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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memorietm)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confisca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO IV

41
M A I C

19 6 1
ÍNDICE
Pág.

I. VIDA MODERNA E RELIGI&O

1) "Como se há de julgar, do ponto de vista cristáo, a ado-


cao de filhos, hoje em dia táo npregoada ?" í*s

n. DOGMÁTICA

2) "Como se conciliam a Providencia Divina e a existencia


de tanta desgrana -no mundo ?
Meu bom füho morreu em trágico desastre. Nao terá Deus
errado, ao permitir isso ?" 19I}
S) "Dizia-me um amigo: 'Nao perca sen lempo, procurando
saber quais sao os pretensos designios da Providencia; procure,
antes, dar execucáo ás mas providencias. Nao confie na moral
do 'Deus é grande', pois sabemos que Ele, i infinitamente grande,
mas que isto nao impede sejam infinitamente inflexíveia os leis
que regem o universo'.
Desejo, em conseqüéncia, saber como se relacionara c Provi
dencia e as leis fixas do universo" ■ J-*°

m. SAGBADA ESCRITURA

U) "Que quer dizer Sao Paulo quando escreve :■ 'Completo >


em tninha carne o que falta ás tribulacóes de Cristo, em favor ?
do aeu corpo, que é o Igreja' (Col 1,2-0?
Se Jesús Cristo era Deus, a sita obra terá sido perfeita e ■
nao pode carecer de complemento !" ■*?*

IV. MORAL

5) "Que sao prdpriamente os escrúpulos de'consciéncia?


E que tratamento se há de dar as pessoas escrupulosas?" . . 201

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

6) "Que vém a ser os Institutos Seculares, de origem. re


cente na historia t" 212

CORRESPONDENCIA MIÚDA • 325

COM APROVAgAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano IV — N» 41 — Moio de 1961

I. VIDA MODERNA B RELIGIAO

MOACYR (Rio de Janeiro):

1) «Como se há de julgar, do ponto de vista cristáo, a


adocáo de filhos, hoje em día, táo apregoada?»

A adocáo, no estrito sentido jurídico, é a instituicáo civil


que visa fazer passar urna pessoa (dita «adotada») da sua pró-
pria familia para a familia de outra pessoa (dita «adotante»),
com as conseqüéncias jurídicas estipuladas pela legislacáo do
respectivo país.
A conveniencia ou nao da adocáo de filhos nao é questáo
que possa ser solucionada apenas por criterios de gósto pessoal,
de situagáo económica ou de coridigóes higiénicas; na verdade,
ela afeta muito intimamente a consdéncia crista, pois implica
em um juizo sobre a personalidade humana, o sentido da vida,
do casamento, etc. Ademáis a praxe da adocáo tem tomado
proporgóes crescentes nos últimos tempos, suscitando novas e
complexas questóes (assim na Franca, de 1941 a 1957, 20.000
lares sem filhos adotaram um total de 40.000 criancas aproxi
madamente; na Inglaterra, de 1946 a 1950, registraram-se
17.000 casos de adocáo; nos EE. UU. da América contam-se
75.000 casos de adocáo por ano).
É esta situacáo que leva o cristáo a considerar o fenóme
no do ponto de vista estritamente cristáo, a fim de se orien
tar devidamente na vida cotidiana. Ñas páginas que se seguem,
abordaremos sucessivamente tres aspectos da questáo : 1)
oportunidade da adocáo de filhos; 2) condicóes para que seja
feliz; 3) deveres dos pais adotivos.

1. Oportunidade da adogao

1 Em primeiro lugar, seja licito recordar o grande valor da


prole na vida de um casal: o amor que os cdnjuges consagram um
ao outro tende naturalmente a se concretlzar nos filhos, pois loi
em vista:- da multlplicacao da especie que o Criador Incutíu no ser
humano o atratativo do amor e da vida, conjugal. A existencia e as
exigencias da prole preservam do egoísmo o amor matrimonial, fa-
zendo que éste fique sempre aberto para outrem, em vez de se fe
char no narcisismo e no gozo mesquinho. Além disto, os filhos vém
a ser para os pais motivo de especial alegría: a alegría de colabo-
xarein na obra comum de educar, obra que deve dar estrutura á
sua vida.

— 183 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 4171961. qu. 1

2. Disto se segU2 a grande conveniencia de que casáis,


por natureza esteréis, recorram á adojáo de filhos, desde que
tenham possibilidades dé prover á educagáo dos mesmos. Al-
guns autores modernos apresentam a adogáo quase como um
dever em nossos dias, apelando para dois motivos principáis :

— aumenta cada vez mais o número de criangas que nas-


cem fora do casamento. Urna estatística de Franga, por exem-
plo, revelou que naquele país, de 1944 a 1958, 16.700 donzelas
de menos de 20 anos de idade tiveram prole sem estar casa
das; dessas, 9.200 legalizaran! sua situacáo mediante casamen
to; 7,500, porém, permanecerán! sem marido, deixando outros
tantos filhos sem pai. Em 195Í ainda na Franga 3.500 bebés
foram abandonados por suas genitoras. Pergunta-se: que fu
turo podem ter tais criangas se nao se lhes dé um lar con
veniente?

Conclui-se assim em favor da adocáo. Tal conclusao é corrobo


rada por pesquisas da Psicología moderna : esta ensina nao haver
melhon educandário do que o lar; qualquer instituto, por mais apri-
morado que seja, jamáis pode suprir o que um lar sadio íornece.
Cf. J. Bowlby, Material Care and Mental Health. Genebra 1952 (obra
publicada pela «Organizacáo Mundial da Saúde»).

— Os autores apelam também para a quota crescente da


delinqüéncia infantil, que, alias, é conseqüéncia do mal ante
rior. Outrora acontecía que criangas abandonadas ou negli-
genciadas fácilmente morriam por falta de recursos (assim na
Franga, em 1802, dentre 5.500 bebés abrigados em institutos
públicos, faleceram 3.000!). Hoje em día tal nao se dá; gragas
aos progressos da medicina, consegue-se assegurar a sobrevi
vencia da maioria das criangas abandonadas; elas, porém, se
tornam muitas vézes delinqüentes ou vém a ser genitores des
naturados. Como evitar isto, ao menos em parte, dizem, se
nao mediante educacáo em urna familia adotiva bem cons
tituida?
Do seu lado, os próprios pais adotivos sao os primeiros a expe
rimentar a grande conveniencia da adocáo; observam alguns auto
res que muitas vézes. quando se lhes quer elogiar o heroísmo abne
gado, respondem com sorriso, como se julgassem multo natural o
seu procedimento. Um pai adotivo ehegou certa vez a declarar que
considerava a adocáo nao como «obra de caridade» (no sentido de
esmola), mas como «obra de vida», isto é, obra que dava sentido á
sua vida, fazendo-a entrar na grande corrente da iecundidade huma
na. Na verdade, caridade e vida nao se excluem; antes, completam-se
mutuamente.

3. Mas nao haverá riscos e perigos na praxe da adogáo?


Levem-se era 'corita, por exemplo, os seguintes tópicos :

— 184 —
A ADOCAO DE FILHOS

a) Nao seráo para temer os defeitos, tanto de caráter


como de saúde, que a crianca possa ter herdado de seus pais?

— Quanto aos defeitos de caráter (ou de patrimonio psí


quico), inegávelmente devem merecer a atengáo dos educado
res. Hoje em dia, porém, nao se lhes dá a mesma importancia
que outrora; na formacáo da personalidade, atribui-se müito
mais peso e influencia á educagáo; esta é capaz de retificar até
certo grau as tendencias congénitas da crianca.

Os autores nao sao unánimes ao avaliarem as partes respecti


vas da heranga psíquica e da educacjio na formacáo da personali
dade : há quem assinale 10% de influencia ás inclinac.8es inatas,
e 90 % á educacáo (o que parece exagerado); outros atribuem 20 %
á natureza e 80% á educagáo, ou seja, ás pessoas que educam (fa
miliares e educadores) e ao. ambiente de educacáo (familia, es
cola.. .).

Quanto á constituigáo física, os médicos desaconselham a


ado;áo de urna crianga antes do primeiro mes de vida justa
mente para que haja observacáb das suas condigóes de saúde;
doutro lado, julgam que a maioria das deficiencias físicas pode,-
via de regra, ser devidamente averiguada no decorrer dos pri-
meiros 15/18 meses de vida da crianga. Dado o continuo pro-
gresso da psicologia e da medicina, os técnicos estaráo habili
tados a fornecer indicagóes cada vez mais precisas sobre as
possibilidades de desenvolvimento psico-somático dos diversos
bebés, ficando assim em grande parte removidos os perigos que
ameagam os pais adotivos por parte da heranga físico-psíquica
dos pequeninos. Existem mesmo instituigóes que distribuem
criteriosamente o servigo de adogáo, de maneira a fornecer ás
pessoas adotantes as possíveís garantías de éxito.

b) Um casal que diz nao ser rico, nao cometerá temeri-


dade adotando um filho?
— Faz-se mister lembrar que os deveres primarios dos
pais adotivos para com a crianga consistem própriamente nao
em lhe dar aquilo que a riqueza proporciona, mas em Ihe de
dicar amor verdadeiro e em prepará-la sólidamente para a vida,
assegurando-lhe boa educagáo moral e religiosa. Quem dá isso
é nao pode dar mais, certamente comunica o que há de me-
¡hor e pratica enorme beneficio.

c) E, se após o ato de adocao, sobrevier, por nascimento,


a prole própria do casal, nao haverá perigo de ciúmes no lar?
— Em verdade, nova prole pode imprevistamente sobrevir.
De acordó com determinada estatística européia, tal já se deu

— 185 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 41/1961, qu. 1

em 12 casos num total de 650 casáis (cf. H.M. Oger, Le pro-


bléme moral de l'adoption, em «Nouvelle Revue Théologique» 6
[1959] 630). Contudo a experiencia mesma ensina que o amor
devotado pelos pais a seus filhos adotívos nao diminuiu após a
geragao da própria prole; ao contrario, parece que os pais con-
servam sempre carinho especial para com a crianga que pri-
meiramente lhes suscitou os cuidados paternos.

d) E nao haverá inconveniente em adotar urna só cri


anga?

— Os autores fazem observar que a familia normalmente


conta algumas criangas, e criangas de ambos os sexos. Ora
adotar é, de certo modo, constituir urna familia. Estas pre-
missas insinuam a conveniencia de adotar mais de um peque
nino. Do seu lado, a experiencia dos Institutos de adogáo cor
robora essa insinuagáo.

A proposicao aínda pode ser ilustrada pela seguinte considera-


Cáo: um filho adotivo em geral inspira múltiplas solicitudes a seus
pais, tornando-se fácilmente aquilo que numa familia normal se
chama pejorativamente «o íilho único»; ora, justamente para evitar
tSo grave mal, é desejável que a atencáo dos cdnjuges se reparta
entre dois ou mais filhos adotívos. Estes, porém, deverio ser, na
medida do possivel, irmaos e irmás nascidos do mesmo casal, nao
sdmente a fim de nao se separarem criancas da mesma origem, mas
também para se evitarem dissabores na educacáo (verdade é que,
conforme atesta a experiencia, meninos e meninas de casáis dife
rentes costumam comportar-se no lar adotivo como irmáos e irmás).

Após as ponderagóes até aquí desenvolvidas, parece ficar


suficientemente estabelecida a conveniencia da adogáo de filhos.
Passemos agora a outro aspecto da questáo, a saber :

2. As condicSes de adocao bem sucedida

Os autores enunciam algumas normas para garantir o bom


éxito da adogáo, dentre as quais se destacam as seguintes:

1) Haja reta intencáo por parte dos pais adotívos; o que


quer dizer : visem sinceramente o bem da crianga, abstendo-se
de fazer do pequenino a solugáo interesseira ou o remedio para
problemas do casal.
Os estudiosos apontam algumas intengóes que, embora ás:
vézes nada tenham de mau (muito ao contrario...), sao alheias
á crianga, e por isto constituem fundamento inadequado para
garantir o éxito da adogáo:

— 186 —
A ADOCAO DE FILHOS

a) em ion casal:
consolidar a uniao matrimonial mal equilibrada ou evitar rup
tura entre, os cónjuges;
— reter o marido ou a esposa em casa;
compensar (no marido ón na mulher) urna decepgáo con
jugal; ■
— tornar o casal «igual aos outros», que temí filhos.

b) em pessoas idosas, a adocáo pode ser sugerida pela in-


tenc3o de
— nao se verem sos e abandonadas na velhice;
garantir urna especie de empregada doméstica nao assalaria-
da. que cuide da residencia e trate do amo ou da ama em caso de
doenca;
— assegurar herdeiro de haveres materiais, empresas, ne
gocios, etc.

c) em rama pessoa celibat&ria, poderia haver intencáo de


— obter «revanches ou compensagáo para a sua sorte e o seu
inconformismo;
—desafogar desdém ou agxessividade para com o outro sexo.

Um casal movido por reta intencáo constituí o ambiente ideal


para a adoeao (se é casal estéril, aceite a sua esterilidade sem amar
gura nem sentimento de írustragáo ou inlericridade). As estatisticas
prop5em, entre outras, a seguinte tabela de casos de adocáo mal
sucedida:
Adotantes Malogros
Casáis bem constituidos 1 %
Celibatários 4 %
Viúvos 6%
Divorciados 9 %

A escala se explica pelo fato de que intencdes menos retas ímui-


to provávelmente, de maneira inconsciente) mais e mais se váo in-
íiltrando nos adotantes recenseados (a estatistica ácima íoi publi
cada por C. Launay, em «L'adoption». Les Éditions sociales francai-
ses, 17 rué Viéte, Paris).

2) A idade da crianga no ato de adocáo nao seja muito


adiantada: poderá variar entre um mes e dois ou tres anos.
A máe adotiva mais fácilmente se afeigoa ao filho se o recebeu
como bebé. Por seu lado, a crianga adotada após os tres, e
principalmente após os cinco anos de idade, corre o perigo de
sofrer desequilibrio psíquico, mormente se passou pelas máos
de diversas pessoas.
Quanto á idade dos país que desejam adotar, parece que
a época ideal para a mulher sao os 25/30 anos de idade; para
o varáo,... os 30/35 anos.
Requer-se, com efeito, certa juventude nos pais adotivos,
pois estes, ao adotar, assumem tarefa de grande responsabili-

— 187 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 4171961, qu. 1

dade e fadiga perante Deus, a sociedade e a própria crianga.


Ademáis, um casal.que já tenha dez ou mais anos de vida
conjugal, muito provávelmente já contraiu habitos.de «socie
dade a dois» tais que a criancinha ai difícilmente^ encontraría
lugar.
Doutro lado, recomenda-se certo intervalo entre o contrac
to matrimonial e o ato de adogáo, a fim de que o. lar chegue
á devida estabilidade e os cóngujes possam adquirir a quase
certeza de que nao háo de gerar; os ginecologistas julgam curá-
veis 20 ou 30% dos casos de esterilidade, recomendando por
isto a espera de quatro ou cinco anos antes da adogáo.

