legalizar o
exterminio de numerosos súditos tidos como entraves ao aperíeicoa-
mento da raca ou da vida nacional. Em nossa resposta, nao consi
deraremos ta) caso, pois constituí evidente atentado contra os direitos

— 410 —
A EUTANASIA.

da personalidade humana; vem a ser homicidio indisfarcado e moral-


mente ilícito, porquanto visa o próx'mo inocente, sem mesmo o con-
sentimen to déste. Levaremos em conta apenas a faceta mais capciosa
da questao. a saber, a possivel legitimidade de se extirpar suave
mente a vida de individuos que padecam de molestias muito dolorosas
e reconhecidamente incuráveis. Em tais casos é que nao raro os
interessados hcsitam entre compaixüo ou afeto e a lei natural de
nao matar.

Proporemos primeiramente algumas notas históricas re


ferentes ao problema ; a seguir, consideraremos a moralidade
da eutanasia e dos analgésicos.

1. A eutanasia na historia

A eutanasia foi praticada, entre os primitivos, por tribos


nómades que, devendo emigrar, sam contudo poder levar con
sigo os membros enfermos do clá, preferiam exterminar a
vida déstes a deixá-los entregues as intemperies do clima ou
a vinganga de inimigos; eliminavam-nos entáo com a soiici-
tude e a rapidez que a técnica da época lhes permitía.

Tal proced'mento tende a se reproduzir no decorrer da historia.


Aínda em 1940, devondo ser evacuado o hospital de Or.say (Franqa)
por motivo de guerra, as eníermeiras resolveram dar inje;6es mortíferas
aos doentcs que elas nao poderiam remover antes da chegada do
inimigo.

No mundo da ciyilizagáo antiga, registra-se o caso de


Esparta, onde eram eliminadas, logo ao nascerem, as criangas
anormais ou aleijadas.
Dentre os filósofos greco-romanos, sobressai a voz do
estoico Séneca (f 66), que defendía a legitimidade do suici
dio e, por conseguinte, da eutanasia, nos seguintes termos :

«Sómente por causa da morte a v!da nao é urna punicáo. Debaixo


dos caprichos e das vicissitudes da fortuna, posso conservar minha
cabeca erecta. É que tenho alguém a quem posso recorrer.
Vejo diante de mim cruzes de muitas formas. Vejo dante de
mim instrumentos de tortura que podem ser adaptados a cada membro,
a cada músculo, a cada ñervo de meu corpo. Mas vejo também a
morte. Ela me protege dos meus selvagens inimigos e dos meus
orgulhosos concidadáos. A escravldáo mesma perde sua amargura,
quando, com um simples passo, en posso conquistar a liberdade.
Contra todos os assaltos da vida eu tenho o refugio da morte.
E, se posso escolher entre u'a morte de tortura o u'a morte
boa e frágil, porque nao escolherei esta? Assim como cscolho o
navio no qual viajarei ou a casa na qual habitarei, ass m escolherei
a morte pela qual deixarei a vida. O homem deve procurar a aprovacáo
dos outros nos negocios da vidaj sua morte é assunto seu.
A lei eterna nada decretou de melhor que isso: que a vida
tenha urna só entrada, mas muitas saidas. Porque sofrerei as agonías

— 411 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. ou. 4

da doenca e as crueldades da tiranía humana, quando posso eman-


cipar-me de todos os tormentos e tancar íora todas as cadeias?
Por urna única razáo a vida nao é um mal: porque ninguém é
obrigado a viver».
Cicero (t43 a. C), porém, asseverava ser ilicito ao homem fugir
da vida se_m mandato explícito d'Aquéle que nos concedeu o dom
da existencia (cf. De senectute 20, 73; Somnium Scipionis 3,7).

Sob o influxo do Evangelho de Cristo, a eutanasia foi


sendo repudiada pelos pensadores ocidentais. S. Agostinho
(f 430) caracterizou bem a posi?áo crista, opondo á eutanasia
a atitude do personagem bíblico Jó, que, em meio aos mais
penosos sofrimentos, se mostrou paciente e submisso a Deus.
Por toda a Idade Media era unánime a sentenga dos autores
cristáos a rejeitar o «homicidio indolor».

O franciscano Rogério Bacon (t 1294), sem se apartar da doutrina


comum, distinguía entre «eutanasia externa», entendida como «o
cortar do fio da vida para fugir ao sofrimento», arte esta tida como
ilícita, e «eutanasia interna», louvável, pois seria «o sosségo e a
purificacáo da alma, antes de se firmar na graga do Senhor».

No séc. XVT, porém, dado o surto do humanismo e, em


particular, de um neo-estoicismo, fizeram-se ouvir alguns fi
lósofos que de certo modo tendiam a justificar a provocagáo
da morte indolor. Prevaleceu, porém, até nossos tempos o
repudio de tal prática.

O Direito Penal das nagóes modernas costuma considerar a


eutanasia como crime de homicidio, seja ela cometida a pedido do
paciente, seja sem o"consentimento do mesmo; assim, por a terem
praticado, foram condenados á morte após processos famosas: Mrs.
Browhill em Leeds (Inglaterra) no ano de 3934; Naxon, nos EE.UU.
da América, em 1944; Vastalegna sofreu a sentenca de seis anos de
prisáo em Roma no ano de 1952; a viúva Dagnino foi condenada a
cinco anos de reclusáo no Principado de Monaco em 1951.
Os Códigos legislativos mais recentes nao deixam de atribuir
penas ao homicidio cometido mesmo com o consentimento da vitima;
é o que se dá, por cxcmplo, no código italiano de 1930 (art. 579),
no código dinamarqués de 1930 (art. 239), no código polonés de 1932
(art. 227), no código suico de 1942 (art. 114), no código grego de
1950 (art. 300). A punicao costuma ser o encarceramento por prazo
nao mais longo do que cinco anos. Algumas legislacóes ponderam á
parte, e com certa brandura (sem contudo deixar de o .rejeitar), o
morticinio comotirlo com finniidnrlo dita «humanitaria»; ó o que^ se
registra na Holanda (art. 293), na Noruega (arl. 235), na Grócia
(art. 235).
A partir de 1930 delineou-se na Inglaterra um movimento de
médicos que visavam revolver a ordem vigente e obter a legalizacao
da eutanasia; chefiava-o o eminente cirurgiáo Lord Moyniham,
contando com o apoio de prelados anglicanos. Em 1935 chegaram a
fundar em Londres a «Voluntary Euthanasia Society». Dois projetos
de legitimagáo da tática foram sucessivamente apresentados á Cámara
dos Lords, em 1934 e 1950; em vao. porém. Razdes filosóficas e incer-

— 412 —
A EUTANASIA

tezas da ciencia..., eis os motivos alegados pelos parlamentares para


nao modificar a legislacáo contraria á eutanasia.
Nos EE.UU. da América recentemente tem sido debatido com
.fervor o assunto em reunides médicas, das quais resultou a fundacáo
da «Euthanasia Society», de Nova lorque, apoiada por políticos e
membros de seitas protestantes. Cerca de mil médicos de Nova
lorque subscreveram urna peticáo dirigida ao Legislativo em prol
da legitimacao da praxe; a campanha íavorável a esta tem sido
assaz forte.

A titulo de complemento e ilustracao, consignamos as noticias


seguintes:

Em urna ou outra regiáo do Brasil, a eutanasia parece ter estado


no uso de pessoas simples e de boa fé. Assim no interior de Minas
narra-se que, quando outrora a agonía de um moribundo parecía
muito prolongada, exclamavam os familiares: «Coitado! Ele está táo
fraco que nem tem fórca para morrer!». Chamavam entáo determinado
personagem da localidade, o qual se chegava com um crucifixo na
mao, abragava o agonizante e ao mesmo tempo lhe colocava um
joelho sobre o estómago, bradando repetidamente; «Vem, meu filho,
que Nosso Senhor está te esperando!». — Simplicidade do povo, que
o leitor nao tomará como criterio para julgar o valor da Religiáo.
O escritor contemporáneo Miguel Torga refere a existencia de
semelhante costume em Portugal. Narra, sim, em um de seus contos
que havia numa aldeia um «Abafador» chamado «Alma Grande», o
qual Rozava de notável prestigio. Certa vez foi chamado para «ajudar
um moribundo a falecer»; éste, porém, reagiu e conseguiu curar-se,
a tal ponto que, pouco tempo depois, se precipitou sobre o Abafador
e o matou!

Vejamos agora qual

2. A posigáo católica frente a eutanasia

A consciéncia crista é francamente contraria á citada prática


(o que nao implica em condenacáo de analgésicos, como se dirá no
parágrafo 3* desta resposta). Os motivos aduzidos pela Moral sao
corroborados por razóes de ordem médica e psicológica, como se
delineia abaixo.

a) O veto da Moral

Para o cristáo, a vida é dom que Deus concede á criatura,


a fim de que esta o conserve e administre em conformidad*?
com os sabios designios do Criador. Assim como o homcm nao
é o autor da sua vida, assim nao lhe compete fazer as vézes
de destruidor da mesma. Por conseguinte, a alegría ou a tris
teza que alguém possa experimentar ao viver, nao sao crite
rios para se aquilatar o valor de sua existencia ; também nao
é criterio o grau de produtividade ou a capacidade de tra-
balho da pessoa.. . Pode haver plena razáo de ser numa vida
que, humanamente falando, carega de consoló ou de utilidade,

— 413 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 34/19EQ mi. 4

pois a grandeza do homem consiste primariamente em fazer


a vontade do Pai Celeste, e fazé-la com amor. Pelo cumpri-
mento déste programa a criatura se emancipa do seu egoísmo
e passa a viver num plano superior ; em urna palavra... san-
tifica-se, e, santificando-se, nao pode deixar de beneficiar o
mundo («urna alma que se eleva, eleva o mundo inteiro»,
dizia Elisabete Leseur). O sofrimento, para o cristáo, nao é
algo de absurdo nem é desastre ou baque, mas, ao contrario,
vem a ser motivo de configuragáo a Cristo padecente, o que
quer dizer:... ocasiáo de expiar os pecados do próprio pa
ciente e os do mundo, ocasiáo também de colaborar na con-
versáo dos infiéis e na salvacáo das almas em geral.

Mesmo nos doentes mentáis pode haver momentos de


lucidez (perceptiveis ou nao, a quem os cerca); nesses ins
tantes um renovado ato de entrega a Deus confere valor e
sentido a toda a existencia de tais pessoas. Contudo até nos
casos em que realmente nao haja lucidez mental alguma, a
ninguém é l'.cito cortar a existencia do paciente, pois só Deus
sabe se nao há gracas reservadas a tal pessoa no futuro. A
vida terrestre é essencialmente o período em que o homem
pode merecer, forjando, por assim dizer, a sua sorte eterna.
É isto que nao sómente torna ilícito qualquer atentado contra
a existencia do próximo, mas até implica para a sociedade o
dever de sustentar o doente, por mais modesto e improdutivo
que este parega. A consumagáo do individuo humano nao se
dá nesta vida, mas na vida postuma.

