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Projeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor

com autorizagáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

(in memoriam)

APRESENTAQÁO

DA EDigÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos

estar preparados para dar a razáo da nossa esperanca a todo aquele que no-la pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos

conta da nossa esperanca e da nossa fé

hoje é mais premente do que outrora, visto que somos bombardeados por e

numerosas

Vv.-r

correntes filosóficas

religiosas contrarias á fé católica. Somos

assim incitados a procurar consolidar

nossa crenca católica mediante um

aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e Responderemos propóe aos seus leitores:

atualidade

aborda

questóes

da

controvertidas, elucidando-as do ponto de

vista cristáo a fim de que as dúvidas se

dissipem e a vivencia católica se fortaleca

no Brasil e no mundo. Queira Deus

abengoar este trabalno assim como a

equipe de Veritatis Splendor que se encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e

Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca

depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e

zelo pastoral assim demonstrados.

ANO IV

4

DEZEMBRC

19

6

ÍNDICE

Pág.

i. filosofía e religiao

1) "Nao é necessário que o segundo sexo seja tido como sexo

frágil, lembra Simow de Beauvoir. O casamento e a maternidade

parecem meros meios de assujeitamento da mulker. Nao seriam sinal de maturidade do pensamento contemporá neo as tendencias feministas que propalam a emancipando da

mulker (principalmente ñas suas relacóes com o marido e com a

prole) assim como a equiparacáo da mulher ao vardo na vida

pública ?"

i95

II. SAGRADA ESCRITURA

2) "Quevi terá sido o autor do Pentateuco (Génesii, Éxodo,

Levitico, Números, Deuteronomio) ?

Moisés ? Hoje etn dia há quem o negué. Os nossos conceüos bíblicos mais fundamentáis vao sendo sucessivamente revolucio

nados !"

ni. MORAL

5Pí

3) "Pode haver imperfeicóes moráis que nao sejam pecados (nem sequer pecados leves)?

• Estará o komem obrigado a praticar, em tildo, o que há de '

mais perfeito ?"

IV. SOCIOLOGÍA

51G

i) "O problema social poderá ser resolvido simplesmente

pelo amor ?

Lendo a vida de Sao Francisco de Assis, Inácio Lepp com-

preendeu que o que faltava no comunismo marxtsta era o amor.

Até que ponto o amor será soluc&o ?"

SS2

V. HISTORIA DA RELIGIAO

5) "Qual a origem do povo comumente chamado 'cigano' ?

Dis-se que provém dos filhos de Lameque : Jabel, Jubal e

Tubalcaim, que deram inicio respectivamente ao pastoreio do gado, a arte da música e o metalurgia do cobre e do ferro (cf. Gen

J,,2O-SZ). Sao ésses justamente os afazeres aos quais se dedicam

de preferencia os ciganos"

5S8

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano

IV

N'

48

Dezembro de 1961

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

SDIONE (Sao Paulo):

1) «Nao é necessário que o segundo sexo seja tido como sexo frágil, lembra Simone de Beauvoir. O casamento e a ma-

tenrdade parecem meros meios de assujeitamento da mulher.

Nao seriam sinal de maturidade do pensamento contem

poráneo as tendencias feministas que propalan» a emancipacáo

da mulher (principalmente ñas suas relacoes com o marido e

a prole) assim como a equiparacao da mulher ao varao na

vida pública ?»

O feminismo moderno, tendendo a igualar de mane'ra quase

absoluta a mulher ao varáo, merece serias reservas por parte da consciéncia crista, pois em última análise contradiz a ditames da natureza; em vez .de mais valorizar a mulher, concorre em

nao poucos casos para a vilipendiar.

A fim de consolidar esta afirmagáo, lembraremos abaixo os principáis pontos em que realmente a natureza diferencia o

varáo e á mulher, exigindo respeito e coibindo exageradas ten

dencias ao nivelamento.

1. Diferenca psicológica

Á fisiologia característica do varáo e da mulher corres

ponde um psiquismo ou urna atitude de alma característica de

cada um dos dois sexos.

Com efeito; dir-se-ia que a mulher existe normalmente para

ser mae, máe no sentido físico ou, ao menos, no sentido espiri

tual. Observa-se mesmo que a mulher é muito mais marcada pela vocagáo á maternidade do que o varáo pela vocagáó á

paternidade; amulher estátoda (físicae psíquicamente) voltada

para a prole, de sorte que, mesmo quando nao é máe no sentido físico, ela tende sempre a exercer urna maternidade espiritual

Alias, S. Paulo ensinava que a mulher se resgata pela mater nidade (cf. 1 Tim 2,16).

Tal característica do sexo feminino explica bem esta outra nota

típica: o amor e a afetividade marcam. profundamente a personal!-

495

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 1

dade da mulher; ela costuma dedicar-se, com toda a alma e todo ,

o ser, ao objeto de seu amor, de modo que os choques afetivos

nela repercutem intensamente; ás decepcSes na vida de amor saco-

dem-na com veeméncia, podendo deixá-la desconsertada. Por isto

também se verifica que a mulher, ao se perverter no amor, pode

fácilmente chegar aos requintes extremos da corrupcáo; doutro lado,

quando ela ama genulnamente, ama nao raro com rasgos de nobreza

e heroísmo extraordinarios.

O varáo, ao contrario, embora costume ter vontade impe riosa e desejos violentos, é muito menos condicionado (quer

no físico, quer no psíquico) pela fungáo sexual; o exercício do

amor néle nao desencadeia conseqüéncias táo duradouras e

decisivas.A sua sensibilidade é menos atingida pelo amor sexual. O varáo é mais caracterizado pela responsabilidade do ganha-

-pao ou da luta profissional; dir-se-ia que a sua fungáo típica é

a de arrimo da familia. Isto implica, no varáo, capacidade de

raciocinar geraimente clara e muito lógica, assim como vontade

forte e tenaz ao encalgo do seu objetivo. Conseqüentemente o

homem é capaz de esforgos físicos que chamam a atengáo e que

a mulher geraimente nao pode sustentar.

Contudo, se a mulher carece da constancia necessária para

muitos trabamos penosos, há certos setores em que ela se re

vela mais perseverante e, por isto, mais eficaz do que o homem. Sim; observam os estudiosos ser difícil encontrar um varáo que iguale a mulher na tarefa de «pacientar» junto á cabeceira

de um doente. Mais ainda: se a mulher nao possui a lógica e

a rigidez de raciocinio que caracterizam o homem, ela tem,

muito mais do que ó varáo, o sentido do real e concreto — o

que certamente é de grande vantagem na vida social.

«Em presenca de urna crianca recém-nascida, o varáo pensa logo

na maneira de a fazer entrar na engrenagem das tarefas temporais,

indagando: 'Que profissSo exercerá? Que carreira seguirá?'. A

mulher toma atitude preferível, preocupando-se antes com a situa-

gáo pessoal do pequenino: 'Será ele feliz?'. A mulher está voltada

para as pessoas mais do que para as coisas ou as estruturas; e isto, em virtude da sua capacidade própria de intuigáo, que muitas vézes

se engaña, mas nao raro acérta. O homem julga um orador político

pelas idéias e o programa que éste propóe, deixando-se seduzir pelo

encanto da voz ou do gesto; mas nem sempre avalia com acertó. Os

ditadores modernos nao seduziram únicamente o elemento feminino dos povos que éles levaram á ruina» (H. Rondet, Éléments pour une

théologie de la femme, em «Nouvelle Revue Théologique» 79 [1957]

937).

Pelo seu papel materno, a mulher, ainda que permanega

oculta no lar, contribuí poderosamente para dar configura 7áo

á sociedade. É ela quem imprime aos futuros cidadáos os pri-

496 —

VERDADEIRO E FALSO FEMINISMO

meiros tragos de educagáo justamente nos anos de infancia, em que as almas sao-mais dóceis e maleáveis: um cristáo, um sa cerdote, um pai e esposo reproduzem muitas vézes os valores

ora mais pronunciados, ora mais atenuados, de suas respectivas

genitoras.

O Imperador Napoleáo Bonaparte podía dizer: «É á minha máe

e aos seus bons principios que devo minha carreira e todo o bem

que tenha praticado».

2. Diferenga social

A personalidade íeminina, sendo diferente da masculina, como

acabamos de ver, destina-se naturalmente a exercer outras funches

na sociedade; em conseqüéncia, atribuir a mulher encargos que se

atribuem ao varáo, está longe de significar engrandecimento e nobi- litacáo, antes equivale a cometer injustica e ofender a dignidade

feminina.

O setor de trabalhos da mulher é, por excelencia, o lar, no

qual ela deve promover harmonía e brilho, interessando-se pelo

marido e os filhos. Compreende-se bem isto á luz de quanto até

aqui foi dito.

Nao se poderiam, porém, limitar as atividades da mulher ao lar apenas. É oportuno que tenha o olhar aberto para as indigencias do ambiente em que ela vive, tomando certa parte nos trabalhos do marido.

Urna esposa de industrial ou comerciante, por exemplo, pode, com

vantagem geral, interessar-se pelo bem dos funcionarios e emprega- dos da firma respectiva. Caso o marido seja propenso a raciocinar

com demasiada frieza, levando em conta principalmente número.s,

estatisticas e valores inanimados, a mulher lhe fará ver que tam-

bém estáo interessadas na empresa pessoas e familias, as quais me-

recem tratamento proporcional áquele que os patrdes dispensam a

si e aos seus no respectivo lar.

Verifica-se outrossim que os regimes de economía e vida social contemporáneos libertaram a mulher de varios afazeres domésticos (hoje os servigos de casa, como limpeza de aposen tendem a ser mais

Isto lhe permite dedi-

tos, preparagáo das refeigóes, lavandaria

e mais funcionáis, simples e rápidos)

car-se a tarefas que se váo abrindo fora do lar e que o curso

da vida moderna tem suscitado com exigencias imperiosas; sao

tarefas que parecem requisitar urgentemente a colaboragáo da

mulher, como assisténcia social, as modalidades de educagáo

especializada, a enfermagem, a ginecología, a medicina de cri-

angas, etc. Mais ainda: a insuficiencia de salario dos maridos e o celibato obrigatório (devido ao excedente de mulheres em

497

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961. qu. 1

rela-áo aos homens, principalmente após as guerras) obrigam

freqüentemente a mulher a se empregar, trabalhando fora do

lar. Compreende-se assim, sem dificuldade, que a mulher venha

a exercer urna atividade pública; contudo nao toda e qualquer

carreira ou profissáo lhe convém: policia, exército, trabalho de minas, conducáo de veículos públicos, etc., nao constituem

o ambiente proporcionado á personalidade da mulher; tomam-

-se mesmo ocasiáo de ruina física e moral para ela.

Deve-se observar que a liberdade precoce <em materia de hora

rios e orcamentos) de que a donzela vem a gozar em relagao a seus

Dais pelo fato de estar trabalhando íora de casa e perceber salario,,

exige receba educacao muito sólida e adequada, a fim de que nao

abuse dessa liberdade.

Dito isto faz-se mister frisar: nao resta düvida de que as tare-

fas que mais estima devem merecer da parte da mulher e mais

honra lhe podem proporcionar, sao as incumbencias de esposa e mae,

as quais tém lugar, por excelencia, no lar.

Quanto ao sufragio feminino ñas eleigóes políticas, é algo

que a consciéncia crista nao sómente aceita, mas hoje em dia

recomenda, pois se eré que as mulheres, por seu temperamento especial, constituiráo sempre um esteio de harmonía e paz

entre os homens e os povos, equilibrando assim as tendencias

mais violentas e, por vézes, apaixonadas dos varóes.

É o que S. Santidade o Papa Pió XII recordava em sua alo-

cucáo proferida ao XIII Congresso da Uniáo Mundial das Orgamza-

gaes Femininas Católica-s, no dia 24 de abril de 1952:

«Há também para a mulher urna atividade exterior, pois, se em outros tempos a influencia da mulher se limitava ao lar e as cer

canas do lar, em nossa época ela se estende (agrade isto ao publico

ou nlo) a um dominio cada vez mais vasto da vida s°«al e pública,,

ou seja aos Parlamentos, aos tribunais, ao jornalismo, as diversas

profiss5es ao mundo do

trabalho.

.Contribua a mulher em cada um

désses setores com a sua obra de paz! Se realmente todas as mu

lheres movidas pelo sentimento ¡nato que lhes faz detestar a guerra,

desenvolvessem urna atividade concreta para evitar os conflitos a£

mados. seria impossivel que a coordenacao te*aj^*am®a £*o

atingisse o seu objetivo» («Acta Apostolicae Sedis» XLIV [195^J <u¿\.

Sabemos que o dire!to dé voto foi reconhecido ás mulheres pau

latinamente no inicio déste sáculo: na Finlandia, em 1907; na No

ruega em 1913; na Dinamarca, na Suécia e na Holanda, em 1915,

nos Estados Unidos da América, em 1920; na Italia, .em 1946; na

Franca de maneira precaria em 1914, de maneira eficaz e genuina

em 1946.

.

Para encerrar estas consideragóes atinentes a tarefas so-

ciais da mulher, váo aqui transcritas algumas sugestóes que

poderáo servir para ilustrar o tema:

498 —

'

VERDADEIRO E FALSO FEMINISMO

«Atualmente a monotonía de certas tarefas que se íazem em serie, é menos.penosa para a mulher, que, mais fácilmente do que

o varáo, é capaz de realizar um trabaflio quase mecánico com as

máos, aplicando simultáneamente o seu pensamento a outros obje

tivos. Nossas avós pensavam em mil coisas enquanto faziam seu tricd ou sua tecelagem. Cabe as mulheres instituir seus inquéritos

a tal propósito e dadnos as respectivas conclusdes.

Dentre as profissSes liberáis, as tarefas do magisterio ficarao sempre franqueadas as mulheres; seria mesmo desejável que a ins- trugáo dos meninos lhes fósse confiada em mate larga escala. Nos Estados Unidos, as escolas primarias católicas estáo em máos de

Religiosas; a juventude jamáis o lamentou.

A mulher será sempre melhor enfermeira do que o "homem,

porque, nos casos de serem ambos igualmente competentes, ela con-

tribui com a paciencia, a dedicagáo e mesmo a resistencia física ne-

cessária ás vigilias, que constituem o apanágio do sexo feminino. As

tarefas de cirurgiáo e de dentista mais pertencem á aleada do ho

mem. A carreira do médico nao deverá ser acessível sem restricáo ás mulheres; contudo há algumas especializacóes em que estas levam varitagem: assim, suposta igual competencia de varáo e mulher, a mulher há de ser mais solícita para cuidar de criancas anormais ou

retardadas, assim como de bebés e anciáos. A mulher é essenciai mente máe sendo segundo o esplrito| Há hoje mulheres na advocacia e nos tri-

mesmo nao sendo máe segundo a carne, ela o ficará

bunaiá. É desejável que lhes confiem a defesa dos menores e que se assentem de preferencia nos tribunais de jovens.

Dever-se-ia preconizar o'acesso das mulheres aos cargos de pre- íeito, ministro, embaixatriz? A norma habitual servirá de criterio

para resolver a questao: a mulher vé a realidade concreta, o bem das pessoas interessa-se calorosamente pela historia das pessoas, pelos fatdres

capazes de tornar os individuos felizes ou infelizes. Seria para dese-

jar que as leis estipulassem em cada conselho municipal, em cada

conselho geral, mesmo em todas as cámaras de representantes do

povo, certo número de lugares reservados ás mulheres, lugares aos quais se prenderla o exercício da funcáo essencial das mulheres, que

é a maternidades (Rondet, art. cit. 939s).

Ela filosofa pouco sobre a historia do mundo, mas

A diferenga social, que acaba de ser recordada, é acompanhada

ainda pela

3. Diferenga religiosa

Verdade é que o varáo e a mulher possuem igualmente

alma religiosa. Contudo a religibsidade no ser humano nao é , do corpo; ao contrario, solicita o homem inteiro, aproveitando as qualidades que cada individuo fornece para dar gloria a

Deus e santificar-se a si mesmo. Assim se explica que a pieda- de da mulher se configure de modo diverso do que caracteriza

a piedade do varáo.

nao é independente das reagóes e manifestagóes

angélica

A mulher, muito dada á ternura do amor e á intuicáo imediata

da realidade, lembra o Amor Divino ou a terceira Pessoa da SSma.

499

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961. qu. 1

Trindade — o Espirito Santo. O varáo, antes propenso á lógica e á

clareza do raciocinio, representa raelhor a Sabedoria Divina, ou seja,

a segunda Pessoa da SSma. Trindade — o Verbo de Deus.

Daí se segué a diversidade de funcóes religiosas que

tocam naturalmente ao varáo e á mulher: o homem é cha

mado para os cargos de chefia, representando diretamente o

Cristo, seja como, marido no lar, seja como sacerdote na hie-

rarquia da Igreja. A mulher é, antes, destinada a representar

o comportamento receptivo e fecundante que cabe á humani-

dade frente a Deus e a Cristo: -a mulher simboliza, sim, a

Igreja, que recebe de Cristo as gragas sobrenaturais da Reden- gáo e as transmite ao mundo (desempenhando um papel de

mac) de maneira pura, incontaminada (desempenhando um

papel de virgem).

A mulher nao convém o exercicio do sacerdocio cristao, pois éste

implica urna posicáo de chefia ou de representacáo de Cristo Cabega.

Ora para tal encargo o Criador se dignou adaptar nao a natureza da

mulher mas a do varáo. Esta conclusáo é corroborada pelos dizeres

do Novo Testamento analisados em «P. R.» 42/1961, qu. 2.

