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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS

CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO


Jor

Lide 1
Fonte: MARTINS, Eduardo. Manual de redação e estilo. São
Paulo; O Estado de S. Paulo: SP, 1990

Tenha sempre presente: o espaço hoje é precioso; o tempo do leitor, também.


Despreze as longas descrições e relate o fato no menor número possível de palavras. E
proceda da mesma forma com elas: por que opor veto a em vez de vetar, apenas?
Procure dispor as informações em ordem decrescente de importância (princípio da
pirâmide invertida), para que, no caso de qualquer necessidade de corte no texto, os
últimos parágrafos possam ser suprimidos, de preferência.
1
Encadeie o lead de maneira suave e harmoniosa com os parágrafos seguintes e faça o
mesmo com estes entre si. Nada pior do que um texto em que os parágrafos se
sucedem uns aos outros como compartimentos estanques, sem nenhuma fluência: ele
não apenas se torna difícil de acompanhar, como faz a atenção do leitor se dispersar
no meio da notícia.
Por encadeamento de parágrafos não se entenda o cômodo uso de vícios lingüísticos,
como por outro lado, enquanto isso, ao mesmo tempo, não obstante e outros do
gênero. Busque formas menos batidas ou simplesmente as dispense: se a seqüência
do texto estiver correta, esses recursos se tornarão absolutamente desnecessários.

Lide 2
Fonte: MARTINS, Eduardo. Manual de redação e estilo. São
Paulo; O Estado de S. Paulo: SP, 1990
O lead é a abertura da matéria. Nos textos noticiosos, deve incluir, em duas ou três
frases, as informações essenciais que transmitam ao leitor um resumo completo do
fato. Precisa sempre responder às questões fundamentais do jornalismo: o que, quem,
quando, onde, como e por quê. Uma ou outra dessas perguntas pode ser esclarecida
no sublead, se as demais exigirem praticamente todo o espaço da abertura.
Graficamente, recomenda-se que o lead tenha de quatro a sete linhas da lauda padrão
do Estado. Nada impede, porém, que ocupe uma ou duas linhas, apenas, em casos
excepcionais ou quando se tratar de informações de impacto. Mais que nas demais
partes do texto, o lead deve ser objetivo, completo e simples e, de preferência,
redigido na ordem direta.
Todas as demais recomendações feitas a respeito do texto jornalístico valem
especificamente para o lead (as palavras estranhas ou desconhecidas deverão ser
sempre explicadas; rebuscamentos não têm vez na abertura; o fato que constitui o
lead deve ser novo; use frases curtas: procure dar um ritmo adequado à frase e,
principalmente, jamais construa leads de um único período).
1 - Objetividade
Veja exemplos de leads objetivos e diretos:
O fogo destruiu na noite de ontem em menos de três horas todo o prédio de 18
andares do Cesp, no Center 3, e atingiu dois outros edifícios na Avenida paulista,
esquina com Augusta. Um milagre: apenas cinco pessoas ficaram fendas levemente.

1
(nota do professor: o manual do estadão grafa “lead”, mas vamos usar em classe
“lide)
Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br)
site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/
ftp: ftp://ftp-acd.puc-campinas.edu.br/pub/professores/clc/artur.araujo/
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Jor

