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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoristm)
APRESEKTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.■" visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
P_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
a*.
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ÍNDICE

PáB
I. CIENCIA E RELIGIAO

1) "Que pensar de Rasputin, o chamado 'monut louco </<i


Iiússia' ?
Tratase de um verdadeiro santo, de um po.tyrssa diabólico
ou talvez lie um mistificador ?
Como afinal distinguir do fuho milagre o auténtico ?" .... J«-7

n. DOGMÁTICA

2) "Porque, na confisco sacramental, sao acusados pecudos


ventáis (e, ás vézcs, só pecados veníais), te estes nao constituem
materia neeessária do sacramento !
E porque se recomendó que •> j>enitentt) acuse pecados já
acusados e absoMdos em confissócs anteriores ? Deus nao perdoa
de urna só vez ?" i?°
5) "As almas mais santas silo as que mais asiduamente
freqüentam o sacramento da Covfismo. Pode-se crer que oigamos
já nao cometen pecado leve consciente ou voluntario. Que materia
entáo tém para acusar táo as.sirtuamertte ?
Nao seria absurda a sua prare ?" 1~':

III. SAGRADA ESCRITURA

',) "A promesna de Jcstis aa bnm ladráo (Le 23,.',3) prestase


a aJgumas dúvúlas :
a) Nño significa qv só a fé snlva, mesmo xcm phras ?
b) Nao deverin ser entendida, de entro ¡nodo : 'Em rerdade
digo-te hoje: estarás cnivl-tn t><> pttnitxo'f Pnis a Escritura parvee
ensinar que a alma morrr ■/uiifl'i xv separa do carpo (ef. hel
3,19-21)" J?*

IV. niSTORIA DO CRISTIANISMO

ü) "Diz-ne que a hjrcja i rulpada do desequilibrio) social hoje


existente, ¡x>r ;;<: tir dex'ruidado das claases mais humildes durante,
sáculos e haver fnntcvtada o pauperismo na Idatle Media" .... IX',
6) "A ctindieáo de vid'i do xervo do'gleba medieval liño é
urna mancha na. hUloria dn Crixtiun^tmo ?" ls'<
7) "A Igreja está despertando tarde dentáis pitra os pro-
Memas sociais. Outros já Ihc tomaram o lugar" J#-í

V. MORAL

a) ".1 carid/ide e n exmola san h'imilhnntex pura « ;>"'>re.


S'rá ¡trecho crtinauir n* iniciativas particulares d? enndade
¡•uní d-(r lunar a un"i rcrdudcira retorwn, que confian'' cschi.-u-ti-
menl** ao Enfado */ atxivtcni'ia '(</.•* tlrvfiniparados.
A caridade já leve sna époc-i. Agora dere comeexr o reinado
da justica" l9i

CORRESPONDENCIA MICHA '"?

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREM OS.»

Ano V —• N« 53 — Maio de 1962

I. CIENCIA E RELIGIAO

A. F. P. (Belo Horizonte) :

1) «Quo pensar de Raspotin, o chamado 'monge louco da


Eóssia'?
Tratarse de iim verdadeiro santo, de nm possesso diabólico
ou talvez de um mistificador ?
Como afinal distinguir do falso milagre o auténtico ?»

Recentemente apareceu nos Estados Unidos da América um


livro intitulado «Rasputin and the Fall of Imperial Russia»
(Rasputin e a queda da Rússia Imperial), da autoría de Heinz
Liepman (Copyright de Robert M. McBride Co., Inc. New York
3, N. Y., U. S. A.). A obra despertou grande interésse porque
trata de um personagem cheio de contrastes, cujas atitudes nem
a Religiáo nem a ciencia parecem poder explicar : de fato, Ras
putin (assim se chamava o herói) era camponés rude, mas do
tado de portentoso poder curativo, que Ihe granjeava ascenden
cia até mesmo sobre o casal imperial da Rússia. Passava por um
homem de Deus, monge familiarizado com a oragáo e com comu-
nicacóes do Céu, mas dava-se apaixonadamente ao vinho e as
mulheres... Nao ocupava cargo oficial no govérno russo, mas
tornou-se o homem mais poderoso do país. Cf. a revista «Sele-
Cóes», dezembro de 1961, pág. 218. *
A obra de Liepman íol escrita na base de documentos da policía
secreta czarísta franqueados ao público em 1957. Éste novo material
revelou traeos e episodios da vida de Rasputin até nossa época desco-
nhecidos; contudo nao altera decisivamente o conceito que já anterior
mente se podía formular sobre Rasputin e sua atuagao na historia.

Para avaliar devidamente p caso, vamos no presente artigo


apresentar, em primeiro lugar,' breve esbóco da vida e da men-
talidade de Rasputin; a seguir, procuraremos julgar serena
mente o papel do «monge louco».

3. Esbóco biográfico e mentaJidade de Rasputin

1. Gregorio Efimovitch Novy nasceu em 1871 na aldeia


de Pokrovskoe (provincia de Tobolsk, Sibéria), como filho de
humilde camponés. Passou a infancia e a adolescencia em sua
térra natal, levando vida ociosa e dissoluta, em conseqüéncia

— 163 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962. qu. 1

da qual Ihe impuseram o cognome de «Rasputin» ( = debocha


do) ; exercia ora as ocupagóes de jardineiro, ora as de estafeta
do correio, ora as de ladráo de cávalos (!), sempre amigo de
bebida e mulheres, de tal modo que cbegou ao fím da vida sem
instrugáo, nao sabendo sequer escrever convenientemente. Em
1895 casou-se, vindo a ter duas meninas e um menino. Final
mente em 1904, com 33 anos de idade, resolveu mudar de vida :
deixou a familia, cingiu-se com urna corda e, dizeiido-se inspi
rado por Deus, passou a se entregar a severos exercídos de pie-
dade, na qualidade de monge. '

De passagem, seja licito notar que o quadro religioso é o da Rússia


chamada «ortodoxa» ou «cismática». O Cristianismo al está separado
da Sé de Pedro ou de Roma desde a Alta Idade Media (cf. «P. R.>
10/1958. qu. 10). Contudo conserva multas instituicoes tradicionais,
entre as quais o monaquisino (entregue geralmente a rigorosas prá-
ticas de oracao e mortificacao), o sacerdocio hierárqulco (bispos, pres
bíteros, diáconos, etc.), a veneracáo aos santos, etc.
A alma russa sempre se mostrou profundamente religiosa, ou seja.
aberta para todos os valores da esplritualidade e da mística. '

A transformacáo da conduta de Rasputin deve-se, conforme


parece, a urna visita que fez ao mosteiro ortodoxo de Verfcho-
touré, para onde o levou certo dia um sacerdote de sua religiáo.
Contava Rasputin:

«Na véspera, como tivesse adormecido no campo, tive urna visáo.


O santo taumaturgo Simeao estava diante de mim e ordenava-me que
abandonasse a minha má conduta, que me recolhesse era um mosteiro
e oras»» durante dois anos; a seguir, a gloria recalria sobre mim».

Dotado de natureza muito afetiva e vibrátil assim como de


notável robustez física, Rasputin conheceu entáo urna fase de
intensa exaltacáo religiosa. Adotou as idéias da seita dita «dos
Khlysty», segundo a qual a salvagáo pode e deve ser obtida úni
camente pelo arrependimento do homem. Esta doutrina havia
de sugerir á mente extremista de Rasputin algumas condusóes,
como, por exemplo: «Comete o pecado, a fim de que possas
obter perdáo». Dizia também aos seus ouvintes: «Está encar
nada em mim urna partícula do Ser Supremo.,. Somente por
mim podéis esperar ser salvos. O modo como vos salvareis é o
seguinte : permanecei unidos a mim em alma e corpo; o poder
que emana de mim, é a fonte da luz, a destruicáo do pecado»
(cf. E. J. Dillon, The Eclipse of Russia).
Táo ousados enslnamentos granjearam para Rasputin ampia popu-
laridade, até mesmo a íama de «homem de Deus» ou «santo homem».
Possuia. de resto, como reconheclam seus adversarios mesmos. extraor
dinario poder de fascinar os seus concldadaos, consegulndo assim pene
trar nos mals elevados setores da vida pública russa. entrando outros-

— 164 —
KASPUTSN. O -MONGI-: LÜUCO DA ¡USSiA-

wm ñas casas o n<y* s;»Kh's tíos nubr^s da nagáo, a íim de cxcrccr sobre
todos urna acentuada influencia, cmbora fússe iletrado. Aeol>ertado por
seu prestigio, Rasputin infelizmente se entrecava á orgia e ao liber-
tinismo; estas praticas lhe eram facilitadas pelo género de vida nómade
f¡ue abracou. indo ter a varios santuarios da Rússia. ao mosteiro do
Monte Atos i.Grecia> e a Jerusalém. Nos mosleiros pelos quais passou.
aplicou-se á leitura dos códigos sagrados, mas quase sem resultado,
dada a sua falta de preparo. Conseguía porém. decorar algumas frases
rio livros religiosos, frases obscuras e desarticuladas, que ele repetía
freqüentemento em scus oráculos.

Na corte imperial, Rasputin teve acesso por mediacáo do


arquimandrita Teófanes, Reitor da Academia Teológica de S.
Petersburgo. Urna vez apresentado ao Czar Nicolau II e á sua
esposa Alevandra Feodorovna, o mongo «místico» comegou a
exercer extraordinaria influencia sobre ésses fracos monarcas,
principalmente sobre a Imperatriz; esta se entregava quase
incondicionalmente á orientacáo de Rasputin, a quem atribuía
itm poder infalível de curar os achaques de saúde do jovem
príncipe herdeiro (tzarevitch») Alexis.

Rasputin chegou a instaurar num estabelerimento balneario de


S. Petersburgo urna terapéutica nova, que se tornou escandalosa; in
formados disto, o areebispo Teófanes. o hispo Ilermógenes. de Saratov.
e o rnonge Heliodoro denunciaram o taumaturgo ao Santo Sínodo (su
prema autoridade religiosa da Rússia» em 1912; Rasputin defendeu-se
entáo, alegando : «£ <:erto que conduzi ao banho pobres doentes de
corpo e alma e que permanecí Hinto déles, mas assim proveí de modo
concludente o meu poder de curar e. o meu imperio sobre a minha pro-
pria pessoa». Diante desta declaragáo. exclamou o deputado Goutchov:
tA santidade do aliar e o prestigio do trono estáo em perigo. O caso
de Rasputin é unía úlcera que devora o coracáo do povo!». Em conse-
qüéncia do escándalo, o monge teve que se aíasíar. Contudo, ja que á
saúde do principe herdeiro sofria novos perlgos, a Imperatriz obteve a
sua volta e a conseqüente punlgáo dos adversarios do «místico» médico :
os dois bispos cairam em desgrasa, e Heliodoro fol exilado. Leigo e
iletrado como era. Rasputin suplantava qualquer autoridade eclesiás
tica, provocando a deposicáo ou a promocao dos membros da hierar-
quia ortodoxa na Rossia; assim conseguiu fósse nomeado areebispo
de Tobolsk o jardineiro Varnada, que mal sabia ler e escrever; até
mesmo na nomeacüo de oficiáis e maiorais do govérno imperial, o fas
cinante persona cem exercia papel decisivo, de moco que a gente mais
desqualiíicada síibia aospostos de maior reli^vo. e nada de importante
se fazia sem a sua aprovagáo; contra a onda de oposieño que se alas-
trava por todas as elasses da sociedade, o Czar o defendia sem reservas.

Os adversarios resolveram entño eliminar Rasputin: um


primeiro ensaio foi empreendido em julho de 1914 por urna mu-
Iher chamada Guseva, que o feriu gravemente no ventre a tiros
de revólver; contudo a robusta constituicáo física do taumaturgo
salvou-o. Isto lhe granjeou aínda maior renome. Em questóes
políticas, Rasputin era demasiado inculto para ter opinióes for
madas; por ocasiáo da primeira guerra mundial voio a ser um

— 165 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1062. qu. 1

dos meihores instrumentos do partido germanófilo do seu pais.


Em tal conjuntura, um grupo de cinco patriotas russos houve
por bem eliminar peremptóriamente táo nocivo cidadáo : a custo,
conseguiram, aos 17 de dezembro de 1916, aceitasse um convite
para cear á meia-noite em casa do principe Yusupoff, marido
de urna sobrinha do Imperador : serviram-lhe primeiramente
urna forte dose de vinho envenenado, a qual nao surtiu o efeito
previsto; em conseqüéncia, burlando hábilmente a vigilancia da
policía, recorreram as balas, que acabaram por feri-lo mortal-
mente. O seu corpo foi encontrado debaixo do gélo dois dias
depois; a Imperatriz mandou transferi-lo para o parque de
Tsarskoe Selo, onde lhe foi erguido um mausoléu. junto ao qual
a soberana ia rezar todas as noites.

É éste o esbozo da vida de um dos mais famosos vultos da historia


russa das últimas décadas. Fa/.-se mister examinar ajjora as re!.i;6es
entre

2. Portentos de Rasputin e, milagres própriamonte ditos

Os arquivos da policía czarista revolam em Rasputin notoria facui-


dade de realizar curas mediante a ornean e <ie predizer o futuro. Ora
estas noticias nao podem deixar de impressionar o público c sugerir na
mente dos leitores urna serie de hipóteses o dúvidas...
A íim de aclarar o horizonte, procuraremos abaixo julfjar por eta
pas sucessivas e seguras.

1) Seria preciso, antes do mais, analisar até que ponto sao


verídicas as narrativas de prodigio? atribuidos a Rasputin. A fi
gura déste personagem foi envolvida numa aura de misterio tal
que fácilmente traeos exagerados e lendários podem ter sido
utilizados pelos pósteros para mais frisar o caráter fascinante
do monge louco.

Urna vez vencida esta primeira etapa, isto é. dado C|iie seja real
mente histórico turto que os biógrafos (em particular, o mais recente.
H. Liepman) narram a respeito de ilasputln. devo-se fazer a seguint"
advertencia:

2) Muítos fenómenos reais outrora eram tidos como inex-


plicáveis ou simplesmente milagrosos; hoje já nao sao, nem
podem ser, considerados tais. Os estudiosos os tém pesquisado,
encontrando ejucidacáo natura! (fisiológica e psicológica) para
fatos que os antigos julgavam só poder justificar por intei-vcn-
cto direta de Deus ou de algum espirito do Além. Em particular,
o curandeirismo ou as curas efetuadas sem medicina científica,
mas por meio de visitas, olhares, preces, ritos, num ambiente
de alta tensáo e expectativa, entondem-se perfeitamente como
reacóes nervosas, eapazes. sim, de produzir efeitos surpreenden-

— lfifi —
RASPUTfN. O «MONGE LOUCO DA RÜSSIA»

tes, mas efeitos coñudos dentro das potencialidades da própria


natureza humana. A religiáo e os pretensos poderes sobrenatu-
rais em tais casos sao apenas motivo psicológico para desenca-
dear o processo nervoso; dáo únicamente um rótulo ou um «ver-
niz» a ésses fenómenos naturais. Cf. «P. R.» 32/1960, qu. 2.

Para ilustrar um pouco os misterios da percepcao humana, vao


aqui registrados alguns casos de hiperestesia ou supersensibilldade
registrados pela moderna parapsicología. Dáo a ver com clareza como,
sem o saber, multas pessoas percebem coisas Invlsiveis, realmente pre
sentes ao percipiente; nestes casos, ySo seria íalar de <revelac3o> ou
«intorvencáo sobrenatural», embora a imaginacüo popular logo tenda
a apelar para esta explicacao.

Numa fita de cinema gravaram-se em fotograma as paiavras :


«Fome? Coma pipoca!».
Estes dizeres foram, a seguir, exlbldos a urna píatela numerosa, em
velocidade tal que se tomavam imperceptlveis para o consciente dos
observadores. Após a sessáo cinematográfica ninguém diria ter visto
tais palavras; contudo haviam sido inconscientemente percebidas. fica-
vam na memoria dos espectadores e em breve iam dar seus frutos...
Com efeito, registrou-se que o consumo de pipoca no bar do cinema
aumentou de 50% naquele dia!
Por se ter íeito a propaganda ao Inconsciente, todos julgavam que
o seu apetite de pipoca era espontaneo; ninguém suspeitou ter captado
pela vista o letreifo de propaganda.
O aumento de 50% ainda é relativamente pequeño. Explica-se,
desde que se leve em conta que entre os espectadores havia analfabe
tos, para os quais aquelas palavras nao passaram de garranchos sem
sentido; havia a petizada. que nao sabia onde ficava o bar, e havia os
que iam ao cinema com o'dinheiro contado...