3) Haja garantías jurídicas para a adogáo. Aqueles que


geraram a crianga e a transferem para outro casal, devem fi-
xar em termos precisos as suas relacóes para com o pequenino;
o normal é que renunciem a qualquer reiviridicagáo,. a fim de
nao entravar a tarefa educacional dos pais adotiyos nem ácar-
retar perturbagóes no espirito da crianga. Deixar que urna
crianga pertenga simultáneamente a duas familias equivale a
criar para ela urna situagáo falsa, que cedo ou tarde poderá
afetar a sua vida psíquica.

3. Os deveres dos pais adotivos

Os autores inculcam que as familias de adogáo devem ten


der a considerar-se familias normáis, de modo que os melho-
res pais adotivos sao aqueles que esquecem a sua qualidade
de adotantes, para dispensar aos filhos adotivos a educagáo
que dispensariam aos próprios filhos. Isto concretamente quer.
dizer:
1) proporcionem aos pequeninos urna existencia digna,
consentánea com os predicados da natureza humana, o que está
longe de implicar em Iuxo ou comodismo.
2) Assegurem-lhes a devida educagáo, nao sómente física,
mas também religiosa e moral. • ; .
3) Aceitem a crianza tal como ela é, procurando corrigir
os respectivos defeitos e.desenvolver tudo que nela haja de
bom (virtudes, prendas intelectuais, artísticas, etc.). Abster-se-
-áo, portante, de impor ao jovem algum rumo de vida que su-
ponha determinadas aptidóes inatas nos membros da familia
adotante, nao, porém, na familia do adotado: assimr se fór. ne? ^
cessário, renunciaráo á alegría de fazer de seu filho o conti- '
nuador de urna tradicáo de músicos, de literatos, de militares
ou espoitistas... Desaconselha-se outrossim aos pais criar um
ambiente de desconfianga óú de exagerado rigorismo é mesqúi-

— 188 —
A ADOCAO PE FimOS

nho controle, como se á crianca, em virtude da sua origem,


estivesse fadada a' prorromper em vicios ou taras.
4) Nao critiquem os pais da crianga adotada, ainda que
estes sejam desnaturados. Entre outros males, provocariam
represalia no ánimo do adolescente, pois éste naturalmente ten-
de a nutrir espontánea simpatía para com aqueles que o ge-
raram.

5) Observem discricao e reserva ao falar das origens da


prole adotada, evitando relatar os respectivos casos, principal
mente em seus pormenores. Tais minucias poderiam chegar
aos ouvidos dos filhos, ocasionando atmosfera de mal-estar
no lar.
6) Incumbe aos pais o dever de revelar á crianga a sua
condigáó de adotíva. O jovem tem, sim, o direito de conhecer
a sua situagáo na sociedade e no mundo.

Alguns adotantes hesitam diante do cumplimento déste dever,


pois receam que, em conseqüéncia, deixem de ser amados por seus
filhos. Tal xeceio, porém, é vicioso : significa atraso afetivo; na ver-
dade, o adulto devidamente formado nao pensa tanto em «ser amado»
como em «amar»; a crianca, sim, é que, em virtude da sua Índole
mesma infantil e vacilante, procura ácima de ludo «ser amada» para
atender á sua inseguranca.
Nao se protraia, portante, indevidamente o cumprimento de tal
dever. De resto, a experiencia comprova que a crianca aceita bem a
noticia da sua adoc&o, quando narrada com o tino conveniente. Lon-
ge de conceber menos amor para com os pais adotivos, inuitas vézes
passa a lhes dedicar especial gratidáo por a terem abrigado, escolhen-
do-a entre tantas outras. . •
Revelacáo tardía, feita após a puberdade, poderia provocar re-
volta no jovem e, por vézes, atitude de fuga em relacáo aos pais ado
tivos. Em conseqüéncia, os "psicólogos aconselham, seja feita a comu-
nicacáo em linguagem adequada antes mesmo que a crianca comece
a freqüentar a escola.
Eis como a tese propósito se exprime urna obra publicada pela
O.N.U. com o titulo «írtude sur l'ádoption des mineurs». O.N.U.,
Département des questions sociales. New York 1953, pág. 82 :
«Como tém verificado os Institutos de coloeacáo dos deslocados,
muitos pais adotivos estáo convictos de que a crianca só lhes per-
tence realmente, caso ignore por completo a sua adocao. Esperan»
poder ocultar-lhe éste fato indefinidamente ou, se prevéem que o jo
vem acabará inevitávelmente por se inteirar déle, procurara diferir
o mais ppssivel o momento da comunicacáo. Ora é para recear que
a crianca venha a descobrir a verdade em circunstancias pouco opor
tunas ese deixe abalar profundamente em sua confianca na sinceri-
dade dos pais. O adolescente pode chegar mesmo a distanciar-se dos
pais por o haverem d&ixado na ignorancia.
NSo póucos pais adotivos ainda seguem' essa norma de conduta,
cujas conseqüéncias sao desastrosas. As vézes mesmo, váo residir
em outra regiáo, movidos pela engañadora esperanca de mantér o
segrédo, como se o jovem nao estivesse inevitávelmente fadado a to-

— 189 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 2 e 3

mar conhecimento da verdade ao examinar seus documentos em


maior idade.
Na maioria dos casos, os pais adotivos assim procedem por re-
cearem que a enanca conceba menos amor para com éles; acontece,
porém, nao raro que inconscientemente éles experimentan! urna es
pecie de vergonha e de sentimento de iníerioridade por nao haverem
sido capazes de procriar um íilho seu».

De quanto acaba de ser dito, bem se depreende que a ado-


gáo merece carinhosa atencáo da parte da consciéncia crista:
é obra, em nossos dias, assaz imperiosa,... e obra de abnega-
Qáo, nao de compensagáo temporal. Na verdade, «há mais fe-
licidade em dar do que em receber», dizia o Senhor Jesús (cf.
At 20,35).

H. DOGMÁTICA

MAE DE AVIADOR (Rio de Janeiro):

2) «Gomo se conciliam a Providencia Divina e a exis


tencia de tanta desgrasa no mundo?
Meu bom filho morreu em trágico desastre. Nao terá Deus
errado, ao permitir isso?»

CONTURBADO (Niterói):

3) «Dizia-me um amigo: 'Nao perca seu tempo, pro


curando saber quais sao os pretensos designios da Providencia;
procure, antes, dar execucao as suas providencias. Nao confie
na moral do 'Deus é grande', pois sabemos quei Ele é infinita
mente grande, mas que isto nao impede sejam infinitamente
inílexíveis as leis que regem o universo'.
Desejo, em conseqüéncia, saber como se relacionam a Pro
videncia e as leis fixas do universo».

As questóes ácima tratam da Providencia Divina e da sua acáo


neste mundo focalizando dois aspectos do problema: «Deus e o so-
írimento do homenw; «Deus e os meios de prover á felicidade nu-

Já mais de urna vez em «P. R.» tivemos ocasiüo de abordar ques-


toes semelhantes. Assim em

«P R.» 5/1957, qu. 1 — o mal no mundo;


32/1960, qu. 3 — as imperfeiedes do universo;
36/1960, qu. 2 — Deus, autor do pecado?
3/1957, qu. 5 — o inferno;
: 31/1960, qu. 4 — bondade de Deus e inferno.

Evitando repetir sem necessidade o que já dissemos sdbre o as-


sunto, trataremos abaixo dos tres seguintes pontos : 1) a realidade

— 190 —
PROVIDENCIA DIVINA E DESGRACA HUMANA

da Providencia Divina; 2) Providencia Divina e felicidade humana;


3) Providencia e «Providencialismo».

1. A realidade da Providencia

A Providencia é o atributo divino que preside ao govérno


de todas as coisas, fazendo que cada qual se encaminhe para
o respectivo fim, ou seja, para Deus.
A existencia da Providencia constituí urna verdade racio
nal, professada por filósofos, fora mesmo do Cristianismo. Com
efeito, a idéia de um Deus desinteressado pela felicidade do
género humano é ilógica; opor-se-ia á nocáo de Perfeigáo Di
vina; em verdade,

ou Deus é o Autor do mundo e do homem. Neste caso, tendo


criado em vista de determinado fim. Ele acompanha as suas criaturas
até a consecucáo désse íim;
ou simplesmente Deus nao é..., nao existe. Professar um Deus
sem Providencia é professar um absurdo; equivale mesmo a negar a
existencia de Deus.

Resta, porém, averiguar como a solicitude do Senhor para


com as criaturas se concilia com as desgragas existentes no uni
verso. É o que vamos focalizar, procurando tragar algumas
grandes linhas que concorram para elucidar os casos parti
culares.

2. Providencia Divina e felicidade humana

1. Antes do mais, faz-se mister recordar em que consiste o mal,


evocando sumariamente o que já foi dito em «P. R.» 5/1957, qu. 1.
Longe de ser urna entidade ou algo de positivo, o mal é urna
carencia de entidade devida,... da entidade que deveria estar pre
sente em tal ou tal ser; assim diz-se que a falta de br.acos, num
homem, é um mal, pois os bragos pertencem á integridade da natu-
reza humana (o homem se desenvolve e afirma naturalmente median
te os seus bracos); o mesmo, porém, nao se dirá da falta de nada-
deiras no homem, pois a natureza humana por si nao foi feita para
viver dentro da agua.
Distingue-se .
o mal ou a carencia na ordem física: o mal físico, do qual áci
ma demos um exemplo (a ausencia de bracos);
o mal ou a carencia na ordem moral; o mal moral. Consiste na
falta de harmonia de determinado ato humano com o seu Fim Su
premo oü com Deus. Todo ato oposto a Lei de Deus ou pecado é um

O Senhor nSo fez o mundo mau, mas deu originariamente a cada


criatura o grau de perfeigáo correspondente h sua esséncia. O mal
entrou no mundo por obra do homem. Éste abusou da faculdade de
livre arbitrio : em vez de-a dirigir para; Deus, Bem Supremo, o prl-
mei.ro homem a dirigiu conscientemente para urna criatura. Rompen-
do assim a harmonia da natureza humana com Deus, o pnmeiro pal

— 191 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» ,41/1961, qu. 2 e 3

fez que se rompesse a harmonía dos elementos inferiores materiais


existentes dentro do homem e em tdrno déste; dai os desgastes de
saúde, a dar e a morte que todo homem padece; daf também as ca
lamidades do cosmos, como secas, endientes, incendios, etc.
De todo o mal, moral e físico, assim desencadeado, a Sabedoria
Divina está isenta de culpa; cf. «P. R.» 36/1960, qu. 2. A raiz das
desgrasas é a liberdade humana, íacüldade que Deus outorgou ao ho
mem para o dignificar, mas que éste usou indevidamente. O Criador
nao quis entravar nem canalizar o uso dessa liberdade, pois isto se
ria contraditório e indigno do Todo-Poderoso. Éste devia ter, e de
fato tinha, recursos suficientes (mesmo sobejos) para nao permitir
que o mal vencesse o bem, sem que fósse necessário violentar, a li
berdade humana. Justamente tais recursos constituem o objetivo em
tdrno do qual se exerce a Providencia Divina...
É, portanto, a esta que vamos agora voltar nossa atencáo de ma-
neira especial.

2. Os teólogos costumam afirmar, como notamos atrás,


que Deus jamáis haveria permitido á criatura humana desen-
cadear o mal neste mundo, se Ele nao tivesse a Sabedoria e
o Poder necessários para fazer dos males a ocasiáo de bens,
e bens aínda maiores.

Eis como S. Agostinho exprime essa verdade:


«O Deus Todo-Poderoso.... sendo sumamente bom, de modo1 ne-
nhum permitiría aparecesse algum mal em suas obras, se Ele nao
tivesse o poder e a bondades para fazer sair do próprio mal o bem»
(Enchiridion XI).

3. Pergunta-se, porém: qual será o tipo de bem que o


Criador pode querer produzir a partir dos males que as suas
criaturas acarretam sobre o mundo ?
a) Em primeiro lugar, observa-se que nao seráo bens
materiais (saúde, dinheiro, emprégo, isengáo de tribulagóes,
etc.), porque tais valores sao muito relativos; satisfazem ape
nas a urna parte do composto humano, ou seja, ao corpo; na
verdade, o ser humano só atinge a sua grandeza característica
mediante o desenvolvimento da sua personalidade, a qual é
marcada principalmente pelos valores da alma. Acontece mes
mo nao raro que os bens temporais causem detrimento, pois
embotam a consciéncia, fazendo-lhe esquecer que há bens
maiores: os bens da vida eterna. Em lugar de favorecer a
formagáo da personalidade humana, que é esencialmente aber-
ta para o Infinito, tendem a fechá-la na mesquinhez e no egoís
mo. É, antes, pela privacáo désses bens temporais que o ho
mem se torna mais perfeito homem, emancipando-se de afeto
desregrado a si e a criaturas que nao o podem verdadeiramen-
te engrandecer.

— 192 —
PROVIDENCIA DIVINA E PESGRACA HUMANA

b) Por conseguíate,'.os beiis que a Providencia Divina há


de visar (se nao exclusivamente, ao menos primariamente),
sao os bens da alma e da vida eterna, pois é sómente mediante
estes que a-criatura humana se torna perfeita como criatura
humana. A distribüicáo dos bens da alma veni.a ser assím o
criterio primario, embora nao exclusivo, para se aquilatar se
a Providencia Divina «erra oü nao erra», «é justa ou injusta».

' Nao há dúvida, enquanto a Sabedoria de Deus vai oferecendo


ao homem os meiús de santificado ou de consecucáo da felicidade
eterna, Ela nao lhe nega, em doses oportunas, os bens temporais
(saúde, solucao de crise íinanceira, boa fama...); o cristáo, porém,
deve ter consciéncia de que ésses valores temporais sao consolares
passageiras (devidas ao íato de sermos corpo e alma, e nao única
mente alma), consolac6es destinadas apenas a alentar o homem mor
tal na demanda do que é Eterno.
Jesús Cristo propós a seus discípulos nao própriamente consolos
e compensacées temporais, mas simplesmente «abracar a cruz e se-
gui-Lo abnegadamente» (cf. Mt 16,24s); éste é certamente; um dos
traeos marcantes de qualquer programa de vida crista; a lidelidade
a Deus nao garante necessáriamente felicidade terrestre. As gragas
temporais nao háo de faltar ao cristáo, mas ser-lhe-áo dadas em fun-
cao de bens maiores; em conseqüéncia, um curriculo de vida que,
humanamente falando, seja pouco afagado pela sorte, pode, nao obs
tante, estar perfeitamente englobado dentro da plano da Providencia
Divina.

