UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

UM

BEIJO

MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

Ricardo de Almeida Rocha

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UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO

NÃO

ACHARÁS, AMOR,

NO POÇO EM QUE CAIS O QUE NA ALTURA GUARDO PARA TI: UM RAMO DE JASMINS TODO ORVALHADO, UM BEIJO MAIS PROFUNDO QUE ESSE ABISMO.

Pablo Neruda (O poço)

Os ladrilhos das fachadas amarelejam ao longo do caminho para o fim. Bordas de blusa ondulam sob o vôo leve do pássaro de um sonho. As mãos que se juntaram ante o papel de
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carta qual prece, envoltas em lubricidade atroz, se agitam saindo das mangas de veludo gasto. Dedos desenhados conforme as luzes da noite. A saia cuja textura não permite que se determine a cor, adeja, mansa e inexaurível, tomada de suntuosidade súbita. Os traços do rosto na aura de medo e sofrimento não se atribuem a imponente beleza que os transeuntes detectam. Para o fim. Ela sabe. Escuta nos carros que passam. Está escrito no dia entre os prédios vacilante. Entende com a razão que resta. Em meio ao crepúsculo de cimento decidiu seguir e encontrar um sentido para o fim. Faltam alguns dias para o inverno mas digam-me se essa temperatura poderá baixar mais. É friorenta. Seu casaquinho mais quente estava úmido da chuva do dia anterior. Esta saia não é adequada. Mas decerto ainda estaria muito frio. Uma noite dessas. Um dia faz tempo. A chegada. Não mais que uma semana. Disseram que o centro não estava longe. Que seguisse a avenida até o parque e virasse à direita no
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semáforo. Não disseram quantos quarteirões isso significava. Desembarca. Meio-dia gelado ao desembarcar. Esta a avenida. Não vê nada ao redor. Por que mesmo não acompanhou a moça? Medo de pessoas pouco conhecidas. De lugares desconhecidos. O pavor dos recomeços. Horror ante esquecimentos. Luzes de uma janela. Vozes de crianças. Um vulto recortado contra a sala. Disse aos vizinhos que o emprego estava certo. Não precisa ir, Alice. Não precisa ir – reiterou o cisco que entrou em seu olho. Você tem tudo aqui. Devia terminar a faculdade sem pressa. Fazer um doutorado. Um dia ela achará o mesmo. Um dia como sempre quando não mais for possível. Ela não conversa há dias. Terá de inventar a salvação em silêncio. Diziam que era bonita. Isso era antes de não ter para onde ir. Lisonjas. Mentiras e lisonjas. A substância de que o mundo é feito. Está preparada para tudo. Nada de escrúpulo ou remorso. Até porque é tarde.

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Seu duplo exausto passou pela montra enquanto lá dentro a vendedora apanhava um sapato na vitrine. Parece seu número. Um modelo do seu tipo. Tiras e ligas. Uma atendente bonita. De que vale a beleza agora? Dinheiro é o único poder. Olhos fechados. Um após outro passam. De Darken Pöbel a Öffner Hilo. Com um ela ficou na ponta dos pés. Com outro deixou o celular cair. As faces se dissolvem na névoa. É a transitoriedade. Não um pesadelo como preferiria acreditar. A vigília e o sono. Porque a dor dos sonhos tem hora marcada para acabar, mas quando terá algum descanso?

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Segurou-lhe o queixo e a puxou para si. O polegar na face realça a sombra da maçã de seu rosto. Está dizendo alguma coisa. Ela não faz idéia do que seja. Quer apenas se livrar. Por que então hesitou perante o beijo? por que permitiu ou ao menos não lutou? Assim se constituiu a premissa. Ela lhe permitirá tudo. Pomba gemendo em círculos na praça sobre farelos de tempos aéreos num mundo inóspito mais inóspito quanto intensos os sonhos. Se foi com timidez que aceitou a aproximação dele, estavam (ela e a timidez) impregnadas de impressões contraditórias que a confortavam e angustiavam. O que sua expressão não traduzia mas veria em seu futuro. A forma como estão ligados o conforto e a angústia e nunca podem ser efetivamente expressos pelo semblante. Leu algo assim nas estantes de História. Mas o que sabem os livros? O que os autores se permitem dizer além do que se convenciona? Isso não será mudado se o livro de papel acabar. Se o mundo físico der mesmo lugar a esse outro. Virtual e sem rosto
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além das imagens das redes sociais e dos mecanismos de busca. Dirão ainda que a manutenção artificial do preço dos grãos traz dano que após um tempo terá efeitos positivos não sem antes levar homens à falência e à morte. Mas isso nada significa para os que usufruírem dos benefícios de novos tempos. Quanto a ela, não poderia esquecer aqueles dias em que um desejo próximo do sobrenatural a guiava e determinava os acontecimentos. Não quer voltar àquele tempo e todavia ali está diariamente. Uma fresta na multidão. Ele. Vindo. Lindo. Não mais. Mas ali – ali – junto dela. Aceita tomar um café comigo? Que moça carente sozinha numa cidade estrangeira poderia recusar? Tão gentil e muito lindo. Ensina agora como chegar à casa da amiga. Finalmente o livramento. Por causa de um ser que ela não era. Aparências. Os dois caminhando juntos. Manifesta a diferença de altura. O vulto de uma desejável cordilheira. Olhe que sorriso sincero. O sol do fim da tarde em seus cabelos: uma santa aureolada. O ombro
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esquerdo dela toca-lhe o lado direito do peito rígido. Não é mais um rapazola mas está longe de ser tão mais velho como ela a princípio imaginou. O tecido suave o dessa blusa creme lhe cai tão bem assim um tanto usada adere melhor à sua personalidade após um tempo de uso. O que estou dizendo? – Não o conheço. Após o teatro, a primeira rua à esquerda. Do outro lado irá aparecer uma padaria. Costuma ter grande movimento. Se ela quisesse mesmo procurar a casa da amiga. Ele lhe devolve o sorriso com franqueza. Um dia ela terá como costume se refugiar naquela padaria para comer gostosamente um sonho achocolatado em meio ao burburinho democrático dos bebedores de cerveja do fim de noite e os madrugadores tomando seu café em meio aos primeiros efeitos da volta da inflação. O pessoal havia até se desacostumado do aumento da gasolina. O governo, um jeitinho ali outro acolá, artificializa a economia de um jeito que cedo ou tarde ela não suporta, como uma mulher acostumada a presentes que um dia nem presentes a impedem
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mais de dar suas borboleteadas. O seu é preto não é, senhorita? Ela um dia haveria também de ter seus fãs por ali. Por agora, era a última coisa que ela queria na vida, continuar procurando a casa de uma moça cujos propósitos não ficaram muito claros, justamente agora que havia conhecido o amor de sua vida. Por isso não resistiu. Foi um beijo perfeito o primeiro, sob a lua.

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A vitrine reflete a cabeça inclinada para o lado direito. Uma leve dor no movimento: resquício da posição no ônibus. Não uma dor má pois a lembra de seus sonhos quando os cabelos tocaram no ombro da companheira de viagem. Fragmentos das conversas dos transeuntes se transformam em um discurso lógico na profundeza de si mesma. Meu Deus, quanta gente! Para onde essas pessoas irão daqui a pouco? Não parece haver habitação suficiente. Sumiram. Sozinha sobre o viaduto. Longe o metrô no trecho de superfície. A calma apavora mais que o medo. Identifica cada prédio. Essa que agora sou, eu, nascida da ambição indolente em que a dor substituiu as expectativas mesmo antes que se houvessem de todo frustrado, ela não vê mais o trabalho promissor e o lar a ser conquistado. Empregadores podiam ser acessíveis à suposição de que a presença dela acrescentará um ornamento de retorno garantido à decoração da empresa. Então, como a onda solitária que entre outras é a única que enche e não
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arrebenta, na superfície do mar uma orla de espuma abortada, cansada, tensa, sozinha, carregando um mundo destruído em cada fibra do ser, oh Deus, pensou ao focalizar a luz amarelada nos ladrilhos, quisera romper para sempre esse deplorável círculo vicioso. Encheu os pulmões. Música nos rádios dos carros. Diz a si mesma que é possível sim contornar a morte mas não acreditou no que disse a si mesma porque se distraiu com uma rajada debaixo da saia onde a mão dele estará naquela noite depois do café. Ela pensava que sabia quem era e que conhecia os homens. O que fazer com a lembrança de um beijo perfeito quando o casal envolvido não mais existe?

Parou em frente da lan-house. Falou com o atendente olhando de soslaio os computadores da sala escura. Tirou da bolsa o livro da biblioteca. Respira como quem sonha e esquece tudo que não tem relação com a sobrevida ou um sentido para a morte. Nos primeiros minutos o planeta girou e se aproximou em mapas e
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nomes, números e mares. O fluxo do romance nas suas mãos em diversos pontos de vistas e camadas de tempo encontrou eco na pesquisa. Não estava sozinha. O vídeo se incorporou a seus anseios. Uma praia e outro mar aludiram a um reconhecimento cada vez mais distante de si mesma como membro da comunidade humana. Permitiu-se sorrir. Dizem que não há privacidade na internet. Quem dera. Quisera que alguém soubesse que estava ali e lesse o escrevia. Quisera que alguém a salvasse. Esquecera que alguém a queria ter salvo mas ela recusou a salvação.

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A memória determina um caráter e faz supor nas lacunas propriedades análogas ao que se recorda. Do mesmo modo a fé autêntica com que são lembradas as primeiras impressões será irreversivelmente danificadas pelo olhar crítico gerado pela usualidade. Sem esse olhar, Alice inventava caminhos percorridos por Meereshimmel. Uma revelação. Ele caminha em meios às pessoas como se fosse um espectro que não fizesse parte da multidão nem tivesse qualquer identidade com os seres que o ladeavam. Ela está a seu lado ainda antes de efetivamente estarem próximos e de chegar a ouvir sua voz. Cheira a banho tomado. Um homem com cheiro de homem sem os odores desagradáveis que exalam os homens e sem a obstrução assepticamente sociável dos desodorantes. Ouviu o convite para um café. Quão gentil há de ser ao se movimentar ao lado de uma jovem. Próximo sem o toque que supõe, impondo, uma intimidade inexistente. Próximo o bastante para que a tepidez do hálito chegue sem todavia qualquer tipo de odor (o que não
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deixaria de ser um tipo de assédio). Seu sorriso responde que sim. Que ela aceita. Cuidadosa, refreando-se e soltando-se num ritmo de sedução quase marcial. Não deve pensar que sou uma qualquer, que sou fácil; é a última coisa que deve pensar. Dias depois ele a viu na loja e tentou lembrar o seu nome. O que é um nome? Como posso ter esquecido dessa referência quase única de uma mulher que me perturbou assim? Em nenhum momento achou que ela era fácil ou difícil porque estava feliz que ela tivesse dito sim. Que teria alguns momentos de novidade em sua vida aborrecível. Tornou a sentir a luz que a banhava quando ele se aproximou trêmulo para a convidar lhe concedendo a aura de uma pintura. Não necessita do ambiente vazio de uma exposição. Se integra na paisagem, como uma árvore. E agora o que faço com esse Sim? Porque ele não imagina a moça com quem deseja partilhar momentos sublimes possa agir do modo como agiam as moças de sua imaginação.

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Esbarraram. Existe algo naquela jovem a que deve se afeiçoar. Uma feminilidade fora de moda como quando inclinou a cabeça. Parecia cansada mas não a ponto de, a esse olhar súbito do desejo, deixar de transmitir algo que amanhã será chamado de amor. Além disso – ele se volta – a simplicidade do vestir é a forma mais eficiente de acentuar a beleza de uma jovem. O céu se aproxima mais vívido e azul trazendo os últimos tons do dia e emoldurando o corpo da moça. Tão sofrida. Para a mulher do balcão onde ficavam as chaves dos armários eram ambos muito jovens e sofridos. Apesar da metrópole e dos tempos, da multidão indo e vindo no metrô, o mundo não estava perdido. Ainda existia sentimento.

O balcão mais distante cada vez. Não mais visto. Nas escadas rolantes ele se manterá perto. No vagão chega a sentir o aroma dos cabelos negros e lisos. Estudantes, trabalhadores, alguns cadetes, uma freira e dois

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atores. E ela. Distante como a mulher do balcão. Pensa no dia de sua chegada. Pessoas em volta percebem o olhar que ela não percebeu. Descem. Ela entra na loja. Um executivo sai sem nada ver além do mundo desabando. O que dá para fazer? A crise se desdobra na comunidade européia, atinge os donos do mundo. Não é possível viver de especulação, sem produzir. Fazer disso um meio de vida. Dê uma banana a um macaco e a chance de ele ganhar nos investimentos jogando a casca em números dispostos será a mesma. Escrever é produzir? – ela se pergunta sob o brilho da gravata de bolinhas e diz o nome ao pagar a hora ao atendente. O rapaz que entra em seguida escutou e decerto logo terá uma oportunidade de repetir em voz alta.

Mulheres sérias dão dicas sobre as novas maravilhas da moda, da cozinha e da tecnologia, deusas das redes sociais. Meninos hipnotizados ante games. A apatia da geração se acentua no computador como belas formas femininas em
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roupas simples e nem tão simples assim – aliás eis outras deusas, as especialistas em especulação, e aquela que tudo sabe num clique que o entrevistado ignora e por isso, tolinho, a admira além da voz de sereia. Ele pensa que a faculdade lhe deu tal conhecimento. Ainda é possível ignorar que existe o Google? No fim fazem todos parte dos padrões contemporâneos da correção em tudo. Da mídia ao lado dos necessitados, julgando o resto do mundo. Sim era um mundo outro e uno que de algum modo juntava o que compra um apartamento à espera da valorização imobiliária e os que trabalharão toda uma vida e não chegarão a ter dinheiro para alugar uma habitação decente. Um link de elo retórico sem intenção de unir pessoas. Nada de novo mundo. De uma nova forma de pensar e de viver, de trabalhar. Só deuses mortos jogando novas partidas com os seres viventes. Está escuro na sala mas os usuários não percebem ou não reclamam. Lado a lado cada um olha seu monitor como se contemplasse o nascimento do mundo. Riem sozinhos,
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maravilhados. A cor no rosto da menina vem da tela. O navegador abre página após página que não mais contemplam o objetivo inicial deixando no histórico um rastro de dispersão. Uma e outra vez sem virar a cabeça ele vê o perfil de serenidade e imponência. O comportamento humano supõe alguma necessidade: por que está ali sentado? Enfim está ali e nada que fazer além de usufruir o momento. Adiante. O sol se pôs atrás dos prédios mas discerniram apenas alguns reflexos no vidro escuro que os separava da rua. O som do refrigerador onde estão as bebidas se confunde nos momentos de mais silêncio com uma chuva que há muito não cai. No inverno a umidade relativa do ar desce a níveis abaixo dos que a Organização Mundial da Saúde julga adequados: o enfoque encontrado para terem como divulgar sabedoria e cuidados mesmo na previsão do tempo. Bebam muita água. Preocupação comovente com a população. Haimeard os imagina juntos pelas ruas no entorno. Chega a imaginar um motel mas descarta a idéia. Carência afetiva do desejo se
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despega. O que não conhecia não pôde portanto avaliar. Por que está ali? Já se perguntou antes e não há resposta. De mulheres bonitas seu trabalho está cheio. Talvez o amor da abundância não permita a saciedade. Agora com um emprego bem remunerado aparecem novas necessidades e a cada dia há menos paz.

Um rio corre lá embaixo. Uma linha, segundo quem olha. Profundo e traiçoeiro. Um milhão de olhos na loja de internet. O peso aterrador do silêncio com fones se dissipa. Já que está ali precisa saber de uns livros. Há tempos não aprende algo realmente novo. Sequer percebeu junto aos seios dela quando esbarraram romances de um autor comum. Pegou apenas para ter o que falar na reunião. Para que mais serve um romance? Não deixa de ser um tipo de game. O que se faz do tempo ganho contra a luz? Tudo termina no universo interior que teme o silêncio dos espaços infinitos mas não a estética vã ou a libido. O que mesmo costumava postar quando atualizava o
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blog antigamente? Estranho fazer de suas impressões coisa pública. De seus sentimentos mágoa cristalizada em algum outro ser eventual. Ainda mais uma jovem inocente. Uma jovem que ainda sonhe e se iluda com um amanhecer perfeito após uma noite de amor perfeita – e isso seja sexo como se não fosse (uma ocorrência etérea). Enfim o que importa em relação a uma moça tão linda e inocente cheia de ilusões, agora diante do computador? Ela acaba de abrir o programa que mostra a terra girando e aproxima qualquer lugar que se digite. Procura uma casa. A casa que devia ter procurado no primeiro dia mas não. Imagina se iria fazer as coisas do modo mais simples. Ela, a menina mais complicada de sua classe. De todas as classes em que havia estudado. Na rua da amiga. Sonja Tuslei. O que dirá o mecanismo de busca? Tributo à sua negligência. Maior que o desejo de uma nova vida. Que a vontade de encontrar um emprego fixo e exercitar as virtudes domésticas. Ter um canto seguro onde ler e escrever.
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Mulheres e homens movimentam esse ser que é a multidão em hora de rush. Estão excluídos os dois. Resguardados do dia mais frio do ano. Distantes do maior congestionamento do ano (choveu e os carros saem todos quando chove). Babel. Sons vindos dos carros parados. Populares acompanham as negociações com os policiais em frente à Assembléia Legislativa. Greve é um direito adquirido do trabalhador mas greve de pessoas armadas ocupando prédios do Governo ameaça as instituições. Alguns profissionais não deveriam ter o direito de greve. Ela pensa que ali poderia trabalhar e ser feliz. Greve não é direito. Trabalho sim. O seu sonho. Não uma empresa nem um emprego bem remunerado nem otimamente remunerado. Seu sonho era esse: acordar cedo, preparar as coisas do novo dia – a água para o café, a toalha e as roupas do marido no banheiro, levar o cachorro para passear e o segurança do supermercado 24 horas olhará para ela e pensará como é bonita. Porque ainda que já tenha um casal de filhos,
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não parece. Nisso pensava quando entraram. Ele (o lindo rapaz do primeiro dia) não pensava nada parecido. Venha aprender inglês. Deposite. Compre. Viaje. Sonhe. Não seja mais um, venha estudar conosco. Meereshimmel trazia na ruga de expressão a saudade misteriosa que, por sua pureza, não se deixava apanhar e assim permanecia incógnita e familiar quanto um rosto de sonho sem que ele tivesse coragem ou paciência ou amor suficiente para ver o que o irmão está maravilhado vendo agora com olhos diferentes do habitual e que, quando habituais se tornarem, o retorno não mais será assim sublime e ele não fará o caso devido exceto com a proximidade da morte e a revelação das coincidências. Mas será tarde. Para Haimeard quanto para Meereshimmel. O tempo não chegará e o sonho não se materializará. Saias xadrezes luminosas finas demais para um frio assim. Ultrabooks por toda a parte sem mais chamar a atenção. Que tempo é esse para o qual quer voltar? O tempo é esse e ponto. Não se faz teoria a respeito. Quisera te dizer.
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Murmúrios se tornam gritos em torno de seu leito de morte. Ah meu irmão. Ah, Alice. Perdoem-me. É tarde. Quem chega pela rodovia federal deve evitar a pista expressa por causa de obras. O frio continua matando. Poucos se lembram de um inverno tão rigoroso mas naturalmente não durará e os deuses amanhã terão outros assuntos para tratar.

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Na cama o rapaz que a abordou no primeiro dia. Segurando seus braços alvos. Retirando o tênue obstáculo. Ela não fala. Sente-se bem com alguém que lhe mostre o caminho. Que antes do amanhecer ainda a prenda. Garantia e amparo. Ele não pensa porque é assim que funciona, quando funciona. A mente esvaziada como um guerrilheiro. Não se trair pela consciência das coisas. Juntos assim. Tão distantes. Não está funcionando. Relaxe. Concentre-se. Quem poderia imaginar que um outro está para usufruir essa situação. Um outro que agora traça linhas em seu projeto sem a menor idéia de que no dia seguinte, não, daqui a poucas horas, esbarrará na moça com os livros. Um outro que não falhará. Ouvirá seu nome. Quase se pode dizer que é para ele que ela se entrega diante desse para quem isso é tudo o que espera. Como a areia sabe exatamente o que esperar das ondas e nada além. Que o desejo seja satisfeito sem depois, esse depois: a casa, o dia, a roupa, o assoalho, o sol nos móveis, e quem sabe os filhos, indubitavelmente os filhos.
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Ela não poderá censurá-lo amanhã. Nem por uma vez usou tal artifício. Talvez se fosse necessário, mas não foi. Ela estava por demais entranhada de uma vida que jamais existiu. Então vamos, disse ele. E ela sequer percebeu o céu de seus sonhos no crepúsculo, anestesiada, viva mas não para qualquer coisa exterior. Vamos. Então foram. Chegaram ao apartamento, ela ainda entorpecida pelo alívio. Ele tocou o interruptor e um fantasma surgiu onde ela deveria estar. Por um segundo se espantou mas em seguida estava de novo senhor da situação. Tudo bem. Era um homem religioso. A seu lado Nossa Senhora iluminada pela lâmpada de um nicho. Derramando-se em leite e luz nas partes em que não havia a blusa lilás um pouco amarrotada mas ainda por dentro da saia curta agora mais curta por conta do movimento de se abaixar para religar o velcro da sandália. Os cabelos descendo em cataratas negras. Os músculos da panturrilha perfeitamente definidos em leite e carne também. Beleza que o outro sentirá
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sublime num momento semelhante assim que ela deixar a lan-house e se cruzarem no metrô. Um sorriso correspondido. Livros reconhecidos. Aonde ela estava indo. Ele a poderia acompanhar. Ela se sente reconfortada em sua tristeza terminal mas se lembrou imediatamente do outro. Do homem que lhe ofereceu café e abrigo por uma maravilhosa noite que não se consumou. Merecia ser relembrada? Noite iniciada com a luz acendida no pequeno apartamento e o movimento dela se abaixando para religar o velcro da sandália.

Haviam passado pela ponte imediatamente antes de chegar. Estrutura sáxea correndo ao longo dos reflexos de luz lá embaixo. Ela pensou o quanto tivera sorte. Estava salva ao passarem pela torre do prédio brilhante. Salva ao entrarem no bairro pelas casinhas avermelhadas. Levou a mão à parte de trás do pescoço. Abaixou os olhos e apertou-os. Abriuos de novo e como se não tivesse sido nada levantou o olhar para as janelas e os telhados
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recortados de um frio azul esmaecendo, esmaecendo até a aparição de Darken Pöbel, em quem pudera um dia confiar. Dirão o seu primeiro amor. Pode ser. Darken – mas que relação entre ele e esse salvador com quem saíra do café direto para o apartamento, renunciando ao encontro com a amiga? Darken. Um rapaz de bem, sem dúvida. Ali está ele. O carro descendo a rua sinuosa. Pede uma informação a um pedestre e segue. Ela olha. Instantâneo o fascínio. Devia ter ela o quê, uns quatorze anos? Viu quando ele parou e tentou estacionar quase em frente ao prédio. De perto parece mais velho mas que importa? Rapazinhos têm de se estabelecer na vida. Assim é melhor. Um homem estabelecido, com dinheiro suficiente para levar a namorada a qualquer programa que ela invente, a qualquer restaurante, a qualquer show (e o teatro que ela adora anda tão caro) incluindo o motel ou melhor ainda o apartamento dele. Mais um ou dois anos e ela seria uma mulher feita com esse tipo de necessidade. Um menino de sua idade
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não poderia bancar. Mesmo depois de um ano ou dois ela ainda será menor, pensou Darken após algum tempo de contemplação. O que pode sem dúvida ter sido a causa da ligeira batida no carro da frente. Tomara que não tenha sido nada. Que não tenha amassado. É o que menos ele precisava num dia já cheio de chateações e possivelmente por isso se dá ao luxo de contemplar a menina numa tarde tão pálida e morna em que não se poderia afirmar que o céu limpo estava azul ou era alguma variação do branco. Uma mulher que passa leva as mãos à barriga: o neném chutando; outra um pouco mais jovem e menos bela leva o carrinho de bebê; e ele, Darken, está falando sozinho, a menina pode perceber. Quem sabe, pensou, não esteja justamente falando dela. E abre um sorriso que – embora estivesse mesmo falando dela – ele não chega a ver.

Ela está no banco do carona do carro de Meereshimmel – no retrovisor de Darken. Vem de um mundo desconhecido e invade com sua
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íris pincelada e a luz em seus olhos o torpor acomodado do mundo ao qual me acostumei. Como o quadro em que um pintor recémdesperto retratou o sonho a ser eleito como ideal é colocado na sala de alguém que até então desprezava a arte e a partir dali passará a viver em função dela. Passando pela ponte. Lembrando como Darken aparentava de perto mais idade. Conversam. Vê com nitidez as linhas de expressão e todavia ainda é um homem atraente – como se ela pudesse saber o que é um homem atraente; como se tivesse tempo de vida para tanto. A curva sabe Deus para onde. Está para acontecer e realmente basta. Ali ao lado de Meereshimmel ela se dá conta de como se viciara em carros e homens.

Não se tornou a pessoa íntegra e especial que desejava. Ninguém é o que não é. Mas tamanha dependência? Justo ela – ansiosa das plenas responsabilidades e direitos do livre arbítrio? Eles falam pela mesma boca, Darken e Meereshimmel. Coisas nem tão diferentes
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assim. “Estou procurando um apartamento aqui nesse bairro. Você mora aqui há muito tempo?” Na verdade Darken não estava. Hoje ela sabe que ele tinha essa mania de parecer rico como forma de seduzir. Conseguiu. Não era exatamente no que ela própria estava pensando momentos antes?

Meereshimmel era um homem alto e magro com cerca de trinta anos, a mesma idade de Darken quando ela o conheceu. A eternidade entre ambos. Os cabelos lisos são castanhos e os olhos verdes faíscam. Há uma estranha delicadeza em seu nariz grande e isso a impressionou num primeiro momento. Pedirá (ou terá mandado?) que ela estenda a curva da praia ainda erma. Um refúgio em meio à cidade nervosa e perdida do resto do mundo. Pedirá – não ordenará embora ela até preferisse – que surjam as rochas altas e redondas em meio àquela tempestade. E terá tudo o que pedir e mais teria se quisesse e sabe-se lá por que não quis. Por que em determinado momento seus
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olhos se cansaram e todo o desejo. O motivo de tudo não era exatamente o motivo. A azáfama assinalava devaneios debruados esbarrando na realidade. Surgiu um horizonte descorado como o que lá fora há pouco baixou do céu e amassouse nos lençóis para frustração dele e culpa de Alice –nisso foram iguais embora a seqüência diferisse: Darken não demorou nada e estava de novo pronto; Meereshimmel demonstrou com seu convite que outra coisa naquele momento não mais queria ou não podia. Então vamos, concorda sorrindo tímida enquanto alguém a observa. Vamos tomar alguma coisa.

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Tempo demais e muita espera fazem apodrecer o futuro desejável. Justificava-se culpando as outras pessoas por seus fracassos como homem e como ser socialmente aceito. Não o compreendiam. Impuseram a ele danos irreparáveis. Precipitando-o na inquietação insuportável que se avizinha da dor irreversível. Quem o poderá valer? Alguém que surgisse com tal disposição iria logo se afastar de um homem desagradável como o que se tornara. Quem sabe o suportasse por um tempo como Sonja. Um tempo necessariamente transitório. Quem agüenta tanta alienação do mundo? tanto desprezo por associações festivas? tanta indiferença a qualquer coisa que diga respeito à raça humana? Se acontecesse, era mais provável que esse ser generoso logo se endurecesse em vez de Meereshimmel acalentar alguma doçura e sociabilidade, um mínimo de simpatia. Parecia sem retorno o ponto em que alcançou tamanha mediocridade. Queria viver num mundo lá ao longe de tudo isso. Plenamente silencioso e solitário. É jovem, sim.
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Quer sim a essência tangível de alguma passagem da canção que aqui e ali percebe. Reencontrar a criança que nunca devia ter deixado de ser: é preciso uma primeira agonia de começo ou recomeço. O temor que faz todo sentido quando há um perigo próximo. Ignorar a paz que nunca faz qualquer sentido. Quis, ao ter essa consciência, viver a vida que aparecesse – sempre silencioso e só. Não importam em torno. Ultrapassou esse portal quando esteve com Alice embora fosse ele – ele – quem experimentou tal alegria. A vida podia ser boa. Seu fracasso desmentiu a expectativa e apontou para novos tempos de uma dor pior porque sequer sabia se expressar. Quem sabe nesse sentido Alice tivesse alguma participação na esperança. Ela pensava tão bem. Escrevia de modo preciso conquanto floreado. Com ela decerto nasceram qual mundos as reflexões provindas da exaustão.

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As luzes que refletiam nos ladrilhos também a coroaram. Haimeard nunca vira cabelos assim. Foi a primeira coisa que notou quando se esbarraram na biblioteca. Respira fundo e a segue a uma distância segura ainda que várias vezes tentado a abandonar a cautela e como seu irmão deixar que as coisas acontecessem logo ou não acontecessem mas que fosse logo. Puxa o fecho do casaco e cobre a cabeça com o capuz. Talvez esse ruído atordoante dos carros tenha significado alguma coisa para ambos pois ela se virou e pareceu tê-lo olhado como se respondesse que não, não usava nada nos cabelos há uma semana. Não: virou-se por causa dos rapazes encostados no carro. Estão mexendo com ela, os inúteis. Gostaria de repreende-los mas com que autoridade? A nora que a mãe de um deles pedira a Deus. Que coisa mais banal e idiota! Mas ela de fato o vira de soslaio como ele a ela na lan-house. Um rapaz distinto e elegante ainda que esteja a pé. Talvez tenha deixado o carro no mecânico. Talvez o tenha emprestado.
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Quando ela se virou aquele perfil não parecia o de Gracile?

Gracile Stesura agradece. Era mesmo estouvada. Desastrada, reconhecia. Nem imagina em que pensava ao tropeçar. Quando ajudou-a a se levantar o braço dela provocou um calor desconcertante. O que é isso, Haimeard? Você não é tão jovem para que descubra tais sensações a essa altura da vida. Não era tampouco tão velho. O semblante sereno esconde o peso de temores ancestrais mas de nada adianta ele se preocupar. Importa sentir o calor que passa de um corpo a outro e extasia. Mais tarde ao encontrar a namorada farão amor de modo antes impensável por causa do calor de uma estranha – estranha não por muito tempo. E por muito tempo, no que estivesse envolvido, estariam envolvidos aquele sorriso pacato, as pestanas oblongas e negras, os lenços na cabeça como véus de uma religião pessoal. Talvez exagere e se disperse na associação de idéias. Esse luminoso (“Internet”) indica o
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caminho de um novo mundo. Um novo tempo. Que como todos logo passará. Dobraram a esquina, Haimeard e Alice, com uma diferença de menos de um minuto, bem menos. A saia dela o hipnotizava. Penetrara no tecido. Nas possibilidades. Analogia das cores do xadrez. No transporte um eco visceral que martela os movimentos de Gracile. Os castos e belos movimentos de Gracile. Perplexo vê as coisas mortas reviverem. O rosto dele é tão meigo – avalia Alice pelo retrovisor do carro estacionado. Mas está determinada a não mais se envolver para se salvar. Se tiver que haver uma salvação que seja por seus meios. Que seja sozinha. Pensando bem, as roupas dele tampouco são as melhores para esse frio louco. E olha que nasceu ali. Mas o que isso importa quando chega o frio ou os temporais ou os braços das desconhecidas ou os esbarrões à saída das bibliotecas?

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Despertando, percebeu estar atrasada. O pássaro à janela. Parecia querer lhe avisar. Logo no primeiro dia. Corre e no banheiro o espelho engole seu rosto amassado. Ouve o vapor da água. Pelo tipo de barulho é sua irmã. Não é possível que ela vá sair primeiro que eu. Sim é ela. Essa descarga é tão desagradável. Acredita que uns dois ou três meses serão o bastante para que possa sair da casa de seus pais para um apartamento. Não pretende se acomodar no Serviço Público. Até quanto a um namorado está otimista. Oi, maninha, caiu da cama? Sempre emburrada. Papai e mamãe já devem ter começado a ladainha. “Viu? Sua irmã correu atrás e conseguiu”. E isso ela não pode suportar, ficar para trás e justamente em relação a mim. Quer café? Não é possível que essa seja mesmo minha irmã. Obrigado, só um golinho; já estou atrasada. Logo no primeiro dia. – Vai dar tempo, ouvi no rádio que o trânsito hoje não está tão ruim. Ouviu no rádio?

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A irmã lhe faz um cafuné e lhe beija o alto da cabeça antes de sair. Nem ainda começou seu primeiro dia no emprego e as coisas já estão mudadas por ali.

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A rádio no notebook sobre a escrivaninha. Você pode entrar em contato conosco por email ou pelo site. Dábliu dábliu dábliu. Dezoito horas. Ontem foi apresentado no congresso americano o projeto “Stop Online Piracy Act” que torna crime o ato de compartilhar arquivos online, o que na prática torna criminosos quase todos os usuários da internet. Sonja passa a flanela no móvel e pensa onde poderá estar a moça. Uma semana. O cansaço se manifesta. É natural. O tanto que tem trabalhado nesse expediente triplo de mãe, dona de casa e analista de sistemas. Hoje, uma reação dos mais importantes sítios da rede mundial de computadores, saindo do ar por 24 horas, mobilizou os internautas contra o projeto de lei e fez com que seus principais defensores recuassem. A película de poeira que é trazida na flanela não seria como esses desejos que são tirados de algum canto (de uma alma antiga, por exemplo) e se mantém em suspenso até que se lave a flanela e depois o quê? – em que ralo se perderá o êxtase súbito ao recostar ombro a
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ombro com a companheira de viagem – onde poderá estar? Sono. É normal. Talvez pudesse amar essa segunda jornada em casa, mas não: é só cansaço. Seria normal que a filhinha fosse a coisa mais querida deste mundo. Que nada. A criança a cansava. Não nascera para ser mãe, muito menos esposa. Olha, vou te dizer, disse a moça do ônibus, vim procurar um emprego mas meu sonho é mesmo ser dona-de-casa. Eu hen, tem gosto pra tudo neste mundo. Não fora o da própria Sonja um dia? O sono agora é insuportável. Não aparenta. Os membros tremem de puro cansaço. E olha que é uma fortaleza a estar certo o que costumava dizer sua saudosa mãe. Ela até acreditaria não fosse pelas evidentes camadas quebradiças entre o que ela é e o que aparenta ser e certas tristezas até recentemente desconhecidas. Antevê o final de seu casamento com indiferença. Ainda estava sim cativada (ou simplesmente cativa?) por aquele belo rapaz que um dia a convidou para tomar um café na saída do shopping. E que tarde agradabilíssima poderia ser programa tão
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simples. Um café, a pracinha depois e o mesmo banco por alguns dias até o primeiro e inesperado beijo e a ainda mais inesperada mão sob o casaquinho que trazia no colo. Isso, imagine, em meio a uma conversa sobre a situação econômica do país, o avanço tecnológico e empreendimento. Um casamento assim nascido tem poucas chances. Porque vamos combinar que falaram o que falaram por falar. Como sói acontecer antes do sexo. Escolhas afetivas devem ser feitas numa pirâmide inversa. Passando da afinidade aos pequenos encantos e só então chegar debaixo de um casaquinho no colo. Ela nem percebeu que desligara o computador. De um lado e de outro o que há são interesses, como sempre. Resmungou. Tolos todos os que tomam um partido. Bem e mal. Sonja afasta imediatamente a questão, nada quer mais com princípios e conceitos. Passa a flanela e Haimeard aproxima. Nunca mais. Se não vai vê-lo de novo, é natural que pense num outro. Rua afora em busca do amante morto. Do início do bairro aos primeiros
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brilhos das águas da baía, recebe os sinais: o que dependa de dinheiro não será obstáculo. O primeiro foi o pianista da boate. Não a impressionou exceto pela grife do terno. A flanela ainda sobre o móvel. Um vento. A borda, costurada em linha vermelha forte, içada. A casa vazia. O segundo: naturalmente um empresário, de menos idade, confessada falsamente na cama que rangia em meio a ruídos de estranhas iniciativas. O tipo de coisa com que Sonja por causa do amante havia se acostumado. Ele dirá na delegacia que a encontrou na rua sórdida e que é possível que a tenha confundido mas, imagine doutor, posso ter minhas taras mas não sou um homem violento e só me permito extrapolar quando há consentimento mútuo.

Haimeard aproximou-se de Alice. Não sabe se o novo esbarrão foi forçado. Quer crer que não. Que era o destino. Perdoe-me. Ela sorriu em resposta. Não era da cidade, teve ele a certeza. Chances reforçadas. Você é daqui? Não,
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cheguei há uma semana. Hun. Não devo me demorar, cometer o mesmo erro de quando cheguei. Irei agora mesmo atrás de Sonja. Então por que se demora? Por que diz que está indo ao metrô que tem como destino a estação tal e de lá ainda pegará um ônibus? Por que praticamente repete o que fez quando chegou? Se você permitir, eu posso acompanhá-la. Quando chegar lá será noite alta. A cidade pode ser perigosa à noite. Ademais, acrescentou ele, é mesmo meu caminho. Cedo ou tarde teria de encarar o fato de que não pode passar o resto da vida sem ver o irmão. Que quando a hora de sua mãe chegar terão ambos de estar lá e depois disso brigar por causa do apartamento que ela deixou para que eles tivessem algo no futuro. Alice lê o olhar dele e vê o quanto é gentil e romântico. Um passante contempla seus belos olhos. Não era possível precisar se havia em seu olhar admiração ou desapontamento. O que não é objetivo, prático, de alguma forma a choca. Foi assim com Ingenuer Pendant.

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Num primeiro momento o que mais poderia uma mulher desejar? Ele sabia conquistar. Mas, como o revolucionário que pretendia ser, não sabia administrar a conquista. Ali está ele diante do pai de Alice submetendo-se àquele rude interrogatório. O que seu pai faz? Onde você estuda? Que faculdade pretende fazer? Como se já estivessem noivos, quando sequer eram namorados. Ela na verdade não tinha certeza se deveriam ser. Mas o calor que sentiu quando ele se aproximou... Acaba de saber o que ele estuda – Letras – e o que pretende fazer no futuro – trabalhar numa Ong com crianças. Qual a mais remota relação? Começou a perder aí o desejo. Um cara sem ambição que decerto não sabia distinguir um Sportage de um Mitsubishi. Mas e o calor? E os lábios umedecidos? e a intumescida carne? E a sugestão de conhecerem a parte de trás das pedras lambidas pelo mar atrás do parque? Por que razão um cara assim romântico deveria se interessar por uma menina como ela, Alice não sabia. Nem por que aceitou aquele
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convite e logo entravam juntos no metrô. De perto Haimeard não discerne nada especial. Até os cabelos dela são comuns. Seus óculos estão embaçados. Um assunto qualquer. Discordam. A vida precisa ser assim. Tese, antítese, síntese. Quando ela mencionou o conhecimento que ele tinha de Hegel – De quem? – perguntou ele. Do filósofo? E quem mais seria? disse ela rindo. Não o citara ao falar de síntese? No sacolejo do vagão não pode se permitir mais. Seria constrangedor que pensasse mal dele. Liquidaria suas chances. Seus olhos procuram um nada sempre fugidio. Pensara que a dialética era um bem comum da humanidade. Não sabia que havia direitos autorais. Foi Hegel. Mas compreensão não se acompanha de palavras e palavras apenas a deturparão. A reflexões da poesia serão mais adequadas do que a filosofia, que tenta explicar. E o corpo ardente? Por meio também do corpo ardente.

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Valerá a pena, pensa ele, comum ela se tornara? Num movimento do vagão chegaram a se tocar mas ela entendeu que era normal num metrô em horário de rush. Ele se mantém agora calado. Concentrado em não errar. Ela comenta isso e aquilo nas notícias da tv. Quando chegaram a uma estação que parecia de pequeno movimento, Haimeard falou. É aqui. Sílabas que não se tornaram efetivamente sua voz. Viu a moça olhar em seus olhos. Hesitou entre estar flertando ou não ter se recuperado da noite anterior. Foi a única vez que pensou na menina naquela noite.

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Ela deveria ir procurar trabalho. É o que disse que iria fazer. Até o encontrar nos corredores da empresa, é o que pretendia. Homens bonitos. É como se esses gênero e atributo juntos numa mesma pessoa determinassem uma virtude sem nuances. Servem. A maioria se satisfaz com a superficialidade. Essa sou eu. O corredor naquele espaço de dia ensolarado em que a irmã estava entrando no novo emprego concedia a Haimeard sua face mais recente e atraente num momento de tempo e a uma pessoa específica, a menina. Terá lutado pelo objetivo com que saiu de casa após o cafuné na irmã? Alguém cuja virtude tem fraca estrutura está ali, imponente naqueles corredores. Formado decerto. Doutor em tecnologia ou algo assim. Sem ser doutora em nada ela se transmuta num sonho inexorável assim do nada. Olá, está à procura de alguém? Estava. Da chefe de recursos humanos. Mas pensando bem, você pode me servir perfeitamente. É claro que ele não pode evitar olhar os seios onde tudo
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começa. O quanto em mãos capazes se tornarão veementes em meio ao alento imponderado, os olhos cegados e os lábios mordidos.

Alice hesitou no próprio beijo. Sequer a certeza de uma experiência agradável. Afetada pelo contato recente e ainda cálido com Sonja. Por aquela nova possibilidade. Os homens nada tem mais a dar. Nem a sensação antiga dos primeiros beijos. Guloseimas nada mais muito menos portanto virtudes espirituais relacionadas a amor. Para outra menos repugnante e sem conotação mítica. Qualquer mulher passa por isso. Quer e não quer. Um antes mais sagrado que o durante e menos dilacerado que o depois. Não pensou – deveria, pensará um dia – que ele pudesse resolver o problema vital da renda, a subsistência digna a que veio. Os gritos dela se misturam aos gemidos não terminados. Geram um terceiro tipo de som, gutural, satisfeito como quem

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chega a um abrigo natural durante uma tempestade. Devo reprimir? Estimular? O que faço? Com grande inconseqüência entramos na vida dos outros sem conhecimento e sem palavras. Ele não é afinal senão um homem e homens nada sabem. Deduzem que um grito abafa outro. Que um gesto violento soluciona uma crise. Se parecer que houve solução não havia crise exceto as faíscas que se levantam para voar.

