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Universidade Comunitária da Região de Chapecó Área de Ciências Humanas e Jurídicas Curso: Ciências de Bacharelado em Direito Componente Curricular: Direito

Ambiental

RESÍDUOS SOLIDOS

Renaldo Albuquerque

Chapecó – SC, Fevereiro, 2013

É de total importância que os resíduos sólidos obtenham destinação final ambientalmente adequada. É clara a necessidade de se ter uma atenção para o tema e buscar estabelecer contornos relacionados à responsabilidade ambiental pós-consumo. pois é possível determinar. para que o Estado combata esse problema. . Isso se surge. As atividades desempenhadas na sociedade moderna encontram-se agravadas acerca das dúvidas com as suas conseqüência.Introdução A produção de resíduos sólidos é um problema atual e eminente. para que a coletividade como um todo não tenha que arcar com o ônus da perda da qualidade ambiental ou do aumento da carga tributária. que se insere no contexto da sociedade moderna. uma relação exata de causa e efeito decorrentes das atividades e tecnologias desempenhadas na esfera da sociedade capitalista industrial.

Logo. os relacionados a uma maior dificuldade da natureza de absorção dos resíduos sólidos devido a sua complexa formação. fez com que os riscos que eram criados e controlados pela sociedade industrial. que. no atual estágio da ciência. . por meio de uma análise dos efeitos gerados pelas atividades por ela executadas. identificamse prejuízos derivados da criação dos riscos tecnológicos que passam a ser suportados pela humanidade dentro deles. a sociedade contemporânea produz riscos que não logra êxito ao tentar controlar. marcados por demonstrações de causa e efeito. por meio de um modelo capitalista predatório. Além disso. gera-se um incremento no número de bens consumidos e conseqüentemente descartados indevidamente no meio ambiente. o avanço desse padrão.Riscos ambientais dos resíduos sólidos O advento da preocupação com a destinação dos resíduos sólidos. já que com o aumento do consumo per capito. não é possível determinar a dimensão correta das conseqüências desses riscos. existe a questão relativa ao incremento das relações de produção e consumo. sem considerar as possíveis conseqüências derivados desse modelo de produção. já que. perdessem esse caráter. Sobre o fato ensina Delton Winter Caravalho: Dentro da perspectiva da sociedade de risco constata-se que a proteção ambiental é inserida como objetivo fundamental do Estado dando azo à criação de um Estado de Direito Ambiental que tem por finalidade a defesa do ambiente e a promoção da qualidade de vida. surgiu após o surgimento da industrialização clássica. o aumento no volume de resíduos e sua complexa formação. que é crescente e influencia na destinação incorreta de resíduos sólidos. normalmente ligado a padrões de qualidade de vida. Ao grau que a sociedade industrial gerava riscos concretos. ligados a dinâmica da sociedade de consumo. determinado pelo desenvolvimento técnico e científico. aumentam-se os padrões de vida em sociedade e por outro lado. Diante do contexto da sociedade moderna. pode-se apontar dois fatores que levam ao impacto ambiental decorrente desse descarte ambientalmente incorreto. dispunha dos recursos ambientais de forma ilimitada. Além do mais.

) resíduos nos estados sólido e semi-sólido. 2004a) os resíduos sólidos são definidos como: (. Análise acerca da lei nº 12. Conforme definição da Lei Federal nº 12. que resultam de atividades de origem industrial. constitui-se um ambiente agravado por uma complexidade gerida pela ficção de um Estado de Direito Ambiental. que busca “criar e disponibilizar os meios mais eficazes à proteção do meio ambiente.resíduos sólidos: material. hospitalar.. agrícola. resíduos sólidos constituem: XVI . é indispensável que haja uma legislação de gestão de resíduos sólidos em âmbito Federal. em seu artigo 3º.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos)..305/10 que dispõe sobre a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. inciso XVI. ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível. doméstica. determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água. a cuja destinação final se procede. comercial. de serviços e de varrição. 225) é um reflexo da necessidade do Estado de lidar com a problemática da potencialização dos riscos advindos do desenvolvimento da sociedade industrial e é realizado por meio de um dever imposto ao Poder Público e a coletividade. obrigando as instituições a avaliar e limitar a extensão dos danos e riscos ambientais”. nos estados sólido ou semissólido. art. Assim. para que se criem instrumentos que de forma coerente e organizada sejam capazes de gerir esses resíduos e principalmente ocorra um sistema de responsabilidade ambiental. se propõe proceder ou se está obrigado a proceder. Para que seja possível atingir uma efetiva proteção contra a ocorrência de danos ambientais provenientes da destinação final incorreta de resíduos sólidos. aquele gerado em equipamentos e instalações de controle da poluição. ou exijam para isso soluções técnica e economicamente inviáveis em face à melhor tecnologia disponível. objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade. . Segundo a NBR 10004/2004 (ABNT.A constitucionalização da garantia de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (CF. Fica incluído nesta definição: o lodo proveniente de sistemas de tratamento de água. bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d’água. substância.