Em conseqüéncia, a eutanasia, que se inspira de criterios


de mero biologismo e utilitarismo terrestre, há de ser consi
derada como expressáo de materialismo e hedonismo; ela
pressupóe que a vida do homem só se justifique pelo gozo dos
sentidos ou pelo rendimento de trabalho que aprésente.

A título de complemento, observamos também que, conforme a


Moral crista, sómente em tres situagóes se torna licito atentar contra
a v;da do próximo ou matar: 1) no caso de guerra justa; 2) na hipó-
tese de sentenca capital proferida pela autoridade legalmente consti
tuida; 3) no caso de legitima defesa.

O primeiro déstes casas ja foi abordado em «P. R.» 22/1959, qu. 4;


o segundo em «P. R » 7/1957, qu. 15. O terceiro (ao qual, alias, os
do^s anteriores em última análise se reduzem) é obvio: o inocente
injustamente agredido tem direitos (entre os quais o direito de viver)
que o agressor injusto, pelo fato mesmo de .ser injusto, perde; conse-
qüentemente, torna-se lícito ao inocente defender seus direitos amea-
cados recorrendo aos meios apropriados, necessános e proporciona
dos (entre os quais está a própria eliminacao da vida do agressor,
caso tal medida extrema venh'a a ser de todo imprescindível). A
primeira lei que Deus incutiu a todo ente é a da conservacáo de
si mesmo.

— 414 —
A EUTANASIA

b) O ponto de vista médico

a') A fínalidade da Medicina é conservar e fomentar a


vida, debelando as doencas e a morte em toda a medida do
possível; nao compete ao médico dizer se tal ou tal género
de vida é ou nao desejável. Vé-se assim que a voluntaria an-
tecipagáo da morte por parte do médico vem a ser frontal-
mente oposta aos objetivos da Medicina. — O médico, alias,
nao deve fácilmente assegurar que éste ou aquéle caso de
detenga é incurável, pois sempre deverá contar com a possi-
bilidade de erro no diagnóstico, com imprevistos meios de
defesa do organismo assim como com os recursos cada vez
mais esmerados da Medicina moderna.
Esta, com efeito, dispóe hoje em dia de meios para aliviar
os sofrimentos, sem diminuir de modo notável a vida do pa
ciente. A éste propósito tenha a palavra o Dr. José Fernando
Carneiro :

«Urna das aquisicoes mais recentes (da Medicina)... consiste


em se promover a desconexáo entre o tálamo e a cortica cerebral.
É o tálamo que faz o registro grosseiro das sensacSes; lá está o centro
da sensibilidade rudimentar ou sensibilidade protopática de Head. Já
a circunvolucáo parietal ascendente faz a analise fina das sensacdes
e as torna conscientes. Ali se opera o que Head denominou a sensi
bilidade epicrítica. Além disso, toda sensacáo tem urna tonalidade
afctiva, que é dada pelo lobo profrontal, situado adiantc da zona
motora.
É hoje possivel, gracas aos progressos da chamada psico-cirurgia,
proceder a urna intervencáo que se denomina a leucotomia prefrontal,
que pode ser uni ou bilateral. Após essa operacáo, o individuo continua
a sentir dor, mas nao se incomoda com ela, fica por assim dizer
indiferente. A opernc.no retira apenas a tonalidade afetiva desagra-
dável. É portanto perfeitamente possivel a dissociacáo, por meio da
cirurgia, dos dois elementos que compóem a dor: a percepcáo dolorosa
e a reacáo contra a dor.
Embora nesse terreno de psico-cirurgia ainda estejamos numa
fase a bem dizer experimental, sendo lícito esperar novos desenvol-
vimentos, parece que as alteragoes de personalidade trazidas pela
leucotomia prefronlal nao sao profundas e parece que esta intervencáo
nao afeta sensivelmente a inteligencia. Talvez, sim, a iniciativa. O
campo da psico-cirurgia é vasto, indo do tratamento de certas doencas
mentáis em que se observa o exagero da agressividade até a simples
luta contra dores exasperantes e nítidamente insuportáveis.
A possibilidadc de se lancar mao das técnicas ainda em desen-
volvimento da psico-cirurgia torna cada vez menos procedentes os argu
mentos dos partidarios da eutanasia. É possível ainda que ésse recurso
agora oferecido á classe médica venha anular senáo todos, pelo menos
um dos motivos pelos quais tantos médicos se inclinam a aceitar a
idéia da eutanasia» (do artigo «Eutanasia», revista BRASIL-MÉDICO
ano 69 [1955] pág. 423).

b1) Deve-se outrossim notar que a legitimado da euta


nasia é por si apta a criar um clima de desconfianza entre o

— 415 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. gu. 4

paciente e seu clínico, clima que se torna de todo indesejável


para o devido exercício da profissáo médica.

O paciente é espontáneamente inclinado a ver no médico alguém


que. por obrigacáo proíissional, toma posicáo íavorável a vida do
enfermo. Convicto de que o terapeuta tudo fará em prol da saúde;
do cliente, éste ás vézes, pelo simples fato de avistar o médico,
concebe nova esperanca de cura e comeca a reagir, consciente ou
inconscientemente contra a molestia. Ora tal nao se daria na hipótese
da legalizagáo da eutanasia. O paciente teria fundamento para ver
no médico o dissimulado adversario de sua vida... Poderia, sem
dúvida, em muitos casos enganar-se, suspeitando intencoes secundarias
no respectivo clínico. Como quer que seja. numerosos doentes talvez
concebessem o receio de um desabafo com ó seu médico, desabafo
que é geralmente muito salutar: poderiam, sim, temer que urna
sincera abertura de ánimo fñsse ocasiáo para que o médico, de
comum acordó com a familia do doente ou nao, empreendesse a elimi-
nacáo «piedosa» da vida de seu cliente.

c') E quais seriam os criterios aplicados pelos médicos


para proceder a essa «piedosa» extirpacáo da vida? —Poderiam
inegávelmente variar segundo urna escala muito Ionga : com-
paixáo mal entendida para com o doente, volúpia de inter
ferir no curso natural das coisas, tendencia ego:sta a liber-
tar-se de, urna tarefa de assisténcia penosa... Até mesmo o
criminoso desejo de vinganga, nutrido pelo medico, por fami
liares ou por outras pessoas, poderia estar na raiz de um
processo de eutanasia...
Ora o bom sonso há do reconhecer que tais possiveis con-
seqüéncias (as quais nao sao meramente imaginarias) cons-
tituem válido motivo para se repudiar o exercício legal da
«piedosa» eliminagáo de urna vida humana.

Em conelusáo, sejam aqui citadas palavras do Dr. José Fernando


Carneiro, as quais. num tom característico, bem manifestam a menta-
lidade desvirtuada que se oculta sob o rótulo da eutanasia ou da
morte «caridosamente» provocada:

«Aqui tocamos sem dúvida mima das doenens fomuns da civi-


lizacño moderna, ou soja, a tendencia a passar ao abuso da técnica.
O ambiente do mundo moderno, a vaidade profissional e ó interésse
económico levam o médico a ceder a essa tentacáo.
O processo de degradacáo moral resultante do naturalismo, com
binado com ésse culto abusivo da técnica, está preparando o apareci-
mento de um tipo humano cuja trajetória sobre a face da térra
poderia ser resumida ñas seguintes palavras: fruto da inseminacáo
artificial, cesarianamente extraído, psicotécnicamente classificado e
aproveitado pelo Servico Público, morto por eutanasia quando a socie-
dade julgou oportuno, e finalmente incinerado, ficando as cinzas
guardadas numa caixinha de celofane para conforto dos conhecidos.
Contra o advento désse ser sintético, fabricado em serie, continua
remos a lutar. E urna das frentes de nossa luta é representada pelo
combate á idéia da eutanasia, a extrema-ungao que desejam receber
e aplicar os homens sem fé, sem esperanca e sem amor» (art. cit. 424).

— 416 —
A EUTANASIA

3. O uso de analgésicos e remedios extraordinarios

A rejeicáo da eutanasia está longe de significar repudio


a todo e qualquer processo de aliviar ou evitar a dor física.
A Moral crista reconhece o horror que a natureza humana,
anteriormente a qualquer deliberagáo, experimenta perante o
sofrimento ; sómente por gra?a de Deus pode o homem nao
apenas suportar, mas também utilizar, a cruz para se santificar.
Na medida, porém, em que o Senhor concede á criatura os
meios naturais para superar a dor, é lícito recorrer a éles,
consoante a ordem mesma do Criador dirigida aos primeiros
pais : «Enchei a térra e submetei-a ; dominai» (Gen 1,28).
Por conseguinte, dir-se-á:

a) No tocante a analgésicos

1. A Lei de Cristo nao se opóe ao emprégo de analgé


sicos e anestésicos, isto é, de remedios ou processos que su-
primam, parcial ou totalmente, a dor, afetando a lucidez de
consciéncia do paciente. Em tais casos, porém, requer-se que
o tratamento por si nao vise a aceleragáo da morte do
paciente ;
o tratamento (ou a procura do estado de inconsciencia)
nao se torne motivo para que o doente deixe de cumprir graves
deveres moráis, como seriam o de regrar negocios importan
tes, o de fazor sou testamento e o de roceber os santos sacra
mentos. Em perigo de morte, o médico cristáo, antes de re
correr á anestesia, tem a obrigacáo de proporcionar ao cliente
a ocasiáo de se preparar para o desenlace final mediante o
recurso aos sacramentos.
Eis como o Santo Padre Pió XII se exprimía a tal respeito
perante urna assembléia de clínicos, cirurgióes e anestesistas :

«Toda forma de eutanasia direta, isto é, a administragáo de


narcóticos com o lim de provocar ou apressar a morte, é ilícita,
porque nosso caso se pretende dispor diretamente da vida. Um dos
principios fundamentáis da Moral natural e crista é que o homem
nao é senhor nem dono, mas sómente usufrutuário. do seu corpo e
da sua existencia. Ora o homem arroga-se o direito de dispasicáo
direta da vida, toda vez que a quer encurtar. Na hipótese por vos
encarada (hipótese licita), trata-se Cínicamente de evitar ao paciente
dores insuportáveis, por exemplo, em caso de cáncer nao suscetível
de operagüo ou em caso de doenca incurável...
... O moribundo nao pode permitir, e menos ainda pedir, ao
médico que lhe provoque o estado de inconsciencia, se com isso se
coloca em situagáo de nao poder satisfazer a deveres moráis graves,
por exemplo, ao dever de regrar negocios importantes, de fazer o seu
testamento e de se confessar... Para julgar a liceidade da narcose,
é preciso também inquirir se éste estado será relativamente breve
(durante a noite ou por algumas horas) ou prolongado (com ou sem
mterrupcao); será preciso considerar outrossim se o uso das facul-

— 417 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. ou. 4

dades voltará em certos momentos, por alguns minutos ao menos


ou por algumas horas, dando ao moribundo a possibilidade de fazer
o que o seu dever lhe impóe {por exemplo, reconciliar-se com Deus).
Por outra parte, um médico consciencioso, embora nao seja cristao,
nao cederá jamáis as instancias de quem desejasse, contra a vontade
do moribundo, fazer-lhe perder a lucidez, para o impedir de tomar
certas decisóes.