Ninguém negará ser lícito ao cristáo desejar bens tempo


rais (a cura de urna doenga, a obtengáo de um emprégo, a so
brevivencia de esposo ou filho...), na medida em que dáo ali
vio e estímulo para ulterior caminhada na térra; consideran-
do-se sob ésse aspecto, o discípulo de Cristo pode pedi-los ao
Fai do céu; mas nao deve fazer da obtencáo dos mesmos a pe1-
dra de toque para julgar a Providencia Divina; mal sabemos o
que, na verdade, nos convém; tentamos acertar, conjeturando
que a saúde ou o emprégo seriam valiosos para melhor conse-
guirmos a vida eterna (o único bem que em hipótese alguma
podemos perder), mas fácilmente nos iludimos (nem mesmo
urna vida longa sobre a térra pode ser tida como algo de cer
tamente vantajoso para a salvagáo eterna; morte prematura
nao é necessáriamente um mal; quem pode prever o uso que
dos seus futuros anos de vida faria um jovem falecido na flor
da idade?)..Por isto asseverava S. Agostinho «haver certos
bens que Deus nos denega justamente por nos ser propicio e
que Ele só concedería se nos quisesse punir» (Deus quaedam
negat propitius quae concedit iratus», In lo tr. 73).

Aínda em outros térnios: o cristao lembra-se-á de -que nao é o


¿entro do mundo de modo que tudo deya acontecer de acordó com

— 193 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 4171961, qu. 2 e 3 .

o que ele julga oportuno. O criterio que há de nortear os seus jul-


zos e desejos, seja sempre o segulnte: «Será que, mediante a conse-
cucáo de tal ou tal bem temporal, me tornare! homem mais perfeito,
menos mesquinho ou apegado a mim, mais aberto para Deus e o
próximo?». & certamente éste o criterio que a Providencia Divina
aplica ao distribuir os seus bens, denegando por vézés o que nos
parece vantajoso e permitindo o que nos causa repulsa momentánea.

4. A situagáo do cristáo que nesta vida temporal julga


tudo á luz da eternidade, empregando «estranhos» criterios
para avaliar felicidade e desgrasa, pode muito bem ser ilustra
da por duas imagens que um escritor moderno, Antonin Ey-
mieu, assim propóe :

«A vida neste mundo é apenas um coméco, nao é o todo. ¡É um


meio, e nao o fim. O plano da Providencia nSo consiste um colocar
o céu sobre a térra, mas em dar aos homens s6bre a térra os meios
de merecer o céu.
Tal é o ponto de vista de Deus. Para compreender algo da Pro
videncia, é preciso ver o mundo dentro desta perspectiva. Nao en
tenderemos coisa alguma se considerarmos essa grande questao ape
nas em seus aspectos laterais, em seus pormenores, pormenores que
jmpedem a visáo do conjunto, como urna árvore diante dos olhos de
alguém pode encobrir a floresta. Muito menos nos havemos de deter
sobre o mau aspecto da questáo, ou seja, sobre o ponto de vista ter
restre; a realidade aparecería entáo como um tapete visto ás aves-
sas. Sé consideramos o mundo presente independentemente do mun
do futuro, ele se torna incompreensivel».

Oportuno comentario poderia ser aqui inserido : quem con


sidera a historia déste mundo do ponto de vista meramente hu
mano ou terrestre, é fácilmente levado a julgá-la um absurdo,
em que tudo parece frustrado e fracassado... Lembre-se, po-
rém, de que éste aspecto da realidade nao é senáo o avésso
de um tapete cuja verdadeira face (a outra, a que vem depois
e por cima) é belíssima, rica de colorido e harmonía; essa ou
tra face da realidade é a que Deus, em seu sabio plano,
contempla e a que nos um dia veremos, quando contem-
plarmos as coisas diretamente sob a luz de Deus e da eter
nidade. Se a realidade nos parece hedionda, isto se dá por
que a contemplamos de um ponto de vista inadequado, ou,
simplesmente, do lado avésso.

«A criancinha no seio materno, se tivesse o uso da i-azáo. Se já.


íósse urna especie de sabio que conhecesse perfeitamente o seu mun-
dozinho próprio, mas nada mais soubesse, se portante ignorasse que
um dia haveria de nascer, essa infeliz criancinha nao compreenderia
a sua situacao: perguntaria por que acaso lá teria sido colocada, qual
a razáo de ser dos choques misteriosos que a afetariam, qual o sentido
dos seus pulmOes destituidos de ar, qual o valor dos seus olhos des
tituidos de luz, qual o significado dos seus membros encolhidos e des-

— 194 —
PROVIDENCIA DIVINA E DESGRANA HUMANA

tituidos de uso. Julgaria a sua existencia absurda, e com razáo. Tal


existencia só se justifica á luz do termo para o qual ela tende. A
vida fóra do seio materno, eis a única explicado dessa primeira eta
pa. A vida do céu, eis a única explicado da existencia humana neste
mundo. É para o céu que a Providencia Divina nos vai levando, na
medida em que a nossa liberdade a isto nao se op5e. Ela nao nos
lava para a riqueza, o gozo ou os prazeres fúteis da térra; estas
coisas, que a nos talvez apaixonem, nao a interessam ou só a inte-
ressam na proporcáo em que ela (a Providencia) as pode conside
rar como meios para determinado fim. É para o céu que a Provi
dencia tende, de tal sorte que os choques que nos sucedem com dor,
para ela nao sao senao meios mais eficazes de nos levar ao termo
e de assegurar nossa entrada no mundo eterno» (La Providence et
la guerre. París 1917. 31s).

A imagem da criancinha no seio materno é realmente


feliz, para ilustrar a condicáo do cristáo nesta vida: o dis
cípulo de Cristo vai, sim, passando por um processo de ges-
tagáo de tal modo que só ao chegar á gloria celeste poderá
reconhecer o significado e o valor de cada um dos elementos
e episodios que ora lhe parecem obscuros (alias, a imagem já
foi utilizada por Sao Paulo em Gal 4,16; 1 Cor 13,lls).
— A eternidade, e nao o tempo, eis o ponto de referencia do
modo de pensar e desejar do cristáo.

As idéias até aqui expostaa projetam luz sobre novo aspecto da


questao, a saber :

3. Providencia e «providencialismo»

1. Por «providencialismos entende-se a mentalidade de quem jul-


ga que Deus, por ser providente, há de derrogar mesmo ás leis da
natureza de maneira milagrosa,... geralmente a íim de promover o
bem-estar temporal e imediato dos fiéis!
Vendo que na verdade o Senhor nao procede assim, os «antipro-
videncialistas> negam simplesmente a Providencia Divina, asseveran-
do que os acontecimentos se desencadeiam cegamente segundo as ine-
xoráveis leis da natureza.
Como se compreende, ambas as posicóes sao erróneas.

Com efeito. Já vimos que a Providencia Divina nao se


pode identificar com um sistema de meios que garantam a fe-
licidade temporal do homem. Portante, nao se pode esperar,
sob a alegagáo de que «Deus é grande», que seremos neces-
sáriamente isentos de alguma afligáo; isto só se entendería- se
a afligáo fósse um mal; ora tal nao se dá: a cruz é freqüen-
temente o melhor instrumento de quebra do egoísmo e de
adesáo mais plena do homem ao Supremo Bem, Deus.
Disto se segué que nao podemos contar com milagres
como se fóssem efeitos normáis da Providencia. Esta costu-

— 195 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 4V1961. qu. 2 e 3

ma, antes, exercer-se mediante o concurso das causas criadas,


aproveitando a atividade natural, até mesmo as deficiencias
e falhas, de cada urna, em vez de as remover ou de as impe
dir portentosamente. Vé-se, pois, que, mesmo sob o regime
da Providencia, o homem, longe de se poder isentar de cola
borar ativamente, tem o dever de utilizar industriosamente os
recursos que Ihe estejam ao alcance a finí de obter a solugáo
que parega mais adequada para os seus problemas; é justa
mente no setor dos recursos naturais que a Providencia Di
vina exerce primariamente a sua agáo.
Fica, pois, de pé o adagio assaz divulgado entre os fiéis:
«É preciso orar como se tudo dependesse de Deus, e agir como
se tudo dependesse de nos». Na verdade, a Providencia Divina
digna-se envolver, na execugáo dos seus sabios planos, tanto
a nossa prece quanto a nossa atividade. Urna e outra sao,
por livre designio divino, necessárias; mas nem urna nem ou
tra é por si eficaz, a sua eficacia; lhes provém únicamente do
fato de que a Providencia as quer utilizar. Cf. «P. R. 17/1959,
qu. 2.
2. A fim de melhor ilustrar as proposigSes ácima, transcrevemos
aqui um ou outro dos exemplos da historia universal aduzidos pelo
nosso consulente «conturbado» como motivo de perturbagáo ;
«Veja o Chile, nagao católica: é sacudido por terremotos. A Rús-
sia, nao.
Veja Lisboa ! Em pleno dia de Todos os Santos de 1755 foi de
vastada por um dos maiores cataclismas de que se tem noticia, ape-
sar da presenga real de Cristo sobre os altares...
Veja a historia, veja S. Luís de Montfort: poderia ter salvo a
Franca pela renovagao religiosa; morreu, porém, aos 40 anos, ao pas-
so que o satírico Voltaire se foi aos 90 anos! Por que? Porque um
cuidava da saúde, e o outro nao...
Mas temos exemplos de casa :
Eduardo Prado, que tanto fez pelo Catolicismo no Brasil nuraa
fase táo difícil no inicio da República, morre estúpidamente de febre
amarela so por ter passado menos de 48 horas no Rio. Ao contrario,
Saldanha Marinho, arquimagónico, inimigo figadal da Igreja, residiu
anos a fio nesta cidade e nunca foi picado pelos mosquitos.
Veja a falta que nos faz um padre como o Pe. Leonel Franca,
e a nenhuma falta que nos faria o comunista N. N. hoje ainda vivo...
Mas por que? Porque o saudoso jesuíta teve sempre o coracád fra-
co e o camarada N. N. nao sofre de perturbag8es cardlo-vasculares...
A Providencia nao modifica as leis de acó do universo. Um lou-
co ou urna crianca que se pendurar numa janela além do limite exi
gido pela leí do equilibrio, caira no campo gravitacional, esborracha-
do Entretanto, um ladráo poderá pular de urna janela para outra,
se nao violar a lei da gravidade, que rege todos os corpos... santifica
dos ou nao pela prática dos sacramentos...».
Os fatos assim catalogados nao depdem contra a veracidade da
doutrina que expusemos. nem se devem tornar motivo de perturba-
Cáo. Para que o leitor o reconhega, bastará lembrar que

— 19S —
PROVIDENCIA DIVINA E DESGRACA HUMANA

al urna parda temporal, urna ca'amidade particular ou pública,


nos aparecem como desastres que desconcertam. — Nao é assim, po-
rém, que Deus os julga; em verdade. os flagelos na ordem temporal
nao implicam em prejuízo na linha dos valores eternos (únicos valo
res que em caso algum • poderiam ser negligendados pela Providen
cia). Ao contrario do que comumente se pensa, a experiencia ensina
que, em vista do egoísmo congénito do homem, a dor é a escola de
engrandecimehío da criatura; a Providencia, por isto, nao a dispensa
(dado que Ela queira proceder ordenadamente; ou sem milagres).

b) Deus nao recompensa a virtud a com a longevidade, nem pune


o pecado com a morte prematura ou trágica; a justa saneao se exer-
ce primariamente no plano espiritual, que & o plano onde se situam
os verdadeirós valores. Note-se também que Deus nao precisa ne-
cessariamente de tal ou tal instrumento humano (sacerdote ou homem
público de grande valor) para realizar seus designios; Ele pode per
mitir a morte aparentemente precoce de benemérito personagem sem
que com isto o plano da Providencia sofra o mínimo detrimento; o
Senhcr é assaz poderoso para suprir, como de fato supre, por outra
via; a responsabilidade do reino de Deus. em última análise, é d'Éle!
Quanto á existencia, as vézes prolongada, dos homens maus neste
mundo, S. Agostinho propde as seguintes observacóes :
sDeus se serve dos homens maus, nao atendendo á má intencáo
dos mesmos, mas á reta intengáo do próprio Deus. Na verdade, as-
sirr. como os maus fazem mau uso da natureza humana, ou seja,.
da obra boa de Deus, assim o Deus bom faz uso bom até mesmo
das obras más dos homens, iniquos, a finí de que de modo nenhum
fiquem frustrados os designios do Todo-Poderoso. Se file, bom como
é, nao tivesse o poder de íazer servir os maus á causa da justica
e da bondade, de modo nenhum permitiría que nascessem ou vives-
sem. Tais homens, Deus nao os fez maus; file simplesmente lhes
deu a natureza humana. Criou a natureza de cada ser, mas nao
criou os pecados, que sao algo de contrario á natureza. É verdade
que em sua preciéncia file nao podia ignorar que tais individuos ha-
viam de se tornar mausí contudo, assim como sabia quais os males
que éles haviam de cometer, sabia também quais os bens que dés-
ses males Ele havia de tirar» (serm. 214,3).
As idéias do S. Doutor nao sao senáo a explicacao dos principios
gerais até aquí propostos.

c) As leis da natureza sao geralmente respeitadas e aproveita-


das pela Providencia Divina. Isto, poxém, nao quer dizer que sejam
inflexiveis; Deus as dobra ao seu poder, produzindo milagres segun
do seus sabios designios. Os portentos, porém, supóem urna finali-
dade grande e importante a ser atingida; o Senhor nao faz milagres
a esmo, por mera ostentacao de poder. Cf. <tP. R.» 11/1959, qu. 2.

Eis quanto se podia sumariamente dizsr á guisa de elu-


cidagáo das questóes formuladas no cabegalho déste artigo.

— 197 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 4

III. SAGRADA ESCRITURA

MONTEIRO (Juiz de Fora):

4) «Que quer dizer Sao Paulo quando escreve: 'Com


pleto em minha carne o que falta as tribulas&es de Cristo,
em favor do seu corpo, que é a Igreja' (Col 1,24)?
Se Jesús Cristo era Deus, a sua obra terá sido perfeita
e nao pode carecer de complemento!»