como líquidos e gasosos. por exemplo. . estes podem ser aceitos para coleta e disposição no aterro desde que autorizado pelas instituições responsáveis pelo GIRSU. Assim. capina. d) resíduos de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços: os gerados nessas atividades. A composição dos RSU domésticos é bastante diversificada. “h” e “j”. “e”. assim segundo Reis e Ferreira: A palavra lixo origina-se do latim lix. compreendendo desde restos de alimentos. O termo “lixo” é na maioria das vezes utilizada como sinônimo de resíduos. metais e vidro até componentes considerados perigosos por serem prejudiciais ao meio ambiente e à saúde pública.305/2010. foi utilizado como termo técnico e o adjetivo sólido foi dado com o objetivo de diferenciar de outros tipos de resíduo. da construção civil e. Dentre os vários RSU gerados. Segundo Viviana Zanta e Cynthia Ferreira: Os resíduos sólidos de origem urbana (RSU) compreendem aqueles produzidos pelas inúmeras atividades desenvolvidas em áreas com aglomerações humanas do município. da limpeza pública (varrição. 1999). de estabelecimentos de saúde. quanto à origem e à periculosidade: Art. poda e outros). c) resíduos sólidos urbanos: os englobados nas alíneas “a” e “b”. que significa aquilo que sobra de qualquer substância. Segundo a Lei nº 12. que significa cinzas ou lixívia. abrangendo resíduos de várias origens. “g”. os resíduos de serviço de saúde ou da construção civil. os resíduos são assim classificados. plásticos.Para os efeitos desta Lei. e os resíduos da limpeza pública. estando sujeitos a legislação específica vigente. são igualmente de responsabilidade do gerador.quanto à origem: a) resíduos domiciliares: os originários de atividades domésticas em residências urbanas.Dentro dessa categoria de resíduos sólidos. restos. papéis. são normalmente encaminhados para a disposição em aterros sob responsabilidade do poder municipal os resíduos de origem domiciliar ou aqueles com características similares. o termo resíduo originado do latim residuu. os resíduos sólidos têm a seguinte classificação: I . comercial. como é. os agrícolas. industriais. 13 . excetuados os referidos nas alíneas “b”. em seu artigo 13. finalmente. como residencial. como os comerciais. termo que foi substituído por resíduo (BIDONE e POVINELLI. os Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) são um conjunto heterogêneo de materiais (comumente denominados de “lixo”. Ressalta-se que o gerenciamento de resíduos de origem não domiciliar. b) resíduos de limpeza urbana: os originários da varrição. limpeza de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza urbana. resíduos) gerados nos imóveis públicos ou particulares. Nos caso dos resíduos comerciais. residenciais ou comerciais e os resultantes das atividades de limpeza urbana em geral.

em seu artigo 3º. mas também por uma destinação final ambientalmente adequada. Parágrafo único. existe outro processo de destinação final adequada e também processos e ações que ajudam a diminuir o volume de resíduos a ser enterrado. entre elas a disposição final. k) resíduos de mineração: os gerados na atividade de pesquisa. se caracterizados como não perigosos. em razão de sua natureza. regulamento ou norma técnica. teratogenicidade e mutagenicidade. a questão dos resíduos não passa apenas pela disposição final adequada. inciso VII.e) resíduos dos serviços públicos de saneamento básico: os gerados nessas atividades. em razão de suas características de inflamabilidade. é: VII . que apesar de ser um processo operacionalmente mais rápido e que não deixa passivo ambiental. reatividade. a compostagem. o que a inviabiliza para praticamente todos os pequenos municípios. incluídos os relacionados a insumos utilizados nessas atividades. a recuperação e o aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos órgãos competentes do Sisnama.destinação final ambientalmente adequada: destinação de resíduos que inclui a reutilização. extração ou beneficiamento de minérios. aeroportos.305/2010. composição ou volume. f) resíduos industriais: os gerados nos processos produtivos e instalações industriais. Com relação à destinação final adequada tem-se a incineração. toxicidade. Caracterização das formas de disposição final de resíduos sólidos urbanos Pensando mais holisticamente. corrosividade. rodoviários e ferroviários e passagens de fronteira. h) resíduos da construção civil: os gerados nas construções. os resíduos referidos na alínea “d” do inciso I do caput. excetuados os referidos na alínea “c”. conforme definido em regulamento ou em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama e do SNVS. ser equiparados aos resíduos domiciliares pelo poder público municipal. incluídos os resultantes da preparação e escavação de terrenos para obras civis. 20. reparos e demolições de obras de construção civil. que segundo a Lei nº 12. carcinogenicidade. patogenicidade. Assim. g) resíduos de serviços de saúde: os gerados nos serviços de saúde. Os processos voltados para a diminuição do volume de resíduos disposto em aterros consistem basicamente na . i) resíduos agrossilvopastoris: os gerados nas atividades agropecuárias e silviculturais. terminais alfandegários. Respeitado o disposto no art. a reciclagem. além da destinação em aterros. II . apresentam significativo risco à saúde pública ou à qualidade ambiental. podem. j) resíduos de serviços de transportes: os originários de portos. reformas. é significativamente mais caro e exige um corpo técnico mais especializado.quanto à periculosidade: a) resíduos perigosos: aqueles que. de acordo com lei. b) resíduos não perigosos: aqueles não enquadrados na alínea “a”. do SNVS e do Suasa. observando normas operacionais específicas de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos.