Quando, nao obstante as obrigacóes que lhe incumbem, o moribundo


pede a narcose e, para a usar, existem motivos serios, um médico
consciencioso nao se prestará a isso, sobretudo se íñr cristao, sem
ter convidado o.doente por si mesmo, ou melhor ainda, por inter
medio de outrem, a cumprir antes os seus deveres. Se o doente
obstinado se negar a tal cumprimento e persistir no pedido de narcose,
o médico poderá conceder-lhe sem se tornar culpado de colaboracáo
formal na falta cometida...
Se o paciente cumpriu todos os seus deveres e recebeu os últimos
sacramentos, se indicacóes médicas claras sugerem a anestesia, se
nao se ultrapassa na fixagüo das doses a quantidade permitida, se
se mediu cuidadosamente a intensidade e a duracao do estado de
inconsciencia, e ainda se o interessado consente em tal tratamento —
entáo nada se op6e: a anestesia é moralmente permitida» (Discurso
proferido aos 24 de fevereiro de 1957; transcrito da «Revista Eclesiás
tica Brasileira» XVII [1957] 481).

2. Acontece que certos processos anestésicos produzem


dois efeitos: além de causarem o alivio das dores, acarretam
a abreviado da vida do paciente. A aplicagáo de tais procedi
mientos será lícita contanto que
o encurtamento da vida nao seja diretamente visado em si,
mas constitua apenas urna conseqüéncia lateral do efeito bom
desejado (ou seja, do alivio das dores); nunca, portanto, se
torna lícito um ato que por si tenda a tirar a vida de um
inocente;
nao naja, no estado atual da ciencia, outro recurso para
obter o efeito bom almejado ;
exista motivo forte e imperioso que justifique o risco
mais ou menos certo de abreviar a vida ; o que quer dizer:
haja realmente dor rebelde ou insuportável, que deva absolu
tamente ser aliviada, a fim de se evitar um mal ainda maior
do que a própria morte física do paciente. É o que Pió XII
assim expunha :

«Os sofrimentos agravam o estado de fraqueza e de esgotamento


íisico, embaracam o impeto da alma, e ameagam as fórgas moráis
em vez de as suster... Tenha-se presente que, em lugar de contribuir
para a expiagáo e para o mérito, a dor pode-se tornar ocasiáo de
novas faltas... Pelo contrario, a supressao da dor proporciona um
alivio orgánico e psíquico, facilita a oracao e torna possivel urna
entrega mais generosa do paciente ñas máos de Deus» (discurso
citado; cf. «REB» 480).

— 418 —
A EUTANASIA

nao se empreguem tais tratamentos (de duplo efeito)


além dos termos estritamente necessários para aliviar as dores
do paciente.

É claro, porém, que nenhum enfermo está obrigado a


aceitar narcóticos e analgésicos. Se, por graga de Deus, urna
pessoa doente concebe a santa coragem de padecer para mais
se configurar a Cristo crucificado, faca-o com a consciéncia
tranquila, contanto que se conserve humilde e animada por
intencóes puras.

b) No tocante a recursos extraordinarios

Embora o homem nao seja proprietário da sua vida, nin-


guém está obrigado a conservá-la apelando para meios que
já nao pertencem ao uso comum da Medicina. Tais seriam,
por exemplo, certas intervengóes cirúrgicas (a amputagáo de
urna perna gangrenosa...) ou alguns processos terapéuticos
modernos que requerem aparelhamento raro e grande quan-
tidade de dinheiro (a técnica da respiragáo artificial...).
Eis aínda palavras de Pió XII sdbre o assunto :

«A razáo natural e a Moral crista dizem que o homem... em caso


de doenca grave tem o direito e o dever de empregar os cuidados
necessários para conservar a vida e a saúde. Éste dever... decorre
da caridade bem ordenada, da submissao ao Criador, da justica social
e mesmo da justica estrita, bem como da piedade para com a familia.
Mas habitualmente tal dever só obriga ao emprégo dos meios ordi
narios (segundo as circunstancias de pessoas, de lugares, de épocas,
de cultura), isto é, dos meios que nao imp6em nenhum ónus extraor
dinario para o próprio agente ou para outrem. Urna obrigacáo mais
severa seria por demais pesada para a maioria dos homens, e tornaría
excessivamente difícil a aquisicáo de bens superiores mais importantes.
Com efeito, a vida, a saúde, toda a atividade temporal estáo subordi
nadas a íins espirituais. Por outro lado, nao é vedado ao homem
fazer mais do que o estrito necessário para conservar a vida e a
saúde, com a condicao de nao faltar a deveres mais graves...
A técnica da rcanimacáo... nada contém em si de imoral; por
isto o paciente... pode utilizá-la licitamente... Por outro lado, como
essas formas de tratamento excedem os meios ordinarios a que
alguém está obrigado a recorrer, nao se pode sustentar que seja
obrigatorio empregá-las e, por conseguinte, autorizá-las ao médico»
(Discurso a numeroso grupo de clínicos, médicos e cirurgiSes sobre
problemas religiosos e moráis ligados á técnica da reanimacáo, profe
rido aos 24 de novembro de 1957; transcrito da «Revista Eclesiástica
Brasileira» XVIII [1958] 240s).

Em conseqüéncia de quanto foi até aqui dito, verifica-se


ademáis que nada se opóe á suspensáo de tratamentos desti
nados a prolongar a vida, quando tais tratamentos sao apli
cados numa fase tardía da molestia, isto é, quando nao se

— 419 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. qu. 5

sabe mais se estáo dando resultado positivo ou se apenas con-


tribuem para protrair, sem esperanga, os sofrimentos de um
enfermo.
Eis quanto a consciéncia crista tem a dizer sobre euta
nasia e encurtamento analgésico da vida.

ESCANDALIZADO (Rio de Janeiro) :

5) «O escándalo de vida dos que deveriam ser puros,


desorienta a sociedade.
Como se explica que haja escándalo entre os próprios
católicos ?
E como se poderia delinear a genuína atitude do cristao
perante os escándalos ?»

«Escándalo» é palavra proveniente do vocábulo grego


skándalon, lago, armadilha colocada no caminho de alguém,
dando-lhe ocasiáo de tropegar ou cair. No plano moral, «es
cándalo» vem a ser o ato externo que possa constituir obstá
culo ao exercício do bem ou direto incentivo á prática do mal.
!Há diversas especies de escándalo moral, que assim se
discríminam :

diabólico
direto
ativo simples
indireto

Escándalo dado e recebido

passivo ese. dos fracos


nao dado, mas ou pusilánimes
recebido
ese. dos fariseus

Chama-se escándalo alivo o próprio ato que dá ocasiáo de ruina


moral a quem o considera.
O escándalo ativo é direto se a pessoa que age tem explícitamente
em vista dar ao próximo ocasiáo de pecado. Será diabólico no caso
em que se procura seduzir alguém ao pecado por causa do pecado
mesmo, ou seja, para ofender a Deus e arruinar espiritualmente a
alma (tal é a atitude de quem iala contra a fé, intencionando levar
os fiéis á apostasia). — O escándalo ativo direto é simples quando
o pecador, procedendo mal, nao visa a ruina do próximo como tal.
mas apenas procura satisfazer ao seu gozo pessoal e aos seus inte-
résses particulares (tal é o caso do cheíe que manda seu súdito
cometer urna fraude para poder usufruir de um beneficio ilícito).
O escándalo indireto é um ato que por sua própria natureza nao
é mau, mas que- se reveste de aparéncias de mal, de modo a se poder

— 420 —
O ESCÁNDALO

prever que levará o próximo á queda espiritual. É o que se dá quándo


alguém por motivo justificado hospeda em sua casa u'a mulher
suspeita aos olhos do público, empregando todos os meios para remover
o perigo de pecado.

O escándalo passivo 6 a ruina espiritual do próximo acarretada


pelo escándalo ativo. Pode ser dado e recebido ou apenas recebido
e nao dado, conforme essa ruina tenha ou nao tenha fundamento real
no comportamento da pessoa tida como escandalosa (há quem se
escandaliza sem motivo auténtico!).
O escándalo recebido c nao dado é dito dos fráeos ou pusilánimes
se a sua raiz é a ignorancia, a fraqueza, a fragilidade na íé á& quem
se escandaliza... É dito dos fariseus, quando se deve á malicia mesma
da pessoa escandalizada (os fariseus, por causa da sua indisposicáo
moral, se escandalizavam a propósito dos mais sublimes ensinamentos
e gestos de Cristo).

Nos parágrafos que se seguem, consideraremos sucessiva-


mente o sentido do escándalo no plano de Deus e as normas
de conduta des católicos perante ésse mal.

1. O escándalo no plano de Deus

Por mais estranho que isto parega, deve-se dizer que é


inerente ao Cristianismo provocar no mundo o escándalo, ou
seja, o abalo de posigóes filosóficas e sociais vigentes ante
riormente a Cristo, a fim de que a criatura se converta, isto é,
se reerga sobre bases novas, explícitamente sobrenaturais. Em
outros termos : é inerente ao Cristianismo provocar decisáo
por parte daqueles que lhe ouvem a mensagem, decisáo que
vem a ser arranco, queda de instituigóes anteriormente exis
tentes, com todo o «escándalo» que isto possa suscitar na
sociedade.

1. Com efeito. Há urna palavra de Cristo no S. Evan-


gelho que ilumina todo o misterio do Senhor Jesús e da sua
obra (a Igreja) através dos sáculos :

«Ido, o anunciai a Joño (liatista) o que ouvis o vedes: os cegos


recuperam a vista, os coxos caminham, os leprosos sao curados,
os mudos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Nova é anunciada
aos pobres. Feliz, parrón, aqugle que nao se escandalizar a meu
rcspclto» (Mt 11,1-6).

O Senhor Jesús nesta passagem se apresenta com duplo


aspecto: de um lado, aparece a realizar as obras caracterís
ticas do Messias (restauragáo da natureza desintegrada pelo
pecado), ostentando assim o seu poder divino ; doutro lado,
prediz o momento em que sua natureza humana será pre
gada á Cruz ; os seus inimigos entáo O incitaráo a descer do
patíbulo, sem que Ele, Jesús, Ihes corresponda. Ora isto po-

— 421 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/19fiO. ou. B

derá causar escándalo, observa Cristo; bem-aventurado, porém,


aquéle que souber entender o aparente escándalo sem se
deixar abalar por ele! — É o misterio da Encarnacáo ou do
Divino envolvido no humano que dá origem á perplexidade
predita pelo Senhor : Éste nao quis realizar a obra da Re-
dencáo senáo por meio da carne humana, carne humana que
muitas vézes manifestou o tesouro divino nela depositado, mas
no Gólgota o encobriu totalmente, chegando a provocar a
grande surprésa em alguns dos que viram o Senhor cruci
ficado.