O treino. consciente ou inconsciente, pode obter graus desconcer


tantes de hiperestesia: os marinheiros chegam a enxergar objetos a
distancias multo superiores as que pessoas de outras profissdes atin-
gem. Os pintores chegam a distinguir matlzes ñas 'cores que o comum
dos homens tem por indiferendáveis. Certos selvagens possuem, pelo
exercicio, um ouvido que supera a sensibilldade do mais sensível mi-
crofone. e um olfato que se assemelha ao dos caes de caca. Os cegos e
os surdo-mudos freqüentemente apresentam algum sentido notável-
mente agucado, por serem obrigados a exerdtar uns sentidos com acul-
dade tanto maior qunnto é deficiente nos outros. Assim tnuitos surdo-
mudos podem compreender a linguagem talada sómente pelo movi-
mento dos labios do interlocutor (para se avallar quanto lsto é difícil,
basta desligar o alto-falante de um aparelho de televisSo, deixando-se
acesa apenas a película da imagem).

Urna das experiencias favoritas de Charcot, fundador da escola


hipnótica de Salpétrlére, era- a seguinte :
Escolhin dentre os doentes do hospital alguns histéricos. Primeira-
mcnle. colocava-os em estado hipnótico de sonambulismo, e neste estado
Ihes mostrava um papel branca sugerindo-lhes que era urna fotografía.
Feito isto. misturava o papel com urna dúzia de outras íólhas. tddas
Igualmente brancas e iguais entre sL Selecionava intencionalmente.
fdlhas de papel ñas quais parecía irapossivel descobrir algum sinal que
as diferenciasse entre sL

— 167 —"
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962. qu. 1

Antes de acordar os pacientes, sugeria-lhes que, urna vez desper


tados, continuaran! a ver a tal fotografía no papel... Depois entáo de
os acordar, mostrava a cada paciente a. serie de íólhas misturadas; o
percipiente as iam observando com indiferenca. sem fazer grande
caso... De repente, quando passava a íolha. sobre a qual devia estar o
imaginario retrato sugerida o paciente se deünha com surprésa por
notar que um dos tais papéis era urna fotografía!
Pelo lugar em que tinha sido colocado o papel era questao, Charcot
se assegurava do éxito da experiencia... '
Que se poderia daí deduztr? ■
Precisamente o que Charcot pretendía demonstrar, lsto é, que, ape-
sar de parecer inteiramente iguais,*na realidade tais íólhas, nao erara
iguais entre si. O paciente percebia, por hiperestesia, algum sinal carac
terístico e por ele diíerenciava dos demais o papel assinalado pelo mé
dico como fotografía.
Note-se que, depois de haver recorrido ao estado hipnótico para
obter tais resultados, Charcot conseguiu obté-los tambera em estado
de vigilia dos seus pacientes. Donde se depreende que, mesmo em estado
de vigilia, pode alguém gozar de extraordinaria hiperestesia ou facul-
dade de percepeáo.

Ora, a menos que conste evidentemente o contrario, é de


crer que os portentos atribuidos a Rasputin nao sao senáo tais
fenómenos naturais que a crenga popular pré-cientifica atribuí
espontáneamente a poderes sobrenaturais, dando assim ampia
expansáo & fantasía e a veía mística. — Os auténticos milagres
tém que ser devidamente provados, nao podem ser simplesmente
(ou simplóriamente) pressupostos.

Está bem, dir-se-á. Todavía, caso se adote esta perspectiva,


podem ficar burlados nao sómente os portentos e milagres atri
buidos a Rasputin, mas támbém os que a Sagrada Escritura
narra a respeito dos homens de Deus. Em particular, as curas
e profecias de Jesús no Evangelho nao ficaráo destituidas de
valor e autoridade? Com que base se poderá aínda falar de fenó
menos milagrosos no Cristianismo?
Responder-se-á: a explicacáo. dada nao tira aos milagres do
Evangelho sua genuinidade e sua autoridade.
Como nao ? ...
3) Um auténtico milagre, no sentido religioso, nao é ape
nas uní fato prodigioso como tal, mas é tal fato prodigioso que
tcm ao mesmo tempo a índole ou a fungáo de SINAL; em outros
termos : o verdadeiro milagre religioso está sempre em relacáo
com a doutrina ou a virtude do taumaturgo, de modo que apa
reja como sélo comprovante ou testemunho concedido por Deus
á pessoa que faz ou obtém o milagre.
Em conscqüéncia, para que se possa falar de verdadeiro mi
lagre no sentido religioso, requer-se o cumprimento de tres con-
diyóes (cf. «P. R.» 6/1958, qu. 1; 11/1958, qu. 1) :

— 168 —
IIASPUTI.W O «MONGE LOUCO DA RÚSSIA

a) o fenómeno em questáo seja fato histórico ¡ndubitável,


nada tendo de lendário (nao raro dá-se crédito Ieviano as nar
rativas de portentos);
b) o fato histórico seja absolutamente inexplicárel pelos
conhecimentos da ciencia moderna;
c) ésse fato histórico inexplicáveJ tenha rela^ao com os
ensinamentos e as virtudes de determinada pessoa. de modo a
aparecer como sinal dado por Deus em confirmac.áo da doutrina
ou do género de vida de tal individuo.

Em eonseqüéncia, escapam á qualificacáo de ^-milagro» cortos latos


que, embora sejam maravühosos (.aigumas curas repentinas, visdes'
destituidas de conteúdo doutrinário. um ou outro caso de esligmatiza-
gao...), n5o tém significado religioso, nao elevatn á Deus. nías, ao con
trario, só servem para satisfazer ao capricho ou á vaidade de alguém.
Quando Deus eíctua prodigios, nunca o faz por capricho ou ostentacáo
de sua Onipoténeia. mas sempre a íim de chamar a ateneáo do homem
para algum dos atributos divinos.
Seja lícito repetir: a funcáo de sinal é inerente ao genuino mila
gro. O caráter rnaravilhoso de um fenómeno nao interessa, por sí
mesmo. ao teólogo ou ao apologela (pois ncm todo íato que nos sur-
preenda. pode, por isu> mesmo. ser tomailo como obra direta de Deuf).
O que fia valor religioso ou teológico a algum purtonto. habiiitando-nos
a íaiar de vt-nluilciro milagro, é o quadro histórico dentro do qual o
portento se realiza : tal prodigio pode ser tido corno tostvmunho dado
por Deus á vida virtuosa ou k doutrina de tal ou tal pessoa? — Se nao
existir esta relaeao. o prodigio nao será utilizado como argumento na
teología ou na apologética; já nüo será objeto de esuicio iio apologista
como la), mas, sim. do médico c do psicólogo.

Ora acontece que essa relagáo de sélo ou confirmacáo da


parte de Deus falta, por completo, aos prodigios efetuados por
Rasputin. Som querer julgar a consciéncia désto homem. devere-
mos reconhecer que o seu género de vida destoava totalmente
da leí de Deus (nao há quem nao perceba que as orgias se opoem
aos preccitos do Criador). De antemáo, portanto, se dove asse-
verar que Deus nao se pode contradizer, de um lado ordenando'
(mediante a k-i natural) sobriedade e reserva, e, ds out.ro lado,
confirmando, com auténticos prodigios, os t-xcess* e abusos-
Será preciso entáo concluir que Rasputin, pelos fenómenos
extraordinarios que realizou, manifestou faculdades naturais ri-
quissimns ou urna sensibilidade extremamenti; agiivudu e vibrá
til; enim éstos dons naturais, nao possuídos em (al grau por
outras pessoas, que lhe granjeavam prestigio junto as autorida
des e aos demaLs concidadáos. Algo de desequilibrado ou doentio
se revela já na brusca mudanca de vida que o campónos da Sibé-
riii nviiizou aos 33 anos de idade; urna visao (produto da excita-
(,-ao sensivel de Rasputin mesmo) a terá motivado; doravan te o
confuto entre o bem e o mal levou o * homem do Di-us» a tomar
s« ¡itiHides m;üs (k'sconexas possiveis.

1G-! •-
PKRWNTK K rjiSPONDIíREMOS, r>3¿19R2. qll._2

Ao contrario do que no caso de Rasputin se verifica, na vida


de Jesús os prodigios narrados aparecem como sinais (Cristo
mais de urna vez apclou para o valor de argumento ou prova
que tinham os seus milagres; cf. Mt 16,4; Me 2, 10-12), e — fri-
semo-lo bom — sinais relacionados com urna vida santa e urna
doutrina pura, como eram a vida c a doutrina de Cristo. É desta
rela-ao que s* doduz a diferenca essencial entre os portentos
de Rasputin (fenómenos naturais, psíquicos) e os prodigios de
Cristo (auténticos testemunhos que Deus Pai dava em favor da
pri-gaeáo e cja conduta do Messias).

4) Cornudo «inda urna objecáo se poderia levantar contra


c argumento dos müagres, mesmo quando entendidos no sen
tido reslrito que acabamos de expor. Com efeito, difícilmente
podernos ter certeza de que determinado fenómeno nao está con-
tido dentro das possibilidades da natureza; se hoje a ciencia nao
o consegue elucidar, é possíve! (dado o progresso continuo dos
estudcs) que dentro de alguns decenios já o consiga; verificar-
-se-á entáo que em váo se terá tomado como sobrenatural o que
na verdade era natural.
— Ninguém nega tal possibilidade. Contudo, nao interessa
ao teólogo ou apologeta saber se dentro de algumas décadas a
ciencia explicará racionalmente determinado prodigio que hoje
nao seja explicável; o que importa, do ponto de vista religioso, é
que uní fenómeno hoje inexplicável (acentuemos bem: inexpli
cável á luz da ciencia de hoje, ou seja, para os homens de hoje)
tenha sido produzido precisamente como resposta a urna questáo
religiosa ou a urna prece humilde ou aínda como sinéte de urna
vida santa ou de um ensinamento verídico. Pode-se admitir que
dentro de cinqüenta anos o Senhor Deus tenha que produzir
outro tipo de fenómeno inexplicável (porque os inexplicáveis
de hoje já nao o seráo entáo); o que importará é que, para a
ciencia daquela época futura, algo de inexplicável se tenha regis
trado... e se tenha registrado em um quadro genuinamente
religioso.
. Eis, em síntese, as observacóes que sugere o famoso caso
de Rasputin. . .
II. DOGMÁTICA

DEODORO (Sao Paulo) :

2) «Porque, na confissáo sacramental, sao acusados peca


dos veníais (o, as vézes, só pecados veníais), se estes nao cons-
tituem materia necessáría do sacramento ?
E porque se recomenda que o penitente acuse pecados já
acusados e absolvióos em confissSes anteriores ? Deus nao per-
doa de' urna só vo? ?»

— 170 —
CONF1SSAO DE PECADOS JA ABSOLV1DOS'

A resposta se distribuirá em duas partes correlativa* as


duas etapas da questáo: a primeira dirá respeito aos pecados
veníais; a segunda referir-se-á ás culpas já perdoadas.

1. Pecados veníais

Por «pecado veníala entenderse urna transgressáo dos mandamentos


de Deus considerada leve por Ihe faltar um ou ;lois dos seguintes requi
sitos do pecado mortal : t

haja-materia grave (por exemplo. quantia de dinhsiro avul-


tada); .
haja pleno conhecimento de causa Usei que o furto de tal
dinhoiro constituí pecado gravo i;
haja livre deliberado da vontade («quero, nao obstante,
roubar.-).

Quando nño so achem simultáneamente preenchidas as tres cláusu


las ¡¡cima, fala-se de pecn.io ¡ove ou venial.
Ésto náq se opóe díretamuníc ao amor que o cristáo. em estado de
gracn santificante, dedica habitualmente a Deus; é apenas um ato In-
comcqüentcmcnte ou incoerento com ésse amor; em geral, sao essas
as culpas mais freqüentes na vida cotidiana (gestos ou palavraA de
impaciencia, inoportunos comentarios da vida alheia. pensamentos de
vaidade, pequeñas concessócs á gula, etc.>.

O adjetivo «venial» anexo a estas faltas indica que elas


podem, de muitos modos, obtor o perdáo ou a venia de Deus.
Para o conseguir, deve o cristáo repudiá-las, excitando em si
um ato explícito de amor a Deus (ato de contrigáo sincera e de
firme propósito) ou praticando unía obra boa que suponha e
mobilize indiretamente o amor a Deus (urna esmola, a recepeáo
da S. Eucaristía, a visita devota a urna igreja, etc.).

Sto. Agostinho ilustra esta doutrina. Existem. diz ele. *as faltas
cotidianas, das quais a íraqueza humana jamáis está isenta... Quero
referir-me aos pecados de cada dia, aqueles, por exemplo, que se come-
tem fácilmente pela língua, como urna palavra, um riso ¡moderado ao
qual alguím se entrega, ou a outras faltas leves de tipo semnlhante e
de ocorróncia diaria. Alé mesmo fazendo uso de coisas lícitas, podémo
snos tornar rf-us de pecado... Tais fattas sao expiadas pelas csmolas
de cada dia. üxercitai-vos na prática da misericordia, da esmola, do
jejum e da oragáo. É por esses meios que o pecador se purifica de tais
culpas cotidianas, das quais a fragilidade nunca está isenta...
O mesmo se dá com os alimentos cujo consumo nos é lícito : se vos
.servís aii-m do que vos é necessario pecáis. Estas sao as faltas de cada
dia. as quais drsejo aludir. Constituem verdarieiros pecados; embora
sejam levos, devemos recear que. no caso de se multiplicaren!, acarre-
tem a nossa ruina» (serm. IX 11. 17s).

O sacramento da Penitencia foi instituido por Jesús certa-


mente a finí de apagar os pecados graves ou mortais (o Senhor
no Evangelho admite mesmo que, em um ou outro caso, o peca-

— 171 —
dor obstinado nem estoja dcvidamente disposto para recebor o
perdáo; cf. Jo 20, 23). Todo pecado mortal é, portanto, materia
necessária do sacramento da Confissáo ou materia que necessa-
riamente deve ser submetida ao poder sacramental das chaves.
— Quanto as faltas veníais, evidentemente nao constituem ma
teria necessária; ensinam, porém, os teólogos (e numerosas de-
claragñes da Igreja o confirmam) que constituem materia sufi-
cionte para que o sacramento da Penitencia possa ser adminis
trado. Tenha-so em vista, por exemplo, o que Sao Tomaz asse-
vera :

«O pecado venial pode ser apagado pela simples contricáo interior...


Por isto nao estamos ohrigados a coníessar as faltas veníais.... pois
mesmo sem ronfissüo podem ser perdoadas; contudo confessá-las é
próprio das almas que tendem á perfeicáo» Un IV Sent., 16, qu. 2, a.
sol. 3!.

No s6c. X\'I declarava o Concilio de Trento :


^Quanto aos pecados veníais, dos quais a graca de Deus nao nos
isenta e nos quais caímos mais íreqüentemente. nao há inconveniente
em acúsalos na confissáo: ao contrario, tal praxe é correta e útil, como
insinúa o exrmplo de pessoas piedosas habituadas a acusá-los. Contudo
é licito silenciá-ios. já que podem ser expiados por muitos outros meios»
'Denzingor. Enchiridion S99).
Por sua vez o c&n. 902 do Código de Direito Eclesiástico, repetlndo
urna deelarncáo da S. Congregagüo dos Bispos e Regulares datada de
1' de outubro de 1839. lembra quo «os pecados cometidos após o Ba-
tismo, quer sejam mortais já perdoados pelo poder das chaves, quer
seiam veníais, constituem materia suficiente, embora nao necessária,
do sacramento ria Penitencia:-.

A razáo destas afirmavóes é clara : o sacramento da Con


fissáo nao produz apenas o efeito negativo de apagar o pecado;
competem-íhe também efeitos positivos, como os de infundir a
graca santificante (ou corroborá-la e afervorá-la onde ela já
existe) e comunicar o direito a gracas atuais (auxilios eficazes)
para que a alma possa resistir a tentacóes futuras. Nao con-
. vém, pois, atribuir á absolvicáo sacramental sentido meramente
(ou acentuadamente) negativo: as trevas da noite sao dissipa-
das pelo mesmo raio do sol que infunde a luz; assim também a
mesma absohicáo sacramental tem dois efeitos inseparáveis um
do outro : apaga o pecado e comunica a graca (e — seja licito
repetir — a graca .com todas as suas modalidades necessárias a
tai alma, que sofre de tais e tais más tendencias). ¿ em vista
déstes frutos positivos (que nao se obteriam fora do sacramento
da Penitencia) que nao somonte se permite, mas também se re-
comenda o recurso assiduo á absolvicáo no confessionário.

••Urna das ú'.timas declaracóes oficiáis a éste propósito é a de Pió XII


na sua encíclica «Mystici Corporis Christb :

— 172 —
CONFISSAO DE PECADOS JA ABSOLVIDOS •

«Verdade é que há varios modos, todos muito louváveis de apa


gar as faltas; contudo, para que as almas se adiantem com ardor cres-
cente no caminho da virtude. desejamos recomendar vivamente o pie-
doso uso, Jntroduzido na lgreja sob o impulso do Espirito Santo, de
recorrer a coníissüo freqüente. Esta aumenta na alma o verdadeiro
coiihecirncnto de si mcsma. favorece a humildade crista, tunde a desar
raigar os maus hábitos, combate a negligencia espiritual e a tibieza,
purifica a consciéncia. fortalece a vontade. presta-sc a direcáo espiri-
tunl; c, por efeito próprio do sacramento, aumenta a greca. Por con-
seguinte, aqueles que dirninuem a estima da confissáo íreqífcnte .em
¡neio ao jovern cloro, saibam que reaüzam obra contraria ao Espirito
de Cristo e muito funesta ao Corpo Místico de nosso Salvador*.
*

Como se vé. n?.s linhas ácima o Santo Padre aponta. além do frutó
prüpriamcnte sacramental da ooníissáo (aumento da grac.a). alguns
otaros cfeito? benéficos que dola resultam c que pertencem mais ao
piano itHiural ou ¿i psicología do ser humano. Em verdade. éste só pode
lucrar pelo exame ou controle periódico de sua conduta assini como pela
maniíestac.áo de seu íntimo a um pai espiritual, que Ihe diga, em nome
de Deus. a palavra de orientacáo adequada.