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A maioria do comércio ou estava com as portas fechadas ou fechando. Não era um período bom. Mesmo entre os que abriam das seis às nove como os chineses. Após as novas medidas econômicas do governo, suspeitavam não ser um bom negócio as luzes acesas por mais uma ou duas horas numa época em que escurece mais cedo. Pagar hora-extra aos empregados. Sem falar da violência urbana sempre à espreita na volta para casa. Está passando de qualquer limite. 15 a 20 homicídios por noite. Ou em assalto ou sequer isso, por causa de 7 pratas ou uma discussão de trânsito. Meu sonho é ir para Singapura. Com o dinheiro da discórdia o brasileiro do Facebook está lá numa boa. Desconfio que as coisas tendem a piorar, disse o dono do mercado à mulher, que estava no caixa. Ela pensou como era possível piorarem ainda mais porém nada respondeu. Fez um sinal entendido como um sim, é mesmo, e o que se pode fazer? Na verdade nem concluiu o pensamento. Distraiu-se com a passagem do casal pela porta. Haimeard perguntou a Alice se
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ela não queria tomar alguma coisa. Um suco? um chocolate? A voz da resposta não denunciava a inquietação e ansiedade. Pelo menos ele não percebeu. Um suco de laranja, obrigado. O chinês cumprimentou-os. A mulher, antes de passar as caixinhas no leitor ótico, perguntou se era crédito ou débito. Se queriam nota fiscal. Débito, ele disse e acrescentou o número do cadastro. Saíram furando as embalagens com os canudos. Talvez a última refeição de Alice. Requinte concedido aos criminosos.

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Sei de seus problemas de tempo. Não se preocupe em responder os emails imediatamente. Você faz provas, eu corrijo. Você assiste aulas, eu as dou. Ambos estudamos, pesquisamos. Somente isso já seria o bastante para preencher um dia. Tento administrar o tempo para que reste algum. Entendo também a questão do celular. É isso mesmo: como você justificaria as ligações? Para mim também seria complicado manter um contato tão assíduo com uma aluna. De resto, independente disso, sei que você seguirá teu caminho. Não tenho como impedir, nem quero. Como iria querer para quem amo uma vida instável a meu lado, sem mencionar os naturais problemas decorrentes da diferença de idade e o escândalo? Serei feliz quando souber que você encontrou alguém. É a ordem natural das coisas. Alguém que esteja aí por perto. Alguém mais jovem. Com a vida financeira

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estável. Tudo o que posso ser, já sou: teu amigo.

Mas, em momentos fugidios, chego a pensar que posso ter um final de vida bacana, sendo fiel a você. Assim, se você hoje ainda está sozinha, não creio que faça mal pensar que sou teu e mesmo na distância ser fiel. Talvez o problema seja exatamente esse, a distância que entre nós, desafortunadamente, não existe. Te ver todos os dias, mal podendo te olhar. Vez por outra te tocar, desde que não notem. Sabe, quando casei eu era virgem. E quando ela me abandonou, ainda era a única. Acredito que a razão de ter me deixado tenha sido a instabilidade financeira e não me orgulho de não ter sido capaz de lhe oferecer isso e o melhor que o dinheiro pode comprar para nossos dois filhos. Mas me orgulho de ter sido todo o tempo fiel. Gosto de pensar que não houve mácula no casamento enquanto durou.
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Agora descubro você, que me aceita e se sente feliz porque estou contigo de alguma forma, mesmo que um leitor silencioso de seus posts, mesmo em emails imensos em sua caixa de entrada, e você não se enfada com isso, antes diz gostar. Para mim é o bastante. E, se você é fiel assim, não posso ser diferente. Se você sempre arranja um tempinho para responder. O quanto vai durar, não sei. Mas enquanto durar quero estar contigo e ser fiel a você.

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Era alta e magra. Simples no vestir. Olhos grandes. Atentos. Perscrutadores. Em nenhum momento ocorreu ao professor o que se supunha deveria. Não porque tão jovem. Nem porque bonita – algo em que ela mesma nunca acreditou (por isso os meios enviesados de sedução). Extraía das coisas pequenas intensa vivência. Não. Em nenhum momento. E sim porque era uma irmã. Porque sem influência sensual se fazia adorar. Porque a adoração de súbito preencheu a existência que ele imaginava fadada a um final entre livros e convicções exangues. Que alcance pode ser esse agora senão encontrar em si o que não existe no mundo exterior? Santidade tão grande compreende também toda tortura da carne prolongada pela tecnologia farmacêutica e a condescendência da vaidade e os caminhos que ignoram as correções sociais em prol do único que leva a si mesmo. Parada perante os livros com um deles às mãos. Estátua de perfeição marmórea e luminosidade única.

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Um pequeno espaço onde reinava sobre o mundo. O tomo repousa gratificado nas mãos gloriosamente espalmadas. Inadvertido olhar a capta. É o ser esperado, a redenção. Exista, exista pra mim. O inesperado destino. A iluminação nas lombadas testemunha o surgimento da criatura. Em Savone o reconhecimento de derradeira interação. Um dia a ser lembrado. Ela sai do som da página recém passada e o encara. O movimento da estátua estremece o que no segundo anterior era concludente. Assédios em lugares públicos se tornaram comuns mas o olhar dela não demonstra medo, antes afronta. O volume como que flutua sobre a palma diáfana. Saberá seu nome num ímpeto que não lhe era comum e após o escândalo jamais deveria ser. Tamanha espiritualidade não deveria conter a vida real que continha, não rejeitada, na expressão doce longe de ser tímida. Na aparente arrogância do porte. No pouco caso evidente que fazia de quem estivesse

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porventura a seu redor. Tudo porém – sentiu ele – ainda ensaio. Aura camuflada pelo olhar.

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Quando escutou a porta, Meereshimmel virou a cabeça. Deixou a cortadeira e caminhou na direção do visitante. Àquela hora não era decerto um cliente. Se bem que alguns saibam que por segurança eles trabalham na gráfica de portas fechadas. Olá? – perguntou. Reconheceu a voz e não se deteve no movimento de destrancar a fechadura. O rapaz entrou e se aproximou da mesa maior no centro da sala. Apanhou com as duas mãos a pasta que trazia debaixo do braço. Um jovem sempre disposto ainda que viva na periferia com a mãe doente, pensou Meereshimel. Ele, cético acerca de sacrifícios. Quais os que faria por sua própria mãe? Tinha mulher e filha. A empresa. Seus próprios problemas. A mãe vivera uma vida. Mal ou bem a vivera. Aceite agora a instituição. Há muitas que são quase hotéis e não dos baratos. Mas ela insiste em viver sozinha. Naturalmente cedo ou tarde precisará dele. Mas prefere não pensar nisso agora. E aí, Ingenuer? o que tem para mim?

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Gosta da forma como Meereshimmel o trata. Sente-se importante. Jamais terá algo de si mesmo para oferecer como proposta a um dono de gráfica. Poderia estar melhor de vida; poderia não ser ainda um empregado depois de tantos anos. No final das contas, fazia sentido o interrogatório que o pai daquela sua namorada costumava fazer. Devia ter continuado os estudos. Hoje seria um médico ou um engenheiro. Teria um automóvel, casa própria, um sítio. Aqui pode ser verde. Aqui você quer assim arredondado? Meereshimmel não fala mais com o rapaz mas com a mulher que se instalara entre eles. Ele sabe que ela faz de propósito. Deixa que ele entre antes. Os prestadores de serviço se dirigem a mim a ele e ela aparece em seguida, ostentando sutil arrogância. Sou eu quem manda. Desde o primeiro dia percebera. Está quase acostumado. Não vê mais o projeto estendido na mesa. Olha a moça que veio lhes trazer café. Lembra-se de Alice. Era o problema dela. Nunca ter trabalhado duro como uma serviçal assim. A moça do
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cafezinho em vez de a moça dos filhinhos-depapai. Que não tardaria a ser a moça dos próprios papais. Apertou os olhos e a viu. Perdoe-me, dissera ela quando ele descobriu o caso. Não sou mulher para você, não te mereço. Claro que não. Nem o pai merecia o filho obediente e dedicado que ele tinha sido. Ok, disse a mulher. Estavam então combinados: verde e arredondado.

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Uma vez ela viu sua mãe no mato seco amarelado. Longe o verdor quase mofo do bosque que se adivinhava na neblina. Devia ter sido uma bela mulher. Nem tanto talvez, mas cheia de artifícios. Deve ser hereditário. Para fazer alguém como seu pai se casar, alguma coisa deveria ter. Ali estava, azul, um manequim ao ar livre. Azul – um espantalho de grife. Para proteger o quê? ou para fugir da vida exemplar a que se ligara. Brilhando. Muitos dizem não ligar para a parte material. Ela de fato não ligava. Nem ao convencional. Porém outra dentro dela queria manter tudo no lugar. Controladora, chegara a dizer um dia o marido. Imagine ele admitir isso. Ser parte do leque do que ela controlava. Um vento. Um som. Se quisesse poderia ter parado o sol naquela posição em que sua sombra não mais que borrava o estalante chão – difícil crer um dia vivo e verde. Foi aqui. Ele sabia que eu era fraca. Que o arrebatamento a partir de um beijo mais ousado levaria aonde ele queria ir. Tentou resistir o quanto pode embora até o amasse.
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Não nasceu para ser mãe. Tanto fazia se acontecesse na remota possibilidade ou na regularidade matrimonial. Pode ter sido uma coisa ou outra. Alice agora existe. Pais não sabem contar aos filhos as coisas da vida. Quando descobrem é tarde demais. Ele está calado. Seu beijo é tão quieto quanto ousado. Como se apenas esperasse. O sol nasce todas as manhãs. O ônibus pode demorar mas chegará no terminal. Homem experiente, ela te compreende. Um filho será estorvo também para você. Um dia teve vida própria. A filha observa, admira, inveja, não inveja. A mãe se mexendo (outro som) num passo de estranha dança. Alice sim escutava a tecla do piano: sua mãe tinha esse poder. Não quer porém terminar como ela. Não quer poder além do caminho interior que lhe foge. Que não a leva a seu próprio destino. A seus próprios pecados e virtudes. Estavam cheios de resquícios do mato ao saírem pela trilha de terra tendo adiante deles a visão de uma criança como se ela os observasse e se o fizesse discerniria o rosto
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tenso do homem que deveria estar ao contrário satisfeito como a mulher que nem lembrou de passar na escola como prometera à professora pois o aproveitamento escolar de Alice estava em franca decadência. O traje de gala da festa se torna um vestido cinza de chita. A mulher descalça como Alice agora escondida e pensativa providenciando também um borrão móvel para o chão seco e amarelado.

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Uma luz cortante, uma lâmina sobre eles. Sob as árvores que parecem falar umas com as outras. Olhem, parece que ficarão juntos. Terá sido um final feliz. As árvores do outro lado da rua concordam farfalhando logo acima de um olhar deliciado que agora atravessa quase junto ao olhar de Alice. Está mais e mais agitada. Oh calma – diz o gato sobre o muro com um levíssimo tremor de pelos. Haimeard põe o casaco sobre os ombros dela. Diz que ela parece estar com frio. Não tanto assim mas sorriu e agradeceu. Haimeard ia dizer algo quando passa um carro acima em velocidade máxima. Parecem deuses furiosos, refletiu Alice. Deuses. Haimeard então... O que ia dizer? Tinha a ver com o cavalheirismo ultrapassado que ele demonstrava mas não conseguia lembrar o que era. A fuga do raciocínio o incomoda como se significasse idade. Como se estivesse se aproximando do momento inexorável em que se veria em situação similar à do malfadado pai que tinha cerca de vinte anos mais que ele
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vividos num tempo tenebroso que Haimeard esperava jamais chegar para si. O homem que dirigia o carro imagina que já a viu antes. Hoje mesmo. Não era ela que estava na biblioteca? no setor de literatura francesa? O rapaz, nunca o havia visto. O carro passou. Não deviam estar muito longe agora. Passos imperceptíveis em meio ao som do trânsito. Na padaria, Haimeard cumprimenta um rapaz que parece surpreendido. Faz tempo que ele não vem aqui. No instante de sua distração Alice já se havia adiantado e aproximado da casa. Sim: é esse o número. Um sorriso e o questionamento de um sorriso. Toca o botão do interfone, inclinada. A saia acompanha o movimento puro à luz da lâmpada do poste e da lua que no corpo dela se embaralham. A voz saída a seguir lembra a voz que acabara de dizer “Próxima estação”. Sim? Alice! estava mesmo pensando em você! onde se meteu?

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São momentos em que a gente após despertar permanece procurando a situação do sonho e tentando descobrir onde se encaixa na realidade que subitamente trouxe o sol na janela. Que sonho? Ele não sabia mais. Alice conhece Sonja. De onde? – Estou com um amigo, ele pode subir? Antes que Sonja respondesse, aliás já está respondendo, dizendo que sim, claro, Haimeard disse que não, obrigado. Ele estava atrasado para seu compromisso.

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Ao passar o cadeado na gráfica agachado tenta entender o que aconteceu com seu casamento. O destino decidira não permitir volta. Em que momento aconteceu? Sonja. Com que capricho arruma os armários! As roupas de Meereshimmel são triunfais paradas nos cabides. Os cômodos sempre cheirando a talco. Caminha para casa no silêncio que desce sobre a cidade. Passa a mercearia do chinês. O bater do coração. Adiante. Taquicardia? Desde quando? Por quê? Cansaço, provavelmente. Estresse. Muito sono independente de quanto durma. Frio interior. Elíptico o passo erigido largo e hesitante segundo a tristeza. Por que tudo termina assim? Aquela Sonja morrera. Solidão de um viúvo. Vivificadas pelo contraste as luzes dos postes dançam e crescem segundo o dinâmico desenho da cidade dourada. Na entrada do terminal é seu irmão. Claro que não. Só um cara parecido. Bem parecido. Olha o perfil. A semelhança não some mas se acentua. Deixa-se levar. Momentos da infância: o lago, as meninas, brincadeiras de bola e de médico.
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Recupera-se. Retorna à idade adulta. Não pode ser ele. Ele me odeia. Com razão. Tantas vezes se odiava. Querer bem é intenção. A prática recusa. Com sua mãe, como pudera agir assim? Praticamente roubar o apartamento dela com aquela conversa mole de estar providenciando seu bem-estar. Loteando o apartamento com mulher e filha. Depois sugerir quase impondo a instituição. Terá relação o fracasso de seu casamento e a forma como tratara a mãe? Não concordo, diz Haimeard. Não concordo com o que você está fazendo. Aí a própria mãe toma a frente de Meereshimmel e o justifica. Defende seu carrasco. E Haimeard vai tratar da vida. Nunca foi fácil para esse irmão mais velho.

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A proprietária de uma livraria está interessada nele. No momento que está em vias de uma decisão drástica. Lembra dela com perfeita clareza ao deparar com o cartaz da mulher no fundo da escadaria do metrô. Candente lembrança. Tudo o que sua vida jamais: todas as coisas em seu lugar – horários, hábitos, trabalho, descanso, lazer. Hora determinada para tudo. Tudo com fim determinado. A intenção de Nastássia era fazer de Haimeard uma espécie de sócio ou gerente sem descartar o relacionamento amoroso. Um jantar. Tanto poderia ser romântico ou de negócios. Confessou então o plano comercial. E estar apaixonada. Deixou o rapaz tranqüilo e orgulhoso (era uma bela mulher). Ele chegara a temer por sua sorte. Nastássia: mulher feita, experimentada. Seu zelo das coisas é uma espécie de gestão. Acrescentou ao jantarem enquanto passava os dedos na sobrancelha direita (quando adquiriu esse tique?) que sua proposta não era caridosa. Haimeard mostrara nos dias da fábrica merecer uma chance assim.
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Não especificou mas estava incluído o relacionamento amoroso no pacote.

Saindo do restaurante. Ruas totalmente novas. Enveredara por caminhos os mesmos de sempre que desconhecia. Mangas arregaçadas sobre um resto de bronzeado adolescente. Foi uma tarde agradável. Ele acreditou que ela queria apenas agradecer assim. Mas Nastássia tinha outros planos. Madame Bovary e Ana Karenina são vestidos fáceis. Muito diferentes do tipo das roupas que o atraíam. Isabel Archer. Dita Imbar. Catherine Earnshaw. No dia seguinte já não podia assegurar isso.

Um início difícil. A possibilidade de serem descobertos. Talvez por isso não tenha conseguido. Mas verdade seja dita: ela foi paciente e carinhosa. Mais que isso: criativa. A brincadeira libertadora com o número do quarto. Fingir que dorme enquanto ele a despe, primeiro despe. Aceitar radicalizações de que não gostava, acordada ou não. Os olhos
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vendados. Sujeitar-se a ser amarrada com meias à cama. Uma escrava. O medo de ser apanhado não é afrodisíaco. Mas Nastássia em tudo mostrou compromisso com as fantasias que inspirava. Exceto – exceto – quando o assunto – no depois cedo ou tarde – desviava para uma possível fuga com Haimeard. Ou simplesmente ficar com ele. Aí surgia uma Nastássia que até o fim seria um mistério para o romântico ingênuo que se manifestava. A questão não era financeira. Não era subsistência. Não era dependência. O adultério é apenas... é apenas... Ele nunca descobriu. Restou obsessão sexual. Desvio do amor pleno que deveria englobar ardor e camaradagem. Veleidade que não pode ser atendida.

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A calçada. Hidrantes. Meereshimmel. Não tão ereto quanto em outros tempos. Quanto tempo? Envelhecido. Preço da dedicação integral ao trabalho. Túnel sem luz no fundo. É a vida. A liberdade de momentos como os que passara com Alice pesa agora. Não como arrependimento mas – Quantas vezes pegara essa avenida tão-somente para ver um outro horizonte! sabedor de que chegaria mais tarde a seu destino, dobrava na primeira à direita vindo da Prudente Lins e seguia até a igreja da Perpétua Anunciação. Só pelo prazer de algumas casas novas no caminho. Não ganhava um minuto. Chegava ao contrário muitas vezes atrasado. Era um outro caminho e por isso valia. A alegria de ver o mundo sob outro prisma. Como se isso pudesse representar uma outra vida. A loja de esquina. Alegra-se com o som do trânsito, que dizia isso. Que não era tarde. Podia ir para casa e quem sabe seria uma noite sem brigas. Quem sabe tempo haveria para que fizessem sexo como costumavam no começo. Sem brigas já será ótimo. Pôr um pijama e
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relaxar no sofá, bem coberto, vendo TV. O último hidrante do quarteirão. Já percebera assim de perto e tão atento os desenhos do calçamento? As enchentes do verão passado deixaram marcas, sempre deixam. Como as autoridades, D.H. Lawrence escarneceria dele e qualquer um que percebesse o desenho das rachaduras nas calçadas. Possivelmente Alice, escritora também, fizesse o mesmo. Ali está o prédio. Se tivesse passado minutos antes, não mais que isso, junto à pilastra de ladrilhos azuis teria visto seu irmão. Teria se lembrado de como um dia há tanto tempo ele o levava ao parque de diversões, à praia, ao cinema. O quanto era o pai que não tinham. Correndo para casa para dar tempo, antes de chegar, ele o viu pronto e sorridente com sua roupa preferida e a mãe disse Ainda bem, não sei o que ia fazer com ele se você não chegasse logo – Mãe, eu vim correndo, tinha uns problemas urgentes, sabe como é, é meu primeiro emprego – Eu sei, filho, só estou falando; vão com Deus
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– Você já
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viu esse filme? é bom? – Não, Mee, mas falam muito bem. É proibido para menores de 10 anos. Você fez 10, não é? – Fiz doze. As ruas estavam apinhadas e Haimeard não resistiu dar uma parada na loja de eletrônicos. Precisava comprar um computador. Afinal trabalhava agora com informática. Ah, Hai, vamos! O olhar suplicante era impossível de resistir e eles foram – O que é um Exterminador? – Alguém que será a esperança humana de se livrarem das máquinas – Por que iam querer acabar com as máquinas? – Por que elas ficaram espertas e más demais e saíram de controle. Ele espera que nada parecido aconteça na vida real. Mais que desempregado estaria morto. – Ah pára de olhar para as lojas e para as meninas, a gente vai se atrasar. Morto. Que idéia. Agora vai dar tudo certo. Isso de ser subordinado da amante o incomoda. Não era pra sempre. Também não há pressa. Ela é tão linda e ele tão inexperiente. Compra uma pipoca antes. Dinheiro no bolso. Um trabalho é um trabalho. Ninguém devia se queixar – Oi, mas
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que coincidência, estava mesmo pensando em você – Psiu! meu marido está ali. Quem podia imaginar que ela ia querer vir num filme desses? – É o gênero preferido dele e de meu filho – Mee, essa é a dona da empresa em que trabalho – Oi, dona. Vamos logo, Meereshimmel; não gosto de entrar com as luzes apagadas – Ta bem, vamos. Entraram. A mulher está aliviada. “Que cara de pestinha esse tem” –Amor? Vamos comprar um refrigerante e umas pipocas antes – Você nunca foi de levar essas coisas para a sala de projeção – A gente muda. Você está morta, diz a protagonista do filme. Perto do fim as luzes começam a se acender. “–Olhe! Olhe! Vem uma tormenta!” Refilmagens em terceira dimensão são incomparáveis. Não para qualquer filme. Para os que tenham algum tipo de comprometimento com a tecnologia e não só mudar o formato.
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Transformação exterior pouco significa. Nenhuma diferença fará o tamanho da tela ou a intromissão da ficção no mundo real. Tudo de uma forma ou de outra terá se tornado real. Meereshimmel não encontrou Haimeard. Não reviu Alice. Sonja nada disse sobre a visita que nem chegara de fato a ser, uma vez que Alice não subiu.

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O que no último instante a impediu e a manteve com Haimeard foi semelhante ao que a manteve com Öffner. O rosto insosso de galã visto no reflexo do vidro escuro do automóvel. Haimeard não estava de carro. Se não tivesse carro, tudo bem. Mudança de tempos ou princípios? Aos poucos essas mudanças chega no limite em que a própria vida não mais comove. Tudo parecerá sem sentido um dia. O avô dela costumava dizer que tapasse os ouvidos em situações de ira e euforia como brigas ou festas teria melhor dimensão de quão absurdo tudo é. Öffner só tinha o automóvel a oferecer. Haimeard oferecia amizade, salvação. O que Meereshimmel há uma semana oferecia? Não irá comparar. Era diferente. Era diferente: como costumam dizer pessoas apanhadas em inelutáveis faltas. É diferente. Como tudo na vida.

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Caminham. Mal viram a esquina no ímpeto simultâneo os lábios se procuram. Beijos e beijos. O de Öffner sensabor, compulsivo, desconfortável. Num entardecer perfeito exceto pelo próprio beijo, um feixe de luz pousou em seu ombro. Ao lembrar do beijo de Eña Ábaco, Haimeard evocou a umidade tenra às voltas de um lago. Os olhos dela estão fechados e tornarão a se fechar à noite. O namoro não durou dois meses. A velha questão: amor e paixão. Um vive da camaradagem e da cumplicidade; o outro – ainda entre um homem e uma mulher que se realmente se amem – subsiste de uma certa canalhice. De um quê de patifaria. Uma travessura inconseqüente. Eña não pensava assim. Quando a beijou era como ele tivesse confessado o seu amor. Amor? Só queria que existisse algo além da amizade e do amor, algo mais puro que o laço sensual e ainda mais que o platônico. O que a palavra significa para um não significará para outro e quando dizem a mesma coisa estão falando de coisas totalmente diversas. E não existindo quase nada
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que no meu entendimento esteja compreendido, o que existe de fato e o que é representação? A palavra é tudo e nada e essa é sua maldição ou sua glória. Agora Alice não acha uma coisa nem outra. Simplesmente sentiu o ímpeto de beijar e beijou. Aliviada por de novo ter escapado da morte. Por não estar sozinha. Por saber que tem de novo um lugar para comer e dormir.

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Segundos depois Meereshimmel passava pela esquina. Devia ser mais cuidadoso com seu casamento. Um bebedouro público. Um gole. Sonja é uma boa mulher. Gotas em sua camisa. Jamais pretendeu se separar. Lembra com carinho do capricho doméstico da esposa. Seu prazer na rotina. Ele a admirava por isso. Ainda que não conseguisse ser assim. Porque não conseguia ser assim. Não há razão de procurar outros rostos. Outros corpos apenas, talvez. Nunca relacionou corpos de mulher a temperamento e caráter antes de Alice. Sedutores em si mesmos. Não queria por sua vida a perder. Culparia essas jovens? Culpou Alice e perdeu o controle. Sublimar como? Por isso impérios caem e reputações são destruídas.

Os pensamentos adquirem nova feição. Vêse num futuro afetado por suas aventuras. Alice disse que tinha dezoito anos, mas tinha mesmo? Tão menina... Imaginemos que não. Que é

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menor. Imaginemos que os clientes da gráfica venham a saber. Tinha posto toda sua esperança financeira na empresa. Os investimentos em tecnologia não foram pequenos. Amanhã o próprio nome “gráfica” será inadequado. Uma igreja, a Igreja de São Sebastião do Empíreo. Virá à missa com Sonja no domingo. O novo feitio. Atos prevalecem sobre a retórica. Sem tempo para os argumentos com que em tudo se justificava. O reflexo no vidro de seu prédio afirma que é ele quem está entrando e é mas poderia não ser: poderia ser um sósia mas o vidro continuaria garantindo que era ele. Haimeard e Alice também em todas as janelas do metrô. Haimeard e Alice. Haimeard e Alice. Daqui até em casa dá cerca de uma hora. Nesse horário menos, contando a baldeação. Ela não se importa. Estão juntos. Até quando? Não há de se preocupar com isso. Não agora. Está à beira de uma infecção urinária. Logo agora. Ou ainda bem que.

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Meereshimmel no hall. Quem é esse homem? Está à sua espera, senhor. O porteiro procura na expressão do morador se fez mal de deixar o entrar o visitante. Os olhos de Meereshimmel pesam. Muito sono. É o que diz quando o outro o convida para ir no bar da esquina tomar uma bebida quente. Quem é? Subitamente cai em si. Só pode ser. O namorado que Alice deixara em sua cidade no interior. Saem juntos. Não, não conheço essa moça. Mas talvez conhecesse Ananda. Um outro nome para o temor. Não o namorado de Alice. Possivelmente o marido – pai? – de – Ananda? Não se lembra quem era essa. Quando? O vento reduzia a sensação térmica e pareceu uma boa idéia afinal a da bebida quente. Sim, claro. Amigo, dois cafés em xícaras grandes, por favor. Desde quando os invernos passaram a ser tão frios? Desde quando os verões quentes e chuvosos além da medida? Tanta tragédia aponta para o final óbvio a que o olhar humano se recusa. Pelo calendário maia o mundo iria acabar dia 21 de dezembro. A chacota foi geral.
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Ninguém pensou se a questão não era outra. O fim do mundo cotidiano. As folhas rodopiavam e cacos no calçamento reluziam. Linda noite, não é mesmo? Meereshimmel assente. Imagina o que o homem pretende. Certeza de que ele estivera com a jovem mas não utiliza essa certeza como ameaça. Era muito mais velho que ela – lembra agora. Homens muito mais velhos costumam ser doentiamente ciumentos. Homens-pais também. O fundo vazio das xícaras fumegava. Não. Não parece disposto a qualquer tipo de violência.

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As pessoas que passam vêem dois vultos contra um céu noturno inacreditavelmente vermelho. A torre da igreja ao longe é também um vulto que se junta ao desenho. Alguém achará que lembra uma cena de filme, sabe, aquelas que indicam a passagem do tempo. Um casal e a torre da igreja. Depois a cidade vista do alto. Depois uma rua específica e um prédio específico nessa rua. Subindo as escadas, a porta de um específico apartamento. Lugarzinho lindo. A cabeça de Alice se virou para o fundo da sala. Escura. Os papéis de trabalho de Haimeard se espalham pela mesa. A sombra da metade de seu rosto delineou traços abismados. Nitidez das metades por conta do lusco-fusco nela mesma. O canto da sereia nas pedras ao lado do mar em que ele está agora à deriva. Delineiam-se os seios na blusa. A blusa solta-se aos movimentos.

A luz do abajur. Efeitos concêntricos que se esticam até os pés deles ao riscarem um espaço

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improvável. Um espelho. Um relógio antigo. Passado e futuro pendulares. Solstício e equinócio perdidos. Alice tensa. Precisa de uma massagem. O desejo impossível de momentos sagrados que não existem nem podem por causa do pecado ou da santidade. O anseio de uma beleza utópica de prazeres quiméricos. De novo. Haimeard rendido. Não pela lascívia. Pela probidade indevida. Logo amanhecerá e o ciclo continuará narrando a história de uma existência que será esquecida. Terão passado a infâmia e a glória. Então, por favor, neste quarto há um lugar adequado. Esse divã. Tome um banho e se prepare. Logo estarei aqui. A mão esquerda puxa por dentro a manga direita da blusa. Melhor que perambular pela rua? Primeira vez na vida se pergunta. Essa habilidade das mulheres é a dos mágicos, pensa ele. O assoalho pergunta a Alice quantas vezes prelúdios semelhantes se repetiram. Nem uma só vez houve a introdução do amor, exceto quando não houve, quando nada aconteceu, quando Meereshimmel
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Delícia do vagar, o amor. Palavras desnecessárias como diamantes guardados. Permitirá que a fronte se turve porque é assim com todo ser humano uma vez ou outra quando não sempre. Aqui e ali, ontem e amanhã. Não estou sozinha, não estou sozinha. Você é linda, mais que linda, além da estética, do físico. Nunca senti isso com nenhuma outra. Não estou fingindo, ele pensou, não estou fingindo. Não sou Deveria agradecer a guarida com alguma coisa parecida com amor verdadeiro, alguma coisa minimamente semelhante ao que começo de fato a sentir. És minha irmã. E não pôde. Estava além do cerne da questão e dos limites do jogo. Não quero mais mentir. Arrependimento ou desespero não queria mais. O corpo de Meereshimmel atendeu. Tal era o seu amor. A blusa por cima da cabeça tratada pela outra mão com muito jeito como se não fosse para ser uma blusa deixada em qualquer lugar.
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Quando ela se abaixa o olhar oculto a perde por segundos. Por segundos todo o homem do olhar se perde. O olhar é tudo o que tem. O fecho do meio vai noutro movimento hábil para o lado esquerdo. Aberto. A saia está solta. Uma perna depois a outra. Que diferença haverá entre esses movimentos e os de uma outra qualquer num outro dia qualquer antes ou depois? Agora é tudo que depois deixará de ser. Não é exatamente a acusação que Haimeard se especializou em fazer ao pai? Entre dois estalidos de elástico ela diz que está pronta. Ele tarda uns segundos e surge. Não diz nada ao entrar.

Mãos. Contato com a lisa barriga alva. Resultado que se verá no brilho da pele. O sorriso no rosto dela pode ser de cócegas ou prazer. Pode não ser nada. Um sorriso nervoso que ainda a acomete depois de todos esses anos. Dezenove. É que ela começou cedo. Todas começam cedo hoje em dia. Antigas etapas são

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queimadas. Onde antes o sorriso, a mordida no lábio inferior. Certamente ele não tinha essa intenção mas o desconforto na barriga está mesmo passando. A ponto de ela esquecer num ponto de suspensão perfeito só possível na dissipação de alguma dor, na transição que um filósofo chamaria de prazer. Olhos se reviram. Lábios se entreabrem. Tão lentamente que ele pode conceder valor a cada um desses deslocamentos como notas numa prova escolar. Faces pálidas e vívidas de quem não sofreu o bastante mas pensa que sim. O cheiro de banho tomado. Trouxera ela algum perfume? Esse ele não reconhecia como um dos seus. Que cílios! Os braços cruzados sobre os seios. Permita-me. Antes derrama mais do óleo sobre as mãos e as esfrega uma na outra. Pingam as folhas orvalhadas. Avançam sobre a proteção que pouco ou nada resistirá. Um passeio. Conversarão os de coração puro sobre as horas amistosas da paixão? O que dirão? Que conforto! Que prazer! Que bons pensamentos de

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esperança! Por quê? Não pergunte. Segue a vida. Seguem as mãos.

Mais que coxas o reflexo devolve labaredas. O caminho inevitável para um futuro de cuja inexorabilidade Haimeard não estava completamente convencido. Essa parte será cansada submissão? simples recompensa? A que exercícios se entregará depois a fim de acalmar a consciência? Não há de ser o caso. Tudo pode ser simples como ela está ensinando. Assim. Plena em uma peça que não se sabe quanto ainda durará. Prosseguem as mãos de passagem e, no instante em que ela fechou os olhos e se aquietou, permitiu que uma despretensão viril o erguesse de uma vez por todas.

Não se lembravam mais do que haviam conversado. Os assuntos mais preciosos são apenas um meio com que se chegar aqui. Não sabem mais nada um do outro. Nem o pouco que

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sabiam. Alice deitada submissa no divã está agora na porta de casa. Sua saia xadrezada curva-se e se ondula sob as coxas. Hum Énigme a olha deslumbrado. Veio pedi-la em namoro. Se seu pai deixar serei o cara mais feliz do mundo. Ela discretamente olha por cima de seu ombro. A poeira ainda sobe onde houve a freada. Conheceu-o numa festa na noite anterior por meio de um amigo comum. As mãos na parte interna de suas coxas. O momento que por toda a noite ele havia sonhado. No final talvez ela tenha, pensou, outras virtudes. Entre. Você fica bem de azul. Tome um refrigerante comigo na cozinha. Papai já está descendo. Sentaram e ele não resistiu. Por debaixo da mesa. Saindo da cozinha, ela toda molhada. Imagina um cara se dar a essas liberdades. Estava reduzindo demais seu nível de exigência. Então o rosto de Haimeard encheu a paisagem fora da casa que a viu crescer no interior. Mantém a pressão das mãos por alguns minutos depois que aproximouas da umidade.

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Ele não diz nada. Ela se vira. Os cotovelos no divã. Óleo derramando-se em suas costas, descendo por suas costas, como se tudo tivesse sido combinado. O quarto amarelado. Palpita. O fogo se alastra pela campina, avermelha o céu da tarde. A pele de Alice. Seu cheiro e textura. Agora. A senhora Chiem diz que a filha não precisa ir fazer as compras. Se ela estudasse e passasse de ano, estaria perfeito. Pensava também que não seria nada mal se ela aprendesse um instrumento. Ela própria, a mãe, era formada e chegou a trabalhar fora e em casa antes de se casar. Não queria isso para Alice. Melhor é ter um diploma, se casar com um homem de bem e viver no estrangeiro. Então Alice acabou indo passear para os lados do lago e no caminho viu a queimada. Por que as pessoas fazem isso? Daria tudo para viver num mundo diferente. Como gostaria que fosse? Um mundo mais verde, mais justo. Viu de longe a mãe tomar o ônibus para a cidade. Não esqueça essa imagem. Você também não quer ser como ela. Com certeza um futuro longe dali. Que o
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“de bem” signifique um homem que possa lhe dar o que precisa. Como, de outra forma, poderia refletir sobre coisas essenciais como a justiça do mundo e o que é ecologicamente correto? Esse homem não tem rosto mas pode imagina-lo. Esse prazer não combina com nada que conhece. Escreva um poema. O vaivém é lento o bastante e favorece todo tipo de devaneio. Nessa posição Haimeard não consegue se controlar por muito tempo. Você já foi? Ela teria preferido que ele tivesse continuado calado no comando sem se importar com ela. Um modo de compensar os homens pela forma como os usava.

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– Oi. Tudo bom? – Haimeard? Tudo. Quer dizer – Estou incomodando? Interrompo alguma coisa? O que ele poderia estar interrompendo, se ela estava na pensão em que a colocou para não se incomodar mais e tampouco o incomodar uma segunda vez? – Imagina. Nada. Achei que você não ligaria e – Por que não? Ele pergunta mas sabe o porquê. Deixou claro de várias formas. Só uma noite. Ou não deixou? Ele paga o lugar para que eu passe o mês e o deixe em paz assim. – Paguei a pensão porque você não podia e lá em casa você sabe Ela se assusta. Ele ouviu meu pensamento? – Não daria certo, né? Parou junto à porta na tarde de outono. Não fazia mais sentido estar ali e todavia
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estava. A força do comodismo humano. Nada mais justificaria o desperdício de sua energia já de todo comprometida pela doença com a tentativa de colar os pedaços de um vaso cujas linhas proclamarão para sempre a ruptura. Antes teria recomeçado. Noutro lugar, sozinho. Agora a idéia sequer chegava a se cristalizar em seus pensamentos. Quando ser feliz ou não é menos importante do que subsistir. Ou não. Mas até o suicídio ficou para trás, com a dor e a alegria. Resta apenas para os dois os movimentos de um cotidiano maquinal. No quarto, as batidas e a voz produzem nas feições da mulher deitada o paradoxo de uma desanimada excitação . Não adianta, pensa. Ainda que fique tudo bem de novo, não vai durar. Estava cansada como ele. Mas a estação estava longe o suficiente do calor insuportável e do frio paralisante para que pudessem se dar essa oportunidade, que porém não é filha da paz – Haimeard entende na verdade o que aconteceu com o pai. Entende e consente em viver a mesma situação.
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– Não, não daria certo. Nunca dá esse – Nunca – Mas quero O que poderia querer? O coração dela dispara. – Que bom que você ligou, pensei muito Pensara menos do que poderia. Porque estou abrigada? Sou tão calculista... – Queria te convidar para jantar hoje. – Onde? – Passo aí às oito, está bem para você? – Está ótimo. – Então até depois. – Até. Um beijo.

Foi na noite em que se reencontraram. Esperou-a alguns minutos na sala da pensão diante da TV. Teria sido muito melhor se antes da proibição das sacolas plásticas a população fosse esclarecida a respeito das alternativas.

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Demagogia pura. Um milhão de anos ou mil para o plástico se desintegrar na natureza. Ninguém pensa mil anos à frente. Talvez devêssemos, mas ninguém pensa. Oi, demorei? Ele sorriu. Claro que não. Tchau, dona Francisca. No restaurante, embora conversem, ele olha ao redor. Como se procurasse. E então? como foi o dia hoje? conseguiu alguma coisa? Ela diz que, bem, talvez. Então ele a olha nos olhos, mas não escuta a própria voz com clareza. As pessoas estão vestidas quase a rigor. Ela sempre se torna evasiva quando se trata de trabalho. O silêncio de agora está cheio dessa percepção. Gostaria que ele esticasse o braço mais um pouco e cobrisse sua mão sobre a mesa. Não é nada romântico. Não está interessado. Por que então ligaria? O que mesmo aconteceu, em detalhes, após adormecerem? depois que acordaram na manhã daquela noite? Ela imaginava que ele era agora um amante, colocando-os no livro de conduta para cada situação. Uma rua sem saída. Róseos os prédios. Em algum lugar alguma coisa de vidro caiu. E lá
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se foi ela para a pensão sem um único beijo. Sequer uma carícia libidinosa de adeus. Se passou com ela pelo amor e pela dor como se não tivesse passado, o que ele quer agora?

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Deixou para outro dia. Mas não pode demorar. Uma jovem como ela não ficará muito tempo sozinha. Tomará alguma coisa antes para dar coragem. Por que será que ela o intimida assim? Hoje não pode mais refugar. Como ela está linda! Uma rosa vermelha no meio da mesa. Dizem perto dela que aquela era uma safra ótima. Casais à beira do compromisso em restaurantes sofisticados parecem crianças nervosas. O ambiente avermelhado está contido para Haimeard no sorriso tímido com que Alice abaixa a cabeça. Ela não tinha roupa adequada mas saiu-se bem com as que tinha. Bebe do cálice com olhos num nada à esquerda dele, quase acreditando. Mesmos olhos agora o encaram enquanto ela fala e depois cala e sorri num mesmo ricto. A rosa, o cálice, a luz avermelhada. Um mesmo enlevamento. O efeito do álcool, o desejo, a beleza de uma mulher. Folga no dia seguinte. Quem sabe uma nova vida a partir do dia seguinte.

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Outra vez em casa e outra vez a tua dolorosa ausência de onde acena a perspectiva de uma vida sem você mesmo no futuro que insiste em não ser idealizado de modo a conter as soluções de nossa vida juntos. Não pretendo usar esse argumento de que estou sendo injustiçado porque nunca soa bem e supõe uma superioridade em relação a esses que agora me condenam, no que de modo algum acredito. Em tese estão corretos. Meu declínio é mesmo lastimável. Teu amor talvez tenha sido uma última compaixão da vida para comigo e isso não poderão me tirar. Por agora nossa correspondência reflete o que me basta da vida e o que não contém não há de ser necessário uma vez que o que provém da partilha de nossos pensamentos é a vida que me basta. Os escritos que me pediu, embora estejam anexos, já não fazem parte de mim e de algo que porventura eu tenha querido um dia expressar porque estão
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intrinsecamente ligados ao vigor que me abandona, sem o qual não pode existir plena relação entre o homem e o que pensa. Não quero que o que eu pense seja tomado por algum tipo de verdade à qual a gente deva uma profissão de fé. Não desejo mais que subsistir o tempo que me resta e se talvez haja algo aproveitável melhor seria que outra pessoa, com energia e convicção num sentido para a vida, alguém como você. Porque se um dia cheguei a escrever e pensar alguma coisa que significasse mais que qualquer um poderia alcançar por experiência própria, são proposições que minha própria experiência não mais respalda. O mundo não precisa de mim e muito menos seus habitantes de minhas reflexões. Se há uma estética apartada de sentido prático por que valha a pena viver, de há muito é uma inspiração que me escapou.