Na inicia da madrugada de hoje, a Polícia Federal e a Secretaria da Segurança


receberam a informação de que o incêndio pode ter sido criminosa, "para a queima de
arquivos".
Técnicos e engenheiros de Furnas fizeram a denúncia ontem: alguns dos equipamentos
da usina de Angra 1 são usados e vieram de outra usina nuclear, também fabricada
pela empresa norte-americana Westinghouse e montada em Porto Rico. A usina porto-
riquenha não pôde funcionar por causa do local em que foi construída, sujeito a
terremotos. O diretor de Furnas, Márcio Costa, admitiu que parte dos equipamentos
veia de Porto Rico, mas se recusou a definir esse material como “sucata”.
Com os astronautas Steven A. Hawley e Kathryn Sullivan a bordo, o ônibus espacial
Discovery foi lançado ontem em Cabo Cañaveral às 10h34 (hora de Brasília). Uma
pequena falha fez a nave subir cerca de dois minutos depois do horário previsto. Sua
principal missão será colocar em órbita hoje, a 600 km de altitude, o telescópio
espacial Hubble, um tesouro científico de US$ 2 bilhões. O vôo deverá durar cinco dias.
Nos três casos, todas as informações importantes constam da abertura e qualquer
pessoa que tivesse lido apenas essas linhas já estaria razoavelmente informada sobre
o assunto.
2 - Repercussões e suítes
Nas repercussões ou suítes do noticiário, você deve abrir a notícia sempre com o fato
mais importante e não apenas dizer que houve repercussão ou que o fato prosseguiu.
Nunca escreva, por exemplo:
A denúncia publicada ontem pelo Estado, de que parte do equipamento de Angra 1 veio
de uma usina desmontada em Porto Rico, repercutiu amplamente na sessão da
Constituinte. O deputado Del Bosco Amaral chegou a propor o bloqueio dos bens e a
prisão administrativa dos responsáveis por sua construção.
Veja como montar o lead da repercussão:
O deputado Del Bosco Amaral propôs ontem o bloqueio dos bens e a prisão
administrativa dos responsáveis pela construção da usina nuclear de Angra 1. O
parlamentar tomou a decisão como conseqüência das denúncias do Estado, publicadas
ontem, de que parte do equipamento de Angra 1 veio de uma usina desmontada em
Porto Rico.
Eis um mau exemplo da suíte de um noticiário:
Durante quase seis horas, oito testemunhas prestaram depoimento ontem no 15º
Distrito Policial, no inquérito que apura o caso do economista Alberto de Almeida,
acusado de ter matado com um pontapé o frentista Marcos Rogério dos Santos, no
posto Rocar Iguatemi, sábado passado. O delegado Luis Alberto de Souza Perreira, que
preside o inquérito, e o promotor Mário Pedro Paes, designado especialmente para o
caso, ouviram os relatos e fizeram muitas perguntas às testemunhas.
O lead termina e o leitor sabe apenas que oito testemunhas depuseram. Quem lesse a
notícia até o fim, porém, teria imediatamente à disposição o verdadeiro lead: dos oito
depoimentos, apenas o da noiva do economista tentava isentá-lo de culpa. Todos os
demais o acusavam pela morte do funcionário do posto. Era isto que a abertura
deveria afirmar.
Ao contrário, leia um lead sobre a repercussão de um fato abrangente no qual o leitor
tem uma idéia global de como as fontes consultadas receberam a notícia:
Empresários e líderes sindicais de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Belo Horizonte
dividiram ontem suas opiniões a respeito do novo pacote fiscal: alguns o consideraram

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“razoável”, mas houve quem o qualificasse de “caça-níqueis”, como o presidente do


Sindicato X, João de Almeida.
3 - Falta de informações
Há leads que não apenas deixam de tratar o fato de forma direta, como pecam por
omitir informações essenciais. Veja o exemplo:
Ontem à noite, depois de uma reunião de quatro horas, a direção do Sindicato dos
Trabalhadores em Hotéis de Foz do Iguaçu aceitou uma contraproposta do sindicato
dos empresários que poderá evitar a greve da categoria que paralisaria a cidade que,
nesta época do ano, recebe milhares de turistas.
O texto já começa mal, com complementos que poderiam estar depois da frase
principal, e não diz simplesmente, nas linhas iniciais, em que consiste a contra
proposta que pode evitar a greve.

4 - "Humanos"
A abertura das matérias ditas "humanas" está entre as mais difíceis de redigir. Exige
criatividade e muito cuidado para que o texto não tangencie o pieguismo. Estes são
dois bons exemplos de leads “humanos”:
Carlos Ramalho beijou a poça de água em que pisou assim que desceu do ônibus, na
plataforma 75 do Terminal Rodoviário do Tietê. “Quer melhor chegada para um baiano
que está fugindo da seca? Ô paulistada, aqui é o céu! A agüinha santa cai que nem
bênção na cabeça gorda aqui!”. Ele ficou surpreso na manhã de ontem quando chegou
a São Paulo. Chovia e fazia muito frio, “coisa rara na terrinha”. Antes de saber para
que lado ia, preferiu andar um pouco descalço, pisando nas poças de água.
Aos 35 anos de idade, o jornalista Haroldo de Faria Castro já viajou cerca de 1 milhão
de quilômetros, visitou 74 paises, rodou as Américas a bordo de uma velha Kombi e
acabou batendo o recorde de Júlio Verne: deu a volta ao mundo em 79 dias,
carregando a tocha olímpica da paz.
5 - Interpretados
Em casos excepcionais e quando a matéria realmente o justifique. Uma abertura pode
deixar de lado os princípios da isenção e objetividade e admitir algum grau de
interpretação, como no exemplo seguinte:
A mais significativa vitória de um lobby articulado na atual Constituinte não foi de
empresas especializadas e organizadas para esse fim ou os financiados pelas poderosas
multinacionais. Foi a do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap),
que conseguiu a inclusão, no projeto da Comissão de Sistematização, de 38
reivindicações de 9 confederações de trabalhadores, 9 federações de funcionários
públicos de nível nacional, 3 centrais sindIcais e mais de 300 sindicatos.
6 - Intercalações
Se no meio do texto as intercalações exageradas já são condenáveis e desviam a
atenção do leitor, no lead tornam-se mais graves, porque podem simplesmente afastá-
lo de toda a matéria. Veja dois casos em que os períodos deveriam ter sido quebrados
em frases menores:
Quando o ministro-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), tenente-
brigadeiro Paulo Roberto Camarinha, deixou claro na reunião do Conselho de
Desenvolvimento Econômico (CDE) , no Palácio da Alvorada, que os militares não
aceitariam qualquer redução na Unidade de Referência de Preços (URP) que não