Já que nAo lia grande diíiculdade em reronhecer tais yantagens.


passamos á segunda parte da questáo, que parece menos evidente.
\
2. Pecados já acusados e absolvidos

1. Em se tratando da confissáo de pecados já absolvidos, surge


um problema que nao existe para a confissüo de veniais aínda nao
[¡(•¡dOH'l'lS.
Com efeito. O sacramento da Penitencia íoi esscncialmente insti
tuido para a remissao dos pecados; portanto compreendese que um pe
cado (mortal ou üit'Srno venial aínda nao jierdoaiio) seja materia déste
snrramrnto. (juanto .1»» pecados já. porduailos, i-stá claro que nao
¡Kxíum iivüs ser ¡íenloaiios e:n sentido próprio. No máximo, por ocasiao
de repetida acusacao, podem sor declarados <¿já perdoados^; nao podem.
porém. ser de novo absotvidos. pois isto implicaría um absurdo: «per-
'Joar» é aleo de *indivisivelí (algo que nao se faz pela metade). princi
palmente quando se trata do perdáo divino (ou Dous peidoa. e entáo
pprdoa para sompre; ou simplesmente nao perdoa).
Nao obstante esta apai'ente dificuldade teológica, os Papas e teólo
gos muito tóm recomendado a acusacSo de culpas já aíbsolvkias. acu-
sa(;üo <¡i!f- os fiéis costumam fazer mormonte por ocasfio das chama
das »cr>níiss<"n's i'craivi.
Assitn o Poniííifi; Urnlo XIV (1740-58»' louvou especialmente as
coüfissóes gerais. reíerindo que Urbano VIH (1623-44; reronhecera aos
i'aüi'e.s L.a¿<iristas o mórito particular de haver propagado a praxc das
ooníissOcs gerais.
No inicio rio £¡í"c:ilo passado. aconteceu que certos confessores re-
cusavam administrar o sacramento da Penitencia u Religiosas que nao
'•nníoss.ivim senán pecados leves ou pecados já absolvidos. Tendo to-
nwuto f<>!:!n-cimi>r!lo ifa siíuacáo, a S. l^ongregacáo dos JLJispos e Keli-
í.'iosos, a !■ de ouiubro de IS'J!). houve por bem escrever ao bispo de
liayeux ' t'i-an«;a>. <iu t¡(inl o caso dizia respeito. a seguinle dedaragao :

tJá que innito útii é aos fiéis o eostume de purificamn freqüente-


menip ¡i sua alma, mesmo de po.'ado-s levos, mediante o sacramento da

— 173 —
«f'EHGU.XTK K RKSPONDKKEMOS» r>3-I0G2- (|u, 1»_

Penitencia.... sem dúvida milito se tleve dosojar que as virgens consa


gradas asslduamente se aproximem dos sacramentos a íim de progre-
direm na caridade...
Contudo a S. Congregacáo dos Bispos e Religiosos foi informada
de que alguns confessores... recusam a coníissao sacramental a Jteli-
giosas, embora estas se achem devidamente dispostas a receber o sacra
mento... Em conseqüéncia. pareceu oportuno aos Eminentissimos Pa
dres intimar a Vossa Grandeza que lembre aos eonfessores dos mos-
teiros de sua diocese o dever de nao negar a coníissao sacramental As
pessoas devidamente dispostas, a fim de que nao íiquem privadas da
graca sacramental, mesmo que elas nao tenham pecados graves óu
novos. mas apenas renovem a acusacáo de pecados já apagados pela
absolvicao sacerdotal. Todos sabem que os pecados da vida pnssada e
as culpas veni.-fp constituem materia suficiente para o sacramento da
Penitencia» (Fontes C. I. C. n. 1923).
Como justificar táo incisiva declaragSo ?

2. A resposta nao é difícil.


Leve-se em conta o fato de que todo pecado acarróla urna
culpa (nódoa) na alma o urna pena (expiacao) a ser oportuna
mente prestada (cf. «P. R.» 8/1957, qu. 3; 2/1958, qu. 2). Ora,
quando o pecado é devidamente acusado em confissáo sacramen
tal, a absolvigáo apaga por inteiro a culpa (ou nódoa) o ao me
nos parte da pena respectiva {seja pena eterna, devida a pecado
mortal, seja pena temporal, devida a pecado leve); a mesma
absolvigáo seria capaz de cancelar toda a pena correspondente á
culpa; éste efeito pleno, porcm, depende das disposicóes do res
pectivo penitente ou do grau de contricáo com que éstv recebe
o sacramento. — Supóe-se que a maioria dos homens difícil
mente consegue de urna só vez excitar em si a contrigáo adequa-
da para obter a remissáo de toda a pena do pecado. As más in-
clinacóes estáo por vézes táo arraigadas na natureza humana
que esta difícilmente se move ao grau de contrigáo que deveria
ter para que todo e qualquer resquicio de pena ou satisfacáo
seja de urna só vez cancelado; os melhores propósitos de amor
a Deus ficam sempre sujeitos, no homem, aos entraves da Icnti-
dáo, da covardia da natureza, principalmente depois que esta foi
'amolecida ou afagada pelo pecado.
,Em conseqüéncia, após urna confissáo sacramental (mesmo
bem fevta), julga-se que ainda resta ao penitente urna parte da
satisfacáo a ser prestada ou nesta vida, mediante a penitencia
imposta pelo confessor e mediante ulteriores ntos do niortifi-
cagáo, ou após esta vida no purgatorio. Em vista de tal fato ó
que os teólogos recomendam, sejam de novo acusadas faltas já
perdoadas pelo sacramento da Penitencia; a nova ahsolvi^áo sa
cramental recairá nao sobre a culpa (que c urna vez por todas
apagada), mas sobre a pena temporal que ainda possa estar pe
sando sobre o pecador. Excitando repetidamente a coiiüicáo a
respeito.de tais faltas, o penitente vai diminuimlo a pena expía-

— 174 —
C0.NF1S.SA0 DK PECADOS JA ABSOLVIDOS

tória que Ihes c devida, até chegar a obter a plena remissáo da


mesina (mesmo sem a absolvigáo sacramental, a contriqáo por
si só poderia conseguir tal efeito; a absolvigáo, porérh, torna
mais eficaz a contrigáo do penitente).

k o que Sao Tomaz ensina na seguinte passagem :


•sNinguírn dove confossar pecados que nao tenha cometido... Con-
tudo, se alguém <ip novo confessa faltas já absolvidas, nao é em, vjio
que o faz; pois. quanto mais freqüentemente as coníessa a um sacer
dote, lanto mais lhe ó diminuida a pena; esta diminuic.ao poderá ser
píeilo tanto da humilha<;üo que a coníissao provoca e que vafe como
satisíacáo. quanto do poder das chaves. Destarte pode acontecer que '
alfruém. mediante repetidas confissóes. venha a conseguir a extincáo de
todas as penas satisfatórias. Portante a acusacáo de pecados já absol-
vidos nao constituí abuso do sacramentos (In IV Sent.. dist. XVII. qu. 3,
a.3. sol. 5 ad 4).
N'este trecho. Sao Tomaz chama a atencao nao sómente para a efica
cia do sacramento como tal («o poder das chaves»), mas também para
a mortificacao que toda confissao de pecado implica; esta mortificacáo
associada á aeño do sacramento reveste-se de poder expiatorio muito
mais rico. O Papa Bento XI em 1304 punha-a em relevo particular, es-
crevondo: \
-Erobora nao naja necossidade de repetir a acusacáo de pecados
'já devi-lamente absolvidos), contudo. por causa, da humilhaQáo e da
í;rand« pcnilí-ncla assim acarretadas, julgamos salutar que se repita a
confissao dos mesmos» (Constituicáo «ínter cunetas sollicitudines» de
17 do íeveroiro de 1.304; cf. Denzinger, Enchiridion 470).

O.-> ónti^'os o medievais atribuiam grande valor á humilhacáo que,


independientemente 'Ja absolvicáo sacramental, já por si mesma a con-
íis.sáo de poeados implica; tinham-na na conta de urna certa expiac.áo
reparadora. Por isto asseveravam que. na falta de um sacerdote habi
litado a dar a absolvicáo. seria oportuno ao cristüo acusar-se de seus
focados mesmo a um loigo. Está claro que éste nao poderia absolver,
mas proporcionaría ao penitente urna preciosa ocasiáo de excitar a con-
tri?ao e de expiar as suas faltas (sabemos que. na impossibilidade de
so receber o sacramento da Confissao, a contricáo intensa ou perfeita
supre o sacramento). Tenham-se em vista os dizeres de Sao Toma?, na
Suma Teológica. SupJ. qu. 8, a. 2.

'e
Vé-so, pois, quáo salutar é excitar repetidamento a contri-
(.•áo a respeito dos mesmos pecados, principalmente se isto é ftito
em uniáo com o poder das chaves. Conseqüentemente, elucida-se
o sentido valioso que tem urna confissao sacramental em que
si'inirnli'. ou quaso .somonte, se acusem pecados já acusados e
absolvidos: percebe-se também quáo recomc-ndável é incluir-se
em cada confLssáo sacramental a men?áo de urna ou outra falta
fia vida passada: a nova absolvigáo dada aos mesmos pecados
nao é va, mas recai sobre a pona temporal que o penitente ainda
possa ter <¡ue supoi'tar a título de expiac.no.
As i<lóUis minia ex¡>ostas completar-.se-áo pela resposta a
in luüüta fjue se segué.

17.") -
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962, qu. 3

CONGREGADO (Caritiba) :

3) «As almas mais santas sao as que mais assiduamente


freqüentam o sacramento da Confissáo. Pode-se crer que algu-
mas já nao cometem pecado leve consciente ou voluntario. Que
materia entáo tém pata acosar táo assidoamente ?
Nao seria absurda a sna praxe ?»

O assuirto agora abordado tem certa affnidade com a questao das


«imperfeieoes moráis», que já foi considerada em «P. R.» 48/1961, qu 3
Tratase, em úWma análise, de saber se de fato pode tiaver algum des
use moral que^steja isento de culpa e. por conseguinte, nao seja de
modo algum materia do sacramento da ConíissSo.
Já no citado artigo de «P. R.» dissemos que a escolha voluntaria
de um ato menos perfeito em lugar de outro mais períeito constituí
pecado, desde que seja devida a covardia ou descaso. Pergunta-se agora
se a omissáo de um ato mais períeito ou a prática de ato menos perfeito
devem ser tidas como pecados, desde que o individuo proceda sem deli
berar previamente ou de maneira inconsciente. Em outras palavras: a
Índole inconsciente, repentina, indeliberada, de urna atitude pode
torná-la isenta de culpa ?
Em resposta. observaremos os seguintes itens :

1) De maneira geral, é preciso precaver-se contra a ten


dencia,- assaz comum em nossos días, a julgar que o pecado nao
existe ou, ao menos, é coisa rara; o homem moderno apresenta
por vézes, frente ao pecado, urna consciéncia assaz embotada,
como notava o Santo Padre Pió XII em urna de suas alocugóes :

«Talvez hoje o grande pecado do mundo seja o fato de que os ho-


mens comecaram a perder a nocüo do pecado» (Ao Congresso de Cate
quistas dos EE.UU., 26/X/1946; Atti e Discorsi di Pió XII, v VIII
pág. 398).
Fazendo eco a estas palavras, o escritor trances E. GUson disser-
tava sobre o desmoronamiento da Moral em nossos dias nos seguintes
termos : rO que caracteriza nossa época, nao é a multip] ¡cacao dos peca
dores, mas o desaparecimento do pecado» (c¿ iDocumentation Catholi-
que>. 20/IV/1952, col. 457).
• ■

2) > Em particular com referencia aos movimentos da na-


tureza ou da sensibilidade humana que antecedem qualquer de-
liberacáo da vontade'e por isto parecem subtraidos á liberdade e
á responsabilidade da pessoa, note-se :

A sensibilidade e suas tendencias ou reacóes espontáneas


sao, sem dúvida, algo que o homem tem de comuni com os ani
máis irra,cionais e irresponsáveis. No homem, poréfn, a sensibili
dade recebe urna dignidade própria pelo fato de pertencer a um
ser racional e livre. Unida á razao, ela participa, de certo modo,
da liberdado que caracteriza todo ser racional, de modo que até
mesmo os movimentos espontáneos da natureza humana nem

— 176 —
O5__SANTOá_.K_^

sempre sao meramente «mecánicos», como se diz; nem sempre


sao algo de puramente biológico ou fisiológico, mas tém algo de
racional, de livre, de responsável... Com outras palavr^is: exis-
tem atos indeliberados, no homem. que sao indeliberados por
culpa do individuo, ou seja, porque éste, cedendo a negligencia,
nao empregou os possiveis estorbos para implantar em si o pleno
dominio da inteligencia e da iiyre vontade que ele poderia e de-
veria implantar. O homem foi íeilo, sim, para estender orógres-
sivamente o imperio de sua vontade liviv sobre as diversas ati-
tudes de seu eomijortamento. Naturalmente, isto nao quer dizer
quu possa chegar ¡l. evitar todo e qualquer movimento espontá:
neo e indeliberado. Nao. Sonipre ficaráo, em sua conduta, ímpe^
tos e reaeóes que os moralistas tacharáo de iiTesponsáveis. Con-
tudo quem ousaria afirmar que tal ou tal impulso está total
mente isento de responsabiiidade (responsabilidade ao menos
atenuada ou remota) ? A indisciplina geral dos sentidos frente
á razáo nao so devora nmiías vé/es a omissóes e descuidos habi
tuáis da nosáa parto? Os santos üveram, e tém, a intuigáo de
quo, se Iiouvessem correspondido mais fielmente á graca de
Deus, teriam «raimado um pouco mais a sua nalureza, evitahdo
í'lgumas di> sua.s rtesregradas manifestacóes. É justamente essa
tibieza ou lenltclao habitunl, mais ou menos voluntaria e covar-
de, que os leva a afirmar a existencia de pecados que outros cris-
táos, de consciéncia menos apurada e lúcida, nao chegarñ a per
cebe r.
Nño se iwderia dizer que os santos, ao falar assim, exage-
ram... Muito menos seria lícito asseverar que, ao acusarem tal
ou tal falta aparentemente involuntaria ou indeliberada, nada
acusam de culpado e, por conseguinte, abusam do sacramento
da Penitencia. — Pode haver, sim, casos de escrúpulos, pertur-
bacóes nervosas, complexos de inferioridade doentios, etc.; con-
tudo tais casos háo de ser comprovados, e nao simplesmente
pressu{X)stos.
Sao estas as idéias que justificam o recursoafreqüente dos
santos ao sacramento da Confissáo. Tal comportamento dos jus
tos merece respeito, e nán menosprézo, por parte de seus irmáos;
a Deus e aos homens de Deus (principalmente aqueles que tém
a graca de estado, os confessores) é que compete julgar as cons-
ciéncius, urna por urna individualmente.
•tu»- ■•• - - •• .->-- r
A propósito vcjrim-s<? us textos em que Sao Tomaz ensina que no
homem a áensibt!!<lattr> é itationalis per participationcmj'. isto é. parti
cipa da «liunklade tlu nntiuvza intelectual e livre do homem : Suma Teo
lógica I.-II. qu. •!<!. a. i p tí; qu. 56. a. 4; qu. 74, a. 3; 11/11 qu. 175. a. 2
ari 2; De Veritnte qu. 25. a. 5 ati 3 o 4; De Malo qu. 7. a. 6.

177 —
PEKM'.VrE K UKSPÜXDEKK.MOS .'.3 \W2. qn. !

III. SAGRADA ESCRITURA

LEGIONARIO (Rio de Janeiro) :

4) «A proniessa de Jesús ao boni ladráo : *Em verdade


digo-te : Hoje estarás comigo no paraíso' (Le 23, 43) prcsta-sc
a algumas dúvidas:

a) Nao significa que só a fé salva, mesmo sem obras ?

b) Náoadoveria ser entendida de outro modo: 'Em ver


dade digo-te nbje : estarás comigo no paraíso' ? Pois a Escritura
parecr ensinar que a alma morre quando se separa do corpo
(cf. Ecl 3,19-21)».

Examinaremos sucessivamente os principáis aspectos do


problema.