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Ao entrar em casa, Meereshimmel quase disse. Um sujeito muito estranho me abordou hoje. Por pouco não disse. Iria se trair. Nem pensara nisso antes porque precisava desabafar e antes de tudo Sonja sempre foi uma boa amiga. Quando ele se aproxima dela, ela enlouquece. Sem perceberem, estavam no andar superior à sala de aula. Ela o puxou para junto de seu corpo, deixando-se pressionar contra a parede. As sombras se misturaram na parede lateral. Lâminas de luz e cheiro de vendaval. Bons amigos também podiam. Quase deviam. Os colegas de classe riam uns para os outros. Finalmente ele entendeu, diz um. Uma hora ela ia conseguir, diz outra. Meu Deus, acho que devemos casar, Sonja; não posso passar um dia que seja sem você. Não sei se é uma boa idéia, diz ela; íamos por em risco nossa amizade, lembra? você mesmo disse isso. É, eu disse, mas era diferente. Será diferente amanhã se nos casarmos, pensa ela. De um modo ou de outro nunca mais será assim. Por outro lado
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havia aquela parte acomodada dentro dela que queria muito pouco além de ter uma casa e ser sossegadamente feliz com seu homem. Ela deixou-se respirar na cama desfeita. Eram casados agora, com todas as implicações que isso significa. Os aborrecimentos. O tédio. Mas ele parece realmente feliz. Se pudesse mantê-lo assim. Talvez seja a hora. Agora resta se reconciliar com o irmão, ele pensa, e estará realizado. Talvez queira trabalhar comigo. Como vou disfarçar? pensa ela. O que um analista de sistemas pode fazer numa gráfica? O que mais será preciso para que ele descubra? Um dia estava no banho, quando Haimeard chegou. Foi a última vez que os irmãos se viram. Estava no banho e disse alto que estava. Haimeard preferia que não repetissem assim. Já cobri a minha cama com cobertas de tapeçaria. É meu irmão. Eu o levava aos lugares quando ele era pequeno.

Alice tem um irmão menor. Não tem certeza se falou sobre ele para fugir do assunto ou se
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para desabafar a saudade ou as duas coisas. Lembrança recorrente. Não tinha idéia do porquê. Deve decerto ter um porquê. Prazer daquela ociosidade junto ao caçula na cadeirinha de dois lugares na varanda. O assovio displicente se misturando ao canto dos sabiás segundo o chamado da espécie e a gaiola do melro sobre eles no mesmo ritmo da cadeira de balanço vazia ao lado. O vento suave do amanhecer também os embalando como um gigante cuja função era acalentá-los não para o sono mas para o dia inevitável e sem descanso mesmo em se tratando de dois adolescentes de classe média duma cidade do interior da rica província. Jonas e Alice acordavam juntos muito cedo e desciam os degraus do andar de seus quartos um após o outro lentamente como se cuidassem para que ninguém os ouvisse e todavia aprenderam cedo a desdenhar dos pais em qualquer assunto no sentido inverso de pais que dizem “coisas de criança” – eles, aquelas crianças, convictos de vida e amor e solidão e silêncio, que recusavam o pensamento dos mais
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velhos como “coisa de adultos”. Normalmente naquela cena fios dos cabelos de Alice dançavam sobre a testa da menina não chegando a incomodar, como se fizesse parte da canção assoviada que transportava o menino para muito longe – seus olhos entorpecidos confirmam a impressão da irmã. Em algum momento ele tentava acompanhar o assovio mas saíam apenas sons ocos e desarmônicos, sopros apenas, que enterneciam Alice quando olhava para ele, mais um órfão de pai vivo sobrevivendo no mundo sem regras.

Você está implicando com a idéia. É meu irmão. Sonja sabia. Pode nos ajudar, disse ele. Ela sabia. Preciso contratar alguém. Tenho um primo, o Marcel – disse ela; é inteligente, prestativo, honesto. Perfeito. Meereshimmel vê uma mulher atraente recém-saída do banho, pingando pela casa, falando. Na volta da viagem vim com uma moça, ela acabou de sair, quer dizer, nem entrou. Estava com um amigo, tocou o interfone, disse que ia subir, se o amigo
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poderia vir junto. Mas nenhum dos dois subiu. Não sei o que aconteceu. E agora? Ele comenta sobre a amiga dela? Conta sobre o estranho dele? A vida é estranha, pensou ao olhar as escadas pela porta ainda aberta. E essa sua companheira de viagem, era bonita? Ele poderia ter perguntado mas de novo iria se trair. Assim pela primeira vez no casamento percebeu o quanto a falta de comunicação resultava de suas traições e não o contrário.

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Sonja amava a facilidade e o conforto. Mesmo um desejo intenso poderia ser refreado por um grande obstáculo. Também por isso – pensa – optou por Meereshimmel. Pesou sem dúvida para a escolha entre os irmãos a questão de quem seria melhor provedor. Crê ainda que pesa para todas as mulheres. Quando fazia faculdade, viu admirada a forma como Mee abandonou os estudou para ganhar a vida enquanto Haimeard permaneceu ali fascinado muito mais pelas possibilidades pessoais dentro de um assunto novo e revolucionário como a tecnologia do que com os riscos financeiros de um mundo fugaz em que tudo logo fica defasado. O amor ali permanecia muito mais como lazer – como o recreio e não como a aula. Não era uma visão romântica do mundo e muito abaixo do nível a que até chegara a se propor. Existia para o prazer. A leitura, o cinema, a música, o passeio. Se para usufruir deles, descobriu, necessitava de dinheiro, mexeu-se como quem nada em busca da pedra mais próxima num mar agitado. Não há pensamento
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ante uma necessidade a que diferentes pessoas chamarão de instinto de preservação, amor à vida ou ausência de coragem. Por mais que existam mundos diferentes no mundo, a temperatura da vida era sempre igual para ela: a da adequação. Dor e alegria estavam muito próximas nessa dimensão. Sono e vigília também. Se surge, a febre é sempre baixa. A fome, um conceito. O prazer esperado não devia levar às lágrimas.

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A cidade efervescente em volta dele. O rosto da irmã, o corpo da irmã. Lágrimas num anoitecer febril. Jonas: um ótimo aluno. A ponto de tomar coragem. Quantas masturbações serão necessárias? Quantas abstenções? Os sons do dia nascendo, os prédios no caminho para a escola, os pontos cheios antes do seu, antes da baldeação. O dia começa. Não há solução. Exceto se cedesse, se o impossível o liberasse. Mas não. Não é possível. É pecado. Não é natural. Uma manhã perfeita, a alegria proibida de existir. Nem cabe um bilhete. Diante do inelutável a vida sequer é alguma coisa exceto ilusão mas a morte sim algo a ser vivido, alguma coisa que faz sentido. A ser criada como o túnel para a liberdade do prisioneiro. Será por isso que sou assim? Pelo que aconteceu a meu irmão? Faz diferença se for? Se amo em Meereshimmel meu castigo, como poderei amar a felicidade com ele? Uma morte entre outras a ser abafada como tantas, no

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metrô ou na escola. Um aluno qualquer, um irmão qualquer, e todavia de uma outra espécie. Ninguém precisa dele. Até Alice tem se afastado ao perceber que as brincadeiras estão indo longe demais. Jamais me afastarei de você. Talvez seja fruto da culpa em seu coração e creia também existe no meu. Mas precisamos superar. Precisamos viver. Preciso de você. Não me abandone. A irmã notou que algo estava para acontecer. Na rua, nas coisas que aconteciam, nas cores do céu – sempre um presságio. O sistema de som do metrô está dizendo que estamos esperando o vagão à frente concluir uma manobra. A escola dirá que lamenta pensando em formas de manter ocultos os casos ocorridos com outros alunos sob o peso do rigor do colégio, primeiro nas avaliações nacionais. Pelo menos a motivação de Jonas terá sido outra, menos pecaminosa. Pelo menos isso.

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Luzes ruidosas. Manhã como as outras. Como se fosse a primeira. Há um mar não distante. Reluzindo. Se visse o mar diria que há esperança. A primeira vez. Algo mudou. Se tornou igual ao resto do mundo. Um mundo esperado para começo. Ela a seu lado. Alguém dedilha um violão assim cedo. Bom sinal. Como as luzes à tona do mar profundo. A questão é que isso é demais para ele. Não é alguém assim. Não se acostumará com apenas um amor. Uma versão romântica do irmão. A história de ambos é a mesma. Em algum momento se cansará. Finge que não pensou isso. Varre o pensamento para debaixo desse tapete mágico que são as emoções do momento. Quieto a contempla adormecida. Alice considerara o desempenho dele perfeito e imaginou que devia ter um milhão de amantes, o que não faria qualquer diferença, considerando que não o amava. Nem poderia. Não há amor no mundo. Segurança material é segurança material e quem a provê a provê. Não há transformação de sapos. Sexo é sexo. Que
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história é essa de noite de amor? Nem foi uma noite. Sequer uma hora, talvez nem meia. Estaria tudo relacionado à vida material? Reduzido assim ao prazer? Ela sentou-se na cama sem fazer juízo. Aquele era o mesmo homem que há poucos minutos a agarrara por detrás, as mãos fortes apertando seus seios, a boca em seu pescoço. Calada. Não fez juízo nem havia zombaria em seu olhar. O mesmo olhar com que se afastou dele num impulso. Meereshimmel parece não acreditar. Olha-a perplexo enquanto ela diz para irem devagar. Diz: Não quer comer alguma coisa antes? Não tenho fome, ele respondeu. A voz dele era humilde. Ela se aproximou, encarando-o. Pelo menos me ofereça alguma coisa. Eles tinham tomado o cappuccino. Vai se zangar se ainda estou com fome? O que significava aquele olhar, ela se perguntou. Quem era aquele homem? Por que mexia assim dentro dela? Não estou zangado não. Não mesmo? Por que você não se serve na cozinha? Ele adiantou-se e passou por ela. É por aqui. Alice o deteve num abraço por
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detrás. Deus retribua o teu feito. Deu a volta e passou a desabotoar-lhe a camisa. Você é um homem muito atraente. Sob cujas asas te vieste abrigar. Não a cozinha mas o quarto. Não a geladeira mas a cama. Não para nada que ela tão jovem tem tanta experiência. Na cama sem função. Um homem sem função. Mas ela não o condenava e sequer parecia decepcionada. Por que achei graça em teus olhos? Bem, se você está como fome a hora é essa. Oh me perdoe. Tudo bem; vamos sair e comer alguma coisa. Uma coisa ela sabe: se tivesse um bom trabalho, uma renda, poderia amar. Um trabalho gratificante como sua escrita. Poderia amar. Não é tão má. Vejam, está até chorando. Quando descem para que a leve à pensão, será a primeira coisa que o porteiro notará. Os olhos vermelhos. Brigaram com certeza. Nunca esteve antes com mulheres, não soube como tratá-la. Ou ela descobriu a homossexualidade – no caso a bissexualidade. Alice não foi nem um pouco com a cara do homem. Não gosta de pessoa intrometida. Haimeard sequer o viu.
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Cumprimentou-o sem olhar. Pensava em como iria viver sem aquela sensação percorrendo seu corpo todas as noites. Aquele bem-estar. Tudo o que se subtende do prazer sexual. Da vida a dois entre pessoas afins. Não é por isso que homem e mulher se juntam? O porteiro não pensa assim. Embora há vinte anos casado jamais sentiu nada parecido. O espelho do hall distribui luzes e sons.

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Uma cadeira vaga. Risos mais se escutam do que virar de páginas ou caneta em papel. Por isso adora a Coréia do Sul. Atingiram a utopia da tecnologia de ponta com educação. De admirar que a biblioteca tenha um livro desses, mesmo em inglês. Bem, aqui está. Sua referência. Há coisas que são leis não escritas. Outras, hipóteses vãs. A tecnologia não muda isso. Sites precisam de algoritmos, de cálculos, mas os melhores programadores do mundo, os experts nessas coisas, não garantem com sua presença o sucesso de um site. Compiladores de monografias e estudiosos nada sabem sobre um planeta cujo mar remete nossa consciência a mundos estranhos. Uma moça na cadeira da frente. Não interessa. Precisa se concentrar nesse entendimento das leis tecnológicas. Precisa. É o assunto que fascina Sonja, ela, que o abandonou ao casar e largar a faculdade. Por exemplo, um telefone com visor desde os primórdios era possível e tardou até os atuais mensageiros instantâneos por razões que nada tem a ver com tecnologia, mas com a falta de
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desejo das pessoas por semelhante bem. Haimeard jamais investiria seu dinheiro numa empresa ligada a esse tipo de inovação, mas se o caso é o uso de uma câmera, bem melhor a do smartphone para escanear cartão de crédito ou numa companhia de aplicativos com que se sabe onde está o preço mais barato. Na verdade o avanço tecnológico esbarrará sempre na paralisia do que poderia ser um pensamento original. A enciclopédia em sua frente confirmava essa visão das coisas. Veio à biblioteca consultar uma de papel, das antigas e pesadas, caras e raras. Para se chegar na mesma informação pela internet há que se gastar tempo demais com lixo. Agora vê que as coisas, pesados todos os aspectos, mais ou menos dão na mesma. Que menina linda. Difícil tirar totalmente os olhos dela. Então imaginou a figura de Rheya. A associação só reforçou seu pensamento: como após o resumo de Gravinsky, as novas teorias se multiplicam, as inovações não tem fim. Mas há sim um fim para o

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conhecimento. Além desse limite, o enfado da carne.

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Que tipo de homem é esse Haimeard? Triste análise do pai. Como qualquer homem bem adaptado ao mundo resume a vida entre casa e trabalho e finais de semana de suposto descanso perdidos na madrugada. Às vezes o salão nobre do clube quando de alguma celebração da empresa. É discreto. Suas pequenas aventuras, ninguém as nota. As maiores tampouco. Não tem opinião formada além do juízo geral. Perfis em todas as redes sociais. Exulta quando percebe a aproximação de um ou outro contato de internet. Não acredita que os sites possam usar os dados privados exceto para personalizar a publicidade. Acredita que tem escolha, que quem só vê TV aberta é que não. Se a linha dos lucros continuar em queda lenta mas regular será pior que a inconstância dos ganhos e perdas alternados a cada mês. Augúrio de inflação ou coisa pior. Bom que tem enfim um bom salário reajustado pela mesma inflação. Entenda então de que está falando quando fala em valores.
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Nada tem a ver com os que tentei lhe passar. Há um destino pessoal ou todos estão agregados num mesmo link? Um destino para os países além do crescimento? para seus habitantes? E quanto aos que não tem mais essa necessidade, como os nórdicos? Um homem comum, enfim. Desses para quem a questão deixou de há muito a carência mas como o administrar o excesso. No fundo concorda com o pai. Suas palavras estão cheia de uma sabedoria em cuja eficiência não crê. Balança a cabeça. Espanta a dúvida de que foi injustiça o que fizeram com o velho. Jamais maltrataria qualquer ser. Quanto mais um humano feminino adolescente. Logo abandona essa compaixão incômoda e volta a pensar que a vida é um excesso de ser mais do que se pode administrar.

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E essa Alice, quem é? Começará a descobrir naquele salão de biblioteca. A tarde do fim de um verão entrando pela clarabóia e um homem, um homem maduro (já o chamam eventualmente de velho) que a observa, isto é contempla, à luz também das lâmpadas frias recém-adquiridas na última licitação que a prefeitura realizou antes do escândalo. É o que ela é. Existe segundo os olhos que a contemplam, isto é adoram – não, é outra coisa, ou seria apenas o vermelho dos lábios e é algo mais para a paixão da transcendência – ou seria apenas a mistura do sol com as lâmpadas novas mas tem mais a ver com revelação. Esse som de tosse e murmúrio e risos abafados, para a recém-nascida Alice, parece som de seres humanos contrastando com divindades silenciosas ao redor. Mantém o livro entre as mãos, ou melhor os dedos, as pontas dos dedos, mal tocando a página que será virada – ah, a página foi virada e nessa nova página pode descortinar a combinação de letras que escrevem algo ainda não inteligível. Será.
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Fulgente como a luz refletida pelo papel quase espelho. O vestido tremula ao cair como ondas de um sonho sobre o corpo sereno porque desisti de desejar – nunca mais – quero outro tipo de prazer para mim. Um corpo fresco como o de Beatrice mas ele não irá sequer lembrar de Beatrice ao olhar. É outra coisa agora. Luzes e sons de deuses. Um anjo. Ela relanceou os olhos em volta. Ele estava ali. Olhou o livro. Uma nova página. Uma viagem. E todavia não vou pensar em nada que tenha alguma conotação mística. Esses deuses são racionais porque são livres e livres não porque vagam mas porque vagam sabendo não haver um destino. Os olhos estão abertos talvez pela primeira vez. Pela primeira vez pode ver o mundo a seu redor. As pessoas iluminadas pela luz em seus próprios olhos. A página nova. Seu dedo está conhecendo o toque com que a virará. Nada que seja especial. Mal toca. A página nova tem a ver com a mudança. Daí a alegria. Não por nada em particular e por tudo que num segundo se deixa vislumbrar mas não permite a retenção na memória. Como a
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linha com que o pintor finaliza seu quadro abrirá o tempo antes do início do próximo. Aí está. É você. A pausa explica o movimento.

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Ao segundo ou terceiro sinal de que não iria dormir mesmo, levantou-se. Anda como quem vai ao banheiro mas passa e abre a porta rangente do escritório. Sentou-se e diante do computador imaginou o que poderia ainda dizer que já não houvesse dito. Que era o fim? Que supõe novo começo? Nada acontece quando se depende de outra pessoa, quando acontece não terá mais relação com uma vontade pessoal. O frio é suficiente para que ponha o suéter. Que dia é hoje? Aliás estamos ainda em maio? O cansaço destrói mais que a morte. A morte sim é um novo começo. Escuta a constância dos componentes. Fala alguma coisa por demais vaga e todavia devastadoramente precisa quanto a si próprio. Estou sozinho. Sou tua amiga, ela costumava dizer. Sou tua amiga, você não está sozinho. Não sabe mais por quanto tempo acreditou. Tempo demais. O bastante para que chegasse nessa encruzilhada. Há alguns meses ainda teria saúde para recomeçar noutra parte. Forças de arrumar a bagagem sem se cansar desse jeito e ficar
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ofegante a esse ponto patético. Não é uma encruzilhada. Não há caminho. E mesmo para trás se fechou. Ponte queimada após a travessia. Renascer é licença poética proibida. Cinqüenta e cinco anos sem um ontem. Você não está velho, ela costumava dizer. Só entrou numa idade em que são necessários alguns cuidados. Um clique estranho. O computador reiniciou sozinho. Desconcentrou-o e sentiu a coluna que doía. Ele minimizava. Nunca disse a ela o quanto. Se o fizesse ela acharia que seria ainda menos. Acreditava piamente em Savone como escritor.

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Caminham para pegar o metrô e Alice sabe que ele está fazendo isso para se livrar dela como antes o objetivo era leva-la para casa dele. Devia imaginar, um cara tão gentil. São todos iguais. Bonita. Culta. Inteligente. Por que uma moça assim está sem trabalho mesmo saindo de casa lá no interior com esse objetivo? O mesmo que ela pensou há pouco. O que há de errado com o mercado de trabalho hoje? Tinham alguma afinidade. Ela atravessa a rua após olhar para um e outro lado. No meio da travessia ao se sentir segura dá-se ao luxo de quase desfilar. Todas as mulheres são iguais. Todas obedecem a essa vaidade misturada a sedução não importa a situação em que estejam. Quase caricatas. Ele se consumia por causa dela, como costuma acontecer. A mesma velha história. A renovação de caminhos conhecidos e como que esquecidos embora não, não pode ser, o que leva a esse jogo é a saudade de uma volúpia experimentada naturalmente na adolescência e depois sob os pretextos mais diversos mas ainda repetida nas
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contradições do tempo. O que antes era o fascínio pela mulher mais velha, ao ganhar o homem idade, irá se inverter até chegar à lamentável condição de seu pai – não isso não, isso nunca, preciso me aquietar. E Alice onde entra em tudo isso? Não mais tão jovem e com evidente experiência sem todavia que nada fizesse supor uma mulher madura. Nenhum elo com a menina e muito menos com a antiga patroa. Num átimo Haimeard vislumbrou o futuro e sem convicção o rejeitou. Havia descoberto a diferença e não queria assumir a responsabilidade.

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Para trabalhar tanto assim deve ter em casa uma mulher gastadeira. Só Meereshimmel sabia o quanto Sonja era simples. Um coração generoso. Mas mudanças houve. Desde quando e por que, não sabia. Naturalmente. Agora um fato novo, pensou ao olhar as gotas reluzindo nas cores do letreiro. Gráfica. Após levantar a porta para a ampla sala que a lâmpada fria iluminou e deixar o empregado entrar dois passos adiante, não dispunha de outros argumentos para justificar seus casos e os via se aproximando perigosamente de sua vida. Da tranqüilidade de sua vida apesar de tudo. Virase para a rua. Ainda é noite. O trânsito na avenida está fluindo como não costuma nesse horário. Por que esse rapaz precisa ligar o rádio tão cedo e tão alto? Chuva fraca ao amanhecer e no final do dia. Temperatura na casa dos quinze graus. Já há movimento na rua. Muita gente começa o dia cedo como ele. Quando os funcionários estiverem entrando no emprego que deixou na Imprensa Oficial, o sol já estará alto caso a
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garoa realmente pare no meio da manhã. Quando o aviso chega com um convite para o café é sinal inequívoco. Agora tem receio de que o tal namorado de Alice apareça. Ou o pai da Ananda. Aproveite o alerta antes que o momento passe. Nada há como a paz.

Ela chegava a chorar ao pensar em Meereshimmel. Alguém que um dia a viu, intuindo a razão amorosa, disse a si mesmo o quanto era lindo, embora ela própria se sentisse ridícula por nutrir tais sentimentos. A vida maltrata a gente e, parece, mais quanto melhores somos. Não se sentia má, longe disso. Em seus piores momentos se escondia uma boa intenção. Só aos poucos passou a desconfiar das intenções, mas ainda assim sofria além da conta. Quando porém pode alguém dizer que se conhece ou que conhece a alguém? Sublimidade e torpeza: onde estão demarcadas? Porque se a virtude é algo que se faz naturalmente e o mal uma coisa contra a qual violentamente se luta, qual é a virtude e onde está o vício? E se dentre
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as felicidades se contam também as loucuras, onde a sensatez? É impossível, pensava, ser plenamente feliz e realizada sem liberdade e em toda tristeza há de surgir o espectro da outra, a reprimida. Na ausência dela a criatividade integral é permitida. Também aí haverá uma correspondente vivência consciente. Aí eqüidistantes o gozo e a depressão e naturalmente não é fácil escolher a produtividade artística como experiência plena de vida. Quando conseguia pensar assim, Alice recusava mais facilmente a idéia do suicídio.

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Assim que se conheceram Meereshimmel adorava qualquer momento com Sonja. Não só queria saber de sua vida mas se instalara no passado do qual ela queria fugir. É que sofreu muito mas sempre foi uma menina forte. Uma adolescente que enfrentava o mundo. Mulher, não tinha tempo para perder com coisinhas de mulher. Como ele gostava de saber isso e aquilo! Quando menstruou pela primeira vez e o que sentiu no primeiro beijo. Você não é meio depravado? O que quer dizer exatamente “depravado”? Não se chocava nem tinha ciúme. Mas não gostava de falar sobre si mesmo. Ela tampouco se mostrava interessada em ouvir. Casal perfeito. Onde deixaram de ser? Onde estão os quinze anos dela? e dele os dezenove? Meu Deus, esse rádio! A marca de qualidade da emissora. Ajoelhou-se. Acesse e assine. Sonja, perdoe-me. O bairro foi residência e ateliê do artista. Sonja, perdoe-me, eu... Duas horas e vinte e cinco minutos. Você precisa acreditar que eu te amo. 14 graus no centro da cidade. Sempre te amei. Táxi com passageiros
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podem usar as faixas em qualquer horário. Marcel, abaixe isso, por favor! Ponto de encontro dos artis... Ajoelhou-se? Dramático demais. Não soaria confissão autêntica. Não era fácil. Mas necessário. Afastar-se das tentações. Por que então está lembrando o momento em que viu Alice entre as pessoas e a chamou para um café? Por que seu coração se alegra ao lembrar o beijo? Segura-lhe o queixo e a puxa para si. Seu polegar aperta-lhe a face. Intensifica-se a sombra ao longo da maçã de seu rosto. Ele está dizendo “Vamos, gostosinha?” Ela deve tê-lo achado inacreditavelmente vulgar. Onde estará agora?

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Alice escuta a voz como num sonho. Eu queria que você fosse morar comigo. Ela mal pode acreditar. Toque-me. Veja a minha mão tão perto da sua. Era a vida que sonhou. O seu lar se tornando realidade quando ela menos esperava. O trabalho, pensara Haimeard ao conseguir seu primeiro emprego formal, o trabalho está mudando; não faz sentido duas horas gastas numa condução e o estresse que daí advém, pensou sobretudo, agora sabe, porque estava formalmente desempregado, como os desempregado, como os livros de autoajuda a isso chama “disponível para o mercado de trabalho”. Por que julgar Alice? Por que não se permitir amar uma mulher assim jovem, experiente e submissa? Como agir agora? simplesmente aquiescer? Parecerá fácil demais. O tipo de mulher que depois o homem não valoriza. Não pode deixar a chance passar nem aproveitá-la abruptamente de modo que amanhã o sonho se desfaça. Está prestes a acontecer ou já aconteceu. Sabe Deus tudo o que escutou a respeito. O que lhe
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aconselharam sobre a vida. Filhinha, dizia sua mãe. Amiga, dizia a irmã de Öffner. Princesa, dizia o pai. Todos sabiam como agir em qualquer situação. Agora você é mulher, precisa se comportar. E todo aquele palavreado conhecido. As vozes se superpõem em seu cérebro. Ecoam. Ecoam. Mas o que importava a qualquer deles e por que na verdade deveriam se importar? quem dentre eles adoecerá se não der certo e quem celebrará caso sim? No fundo sou uma pessoa boa. Não quero enganar ninguém. Quero fazer um homem feliz. Sou responsável. Não era pretexto quando disse que viria procurar trabalho. Procurei. Quando encontrei Meereshimmel tinha procurado. Na semana depois da noite com Haimeard. Em que dia deixei de sair e correr atrás? Meus documentos estão em ordem; abri a conta no banco; tirei passaporte, caso a oportunidade surgisse em outro país. Tentei. Por que me sentirei culpada se encontrar um homem que cuide de mim e me dê o teto em que eu possa trabalhar de verdade? Retirando o olhar de Haimeard,
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respirou fundo e relanceou os olhos para o teto trabalhado. Chorava.

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Ninguém mas ele mesmo fez com que estagnasse e na prática morresse. O singular culpado. Não há justificativa possível. O mundo o afronta com sua mais negra noite e seu medo denuncia-lhe a covardia. Qualquer tentativa de amar esvaece em sua alma. Mas Alice crê em seus poemas que Meereshimmel é aquele que desejaria ser. Vê o poder que não mostrou e o carinho sabe Deus em nome de que ocultado. E a capacidade de dar vida e pureza a uma jovem tão corrompida. Vê o campo de batalha. O corpo onde verdade e mentira se degradam. Enxerga a sutileza dos sentimentos e o inocenta ao discernir nele um outro. Valoriza sua capacidade de trabalho e a dedicação que não permite que esse bem único, o tempo, não se perca. Ele porém não lê e ela não foi publicada. Cruel ironia!... O irmão de tudo se aproveitará – até das migalhas dos versos da esposa. E a amante do irmão, amiga fortuita por um tempo ínfimo em que eternos foram os sonhos partilhados numa rodovia do país, esta ouvirá alguns desses

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versos no leito de morte: ouvirá porque pediu à amiga que os lesse.

Há essa possibilidade. Nunca soube se moderar nas reações durante o sexo. Um tapa para que se contivesse. Sai do prédio. Um leve giro do pulso. O sol onde devia estar. Alice sem sombra. No ouvido de Ingenuer o noticiário do almoço. Meereshimmel não escuta. As mesmas ondas em seus ouvidos. Ignorância do que se passa na cidade. Ignorância do que se passa no mundo. Ignorância de tudo exceto o que ia dentro. Onde a poderia encontrar? Não me permito lembrar mais. Só me permito sentir. Passar a humilhação sem ter de passar. Ou passado em sonho. Jamais saberei. Sei que ela. Ela. Meu pai costumava falar esse tipo de coisa. Jamais acreditei. Precisavam mais que o beijo? Serenidade dos que estão morrendo. Em paz pensando ter muita vida pela frente. Onde? Ela. Ele. Se isso é saudade pode dar crédito ao que

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chamam amor. Se tem a ver com esse calor benigno em suas entranhas. Com o desejo de que ela esteja bem. Estou bem? É esse desconforto o estar bem? a noite escura da alma? a madrugada mais negra próxima do amanhecer? O suor lhe mareja no rosto e súbito mareja dos olhos a certeza distraída. Não queria que tivesse sido assim. Afinal ela era minha amiga, minha única amiga. Me ofereceu sua casa. Sua casa, imagine. Suando e chorando. Pensa que ela queria apenas trabalhar e ele tinha uma empresa. Queria apenas um pouco da liberdade que o dinheiro possibilita. A liberdade. A felicidade lhe estava vedada. Sufocada pela cidadinha natal. Um pouco de ar. O que metrópoles não têm para dar. Se ele tivesse oferecido a vaga de secretária de que tanto precisavam por diferentes motivos. Uma razão comum. Um ou dois casos passados. Praticamente uma prostituta. Ele era mais um? Se tivesse sido um homem generoso, leal. O que mais ele podia fazer senão me seduzir? Ela era uma criança. Talvez ainda seja. Agora com uma
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criança para criar. A criança dele. A minha criança...

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Muito frio. Mais do que na noite em que conheceu Alice. Esse tipo de associação, quando não favorece lembranças, termina por levar a descobertas. Ou suspeitas. Ou nem tanto: uma reflexão. Coincidência? Ela disse que a amiga morava num bairro que era o bairro onde ele morava. Onde, há dois anos hoje, acertou com Sonja na presença do advogado a compra do apartamento. Não pode ser. É um bairro grande. Sim, coincidência.

Meereshimmel sentou-se na cama. Tentando discernir o que fazia parte do sonho e o que tinha mesmo acontecido. Forçou a mente mas o sonho se esquivou. Deixe pra lá. A luz azulada da TV mais uma vez não desligada banha o quarto de um céu estranho. Também onírico. Vale a pena se angustiar assim com tão sublime luz à janela? Essa expressão de alívio está mentindo. Sonja aprendeu a interpretar os sinais. Ele fala. Oi amor, dormiu bem? Sim, e ele? Muito bem. Em que estaria pensando?

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“Sonhei” – ele quase disse. Mas nem se quisesse poderia dizer com certeza o que sonhara e o que era simples recordação. A parte em que ele abre a porta para Alice naturalmente era do sonho. O coração dispara. Ou ela estaria mesmo ali, a amiga, a companheira de viagem? Recentemente chegara. No mesmo dia em que a encontrou? Não. Já recusou a idéia. Pense com clareza. As coisas que chegam desse outro mundo se originam no temor. Não sempre. O olhar de Sonja inquisidor paira no quarto. Força passagem pelas fraquezas de Meereshimmel. Esbarra em seus pensamentos. Diariamente um pouquinho. Ele não tem a menor idéia do que ela sabe. Por que temia tanto assim? Amava-a, claro. É porque a amo e isso começa no respeito. Então é isso. O amor.

Sonja parece uma moça de dezenove anos. Essa a idade de Alice. Por um momento se perguntou por que era Alice quem estava ali na

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cama com eles e não Ananda. Seria mais prudente que fosse Ananda. Lembrar-se bem. O bastante para esquecer de vez. Afinal fora o marido – o pai? – de Ananda quem o ameaçara. E o namorado de Alice pode ser fantasia de uma moça tendente a esse tipo de coisa. Droga de memória. Não lembra o que deveria e esquece o que precisaria mais que lembrar. Manter na mente. Como os hábitos formados para evitar a sobrecarga mental. Assim. A relação da memória com a alma. Tanta dor evitada. Menos que um clarão na tempestade lá fora. Ruído monótono e constante de chuvisco que se sabe não passará disso sem precisar de ouvir o boletim meteorológico. Todavia faíscam os medos gerados por simples nomes.

Tudo está explicado pelo menos por agora, não, para sempre essa lembrança se manterá, manterá junto de si a vida sossegada que é de fato o que deseja. Não fantasias eróticas que se esgotam em si mesmas sem levar a lugar nenhum exceto ao fogo. Único elemento que
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não existe. Que só existe enquanto há combustão e deixa de existir quando consome o que deveria ser consumido. Tudo passou agora. Não foi esquecido, passou. Pode ser lembrado, não assusta diante da determinação. Não difere da aspiração de abrir um negócio próprio. Não deixou de pensar jamais nas dificuldades e entretanto elas não assustavam. Nem a recente pesquisa informando que as pequenas empresas duram em média não mais que dois anos, sim, havia dois anos abrira as portas da gráfica.

Encontra-a após ter comprado a peça da impressora. Seu dia de sorte. O dispositivo difícil no mercado. Alice uma ou duas vezes no futuro olhará o pacote se indagando o que poderia ser. Ela a quem seus pequenos vizinhos no interior zombavam e chamavam de gatinha logo emendando a razão não ligada a beleza mas a curiosidade. Conforme foi crescendo e se tornando moça se reuniam a fim de debater a razão de uma menina sem graça e virtude

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chamar a atenção dos meninos mais velhos e – diziam – até de homens casados.

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Naquele instante desenvolvido a partir de convicções que de súbito ruíam, encontraram-se e foram tomar um café. Ela vira um homem belo e altivo emergir da multidão; ele a viu em meio a suas visões de paraíso. Faz um tempo. Agora Haimeard e Alice estão estabilizados no apartamento no subúrbio, pequeno mas suficiente para que cada um tivesse o seu próprio escritório, com pequenas adaptações no quartinho de empregada e no que deveria ser de hóspedes enquanto um filho não vinha. Não pretendiam que viesse tão cedo. Nada mais. Um filho será uma renovação que não pretende. Sentiu que era tudo ao apertar o botão do elevador com o dedo ainda molhado. Porque as coisas acontecem até um determinado momento e há um perímetro para tudo incluindo a coincidência, o desespero e felicidade, e de algum modo estão mais ligados do que se imagina, a felicidade e o desespero, a tristeza e o gozo, um homem que se ama e outro do qual depende. Resta entender o passado como entende o futuro, alguma coisa amorfa
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encaixada no dia de hoje que não o deve preencher e no fundo sequer motivar ainda que ela possa lembrar da virilidade dissipada e imaginar o que seria se tivesse se consumado dentro dela e não seria em nada relacionado a isso o que o marido licitamente poderia fazer todos os dias e entretanto mal e mal o faz nos finais de semana. Ainda estava no corredor quando ouviu o celular tocando dentro do escritório. Não correu mas se dirigiu com firmeza na direção do som pensando que já se dava suficiente descanso do estresse tecnológico ao não levá-lo consigo quando ia almoçar. Alô? Bátegas na clarabóia. Apesar das dificuldades o casal resistia momentos de encanto gratuito. Não faziam parte de uma situação sensual. Só súbitos sonhos que se desprendem de onde quer que estejam e se tornam vida. Ainda posso pensar que um é outro. Por que não? Que mal faço e em que transtornaria nisso a ordem dos mundos? Janelas, persiana, e todos os matizes sobrepostos das luzes vindas do monitor, do
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visor do móbile, a azulação dos aparelhos e dos pontos de stand-by referenciando o alcance dos passos no escuro enquanto ela traz na roupa o horror dos fumantes. No hálito o café de após o almoço. Na retina o brilho ofuscante do contraste de ambientes.

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O amor enaltece probabilidades. Sua fantasia com Meereshimmel era um alento latente que um ser corpóreo deflagrou e a quem devia portanto essa descoberta. Não seria afetada pela não concretização do sentimento no cotidiano. A própria poesia não continha essa irrealização como mote? Inatingível, inalcançável, impossível e razão de existir. O doce segredo acalentado com espírito, caneta e papel. Objeto de amor tem o valor de um mito. Se a abrasava até a exaustão em momentos mais vívidos, era uma toxina a ser transformada em antídoto. Não queria ser liberta e menos ainda estar presa. Contar uma história que sobreviveria de boca em boca até chegar a ser a corrente de um rio necessário aos peregrinos como ela. Fugir do amor é mais eficiente do ir a seu encontro para a própria sobrevivência do amor. Sequer precisa de um corpo físico que o abrigue desde que exista um corpo vicário na memória. Amar é sofrer. Necessariamente. Precisa da dor para atingir o êxtase ou estará num meio-termo morno e indesejável, indigno
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de ser chamado de amor. Amar para Alice é lembrar do que não aconteceu e imaginar o que não poderia ter acontecido. O amor impossível vivido na mente – que em última análise é o único – composto de sofrimento como requisito para o prazer.

Cortinas dançantes na sala de jantar. Ninguém à mesa posta. Luzes e sombras na parede. Som de portas. Ambiente tenso na casa de Meereshimmel e Sonja. A esposa descobrira o caso com a professora da sobrinha que um ou outro ia buscar na escola quando a mãe não podia. Sonja quis a separação. Pouco depois hesitava. O que Sonja sabe fazer além de cuidar de seu lar? Que chance tinha num mercado de trabalho cruelmente competitivo? Lembra da moça com quem um dia viajou cujo sonho era esse, a ponto de ter largado os estudos. Como era mesmo seu nome? Não pode sequer reclamar agora – Alice! – pois ele também largou tudo quando ela precisou. O que você pode querer exceto caprichar no jantar sem reclamar
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e remover das roupas dele até as manchas mais difíceis? A gráfica engrenou e Sonja se tornou prescindível. O tormento não se instala de um momento para outro. É concebido, gerado, nasce e dura, dura e vai afetando todo o universo ao redor, até não mais restar consciência da vida antiga quando de fato se admiravam e respeitavam, jovens esperando o motivo justo que a vida raramente dá para a união ou para a separação. Preferia estar em casa. Às vezes viajava para a casa da mãe mas não passava mais que o final de semana. Um filho a deixaria mais segura de que Meereshimmel não se engraçaria pela cidade mas a gravidez acabou não contemplando essa perspectiva, antes piorou as coisas. Todavia ainda confiava. Quando não confiasse mais iria acontecer o que estava acontecendo. A separação inevitável, contemporizada. A percepção feroz de que não estavam mais juntos exceto por uma aura eventual da memória. Nunca ele deu motivo para que desconfiasse. Ausências eram trabalho
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extra na pequena empresa que apesar da burocracia do Estado e da violência na sociedade decidiu abrir. Perto de casa. Próxima de tudo: metrô, mercados, farmácias. Um ponto excelente. Imóvel em ótimo estado. E a experiência anterior. Tudo garantia o sucesso se somado à dedicação. Tudo perfeito. Homem e trabalho em função do lar. Uma privilegiada. Não entendia. Ter um caso com a santa professorinha. O que impedia que tivesse também com a cunhada? A irmã de Sonja nunca foi santa. Então se sentia justificada. Estava no seu direito. Depois pensava: E daí? As crianças para lá e para cá no corredor são os sobrinhos.

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Alice não faz idéia do que possa ser um presente com tais dimensões e formato. Há algum tempo ela foi abordada na rua por um rapaz elegante e não soube o que fazer quando ele se apresentou e disse que, se ela permitisse, iria lhe mandar flores e talvez alguma coisa mais. Devia ter se antecipado à empregada que duas vezes por semana fazia a faxina e visto ela própria quem estava batendo. Agora é tarde. Desliza pela sala com o embrulho. Vivo e móvel o azul enquadrado na janela. Faz um ano que se casou. Deixe-me te contar, disse para a amiga que não via desde os tempos da infância no interior. Então. Eu estava na rua do metrô, próxima das escadas rolantes. Um frio de rachar. Ele estava a meu lado no vagão e conforme as pessoas entravam ia se aproximando. Você o conhece. Não dá para não perceber um homem assim a seu lado, não é? A amiga riu e imaginou Haimeard a seu lado. Melhor evitar a tentação. A imagem do marido de Alice se dissipa enquanto ela continuava

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falando. Confesso que cheguei a pensar em me matar. Não sabia como. Não suporto dor.

Haviam entrado no escritório de Alice. O quarto fresco em cuja decoração não havia fotos e o mural de cortiça servia apenas para colocar as contas e se lembrar de coisas e projetar o trabalho literário. Ainda que gostasse daquela solidão essencial, era agradável quando a outra vinha. Alice não era anti-social. Só achava o tempo pouco para tantas coisas a fazer. Conversas sabotam os sonhos. Assim que a amiga ia para a aula de música, o escritório retornava a seu estado purgatorial de vozes inaudíveis e imagens de reconhecível mas peculiar azul invisível exceto para ela. Sinóptico em relação aos mundos em que durante as horas anteriores e as seguintes estará mergulhada em seu inexorável silêncio. Em torno do olhar acetinado na direção do monitor despido de qualquer nuvem como o céu lá fora – habitat de anjos nem sempre serenos que volta

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e meia brigavam ou cediam a sutis sugestões com a chegada das luzes da noite e do marido. Aleksándra, a amiga, estava sinceramente em suspenso. Em seu rosto uma expressão que Alice conhecia bem do espelho. Essa empatia começou a travar a narrativa. O que estaria pensando? o que pensaria de toda a verdade? A própria Alice se perguntava qual era toda a verdade. Quando passava pelos prédios e via as luzes dos apartamentos, meu coração se apertava. Eu precisava de um lar. Angustiavame não ter um teto sob o qual passar a noite e paredes entre as quais pudesse me abrigar. Ele? Imagino que estivesse todo o tempo me seguindo. Pra falar a verdade, me esqueci dele. Entrei na lan-house com o endereço da moça que veio comigo. Sentei diante do computador para saber onde ficava a casa, pelo site de mapas. Quando descobri, já não sabia se deveria mesmo ir. Se não era melhor terminar o meu poema e postá-lo e depois, você sabe, a morte é o melhor agente literário. E ele ali na biblioteca todo o tempo? Ele ali. Provavelmente
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me seguia. Você tem sorte, diz a amiga; é um homem bom.

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Pernas esticadas. Os pés na cadeira da frente. Formigam. Queimando nos sapatos de camurça. Tentou uma ou duas vezes se manter ereto mas deslizou de novo, os olhos postos na moça duas mesas adiante. Ele é até bonitinho mas não creio que valha a pena investir, tem até uma barriguinha, percebi quando entrou. Por minutos, teria sido assim o primeiro contato visual com Alice. Uma mancha vermelha no verniz cruza a mesa em ângulos opostos a partir de seu lado esquerdo, onde apóia o cotovelo. A fome dá sinais. Uma sirene lá fora. Frases soltas interrompidas. Conversas que numa biblioteca não deveriam ser audíveis. Imagine que – Depois eu vou – Então ele disse – Por minutos e por acaso. Não é de ir a bibliotecas. Dali ela saía quando a convidou para o café. Olhou mais uma vez o rosto meigo à sua frente tão distraído em sua leitura, mas isso, sabe, é fácil aparentar. Se ela quisesse alguma coisa com ele, o que iria fazer? Nada. Não iria fazer nada. Essa passou a ser sua virtude e a sua condenação. Maravilhosa. Privar
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de sua intimidade. Como quem não quer. A forma como ela olha indica que aceitará. Agora é só esperar usufruindo da perspectiva erótica que se origina na admiração. Aceitou. Vamos. Tudo teria dado certo exceto pelo detalhe. E por que aconteceu? Desde quando quer uma vida de aventuras esquecendo-se de quem era realmente? Você me amará por toda a vida? Concordaram em muitas coisas. Não foram preliminares perdidas ainda que a atração principal tenha sido cancelada. É muito provável que exista uma virilidade não apenas fora do corpo mas que independa dele. Que se grave de forma mais contundente na feminilidade sensibilizada. A luz sobre as mesas devolvem o salão de leitura. A luz na entrada abre um universo distante a que não se quer voltar. Ali na saída. Árvores plantadas em pleno cimento. A menina da mesa do lado discute com a colega. Não, estão rindo. Se indispõem com o crescer. As responsabilidades chegando, implacáveis.