Importa agora acentuar que o reconhecimento das dife-

rencas ácima apontadas de modo nenhum significa seja a mu lher tida, pelo Cristianismo, como criatura secundaria em re- la?áo ao varáo. A visáo crista apenas insiste em que, embora

varáo e mulher reproduzam ambos a imagem de Deus, cada

um o faz de maneira inconfundivel, de sorte que seria ofensa

ao Criador, e detrimento para as criaturas, querer em tudo

equiparar as atividadesdo homem e da mulher na sociedade.

Diga-se, por conseguinte, alguma coisa sobre a igual dignidade

de varáo e mulher tal como a entende o Cristianismo.

4. Apesar de tudo, igual dignidade

1. O Evangelho, entrando no mundo, reabilitou a digni

dade da mulher até entáo depreciada.

Tida como auxiliar condigna do varáo (cf. Gen 2,18), a

mulher é, á luz da Teología, portadora da imagem de Deus,

chamada, como o homem, a ser membro vivo do Corpo Mis-

tico de Cristo e a gozar da eterna visáo de Deus na bem-aven-

turanga celeste; apenas lhe competem aqui na térra fungóes di

ferentes das do varáo no ámbito da sociedade religiosa (Igreja) e civil. Em urna palavra: o Cristianismo reconhece que a mulher

constituí o sexo fraco (ao menos no sentido físico), nao, porém,

sexo secundario ou menos digno de estima do que o sexo forte

ou viril.

500

VERDADEIRO E FALSO FEMINISMO

É Sao Paulo quem proclama:

«Todos vos soisfilhos de Deus

'.

pois todos, batizados em Cristo,

revestistes o Cristo; já nao há judeu nem grego, nem escravo nem

livre, nem varúo nem mullier, pois todos constituís um só era Cristo»

(Gal 3,26-28).

Com estas palavras, o Apostólo nao pretende negar a diversi-

dade de fungóes — que ele alhures no seu epistolario sublinha —,

mas, antes, rejeitar o modo de pensar antigo, que menosprezava a

mulher e o escravo, pelo simples fato de serem mulher e escravo.

Assim, no tocante ao casamento,' por exemplo, a Moral

crista ensina que o que é proibido á mulher, é igualmente proi- bido ao homem; nao pode haver condescendencia para com os

males moráis de quem quer que seja.

A civilizagáo paga anterior a de Roma reconhecia ao marido, e

ao marido sb, o direito de pleitear divorcio, sem levar em conta o

ponto de vista da mulher — o' que naturalmente significava menos-

prézo para com esta. A legislagao de Roma paga já exigía o con- sentimento livre da mulher para proceder ao divorcio. Finalmente as normas matrimoniáis do Cristianismo impuseram o ideal do casa

mento indissolúvel — o que exige mutua doagáo integral de marido e mulher. •

O ideal da mulher crista vem a ser Maria Santíssima em seu tríplice aspecto de virgem, esposa e mae; valorizando Maria,

a Igreja dá um dos mais eloqüentes testemunhos de quanto Ela estima a mulher.

conseguiram,

«Nem Atenas, nem Roma, luzeiros de civilizagáo

pelas altas especulagóes da filosofía ou pela sabedoria de suas leis, elevar a mulher á altura que convém á sua natureza. Ao invés, o Cristianismo em primeiro lugar, e ele só, descobriu e cultivou na

mulher miss5es e tarefas que sao o verdadeiro fundamento da digni- Assim apa- recem e se afirmam, na civilizagáo crista, novos tipos de mulheres,

como o tipo de mártir da religiao, de santa, de apóstola, de virgem,

dade feminina e o motivo da mais auténtica exaltacáo

de promotora de ampias renovag3es, de consoladora de todos os so-

írirnentos humanos, de amparo das almas perdidas, de educadora.

A medida oue se vao manifestando as novas indigencias sociais, a missáo benéfica da mulher se expande, e a mulher crista se torna, o

como a- bom direito é o caso hoje em dia, nao menos

do que

varáo, um fator necessário de civilizagáo e progresso» (Pió XII,

Alocucao ao XIII Congresso da Uniáo Mundial das Organizagñes Fe-

mininas Católicas, proferida aos 24 de abril de 1952).

2. Com vistas em particular ao livro de Simone de Beauvoir

(«Le deuxiéme sexe»), seja licito repetir; a visáo otimista que b

Cristianismo desvenda sobre a mulher, de modo nenhum implica esquecimento das diferengas psico-somáticas vigentes entre os dois sexos. Tais diferengas, incutidas pela natureza mesma, ou seja, pelo

Criador, nao poderáo ser negligenciadas sem que haja detrimento

para a própria dignidade de ambos os sexos; a salvaguarda e a ex-

no respeito as capa-, cidades e ás limitagSes que a natureza imp6e á mulher. É dentro da

pansáo da nobreza feminina estáo justamente

501 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961. qu. 1

linha de suas aptidóes naturais, e sómente dentro desta, que cada

criatura atinge a sua verdadeira grandeza. Por conseguinte, a espe

cial dedicacáo da muiher aos afazeres de esposa e máe no lar, asslm

como as restrigoes feitas á sua intervengáo em certas tarefas da vida

pública, estáo longe de significar servilismo para a natureza femi-

nina; constituem, ao contrario, o roteiro que a muiher deverá levar o seu genuino «feminismo».

em conta para conseguir seu ideal

Vao aquí transcritas oportunas palavras de Pió XII a tal pro

pósito:

«Na sua dignidade pessoal de filhos de Deus, o homem e a muiher sao absolutamente iguais, como também no tocante ao fim

último da vida humana, que é a eterna uniáo com Deus na bem-ayen-

turanca celeste. Constituirá motivo de gloria perene para a Igreja o

fato de ter chamado a atengáo e a estima de todos para esta ver-

dade, libertando assim a muiher de degradante servidlo contraria

á natureza. Todavía o homem e a muiher nao podem conservar e aperfeicoar essa sua dignidade a menos que respeitem e desenvol-

vam as qualidades particulares que a natureza outorgou a um e a

outra; tais qualidades, físicas e espirítuais, sao indestrutíveis, de tal

modo que, todas as vézes que alguém as tente violar, a natureza

mesma se encarrega de as restaurar» (AlocugSo ás Delegadas das Associagóes Católicas da Italia, proferida aos 21 de outubro de 1945).

De outro lado, ninguém fará questáo de afirmar que a muiher

é intelectualmente inferior ao homem, afirmacao esta que Simone

de Beauvoir combate. O fato de que o sexo feminino, no decorrer da historia, nao tenha dado a ciencia tantos nomes famosos quantos deu o sexo masculino, é muito acidental; deve-se,- em grande parte, ao regime educacional dos tempos passados: a muiher era entáo pre parada quase exclusivamente para os deveres de dona de casa, nao

para os estudos. Isto nao quer dizer que ela nao possua notáveis

dotes para a vida intelectual; a historia contemporánea aponta

mesmo os nomes de grandes pioneiras femininas nos setores das

pesquisas científicas e da cultura em geral. Contudo parece que

também na linha da intelectualidade há ocupagoes que mais convém

ao homem do que k muiher; quais seriam essas tarefas, eis o que a experiencia, e nao a teoria forjada de antemao. deve dizer.

3. Por fim, pode-se notar que, se os movimentos feminis

tas modernos suscitaram atitudes reservadas por parte de pen- sadores católicos, isto se déve ao fato de terem sido tais movi mentos freqüentemente encabecadps por arautos materialistas, em particular socialistas ou marxistas, os quais faziam da «emancipacáo da muiher» um aspecto da «luta de classes» re

volucionaria. Na verdade, a emancipacáo da muiher tem sido

(e ainda é em nossos dias) muitas vézes planejada dentro de

quadros ateus tendentes ao socialismo exagerado e ao comu

nismo.

No sáculo passado, por exemplo, o socialista Saint-Simón (t 1825) e seus discípulos eram enérgicos porta-vozes da emancipagáo da mu iher visando sem dúvida mitigar a sorte das numerosas operarías que entao trabalhavam ñas fábricas sob um regime muito pouco hu

mano. Contudo verifica-se que a forma socialista-marxista de eraan-

502

VERDADEIRO E FALSO FEMINISMO

cipagáo é de todo ilusoria: desarraiga do lar a esposa e máe, tor nando-a, mero órgáo de reproducáo da sociedade; numa nacao socia lista, a mulher, depois de gerar a prole, a entrega ao Estado, que

se encarrega da educacáo das criancas; entrementes a máe de familia

vai ocupar de novo seu lugar na fábrica ou na oficina, equiparada ao varao no pior sentido que esta expressáo possa ter.

Em 1945 o Santo Padre o Papa Pió XII denunciava o

mterésse pouco construtor que os Estados totalitarios tém na

«libertagáo da mulher»:

«Para a mulher voltam-se varios movimentos políticos, a finí de

a ganhar para a sua causa. Alguns sistemas totalitarios Ihe poem

ante os olhos estupendas promessas: paridade de direitos com o ho-

mem; protecáo ás gestantes e parturientes; cozinha e outros ser- vicos comunitarios que a libertem do peso dos cuidados domésticos,

jardins de infancia públicos e outras instituigóes mantidas e admi nistradas pelo Estado

a fim de a eximir dos deveres maternos

para com os próprios filhos, escolas gratuitas, assisténcia médica em casos de doenca

Nao intencionamos negar as vantagens que se possar.i originar de

urna ou outra dessas medidas sociais, desde que sejam aplicadas

dentro das devidas proporgóes

Contudo ainda continua aberta a

questáo essencial: ter-se-á assim melhorado a condicao da mulher?

A paridade de direitos com o homem, fazendo a mulher abandonar

a casa, onde ela era rainha, assujeitou-a ao mesmo fardo e tempo

de trabalho. Tém-sé desprezado a sua verdadeira dignidade e o sólido

fundamento de todos os seus direitos, isto é. as características pró-

prias do seu ser feminino e a íntima coordenacáo dos dois sexos;

tem-se perdido de vista o fim intencionado pelo Criador desejoso do bem da sociedade humana e principalmente da familia. Ñas conces-

s5es feitas k mulher, é fácil perceber nao tanto o respeito á digni- dad-3 e á missáo da mesma quanto o intuito de promover o poderío económico e militar do Estado totalitario, ao qual tudo há de ser

inexorávelmente subordinados (Alocugáo ás Delegadas das Associa- cdes Católicas da Italia, proferida aos 21 de outubro de 1945).

Á luz das observagóes até aqui propostas, concluiremos que o Cristianismo nao é absolutamente infenso ao chamado «feminismo» ou á tendencia a dar maior projegáo á mulher na

vida pública. Contudo essa maior projegáo, segundo a con-

cepgáo crista, observará sempre as leis e os limites impostes

pela natureza ao varáo e á mulher, de modo a merecer rejei-

gáo qualquer sistema que vise equiparar promiscuamente' os

dois sexos na distribuigáo das tarefas sociais (os limites e as diferengas de atribuigóesforam suficientemente esbogados nos parágrafos precedentes).

«A mulher está obrigada a contribuir com o varáo para o bem da «civitas», na qual ela compartilha dignidade igual á do homem; cada qual dos dois sexos deve tomar a si a parte que Ihe diz respeito

503

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961. qu. 1

de acordó com a sua natureza, as suas características, as suas apti-

"dóes físicas, intelectuais e moráis. Ambos tém o direito e o dever de colaborar para o bem total da sociedade e da patria; mas está claro

que o homem é, por temperamento, mais levado a tratar de afaze-

res exteriores, de tarefas publicas, ao passo que a mulher costuma

ter mais perspicacia e mais tato para avaliar e resolver os proble mas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida

social (o que, alias, nao impede que muitas saibam realmente dar

provas de grande habilidade nos setores mais variados das ativida-

des públicas» (Pió XII, Alócueáo as Delegadas das Assocíagóes Cató

licas da Italia, de 21 de outubro de 1945).

Apéndice: A Magna Carta das Maes

Á guisa de complemento ilustrativo, segue-se aqui o do cumento básico ou a «Magna Carta do Movimento Mundial das Máes», movimento fundado em Paris no ano de 1947, como fruto do III Congresso Internacional intitulado «A Máe, artífice do progresso humano». A Organizagáo das Nagóes Unidas

(ONU) recebeu o Movimento em seu gremio, entre as asso-

ciagóes náo-governamentais. Reúne as organizacóes de cada

país que prestem adesáo á «Magna Carta das Máes» abaixo

transcrita:

'

«A máe se coloca em primeira linha entre os artífices do pro gresso humano na vida familiar, económica, social e cívica.

Chamada a realizar, com o pai, a obra de procriacáo, a mae é, com o- pai, responsável, segundo os designios de Deus, pela tárela .

educadora que complementa a obra do Criador.

Ela desenvolve os valores moráis e espirituais sem os quais qual- quer tipo de civilizacáo redunda em aviltamento da pessoa humana,

que passa entáo a ser considerada como meio e nao como fim. A influencia que a mae exerce no lar, deve irradiar-se na cidade,

na vida nacional e internacional. Os dons peculiares da mulher pres-

tam contribuigáo indispensável á vida cívica, social e económica.

O Movimento Mundial das Máes, para realizar a sua tarefa, apoia-

se sobre as declaracSes seguintes:

1) Dotada da mesma natureza que o homem, a mulher deve

gozar de liberdade nara escolher seu estado de vida, assim como da

faculdade de ai se expandir em toda a medida do possivel;em par

ticular, ela tem direito absoluto ao respeito de sua personahdade na

vida conjugal e na maternidade. 2) A educacáo e a vida social devem levar em conta tanto a igualdade essencial do varao e da mulher como as diferengas espe

cificas que correspondem ás funcóes próprias e complementares de

um e de outra.

3) A uniáo dos esposos e a fecundidade da sua vida conjugal nao devem ser nem impostas nem entravadas pelas legislacñes, as

instituigñes ou as organizacóes económicas.

4) A familia legítimamente constituida e estável é que pode

assegurar a máe o ambiente mais favorável á sua felicidade pessoal,

á do seu marido e á dos filhos. Será também a familia o melhor esteio da grandeza da patria e do progresso do género humano.

504 —

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

5) É na familia, e em particular por intermedio de seus genito

res que os iilhos recebem normalmente os principáis elementos do sua íormacáo pessóal e familiar. As instituicSes públicas ou parti

culares devem prolongar, completar, e nao substituir a educacao

dada pela familia.

6) As condicSes de vida económica das nagSes devem permitir á

mae que livremente se consagre as suas funcSes domésticas; as ati-

vidades familiares e caseiras das maes tém, alias, real e importante valor económico na vida das nacóes, principalmente na economía da

consumagáo.

Em conseqüéncia, é indispensável que ñas diversas nag5es se tra-

balhe para que a opiniáo pública, as leis e as instituicóes reconhé- gam a valor da missáo da mulher no mundo, particularmente o valor

da sua tarefa na familia e na sociedade».

Assim fala a sabedoria humana ainda no sáculo XX, em con

sonancia coma mensagem crista!

H. SAGRADA ESCRITURA

ESTUDIOSO (Salvador):

2) «Quem terá sido o autor do Pentateuco (Génesis,

Éxodo, Levítico, Números, DeuteronSmio)?

Moisés? Hoje em día, há quem o negué. Os uossos concei-

tos bíblicos mais fundamentáis vao sendo sueessivamente revo

lucionados!»

-

A questáo do autor do Pentateuco háo é mero problema

de literatura e historia. Envolve a filosofía e a teolpgia, pois a

ela se prende a nossa maneira geral de conceituar o Judaismo

e o Cristianismo. Com efeito, se Moisés, chefe e libertador do povo de Israel no séc. XIII a. C, é o autor dos cinco livros

citados, pode-se admitir a índole sobrenatural da religiáo ju

daica e, por conseguinte, do Cristianismo. Se, porém, o Penta

teuco teve origem posterior a Moisés e foi falsamente atribuido a éste personagem, a religiáo de Israel e a sua continuacáo no

Cristianismo estáo baseadas sobre o erro ou mesmo sobre a

mentira e a fraude; nada tém de sobrenatural, fazendo-se

mister entáo reformar nosso conceito tradicional de Cristianis

mo. Daí o interésse que racionalistas e cristáos dedicam ao es-

tudo do assunto.

Embora o católico saiba que a sua fé nada tem a recear da parte

dos críticos, nao lhe é vedado (pode-se mesmo tornar recomendável) considerar os termos dos debates movidos em torno de Moisés e do Pentateuco. Devidamente conduzidos, ésses estudos podem benefi

ciar a fé, pois lhe dáo por base um mais claro conhecimento dos

designios da Providencia.

505

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 2

Guiados desde já por esta perspectiva, abaixo examinaremos, em

primeiro lugar, um pouco do histórico da questáo; a seguir, referi remos os principios de solucáo propostos pela sadia exegese con

temporánea.

1. O histórico da questáo

A. Até o séc. XVI

Pode-se dizer que até o séc. XVI ninguém pensava seria

mente em negar, tenha sido Moisés o autor do Pentateuco.

A atitude positiva dos estudiosos era apoiada por forte

tradigáo de testemunhos em favor da autoría de Moisés; désses

testemunhos váo aqui citados os principáis:

1) testemunhos do próprio Pentateuco. Lé-se explícita

mente no Pentateuco que Moisés escreveu ao menos certos epi

sodios do Livro Sagrado:

assim a batalha de Israel contra os amalecitas (Éx 17,8-13); cf.