1. Fé sem obras ?

1. Já em 'P. R. 17-195!). qu. 1 e 32/19f>0. qu. 6. oxpusemos a dou-


trina protestante da fé que salva sem obras, procurando mostrar os
equívocos elessa scnlcnca.

P.esumindo o ensinamento da S. Escritura a tal respeito. diromos :


Na verdado. tanJo a fó romo as obras sfio m-cessánas á satvagáo.
apegas de modos diwisos.
A fé é dom gratuito de Dous: nao vem concedida, portanlo. pm re
compensa de boas obras praticadas pelo homem pagüo. pois qualquer
esfórgo anterior ao dom de Deus é inadequado para atingir a ordem
sobrenatural á qual o Senhor quer elevar o homem c a qual pertence
a íé (é claro, porém. que um náo-cristüo. vivendo dignamente, so vai
preparando ou dispondo para reoeber o dom de Deusi.
Urna vez ahragada. a fé leva á prática de boas obra-s. Estas entáo
se tornam necpssárias para que a fé nfio soja morta e inútil. É o que a
SapTada Escritura ensina pxplicitamonto :
■/De que serve, meus irmaos- alfjuf-m di/.^r qno letn fó. .se nüo pin-
fica as obras? Pode p'>rvcntura a fé sálvalo ?> iT:: 2.M).
vAssim como o corpo sem alma está morto. assirn tainbóni a fó sem
obras está morta.■> <Tg 2.2GI.
• A áyvore írutlícra .lem que dar frutos: sem ésies. nem seria ár-
vore frutifera. Do forma análoga, quem possui a fé lem que praticar
boas obras, sem as quais nem possui a fé viva.
O famoso exogeta Cornélio a Lapido (+ lfí.37) ilustra bem a insr-
parabilidade de fé e obras mediante a sopuintc rompar;«c"io : um tloento
recém-curado de sua i-nfcrmidade pode dizer : "fisto médico me salvou'.
Na verdade. porém. nao foi o médico só quem o salvou da moléstin.
mas o medico por meio dos remedios, da dieta, do tratamento que ele
prescreveu e que o enfermo observou voluntariamente. Assim a fé se
assemclha ao médico : indica, ¿reoeita» as outras vlrtudos. as obras, os
sacramentos como meios necessários á salvacao; a ninguém será licito
dissetar a acáo da fé e dé-ses mcios de santificacáo, como a miiíniém ó

■ -' — !TS —
«HOJE ESTARAS COMIGO NO PARAÍSO»

licito separar a orientacáo do médico e a eficacia dos remedios, 'atri


butado toda a cura exclusivamente á palavra do médico. Na verdade,
tanto o médico como o remedio concorreram para a cura; da mesma
forma^ íé e obras colaboram para a salvacáo eterna. — O fato de dizer
o doente: «Éste médico me salvou> nao impede que diga tambera:
«Ótimo remedio, ésse; a ele devo a minha cura».

Estas proposicóes parecem bem claras. Porque entáo hesitam os


irmáos evangélicos em aceitá-las ?
— A sua hesitacáo deve-se, em grande parte, ao receio de- que a
vaiorizacáo das obras humanas derrogue ao sacrificio e a obra salvi-
(ica de Cristo; tal valorizacáo poderla sugerir que o homem produz de
per si. indeper.dentemente de Jesús, alguma coisa que lhe mereca»a
vida eterna. — Eis. porém, que também a doutrina católica repudia tal
conclusáo; para ela, o valor das boas obras se. deve exclusivamente
aos méritos de Cristo aplicados aos fiéis; é Cristo quem. a pos haver
dado a grac.a da íé. dá ao cristáo a graga de produzir os frutos dessa fé
ou as obras boas. Tudo. portante, se reduz. por trámites diversos, ao
dom do Salvador; o homem, sem éste, nada pode fazer (cí. Jo 15,5).
Esclarecido éste ponto, parece que nao resta mais motivo de divergencia
entre católicos e protestantes no tocante ao papel da fé e das obras na
justiíicacáo; a Sagrada Escritura cnsina peremptóriamentc a neeessi-
dude daqucla e destas. -
I
2. Mas entáo que dizer do bom ladreo, que se salvou sem
obras boas, convertido na hora da morte ?
Nao se pode dizer que essa alma arrependkla nao tenha
praticado alguma obra boa. Proclamou, sim, publicamente a
inocencia de Cristo e, com profunda humildade, reconheceu as
suas culpas. Estas ja sao obras boas. Nao se queira restringir
o conceito de atos bons á prática da esmola e da assisténcia
social. Na verdade, o bom ladráo traduziu a sua fé em urna ati-
tude prática, repudiando os seus pecados e colocando-se á dis-
posicáo do Senhor Deus para fazer o que Éste lhe mandasse.
Ora isto é essencial para a salvagáo. Se o Senhor lhe tivesse con
cedido a oportunidade de viver mais tempo sobre a térra, have-
ria feito frutificar a sua fé em outras muitas obras. Só nao o
fez, porque a Providencia houve por bem transferUlo para outra
vida. Donde se vé que o episodio do bom ladráo rrao derroga ao
principio de que as boas obras sao necessárias á salvacáo (neces
sárias, é claro, desde que o Senhor Deus dé a possibiliddde física
de as praticarmos; se nao a dá, vale-nos a disposicáo interior).

2. «Digo-te '■ hoje estarás...»


ou

«Digo-te hoje : estarás. . .»?

1. A questao da pontuacáo do texto ácima é discutida dentro de


outra perspectiva. Teve oripem no século passado, suscitada pelos cre
dos modernos dos Adventistas e das Tustemunha.s <io Jeová. Kstas de-
nominac.6cs. proíessando que a alma morre no íim da vida presente.

_ 179 —
, : J^Í¿L¿K_ K K KS PON D K K EMOfe- 03 1JHÍ2^ ijy._ 4

quiscram remover a ol>jeg"io ijup contra esta sua crenca se poderia


levantar a partir do citado texto fie Le 23-13. Por consecuinte. ein vez
da forma tradicional: <DiRO-te: hoje estarás...*, propuscram novo
modo de ler : *Digo-te hoje : estarás.. .¿. novo modo que permitía admi
tir morte da alma ao se separar do corpo e ressurreicüo da mesma em
época posterior.

2. Como dirimir a questáo ?

a) Em primeiro lugar, ó preciso lembrar que nem os au


tógrafos nem as copias mais antigás da Sagrada Escritura tra-
ziam sinais da pontuacáo; os antigos, ao escrever, por vézes nem
separavam as palavras entre si.
A pontuagáo do texto, por conseguinte, foi (e devia ser)
introducida pelos leitores do S. Evangelho.

b) Desde que, no decorrer da historia, os códigos come-


gam a apresentar divisóes de palavras e frases, eoloeam dois
pontos entre «Em verdade digo-te» e «hoje estarás»; assim a
circunstancia «hoje» é relacionada com «estarás», e nao com
«digo-te». Durante dezoito sáculos ninguém discordou désse
modo de entender o texto sagrado; foi o Adventismo que no sé-
culo passado (inspirando-se de criterios doutrinários preconce
bidos, e nao de regras exegéticas) tentou pela primeira vez mo
dificar a pontuagáo.
Quer dizer dessa atitude ?

* c) Já o fato de se tratar de inovacáo táo tardía torna


muito suspeita a posigáo adventista. Será que durante 1.800
anos ninguém entendeu devidamente tal passagem do S. Evan
gelho ?
Além dessa circunstancia histórica, merece ser ponderada
a lógica mesma do texto. Com efeito,

d) Nao era necessário que Jesús declarasse estar falando


«hoje», pois ninguém suporia que, respondendo ao bom ladráo
do alto, da cruz, Ele estivesse falando «ontem» ou «amanhá»...
Torna-se irrisorio, portanto, relacionar «hoje» com «digo-to».
Éste adverbio só lem significado na frase se é ligado a «estarás»,
pois na verdade poderia o bom ladráo estar com Cristo no pa
raíso «amanhá» ou ainda mais tarde. Precisamente a énfase da
declaracáo de Jesús está no «hoje»; é essa prontidáo em atender
ao pecador arrependido que Jesús e o Evangelista Sao Lucas
querem realcar.
A lógica do texto, portanto, pede, sem deixar margem a
grande hesitacáo, que se coloque o «hoje» do lado de «estarás»
(após os dois pontos) e nao do lado de «digo-te» (antes dos
dois pontos).

— 180 —
HÜJK KXTAHAS COMlfiO NO i'AKAIMJ*

e> Nótese tamhém o sf»¡*uintp: os ¡novadores afirmam que o bom


ladráo morreu !em corpo e olmai no dia em que Jesús lhe falou; está
agora no sepulcro, devontio ser ressuscitado em breve, quando Cristo
instaurar um reino de mil anos na térra. Será entáo submetido a nova
provacao, a íim de fdecidir se íicará com Jesus ou nao. Caso deseje
ficar eom Jesu.-i. o Re» legitimo, o bom ladrüo obterá a vida eterna sobre
a térra» («The Kingdom is at hand», 1944. publicacáo das Testemunhas
de Jeová).
Como se vé. segundo esta explicacao. a fejieidade do bom ladráo
íicava dependente de nova provacao, que teria lugar cérea de 2.000
anos depois que Jesus Ihe disse na cruz: «Estarás comido no paraíso».
Ora urna tal promessa. assim condicionada, destocada para um futuro
táo remota, já perdia a sua nota do palavra consoladora e misericor
diosa; nao correspondería ao sentido geral déste episodio, que visa
incutir a su rpreen» lente misericordia com que Jesus alende ao pecador
contrito. As palavras de Jet-us íieariam, por ionse;;uinte, diluidas ou
mesmo destituidas de sentido.

f) Pergunta-se, porém : como pode o bom ladrño estar no


paraíso ou na bem-aventuranea celeste a partir do dia mesmo
em que Cristo morreu? A alma de Jesas nao «dosceu ao limbo»
antes de ressuscitar ao tereciro dia?
— Jesus nao prometeu a visáo face a face para aquéle
mesmo dia, mas assegurou ao ladráo arrependido a sua uniáo
definitiva com o Redentor. Ora estar unido a Cristo é ser feliz,
equivale a estar no paraíso. Como diz S. Ambrosio, «viver é
estar com Cristo; por isto, onde está Cristo, ai está a vida, ai o
reino» (In Le, ed. Migne XV 1834).

O sentido da descida de Cristo ao limbo ou aos «infernos» aeha-se


explanado cm «P. R.> S/1957. qu. 2.

3. E os textos do Eclesiastes?

1. Desejosos de provar que a alma humana morre no fím


desta sua existencia terrestre, os adventistas e Testemunhas de
Jeová apelam fi-eqüentemente para o seguinte texto do Antigo
Testamento :

«A sorte dos filhos do homem c a sorte dos animáis sao idénticas.


Como um morre. assim morre* o outro;
Ambos possuem o mesmo sApro;
Nao ha vantagem do homem sobre i> animal.
Pois tudo é decepeáo.
Tudo vai para o mesmo lugar;
Tudo vem da poeira,
E íudo volta pai'a a poeira.
Quern pode dizer se o sópro dos filhos dos homens so dirige para o alto
E o sópro dos animáis desee ás regides subterráneas ?-
(Ecl 319-21).

a) Para entender esta passagem, sorá preciso reconstituir


a mentalidade do autor sagrado (sabemos que a Palavra de

— 181 —
'PERGUNTE ^RESPONDEREMOS «_5.V19r>Z qu. A_

Deus na Biblia utilizou sempre o modo de pensar e falar dos


homens de cada época, sem contudo ceder ao erro).
Foi sómente aos poucos que o Senhor Deus revelou as ver
dades concernentes a sorte postuma do homem. Os judeus ape
nas tinham certeza de que a alma sobrevive ao corpo; separan-
do-se déste, julgavam que ola ia para o «sheol», lugar subterrá
neo onde ficava em estado de soñolencia ou inconsciencia (cf.
E. Bettencourt, Para entender o Antigo Testamento c. XII).
Ora o autor do Eclesiastes nao quis sondar os misterios do
Além, ainda nao desvendados ffelo Senhor; nao quis também
escrever urna obra de filosofía ou metafísica; tal nao era a sua
índole pessoal. Por isto, no seu opúsculo limitou-se a indicar um
roteiro prático, baseado no bom senso ou na experiencia coti
diana, a fim de auxiliar os seus leitores a viver dignamente a
vida presente. Após muitas divagacóes, ele formula em poucas
palavras ésse roteiro no fim do livro :

¿Conclusao : bem ponderadas todas as coisas.


Tome a Deus e observa os seus mandamentos,
Pois nisío consiste o ideal de todo homem.
Deus levará a juízo todas as obras.
Tudo que está oculto, tanto o bem como o mal<

iRcl 12. 13s!.

b) É dentro de tal perspectiva que se deve entender o


texto de Ecl 3, 19-21, transcrito na pág. 181 déste fascículo.

Como diziamos. n autor nao tinha a intencáo de propor sentencas


de filosofía a respeito da alma humana. Apenas quería falar na quali-
dade de observador que leva em conta a realidade como ela aparece
¡mediatamente, a fim de tirar 'laí algumas conclusóes prálicas.

Ora é inegável que tanto o homem como o animal irracio


nal morrem, sem que se possa perceber o que é feito do seu
principio vital após a morte. «Ambos possuem o mesmo sópro»
diz o autor (Ecl 3,19): a palavra «sópro» aquí c traducáo do
vocábulo hebraico ruah, que significa o respiro das narínas ou
a respiragáo; é certo que tanto o homem como o animal irra
cional respiram e que a respirácáo cessa após a morte. Segundo
a observa cao popular, «nao há neste particular vantagem do
homem sobre o animal». É sómente a filosofía (corroborada,
alias, pela teología) que ensina ao estudioso que, apesar da iden-
tidade de aparéñcias, a sorte postuma do homem difere da do
irracional, pois o principio vital do homem ou a alma humana é
imortal (a alma humana, sendo espirito, nao se compóe de
partes; por isto também nao se deeompóe, nao morre), ao passo
que o principio vital do irracional, sendo material, é composto
e morro. O autor sagrado, que, segundo dlssemos, nao escrevia
HOTE ESTARÁS CÓMICO NO

na qualidade de filósofo, mas na de observador popular, só tinha


em vista os sinais exteriores e sensiveis da vida, que, sem dú-
vida, cessam do mesmo modo em todos os viventes: daí as suas
afirmativas, á primeira vista, desconcertantes. — Verificando
essas coisas, porém, o autor nao intencionava negar a sobrevi
vencia da alma humana. Em outras passagons do Ecl, ele a pro-
fessa explícitamente, asseverando, por oxemplo, que a alma vai
para o «sheol» (cf. 9,10) e mencionando o .iuízp de Deus spbre o
individuo após a morte (cf. 8,12; 11,9; 12,13). ,%
Donde se vé que erróneo seria querer negar a imortalidade
da alma na base do citado texto do Eclesiastes. O escritor a admi- •
tía, sem dúvida, apenas desconhecia as suas modalidades.

2. Outro trecho muito explorado ao lado do anterior é o


seguinte :

«Para o homem. enquanto permanece agregado k sociedade dos


vivos, há esperanza; mais vale um cao vivo do que um leáo morto. Os
vivos, com eíeilo. sabem que háo de morrer. ao passo que os morios
nada sabem; nao recebem mais salario, pois ja nao há recordacáo
déles*- (Ecl 9As). K

Após quanto foi dito atrás, ésses versículos já nao causam


dificuldade ao intérprete. O autor, como sabemos, compartilha
a opiniáo dos seus contemporáneos, segundo os quais a morte
introduz a alma em estado de inconsciencia. Sendo assim, ele
quer incutir que é na vida presente, servindo fielmente a Deus
e utilizando moderadamente as ocasióes que Éste lhe concede,
que o homem deve procurar a felicidade. Para os vivos, qual-
quer que seja a sua condicáo (o cao simboliza o género de vida
mais duro possível), fica sempre a esperanca de conquistar
certo bem-estar neste mundo, ao passo que para os mortos,
mesmo para os mais nobres (simbolizados pelo leáo), já nao
resta possibilidade de obter algum bem (pois, julga o autor,
estáo levando vida inconsciente). ^
Assim se vé que o Eclesiastes constituí urna etapa no ca-
minho da revelado sobrenatural, etapa que deveria ser com
pletada pelos últimos livros do Antigo Testamento (Daniel, Ma-
cabeus, Sabedoria) e pelos do Novo Testamento, onde é explíci
tamente professada a bem-aventuranca postuma. O autor do
Eclesiastes mostra apenas nao ter conhecimento desta ulterior
etapa, mas nada diz que nao se concilie com a doutrina dos de-
mais escritos do Antigo e do Novo Testamento, pois em absoluto
ele nao nega a imortalidade da alma.
Em «P. R.» 14/1959, qu. 10, artigo que trata diretamente
das Tostemunhas de Jeová, estáo citados os textos bíblicos que
positivamente ensinam a imortalidade da alma.