Alias, mais de urna vez Jesús no Novo Testamento é apresentado


como motivo de tropéco ou «escándalo».
Assim. por exemplo, profetizou o velho Simeño: «Éste menino
(Jesús) ocasionará a queda e o reerguimento de muitos em Israel;
tornar-se-á um sinal entregue á contradigáo» (Le 2 34).
Sao Paulo, do seu lado, assim comenta a atitude obcecada dos
judeus perante Jesús: «Éles íoram de encontró á pedra de tropéco,
como está escrito: 'Eis que ponho em Siáo urna pedra de tropégo e
um rochedo que íaz cair; contudo quem crer n'Ele (o Messias, o
Rochedo), nao será confundido'» (Rom 9, 32s; cf. Is 814; 28,16 K
Cristo, vindo na carne mortal, humilde e padecente, nao corres
pondía ás expectativas de gloria humana e nac'onalista que o povo
de Israel alimentava; em conseqüéncia, diz Sao Paulo, tornou-se
escándalo ou motivo de tropéco para os judeus: «Ao pasRo que os
judeus exigem milagros o os gregos andam em busca da sabedoria,
pregamos Cristo cruc'íicado — escándalo para os judeus e loucura
para os gentíos» (1 Cor 1.22s). — Note-se contudo que Cristo cruci
ficado veio a ser escándalo para os judous, nao a lim de que os
israelitas perdessem a salvagáo eterna, mas para que se reerguessem
espiritualmente sobre urna base mais sobrenatural ou mais norteada
pela fé.

Se, portanto, Cristo outrora na Palestina teve dupla face


— urna, gloriosa, divina; a outra, humana, aparentemente des
toante do aspecto divino—, compreende-se que toda a obra
de Cristo, continuada em seu Corpo M:stico, traga o mesmo
caráter através dos sáculos. A historia da Igreja vem a ser
a historia da Encarnado prolongada. A Igreja, de um lado,
é sublime por seus ensinamentos, por suas obras de assisténcia
espiritual e corporal (foi ela quem ensinou a virtude e a civi-
lizacáo aos povos ocidentais...); doutro lado, essa santidade
da Igreja nao excluí a existencia de homens fracos em seu gre
mio, homens que proffinam a quulidadc de cristáos e eclesiás
ticos, dando «escándalo»... Dever-se-á, porém, dizer : bem-
aventurado é todo aquéle que nao tropega na face humana
da Igreja, como bem-aventurado foi todo aquéle que nao tro-
pegou (ou nao se escandalizou) na face humana de Jesús Cristo.

Tendo justamente em vista ésse reg'me da Encarnagáo, que


assinalaria a dispensagáo das gragas através dos tempos, Jesús podía
afirmar: «É necessário que venham escándalos!» ÍMt 18,7).

— 422 —
O ESCÁNDALO

Necessário! Em que sentido? — Cristo ergueu sua doutrina e


sua Cruz portadoras de mensagem muito pura, mensagera tao pura
que as próprlas gerac8es cristas, por eíeito da debilidade humana,
nem sempre a haveriam de sustentar e traduzlr devidamente.
A necessidade de que fala Cristo, nao pode ser explorada pelos
homens como pretexto para afastarem de si a responsabllidade do
escándalo. Em verdade, nao há fatalismo; nao há mal que se imponha,
íorcando a liberdade de arbitrio da criatura. Por isto acrescenta o
Senhor: «Infeliz o homem pelo qual vem o escándalo!» (Mt 18,7),
palavras que supóem responsabilidade na pessoa que dá escándalo.
A necessidade referida provém simplesmente do fato de que no
mundo e na Igreja coexistem trigo e joio, bons e maus; ora estes,
consciente ou inconscientemente, tendem a exercer influencia pertur
badora e maléfica sobre os bons.

2. Alarguemos ainda o nosso horizonte. Verificamos que,


desde o inicio da historia sagrada, Deus aparece a tentar os
homens e a provar-lhes a fé, colocando-lhes «armadilhas no
caminho», nao com o intuito de os fazer pecar, mas com a
intencáo de os fazer sair do seu modo de pensar humano e limi
tado para abragarem urna concepcáo mais sobrenatural da
realidade.

Tenha-se em vista o caso de Abraáo, o primeiro Patriarca, a


quem o Altíssimo pediu imolasse seu filho único, a fim de provar e
acrisolar a sua fé. Pelo regime das provagoes «escandalosas» passaram
outross'm Jaco. José. Moisés, Jeremías. Ezequiel, a Virgem SSma. e
todos os justos do Novo Testamento, de geragáo a geragao.
As provacóes, as tentagóes ministradas por Deus tornaram-se
mesmo um elemento indispensável do processo de purificagáo e santi-
ficagáo dos homens. Murtas e militas vézes acontece que as almas
retas concebem um programa Je perfeicáo espiritual inspirado pela
melhor das intengóes; nao obstante, o Senhor no decorrer das tempos
lhes contradlz, dando-lhes a ver que os seus designios sao outros;
norteiam-se por urna sabedoria ainda mais profunda, a qual descon-
certa, «escandaliza* a sabedoria da criatura...

Quanto ás modalidades pelas quais Deus póe á prova as


criaturas, a experiencia ensina que sao muitas : ás vézes, Ele
recusa o que lhes parece haver de mais santo e justo na vida
(tal graga espiritual, tal beneficio temporal...) ¡ outras vézes,
dir-se-ia que lhes subtrai a Providencia, abandonando os seus
mais fiéis servidores, enquanto os pecadores parecem viver
felizes ; em outras ocasióes (alias, muito freqüentes) é por
intermedio dos homens que Deus «tenta», permitindo o mau
exemplo e a infidelidade «escandalosa» daqueles que mais
estariam obrigados a dar o bom exemplo (o escándalo do mau
exemplo é certamente dos mais freqüentes e perigosos, pois
quem o dá geralmente nao pensa no prejuízo espiritual cau
sado ; além disto, o mau exemplo age sorrateiramente, criando

— 423 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. qu. 5

um ambiente no qual o erro vai adquirindo direitos de cida-


dania...). — Permitíndo tais coisas, o Senhor visa abalar,
sim, os seus fiéis para que se emancipem de concepgóes e afe-
tos demasiado humanos e compreendam que há urna só coisa
importante neste mundo : fazer em tudo a vontade do Pai
Celeste. Tal tarefa se apresenta dolorosa para as almas, mas
é altamente salutar, é mesmo imprescindível para que a cria
tura se liberte do seu egocentrismo espontáneo e se eleve
devidamente até o verdadeiro Bem, que é Deus.
Em conclusáo, verifica-se que um Cristianismo sem perple-
xidades, sem surprésas desconcertantes, nao existe. Sendo
essencialmente a prolongagáo de Cristo e da Encarnagáo, o
Cristianismo apresentar-se-á sempre com urna face humana
que, ao mesmo tempo, vela e revela a realidade divina. Bem-
-aventurado, porém, aquéle que nao se detém nessa periferia
humana !

2. A atitude crista perante o escándalo

O escándalo ou a infidelidade dos homens a Deus nao deve ser


motivo de desatino decisivo ou de recuo espiritual para uma cons-
ciéncia bem formada. Justamente a fim de so evitarem conclusoes
erróneas sugeridas pelos maus exemplos tanto de pessoas simples
como de pessoas altamente responsáveis no Catolicismo, sejam aqui
propostas algumas atitudes práticas.

a) Educar a fé

Será preciso, antes do mais, que o cristáo eduque devida-


mente a sua fé e a fé de todos os que se dizem escandalizados.
E educar a fé significa incutir a distingáo entre as insti-
tuicóes essenciais do Cristianismo (ou da Igreja) e as pessoas
que professam essa santa Religiáo; mais precisamente,... a
distingáo entre a Igreja e os católicos. Embora os católicos
falhem, a Igreja, ñas suas afirmagóes oficiáis, nao falha.
Quem quer aderir ao que Ela ensina e manda, pode fazé-lo
tranquilamente, certo de que chegará a Deus se fór fiel a
essas instrugóes, mesmo que os companheiros de estrada se
jam «escandalosos» e nao alcancem a salvacáo.

A verdadeira fé nao vive na expectativa de mllagres e sinais


de Deus (o Senhor nao está obrigado a fazer o extraordinario), mas
é a fé de quem eré que Deus age no mundo por meio de elementos
humanos, de maneira oculta, mas bem real. — Em outros termos:
a propensáo a admitir intervencSes portentosas de Deus nao é neces-
sário indicio de muita virtude; ao contrario, freqüentemente significa
fé depauperada ou «crendice».

— 424 —
O ESCÁNDALO

b) Avivar o scnso da responsabilidade pessoal

Faz-se mister que, urna vez posto diante de um escándalo,


o cristáo avive em sua consciéncia e na do próximo o senso
da responsabilidade pessoal. No Corpo Místico de Cristo, assim
como existe comunháo de méritos, existe também comunháo
de deméritos : «se o meu semelhante comete falta, dando
escándalo, isto se verifica talvez porque eu nao lhe transmití
a vida de Cristo como deyia». E note-se que essa transmissáo
ou náo-transmissáo de vida nao se faz necessáriamente por
palavras ou exemplos aparatosos, mas se faz sempre pelo
cumprimento do dever ou pela fidelidade humilde á vida em
Cristo. «Urna alma que se eleva, eleva o mundo inteiro», dizia
Elisabete Leseur ; conseqüentemente urna alma que se deprime
pelo pecado ou pelo seu teor geral de vida, nao pode deixar
de deprimir o mundo, embora ninguém perceba a sua acáo
maléfica.

«Quem tem um morto em casa, nao o abandona para ir prantear


o do vizinho», diziam os antigos monges no deserto. Assim, ao vermos
algo de escandaloso em nosso próximo, lembremo-nos de que temos
um morto em casa, isto é, pecados próprios, atitudes quicá escanda
losas, que devemos procurar cancelar antes de- denunciar os males
cío próximo.

c) Evitar o escándalo, mesmo o dos pusilánimes

Infeliz aquéle que, por sua conduta desleixada, compro


mete (embora nao o intencione diretamente) a salvagáo das
almas pelas quais Cristo morreu, adverte o Apostólo em Rom
14,15. Por isto diz aínda Sao Paulo : «Tudo me é permitido,
mas nem tudo edifica. Ninguém procure o que é de seu inte-
résse próprio, mas, antes, o que é do próximo» (1 Cor 10,23s).
Esta norma significa que por vézes o cristáo deve renun
ciar ao uso de certos legítimos direitos seus, a fim de nao
provocar o escándalo daqueles que, por sua simplicidade ou
ignorancia, se surpreenderiam diante do uso désses direitos.