Éx

17

4

*

as" íeis «Código da Alianca» (Éx 20,23-23,33); cí. Éx 24,4;

as condicoes da Alianca (Éx 34,11-26); cí. Éx 34,27;

as etapas da caminhada no deserto (Núm 33,2-49); cf. Núm 33,2;

a pega poética que comumente é dita «cántico de Moisés» (Dt

32,1-43); cf. Dt 31,22;

urna lei entregue aos levitas, a qual, segundo o contexto, bem

poderia ser quase o livro inteiro do Deuteronómio (cf. Dt 31,9. 24).

Os estudiosos presumiram que Moisés tenha redigido ainda outras

passagens do Pentateuco, pois sómente assim se explicaría a designa-

gao «Livro da Lei de Moisés» ou «Lei de Moisés», íreqüente na tra-

dicáo judaica para designar os cinco primeiros escritos da Biblia.

Com efeito; tenham-se em vista

2) testemunhos das Escrituras do Antigo Testamento. Ha

mengáo do

«Livro da Lei de Moisés», em Jos 8,31; 23 ;6; 4 Rs 14,6;

«Livro de Moisés», em 4 Rs 2,3; 2 Crón 35,12; Esdr 6,18; Ne 13,1; «Livro da Lei do Senhor dada por meio de Moisés», em 2 Crón

3414'

' «Lei de Moisés», em 2 Crón 23,18; Bar 2,2; Dan 9,11.13.

Levem-se em conta ainda algumas passagens dos Profetas em

que a redacáo do Pentateuco é associada a Moisés: Os 8, 12; Jer 31,33;

Am 2,9s; 4,11; Is 1, 11-14; Bar 2,27s.

O depoimento désses textos parece corroborado pela auton-

dade dos

3) testemunhos do Novo Testamento.

Também o Senhor Jesús se reíeriu ao «livro de Moisés» (Me 12,26), á «Lei dada por Moisés» (Jo 7,19). Asseverou que Moisés es-

506

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

creveu a respeito de Jesús, mas que os judeus nao acreditavam néle

(Jesús), porque nao davam fé nem mesmo aos escritos de.Moisés

(Jo 5 46s) Certas prescrig6es do Pentateuco sao tidas pelo Senhor

como' prescricSes de Moisés: assim a circuncisáo (Lev 2,3;cf. Jo

722); o libelo de repudio á esposa (Dt 24,1; cf. Me 10,3-5; Mt 19,8); a oblagáo do leproso curado (Lev 13,49; 14,2-32; cí. Mt 8,4; Le 5,14).

Também os contemporáneos de Jesús atribuiam a Moisés as leis

do Pentateuco; assim. os lariseus (cf. Mt 19,7; Jo 8,5; At 6,14), os

saduceus (cí; Mt 22,24), os discípulos de Cristo (cf. Jo 1,45).

"Tal modo de pensar reaparece nos escritos dos Apostólos: At

322s (cf. Dt 18,15,39; 7,37; Lev 23,29); At 7,37s; 28,23; Rom 10,5 (cf. Lev 18,5; Dt 30,12s); Rom 10,19 (cf. Dt 32,21); 1 Cor 9,9.

Além désses, merecem ponderacáo os

4) testemunhos da tradicao judaica e crista.

Pode-se dizer que até o séc. XVI era quase unánime a afirma-

gao de que Moisés escrevera o Pentateuco, de tal modo que parece

inútil transcrever aquí algum depoimento. Interessa apenas realcar

como essa' arenca estava arraigada: segundo os escritores judeus

Flávlo José (t 102/103 d. c.) e Filáo de Atexandria (t cérea de 50

d c) terá sido o próprio Moisés quem em Dt 34 escreveu anteci-

padamente a narrativa da sua morte (cf. Ant. IV 8,48; Vita Moisis

II 51).

Sis, porém, que nos tempos modernos se modificou o pensamento dos exegetas; agugados por senso crítico assaz perspicaz, assim como por conhecimentos mais exatos de historia, lingüística e literatura

antigás. Aos poucos foram percebendo que a questáo da redagáo do

Pentateuco é mais complexa do que se pensava; esta se deve ter

processado por etapas e pela colaboragáo de máos diversas.

Conseqüentemente comegaram a ser propostas teorías diversas a respeito das origens do livro da Lei de Israel. Voltemos nossa aten-

gáo para essa segunda fase da historia da exegese do Pentateuco.

B. Do séc. XVI aos nossos días.

Após tímidos ensaios inovadores nos séc. XVI e XVII, ini-

ciou-se própriamente no séc. XVIII a chamada «Crítica do Pen

tateuco».

Costuma-se indicar como protagonista da nova atitude exegética o médico francés da corte de Luís XV, Jean Astruc. católico conver tido do calvinismo. Em 1753, Astruc propunha suas idéias no livro «Conjectures sur les mémoires originaux dont il paroit que Moyse s'est servi pour composer le livre de la Genése»: tendo observado o uso de certos vocábulos e, em particular, o dos nomes de Deus —

Javé e Eloím — no livro do Génesis e nos dois primeiros capítulos do Éxodo concluía que, além de fontes menores, quatro principáis documentos haviam concorrido para a confecgáo do Génesis; désses,

dois lhe pareciam sobressair pela sua importancia: o documento

Eloístlco (no qual a designagáo Eloim predominava) e o documento

javistico (no qual Javé era muito mais freqüente). Assim surglu a

«teoría dos documentos».

507

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 2

Como se compreende, esta hipótese nos decenios seguintes foi

rees ludada e retocada de diversos modos. Estenderam-na a todo o

Pentateuco: outras teorías lhe íoram acrescentadas ou substituidas,

dando um panorama complexo de sentencas oscilantes ou mesmo con-

traditórias urnas as outras, que nao vem ao caso expor aquí.

2. Passaremos ¡mediatamente á teoría que representa o

ponto alto da crítica, alcangando grande voga entre os estu

diosos: é a teoría do professor alemáo Julio Wellhausen (1844-

1918), a qual se aplica nao sómente ao Pentateuco, mas tam-

bém ao livro de Josué (conjunto éste que Wellhausen denomi-

nava «Hexateuco»). Eis as grandes linhas do sistema:

Wellhausen partía de um pressuposto nao própriamente

exegético nem literario, mas filosófico hegeliano: admitía, sim, que todos os povos passam por um evolucionismo cultural e religioso, percorrendo sucessivamente fases de vida nómade

(errante), agrícola (estável, sedentaria) e comerciante, para

chegar finalmente ao artesanato. Paralelamente, a mentalidade

religiosa se desenvolvería a partir de formas e práticas gros-

atingindo por úl

), timo o monoteísmo (culto de um só Deus pessoal e transcen dente). O povo de Israel nao terá escapado a essa trajetória

seiras (animismo, fetichismo, politeísmo

de evolugáo, conforme Wellhausen; foi, portante, em fungáo

déste pressuposto que o crítico alemáo arquitetou a sua teoría

sobre a origem da Lei de Israel, manifestando, alias, profundo

ceticismo no tocante ao valor histórico dos livros bíblicos. É

muito revolucionaria a idéia que do antigo povo hebreu propos

Wellhausen; com efeito, os iniciadores do monoteísmo em Israel teriam sido os profetas (séc. IX/Vm a. C); os escritos

déstes constituiriam as partes mais antigás da Biblia. Quanto

ao Pentateuco, ter-se-ia originado por fusáo de quatro documen

tos oriundos em épocas diversas, náó, porém, antes do séc. IX (Moisés viveu no séc. xm a. C). A fim dé granjear autori-

dade para a obra resultante da fusáo, a classe dominante em

Israel a terá atribuido a Moisés, figura semi-lendária, de cuja historia pouco ou nada se sabe. As quatro fontes utilizadas

seriam:

1) o Código Javista (J), que teve origem no reino de Judá, me

ridional, por volta de 850 a. C; comeca pela segunda descricáo da

criacao do mundo em Gen 2,4b. compreendendo a historia dos Patri

arcas a vida de Moisés e ao menos as primeiras incursSes de Israel

na térra de Canaá. Usa desde o inicio das suas narrativas p nome de Javé, com o qual Deus se revelou a Moisés.

2) O Código Eloísto (E), que se originou pouco depois (antes

de 722, queda de Samaría) no reino da Samaria (setentrional). Nesse

documento, que comeca com a historia de Abraao, Deus aparece íre-

508 —

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

qüentemente a falar em" sonhos e a manifestar diretamente seus

designios aos homens; os Patriarcas sao politeístas. Usa predominan temente o nome Eloün, ficando Javé reservado a secg6es posteriores

a Éx 3 (revelacao do nome Javé no Sinai).

Os documentos J e E teráo sido fundidos, e de algum modo reto cados em um único «Jeovista» (JE) por volta de 650.

3) O Deuterondmio (D) se deverta a um grupo de sacerdotes de

Jerusalém, que desejavam fazer do templo de Jerusalém. o santuario

Único, nacional; em conseqüéncia, teráo redigido ésse código como

se fósse escrito por Moisés, e em 622 o teráo apresentado ao público

qual obra recém-descoberta no templo após um periodo de esqueci-

mento. Foi fundido com JE, servindo de norma para a revisáo dos

escritos sagrados anteriores.

4) O Código Sacerdotal (P, do alemáo «Priesterkodex») seria a

compilacao de algumas series de narrativas e leis, de caráter ritual.

A compilacao se terá feito por etapas no fim do exilio (séc. VI a. C.)

ou pouco depois (séc . V), sob a influencia do profeta Ezequiel e da

su? escola de sacerdotes. Foi promulgada por Esdras em meados

do séc. V aproximadamente. O Código P foi fundido com a obra JED,

fornecendo o quadro ou o arcabougo para as demais narrativas e

leis; assim se constituiu a chamada «Lei de Moisés» ou a Torah dos judeus. que, a partir de. 330 a. C. (época de Alexandre Magno), nao

terá sófrido ulteriores acréscimos.

Eis, rápidamente expostas, as idéias de Wellhausen.

No mundo dos exegetas encontraram franco apoio da parte

de uns, como também decidida oposieáo da parte de outros.

Durante decenios, nao há dúvida, exerceram considerável influ

encia sobre os estudos e as publicacóes bíblicas em geral. A me dida, porém, que se foram avolumando os resultados de pesqui .foram-se evi

sas literarias, arqueológicas, historiográficas,

denciando também as falhas da teoría wellhauseniana; esta apa-

receu como sistema demasiado esquemático e rígido, sugerido

por idéias preconcebidas mais do que pelo exame da realidade

histórica; os discípulos de Wellhausen dissecaram os próprios

documentos-fontes, tentando, segundo criterios mais ou menos

arbitrarios, distinguir «fontes de fontes»; imaginaran! urna nova

cronología absoluta e relativa, de modo que hoje em diá estáo

longe da unanimidade nesse setor.

3. Que dizer, em grandes linhas, da teoría de Wellhausen?

Em resumo, duas sao as principáis deficiencias do sistema.

1) É inconsistente o pressuposto de que a religiáo de Is

rael tenha passado paulatinamente das formas mais grosseiras

até a mais pura ou o monoteísmo. De modo geral, as pesquisas

de historia das religióes deram a ver que o animismo, o feti

chismo e semelhantes crencas nao sao expressóes primitivas e

originarias da religiosidade, mas constituem modalidades pos

teriores e decadentes. Em particular no povo de Israel, nao há

vestigio de politeísmo ou idolatría, de tal modo que o monote-

509

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 2

ísmo parece realmente ter sido nao a forma tardía, mas a ex-

pressáo primaria e genuina da religiosidade em Israel.

Os argumentos que corroboram esta conclusáo já foram apre-

sentados em «P. R.» 2/1957, qu. 6; aqui lembramos apenas que, desde

os primeiros capítulos da Biblia, os autores israelitas se referem a

um so Deus: assim na descrieáo da criacáo do mundo um so Senhor

tira do nada todas as coisas (Gen 1,1-2,4); é Ele mesmo quem se manifesta aos primeiros homens (Gen 2,25-4,26), permite o diluvio e contrai alianca com Noé (Gen 6-9); dispersa os homens soberbos

(Gen 11,1-9) e finalmente se revela a Abraáo e ao poyo de Israel

(Gen 121-3). Donde se vé que os escritores de Israel tinham cons-

ciéncia de que a religiáo primitiva era monoteísta e de que &les

éram, por vocacáo divina dirigida a Abraáo (séc. XVIII), os herdei-

ros e continuadores désse monoteísmo primordial.

Isto explica, já nao haja em nossos dias estudioso sincero que atribua aos profetas a invengáo do monoteísmo israelita.

2) As descobertas arqueológicas e literarias foram mos

trando com evidencia crescente que as leis e narrativas conti- das no Pentateuco eram muitb mais antigás do que julgava

Wellhausen; em conseqüéncia, percebeu-se que as datas de ori

gem dos documentos-fontes J e E (séc. IX/VHI a. C.) assina-

ladas pelo crítico alemáo nao poderiam ser sustentadas. Com

efeito, as pesquisas contemporáneas tém manifestado aos es

tudiosos o ambiente do Próximo Oriente com seus códigos legis

lativos e seus monumentos literarios; um confronto désses do

cumentos com a Lei de Israel permite estabelecer muitos pon

tos de contato entre o Pentateuco e a cultura oriental (egipcia,

assiria, babilonia, fenicia

)

do segundo milenio a. C, de modo

que se deve admitir para os dados (leis e narrativas) do Penta

teuco origem muito anterior ao movimento profético (séc. IX a.

C). Wellhausen, ao propor suas datas, nao tinha conhecimento désses resultados da ciencia arqueológica contemporánea.

«Os estudos de arqueología e de historia antiga evidenciaram de modo especial que Israel nao é um povo ¡solado na historia da civi- lizacao . A descoberta de códigos orientáis, dos quais alguns sao

de varios séculos anteriores a Moisés (nos últimos anos, além do

encontrados os códigos mais antigos dos

código de Hamurabi, íoram xeis Lipit-ishtar e Bilalama), mostrou que o corpo de leis de Moisés, atribuido por Wellhausen á época do exilio (séc. VI a. O. contém

elementos arcaicos; ele nao é, de modo algum, anacrónico na época

em que a Biblia o coloca» (G. Rinaldi. Pentateuco, em «Enciclopedia

Cattolica» IX 1151).

Feitas estas observagóes restritivas á teoría de Wellhausen

e as que déla dependem, fica aberta a questáo: que se deverá

entáo dizer, em termos positivos, a respeito da origem do Pen*-

510

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

tateuco? Excluir-se-á a hipótese de fontes e da colaboragáo de

varios redatores? É o que passamos a analisar.

2. Principios de solucao

Nao resta dúvida de que a origem do texto do Pentateuco,

como ele hoje existe, corresponde a um processo histórico lento

e complexo, do qual nao se pódem recompor com toda a exati-

dáo as fases sucessivas. A sadia crítica moderna se contenta com a indicagáo de pontos adquiridos no estudo, pontos que

deveráo merecer atencáo em qualquer tentativa de reconstitui-

gáo completa, da historia.

Tais pontos :reduzem-se aos tres seguintes:

1) Na configuracáo "do texto atual do Pentateuco, nao se podem negar o uso de fontes e a colaboracáo de máos diversas.

Esta afirmacáo se baseia em indicios varios:

a) falta, por vézes, continuidade ou nexo lógico entre

certas seccóes do Pentateuco — o que faz crer hajam sido redi-

gidas independentemente urnas das outras e posteriormente

Haja vista, por exemplo, a secgáo Gen l,l-,4a: narra a criacáo

do mundo até a etapa iinal. Pois bem; logo em 2,4b o leitor é recon-

duzido á íase da térra deserta e destituida de vegetagáo; o escritor

sagrado p6e-se entáo a narrar de novo o aparecimento do homem,

dos vegetáis e dos animáis

Em homens comegaram entáo a invocar o nome de Javé. Ora pouco adi-

ante, em 5,1, recomeca a historia da descendencia de Adáo com o nas-

cimenfo de Sete, nao havendo mencao do nome de Javé até 5,29. Le- vem-se em conta outrossim Gen 7,7 e 7,10; Ex 19,9-25 e 20,18-21. As vézes, a continuidade da- narrativa é interrompida por urna seceáo, que parece inserita: assim o texto de Éx 2,23a se prossegue

lógicamente em 4,19. As admoestagoes de Moisés a Data e Abirá,

em Núm 16,12-15, se prosseguem nao em 16,16-24 (revoíta de Coré),

mas em 16,25-35 (punieáo dos dois mencionados revoltosos).

Gen 4,26, lé-se que Adáo teve um filho, Sete, e que os

b) Kegistram-se sececes em duplicata.

Tenham-se em vista, por exemplo, as duas descricoes da criagao (Gen l,l-2,4a c 2,4b-25); a vocacao de Moisés é narrada duas vézes

(cf. Ex 3 e 6). O Decálogo é referido pela primeira vez em Éx 20, pela segunda vez em Dt 5. O catálogo das principáis íestas religiosas

- aparece em cinco passagens: Éx 23,14-17; 34,8-23; Dt 16,1-16; Lev

23,1-44; Núm 28s. A respeito dos dizimos, a legislagáo ocorre em

quatro trechos distintos: Lev 27,30-33; Núm 28,21-24; Dt 14,22-29 e

26,12-15

As vézes o enunciado'da mesma lei é assaz uniforme ñas

diversas secc5es em que ocorre; outras vézes, porém, parece supor

511

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 2

diferentes situagóes económicas, sociais e religiosas; assim a lei do ano sabático em Éx 23,10s visa apenas os produtos agrícolas, ao

passo que em Dt 15,1-15 tem em mira as dividas pessoais.

c) O vocabulario e o estilo do Pentateuco oscilam, suge-

xindo autores diversos.