— 183 —
PKKGrXTK K JRKSPONDEaKMOS J53 1962. (ju. 5-7_

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

ESTUDANTE (Bclo Horizonte) ;

5) «Diz-se que a Icreja é culpada do desequilibrio social


hoje existente, por se ter descuidado das classcs raais humildes
durante séculos e haver fomentado o pauperismo na Idade
Media.»

JCUO (Salvador) :

6) «4 condicáo do vida do servo da gleba medieval nao é


urna mancha na historia do Cristianismo?»

SOCIALISTA (Goiánia) :

7) «A Igreja está despertando tarde demais para os pro


blemas socials. Outros já Ihe tomaram o lugar.»

Antes do mais. interessa observar, ñas questóes ácima, um porme


nor fie expressáo : a lingua{*em crista distingue entre a Isxcja e scus
filhos ou os liomeas que pertencem & Isnsja. Esta, como tal. é a «Es
posa de Cristo sem mancha nem ruga» <ef. Eí 5.27); nrio está sujeita a
culpa, mas é a primeira a denunciar toda e qualquer culpa existente em
seus próprios filhos. Se a historia do Cristianismo apresenta pontos
íalhos. isto so deve aos homens ou aos íilhos da Igreja que, por íra-
queza humana, se comportaram de maneira contraria aos ensinamentos
da Esposa de Cristo; na medida em que procederam erradamente, nao
representaran) a I<rreja, embora nflo dcixassem de ser católicos.

Para entender e julgar devidamento o proceder dos cristáos i*efe-


rente as quest6es sociais, ¿ preciso reconstituir o ambiente e a menta-
lidade das sucessivas épocas da historia e tentar revive-las, em vez de
Ihes aplicar as categorías de pensamerito do sóc. XX. Oliténvse entüo
conclusñes bem diferentes das que comumertte sAo proferidas. Procura
remos, por conseguinte. na resposta abaixo. recompor as notas caracte
rísticas das tres grandes fases da historia (antiga. medieval e mo
derna), a íim de avallar, eom justica. o comportamento social dos
cristáos.

■ 1. Idade Antiga
j ■ ■ •

1. O Cristianismo feve ori^om num mundo cujos morios de pensar


e viver já estavam estabelecidos... o ostabeU-cidos na base de unía
mentalidad? pa^á. Basta lembrar a m.'iueirci cerno os j*rcí,'os t: os ro
manos se comportavam ñas suas rclacóes soriais.

ai Na Grecia. Ñas gandes cidades do país (Atenas. Esparta,


Tebas..".). a socii-dado constavu, a rij-Tur, de dua.s classes : os ('idádáos
própriamente ditos e os escravos, estes era número muií.o malor do que
aqueles (em Esparta h.ivia cerca de 2OO.CKÍ0 cscravos ou ilotas para
3O000 cidadáos). Ter muitos cst-ravos. íazéios trabalhar nos campos

— is-i —
A 1GREJA. RESPONSAVEL PELA MISERIA DOS I'OVOS

ou alugá-los para a exploiacáo das minas, tais eram para os gi-egos


meios ou condieóes para cultivar a bcleza do corpo e consagrar o espi
rito á filosofía, ás lotras e ás artes. Os homens livrcs costumavam des
frutar os prazeres da vida intelectual, artística e esportiva á custa de pe
noso trabalho bracal infligido aos escravos; os espartanos chegavam a
matar os servos que se distinguissem na guerra, pois poderiam consti
tuir perigo para o Estado, caso se tornassem muito numerosos iTucí-
dides. por exemplo. narra o morticinio de 2.000 escravos, assim ocasio
nado; cf. «Guerra do Peloponeso» IV. LXXXJ.
O grande filósofo Aristóteles lí 322 a. C.) justiíicava tal estado de
coisas asseverando que há homens nascidos para a escravatura, como
há os que naseeram para a liberdade; aqueles estáo para estes como o
corpo para a alma ou como o instrumento para o operario; trata-se de
gente que nao tem tlireitos porque os direitos só existem entre iguais;
nem tém virtude própriamente dita, porque a virtude só Ihes é necessá-
ria dentro dos limites das tárelas que os patrües Ihes assinalem; nem
tém familia, a nao ser na medida indicada pelos interésses dos amos
(cf. Polit. I. II. 4.14.15. 23; V 6.9.11; Etic. a Nic. VIII XI 6). Contra
éles será sempre legitima a guerra, pois vem a ser urna especie de
caga a homens que naseeram para servir e que nao se querem subme-
ter (Poüt. I III «'.

Verdade é que urna reacáo contra tais idéias se levantou r.a escola
filosófica dos estoicos. Dizia, por exemplo, o fundador desta, Zenor de
Cízio i i 2G4 a. O:
•tila urna servidáo que provém da conquista (militar), e urna servi-
dao derivada de compra. A urna e outra corresponde o direito do amo, e
ésse direito é mau* icí. Diógenes Laércio VII 1).
Cornudo estas palavras íicavam sendo va teoría...
Quanto aos pobres e mendigos em particular parece que grande
era o seu número na Grecia. Hornero (séc. VIII a. CJ os descreve,
«tendo um cajado na máo. um saco períurado ñas costas, preso ás es-
páduas por um cordame gasto* (Odiss. XIII V 429-440).
Em Atenas, o Estado se encarregava de mitigar a sorte dos cida-
daos indigentes em certas circunstancias; beneíiciava assim os mutila
dos, os órfáos de guerra, as pessoas incapacitadas de trabalhar e as
donzelas pobres que se quisessem casar; contudo tais auxilios nao preen-
chiam as lacunas; disseminavam. antes, discordias e rixas. porque eram
animados por fría justica ou por interésses políticos e utilitarios. Pode-se
dizer que na Grecia o pobre nao era própriamente amado, pois a po
breza ó íeia. c o prego amava a beleza. Para que os homens prezassem
realmente a sorte dos indigentes, era necessária urna inversáo na es
cala dos valores...
Nem as associacóes religiosas da Grecia tinham finalidade filan
trópica; só promoviam reuniócs e sacrificios prescritos pelo culto sa
grado e cuidavam do sepultamento de seus membros.
A candado dos particulares devia naturalmente exereer-se. Suas
manifestacóps, porém. nao teráo sido de grande vulto, pois os documen
tos históricos quase nao a mencionan!.
b) Km liorna. Nao ora muito diverso o traiamento que os roma
nos dispensavam aos pobres e aos escravos. Váo aqui mencionados al-
guns traeos das condicóes sociais do Imperio Romano.
O pai de familia i ¿paterfamiliasí) gozava de autoridade absoluta
sobre a esposa e os filhos; tinha o direito de vender a prole, afogá-la,
atirá-la aos caes e ás aves de presa ou expó-la ao público; o aborto era
muito frcqüonte. Ésses costumes provocavam a exclamacáo pesarosa

— 185 —
♦PEItGUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962. _ qu._57_

de Plínio o Antigo: «Quanto somos, por éste motivo, mais indignos do


que os animáis!» (Nat. hist X LXXXIII).
Quanto aos escravos. cram. em conscqüéncia de guerras vitoriosas.
aínda mais numerosos entre os romanos do que entre os grecos. Os
filósofos, principalmente os estoicos, incitavam o público á benignidade
para com éles; a jurisprudencia, porém. era pouco «humana», como
atesta, por exempio, o case abaixo:
Urna lei prescrevia que, se algum amo Í6sse assassinado em sua
residencia, todos os seus escravos soíressem a pena capital, pois se
supunha que tivessem podido defender o patrño e impedir o exime
(Digest. XXIX V, De senat. consult. Silaniano et Claudiano 1 a 4>.
Aconteceu entáo que o prefeito de ítoma. Pedanio Secundo, foi assassi
nado por um escravo a quem recusara dar a liberdade. depois de haver
assentado com ele o preco do rescate e prometido a emancipacOio. As
autoridades aplícaram ao caso a lei vigente, matando, em conseqüén-
cia. quatrocentos escravos inocentes, apesar dos protestos do povo; o
senador Cássio justiíicava o procedimento, alegando que «ésse vil tro
pel dos escravos só podia ser guiado pelo temor» (cf. Tácito, Anais
XIV XLIV).
Tais medidas drásticas pareciam realmente impor-se. pois. sendo o
número de escravos maior do que o dos homens livres. fácilmente po-
deriam sacudir o jugo, caso conseguiremos tramar a revolucáo.
Aos cidadáos livres. mas indigentes, o Senado e, mais tarde, os
Imperadores romanos tratavam de distribuir «panem et circenses»,
víveres e espectáculos, que. em vez de remediar as indigencias da mu!-
tidáo. só contribuiam para infantilizá-la e torna-la dependente de corren-
tes ou chefes políticos. Nao era própriamente a caridade que se exercia
em tais casos.
Sabe-se outrossim que a «Lei das XII Tábuas» •permitia aos credo-
res retalhar entre si o corpo- do devedor que nao pudesse pagar («Ta
bula tertia»,'. fi bem possivcl que esta medida nem sempre nao haja
sido executada; em todo caso. Tácito descreve como certos lavradores,
incapazes de pagar suas dividas, íoram acabrunhados de trabalho, lan-
cados ao cárcere. acorrentados e vendidos no «Trastcvere» (Anais VI
XVI).
É verdade que, com o tempo. principalmente no Hmiar da era crista,
a legislacáo oficial do Imperio procurou tomar medidas mais humanita
rias. Contudo essa reacSo parece ter_sido pouco influente. Os estoicos,
que repudiavam a crueldade, se fechavam num desdém orgulhoso para
com tal sociedade pervertida; quando o julgavam oportuno, chegavam
a subtrair-se ao próximo e & luía, pondo tormo á próprla vida mediante
o suicidio. Séneca mesmo apelou para esté recurso, que ele recomen-
dáva aos escravos e aos numerosos cidadfios atribulados como remedio
para seus males: «Tam prope libertas est, et servit aliquis! — Tao
próxima está a liberdade: nao obstante, há quem se sujeite á servidáo!»
(ep. LXX. LXXXVIL XCI; De provld. 6; Ad Marciam 20).

2. Foi nesse ambiente social que o Cristianismo teve ori-


gem e iniciou a sua difusáo. Os arautos do Evangelho encontra-
yam, como dissemos, urna civilizagáo feita, dotada de seus
modos de pensar e viver bem característicos. Era preciso refun
dir por completo as instituicóes e os moldes dessa sociedade
para ai poder implantar a mensagem de Cristo. Tal remodola-
á comecou a ser possivel quando o Imperio Romano caiu sob

— 186 —
A IGKK.IA, UES1HJ.NSAVKL PELA MISKKIA DOS POVOS ?

os golpes dos bárbaros : coubo naturalmente a Igreja (única


autoridade que aínda fícava de pé) intervir no caos social, a fim
do salvar a cultura antiga e transmiti-la aos novos povos. Con-
tudo a reforma da mentalidade nao se faria repentinamente;
assim como num individuo a mentalidade rude ou infantil nao se
muda de um momento para outro, mas há desenvolvimento or
gánico, assim no género humano a transicáo de um modo de
pensar «infantil» e rude para nivel mais apurado nao se fez em
um ou dois séculos, mas exigiu tempo proporcionalmente mais
longo, ou seja, o tempo necessário para que as idéias táo descon
certantes do Evangelho amadurecessem na mente dos povos
cristianizados.

Compreender que podo háver valor (mesmo os mais preciosos va


lores) independentemente das riquezas e dos afanos que o mundo ofe-
rece e que a natureza espontáneamente cobija, nao era (nem é) colsa
fácil para a mentalidade humana; ver no pobre e no doente um ser que
merece apreco, porque Deus ama os pequeninos, eis outra aparente
tolice do Evangelho que a xazáo humana difícilmente aceita.

É o que nos obriga a julgar as expressóes do Cristianismo


a través da historia, nao á luz daquilo que os homens compreen-
dem e realizam no séc. XX, mas á luz das circunstancias da res
pectiva época; assim entender-se-á a evolugáo progressiva do
pensamento, de modo que muita coisa que a nos (beneficiados
por mentalidade mais madura) parece recuo ou degradacáó, aos
antigos e medievais devia parecer verdadeira elevacáo da men
talidade e dos costumes.

Vejamos, pois. como práticamente se comportaram as autoridades


da Igreja frente ao problema da pobreza nos primeiros séculos da era
crista (o que se refere á escravatura. já íoi abordado em «P. R.>
22/1959. qu. 5).

3. Desde os primeiros tempos foram instauradas ñas cida-


des em que o Evangelho penetrava, as chamadas diaconias, isto
é, postos de assisténcia aos pobres que tinham á sua frente um
diácono: éste possuia um registro especial dos indigentes que
Ihe eram confiados segundo as suas necessidades.

As fontes de renda das diaconias cram :


a) as contribuic.6es espontáneas dos cristfios fervorosos : «.Cada
qual traz módica oferta no coméco de cada mes. ou quanrto o queira.
sempro de acordó com as suas posses» i Tertulian.». Apol. 39 >;
b) as oblacSes dos fiéis feitas no ofertorio da Missa : «Promove-se
urna coleta, para a qual contribuem todos os que o desejem e possam.
Os resultados sao entregues ao presidente da assembléia, que os destina
as vhivas e aos óríáos. aos pobres e aos doentes. aos prisioneiros e aos
ostrangeiros» iS. Justino Apol. I 67 •;

— 187 —
*PERGUNTE, E_RESPONDEREMOS» 53/1962, qu. 57

c) as doagoes íeitas pelos cristáos tnais ricos na ocasiáo do seu


batismo ou ao prevercm seu próximo martirio;
d) o jejum... «É preciso que outro coma em teu lugar o que te-
rias comido, se nao tivesse jejuado, a fim de que do" jejum resulte
duplo beneficio: para ti. a expiacüo; para teu irm&o, a eessagáo da
íomoi (Sao Joáo Crisóstomo. serm. sdhre o jejum).
Como se vé. era um intenso espirito de fé e íervor religioso que
animava a beneficencia ao pobre, tornando-a pura de egoísmo interes-
seiro; o amor ao próximo vinha a ser realmente a irradiacáo do amor
a Deus. consoante o ariágio comumente repetido na primitiva Cristan-
dade : «Viste teu irmáo, viste teu Deus;.

Quando no séc. IV foi concedida aos cristáos a liberdade de


se expandir publicamente, ergueram-se grandes edificios desti
nados a obras de assisténcia social: assim os chamados «Xeno-
dóchia» ou albergues para viandantes e estrangeiros; nosoco
mios ou hospitais; «brephotróphia» ou casas em que se alimen
tavam as enancas (maternidades ou creches, na linguagem mo
derna); «orphanotróphia», lugares em que se educavam os
órfács; «gerontocómia» ou asilos para velhos; «ptochotróphia»
ou casas para alimentar os pobres... Além disto, deve-se men
cionar a <Basileida», verdadeira cidade fundada em 369 por
Sao Basilio, bispo de Cesaréia da Capadócia, perto da sua cidade
episcopal, o destinada aos mais diversos usos da caridade : era
albergue, hospital, leprosario, escola de manufatura e industria...
Kis alfiuns exc-mplos significativos do que era a solicitudc dos cris
táos pola tnHhora do nivel de vida de seus semelhantes. Ernbwa nao
pudessem retocar a cstrulura da sociedade em que viviam, os discípu
los de Cristo, animados ile tal zélo. surpreemliam os seus coneidadaos
pagaos: deviam fa;».er o pape! de auténticos pioneiros... É o que se
depreende. dentro outros indicios, do fato de que o Imperador Juliano
o Apóstata, drscjnndo suplantar a Ijjreja. ineitava os sacerdotes pa
gaos a imitar o exeinplo humanitario dos cristáos; assim, por exempio.
escrevia ele em 302 a Arsácio, sacerdote da Galacia :
- Porque nao levaríamos em conta as institui<;8cs ás quais a ímpia
relíRiáo dos cristáos deve a sua íxpansao?... Porque nao daríamos
atcn<;Ao aos seus cuidados pressurosos para com os viandantes?...
Tratai. pois. de construir em cada cidade numerosos albergues... Man-
dei distribuir por toda a Galácia 300.000 medidas de trigo e 60.000 de
vinho. A quinta parto ficará para .os sacerdotes incumbidos déste en
cargo; r, resto será para.os viajantes e os mendigos. Pois é vergonha
para nás que entre os judeus ná<i haja mendigo e que os impíos gali-
Íimjs alitncntem nao só os sous pobres, mas lambém os nossos, os quais
paicccín estar carecntio do socorro que Ihes deveríamos prestar-» «Ju
liano, Obras od. Tnlhot 113s).
Ésto tos ¡o parm- resumir bem o que era a - revoltoso socia! crista*
na M.ulí' Antijía. l'ossotnos. pois. a consideracíio da

2. Idade Media

1. N;i transicáo da Idade Antiga para a medieval a Igreja


nipcniíou urna avño social de notorio relevo.

_ 1S8 —
A IGREJA. RESPONSAVEL PELA MISERIA DOS POVOS ?

a) Bastaría lembrar que os bispos receberam entáo o ti


tulo de «defensores civitatis» (defensores da cidade ou do Es
tado).