Os dizeres do Apostólo se explicam sem dificuldade, des


de que se tenham em vista os seguintes tópicos:

a) Origem do texto

Sao Paulo estava deudo no cárcere em Roma, durante o bienio


de 61 a 63. Sofría naturalmente com isto, pois, cheio de ardor pela sal-
vacáo das almas, desejaria continuar a percorrer o mundo e pregar,
como havia feito até entáo. Prisioneiro, Sao Paulo mantinha, nao
obstante, vivo intercambio com os íiéis das mais distantes regioes,
procurando dar a todos a palavra de orientagáo oportuna. Foi o que
o levou a escrever aos cristáos de Colossas (Asia menor) urna carta,
na qual se encontra o trecho que nos interessa.
Aproximemo-nos, pois, de tal passagem.
No inicio da missiva, Sao Paulo se .refere ao Evangelho e á sua
vocacáo de ministro do Evangelho: aludindo a isso, verifica que
tdda a sua vida, seus trabalhos, sua liberdade e seu cativeiro, es-
táo consagrados ao ministerio! apostólico; em conseqüéncia, nada lhe
pode parecer inútil ou váo. nem mesmo a sua aparente inercia. Ao
contrario prossegue Sao Paulo; os seus sofrimentos de prisloneiro
(agravados pelos acharques de saúde e tantos outros males que o
podiam afligir), longe de o abter, vém a ser, para ele, fonte de
vteemente alegría... — Alegría? Por que? — Porque tem o valor
de colaboracáo na ohra de Redencao do mundo!
Eis as palavras textuais do Apostólo:
« . Evangelho que ouvistes e que foi pregado a todas as cria
turas existentes debaixo do céu e do qual eu, Paulo, fui constituido

Neste momento, encontró minha alegría nos sofrimentos que pa-


deco por vos e completo (antanapleróo) em minha carne o que fal
ta as tribulacñes (toon thllpseon) de Cristo, em favor do seu cor-
po. que 6 a Igreja» (Col l,23s).
Procuremos agora sondar

b) As expressoes do Apostólo

Antanapleróo é vocábulo que, em toda a S. Escritura, so


aqui ocorre. Possui extraordinaria fórga de expressáo, pois
se compóe de anta = em lugar de; ana = para cima, até o
alto; e pleróo = encher. Significa «acabar de encher até o

— 198 —
• «COMPLETO A PAIXAO DE CRISTO»

auge, em lugar de outrem...» ou «... continuando a obra


de outrem».
... toon thlípseon. A palavra thlípseis, tribulagóes, em
grego é mais forte do que pathémata, padecimentos. Designa
tudo que Cristo suportou de penoso na sua vida cotidiana
desde o nascimento no presepio até a morte de cruz. Os Evan-
gelhos nos referem, sim, que, além de padecer as sangrentas
dores fináis de sua vida, Jesús quis sucessivamente experi
mentar a fome (cf. Mt 4,2), a sede (cf. Jo 4,7; 19, 28), o
cansado (cf. Jo 4,6), a pobreza de nao ter nem sequer onde
pousar a cabega (cf. Mt 8,20).... enfim tudo aquilo que pos-
sa ocorrer de doloroso na vida de um homem aqui na térra,
qualquer que seja a sua categoría social.

c) Merecer e aplicar

Cristo ofereceu ao Pai celeste os sofrimentos que Ele


assim abragou. E essa oblagáo teve certamente valor infi
nito, porque era ato do Homem-Deus, sempre e irrestrita-
mente agradável ao Pai.
Portante, nada faltou aos padecimentos de Cristo no
plano do merecimento. O Senhor, por sua vida e morte na
térra, mereceu todas as gragas necessárias á salvagáo de to
dos os homens sem excegáo.
Merecer, porém, ainda nao é aplicar; significa apenas
adquirir; se essa aquisigáo visa beneficiar a outras pessoas,
ela tem que ser estendida ou aplicada a essas outras pessoas.
É justamente isto que se dá com a Paixáo de Cristo; tendo
merecido tudo em favor dos homens, ela devia e deve esten-
der-se, isto é, tomar vulto concreto em cada criatura huma
na no decorrer dos sáculos... Daí dizer-se que ela se com
pleta ou é completada em cada cristáo.
Em conseqüéncia, compreende-se que, se no plano do me
recimento nada falta á Paixáo de Cristo (seu valor é infinito),
no plano da aplicagáo ou do desdobramento, algo lhe falta
naturalmente, algo que depende estritamente do fator «tem-
po», algo que sómente com a existencia sucessiva das gera-
góes cristas lhe pode advir.
Em outros termos: a Paixáo de Cristo logrou ¡mediatamente a
a plenitude de seus frutos apenas na santíssima humanidade de
Cristo; sómente esta ressuscitou como nova criatura (cf. 2 Cor 5,17),
isenta de tddas as conseqü€ncias do pecado. Depois disto, é preci
so por designio de Deus, que os cristáos, um por um, percorram o
mesmo caminho trilhado pelo Senhor, isto é, padecam em umao com
Cristo urna parcela da Paixáo redentora, assimilando-a a si, a fim
de conseguir os efeitos desta no dia da ressurreicSo dos corpos. En-

— 199 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 4

quanto pois, houver cristSos neste mundo a trilhar tal caminho, ou


se] a, até o fim dos séculos, poder-se-á dizer que a Paixáoi de Cristo
se vai estendendo ou desdoblando; ela vai tomando novos e novos
suportes; vai adquirindo vulto ou configuracáo própria em novos su-
jeitos. Destarte S. Paulo afirma que, quando um cristáo sofre em
espirito cristáo, isto é, como membro vivo do Corpo Místico, já nao
é um simples filho de Adao que padece em castigo do pecado, mas
é o Cristo que néle sofre para estender a ele a obra da Redencao.
Na base dessas idéias, Pascal (t 1662) bem podia escrever:
«Jésus sera en agonie jusqu'á la fin du monde. — Jesús estará em
agonía até o' fim do mundo».
Para tornar esta af irmacáo ainda mais clara, tenham-se em -vis
ta os dizeres de S. Paulo aos Gálatas :
sEstou crucificado com Cristo. E, se vivo, nao sou mais eu que
vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2,19s).
Esta frase se poderia também assim construir: «... E, se pa-
deco, nao sou mais eu que padeco, é Cristo que padece em mim; é
Cristo que prolonga sua paixáo em mim, dando-lhe novo, suporte,
nova configuragáo concreta.»
E, da mesma forma que Sao Paulo, todo cristáo que viva na
graga santificante, pode asseverar que é Cristo quem néle vive e
padece, nao sómente ñas horas solenes e extraordinarias, mas tam
bém nos momentos mais simples da vida cotidiana. S. Agostinho, cons
ciente dessa realidade, falava da «Paixáo total de Cristo, que sofreu
enquanto é nossa cabega, e que continua a sofrer em seus membros,
isto é, em nos» (In Ps LXI Migne 36, 731).

d) Em prol da Igreja

Eis, porém, que o horizonte do Apostólo ainda se dilata :


a Paixáo do Senhor, prolongada em cada cristáo, vai bene
ficiar nao sómente a éste, mas tambérr. a toda a comunidade,
ou seja, aos demais membros da Igreja : «... em favor do
Corpo de Cristo, que é a Igreja», diz o Apostólo. Cada um,
portanto, mesmo prostrado no cárcere ou no leito de dbenca,
vem a ser portador da Redengáo em favor do próximo, des
de que padeca como membro vivo do Corpo Místico de Cristo.

É o que o Sto. Padre Pió XII lembrava de maneira lapidar na


sua encíclica sobre o- Carpo Místico de Cristo :
«O que o nosso Divino Salvador comegou outrora pendente da
cruz, Ele nao cessa de o perfazer continuamente na celeste bem-aven-
turanga... A nos é dado cooperar com Cristo nesta obra salvifica;
da parte de um s6 (Senhor) e- por mediacSo de um só (Senhor) so
mos salvos e salvamos» (ed. «Lumen Christi» pág. 53).
Como se vé, Cristo, desejando atingir todos os homens de qualquer
época e lugar tem por bem servir-se de colaboradores, cujos trabalhos,
fadigas e oragSes vém a ser instrumentos de seus méritos reden
tores.

e) Conclusáo

Em conclusáo, o texto de Col 1,24 oferece :


1) urna teología (visáo teológica) do sofrimento. Sofrer,

— 200 —
COMO TRATAR OS ESCRUPULOSOS ?

para o cristáo.náo é senáo continuar o sofrimento de Cristo,


tendo em vista a finalidade redentora mesma da Paixáo do
Senhor. Em outros termos: sofrer, para o cristáo, é deixar
que Cristo faga em seus membros o que Ele primeramente
fez na Cabega;
2) urna teología (visáo teológica) do trabalho. O so
frimento que Sao Paulo tanto estimava, nao era, em grande
parte, senáo a luta ou taréfa cotidiana. Nada, nenhuma
ocupacáo, parecía ao Apostólo destituida de rico alcance, pois,
tudo que ele fazia, ele o fazia como membro consagrado a
Cristo. Consciéncia análoga deve animar todo e qualquer cris
táo ao abracar diariamente a sua lide aparentemente insigni
ficante : o trabalho do cristáo que esteja na graga santifican
te, pode vir a ser extensáo da obra da Redengáo aos setores
mais alheios ao santuario;
3) urna teología (visao teológica) da comunháo dos san
tos. O texto de Col 1,24 dá a ver que, independentemente da
agáo direta sobre as almas por meio de palavra ou de exemplo,
a vida fiel do cristáo é utilíssima ao próximo. Que esta pro-
posigáo reconforte principalmente os que, impossibilitados de
falar ou agir em público, se acham detidost num leito de dor,
crucificados com Cristo!

IV. MORAL

TEEVI (Cruz Alta):

5) «Que sao própriamente os escrúpulos de consciéncia?


E que tratamento se há de dar as pessoas escrupulosas?»
A resposta as questOes ácima considerará primeramente a na-
tureza dos escrúpulos de consciéncia; a seguir, as suas causas, para
iinalmente apontar os principáis meios de os debelar.

1. Que é a escrupulosidade?

1. Etimológicamente, o termo «escrúpulo» se deriva do


latim «scrupuls», pedrinha pontiaguda que, entrando do cal
cado de alguém, muito perturba o andar. A forma neutra do
vocábulo, «scrupulum» designava entra os romanos urna um-
dade de peso equivalente a cérea de urna grama.
Aplicado ao setor da Moral crista, o termo «escrúpulo»
significa naturalmente um entrave ao progresso espiritual.
Mais exatamente: significa urna disposigáo da alma que lhe
faz crer sem motivo adequado, haja pecado onde de fato nao
o há. A alma, acometida de escrúpulos, se vé obcecada pelo

— 201 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41./1S61, qu. 5

temor de pecar; em conseqüéncia, nao ousa decidir-se á ac.áo


no momento devido, e vive em continua angustia, consideran
do os males que pretensamente cometeu no passádo e as
crises que o futuro Ihe parece reservar.
Em outros termos: o escrúpulo de consciéncia é u'a mo-
dalidade do que a Psicología moderna chama «obsessáo», mo-
dalidade, porém, que só pode ser devidamente entendida e tra
tada por quem admita a ordem sobrenatural e o pecado no
sentido cristáo.

Em vista de maior precisáo, duas distingóes se impóem:

Consciéncia escrupulosa nao é consciéncia delicada. Esta sabe


delimitar devidamente os pecados e a sua gravidade; observa a di-
ferenga exata entre falta e imperfeigao; por isto pode empregar os
meios oportunos para evitar até mesmo os mínimos desvíos, sem
perder a paz. Ao contrario, a consciéncia escrupulosa está incapaíi-
tada de avaliar adequadamente o que é pecado.
Distinga-se outrossim a Idéia obsessiva que causa o escrú
pulo, da idéia fbea. Idéia fixa vem a ser urna nocáo que paira sem-
pre ante a mente do individuo, de tal modo, porém. que éste a aca
ricia e cultiva, porque condiz com suas tendencias espontaneas (nao
raro megalomaniacas); assim a idéia iixa de ter importante missáo
a realizar em tal regiáo da térra..., a idéia fixa de ser Pitágoras
ou Alexandre Magno .redivivo, etc. — Ao contrario, a idéia obsessi
va é aquela que sempre volta á mente do sujeito, mas que .éste re-
conhece como estranha á sua personalidade e intrusa ao seu pensa-
mento, da modo a lutar contra ela, sem contudo poder livrar-se da
sua perspectiva; daí resultara naturalmente temor e angustia na
alma. Urna das idéias obsessivas mais comuns e funestas é a de
haver ofendido a Deus por acSes ou omiss6es, principalmente por
pensamentos e conseqüentemente, haver merecido o justo castigo
do Senhor. Na alma escrupulosa o juizo da razáo assegura que ela
nSo pecou; contudo a pessoa nao tem a coragem de confiar nesse
juizo; a emotividade ou o temor sensível nela prepondera.

2. O estado de alma escrupulosa se pode reconhecer me


diante alguns síntomas característicos :
a) ¡nseguranca de alvitre. A pessoa escrupulosa julga
nunca poder chegar á certeza em questóes de moral; por isto
difícilmente toma algum alvitre, e mais difícilmente mantém
alvitre tomado;
b) impermeabilidade ao juizo alheio. A atmosfera de in
certeza em que a alma escrupulosa versa, torna-a mais ou
menos impermeável aos pareceres de outras pessoas, mesmo
que ela lhes reconheca grande autoridade.

Assim o escrupuloso, depois de ouvir a sentenca tranquilizadora


de algum sacerdote ou conselheiro, procura esquivar-se & mesma,
alegando nao» haver relatado suficientemente o seu caso, ou nao ha
ver sido devidamente entendido pelo conselheiro, ou nao haver com-

— 202 —
COMO TRATAR OS ESCRUPULOSOS ?

preendido com lucidez o teor do conselho... Em conseqüéncia, a pes-


soa escrupulosa ou tenta relatar de novo a «historia» ao sen inter
locutor ou vai consultar a outros, com esperanca de encontrar fi
nalmente «a sentensa acertada»... Passando, porém, de sacerdote a
sacerdote ou de conselheiro a conselheiro, o escrupuloso arrisca-se
a cair em estado de perplexidade aínda maior.pois é de crer que
ouca pareceres diversos pelo íáto mesmo de que nem todos o co-
nhecem de modo a julgar adecuadamente o seu caso;

c) inquietude quanto a integridade da confissao sacra


mental. O escrupuloso receia nao ter manifestado todos os
pormenores característicos do seu pecado; por isto déseja re
novar acusagóes sacramentáis já válidamente efetuadas. Tam-
bém costuma indicar cifras exageradas e inverossímeis, ao
enunciar quantas vézes pecou. Interroga, sem acabar, o seu
confessor a respeito do que éste lhe tenha mandado ou su
gerido fazer... Tendo-se confessado no sábado á tarde, de-
seja voltar á confissao no domingo de manhá para comungar;
d) recurso a sinais nervosos. Intencionando resistir de
maneira bem concreta ao que éles julgam ser tentagáo, mui-
tos escrupulosos realizam gestos descontrolados, fazem care
tas e tomam atitudes de corpo assaz estranhas. Tendem a re
petir as mesmas oragóes, julgando-as inválidas por falta de
atengáo; entregam-se assim a urna tensáo física mais ou me
nos doentia.