O uso das designacoes de Deus, de acdrdo com o texto hebraico,

do Pentateuco, se configura do seguinte modo:

Núm Total Gen ÉX Lev Dt 387 547 1782 Javé 145 393 310 165 56
Núm
Total
Gen
ÉX
Lev
Dt
387
547
1782
Javé
145
393
310
165
56
10
10
241
Eloim
20
1
21
Javé-Eloim

Verdade é que o criterio dos nomes divinos nao merece plena confianca, pois os manuscritos por vézes discordam entre si na trans-

missáo do texto sagrado.

Note-se que o sogro de Moisés é chamado Raguel em Éx 2,18, Jotro em Éx 31; 4, 19, e Hobab em Jz 1.-16; 4,11. A montanha onde Deus se revelou a Moisés, é o Sinai (em Éx 3,12;19,l-3) também dito

Horeb (em Éx 3,1; 17,6; 33,6 e no Deuteronómio). No Deuteronómio ocorrem

expressóes características, como

«Javé teu Eloím», «vosso Eloim», «aderir a Deus», «fazer o que é

bom aos olhos de Javé», «exterminar o mal do meio de

«obser

»,

var os mandamentos». O estilo é original, solene, moroso e ampio.

Diferentes mentalidades se refletem ñas páginas do Pentateuco.

Com efeito, urna serie de textos revela um modo de pensar muito

amigo, dos esquemas, dos números, das datas, das genealogías, usando de formas de estribilho (cf. Gen l,l-2,4a; 5,1-32); ésse modo de pensar, também muito afeifoado á Lei e aos ritos, é dito «sacerdo

tal»; os textos que déle dependem, sao agrupados numa fonte deno minada «Código Sacerdotal» (Priesterkodex, conforme Wellhausen).

Ao lado dessa mentalidade, reflete-se no Pentateuco um modo

de pensar muito mais espontáneo e vivaz, que tende a fugir dos es

quemas e da monotonía; concebe Deus em termos figurados, a seme-

lhanga de um homem (antropomorfismos); nao costuma enunciar

as verdades por meio de fórmulas abstratas,' filosóficas, mas antes

por meio de diálogos movimentados. Além disto, revela gdsto parti

cular pelas explicagSes etimológicas de caráter popular, interpretan

do por exemplo, os nomes de Eva (Gen 3,20), Caim (Gen 4,1). Noé (Gen 5,29). Ismael (Gen 16,1). Isaque (Gen 18,12-15), Amon e Moab

(Gen 19 37s), Jaco, Esaú e Edom (Gen 25,25s), Babel (Gen 25,25s), Babel (Gen 119), Segor (Gen 19,22), Bersabéia (Gen 26,33), Betel

(Gen 28,19). Tal é a mentalidade dita «javista», porque está asso- ciada aos textos em que predomina o nome «Javé».

Também se assinala a mentalidade elofsta (ligada ao uso do nome

«Eloim»), caracterizada por conceitos mais espirituais e menos antro-

pomórficos a respeito de Deus; também marcada por especial apreco á moral e por estima dos sonhos como cañáis de comunicacjio de

Deus aos homens.

d) Podem-se apontar no Pentateuco passagens que, supon-

do época posterior a Moisés, devem ser atribuidas a redatores

subseqüentes.

512

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

Tais seriam: o estatuto do reí (Dt 17,14-20; cf. 1 Sam 10,25); a

tabela dos reis de Edom (Gen 36,31-39; cf. v. 31); preceitos íora de

propósito nos tempos de Moisés, como a lei do siclo do santuario

(= templo de Jerusalém, construido no periodo dos reis), em Ex

303; glossas explicativas, como Éx 16,35s

A conclusáo de que o Pentateuco teve suas fontes litera

rias e sofreu acréscimos posteriores torna-se destarte assaz evi dente ao estudioso. Para o exegeta católico, é corroborada pelo

testemunho da Pontificia Comissáo Bíblica, a qual em 1948

assim se pronunciava:

«Quanto á composigáo do Pentateuco

junho de 1906 Já a

em

Pontificia Comissáo Biblica admitía se dissesse que Moisés, ao com-

por a sua obra, se tenha servido de documentos escritos ou de tra- digbes oráis e admitía outrossim modiíicac3es e adicSes posteriores

a Moisés.

Hoje ninguém p5e mais em dúvida a existencia dessas iontes ou

recusa admitir um aumento progressivo das leis mosaicas devido as

circunstancias sociais e religiosas de épocas posteriores, aumento pro

gressivo que se manifesta também ñas narrativas históricas. No en- tanto, há presentemente, mesmo entre os exegetas nao católicos, as

mais diversas opini6es sóhre a natureza, o número, a nomenclatura

de tais documentos e sua data. Nem faltam autores que, em varios .

países, com argumentos puramente críticos ou históricos e sem in-

tengáo apologética, rejeitam decididamente as teorías até agora mais em voga e procuram explicar as particularidades de redagao do Pen- .

tateuco nao pela diversidade dos supostos documentos, mas pela psico-

log'a e pelas características, melhor conhecidas hoje, do pensamento

e da expressáo dos antigos orientáis, ou pela diversidade do género

literario exigido pelas varias materias. Convidamos por isto os sabios católicos a estudar estes problemas sem preconceitos, k luz da crítica

verdadeira e dos resultados obtidos pelas outras ciencias relaciona das. <Um estudo assim ieito determinará por certo a grande e profun da influencia de Moisés como autor e como legislador» (Carta ao Car-

deal Suhard, de Paris. aos 16 de Janeiro de 1948).

Urna vez estabelecido o uso de fontes na redacáo do Pen

tateuco, póe-se ulterior questáo: quais seriam essas fontes?

2) As fontes do Pentateuco sao tradigóes assaz antigás do

povo de Israel, as quais foram sendo reunidas em «familias de

tradisoes», em parte oráis, em parte escritas, e nao necessária-

mente em códigos ou blocos literarios escritos.

Esta proposicáo se apoia na realidade da vida, do povo israelita antigo, que passamos a expor mais minuciosamente:

Supóe-se que, junto aos grandes santuarios da Térra Santa, se foram formando, desde remota época, narrativas de índole

Eram recitadas perante os peregrinos, servindo-lhes de instrucáo e motivo de oracáo; visavam dar resposta as questóes fundamentáis de toda cria-

histórica ou de índole legislativa

513 _

_

,

«PERGUNTÉ E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 2

tura humana e, em particular, do povo de Israel (Donde vimos? Para onde vamos? Que fazemos na térra?). — Tais tradigóes,

das quais urna ou outra terá sido esporádicamente redigida

por escrito, foram sendo agrupadas em «ciclos» ou «familias»,

sob a influencia de algum personagem respeitável

rios de agrupamento eram múltiplos:

Os crite

.

Podia ser um determinado vocábulo ou um esquema de redagao.

Entre ésses vocábulos-chaves, tornou-se muito importante, por exem-

plo, a palavra toledoth (= geragóes ou historia de

nota-se, com

);

eíeito, que o livro do Génesis é percorrido por nove toledoth, ou nove

blocos literarios, dos quais oito referem os nomes e alguns dos feitos

dos descendentes de determinado personagem: assim há os toledoth

(geragóes livro da familia) de Adáo (Gen 5,1), Noé (6,9), Sem (11,10),

Terá (11,27) Ismael (25,12), Isaque (25,19), Esaú (36,1). Jaco (37,2);

distingue-se mais um toledoth no Génesis, que é a peca inicial ou l,l-2,4a, «historia da

formacüo do céu e da térra». No livro dos Nú

meros (3,1-4) léem-se outrossim os toledoth de Aarao e Moisés. — Destarte a historia religiosa da humanidade era descrita mediante a

apresentacáo de series de geragóes.

O criterio de agrupamento das tradigóes podia ser também a

trama da vida de certo personagem. Assim distingue-se o «ciclo da

vida de Abraao»: as peregrinagóes déste Patriarca (Gen 12), a sepa-

ragáo de Abraáo e Lote (Gen 13), a alianga com Deus (Gen 15), o

nascimento de Israel (Gen 16), a intercessáo de Abraao em favor de Sodoma e Gomorra associada á promessa do nascimento de Isaque

(Gen 18s), o nascimento de Isaque (Gen 21,1-7), o sacrificio de Abraao

(Gen 21,14-18), a solicitude do velho pai em proporcionar digno casa mento a seu filho (Gen 24).

Mais ainda: podiam-se agrupar as tradigSes de acordó com os

respectivos temas havendo entáo em cada familia de tradig5es um tema central a dominar a serie de episodios. É o que se dá, por.exem- plo com o tema do «pecado que se vaí mais e mais propagando»: esta idéia confere unidadc aos episodios de Gen 2,4b-4,24 (criacáo, pecado

original e pecado de Caim), 6-9 (o pecado provocador do diluvio),

9,18-29 (o pecado até mesmo entre os filhos do justo Noé), 11,1-9 (a

soberba é a torre de Babel). Ésses quadros constituem o fundo negro

que justifica e explica a vocagao de Abraao por parte do Senhor.

Os críticos contemporáneos costumam admitir que os agru-

pamentos de tradigóes, por suas notas características, vém a^

coincidir com o que Wellhausen denominou as fontes J, E, P e D. Renunciam geralmente a assinalar datas precisas para a

formagáo das familias de tradigóes; na verdade, estas se devem ter constituido aos poucos, de acordó com as necessidades va

riadas da instrugáo e da devogáo dos fiéis.

Pergunta-se agora: qual o papel de Moisés na constituigáo

das familias de tradigóes e conseqüentemente na formagáo do

Pentateuco?

514 —

MOISÉS, AUTOR DO PENTATEUCO

3) Na rcdagáo do Pentateuco, Moisés terá desenvolvido um tríplice papel:

'a) Em relagáo a certos episodios, Moisés terá sido autor

e escritor direto.

b) A outros episodios Moisés nao terá dado a forma es

crita, mas, sim, o caráter oficial, incutindo-os e promulgando-os

com a sua autoridade junto ao povo; teráo sido redigidos por

israelitas anteriores ou posteriores a Moisés.

c) Além disto, Moisés criou em Israel um espirito, u'a " mentalidade — a mentalidade teocrática própria do povo eleito

de Deus; ésse espirito uno e bem marcado inspiraría as novas

leis que se tornassém necessárias em Israel para atender a fases

posteriores da, vida do povo de Deus.

Em conseqüéncia, pode-se dizer que Moisés é «o autor da substancia da Lei ou do Pentateuco»: o que ai nao está dire

tamente marcado pelo estilo de Moisés, está certamente mar

cado pela mentalidade de Moisés. O termo «autor do Penta teuco» toma assim o sentido mais ampio de «responsável pelo Pentateuco». Note-se que a Pontificia Comissáo Biblica, no

trecho atrás (pág. 513) citado, fala de profunda influencia de Moisés no texto do Pentateuco, sem precisar ulteriormente em

que tenha consistido essa influencia do Legislador.

Destarté vé-se que a falha dos críticos liberáis nao consiste pró-

priaménte.em admitir fontes do Pentateuco (a existencia destas é

plenamente compatível com a inspiragáo biblica, como íicou demons

trado em «P. R.» 26/1960, qu. 5), mas em querer distanciar de Moisés essas fontes, de modo a negar a influencia do chefe de Israel sobre a Lei e, por conseguirle, a ántigüidade desta.

Para ilustrar como Moisés se relaciona com a Lei de Israel, os exegetas recorrem ao fato seguinte: muitas nagSes contemporáneas se regem pelo «Código de leis de Napoleáo»; sabe-se, porém, que ao corpo legislativo emanado diretamente de Napoleáo cada país foi acrescentando determinacóes novas a fim de atualizar e explicitar a

legislacáo de Napoleáo; essas leis novas, embora nao sejam direta-

mente da autoría de Napoleáo, exprimem, nao obstante, o espirito r

e os principios de Napoleáo; por isto continua-se a dizer que o Código legislativo de Napoleáo está em vigor em tais- nacj5es. — Algo de

semelhante se terá dado eom o núcleo de normas diretamente for

muladas por Moisés e as que legisladores posteriores lhes acrescen-

taram; estas nao quebraram a unidade do conjunto, pois traduziam

de modo genuino a mente de Moisés; daí poder atribuir-se simples-

mente a Lei ou o Pentateuco a Moisés.

Também lembram os estudiosos que Tomismo nao designa apenas o sistema doutrinário que S. Tomaz consignou em seus escritos;

abrange outrossim o desdobramento desse sistema tal como ele se deu por obra dos genuinos discípulos de Sao Tomaz.

Eis as principáis conclusóes a que chegou a crítica sadia

em nossos tempos na elucubracáo das origens do Pentateuco.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 3

Proposigóes mais minuciosas seriam demasiado conjeturáis;

abstemo-nos portante de as formular aqui. Pode-se supor que

ulteriores estudos projetem mais luz aínda sobre o assunto,

sem, porém, derrogar a quanto acaba de ser exposto.

m. MORAL

SEQUIOSO (Belo Horizonte):

3) «Pode haver imperfeicoes moráis que nao sejam peca*

dos (nem sequer pecados leves)?

Estará o homem obligado a praticar, em tudo, o que há de

mais perfeito?»

Antes do mais, convém delimitar devidamente o conceito de im-

períeicáo moral. A seguir, determinaremos as relacóes desta com o

pecado. Por fim, á guisa de conclusáo, seráo formuladas algumas

mormas de alcance prático.

1. Que é a imperfeigao moral prdpriamente dita?

Por «imperfeigáo moral» em sentido estrito entende-se o

ato que, embora nao viole algum preceito explicito da lei de

Deus, vem a ser contradigáo a um conselho dado direta ou

indiretamente pelo Senhor a fim de facilitar a uniáo da alma

<:om Deus; seria a prática de um bem menor, com rejeigáo cons

ciente de um bem maior.

Em outros termos: désigna-se como imperfeigáo moral o ato de vontade pelo qual determinada pessoa, podendo escolher •entre dois alvitres, honestos ambos, mas de valor desigual, opta

deliberadamente pela solucio que tal pessoa julga ser a menos

perfeita do ponto de vista moral. — Nao vém ao caso, portan

te, as pequeñas faltas que escapam á deliberagáo do agente,

por mais virtuoso que seja; ficam involuntarias e subtraidas á

responsabilidade do sujeito (a menos que éste deliberadamente ■dé ocasiáo remota a tais ímpetos da natureza).

Eis alguns exemplos assaz significativos;

. Um jovem estudante, sequioso do bem, mas um tanto leviano,

■viu-se certa vez em situagáo penosa da sua vida; resolveu entao du rante nove dias consecutivos assistir á S. Missa celebrada na cápela

mesma de sua Escola, ora antes, ora depois das aulas. Urna vez ter

minados ésses exercícios de piedade, verificou que nao Ihe havlam

prejudicado o cumprimento dos deveres de estado. Em conseqüéncia,

surgiu-lhe espontáneamente no espirito, ávido de bem, urna perspec

tiva nova, que o comecou a torturar: poderia continuar a participar diariamente da Missa, á semelhanca de tais e tais colegas ziam sem negligenciar suas obrigacSes profissionais. NSo indo a Missa,

fa-

516

que o

AS IMPERFEICOES MORÁIS SERAO PECADOS?

<tedicava os tres quartos de-hora respectivos a leituras ilustrativas —

jeituras que ele poderia dispensar ou que, com um pouco de generosi-

-dade, procurando distribuir melhor o tempo, poderia lazer em outro

-período do dia. Em última análise, punha-se-lhe o dilema: «maior ge-

:nerosidade» ou «menor generosidades no servigo de Deus?

«Mais

jeríeigáo» ou «menos perfeicáo» (sem que houvesse transgressao de

-algum preceito) no exercicio da vida crista?

Caso optasse, ñas circunstancias ácima, pela náo-assisténcia á

IMissa fora dos dias de preceito, o jovem teria cometido um ato dos •que chamamos ácima «imperíeigáo moral». Nao está claro que tal

Jmperfeigao seria também um pecado. Por isto interessa-nos neste artigo indagar se haveria pecado ou nSo no ato de recusa do jovem.

Outro exemplo: Ludovico costuma conceder a si mesmo peque

mos prazeres desnecessários, como o uso de fumo, refrescos especiáis,

■conversas demasiadamente prolongadas

Em-determinada ocasiáo

•da vida, ele percebe que a renuncia a tais concessdes lhe daria mais

liberdade e vigor espiritual para procurar a Deus; passa entáo a expe

rimentar continuamente o chamado da graga que o convida a mudar

•de regime. É assim que se pae em sua alma o dilema: «bem maior> ■ou «bem menor» na caminhada para Deus? Dado que nao se renda .ao convite, cometerá urna «imperfeigao moral». Será isso um pecado?

Assim exposto o conceito de «imperfeigáo moral», vejamos -como se relaciona com o pecado.