Eram éles quem, durante e após as invasOes bárbaras, represen-


tavam a esperanca de reconstrucao; a élcs o povo recorría espontánea
mente em suas necessldades tanto espirituals como, materiais. A expec
tativa comum os prelados respondiam, criando hospitais, asilos, abrigos
para pobres, viandantes, procurando libertar prisioneiros de guerra
mesmo mediante a venda dos vasos sagrados das igrejas, etc. Sejam
apenas mencionados os nomes de Sao Martínho de Tours (t 397), S. Ger
mano de París (t 576), S. Cesário de Arles (t 542), S. Gregorio Magno
(t 604),

b) Á agáo dos bispos se associava a dos mosteiros, que


recobriram o territorio eúropeu na Idade Media: os monges
lavravam os campos, ensinavam aos bárbaros tanto as letras
como a agricultura e os oficios manuais, formavam a juventude
abrindo escolas em seus mosteiros, cuidavam dos doentes, an-
ciáos e viajantes em dependencias situadas ñas térras das
Abadías.

Um dos exemplos mais significativos é o do mosteiro do Abade


Sao Columba (t 597) na iiha de lona (Escocia). Nesta e ñas regióes
vizinhas. o Santo o* sua comunidade ensinavam aos camponeses como
procurar os veios de agua, como proceder á irrigacáo regular, como des
viar os leiios do.s ríos e riachos, como realizar o enxérto de árvores íru-
tiíeras; íorneciam instrumentos de trabalho, socorriam nos periodos de
epidemias, dirimiam litigios da populacño. etc. — O exemplo de lona
foi imitado pelos monges de S. Columbano (t 611) e Sao Bento (t 547)
no continente curopcu.

c) As igrejas paroquiais, por sua vez, tiveram anexos a si


centros de assisténcia social (escolas, abrigos, asilos...).

d) Na Alta Idade Media constituiram-se mesmo Ordens


Hospitalares, isto é, familias religiosas cujos membros se con-
sagravam a Deus mediante os votos de pobreza, obediencia e
castidade a fim de servir aos enfermos.

O modelo dcstas instituicóes foi a Ordem do Hospital de Sao Joao


de Jerusalém. .suscitada pelas necessidades das Cruzadas; imitaram-na
a Ordem do Espirito Santo, a de Sao Tiago do Passo Alto e a dos Ca-
valeiros Teutónicos, além de numerosas outras. menos importantes.

e) Muito comum na Idade Media era o que se chama


«Santa Casa» («Maison-Dieu» ou «Hdtel-Dieu», no francés da
época). Constituía quase urna cidade, em que se exerciam ou
ensinavam as sete clássicas obras de misericordia: 1) dar de
comer a quem tem fome; 2) dar de beber a quem tem sede;
3) hospedar o estrangeiro; 4) vestir a quem está nu; 5) tratar
dos doentes; 6) libertar os encarcerados; 7) sepultar os mortos.

— 189 —
Nesses cstabdocirr.emos pocliam encontrar auxilio lambém os alie
nados (recolhidos em pavilhüo especial!, as gestantes, parturientes e as
mancas abandonadas. A mor parte de tais institutos íoi fundada nos
séc. X/XI por bispos ou eó:ie<;os; eram confiados a Irmáos e Irmas
hospitalares. obedecía m a tim regimentó interno assaz minucioso, que
visava, dentro da compreensao da época, dar o máximo de assisténcia
aos enfermos.
Tenhase em vista, por exemplo. a seguinte prescrigao do Regula-
mentó que o bispo Ricardo, de Amiens. rcdigiu em 1207 para a Santa
Casa de Montdldkr :
-:Spjam os detentes levados para os seus ieitos e ai servidos todos
os dias cariñosamente tüinu se fOs.oem os senhores da casa, mesmo
quando os Irmños o ¡is Irmas estiverem fazendo snas rofeieOes. E tudo
que o enfermo desojar, se puder ser encontrado e nao Ihe íór nocivo,
sex-lheá dado segantio as posibilidades do estabclecimento. até que
volte para casa no gozo do sita saúde> (cf. V. de Beauville. Histolre de
la ville de Montdiílicr III 3Uji.
Esta norma tradu¿ bern a simplicidade bondosa que a íé crista
despertava nos medievais.

f) Outra instituicáo da Igreja (.'in beneficio da sociedade


foi a chamada «tTégua de Deus», ou seja, a interrupeáo perió
dica dos combates armados, a fim do abrandar os horrores da
guerra e facilitar a restauracüo da paz. Destarte a Igreja pro-
curava inipor limites as guerras que ola nao podia impedir.

Em peral, a tréyua >v csicntlia da rjuaiia-íoira á noite até a se-


gunda-íeira seeuinii? <\f rnanhá; comprcendia mitrossim as semanas do
Advento i anteriores ;i Natal), d.i ynaresmii. o tempo pastoril, as vipi-
lias de solenidados e ;i.< f<-s!;is úv Noss.-jt Scnhnra. A icKislaciio da trópua
declarava ijíunímcntc invioláveis [K-la guerra certas pesso:!S e cortos
objetos, romo os i-li'>rií4i<~. >,s iavr;idores c seus instrumentos, as mulhe-
!res. os comercia ni es. os viajantes, o <¿adn... As ifjrejas. as cruzes er
guidas junto ás estradas e os remítenos eran) tidos como pontos de
refugio indevassáveis {«-los; bcliücrantcs.
Estas disposi<;0es cuntribuiam. sein dúvirla. para refrear as paixóes
do homcm medieval, (jiie. pr»r mais rude un impulsivo que fósse. nao
deixava de crer nos valores religiosos e na autoridade das leis que
visavam defender tais valores.

g) Lcvem-sc otn conta ainda as numnrosíts c*»rpor¡H'5<4s


de artes e oficios, associacóes religiosas e Ordens Tcrceiras o,
por fim, as obras ile iniciativa particular que durante o periodo
medieval estivervm a servico do próximo. . .

-De toflus os f-studos 'le historia ii-.ili/.idus rm torno da triado


Media, sota licito tirar psta lonelti.sfu» :. . . de modo frera!, a assisténcia
aos indigentes eslava organizada o un; lemptis normáis bastava para
as variadas neerssidados.. . S'Jnx'nto as grandes calamidades, om parti-
dilar rí pfstf o a fomc assitn fomo as ühvíis londioói-s fco;iómic.t-. da
Europa no fim du Idadt» M'Vlia. •••••ntribuiram vnr:\ aumentar a pubreza
ea mondicidailf tornand'i ii>si![ifi.n>c.-- ns nioiiii-s ordinarios e normáis
da carinadf iL I'nin»-! l'atixres ili-si r! l'K¡:lise. ern Di^üf-crairo
Al'olo:.,'!'!;'!>!■• 'i • 1;; h't-.\ i":i:ho¡¡(ji:i'1 !i! It'.íí-• .
A IGREJA. RESPONSAVEL PELA MISERIA DOS POVOS ?

Os medievais praticavam a assisténcia social dentro dos limites da


sua compreensfio e das suas possibilidades; nao Ihes passavam pela
mente certas instituicóes que. para nos hoje. sao obvias, como aposen-
tadorias. pensdes. ferias remuneradas, etc.; por isto o íato de nao terem
oferecido tais beneficios ao trabalhador nao significa omissáo culposa...
As preocupaeñes dos medievais se dlrigiajn espontáneamente para
outros objetivos que nao ésses.

2. Replicar-se-á ainda : mas a Idade Media produziu, quase


como expressáo típica de sua civilizacáo, a categoría do servo da
gleba. Nao era esta urna condigno de vida aviltante ?
Em resposta, lembraremos o seguinte : a situagáo do servo
da gleba significa, sem dúvida, um recuo em relacáo ao nivel
de vida a que o homem do séc. XX pode normalmente aspirar.
Contudo a mesma condigno significava progresso em compa-
racáo com as condicóes de vida da Idade Antiga. O servo da gleba
vem a ser assim um tipo de transigáo entre o escravo romano
e o homem livre (as vézes, exageradamente cioso de liberdade)
do séc. XX. E ésse tipo de transicáo era necessario; exigiam-no
as circunstancias mesmas e a mentalidade da época.
Com efeito; as invasóes bárbaras, a partir dos séc. V VI,
tornavam caótica a vida pública européia : em meio á instabi-
lidade da ordem de coisas, muitos camponeses se sentiam inca-
pazos de garantir o ganha-páo por si sos; procuraram entao
livremente colocar-se sob a tutela de um senhor poderoso, ao
qual dedicavam inteiramente o trabalho de seus bracos, ficando
fixos ao solo que habitavam; em troca disto eram devidamente
defendidos conlni as hordes dos invasores bárbaros: instaurou-se
assim urna semi-servidáo. De fato, o servo da gleba, embora nao
tivesse a liberdade de deixar a térra, gozava dos plenos direitos
de esposo e pai. Ora é a partir da Idade Antiga e dos costumes
anteriores á Idade Media, e nao a partir da Idade Moderna,
que devemos julgar o que os servos da gleba representan! na
historia. Ponderem-se a rudez (ou também a infantilidade) do
homem medieval, sua falta de preparo ou de formagáo para
gozar de certos direitos; e concluir-se-á que o usufruto de todos
os direitos poderia por vézes tprnar-se nocivo, em vez de útil,
a nao poucos dos cidadáos medievais.

Quem 16 os tratados dos teólogos da época referentes á servidáo.


verifica que tinham expressoes cavancadas* em relacáo ás da mentali
dade antijja.
Considere-se. por excmplo. a seguinte passagem de Duns Scoto
(t 130S) : eoneernente <.áquela maldita servidfioi' («de servitute illa ma-
ledicta») pela qual «o escravo é assemelhado ao animal...»:
«O escravo. por mais escravo que seja, fica sempre sendo criatura
humana, e sempre dotado de liberdade; destarte se maniíesta a grande
crueldade cometida na instituicüo da escravatura. a qual robaixa o
homem h condirao do animal bruto, priva da lihordade moral, torna

— 191 —
•'PERGUNTE E RESPONDEREMOS- 53 1062. c|ii. 5 7

incapaz de viver virtuosamente o homem dotado de livrc arbitrio, criado


para ser senhor de. seus atos e feito para viver secundo a virtude (ex
quo patet magna crudelitas fuisse in prima inductione servitutis. quia
hominem arbitrio Iiberum et dominum suorum actuum- íacit quasi bru-
tum et libero arbitrio non utentem, nec potentem agere virtuoseí» Un
IV Scnt. dist. 36. qu. única).
Sño Tomaz fazia eco antecipado ;i tais afirmaeoes. dizendo que o
hornom. mesmo quando é cscravo ou púdito, mosmo quando obedece as
ordens de outrem, obedece em virtude do seu livre arbitrio; é gover-
nando a si mesmo que o homem obedece a nuem o eovevna (S. Teol.
II/II 50. 2c>.
O mestre franciscano Pedro Aureolo (t 1322). por s¡¡a vez. admí-
tia que os homens menos capazes íóssem submetidos nos ¡nais capazes;
mas cssa servidáo quase natura!, acrescentava ele- ck-veria ser "enten
dida no sentido de servidáo política e civil. O homem nao poderla ser
assujeitado de outro modo, pols é por natureza urr.a personalidade üvtc
senhor de seus atos. um animal dominador (quia homo est animal do-
minativum naturaliterh Assemel!iá-!o, portanto, a um animal de carga
que o amo pode vender ou dar, e que se torna incapaz de exercer o seu
livre arbitrio, é íerir os direitos da natureza «ergo quod aliquis hoc
modo siv servus, videtur esse contra ius naluraej (In IV Sen'., dist.
36, qu. única, art. unió.
Estes textos, ao lado dos quais aínda se poderiam cflar outros
varios, jó. mostram que os homens da I groja na Idarie Méüia titiham
consciéncia do seu dever de levantar o nhéi de vida dos concidadáos
mais necessitados. E atendiam a ósse dever... naturalmente nao como
no séc. XX se faz, mas corno na Idnde Media se poiiia pensar em
fazer...
Kis. porém, qur urna pravo ohjücáv aínda co.st:¡rr¡a ser formulada
contra a Igreja no toen ate a

3. Idadc Moderna

Na questáo n" S déste fascículo completaremos o peroarso de his


toria que cometamos nos dois parágrafos anteriores da presente n»s-
posta.

Aqui apenas nos detei-emos sobre a queixa frecuentemente


proferida contra os cristáos : a Igreja está despertando tarde
demais para os problemas sociais. Ela só o faz porque se vé im
pelida pela pressáo dos adversarios; por seu descaso Ela permi-
tiu que os marxistas tomassem a si a orientacáo das massas e
descristianizassem o operariado...

A estas dificuldades responderemos :

1) Impoe-so, antes do mais, ¡i dWtincüo que já apontr.moí, entre


a Iffreja e os fillion ilu Iffreja.. . Se houve cu!;;a.s no dcrori^r da histo
ria do Cristianismo.-clus se devem nao a os cnsinamenlos da Igreja. mas
á incoeréncia dos filhos da Igreja. queÉ nem semprf» repn'sentaram
dignamente a EsjKisa de Cristo sem mancha nem ru>.ra <cí. El 5.27J.
Esta, alias, nao se identifica integralmente <;om tvnhum ríe seus Íilho3.

2) No que concerne a questáo social e aos cristáos em


particular, devem-se. evitar as afirmagóos generalizachis, que

— 192 —
A IGKKJA. RKSHO.XSÁVKL PELA MISERIA DOS PQVQS ?

muitas yézcs sao injustas. As páginas anteriores ja procuraram


evidenciar como os cristáos até a Idade Moderna tiveram em
mira a melhora do padráo de vida do seu próximo. Aconteceu,
porém, nos séc. XVIII/XK algo de inédito em toda a historia :
o progresso técnico, industrial e comercial se foi acelerando em
ritmo imprevisível ou quase vertiginoso; ao mesmo tempo a po-
pulagáo do globo se ia aumentando em proporcóes assustadoras;
novos horizontes e novas perspectivas se abriram para o homem
moderno; o espirito de conquista ou, ao menos, de emancipagáo
se foi apoderando dos povos... Estas circunstancias nao podiam
deixar de dar origem a urna serie de problemas económicos,
sociais, políticos e educacionais, que ainda hoje assolam. o
mundo. Ora a Igreja nao tem por missao ditar planos de distri-
buigáo das riquezas, de salario, enfim... de Índole meramente
temporal ou material; Ela só intervém (e deve entáo intervir)
nessa ordem de coisas, quando os valores da consciéncia ou espi-
rituais entram em jógo... Pois bem; o ritmo precipitado em que
surgiram e se acumularam os problemas da vida moderna fez
que os homens da Igreja nem sempre tenham podido tomar
consciéncia do alcance de cada urna das novas lacunas.

Nótese que na Idade Media havia leigos cristáos á frente de cada


urna das principáis expressdes da civilizacáo (industria, comercio, labo
ratorios, magisterio, eto.i. de modo que as questñes que se iam origi
nando eram naturalmente resolvidas por profisslonaLs (industriáis,
comerciantes, mestres...) cristáos. Em outros termos: as solucoes se-
guiam a orientacáo crista dada por leigos competentes, de sorte que nao
ora neoessário ao:-: mrmbros da hierarquia eclesiástica preocupar-se di-
retamente com quostScs de salarios, pensóos. f ¿rias, etc.
Infelizmente, porém, o mesmo nao se dava no sáculo passado,
quando se agucou a problemática da vida moderna: á frente dos seto-
res da ciencia e da técnica já nao havia tantos cristáos; existiam pre
dominantemente, sim, homens de filosofía materialista, que procuravam
resolver os problemas da técnica sob a inspiracáo do ateísmo e da üre-
ligiño.

Esta ordem de coisas, táo nova como era, deve ter, a prin
cipio, provocado certa perplexidade na hierarquia eclesiástica.
Verdade é que nunca faltaram (mesmo antes de Karl Marx,
1848) pronunciamentos da autoridade da Igreja contrarios aos
abusos do capitalismo, á exploracáo dos pobres pelos ricos, dos
operarios pelos patróes, etc. Mas só aos poucos é que os Papas e
os bispos foram percebendo que lhes era necessário falar mais
pormenorizadamente, isto é, falar de remuneraeáo, abono, parti-
cipacáo nos lucros, co-gestáo, monopolio do Estado, iniciativa
particular, sindicatos, etc., pois estas instituicóes eram muitas
vézes orientadas por urna filosofía impía, pondo em xeque os
valores da alma e da consciéncia. É o que explica que, no de
curso de setenta anos, desde Leáo XIH até Joáo XXIII, através

— 193 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962. qu. g

das encíclicas «Rerum Novarum», «Quadragesimo anno», «Mater


et Magistra», a Igreja venha tratando mais o mais minuciosa
mente da posicáo do cristáo frente aos empreendimentos da
economia, da técnica e da política modernas; esta ordem de
coisas temporal está sendo visada por ideologias náo-cristás ou
mesmo anticristas, de modo que cada vez mais se percebe que
nao é possivei as autoridades da Igreja passar silenciosamente
ao lado de tais questóes.