Foi assim que Cristo procedeu, por exemplo, quando, intimado


a pagar o tributo do templo, lembrou primeiramente aos Apostólos
que nao estava obrigado a isto; nao obstante, mandou a Pedro que
o lizesse em seu nome «a flm de nao escandalizar os cobradores
do imposto» (c£. Mt 17,24-27).
Semelhante comportamento íoi observado e recomendado aos
íiéis por Sño Paulo com referencia ao consumo de carne na Igreja
antiga. — Com efeito; nos agougues das cidades greco-romanas
vendiam-se, para uso das familias, carnes que haviam sido previa
mente imoladas aos Ídolos nos santuarios pagaos. Ora alguns cristáos,
simples e Ignorantes, julgavam que tais alimentos continham em si

— 425 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/19fiQ. ou. S

um poder contaminador, capaz de dar comunháo com os deuses pagaos;


por isto recusavam-se a comer tal tipo de carne e escandalizavam-se
caso um irmao, mais esclarecido na íé. ousasse fazé-lo. Pois bem,
dizia Sao Paulo, os Ídolos nada sao (1 Cor 84-6); por isto a carne a
éles imolada nao difere do comum das carnes vendidas no acougue;
mas, «se um alimento é ocasiao de queda para meu irmáo, eu jamáis
comerei carne, para nao causar a queda de meu irmáo» (1 Cor 8,13).
«Jamáis comerei carne para nao escandalizar!». A tal ponto,
sim, podem chegar as exigencias da caridade para com o próximo.

A obrigagáo de se evitar dar o mau exemplo (ainda que


aparente apenas) ou de se evitar o escándalo dos pequeninos
é obrigacáo grave. Contudo a Moral crista reconhece situagóes
em que há motivos serios para nao se omitir um ato que
provávelmente será mal entendido ou escandaloso para os ir-
máos de fraca formagáo. Em tais casos, faz-se mister, na
medida do possível, esclarecer previamente as pessoas sujeitas
a escándalo a fim de que nao sofram detrimento ao percebe-
rem a conduta do aparente libertino. Além disto, para a licei-
dade dessa conduta, requer-se a observancia das seguintes
condigóes:

al o referido ato deve ser, por si mesmo, bom ou ao menos


indiferente. Nunca se torna licito um ato intrínsecamente mau;
b) haja razóes verdaderamente graves para se realizar tal ato;
c) nao exista outro meio de satisfazer ás exigencias da situagáo
criada;
d) os efeitos bons do ato «aparentemente escandaloso» devem
compensar ou ultrapassar os danos que ¿sse mesmo ato possa causar.

A guisa de exemplo, soja citada a situa?ao de quem, num día


de jejum, tem dispensa do preceito eclesiástico; fazendo uso público
dessa dispensa, poderá, como se compreende, dar o mau exemplo ou
o escándalo... Ser-lhe-á contudo licito valer-se da licenca, contanto
que razóes imperiosas (de saúde, por exemplo) o recomendem e, na
medida do possivel, o interessado esclarega as pessoas que se pode-
riam escandalizar.

d) Cautela em relacáo ao escándalo dos fariseiis

O escándalo dos fariseus é aquéle que nao tem fundamento


na conduta de quem age (éste procede bem em toda a linha),
mas na malicia de quem a observa.
Pois bem ; por respeito á gloria de Deus e á salvacáo do
próximo, há obrigagáo (desde que isto nao acarrete grandes
inconvenientes) de evitar atos em si bons, mas nao obrigató-
rios, que déem ocasiáo aos maus de cometer novos pecados.
O cristáo deverá, sim, esforgar-se zelosamente por diminuir o
número de pecados do mundo, de mais a mais que, dada a

— 426 —
O ESCÁNDALO

ignorancia religiosa vigente em nossos dias, se torna difícil


distinguir se o próximo se escandaliza por malicia real ou por
mera fraqueza na fé, isto é, por falta de formagáo...

Como quer que seja, torna-se quase impossivel evitar todo


escándalo farisaico, pois a simples conduta crista vem a ser
motivo de tropégo para o mundo moderno alheio a Deus. Jesús
Cristo mesmo nao recusou sempre a possibilidade de dar es
cándalo ou de ser motivo de queda para os fariseus. Vindo
ao mundo e denunciando-lhe os seus males, o Senhor provo-
cou o endurecimento e a malicia de muitos, que, em caso
contrario, nao teriam tido culpa táo grave : «Se eu nao ti-
vesse vindo e nao lhes tivesse falado, nao teriam pecado.
Agora, porém, nao tém desculpa do seu pecado» (palavras de
Jesús em Jo 15,22).

É por vézes inútil querer evitar o escándalo farisaico,


pois, faca o que fizer, acontece nao raro que o homem de bem
fica sempre sujeito á crítica e ao sarcasmo dos maus. É o
que Jesús notava: «Joáo (Batista) veio ; nao comia nem be
bía, e eis que dizem : 'Tem demonio*. O Filho do homem veio ;
come e bebe, e eis que dizem : 'É glutáo e beberráo, amigo
dos publícanos e pecadores'» (Mt ll,18s).

De outra íeita, tendo Jesús censurado a hipocrLsia dos íariseus,


que se preocupavam com logoes e ritos formalistas sem dar importan
cia á pureza de pensamentos e aíetos, os Apostólos referiram ao
Mestre: «Sabes que os fariseus ao ouvirem tuas palavras, se escan-
dalizaram?». Ao que Jesús respondeu:» .. .Deixai-os. Sao cegos que
conduzem cegos» (cf. Mt 15,10-14). Em tal caso, como se vé, Jesús nao
levou em conta o escándalo farisaico.

Estas consideracóes sugerem imediatamente a seguinte


proposigáo:

e) Há também o escándalo salutar

A palavra e a vida norteadas pelo Evangelho, ao mesmo


tempo que provocam o endurecimento de uns, sao benéficas
para outros, principalmente para os indecisos, cujo torpor elas
sacodem. Nestes elas suscitam um escándalo salutar; aba-
lam-nos, para que se reconstituam, mais conscientes de sua
tarefa na térra. Jesús Cristo mesmo veio a ser o «Grande
Escándalo» (entendido nesta accepgáo positiva).

Disto se segué que nao se deve pregar o Cristianismo de


modo a dissimular o que ele tem de oposto á mentalidade do

— 427 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. ou. 5

mundo; nao se procure adocicar ou tornar «inofensivo» o


Evangelho, desvirtuando-o ou eneobrindo a mensagem da Cruz,
nem mesmo a ftulo de ganhar mais fácilmente as almas; é
a rudez da mensagem evangélica como tal que mais atrai
os ouvintes.

Naturalmente será preciso nao íalar do Evangelho sem propósito,


isto é. em circunstancias que nao deixem esperanca de acolhimento;...
nao provocar, pela pregacSo, choques doutrinários inúteis;... também
nao insistir em pormenores secundarlos da doutrina de Cristo como
se tivessem a importancia dos temas essenciais.

Pode-se dizer que a sociedade moderna se ressente mui-


tas vézes da falta de um testemunho cristáo mais decidido ou
mais «escandaloso» ; o que quer dizer :... mais apto a abalar
a mediocridade dos homens. Freqüentemente os cristáos ten-
dem a se diluir ou a se nivelar ao modo de pensar, falar e
viver dos demais homens, deixando de ser fermento na massa.

Tenha-se em vista principalmente a condescendénc'a de cristüos


com certas afirmacdes da sociedade contemporánea em que a arte
(pseudo-arte) serve de engodo ao pecado: tais seriam as modas
feminlnas, certas películas de cinema, pecas de teatro, literatura pouco
escrupulosa ou mesmo imoral... Se nao há reagóes coletivas contra
ésses escándalos, o mal vai tomando foros de bem, perde-sn até a
confidencia da d'íerenca entre «licito» e «ilícito».
Já Sao Pió X afirmava que «o maior obstáculo ao apostolado
é a timdez ou, antes, a covarda dos bons». Pió XII lhe faz.a eco
denunciando «o cansaco dos bons» como sendo o grande mal da época
presente (cf. B. Haering, La loi du Christ, vol. 3. Paris 1959, 82).
O cristao consciente destas advertencias procurará reagir contra
todo tipo de cumplic'dade com o mal, por mais sorrateiro que éste
seja e por mais «escandalosa» que venha a parecer a sua atitude.

Recomenda-se por fim

f) Excitar o sonso da reparacáo do escándalo

Nao basta ao discípulo de Cristo denunciar a existencia


dos escándalos na sociedade. Esta nao pode ser a última pala-
vra de um programa cristáo. Até mesmo os escándalos tém
ssntido providencial, pois o Senhor só os permite porque déles
quer tirar algum bem. Será preciso, portante, que o cristáo
procure reparar os danos que ele mesmo ou seu próximo tiye-
rem causado mediante um feito escandaloso. Reajam corajo-
saments, confiando nao em suas preprias fórgas, mas na gra*a
de Deus, que entregou a cada discípulo de Cristo a tarefa
de ser «sal da térra e luz do mundo» (cf. Mt 5, 13s).

— 428 —
O CRISTAO E O SERVICO MILITAR

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

ABDIAS (Rio de Janeiro) :

6) «Em relacao ao servigo militar, diz-se que a Igreja


nos primeiros sáculos condenava táo paga c sanguinaria ati-
vídadc.
Gomo se explica que hojo em día a iresma Igre.ia rcco-
nhe;a a legitimidadc do servico militar ? Nao se terá ela pro
fanado, condescendendo com as instituigóes pecaminosas déste
mundo ?»

Por «servigo militar» entende-se aqui a aprendizagem


bélica a que os cidadáos de cada país se submetem a fim de
garantir a existencia de fórgas armadas na respectiva nacáo.
Está claro que a liceidade do servico militar depende de
urna questáo previa: será, em consciéncia, permitida a mobi-
lizagáo de fórgas armadas ou a prática da guerra violenta
entre os homens ?
A Éste quesito já demos resposta em «P.R.» 22/1959,
qu. 4, de modo que, á guisa de introdugáo no assunto que nos
intcressa própriamente, nos limitaremos aqui a breve resumo
da doutrina concernente á liceidade da guerra.

O crlstáo vé na guerra urna das conseqüéncias do pecado de


Adao. Éste, provocando a ruptura da harmonía do género humano
com Deus. íéz que os homens possam nutrir aspira°5es antagdn'cas
entre si e, comeqüentemente, recorram k luta armada. Isto nao quer
dizer aue toda guerra seja inspirada por inten^áo pecaminosa; na
verdade. pode acontecer que um pecado ou muitos pecados comet'dos
ca e lá no mundo se tornem ocasao para que urna na'íáo tenha
de pmpunhar as armas a í'm óe combater a p'opagacáo do pecado
ou dn iniu^tica na soc'edade internac'onal. A guerra pode tornar-se
ontao o fre'o ou o antídoto do pecado ou mesmo o ún'co me'o de
detcr o pecado Ncssas ni-cunstftncias, fa'a-se de «guerra iusta»; esta
vr»n a .rer i'ma nncp^sidade du»"a e cruel ou um ato de violencia
legitima oposta á vio'Cnc'a ilegitima.

Tais nogóes já bastam para considerarmos dlretamente tal


tipo de preparativo para a guerra que é o servigo militar.
—• Analisaremos sucessivamente o que dizem os documentos
cristáos do passado e o que ensina a Moral católica em nossos
dias a tal respeito.

1. O pensamento cristáo antigo

1. A fonte primaria da qual se inspirava o pensamento


dos antigos cristáos a respeito de servigo militar, era natural
mente a Sagrada Escritura.

— 429 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960. gu. 6

Ora esta dá a ver como o povo de Deus, na antiga Lei,


tinha sua milicia bélica destinada a defender os interésses da
verdadeira fé e da esperanca messiánica em meio a povos
dados a idolatría e a corrupcáo dos costumes. Tais povos, do
tados de consciéncia moral pouco apurada, difícilmente se
rendiam a razóes que nao fóssem as das armas.