2. Imperfeicao moral e pecado

O assunto tem sido ardorosamente estudado pelos teólogos, fican-

«do até hoje aberta a questao. Há, sim, autores que distinguem ciara- jnente entre imperfeicao moral e pecado, julgando que aqueta possa

«correr sem culpa do sujeito respectivo. Neste caso, a pessoa se deve-

ria arrepender sinceramente de suas imperíeigdes, repudiando-as por ■serení entraves á agáo da graca na alma, mas nao as deveria acusar

•ern conlissáo sacramental, pois, nao sendo pecados, n&o constituiriam rmatéria para absolvigáo. A imperfeicao seria um ato defeituoso, nao,

porém pecaminoso. — O primeiro autor que haja sustentado esta sen-

tenga parece ser o teólogo Joáo de Lugo, professor de Moral no Co legio Romano de 1620 a 1641 (cf. «De paenitentia», disp. III, sect I

Oiitros teólogos, seguindo um ensinamento mais tradicional, afir-

•jnam que t6da imperfeicao consciente e voluntarla (como ácima des

brevemos) vem a ser pecado (ao menos, leve). Na verdade, por muito estranho que isto parega, deve-se dizer que

.as duas sentengas nao se excluem; antes, completam-se mutuamente, desde que se faga o que muitas vézes se deve fazer em tais casos:

urna distingáo. Distinguiremos, portanto, no nosso problema entre

•o plano teórico, abstrato, e a linha prática, dos atos concretos.

A. Em teoría

".

Consideremos a imperfeigáo moral em si mesma ou inde- .pendentemeríte de quaisquer circunstancias em que ela na rea-

üdade concreta ocorra. "

Imperfeicao, dizíamos, nao é violagáo de um preceito do Senhor, mas apenas negligencia de um conselho ou de urna

517 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qü. 3

norma que visa promover maior perfeigáo espiritual. Ora a

execugáo de urna tal norma ou de um conselho ficará sempre

facultativa; em si mesma nunca poderá constituir um devér;

paralelamente, portante, a sua violagáo por si só nunca equi-

valerá a um pecado. O conselho que impusesse obrigágáo,-já ;

deixaria de ser conselho para tornar-se preceito.

Donde se v§ que, abstratamente considerada, a imperfeigáo moral nao pode ser tida cómo pecado. Por si, ela ainda é um

ato bom, ato concorde, sim, com a Lei de Deus; apenas se la menta que.tenha por objeto um bem exiguo, em vez de um bem

maior, qué o agente, se fósse mais generoso, poderia, sem dú-

vida, escolher. Contudo o «bem menor» nao pode ser confun

dido com o «mal», como o «menos branco» nao chega a ser

«negro», nem o «menos quente» chega a ser «frió».

Conseqüentemente, dever-se-á dizer: em teoría, ou abstratamente falando, nao peca o estudante que, voluntariamente, deixa de, assistir

á S. Missa em día de semana para se dedicar entrementes a leituras

ilustrativas ou mesmo a práticas esportivas moralmente'lícitas.

Contudo é de notar que ha realidade 'prática riáo existem

atos abstratos, independentes de circunstancias concretas que

inevitávelmente váo influir na qualíficácáo moral da conduta

humana.

Por isto faz-se mister voltemos agora a nossa atengáo para

outro aspecto da questáo.

B. Na prática.

Todo ato humano (consciente e deliberado) é inspirado por

determinada intengáo do respectivo agente, que, assim agindo,

visa atingir tal ou tal objetivo preciso.

Ora a intengáo do agente é, sempre e necessáriamente, ou boa ou má, do ponto de vista moral; em outros termos, a inten

gáo do agente, em todo e qualquer caso, está necessáriamente

voltada para um objetivo que, em última análise, ou é confor me á Lei de Deus ou contradiz a esta (todo homem age sempre,

direta ou indiretamente, em vista do último Fim ou em vista

de Deus, ensina a Ética geral).

Digamos entáo que aiguém seja colocado diante de üm con

selho de perfeigáo espiritual

conselho que convida a fazer

urna obra de maior virtude do que as que tal pessoa costuma

praticar

(tratar-se-ia, por exemplo, de renunciar ao fumo, a

).

conversas supérfluas, assistir á S. Missa em dia de semana

A pessoa assim intimada entrará em deliberagáo consigo mes-

518

AS IMPERFEICOES MORÁIS SERAO PECADOS?

.

ma, a fim de proferir o seu «sim» ou o seu «nao» ao convite do momento dizer: «É bom para mim nao atender a tal conselho, pois essa

omissáo favorecerá o desenvolvimento normal da minha vida

de amor a Deus», tal pessoa, deixando de praticar o conselho,

estará realizando um ato bom, um ato de virtude; escolhendo

um bem (em si mesmo) menor em vez do bem (em si mesmo)

maior, tal pessoa nao estará cometendo pecado; nem estará

praticando um ato moralmente neutro ou indiferente, mas, sim, um ato positivamente bom, ato diretamente encaminhado para a maior uniáo com Deus.

Se, depois dé deliberar, ela puder sinceramente

A esta altura, surge espontáneamente a questao: como justificar táo estranha sentenca? Quais seriam os motivos pelos quais urna obra

(em si mesma) menos perfeita podaría ser rejeitada em nome da pró-

pria virtude ou da maior uniáo com Deus?

Os moralistas costumam indicar quatro rázoes:

1) a obra mais Derfeita entraría em confuto com outra obra que,

embora mais modesta,, nao poderia ser prejudicada, por pertencer aos

deveres de estado do sujeito íem outros. termos- o conselho contra riaría a algum preceito): por exemplo, a máe de familia que só pudes- se ir á S. Missa em dia de semana, abandonando seu filhinho grave

mente doente em casa, em nome da virtude mesma deveria desistir

de praticar o conselho de perfeicáo;

2) a obra mais perfeita imporia ao nosso próximo sacrificios que

a caridade exigiría lhe fóssem poupados: por exemplo, urna pessoa cega que só pudesse ir á S. Missa quando" acompanhada por outrem,

deveria levar em conta a situagáo da acompanhante; eventualmente, eni nome da caridade mesma, teria que renunciar á S. Missa

3) a obra mais perfeita exigiría do sujeito sacrificios tais que éste

perdería a alegría necessária á restauracáo de suas foreas ou á ex- pansao normal de sua vida psíquica. Em outros termos: sendo aínda principiante na vida crista, a pessoa nao agüentaria a renuncia que a obra melhor exigiría de sua parte. Tal é o caso de quem aüida precisa ), porque o silencio prolongado e o isolamento seriam mais prejudiciais

de suas horas de recreio (conversas, leituras, divertimentos lícitos

do que benéficos a sua saúde mental;

4) a preocupado de seguir as obras de conselho provocaría

obsessáo e perturbagdes nervosas que entravariam a vida espiritual, do sujeito. É o que se pode dar com pessoas tendentes aos escrúpu

los ás quais indiscriminadamente se quisesse inoutir a prática do mais

perfeito (fácilmente pérderiam o senso do equilibrio).

Digamos, porém, que, depois de deliberar consigo, a pessoa nao possa indicar algum dos motivos ácima ou, em suma, algum

motivo razoável para declinar o conselho. Ao contrario, ela

vé claramente que a obra aconselhada, embora mortifique a

natureza, muito concorreria para desenvolver a sua caridade,

sem prejuízo para o próximo, sem mesmo contra-indicagáo

alguma

— 519:—

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, gu. 3

No caso, como julgaíia o moralista? " ■ Omitir a obra aconselhada equivale a urna atitude desar-

razoada (freqüentemente mesmo, a urna atitude inspirada por

negligencia ou preguiga); ora comportar-se voluntariamente de- ,

maneira desarrazoada ém relagáo a Deus é pecado

leve ou grave conforme as conseqüéhcias désse comportamento

desarrazoado.

pecad»

Todavía nao poderla alguém dizer com plena paz de espiritos

«Omito a obra aconselhada. nao porque nutra más inteng5.es, mas-

simplesmente porque nao é obra absolutamente obligatoria»? — Re- plicariam os moralistas que essa neutralidade seria ilusoria; na ver-

dade servirla de cobertura «honesta» ou de pretexto para o como-

dismo a covardia ou o egoísmo da pessoa. Em última analise, urna

das leis fundamentáis de todo tipo de vida (por conseguinte, tambem da vida crista) é «crescer e desenvolver-se»; a vida é dinámica, de modo que quem consente em paralisá-la, já a está sufocando; enx

conseqüéncia, quem voluntariamente rejeite o bem maior para pra-

ticar o bem menor sem motivo justificado,

únicamente por covar

está derrogando as leis de sua vida espiritual, concorrendo»

dia

para atrofiá-la — o que vem a ser um ato desarrazoado ou, mais pre cisamente, um mal moral, um pecado.

Quem se acostuma a sufocar a voz da consciéncia todas as vézes- que esta indica urna obra melhor (nao, porém. de preceito), arrisca-

-se a extinguir por completo essa voz interior assim como a acao da graca em sua alma. É de recear que o dom de Deus, sucesivamente-

repelido pelo cristáo comodista, já nao seja concedido a éste; en tac* as concupiscencias tomam vulto, as paix6es explodem com facilidader.

levando a alma ao pecado grave.

Em resumo: de quanto acaba de ser exposto, dever-se-á.

concluir que, na prática, a omissáo consciente e deliberada de-

atos melhores (nao preceituados pelo Senhor Deus, mas apenas

aconselhados) em caso algum escapa a urna das seguintes clas-

sificagóes: «ato moralmente bom», «ato moralmente mau ou.

pecaminoso».

Alias tal conclusSo nao constituí senáo urna faceta de um prin

cipio estabelecido por abalizados mestres da vida espiritual: na prá tica, todos os atos do justo (ou da alma em estado de graga) que na»

sejam pecados veniais, sao atos meritorios.

Impoem-se agora algumas normas complementares, que o título-

abaixo apresentará.

3. Ulteriores observagoes

L Na vida cotidiana pode acontecer que nao consigamos perce-

ber com exatidáo o verdadeiro motivo de nossas ag5es ou omissoes:

prudencia auténtica, construtiva, ou covardia. negligencia mórbida?

É com efeito, difícil discernir onde termina a genuina sabedona e onde comega o descaso. Em casos de dúvida, a alma bem intencio

nada optará pelo alvitre que lhe parecer mais acertado; o Senhor

520 —

AS IMPERFEICOES MORÁIS SERAO PECADOS?

Deus entao levará em conta a sinceridade com que essa criatura esti-

ver procurando alcancar a perfeigáo.

2. Justamente a diliculdade que experimentamos para avaliar

devidamente o motivo de nossas omiss8es, leva-nos a crer que comete

nao de todo

) conscientes e voluntarias. Essas. na medida mesma em que s&o inde liberadas, ficam aouém da moralidade, nao podendo ser classiíicadas

mos imperíeigoes (atos pouco generosos, covardes

nem como atos bons nem como atos pecaminosos.

De modo geral, verificarse que todo homem pratica muitos atos

tao espontáneos que antecedem qualquer reflexáo e uso da liberdade. Por estas circunstancias, tais atos nao acarretam sancao (recompen

sa ou pena) sobre si; própriamente «nao contam» na vida moral do

individuo. Contudo — deve-se dizer — sao atos que. embora nao cons-

tituam um mal moral em si mesmos, ao menos interrompem a cami-

nhada para a perfeicáo espiritual, impedem que a vida do sujeito seja inteiramente cheia, disseminam o vazio ñas jornadas da pessoa. Faz-

-se mister, portante, combater a.ocorréncia de tais atos, a fim de que

nao se perca alguma parcela de tempo e seja devidamente desdobra- do o potencial de perfeicao latente em cada personalidade. O com

bate será travado na medida em que a alma procurar mais e mais

controlar suas agSes, vencendo a concupiscencia desregrada assim como a rotina espiritual. Verdade é que nem os santos conseguiram sempre evitar todos os atos indeliberados; contudo progrediram pela

senda da perfeigáo na medida em que os foram debelando.

3. Procurando adquirir o pleno dominio sobre si, a alma justa

estará enfrentando outro obstáculo para a perfeigáo: os atos tibios ou

«remissos». Estes sao atos em que nao está empenhado todo o vigor religioso da pessoa; processam-se como que na periferia da alma, dei-

xando adormecida urna boa parte de suas energías sobrenaturais. K

o que se dá, por exemplo, com quem possui dez talentos ou «dez

graus de amor» a Deus, mas na realidade age como se tivesse apenas

cinco talentos ou «cinco graus de amor»; e assim age porque é vo luntariamente mole ou covarde

ao pecado grave, pois deixam inexplorado o vigor sobrenatural da alma, acarretando-lhe urna especie de atrofia espiritual (á semelhanca

do que se dá com quem tem dois bracos, mas só se serve de nm,

talvez por estar engessado o outro; éste outro, p&rmanecendo inerte,

tende a se atrofiar e perder). Como se compreende, a atrofia espiri tual assim induzida permitirá o desenvolvimento de concupiscencias

e paixSes, as quais cedo ou tarde sobrepujaráo os bons hábitos, provo

cando faltas graves.

Destas considerac3es se depreende a importancia da luta contra

Os atos remissos ou tibios dispSem

a rotina ou contra todo modo de agir superficial e tibio. 4. Após o que
a
rotina ou contra todo modo de agir superficial e tibio.
4.
Após o que loi dito, vé-se que resposta dar á questáo: está.
o
cristáo obrigado, sob pecado, a praticar sempre o que há de mais

perfeito, nao lhe sendo licito optar por um ato bom menos perfeito? A solucáo se reduz aos seguintes termos: o cristáo está, sim, obri gado a seguir sempre o alvitre mais perfeito (em caso contrario,

sufocaría a sua vida espiritual). Observe-se, porém:

a) nao se trata do mais perfeito entendido de maneira absoluta,

pois éste nao estarla talvez proporcionado ás condigOes individuáis

e ás gragas que Deus distribuí pessoalmente a tal sujeito. Trata-s*

apenas do mais perfeito proporcional ás possibilidades de cada indi viduo. — Assim nem todos estao obrigados a abracar o celibato por

amor a Cristo, embora éste género de vida seja em si mais" perfeito

521 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 43/1961, qu. 4

do que o estado conjugal (cf. 1 Cor 7). Há casos, sem dúvida, (e nu

merosos) em que o mais perfeito, para tal e tal sujeito, consiste em contrair matrimonio; na vida matrimonial entáo o cristáo deverá

manter viva a consciéncia de que foi chamado a praticar a perfel§ao

ou a ser santo;

.

.

.;

perfeito. é.

b) para que haja ohrigagáo de seguir o alvitre mais

necessário outrossim que a pessoa o veja como tal, isto é, tenha cía-:

reza de que é o Espirito Santo que lhe está indicando urna obra mais.

perfeita a realizar. Recusar arbitrariamente a inspiracao do Espirito

Santo percebida com clareza, dizem bons autores, nao é atitude ins

pirada pelo amor a Deus, nem atitude que se concille com intencao

e aspiracóes retas; vem a ser, antes, algo de desarrazoado ou, no caso,

uro pecado.

5. Concluindo, dir-se-á de maneira geral: na prática a alma deve

lembrar-se de que o seú programa de vida consiste nao sómente

em nao recair no pecado, mas em subir constantemente para Deus

e subir em ritmo acelerado; como a pedra cai com velocidade cres-

cente na medida em que se aproxima da térra que a atrai, assim as

almas devem caminhar mais e mais rápidamente para Deus, na me-; -

dida em que se aproximam do Senhor e sao" atraídas por Ele.

Por conseguinte, nao se preocupem as almas com demasiada- casuistica indagando sutilmente q'uais as fronteiras entre o licito e

o ilícito onde cessa o bem e onde comeca o pecado

algo de dinámico; a sua lei capital é positiva: «crescer e multiplicar

se» (cf. Gen 1,28), e nao meramente negativa («nao se mutilar»);

quem apenas pensa em nao se mutilar, sem se preocupar com o des-

A vida constituí

positivo e constante de suas energías, está na verdade.

dobramento ocasionando o depauperamento e a extincáo de sua vida. A vitalidade

ou cresce ou diminuí; nao pode, porém, permanecer estagnada; t6da estagnacáo é passo para a morte. Eis o que se verifica tanto no plano

da vida física como no da vida espiritual crista. Possam as almas se- quiosas do bem abrir o ólho para estas verdades táo importantes, mas

na prática táo pouco valorizadas!

IV. SOCIOLOGÍA

MARCI (Rio de Janeiro):

4) «O problema social poderá ser resolvido simplesmente

pelo amor?

Lendo a vida de Sao Francisco do Assis, Inacio Lepp com-

preendeu que o que faltava no comunismo marxista era o amor. Até que ponto o amor será solucao?»

Desde o sáculo passado, a questáo social vem chamando

insistentemente a atencáo do mundo

Há cérea de setenta anos atrás, a escola de Angers (Fran- ga) esperava obter a solucáo dos problemas sociais ünicamente

pela aplicagáo da caridade. Outros pensadores, ao contrario,

apelavam, e ainda hoje apelam, para a justica apenas, ou seja,

para nova distribuigáo de direitos e deveres na sociedade, nao

reconhecendo lugar para instituigóes de caridade espontánea;

esta lhes aparece, antes, como fonte de humilhagáo. do índi-

522 —

JUSTICA OU CARIDADE?

gente. Tal é o ponto de vista dos movimentos socialistas em

geral.

Ora o auténtico pensamento cristáo se sitúa no meio e ácima dessas duas sentencas unilaterais: deriva a solugáo dos problemos sociais nao sómente da caridade (a qual por vézes

é demasiado vaga e incerta), nem sómente da justica (a

qual muitas vézes leva a um regime rígido e pouco humano), mas de um elemento intermediario entre justica e caridade, que é a chamada justica social.

Em urna Semana de Intelectuals Católicos (1948). assim se pro-

nunciava Mons. Blanchet, Reitor do Instituto Católico de Paris:

«Creio que ninguém cometerá o contra-senso de pensar que pre

tendemos resolver as questóes de ordem social por urna caridade entendida no sentido estreito e mesquinho de bondade paternalista, es pecie de protecáo concedida por benevolencia pelo forte ao fraco. A caridade vai além da justica, supondo.a sempre, nunca a eliminando.