Quem procura assim revive r «por dentro» as situagóes em


que se viram os homens da Igreja desde o inicio do século pas-
sado, nao se desconcertará com as posicóes que as autoridades
eclesiásticas vém tomando frente á questáo social; sao coeren tes
e explicáveis... Lembremo-nos de que o Senhor Deus nao cos-
tuma fazer milagres a esmo, mas rege os seus fiéis segundo as
leis da psicología humana. A encíclica «Mater et Magistra» bem
mostra que, apesar de quanto se diz, a Igreja nao ó anacrónica
nem cega diante dos problemas mais humanos o materiais da
vida contemporánea.

Veja-se o que já foi cliio sobre t.il encíclica r-.-r. P. R.* 49/1962-
qu. 4.

V. MORAL

AMIGO DA ESQÜERDA (Rccife) :

8) «A caridadc c a esmoia silo humilhantcs para o pobre.


Será preciso extinguir as iniciativas particulares de cari-
dade para dar lugar a urna verdadeira reforma, que confiará
exclusivamente ao listado a assistíncia aos desamparados.
A caridadc já teve sua ¿peca. Agora {leve coniccar o rei
nado da justica».

Pode-se dizer que as propositóos ácima, sob urna ou outra modali-


dade. tém voltado constantemente ñ Iwüa nos movimentos reformado
res ou í-cvoliu-iunárii..-; ila Iií'hío Moiiorn;t. Por runse^júnte- antes fie pro
ferir um juízo sóhrc as mt'smns impoilu-nos anülisar algo do seu his
tórico.

1. Pm-odentes históricos

1. A r<'fmir.;i lutcmna no .séc. X\'i c-ontríhitiu par» suscitar nos


discípulos de Lu'vro utn novo f)P.ccito de caridad'.* c auxilio aos pobres.
Com eff-iio. o hfformador cnsinou qi:p a lé por si so salva; as boas
obras podoriam "lovoriam rrifFmoi s^r prntir.adrs. mas nao constituí-
riam títulos meritorio- d.i vid:-, eterna.
Com isto Luh-ío vi-íiva. cm .si'ti modo d¡: vrr subjetivo, ".purificar:
a ri'!i;¿iSo •■ Hb'.'ttar uh fifis ¡i<- um ju^ro ¡ndi'vi'.lci. Cornudo as suas

- 19! —
A CAKIDADE É HUMILHAKTK ?

idcias íonim. por nao poucos dos seus discípulos, exageradas em sen
tido libertino...
Era o próprio Reformador quem observava :
«Desde que se íaga ouvir ao público a palavra "líberdade1. já nao
falam de outra coisa e déla se servem para recusarse a cumprir o
dever. 'Se sou livre, dizem, posso fazer o que bem me pareca. Se nSo é
pelas obras que alguém se salva, porque imporei a mim mesmo priva-
cóes para dar, por exemplo, esmola aos pobres?" Se nao dizem isto com
tais palavras. toda a sua conduta maniíesta que tal é o seu modo íntimo
de pensar. Comportam-se sete vézes pior sob éste reinado da liberdade
do que sob a tiranía papal* (citado por Doellinger, La Reforme, son
développement intérieur. les résultats qu'elle a produit dans le sein de
la société luthórienne, trad. Perrot I 296).
Lutero certamente nao entendía menosprezar. os pobres nem os
deixar desamparados. Julgava. porém. que o Estado devia assumir o
encargo de os socorrer, íicando as iniciativas particulares em plano
secundario. Em vez de caridade para com os pobres no sentido antigo,
haveria assisténcia estatal ou leiga aos indigentes :
iSob a reforma luterana— os povos e os governos nao discutem
mais a respeito de caridade, mas. sim, a propósito de assisténcia pú
blica legal e coercitiva,- (Toniolo. Congrés scientiíique international des
Caíholiqucs 1894. 11 335;.
lím autor humanista do séc. XVI, Cocleu (t 1552). chamava a
atencáo para as conseqüéncias da nova modalidade de socorro aos
pobres :

«Quantas Ieis, quantos regulamentos nossos luteranos nao fizeram


contra os mongos mendicantes,... os pobres e os peregrinos, djzendo
que niio tolerarían! mais a casta dos mendigos em suas cidades! Que
diriam do estado de coisas dai resultante? Deus permite, para castigo
de todos nos. que. em lugar de um mendigo, agora tenhamos vinte,
trinta ou mesmo mais* (citado por Janssen, Geschichte des deutschen
V-.)Ikos II. 197, 595*.
Por *ua vez, em 1535 escrovia Jorge Witzel. sacerdote católico íeito
luterano :
^Censuro os reformadores (isto é, os governantes que aderiam a
Lutero) por destruirem quase totalmente ou tornarem imitéis as instl-
tuicóes dispendiosamente fundadas por nossos pais em proveito dos
pobres; isto é contrario tanto á caridade como á justica para com o
próximo. Censuro-os por apropriarem a si os tesouros das igrejas. sem
com isto beneficiar os indigentes... Todos concordam em reconhecer
que agora os pobres levam vida muito mais dura e sao muito mais
miseráveis do que outrora, nos lempos da Igreja Romana> icitado por
Doellinger. La Róíorme. son déveJoppement intérieur, ¡es résultats
qu'elle a produit dans le sein de la société iuthéricnne, trad. Perrot I
47. 51-59).

2. A sementé ideológica Jangada por Lutero concorreu


para saturar de laicismo a mentalidade européia dos sáculos
seguintes. Urna das exprcssóes mais claras désse laicismo foi a
Revolucáo Francesa de 1789... No que diz respeito á assistén
cia aos necessitados, os revolucionarios quiseram, por sua vez,
atribui-la ao Estado mediante a supressáo das iniciativas parti
culares de caridade; estas foram tidas como algo de humilhante.
tPERGUXTE K RESPONDEREMOS- .ri3 i'.)*2. <|\t. _S

Assim um decreto da Convenció Fraiiccsa datado do 19 de


germinal do ano III (8 de abril de 1795) mandava suprimir so
ciedades de beneficencia, dispensarios de géneros e domáis en
tidades caritativas particulares. Tal decreto, alias, nao fazia
senáo executar urna norma pouco antes promulgada pela mesma
Convencáo, segundo a qual «nao haveria mais na República nem
pobres nem escravos; sómente do Estado ó que o cidadáo indi
gente feria o direito de reclamar o devena diretamente receber
o necessário para prover as suas indigencias* (Moniteur, 28
prairial do ano II). Inspirado por ésse principio, Joseph L.e Bon,
inembro extremista da Convencáo, propunha en; Anas (Pire-
neus), fóssem gravadas á entrada dos hospitais c asilos dt> ini
ciativa particular «inscricóes que proclamassem a sua futura
inutilidade, pois, dizia ele, se, urna vez consumada a Revolugáo,
ainda tivermos indigentes em nosso meio, nossa obra revolucio
naria terá sido vá» (Lecestre, Arras sous la Révolution II106).

A título de ilustracao, segup-se aqiti ainda o texto do curro docu


mento semelhante.
A Convencáo, por proposta da Comiss-áo de Finanzas, sancionnu a
seguinte leí. datada do dia 23 de messidor do ano II :
«As rendas dos hospitais. das casas de socorro médico, dos alber
gues, dos postos de auxilio aos polne-s o de oulros eiabelccitiu-rHos de
beneficencia, qualquer que sej:>. a sua r!onomin:n.jn, sao declaradas
rendas do Estado. O patrimonio dessas entidades V: incorporado ao j>a-
trimdnio do Govérno; será administrado ovi vendido de acordó eom as
leis que regem os hens tía naváo. A ComissAo dos .Secónos públicos
proverá. rom os fundos colocadas <i sua ('¡sposic'io. as i)fci>ssid;ides quf
ésses estabelecimentos possam vir a cx)jcriin(?iilar... •.
Os historiadores observam que a Convencáo eslava consciente do
que a mencionada «Corni.ssao dos Socorros Públicos nem sequer e.xis-
tía, servindo tal nome apenas para tranquilizar os Ar.irnos do público
(c£. Laliemand. Histoire de la Charité IV 2. .1012, pág. -Í02".
Diante do decreto ácima, varias comunas de Franca enviaran pro
testos & Convengáo, predizendo funestas conseqüéncias, ou soja, a ruina
dos hospitais do país.
Tais eíeitos nüo tardaram a se registrar, como atostam documen
tos guardados nos Arquivos Nacionais de Franca.
Assim. por exemplo. os administradores da Casa Nacional de JJene-
ficénda (antes da Revolucüo. chamada ^Muison-Dinu? ou ¿Santa Casav)
de Auxcrrc escreviam aos 15 de íructidor do ano III : *NeMo momento-
tendo cento e cinqüenta indigentes internados e quase outius tantos
mais remotamente confiados a nossa solicitud*;, carecemos tanto de
triRO como de meios íinanceiros para o adquirir-- (Archives Nationales
de France. F 15 276).
Os dirif;entes do Hospital Central de Douai. no mes de fructidor
do ano III. prodamavam : «O invernó está para nos acometer desprovt-
dos de material para o aqueeimento r» n iluminacáo da casa, destituidos
de um metro sequer de paño pnra robrir a nudez tía hoscos ansiaos e
de nossos pequeninos. que se ac-hani najados de farrapos» «Archives
Kationales de Franco. F 15 2iJ7'.
A CARIDADE É HUMILHANTE ?

A direcáo do Asilo Civil de Doullens, aos 17 do mes de pluviosa do


ano VI. exprimía nos seguintes termos uma situacáo generalizada na
Franga:
«Um crepé fúnebre e sinais de luto íoram colocados & entrada dos
asilos desde a leí do 23 de messidor do ano n...; a inorte ceiíou um
número assustador de indigentes, desgranados e iníelizes de todas as
idades e de ambos os sexos, pois íoram privados de um depósito que é
sagrado aos olhos da justica e da humanidade» (Archives Nationales
de France F 15 357). ■

Em conseqüéncia da situagáo calamitosa, o Govérno francés


se viu obrigado a recuar paulatinamente:
Aos 2 do mes de brumário do ano IV, a Convenció decía-
rava que cada hospital voltaria a gozar provisoriamente das ren
das que outrora lhe tocavam a titulo de propriedade particular.
Finalmente uma leí de 16 do vindemiário do ano V mandava de
volver o respectivo patrimonio ás irtstituicSes caritativas parti
culares. ..."'•,..-■..
Mais tarde, sob o regime do Consulado, Chaptal, ministro
do Interior da Franca, convidava de novo as fungóes hospitala-
res as Irmas Vicentinas, louvando «a sua caridade suave e atiya»
(circular do día 10 de nivóse do ano X). Pouco depois, era o
Imperador Napoleáo I quem promovía a restauracáo das comu
nidades de Religiosas enfermeiras e ensillantes; em 1807 man
dava ele dizer ás representantes de 75 Congregacóes Religiosas
destinadas a obras de caridade:

«Vosso Soberano, com todo o seu poderlo, nao Julga ser suficiente
mente rico para pagar os vossos cuidados e prestimos» (Lallemand.
ob. cit IV 2. pag. 447).

Destarte dez anos de perseguigáo haviam contribuido para


por em evidencia nao só a oportunidade, mas a necessidade
mesma das obras de iniciativa particular em prol dos indigentes.
Experiencia semelhante á da Franca foi felta por outras nacóes
européias que, pela mrernn época, quiseram laicizar a caridade.
A historia ensinou que querer atribuir tais tare&s ao Estado
apenas significa frustrar empreendimentos que sao essenciais
para o bem comum.
3. Uma vez restituida á Igrejá á liberdade de fundar e
administrar obras de caridade, estas se foram multiplicando no
decorrer dos séculos XDC e XX. Para nao nos alongar demais,
recordaremos apenas as Conferencias de S. Vicente de Paulo
fundadas em 1833 por Frederico Ozanam, que em 1853, pouco
antes da sua morte, podía dizer em Florenga:

<A principio, éramos sete companhelros apenas; hoje, sómente em


París somos 2.000, e visitamos 5.000 familias, Isto é, 20.000 Individúes.
Na Franca o número de Conferencias chega a 500; estáo propagadas

— 197 —
* PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962. q». 8

outrossim na Inglaterra, na Espanha. na Bélgica, na América e até em


Jerusalém» ící. Baunard. Un siéde de l'Eglise de France pág. 275).

A medida que as necessidades sodais tém surgido (e sur-


gem cada vez mais imperiosas), a Igreja procura acudir-lhes;
em seu gremio tém sido fundadas Congregacóes Religiosas, hoje
existentes com centenas ou mllhares de membros, que se dedi-
cam especialmente a determinada tarefa de assisténcia (em es
colas, orfanatos, hospitais, asilos...).

4. Nao pederíamos encerrar éste esbfico histórico sem aludir ao


surto de Institutos caritativos suscitados pelo Concilio de Trento e a
renovagSo dar vida católica nos sée. XVI e XVTL Merecem explícita
mencáo
a Congregaeáo dos Irmáos Hospitalares de Sao JoSo de Deus,
fundada em 1571; além de proíessar pobreza, obediencia e castidade, os
seus membros emitem o voto explícito de tratar dos enfermos;
a Congregado dos Padres Camllianos (ou «Ministros dos Enfer
mos»), fundada por Sao Camilo de Léllis em 1582; além de se compro
meter pelos tres votos religiosos, professam cassisth- aos moribundos!
mesmo em época de peste>. Nos trinta primelros anos da Congregacao,
pereceram 220 Religiosos em conseqUéncia de molestias contraidas a
cabeceira dos doentcs:
a CongrcgacSo das Futían da Carldade (Vlcentinas), devida em 1634
a Sta. Luisa de MariUac e a S. Vicente de Paulo; dedicam-se aos mais
diversos afazeres que a miseria humana possa solicitar. Dizia o famoso
pregador dominicano Pe. Lacordaire: <Uma irma de caridade é urna
demonstracSo completa do Cristianismos

* Após o testemunho da historia que acaba de ser esbocado e


que táo eloqüentemente fala em favor das obras de caridade,
resta aberta a questáo : será que tais obras, entendidas no sen
tido clássico, aínda tém cabimento nos nossos días? Vivemos
mima época de «socializacáo», em que o Estado tende cada vez
mais a tomar a si os empreendimentbs que dizem respeito ao
bem comum, a fím de assegurar o seu pleno éxito, pleno éxito
que a iniciativa particular parece nao poder garantir.
É a essa questáo que vamos dedicar o parágrafo abaixo.

* 2. - Caridade: valor tdtrapassado ?

Consideraremos o problema por etapas.


1) Existe urna caridade que, pelo modo como é praticada,
avassala e humilha o indigente. Tal caridade sempre foi e será
condenada pela Moral crista.
Observe-se que a peia désse tipo de caridade está única
mente no modo como é executada :... com ostentacáo, com ar
rogancia, com exigencia de certa compensacáo...

- -' — 198 —
A CARIDADE É HUMILHANTE ?

Em particular, os Sumos Pontífices recentes tem censurado a*ati-


tude daqueles que cumprem suas obrigac6es como se estivessem ía-
zendo algo de indevido. gratuito ou caritativo. Assim, por exemplo, se
exprimía Pió XI:
«Urna pretensa caridade. que priva o operario do salario a que
tem direito, nada tcm da verdadeira caridade; nao é mais do que íal-
sidade e simulacáo. Nao se deve dar ao operario a titulo de esmola o
que Ihe toca a titulo de justica; a ninguém é licito furtar-se as graves
obrigacóes impostas pela justica concedendo presentes a titulo de mi
sericordias (ene. «Divini RedemptorisO. . ,

Está claro que nao é ésse tipo de caridade. táo deturpáda


pelas suas circunstancias, que visamos defender. Interessa-nos,
focalizar a caridade em si mesma ou como tal.
2) A caridade é uma virtude,... expressáo genuina da
nobre alma humana. Por isto é valor perene, como a dignidade
humana é valor perene.
Note-se que a justica tende a canalizar a atividade do ho-
mem, mostrando a linha divisoria entre o que é dever e o que
nao é dever; destarte a justica pode fácilmente tornar mecáni
cas e «esclerosadas» as expressóes da personalidade. Acontece,
porém, que a alma humana é essencialmente «elástica» e dina-
mica; é indefinidamente aberta para o bem; desde que ela se
feche dentro dos limites do devido e do náo-devido, depaupera-se.

«Depois cjue alRUém tenha dado ao seu semelhante tudo a que éste
tem direito. aínda íica abe-rto ampio setor para a cartdade... Só haverá
viTrtadelra colaboracáo de todos para o bem comum quando todos pos-
suírern a eonvk'gáo intima de ser os membros de uma grande familia
c os fllhos de um mesmo Pai celeste, formando uro s¿ corpo em Cristo»
i Pió XI. ene. <Quadragesimo anno->.