Sobre a guerra e os procedimentos bélicos no Antigo Testamento,


veja-se o livro de E. Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento,
2« ed. (AGIR) pág. 125-142. 144-146.

O livro de Jó chega a comparar com um servigo militar


a vida do homem posto sobre a térra em luta continua contra
as paixóes; cf. Jó 7,1 ; 14,14.
No Novo Testamento, nao é raro o emprégo de figuras
derivadas da vida militar para ilustrar o que é a existencia
do cristáo no mundo : esta significa, sim, combate, disciplina,
coragem, que tocam as raias do heroísmo, á semelhanca do
que se dá nos exércitos profanos. Tenham-se em vista as
palavras do Apostólo em 2 Cor 10,3-5 :

«Vivemos na carne, mas nao combatemos com os recursos da


carne. Nao; as armas do nosso combate nao sao carnals, mas tém,
em prol da causa de Deus. o poder de derrubar as fortalezas. Des
truimos os sofismas e toda potencia soberba que se ergue contra
o conhecimento de Deus, c submotomos todo pensamento, levantio-o
a obedecer a Cristo».

Ainda mais explícito é Sao Paulo em Ef 6,11-17:

«Revesti-vos da armadura de Deus, a fim de que possais resistir


as ciladas do demonio. Nossa luta nao é contra o sangue e a carne,
mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores
déste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados
nos ares.

Tomai, pois, a armadura de Deus, para que possais resistir no


dia mau e permanecer firmes, depois de obter completa Vitoria.
Permanecei... cingidos com o cinturáo da verdade, revestidos da
couraca da justica... Tende em mao sempre o escudo da fé, com que
possais extinguir todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai o
capacete da salvacao e a espada do Espirito que é a Palavra de Deus».

A vida militar profana é mesmo proposta ao cristáo como


motivo ocasional de estímulo :

«Toma tua parte de sofrimentos, como bom soldado do Cristo


Jesús. Na carreira das armas, ninguém se entrava com afazere.s da
vida civil, se quer satisfazer a quem o angariou» (2 Tim 2,3s).

Em conclusáo, verifica-se que o uso da metáfora da mi


licia na Sagrada Escritura sugere que esta profissáo nao é

— 430 —
O CRISTAO E O SERVICO MILITAR

por si má. Tal afírmagáo é corroborada pelo fato de que o


Precursor de Jesús, ao pregar penitencia e vida nova a mili
cianos, de modo nenhum lhes mandou abandonar a sua car-
reira; apenas lhes recomendou que se mostrassem leáis em
tudo e contentes com o seu sóido (cf. Le 3,14). Ademáis obser-
va-se que Jesús nao hesitou em elogiar um centuriáo (oficial
do exército) por sua fé (cf. Le 8,1-10; Mt 8,5-13) e que, den-
tre os pagaos antigos, o primeiro a receber o batismo cristáo
foi o centuriáo Cornélio (cf. At 10,1-48).
2. Baseando-se na orientagáo fornecida pela Palavra de
Deus, os cristáos dos primeiros sáculos nao se alheavam ao
servigo na milicia do Imperio (servigo que, de resto, era
prestado voluntariamente, e nao por obrigagáo cívica).
Nesta, como em outras atividades da vida pública, os discípu
los de Cristo eram vistos a cotejar os pagaos. É o que Ter
tuliano no inicio do séc. III atesta, dirigindo-se a leitores náo-
-cristáos: «Convosco viajamos sobre os mares, servimos no
exército, trabalhamos nos campos, exercemos o comercio»
(Apol. 42). «Enchemos todos os vossos setores... as casernas,
tribos, decurias» (Apol. 37,4).

Estes dizeres bem se entendem pelo fato de que, desde os primeiros


séculos. soldados pagaos abracavam a fé crista sem que esta os obri-
gasse a abandonar o servico das armas. Houve mesmo, no iim do
séc. III, militares, como Sao Sebastiáo, que subiram aos mais elevados
postos do exército imperial, santificándose no desempenho de suas
obrigacOes. a ponto de conseguirem a coroa do martirio. Registra-
ram-se até legióes inteiras constituidas quase únicamente de cristáos;
tais eram, por exemplo, a Legiáo Tebana, comandada por Sao Mauricio,
e a Legiao XII dita «Fulmínea» ou Fulminante (Tertuliano refere
que as oracOes dos soldados cristáos desta Legiáo obtiveram para
as tropas do Imperador Marco Aurelio [161-180] urna chuva quase
milagrosa, gracas á qual o próprio Imperador pagáo escapou de morrer
de sede; cf. Apol. 5. Esta narrativa, porém, nao merece crédito, con
forme os historiadores modernos).

Sao Basilio (t 379), por sua vez, ao fazer o panegírico


dos 40 mártires de Sebaste, assegurava que nos exércitos im-
periais, muitos eram os soldados cristáos (ed. Migne gr. 31,
512). Semelhante noticia se lé em Sao Gregorio de Nazianzo
(or. 1), em Eusébió de Cesaréia (Hist. ecl. 8,4 ; 9,10)...
Estes exemplos sao suficientes para evidenciar que, desde
o inicio da historia do Cristianismo, nada houve, por parte da
fé crista, que em tese se opusesse ao servigo das armas. S.
Agostinho (t 430) resumía bem o ponto de vista cristáo co
mentando as palavras de Sao Joáo Batista aos soldados
(Le 3,14):

«Se a disciplina de vida dos cristáos condenasse as guerras, o


Evangelho transmitiría éste programa salutar a quem o interrogasse:

— 431 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960, qu. 6

depor as armas e subtrair-se a toda atividade mlitar. Eis, porém,


que está dito apenas: 'A ninguém leseis; contentai-vos com o vasso
sdldo'. Ora o Evangelho nao terá proibido o exercício da vida militar
aqueles a quem mandou que se contentassem com o sóido militar»
(epist. 5,2,15).

O Santo Doutor del'neou outrossim a mentalidade que deve guiar


o cristáo na guerra e em qualquer preparativo para esta:
«A guerra é travada para que a paz seja adquirida. Por conse
guirte, ao fazer a guerra, sé um agente de paz de modo que, obtendo
a Vitoria, leves a gozar da paz aqueles que tiveres debelado» (epist.
189, 6).
É, portanto, em vista de paz justa e duradoura, e sómente em
vista disto, que ao cristáo se torna lícito empreender a guerra.

3. Acontecía, porém, na antigüidade que a profissáo mi


litar, embora fósse licita dentro dos limites indicados, nao
deixava de ser perigosa para a fé e a virtude do discípulo de
Cristo. Com efeito, enquanto o Imperio professava oficialmente
a religáo politeísta (até 313), os homens e as instituigóes mi
litares nao podiam deixar de estar impregnados de menta
lidade paga; e essa mentalidade se exprimía por vézes nos
atos mais ordinarios da vida de caserna, ocasionando conflitos
de consciéncia para o soldado que nao quisesse pactuar com
a superstigáo e a idolatría.

Para ilustrar esta assercáo, tenham-se em vista alguns episodios


famosos.
Em principios do seo. III na África proconsu'ar (setentrional),
os oficiáis do exército romano houveram por bem distribuir donativos
aos seus milicianos em nome dos novos Imperadores Caracala e Geta.
Cada soldado, obedecendo ao cer.'monial de praxe, devia ir buscar a
sua parte, ostentando urna coroa de louros sób'-e a cabeca. Um déles,
porém, resolveu apresentar-se com a íronte desnuda e a coroa na
mao; diante dos protestos e escarnios dos colegas, o oficial que
presidia á cerimónia. lhe perguntou porque destoava do ritual adotado:
«Porque sou cristao», respondeu entáo o m'liciano. Ora. ao ouvir
esta profissáo de íé, a soldadesca nao se conteve e pediu a punicáo
do réu. O presidente entüo mandou o insubordinado despojar-se de
suas insignias militares e entregou-o ao respectivo tribunal (Tertu
liano, no opúsculo «De corona militis»).
O motivo pelo qual o soldado cristáo recusara colocar a coroa de
louros sobre a sua cabeca era a Índole paga que tal ornamento tinha
no Imperio Romano antigo: a coroa vinha a ser distintivo dos deus.es
e dos que sacrificavam aos deuses nos banquetes solenes; por isto
os cristaos costumavam rejeitar o seu uso. — Nao sendo, porém,
a coroa urna insignia religosa própriamente dita, as autoridades
da Igreja permitiam aos soldados cr'stsos que a ostentassem na
cabeca todas as vézes que as formalidades do cerimonial militar o
exigissem. Apesar disso, o soldado a que se refere Tertuliano, juígou
que no seu caso a obediénca á praxe poderia ser tida como profissáo
de paganismo; dai a recusa...

Caso análogo é o do joyem Fábio, de Cesaréia da Mauritania.


Ainda no inicio de sua carreira militar, exercia as fungdes de porta-

— 432 —
O CRISTAO E O SERVICO MILITAR

-estandarte («Vexillifer») do Govemador da regiáo. O estandarte,


porém. trazla gravadas a ouro as efigies de Imperadores tidos como
personagens divinos. Ora ura belo d?a chegaram á Mauritania editos
impertáis deperseguicao. O: Govemador local houvé'por bem promul-
gá-los em solcne assembiéiados magistrados e nobres da provincia
assembléia á qual ele comparecería acompanhado do estandarte impe
rial. Nessa ocasiáo Fábío resolveu negar-se ao cumprim*»nto de sua
funcáo, pois a reuniáo solene ja nao tinha caráter meramente civil
nem militar, mas religioso; as insignias imperiais que ele havia de
carregar, lhe recordavam diretamente Satanaz e o poder das trevas
a nersejm'r o reino de Cristo. Nao querendo entao ser envo'vido na
pompa. Fabiano declarou que dessa vez nao carregaria o estandarte,
pois pertencia a outro Senhor, tendo-se ele convertido de soldado de
César a soldado de Cristo. Compreende-se bem que o jovem tenha
pago com a vida a sua recusa.
Neste episodio, como no precedente, vé-se que o mesmo objeto
e a mesma cerimónia podiam ter valor ambiguo, significando ora
algo de meramente profano, ora algo de religioso ou pagáo. conforme
as circunstancias de cada caso. — Era o que. as vézes de maneira
totalmente imprevista, dava origem a situacfies angustiosas para os
cristáos alistados na milicia romana.

Certos usos vigentes no exército tinham por si mesmos


caráter de profissáo religiosa paga. Tais fícavam naturalmente
vedados aos discípulos de Cristo, o que nao podia deixar de
acarretar um dilema de vida ou morte para o soldado cristáo.