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Não foi apenas um deslumbre estético. Se tivesse um amigo verdadeiro e não achasse que sobre tais coisas não se conversa, diria a ele como foi e esperaria dele a solução que não achava. Por que, amando-a com um amor puro que desconhecia, desejou-a até consumarem o apartamento e ao ter êxito desistir? Expliqueme direito como foi, diria o amigo.

Alice caminha. Volta da biblioteca. Nos braços dois livros que não sabe se devolverá. Se estará viva para tanto. Sufocava ao omitir também aquilo do companheiro além da chegada que não se permitia por medo partilhar. Não foram preliminares perdidas. Cobriam-no porém não se aquecia. Existe uma outra virilidade. Tenha cuidado dele. Pulava essa parte quando falavam do dia em que se conheceram. No vaivém do guarda-volumes se esbarram. Ela sai. Entra no metrô. Ao regressar para o hotel, Aleksándra visualiza a cena. Vê como Haimeard se aproxima e procura entender se ficou a uma distância prudente ou foi mais
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afoito. Alice pensava então em Meereshimmel. Ao abandoná-la, ele a deixou desamparada no mundo. Não é que não tinha mais ninguém ou que não tivesse meios de subsistir. Não é que tinha apenas a esperança no amor que se frustrou (o amor estava ali independente do que fosse ou fizesse e dos fatos). Tudo isso revestia a morte. As chances que teve de criar, de gerar a vida duma situação extrema e não o fez. Sem essa dimensão que não sou mas de que preciso, como não sou o ar, estou fadada a esse fim – a esse desamparo e abandono. Não de inteligência brilhante ou de rara bondade, se diferenciava pela faculdade de superação que a levava a escrever o que talvez nunca chegasse a ser. Jamais teria escrito nada sem que o vislumbrava de outra dimensão. Quando saiu da lan-house sem ter postado uma única linha, entendeu que não restara mais nada a que se apegar. O fim seqüência natural. Havia morrido como um espelho que se quebra cujos fragmentos ainda não foram retirados do quadro.
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Cada vez mais a rua é seu lar. Quando se mistura aos normais, especialmente nos fins de dia. Deve parecer que faz parte deles. Nesse rio copioso que outrora a afogava em dor é momentaneamente feliz. Estado fluido em que vê a vida passar sem intervenções. Dor e conforto intrínsecos à idade. Amor e dinheiro. A carne do destino rejeitando um ou outro. Temor. De que a realidade invasiva atravesse a solidão que se basta. Alguém que preencha meu vazio me fará dependente de sua presença. As paredes que a protegem, quando protegem, evocadas. O quadro de uma morta. Estátua em mobilidade horrorosa. Conversas entrecruzadas. A moça triste no metrô. O velho andrajoso que fez da rua permanente abrigo. E os casais. A mulher pede a informação que pasma ela pode fornecer. O que estou fazendo aqui? Quem espero? Onde? Quem – sou? Os documentos não ajudam. O extrato do banco, a conta de luz, a carta de – quem? A loucura antes da morte. Único compromisso. Na rua. Antes das paredes derradeiras e da nota de pé-de-página. Em
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junho de 2012. Próximo ao dia de seu aniversário. Apesar de toda consciência, ela. Seja feliz nos últimos arrebóis em que escapa do engano que é o desejo de amar. Ter. Vencer na vida. Melhor não tentar ir além do que a intuição indica como limite. Voltar antes que as coisas fiquem piores. Tornar à paz do interior e à revolta muda contra o provincianismo cruel das pessoas do interior e apagar aqueles dias de privação. O pesadelo com que chegou a compará-los. Fugir. Termo que não deveria ser usado e ainda que sim a causa era boa. A própria vida. Se pudesse chamar aquilo de vida. Magnitude esdrúxula de pensar pequeno à beira do regato que após a curva viraria no sentido da metrópole. Visão que lhe deu a idéia de partir. O viaduto em que vislumbrava o trem do metrô no trecho a céu aberto. Nada que respaldasse isso. Veemência da idéia da vinda. Então ela soube que era irreversível. Para bem ou para mal, não voltaria.

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Quanto há nessa moça de consciência? Registrou os ladrilhos. O brilho amarelejou algo maior, pensante, definitivo. Vozes na paz cheirando a estantes no fim da descida após a catraca. Ecoam nas páginas liquefeitas. Ela é o texto aberto ao acaso. Sou aquela moça. Não há como fugir. Um dia o destino se torna realidade. Então imaginarei ter desejado o que simplesmente aconteceu. Vi crianças à janela e agora de minha janela vejo crianças voltando das aulas. Alguma coisa mudou? O registro. Consciência. Pathos nessa menina gordinha que um dia ela foi. No garoto trágico em seu sorriso a tragédia de seu irmão. Tinha de seguir. Buscar. O ser humano se acomoda a qualquer coisa. O quanto Meereshimmel a machucara? – em qualquer sentido? Menina má. Estava mesmo a merecer umas boas palmadas. Talvez por isso nunca mencionou. Ou Haimeard iria querer tomar satisfações ou ao contrário questionaria o comportamento dela no episódio. Coisa estranha essa: com ele não é prazer. De jeito nenhum. Tudo muito certinho e passível de que
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contasse à mãe. O que ela dirá, sei com certeza. Oh minha filha, parabéns, até que enfim. Pelo amor de Deus, mãe, vou casar, não me tornei uma santa, nem mesmo rica. Então sempre que o assunto se aproximava ela saía da sala ou do quarto ou precisava ir ao toalete se estivessem numa pizzaria. Nunca mencionou Meereshimmel pois quis estar ali com ele como o próprio Meereshimmel quis. Se houve simulação da parte dele, dela igualmente. Mas não. De nenhum dos dois. E ambos profetizaram. Irão se encontrar de novo e será diferente, ilícito e todavia não. Não chegarão a preliminarmente conversar. Saberão que correção não abençoa. Paz sem a complacência do propósito inocente. Não há inocência e não há o que seja respeitável e resista à perspicácia de um olhar áspero. Não tenho ídolos, ela dizia. Passei a ter? Ainda me basto desde que possa escrever ou até ouvir música. Filhinha, seja feliz, sejam felizes – por todo o sempre, ela pensou, claro, claro. Não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos. Beijo insosso. Como não entendi? Então os
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mares se abriram na lembrança de Meereshimmel. Claro, feliz para sempre. O sol pois se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se quase um dia inteiro. Nem consciência nem registro. Nem nada que mude isso: não tinha mais dezenove anos; as crises se tornaram menos freqüentes, suportáveis; alcançou a estabilidade financeira. O que é necessário para uma jovem mudar não está ligado a sexo. Quem tanto segregada do degredo forja sutilezas quando oprimida e aprende a ter a vontade executada por meios outros que não ordens.

Ele conhece de algum outro lugar esse guarda com a mão numa arma inexistente. Move os dedos de puro nervosismo. Não se lembrará que uma vez o viu com Sonja quando chegava para trabalhar, mal as portas foram abertas. A manhã não mais estava tão luminosa e o cinza aqui e ali substituía ou embaçava o azul do céu. As estagiárias davam risinhos ao dizerem ainda não conhecer esse rapaz da segurança. Atrás
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dele uma estudante de medicina encontrara enfim a resposta que buscava. Não há como negar que a conexão das bibliotecas pública facilitou muito a sua vida. O homem se recorda dele vagamente, na verdade evocando o irmão. Cansado dos erros re0petidos, Meereshimmel estava disposto a abandonar tudo embora não soubesse para onde mudar a guerra de que era o campo de batalha. Se havia alguma chance de armistício. Alice o escuta abrir a porta e entrar e seus passos crescendo. A meu lado. Pensa. Está a meu lado. A nova cena. Definitiva. Irritara-se – até um limite que infelizmente seus nervos estavam tornando comum – ou temera? Uma canção na vizinhança. Uma soprano. Uma balada. Tristeza. Refreou a mão. Como assim, chantagem? – a colega pergunta à atendente do guarda-volumes. Se havia uma pessoa na cidade que poderia saber tudo acerca de como as coisas aconteceram, era a atendente.

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O que será isso? Colocou a caixa sobre a cama e desceu. As escadas. A rua. Para onde? A saída do prédio desde o primeiro dia era luz perfeita. Passagem de um para outro mundo. Meereshimmel cumula a esposa de preliminares, de galanteios. Todo o corpo de uma mulher os recebe. Todo o corpo precisará de satisfação correspondente. Amor como exultação erógena. Nem sempre consegue cumprir o que promete nessas entrelinhas. Entre os dois mundos a luz aponta para um terceiro, provavelmente o único. Do amor sem relações humanas. O mundo do amor sem objeto. Perfeição intocada. Escrita que não visa publicação. De noite em minha cama, busquei. Por conter em si mesma a espreita cristalizada do que não é perfeito. Busquei-o e não o achei. A natureza dentro dela. Universo em que o homem ocupa um espaço cada vez mais constrito. Os caminhos desconhecidos desconhecidos permanecem embora existam destinos.

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Não me pergunte sobre o que é certo. Tudo o que diz respeito ao que é certo me deixa sem capacidade de emitir qualquer juízo. Acredito que as opiniões categóricas são confissões e por talvez temer ao que de mim revelem as evito. Quero acreditar que existe algo em nós que foge a esse jugo sobretudo quando se liga à criação artística. Uma determinação independente do próprio autor e que em nada a ele se ligue, antes ganha vida própria no decorrer por exemplo da elaboração de um livro. Isso me exime de culpa se eu fracassar e me proíbe a glória se tiver sucesso. Cresce ao longo dessa visão de mundo uma justiça subjetiva que se choca contra regras demasiado claras. Não conheço, Beatrice, nada do mundo e não faço a menor idéia do que seja a verdade. Mal e mal me conheço. Se há em mim um pouco de todos ou de alguns, pode ser que se descobrir alguma coisa há de ser útil e a escrita baseada nesse conhecimento não
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seja de todo vã. O quanto somos diferentes significa o quanto somos melhores ou piores? Sugerir em vez de explicitar nem devia ser uma escolha. Então não sou a princípio culpado ou inocente. Mas o que senti por você foi totalmente verdadeiro. O que não facilita em nada a minha vida. Por favor, não se preocupe caso não haja mensagens em sua caixa de entrada com a mesma freqüência de antes. São as provas de fim de ano. Gostaria que houvesse outra forma de a gente se comunicar. Estou cismado com o ambiente na escola. Você não sente que as pessoas murmuram sobre nós?

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Os irmãos conversam no bar. Até do tal homem que um dia apareceu no hall eles falaram. Da transitoriedade das coisas. E a gráfica, como vai? Meereshimmel não poderia dizer que ia bem. Que o prendia à imobilidade que detestava e o tirara das ondas e dos brous. Vai bem. Tudo bem, graças a Deus. Vontade de ser franco. É seu irmão e sempre deu valor às relações consangüíneas. Ainda dava? Não podiam deixar de lado o assunto que os juntou ali. A mãe. Alzheimer. O vidro da janela. Haimeard em tom sobre tom. Estou ficando calvo. Como? Diga o que sabe a respeito de Sonja. Tenho escutado coisas. Seja franco. Vamos, pode me dizer. Do que está falando? Haimeard desliga o telefone. Tira o óculos e aperta o cenho franzido. Consumar o que meu irmão – Tudo bem... Diz à secretária que desmarque o cliente das 14 horas. A foto de Alice o observa, inócua. Não sei nada exceto que jamais vi amor tão grande.

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O de Alice não era assim. Ela procurava trabalho como as meninas esforçadas que não se contentam com a educação formal que se estende sem fim sob às asas dos pais. Como pôde ser tão cruel ao se aproveitar da situação? Está bem: Deixemos disso e falemos de mamãe. Mal assim? A esse ponto? Haimeard sequer ouvira a pergunta anterior à interdição. Melhor assim. Diga, meu irmão, não acha que a doença já vai num estágio avançado? Preciso estar com ela. A dor é um elo mais forte que o amor. Mais forte que a morte. Dizer no leito de traspasse o quanto ela significou. Um gesto derradeiro de afeição. Quanto alguém impulsivo como ele, rude, que derrubava altares para si construídos, o quanto precisava de um momento assim. – Não preciso. – Aceite. – Realmente não preciso. – Por favor aceite. – Não, obrigado.
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– Meereshimmel pelo amor de Deus, sei que as coisas estão difíceis. – Como sabe? – Estão para todo mundo. – Você não se inclui em “todo mundo”? – Tenho um salário alto, bônus, etc. – não dependo das economias do mundo. Você sabia o quanto uma simples rede social pode fazer seu fundador lucrar? Por isso Meereshimmel não loga mais em nenhuma. Toque sua vida, irmão, vou me virando. Sério. É tudo uma questão de perspectivas. O comércio está fechando. Crianças, entrem! Os bares abrindo. Movimentação também no hotel. A voz de Alice soa ainda como depois que fizeram amor e como quando ainda não haviam feito amor mas prestes. Ela sorriu. Minha mãe queria me dar um nome acho que persa, que significa “voz suave”. Ela estava mentindo, pensou ele, mas não disse. Como podia ser tão terna uma mentira. Meu irmão?
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Outro café? Um tempinho mais para pensar em Alice e fidelidade enquanto escurece.

Tinha consigo um romance que comprara. O primeiro volume de uma trilogia que era fenômeno de vendas. Não conseguia ficar mais de cinco minutos quieto sentado numa poltrona, lendo. Ela é mais sensível que eu. Ligada verdadeiramente às artes, sobretudo à literatura. Não a usa para espairecer ou conhecimento. Quando lendo, estava imersa numa outra vida. A prática das teorias do pai deles. Na cama, visitava esse outro mundo e era isso que o irritava e o deixava com esdrúxulos ciúmes enquanto as lembranças se avivavam trazendo o primeiro dia e toda aquela estratégia e a massagem e para quê? apenas obedecia a um subterrâneo e sutil?

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Véspera de feriados nas grandes cidades as deixa vazias e isso deprime Alice. Não quer nada mais com lazer. Lazer é o trabalho. Qualquer trabalho. Qualquer tipo de atividade em que o prazer carnal esteja excluído. No bar, olhando através da janela, Haimeard pensa que ela não o ama. É a razão de sua frieza. Mas ela o ama tanto quanto pode amar. Passou sim a ter repulsa ao sexo. Preciso esquecer, pensou ela levando as mãos ao rosto. Quando ficava assim, Haimeard tomava suas mãos e as beijava em lágrimas. Tantas que em algum momento não mais a comoveu. Era tão linda, tão linda... A suéter aperta seus seios. Soube assim que a provou mas detestava ficar muito tempo nas lojas de roupas. Tornou a ver a luz pela janela e chegou mais perto da réstia de sol. As ruas. Aonde vão todos senão para onde trocarão as tensões do dia-a-dia pelos congestionamentos? Passou os dedos na lã e lembrou que ao comprar pensara que por ser tão barata laceasse. Estavam ela e ele perdidos em mundos que se recusavam a ser um só. Decidiu,
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comendo uma maça: fará alguma coisa diferente no feriado. Daí costumam vir inspiração e salvação.

Como ele imaginaria que a mulher na ausência de amor se dedicará mais à casa e a ele próprio não com um imaginável desagrado mas antes vigorosa e irrepreensível. Afastando qualquer pensamento que comprometesse a fidelidade. Fazendo resolutos seus passos pelo assoalho luzidio ainda que ela se disperse entre as atividades. Entre uma notícia no rádio, a luz enviesada que torna um espelho a frente do baú ao longo do corredor e o cheiro dos legumes que começam a ficar cozidos no balanço das ancas tão desejadas outrora e agora com a serventia única de acompanhar seu caminhar de um a outro trabalho doméstico para se aquietar enfim lá pelas três da tarde na cadeira giratória do escritório em frente ao computador e ao celular e às caixas de analgésicos diante do monitor. Respira fundo ao lembrar do tempo livre que teria. Haimeard convocado para uma
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reunião na cidade em que se será realizada a feira de informática. Em meio às frases que digita começa a pensar no que poderá fazer de mais gostoso para que Haimeard coma antes da viagem. Tenho que ir agora, meu irmão. Foi bom te rever. Ele sai do bar sem convicção de que ir direto para casa.

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Misturada à multidão insiste em pensar que juntando-se às pessoas poderia sentir como elas. Na estação rodoferroviária as pessoas saindo para o litoral ou estações de águas. A máquina fotográfica a pleno vapor. Ainda fazia clic como as antigas. Cansaço do mundo digital que tinha forças de abandonar. O homem no visor. Braços abertos para um último abraço na namorada suspensa no meio das perspectivas do destino. Invertido no vidro com o horário de saída do ônibus atrás. Aéreo entre lágrimas que julgava por ele. Que ingênuo, pensa Alice. Ou um santo.

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Não tinha o direito de fazer Haimeard sofrer – pensava Alice enquanto as pessoas esbarravam indo e vindo e passando na direção transversa. Aprendera a empatia dolorosa e o consolo da disponibilidade. Sofreu menos do que fizera por onde. Desculpe. Esbarraram em uma moça no meio dos caminhos. Que garota esquisita! Que tipo de fotos tira? Quem é Alice? Como ela é? – pergunta Meereshimmel pisando em ovos. Sabendo que isso não é coisa que se pergunte a uma esposa ainda mais num momento desses. Alice passa a flanela na mesa e a cada aparição liberada sua imagem se torna mais nítida. É a jovem esposa a quem Haimeard pensa que ama sem ser correspondido. Por que não consegue relaxar e deixar fluir pelo corpo o desejo de viver o que será chamado de amor, a que o verdadeiro amor sobrevive? O entorno do bar está tranqüilo e tranqüilo permaneceu apesar da aproximação e da passagem da hora do rush. Tarde e talvez pela primeira vez em seu casamento Haimeard teve consciência da hora. Mais de nove. Faz pouco isso era apenas o
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nascimento da noite num arrebol interior como se pulsassem dentro dele indícios de trevas. Limite entre anseios de vida e seus espectros.

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Um homem grisalho caminha pelas redondezas. Digamos que tem uns quarenta e poucos. Pode ser mais. Em alguns a idade como que se interrompe e ou morrem jovens ou têm a decadência fulminante de que nem o espelho nem o parente próximo darão qualquer alerta. Esse tipo de homem. Desencantado do amor. Desejoso dum último projeto que faça enfim sentido. À procura como quem olha letreiros na rua. O que busca? Decerto mais que um barbeiro. É um salão amplo, envidraçado. Dessa parede vítrea verá Alice. Um carrinho de bebê, depois a mãe ansiosa. A seguir o som do carro de polícia não mais longo que a inspiração após a falta de ar. Depois a mancha azul de um passante apressado – braços luzidios balançando quase abertos, asas. E o rosto incrivelmente intenso interrompendo a idade. Desce do coletivo municipal. Tenta pensar. O quanto necessário a encontre e faça o convite. E olhando os tijolos aparentes quase de todo ocultos por umas florezinhas brancas cujo mato alto em redor tornava ainda mais exuberantes
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àquele sol baixo e frio tomou coragem e encaminhou essa energia para a espera. Tinha isso com ele: a diferença entre a paciência da espera determinada e o engano do mero contemporizar. Decidiu pernoitar num hotel e ir até ela de manhã após concluir que precisava mesmo cortar o cabelo e assim poderia refletir um pouco mais nas coisas essenciais e gozar enfim a paz do dever cumprido. Tardou pouco para vinda da esquina da casa de telhado quase oriental e tijolos aparentes e de um breve espreguiçar ao alcance dourado daquele raio, apertando os olhos e alongando os músculos do braço muito branco e comprimir os dedos dos pés, ela passar diante de uma persiana entreaberta por dedos curiosos, sem imaginar estar sendo observada. Como que apartada desse instinto sempiterno das mulheres.

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Alice fez esse favor a Haimeard. Despertar nele amor por alguém que não fosse sua mãe. Acho que ela está realmente mal, diz Meereshimmel. Acho que é mesmo caso de internação. E ele sofria enfim. Houve tempo em que os homens não ligavam para isso. Clic. Era indiferente o tamanho da afeição. Se havia afeição – cliclic. Nasce outra pessoa? Amor: dá para entender com esforço e desprendimento. Isso se revelaria se fosse uma máquina antiga. Mas ainda que vá ver logo, daqui a minutos no computador, não deixará de ser uma revelação.

Esteve quase o dia todo na estação entre partidas e despedidas enquanto ônibus após ônibus encostava nas plataformas após a complicada manobra de contorno das pilastras, muros e outros ônibus já estacionados sob os gemidos das portas e dos motores e a noite azul descia do céu anunciando as estrelas. Alice pensava em sua casa e em sua infância. Crescer significa tornar distante um ponto ideal ao

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mesmo tempo em que na idade adulta pode não significar nada. Ser a distância percorrida sem sair do lugar. Haimeard, embora pensando em Alice e em como ela o mudara, ia se encontrar com a menina na cidade vizinha.

Se a vida, a dor e a loucura deixarem, com ele terminará em paz, realizada. Sem mais culpa. Ansiosa pela noite para agradar seu homem e pelo dia para a posteridade e pelos intervalos para lavar, varrer, arrumar, passar. Que o trabalho doméstico em si mesmo dignifica. Talvez porque dê esse sentido do fazer sem recompensa, do fazer como a própria recompensa. Como a literatura devia. Do jeito que a virtude devia ser sua própria recompensa e o vício seu próprio castigo. Trabalhar. Projeto na origem de qualquer nascimento. Água e água. Não mais óleo. Apenas sinta e se misture ao mundo. O eco dentro dela na estação aos poucos vazia. No caminho de volta para casa. Não a sua de infância porque tampouco ela era a mesma pessoa. A casa em que nascera não
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era algo seu na mesma proporção que ela não era aquela. Ruas e casas passeavam na memória como um filme. Exteriores a ela caminhando pela praça agora entre os carros as pessoas estiradas no vagão do metrô. Uma criança volta pra casa após a escola e nem uma nem outra é o seu lugar. Onde então?

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Os coadjuvantes estão em casa e os passageiros no ônibus. Tudo o que Alice ouviu e o que não. No ar. A estação esvaziada a faz pensar quanto prefere estreitezas. No apartamento acima do bar as crianças já dormem e sonham com as propagandas mais eficientes para roubar seus sonhos em favor dos sonhos do público-alvo. O extraordinário é que para um desses meninos tudo parece por demais gratuito. Disse ao pai que ele devia vender a TV. Gratuito? Depois que Meereshimmel saiu, o dono do bar pediu por favor que batesse a porta com força ao irmão que a fechava com demasiada delicadeza.

Alice pretende ao chegar em casa escrever a partir das fotos. O que um homem de seus quarenta ou cinquenta anos vê quando a vê passar pela barbearia? Imagina o quadro perfeito (porque é um pintor). Um quadro. Um livro. O impasse. A fidelidade.

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De olhos fechados, as mãos no rosto, dedos finos, unhas discretamente tratadas, apertando os cantos dos olhos, ela nada vê de olhos abertos. Imagens distraídas. A língua antes em seu ouvido luta agora contra sua própria língua disposta. As unhas discretamente tratadas cravadas nos cabelos espessos. O prisioneiro ocupado com a blusinha branca de decote em V e logo com a fivela do cinto em L. O corpo revive com a proximidade do êxtase, para quando saia do apartamento e retorne ao hotel com a certeza do novo emprego e do amor do patrão. Uma fruta que não deveria estar ainda exposta com essas marcas evidentes do calor e de batidas. O sangue não esperado da virgem. Não lembra em que momento chegaram a se deitar no chão entre as canetas que caíram do copo, a mão dele sem se dar ao trabalho de retirar a última peça de roupa antes alargando o elástico a fim de entrar e continuar como ondas de uma maré que enche modificam a textura da areia e tornam possível uma pegada onde antes um vão espalhamento. Língua não lógica se faz todavia
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entender. Os dedos dela se agarravam à estante e a alça lembra um arreio no braço muito branco no momento em que seus olhos param entre vida e morte produzidas entre suas coxas se alastrando para o cérebro fugidio. Ela balança a cabeça e os dedos finos buscam a caneta que permanece quieta no copo. Chegara. Fantasiando um Meereshimmel que não conhece, levara o pensamento do homem que deixou a cadeira de barbeiro.

Letra redonda na primeira foto. A janela sob o luminoso. A varanda de impensáveis matizes. O vulto verde agora violáceo de Alice. Não, não voltarei para casa agora, pensara Haimeard. Se tivesse ido a teria encontrado qual um alaranjado totem. Se eu fosse um pintor, pensou o vizinho, teria aí o elemento para um quadro perfeito. O som da voz do homem a transtornará. Pensará ela em homens maduros como o seu primeiro deveria ter sido. Não imagina como a descobriu nem interessa por que deseja que pose para ele. Não, infelizmente
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não posso, disse, pensando em como faria isso. Dois seres unidos por derradeiros projetos. Como se aproximará dele sem despertar o ciúme de Haimeard? Não se aproximará. Já está próxima. Ligada. Trata-se de administrar o fato consumado.

Ela entra. Quase negra. Fecha as cortinas. Negra. Um interstício entre as metades. Azulada pelo monitor passa as fotos. A determinação a inspirará caso do trabalho não se afaste. Nasceu muito tarde. Cresceu com os que apostam na felicidade. Partilhou o deleite dos sentidos pelas mesmas redes e conexões. Uma fase, pensou. Passagem. Convicta que um vívido fragmento justifica uma existência inócua. Bem depois Haimeard entra. Resolveu a meio caminho. A menina não atendia o celular. Melhor então deixar como antes combinado, no dia seguinte. De novo a taquicardia, a falta de ar, suor frio, dor no estômago. Não é nada e de nada valerá se queixar com ela. Não pode tomar o comprimido que lhe dará segurança. Seria a
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morte perfeita. Riu, negro. Quando faltou energia por alguns minutos, os dois estiveram frente a frente iluminados apenas pela lua.

Escuridão sobre a silhueta polida. Fragmento de rosto momentos depois. Um nariz acostumado a estranhos elogios (você fez plástica?). Passos acima dos demais sons. Cansado ou triste. Os vizinhos que costumam ver tudo dessa vez não o viram entrar e por isso o silêncio é ainda maior naquela camada sobreposta do outro silêncio, o dos sons longínquos. Oi, amor. Por que logo hoje resolve me chamar de amor? Está inclinada, quase decidida, decidida, a se encontrar com o pintor. Como foi com teu irmão? Como poderia ter sido? como se ela não soubesse. A que horas Na mesma em que eu estiver indo ver esse homem você vai? Como teria sido se no dia seguinte ao procurar o homem, que lhe dera o endereço após algum tempo tomando coragem, o homem de seus quarenta ou cinqüenta anos, não tivesse morrido naquela mesma manhã?
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Não sei como lidar com isso. Apesar de respeitar o marido, ter esses rasgos de conhecer outros homens, como quem gosta de casa mas não resiste a um convite para viajar. Para ele, ou se amava ou não. Ela discordava calada. Agora esse elemento novo. Conhecer outro como ela. Como ele, Haimeard, não era. Assim próximas essas árvores formam alguma coisa tão familiar a ponto de inquietar. Silêncio. Esse desespero. Ninguém poderia dizer. Uma enxaqueca enlouquecedora para quem a sofre e impossível de ser notada por outra pessoa. Comprometimento com um projeto artístico visto como vadiagem. Não gostar de festas confundido como insociabilidade. Desapego de parentes avaliado como falta de sentimento familiar. Aí o coração dispara e o estranho frio faz suar.

Que vontade de morrer é essa minha? Só de olhar para Alice, mentalizou o seu projeto.

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Pintar a estranha num derradeiro quadro, obra perfeita. Se ela não concorda, pintar de memória. Com sabe Deus que materiais (ela encontrará um esboço no apartamento dele). Morrer não havia sido para o homem a plenitude da vida? Terá encontrado o que ela abandonou para que Haimeard descobrisse? A pedra preciosa na floresta inexpugnável? Haimeard imagina coisas da própria cabeça como se fossem um fato. Onde está o zelador do prédio? Ela agradece. Ter conseguido, além do desenho, a última carta.

Querida Beatrice, acredito que você seja a única que possa me compreender. Não sou um homem simples, você é apenas uma menina e me entende. Você caminha destemida nessa senda diária que é de uma distância abissal mesmo na proximidade física entre nós. Ou estarei me enganando ao supor que as coisas são mais profundas

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do que realmente são? Não pretendo senão fazer com que vingue esse mundo que depois de você conheci, do qual posso enfim falar como uma coisa pessoal e devolver às pessoas como um bem coletivo. Daí ter imaginado que sua compreensão, aliada ao vigor de tua idade, poderia contemplar de modo mais decisivo a realidade, de modo a apontar por meio de uma obra de arte caminhos essenciais. Porque você escreveria sobre isso não só com a mente mas com o corpo. Com tinta e sangue. Não me sinto capaz para tanto. Mas talvez minha experiência te seja de alguma valia. Talvez queira escapar da vida panorâmica e veja em você esse cerne. Uma salvação das coisas em que teimo em acreditar. Talvez a gente possa falar a respeito após as aulas de sexta-feira, no café. Você pode? Gostaria?

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Sonja mantém o olhar. Sonolenta. Anda assim. Detesta a ter tanto a fazer e a consciência de que nada fará direito por causa do sono. Idéias claras sobre tudo o que – longe de a deixar tranqüila – a angustia. As mãos ainda ásperas. Pássaro de estranho canto pela janela abertas. Retângulo de luz que não ilumina. Meereshimmel. Com um carinho esquecido, sorriu ao lembrar. Um moribundo que caminha sem saber que está à morte. Ou acredita num milagre. Demora-se ante as paredes de quadros e pôsteres. Vasos e toda a tranqueira que em tese deveria encher a casa. Dar a cara de um lar. Prazer. Mulher é competente nisso. Ela nunca. Não depois de certo dia. Agora terá mais tempo livre para redescobrir o marido. Não redescobrir o príncipe: Meereshimmel jamais será um. Mas olhe que leva jeito. Não por outro aspecto além do físico. Falando em corpo: que vigor para as coisas práticas! para o cotidiano estafante da empresa. Fornecedores, clientes e com quem mais é preciso lidar. Outro tipo de príncipe. Alice
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geme como a árvore ao vento quando lembra. Após beijo tão profundo, tapa tão doído. Fica com o príncipe. Outro tipo de príncipe. O homem das coisas práticas que quase conheceu. Pensamento fugidio, sem porquê. O de Sonja, obsessivo. Fechou a porta atrás de si. Deixa pra trás os cachorros, os encanamentos, as fofocas, a garagem, o play, os filhos e as mães – não cansam de tanto se amarem? De tanto sentimento familiar? Quando bateu a porta do prédio, estava livre. Dá uma última olhada na fachada e torna a se perguntar se valia o aluguel. Concluiu que sim considerando a localização e o comércio. E seguiu na direção do metrô. Sente que não está segura de nada. Em contraste com as certezas mornas feitas de retórica dos que dominam o terror de existir. Acabou de amanhecer e a cidade limpa pela chuva noturna guarda o cheiro de asfalto molhado. Agora que tem uma empregada, que pode se dar a esse luxo sem culpa, sairá pela cidade que o sol após secar passa a inflamar. Vapor invisível mas de resultado evidente.
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Lágrimas nas janelas mais serenas que a paz dos mortos.

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Era ou não uma menina ainda? Não parecia. Ao contrário. Parecia estar no controle. Toda curvas e luzes. Que canseira partilhar a opinião sensata. Se ater a uma visão de vida que é a de todos. Ela praticamente o chamou para a casa dela – que tipo de casa poderia ser: a dos pais, um quarto de albergue? Haimeard se desprende de si mesmo, um exílio de si mesmo. Deu-se a permissão de ir e não se sentiu culpado ainda que a menos de duas horas estivesse pensando em como passar um tempo maior do final de semana com Alice. – Amor, estou aqui. Você vai demorar? – Ah querida olhe só que chato, apareceu um problema. Que coisa horrivelmente banal! Ainda assim não era como o pai. Não! Na verdade era esse o maior pecado de seu desvio, compreenderia pouco antes de morrer. Não uma culpa sobre a qual haveria mil argumentos contra e a favor mas repetir medíocre o mundo e os juízos que contra o mundo fazia. Não era o que o seduziu a

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ficar com ela? Estar numa trilha diferente da brutalmente batida? Impressiona a naturalidade da menina diante da situação. A névoa contém presságios. Sou livre porque minha consciência não me acusa. Quem perderá se eu for adiante? Talvez alguém ganhe. Ela parece feliz do alto de seus quinze, dezesseis anos. Quem mais no mundo sorria assim? Não é caso de se preocupar se o mal está nos outros. Mas há a lei. Se sou inocente perante minha consciência mas não perante a lei, ainda sou inocente? Perante a menina, inocente como ela própria? A porta ultrapassada. Branca. Anunciava terem chegado. Branca, limpa – recém-pintada. Concede-lhe conforto a estranha familiaridade: a água que quis beber, o ar à janela, o abajur que acendeu – tudo onde ele sabia que estaria. Até o par de sapatilhas de balé evocavam o mais natural dos mundos. Decerto mais pródigo do que o quarto com Alice. Um quarto sem mácula. Não sem culpa. De quê? Ele não sabe. Apenas sente. Mais culpa há frustração. Quando
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voltava para casa sentiu a taquicardia forte acompanhada de falta de ar e vertigem. Tentou se lembrar se precisou do comprimido com a menina. Não. Tudo correu naturalmente quase como uma brincadeira que ela não queria terminar. Mas ele precisava. Tenho de ir. Ah, ela entende. E abriu um sorriso imperceptivelmente piedoso.

O homem é digno de pena. Ela lembra a capoeira em torno do cedro-rosa e se deixa ouvir antigos desejos de menina. Tocar, envolver, sentir o calor da seiva que enrijece e avermelha os olhos –animal alucinado atacando. Pensa se fantasiaria assim caso tivesse um irmão mais velho. Mas era única primeiro e depois mais velha de irmã mulher e na verdade gostava de ser. Quase sempre gostava. Só precisa estar preparada porque a vida se dá não entre animais enlouquecidos mas após a transformação deles em homens de bem. Não convinha passar dos limites e acreditar que tinha as rédeas até porque amanhã seus quinze
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anos terão se transformado em trinta, quarenta, e a carne despenhar-se-á e a fila andará com essas que nem nasceram fazendo o papel que ela hoje faz.

Voltando para casa, o pensamento de estar de novo com a menina – um pensamento do qual o homem mais velho deveria fugir como o diabo da cruz – fará com que se enleve e imagine-os ao ar livre lá em cima na colina por exemplo entre grandes pedras e pequenos arbustos guiando os pés jovens pela encosta verde e a cada passo o mar distanciando-se lá em baixo e o som do mar – outros sons já não havia – longe longe longe cada vez na atmosfera de um outro planeta. Por que mentiria? Não era pateticamente apaixonado e absolutamente franco? E Alice fazia algum esforço para ser merecedora de tanto amor? Ele não apareceu hoje de novo. Estará com algum problema que não quer contar? Não quer que eu me preocupe. Deve ser isso. É bem capaz que seja isso. Ele é assim tão diferente de Meereshimmel, que só
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pensa em si mesmo. O pensamento confortou Alice da nova ausência do marido sem um aviso que justificasse possuir um celular – pensando bem, quem no mundo usa o celular de modo a justificar tanta tecnologia?

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Não lidava bem com o que não compreendia. Causava-lhe inquietação o que soava estranho. O mundo tem sentido a partir da integração de seus espaços. Não é assim que se caminha pelas ruas e que se pode aliviar a memória da maioria das coisas que se executa da mesma forma todos os dias? Lugares, obstáculos, distâncias e ruídos são essenciais. Qualquer homem é um cego. Cego de excelentes olhos, Haimeard notou que Sonja havia emagrecido. Como reagia com menos fervor às suas carícias. Suficiente para abalar sua segurança. De todos os seus casos, era aquele de que não poderia prescindir. Pareceu-lhe razoável pedir a ela, sussurrando. Não que pretendesse fazer nada diferente. Devolveria a autoconfiança. É razoável perder esse tempo em que deveria estar se dedicando ao fim do projeto dos novos recursos do Rescue and Recovery a que vinha se dedicando com semelhante fim ligado apenas à sua vaidade mais até que ao prazer. Com quem podia viver segundo a força de um sentimento ainda que nada restasse mais que fosse possível
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compreender. Lembrava dela, por exemplo, sem que isso fizesse o menor sentido, quando passava diante de uma igreja, ou quando viajava e do alto via as cidades. Ligava a torre a uma qualidade específica do corpo de Sonja, como a esbelteza ereta. E as nuvens a características de sua personalidade, como a forma como se alheava de súbito. Ela era a única coisa na vida dele que se fixava espontaneamente.

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Estava morrendo. Meereshimmel assustouse ao perceber que a velha taquicardia do irmão tomara o derradeiro caminho. Ele próprio não percebia? Como lhe dizer? Se consolará com a idéia de que sempre teve isso desde pequeno e que, ora Hai, você também tem e pronto, assunto encerrado. Mas o que será da esposa caso aconteça o pior? a idade já conta contra agora. E a inexperiência. E não falar inglês. Mas o que ele podia fazer agora sem causar uma grande confusão ainda maior do que a que as coincidências armaram? Ele se permitira abandoná-la à própria sorte, que história é essa agora? Via Alice impulsionando a roda da máquina de costura com a mão esquerda que agora cerrada dá pequenos socos laterais à altura de seu próprio pescoço enrijecido e doído pelas horas em que está trabalhando em fronhas coloridas enquanto espera o marido que poderia ser ele, Meereshimmel, se não tivesse levado adiante o compromisso com Sonja, um erro, agora sabe, mas as coisas não funcionam assim, não dá pra se manipular o destino. Se de
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fato o irmão adoecer, o que restará para Alice senão algo como isso, um trabalho de costureira noite adentro e finais de semanas incluídos. Ali está alongando o pescoço para um e outro lado, encostando-o num e noutro ombro, pegando repetidas vezes o celular para ver se não deixou escapar a mensagem de algum cliente. Sozinha e mais sozinha porque Haimeard não só será ausente como é mas nunca mais estará para o mínimo sequer. Caixa postal. Um suspiro. Levanta-se. Um banho. O pijama. A noite deixada lá fora. Voltas pela casa. A janela de novo aberta com o sabiá. Pode ter acontecido alguma coisa.

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O nevoeiro ali é nuvem um pouco mais alta do que na rodovia onde quase cem carros colidiram causando tamanho engavetamento no mesmo dia em que os importados estão mais caros para proteger a produção nacional. Já a fábrica do japonês de Meereshimmel, funcionando meio-expediente após os estragos do tsunami, era fonte de preocupações por conta da reposição de peças. Ia ele assim. Atento ao GPS. O rádio ligado. O braço pendente na porta. Procurando a rua onde diziam talvez encontrasse aquele componente. Tenta um trajeto alternativo quando a vê. Após ter me envolvido de alguma forma na morte daquele bom homem, é tudo o que não preciso agora, encontrar esse cafajeste. Toda alegre e saltitante. Ali. Deixa esse gordo passar.

Música na loja que acaba de abrir. A atendente acompanhando canta. O nevoeiro se dissipa. A jovem deixa de cantar e pergunta se pode ajudar. Pode. Nisso exatamente. Em falar

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com Alice de costas para Meereshimmel. Mas o carro japonês parou. Oh não. Por que estava assim agitada? O pior havia passado. Como assim, passado? A morte: caminho irreversível. O mesmíssimo do dia em que atordoada pela noite fria foi abordada por Haimeard. O que a agitava então não era o abandono? Um beijo. Sequer resquícios de um tapa na memória. A perspectiva de que o poema seria o último.

Homens passam. Mulheres passam? Pelo vidro. Andamento outro. Direto, duro, inquietante. Conhece-a até melhor de costas. Conhece-a melhor do que há um minuto atrás não imaginaria. Abismo em que mergulhou num silêncio sem vestígios. Quando voltou a si, ela já não estava ali. A mão direita abriu-se sobre o banco do carona ao longo do percurso eterno do Centro Cultural até o apartamento. A maciez o surpreende. Abatido pela culpa. Ultrajante. Sonja não merecia. Com as mãos sobre o volante morreu em seus pecados e renasceu no beijo etéreo agora que Alice não estava mais e
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decidira viver – se era preciso – para a esposa. Não se tratava apenas de fidelidade mas o som do vento e dos pés na terra. Das estações, dos hálitos e das pombas. Do silêncio abissal da morte. De um beijo. Duas dimensões. Numa ama e noutra vive. Querer que coincidam é a grande utopia da humanidade.

Chegou em casa após o marido. Não o vê e caminha a passos rápidos. Entra no banheiro e fecha a porta. É um homem leal. O pai que não tive. O patrão (bons tempos). O amigo. O marido. Nem podia alegar solidão uma vez que nos últimos tempos ele se esmera em estar presente e disponível. E ela sabe o quanto com os problemas da gráfica não deve ser fácil. Imagina na verdade pois deixou há muito de se inteirar da coisas da empresa. Em outras palavras – – Sonja? No olhar da mulher no espelho a luz da lâmpada inunda a lágrima.

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Dá por si chorando miudinho. Orvalho numa era abandonada. Um fragmento tangível de tempo entre o flash de sua última lembrança e o novo chamado do marido. Entreabre a porta após misturar as lágrimas com a água da torneira. Meereshimmel está engordando um pouco. Parece ter mais de quarenta. É a gráfica. Trabalha, engorda e envelhece. Estou bem, diz o sorriso molhado. Ele pergunta se ela quer que ele faça algo para comerem. É demais. Por que está fazendo isso com ela? Não chore. Ele não disse isso. Esses fios brancos lhe dão muito charme. Quando ele se afastou para a cozinha, ela bateu a porta de leve. Abaixou a cabeça, respirou fundo e pensou quando e como isso aconteceu. Por que deveria acontecer? aonde ela pretendia chegar e – Sonja disse a si mesma que talvez tivesse sentido atração pelo irmão mais novo mesmo antes de conhecer Meereshimmel. Se foi ou não assim, qual a relevância? Ela está cansada, pensou ele. O trabalho doméstico exercia sobre a mulher um
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poder terapêutico. Por que abriu mão dele? Isso de trabalhar fora, de procurar emprego, de empregada – tudo isso vai acabar com ela. Um pensamento típico se desenvolve do êxtase ao arrependimento sem escalas.

