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A BATALHA DE KURSK E A FALSIFICAÇÃO DA HISTÓRIA

Miguel Urbano Rodrigues As comemorações do desembarque anglo – americano na Normandia, em Junho de 44, serviram mais uma vez de pretexto para uma campanha de falsificação da História de dimensão planetária. Este ano, pela primeira vez, até a Alemanha, o país vencido, se fez representar através da chanceler Angela Merkel. De Obama a Brown, com passagem por Sarkozy, os líderes do Ocidente repetiram que a batalha da Normandia foi não só decisiva para a vitória sobre o nazismo como o maior acontecimento militar da história. Todos estavam conscientes de que mentiam. Da contribuição da URSS para o esmagamento do III Reich não se falou praticamente. É significativo que os historiadores militares norte – americanos e britânicos, com raríssimas excepções, desconheçam nas suas obras a batalha de Kursk ou se limitem a breves referências. A omissão não resulta de ignorância. Tornar publica a verdade sobre Kursk pulverizaria os mitos forjados por Hollywood sobre a participação dos EUA na II Guerra e arrancaria a máscara à moderna historiografia norte-americana, tirando-lhe credibilidade. Kursk foi pelos efectivos e armamentos nela empenhados a maior batalha da História. Nela participaram 4 155 000 soviéticos e alemães. A fase defensiva e a ofensiva somadas duraram escassas semanas (Stalinegrado prolongou se por sete meses) Mas os meios utilizados – 69 000 canhões, 13 200 tanques e canhões de propulsão e 11 950 aviões – superam de longe o total dos equipamentos bélicos terrestres e aéreos mobilizados por americanos e japoneses durante os quase quatro anos da Guerra no Pacifico. (1) A batalha de Kursk mudou o rumo da guerra. O Exército Vermelho retomou ali a iniciativa e passou à ofensiva para a manter até a tomada do Reichstag, em Berlim, em Maio de 45, que ficou a assinalar a capitulação incondicional da Alemanha nazi. Julgo útil esboçar para o povo português muito resumidamente o quadro em que ocorreu o gigantesco confronto de Kursk e alguns factos e situações que os historiadores ocidentais – incluindo os da Alemanha – têm omitido nas suas obras. Em Fevereiro e Março de 1943, quando o Exercito Vermelhou deteve o movimento ofensivo iniciado após o aniquilamento e capitulação em Stalinegrado do VI Exercito Alemão de Von Paulus, a Wehrmacht desencadeou uma contra-ofensiva que lhe permitiu reocupar na Região Centro – Sul, entre outras, as cidades de Karkhov, Orel e Bielgorod. Formou-se assim naquela área, quando a Frente se estabilizou no inicio da Primavera, aquilo a que se chamou o Saliente de Kursk, um território quase quadrado, com uma dimensão equivalente à da Bélgica, que entrava como uma cunha pelas linhas alemãs. Consciente da importância estratégica do Saliente, o Grande Estado Maior Geral Soviético (EMGS) começou a acumular na retaguarda poderosas forças com a intenção de desencadear uma grande ofensiva no início do verão. Durante o inverno a indústria de guerra soviética ultrapassara pela primeira vez na produção de tanques e aviões a do bloco nazi. A força de combate do Exercito Vermelho era também já largamente superior à da Whermacht e satélites (italianos, romenos, húngaros entre outros).