Visando agora diretamente o problema social, observare


mos : é necessário, sem dúvida, que o Estado Lntervenha nesse
terreno, procurando com o rigor e a garantía das leis aliviar .os
sofrimentos dos indigentes. Mas nao se pode reduzir toda a ta-
refa assistencial ao plano e aos empreendimentoE do Estado
apenas. De fato; as iniciativas governamentais térrrsempre algo
de impessoal, tendein a considerar os indigentes como números...
números de matrícula que, ao lado de outros números de ma
trícula, aguardam sua vez de ser atendidos por funcionarios
assalariados, funcionarios que cumprem seu dever dentro de de
terminado horario o determinada repartigáo. — Compreende-se
entáo que, uma vez cumplidas as leis e satisfeitos os direitos,
aínda reste ampio setor para a caridade particular, nao remu
nerada, na qual, fora o além de todas as leis, se dá um encontró
de alma com alma (alma do benfeitor com alma do beneficiado).
Há um genuino valor humano em «dar», e um genuino valor
humano em creconhecer a dádiva», «ser grato ao doador». Ora

— 199 —
«PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 53/1962. c.u. 8

ésses valores jamáis poderáo ser sufocados por modalidade al-


guma de progresso, sem que se mutile ou deforme a alma hu
mana mesma. -

É o que Claudel tao bem incute ría scjruinte passagem :

«A caridade nao é, como alguns íizeram crer.... o exercicio de urna


superioridade, da superioridade de quem possui sobre quem nao possui;
ela é slmplesmente o nome religioso do amor; ela é a necessidade que
temos do próximo, nao sómentc do bem que o próximo nos pode fazer,
mas do bem indispensável que ele nos íaz pennitindonos que nos Ihc
fagamos o bem. Comete a mais injusta, a mnis tremenda das ofensas
aquéle que d&trói ou diminuí em nos o direito sagrado que temos de
íazer o bem nns aos outros... O máximo de bem possível! E prestai
atencao:... nao temos somonte o direito. mas temos também a capa-
cidade de íazer o bem! E nao é tareía de pouca monta, a de aprender-
mos a nos servir désse personagem que é cada um de nos. com toda a
riqueza de seus recursos» (Qui ne soufíre pas... 1959p.

Visto o detrimento que os homens (tanto possuidores como


indigentes) sofreriam em sua dignidade característica, caso
fósse entrevado ou menosprezado o exercicio da caridade üvre
e da esmola, nao se pode preconizar que as formas de govérno
modernas monopolizem ou «estatizem» as obras de assisténcia
social, extinguindo ou solapando as iniciativas particulares.

Aínda vém a propósito as palavras com as quais O/anam. no sé-


culo passado. respondía aos quo consideravam a caridade como algo de
aviltante para o pobre :
«Nao há mais graves crimes contra o povo do que o de ensinar-me
a detestar a esmola e o de sufocar no desgracado o ?entimento da gra-
tidao: esta é a última riqueza que fica no pobre, mas também a maior
de todas as riquezas, porque nada há que ela nao possa pagar... Nao
resta dúvida : a esmola torna o pobre obrigado; por isto há quem con
ceba o ideal de urna nacáo em que ninguém esteja obrigado para corr.
outrem ou em que cada cidadSo goze do soberbo prazer de se sentir
quite frente a todos. ... nac/ao em que todos os direitos e deveres sociais
se contrabalancem com as entradas e as despesas num Hvro de conta-
bilidade comercial. É a isso que étes chamam 'instauracáo da justiea
em lugar da caridade; nao levam em conta. porém. que a Providencia
Divina coverna os homens mediante urna rede de obrisaedes reciprocas,
das quais lamáis alguém se pode ver livre por compilo : um filho sera
eterno .devedar frente a seu pai; um pai será, por sua vez. perene de
vedor em relacao aos filhos; um eidadao... ao seu pnís; n5o há um
so homem táo desgracado, tao abandonado, tao ¡solado sobre a terrn
que. ao se deitar no íim do dia. possa dizer que nao tem obngacoes
para com pessoa alguma!...
Sem dúvida. n&o basta aliviar o tndigi-ntc día por <ha: e preciso
por máos á raiz do mal e. mediante sabias reformas, diminuir as
causas da miseria pública. Nos. porcm. afirmamos qtir a ciencia das re
formas benéficas se aprende menos nos livros e ñas tribunas das assem-
bléias do que no trabalho de subir os dograus da casa do-pobre, de ficar
á aua cabeceira. de sotrer o rawmo frío que élo. ríe ¡he arrancar, na
efusáo de urna conversa amiga, o segrédo de seu ooracjjo desolado.

• -' _ 200 —
A CARIPADE É HUMILHANTE ?

Depois de ter desempenhado essatareía. nao por alguns meses, mas


durante longos anos.... cometamos a conhecer os elementos désse tre
mendo problema da miseria e temos o direito de propor medidas serias;
entao, em vez de lancar o pánico na sociedade, levamos-lhe consolo e
esperanca> (Cf. Lanzac de Laborie, Le Fondateur de la Société de
Salnt-Vincent-de-Paul. em «Ozanam. Le Livre du Centenaire». París
1913. pág. 140-2).
Estes sabios dizeres de Ozanam dispensam qualquer comentarlo.
Resta, porém, aínda urna observacáo.

3) Além de contrariar á dignidade humana como tal, a


«estatízacáo» das obras de assisténcia social jamáis bastou, nema
bastará, para prover as indigencias dos povos.
É o que a historia tem comprovado, principalmente me
diante a experiencia da Revolugáo Francesa, que, apesar do seu
grande empenho, se viu incapaz de dispensar a iniciativa parti
cular para aliviar a miseria e o sofrimento.
Leve-se em conta que o género humano estará sempre su-
jeito ao flagelo de inundagóes, terremotos, erupcóes vulcánicas,
invasóes de povos belicosos..., em conseqüéncia do que haverá
sempre órfáos, mutilados, andaos desamparados; também ejfis-
tiráo sempre homens mais industriosos e outros menos industrio
sos, os quais, como se compreende, se encaminharáo diversa
mente na vida. Por mais que se aperfeicoe a humanidade, jamáis
será possível evitar as miserias e os sofrimentos decorrentes dés-
ses varios fatores; nao há, nem haverá, forma de govérno, por
mais aprimorada que seja, que possa isentar os povos de tais
males... E, para dar a estes o devido remedio, será sempre ne-
cessária a abnegacáo generosa que as leis do Estado nao conse-
guem obter, mas que o amor a Deus e a caridade crista podem
suscitar.

O próprio Jesús quis acautelar o mundo contra a ilus&o de que um


dia o género humano, esmerando-se em conquistas dentificas e técnicas,
conseguirla extinguir as condlcoes de vida dos indigentes: «Pobres,
sempre os terels convosco» (Mt 26,11). T|
Dlzendo isto, o Senhor fazia eco a urna palavra alma mais explí
cita do Antigo Testamento:
«Jamáis deixará de haver pobres nesta térra. Por isto dou-te o
precelto: has de abrir a m&o ao teu irm&o. áquele que é humilhado e
indigente no teu pais> (Dt 15.11).
Nao seria licito tomar as palavras de Cristo como motivo de desá
nimo e capitulado dos cristaos perante os flagelos soclais, nem como
pretexto para a inercia e o desinterésse por melhorar a sorte do mundo.
Jesús mesmo quls que seus discípulos fossem «sal da térra e luz do
mundo (cf. Mt 5.13s), o que supoe grande zSlo por tudo aquilo que
diz respeito ao bem-estar (seja espiritual, seja material) do género hu
mano. O Senhor quería apenas evitar que seus discípulos esperassem.
por seus esforcos caritativos; criar o paraíso aqui na térra (o triunfo
pleno sobre o pecado e suas conseqüéncias só será obtido no ítm dos
séculos; por conseguinte. cnquanto a humanidade fór peregrina através

— 201 —
«PERGÜNTE E RESPONDEREMOS» 53/1962, q». 8

dos tempos, carregará sempre as desordens acarretadas pelo primelro


pecado).

Em conclusáo:

De um lado, toca aos discípulos de Cristo e a todos os ho-


mens em geral o dever de trabalhar generosamente em prol dos
necessitados.
Doutro lado, aos governos civis cabe a tarefa de fomentar
e garantir, por suas leis, o bom éxito désses esforcos, nunca,
porém, a de monopolizar ou «estatizar» todas as obras de assis-
téncia sociaf,..
pois a justica e a fórga das leis, sem o dinamismo da cari-
dade, deixam de ser valores humanos, tornando-se algo de me
cánico e estéril; reciprocamente, a caridade nao orientada pela
leí ou pela justica corre o risco de se desviar, cedendo ao indi
vidualismo e á covardia.

Ulteriores conslderacfies s6bre Justica e caridade encontram-se em


<P. R.> 48/1961. qu. 4.

CORRESPONDENCIA MIÜDA
P.R. (Rio de Janeiro): "Que há de verdade na doutrina freudiana
sobro a interpretacjio dos sonhos ? Poden a apresentar aiguns exemplos?"
\ A reapeito do freudismo e da psicanálise já saiu um artigo em
"P.R.* 8/1968, qu. 1. Por conseguintc, aqui limltar-nofi-eraos a conáde-
rogáo dos aonhos no sistema de Freud.
Segundo éste autor, a ássociagáo de imagcns verificada nos sonhoa
indica as tendencias que se acham latentes dentro da pessoa que dome.
Sim; durante o sonó, diz Freud, cessa a rígida censura que cada um
impóe a si meamo em estado de vigilia; manifestam-se entáo os instintos
habitualmente recalcados no íntimo do individuo; ésses instintos eáo
de caráter sexual ou erótico ; recobran-se de símbolos, que sao os-per-
eonagens e as coisaá vistas em sonho.
Partindo déste pressuposto, o médico austríaco julgou ter deacoberto
'um aisteraa (que o espaco nao nos permite desenvolver aquí) para deci-
frar o sentido de tais símbolos; conseqüentemente, atribuiu grande im
portancia aos Bonbos, que seriam a "via regia* para se penetrar no
subconsciente dos individuos. ' .„
Que dizer a respeito ?
A crítica sadia, embora reconheca a veíossemelhanca de certas con-
clusóes do sistema, nao debea de Ihe fazer serias reservas, que se podem
resumir em dois itens : -
1) ' 'A interpretacáo dada por Freud aos diversos símbolos é fre-
qüentemente arbitraria ou poueo fundada. O Analista, partindo do prea-
snposto de que o hornera é um conjunto de tendencias sexuala que se
manifestara livremente através dos sonhos, vé-se de antemio induzido a
dar interpretacáo sexual ás principáis figuras ocorrentes em sonho. Has

- -' — 202 —
OS SONHOS E A PSICANAL1SE ^

como se provaria tal pressuposto ? — Pelos sonhos mesmos e scu Sim


bolismo ? — Tal resposta levaría a um círculo vicioso : os sonhos seiiam
entño unía conseqüéncia e, ao mesnio tempo, uma das premissas da tese
pan-sexualista de Freud.

ííeplicariio os f reuníanos: a inteip.etac.ao que o analista dá a de-


loiminado sonho, de-per, te também de multas mitras expressóes e ati-
tudes tío paciente registradas cm sucessivas sessoc-s de análiso ; aoha-se,
portante, sólidamente fundamentada. — Em verdade, tal recurso a expe
riencias anteriores nao liberta do círculo vicioso ; apenas alaxga-o, pois
o analista supóe que tais atitudes anteriores sejani o*.itras tantas'expres-
sóV-s ile pan-scxualismo; e continua a supó-lo gratuitamente ; ni"» o
pi'ova. Alias, sallemos que. secundo Freud, para aceitar a psicanálise, a
¡u-ssoa tem que su submtter diretamente ao tratamento psicanalítico';.
se nao o fize/, nao quebrará a resistencia que ela inconscientemente opóe
a ossa disciplina !...

As reservas assim feitas ao sistema de Freud podem ser ilustradas


pelo seguinte exemplo : conforme o freudismo, as floies, em sonho, tém
sentido sexual, sentido que o analista feralmente julga poder comprovar
pela observarlo de alitiv.irs que o paciente toma fora dos sonhos. Bascado
ni'ste principio, F>eud jiu-süio citav-n o caso de unía si-nhora inglesa que
sonhou oom violetas (riiiltt, em inglés) e, após haver contado o sonho,
falou de "violar" (v¡<'.'ate, palavra que em inglés tcm piráticamente a
mesma pronuncia que a anterior). Dcsta assncia;áo deduzia Freudi a
confirmacáo de que a violeta ocorrente em sonho tem significado sexual.
(cf. TrauíndeutunR. Gesummclte Wcrke II 378-382). — Ora ta! con-
clusáo só se impóc a qut-m He antrmáo professa o pan-sexualismo, pois
a mencionada assoc¡ac,ño de violeta (vío/e/) c violar (viólate) ¿ suscetível
de outra explica;áo aínda mais obvia ou menos rebuscada: é sugerida,
sim, pela simples assonancia dos vocábulos "violet" e "viólate".

2) Dado que em determinados casos as associacóes de imagers


tenlir.m i-ealnicnte nriircm sexual, pergunta-se se olas se devem a instin
tos sexuais ¡ncnscienti-s e recalcados (como admite o freudismo) ou se
nao sao apena* o produto do interésse sexual que vai invadindo o pa
ciente no decorrer da análise. Verifica-se, com efeito, que o tratamento
psicanalítico incute ao paciente preocupacóes e tendencias sexuais que
ele anteriormente nño dcmonsti-nva e que nao parecem constituir o
tronuíno funrlo de sua personalidade.

l)eve-se, alias, acicscentar aqui que Freud mesmo icconhecia as limi-


ta<;ñc-s do s.-u sistema de interpreta^áo dos sonhos, lináta^des "prove
nientes nm partí- da nr>ssa ciencia incompleta"; admitía ^ue "numerosos
sonhos se piídi-ascm nf'-rir a outras ncccssidadc-s nossaa que nao as
eróticas...; há sonho-s de fome, de sede, de comodidade, etc.". Na prática,
porcm, Freud ufirmava que "(¡uase todos os sonhos dos adultos, subme-
tido:-- á análiso, se íelucior.am com desejos eróticos" e, apesar de fszer
irstrifúcs teóricas, atribuía significado sexual a todos os símbolos ocor-
ivnlí-s nos sonhos.

Os críliciis hodiernns nao nt^aiii que as imagens apresentadas pelos


sonhos tenham índole sin.bólica. Cnntudo asseveram que os criterios de
interpreta?ao nár se podem ¡cduzir a vida sexual, mas que se devem
levar em o.nta otitroísim f:s circunstancias dv temperamento, educacáo
o grau de civil izagau .ia pe&soa que sonlia ; onde haja significado sexual,
cimrliicm, ésU; ú apenan c-innonente de um con ¡unto «ti- manifcstacóes
táo ricas quanto rica é a vida.

__ 203 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS* 53/1962,

Para ilustrar rsta propoBigáo, o I)r. Kaymond do B<>cker (Les Songcs.


Paris 1958, pág. 57-59) refere os dnis seguintes casos :
Um depotadó do Parlamento francés redigira um discurso, que ele
havia de proferir era reuniáo do Congresso. A seguir, viu era Bonho o
grande estadista francés Briand... — ftste nparecímento tinha índole
complexa : devia-Se, etn parte, ao fnto de que o referido deputado se
identificara de cejto modo com Briand, do qua! file admirava profunda
mente a eloqüéncia e as idéias generosas ; era parte, devia-se tambero
(como revelen a análise) ao fato do que a palavra Briand tinha asso-
náncia com urna qualidade que o parlamentar muito désejava para o
seu discurso : ser brilhante I
Dontra /cita, o Dr. de Becker, após haver escrito um artigo, viu em
sonho urna bata salada verde. Esta lhe lembrava varias coisas, entre as
quais certam$te a impressao que «le tinba, de que efiu artigo era real
mente urna salada.
Em conclusáo : também o estudo dos sonhos leva a ver que a técnica
analítica de Freud 6 instrumento útil para a penetracáo do subconsciente,
A filosofía pan-sexualista, porém, que Frcud associava a essa técnica,
é falha e nao resisto a graves observaeóes feitas pela crítica contem
poránea.

ESTRANHADO: sobre La Sateite e Fátimá1 deve sair um comen


tario em um de nossos próximos fascículos. Nao se déení ouvidos as con
jeturas propaladas em torno do sefrrédo de Fátima ; a fantasía dos
curiosos e sensaciojialistns tc-m explorado o assunto.

D. ESTÉVAO BETTENCOUBT O.S.B.

' . «PERGENIE E KESPONDEBEMOS»

. * Assinatura anual de 1061 Cr? 300,00


"Assinatu;a anual de 1961 (via aéroa) CrS 580,00
Número avulso de 1961 O* 30,00
Número de ano atrasado Cr§ 35,00
Colecfio encadernada do l¡).r»7 Cr$ 400,00
Cole«áo cncadernada de 1958, lí>5'J, IÍ>G0.. Cr$ 550,00 (cadaurna)
Cole¿áo encademada de 1961 Cr$ 600,00

¿EDACAO ADC
Cafara hostal 2666 B. Real Grandes». 108—Botafogo
Elo de Janeiro Tcl.: 26-1822 — Klo de Janeiro