Não, não é bobagem pensar como você pensa, que a arte só se legitime a partir da dúvida, que irá gerar possibilidades e interpretações. Acrescentaria que a própria beleza para subsistir deve se afastar do dogma. Ainda assim, uma experiência criadora costuma esbarrar nessa falta de sentido das coisas. Para que escrever? Para quem? Salva-nos do total desespero perante a questão a aparente falta de sentido da própria vida e todos nos esforçamos para viver e encontrar alguma coisa em que trabalhar e no que se ocupar com o objetivo de subsistir. Se uma flor sobrevive apenas um dia e ostenta ainda assim sua pequena majestade a quem quer que passe no caminho,
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seríamos mais dignos de vida? Por que nosso próprio olhar deveria ser melhor do que o das flores? porque não podemos comungar com esse olhar? Porque é o olhar que, determinando a perspectiva de alguma coisa, determina sua efêmera verdade – pois não há verdade perpétua embora possa haver perspectivas se repetindo de acordo com olhares renovados. Decerto aí, ao me ver refletido nos seus olhos amorosos, encontrei a verdade que me guiará ao longo desse restante de vida, dessa espera frutuosa da morte – a busca da palavra adequada e da acabada metáfora que transcende os limites literários e se mistura com o hiato entre memória e espírito em correntes profundas a que poderíamos chamar de amor. Não foi assim segunda-feira, quando pela primeira vez estive aninhado em seus braços pacificadores? Não soube ali tudo o que precisava saber? Não. Pois no caso de

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ser possível repetirmos, não hei de renovar o meu olhar e saber ainda mais?

A primavera ainda não começou mas o sabiá já está cantando pontualmente às quatro e meia da manhã. O aposentado do final da rua garante ao filho jornalista pelo telefone que na casa em frente à sua é às 4, 4 e 15 no máximo. Seja como for esse sabiá vê o movimento começar com seu canto e nunca se saberá se canta por causa do movimento ou se o movimento começa por causa de seu canto. Segunda, quando o mercado vinte e quatro horas está fechado da meia-noite às seis ou sete para balanço, tardou um pouco mais. Só começou com a luz do dia. Alice pôde perceber porque foi a hora em que saiu. Ia ao médico. Teme essa gravidez. Reza para que os indícios sejam falsos. Não está preparada para ser mãe. Talvez nem queira ser mãe algum dia. Será o fim da esperança de seu relacionamento com Haimeard conhecer enfim a alegria. Muito a entristecia agora que era fiel e

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devotada não encontrar mais o êxtase dos tempos promíscuos. Eram portanto cerca de sete horas e conforme a idéia de ser mãe a inquietava e procurava as alternativas percebia o quanto o bairro era novo e próximo ao parque em que noutra época caminhava para a morte em que deveria se consolar. O que não acontece junto a Haimeard e nunca acontecerá junto àquele a quem ama com esse amor transformador. Nunca seria abraçada com lágrimas em olhos de homem porque iam ser pais. Garoa. Cidade cinza. Passos molhados. As flores grenás, conforme a senhora a quem pergunta (de onde tirara essa extroversão?) são as buganvílias ou primaveras. É Primavera. O sol nasceu. Entre as pessoas por quem passa, assuntos tão inúteis quanto os ruídos de um elevador enguiçado cujos cabos ainda balançam e roçam um no outro sem levar para cima ou para baixo. Sexta começa a estação. Tocarão Vivaldi no boletim meteorológico como se Vivaldi fosse comum. Como se fosse uma
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celebridade dessas que a internet faz nascer e a TV embala e no dia seguinte será esquecida. As estações sem sentido do planeta adulterado. Botinhas na calçada molhada subindo na direção do metrô a levarão ao marido ou a momentos antes, a dias antes, ao beijo, a Meereshimmel. Construir uma vida nova. O quanto não é fácil. Segue na direção da manhã alta por ruelas que parecem retardar a inevitável entrada no túnel de vento que a carrega. Um peixe reavivado pela correnteza aos pulos pelo futuro que não se descortina. Devo acreditar que ainda é de você que sinto falta? Essa é minha fidelidade? Caminha como se não fosse parar. As imagens em que tropeça terminam num murmúrio desconexo.

Meio-dia. O médico disse entre irônico e convicto que não há sinal de criança. Agora é procurar um canto calmo num restaurante e enquanto come refletir ao som do vozerio. Entre uma e outra estação do metrô a fome aumentou. O remédio começou a fazer um efeito
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incômodo de cansaço e língua pastosa. Está mole, adormecida. Por que todos pensam que exista para tudo um fundo emocional? Trinta e cinco graus e seis. Em alguns casos é normal, disse o médico, como se tentasse acreditar. Depois deu alternativas. Diabetes, vesícula, sabedeusoquemais. Talvez haja mesmo uma causa emocional. Seja como for um cadáver fresco é mais quente. Um cadáver que caminha. Seu corpo é mais sábio do que ela. Ele sabe. Deveria ter sido a última noite. Quis ludibriar o destino e eis o resultado dessa sobrevida. Um adultério pra valer mais cedo ou mais tarde. Não. Isso não. Importa mais o dever que o bemestar. Homens e mulheres estão cada vez mais fracos à força de tecnologia, sedentarismo e medicação. A obsessão do conforto. Dilapidadores da catarse. Nem teria ido ao médico se o bom Haimeard não tivesse pago um particular. Os médicos de convênio estavam em greve. Pagou embora não tivesse recebido nada ainda por seu último trabalho já que ainda não o enviara ao cliente porque os correios estavam
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em greve. Quando enviar ainda demorará a receber porque a quantia é maior do que se permite para transações assim no autoatendimento e os bancos vão entrar de greve. Não adianta ludibriar o tempo no mundo movido a dinheiro. O tempo não se deixa corromper. O tempo a quer assim decadente em seu físico porque insistiu em continuar no tempo de vida que já acabara e em dias como hoje assim mornos quase deseja a emoção extrema da proximidade do momento derradeiro.

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Diante do espelho, gira o pincel de maquiagem. Conquistas. Não sabia se valera a pena. Perdera a noção de como seguir adiante na direção de um lugar visto durante o dia. Da intuição presumida na noite. O que tão simples achava: a harmonia entre o desejo e a ação. Casara-se com quem achou mais prudente e concretizara na carne o sentimento do homem que amava. Isso não deveria, Sonja, fazer com que a experiência devolva aos sonhos algum proveito? Demorou-se sobre os olhos e deslizou a mão num último movimento róseo como se respondesse pelos cílios. Legítima, a vontade deve cumprir o processo. Resgatar a própria origem. Ou será um vício? um tipo de compulsão que se esgota uma vez satisfeita para logo se renovar do nada e para nada? Talvez Alice estivesse certa quando disse na viagem que lançar-se no precipício da vida humana (contava-lhe que escrevia), ao tornar inteligível um anseio visto como capricho, devia devolver a harmonia interior que à ação levou o desejo. Ser leal a Meereshimmel era inconciliável com sentir
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a mesma paixão do começo quando com Haimeard? A pia gelou seu ventre quando se aproximou mais do espelho. Achou que os lábios tinham ficado por demais vermelhos, artificiais.

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Na feira as cores transbordam da cena, vivíssimas, naturais. Alice chegou a pensar que havia enlouquecido e que limões, bananas e maças contra o branco dos aventais dos feirantes e acima das barracas o vultoso azul do céu primaveril fizessem parte de um desvario contra o qual sequer sabia se deveria lutar acomodando-se àquele rude prazer visual que facilmente lhe chegava ao coração. E logo era mais. Mágica do tempo encapsulado no sofrimento escapando pela aceitação de todo detalhe do destino e qualquer de suas nuances permitindo o próprio destino ainda que não rígido mas não totalmente mutável entendido como vida na convicção redentora de um carma que permite o arbítrio. Desculpe. Um sorriso correspondido. Ela não consegue evitar, vive esbarrando. Às vezes traz coisas boas. Nem sempre. O restaurante pode bem ser o do centro cultural, por que não? É barato e a comida é boa. Passa a última quadra de barracas e desce pela outra entrada da estação. Bom ser um único bilhete para várias
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passagens em certo período de tempo. As boas soluções são as mais simples. Como um universo estático e infinito iluminando a noite com a luz do sol. Irá ao restaurante do centro cultural e quem sabe no final de seu caminho exista uma estrela. Não está mais à espera de um inesperado salvador. Não acredita mais nessa possibilidade. Encontrara repouso. Levanta-se para pegar a sobremesa. Encontrara a paz. Saboreia o pudim e se pergunta onde foi parar a paixão nesse processo. Se os homens se tornaram figurantes na nova etapa de sua vida, onde está o protagonista? Onde está de fato Haimeard? Os figurantes eu sei que estão sempre sempre ao redor. Uma faca cravada em seu coração, girando. Mas o que há de mais patético do que se queixar? sobretudo se queixar quando tudo está bem. Quando é possível até se dar o luxo de repetir um pudim saboroso sem pensar em quanto custará. Seu sorriso não tem qualquer motivo ao se dirigir à biblioteca. Um ricto apenas. Levou o sol da
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tarde ao ultrapassar a roleta e entrar no salão. Não é permitido entrar com alimentos, disse a funcionária apontando o cartaz. Mordeu o ultimo pedaço do chocolate e entrou no espaço dardejante de memórias semelhantes a folhas caídas pelos caminhos que trazem os perigos inerentes à degeneração ainda não consumada – apenas retida para ser suportada entre labirintos e sonhos no barulho de passos.

Alice no metrô contra a previsão da chuva na transição de primavera. A meteorologia se engana. É o mais comum aliás mesmo com toda tecnologia a serviço. Ainda na semana passada ainda esperou-se um tufão no Norte e no domingo chegou não mais que uma tempestadezinha. Não será surpresa se na rua de novo só encontrar um chuvisco primaveril. Quando essa preocupação banal passar ela estará diante de Haimeard que estará diante da TV e ela se sentirá culpada. Por quê? Não tem porquê. Só culpa, culpa em retrospecto, ainda que se torne santa. É sua segunda pele, a culpa.
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E Haimeard um santo já. Com tantos homens no mundo, para alguém como ela, o atroz Meereshimmel não teria sido melhor? Tais devaneios desapareciam como surgiam, o que supostamente determinava o quanto eram irrelevantes, mas não eram assim avaliados sempre: ela duvidava das mesmas coisas de que noutros momentos estava convicta e submetiase completamente às próprias conjecturas como se ao serem presumidas se transformassem em realidade, como acontece com os sonhos que vivem no sono.

Recusou-se a continuar questionando seu relacionamento com o marido. Era seu melhor amigo, digno de toda confiança. Se algo faltava, algo que sequer saberia nominar, ora, alguma coisa que sequer pode nominar, isso não existe. Não existe. Haimeard passou quando Alice saíra do restaurante. No mesmo caixa que ela pagara com dinheiro proveniente das idéias dele para usar a internet, ele pediu um café. Grande ou

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pequeno? A garçonete já vira os dois juntos. Casal bonito fazem.

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Sonja. Está ficando sério? Sonja: seu rosto tenso se intensifica. Passa pela rampa que leva à biblioteca e segue para a rua. Vira à esquerda e entra no metrô pensando o quanto deprime esse apego ao que não pode durar na mesma proporção em que as pessoas se acomodam e não buscam o que talvez pudesse permanecer, um sentido para a vida, quando nem mesmo existe ânimo de confessar o amor, a falta que o outro faz, o quanto seria bom se fosse diferente, se não fosse um amor proibido, porque talvez o ser proibido seja exatamente o que atraia mesmo tendo de ser pago depois um preço que pode ser de perdição ou puro tédio ou talvez a lembrança vívida do que não se viveu – não houve nem esperança nem receio nem confiança nem desespero nem a liberdade nem a prisão imaginada pois a cela está hediondamente aberta e a consciência disso é uma descoberta constrangedora denunciada pelo olhar impudente com que Sonja sai do metrô e junto ao sol se revela ao longe no lugar onde estava o vulto do cunhado.
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Na cama quente e desarrumada o casal está dormindo. Não, ele está acordado. Tenta entender. Foi não mais que um flash. Alice de costas na loja. Silêncio que quase se pode tocar. Deixa disso. Você tem a melhor mulher, a mais linda que um homem poderia ter, a mais – não, Sonja anda fria, distante – cansada, ele sabe. Por que não basta saber? Não conseguiu evitar a comoção que fez de seu corpo uma pedra aureolada descansando no leito de um rio fundo cujas águas escoavam detritos duma outra vida que jamais chegará, como alguém experimenta uma roupa cuja cor detesta mas sonha em estar com o modelo que pela tonalidade será sempre insatisfatório exceto naturalmente naquela vida não vivida.

Não tem jeito. Há quanto tempo está deitada? Talvez uma hora, nem meia quem sabe. Deitada satisfeita da satisfação anterior – a vespertina – não é difícil imaginar o olhar de Meereshimmel vaidoso (pelos movimentos ela

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sabe que ele está acordado e pela respiração que está olhando para o teto). Tudo o que ela vê é a noite na janela aberta. Amor, dizia Meereshimmel nos primeiros meses, é essencial para a gente dormir bem. Não o bastante, pensa ela, para impedir a sonolência mórbida ou as sombras do pecado. Contorna a imagem Haimeard sem desfazer o espaço mútuo a que não podem renunciar, por exemplo, pensa Haimeard ao descer as escadas do metrô, como renunciei à menina. Não a tem visto. Se acontecer a rejeitará? A garçonete também viu Haimeard e Sonja mas não na lanchonete e sim entrando num hotel na periferia. Na verdade também Haimeard e Sonja fazem um belo casal. Mas ele é bem mulherengo, riu consigo mesma.

Ele não é mulherengo. Se tivesse a mínima alternativa não trairia o irmão. Por que ela ficou com ele, não comigo? – perguntava repetidamente. Ela sorria e dizia que foi pela mesma razão que ele, mesmo se encontrando regularmente com ela, precisou se casar com
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outra. Não sabia que era possível isso, ciúme do amante casado. Mais que possível. Comum. O pior dos dois mundos. Junto à janela olhando o metrô à superfície ao longe, ele por um segundo viu o filme de seu encontro e namoro com Alice, o que Sonja imediatamente suspeitou e de pronto decidiu que isso não permitiria; Já se sentia humilhada demais.

Debruçado à janela. Respirando com alguma dificuldade por ter subido as escadas correndo. A falta de um elevador é compensada pelo valor do condomínio. Longe a acalentada felicidade. Tormenta de dívidas e apelos extraconjugais. O coração disparado. O tipo de inspiração que o levou a abrir a empresa ou a querer se casar imediatamente com Sonja agora inexiste. Entorpecido. A vida se manifestará outra vez? O garoto impossível que enlouquecia os pais com a bola e as meninas com as mãos bobas no play não sabe para onde foi. Esse homem cujo

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coração aos poucos se acalma. Calmo hoje até demais. Apático. Nem memória nem jogos. Assaltado pela paz que retira a vontade. Fazendo tudo de forma correta por causa do dever não mais pela paixão. Um dia beijou a prima e se surpreendeu por ela não o ameaçar com delação. Procuram um canto nas escadas como se tudo tivesse sido planejado. Sensação mais próxima da alegria que o beijo consentido de Kátia, sua primeira namorada. Olhando-a agora quase entende. Não o prazer do fruto proibido mas o deleite da novidade. Uma coisa que se deseja por inesperada contra o enfado do que a gente sabe não irá além do que se espera que vá. Quando o pássaro do meio-dia pousou diante dele soube que o dever pode além das páginas do caderno encher toda folha avulsa.

Deve aparentar mais idade do que tem. Tem suas vantagens. Haimeard insiste que a cada

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dia ela está mais gostosa. Diz isso do modo grosseiro que ela adorou um dia mas não nele porque não combina com ele. No outro. Num flash súbito o rosto do marido. Bem conservado. Quase se diria da mesma idade que ela. Esse meu bondoso esposo. Beijou-o. Beijou-o pensando no outro. Em ter um lugar onde passar a noite e quem sabe os demais dias. O restaurante do centro cultural do município está cravado no meio de árvores imensas. O Poder Público consegue o que quer quando quer. Um lugar tão lindo e aconchegante. Ela passou por aquele momento, o pior. Passou ou é agora? ou é agora, meu Deus, o que tenho agora? Preciso reencontrar aquela moça que ia postar seu último poema, que não tinha para onde ir. Para ela a vida vale a pena, não para mim. Não para essa ela que me tornei. Pensa em Meereshimmel e ali está ele. Preocupado com o dólar. Preocupado com a entrega. Mantendo um espaço de lembranças. Em meio à multidão Alice aparece, ali no restaurante do centro. Uma sirene onde ele está. Tem a ver com mais um
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assalto a caixas eletrônicos. São mais de 100 este ano. O trânsito congestionado por causa dos curiosos. Alice não tenta se desvencilhar. Por quê? Ele não é tão forte. Pensa enquanto a cortadeira eletrônica segue o compasso dos blocos de hospital que ela poderia ter gritado. Feito ou dito alguma coisa. Não foi um estupro. Oi amor, enfim consegui. Você viu? O caixa hoje foi na loja aí do lado. Fiquei preocupada – disse Sonja ao telefone. Alice preocupada vendo as imagens no jornal do meio-dia. O que podia fazer? Não havia como se comunicar. Então seu amor quase transbordou de dentro dela como uma gazela foge dos leões.

Ele perdeu um tempo enorme com seus amigos de rede social. Não lembrou da hora do almoço. Solitário comer entre mulheres fúteis e homens grosseiros. Onde poderia encontrar Sonja? Hoje é o dia em que ela disse teria um compromisso? Tampouco lembra se é hoje que a menina disse estar de novo livre porque o pai ia viajar. Foi a primeira vez que falou do pai. Deu
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uma ligada quando a página demorou a carregar. Ah você. Ele percebeu o abismo. Não passou pela cabeça ligar para Alice. Não lembrou do médico. Dos problemas de saúde dela. Poderia encontrá-la para almoçar. Não pensou. Em nada disso exceto muito mais tarde quando a noite caía e estava impregnado do novo projeto da empresa. Lembrou para avisar que ia chegar mais tarde. Não pensasse ela que havia mulher envolvida. Era trabalho mesmo. Trabalho que a sustentava. Ela não tinha do que reclamar. Entendo. Fica tranqüilo, dirá Alice e irá para a cozinha deixar a comida pronta para quando ele chegue. Ainda à tarde Sonja passou no cabeleireiro excitada como se tivesse alguma coisa nova em vista. Elegante. E aí, meninas? Tudo bem? Sabem quem eu vi? E por aí. A tarde passou rapidamente. A chuva prevista foi um chuvisco, os camelôs que vendiam guarda-chuva nem tiveram tempo de ganhar algum. Gente, tanta, vultos, cores, sons, de vagões, de máquina de gráfica, vozerio de cabeleireiro, teclado, sons de sistema. Os quatro. Sabedores
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uns dos outros. Nem todos de todos. Num sentido misterioso em que cabe lógica rígida. E a hora do almoço e a noite nas empresas e nas casas são o tempo que de todos precisa e de todos prescindirá.

Há um tempo estavam sentados na suave proustiana obscuridade da pequena sala cheirando a livros sem sentir a amenidade da tarde. Para ela fazia frio como em qualquer obscuridade e as iluminações eram também a sensibilidade da pele afetada pela mudança de temperatura embora imune à temperatura em si. Ele suava. Sequer poderia justificar o fato com algum temor relacionado à maledicência dos vizinhos. Era calor talvez proveniente da idade em que menos se está imunizado contra qualquer coisa inclusive o amor impossível ou possível num mundo que não existe Poderia? e até da emoção de em Alice ter reencontrado, não, encontrado a escada pela qual enfim se permite guiar entre a florescência fora de tempo só perceptível pelo cheiro da sala sempre
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fechada. Partículas delineadas pelos raios da tarde prateando o bule ainda fumegante. Quando ela tornou a encher as xícaras também o negror do café reluziu e pareceu a ambos um sinal. Ele não pretendia nada das razões convencionais E poderia? Ela sabe. Não por intuição admissível, ela sabe e está perto de ter o conforto da convicção do que se sabe e a segurança do que se faz e nos põe à vontade como um menino tímido se transforma no piano que domina. Eu o amo. Não como amo o filho, o filho que não deveria amar. Mas amo. Eu o amo. Não como o pai que não tive. Não como mentor. Simplesmente o amo. O velho. A sua dor. O alimento que sacia a fome insuportável é amado antes pelo olhar. Se não houvesse essa refeição a sensação iria ser levada para a eternidade sem o corpo. Mas a evocação se dá fisicamente. Olhar que viu os olhos do faminto.

A noite desceu com um quê de perigosa. Eram essas as pegadas que deixava na imprensa. Sumirá de manhã para os que, como
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eles, não têm tempo a perder com telejornais. Como um animal vocifera e ameaça e as pessoas que o encararem naturalmente não saberão dizer muito a respeito dele porque diante delas desapareceu. Sabiam as horas pelo espaçar dos transeuntes na rua mais que pelo espaçar dos motores de carro na avenida não muito distante. Os dedos dele estavam relaxados e abertos sobre a toalha da mesa e ela pensa o quanto escreveram até chegarem a apertar a chama da vela para apagá-la. Não porque houvesse agora lâmpada mas porque o sol naqueles minutos antes do crepúsculo entrando pela janela o justificava. Nem escuro nem claro nem quente nem frio. Com sorte a gente sobrevive. Estão sorrindo. É mais do que mereço, pensaram.

Não há mais passado. Pessoas morrem em torno de pessoas. Não há lembrança sequer. Tudo deixou de existir. Os remordimentos que ainda ontem constrangiam a ponto de ela querer sumir, querer que o chão se abrisse e
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sumir, são nada agora. Menos que nada. O que traz aqui a tepidez do sol de inverno? Aonde leva essa rua sem reminiscência e todavia viva no próprio corpo de Alice? Foi aqui. É o corpo quem sabe. Não uma parte específica do ser como o sentimento ou a memória. O corpo. Esse mesmo corpo com que atravessou o estacionamento do posto de gasolina. Nesses passos ela avalia a importância do professor ao se encaminhar para a casa dele. Como não guarda mais a antiga importância das coisas, não carrega a tensão daquele dia ou seu êxtase. Vim até aqui porque ele me notou e acreditou em mim e acreditou inclusive no que eu não acreditava e sequer sabia, a minha importância para a vida de outras pessoas. Se ele não tivesse me notado provavelmente eu própria jamais me descobriria em tudo o que sua fé em mim despertou. Hoje, tantos anos depois, o que sobreviveu – como um fantasma gentil e poderoso – não consta de sua consciência. De sua vontade ainda menos. Registro instintivo de quem aprendeu em tese com o professor mas na
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verdade de uma fonte anterior jorrando dentro dela a desdenhar do que os outros amam e amar o que o resto do mundo sábio odeia. Prudente diante de si mesmo. Se tudo caiu no olvido exceto pelo corpo, por causa do corpo e de seu instinto permanecem as coisas essenciais que ela não saberá nomear mas discernirá quando surgirem. – Eu moro ali, naquela casa, a segunda do outro lado da rua – o rosto do professor se torna todos os rostos bondosos que ao longo da vida ela imaginou.

Abandonou-se. A vida está se reciclando. Dor de um parto. Susto de uma queda. Levantar-se-á. Não pode ser de outra maneira. Sozinho. Porque somos todos sozinhos e não há que se enganar do contrário. Não se manifestará nenhuma revelação. O que é a verdade? O que buscam filósofos e escritores? do que fogem as pessoas normais? O que procuram os cientistas? Não a eternidade. A

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tecnologia depende da vontade de nosso deus, o mercado. E o que se ganha com a medicina de ponta além de uns anos a mais ou uma qualidade de vida que jamais será de todos? Porque a medicina é tão escrava das diferenças sociais quanto qualquer ciência. Não questiona mais. É só uma fase. Encontrará o seu caminho. Reencontrará, talvez. Ele diz que ela não faz mais questão do amor que até bem pouco tempo era tudo o que importava. Não se cansa de olhar para ela e ver alguma coisa além dela. Tão além que não posso alcançar, ela pensa. Na verdade alcançou. A paz que transmite vive dentro dela e a envolve. É possível? transmitir o que não se sente? Eis o estado da maior parte da humanidade. Mas no caso ela é a própria paz e o sentido das coisas. Importa pouco o que sente e menos ainda o que sabe.

Com o final da tarde o rosto de Alice escureceu e se avermelhou e a tênue sombra

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sobre o assoalho chegou até a janela ainda aberta misturada aos tacos e livros pelo chão que escalava como se fossem escadas. Se um deles olhasse para cima entenderia que os estalos vinham do ventilador de teto muito lento, numa velocidade quase vietnamita. Ele volta e meia lembra de que esquecera a resolução de não se aproximar de uma jovem. A memória é parente próxima do conhecimento. Nela eles se desvinculavam. O conhecimento era vivo e a memória poderia para sempre esquecer em nome da vida que no final das contas era tudo. O vigor de Alice era isso – a vida de que ele tinha desistido pela mesma razão que ela. Que podiam estar mortos para o mundo e todavia viver. Que poderiam saber e isso não ter a menor relação com conhecimento.

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Não estavam mais juntos. Há porém conveniências a que não se pode ignorar de todo. Se eu sei, o saber tem de se bastar em mim ou irei tropeçar nas palavras, como todos. Longe o dia em que estavam lado a lado no metrô e com o aperto se aproximavam mais. Quando estivessem juntos, haveria o que partilhar. Um autor comum de que gostam. As palavras ditas com um fim que não abordam. E – por que não? – o amor após a sedução. Mas o tempo é inexorável. Os dias passam e os sentimentos mudam. Naquele mesmo momento quantos antigos apaixonados não estarão à beira da separação? Quantos com ódio? Uns porque preferem larguras; outros porque não se acostumam com apenas um amor. Há aqueles que queriam uma outra pessoa naquela mesma e outros que pensavam poder mudar o objeto da paixão. Todos acostumam-se ao efêmero como milhares de pageviews elevam a banalidade ao ápice não se sabe de quê. No apartamento vizinho alguém sucumbirá ante essas mesmas

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angústias. Não é o caso. Suicídio não é nunca solução e é um gravíssimo pecado.

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Pela primeira vez na pele de um homem jovem e bem-sucedido, tomou-se de admiração por uma mulher. Não uma colega da faculdade – as quais, por mais fisicamente atraentes, sempre erguem uma parede entre elas e seu desejo com suas conversas enfadonhas sobre interfaces e aplicativos. No fundo sentia que o que dele requeriam é que fosse um igual. Não um homem. Um ser de um outro mundo que eventualmente partilhava aquele mundo comum (o campus) mas realmente um igual. Cujas ambições deveriam estar circunscritas à realidade digital das empresas e à nova realidade social dos Recursos Humanos. Reduzido a engrenagem no desgraçado mundo corporativo. Não é isso? Mas uma mulher igualmente diplomada na área, que conhecia a lógica dos efeitos e a interação com um banco de dados, tão logo conheceu o irmão, Sonja, abandonou tudo pela casa. Enquanto essa outra com quem vivia sabe Deus por conta de que loucura, essa mecatrônica Alice, partia dos carros, andava pela música eletrônica e
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aterrissava na cama de um tecnólogo da informação apenas por interesse. Apaixonado por uma mulher assim? Sem dúvida. Porque ela era linda e sabia muito da arte da sedução. Jamais porém a amaria e ficaria assim pairando sempre por novas possibilidades. Que poderiam estar na adolescente idealista ou na mulher madura, simples e bem-cuidada. Sem um passado e cujo presente se limitasse ao dever. Sonja. Não era uma igual. Dentre outras diferenças em relação às demais, era sua cunhada. A quem passara a devotar com seu ser essencial que não era nem o profissional nem o doméstico. Talvez o homem em sua manifestação menos contaminada pelo ambiente. Um relacionamento, pensou, deve subsistir de tal propriedade primitiva.

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Vestiu-se e foi à janela. Sonja na cama de olhos fechados segura as lágrimas. Olhou-o recortado contra o prédio da frente. Tarde para arrependimento. Continuidade de seu declínio. É a vida. Costumava discutir com o pai depois de descobrir o adultério dele nas ligações de um celular a que não deveria ter acesso. Pecado revelado por pecado. O senhor quer comparar? Agora ela entendia o que o pai quis dizer.

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A questão é o tipo de consciência. Triste porque a faz triste? externa? ou empatia que não se explica? Sabia ser questão de tempo mas prefere esperar. Não por qualquer vaga esperança ou medo da ruptura. Apenas comodismo – esse estranho sistema em que os homens imaginam as coisas funcionando bem sabendo que qualquer questionamento o negará. O odor da negação enche o quarto. Se o homem quisesse alguma coisa, se estivesse disposto, ela não só não iria negar como aceitaria qualquer pedido e possivelmente seria capaz de gostar e querer mais. Se todavia não quisesse, ela não faria caso, como se fossem irmão e até pensar nisso fosse proibido. Ela só não se conteria se ele mais que pedisse, mas ele não era capaz de qualquer coisa além de pedir.

Mantendo-se ereto Haimeard olhou mais acima. Céu acinzentando. O carro estacionado sob árvores, um perigo nesta cidade. O vulto se move à janela. Está vestindo a camisa. Ah, você

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está acordada. Ao se olharem viram um no outro muito de si mesmos. Visão indesejada. Silêncio no mundo. Não significa paz. Sequer ausência de ruídos. Remorsos.

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Em casa, no quarto preenchido pelo outrora amado ressonar de Meereshimmel que agora mal pode suportar, pequenina e ousada como o vulto de uma criança num parquinho, sente-se um fantasma de si mesma diante das paredes úmidas dos fundos do prédio onde da mesma janela um dia por muito tempo vira apenas o azul do céu acima. Mas como se sinceramente o amava? por que não pode partilhar o mesmo teto? Graças a ele não tinha que temer as noites ao relento que profetizara quando a empresa de jogos eletrônicos faliu. E ali estava, dependendo de alguém para subsistir nesse mundo protegido das ruas bêbadas da madrugada. A rua dos mendigos, das prostitutas e dos filhinhos-de-papai em intermináveis baladas. Essa redoma contra a sordidez dos vícios também seus um dia. Protegida da miséria que testemunha. Protegida, pensa, onde outros não estão. Alguma coisa está errada com o progresso da humanidade. Alguma coisa está errada com o arrependimento humano.

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A filhinha de Meereshimmel e Sonja nasceu num domingo ao som dos sinos da igreja. Passou a infância tranqüila num lugar tranqüilo que só quando era uma mocinha passou a ser conhecido como reduto de prédios luxuosos e amplos condomínios. É aqui. Foi bem clara a explicação de Alice. O carro do vizinho dos Ivanossilva manobrava para entrar tangendo o poste principal da rede elétrica no qual desbotado e majestoso em sua permanência estava o discreto gravite M&S. Não sei o que fazer. Por mais que escute os boletins econômicos do rádio na internet, não consigo entender o que é melhor em se tratando de um imóvel. – Por favor... Com seu passo firme herdado da mãe e um toque sensual aprendido de Alice já havia chamado a atenção do porteiro e agora ela o chama. Um cãozinho latiu e rosnou para Bianca que lhe devolveu um sorriso carinhoso. O homem se aproxima sem conseguir disfarçar de

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todo quanto o impressionava tamanha beleza e elegância. Espero que Alice não tenha exagerado na produção. Olha esse homem. Decerto está achando que eu sou uma perua emperiquitada.

O calor da tarde foi sofreado por um deus benigno que ofereceu algumas sugestões para que Alice pudesse pensar em como chegar no endereço sem ser detida a cada segundo pela canícula. Dentro do apartamento a primeira impressão causada foi de obscuridade e pouca ventilação. O advogado acreditava que eram sucedâneos do tempo em que as janelas estiveram fechadas. Porém quando as abriram pouco melhorou a iluminação e o ar permanecia sufocante.

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Foram as pombas. Foi a debandada das pombas que juntas abandonaram o telhado em frente rumo às luzes da fonte num caleidoscópio profético em sua beleza aos olhos de Bianca. Que a levou à decisão de querer morar ali. Quando mais tarde lhe conta, Alice lembra da cena que Meereshimmel lhe descrevera – a filhinha soltando-se dos pais e perseguindo as aves pela praça, recortadas, menina e aves, pelas águas luminosas de uma fonte e o som do sino – o mesmo que tocava enquanto ela nascia. Talvez fosse mesmo um bom presságio o das pombas. Mas a ponto de querer que fossem viver ali? de abrir mão da renda do aluguel de inestimável valor para os estudos dela? Nunca me queixei, nem tinha do que. Pode ser que por algum outro meio a menina tenha sabido das dificuldades quando ela era bem pequena e eu a tinha de deixar na creche? Quando Bruna abriu a porta para o advogado, já segura do que queria, sentiu um arrepio na pele. Como se tivessem depositado ali camadas de passado e futuro – a trágica morte da mãe, a da avó, a do
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tio e do pai – mas também um elemento cuja textura era firme e a cor viva como a da fonte: os vôos que lhe proporcionavam a companhia de Alice como tutora.

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Transformação da angústia em tristeza capacitante. Nasceu de pensamentos vadios vindos de um coração que não reconhece logo como seu mas ligava à beleza de Alice, na falta de lhe conhecer melhor a alma. Confiança alegre de essência liberta. Não despertou o melhor dele mas o melhor para ele – como frequentemente se confunde a própria felicidade com altruísmo e não esse último levando àquela. Libertou-o da infindável depressão. Torna-se humilde. Protegido como uma criança nos braços de sua mãe: pequena com consciência de grandeza. Não dado à misericórdia mas a lamentos tenebrosos, vê com novos olhos o próximo e com olhos proféticos as coisas distantes. Estranha melancolia saudosa –de novo aí o rosto de Alice. Precisa dessa comunicação impossível. Resgatar ou descobrir a harmonia sensual de que se achava excluído. Passou a viver segundo essa lei de desejo. Seu pensamento antes mero passatempo ocupa um lugar sagrado. Confia. Aceita.
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Quando deu por si estava na ladeira do centro cultural. Faz calor mas ela treme. Está só. Tem receio de olhar para o lado e o ver. As conversas das pessoas passam entrecortadas sem fazer sentido. Como se gritassem com ela. Por que agiu assim? por que se entregou por um abrigo noturno? por que se apaixonou? Espera que a qualquer momento as vozes sejam a de seus pais que morreram ambos naquele ano. Você. Tenho pensado. Um abraço que jamais me libertou. Então um sentimento arruinado. Devia ter evitado esse caminho. Duas vezes o encontrou nesse lugar. Possível portanto tornar a acontecer. Ele jamais acreditará que não resisti a seu beijo o tanto que deveria porque estava de fato apaixonada. Há quanto tempo a luz doura aquele detalhe do prédio? O que existe, existe entre a alma e o objeto no corredor que liga os olhares. O sino tocou assustando as pombas pela terceira vez A primeira que Alice ouvia. Esse momento soaria na memória enquanto o sino vibrasse. Você. Conseqüência da luz sob a porta. Do toque do
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sino. Do cheiro das damas da noite. A luz que contorna a edificação harmonizando o impossível de ser harmonizado. Nuvem iluminada. Firmeza geométrica.

No peito de Meereshimmel a delicadeza vespertina e o coração de Alice a palpitar vaga cumplicidade com o esforço. Não estavam com fome. A rua estava gravemente agradável. Não tinham razão para pensarem em se aproximar e ser sugerido o encontro num lugar mais reservado. Você. Tensa e feliz. Você, a vida à minha volta. Razão pela qual se alegra e sufoca o viver por causa da sublimidade da vida imaginada. Não mais idealizações puras. O desejo de viver comprometido por um cansaço que não seria digno chamar depressão. Atravessa o sinal descuidado e o motorista lança o anátema. Ainda assim não desperta de si. Quem sabe uma possibilidade viver sem desejo – não é assim o nirvana? Vejo essa árvore todos os dias e hoje parece tão diferente. Parece falar comigo em seu facundo silêncio.
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Nunca brigavam. O que aconteceu? Que palavras duras! De onde Haimeard as desencavou? de onde desencavou tantas verdades a respeito dela? (não acerca de sua esposa: de uma outra mulher, antiga, deixada no cheiro de gasolina). Como me desnuda assim? – não a mim mas àquela que fui. Não com gritos mas com palavras brandas. Murmúrios do Juízo? Mas a outra e única ira de Haimeard, com Sonja – com quem sempre brigava e a cada reconciliação o amor era melhor – estava ligada à possibilidade de ser o pai de Bianca.

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Acaba de entrar no quarto. Pela luz que clareia o móvel entrevisto e ilumina a lombada dos livros na estante. Como sempre a primeira coisa que fez foi abrir a janela. Dia lindo. E lindo o perfil de Sonja recortado, as mãos no fecho do vestido. Anseio de liberdade. De janelas abertas. De nudez ou pelo menos roupas mais leves. De seduzir. Liberdade é um instinto de sedução. Girou. Os pequenos seios desejáveis. A insensatez com que vinha se comportando naqueles dias após a contratação da empregada não era indício de leviandade. Não vale a pena imaginar o que poderiam ter sido, esse casal impetuoso e pujante, caso não houvessem sido aprisionados na normalidade. Ela escuta o que ele diz e responde qualquer coisa sentando-se na beira da cama. Realmente ainda é linda. Linda e calma. O vermelho dos olhos dele e o vermelho dos lábios dela. Menos linda que Alice mas muito mais digna. O fecho sob o pequenino colar havia resistido e ela lhe pede que abra, por favor. Ele pergunta alguma coisa sobre aonde ela foi mas quando os olhares se cruzam
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já está arrependido. Não quer sugerir suspeita. É a última coisa que poderia ter em relação a ela. Com esse olhar está ela garantindo isso.

Estava realmente confusa. Há pouco tempo um toque desses de Meereshimmel a teria enlouquecido. Evidente a distinção das coisas. Um prazer no qual não confiava; um movimento que se perdia, como nas sinfonias, a que nos habituamos e do qual jamais duvidaremos. Será por todo o sempre deleite, assegurada delícia. Fecha a janela. Pingos de luz ainda entram pelos furinhos da persiana como notas do vento que transforma a leve cortina numa exímia dançarina oriental. Luz e vento, música imaginada. A cortina se inquieta, arfa. Uma vela. Quase não falam. Não é um mal. Foi a melhor época da vida a que menos conversavam. Em que nada precisava de um discurso lógico, como agora. A vela de um velho barco capaz de atravessar os mares mais tormentosos.

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Quanto tempo depois de estar tirando a poeira dos móveis e pensara na moça, ela viu Haimeard naquela situação nova? Ele lhe dirá que ter uma empregada faz toda a diferença para um homem sozinho. Para uma mulher também, pensará ela. Viver seus momentos. Se tivesse vivido não teria por que se culpar ou notar o brilho dos móveis. Ela corre na sua direção. Abraça-o, beija-o. Quando o solta ele ainda sente as marcas do aperto nos braços. Solitário menininho perdido. Desvia o olhar. Esses arroubos de Sonja o incomodam. Não pretende uma vida assim intensa. A lógica do projetista determinou um futuro calmo, sem inquietações evitáveis. Mas está ali. Se encontram há seis semanas mais ou menos. Cinco semanas e meia, ela sabe, anotou em algum lugar. O beijo quando se abaixaram para apanhar o mesmo lápis (ainda servem para alguma coisa nesse mundo digital). O legado da maçã. O mundo jamais será o mesmo sem Jobs,
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diz alguém na matéria de seu falecimento. Faz sentido. Não foi o mesmo depois da automação nas fábricas de automóveis. Ou de Adão e Eva. Outra a questão: em que seu mundo se beneficiava das revoluções tecnológicas do mundo?

Não raro imaginava um amor sublime e se deixava arrebatar. O ardor de seu corpo correspondia à luminosidade das esferas a que era levada. Entre requintadas árvores protegia os montes sagrados em silêncio desnudo e denso e a memória e os projetos se dissolviam na ausência de bem-estar ou de dor. Não se engane. O êxtase desse sonho não resistirá ao toque do telefone ou ao girar da chave. Não se alegre. Ele chegará – se chegar – falando das promoções injustas de colegas da empresa. Não se transformará nesse deus crepuscular que te toca. Solta-se, descendo. Arruma a mesa, acende o fogo. Bem a tempo. A chave estala,

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Haimeard entra. Imagina, amor, que deram a chefia àquele idiota do – Até religiosa ela chegara a ser mas orações não evitam o odor perverso da realidade.

Cheiros antigos tanto acolhiam não apenas a infância traidora e fraca que lhe permitira uma adolescência doentia bem como a velhice não mais temida e até um aroma vago de tempos mais remotos anteriores e posteriores a seu nascimento inócuo e tendente a não durar segundo princípio básico de um planeta que sequer teve a delicadeza de perceber que ela não se adaptaria e ter retirado de algum modo o convite. Sonha com isso na poltrona do avião ao som de seus fones bloqueadores do redor – nave para esse outro mundo que quão mais ideal mais fugidio se tornava no toque da aeromoça em seu ombro ou na turbulência que assustou o passageiro ao lado. Era essa a perversidade. Antes do casamento nem imaginava estar num

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vôo para outro país para não mais ficar que algumas horas e em nome do marido fechar o contrato que ele não pôde pessoalmente e ainda assim em que isso mudava as coisas? Criatividade da esperança. Muito além da mais bela materialização de um sonho. O avião restabelece o murmúrio de mar e ela de novo adormece sem ouvir o choro da criança à frente.