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atingisse igualmente os Poderes Legislativo e Judiciário, o setor econômico do governo


federal entendeu que tinha pela frente um problema mais sério do que imaginava.
Os dois seqüestradores de Thabata Larissa Eroles Aragão, de dois meses e meio, que a
mantiveram como refém durante oito horas, na quarta-feira passada, e a esfaquearam
quando a polícia iniciava o seu resgate, eram ex-estudantes do Instituto Tecnológico da
Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, Eijii Ishizaki, de 26 anos, quartanista de
Engenharia Mecânica, e Paschoal Ichii, aluno de Engenharia Aeronáutica.
7 - Não-noticiosos
Aberturas não-noticiosas também exigem habilidade, a exemplo das "humanas",
porque o redator não está lidando com fatos, nos quais a hierarquia da informação já
se estabelece de maneira mais ou menos automática. Por isso, é preciso sempre levar
ao leitor o ponto central da informação de maneira atraente e de forma que ele
perceba que não está diante de uma notícia propriamente dita. Veja exemplos:
Não se sabe a que horas acordam, quantos maços de cigarros fumam, se bebem antes,
durante e depois. Mas os romances que produzem cheiram a dinheiro, quase
dispensam publicidade e invariavelmente encabeçam as listas dos mais vendidos.
Nesta página, três exemplos desses escritores-vendedores e seus novos lances:
Georges Simenon, Johanna Kingsley e Sydney Sheldon.
Provar a honestidade. Este é o desafio permanente dos homônimos, vítimas da
burocracia da Justiça, das listas telefônicas e até dos computadores do Serviço de
Proteção ao Crédito. Quando precisam assinar contratos, logo surgem os fantasmas
dos xarás, que não pagam suas dívidas e acabam dificultando os negócios.
Entregadores domiciliares de pizzas transformaram-se no alvo preferido de grupos
organizados de jovens delinqüentes da classe média, cuja ousadia já preocupa os
donos das pizzarias. Os jovens cercam os entregadores e levam as pizzas, o dinheiro e,
muitas vezes, também a moto ou a bicicleta. Alguns dos comerciantes sabem quem
são os ladrões, mas nada podem fazer contra eles.
8 - O óbvio ou lugar-comum
Fuja da abertura óbvia ou lugar-comum, que pode tanto ser aquela que se repete
sempre nas mesmas épocas ou circunstâncias como aquela que já foi usada tanto que
o bom senso recomenda evitar.
Veja alguns exemplos:
Se estivesse vivo, o compositor tal estaria completando hoje 90 anos de idade.
Indiscutivelmente, Xuxa é hoje a coqueluche nacional. Mas poucos sabem que, por trás
desse sucesso, há uma figura importantíssima: sua "Xupermãe".
Quando fez valer sua influência para viajar no Hércules C-130 da FAB, o comandante
Antônio Soares jamais poderia imaginar que aquela era sua última viagem.
O movimento das estradas paulistas começou ontem a ficar muito intenso por causa do
feriado prolongado da Semana Santa.
O movimento das lojas em São Paulo começa a aumentar com a aproximação do Natal.
As formas “se estivesse vivo” ou “não poderia imaginar” já foram usadas ao infinito
nos leads. A abertura da matéria da Xuxa não passa de um truísmo. E a referência ao
movimento nas estradas e nas lojas só repete o óbvio: que ele cresce no Natal e nas
vésperas de feriados.

9 – “Criatividade”
Professor mestre Artur Araujo (artur.araujo@puc-campinas.edu.br)
site: http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/
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Fuja a todo custo da falsa criatividade e da tentação de tornar seu lead engraçado ou
muito diferente. Lembre-se: essas formas são muito difíceis de alcançar e o mais que
se consegue, muitas vezes, são exemplos de gosto (para dizer o mínimo) discutível
como os dois que se seguem:
Se estivesse vivo, o compositor italiano Bellini ficaria feliz ao saber que empresta seu
nome ao restaurante que tem a vista panorâmica mais bonita de São Paulo.
Se o mosquito Aedes aegypti pensou que ia ter folga nesta primavera, preparando seu
exército para atacar no verão, pode tirar os ovinhos da chuva. É que a Sucam iniciará
campanha contra o inseto...

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