Nenhum cristáo pode tirar degradacao dos homens. Nao se tem o direito de fazer mutilados em

partido de urna organizacáo que vise a

serie com o pretexto de que possuiremos a bondade necessária para

lhes fornecer muletas» (Les Intellectuels devant la charité du Christ.

Paris 1948, 142s).

Já Santo Agostinho, no séc. V, afirmava que as obras de bene

ficencia nao constituem a última palavra do programa social dos

cristáos:

«Nao devemos desejar que haja infelizes para que possamos fazer obras de misericordia. Das pao a quem tem fome; contudo melhor

seria que ninguém tivesse íome e que nao precisasses de dar a nin guém. Vestes a quem está nu; oxalá todos tivessem roupas para se

vestir e nao hpuvesse necessidade dessa obra de misericordia!

Todos ésses servicos sfio exigidos porque há indigencia. Suprime os infelizes; nao haverá mais ocasiáo para obras de misericordia. Extin-

guir-se-á por isto a chama do amor? Mais autentico, mais puro, muito

mais leal será teu amor por urna pessoa feliz, da qual nao podes fazer um devedor, pois, quando com teus dons empenhas a gratidao do infeliz, talvez desejes elevar-te perante ele, talvez desejes que ele esteja abaixo de ti. Deseja antes que ele seja teu igual; ambos sede

submissos Aquele que nao tem que agradecer a ninguém» (Tractatus

VIH n. 5, ed. Migne lat. 35, 2038s).

Vejamos por etapas o que significa «justiga social».

1. A justica e suas especies

1. Justica é a virtude mediante a qual o homem, com

vontade constante, dá a cada um o que lhe é devido.

Donde se vé que a justica é virtude eminentemente social;

ninguém a exerce para consigo mesmo. Tres sao as especies de justica:

a) a justica comutativa. É a que se exerce entre individuos

e grupos particulares, visando proteger os direitos de cada um.

523

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961+ qu. 4

Exige que se troquem ou permutem valores iguais; proibe usur

par e tirar bens alheios. Sua. violagáo obriga a. restituicáo ou

indenizagáo.

Constituí o imprescindivel fundamento de t6da a ordem social,

nao poderia ser substituida de modo habitual pela cari-

de modo que dade (ou seja, por urna compensacáo espontánea; nao firmada jurídi

camente, por mais vultuosa que fósse essa compensacáo). Eis' como

a propósito se exprimía o Papa Pió XI:

«Para ser auténticamente verdadeira, a caridade deve sempre

levar em consideracáo a justiga. Urna pretensa caridade, que priva o operario do salario a que tem direito, nada tem da verdadeira cari

dade; nao é mais do que urna falsidade, urna simulacáo. O operario nao deve receber a título de esmola aquilo que lhe cabe por direito; a ninguém é permitido esquivar-se as graves obrigacoes impostas pela justica, concedendo presentes a título de misericordia» (ene. fcDivini

Redcmptoris»).

b) A justiga legal ou geral. É a que rege as relagóes do particular com a comunidade, exigindo que cada um dé o neces-

sário ao bem comum ou geral (daí chamar-se «justiga geral»).

Ésse necessário é muitas vézes estipulado por leis positivas do

poder civil (donde o nome de justiga «legal»). As autoridades

tém a obrigagáo de promulgar normas que realmente concor-

ram para o bem comum; correspondentemente, aos súditos in

cumbe o dever de as observar.

c) A justica distributiva. Estabelece as relagóes da comu

nidade com os individuos, visando o bem pessoal de cada um

dos membros da sociedade. Reparte entre estes os deveres e os

beneficios (encargos, dignidades, recompensas), nao segundo

igualdade matemática, mas de acordó com as capacidades de cada qual. Na medida em que o individuo consagra seus esfor- gos ao bem comum, a comunidade está obrigada (por justiga

distributiva) a prover ao bem pessoal désse individuo.

A justica distributiva adquire importancia crescente em nossos

días, vista a ingerencia cada vez maior do Estado na vida social e

económica dos súditos.

2. Na vida social, faz parelha com a justiga a virtude

da caridade. Esta difere daquela pelo fato de que atende ao

próximo, nao por dever própriamente dito ou por motivo de

regras de antemáo estipuladas (regras que seriam, por vézes,

demasiado teóricas e pouco adaptadas á realidade), mas por

urna tomada de consciéncia imediata das indigencias do próximo.

Os bens que a caridade dispensa, nao sao determinados por lei, mas pelas necessidades reais de cada caso e pela grandeza de

alma de quem os concede; a sua medida, portante, é variável,'

podendo coincidir com a da justiga como também ficar aquém

524 —

JUSTICA OU CARIDADE?

ou ir além da medida da justiga. Aínda mesmo que alguém

tenha perdido seus.direitos e já nao esteja habilitado a pleitear

os auxilios da justiga, pode ser socorrido pela caridade.

É, alias,' 6 que se dá ñas relagSes do homem com Deus: o Senhor íaz brilhar o seu sol sobre os bons e os maus, embora estes se tenham

afastado da fidelidade que deviam a Deus (cf. Mt 5, 38^42).

Pois bem. Entre a jostica comutativa (que representa a forma mais rígida de regrar as relagóes entre oshomens) e

a caridade (que constitui a maneira mais espontánea e variá-

■vel de as definir) coloca-se

2. A justica social

É a partir da encíclica «Quadragesimo anno» (1931) de

Pió XI que se fala de «justiga social». Tem algo de comum com

a caridade e com a justiea comutativa, situando-se por isto

entre ambas.

Em verdade, tem algo de comum com a caridade, pois nao

se deriva de obrigagáo precisa, formulada em termos jurídicos; excede assim as exigencias da estrita justiga. Contudo nao é

mera efusáo de amor, pois decorre de urna obrigacáo moral, ou

seja, da obrigagáo que todo homem tem de respeitar a digni-

dade de seus semelhantes, ainda que éste respeito nao venha estipulado por alguma lei positiva. Em outras palavras: a jus

tiga social faz que um individuo por si mesmo, sem esperar

preserróes extrínsecas, atenda ás necessidades de seu próximo,

■a finí de proporcionar a éste condigóes de vida verdadeiramen-

te humanas.

A justiga social, por conseguinte, se baseia nao em troca

de bens materiais, mas (mais do que qualquer outra modalidade

de Justina") ñas obrigagóes que resultam imediatamente da natu-

reza social do homem e da finalidade comunitaria que tem os

bens terrestres.

Alguns exemplos concorreráo para ilustrar o conceito. Admita-se que um devedor se ache impossibilitado de pagar a •sua divida dentro do prazo estabeleddo segundo a justiea. O seu «redor pode infligir-lhe a sangao prevista pela lei da justiea comuta-

-tiva em tais casos; verifica, porém, que, assim íazendo, langaria o de- -vedor em cóndicoes desumanas. tornando impossível á vitima (e quicá

-á sua familia) levarem o ritmo de vida necessário para que a digni-

•dade

humana de cada um se afirme e desenvolva (a miseria acarre-

íaria absorcáo por excessivo trabalho, surto de doencas físicas, abati-

mento moral, desespero, crimes. etc.). A vista disso, embora nao es

teja obrigado por justiea comutativa a conceder dilatacao do prazo de

pagamento, o credor resolve concedé-la

Dir-se-á entáo que proce-

deu movido pelo seu senso de Justina social

525 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 4

Admita-se outrossim que os signatarios de determinado contrato,

no momento de cumprir seus compromissos. verificam que os res

pectivos encargos, por motivos imprevisíveis, se tomaram demasiado

onerosos, até mesmo contrarios á íinalidade por éles visada; decidem

entao modificar o contrato, nao cumprindo as cláusulas anteriormente Comportar-se de outra

assinadas. Move-os a isto a jnstica social

forma já nao seria exercer a justica, mas cometer suma injustica. Pode haver, de fato, casos em que a cega observancia dos direitos

redunda em clamorosa violacüo da justica: «Summum ius. sumiría

iniuria» já rezava o antigo adagio romano. Toda lei tem, sim, urna

letra (formulacáo oral) e um espirito (mentalidade que a inspira e

finalidade a atingir); ora a letra por vézes, em lugar de servir ao

espirito (como deveria), sufoca-o e mata-o

Outro exemplo seria o do patráo que, tendo conseguido lucros

imprevistos em certo ano, resolve repartir o quociente com os seus

operarios. Já nao age por justica comutativa, mas por justica social. Podem ser contemplados pela justica social até mesmo os cida- dáos que nada produzem: tais sao os doentes. os mutilados, as cri-

ancas pequeñas. Tém o direito inalienável de viver, e de viver em condieSes dignas da natureza humana tal como esta néles.se encontra realizada. Os genitores, por conseguinte. devem a seus íilhos o que seja necessário ao desenvolvimento físico e espiritual dos mesmos;

doutro lado, a prole deve aos genitores assisténcia filial e solidarie-

dade nos encargos de familia, antes mesmo que alguma lei positiva

formule tais deveres.

Enumera-se, além disso, entre as realizac5es da justica social, a

assisténcia que povos mais favorecidos prestam a outros. subdesen-

volvidos (envío de produtos naturais, de artefatos, assim

quía para imigracáo

).

como fran

As idéias até aqui propostas ainda se esclareceráo mediante rápida consideragáo das relagóes vigentes entre

3. Justica e caridade

1. Acontece que nao poucas das prescrigóes" da justiga so

cial váo sendo hoje cm dia explícitamente promulgadas pela lei

civil; tornam-se objeto de justica legal, quando outrora eram

tidas como objeto da virtude da caridade: os abonos familiares",

as diversas formas de pensóes, aposentadorias, as instituigóes de protecáo ao operario. Isto se deve ao caráter cada vez mais

complexo da vida social: a multiplicagáo de encargos e respon

sabilidades dos individuos em empresas, fábricas, escritorios,

etc., levou os legisladores a explicar cada vez mais o que é estritamente dever de justiga (seja comutativa, seja social) e

o que fica sendo mera atuagáo da caridade. Assim se verifica a

tendencia crescente a transferir do dominio da caridade ou da

livre iniciativa para o setor da justiga ou da obrigagáo certas práticas e instituigóes que antigamente ficavam dependentes 'apenas do bom senso cristáo dos proprietários. Apesar dessa

tendencia a se afirmarem cada vez mais os direitos e as suas

526 —

JUSTICA OU CARIDADE?

sangóes respectivas, fica de pé a norma: a caridade é a alma

da justiga social, de tal modo que o individuo deve procurar

cumprir a lei em espirito de amor ou de caridade. Com outras

palavras: a justiga há de ser considerada nao como algo de

absoluto, mas como um requisito da caridade,

e mais indispensável requisito da caridade.

o primeiro

Eis oportunas palavras de Pió XI a respeito:

«A justiga social deve penetrar completamente as instituicoes e a

vida inteira dos póvos. Sua eficacia verdadeiramente operante deye- -se manifestar sobretudo pela criagáo de urna ordem juridica^s social que informe toda a vida económica e cuja alma seja » oarid&de»

(ene. «Quadragesimo anno»).

De resto, o próprio filósofo pagáo Aristóteles (t 322 a. C.) exor-

tava os legisladores a fomentar a compreensáo amigável e mutua entre os cidadaos; isto os deveria preocupar mais, dizia, do que fazer

observar simplesmente a justiga, pois a justiga regula apenas a con- duta exterior do homem, ao passo que a amizade une os coracóes:

«A justica nao seria necessária, se entre os homens reinasse perfeita

amizade», concluí o filósofo.

2. Em última análisé, justiga e caridade sao inseparáveis

urna da outra, de tal modo que justica sem caridade se torna

corpo sem alma; doutro lado, caridade sem justiga equivale a violagáo da ordem e hipocrisia. É o que se depreende dos tres

seguintes tópicos:

1) A justiga nos leva a considerar o próximo como outro cidadáo, com o qual cada um de nos deve conviver; o seu papel,

portante, consiste em delimitar e definir rigorosamente direitos e deveres de cada um; por isto, tende a acentuar barreiras e

distancias.

A caridade, ao contrario, une, pois leva a considerar o pró

ximo como um outro Eu, que devemos amar como a nos mes-

mos. Com razáo diz-se que a justiga estabelece a ordem, os moldes, as estruturas, que a caridade deve encher de vida.

2) A justiga tem por objeto apenas o cumprimento de obri-

gacoes exteriores, sem levar em conta a personalidade ou o ínti

mo do cidadáo. A caridade, ao invés, atinge os coragóes, pro

cura compreender casos e problemas pessoais, preservando a lei de cair no esquematismo e no mecanicismo esteréis ou moríais.

A justiga pode talvez extinguir as raizes dos conflitos isociais,

mas por si só nao consegue aproximar e fundir os ánimos. Quando falta um vínculo pessoal e afetivo para unir os cidadaos, a experi

encia ensina que se tornam vas as melhores fórmulas e as mais

sistemáticas organizagóes. Em conseqüéncia, afirma-se que a justiga,

por si só, constrói um mundo rigido, capaz de subjugar. sem contudo

, ou üma casa bem arrumada, mas destituida de calor

atrair

527

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 5

ou ainda urna máquina técnicamente perfeita, mas carecente de, lubri ficante para suavizar o seu funcionamento.

3) Verifica-se que a justiga dá apenas o que é estritamente

devido. Contudo, mesmo depois de preenchidas as estritas obri-

gagóes da justiga, resta freqüentemente um Vasto setor de an

gustias e indigencias cuja solugáo nao está contida dentro' de- categoria ou sob título, algum de justiga. Mesmo o individuo-

cujos direitos sao plenamente respeitados, freqüentemente ainda apresenta lacunas dignas de atengáo, para as quais só a- caridade pode dar remedio adequado.

Em suma, «quem age por justica é um homem correto, mas sem a caridade nao é ainda um homem bom. E mesmo. levando as coisas,

com rigor, nem é ainda perfeitamente correto. Porque summum lusr

siinima iniuria — a justica rigorosa torna-se ás vézes odiosa injus-

tica. O filho de país indigentes que enriqueceu e dá a seus país apenas-

a pensáo alimentar prescrita pela lei, nao é justo, é horrlvelmente-

injusto. Há urna única maneira de ser justo: é a de ser caridoso. A

justica que faz abstragao do amor, nao é mais justica» (C. van

Gestel, A Igreja e a questáo social. Rio de Janeiro 1956, 161).

3. Por fim, pode-se observar que a justiga social, preco

nizada pela encíclica «Quadragesimo anno», nao é estritamente

inspirada pela fé crista (ela se deduz dos principios mesmos da. sabedoria humana anterior a Revelagáo sobrenatural). Contu-- do ela só se desabrocha plenamente na base dos conceitos de-

Deus e do homem que a fé crista incute. Com efeito, é o Evan- gelho que leva a considerar os bens materiais como criaturas-

e propriedades de Deus, entregues ao mero uso dos homens; é também o Evangelho que faz apreciar o género humano todo-

como a familia dos filhos de Deus. A «justiga social» adquire

entáo seu colorido mais vivo: vem a ser a «justiga de família»-

dos filhos de'Deus.

V. HISTORIA DA RELIGÓLO

ARGEMIRO (RS):

5) «Qual a origem do povo comumente chamado 'ciganoT D¡z-se que provém dos filhos de Lameque: Jabel, Jubal e

Tubalcaím, que deram inicio respectivamente ao pastoreio do- gado, á arte da música e a metalurgia do cobre e do ferro (cf. Gen 4,20-22). Sao ésses justamente os afazeres aos quais-

se dedicam de preferencia os ciganos».

Os ciganos constituem um povo nómade, espalhado pela

Europa Central, a Asia Ocidehtal, o Norte da África, a Amé-

528 —

QUEM SAO OS CIGANOS?

rica e a Australia, conservando sempre os mesmos característi

cos de raga e de género de vida.

Dois sao os nomes principáis que designam essa estirpe:

a) ciganos, forma portuguesa do original «Atzigan» ou «Atsigan»,

que ~na Turquia e na Grecia deu «Tshingian»; na Bulgaria e na Ru-

ménia, «Tsigan»; na Hungría, «Czigany», na Alemanha, «Zigeuner»;

na Italia «Zingari»; na Inglaterra, «Tinker» ou «Tinkler».

O apelativo «cigano» parece derivar-se de «jigani», denominagSo .

de ama tribo da tndia pertencente á raga dravidiana, raga que resul ta da íusao dos negritos (primitivos habitantes da península hindú)

com os turanianos, povo de raga amarela, proveniente dos montes

Urais. Os estudiosos modernos sao levados a crer que os ciganos provem

realmente dos Jiganis da India, pois acentuada é a aiinidade de tragos

raciais e de dialetp, vigente entre os dois povos.

b) egipcios, nome devido a urna crenga divulgada pelos próprios

ciganos quando entraram em cena na Europa medieval; segundo essa

crenga, os ciganos seriam oriundos do Egito, ,ou melhor, de urna re- giáo chamada «Pequeño Egito» (= Palestina). Tal nome tomou as

formas «Gypsy» na Inglaterra; «Gitano» (de Egiptiano) na Espanha;

«Gyphtos» no grego moderno. A mesma crenga explica denominagSes

similares dadas aos' ciganos: «Pharaoh nepek» (povo de Faraó) na

Hungría; «Faraón», na Ruménia.

Outros nomes atribuidos ao mesmo povo seriam:' «boémios» ou

«bohémiens>, na Franga; «Heyu-""ns» (= pagaos) na Alemanha. Os

próprios ciganos se designavam durante algum tempo como «Roma nos» a fim de se recomendar aos olhos dos demais povos.