até a destinação final apropriada dos resíduos gerados pela atividade. que se caracteriza pela simples descarga dos mesmos sobre o solo. Na qualidade de geradores dos resíduos equiparam-se aos produtores e fabricantes os importadores. a partir das características de periculosidade intrínsecas a certos resíduos e pelos efeitos de seu acúmulo e interação com o meio ambiente. . e subseqüente descarte pelo consumidor . descartados no meio ambiente. Ressaltase que esses dois últimos propiciam geração de renda por parte da população envolvida. na recuperação de áreas degradadas. Explica-se tal avanço na proteção necessária em função da própria natureza do dano ambiental e de seu grande potencial de intensificação. portanto. entre outros. Trata-se.). principalmente. baratas. Responsabilidade civil ambiental pós-consumo A responsabilização ambiental pós-consumo diz respeito à extensão no contexto da responsabilidade civil ambiental destinada ao cuidado e reparação de danos ambientais causados pelos resultados de um processo produtivo que já tenham deixado à esfera do produtor ou fabricante por sua percepção com produtos pelo mercado de consumo. sem medidas de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública. que podem ser utilizados em paisagismos. neste caso o produto regularmente consumido e utilizado. de fazer com que responsabilidade do fabricante contemple todo o ciclo de vida do produto. ao longo de sua cadeia de produção. a poluição do solo e das águas superficiais e subterrâneas. ratos. código E-03-07-7. mosquitos. Esse processo consiste na segregação dos resíduos recicláveis e o aproveitamento da matéria orgânica para produção de compostos orgânicos ricos em húmus e nutrientes minerais. desde a origem. trazendo. etc. posto serem ele s os introdutores do produto estrangeiro no mercado nacional. geração de odores desagradáveis e. Os chamados lixões são uma forma inadequada de disposição final de resíduos. portanto. ocasionando a proliferação de vetores de doenças (moscas. A UTC é um sistema licenciável segundo a DN nº 74/2004 na mesma atividade que Aterro Sanitário: “Tratamento e/ou disposição final de resíduos sólidos urbanos” (entenda-se aqui tratamento como UTC).instalação de Usinas de Triagem e Compostagem (UTC) e na coleta seletiva. ficando depositados a céu aberto. benefícios ambientais e sociais para a comunidade.

. cujas conexões não são evidentes do ponto de vista fático. mas que. bem como da magnitude do dano. a partir de uma embaraçada rede de causas e efeitos múltiplos. resultado indesejado sobrevindo de atividades lícitas e mesmo necessárias à sociedade. tanto mais pela possibilidade de manifestação retardada deste e por seu caráter.A medida do dano ambiental é complexa. Ele se estabelece ao longo de um cenário de tempo de difícil ou impossível delimitação. em função tanto das reações em cadeia provocadas no meio que afeta. Sua origem é coletiva e incerta. Esta irradiação de causas. Observe-se ainda que o dano ambiental é. atingindo a integridade física e patrimonial de indivíduos gerações presentes e futuras interesses da sociedade em geral ou simplesmente a realidade do meio ambiente. muitas vezes. resultante de riscos agregados de causadores múltiplos ou de causa única produtora de múltiplos efeitos. cumulativo. por sua vez. não raro. inviabiliza a apuração precisa de efeitos e a determinação ex ante dos sujeitos atingidos. não obstante. quanto do prazo ao longo do qual se propaga. alteram o equilíbrio ambiental.

estabeleça-se os contornos a cerca da responsabilidade ambiental pós-consumo. Vivemos em uma sociedade de risco na qual é criada a ficção de um Estado de Direito Ambiental para gerir essa complexidade. Para que os instrumentos de prevenção sejam mais eficazes. . Sendo assim. é fundamental que seja feita uma análise à luz de princípios como o da prevenção. desse modo. é imprescindível a utilização de mecanismos de prevenção a serem implementados para que se evite a ocorrência de danos provenientes de uma gestão ambientalmente inadequada dos resíduos sólidos.Conclusão A produção de resíduos sólidos e o descarte ambientalmente incorreto dos mesmos é um problema atual e proeminente. da precaução e do poluidor pagador e.

Viviana Maria e FERREIRA. In: CASTILHOS JUNIOR. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ZANTA. Capítulo 1: Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Urbanos.Dano ambiental futuro: A responsabilização civil pelo risco ambiental. 2008. Rio de Janaiero: ABES.. 17. Armando Borges de (coordenador). Aspectos sanitários relacionados à apresentação do lixo Urbano para coleta pública. 2008. Cynthia Fantoini Alves. Délton Winter de. REIS. Pg. Osmar Mendes. João Paulo Alves dos e FERREIRA. Resíduos Sólidos Urbanos: Aterro Sustentável para Municípios de Pequeno Porte. 2003. . 1ª ed.Referências bibliográficas CARVALHO. Goiânia.