Entre as novas armas a utilizar figuravam os tanques pesados Tigre e Pantera. após uma curta batalha defensiva em que seriam infligidas enormes perdas aos alemães. a meio do Saliente. Foi precisamente o conhecimento do plano alemão que levou o marechal Zhukov em relatório enviado ao Grande Quartel General em 8 de Abril a sugerir uma alteração da estratégia prevista. após alguma hesitação. aprovou o projecto de Zhukov que contou com o apoio de Vassilevsky.No início de Abril. a Norte. Para o efeito. a superioridade soviética era considerável. 7 e 8: 10 a 12 a Norte e um máximo de 30 a 35 a Sul. surpreendidos por um bombardeamento inesperado da artilharia soviética. com o objectivo de cercar as forças soviéticas ali concentradas. que tinha decifrado os códigos utilizados pelos alemães. a guerra relâmpago. o marechal Keitel reconheceu que o Estado Maior alemão subestimara o poder do Exercito Vermelho e ignorava que ele conhecia em pormenor o Citadel. e a da Estepe e a do Sudoeste. desencadearam a ofensiva. do lado Sul. A extraordinária concentração de meios numa área de extensão reduzidíssima permitiu aos alemães avançarem alguns quilómetros nos dias 6. . foi considerado inultrapassável pelo Quartel General Soviético. os alemães. Dispunham de 1 632 000 homens. 27 000 canhões e morteiros. em vez da ofensiva em preparação. cortando-lhes a retirada. Os marechais Manstein e Kluge estavam convictos de que na sua fulminante ofensiva iriam enfrentar apenas os Exércitos soviéticos das Frentes Central e de Voronej . previa o ataque simultâneo a partir do Sul e no Norte. A Frente da Espete foi concebida para funcionar na prática como um conjunto de exércitos de reserva. elaborado pelo marechal Von Manstein. Stalin. considerado pelos especialistas o melhor veículo couraçado da II Guerra – e 3000 aviões de combate. O EMGS. Propôs que. passasse imediatamente à ofensiva. Por informações posteriores de pilotos e oficiais capturados soube-se que “Citadel” seria o nome da grande operação em estudo. montado em menos de três meses. Em Nuremberga. Na sua ordem de serviço Hitler afirmou que ela deveria transformar o inimigo numa tocha que iluminaria o mundo. os alemães mobilizaram 950 000 homens. Na madrugada do dia 5. no interior do Saliente. Longe iam os dias da blietzkrieg. A Luftwaffe despejou milhares de toneladas de bombas sobre as linhas soviéticas e as divisões Panzer ao arrancarem foram apoiadas por uma barragem ininterrupta de artilharia. o Exercito Vermelho aguardasse o ataque da Wehrmacht em linhas fortificadas a construir e. 10 800 canhões. entre os quais o T-34. Mas foram incapazes de romper as linhas soviéticas. 5000 tanques. na batalha defensiva. entre os quais os Focke – Wulf 190 e bombardeiros Henschel-129. O plano. 3000 tanques (16 divisões Panzer) e três mil aviões. tomou conhecimento de que Hitler decidira retomar a ofensiva no verão para vingar a humilhante derrota de Stalinegrado que destruíra o mito da invencibilidade alemã. A operação seria desencadeada entre 3 e 6 de Julho. Esperavam uma vitória tão rápida que descuraram o problemas das reservas. No segundo dia da batalha a Força Aérea soviética conquistou o domínio definitivo do ar e uma semana depois a Luftwaffe foi praticamente varrida dos céus de Kursk. Contra o que é habitual. O dispositivo defensivo. Na realidade intervieram na batalha os Exércitos Soviéticos de mais quatro Frentes – a Ocidental e a de Briansk.

no dia 23. Mas. determinação e capacidade de sacrifício como as do povo russo e dos seus exércitos”. Kursk não é sequer citada. Hitler foi informado de que Citadel fracassara. ESTRATEGIA E TÀCTICAS INOVADORAS A Historiografia soviética dedicou milhares de páginas à Batalha de Kursk. professor de História no Instituto de História Militar do Ministério da Defesa da URSS. As perdas foram elevadíssimas nos dois campos. numa semana. A maioria coincide na conclusão de que Kursk não deve ser considerado um «modelo» para outras batalhas porque nunca mais foi possível utilizar tantos meios humanos e materiais numa área tão reduzida. A ausência de reservas aumentou muito as dificuldades da ininterrupta retirada alemã. o próprio marechal Manstein dedica-lhe poucas páginas nas suas Memórias e em “Vitórias Perdidas” (Bonn. a batalha de Kursk desapareceu da historiografia anglo-americana. uma desconhecida ilhota do Pacifico onde 10 000 americanos enfrentaram outros tantos japoneses. um fortíssimo contra-ataque soviético assinalou o fim da fase defensiva da batalha. uma pequena cidade. a sua capacidade ofensiva.. Nessa planura travou-se durante quase três dias a maior batalha de tanques da Historia.. definitivamente. anos depois.Consciente de que Citadel estava a evoluir mal e de que a esperança de fechar as tenazes em torno do inimigo. Os alemães careciam de reservas e as soviéticas afluíam maciçamente da retaguarda. mas da lista constam Corregidor (uma humilhante derrota americana nas Filipinas) e Tarawa. quase metade dos tanques empenhados. Roosevelt escreveu então que “o mundo nunca viu tão grande devoção. No dia 15 Koniev e Rokossovsky contra-atacaram e os alemães iniciaram a retirada. na charneira das Frentes Central e da Estepe. A Wehermacht perdera em Kursk. as tropas soviéticas expulsaram os últimos alemães de Karkhov. montada com perversidade por iniciativa dos governos de Washington e Londres. No dia 12. A falsificação da Historia. eram remotas. quando principiou a Guerra Fria. foi levada tão longe que um conceituado académico estadunidense. mas somente algumas dessas obras foram traduzidas para idiomas estrangeiros. Roosevelt e Churchill em mensagens a Stalin felicitaram-no com entusiasmo pela a grande e decisiva vitória alcançada pela União Soviética. No dia 3 de Agosto as Frentes da Estepe (marechal Zakharov) e do Sudoeste passaram também à ofensiva. cercando-o. As tropas das Frentes Ocidental e de Briansk atacaram nesse mesmo dia a Noroeste do Saliente. 1955). A atenção preferencial dedicada pelos historiadores militares a essa batalha resulta não tanto por ela ter mudado o rumo da guerra mas sobretudo por ter assinalado uma viragem inovadora naquilo que definem como «a arte militar soviética». Vassilevsky e Zakharov reflectem sobre o tema nas sus obras. Nela participaram de ambos lados 1200 carros. Na Alemanha. A 5 de Agosto troaram os canhões em Moscovo para festejar a libertação de Orel e Bielgrod. num livro dedicado às ”Onze maiores batalhas” da II Guerra apenas inclui Stalinegrado na Frente Leste. Uma síntese especialmente esclarecedora figura num ensaio do coronel Vasily Morozov. a sudeste do Saliente. . Os marechais Zhukov. Hanson Baldwin. Manstein lançou os seus panzer contra Prokovohka. Mas no dia 12 o ímpeto germânico esgotara-se.