Era o que se dava, por exemplo, todas as vézes que as autoridades


militares exigiam que os súditos sacrificassem aos deuses.
Sabe-se que o soldado Marino estava para ser promovido a
centuriáo, quando um colega, desejoso de lhe tomar a d'anteira. o
denunciou ás autoridades como cristSo; estas entao lhe impuseram
como condicao de promocáo a oferta de um sacrificio pagáo. Conse-
qüentemente o bispo de Cesaréia propós a Marino, diante do altar
sagrado, a opcao: ou o Evangelho ou a Espada. Marino veio a morrer
em Ce^aréia da Palestina no ano de 260 (cf. Eusébio, Hist. ecles.
VII XV).
O Imperador Diocleciano no fim do séc. III colocou seus soldados
em presenca de alternativa dolorosa: «ou sacrificar ou deixar o exér
cito»; «ou sacrificar ou perder a vida»... Em tais casos, os bispos
recomendavam inflexlvelmente a seus fiéis a perda da carreira ou
da própria vida.

Quanto ao juramento militar (dito «sacramentum»), po-


de-se observar o seguinte: no principio de cada ano, assim
como por ocasiáo da elevagáo de um Imperador ao trono e
no aniversario desta data, todo soldado devia prestar um jura
mento de fidelidade a Sua Majestade. A fórmula, após pro
meter obediencia total, se encerrava com urna «sacratio», na
qual o soldado se entregava, junto com a sua familia, á ira
dos deuses, caso conscientemente violasse a sua promessa ;
esta consagragáo podia parecer urna profissáo de fé paga e,
por conseguinte, a renegacáo do Cristianismo... Daí surgía

— 433 —
-PERPUNTE E RESPONDEREMOS* 34/1960 au.

o embarago de consciéncia no cristáo. A dificuldade, porém


podia ser superada; com efeito, o juramento militar era feito
coletivamente, de modo que só um soldado pronunciava por
inteiro a respectiva fórmula, limitando-se os colegas a dizer
um por um: «ídem in me. — O mesmo acontega a mim».
Ora, ao proferir estas poucas palavras, o soldado cristáo podía
prometer a mesma dedicagáo ao Imperador que os pagaos
prometiam ; mas, em lugar de jurar «pelos deuses e pelo
genio do Imperador», que na realidade nada sao, o cristáo
aceitava de antemáo o castigo do único Deus para o caso de
violar sua promessa. Por éste motivo a fórmula de juramento
obrigatória para todos os soldados romanos nao era vedada
pela autoridade da Igreja aos cristáos.

Havia, porém, certos juramentos militares de caráter privado


leitos «pelos deuses e pelo genio do Imperador», juramentos que
esporádicamente podiam ser exigidos déste ou daquele miliciano;
em tais casos os cristáos deviam recusax-se. Foi o que se deu com
o soldado Basllides, o qual, á custa da própria vida, se negou a
prestar um désses juramentos particulares (cf. Eusébio, Hist. ecles.
VI 5,5).

A consideracáo dos conflitos, ora mais freqüentes, ora


mais raros, entre as instituigóes vigentes no exército e a cons
ciéncia crista levava alguns poucos escritores cristáos da
antigüidade a rejeitar o servigo militar, pleiteando isengáo
déste para o discípulo de Cristo.

Foi o que íéz Orígenes (t 253/4): asseverava aos pagaos que,


enquanto os soldados combatiam. os cristáos serviam ao Imperio com
as suas preces e com a prática da virtude; deviam, porém, conservar
isentas de sangue as suas maos, «á semelhanca dos sacerdotes dos
vossos Ídolos e dos sacristáes dos vossos deuses» (Contra Celsum VIII
73). Tertuliano, por sua vez, condenou a milicia no £im da sua vida,
após haver abandonado a Igreja para aderir aos erros do Montañismo
(portante nao já como representante da mentalidade da Igreja). A
mesma condenacSo, proíeriu-a também Latáncio (t após 317), escritor
cristáo que, de resto, é conhecido por suas imprecisdes doutrinárias
(a opiniáo déste autor estava longe de exprimir o pensamento da
Igreja, como também em 1830 os escritos violentos de Lamennais,
propugnando a separagáo total da Religiáo e do Estado, nao repre-
sentavam o modo de ver da Sta. Igreja).

A carreira das armas continuou a ser considerada licita,


tanto que no inicio do séc. IV Galério César, querendo com-
bater os cristáos, teve que proceder a urna «depuragáo» do
seu exército; propós, sim, aos seus milicianos cristáos a es-
colha entre a apostaste da fé e o abandono da carreira.
Em conclusáo, deve-se dizer que a Igreja nao condenou
o servigo militar como tal no Imperio Romano pagáo, mas

— 434 —
O CRISTAO E O SERVICO MILITAR

em casos particulares incutiu a seus filhos a recusa de certas


instituigóes do exército (reconhecidas como típicamente pagas),
aínda que isto lhes custasse a degradagáo e a própria vida!
As aíirmac5es e restricdes da Santa Igreja parecem fielmente
expressas na seguinte frase de Clemente de Alexandria (t antes de 215)
que assim interpelava o seu leitor:
«Se es camponés, cultiva a térra, mas, cultivando-a, louva a Deus.
Se tens prazer em navegar, navega, mas ora ao Pildto celeste. Se
eras soldado quando a fé crista te conquistou, dá ouvidos ao Chefe
cuja palavra de ordem é a Justica» (Protréptico X 100).

De resto, pode-se notar que alguns filósofos da antigüidade,


principalmente os estoicos Séneca, Epicteto, Marco Aurelio, condena-
vam a vida militar por causa do baixo nivel moral que entáo a
caracterizava.

2. Na Idade Media

Na Idade Media o regime feudal fez que bispos e abades


fóssem ao mesmo tempo pastores de almas e senhores no
plano temporal (feudatarios). Na qualidade de administradores
temporais, mais de urna vez viram lesados os direitos de seus
respectivos territorios e súditos ; conseqüentemente, incum-
biu-Ihes a tarefa de empreender a guerra — guerra que era
legítima, desde que visasse realmente restaurar a justiga vio
lada (veja em «P.R.» 22/1959, qu. 4 as condigóes para que
urna guerra possa ser tida como justa).
Registraram-se, porém, abusos nesse setor, pois tanto
simples clérigos como dignitários eclesiásticos apareceram di-
retamente a empunhar armas e a comandar tropas. Em con-
seqüéncia, a autoridade da Igreja tomou severas medidas que
proibiam aos eclesiásticos as atividades militares própriamente
ditas, como seriam a de alistar-se em um exército, a de se
envolver em combate armado, a de trazer armas consigo, etc.,
pois tais procedimentos destoam por completo da missáo sa
grada que incumbe aos ministros do altar.

No séc. XII o «Decreto de Graciano», expressüo marcante do


Direito medieval, assim admoestava:
«Non debent agitare iudicium sanguinis, qui sacramenta Domini
tractant. — Nao devem promover a punicáo do sangue aqueles que
se ocupam com os sacramentos do Senhor» (qu. VIII c. 30).
O mesmo documento declarava ser o exerclcio direto das ativi
dades bélicas íungüo dos leigos, nao dos membros da hierarquia
sagrada (c. 1); denegava aos clérigos que morressem em guerra, o
direito a sufragios solenes (nao, porém, ... a todo e qualquer sufragio),
c. 2; mandava fóssem os clérigos que ousassem empunhar as armas,
destituidos de suas funcñes sagradas e enviados para um mosteiro,
a fim de ai fazer penitencia (c. 5); quanto aos bispos, o «Decreto de
Graciano» lhes lembrava que seu papel na milicia de Cristo era o
de rezar, nao o de combater (c. 19).

— 435 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 34/1960, qu. 6

Os concilios regionais da Idade Media repetiram freqüentemente


estas e semelhantes normas. Sem negar a liceidade do servico militar
e da guerra, visavam apenas distribuir, de acordó com as diversas
vocacoes no Corpo Místico de Cristo, as funcoes necessárias ao bem
espiritual e temporal do povo de Deus.

A legislacáo medieval passou para o atual Direito Ca-


ndnico, que reivindica para os clérigos a isencáo do servigo
militar e dos cargos públicos incompatíveis com o estado ecle
siástico (cf. can. 121).

3. A Moral crista e o servigo militar em nossos dias

Até a Revolucáo Francesa, o recrutamento para o servico


militar fazia-se mediante apresentagáo voluntaria dos cida-
dáos. Contudo a 1* de Janeiro de 1794 a Franca proclamou
o servigo militar obligatorio para todos os seus súditos. Por
influencia das invasóes de Napoleáo, a nova legislagáo foi re-
produzida por quase todas as nagóes civilizadas no decorrer
do sáculo passado. Os juristas e políticos da época nao dei-
xaram de observar que a obrigatoriedade do servico militar
concoma para estimular a desconfianga entre os povos. Foi
o que também os Papas Leáo XIII e Bento XV notaram, tendo
éste último escrito textualmente em carta datada de 4 de
novembro de 1917: «O recrutamento obrigatório tornou-se,
no decurso déste último século, a causa de u'a multidáo de
males».
Contudo a Igreja nunca pregou a rebeliáo contra o novo
estado de coisas, pois, o alistamento obrigatório nao sendo por
si algo de viciado, a revolta sistemática contra o mesmo impli
caría em desordem social. O servigo militar obrigatório pode
vir a ser, ao menos num ou noutro período da historia de um
povo, medida oportuna exigida pelo bem comum ou pelo in-
terésse de salvaguardar os direitos da patria. De resto, nao
é aos cidadáos em particular, mas á autoridade governamental,
coadyuvada por seus técnicos, que compete julgar se a defesa
nacional, nesta ou naquela fase do país, exige o servigo mili
tar obrigatório de todos os súditos. Aos individuos particulares
toca submeter-se á lei, ficando-lhes, porém, a possibilidade de
mover a opiniáo pública em favor da aboligio do servigo mi
litar obrigatório, caso julguem haver motivos justos para isto.
— A Moral católica é contraria ao «militarismo», ou seja, ao
armamento constituido em programa mais ou menos cegó ;
cf. as encíclicas de Bento XV «Pacem Dei munus pulcherri-
mum» de 23/V/1920, e de Pió XI «Nova impendet» de
2/X/1931.

— 436 —
CORRESPONDENCIA MIÚDA (o racismo)

Em vista dos principios ácima expostos, a maioria dos


moralistas católicos julga ilícita a chamada «objegáo de cons-
ciéncia» feita contra o servico militar («objegáo de conscién-
cia» seria a recusa de obedecer as autoridades militares por
motivos íntimos, como os de religiáo, moral, senso humani
tario. ..). O cidadáo que participa habitualmente dos bens da
comunidade cívica, tem o dever correlativo de a defender todas
as vézes que, por seus legítimos representantes, ela o convo
que ; daí decorre a obrigacáo de atender á patria nao sámente
na guerra justa, mas também no servigo militar (sem o qual
nao poderia haver atuagáo eficaz em tempo de guerra). —
Verdade é que, em certos casos, a guerra pode ser evidente
mente injusta; em outros casos, a convocagáo ao servigo
militar pode ser demasiado exigente, violando leis naturais
ou positivas (é o que se dá quando vem convocado um cidadáo
indispensável ao sustento de sua familia ou um inválido...);
em tais casos, desde que a injustíga seja flagrante, torna-se
lícito ao cristáo subtrair-se ao chamado das autoridades públi
cas (note-se, porém, que nao é fácil, neste terreno, afirmar
que tal guerra ou tal convocagáo é certamente injusta); para
subtrair-se, é claro que o católico nao recorrerá a qualquer
meio ou artificio fraudulento, mas há de se valer exclusiva
mente de recursos lícitos.