Um dos sinais mais característicos a que nao raro recorrem as


pessoas escrupulosas, é a «locáo das suas máos», ou, mais larga
mente, o culto constante do asseio do corpo, atitude mediante a qual
professam o seu desejo de pureza de alma.
Conta-se o caso de u'a mulher que tinha a preocupacáo exa
gerada da limpeza. Seu marido queixava-se de que ela lhe tornava
a vida quase insuportável por exigir o mais rigoroso asseio para
ela, suas vestes, seus filhos e o domicilio inteiro; trajava-se da ma
neira mais imaculada possível, desprezando todas as mulheres que
nao compartilhassem seus austeros principios, que ela chamava sim-
plesmente seus «bons modos».
Ora em vista dessa obcecado foi submetida a exame psíquico,
dando eñtao a saber que, durante cinco anos de vida conjugal, tive-
ra relacdes extra-matrimoniais. Havia cedido a ésse vicio, depois
de receber em sua adolescencia urna educagáo multo severa; tinham-
-Ihe dito íreqüentemente que os abusos sexuais nao convinham a don-
zelas de sua categoría, pois eram o apanágio das pessoas «sujas».
Destarte acostumara-se a associar em sua mente as idéias de de-
sordem-carnal e imundicie física. Em conseqüéncia, tal pessoa, vin-
do em época posterior a se entregar ao pecado da carne, passara
a sentir os protestos de sua consciéncia, protestos que sa traduziam
pelo desejo espontáneo e cada vez mais imperioso de limpeza físi
ca. Tal desejo exigente nela permanecía mesmo depois de haver
abandonado o vicio, em sinal de arrependimento e remorso de alma
(cf. Vanderveldt-Odenwald, Psychiatrie et Catholicisme. París 1954,
474). ;

— 203 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 5

3. Os autores de espiritualidade costumam afirmar ser


assaz elevado o número de pessoas vítimas dos escrúpulos de
consciéncia.

Embora as estatisticas nem sempre fornegam urna imagem.fiel


da realidade, pode-se citar o seguinte resultado de inquérito: 400
estudantes de um Instituto dos EE. UU. da América, todas norfe-
-americanas, mas de classes sociais diversas, faram oportunamente
questionadas sobre o assunto; em resultado, apurou-se que 25 % se
sentiam habitualmente aíetadas de escrúpulos, ao passo que cérea
de 50 % eram vitimas de crises passagelras (cf. J. Mullen, Psycho-
logical Factors in the Pastoral Treatment oí Scrupules. Washington
1927. 29s).
Esbocada a natureza da escrupulosidade de consciéncia, laz-se
agora mister indagar sumariamente quais seriam as raízes de tal
estado de alma.

l¿. As causas de escrúpulos de consciéncia

Podem ser agrupadas sob alguns títulos, abaixo recen-


seados :

a) Causas de ordem fisiológica ou somática: entendem-


-se nesta categoría, primeiramente, os estados de saúda física
debilitada, em conseqüéncia de excesso de trabalho, nutrigáo
insuficiente, perturbagóes digestivas, molestia prolongada, je-
jum, vigilias e outras austeridades físicas nao regradas pela
virtude da prudencia. Em tais circunstancias, a pessoa se sen-
te como que de antemáo derrotada diante dos embates da
vida; carece da energía necessária para considerar serenamen
te as situagóes e tomar resolugóes adequadas. A mesma de-
bilidade pode ser acarretada por falta de recreios honestos,
que permitam ao individuo mudar de idéias, desfazendo-se de
preocupagóes que podem tomar proporgóes obsessivas.

b) Causas d« ordem psíquica. Tenham-se em vista prin


cipalmente

— os temperamentos melancólicos, dados á suspeita e á tristeza;


— os temperamentos meticulosos, sempre prontos a descobrlr
razóos de duvidar, sempre desejosos de possuir certeza absoluta, mes-
mo ao se tratar de causas contingentes;
o infantilismo e a fmaturidade de juizo. Em nao poucos ca
sos, a consciéncia do adulto escrupuloso íicou no nivel que tinha
quando era crianza; conseqüentemente, incapacitado de formar seus
juizos, o escrupuloso vé-se impelido! a procurar a tutela ou a aüto-
ridade de outros para regrar a sua vida.

c) Causas de ordem moral. Enumeram-se aqui


— a fuga de urna situacáo desagradável... É o que se dá quán-
do alguém, nSo tendo coragem para emendar algum eostume de vida

— 204 —
COMO TRATAR OS ESCRUPULOSOS ?

irregular, procura esquecer tal problema concentrando toda a sua


atencao sobre outros pontos de sua conduta que absolutamente nao
merecem tanto cuidado; tém-se entao os «escrúpulos de compensá
baos, de que já se tratou em «P. R.> 40/1961, qu. 6;
— o egocentrismo» a vaídade, o desejo quicá inconsciente de cha
mar a atencao para si. Há, com efeito, pessoas que nao manifestam
a mais pálida aspiragao a se ver livres dos seus escrúpulos; ao con
trario, parecem apegadas a sua situacao, como que contentes por
merecerem a atencao de diretores espirituais e médicos. Tais pes
soas sao, de um lado, as que mais procuram conselheiros e guias
e, de outro lado, as que menos prontas estáo a submeter-se ao ar
bitrio alheio. Alguns autores chegam a crer que a mor parte dos
casos de escrúpulos se deve a um lastro de orgulho e espirito de
reivindicacáo latentes na pessoa aletada. Esta opiniáo, porém, pare
ce exagerar, visto que elevado número de escrupulosos se ressente
realmente da insuficiencia de discernimento, sem que se possa as-
severar haja nisto alguma ponta de vaidade ou orgulho;
— faltas graves cometidas na vida passada. Pode acontecer que
alguém, após longo período de vida desregrada, se emende definiti
vamente, mas nao consiga desvencilhar-se de obsessiva recordacáo
das suas culpas anteriores; revolve-as constantemente em seu espi
rito, deixando de dar a devida atencao ás ocupacñes da hora presente.

d) Causas extrínsecas. Entre estas, devetn ser citadas

— as falhas de educacao. Afagos e mimos demasiados fácilmen


te provocam na adolescencia urna atitudo de inseguranca, que pode
vir a ser a raiz de escrupulosidade. O mesmo se diga de urna dis
ciplina excessivamente rigorosa, inspirada por normas moráis estrei-
tas e pessimistas; tal regime só faz onerar e amedrontar, além do
necessário, a consciéncia dos jovens;
— a convivencia com pessoas escrupulosas e a leitura de obras
que desfigurem a idéia de Deus Pai Misericordioso, sobrepondo-Lhe
a de um terrível Juiz, sao outros tantos fomentos de escrúpulos.

e) Por fim, nao se poderia deixar de aludir a agao do


demonio em oertos casos de escrúpulos (nao se creia, porém,
que sao muito numerosos).

O Maligno tem todo o interésse em paralisar o progresso espi


ritual dos fiéis, provocando néles a confusao característica da es
crupulosidade. O Senhor permite a acáo do demonio, visando com
isto o bem das almas; com efeito, urna crise de escrúpulos pode
ser ocasiáo providencial para que o cristao pratique as virtudes da
humildade e da obediencia,... para que aguce em si o horror ao
pecado e forme a sua consciéncia dentro dos moldes da delicadeza,
que é penhor de santiíicacao crescente. Alias, provocada ou nao pelo
demonio, toda crise de escrúpulos é sempre acompanhada pela graca
de Deus que fornece á alma o auxilio necessário para que tire da
sua provagao todo o proveito espiritual (purificacao, acrisolamento
das virtudes); deve-se mesmo dizer que é sempre em vista désse en-
riquecimento espiritual que Deus permite sejam as almas acometi
das de escrúpulos.

3. Os estudiosos costumam indicar algumas notas que

— 205 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961- qu. 5

desde cedo caracterizan! as pessoas predispostas á escrupu-


losidade.
Ei-Ias em resumo : já em idade infantil, manifestam ten
dencia a manias e «tiques» ñervosos; tém pavor de estar sos
e mostram-se muito sensíveis a repreensóes. Com o decorrer
do tempo, revelam dificuldade para tomar alvitre na vida; vi
sando entáo obter luz e certeza para suas opcóes, dáo-se mais
e mais a introspecgáo ou á reflexáo sobre si mesmas — o que
nao pode deixar de deformar progressivamente a sua menta-
lidade, sujeitando-a paulatinamente a verdadeira obsessáo.
Adotando-£3 oportunas medidas na educacáo, pode-se im
pedir que a tendencia aos escrúpulos prevalega ñas almas in
clinadas a éles; evitam-se ascim crises penosas. Essa preser-
vagáo requer cuidado zeloso por parte dos educadores.
Como meios eficazes de profilaxia, recomendam-se

regime de vida higiénica, era que oportunamente se ministra ura


tónico do sistema nervoso, assim como os demais tratamentos médi
cos de que possa necessitar o paciente;
formacáo moral muito sólida, baseada em visáo larga e profun
da da vida espiritual mais do que em ameacas aterradoras;
combate ao isolacionismo e & demasiada instropecgao do adoles
cente.
A psicoterapia poderá ser útil se fór orientada por um medico
respeitoso dos valores sobrenaturais.

Dado, porém, que, alguém se torne vitima de escrupulosi-


dade, quais as medidas a tomar?
É o que o parágrafo abaixo considerará.

3. Remediar!... E como?

1. Tenha-se consciéncia de que a escrupulosidade, ape-


sar da sua semelhanea com delicadeza de alma, é um mal a
ser enérgicamente combatido. A energía será tanto mais ne-
cessária no caso quanto mais puros ou santos fórem os aspec
tos sob os quais se poderá encobrir o veneno da escrupulo
sidade.

A fim de avivar a consciéncia dos perigos em que incorre urna


pessoa escrupulosa, váo aquí apontados alguns dos nocivos efeitos
de que pode vir a ser vitima.
No plano íisico, os escrupulosos debilitam mais e mais o sis
tema nervoso e a saúde lisica, chegando a ocasionar neurastenia
crónica e outras molestias.
No plano psíquico e religioso, os escrúpulos podem tornar a pes
soa vitima de manias em grau mais ou menos próximo do-ridiculo.
Fecham o coracjio no egocentrismo, com prejuizo para a caridade
íraterna. Julgando estar em pecado grave e, por conseguinte, con-

— 206 —
COMO TRATAR OS ESCRUPULOSOS ?

denado por Deus, o escrupuloso fácilmente perde a coragem na vida


assim como a confianca no Senhor, que ele mais e mais tende a
considerar como juiz excessivamente severo. A oracáo se lhe torna
cada vez mais difícil, absorvido que está por suas preocupacoes sub
jetivas; nao reconhecendo mais em Daus a face do Pai misericordio
so, insensivelmente perde o gósto da oracáo assim como o da recep-
cáo dos sacramentos da Penitencia e da Eucaristía.
Também acontece que o escrupuloso, dando atengáo exagerada
a coisas que nao a merecem, perca tempo em «resolver» pseüdo-
-problemaso deixe de cumprir importantes deveres de estado e negli-
gencie o verdadeiro servico de Deus. Compreende-se outrossim que,
vítima de desatinos, a pessoa escrupulosa se ponha a viver urna vida
de contrastes : hoje submete-se a rigorosas práticas de mortificagáo,
prestes a ir procurar amanhá um desafógo na licenciosidade e no
g6zo dos ilícitos prazeres. A nocao do bem assim se obscurece na
sua mente, a vida crista se lhe torna impossível.

2. Será preciso, pois, reagir sem demora contra as pri-


meiras manifestagdes da escrupulosidade; em vista disto, os
mestres enumeram urna serie de diretivas oportunas.
Distinguiremos abaixo entre diretivas cuja aplicacáo de
pende do paciente e do seu diretor conjuntamente, e diretivas
que dizem respeito ao diretor espiritual apenas.

A. Normas cuja aplicacáo depende tanto do paciente


como do diretor de consciéncia.

1) O paciente deve chegar a reconhecer que é escrupu


loso e que o escrúpulo é um grande mal; enquanto nao esteja
convicto dessas verdades, qualquer tratamento torna-se váo.
2) A oracáo é arma capital no combate a qualquer mal.
Acontece, porém, freqüentemente que o escrupuloso deva rea-
prender a rezar, restaurando em si urna atitude de piedade
filial para com o Pai das Misericordias e de confianea no Re
dentor; terá que vencer, portante, o afastamento em relagáo
a Deus que a obsessáo angustiosa do juízo final lhe possa ter
ocasionado. Nessa tarefa, poderáo e deveráo ser úteis ao pa
ciente o seu diretor espiritual e os seus amigos, dando-lhe es-
«larecimentos e conselhos.

Na oracáo, o escrupuloso pedirá amor a Deus e paciencia na


provacao, fdrgá na luta e libertagáo da obsessáo.

3) Após a prece, o remedio por excelencia vem a ser a


obediencia total a um diretor espiritual prudente e esclareci
do. Sem obediencia, e obediencia absoluta, pode-se crer que
o paciente jamáis conseguirá libertar-se do seu mal.
te
Por isto, urna vez escolhido o respectivo guia de consciéncia, o
escrupuloso, por pretexto nenhum, deve trocá-lo; caso tenha que se

— 207 —•
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 5

aíastar déle por motivo de viagem. confesse-se com outro sacerdote,


mas permanega fiel ás instrucSes do antigo diretor espiritual. Dad»
que o escrupuloso recuse obediencia integral, o diretor está habili
tado a Ihe dizer que nao o pode dirigir.

4) O escrupuloso deve aos poucos habituar-se a despre-


zar os escrúpulos. Saiba que urna das melhores táticas para
vencer as suas angustias é a de nao Ihes dar importancia; por
conseguinte, em vez de se agitar diante de alguma tentagáo,
como se tivesse de enfrentar um adversario real e perigoso,
conserve sua superioridade serena e indiferente. Principalmen
te nao se entregue a gestos, contorsóes e atitudes estranhas,
visando simbolizar a sua resistencia á tentagáo. Tais gestos
nao estáo á altura de gerar a almejada certeza e paz na alma,
pois com o tempo esta já nao se contenta com um, dois, tres
gestos, mas tende a multiplicá-los indefinidamente, podendo-
assim chegar ás raias da demencia.

Concretizando as idéias ácima, diremos: urna pessoa escrupulosa,


tentada por pensamentos contra a íé nao reaja diretamente pronun
ciando mentalmente um ato de íé, pois com isto só contribuiría para,
aumentar as tentacOes e os escrúpulos... O que ela deve fazer, é
simplesmente desprezar o pensamento, lembrando-se de que éste só
se torna pecado, caso haja consentimento, e consentimento certamento
dado. Em geral, tais tentacoes nao sao em si coisa grave, mas redu-
zem-se a atos de imaginacáo sem grande importancia.

O desprézo dos escrúpulos assim recomendado implica um


conjunto de pequeñas normas práticas, que váo abaixo enun
ciadas :
a) Ao agir, para formar a sua consciéncia, a pessoa es
crupulosa valer-se-á do ceguinte principio: «Enquanto eu náO'
vir, como dois e dois sao quatro, que tal agáo é pecaminosa,
poderei praticá-la ou... que tal omissáo é pecaminosa, po-
derei abster-me».