Ñas linhas que se segur"*1.—.examinaremos rápidamente

quem sao os ciganos (origem, historia, género de vida, de tfa-

e quais os seus aspectos religiosos mais caracte

balho

rísticos.

)

1. Quem sao os cáganos?

Origem e esbóco histórico: como foi dito atrás, presume-se-

que os ciganos se derivem da tribo hindú dos jiganis. Apresen-

tam estatura pequeña e tez de pele que pode variar desde a co-

loracáo escura do cigano da Arabia até o matiz claro do habi

tante da Polonia. Em geral, tém um físico bem proporcionado e assaz ágil. Sao amigos dos ornamentos vistosos e dos trajes

de cores carregadas, de preferencia vermelhos e verdes; as mu- lheres costumam usar lengos, colares e moedas de ouro em torno do pescogo, ficando-lhes os pés geralmente descalgos.

Nao se tém anteriormente ao inicio do séc. XTV vestigios

seguros da estada dos ciganos na Europa. Parecem ter passado

do Egito para as térras balcánicas, espalhando-se pela Hungría, a Boémia e a Rússia. A sua entrada nos territorios da Europa Ocidental (Alemanha, Franga, Suíga, Italia) nao se deve ter

529

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 5

dado antes do principio do séc. XV. Até hoje conservam os seus

caracteres raciais e lingüísticos bem definidos, pois só se casam

entre si, sendo os matrimonios mistos ou exogámicos conside

rados por éles como ilegítimos; em geral, tendem a se isolar

dos demais povos — o que em parte se deve ao seu tipo de vida

nómade. Nenhuma nagáo os conta entre os seus concidadáos. É

o que torna difícil avaliar o número de ciganos hoje existentes

no mundo; calcula-se, porém, que atingem a cota de cinco mi-

lhóes. Nao prestam servigo militar nem tratam de registrar os

seus casamentes em cartório civil. Cada tribo ou bando nóma de tem seu chefe e sua forma de govérno autónomo. Dada a sua fama de gente fraudulenta e engañadora, os ciganos, do séc. XVI até o inicio do séc. XX, foram objeto da repressáo

de certos governos europeus, que lhes infligiram penas diver

sas: a escravidáo, na Ruménia e na Hungría (séc. XVHI/XIX),

o exilio e a própria condenagáo á morte.

Atividades: ás suas atividades sao bem características:

manufatura de metal e madeira: fabricam e consertam utensilios

domésticos de cobre ou bronze (donde o nome de «caldeireiros» ou

.«chaudronniers», que por vézes lhes é dado) ou de madeira (bancos,

domesticagáo e comercio de animáis (cávalos, asnos, caes );

canto e danca em público: houve tempo em que percorriam os

notéis e restaurantes da Europa Ocidental, apresentando suas mú

sicas e seus coros artísticos com grande aplauso dos espectadores.

Embora caregam de cultura e de produgóes literarias, a sua arte mu sical é altamente estimada, tendo mesmo iornecido ao compositor húngaro Frank Listz fecunda ¡nspiracáo para as suas lamosas rapso

dias? O genio dos ciganos se mantfesta também na poesia. que éles sabem utilizar para narrar historias folclóricas cheias de encanto;

adivinhagáo da sorte, quiromancia íou interpretagáo das linhas

da máo também dita «leitura da buena-dicha»), práticas ocultistas

para atr'air o lavor ou a ira dos «espíritos superiores». Tal é a ocupa-

gao mais freqüente das mulheres ciganas.

Ainda outro título que no decorrer da historia foi Intima

mente associado aos ciganos e ao seu govérno de vida, é o

titulo de «peregrinos religiosos». Sendo assim, consideraremos

abaixo os aspectos religiosos que os ciganos apresentam ao

observador.

2. Ciganos e Keligiao em gcral

Os ciganos nao tém Religiáo própria, característica da raga,

como a tém os judeus; mas adaptam-se ás idéias religiosas

do país em que se acham, fundindo-as com crengas supersticio

sas comuns a muitos povos, Assim, na Turquía e na Arabia

professam o islamismo; na Grecia e na Ruménia, a «ortodoxia»

530

QUEM SAU OS CIGANOS?

crista nacional; na Hungria, em Portugal e na Espanha, o cato-

-.licismo. Em /erdade, porém," nao cumprem muito exatamente

os deveres religiosos do Cristianismo; principalmente no tocan

te á vida sexual, sao indulgentes. Além disto, parecem inclina

dos a crer no fatalismo dos destinos humanos.

Vivendo no cenário cristáo da Idade Media, compreende-se

que os ciganos tenham estado envolvidos em mais de uma ma- nifestagáo da fé crista.

Os historiadores observam, por exemplo, que nao era raro

passarem éles por peregrinos cristáos, gozando, a éste título,

dos favores e privilegios que os prelados e os principes conce-

diam as caravanas de peregrinos; gozavam mesmo da tutela e dos beneficios que os Papas costumavam dispensar aos cristáos

qué deiriañdavam os grandes santuarios. Parece, porém, que

os ciganos nem sempre se manliveram á altura de tal bene volencia, pois déla abusaram para cometer maleficios; assim, por exemplo, se exprime o cronista Aventinus na primeira me-

tade do séc. XVI: «A fraude e o roubo sao proibidos aos outros

povos

;

estes, porém (os ciganos), se atribuem a licenga de

os praticar».

A má lama que, apesar do caráter de peregrinos cristáos, pesava

sobre os ciganos. encontrou expressáo em uma altercacáo graciosa,

bem característica da mentalidade popular. Com efeito. dizia-se na

Idade Media que os cravos^.com os quais foi crucificado o Senhor

Jesús, haviam sido forjaos por ciganos e que, em conseqüéncia, tal

povo fóra amaldicoado' Diante desta falsa acusacSo, os ciganos da

:

Alsácia e da Lituánia se defendiam inteligentemente

atencáo para o costume introduzido nos séc. XII/XIII na iconografía

crista, costume de representar o Senhor crucificado com tres cravos

e nao, como na primitiva Igreja se representava, com quatro

chamavam a

cravos vocava no povo cristáo, os ciganos pretendiam justificá-lo contando que uma mulher cigana, dcsejosa de impedir a crueldade contra Jesús, tentara roubar dos judeus os quatro cravos com os quais se

dispunham a crucificá-Lo; tendo conseguido subtrair ao menos um

crevo, os carrascos haviam sido obrigados a crucificar com tres

pregos em vez de quatro: um era. cada máo, e um nos dois pés sobre- postos. Assim, segundo a intengáo dos apologistas ciganos, a figura do Divino Crucificado, longe de constituir desdouro para a fama dos Esta altercacáo pode ser ilustrada pelo fato de que a primeira representa-

boémios. deveria, antes, torná-los mais caros aos cristáos!

Aproveitando-se da estranheza que ésse novo hábito pro-

cao do Crucificado com tres cravos data do séc. XTI; está forjada

em cobre e é de origem bizantina

Ora, se os ciganos bizantinos

possuiam o monopolio da metalurgia nessa época, poder-se-ia supor

que tal inovacáo na representacáo do crucifixo se deva aos ciganos, os quais destarte visavam afastar de si a calúnia de terem concorrido, pela sua industria no séc. I, para atormentar o Senhor Jesús.

Outro encontró, digno de nota, dos ciganos com o Cristianismo

é a peregrinagáo, que ésse povo ainda em nossos dias costuma em-

531 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 5

preender ao santuario dito «das Tres Marías» (Les Saintes Maries

de la Mer) na ilha de Camargue perto de Marselha no mar Mediter

ráneo. Conforme antiga narrativa, ésse santuario assinala o lugar onde desembarcaram Maria, máe de S. Tiago o Menor, María de Sa lomé, máe de S. JoSo Evangelista e S. Tiago o Maior, e Maria Ma-

dálena, acompanhadas de José de Arimatéia, de Lázaro e de Sara,

companheira egipcia das tres Marías: teriam sido expulsos da Pales tina ' pelos perseguidores da íé; embarcando entáo numa navezinha

destituida dos devidos recursos, a pequeña caravana, por evidente tutela da Providencia Divina, teria chegado incólume a Camargue, e

daí haveria iniciado a evangelizacao da Gália. Em comemoracáo do episodio (cuja autenticidade nao interessa discutir aqui), os cristáos ergueram na mencionada ilha urna grandiosa igreja, onde estáo guar

dadas as reliquias de Santa Sara, que os ciganos cristáos veneram

como süa padroeira. Ora, sendo a festa das «Tres Marias» celebrada

anualmente a 25 de maio, os ciganos de varias partes do mundo

(Franca, Alemanha, Austria, Italia. Espanha e até do Marrocos) cos- tumam afluir ao santuario, podendo o número de peregrinos chegar

a um total de 5.000; os mais antigos vestigios (ofertas votivas) désse

piedoso costume chegam a ser anteriores ao ano de 1450! A igreja

do santuario fica. por ocasiáo de tais peregrinagóes. inteiramente

ocupada pelos ciganos, os quais dáo á localidade toda um aspecto

festivo, meio-relijiioso, meio-profano; suas manifestacñes de piedade

nem sempre condizem com a genuina mentalidade católica.

Ainda no tocante as relacóes dos ciganos com o Cristianis

mo, pode-se notar os seguinte: na Franca há cérea de vinte sacerdotes (capeláes) consagrados á cura de almas entre os boémios, sob a direcáo geral do Padre Feluny, capeláo-mor

(outros capeláes existem na Alemanha, na Espanha, no Mar

rocos). Justamente durante os festejos de 1961 em Camargue

um désses sacerdotes franceses declarou á imprensa:

nao sao moralmente transviadas. Ine-

«As mulheres ciganas

gáveímente, os ciganos praticam uniñes de amor livre; muitos désses

casos, porém, se devem simplesmente ao fato de que. nao conseguem

obter os documentos que o govérno requer para o matrimonio civil. Tais circunstancias, porém, nao impedem que os ciganos estejam bem. convictos das obrigacoes decorrentes do matrimonio. Entre éles

o varáo que tenha escolhido urna mulher, sabe permanecer-lhe fiel,

Nos últimos tempos, tendo-se a Igreja mais ainda aproximado déles, designando

sendo o adulterio passivel de penas severissimas

capeláes para lhes assistir, muitas situagdes de familias irregulares

foram legalizadas; numerosos batizados tém sido efetuados; eu mesmo

já tive a ocasiSo de assistir á primeira Comunháo de seis cigana-

zinhas».

O repórter Emilio Marini, que transmite a declaracáo ácima,

acrescenta quase á guisa de comentario:

«Nao há dúvida, quem se aproxima daqueles carros (dos ciganos)

e conversa com os respectivos moradores toma consciéncia de que o juízo muito freqüentemente proferido sobre éles é de todo injusto;

trata-se, na verdade, de gente honesta, trabalhadora, de gente que

fica á margem da sociedade, principalmente porque a sociedade nao a

sabe acolher com a devida estima. Trata-se de gente que está ape-

532 —

_

QUEM SAO OS CIGANOS?

gada ao seu carro como o camponés está apegado a sua térra, e que,

embora pareea nao ter patria, é enormemente afeicoada á sua fami

lia a sua tribo, ao seu -carro, á sua liberdade» (extraído da revista

«Orizzonti» n* 28, de 9 de julho de 1961).

Éste triodo de ver compreensivo e benévolo parece assaz

oportuno na hora presente para acautelar contra generaliza- g5es pouco equitativas. Um juízo sobre o valor dos ciganos há

de ser circunspecto e matizado, levando em conta fatóres varios

que nao poderíamos aqui explanar por completo.

Resta agora considerar as relagóes que ppssa haver entre

3. Os ciganos e a Biblia

Fergunta-se: os ciganos proviriam de Jabel, Jubal e Tubal- caím, descendentes de Caim, que se tornaram os Patriarcas dos pastores, dos metalurgistas e dos músicos (cf. Gen 4,

20-22) ?

A resposta afirmativa seria bem alheia á mensagem do

texto sagrado. Com efeito, os onze primeiros capítulos do Génesis nao

pretendem descrever quadros da cultura primitiva, nem visam sugerir como a humanidade antiga vivía, do ponto de vista da

civilizagáo. (Js autor sagrado mesmo, escrevendo milenios e mi

lenios após s.s principios da humanidade sobre a térra, nao

sabia, nem podia saber pelas escolas do seu tempo, qual era

exatamente o tipo de cultura que caracterizava as geracóes ini ciáis. Para que o escritor bíblico referisse ésses dados, Deús

deveria ter feito o. milagre de lhos revelar especialmente; o

Senhor, porém, náb quis realizar tal portento, pois nao era

necessário á fínalidade da Biblia, que é estritamente religiosa:

o que o autor sagrado devia descrever, e de fato descreveu, era a fisionomía moral das primeiras geracóes, ou seja, como

se foram desenvolvendo as relagóes da humanidade com Deús

após a queda de Adáo e Eva. Em vista disto, o hagiógrafo

apresentou o morticinio de Caím (assassino de seu irmáo Abel;

cf. Gen 4,1-16), e quis mostrar como os descendentes de Cato foram sendo mais e mais contaminados pelo pecado (cf. Gen

4,17-24).

Nessa linhagem de Caím ou «dos Cainitas» (Gen 4,17-24),

algumas notas características chamam a nossa atengáo, pois

constituem a chave da interpretagáo do texto e evidenciam bem a intengáo do autor sagrado. Tais notas seriam:

a) a ausencia de números: — Ao contrario do que se ve

rifica na linhagem dos bons ou dos filhos de Sete, nao há um

533 —

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 48/1961, qu. 5

só número para indicar «os anos de vida» dos cainitas. Ora

essa ausencia de números simboliza, segundo a mentalidade dos

antigos, desordem, corrupgáo, alheamento a Deus, pois o .nú

mero por si indica harmonía, simetría (note-se como a linha-

gem de Sete ou dos setitas é toda acompanhada de números;

cf. Gen 5,1-32). O autor sagrado, por ésse proceder estilístico,

quer dizer que os descendentes de Caím se tornaram alheios a Deus, ou seja, pecadores notorios, prolongando-se a maldade

de Caím na posteridade déste Patriarca.

b) Tal afirmagáo atinge o seu auge quando o escritor

chega ao fim da tabela dos cainitas, ou seja, a Lameque e sua

familia. Sim; Lameque, tomando duas esposas, aparece como

um libertino e debochado que também é vingativo sequioso de

sangue; chega mesmo a decantar ou exprimir em versos a sua mentalidade violenta (cf. Gen 4, 23s).

c) Dentro déste quadro de idéias, a mengáo das grandio sas realizagóes de cultura dos cainitas (pastoreio do gado, me

talurgia, cultivo da música com instrumentos esmerados) toma

significado próprio. Essas realizagóes, entendidas ao pé da

letra, seriam anacrónicas, pois nao se pode admitir que na

sétima geragáo do género humano já se tenham praticado a

domesticagáo de animáis e a técnica metalúrgica; como atesta

a Paleontología, estas sao conquistas relativamente tardías da

humanidade.

Os primeiros homens viviam da colheita de frutas, raízes, bulbos animáis selvagens e peixes. O cacador e o pescador eram sobrios em suas aspiragóes; nao se preocupavam müito com a armazenagem das provisóes. Pinturas e incisóes íeitas ñas rochas da pré-históna nos

mostram cenas de caga e os instrumentos entáo utilizados: fossas, lacos,

redes, gaiolas primitivas, em que a presa podia licar em vida até se

tornar necessária ao consumo; foi talvez déstes artificios de caca que se originou o uso de domesticar os animáis. Embora o género humano já conté 500.000 ou 600.000 anos.de existencia, a domestlca- cSo de animáis nao parece anterior ao ano 8.000 a. C, época em que

aparecem também os primeiros vestigios de civilizacáo agrícola

(foices e picaretas de pedra). Os primeiros instrumentos de sdpro

terao sido assovios confeccionados com ossos de rena e usados.pelos

cacadores a fim de se manterem em contato uns com os outros.

Quanto á elaboracáo e ao emprégo dos metáis, foi-se aperfeicoando

lentamente; a idade do bronze nos leva ao quinto milenio antes de.

Cristo- ao passo que o ferro meteórico era usado no Egito no ter-

ceiro milenio a. C, ó ferro terrestre só entrou em uso por volta

que a natureza lhes oíerecia, ou da caca rudimentar de

do séc. XIV

a.

C.

Atributado realizagóes de cultura da idade do bronze e do ferro aos homens primitivos, o autor sagrado quería apenas

exprimir de maneira bem clara e familiar aos seus leitores (no

534 —

-,

QUEM SAO OS CIGANOS ?

segundo milenio antes de Cristo) urna verdade de índole reli giosa, nao de índole paleontológica ou científica; quería, sim, exprimir como os pecadores se deixavam, por assim dizer, fas cinar pela materia e pelas conquistas de prosperidade terrena', alimentando com isto as suas paixóes ou os seus instintos mais baixos; estavam obcecados pelas produgóes materiais em con-

seqüéncia de haver abandonado a Deus. Em Lameque, o séti

mo (o expoente mais representativo) da linhagem cainita, pe

cado e instrumentos de cultura aparecem estreitamente asso-

ciados: Lameque é assassino pela espada, e, em arte poética, canta as duas esposas os seus sentimentos baixos, evoluídos até

o extremo:

«Sete vézes será vingado Caim, Lameque, porém, setenta e sete vézes» (4,24; cf. 4,15).