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Adormecendo logo também em casa. Viagem exaustiva. A cortina obediente ao vento. A luz se imiscui nas persianas fechadas através de cada mínimo interstício. Nada tenho a dizer. Nenhum plano ou esperada surpresa. Ainda assim suspira. Dessa morte motivará os afazeres da manhã. Prece acima da compreensão do próprio Deus, olhando-os como naquele dia gelado e angustiante sem qualquer expectativa de amanhã e todavia aqui está o amanhã além de todo o esperado – devia ser grata estar feliz por ter encontrado essa mulher, deveria entretanto os filmes trarão mensagens duvidosas, os livros conterão entrelinhas fluídas e em tudo Meereshimmel. E não será o amor a paixão pela imperfeição do outro, que será necessariamente a paixão pelo outro, pelo que é no cotidiano e não por uma fantasia de si mesmo fulgurando em mentes alheias? Homens jovens por demais sem defeito e competentes e assim reconhecidos como Haimeard se deixam subjugar por seu sexo e pensa com o sexo seus

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pensamentos mais profundos. Depois de uma suspensão, a cortina tornou a tremular.

Se a luz pode determinar o espaço como nitidamente demonstra o caminho do sol na parede oposta do quarto, assim como a textura, agora que o feixe molha o cortinado e por ele desce, não há luminosidade possível quando sentimentos decompostos roem a alma. Espreguiçar secreto. Jura ter ouvido o lamento e o grito de júbilo da floresta em que os amores se perdem em meio às folhas estalantes de passos renegados pelo dia e grandezas a que o pleno despertar dará outro nome. Ela entreabre os olhos. Acredita que é sábado sem descrer da treva onírica. Caso esteja certa – se ao menos tivesse força suficiente para esticar o braço e alcançar o celular na cabeceira... – há uma conflito sintático que precisa ser reduzido na monografia. Respirou fundo para que a ordem fosse dada a seu braço. O desenho da janela continua se movendo. Quadriculou o teto. Fez com que o livro à cabeceira se incendiasse.
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Coloriu de vermelho escuro a mochila marrom jogada na cadeira. Sim. Amanhece. Como foi mesmo que aconteceu? Um professor na cantina da universidade. Um convite. Primeiro a visão desconfiada. Logo eu? Imagina. Mas deve admitir que está mudando. Gostaria que alguém esperasse dela uma mudança. Gostaria de presentear esse alguém. Cada vez menos Haimeard parece ser essa pessoa. Ele preferia a outra, a morta. O céu estrelado à janela diz para ela não perder as esperanças. Não se acomodar. Se há estrelas na manhã de um aposento fechado, quão intensas serão as estrelas do céu. Ganha então vigor. Pega o celular. Hora de levantar. Refletindo se deve ou não corrigir o rascunho. Talvez não. Talvez a sintaxe viva de conflitos, o conflito demonstre o quanto está viva. E ela. Com o sol na cortina e nos interstícios da persiana. Como em algum outra parte da manhã o professor.

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O que posso te dizer é que com as antigas cartas e hoje as mensagens de internet ocorre algo muito semelhante à própria literatura. A força maior não se dá quando quem escreve fala de coisas fora de si, as quais não vivenciou; nem quando simplesmente fala sobre seus anseios e receios – sua vida enfim – conscientes. Mas (é o que parece ser aqui) no que tenta expressar coisas sobre as quais a consciência preferiria se acomodar e manter quietas, ocultas. Ninguém resolve do nada escrever para um professor que não conhece além da sala de aula, como você fez. As noites insones de que fala interpretam decerto um papel importante. É espantoso que exista uma menina com sua capacidade de se espantar e tamanho desejo de compreender. O mundo a nosso redor parece diferente visto após as coisas que li de você. Possivelmente, também meu espírito sofreu algum tipo de alteração. Significará, imagino, que nossos corpos
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possam sofrer algum tipo de evento; porque tudo o que há no mundo e no espírito passa pelo corpo. Quisera possuir ainda os poderes que muitas noites insones me concederam para responder suas perguntas. Quisera não estar demasiado envelhecido e doente. O cansaço afeta a lucidez como o calor o faz, embora no meu caso possa ainda haver algum equilíbrio por conta da solidão e do silêncio. Entendo, Beatrice, que depois de tudo o que aconteceu, vc precisa se afastar. Afinal tem toda uma vida pela frente e não merecia começá-la com tamanho estresse trazido pelo nosso caso, e continuá-la com as conseqüências advindas daí. Tudo bem. Quem sabe um dia a gente se reencontre e as coisas possam ser diferentes. Mas deixa eu te contar: conheci alguém. Uma princesa. Se houvesse algo a ser dito, como cheguei ingenuamente a imaginar, se valesse a pena a posteridade, se não fosse exceto vaidade, seria ela a pessoa perfeita para dizer. A
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escolhida. Tem vida, sabedoria e vigor, não está maculada por seus defeitos nem fragilizada por suas virtudes. A questão é que não há, não há o que ser dito. Dizer é esperar e como para tudo há um tempo de esperar. A vida é indizível. O abismo, comum. e ainda assim ninguém proclama o que sabe para que alguém ouça e aprenda. Não é assim. O que se sabe e talvez se espalhe pelo inconsciente coletivo é a solidão inerente. Entre o nascimento e a morte a gente pensa que tem algum poder sobre a condução do destino, mas, por nãoinexorável que ele seja, não é verdade. Aliás, o que é a verdade? E se dizer é esperar, torna-se propagador dessa crença, é esperança? Perdi de há muito tal fé. Não na esperança em si: na sua eficiência. Em que sentido? Como componente essencial de um estado ainda mais absurdo: a ventura. Ela sabe essas coisas. Escreve maravilhosamente sobre elas. Vive o que escreve. Talvez não escreva sobre tudo - a
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falsidade de toda esperança, a incapacidade funcional do dizer, a solidez da alegria perene (solidez no sentido de nãoflexibilidade) -, talvez não tenha ainda desenvolvido o dom de criar em meio a toda essa ferocidade de conceitos porque o que tem em vigor lhe falta em idade e experiência. Pensei por um momento que pudesse preencher essa lacuna com a minha própria experiência e assim resgatar por meio dela e da escrita o meu vigor. Quanta pretensão! Ninguém conduz, nem resgata, nem alerta. A única virtude da poesia além da estética é levantar questões, não respondê-las. e ainda assim só valerá para quem já possuir essas questões e com essa poesia possa recriá-las de uma forma artística, melhor desenvolta, mais técnica e não por isso mais prática, dramática, com o poder da cena, de sua concepção e desdobramentos, que cabem, e pouco mais que isso, na solidão original. Há, pois, um tempo. Esperar é preciso, mas não demais.
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Como a fome e o sono, o dinheiro e o amor, a necessidade de ser lúdico ao lidar com coisas que não têm a mínima graça. Desespera-se antes de dizer. E a palavra é um murmúrio ouvido apenas por quem murmura.

Não parecia interessado no que ela sentia. Pelo menos não agora. E Bianca mal sentia a insistência das carícias, imersa estava. Ele se deu por vencido. Seria a terceira vez aquela tarde embora nunca de modo completo. Bianca ali, estátua de moça sob a chuva do entardecer. Resquícios da segunda no corpo embora a mente trabalhasse para trazer logo o esquecimento. Cansada. Nem decidira ainda se gostava dele tanto assim ou pelo menos assim. Era um bom amigo, o melhor. Raramente se transformam em outra coisa entre pessoas de sexo diferente. De modo semelhante a meia-luz incide ao longo da parte abaixo dos joelhos que naquela posição crescia e brilhava também.

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Talvez fosse melhor puxar de novo conversa. Mas como foi? – Minha mãe chegou no mesmo ônibus que Alice. Deixou com ela o endereço, caso ela porventura precisasse de alguma coisa. Era muito provável que precisasse pois viera procurar trabalho numa cidade em que não conhecia ninguém. Mas conheceu meu pai também, por uma ironia do destino. Quase se arrependeu de ter dito aquilo, mas logo viu que não precisava, que ele era um bom amigo, um rapaz de inteira confiança e que a levava a sério quando ela falava que as coisas que lhe contava não deviam sair do quarto. Todavia não podia simplesmente deixar de contar. A alça do sutiã pendia na cadeira e a blusa escorregara até o assoalho. A ironia maior ainda estava por vir, a coincidência maior. – Meu tio a conheceu na rua alguns dias depois de ela ter estado com meu pai. E acabaram se casando.

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Nesse ponto o interesse dele despertou. Realmente muita coincidência. Quis saber o que aconteceu, se eles souberam um do outro na mesma época da vida de Alice. E se eu disser que não é tudo? Que vovô, que mal tinha contato com os filhos, acabou se tornando o melhor amigo de Alice? que soube, ele sim, antes que todos, de tudo? Ela quer dizer alguma coisa mais ampla, viva como o marulhar à janela, como os pássaros da noite, como os pequenos insetos em torno das plantas dos vasos da varanda. Não. Eu não devia ter falado nem o que falei. Até porque quem poderia entender? É mais do que eu mesma consigo. – Seu avô não é aquele professor que teve problemas na escola com uma aluna? Ela não irá responder toda a verdade. Omitirá o que julgue denegrir a imagem do velho, que adora. Sentada na cama. As mãos entrelaçadas pendentes entre as coxas morenas. A luz incidindo sobre a pele elástica dos joelhos luzidios exceto pelo arroxeado de uma queda quando lavava o piso da cozinha. Diz
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que o avô amava mesmo a garota e mais não digo por que não entendo direito esse desejo dele de que ela fosse uma espécie de porta-voz e – não, não é isso. – Ele amava mesmo a menina, achava que poderiam viver uma história de amor e cumplicidade antes de ele morrer e depois ela ainda teria toda a vida pela frente – algo assim, nunca vou mesmo conseguir expressar o que sequer consigo captar mesmo no mais profundo silêncio. O assunto havia ido longe demais. O assunto era. Mas agora já disse que vovô conheceu Alice e se deixar assim no ar aí é que ele vai mesmo pensar mal deles, então – Ele a conheceu numa biblioteca Parece que toda a família dela carrega essa sina de conhecer Alice numa biblioteca e ficaram muito amigos. O rapaz diz que Bianca quase não falava da mãe nem da avó. Ela admitiu de imediato. Pensou que realmente tinha esse bloqueio.

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Estragaram as vidas de seu pai e seu avô mas se uma pessoa não confiar em alguém nessa vida, se não tiver um confidente, acaba enlouquecendo. Então ela contou sobre a separação dos avós. Sobre a relação difícil do avô com os filhos. Sobre se era legítimo o argumento do quanto envergonhou os dois diante dos colegas. Ela disse, como para dar também um fim à conversa que tinha ido longe demais: – Se encontraram todos no casamento de meu tio – Nossa, isso está longe de terminar o assunto. – Que situação constrangedora deve ter sido. A única situação realmente constrangedora é como minha mãe morreu. Disso ela não iria falar. Subitamente viu o rosto fresco do amigo e nos olhos dele a frescura do próprio rosto e dos próprios olhos. Eram tão jovens... – Você me ama?

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Meu Deus, essa menina é bem louquinha, por que de repente se preocupa com isso se a um minuto praticamente me rejeitou? – Me ama? Ele não respondeu logo. O que eu posso dizer? Ela aproximou os lábios dos lábios dele. Eu acho que amo, apesar desse jeito louco que ela tem. Ele correspondeu de um jeito mais delicado do que de costume. Parece que ela gosta de delicadeza; quando sou mais afoito em geral me dou mal. – Amo. Te amo de verdade. – Bem, ela disse. – Vou acreditar. Preciso. Podemos ir até o fim agora. As aves revoluteando na varanda se tornaram mais vívidas. O próprio ar entrou nos pulmões dele de um jeito diferente, mais pleno, como se realmente a respiração tivesse algo a ver com a vida, como se fosse necessário ter essa consciência. A brincadeira estava chegando ao final e agora ele não sabia o que devia acontecer depois, ele que no antes era tão
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eficiente Eu pensava que esse tipo de coisa devia acontecer com algum tempo de preparação. Mas era mesmo sério, ela falara sério. A língua dele de súbito se tornou mais áspera. Tenso com a decisão repentina. Eu também. Precisamos de um tempo. Pelo menos de uns minutos. Ela se afastou e sentou-se na beira da cama. Imagine. Não foi eu mas ela . Quanto mais a gente vive menos entende a vida e menos ainda as mulheres e desde pequenas. Não tinha sido por amor nem por desejo nem por qualquer coisa relacionada ao que estava prestes a acontecer. Ela entendeu o acaso que liga as mais importantes decisões. Como uma luz na escuridão. Porque era uma total escuridão, pensava ela ao olhar o crepúsculo na janela enquanto continuava desabotoando a blusa branca do uniforme. Um branco aromático cheirando ainda ao produto que Alice havia usado para passar e lembrando vagamente tons amadeirados de perfumes cuja função primeira é induzir a pessoa próxima a pensar que tinha a ver com o cheiro doce da maconha misturandoRicardo de Almeida Rocha 2 7

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se ao perfume das flores lá fora. O pai do amigo dele deve ser um homem bem rico e liberal. Por mais que tentasse se forçar a desviar o pensamento sempre recaía na figura materna: em Sonja se desnudando para Haimeard e se entregando ao tio, aquele mesmo com quem terá um contato muito pequeno mas extraordinário depois do qual não conseguirá deixar de pensar que ela fora fruto da relação errada e todas as implicações que isso terá na vida de seu espírito. A camisa finalmente abandonou a beleza de seu torso Que coisa linda em meio aos ruídos abafados do pano lembrando uma bandeira cuja razão do hasteamento ela não compreendia mas não dava mais para parar. Ela usa esmalte quase cinza, só agora ele percebe, quando os dedos desengatam pelas costas o sutiã Que coisa mais linda. Ela não desvia o rosto para ele. Não há sombra de sedução em seu comportamento. Parecendo antes que está sozinha apenas se despindo para dormir.

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O professor Savone se tornou conhecido entre os universitários mais do que por ser um homem probo e educador competente. Era o que qualquer um sabia dele. Vejam, o Savone – diziam. Decerto – respondia um dentre os outros – em busca de sua mais recente descoberta. Quem não estudava na universidade, como Alice, tendia a acreditar. Ao procurar ela um livro nas estantes, embora impossível deixar de admirar seu corpo nos trajes leves, não passou pela cabeça dele o pujante o caráter provisório que toda roupa necessariamente tem. Péssima funcionalidade e disposição das estantes. Ele sentiu o sol lá fora dentro de seu peito tocado pela maciez dos dedos que percorriam as lombadas predestinados a registrar grandes coisas para a posteridade. Sentimentos duradouros. Encantos em que se basearia o êxtase de descobertas que em arte, por causa do artista, nunca é uma coisa que vem do nada.

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Como acontece? Ela tenta se afastar para outro corredor. Ele a olha, sereno. Ela não consegue simplesmente não consegue se afastar. Se houvesse alguém do lado oposto da estante entre dois livros inclinados veria o rosto dela fresco e quieto igualmente inclinado. Após alguns ensaios os olhos se desviam para o lado onde sente a presença do professor. Essa pessoa do outro lado da estante não o estaria vendo exceto pelo pestanejar e pelos rictos mas não saberia que tipo de sentimento expressavam porque ela havia retirado do rosto qualquer desenho de confissão. A mão quente agora em seu ombro produzirá um choque de futuro. Sombra sobre sombra nas lombadas. Ela não escutou direito mas acredita. Na história da vida dele há visões, humilhação, lágrimas, inconformismo. Ela acredita. Não há segunda intenção em seu convite. Mas será capaz? É só uma mesa de trabalho com estudantes do secundário. Mesmo assim um desafio. Quando deixaram o balcão de empréstimo, Alice afinal sorriu. O professor
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estava realizado e sereno. Conseguira a palestrante perfeita para antigos alunos. Garantia do saber de espaço e tempo. Pessoas e seu comportamento. O fundamento de não depender das circunstâncias. O modo como tudo mutuamente se condiciona determina o parentesco entre o que se escreve e o que se vive. A hora se aproxima. A sombra no espelho será iluminada quando mãos preparadas abrirem a janela no momento devido.

A casa foi construída num terreno sombrio à prova de enchentes. O engenheiro a encontrou pronta em sua mente ao contemplar o espaço. Determinou naquele momento onde seria o quarto e a sala, o banheiro e o escritório, e como as pessoas se deslocariam ali dentro. Ouvia seus passos como um escultor cinzela uma forma a partir de um lampejo que se modificará com o andamento do trabalho mas manterá aquela forma original tosca e eterna

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em sua imaterialidade. Aos poucos adquire contornos quase humanos. Os que passam pela construção sabem que tipo de pessoa irá viver ali. Não pode ser alguém que o consenso indique normalidade. Ali está ela recém pintada e já com um aspecto escuro de antiguidade. Há musgo revestindo o muro e as campânulas envolvem as ruas em torno de uma flagrância sobrenatural. Um regato passa pelo fundo da casa. O sol morno de fim de primavera se põe e no crepúsculo as paredes rosadas se revestem de milagre quando dos raios desviados pelas águas. O homem sai à janela e pensa que é hora. Alguns dos gatos se enroscam em suas pernas; outros passeiam pela pia da cozinha sem qualquer objetivo. Passaram-se os tempos glamourosos. A mágoa se dissipava. Distinguir da decadência circunspeção que não cabe no convívio social. Não há mais auréola concedida por vaidades. Não há desejo. Permaneceu apenas a nudez da sabedoria que precisa se concretizar como esse tronco mal iluminado
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quase sem cor. Se a morte está às portas, haverá ele de retirar de sua proximidade a vida que a jovem pode oferecer. Seiva que só jovens possuem e da qual são inconscientes – a perfeição. Alguém em algum momento terá de entender.

Um homem de palavra. Pessoa confiável. Generosidade à toda prova. De que servirá? Na varanda o sol atinge um momento não mais esperado. Terá de dar um jeito na bagunça. Aposentos de moribundo no qual a probidade de outrora se esconde, onde também a antiga loucura – caos interior de que a casa é fiel reflexo. Melhor sentir-se lúcido do que chamar de verde a uva desejada. Paz após o tumulto. Amanhã ela estará aqui. A luz que se apagou iluminou a chegada da improvável ninfa.

Pensamentos à janela. Cães, portas, passos que se acompanham de fragmentos de frases.
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Toras serradas especialmente para a construção da torre a que se propôs. Não sabe as horas. O dia inteiro chuvoso lhe tirou as referências da luz. Há outras. Aquela moça costuma passar ao meio-dia – provavelmente intervalo para o almoço. Cheiro de comida permeia o ar por volta das onze. Quando do caminhão de gás começarem a descer os botijões em baques metálicos antecedidos pela musiquinha do falso sino, já será meio da tarde. Fechar a janela. Logo começa a trovejar. Depois o vento e as religiosas chuvas de verão. Janela emperrada. Como ele. A tempestade pontual – a seu modo, confiável também. Compreendeu do modo mais trágico a inutilidade de suas virtudes. Discerniu altruísmo autêntico e desatrelou dele vaidade mascarada. Cada móvel da casa sob as bátegas. Cada utensílio. Detalhes da decoração que se fez sozinha. Objetos que se distribuíram na inconsciência desesperada quando soube que havia sido expulso e sob que acusação. Se tivesse dado ouvidos aos colegas e feito o mestrado e só pensado em casamento quando
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sua situação financeira estivesse definida, as coisas teriam sido diferentes. Foi quando pensou se essa realização não comprometeria seu destino maior. Destino maior? Não acredito que fui assim tão tolo. Pautou a vida segundo um raciocínio que não encontrava respaldo na realidade. Verdade inverossímil. No momento em que a reconhecessem seriam como Adão em meio aos animais. Louco orgulho de uma nobre determinação. As coisas simplesmente acontecem. Independente de vontade ou fé, ele era levado, arrebatado – arrebatado! – uma, duas, três vezes, todos os dias. A tibieza do hábito não prevalecia. Casou cedo. Casou para não se separar. Na noite em que se sentaram para discutir os detalhes do divórcio era como se ele não estivesse. Ali estava outro enquanto ele de novo arrebatado vagueava por mundos que com o tempo se fariam familiares. Onde não há normalidade e a terra não é regida pela tirania dos valores da vigília e da consciência. Mas seu coração não estava pronto.

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Só à noite os arredores adquiriam a atmosfera licenciosa como se chegasse na proporção inversa dos sons dos trovões que se afastavam. Enganado ao escolher a casa para lar. Nem tinha tempo de perceber. Saía cedo. Levava a recém-esposa à universidade e ia para o jornal. Lá ficava até a impressão e de madrugada os vícios estavam guardados na vizinhança de aparência tão inocente. Casinhas que pareciam saídas de contos de fadas. E chegava tão cansado que caía na cama exausto. Ainda assim talvez estivesse nascendo aí sua perplexidade ante o mundo representada pelos seus relacionamentos. A esposa passou a arranjar desculpas para se furtar ao que a levara ao desvario de querer casar. Mais tarde, ele é que pedia desculpas, tal a insaciabilidade da última amante, única após a aluna chamada Beatrice. Jovem, pensava não só que poderia como era tudo que queria. Hoje, nem sempre pode e, quando sim, já não é algo que interesse tanto. Da carne pode nascer o que é espiritual? Nascem juntos. O sentimento de missão que
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relacionou a si mesmo passou a viver numa escolhida. Quanta pretensão! Legar alguma coisa a um mundo em tamanha transição por meio de uma jovem que a tal mundo pertencesse. Ele nascera cedo demais. Era talvez mestre, jamais um executor. Quanta pretensão! Sabia o que precisava ser dito, não como dizer. E era homem. Só uma mulher tem autoridade de se fazer compreender num tempo assim. A um homem resta a memória que floresce na carne como vida. Nas palavras de uma mulher. De uma jovem da geração. Há abertas no céu. Hoje deu tempo: irá à Biblioteca. Pena nenhum dos filhos tomou esse gosto – embora desde o começo soubesse que não seria por meio dos filhos que alcançaria a meta visionária e imprecisa Quanta pretensão! Além de transmitir, aprender para transmitir mais. Não é algo que se espere de filho. De filho se espera ou tirania ou acomodação. Enfim tinha apenas filhos homens, o que de antemão os reprovava. É verdade que Haimeard conheceu a esposa num Centro Cultural e a isso se devia a
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cristalização da fama de Savone, sabe como é: tal pai tal filho, diziam sem saber de nada. Nada tinham em comum. Com Meereshimmel alguma coisa. Nada de que devesse se orgulhar ou que o inspirasse.

O que pode interessar o que eu acho? Se você insiste, meu filho, acho naturalmente que você poderia ter lhe ajudado, dado a ela um lugar na gráfica até porque o primo de Sonja não é uma pessoa de confiança e sequer estava interessado no lugar e no final você teve mesmo de contratar um estranho. É verdade, nesse sentido você deu sorte, o Ingenuer é um ótimo rapaz. Mas não teria sido o mesmo com ela? No final das contas ela também não está demonstrando o quanto é de confiança e o quanto é competente em tudo o que faz, sem falar na virtude misericordiosa com que suporta a instabilidade emocional de seu irmão? Nesse sentido, o que pode fazer ainda depois de tudo, eu diria que não é tarde. Eu diria que, se não foi tarde para mim, não pode ser para você. Eu
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diria que você teve essa sorte de poder se redimir.

O maior problema das pessoas, costumava pensar, o maior problema das pessoas é que ao tomarem decisões julgam a vida estática e naturalmente não é. Silêncio – puro, perfeito silêncio. Naquela noite, embora verão, não choveu. Decidiram: os filhos, os dois filhos, ficariam com a mãe, na verdade com os avós, que arcariam com as despesas. Savone não precisava se preocupar e em tese os filhos eram o único problema da separação. Temporária. Sim, entendemos. Você precisa ir atrás de seus sonhos. Tudo resolvido. Ninguém cogitou o quanto um casamento desfeito pode ser devastador na vida de um homem em quaisquer termos. Legais, profissionais, afetivos. Sobretudo quando se é um homem jovem alguns anos mais jovem que a média dos divorciados e alguns anos mais velho dos que andavam à procura de emprego. Ninguém cogitou (ou a esposa já naquela noite sabia?) o quanto a
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vingança da mulher é funesta. Ou seus dois filhos pudessem ser influenciados pelo ódio da mãe como se fossem garotinhos. Por vinte anos o professor esteve sem vê-los. Agora, o posto de trabalho na universidade tão arduamente conseguido lhe fora tirado. Tudo estará porém esquecido quando estiver entrando no velório do filho, tremendo. A jovem olhará para ele, incrédula e comovida. Mais talvez por ele mesmo, pelo professor, do que pelo esposo morto. Pai e filhos. Um em especial. Num dia, um tapa no rosto; noutro, a mão em seu ombro. E o beijo. Quantos há? Não apenas o sensual. Há o que quer sugar a vida do outro, o que quer conter, manter o silêncio. Tantos. Tantos tapas também.

Seu pai pensaria decerto, ao saber que ele ergueu as mãos contra uma mulher, que gerara um monstro. Monstro! Podia ouvir sua calma voz veemente enveredando pelos labirintos da alma lacerada. Isso ele não imagina: que desde que a reviu sem conseguir lhe falar está assim.
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Pungido. Lacerado. O professor não saberá nada além de que ela se apaixonou desde o primeiro beijo. O tapa, como furacões rebaixados a tempestade tropical, não será digno de menção.

Saíram. Dois passos dela para um de Savone. A atendente do guarda-volumes observa o quanto os ombros dele e os quadris dela são largos. O andar do homem, associado a seu poder de sedução perante as jovens, supõe determinação. O andar da jovem não demonstra afetação de sensualidade – quer apenas agradar o homem sem saber a razão. Acreditando haver uma razão. O que é tudo o que ele precisa que ela acredite para que o mal-entendido não destrua essa oportunidade única da arte e da dor. Passam pelos estudantes sentados no café. Ela tira da bolsa o celular e desliga. Apenas para ter o que fazer com as mãos. Ele vê algo mais que isso, uma deferência. Outra letra em sua lápide. Um achado no microscópio. Viverá. Ele,

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rejeitado pelos filhos e desprezando toda honra nada mais que sanguínea e orientada por editoriais ladeados por anunciantes vips no Dia das mães. Viverá. Ela precisa desenvolver suas potencialidades. Aprender o que já sabe. E ele lhe contar os segredos contra as fugas e a acomodação. Mas ao longo dos encontros e dos emails, dos telefonemas, revelar-se-á que ela está adiante. É mais pura do que ele jamais será. Tem a autenticidade da vida em sua idade aliada ao discernimento que deveria haver na dele. A espontaneidade da geração prevalecendo sobre a sabedoria dos livros. Entraram rente ao plástico junto à mureta improvisado como proteção contra a chuva. Sentaram-se na mesa com migalhas dos clientes anteriores. Luzes acompanham os movimentos de um e de outro e logo novas luzes nascem a partir da aproximação da garçonete. São dois cafés e – você quer comer alguma coisa? Ela não estava com fome. Até estava um pouquinho mas acaba ficando enjoada ao comer entre as refeições. Aqui também servem jantar, prefere?
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O olhar da garçonete começa a demonstrar irritação. As refeições são self-service. Alice se sentia muito à vontade. Um café está ótimo, sorriu. Olharam-se nos olhos pela primeira vez. As mãos dela são bonitas, as unhas cortadas rente, sem esmalte. Sobre a mesa também a cestinha de saches sobre a qual as vozes passavam. As mãos dele são grandes, os dedos crispados junto à borda. Falam de recordações que podem ser esperanças. Para o pessoal das mesas vizinhas são neta e avô. Talvez colegas de aula. O tempo entre os nascimentos não impediu a partilha de crepúsculos. Parques. Praças. Mesas de biblioteca. Música clássica e contemporânea. Parte do desejo de alegria que aceita o sofrimento e da viagem que implica em viajantes, não destino. Moça linda. Realmente simpática. E que inteligência! Que sensibilidade! Com Beatrice essa ordem estava invertida. A sensibilidade legitimou a beleza. E havia um vínculo hoje indesejado – partilha de outra ordem, a sala de aula. As moças da mesa do lado não incluem agora a possibilidade de serem
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professor e aluna. Savone teria gostado de saber. Precisa ainda acreditar que é um homem sábio e bom embora impedido de continuar lecionando por um mal-feito indigno de um professor.

Foi à janela e viu a rua molhada. Um transeunte olha para cima e se assusta. Pensava ninguém morasse ali. Ele lembra como Alice o abraçou ao se despedirem. Inusitado e comovente. O vento sopra e as copas respondem. Lembra agora os sons da madrugada que horrorizaram a esposa. As paredes, a descarga de caixa e a pobreza em geral. Que não seja uma região respeitável é culpa também das associações de moradores da vizinhança nobre que para ali empurrou o albergue donde se originou a licenciosidade. Pessoas que não tinham como voltar para as casas distantes, na periferia, a tempo de entrar no trabalho no dia seguinte. Dentre elas mulheres com quem Savone eventualmente se unia para certificar-se dos valores enraizados na
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carne da qual a esposa prescindia. Diferente do que ela supunha, é a integridade que faz de alguém uma pessoa. A iniciação que se desenvolve no sentido das primeiras descobertas. Não o entulhamento de informações sobre o que seja tudo e qualquer coisa. As elites teocráticas determinam a arquitetura mesoamericana mas sua essência é a simetria dura e rude da pedra crua e se esse tipo de elite que o expulsara agora o monitora (lembra ao fechar a janela) amanhã terão de admirar sua jovem – ser e tempo desenrolados como um tecido que exporá a beleza tanto no desenho da origem quanto na cor da busca. O avanço tecnológico reduzido a seu lugar – um acessório irrelevante se não houver pessoas de ponta. Cheiro de amor entra pelo corredor. Insensatez do cio humano. Morre em si mesmo. A paixão autêntica faz desejo e amor permanecerem uma coisa só.

Após a espera interminável a ponto de não mais se lembrar de onde estava e a quem
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esperava, ela está enfim ao lado dele. Espero que ele acredite que confio em sua pureza de intenção. Seguirão juntos pisando a pedra confiável que leva à rua. Espero que ela acredite na grandeza de algo que eu próprio não entendo bem. Ela entendia mais até do que ele poderia supor. Intuição ou desespero. Era a época de sua vida em que descobriu que um teto à noite não é tudo que se deva desejar, graças ao malogro do casamento com Haimeard e à saudade de Meereshimmel. Conservou a aspiração do poema perfeito e o desejo da inspiração que levasse ao poema perfeito. Algo de que se orgulhe nos momentos derradeiros. Que a motive. Entende portanto o que ele fala, diz. Está lisonjeada que ele a tenha notado. Sente-se rica e até feliz. O som da persiana responde ao vento que Savone não crê que tenha conhecido qualquer coisa parecida com felicidade e agora repete isso para Alice. Ela responde que antes de hoje tampouco. Nenhum dos dois pensou em romance ou sexo ou qualquer clichê que poderia se seguir e a moça
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à vontade e sábia era a mesma Alice e o homem rejuvenescido e tranqüilo era o mesmo professor. Acreditando um no outro no momento em que a luz – gelada embora o inverno tivesse passado e ainda estivessem no meio do dia – liquefizera-se em cacos à beira da cerca. Assim prosseguiriam. Luz do arbítrio. A aura de santa não evita um espirro que entremete-se no som incerto dos passos que estacam. Parados diante da avenida. Para a casa dele sem consideração a respeito. Há aí algo do tamanho de uma fúria ancestral. Grandes pensadores e artistas dignificam a mitologia. Não há lugar para conservadorismo nos dias que correm. As mais longas ditaduras caem a partir de movimentos em redes sociais. O que será do planeta sem os recursos renováveis? A propósito: não foi para isso que ela veio. Muito menos para que aquele roçar casual explodisse em intimidades. Vi você. Li o que escreve. O que acredito com a razão necessita da liberdade de querer o querer e eu me sinto cansado e não saberia mais escrever o que acredito. Decerto nem
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tempo mais terei. Desejosos de saber do que se trata exatamente aquele encontro. Não pode retomar um êxtase de onde estava – um trecho de livro, por exemplo – e descobre em Alice um êxtase virtualmente desenvolvido. Não se trata de talento, nem de posteridade. O silêncio. A essência do vazio. Opõe-se a qualquer coisa ligada a bem-estar ou mal-estar. Um outro sofrimento que é quase ausência de sofrimento. Sabe que Alice entenderá. Em sua poesia há vida e arbítrio como jamais ele conhecera. Da possibilidade de ser bom segue-se a bondade. Da vontade o fazer. Na calçada manchada pela sombra das árvores alargam imperceptivelmente os passos como se tivessem pressa junto às varandas e vitrines. Mesinhas fora da sorveteria. Uma bicicleta alaranjada. O vermelho do semáforo. Reflexo do pôr-do-sol no espelho do automóvel. Toldos. Letreiros. Na calçada em que todos os tipos de passos se misturam harmonizam-se com a trepidação dos caminhões. Percussão que sobe e se neles

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embrenha até encontrar as batidas de um mesmo coração.

O ser humano miserável diz respeito a não querermos verdadeiramente querer. É preciso mais que silêncio e solidão. Não um livro mas levantar-se após a leitura. Acredito nisso verdadeiramente. Se ele fosse um sedutor sua decisão indicaria egoísmo. Ela não se sente coagida por magia ou vítima de encantamento. As narinas delicadas mostram a excitação da novidade. Dos novos rumos. Acredito nisso. Algo intrínseco a ela e ligado ao professor. Se encantamento houvesse seria o mesmo que a ligava às galáxias e às estrelas. Aprendera com ele assim. Sem discurso e sem prática. O que ele guardava, ela poderia dispor. Acredito.

À janela, disperso pelas lâmpadas, viu a chegada do vigia noturno. A temperatura agradável do inverno que ele tanto amava. Transição. O verão causticante chegando cíclico

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como a morte necessária. Desde que foi expulso da escola ficava perambulando pela casa, alternando afazeres domésticos. Agora ela iria aparecer ali. Importante que tenha boa opinião do lugar. Tenderá a ser a opinião que fará dele. Eretos num andar calcinado pelo entusiasmo súbito aos dois tão estranho se aproximam. Não precisam qualquer representação social. As coisas se encaminharão. Motores. A música do conservatório próximo. Prédios sufocados pelo dia supõem semblantes fatigados e tensos, refratários a todo peso de luz e vida que o firmamento irradia. Professor, não sei o que se passa dentro de mim mas sei que tem a ver com o que passa dentro de você. Os extremos da idade. O tempo no que tem de mais personalizado.

Deitado relembra a visita sagrada nesses que são os únicos momentos sagrados que se permitem a um homem que ama a solidão e o

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silêncio. Doces frágeis madrugadas insones. Quando ela entrou as mãos dele suavam muito e a cabeça estava envolta na névoa da enxaqueca. Os passos são amenos e mesmo um soalho tão sonoro reduz o som a flocos de uma neve imaginada. Brilho andino à sala lúgubre. Vieste ter comigo. Alice intui o que isso representa. O cheiro dela é agora o cheiro da casa. Soubeste que era verdade uma verdade que não conheço de todo. O biombo tem desenhos estranhos que Savone nunca soube do que se tratavam. Ela diz que adora os kanjis. Ele hesita em dizer que não sabe o que são kanjis. – São esses ideogramas usados na escrita japonesa. Ah. Os do biombo. Ela lhe dá a mão esquerda que morna na sua o leva por prados lampejantes. O vizinho está tomando água na cozinha e escuta o murmúrio. Imagina só, o velhote com uma menina. Eles não ouvem e sobem a colina íngreme como se fosse a coisa mais plana do mundo. Ele não deveria fazer esforço tal. Quem está dizendo isso? Não é
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esforço algum. Estava feliz depois de muito tempo. Talvez pela primeira vez na vida. Sobem, descem, correm, riem. Ela diz: O senhor tem uma linda casa. Ele desperta. Senta-se na cama, levanta. Só podia mesmo ser um sonho. Ou está vivendo um sonho. Onde estará ela agora? O professor a havia deixado onde as ruas são longas e estreitas como um rio e todas as formas ao redor figuras amanteigadas como os bonecos que o pai de Savone costumava lhe dar antes de subterfugir em momentos os mais inadequados. Acordo tácito. Ficasse quietinho. Não dizer à mãe que ele subterfugiu. Palavra perfeita. Foi esse tipo de exemplo que teve e olha o homem generoso e fiel que se tornou, dirá Alice. Na calma das madrugadas ele voltava aos lugares excelentes que subitamente teve de abandonar.

Tanto um quanto outro escapavam. Ela sabia de que. Sabia a quem amava e com quem se casou. Ele não sabia. Amor e casamento não eram palavras adequadas para definir qualquer
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coisa na vida dele. E todavia amainou a febre de Alice. Coisa que nem Meereshimmel em seus melhores momentos conseguiu. Não seria inverossímil que fossem aqueles vultos à sua volta anjos de sonho protegendo sua nova existência quase missionária?

Em algum momento ela sentiu que ele estava chorando. Que ele estava chorando por dentro. Pode ter sido quando ele abriu a porta e eu vi toda a sala e a janela no lado oposto. É. Foi exatamente naquele momento. Mais tarde ela saberia que era ali que ele costumava ficar horas e horas. A casa de um homem, a porta fechada e nenhuma implicação. Cheiro de homem, de coisas de homem, de casa de homem. Agradeço por você ter vindo, Alice, gostaria de saber o que dizer agora, mas não sei. Tenho lido, buscado, pesquisado, tenho tentado entender. Chegara a ensaiar. Alice, eu. Sabe, queria. Quando vi você pela primeira vez. Branco branco. Branco. Alice... Alice... Inútil insistir. Tristeza. Frustração. De novo? Não.
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Dizer a verdade toda. Que não sabe o que dizer. Mas há alguma coisa a dizer. A viver. Não para ele, não mais. Então. Leu livros e livros, ainda no sábado passei a tarde e um pedaço da noite na biblioteca e não descobri. Ela respondeu que sabia ser algo assim. Que ele estava chorando por dentro por ainda não saber, ela sabia mas não disse. Apenas sorriu e se sentou. Ele pegou um copo de água e colocou na frente dela. Estarei por perto quando você descobrir. Quando realmente souber. Estarei aqui quando precisar. Ele continuava chorando e rindo por dentro como se os fenômenos do dia estivessem se transportado todos para dentro dele. Tocou a mão dela quando soltou o copo. Olhou nos seus olhos. Há algo. Liberdade. Significado. Profundeza. Alturas. Levantar de manhã. Não sabe ainda dizer o que. É uma procura – não sabe do que. Eu sei – disse ela. Vem aqui na janela um pouco – ele pediu. Debruçaram-se. O sol se punha na vermelhidão do céu. Estavam próximos a ponto de sentirem a presença um do outro sem se tocarem. Ela nunca esquecerá esse
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momento. Será a primeira coisa que dirá à senhora na praça. Uma vez um professor pediu para que eu fosse em sua casa e ficamos debruçados na janela até a noite descer dos céus. A mulher olhará para ela sem mover um músculo que denotasse sua incredulidade. Precisava apenas falar. Foi ali que tudo começou se é que se pode dizer que tenha havido um início. Se é que não estava escrito. A primeira e última casa em que ela viu uma lareira. O fogo teve seu papel para que a memória de Alice guardasse tanta intensidade. Como se fosse ontem, disse ela. A mulher sorriu e disse que era uma bela história.

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Conforme a voz estão aterrissando em meio à calma teatral do ambiente temperado produzido sob o som das turbinas. Diferente e igual entre os demais passageiros ela procura fazer as coisas de acordo com os demais. Permita-me que eu te ajude, diz outra aeromoça. Ela sorri. Afinal não está só. Uma amiga de infância vela por ela todo o tempo das nove horas ao longo da viagem. Quanto a ele, chegara à cidade no dia anterior. Não fala o idioma local portanto pode se dar ao luxo de enfim parar de estudar e trabalhar como sempre sonhou. Ajudaria o pai. Sobre a bicicleta sente grande alegria entre as árvores do parque. A humanidade não poderia ser assim feliz? Ela estava inquieta. Um amigo lhe disse que tranqüilidade contém felicidade. Esse tanto ela não usufrui. Ao telefone manuseia ansiosa a sua agenda. Uma amiga recente. No começo do inverno, nas longas noites de sua procura, lá está ele ao gélido luar perguntando e correndo ao pensar tê-la visto.

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Quem está entre um lugar e outro sem ciência de como as coisas se constroem e cristalizam, sozinho, sem esse amparo geralmente falso que são os outros, de onde menos espera aparece a paz. Esperança de uma cidade nova. O hoje finalmente sendo também amanhã. O doce chegar. Não estará mais procurando: saberão do que é capaz. Precisa agora comer alguma coisa. Sanduíche com refrigerante bastará. É tranqüilidade também não estarmos prontos para o inesperado. Os murros na porta da amiga. O namorado violento. Por favor, ele não deve saber que estou em casa. A progressão das batidas repercutindo no coração. Esconda-se, diz a amiga. Atrás do horror de testemunha. O rapaz está deslumbrado com a casa do tio. Da vidraça do andar dá para ver toda a cidade, ou quase. Gosta dessa hora da tarde em que a vida se amplia em torno abrigando o tempo e o lugar como se nos pertencessem. Um anoitecer iluminado, oriental, de calçadas limpas, diálogos chiados e prédios baixos não distantes das
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praças do shopping. Que céu! Não há nada semelhante em sua vila. Acho que a tal sala onde guardam as bicicletas é por aqui, pensa ele enquanto imagina quanto o tio pagará de aluguel. Nesses passos escuta os gritos. Os mesmos que do closet a recém-chegada. Se outros no prédio estavam ouvindo, fingiram que não. Um longo percurso até perceber de onde vinham. Gritos são rasgos na alma. Quando se aproxima, o casal está saindo. O namorado leva a jovem para o carro. Entre ameaças e juras de amor chegarão à joalheria. Chocado e sem ação ele percebe: ainda há alguém no apartamento. Está chorando. Curioso, diziam. Ele prefere pensar que é preciso estar atento. Mas não agiu quando viu a jovem visivelmente oprimida quase arrastada para o elevador. Agora tem outra chance. Ela escuta as batidas e instintivamente se apavora mas logo entende que é outra pessoa. Desculpe, ele diz quando ela abre. É que lhe pareceu haver alguém ali

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chorando. Disse isso percebendo que era ela mesma. Suspiro. Silêncio. O que aconteceu? Usufrui cada detalhe da dicção da professora. Entonações evocam anjos. Sabe que ela acabara de chegar. Veio de avião. Para a casa da amiga. Fazia um treinamento numa empresa de aviação. Mal chegara, o namorado da outra apareceu, sabe, justamente quando ela estava me contando que precisava descobrir um meio de se livrar dele para voltar a viver. A professora disse isso sem perceber que falava de si mesma. Precisava encontrar alguém com quem partilhar a vida. Sentia-se insuportavelmente sozinha. Lamentava ter magoado Sonja com seu marido. Um homem tão bom. Depois dele ninguém. O que farão agora? O elevador pára no andar de cima. Um toque de campainha. Amor, esqueci a chave! Não: dois, três toques. No segundo, eles já não escutam.