Em outros termos : o escrupuloso seguirá o axioma : «Lex dubia,


lex nulla», isto é, «A lei duvidosa nao obriga». Esta norma, que se-
poderia, sem mais, recomendar as pessoas de consciéncia laxa, há de-
ser inculcada aos escrupulosos.

Se, depois' de agir conforme tal regra, o escrupuloso co-


megar a suspeitar de haver cometido'pecado grave, nao jul-
gue ter realmente pecado, a nao ser que isto se Ihe incuta
táo evidentemente como a proposigio «dois e dois sao quatro».
b) Eis outra norma valiosa para formar a consciéncia
da pessoa escrupulosa que esteja obrigada a tomar alguma
atitude. Pergunte a si mesma: «Que diria eu a quem se visse
na situagáo embaragosa em que me acho?». A resposta á per-

— 208 —
COMO TRATAR OS ESCRUPULOSOS ?

gunta proposta de maneira táo objetiva talvez aflore sem gran


de dificuldade á mente do escrupuloso. Dado que resolva o
caso assim formulado, nao hesite em seguir práticamente tal
solucáo.
c) O paciente nao deverá esperar entrar finalmente em
paz mediante capitulacáo, isto é, cedendo, «ao menos desta.
vez,... pela última vez», aos escrúpulos. Será ilusoria a paz
assim conseguida, pois sem demora a pessoa verá outro mo
tivo de angustia, que lhe parecerá tanto mais grave quanto-
mais fraca ela se tiver mostrado anteriormente.
d) Abstenha-se o escrupuloso de repetir atos que lhe
paregam inválidos, mesmo quando se tratar de atos grave
mente preceituados. Repetindo-os, o paciente, longe de solu
cionar sua angustia, entrará num verdadeiro labirinto, pois
constantemente verá falhas nos atos repetidos, falhas tanto
mais graves quanto mais ele se fór cansando pela multipli-
cacio.
Em particular, no tocante ái confissáo de seus pecados, o
escrupuloso tende a multiplicar as mesmas acusagóes, julgan-
do nao se ter feito.compreender devidamente ñas confissóes
anteriores. Resista, porém, enérgicamente a tal propsnsáo,
pelos motivos indicados. O confessor, do seu lado, ajudará o
paciente a relutar, replicando-lhe o seguinte :

«Concordo em ouvir a acusacáo de pecados de. tua vida passada


desde que, em presenca de Deus, me possas afirmar estes tres
pontos:
tens certeza de haver cometido tais pecados;
cometendo-os, tinhas certeza de estar praticando pecados
mortais;
nunca acusaste tais pecados em confissáo sacramental».

Caso o penitente titubeie a respeito de algum désses itens,


o confessor deverá tranquilamente proibir-lhe a acusagáo.

Note-se bem : o penitente nao deve julgar ter sido pecado grave
urna agao que nao lhe tenha parecido tal desde que ele a cometeu
ou urna acáo que só tardíamente ele imagina haver sido grave. Na
verdade, o pecado grave só é tal quando cometido com pleno conhe-
cimento de causa, conhecimento que nao pode deixar de suscitar
imediatamente perturbacao na alma do pecador.

5) O escrupuloso procurará debelar tudo que possa ser


fonte ou fomento de melancolía em sua vida (leituras dema
siado severas, convivencia com pessoas escrupulosas...)
Esforce-se por ter um horario em que trabalho e recreio-
estejam devidamente equilibrados.

— 209 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 5

Com outras palavras: trabalhe de maneira metódica, de modo


a evitar atrópelos e imprevistos, que agitam os ñervos e podem le
var á exaustáo; na medida do cabivel, proporcione ao organismo
a restauragáo de suas fórgas. — Doutro lado, todo tipo de ociosida-
de há de ser evitado, pois vem a ser íonte de tedio, tedio que pro
porciona o surto de angustias; o trabalhó regrado entretém a ale
gría de viver.

6) Em muitos casos, será oportuno que o paciente con


sulte ura médico ou um psiquiatra, de consciéncia bem forma
da, e siga fielmente a orientacáo que tal especialista lhe der.

B. Normas que dizem respeito ao diretor apenas.

O diretor de consciéncia a quem uma pessoa escrupulosa


se chegue, pedindo orientagáo, procurará levar em conta al-
gumas regras de sabedoria, que os mestres costumam assim
delinear :
1) Esforce-se, antes do mais, por ganhar a confianca
do consulente; e isto, mediante duas atitudes:
— mostré dedicacáo, sendo paciente para ouvir historias
e explicagóes, e respondendo com brandura, sem, porém, per
mitir desobediencia;
dé provas de seguranza e competencia.

Depois de deixar o paciente falar, o diretor nao deve repetir o


relato, pois a pessoa escrupulosa poderia encontrar meios de dizer
que nao íoi exatamente assim,... e recomecaria toda a sua expo-

áo... .
As questfies formuladas pelo.diretor seráo simples e claras, nao
se detendo em pormenores que nao merecam grande atencáo.
A fisionomía do pai espiritual se conservará firme e calma. Isto
nao poderá deixar de redundar em alivio e paz para o paciente.

2) Tendo ganho a confianga da pessoa escrupulosa, o


diretor tratará de obter a sua obediencia.

Em vista disto, incutirá ao paciente o principio de que so a obe


diencia o poderá curar; acentuará bem que o escrupuloso sempre
poderá obedecer com a consciéncia tranquila, mesmo que o diretor
esteja errado, pois Deus pede do escrupuloso uma só atitude: a obe
diencia.
As ordens deveráo ser breves, claras e categóricas, evitando
qualquer frase condicionada («se isso te perturba...») ou qualquer
tipo de hesitagáo («parece..., melhor seria..., provávelmente...»).
O diretor espiritual nao precisará de apresentar os motivos de suas
normas, pois o paciente poderia querer discuti-los, o que seria vao
ou mesmo nocivo. O diretor ponderará previamente as normas a dar,
de modo a nao ter que se desdizer; a desdita redundarla em detri
mento da autoridade. Por fim, o pai espiritual procurará certificar-
-se de que suas diretivas foram dévidamente- observadas; em mais

— 210 —
QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

de um caso, terá que repetir varias vézes a mesma prescricáo; deve-


rá mesmo entregá-la por escrito para que finalmente venha a ser
cumprida (diz-se que, no momento de obedecer, o escrupuloso tende
a recuar como o condenado diante do suplicio).

3) Em particular, no tocante a confissáo sacramental,


lembre-se o sacerdote de que existem os chamados «privilegios
dos escrupulosos». Do seu lado, o penitente deverá ter consci
éncia de que o uso désses privilegios nao lhe é apenas faculta
tivo, mas chega a ser obrigatório, desde que o confessor o im-
ponha. Tais privilegios dizem respeito á integridade material
da confissáo. Assim, a juízo do confessor, o penitente deverá
reduzir seu exame de consciéncia a poucos minutos ou mesmo
emiti-lo; o sacerdote encarregar-se-á entáo de interrogar no
confessionário. Em outros casos, o escrupuloso limitar-se-á a
acusar dois ou tres pecados certamente cometidos e de maior
importancia, abstendo-se em geral de relatar pormenores; de
resto, tratará de excitar contrigáo e propósito, principalmen
te a respeito das faltas mais notáveis da vida passada.
A satisfagáo imposta pelo confessor deverá ser leve e
fácil.
Quanto á periodicidade da penitencia sacramental, o sa
cerdote tomará como norma nao permitir mais de urna con
fissáo por semana; caso o penitente-volte após intervalo mais
breve sem ter cometido evidente pecado mortal, o confessor
apenas lhe dará a béncáo, recomendando-lhe que faca um ato
de contrigáo e continué tranquilamente a comungar.
4) Por fim, o sacerdote estimará a colaboracao do mé
dico, sempre que fór oportuna. Em geral, a agáo conjunta
do padre e do clínico dá ótimos resultados; a fim de que estes
frutos sejam realmente obtidos, requer-se consonancia ñas
respostas e ñas diretivas de um e de outro.
Assim ficam delineados os principáis remedios (sobrena-
turais e naturais) a ser utilizados para a cura dos escrúpulos
de consciéncia. Devidamente aplicados, tais recursos podem
restituir paz e alegría as almas.

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

PAULO "(Passa Vinte):

6) «Que vém a ser os Institutos Seculares, de origem


recente na historia?»

O Santo Padre o Papa Pió XII definiu os Institutos Se


culares como sendo «associagóes de clérigos ou leigos cujos

— 211 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 41/1961, qu. 6

membros fazem profissáo de praticar no mundo os conselhqs


evangélicos, a fím de atingir a perfeigáo crista e exercer ple
namente o apostolado» (Constituigáo «Provida Mater» art 1).

Como se vé. os Institutos Seculares sao urna forma de procura


da períeicáo crista e de irradiacao da mesma no mundo; urna das
suas características mais notáveis é o fato de que, á diferenca do
que se dá ñas Ordens e Congregacoes Religiosas (que também se
destinam k santificado e ao apostolado), os membros dos Institutos
Seculares vivem no mundo e ñas familias, em parte identificados coni
as pessoas do século quanto ao traje e quanto ao regime geral de
vida.

A existencia oficial e a legislagáo de tais Institutos datam


dos últimos anos da historia (cf. Constituigáo de Pió XII
«Provida Mater» de 2 de fevereiro de 1947; Motu proprio do
mesmo Pontífice «Primo feliciter» de 12 de margo de 1948;
Instrugáo da S. C. dos Religiosos «Cum Sanctissimus» de 19
de margo de 1948). Destarte os Institutos seculares vém a ser
a última modalidade do testemunho de Cristo que a Igreja
dá ao mundo, fazéndo desabrochar da riqueza de sua vida
um tipo de santificagáo e evangelizagáo bem adaptado as ne-
cessidades da hora presente.

É o que vamos ver de mais perto no inciso abaixo.

Em 313 o edito de Miláo, reconhecendo plena liberdade ao Cris


tianismo, tornou-se ocasiáo para que a Igreja fósse procurada e pe
netrada por muitos cidadáos cuja conversáo era superficial ou in-
teresseira e cujo teor de vida era mediocre; em conseqüéncia, muitos
e muitos cristáos, desejosos- de viver mais autentica e profundamen
te o espirito do Evangelho, se retiraram da sociedade. passando a
viver no deserto, ¡solados ou em comunidades apartadas. Foi ésse
movimento que aos poucos deu origem á vida religiosa constituida
sob urna Regra, em mosteiros e conventos, dos quais hoje existem
numerosas modalidades, muito conhecidas nos países cristáos.
Ora dezesseis sáculos após aquéle fenómeno, terminada-a segun
da guerra mundial, pode-se dizer que acontecimento Inverso se vem
registrando: a Igreja, em vez de ser invadida pelas multid3es, as
vézes convertidas superficialmente em vista de favores do Estado,
encontra-se, ao contrario, distanciada das massas por um processo
continuo de descristianizacao, que os governos, nao raro, fomentam;
muitos dos cidadáos contemporáneos já nao freqüentam os templos
e o culto. É justamente essa apostasia que causa o desatino e a mi
seria do mundo atual. Consciente, pois. de que é portadora de sal-
vacáo para a sociedade laicizada e angustiada de nossos dias, a Igre
ja houve por bem nos últimos tempos desenvolver urna nova forma
de testemunho que, em vez de se exercer pelo heroísmo do retiro e
do silencio, procura agir como o fermento na massa, levedando ou
sobrenaturalizando as formas mais comuns e obvias da vida no
século.
Essa nova forma de testemunho sao os Institutos Seculares, cujos
membros nao abandonam o mundo, mas ai procuram heroicamente

— 212 —
QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

,viver a perfecto crista, a fim de poder mais eficazmente levar o


Evangelho a seus irmíios.

Importa-nos aprofundar esta nogáo sumaria de «Institu


tos Seculares», considerando algo dos seus precedentes histó
ricos e da sua atual organizagáo.

1. Precedentes históricos

1. Desde os primordios da Igreja, existiram varóes e


muflieres que procuraram atingir a perfeigáo crista seguindo
nao sómente os mandamentos da Lei de Deus, mas também
os chamados «conselhos evangélicos» (cf. Mt 19,21: «Se que-
res ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres, e terás
um tesouro no céu; a seguir, vem e segue-Me»).
A autoridade da Igreja, considerando com especial cari-
nho ésse tipo de vida sequiosa da perfeicáo, tomou-o sob a
sua protegáo e deu-lhe aos poucos certas normas que fóssem
garantía de sua prosperidade. Assim sem grande demora se
delinearam duas notas que ainda hoje caracterizan! de ma-
neira essencial o estado de vida conforme aos conselhos evan
gélicos :

emissao dos votos públicos de pobreza, castidades perfelta e obe


diencia dentro de urna familia religiosa ou dentro de um Instituto
religioso aprovado pela Igreja;
vida comum ou comunitaria (cenobítica) — o que implica reu-
niáo de certo número de irmaos para viverem sob o mesmo teto
(num cenobio), sob os mesmos Superiores e sob a mesma Regra.

Estas duas notas constituem o que hoje em día na Igreja


se chama por excelencia «a vida religiosa» ou «o estado re
ligioso» ... Estado religioso, porque em tal tipo de vida há
estabilidade, consagracáo temporaria ou perpetua dos
membros,
certa publicidade ou notoriedade de tal instituiQáo.

Quanto á denominacáo «votos públicos», designa votos recebidos


em nome da Igreja por um Superior devidamente delegado para isso.
Os canonistas distinguem os votos públicos em solenes e simples; a
«solenidade». no caso, nao implica maior pompa sensivel, mas, sim,
urna consagracáo mais estrita, com conseqüéncias mais vastas e ri
gorosas (cf. «P. R.» 27/1960, qu. 6). Os votos públicos solenes cons
tituem as chamadas Ordens Religiosas, as quais tiveram origem su-
cessivamente no decorrer da historia antes do século XVI (Ordem
de Sao Bento,... de S. Domingos,... de S. Francisco,..; de S. Agos-
tinho,... do Monte Carmelo, etc.); os votos públicos simples cons
tituem as Congregac3es Religiosas, cuja fundacao data geralmente
de época moderna ou do século XVI a nossos dias (CongregacSo do
SSmo. Redentor,... dos Missionários do S. Corac&o,... dos Sale-
sianos, etc.).

— 213 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 6

2. Ao lado daqueles que procuraram e procuram seguir


os conselhos evangélicos dentro das normas ácima referidas
(votos públicos e vida comum), a historia registra avultado
número de fiéis que, igualmente desejosos de observar os con
selhos do Senhor, se puseram a viver vida comum, sem, po-
rém, emitir votos públicos.