da força aérea. o seu desfecho não teria sido possível se os homens que ali quebraram a coluna vertebral da Wehrmach não contassem com o apoio total do seu povo. não conseguiram romper a frente em qualquer dos sectores da mesma. assegurando comunicações seguras entre as Frentes. Os generais Pavel Doronin e Konstantin Krainyukov publicaram importantes estudos sobre a participação do PCUS em todas as fases da batalha. agredido pelas hordas hitlerianas. As defesas. Até então as forças blindadas estavam ligadas a exércitos ou grupos de exércitos de infantaria de cujo comando dependiam. campos de minas e uma densidade de artilharia por quilómetro inédita. Kursk foi concebida para ser uma batalha ofensiva. Dai as enormes reservas acumuladas na retaguarda. A coordenação das acções dos exércitos de tanques. Pela primeira vez na História – salienta Morosov – as forças que defendiam eram muito superiores às do atacante em efectivos e na qualidade e quantidade do armamento. O primeiro deles foi a súbita inversão de estratégia. Informações sobre a localização exacta dos aeródromos alemães recebidas dos guerrilheiros que combatiam na retaguarda dos nazis permitiram bombardeamentos de precisão que destruíram ou danificaram muitos aviões da Luftwaffe A engenharia militar construiu no Saliente uns 6 000 quilómetros de trincheiras. como já foi sublinhado.O autor nesse estudo alerta para os aspectos mais inovadores do grande choque. As forças alemãs. dezenas de pontes. e da intervenção das reservas obedeceu também a esquemas inovadores. . da infantaria. Não há falsificações dos escritores e académicos da burguesia que possam apagar o significado histórico da batalha de Kursk. centenas de quilómetros de estradas e ramais ferroviários. A opção pela defensiva inicial baseou-se na certeza de que essa superioridade impediria a ruptura da frente pelo inimigo. 78 hospitais (alguns com instalações subterrâneas). desdobravam-se em três escalões todos protegidos por obstáculos anti tanques. campos de aviação. O trabalho político desenvolvido pelos representantes do Partido das trincheiras à retaguarda contribuiu muito para o elevado moral das tropas No auge da luta foram realizados concertos e espectáculos teatrais com a presença de destacados artistas nacionais. Outra inovação em Kursk foi o emprego pela primeira vez de exércitos de tanques autónomos. das quais os alemães tinham um conhecimento superficial. As redes de abastecimento de alimentos e combustíveis e de comunicações telefónicas e telegráficas desempenharam um papel importantíssimo durante a batalha. Acontecimento estratégico de viragem. as unidades da vanguarda e da retaguarda e Moscovo. A logística preparada para a batalha excedeu tudo o que no género se fizera desde o início da invasão. O facto de a contra-ofensiva soviética ter partido com diferença de poucos dias de seis frentes diferentes surpreendeu e desorientou o Alto Comando da Wehermacht e desmoralizou os exércitos alemães forçados a passar da ofensiva a uma defensiva caótica. em toda extensão do Saliente.

10 de Dezembro de 2009 (1) Os números citados neste artigo foram extraídos do Livro “The Battle of Kursk”. 1974. chefe do Estado Maior General e os marechais Rokossovsky e Koniev. os soldados da União Soviética bateram-se com a convicção inabalável de que assumiam não somente a defesa do seu povo como a causa da humanidade ameaçada pela barbárie fascista. como os de Moscovo. comandante supremo. Os seus combatentes. Inseriu-se numa saga de sobrevivência nacional. . comandantes de duas das seis Frentes que participaram na batalha. Vila Nova de Gaia. da Bielorrússia e de outras batalhas vitoriosas pertenciam a uma geração que deu continuidade ao espírito revolucionário dos heróis de Outubro de 17. Ed. entre as quais o marechal Georgi Zhukov.que reúne ensaios e depoimentos de 25 altas personalidades soviéticas. Nas circunstâncias mais difíceis. do marechal Alexander Vassilevsky. Moscovo.Progresso. de Stalinegrado.Kursk não foi uma excepção. do Cáucaso.