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O que poderia haver de tão especial em Haimeard e por conseguinte no relacionamento deles? Ele estava longe de ser alguém excepcional. Mais perto do contrário. Comum. Em tese deveria causar a ojeriza maior de Sonja. Então o quê? Quem entende o coração humano e o coração humano quando o ser é uma mulher? Os homens, nascidos de mulher, com a mãe boa parte da vida como protagonista, vivenciam isso. Não poucos casais cuja permanência se dá pela qualidade das relações sexuais. O resto se suporta como coisas irrelevantes. Importa que esse fogo não se apague. O sexo que não é apenas o sexo, mas revela lugares profundos de um no outro, lugares a que raramente uma pessoa comum tem acesso. Muito menos o concede a uma outra. Eis a razão: uma mulher escravizada a um homem pelo sexo estará submetida nas outras esferas.

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No dia em que chegou à cidade, estava muito abatida. Gastou todas as forças sobrevivendo socialmente em meio a homens e mulheres. Dizem que é o normal. É dizer que ela não é normal. Naquele dia devia morrer sozinha como tinha que ser – sozinha como sempre viveu. Uma mulher ainda bela. Alguns dirão ainda jovem. Mulher com um passado. Cujo futuro não compartilhará com os contemporâneos. Entrando com a criança pela avenida principal da pequena cidade irradia placidez. Olha tudo como se nunca nada tivesse visto. Carros. Casas. Pessoas. O céu e o sol. As árvores. Uma igreja. A velha senhora fala sobre o quão agradável é o ar matinal no início da primavera. Estavam sentadas no mesmo banco. A menina brincava pela praça. Conta a história de sua vida. Pela primeira vez o fazia. As omissões que enriqueciam a trama não eram propositais. Algumas coisas esquecera; outras não julgava relevantes. Não disse, por exemplo, que Bianca não era sua filha. É uma bela história, minha filha. Alice sorriu. Sempre
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desejou ouvir que a sua vida dava uma bela história, muito mais que escrever um poema sobre ela.

Ao atravessar a rua se deteve. Olhando-a já de longe a mulher pensou Que linda moça. Pena que um tantinho mentirosa. Talvez nem regule direito. Mas a beleza é inegável. E até a simpatia, a sagacidade. Atravessou. A mão bem pegada à mãozinha. Passará logo na loja e comprará o presente pelos sete anos. Sente-se quase normal. A senhora deve ter pensado que ela não batia muito bem e decerto inventara a maior parte daquelas coisas. Capaz. Estar na casa de um homem, dormir sob o mesmo teto e nada acontecer. Em meio à saída de escola e de expediente, se dava o que acontecia com Savone de madrugada: ver a vida com uma grandeza que a maior parte das pessoas desconhece. O reconhecimento de algo que precisa ser desenvolvido a partir do êxtase, não desvanecer ou amornar. Um carro assovia. Ela riu ao pensar não ter mais idade mas a
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insistência do assovio repetiu que sim. Mais talvez do que quando muito jovem. A menina perguntou: Tia, por que ele está assoviando? Alice olhou-a e viu Sonja e o ônibus e a paisagem correndo à janela. Meu Deus, como o tempo passa.

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Chegou ao apartamento de Meereshimmel. Essencialmente alívio a entorpecia ali parada vendo-se no espelho branca como um fantasma e logo não mais se vendo mas a ele, sólido na frente dela. Ocultando-a de si mesma e começando a se revelar. Mais que alívio. Para sempre. Sacudiu a cabeça imperceptivelmente ao tomar consciência da respiração de Bianca a seu lado. É tarde. Vou perder a hora. Nunca foi santa, não é o que pediu a Deus. Mas leal sim. Bem, estou pronta. Vamos, Bianca. O metrô sempre cheio. Rostos amargos ao redor. Vida é trabalho, não é isso? A rua florida. O porteiro lhe dirige os olhares de sempre e não abre o portão. Senhora Martha? Sou eu – disse ao interfone e a porta se abriu. Mais que alívio, pensou ao esperar ao elevador. E o que senti no tapa longe de raiva. Faz tanto tempo. Como o tempo passa, ainda pensava quando abriu a porta já no andar da senhora Martha Pöbel.

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Então o senhor Pöbel entrou no prédio. Esquecera as chaves. Ainda ouvia o gemido enferrujado da dobradiça quando deparou com a nova empregada e as lembranças de ambos se fundiram numa mesma memória a princípio abrasada, logo serena. Tudo se esvazia com o tempo. Ainda assim. Instantes em que comungaram as mesmas imagens. Uma mulher vivida agora. Ele tinha sido mesmo um homem atraente? Ontem uma tentação para a adolescente e para o homem maduro: ecos distantes da carne hoje nos dois amortecida. Sangue em mornos labirintos.

Quando a viu, Meu Deus, pensou, não posso mais viver assim. E como os olhos de Alice menina estão distantes ele imagina que ali existe apenas o seu problema e não conseguirá evitar. Passa por esses conflitos e a segurança material os alimenta embora se julgue maduro e seja tido como um exemplo de sabedoria. A jovem do mês anterior estava certa quando o alertou quase como se estivesse vendo a
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situação de fora. Você é um homem bom e acabará arruinando sua vida porque é o que as pessoas fazem, ninguém usufrui de sua bondade mas todos estarão a postos para o acusar. E mulheres como eu gosto de pensar que sou estarão na linha de frente, não haverá misericórdia. Estava certa e não estava. A presença da empregada o declarava. Alice era toda bondade e talvez estivesse até grata por ter sido Darken e não um cafajeste, que à época não saberia discernir.

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Quando o despertador tocou a cidade azul com pontos amarelos apareceu na janela. Parou a campainha com a mão direita azul como o quarto. O silêncio abriga a respiração e as pombas. As mãos pousam no rosto e os dedos nos olhos em meio a um bocejo contido, movimentos pelos quais Darken, pela primeira vez acordando a seu lado, se apaixonara. Como a seduzira tão facilmente. Ele que nunca fora bom nesse tipo de coisa, apesar das tentações, graças a Deus. Ela aproximou a face da janela como um cãozinho temeroso cheira a chuva para captar a lembrança. Adolescência – época de divindades e bestas. Mais tarde na porta do apartamento, olhando a empregada, ele percebe o quanto ela envelheceu. Talvez mais que ele. O quanto deve ter sofrido. Se é que a dor envelhece. Está pensativa agora, sentada na cama. Cedera tão facilmente. Mas faz tanto tempo. Virgindade não há mais, mas sim o sangue. Cedi fácil demais. Como era ingênua! Um dia mais cedo ou mais tarde todos pensamos
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assim. Os maus e os bons. Todos atribuem à passagem do tempo essa duvidosa virtude de nos tornar realistas. Entreolham-se e retornam à mesma lembrança. Com poucas modificações foi a cena do amanhecer de hoje. A cidade azul. O quarto azul. Alice esfregando os olhos. O que até ali era um vício (há controvérsias pois aqui não haverá síndrome na abstinência, antes um desconhecido bem-estar) se cristalizou no fundo dessa xícara, a alma. Depois naquela manhã Alice saiu de casa e entrou no azul mais claro cada vez, de pontos amarelos menos brilhantes cada vez. Levava Bianca meio adormecida nos braços. Os passos ecoam na calçada como um reloginho ignorado. A cidade não é grande mas famosa pela qualidade de vida. Uma das primeiras da região a ter uma creche. A tia deixa a menina com a outra tia. Deixa, com o coração apertado. Nesse momento ela é a mãe, com todos os direitos e todas as dores. Bianca despertou e está chorando. Alice aprendeu que é melhor que Gracile a acalme. Não, não; não chore. Mamãe
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virá te buscar de tardinha, você sabe. Hoje tem aquele papá que você gosta. Hoje a gente vai brincar de. Uma vez Gracile imaginou uma criança dela. Esqueceu. Do jeito que era desastrada com as próprias coisas. Um bebê! Medo só de imaginar. O namorado também deixou claro que não queria. As crianças dos outros passaram a bastar. Encarou com valentia esse último tabu: uma mulher bonita que amava crianças mas não queria ser mãe e ponto. Ainda jovem e nem mais desastrada porém nunca mais gostou tanto de alguém a esse ponto. Depois que soube que ele havia morrido e desistiu de formar família. Sua família ali na creche.

Alice aperta o botão do interfone outra vez e agora Martha atende e ela entra. Depois o senhor Pöbel. Ela acha ao vê-lo que está envelhecida pois ele não mudou nada. O que foi querido, você voltou? Esquecera as chaves do escritório. O carro amassado. A mulher grávida. A jovem mãe. É de você que Martha fala. De como é uma mulher virtuosa. Uma mãe
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extremada. De você, imagine. Se ela soubesse. Mas aí está você em silêncio, virtuosa sem dúvida. Porque tenho condições perfeitas para ser vítima de chantagem. E aqui estou em silêncio te dizendo que sei que não fará. Está em seus olhos. O olhar de Alice está mudado, pensa Darken. Com ela aprendeu. Impotência pode ser circunstancial. Quanto economizou em comprimidos e poupou a saúde. Pela aparência fogosa de Martha e pelas revistas femininas espalhadas pela casa ensinando a como obter mais prazer, pensa Alice, ele sem dúvida deve ter se curado. Pode ser porque da primeira vez tenham tomado muito vinho. Meu Deus, há quanto tempo!... Estava com a mesma roupa do dia há muito tempo, pensou ao abaixar a cabeça no sorriso tímido. Pediu licença e foi para os fundos do apartamento. Sim, o tempo passou. Sua passagem está escrita na gola puída da bela blusa quando ainda branca e nas cores desbotadas da saia.

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A mesa lembra um lago. O sol na torneira do tanque transforma a lágrima em gota de orvalho. De passagem, pôs água para ferver. Faltam cheiros àquele mundo. Casa linda e asséptica como a patroa. Abre o pote de café. Aos poucos é sua casa, sua vida. Escapara do mundo e deixara de ser relevante onde estava ou como se sentia.

Soluções poéticas. Ela não consegue lhes dimensionar o valor. Terão algum? Alvedrio literário. Aceita verdades que a realidade recusa. O que alivia a tensão, como passagens espirituosas, na vida real não terá qualquer graça para quem vivencie episódio semelhante. Cada vez mais se convence de que a única atividade sagrada é a do trabalho doméstico. A mais próxima de qualquer ideal de faina porque se basta em si mesmo e como princípio econômico não é um meio de sobrevivência. Seria possível admitir a dignidade do trabalho assalariado para uma doméstica enquanto para um escritor, ou professor, ou crítico, ou
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jornalista, a coisa não será tão simples. Porque, pensava, não se pode pôr preço para tudo. Concessões são necessárias e o que foi sua vida até ali senão uma grande concessão? Mas não admitirá nada além. É livre porque admitiu a transitoriedade. Não chegou ao fundo do poço porque não há. Tampouco um alto dos céus. Os próprios enigmas são um tipo de ficção – um recurso poético que não se liga à verdadeira vida. Tudo o que existe é mudança. Oh, alegria da mudança, você, que não muda, fique comigo. A renovação mesma antes que aconteça precisa da destruição do que antes existia. Quando o erro leva ao desastre, se ainda houver uma réstia de vida e vontade, o campo está pronto para ser semeado de novos tempos.

Não sabe onde começou. Súbito, de algum ponto de si mesma, de sua trajetória de vida, houve a destruição. Dos entulhos renasceu. Ora pássaro, ora fogo, ora mulher. A nova casa construída não do conceito de conforto mas de perda e sacrifício. Das ruas em que andou. Das
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casas em que entrou para zelar. O brilho da mesa de café na cozinha. Um espelho em forma de L. Os armários luzentes guardam irrepreensíveis louças e talheres. Com grandes olhos atentos escuta as recomendações da senhora Martha. Não sabe mais quem foi um dia – um rosto que se esquece ao deixar o espelho. Ela própria uma casa com paredes espelhadas. Não sabe mais. Exceto por eventuais referências. O primeiro amor. O beijo abissal. O homem. O pai. A filha (que é sobrinha). O que não foi destruído pelas tormentas é forte o bastante para servir de apoio no tempo que restar entre o gozo e a agonia.

A porta ecoa pela casa. O casal saiu. Na luz que entra há prenúncio de tempestade. Bianca tem medo de trovões. Um coração confrangido e logo um choro. Quarto de criança. Filha de Darken, imagine. Terá saído um bom pai? Se levantará à noite para dar uma mamadeira ou ver a razão de um choro como outrora fantasiara? Caminha pelo corredor ressonante.
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Entra. Demora-se não muito, o tempo do choro parar. Deixará o jantar pronto. Deverá ser reaquecido se vierem almoçar, diz no bilhete. Amanhã precisa faltar.

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Sentada à escrivaninha, um coque de cabelos negros luzidios contra as fotos iluminadas no mural, ela via os registros inelutáveis dos momentos com Meereshimmel nos passeios de bicicleta pelo parque e pelas ruas planas ao redor de onde era possível sentir a refulgência da miríade de pontos nas águas do lago em meio a bilhetes e contas e canhotos de entradas de cinema que ela fixava com a paciência do novo ser herdado após os tempos maus enquanto a porta se abria e em seguida novamente se ouvia o ruído acompanhado de um leve tremor nos papéis pelo qual ela soube que ele trazia mais uma caixa de livros para o apartamento batido pelo sol da manhã segurando-a com as mãos e equilibrando-se em um pé para amortecer a batida e juntando ao som seu próprio gemido numa manobra que aos ouvidos dela soava altamente erótica e as fotos eram vivificadas, renovadas por câmera mental muito mais confiável, infalível como o próprio sorriso de Alice ao agradecer. Acho que são
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todos, ela disse, só não sei onde poderemos colocar – prevendo que no dia seguinte uma loja de móveis bateria à porta para entregar estantes novas, exatamente o que ele pensava ao se postar diante do ventilador, o suor gelado lembrando muito seus mal-estares porém assim era agradável, entendendo mais uma vez além do testemunho da nova vida que deveriam começar a partir daquela noite que o abismo e o paraíso estão muito mais próximos do que se imagina, o que será confirmado quando ela se afastar do mural e levantar e se aproximar para se sentar ao lado dele na cama dizendo-lhe o quanto ele cheira bem ao que naturalmente envaidecido ele projetará nas palavras o óbvio, estava todo suado – as mãos dela dentro da camiseta sentindo a afirmação, melando-se, insistindo que não precisa quando ele diz que vai tomar um banho antes, não precisa, repete, fechando a cara de brincadeira num ar teimoso que se tornava feliz ao alcançar alguma coisa sob o moletom – ele também levara a própria mão à paisagem anoitecida sob a calcinha como
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uma terra a ser preparada para a época do plantio sob os intermináveis temporais da juventude que parecem se alongar quando a juventude se aproxima do final. Agora. Amanhã poderá ser tarde (certeza com a qual aprenderam a conviver). Um dedo ameaçando alguma coisa mais licenciosa mas se mantendo romântico em meio às risadas. Sonja era a casa na rocha mas se Alice não foi jamais a tempestade isso se deu não por esses fortes alicerces mas porque era ela a flagrância da liberdade assegurada em algum lugar fora do mundo. Quem saberá amanhã se esses foram os dias da plenitude deles, o que será atestado por vizinhos como as risadas e os gritos, os gemidos que desde a batida da porta haviam se transportado para uma outra, imensurável e romântica (ou obscena?) dimensão.

A caminho da creche Alice se deteve numa esquina esperando a passagem de um

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caminhão. Nunca vira aquela casa. Uma igreja. Como se multiplicavam! A verdade que liberta não é religiosa. Soube-o por meio do professor porque sempre o soubera. O caminho é como ruas assim dobrando nas esquinas mais improváveis por obra da mão do trânsito ou da hora do compromisso. De súbito eis o momento crucial até ali clandestino rebentando como a onda que cresce demais e assim tarda para quebrar o tempo proporcional à sua grandeza ocultando o horizonte para devolvê-lo mais belo e imponderável – o instante vivo que nasce magnífico de seu recôndito em cada um, atrevido porque indispensável ainda que por tanto tempo sua ausência não tenha sido sentida. Faminto, primitivo e brando. Pacificador. A revelação se dá junto ao vigor e à inocência, ao espanto, como dizia o professor a quem o ator na capa desse filme tanto lembra. Gostaria mas não pode alugar o dvd. Devia comprar um aparelho. Sempre sobra um tempinho em seu dia cheio. A devolução no dia seguinte é que é o problema mas dá para copiar
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e ficar com a mídia para uso pessoal, ainda não é crime, crime é o preço que o comércio do entretenimento pratica. Entretenimento? Um filme assim denso parece próximo desse predicado que faz com que a morte adormecida se alastre até o ponto em que tudo se encontre embebido da noção mais nítida de transitoriedade. Prisão adornada. Em última análise, a própria ciência de tudo em que consiste a vida – o contrário de entretenimento portanto, pensava, quando o olhar do atendente da loja a fez seguir e sem perceber apressar o passo – tipo da resposta inconsciente que o corpo dá a uma sensação ainda vaga. Um desejo anterior à vontade. É melhor pôr Bianca para dormir e descansar.

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Que poder concede essa tranqüilidade em hora terrível? Por que ainda ama, como se não tivesse vivido numa esfera acima inclusive do amor? A dimensão em que voltando de um sonho no qual se morreu em pleno êxtase da carne continua-se vivendo sem que o sonho nos abandone. Êxtase! Trevas e sombras. Gemidos. Instantes diários na ultravida! Meereshimmel a via dormir naquela manhã. Passou os dedos na mecha de seus cabelos tirando-a de sua testa. Sonha os mais doces sonhos. Quem poderá dizer que não sejam doces os sonhos em que já não é neste mundo que se vive e num momento de arrebatamento se trocou de domínio? Ele a amava. Não imaginava ser possível. Pensando num mal-entendido quando olhou para ela dormindo. Descobriu nessa segunda noite que precederá a mudança o que foi abandonado na primeira quando a abordou sem impedir que buscasse a guarida de Sonja, impraticável depois daquele beijo. Mas quem descobriu? Talvez o professor Savone com o discernimento que nem seria preciso ao ouvir de um ou de
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outro o episódio. Então o crepúsculo à janela se tornou agonizante e febril. O mesmo do sonho de Alice – cheirando a húmus e menina. Solo fértil do desejo apaziguado. Luz morna traceja o rosto sereno. Guarda o gozo e a morte. Os lábios vaporosos e a frase ininteligível. Ela começa a se espreguiçar. Ele, que à janela se exercitava, aproxima-se. Alice? Das profundezas de um mar improvável chegaram as vozes. Ela se assusta num primeiro momento, depois escuta um som familiar e sorri aliviada. Nos dias que se seguiram, as vozes voltam. Permanecem. Em cada crepúsculo devolvem o sonho em extraordinária imprecisão. Acreditarei um dia que vivi esse momento? que ouvi essas vozes? que estas lágrimas fazem sentido? Isso ela pensou ao sair da casa de Darken e Martha. Nem precisa responder. A paz encontrada tinha a ver com o sonho, as vozes, com Meereshimmel e Savone, com os gritos do passado que acusavam o mundo e a benignidade com que o perdoou.

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Vive nesse apartamento há dois anos e meio. Privilegiada. Escapou da sorte infame das pessoas que trabalham muito e moram mal. Parte do dia que anseia. Recostar a cabeça no travesseiro e relaxar. A respiração da menina a seu lado acompanha os pensamentos ondulados pelo colchão. Seu mundo anterior está destruído. Ela igualmente. Não mudou: morreu. De outra forma, como ajustar a juventude à sabedoria da passagem do tempo? O mundo e seu mundo se tornaram uma coisa só. A vida e a morte. A senhora Martha ao revelar a doença de Darken e seu sofrimento permitiu um pensamento até então interdito. Sabia da gravidade do estado da mãe e do que causava em seu pai. Dimensão de alma em que se refletem luzes de nova consciência. Sol numa casa de praia em que as janelas imensas estão todas abertas. Podia ser feliz. Podia ser qualquer coisa apesar da dor humana, que era dela também. O vizinho grita. A mulher devolve a justificativa perfeita para agir como agiu. O vento levanta as cortinas e na janela nasce o
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céu noturno. Alguém canta na rua. Antes do êxtase, o temor. No silêncio do adormecer, sabe. Depois de muito tempo entre tantos homens, a companhia de um único permitiu que ficasse enfim a sós consigo mesma.

Ananda saiu do hospital faz sete dias e Öffner ainda não passa de uma criança assustada. Que alívio ter ela sobrevivido. Dizem que foi um milagre. Pouco ouve a respeito das razões que a teriam levado àquele ato. Levantou. É quase de manhã mas não há indício exceto talvez pelo eco do copo na pia e indecisos passos no corredor. Terá ela voltado ao trabalho, imagina. Ouve o seu nome. Öffner? Sai e a escuridão torna-se mais vívida e tolerável embora não menos densa de quando a realidade se destaca do pavor. As flores lentamente tornam-se visíveis. O aroma delas, a atmosfera respirada. São as flores que ladeavam o caminho pelo qual passaram

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naquele primeiro dia. Ela pergunta e ele responde com um sorriso indulgente. Demorei? A mão toca-lhe no ombro. Suave e fria, branca a não ser pelas veiazinhas azuis. Imerso no mesmo silêncio em que sonhara, continua ali a filha do sonho e parte mais pulsante da vigília. A divisão entre os apartamentos perde a razão de ser quando voltam da caminhada quase ao meio-dia. Brilham os corpos sob as camisas finas. Há uma biografia e está em seus lábios – uma nova suscetibilidade na ponta de sua língua. Não esperar que a luz seja estável em seu movimento pois num momento você vai a seu encontro e noutro retira-se no sentido inverso. O mesmo movimento e a mesma luz – não dependem dessa sucção ou desse polimento. Um olho mágico. Posso por isso decifrar o mistério desse muro erguido do nada, sei o segredo, está aqui, na magia de nosso contato. Mas estou inquieto com a forma como seu contorno se torna fosco e a aura das flores imerge em denso nevoeiro. Se evade, e eu não
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consigo pensar o que devo nem dizer a palavra. Ananda, flor de luz pela qual reduzi minha vida a uma doce escravidão. Não pode partir assim e me deixar órfão outra vez. Ananda, Ananda. Öffner ouve a alma lacerada. Espaço e tempo se expandem. É a fuga da noite que se transformará em realidade no apartamento vizinho. De joelhos. Ananda. Santa, inocente. Esses dedos deveriam ser os meus a retirar santidade do ícone. Essa boca deveria ser a minha a buscar as gotas entre os bancos do templo espargidas. Engolir o poder eterno desse desvio para o azul. Um olho mágico cruel. Os pais estão chegando. Continuam naturalmente arrasados. Soube que havia muitos amigos na igreja mas nunca onde foram jogadas as cinzas. Não faria a menor diferença.

Mal pisa e sim flutua sobre o tapete escurecido quando os dedos gordinhos são guiados aos sapatos desertos. Brancos de fivelas prateadas. Que recebem com cerimônia os pés pelo sono enlanguescidos. Ao ajustarem
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a meia elástica as mãos acarinham a panturrilha sob a luz que reconhece o forro multicolorido da poltrona. Sem hesitação pisaram esses pés pela primeira vez naquela casa. Mais tarde porém quão receosos. Dedos no botão do velho aparelho. Unhas que não mais se pintam. Música clássica calma envolve a criança deitada sobre a cama. Contorno dos móveis. Silhueta dourada e cheia no espelho. O último e casto botão sela o pacto com o dia exceto pela alça íntima que insiste antes que chame a menina. Bianca, está na hora. Bianca, filhinha, vou fazer o café. Alonga o pescoço. Em meio ao amanhecer do bairro onde Meereshimmel não mais habita. A anágua retrata uma época e lisas ondulações brilhantes acarinham as pernas. Bolinhas multicores e linhas de pesca. Não poderia – não poderia! – reclamar jamais da sorte. Viveu por alguns meses um amor verdadeiro. Lícito! Não poderia se queixar. Não bastasse, num repente, o professor. Não abandonou a vida, transformou-a.
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Recosta-se e abre o livro. Fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia de vida exterior. O ar cortado pelas cigarras recém-chegadas do fundo da terra dividia a madrugada embebida em barulho de mar. Tornava-a multíplice em sua lucidez dilacerada. O mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto. Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenho aos pés da freira no colégio; o raio lunar em que nasce o cântico das contrações retroage à primeira varanda ao luar, à madrugada em que a menina sai à luz vinda do ventre de sua mãe. E como ouvisse do lado de fora céleres os morcegos, ao som da inspiração profunda ansiou a antiga liberdade. Coisas que ela mesma poderia ter escrito.

Meereshimmel preferia que ela não tivesse vindo. Mas o que pode fazer? Cerca de um ano depois antes, a encontrou vagando na cidade à procurando da amiga que mal conhecia, sem ter

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para onde ir. Agora tem. Ao menos acreditou que sim e ali estava. Está escrito nas paredes chispadas de sombras.

Está viúva há não muito tempo e ela se sentia de certo modo culpada. Há não muito tempo Meereshimmel soube do caso da mulher. Impediu-se de qualquer palavra de acusação. Se ela mesma não tivesse pedido o divórcio ainda estariam juntos. O homem com quem se envolveu (culpa que o próprio Meereshimmel se atribuía) na consumação de um sentimento antigo – seu próprio irmão – estava morto. De resto, se alegrava em dar à ex-companheira uma vida digna. Um sentimento verdadeiro um dia os uniu. Um dia. Hoje, a porta do elevador se abre: espelhada, mostra a jovem mulher que ao reflexo dele se uniu. Metálico som profético. Em um ano, quanta coisa aconteceu. Realmente preferia que ela não tivesse vindo. Beija em desespero a sua testa. Alfazema não mais gardênia e um olhar cuja experiência não se acresce de mediocridade. Como me achou aqui
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ou perguntas tais são irrelevantes. Esperava teu olhar e aqui está. Não devia ter vindo mas veio e se alegrará por ela ter vindo e pelo tempo em que ele ainda viver estarão juntos.

Um olhar sobre ela atento. Continuou. Falou então sobre Ernesto Savone. Ele espera que eu escreva com o corpo todo. Com toda a alma. Do jeito que segundo ele eu vivo. Que minha escrita seja uma espécie de confissão da humanidade, de uma parte da humanidade. Algo em que acredita embora seu corpo não o confirme. Não há mais tempo. Arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça, pediu-me. Seu olhar é doce e parece saber mais de mim do que seria possível. Digo-lhe que um dia também acreditei em algo assim. Não mais? – ele pergunta. Não sei o que responder. Estávamos jantando. Ele acabara de pôr a panela na mesa e se sentar. Ainda hoje ando em busca da resposta. Disse-lhe de uma outra forma. Disse que esperava algo mais do

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que escrevia e vivia. Como se ao escrever vivesse e não pudesse viver se não escrevesse. Como se ao escrever já estivesse morta. O olhar dele era atento como se eu fosse proclamar o sentido da vida. Mais tarde me diria que era isso mesmo. O sentido da vida para algumas pessoas. O sentido que tantos procuram na beleza, na arte, ou dele fogem por meio da distração ou do trabalho. O mundo não existe. O mundo consiste das pessoas. Como elas o vêem. Naquela noite ele chegou a ensaiar esse argumento. Naquela noite seus filhos ainda viviam. Mencionou-os uma ou duas vezes de passagem. Mas por que procura essas coisas em mim? Na minha sombra. No meu olhar. Em partes de mim que nunca imaginei pudessem chamar a atenção de alguém. Nos nós de meus dedos. Na minha voz que escutava como quem escuta o mar. Eu sei porque assim passei a também a vê-lo e ouvi-lo. Não. Nunca houve qualquer outra intenção entre nós. Direi com isso que não havia um desejo? Havia sim um desejo mas não tinha relação com a atração,
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com um fim definido e pelo qual em tudo nos enganamos dizendo coisas que não visam exceto a satisfação desse desejo. O desejo que havia, para permanecer, não devia ser satisfeito. “Mãe, eu não entendo”. Então, apesar de todo o amor, percebeu pela primeira vez que as diferenças precisam ser respeitadas. Não é questão de sentimento. O amor pelo pai dela era um autêntico mas diferia em que, exatamente? Também amava sua sombra precedida por passos igualmente amados. E o som de sua voz. E os nós de seus dedos. Mas esse amor era o amor cujo desejo para se renovar precisa morrer ao ser satisfeito.

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Deitada no escuro. Os sons da manhã próxima envolvem a madrugada. Não é possível divisar as estrelas. Pode realizar muitas coisas se não hesitar. Se partir logo. Mas o beijo na avó é indispensável, esperar que ela diga “Vá com Deus, sol da minha velhice”. Esse é agora seu desejo. Um trabalho gratificante. Um cotidiano estimado. Um sentido para a vida. Tudo vívido como uma pintura. Devem ser umas cinco e meia. Com sorte chegará com sol ameno ainda. Não gosta de calor, definitivamente. É mais incapacitante do que sua enxaqueca. Estrada rósea. Reflexos a ladeiam de dourado. Velocidade boa para viajar e um alívio dirigir assim sozinha. Por isso parece ser tão independente: está sempre partindo para que alguém possa fazer algum outro juízo. Não demorou nada. Defronte a um hotel. Parece adequado para a primeira noite. Só não esperava que o tempo fosse virar assim. Uma trovoada. Outra. Precisa correr.

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Um hotel antigo. De boa aparência. Pode ficar a primeira noite. Amanhã consigo uma casa. Não mais que um minuto na chuva. Entrou, encharcada. Hum Énigme falava com o porteiro. Ela chegou por detrás. Ele sentiu a umidade junto à abotoadura. A parte de trás do vestido de Beatrice está salpicada e ele vê que é por causa da sandália. Como quando se anda de bicicleta numa poça. Faz perguntas ao porteiro e acha que uma pessoa educada deveria ao menos ter pedido licença. Talvez ela o tenha feito. Ele estava distraído com a história da moça que chegaria para trabalhar no escritório. Ele na sala de estar vendo o noticiário. Ela falou. Boa noite. Perguntou se ali costuma chover assim de repente e ele respondeu que sim, é uma característica da região. Então calaram-se. Resolveram juntos subir para os quartos. Os lábios dela são convincentes no silêncio quebrado apenas pelos cabos do elevador.

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Ele se encaminha para ver se realmente a chuva parou. Beatrice ainda não sabia que seria seu chefe e que assim que estivesse se estabelecido sua mulher viria também. Tudo o que sabia dele resumia-se no dorso cujos músculos eram visíveis sob a camisa e a pele queimada com que a luz da janela se chocava. Vira-se. O beijo até então contido. Há uma fronteira que os iniciados em Beatrice nunca passaram. Disposta a que afinal aconteça. O que esse homem tem de tão especial para tanto? Algo que não sabe bem. Diz a si mesmo que prefere não saber. Que seu casamento é sólido. Que é a primeira vez. O que não impede que o sentimento transborde limites determinados apesar de insistir que ela é vulgar por ter se entregado tão facilmente. Beatrice imagina a lua lá fora enquanto ele dorme. Um dia inteiro. 24 horas. O tempo em que está ali. Parece uma eternidade. Amor e trabalho: estrutura da vida. Um mandamento divino partilhado por toda a terra. Uma coisa sagrada. Durante o café na mesa da cozinha
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quase caseira lá embaixo ela estará pensando no quanto havia de luz naquela proximidade de manhã. Uma luz avassaladora permeando sua insônia num momento em que deveria estar entorpecida e satisfeita. Mas não. Estava desperta e ansiosa como se em si mesma houvesse um pouco daquela escuridão prestes a ser dissipada pelo amanhecer.

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Digita a senha no caixa eletrônico. Devia ser mais cuidadosa, pensa, ao manusear documentos na bolsa aberta. As preocupações mudam apenas mudam nunca terminam. Uma vez sonhou que ele ressuscitara. A aparência mais jovial do que nunca. Elegância sóbria aureolada pelo cheiro de sempre – banho tomado acrescido do hálito desejável. Lenta sublime respiração. O tempo cura tudo e transforma o que não pode curar.

Aura luminosa contra a vidraça do banco. Busca sem saber o que a não ser que tem a ver com vozes que se recusam a calar mesmo não sabendo o que dizer ainda que amando o silêncio. Mulher única. Ele mal percebeu da primeira vez. Aquela por quem sempre procurou. Melhor estar só. Agora ali de novo. Recebe na testa o seu beijo. Deveriam viver juntos. Por que não? Não seria tanto tempo e a susteria nas épocas más do futuro. Seria transformada – ou curada? – pela lembrança do filho e pela sabedoria do pai. Ele estenderá a
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mão no leito de morte. Ela a apertará segurando-se à salvação. Não fale, dirá. Não se esforce. Mas sabe que chegou a hora. Savone vê a cena da porta do quarto. Um pungente sorriso. Olha para eles, para ela. Talvez entenda. Visão de sua semente, das árvores futuras, das asas, do coração da noite. Não há desinteresse nessa abnegação. Precisa dela para sobreviver seus últimos meses. Não há desinteresse no desinteresse mas sempre algum interesse por sutil que seja envolvido.

Meereshimmel e Alice se reencontram. Ele divorciado, ela viúva. Beijam-se. Não se põe mais a questão se ela devia ou não estar ali. Está e estará por quase três anos. Durante esse tempo pouco escreverá. Vez por outra ele entrará e ela estará diante do computador traduzindo alguma coisa para enviar antes da noite. Ela lhe pedirá apenas mais uns minutinhos com um sorriso irresistível. Ele responderá que não se preocupe. Que faça de conta que ele não chegou ainda contemplando o
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ar sério e sexy que o cabelo preso, o coque e a concentração no monitor lhe davam. Não se esquecendo totalmente do avanço das negociações para a venda e todavia era como se já tivessem sido consumadas: a visão dela ali se perpetuando após a morte dele. Sem preocupações materiais e portanto com tempo para a saudade que de algum modo o eternizaria enquanto ela vivesse.

Quando chegar a hora sobre o assoalho reluzente iluminada abrirá os braços e aspirará o dia. Uma mulher como qualquer outra contra a opressão com a qual cooperava. Não percebe o paradoxo. Ao perceber, precisa mudar. Nada de publicação ou de morte. Estarão juntos. Fases da lua após fases da lua. Beijos perfeitos se sucedendo. Dia após dia olhando para além dos dias. Êxtases interrompidos e retomados no tempo que para tudo há. Aonde irá: questão adiada. Sobre o viaduto respira fundo e olha a cidade. Tudo faz sentido ainda que não saiba tanto assim. Pirilampos no primeiro dia. A
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lágrima da primeira chuva de outono no rosto da estátua. Não vou mais chorar. Não tenho por que chorar. Frio e chuva. Gosta do inverno por serem dias frios de sol. Não importa. Não tenho por que reclamar. Chegará o tempo frio e seco Subiu a rua até a igreja e não vou trocar ceticismo por um teto e um prato de comida regado a um sermão sobre o amor de Deus que é igual ao dos homens movido a interesse. O homem andava ligeiramente adiante da menina. Tiraram juntos os casacos e num baile de tecidos esvoaçando deram um beijo. Ele colocará o agasalho na mochila e ela enrolará as mangas compridas na cintura e tornarão a se beijar com as ousadia das mãos livres. O trânsito está em seus pés. Um ônibus. Um caminhão. Um veiculo mais leve, desses que costumava amar. O casal retomou a caminhada de mãos dadas agora seguindo na direção do metrô. Um olha para o outro e ri e o outro devolve a risada. Jamais Haimeard e eu rimos na rua. Ela ergue a cabeça e deixa com o homem à

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janela apenas as luzes da cidade e as estrelas através da vidraça.

Há uns tempos tiraria uma foto com o celular e postaria na rede para criar um significado. Agora, estar ali transcende essa presença. Hirta como o viaduto. Sombra se derrama na calçada e tinge as pedras do tênue acinzentado que faz a curva dos seios no tremor da blusa. Movimento de pintor. Morena como nunca foi. Deliciosa, segundo o pedestre que passa por trás. A rua se alonga ante seus passos na descida iluminada. Depois de pegar Bianca irá para onde, agora que os três estão mortos? Um pai que foi mais e seus dois filhos. Um dos quais faz com que ela ao amor enfim se atreva.

Ali. Sobre a ponte. Vi o mundo que deixava e o por vir. Em pouco menos de meia-hora, como quem passa fotografias de uma mão para outra, pesquisei para saber os passos que deveria dar

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para encontrar Meereshimmel e o que diria. Caminhamos juntos pela noite deserta. Estávamos de braços dados e eu me sentia totalmente feliz. Não sentia qualquer tristeza pela morte de Haimeard. Um homem bom a quem seria sempre devedora. Mas eu não estava triste. Meereshimmel pouco falava e quando o fazia dizia coisas engraçadas, pelo menos me davam vontade de rir, e eu estava adorando rir, rir tanto, rir com tamanho prazer. Ele estava com a barba por fazer. Um detalhe que parecia muito para mim. Era outro homem. O mesmo mas agora o meu amor. Também ele ria e também o riso eu não conhecia em sua face. Tomamos refrigerantes e conversamos até cerca de meia-noite. Foi quando ele me falou de você, Bianca. Você estava com uns dois anos. Não fique com raiva de sua mãe. Por que uma mulher seria necessariamente perversa por deixar a filha com o pai? Sei que ela voltaria pra você se não tivesse sido assassinada. Naquela manhã tomei um susto. Ouvi um barulho e não vi teu pai a meu lado. Ele tinha
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caído da cama. Rimos muito de novo. Ele ficou algum tempo estendido no assoalho e eu com a cabeça reclinada. Não falamos sobre o futuro, jamais falamos sobre o futuro. Tampouco sobre o passado. Um dia perguntei sobre como descobriu meu endereço para mandar aquele pequenino tablet. Disse que não adivinhou. Que deixou com o rapaz da lan-house para que me entregasse. Tinham meu endereço mas ele não queria que lhe dissessem. Você precisa deixar isso de lan-house, disse um dia. Era verdade. Cansei de internet. Pelo menos da internet como a transformaram, um substituto da vida, um exibicionismo coletivo, um lugar em que as relações são assim superficiais. Quem sou eu para que me sigam e saibam de meus pensamentos? se há algum que mereça, não será usufruível em meio a uma avalanche de entretenimentos obscuros. Em meio a essa implacável dispersão. Eu e você caminhando agora em silêncio após a cerimônia em que nos despedimos de Meereshimmel. Você tem nove anos e é uma menina saudável. Logo te perder
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para as mesmas tentações que na adolescência me tragaram. A moça escuta e sente medo da mulher que a criou. Prefere assim. O medo à apatia da sua geração. Esse terror que impulsiona do que simplesmente estagnar. Foi como se naquele dia tivesse sido retomado o dia em que procurava minha companheira de viagem para me hospedar por uns dias. Meu sorriso restaurado. Porque eu desaprendera de sorrir quando esbarrei com teu tio ao esbarrarmos na saída da biblioteca e notei que estávamos com um mesmo título nas mãos. Hoje acho que aprendi que afinidades não levam a grande coisa nos relacionamentos exceto aliás pela própria internet. Acontece, é claro, como o contrário acontece também. Cheguei a temer que se tratasse de um tarado ou coisa assim quando ele se encostou em mim no metrô. Olhei uma ou duas vezes e lá estava atrás de mim quando eu ia para a lan. Meu Deus, era o que faltava... Mas não. Ele foi muito gentil. Ofereceu-se para me acompanhar

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embora não quisesse subir quando sua mãe nos convidou. Entre essa noite e o dia em que jantamos passei uma noite com um homem que dizia me conhecer. De onde? Era um empresário que me vira entrar na lan-house quando ele saía. Um homem charmoso calado porque quando falava só falava em negócios, em como a Grécia era apenas a ponta do iceberg e tudo iria ruir cedo ou tarde, o perigo dos crescimento econômicos acompanhados de perspectivas desmedidas mas ninguém deixa de jogar na Bolsa por causa disso nem de gerar a euforia dos mercados por meios artificiais ou apostar no dinheiro como em tulipas. Que o mundo como o conhecemos pudesse mesmo ruir, pensava, que bom o mais cedo possível, assim cada um se vê diante de si mesmo e o pecado deixa de ter essa conotação despersonalizada de hoje quando há humor de mercado e as pessoas parecem que o perderam, que perderam a si próprias. Bianca pergunta se ela tornou a vê-lo, ao tal executivo, com olhos dum interesse que Alice podia imaginar.
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Albert tornou a ver Alice. Como o mundo é pequeno, pensou, ao vê-la esperar para atravessar a rua principal daquela cidade na praça em que conversara com a mulher. Albert? – disse sua esposa. Tenha respeito diante das crianças. É mesmo uma bela fêmeazinha. Mas olhe pra frente ou além de me humilhar ainda pode bater com esse carro num poste. Então Nastássia se arrependeu amargamente de ter renunciado a seus princípios e feito da aventura sensual uma brincadeira de casinha. O cotidiano tornara o atraente empresário (que a fizera perder noites e noites imaginando como o abordar) intoleravelmente enfadonho – Como ela é execrável em comparação à mulher deslumbrante que conheci e com que me casei. E para tê-la – pensava ainda ele ao escutar a voz que cortava seu olhar terno direcionado à moça vinda da praça – não desenvolvi o universo que me esperava na vida profissional. Olhou para Nastássia e reconheceu o quanto ela ainda era atraente. Ela entendeu e abaixou a cabeça ao
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certificar-se que no banco de trás as crianças dormiam.

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Nunca disse nada do que te digo a ninguém. Falar contigo me faz feliz e agora vejo que não precisávamos ir além. Tudo está nessa correspondência. Estarmos juntos nada acrescentou. Fazermos disso um hábito maculou o que era puro. Responder tuas cartas fez de mim alguém mais confiante; amar você fisicamente e as conseqüências disso me jogaram de novo na depressão que quando você noivou com seu supervisor em muito se acentuou. Não há portanto remédio. Sei que me engano também com essa moça. Amanhã ou depois eu deixarei de existir para ela, se é que hoje represento alguma coisa. Com ela porém as coisas transcorrem de uma forma diferente, o que me dá uma leve esperança que seja diferente. Será na verdade diferente pois nada tenho mais a perder uma vez que não tenho mais nada. Mas além disso há uma busca mútua, o que não existia conosco. Você foi tudo para mim mas eu não era mais que um professor apaixonado que talvez a
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envaidecesse ou simplesmente achava patético, no que não estaria errada. Agora devo te dizer adeus. Espero que seja feliz, Beatrice. De nada me arrependo. Poderia ter evitado uma ou outra situação mas não todas. Fui feliz graças a você.