A obrigacáo de prestar servico militar é geralmente tida como


dever de justica legal. Difícilmente se poderia sustentar que se trata
de obrigacáo ou de lei meramente penal (lei que nao obrigaria a
cumprir o que ela manda, mas apenas a sofrer as penas impostas
pela autoridade pública aos transgressores).
Urna desercáo em época de guerra ou na iminéncia da mesma
é considerada pecado grave contra a justica legal. Em periodo de
paz, porém, é menos grave, pois nao costuma acarretar males de
grande vulto para a sociedade.

CORRESPONDENCIA MIÚDA

COLONO (Rio Grande do Sul). 0 amigo pergunta :

"Nao há urna raga dotada de qualidades superiores as das demais


ragas ? Porque entáo condena a Igreja a discriminacáo racial ?
Será o racismo contrario á consciéncia crista ?"

1. "Racismo" é vocábulo de criagáo recente (1935/38). Em seu sen


tido largo, significa a tendencia a considerar os diversos tipos de civili-
zacjio e cultura como manifestaseis de qualidades de raca ou de linha-
gem humana. Em sentido mais restrito, o vocábulo designa a ideología
que exalta a raga como supremo valor, do qual cada individuo recebe a
justificativa da sua existencia ; o sangue seria o fundamento da socie
dade ; conseqüentemente, impor-se-ia a cada govérno civil o dever de
conservar e defender, a todo transe, a pureza da raca. Foram estas idéias

— 437 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 34/1960

extremistas que nortearam o movimento nacional-socialista na Alemanha


(1933-1945,), o qual atribuía o primado á rasa ariana e procurava evitar
principalmente qualquer mésela com o semitismo. O fascismo italiano,
por sua vez, em 1938 adotou algo dos principios racistas.

Interessa-nos aquí examinar brevemente os precedentes ¡mediatos


e a estrutura filosófica do racismo contemporáneo.

2. a) Pode-se dizer que o mentor do racismo do nosso sáculo é


o filósofo francés J. A. de Gobineau, na sua obra "Sur 1'inégalité des
races humaines" (París, 2* ed. 1884). Para éste autor, o fator racial é
a verdadeira causa do progresso ou da decadencia de urna sociedade ;
esta se desenvolve enquanto o seu sangue se mantém puro ; declina,
porém, quando acolhe em seu sangue qualidades raciais .inferiores. Exis-
tem, portanto, lacas humanas mais qualificadas e outras menos qualifi-
cadas; a mais valiosa é a raca branca e, dentro desta, sobressai a fa
milia ariana.

b) O escritor inglés H. S. Chamberlain, na sua obra "Grundlagen


des neunzehnten Jahrhunderts" (Munique 1899), desenvolveu as .idéias
de Gobineau. Afirmaya que a civilizagáo do séc. XIX foi arquitetada
pelos teutóes, os quais, para isto, se valeram da poesía, da arte e da
filosofía dos gregos, do direito e da política dos romanos, assim como
dos elementos religiosos do Judaismo e do Cristianismo; a base de
todos ésses valores seria o fator "raja" ou "sangue". É de notar que,
para Chamberlain (á diferenca do que afirmava Gobineau), a mistura
de sangues pode produzir urna raca nobre. Em suma, as idéias de
Gobineau e Chamberlain geraram o sistema do "pangermanismo" ou
do predominio absoluto do germánico no mundo, sistema que passou a
se afirmar práticamonte no nacional-socialismo alemáo (ou hitlerismo,).

c) Na mentalidade nacional-socialista, o apreco tributado ao san-


gue equivale a um cujto religioso, dotado de sua mística (tem-se falado,
a propósito, da "religiáo" ou do "mito do sangue"). A rasa torna-sc um
valor absoluto, em fungáo do qual tudo mais é visto, inclusive o bem
dos cidadáos particulares (estes sao implacávelmente sacrificados aos
interésses do sangue). Tal ideología se opóe naturalmente ao marxismo,
que tende a nivelar todas as ragas e a tributar estima absoluta ao ele
mento económico ou a producto material. O nacional-socialismo vem a
ser destarte um monismo biológico (sistema em que um só valor é re-
conhecido — o da raca), ao passo que o marxismo é um monismo eco
nómico (sistema em que só se reconhece o valor da producáo material) ;
ambas as correntes, porém, tém em comum o fundo materialista, que
nega toda distingáo entre corpo e espirito, entre criatura e Criador,
fazendo ou dos bens inanimados ou dos bens animados meramente matc-
riais as coordenadas que enquadram toda a realidade.

Mesmo depois de passada a fase aguda nacional-socialista, o racismo


continua a se afirmar, embora em termos mais brandos, seja numa
recente onda anti-semítica que passou pela Europa, seja em campanhas
contra as racas de cor nos Estados Unidos da América e na África do Sul.

3. Que dizer de tais idéias e fatos a luz da consciéncia crista ?


— Nao há conciliacáo entre o racismo, sob qualquer das suas for
mas (por mais suavizada que pareja), com a visáo crista da realidade.
Para o cristáo, todos os homens sao criaturas do mesmo Criador, e
constituem urna única grande familia destinada a gozar para sempre
dos bens eternos ou do convivio do Pai Celeste. Essa identidade de ori-
gem e de objetivo final op5e-se a privilegios de raca.

— 438 —
CORRESPONDENCIA MIÚDA (o racismo)

É forzoso, porém, reconhecer que nem todos os individuos, assim


como nem todas as ragas, possuem o mesmo cabedal de prendas «aturáis;
há, sem dúvida, tipos de constituigáo física mais robusta e ragas mais
resistentes ; há também tipos de inteligencia mais perspicaz <e de habili-
dade técnica mais agujada. Tais dotes variáveis, porém, nao sao decisivos
para se aquilatar o valor do homem como homem.) na verdade, o criterio
para se aferir o significado de um homem nao é outro sen5o o grau de
sua adesáo ao Bcm Supremo ou a Deus ; desde que a criatura humana
de tudo que possui (seja muito, seja pouco) a Deus, a fim de viver unida
ao Senhor do modo mais fiel que lhe é possível, essa criatura está
"realizada". Em outros termos : é o nivel moral ou o comportamento
do individuo frente ao seu último Fim (Deus) que caracteriza o valor
do homem como homem. Ora a adesáo total a Deus ou urna reta conduta
moral é possível tanto ñas ragas físicamente fortes como ñas iracas,
tanto entre os broncos como entre os negros, tanto entre os semitas como
entre os arianos, pois todos os homens ouvem a voz de Deus mediante
a lei natural ou os ditames da eonsciéncia. Nao é própriamente o ideal
do "atleta olímpico", mas o do "Santo" (realizável em toda e qualquer
linhagem) que paira ante os olhos do cristáo.
Compreende-se que o Senhor, tendo criado liberalmente, nao estava
obr.igado a dar a todos os homens o mesmo conjunto de predicados na-
turais. Distribuiu, ao contrario, patrimonios diversos. Cada criatura,
porém, utilizando o seu patrimonio pessoal para cumprir em tudo a
vontade de Deus, representa um valor que a ninguém é lícito desprezar.
A grande sinfonía do género humano a proclamar a sabedoria de Deus
consta (como bem se entende) de todas as possíveis tonalidades da
escala musical !
Principalmente os escritos do Novo Testamento incutem o principio
de que Deus nao faz accepeáo de pessoas, nem, em sua liberalidade,
observa as categorías de judeu, grego ou bárbaro, servo ou livre (cf.
1 Pdr 1,17 ; Gal 3,28). Ao contrarío, por todos indistintamente morreu
Cristo pregado a cruz, fazendo que cada alma valha o mesmo prego
— o sangue do Senhor Jesús.
4. A guisa de complemento ilustrativo, seguem-se aqui oito pro-
posicóes, colhidas ñas obras dos racistas contemporáneos, que a Santa
Sé houve por bem condenar em urna carta circular da S. Congregagáo
dos Seminarios e Universidades publicada aos 13 de abril de 1938 :
1.) "As ragas humanas, por suas características naturais e imutá-
veis, sao táo diferentes entre si que a mais baixa dentre elas mais dista
da mais elevada do que da especie de animal .irracional mais aperfei-
goada".
Noto-so que, por muito pouco evohiído que parega, todo homem
possui sempre urna alma espiritual, constitutivo éste que nao se cncontra
em nenhuma especie de animal irracional.
2) "É preciso, de todos os modos, conservar e cultivar o vigor da
raga e a pureza do sangue ; tudo que leva a ésses resultados é, por isso
mesmo, honesto e lícito".
O documento eclesiástico, nesta condenagáo, visava principalmente
a prática da esterilizagáo sexual.
3) "É do sangue, sede das características da raga, que todas as
qualidades intelectuais e moráis do homem se derivam como de sua fonte
principal".
4) "A finalidade essencial da educagáo é desenvolver as caracte
rísticas da raga e inflamar os tespíritoa num amor ardente k sua raga
como sendo esta o Bem Supremo".

— 439 —
CORRESPONDENCIA MIÜDA (o racismo)

Observe-se : o homem tem um destino ¡mortal ; nao se pode, por


isto, saciar com os bens transitorios que o mundo material oferece.
Justamente a educado deve fazer que o jovem mais seguramente tenda
á vida eterna.
5) "A religiáo está sujeita as leis da raca e lhes deve ser adaptada".
A religiáo é aqui concebida como sistema social que cada povo tem
o direito de escolher e dosar segundo suas conveniencias. Inversáo total
dos valores : Deus serviría ao homem, e nao o homem a Deus!...
6) "A fonte primaria e a regra suprema de toda a ordem jurídica
é o instinto racial".
7) "Só existe o Cosmos ou o Universo, que é um Ser Vivo. Todos
os seres, inclusive o homem, sao apenas formas diversas do Vívente Uni
versal, formas que se váo ampliando no decorrer dos tempos".
8) "O individuo humano só existe pelo Estado e para o Estado.
Todo direito que ele possua, provém-lhe únicamente de urna concessáo
do Estado".
Nao é necessário sublinhar quanto essas proposicóes sao antagónicas
á mentalidade crista.
P.S. : Além do "Plano para ler a Sagrada Escritura", já apre-
sentado em "P.R.", existem os dois primeiros fascículos da Colecáo
"Centelhas", recém-langada a fim de difundir breves comentarios da
Sagrada Escritura ; os opúsculos intitulam-se "Salterio meu, alegría
minha 1" (apreeiacáo religiosa do Salterio) e "O Salmo que te convida"
(exposicáo do salmo 94). Prcco : Cr$ 20,00, cada exemplar. Pedidos
a qualquer dos dois endereces abaixo.
Aos nossos distintos assinantcs que nao estejam em día com a Te-
souraria de "P.R.", gratos ficaremos pela presteza com que saldarem
as suas contas.

D. ESTÉVÁO BETTENCOURT O.S.B.

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