Tais íoram, por exemplo, as Beguinas. instituidas, como se eré,


no séc. XII em Liége por um pregador de penitencia, Lamberto li
Béguin (o Gago); propagaram-se principalmente pela Flándría em
comunidades entregues á oracáo, ao trabalho manual, ao tratamen-
ta dos enfermos, ao sepultamento dos mortos e á instrucáo de don-
zelas.
No séc. XIV tiveram origem os chamados «Irmáos da Vida Co
mum», fundados por Gerardo Groóte (t 1384) na Holanda; em co-
munidade levavam urna vida de oragSo, estudos e magisterio.
Sociedades semelhantes surgiram ñas séculos posteriores: a dos
Oratorianos, por iniciativa de S. Filipe Neri (t 1595); a dos Sulpi-
cianos por obra do Pe. Jean Jacques Olier (t 1657); a dos Eudistas,
devida' a S. Joáo Eudes (t 1680); a dos Missionários da África («Pe
res Blancs»), organizada pelo Cardeal Lavigerie (t 1892). Na Con-
gregacao dos Lazaristas ou Sacerdotes da Missáo e na das Irmas de
Caridade (Vicentinas), ambas instituidas por S. Vicente de Paulo
(t 1660), os sacerdotes e as irmás fazem, sim, os votos de pobreza,
obediencia e castidade, votos, porém, privados, nao públicos...
Existem enfim familias religiosas que levam vida comum com
um voto apenas (o de castidade) ou dois ou mesmo tres, de carátér
privado; pode ocorrer também que a questáo dos votos fique total
mente entregue a iniciativa pessoal de cada um dos interessados.
Em qualquer hipótese, porém, o espirito dessas CongregacCes é o
dos conselhos evangélicos vividos de maneira adaptada as exigencias
do apostolado nos tempos posteriores ao séc. XVI (miss5es em tér
ras pagas, educacáo da juventude, assisténcia a enfermos, etc.).

3. Será mister notar outrossim que, além dos fiéis aos


quais a Providencia outorgou os beneficios da vida comum re
gular (com ou sem votos), sempre houve aqueles que, embora
desejassem consagrar sua existencia a Deus, se viram obriga-
dos a permanecer na familia e na sociedade. Para tais cris-
táos, a partir da Alta Idade Media, foram fundadas as cha
madas «Ordens Terceiras» seculares (de acordó com Sao
Francisco e Sao Domingos, a «Ordem Primeira» seria a dos
frades ou a dos conventos masculinos; a «Ordem Segunda», a
das Religiosas ou a dos conventos femininos)... No decorrer
dos tempos, aconteceu que os terciarios aspiraran* a consa-
grar-se mais estritamente a Deus por meio de obrigagóes se
melhantes as da vida conventual, a serem executadas, porem,
no mundo mesmo. Tal aspiragao se tornou particularmente
forte por ocasiáo da Revolucáo Francesa (1789) e da onda
de laicismo que se desencadeou sobre as nagóes cristas no

— 214 —
QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

séc. XIX: mosteiros e conventos foram entáo extintos; Reli


giosos e Religiosas viram-se expulsos de suas patrias; entáo
a necessidade de recristianizar o mundo levou numerosos cris-
táos a empreender no mundo mesmo urna vida crista muito
intensa, norteada, enquanto possível, pelos próprios conselhos
evangélicos : em vista disto, tiveram que renunciar a qualquer
insignia (hábito distintivo, nome...) que os pudesse denun
ciar como pessoas totalmente consagradas a Deus e que lhes
dificultasse o acesso a lugares descristianizados; o segrédo,
observado até mesmo no seio da familia, ficou sendo por vé-
zes urna das notas características dessa nova modalidade de
vida crista.

As duas primeiras realizaeóes de tal género sao

o Instituto íeminino chamado «Sociedade das Filhas do Coracáo


de María»; íoi fundado era 1790 para suprir á falta de Religiosas
na Franca : senhoras cristas procuravam observar rigorosamente as
normas de pobreza, obediencia e castidade, permanecendo ñas casas
de familia e dedicando-se a obras boas na diocese ou ao auxilio do
clero ñas paróquias;
a Sociedade dos Padres do S. Coracáo de Jesús, fundada aos 2
de fevereiro de 1791 em plena Revolucáo Francesa pelo Pe. Pedro
de Cloriviére, membro da Companhia de Jesús entáo supressa; visava
proporcionar aos sacerdotes um ou outro dos beneficios da vida con
forme aos conselhos evangélicos, sem que tivessem de abandonar o
servico das respectivas dioceses; tres dos primeiros dez membros
dessa Sociedade padeceram o martirio.
Pode-se registrar também a fundacáo do «Instituto Normal Ca
tólico» nome civil da «Sociedade das Filhas do Monte Calvario». No
ano de 1852 a jovem professóra Henriqueta Adelina Désir (t 1885)
deu inicio a tal obra em Paris, estabelecendo urna casa para a edu-
cacáo de donzelas e a formacáo de professóras católicas; tinha em
vista contrapor-se as tentativas análogas de urna sociedade macóni-
ca, que atingía a juventude feminlna. Em 1866 a fundadora come-
cou a levar vida comum com suas companheiras de ideal, sem, po-
rém, vestir hábito característico.

Algumas das novas sociedades chegaram a compreender


duas classes de membros : enquanto uns viviam em comuni-
dade, trajando ou nao hábito distintivo, outros, mais nume
rosos, permaneciam em suas casas de familia ou no mundo,
constituindo como que a «máo alongada» da Sociedade, des
tinada diretamente ao apostolado nos meios que os cenobitas
nao atingiriam por si.

Exemplo bem marcante désse tipo de Instituto é a chamada


«Obra da Juventude (Oeuvre de la Jeunesse)». fundada em 1821 na
cidade de Marselha (Franca) pelo Pe. Joseph Allemand; visava re-
colher em educandários meninos abandonados a fim de lhes propor
cionar sólida formacao1 religiosa e civil. Os membros da Ohra eram

— 215 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 6

todos varSes leigos; a maioria vivia com seus familiares, entregan-


do-se a ocupagoes proíissionais próprias (eram advogados, médicos,
banqueiros, que, com parte de suas rendas, cohriam as despesas do-
Instituto) ; mesmo os que viviam no século, faziam os votos de cas-
tidade, obediencia, zélo e estabilidad», nao, porém, o de pobreza. De
todos os candidatos exigia-se a disposigáo de se consagrar a Deus
e á educagáo da juventude.

As Congregagóes assim instituidas expandiram-se por


todo o séc. XIX, encontrando ampia aceitagáo entre os fiéis.
Em conseqüéncia, tornaram-se objeto de especial atengáo da,'
autoridade da Igreja. Muitos bispos aplaudiam efusivamente
as novas iniciativas, realcando os grandes beneficios que pres-
tavam á recristianizagáó da sociedade por corresponderem
adequadamente as necessidades dos tempos modernos. Nao
faltavam, porém, pastores que em tais Institutos apontavam .
riscos e perigos, decorrentes, a seu ver, do caráter velado oa
mesmo secreto dessas organizagóes (caracterizacáo dos mem-
bros perante o público seria esteio de boa disciplina interna).
— Do seu lado, os canonistas punham a questáo : como clas-
sificar e, por conseguinte, tratar tais sociedades cujos mem-
bros reproduziam varios dos tragos da vida religiosa (pobre
za, obediencia, castidade), mas nao possuiam nem votos públi
cos nem o correspondente quadro de vida comum?

Breve digressáo histórica concorrerá para ilustrar o problema da:


época.
Já no séc. XIX grandes dúvidas haviam pairado sobre a sufi
ciencia de votos públicos simples para constituir o «estado religiosoi-
ou o «status perfectionis (acquirendae)», estado em que se procura
atingir a perfeicáo. Até essa época recente, portanto, muitos canonis
tas julgavam que só poderiam ser tidos icomo «Religiosos» os pro-
fessos de votos solenes. Nao obstante, prevaleceu a tese larga, ja
apregoada por varios canonistas e decisivamente patrocinada por
Leao XIII na Constituicao «Conditae a Christos- de 8 de dezembro-
de 1900; neste documento o Pontífice asseverava que votos públicos
simples e aprovacáo do hispo competente bastam para constituir ura
Instituto Religioso ou a «vida religiosa» no sentido canónico. O atual
Código de Direito Eclesiástico, promulgado em 1918. tornou defini
tiva esta concepgáo. dando-lhe a seguinte modalidade: chama-se
Ordem Religiosa o Instituto de votos solenes, ao passo que o de vo
tos simples há de ser designado como CongregacS» Religiosa (cf.
can. 488, 1*, 2' e 3*). —< Esta disposicáo representava urna inovagáo,
consentánea e oportuna, dentro das categorías do Direito até entáo'
vigente.
Diante do recente surto de¡ Institutos destituidos de votos, públi
cos e de vida comum, muitos canonistas nos últimos decenios inter-
rogavam um tanto perplexos; será preciso alargar mais ainda o-.con-
ceito de «vida religiosa» a fim de abranger também tais associagñes?

5. Aos poucos, as dúvidas se foram dissipando* pois tan


to os pastores de almas como os juristas se empenharam por

— 216 —
QUE" SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

cqnceber.as normas que, de um lado, garantiriam a subsis


tencia das novas sociedades e, de outro lado, removeriam os
perigos de desvirtuamento no século.
Importa salientar que os riscos decorrentes da índole ve
lada de tais Institutos foram removidos pelo estabelecimento
de sabia norma: as regras e as tarefas de qualquer dessas
entidades deveriam ser sempre manifestadas á competente au-
toridade eclesiástica, de modo a nada se fazer sem a apro-
vagáo e a vigilancia zelosa da hierarquia da Igreja: «... a
fim de que o ocultamento devido ao espirito de prudencia nao
degenere, por efeito de prudencia da carne, em simulacáo
culposa», rezava já em 1889 o decreto «Ecclesia Catholica»
atinente aos ensaios de Institutos Secularas daquela época (cf.
A.S.S. 23 [1889] 634).
Até h,oje, na verdade, nao há Instituto Secular que exista
ou trabalhe independentemente do beneplácito de um bispo.
Quanto á posigáo jurídica de tais sociedades dentro da
Igreja, ela foi sendo esclarecida no decorrer dos últimos de
cenios, de modo que em 1947 S.S. o Papa Pió XII julgou
chegado o momento de Ihes dar estatuto canónico : a nova
legislagáo se acha na Constituigáo «Provida Mater Ecclesia»
de 2 de fevereiro de 1947, ulteriormente explicitada pelos do
cumentos da Santa Sé que citamos á pág. 212.

Toraa-se oportuno, pois, lanear rápido olhar sobre tais normas


que regem a terceira forma do «status perfectionis» ou do estado
em que oficialmente se procura atingir a perfeicáo crista dentro da
Igreja (terceira forma, pois, como foi dito, a primeira é a das Or-
dens e Congregac5es Religiosas, que tém votos públicos e vida co-
mum; a segunda é a das Sociedades que só tém vida comnm, sem
votos públicos; a terceira, portanto, vem a ser a dos Institutos que
nao observam necessariamente nem vida comum, mas, nao obstante,
se assemelham ás duas formas anteriores pelo fato de que seus
membros consagrani de maneira total e permanente sua vida á prá-
tica dos conselhos evangélicos e a demanda da períeicao crista).

2. A legislacáo hoje vigente para os Institutos Seculares

Vao abaixo transcritas as instrugSes válidas para todo e qual


quer Instituto Secular; cada um déstes é regido outrossim por Cons-
tituicao própria, que visa diretamente a tarefa da respectiva en-
tidáde.

: 1. «Os Institutos Seculares sao associagóes... cujos mem


bros professam no século os conselhos evangélicos...»
Essa conceituagáo, formulada no art. 1» da Constituigáo
«Provida Mater», implica profissáo de castidade, obediencia é
pobreza cujo teor a própria Constituigáo assim explícita:

— 217 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961, qu. 6

Castídade. Entendem-se a castidade períeita ou o celibato abra


cado por voto, juramento ou consagracáo que obrigue em conscién-
cia, de acordó com a Constituigao própria de cada Instituto! Secular.
Isto quer dizer que as pessoas casadas nao podem ser recebidas como
membros em sentido estrito de tais Sociedades. Os Institutos, porém,
admitem membros em sentido largo ou «agregados», que nao assu-
mem todas as obrigagoes dos membros da primeira categoría.

Obediencia. A esta o candidato se sujeita de maneira estável


por voto ou promessa, de modo a estar sob a dependencia e a ori-
entacao continuas de Superiores, de acordó com as Constituicoes do
respectivo Instituto. Bem se compreende tal exigencia: a vida no
século fácilmente desorienta, abrindo o caminho a múltiplos desvir-
tuamentos.

Pobreza. Os membros dos Institutos Seculares também a pro-


íessam por voto ou promessa, que lhes tira o livre uso dos bens
temporais, limitando-o segundo as ConstttuigSes próprias. Estas po
dem proibir que se facam certas despesas sem licenca, exigir pres-
tacáo de contas a um Superior, pedir contribuicüo para as despesas
gerais do Instituto. Do seu lado, o Instituto está obrlgado a asse-
gurar a subsistencia de seus membros, nao mediante fornecimento
de bens materiais ou de pens5es, mas providenciando para que te-
nham algum trabalho remunerado ou alguma fonte de renda.

2. Os votos proferidos nos Institutos Seculares nao sao


votos públicos (no sentido do Direito Canónico), isto é, votos
que a Igreja receba oficialmente por um delegado seu. Con-
tudo também nao sao votos meramente privados, isto é, de
foro interno ou de consciéncia apenas, mas, segundo alguns
canonistas, podem ser ditos votos semipúblicos, isto é, votos
privados reconhecidos pela Igreja e dotados de efeitos jurídi
cos no foro externo.

3. O liame vigente entre o Instituto e seus membros


deve ser

estável; o que quer dizer que, mesmo que os votos ou as pro-


messas sejam temporarias, devem ser renovados no fim do respecti
vo prazo ou, caso nao o queira, a pessoa abandona livre e legalmen-
te o Instituto.

mutuo e pleno, de tal modo que, de acordó com as Constituicóes,


a pessoa se dé inteiramente ao Instituto e éste, por sua vez, se in-
teresse e responda por cada um de seus membros (principalmente
no plano espiritual e apostólico, mas também. segundo as necessida-
des, no plano temporal). Em virtude da doacao total aqui mencio
nada, compreende-se que nenhum membro de Instituto Secular tem
o direito de reservar para si urna parte sequer de seus dias, seqües-
trando-a á vontade e ao controle de seus Superiores.
Os dizeres ácima nao impedem que as Constituicñes de cada
Instituto estipulem casos em que se poderáj proceder á demissao de
algum membro nao adaptado ao respectivo género de vida.

— 218 —
■ ' QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

4. Cada Instituto Secular há de ter ao menos urna casa


comum, na qual
a) possam residir os Superiores respectivos, principal
mente os gerais e regionais;
b) os membros do Instituto se possam recolher por pra-
zo ora mais, ora menos longo, a fim de receber ou completar
a sua formacáo ou para realizar o seu retiro espiritual e aná
logos exercícios de piedade;
- c) possam ser recebidos os membros que, por motivo
de saúde ou outra razáo, estejam incapacitados de prover á
sua subsistencia ou sofram detrimento por morar no século.