Sentou-se no parapeito largo. Onde? Talvez no hospital. Lembranças da época fugiam. A memória de seu corpo parece concordar. Sim, no hospital. Ali ficou sabendo a verdade. Que não há uma verdade. Não existe o ser humano fixo sobre o qual nos debruçamos. A passagem do tempo contraria a veracidade definida. Não sabe quanto tempo ficou ao lado de Meereshimmel. Um relógio no corredor branco que não leva a nenhum lugar porque as pessoas são fixas e não se completam mas andam em círculos em corredores brancos agora acinzentados quase negros pela luz apagada – apenas paredes
guardando o cheiro de coisas que não apodrecem como talvez devessem, como talvez melhor, mas se mantém preservadas como a dor que um
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analgésico falseia. Ele perdera a virilidade. Que

amor era aquele? A seu lado esteve satisfeita e de nada sentiu falta. Claro que não é verdade. O corpo se ressentia, algo a seu corpo faltava. Mas não a mim. E o que me faltava não era algo que pudesse receber de outro homem. Então, ao se reclinar sobre ele, percebeu que o professor havia entrado. Tudo cheira a formol. Que fim para um homem que ansiou o aroma másculo de um amor verdadeiro escorrendo de seus dedos há tão pouco exploradores! É o fim dele e também o dela cujo sangue ainda corre quente sabe Deus por que misericórdia, talvez para que discorra dessa condição num poema delirante sobre um mar inexistente exceto pela paixão que recusa a normalidade, o costume e a conformação ao século.

O cobertor quadriculado evoca a saia que uma vez cumpriu papel na história deles. Ela aproxima o copo. Não há de ser nada grave. Ele

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é um homem forte. Mas a desesperança lhe assalta o peito. O copo nos lábios. O que será da menina? Embora determinada a crer que ele se salvaria, imaginava categórica a possibilidade diante de seus olhos.

Conforme ia fazer uma e outra coisa captava os fragmentos do filme na TV e se deu conta de que mesmo um filme comercial deixa lacunas onde pode se infiltrar a arte num pensamento criativo que as preencha. Tanto sono mas como dormir? Marcel ligou para perguntar sobre o patrão. Um pai para ele. Como você está, amor? Onde você está? A enfermeira havia entrado e trocava o soro. Quando desligou, devolveu o seu sorriso. – Obrigado, Eña.

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Não tinha mais vergonha. Nem mesmo evitou a declaração de amor no final como na adolescência fazia com os meninos. Não pensou se havia ou não alguma coisa em risco. Desliga o celular. Uma piscadela. Os óculos embaçam de sono. Mas e quanto à outra – pensou – tão castiça e inocente, insegura? Em algum momento terá a mesma sensação de liberdade? Uma aragem sinuosa a sua voz. A tranqüilidade esperada ao longo de uma vida. Uma donzela para servir de amor. Fechou os olhos e não precisou esperar muito. Foi assim, disse à menina. O mar rumoreja em sinuosos movimentos. A voz amada. Mas e o sonho? De repente se deram conta por que estavam ali e se fez dia. Silêncio, exceto pelo mar rumorejando. A respiração de uma pela outra. O braço a rodeava quase atingindo o outro lado. A mão acolhedora. A carícia dos dedos no ombro. A necessidade de pensar no dia seguinte. Tudo o sonho contemplara. Uma

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mudança de atitude reflete imediatamente no mundo. Um dia, enquanto esse mesmo sol iluminar a outra, sentirá na própria pele a angulação de seus raios concentrando à flor de si um chamado irrevogável. Passado e futuro. O conhecimento que se segue à ingenuidade e logo será uma outra ignorância. A vida vivida e a vida esperada. A mesma vida. É que não tenho coragem de dizer tudo, pensa. Talvez não saiba o que é tudo, se há um tudo, se tem a ver com tudo esse encontro na praia, combinado ao acordarem num sábado cheio de presságios. Quase não é preciso contar o sonho. Ou porque estão vivas no mesmo sentimento ou simplesmente porque estão vivas. Suas versaletes ainda fazem sentido num mundo conectado. Tudo é memória. O significado de uma flor.

Ah! Sentir-se viva, amada! Estrelas de cilício sob os pés. Vaguear na agonia e chegar ao descanso. Saber-se protegida, alimentada por

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um sol que sequer apareceu. A moça a seu lado, a quem conta seus caminhos noturnos. Eña e Maria sentadas viajam num azul que não existe. Uma ao lado da outra, abraçada à outra. Partilhando o sonho. Quem as visse do mar (quem sabe a sereia do sonho), veria que a outra olhou mais além quando Eña mencionou como se deve agir em relação à opinião das pessoas. Seu vestido quebrou-se à altura das coxas. A praia deserta. Passos na areia. Linha das ondas. Os perfis se sobrepunham como se fossem uma só. Eña se arrepende de ter dito acerca do que deve ser feito. Não. Não mais se arrepender. O olhar de Maria busca ainda mais longe. A conversa se nutre do silêncio. Do toque. Das certezas do que nunca será dito. O horizonte não discernível. Dois céus, como no princípio. Dois mares. Uma coisa só.

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O pai da menina gostava de cantar e ela o acompanhava no violão. Um dia estavam assim – Alice olhava os próprios dedos no braço do instrumento e cantavam um refrão. Sabia que estava preocupado com as contas e não a queria desassossegar mais. Quer partilhar essa inquietação. De súbito interrompeu a música para lhe dizer isso mas não disse. Acabaram falando de outras coisas e rindo. Travessuras que ele e o irmão aprontavam na infância, o quanto enlouqueciam seus avós. Seus avós. Era como se estivesse falando de um casal que tivesse sido muito feliz. Ou como se a infância fizesse parte de uma outra vida e o que quer que tivesse vindo depois não contasse mais. Mandaram vir uma pizza e um refrigerante. Na manhã do dia seguinte, ela foi procurar a senhora Martha. Precisava ajudá-lo de alguma forma. Na época Martha era a diretora da escola.

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Interrupção que paralisa o ânimo. Alice, com o material de limpeza transbordando dos braços, caminha sobre os tacos estalantes. O que é isso? – uma sapatilha de balé? Estranho. Olhar lento e sereno. Os óculos deslizam para a ponta do nariz a fim de que veja por cima o que não necessita de grau. Aconchego é o que lhe ocorre ao ver o tapete do escritório. Um aconchego morno. Uma vida morna. Bom dia. Bom dia. Quando ela passa ainda provoca excitação e inveja. Não está tão acabada quando pensa. Prefere chegar quando não há ainda ninguém. Dispersa-se facilmente quando o expediente começa. Vozes. Passos. Basta. Como suportam? Sorriu novamente ao responder outra saudação. Prepara então seu melhor semblante. Assim. É preciso. Noutras dimensões deusas jubilosas esperam uma liberdade real. Não estão algumas ali na chuva agora mesmo espreitando a felicidade que constantemente lhes foge?

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Por algum tempo, ao ouvir esse arfar molhado das folhas, aquela sapatilha na entrada representou o apelo de outra vida. É nessa memória paralela que o guarda. A chuva pergunta como é possível aos mortos incomodarem a serenidade dos vivos e como o que passou não passa mas se desenvolve em todas as direções. Um toque são todos os toques e todas as carícias e todo repouso após o amor. E antes fosse apenas isso, a tortura da carne. Mas há o enigma do mundo. Não pode compreender seus colegas decerto por isso: porque estão vivos. Imagina que o tempo irá firmar à noite. Prefere não pensar na noite. Uma manhã assim se parece com a hora temida da volta para casa. Não pode se dar ao luxo de uma crise noturna, há esse trabalho urgente. Precisa ser entregue no dia seguinte. Por quê? Se pudesse responder, a sapatilha de balé não guardaria aquela paixão furiosa e o carro semelhante não atrairia seu olhar. Dever nos pingos que escorrem na janela. Não mais prazer, apenas dever.
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Olhem ali a jovem mulher. Branca, triste, se destaca dos demais passageiros, que não a percebem. Passou a roleta ainda agora. Pela janela do ônibus, desdobram-se partes da cidade em que nunca pisou. Beleza de vida: o olhar, a imaginação atrás daquele muro – bichinhos na grama e gotículas nas folhas da madrugada. Nessa praça um namoro ao entardecer. Homem vivo algum se deleitará mais sob esse vestido, e o que morreu permanecerá morto. Ainda persistia o beijo no acamado e um pouco mais que isso à guisa de maior conforto. Derramou muitas lágrimas depois, é bem verdade, na perseguição do rastro de um sonho. Levaram aquele ocaso pelos anos seguintes. Significa alguma coisa agora o lençol branco da enfermidade cujo desdobramento bem poderia ter sido outro, pelo avanço da medicina ou talvez pela fé. Entre os muros e domingos na grama sob a árvore. Envelhecendo juntos. Encosta o nariz no vidro. Contempla a cena.

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Estranhamento na longa avenida. A luz da manhã cega. O homem que entra na parada brusca. Saudade sempre túmulo de possibilidades futuras ainda que o porte roube a atenção. Capuz e gorro tornam todos iguais. Tanto assim? O bilhete da passagem está na mão conhecida que a guia. Braguilha do pijama. Lembranças nos dedos que apóiam o queixo à janela. Afasta a fazenda. Zunir dos automóveis na via expressa. Não parecia deslumbrado, mas estava. Boquiaberto ante a perícia que trazia o alívio essencial. Três amparos e o mindinho numa importante função de fetiche. Esse mindinho. Depois do fracasso do casamento, da morte dos adúlteros a quem amava, o crescimento impensável da empresa que nem se podia dizer mais pequena, a doença o derruba e não há com quem contar. Não pensa em Alice. Não poderia. – É você? Nem sabe se chegou a articular as palavras. Sente a misericordiosa boca acrescentando variações à misericordiosa ária. Essa boca.
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Nuvem carregada de velhos presságios em tons de aparição. Também a morte tem um fim? O sol se derrama pelos prédios que ladeiam o percurso. Gumes de luz sim, luzes cortantes. Um raio se alonga a partir do final visível da avenida. Os tetos dos carros tornados ouro.

Enquanto dava a informação pedida pela mulher à sua frente (a senhora tem de descer no próximo ponto), ele se perguntou o que teria acontecido caso conseguisse o visto e tivesse feito a viagem e abandonado tudo. Alice cuidara dele, da filha, do negócio. Ao descerem, rodeoua com o braço. As pessoas os ultrapassavam pela calçada com uma pressa que juntos em silêncio decidiram não perceber. Por isso, diz ela a Aleksándra, não acredito em coincidência. Tudo está determinado. Digamos que não existe um destino assim, sei lá, absoluto, mas tem de existir esse outro, tipo um destino básico, ao que contingências podem ser acrescentadas ou retiradas dependendo de

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nós, dos fatos ao redor, de como reagimos às coisas. Pode ser, pensa a amiga, olhando para Alice com uma admiração que só faz crescer.

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Desde o dia em que Ingenuer a conheceu, nada mais foi como antes. Todas as coisas renasceram após a presença dela em sua vida emprestando luz de seu olhar a cada nuance do que o cercava. Era musicista. Soube-o quando voltavam da primeira aula de dublagem. Convidou-o a entrar na casa de seus pais após um pequeno contato através de um motivo qualquer durante o percurso do estúdio ao bairro em que viviam. Estão sentados longe durante a explanação do professor. Comentando a aula, falam de cinema e de arte em geral. O que realmente o levou ao curso foi o desemprego e a falta de profissionais naquele ramo. Esqueceu. Contempla-a recortada pelos cenários à janela. O rosto dela se destaca como flor num terreno baldio. As mãos muito alvas contrastam com o sol. Os pés nas sandálias: suaves cordilheiras enevoadas. Ele quer estar em seu quarto e descobrir seus segredos. Não sei o que é vida ou o que desejo mas sei que esse é o sol de um sonho antigo. A fachada do prédio é
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amarela. Essas linhas são os raios inclinados. A luz viajou desde muito longe até se chocar com o cimento. Jardim limítrofe. Não que seja novidade mas nada é como antes: jamais viu uma tarde sob essa luz rósea fulgindo do arvoredo ou essas frestas atravessadas que pulsam e erguem a imensa barra de ouro. A umidade da grama fala alguma coisa. Diz respeito a mudança. Beleza. Deixa de separar e passa a ser referência de união. Entrando, os passos ecoam no vestíbulo espelhado. Renascimento. Tantas as partes dele morrendo em Aleksándra. Ela pergunta o que ele faz. Ele diz. Trabalho numa gráfica. Como o patrão, em depressão com o recente divórcio disse que procurasse um outro emprego, não está trabalhando. Ele a abraça com seus olhos com tal intensidade que a sente estremecer. Está de costas à janela e ali bate o seu coração ligado à realidade apenas por meio daquele corpo. Vozes. De onde? Se indagar de si mesmo dirá que os pais dela não estão em casa, que são
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empregados na cozinha. Quarto diáfano azulado pelo filtro de cetim. Ao lado da janela, esperando alguém cansado como ele, uma cadeira de balanço de madeira nobre; na mesinha de tripé duas xícaras de chá e um bule sobre a toalha branca de crochê. Um vaso de flores multicoloridas. Caminhando próxima marca o tapete com suaves círculos. Adianta-se até o peitoril onde findam os taques revestidos e os músculos das pernas se colocam em descanso. Um templo. Um mundo outro. Seu perfume impregna a contemplação. Ela apalpa o violão sobre a cama, encostado à parede. Viração vespertina. Tremula o cetim. Será feliz? As maiores questões da vida e do universo estão contidas nessa resposta. Ela pega o violão e experimenta as cordas. Sou feliz quando toco. Quer ajoelhar-se diante dela e abraçar seus joelhos remido na passagem de mundos. Beijarlhe os pés. Lenta língua ao longo das pernas. Beijá-la toda: no meio dos seios, no meio do

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ventre, em todos os lugares. Ele vê o infinito. Escuta o além. Ela geme no oficium de Preisner. Distraída pelos sons que executa, permitelhe contemplá-la. Um colo tão branco. Disse que era uma família de artistas. Um pintor, um escritor, a mãe pianista. Saberão algo? Não encontrará o essencial em uma biblioteca. Nem em Mozart. Mas aqui há alguma coisa além. Seios cuja engenhosa redondeza o próprio Deus será incapaz de recriar. Tremores de vestido à aragem nas cortinas. Limite do tecido na coxa levemente pressionada onde repousa o instrumento. Virginal melodia de apetência. Quando ela se inclina sua sombra alcança os pés de Ingenuer. Subindo ao ponto. Do lado de lá da cortina o que se vê é ainda Aleksándra distraída com a música, concentrada na música, de perfil, inclinada para o lado. A seus pés alguém a venera com língua e dedos. Solfejos no íngreme roseiral. A proximidade sugerida é a divina. Ele não lembra se falou

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sobre amor. Decerto não. O som da voz enche o quarto, multiplicando-se pelas paredes. Permeando os objetos em que os olhos pousavam. O som da rua invadiu o quarto violentamente quando ele acabara de descer uma das alças. Havia chegado à janela. Do parapeito dava para ver a rua e Aleksándra. Olhares se cruzam em região de silenciosos pactos e desejos sublimados. Ele desvia o olhar para a azáfama lá embaixo. Ela sorri, inspira, instila, capta e acolhe o sentimento. Mulheres aproveitam a temperatura para sair às compras. Matizam as ruas de creme, cinza e azul-escuro. As que voltam, de braços cruzados e ombros encolhidos, lamentam não terem previsto o frio, em pensamentos de lã e saias de gabardine e blusas de elegância espessa. Na galeria frutas expostas convidam ao suco. Aleksándra diante dele deliciosa e desejável como no ônibus. Últimas nuvens brancas dum céu róseo caminham negras no jardim sobre a grama úmida.

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Ao lado da loja de roupas, bares e farmácias; diante da livraria, seringas descartáveis; parado à porta do cinema o amante cujo nome a mulher lá dentro se esqueceu. Na loja de discos cheia de rostos célebres Aleksándra ainda cantava a seu lado. Está decidido a declarar a sinceridade de seus sentimentos. Antes que possa começar, ela pergunta se quer tomar um lanche. É claro. Dirige-se à porta do quarto e pede que ele espere. Irá à cozinha um minuto. Instantes sozinho no santuário sentado à beira da cama onde ela estava sentada. O perfume exala promessas de futuro. Movimentos do tempo e sorriso agradecido. Formas ainda ocultas. Quando volta e de novo fixa os olhos nos dela, percebe que havia chorado. Pede que vá, por favor, buscar café e pão. É logo ali em frente, se pudesse fazer essa gentileza. Do que está falando? O que não faria por ela? Deixou-o na porta. O elevador atendeu o movimento do dedo como um animal doméstico
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se ergue a um chamado. A respiração e os cabos se misturam às indagações. O desejo flutua serenamente nas pausas. Obscuridade do corredor. A rua. Novos caminhos. A música convertida nos sons do trânsito e nos gritos dos camelôs. Despertar de um sonho. Mesmo triste ele se mantém em paz e pensa que talvez o amor seja a harmonia, o estar ao lado em silêncio; e o sexo o horário de almoço do empreendimento. Mais que objetivos carnais; menos que ideais românticos. Flama atravessa imenso mundo que reflete nos olhos temível encanto. Dói. Fere com um sentido preciso. Sem o jeito calmamente inútil das coisas do cotidiano sem perigos. Jovem adorável! Mesmo escravo de insegurança mórbida, ele aprende. O medo é matéria prima de uma doce e longa canção. A balconista e uma sofreada emoção. Quase uma menina, de tranças. Evidente saudade. Almoço de domingo com família reunida. Viveu isso também. Os prédios em chama dourada espelham a rua em que a noite se avizinha. A
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fraqueza dá idéia de desmaio. Deseja alguma coisa? Pede os pães e o queijo. Trabalhadeira. Admira moças assim. Mas Aleksándra – o que faz além de estudar e tocar? Quando perguntar saberá que ela tem faz um trabalho voluntário com cegos e quando ele responder a mesma pergunta ela saberá que trabalha com Meereshimmel. Sério? O irmão de Haimeard, cunhado de Alice? Por enquanto, olha para a janela e quase chora. Devo me recompor. Se continuar um adolescente apaixonado terei o que está reservado aos adolescentes apaixonados. Devem se perder as questões sem solução e as coincidências: no aroma de pão quente à luz do total da despesa. De volta nas vitrines molhadas de crepúsculo. Nos cartazes de filmes, nos livros, nas flores da praça. Impregna-se a primeira estrela cuja majestade solitária povoa uma folha caída na calçada. Na sala a mesa está posta. Aleksándra sentada em sua tristeza. Em meio à beleza de que não pode fugir. A respiração
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suave no decote. Nos olhos um brilho jamais esquecido. Olha para ele ao entrar como o combinado sem bater. Como se, mais que um pequenino acordo, fosse um hábito. Com ele pelo resto da vida o juízo desse olhar. Razão para levantar todos os dias. O sinal. Não tem motivos para chorar. O sofá junto à janela será um local propício. Servidos pela governanta. Pernas se tocam casualmente. Ela fala algo sobre o mercado de dublagem. Deve ser algo perspicaz mas ele não ouve porque há dedos vitoriosos. Limites e divisas. Sombras, coxas e cabelos. Calor. Os dedos que nele se cravavam aparecem num gesto amplo na nuvem do café. Unhas inocentes. A nuvem se dissipa e Aleksándra aparece. A dublagem exige mais do artista do que a maioria das artes. Só a voz com para se expressar. Respondeu ele que infelizmente, como ela mesma testemunhara, o professor não parecia insatisfeito com seu irreconhecimento muito bem pago. Afinal não é o que nós próprios
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buscamos? Mal acabou de falar, pensou que tinha sido grosseiro. Nunca sei o que fazer nessas horas. Tentar consertar pode ser sempre pior. É verdade, diz ela. Tantos seriados e tantos canais de filmes na TV paga tornaram a dublagem antes de tudo dinheiro que move a mídia. O dinheiro. Não há arte na mídia, não mais, é o que ela está dizendo. Estalar crocante na boca, queijo com gosto de infância. Inocência resgatada. Em que ela estará pensando? Com certeza me superestima e não sei se isso é bom mas sei que me leva longe, ao meu prazer idealizado, como as bandeiras falam das virtudes que os países não têm e todavia esse status das bandeiras são a representação dos países. Talvez eu tenha um pouco dessa que ele pensa que sou e poderei assim continuar sonhando em ser confortada e mimada e depois disso não o rejeitarei como é o costume mas usufruirei também do amor quando nossos dedos se entrelaçarem no primeiro beijo. É que não existem mais arte nos dias que correm. Apenas o negócio da arte. Bem, não é uma
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questão nova. De fato – ratificou após passar o guardanapo – não existia mais o valor puramente subjetivo do exercício artístico. Claridade geométrica e ventilada e um mobiliário marrom brilhante que arca com a alma distraída próxima do além infinito. Quanto pode render a concepção. Veja Van Gogh. A tecnologia mudou o tipo de reconhecimento hoje. Talvez seja uma coisa boa. Viver da arte é mais ou menos a mesma deturpação porque a arte deve ser motivação de subsistência em si, de sobrevivência, à parte da questão financeira. É uma pena, responde ela, gostaria que não fosse uma regra sem exceção. Eu lhe mostrarei o meu amor. A cama casta e fecunda. À vontade enfim em aromas de colcha. Ela reapareceu trazendo uma coleira na travessa de um livro. Mais tarde Ingenuer saberá que ela havia chorado por causa do filhote de pastor belga que ganhara em seu aniversário – era o tema da conversa dos empregados quando entraram, como iria ela reagir – e ele ficará sem saber da reação de Aleksándra diante da sua declaração
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de seu amor. Duas semanas mais tarde ela conseguirá uma bolsa para estudar música em Milão e ele não mais a verá. Quando soube da noticia nos estúdios, fulminado saiu da sala e tomou o mesmo ônibus onde seu amor encontrou campo para se desenvolver ao saírem e passarem aquele tempo juntos no primeiro dia. Chegou ao edifício. Também o silêncio quando ela o beijou no elevador. Adeus, disse ao sair. Atrás dela, os empregados levavam as malas. Eu te amo, ele disse enfim. Silêncio. Então me espere. Ele sentiu de novo os seus lábios e dessa vez a trouxe para junto da altivez de sua paixão. Tema para orações futuras na ausência dela. Alguém a chamou do lado de fora do prédio. Tenho de ir – disse ela. Você vai me esperar? Duas lágrimas rondam os olhos dele nos momentos em que olha o homem que ousara pronunciar com tal desembaraço o nome com que somente ele devia privar de intimidade. Era

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seu pai. Ingenuer responde sua pergunta com um beijo ambíguo entre o azul de seus olhos também prestes a se molharem. Um pastor belga está ganindo de dor. Ele se voltou e deu com a luz forte do dia se irradiando por tudo. A opressão natural ante tanta luminosidade dá lugar a um elemento de paz. Desejo de vida restituído a seu mundo desde que ela emprestou a luz de seu olhar a cada nuança que o cercava. Todas as coisas renascem. O desemprego passa a ser um problema que pede solução rápida não mais motivo de fatal depressão. Os conhecidos acharão sua mudança inacreditável. Seguiria em seu caminho. Haverá um abrigo da noite fria. Haverá trabalho e ele será a pessoa indicada. Uma luz no jardim bruxuleava ao sair após a partida de Aleksándra e dali se vislumbravam os aposentos da casa que iria comprar no bairro preferido de Aleksándra onde a névoa envolvia o prédio do estúdio de dublagem quando saíam da aula mais tarde. Tudo fora pensado, inclusive a localização próxima aos melhores cinemas da
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cidade – caótica megalópole a que não seria permitido englobar o destino deles num outro, coletivo, próprio dos novos tempos. Se uniriam e se desconectariam. Porque ele a amava e ela haveria de o amar tanto também. Sim – diz ela. Eu te esperarei.

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Meereshimmel pede que ele abra a gráfica. Precisa fazer um pagamento. Caminhar. Estar entre as pessoas. Tentar se adaptar. Qual essa sombra se adapta ao sol e disserta sobre a hora. Há pouco nem havia. Agora, à sua esquerda, mistura-se ao trânsito. Some entre as árvores da praça. Um banco envelhecido. Ele senta. Olha a foto no celular. Que chance havia de salvar seu casamento? Se Sonja quisesse. A cada dia fica mais evidente: não quer. Ao olhar o rosto de medo e sofrimento vê que a jovem não percebe sua imponente beleza mais que bela porque não apenas bela e não apenas possuidora da beleza que se basta, que não faz se acompanhar de caráter. Terá sido por isso que fracassou junto dela? Que vergonha! Mais por sua canalhice do que pelo fracasso. Agora está tão só quanto ela que decerto terá encontrado alguém. Que seja. Que não tenha acontecido a ela nada de mau. Quisera encontrá-la. Ser o amigo de que ela precisava. Por que me transtornei àquele ponto por causa do olhar de um desconhecido que ela
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provavelmente não correspondeu? Ela não precisava do carro nem da vida que poderia lhe oferecer e não ofereceria mas de uma amizade que tampouco ofereceu. Eu só preciso de você – pensaria Alice ainda por muito tempo e mais ainda ao ser apresentada por Savone ao filho, no velório de Haimeard. O sol se põe. Ele ainda está sentado no cimento cuja frieza sente agora e esquece em seguida na vermelhidão se derramando como a angústia na alma que pode ser sempre serena ainda que nem sempre possa estar alegre, e todos têm sonhos que serão esquecidos conforme a velhice se aproxima e ninguém percebe que três asteróides num mesmo dia deve sim ser um tipo de sinal para uma terra em que só a morte é certa e nem esse fulgor vespertino trará – exceto por segundos em segundos esquecidos – algum conforto. Tudo o que ela precisava era de seu amor. O homem que olhou para ela e adivinhou sua dor e a convidou para um café e confessou ser casado e portanto não poderia ser o amigo de que ela
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precisava. São tão confusas essas coisas. Por que não, exatamente? Precisa dele. Pensa nele na cama de pensão. Em como ele chegaria e perguntaria por ela após descobrir o endereço de um modo que não ficara muito claro. Nem era aquele endereço. Na sua imaginação havia um apartamento próprio, uma vida independente. Só assim alguém pode amar e escrever. Precisa que ele chegue – ela lhe oferecerá um café. Terminará a noite em sua cama beijando apaixonadamente o seu corpo. Voz umedece roupas. Mãos se movem em torno. Os pequenos não tão pequenos agora. Lentamente suas mãos são as minhas mãos, seus dedos os meus, mais e mais, deixe que eu te acolha, tente de novo, assim. Então a senhora ao lado lança olhares curiosos para o celular e Meereshimmel volta ao parque, ao banco do parque. E, com batidas na porta, Alice regressa a seu quarto no albergue.

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Quem é, Bianca? A mulher do balcão onde ficavam as chaves dos armários. Vê o casal perfeito quando eles saem do café. Agora já não tem certeza. É o mesmo rapaz? Bem, é o mesmo tipo. Mas não tem certeza. Esse de hoje tem um olhar mais franco. Um dia ela viu a menina com Alice e seu pai e pensou que era a mãe dela, como todos pensam. Formavam mesmo um casal muito lindo, diz Elisuki. Ele vivia repetindo isso, desde pequeno, quando ia brincar na casa da amiga. Agora pelo jeito vão brincar ainda no apartamento que ela herdou da avó, onde mora com Alice. Ela gostava de pensar nisso como brincar, não queria como suas amigas queimar antigas etapas que passam pelo primeiro olhar e as mãos dadas. Queria que fosse assim. Gemidos inaudíveis. Rumores e visões que súbito se descortinavam fazem parte de um caminho inocente iniciado quando ouviu os pais do outro lado da porta e não fazia idéia do que estavam fazendo. Que ingenuidade, que paz, que agradável agitação. Um achocolatado direto da caixinha. Quando passam pelo mercado, a
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mulher no caixa olha e sussurra para o marido: aquele segundo rapaz era mesmo o irmão desse, não te falei?

As aves cujo canto lembra um mantra, como o Bem-te-vi, são as de que Bianca mais gosta. Evocam concentração, disciplina, paciência – virtudes que tão dispersa persegue. Essa que chilreia agora ela não conhece. Assim que ouviu não gostou. Sofisticada sonoridade sinuosa em busca de novas oitavas procura seu máximo e não usufrui do mínimo alcançado. Infrutífera glória partilhada. Todos iguais. Gostam apenas do facilmente apreciável – do que exige pouco do próprio gosto. Está com Elisuki – sempre está com ele. Um outro mundo quando juntos. Aspiração de vida melhor e mais árdua. O sol se põe no céu próximo. No distante trovão um presságio. Elisuki está calado. Não quer mais falar sobre esse assunto. É desgastante. Talvez seja ilusório pensar em coisas eternas e íntegras. Aí estão

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eles por toda a parte, os normais, fazendo planos e se dando bem. O que hoje desponta não irá querer mudar esse cenário. Esfriando. Você vai para casa? Um sorriso em resposta. Quando voltar ali Bianca lembrará. São o lar um do outro. Suplica. Não me abandone. No canto dos pássaros um presságio. Ser amada tem um preço. Não irá decidir agora. Apenas manter esse contato com o verde até a saída. Pensará em alguma coisa. De um modo ou de outro todas as coisas passarão. Não tem certeza de nada mas vale a pena seguir o caminho. Está escrito no dia vacilante entre os prédios. Chegaram. Ele prossegue.

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Deitada de lado ressonava. Agora escuta. Meereshimmel chegou andando devagar e tocou sua própria foto emoldurada. A parede tem uma cor incomum e produz um som raro e contínuo como se devolvesse ao apartamento o que ouvia do resto do prédio. Por instantes ela cochilou. Passos, respiração, toques. A um tempo a resposta e a questão. Discernimento improvável à procura de correspondências fugidias. Deixavam-se às vezes captar de acordo com os movimentos no quarto reduzidas ao sono tênue. Num dos intervalos Alice acordará. Talvez acordasse espontaneamente. Decerto o sino ajudou. Seis horas. Demorei menos de vinte minutos. Um raio oblíquo perpassou morno o tecido entre a abertura das cortinas. Violáceo agora o quarto. Você veio. Como poderia não vir? Obrigado. Você está doente? Pareço doente?

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Outra vez o sino tocou. Vibrava em sua cabeça projetando enxaqueca para o dia. Nada. Não é nada. Um pouco de dor de cabeça. Não está tomando analgésico? Deixara desde que teve umas crises estranhas. Um suor gelado gerando insuportável calor. Antes que piore precisa falar. Meereshimmel... Chegou a escrever uma carta. Não enviou.

Ele diz que sabia. Que a conhecia e ela não seria capaz. Mas ele teria merecido. Ela sorriu. Parece um sonho. Com a morte do irmão e da mulher, ainda que não estivessem felizes (antes culpados), respiravam juntos. Eram livres. Se abraçaram e se olharam nos olhos. Vamos resistir. Vamos começar uma vida em comum. Vamos ao centro ver se aquele apartamento ainda não foi alugado. Estava propondo que vivessem no apartamento do primeiro encontro?

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A praia pareceu mais brilhante mesmo sem sol. Dançaram molhando os pés. Beijaram-se ao som das ondas. Teriam uma vida. Seria curta, mas restariam as lembranças. Alice não fará porém de uma menininha a sua vida. Filha de quem fosse. Não iria de um a outro extremo.

Olhou para a menina. Não estou te passando essa carga, meu amor. Vive tua vida.

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Lá fora a chuva murmurava. Mal tocava o vidro, como alguém se constrange em conhecer segredos alheios. O senhor Pöbel não rebate as acusações de que assediava a empregada. Pacientemente esperava que a mulher se acalmasse e então pudesse explicar. O problema é que ela não se acalmava. Emendando uma acusação noutra e a maioria nada tinha a ver com assédio. Relacionamento em quem ninguém ousava apostar porém todos foram à cerimônia cheios de palavras boas. O casamento é importante mesmo no novo milênio. Tenho de casar, Martha pensava antes de conhecer Darken e se apaixonar de fato. Donde, pensava ele, não fazia o menor sentido as suas reclamações. Inclusive quanto a ser mulherengo. O conheceu assim. Em que queria converter aquele por quem um dia se apaixonou? Ele esperou pacientemente a oportunidade de falar de Alice. Talvez não tenha sido boa idéia a franqueza. Numa conta simples a mulher constatou a diferença de idade entre eles e portanto na época ela era menor e ele um
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homem feito. Isso é crime, meu Deus, não poderia jamais imaginar que tenho dormido toda a minha vida do lado de um pedófilo nojento. Ele amava Alice na época – Darken disse candidamente. Amava-a de verdade. Eu sei exatamente o que você amava nela, retrucou a mulher. Por alguns instantes ele se calou e hesitou em seguir contando a história de Alice e vá saber por que se manteve nessa disposição. O fato é que contou. O rosto de Martha se transformando a cada frase como várias máscaras caindo conforme as novas revelações até chegar à última, uma máscara cinzenta, imponderável – camada original de uma perplexidade desiludida, a desilusão em estado puro, um estado em que se transita do que se espera ao que refuta essa esperança e de repente sequer se sabe dizer qual era a esperança. Por que consentir com a vida? por que insistir na sua preservação? se para tanto é preciso preservar valores que ele não mais podia pregar – para bem ou para mal, porque simplesmente não saberia dizer se era um bem
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ou um mal – sequer poderia continuar se enganando de que faziam parte de seus valores. Não mais manter a idéia de especial a ponto de ter autoridade para falar em princípios e sequer gostos, opiniões ou qualquer coisa que o diferenciasse do murmúrio da chuva rabiscando, se tanto, o vidro da janela.

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Cheiro de armários, de livros, agasalhos e jovens de banho tomado e jovens suados de fim de tarde após a street-dance e o estudo. Nesse cenário. Pesquisas, provas, trimestres e descompromisso com a realidade. O vulto de Alice na voz da atendente. O que ouvia batia com o que a colega de trabalho um dia lhe contara. Então ela soube. Ou talvez tenha imaginado tão intensamente que tudo assumiu ares de verdade. Alice era a moça que chegara do interior para procurar trabalho e logo no primeiro dia encontrou Meereshimmel e por ele se apaixonou não por causa do sexo, não consumado, mas por uma sabedoria inerente a muitas mulheres, um instinto de futuro que mais adiante terá aparente recompensa. Madurando macilenta. O que ela não sabia, o que ninguém sabia – exceto a enfermeira que deveria acompanhar Meereshimmel ao estrangeiro – era acerca da idéia mirabolante. Rasgo de generosidade louca sabendo que estava condenado e que a filha estaria melhor com Alice. Que Alice estaria salva
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de todos os seus males materiais e que poderia a partir daí ser enfim ela mesma. A partir do momento em que fosse a responsável por Bianca, o que Sonja a cada dia deixava transparecer que não seria. O que nem ele próprio em seu delírio poderia supor é que aquele vôo teria seu nome na lista de passageiros mas não sua presença na poltrona do avião.

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Como o descobrira ali? Ele mesmo dissera que esse seria o lugar deles. Mas se passaram dois anos e para todos efeitos estava morto. Por que fez isso? Para ela ter um lugar como sempre sonhou. Para que pudesse escrever e não precisasse se submeter a humilhações. Mas não podia saber que o avião ia cair. Não sabia. Apropriou-se do momento. De qualquer modo, estava praticamente morto mesmo. Nunca quisera fazer tratamento no exterior. O único tratamento que precisava era interior e esse Alice providenciara para ele. – É uma história absolutamente absurda – disse o rapaz para Bianca – Então você fez o caminho inverso. Primeiro foi órfã e depois teve um pai...

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Pensei que jamais seguraria sua mão novamente, pensou Alice na cadeira do café. É como se eu estivesse reinventando você. Descobrindo. Por amor a paixão não aconteceu no primeiro dia. Foi cruel – pensou ele – conhecer Alice naquelas condições. Ela menor de idade e ele casado. O tapa deveria arrefecer e não exaltar o amor que ela começava a sentir por ele. Ela não se comoveu ao escutar. Pela primeira vez na vida teve raiva de Meereshimmel. Ali, dois anos depois de sua morte, diante dele ressuscitado, sentiu muita raiva. Ora, deixasse ela escolher. Quem ele pensava que era? E sua raiva continha a falta de qualquer ponderação das mulheres diante de situações que envolvem seu amor. Como se ao amar se tornassem Deus em relação a qualquer coisa que diga respeito ao homem a quem amam. Só o amor é capaz de fazer uma mulher perder sua sensatez natural. Ele não queria mas não pôde

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evitar pensar assim. Então sorriu e ela teve a confirmação de que estava vivo. Ali de novo para ela. Sem passado e sequer presente. E seu futuro haveria de ser ela. Então a raiva. Por ele não ter permitido que ela tivesse alguns momentos de prazer como lembrança de seu amor. A alegria da lembrança de um simples beijo em plena rua. Se aquilo era uma rua. Não era. Abismo do qual só agora saía. Ele quis dizer que era um inválido, que piorara muito, que esse tipo de doença é perverso. Não é terminal embora termine com a vida da pessoa. Isso ele queria pensar. Mas o olhar de Alice era duro. Auto-indulgência não combinava com ele. Olhe para mim, ela disse. Olhe nos meus olhos. Ele olhou e logo a imagem dela estava desfocada e trêmula. Reflexo num lago. Rosto impreciso de sonho. Dos lábios da imagem trêmula saíram as palavras. Agora ela entende o que o pai dele queria dizer. A energia de que se precisa para partilhar uma verdade profunda com as pessoas. A força física de que se precisa para viver a verdade que se sabe. Ela sabe. Escuta
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nas vozes vindas das outras mesas. Está escrito no azul recortado pelo telhado do centro cultural e pelas copas das árvores fulgurando o contraste com o cinza do prédio.

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A rua submergiu na névoa. Despertar assustado. Latido. Cão dormindo. Passou. Tudo passa rápido. Cheiro de chuva. O olhar que se ergue encontra a abertura. Um pingo. Roupas que se pegam à pele. Dores na região lombar. Um homem sem sombra. Falta pouco. Uma vez quando criança. Lembra dessa fábrica. Precisa arrumar as coisas: o terminal fica perto. Hei. A outra se assusta imperceptivelmente com o cutucão. Estamos chegando. Não diria que é uma amiga. Uma conhecida. Companheira de viagem. O trânsito carregado como sempre. Cartazes de um lado e do outro. Do fundo espelhado da armação feita de luz ela se dá conta do prisma das coisas pelo qual a outra via. Nuvens vivas. Calor de braços encostados como um sol particular. Por isso terá distinguido o desenho nítido dos lábios, mal entendendo que o movimento das pessoas e bagagens atrás delas confirmava o som que a tirara de um mundo díspar. Alguém abre a divisória e fala com o motorista. Aos sacolejos o ônibus encosta e o mundo pára no cheiro do outro corpo. Está
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feliz e cansada. Ansiosa. Um outro cachorro está latindo mas mal dá pra ouvir por causa do motor. O azul desce um pouco e confronta os telhados. O meio-dia a deixava deprimida. Tanta luz. Agora não. A vida a recebe de braços abertos. Você vai? Sim, preciso claro. Posso esperar? – Se não for incômodo. Longe disso. As casas passam lentamente. Marcha para a última curva. Dor antecipada pelo afastamento inevitável da mornura do outro corpo. Fique. Venha comigo. Não pode. Então o muro quase roçou na lataria. A pichação flutuava e em cada uma lia as próprias emoções. Você é tão bonita. Um ardil para não ser esquecida. Abraçaram-se no ecoar dos passos pelo corredor em direção à porta aberta. As luzes do começo da tarde misturadas aos movimentos do terminal assumiram formas oníricas como aquelas de onde Alice vinha. Tinha chegado. Não desceu logo por causa do

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medo maior que o desejo mas havia o prazer e o tentar prolongá-lo. Algo no ar a preenche de intensa agitação apesar de ainda sonolenta. A vigília e o sono. Não havia culpados, pensou, esperando que houvesse. Alguém a quem pudesse responsabilizar pela decisão de deixar a casa à procura de trabalho noutra cidade. Não precisava desse tipo de estresse tão cedo na vida. Mas não havia culpados. Sua existência era única e era responsável por tudo. Súbito sentiu o peso quase insuportável da liberdade.

FIM
©2001,2006 Ricardo de Almeida Rocha ricardrbrsp@gmail.com Copyright by Ricardo Rocha Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 Versão para eBook Scribd.com Issuui.com Bookness.com __________________ Junho 2001 eBooksBrasil Versões para pdf e eBookLibris abril 2006 eBookLibris © 2006 eBooksBrasil.org @ 2010 Ricardo de Almeida Rochai

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A voz mais e mais baixa. Os passos mais lentos. O rosto na vidraça do café. Expressão de quem sonha. O que a senhorita deseja? Agora, na luz do vidro, cabelos muito negros. Brilham. Ela olha a garçonete com respostas que não pode dar. Logo a xícara aquecerá as mãos em concha. Depois o pescoço que se estica e pende. O olhar é ansioso outra vez. Bom assim. Melhor que o vazio da falsa serenidade. Ao outro vazio, na entrada, segue-se a lembrança e seus olhos não estão mais ali. Bibelôs na cabeceira onde devia haver um relógio. Melhor assim. Bons tempos. Quando as coisas retornam ao lugar a que se adequaram? Ou jamais? Jamais como um dia de infância. Então jamais. Pois se o tempo não volta, feixes de luz se reencontram. A cabeceira perdida no tempo. A menininha, deixa-a lá e aparece diante de seu armário, falando ao celular, a outra mão pelos cabides. Rosas a maioria. Ama a beleza simples de um toque de mocinha no quarto. Felicidade é uma meta legítima de vida? E o que era aquele êxtase da menina? Enfim, ei-la aqui. Diante das roupas. Combinando a saída. Diante do espelho cujo papel no dia seguinte será feito pela vidraça do café. Ela. Refletida. No significado de todo reflexo – reproduzir sem ser. O armário se fecha. O reflexo desaparecido. Um vestido. O rapaz. Companhia para a saída. Nada sabe dele nem haverá de querer saber amanhã. Sempre será assim? A voz ainda possuía quando o encontrou alguma firmeza. Chegou a dar uma corridinha quando o viu ali parado. Num trecho do caminho para casa, um local mais escondido, a vazão do desejo. Embora mútuo, a impressão seria de que ele a ofendeu. Claro que não. Aleksándra nem imaginava um rapaz tão bondoso e romântico. Por isso chorou. Outra caminhada solitária passando por casais apaixonados. Outro café abrindo ou que ainda não fechou.

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