Em outros termos: o autor sagrado, transpondo os dados cul turáis da sua época para tempos em que nao erarn' conhecidos, quería

apenas designar os objetos déste mundo com que entravem em con

tato as primeiras geracoes humanas; nao lhe importava dizer exata-

mente quais eram ésses objetos materiais; quaisquer que fossem, o

hagiógraíó queria di2er que eram utilizados pelos homens impíos

para proporcionar a si urna vida cómoda, ou seja, urna especie de

compensacáo por terem deixado o verdadeiro Bem, que é Deus. É,

alias, o que se verifica ainda hoje. Ao registrar isto, a Sagrada Escritura e os exegetas nao visam condenar a cultura profana. Apenas verificam a tendencia inegável

d<Kpecador a satisfazer sua sede de felicidade mediante o uso (geral-

méiite apaixonado) dos objetos déste mundo, já que nao se sabe

enticter com o verdadeiro Bem, Deus.

Note-se, por fim, que a transposicáo dos dados culturáis

da idade do bronze para os primeiros tempos da humanidade

constituí um anacronismo necessário para que os episodios

fóssem entendidos pelos leitores ¡mediatos (judeus destituidos de conhecimentos geográficos, paleontológicos

O artificio

).

nao prejudicava a finalidade primaria da Biblia, que é ensinar a doutrina da salvacáo.

Paralelamente, dir-se-á: nao prejudicam. mas, ao contrario, pos-

sibilitam, o ensino religioso as imagens do Crucificado em que os

soldados romanos sao representados em vestiario e armadura me- dievais, a inscricáo sobre a cruz traz as iniciáis INRI (do latim

«lesus Nazarenus Rex Iudaeorum»); também as imagens da Vlrgem

Santissima e do Menino Jesús que apresentam os traeos raciais do

chinés, do hindú, do africano, do flamengo ou do italiano renascen-

tista; as imagens dos magos sob forma dé tres reís, um branco,

outro negro, outro amarelo, junto ao presepio

Estas consideragóes já sao suficientes para mostrar que

vas seriam as tentativas de associar o povo dos ciganos á linha-

_

535

_

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS 48/1961

gem de Cai'm, como se fóssem éles os herdeiros da cultura e

da dvilizagáo dos cainitas. O autor sagrado seria o primeiro a

rejeitar essa aproximagáo, pois ele nunca teve a intencjio de

descrever o tipo de civilizagáo das primeiras geragóes huma nas. Os estudiosos, portanto, contentar-se-áo com os conheci-

mentos modestos que a historia profana apresenta a respeito

das origens dos ciganos.

Aos prezados correspondentes que nao nos enviaram seus

enderegos, sentimos nao poder satisfazer como quiséramós.

AOS NOSSOS LEITORES E AMIGOS QUE AÍNDA NAO

TENHAM SALDADO SEUS PAGAMENTOS DE ASSDÍATU-

RAS OU PEDIDOS, ROGAMOS O FAVOR DE O FAZER

A FIM DE QUE «P. R.», POR SUA VEZ, POSSA SATISFAZER AOS SEUS COMPROMISSOS.

A TODOS DESEJAMOS AS MAIS RICAS GRABAS DE

SANTO NATAL E FELIZ ANO NOVO.

D. ESTÉVAO BETTENCOURT O. S. B.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual

Assinatura anual (vía aérea) ••

Número avulso de 1961

Número de año atrasado

Colecáo encadernada de 1957

Cr$ 300,00

Cr$ 300,00iríaisCr$280,00 de porte

".

Cr$ 30,00

Cr$ 35,00

Cr$ 400,00

Col. encadernada de 1958, 1959, 1960 Cr$ 550,00 (cada urna)

KEDA£ÁO

Caixa Postal 2666 Rio de Janeiro

ADMINISXRACAO

R. Real Grandeza, 108 — Botafogo Tel. 26-1822 — Rio de Janeiro

1961

ÍNDICE

ÍNDICE 1961

/•"■

(Os números & direita indicam respectivamente fascículo, ano.de edicao, que'stáo focalizada c paginac.áo)

ADAPTACAO DA IGREJA

ADOCAO DE FILHOS «ADORAR OS SANTOS" AFINIDADE DO HOMEM COM DEUS

pela inteligencia e o amor

"AGNUS DEI" AGRARIA, REFORMA

ALCOFORADO MARIANA

43/1961, qu. 2, pág. 293.

41/1961, qu. 1, pág. 183. 43/196?, qu. 5, pág. 301.

37/1961, qu. 2, pág. 12.

43/1961, corr. miúda, pág. 314. 43/1961, qu. 3, pág. 339.

47/1961, qu. 6, pág. 488.

"ALÉM DO QUE ESTA ESCRITO"

ALMA DOS IRRACIONAIS

AMOR E MARXISMO

ANALFABETISMO DE ADULTOS

ANGLICANOS E CONCILIO ECU

(1

Cor

4,6)

37/1961, qu. 2, pág. 15.

44/1961, qu. 1, pág. 319.

48/1961, qu. 4, pág. 522.

37/1961, qu. 5, pág. 26.

MÉNICO

43/1961, qu. 2, pág. 296.

43/1961, qu. 4, pág. 299. 37/1961, qu. 5, pág. 27;

45/1961, qu. 3, pág. 378; 47/1961, qu. 5, pág. 486.

40/1961, qu. 3, pág. 149.

42/1961, qu. 2, pág. 240.

38/1961, qu. 3, pág. 69. 47/1961, qu. 3, pág. 470.

ANIMÁIS IRRACIONAIS E ALMA . 44/1961, qu. 1, pág. 319.

ANJO E PISCINA DE BEZATA

(Jo 5, 3b-4) ANTICONCEPCIONISMO

APOSTASIA : pecado irremissível ?

APOSTÓLOS E VIRILIDADE

ARCA DA ALIANCA ARCA DE NOÉ e Igreja

ARGUMENTO

MEIRA" ARTE SACRA inicial

ASSIMILAC. AO nos viventes

AT3NAG0RAS, Patriarca de Constan-

DA "CAUSA PRI-

tinopla .'.

AUTOMATISMO PSICOLÓGICO

AUTONOMÍA DA CONSCIÉNCIA

HUMANA

AUTOR DO PENTATEUCO

AUTO-SUGESTAO

40/1961, qu. 2, pág. 146. 39/1961, qu. 1, pág. 98.

44/1961, qu. 1, pág. 321.

43/1961, qu. 3, pág. 298.

42/1961, qu. 1, pág. 227.

37/1961, qu. 4, pág. 23.

48/1961, qu. 2, pág. 505.

43/1961, qu. 1, pág. 276.

B

BAHA'I (ReligiSo) BALAA e o asno que falou

BATISMO DAS CRIANZAS e sua ne-

cessidade

BENEFICENCIA ESPIRITUAL ou

cura de almas

3

44/1961, qu. 5, pág. 352. 46/1961, qu. 5, pág. 433.

41/1961, corr. miúda, pág. 224.

39/1961, qu. 2, pág. 105.

BENS AGRADÁVEIS OU DELEITO

SOS, OTÉIS, HONESTOS

BERNADETE SOUBIROUS (Santa) e a grafologia BEZATA, piscina milagrosa

(Jo 5, 3b-4)

BOA FÉ E VERDADEIRA FÉ

c

CANIBALISMO

"CÁPELA SIXTINA" da pré-história . CARIDADE E JUSTIQA CASÁIS SEM FILHOS E ADO^ÁO . CASOS DE CONSCIÉNCIA

CASTRAQÁO DE MENINOS <e voz de

soprano

CATOLICISMO E PROTESTANTIS

MO NA COLOMBIA CAUSA PRIMEIRA

CAUSAS DE ESCRÚPULOS DE

CONSCIÉNCIA CELIBATO a luz do Cristianismo

CEREBRO e "limpeza de cránio"

CERTEZA MORAL DA CONSCIÉN CIA CHAMADO TARDÍO AO SACERDO

CIO

"CHAVES DE SAO PEDRO" de Pey-

refitte CIENCIAS OCULTAS E GRAFOLO- GIA CIGANOS (orígem, historia, género de vida, de trabalho)

CINISMO da mentalidade moderna

CIVILIZAQÁO CRISTA, sua significa-

5áo

CÓDIGOS JAVISTA, ELOISTA, DEU-

44/1961, qu. 1, pág. 323.

45/1961, qu. 1, pág. 370.

43/1961, qu. 4, pág. 299.

40/1961," qu. 5, pág. 164.

39/1961, qu. 1, pág. 101.

39/1961, qu. 1, pág. 99. 48/1961, qu. 4, pág. 526. 41/1961, qu. 1, pág. 183. 40/1961, qu. 5, pág. 161.

42/1961, qu. 3, pág. 247.

42/1961, qu. 5, pág. 239. 40/1961, qu. 2, pág. 146.

41/1961, qu. 5, pág. 204. 46/1961, qu. 7, pág. 441; cf. 41/1961, qu. 6. pág. 213.

37/1961, qu. 1, pág. 3.

40/1961, qu. 6, pág. 176.

45/1961, corr. miúda, pág. 404.

43/1961, qu. 6, pág. 307.

45/1961, qu. 1, pág. 363.

48/1961, qu. 5, pág. 528.

37/1961, qu. 4, pág. 23.

46/1961, qu. 1, pág. 408.

TERONÓMICO E SACERDOTAL 48/1961, qu. 2, pág. 508. COLOMBIA E PERSEGUICAO RELI GIOSA COMISSOES DE
TERONÓMICO E SACERDOTAL
48/1961, qu.
2, pág. 508.
COLOMBIA E PERSEGUICAO RELI
GIOSA
COMISSOES DE ESTUDOS DO CON
CILIO ECUMÉNICO
42/1961, qu.
5, pág.-259.
43/1961, qu. 2, pág. 283.

COMUNHAO sob as duas especies

CONCILIAQÁO ENTRE PROVIDEN CIA DIVINA E DESGRACA NO MUNDO CONCILIO ECUMÉNICO DO VATI

CANO II CONFISSAO SACRAMENTAL DOS

ESCRUPULOSOS

CONGREGACÁO E ORDEM RELI GIOSA

CONSCIÉNCIA ERRÓNEA

NO MUNDO MODERNO

41/1961, corr. miúda, pág. 224.

41/1961, qu. 2, pág. 190.

43/1961, qu. 2, pág. 281.

41/1961, qu. 5, pág. 203.

41/1961, qu. 6, pág. 213.

40/1961, qu. 6, pág. 170.

40/1961, qu. 5, pág. 160.

CONSELHOS EVANGÉLICOS

41/1961, qu. 6, pág. 213.

CONSTITUigAO NACIONAL DE 1946 45/1P61, qu. 5, pág. 402. CONSUMACÁO DA OBRA DA RE-

CONTRADigOES APARENTES NOS

EVANGELHOS CONVIVENCIA DA IGREJA COM OS NAO-CATÓLICOS CORDEIRO DE PASCOA

DENCAO

40/1961, qu. 4, pág. 157.

40/1961, qu. 4. pág. 155.

37/1961, qu. 6, pág. 33. 39/1961, qu. 3, pág. 112.

CORPO HUMANO, sinal do espirito . 42/1961, qu. 4, pág. 250.

CORPO MÍSTICO DE CRISTO CRANIO, "LAVAGEM" DE CRIACAO DO MUNDO EM SEIS DÍAS CRISTAOS e o sinal da Cruz

CRITICAS CONTRA A IGREJA

CRUZ ANTES DE CRISTO

CANAL DE SANTIFICAQAO GAMADA

CULTO CATÓLICO e os náo-católicos.

DAS IMAGENS

DOS SANTOS

DE SATANAZ

'

38/1961, qu. 2, pág. 63. 37/1961, qu. 1, pág. 3.

40/1961, corr. miúda, pág. 180. 45/1961, qu. 4, pág. 387.

39/1961, qu. 2, pág. 111.

45/1961, qu. 4, pág. 385.

39/1961, qu. 2, pág. 105. 45/1961, qu. 4, pág. 386.

46/1961, qu. 4, pág. 431.

41/1961, corr. miúda, pág. 224.

42/19ÍU, qu. 4, pág. 225.

37/1961, qu. 4, pág. 22.

DATA MÓVEL DA SEMANA SANTA 39/1961, qu. 3, pág. 112. 1, pág. 91.

DATAS DA PRÉ-HISTÓRIA

"DECLARAgAO UNIVERSAL DOS

DIREITOS DO HOMEM"

"DELIRIO MÍSTICO"

DESAJUSTAMENTO PSÍQUICO PRO

VOCADO PELOS PAÍS E EDUCA

DORES

DESCENTRALIZADO DA ADMI-

NISTRACAO DO ENSINO

DESCIDA DO ANJO NA PISCINA

DE BEZATA (Jo 5, 3b-4)

DESDOBRAMENTO DA PERSONA-

LIDADE

"DEUS É GRANDE"

DEUS E O SOFRIMENTO DO HO

MEM

39/1961, qu.

45/1961, qu. 5, pág. 402.

37/1961, qu. 1, pág. 8.

43/1961, qu. 1, pág. 279.

45/1961, qu. 5, pág. 402.

43/Í961, qu. 4, pág. 299.

42/1961, qu. 1, pág. 235.

41/1961, qu. 2 e 3, pág. 195.

41/1961, qu. 2 e 3, pág. 190.

OU O ACASO Jia origem do mundo 40/1961, qu. 2, pág. 143. PONTO DE REFERENCIA DE

TODAS AS CRIATURAS "DEUSA", palavra inexistente em he

braico

DEVERES DO INDIVIDUO em rela- cáo á sua consciéncia

DEVERES DOS PAÍS ADOTIVOS

DEVOgAO AOS SANTOS E CANONI- ZAgOES

DIABÓLICA POSSESSAO (e o Pe. Surin)

5

39/1961, qu. 4, pág. 123.

37/1961, qu. 2, pág. 11.

40/1961, qu. 6, pág. 169.

41/1961, qu. 1, pág. 188.

45/1961, con-, miúda, pág. 404.

47/1961, qu. 2, pág. 459.

DIFERENCA PSICOLÓGICA, SOCIAL

E RELIGIOSA ENTRE O HOMEM

E A MULHER

DIRECAO ESPIRITUAL DOS ESCRU-

PULOSOS

DIREITO DE MINISTRAR EDUCA-

CAO CRISTA A JUVENTUDE

DIRETRIZES E BASES DA EDUCA-

CAO

DISTRÍBÜICAO DE RECURSOS PA-

RA A EDUCÁOSLO

DOENCA E GENIALIDADE DOGMA ÁCIMA DA MORAL E DA

APOLOGÉTICA

DOMESTICACÁO DOS ANIMÁIS

DOR NOS ANIMÁIS IRRACIONAIS

E JUSTICA DE DEUS

DOYLE, método de

DUPLA PERSONALIDADE

DURKHEIM e a consciéncia

48/1961, qu. 1, pág. 495.

.

,

,

41/1961, qu. 5, pag. 210.

37/1961, qu. 6, pag. 39.

45/1961, qu. 5, pag. 393.

_

45/1961, qu. 5, pág. 399.

47/1961, qu. 2, pag. 467.

38/1961, qu. 2, pag. 62.

44/1961, qu. 2, pág. 331.

44/1961, qu. 1 e 2, pág. 326.

47/1961, qu. 5, pág. 486.

42/1961, qu. 1, pag. 235.

40/1961, qu. 5, pág. 166.

ECTOPLASMA EDUCACAO DA CONSCIÉNCIA DIRETRIZES E BASES EGOÍSMO E EGOCENTRISMO 40/1961, qu. 45/1961, qu. 46/1961,
ECTOPLASMA
EDUCACAO DA CONSCIÉNCIA
DIRETRIZES E BASES
EGOÍSMO E EGOCENTRISMO
40/1961, qu.
45/1961, qu.
46/1961, qu.
38/1961, qu. 1, pag. 47.
5, pág. 160.
5, pág. 393.
7, pág. 443.
EMANCIPACAO DA MULHER
48/1961, qu. 1, pág. 500.
ENDOCRINAS, GLÁNDULAS
EQUILIBRIO HORMONIAL
46/1961, qu.
43/1961, qu.
2, pag. 420.
2, pág. 421.
ESCAPULARIO E SU AS MODALI-
.
DADES
43/1961, corr. miuda, pag. 314.
ESCOLA PÚBLICA OU ESCOLA
.

ÚNICA

ESCOLHA DOS APOSTÓLOS ESCRITA AUTOMÁTICA

DE DEUS

45/1961, qu. 5, pag. 398.

, 42/1961, qu. 2, pág. 240. 42/1961, qu. 1, pag. 227.

38/1961, qu. 3, pag. 68.

41/1961, qu. 5, pág. 201.

ESCRÚPULO DE CONSCIÉNCIA

ESPIRITISMO E SEUS FEN6ME-

luva de parafina, materializacáo . 38/1961, qu. 1, pág. 47.

escrita automática

42/1961, qu. 1, pág. 227.

ESPONTANEIDADE DA LINGUA-

GEM BÍBLICA

38/1961, qu. 2, pág. 60.

"ESTACIONAMENTO" DO SOL E

JOSUÉ

ESTADO E IGREJA

:

45/1961, qu. 2, pág. 373.

37/1961, qu. 6, pág. 33.

ESTAT1STICA DAS DIVERSAS RE-

LIGIÓES

_

1O<S

39/1961, qu. 5, pág. 126.

ESTERILIZACAO PROVISORIA DA

MULHER

,

45/1961, qu. 3, pag. 378.

EUCARISTÍA E ESCRITURA SA-

GRADA (paralelismo)

38/1961, qu. 2, pág. 58.

40/1961, qu. 4, pág. 155.

eo