5. A incorporagáo a um Instituto Secular faz-se por eta


pas, que sao geralmente as tres seguintes: aspirantado, nor
malmente durante um ano; noviciado, sempre de dois anos no
mínimo; profissao temporaria, que se estende por cinco, seis
ou mais anos.

Como se vé, sao etapas mais prolongadas do que as da admissáo


na vida religiosa o que bem se entende: náoi havendo vida comum
eíetiva, a formacao nao pode ser táo intensiva; nao obstante, re-
quer-se que esta seja muito sólida, a iim de preparar almas capazes
de sustentar o arduo ideal da perfeicáo crista no século.

Sao quatro as condigóes gerais para que alguém possa ser


válidamente admitido em Instituto Secular:

a) seja fiel católico;


b) esteja livre de qualquer dos impedimentos estipulados pelo
Direito comum e particular (impedimentos dos quais alguns váo
abaixo recenseados);
c) tenha reta intengáo, inspirada por motivo sobrenatural;
d) seja física e moralmente capaz de viver os conselhos evan
gélicos e exercer o apostolado no respectivo Instituto.

Em materia de saúde física, em geral se requer o mini-


mo necessário para observar os Estatutos. Há, porém, Cons-
tituigóes que em absoluto nao mencionam a saúde como re
quisito, ou declaram explícitamente que podem ser admitidas
pessoas enfermas; outras, enfim, enumeram entre os objetivos
do respectivo Instituto a santificagáo da própria doenga e con-
sideram os sofrimentos dos membros enfermos quais podero
sos meios de apostolado (é o que se dá, por exemplo, entre as
«Missionárias dos Enfermos»).
Nao há dúvida de que a entrada em um Instituto Secular
corresponde a urna graga especial ou a um chamado da parte
de Deus.
Entre os impedimentos á admissáo, podem-se destacar:

_ 219 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961. qu. 6

a) idade inferior a 15 anos. Em geral, o periodo de entrada


num Instituto Secular vai dos 18 aos 30 anos de idade (há excecSes,
é claro); algumas Constituic.5es exigem para a incorporagao defini
tiva o mínimo de 35 ou mesmo de 40 anos de idade;
b) o vínculo do sacramento do matrimonio, a menos que os
dois cónjuges resolvam separar-se de modo legitimo e perpetuo,
quanto ao leito e ao teto.
c) o «ser arrimo de familia» de modo tal que, contralndo as
obrigagSes do Instituto, a pessoa nao possa cumprir os deveres de
justica para com os familiares.

Sao estas as grandes linhas que dáo estrutura aos Insti


tutos Seculares e Ihes asseguram agáo de todo benéfica no
mundo contemporáneo, como sumariamente se depreende do
parágrafo abaixo.

3. Vitalidade dos Institutos Seculares

1. Examinados em si e em seus frutos, os Institutos Se


culares parecem corresponder providencialmente as necessida-
des dos nossos dias. Com efeito,
a) tornam possível a prática sistemática dos conselhos
evangélicos a muitas pessoas que, embora devotas e idóneas,
nao a poderiam abragar entrando numa Congregagáo de vida
cenobitica.

Tais pessoas sao em nossa época mais numerosas do que em'


tempos idos : tenham-se em vista os que se ressentem de saúde tra
ca, necessitando de cautelas permanentes; os que constituem arrimo
de familia ou de algum modo estáo obrigados a ficar com os seus
familiares; os que tém temperamento zeloso, mas particularista e
pouco apto á vida comum...

Anexando-se a um Instituto Secular, ésses cristáos sao es


timulados por muitas gragas a realizar o que de outro modo
nao realizariam em prol de sua santificagáo e da cristianiza-
gáo do mundo.
b) Os Institutos Seculares levam aos mais íntimos re
cantos da alta e da baixa sociedade o testemunho da vida
crista conscientemente vivida; conseguem assim frutos de
apostolado que sacerdotes, Religiosos e Religiosas, em virtude
dos seus distintivos de estado, nao poderiam obter.
c) Principalmente ñas épocas e regióes de perseguigáb,
aberta ou velada, á Igreja, tais Institutos sao oportunos; po-
dem escapar, sem dificuldade, as leis antirreligiosas, prestando
ao povo de Deus servigos de que viria a carecer. O mesmo
papel importante Ihes compete nos períodos e países de ins-
tabilidade política, de preconceitos anticlericais, etc.

— 220 —
QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

2. Estas observagóes sao corroboradas pela consideragáo


do surpreendente número de Institutos Seculares que váo sur-
gindo dentro da Sta. Igreja.
Tendo sido definitivamente firmados os respectivos Es
tatutos gerais era. 1947, já em 1950 contavam-se mais de 95
entidades que pediam á Santa Sé a sua erec.áo canónica como
Institutos Seculares. De 1947 a 1957 eram 170 as que haviam
pleiteado tal graga. Parece que mais numerosas ainda sao as
instituigóes que, disseminadas pelo orbe inteiro, se váo or
ganizando a fim de poder pedir á Santa Sé o título de Ins
tituto Secular.
Essas associagóes aprésentam características assaz varia
das, sempre concebidas com a finalidade de dar ao mundo um
testemunho mais eficaz e proficuo. A Santa Sé nao se op5e
á multiplicagáo de matizes na organizagáo dos Institutos Se
culares; alguns désses distinguem mesmo diversas categorías
de membros dispostas como que em circuios concéntricos em
torno da autoridade nuclear, á qual se ligam por liames ora
mais, ora menos estritos; cada qual dessas categorías, dota
da de cultura, especializacjio e capacidade de apostolado pró-
prias, se harmoniza com as demais a fim de atingir o objetivo
característico do respectivo Instituto. A jurisprudencia a
respeito dos Institutos Seculares vai sendo assim aos poucos
elaborada a partir das experiencias que se váo fazendo nesse
setor. Nao há dúvida, muita cautela se requer no recrutamen-
to e na formagáo dos membros dessas sociedades, pois a vida
em pleno mundo apresenta inegáveis perigos para a conser-
vagáo do espirito dos conselhos evangélicos:

<¿A experiencia evidenciou as dificuldades e os perigos que por


vézes, e mesmo fácilmente, acarreto essa vida de perfeicáo conduzi-
da táo livremente, sem o socorro exterior do hábito religioso e da
vida comunitaria, sem a vigilancia dos Ordinarios (Prelados dioce
sanos), aos quais ela poderia fácilmente ficar desconhecida,... sem
a vigilancia dos próprios Superiores, que multas vézes se acham
distantes» (Pió XII, Constituicáo «Provida Mater» n'1 10).

Enquanto tais perigos váo sendo debelados, multiplicam-


-se os frutos bons produzidos pelos Institutos Seculares. Em
conseqüéncia, a Sta. Igreja os incentiva... Incentiva-os, po-
rém, sem intencionar de modo algum depreciar as antigás e
tradicionais formas de vida religiosa, caracterizadas por hábi
to e clausura; as antigás e as novas modalidades de procura
da perfeigáo evangélica deverio ser simultáneamente. afirma
das a fim de que nao se dilua o patrimonio espiritual confiado
por Cristo á sua Igreja. :

— 221 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961. qu. 6

É o que um comentario oficioso da Sta. Sé mesma afirmava aos


14 de marco de 1947, pouco depois de promulgada a Constitulcao
«Provida Mater» :
«ÑSo se creia que nos tempos modernos, os quais parecem tao
propicios a ésses novos rebentos da graca e do apostolado, asi insti-
tuicóes precedentes, sempre fecundas, tenham íuncao menos impor
tante a cumprir ou possibilidades mais restritas de expansáo. Ao
contrario o déselo comum é o de acrescentar novos brilhantes a
coroa da' Igreja, de modo tal que dal resulte fulgor mais intenso.
As Ordens antigás e as CongregacSes religiosas posteriormente fun
dadas conservam intata a sua importancia tradicional e insubstltui-
vel, mesmo diante das necessidades e exigencias mais variadas da
vida moderna; continuam a funcionar plenamente com vitalidade táo
rica de méritos que é preciso considerá-las como urna das maiores
glorias da Igreja» («Osservatore Romano», 14 de marco de 1947).

4. Apéndice

Completando as informacoes ácima, segue-se a lista dos Insti


tutos Seculares atualmente estabelecidos no Brasil.

I. Institutos Masculinos

1. Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz


Finalidade: difundir em tddas as classes da sociedade civil,
especialmente na intelectual, a vida de perfeicáo evangélica.
Em 1957 a Sociedade, de origem espanhola, chegou ao Brasil,
fundando urna casa em Marília (SP), Rúa Sao José ¡87. Nao tem
outra dependencia no Brasil. Casa Generalicia: Vialle Bruno Buozzi
73, Madrid, Espanha.

2. limaos de María do Apostolado Católico


Finalidade: o apostolado lelgo em toda a sua extensS.0.
O Instituto, de origem alema, chegou ao Brasil em 1952, lun-
dando urna casa em Santa Maria (RS), Escola Industrial, Caixa
postal 70. Nao tem oütra dependencia no Brasil. Casa Generalicia:
Sch6nstatter Marienbrüder, Vallendar a. Rh., Hoherstr. 77, Alemanha.

n. Institutos Femininos

1. Irm5s de Maria do Apostolado Católico


Finalidade: prestar servicos em todo o campo de educacao e
assisténcia social. As Irmas vestem hábito e vivem em' comunldade.
A Sociedade, de origem alema, possui dez casas no Brasil, sendo a
principal a de Santa Maria (RS), Rúa Domingos de Almeida 849,
aCixa postal 67.

2. Sociedade das Senhoras de Nazaré


Finalidade: o apostolado social em toda a sua extensao. Nao
vestem hábito e podem viver fora da comunidade.
Possuem duas casas no Brasil, sendo a principal a de Sao Paulo
(SP), Avenida ■ Nazaré 1361, Ipiranga.

— 222 —
QUE SAO OS «INSTITUTOS SECULARES» ?

3. Companhia das Catequistas

Finalidades o ensino da .doutrina crista e o cuidado de igrejas


e cápelas. • ■ ,
Vestem hábito; vivem em comunidade, mas podem íundar resi
dencias só com duas Irmas, no interior, mesmo onde nao naja
•-assisténcia espiritual freqüente. Dedicam-se muito á fundacáo de
Escolas Paroquiais. . .
A Companhia, de origem brasileira. subsiste em 95 casas no
Brasil, sendo a principal a de Rodeio (SO, Rúa Baráo do Rio Branco.

4. Catequistas Missionárias de Sao Francisco de Assis

Finalidade: a catequese dos japoneses.


Nao vestem hábito e vivem em comunidade.
O Instituto, de origem brasileira, possui duas casas no Brasil,
devendo a correspondencia ser dirigida á principal délas: Escola
Pió X. Jaraguá (SP).

5. Beneficencia Popular

Finalidade: trabalhar pelo apostolado eucaristico da primeira


sexta-feira de cada mes.
Vestem uniforme e vivem em comunidade.
O Instituto, de origem brasileira, possui quatorze casas no
Brasil, sendo a principal a de Mariana (MG), Travessa S. Francisco.

6. Catequistas do Sagrado Coracllo de Jesús


. Finalidade: educacáo, instrucáo e catequese dos filhos de ucra
nianos.
be orJgem brasileira, éste Instituto possui urna só casa, «ra Pru-
. dentópolis (PR): Colegio Santa Olga.

7. Instituto Corac&o de Jesús

Finalidade: assisténcia religiosa e social pelo apostolado paro-


quial.
As Irmas vestem hábito e vivem em comunidade. De origem ale
ma, possuem cinco casas no Brasil; das quais a principal é a de Bra
co do Norte, Municipio de Tubaráo (SO.

8. Servas de Jesús Sacerdote

Finalidade: prestar auxilio ao clero.


As Irmas nao vestem hábito, mas vivem em comunidade. Fun
dada no Brasil, a Sociedade tem sua maior casa em Ribeiráo Préto
(SP): Rúa JoSo Penteado 1426, Caixa postal 586.

9. Instituto Nossa Senhora do Cenáculo

Finalidade: obras á& assisténcia social a senhoras. mocas e cri-


ancas.
As Irmas nao vestem hábito, mas vivem em comunidade. Fun
dada no Brasil, a instituic&o conta duas casas, das quais a principal
é a de Monte Santo (MG), Rúa Cel. Antonio Paulino 722.

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 41/1961

10. Misionarlas de María (Irmas Xaverlanas)


Finalidade: apostolado paroquial.
Oriundo da Italia, o Instituto tem urna casa no Brasil, em Lon-
drina (PR).

11. Instituto Nossa Senhora das Grabas


Finalidade: educa gao da juventude e obras sociais.
As Irmas vestem uniforme e vivem em comunidade. Fundadas
no Brasil, estáo distribuidas por cinco casas, entre as quais sobres-
sai a de Vermclho Novo (MG), vía Raúl Soares (diocese de Cara-
tinga).

12. LegSo de Nossa Senhora Rainha dos Coracdes


Finalidade: o apostolado pela imprensa.
As Irmas nao vestem hábito, mas vivem em comunidade. Fun
dadas no Brasil, ocupam duas casas, além da sua sede principal em
Belém (PA), Rúa Castilho Franca 61.

13. InstitulgSo Teresiana


Finalidade : educacao e instrucao da juventude feminina ém ni
vel superior.
Oriundas da Espanha, as Irmas possuem duas casas no Brasil,
das quais a mais importante é a do Rio de Janeiro (GB), Rúa Mar
qués de S. Vicente 331.

CORRESPONDENCIA MlODA
T. H. (Salvador): A respeito do batismo das cnangas e de sua
necessidade, veja "P.K." 6/1958, qu. 4. Sobre o culto das imagens, cf.
"P.R." 4/1957, qu. 4 e 6. A propósito da comunháo sob as duas especies,
cf. "P.R." 9/1958, qu. 6.
HERMINIO (Salvador): Sobre o faquirismo, cf. "P.R." 33/1960,
qu. 4. Quanto á necessidade de jejum e penitencia, veja T.R." 12/1958,
qu. 4; 7/1958, qu. 9.
IVO (Sta. Catarina): Poderia mandar-nos algum enderégo para
a resposta ?
D. ESTÉVAO BETTENCOURT OJS.B.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual de 1961 Cr$ 200,00


Assinatura anual de 1961 (via aérea) Cr$ 250,00
Número avulso de 1961 Cr$ 20,00
Número de ano atrasado Cr$ 25,00
Colecáo encadernada de 1957 Cr$ 320,00
Colesáo encadernada de 1958, 1959, 1960 .. Cr$ 450,00 (cada)

REDAQAO ADMINISTRADO
Caixa Postal 2666 R. Real Grandeza, 108 — Botafogo
Rio de Janeiro Xel. 26-1822 —Rio de Janeiro