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ASPECTOS DO PROJETO ESTRUTURAL DA CÚPULA INVERTIDA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS NO PALÁCIO DO CONGRESSO NACIONAL Márcio Augusto Roma Buzar

Leonardo da Silveira Pirillo Inojosa buzar@unb.br leonardo@inojosa.com.br Programa de Pós-Graduação Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Universidade de Brasília 70910-900 – Brasília, DF, Brasil.

Resumo. A Cúpula invertida da Câmara foi mais um desafio proposto por Niemeyer ao calculista Joaquim Cardozo. Conhecido como o “Engenheiro da Poesia”, Cardozo é considerado um pioneiro do Movimento Moderno e se destaca como calculista das principais obras de Oscar Niemeyer, como o Conjunto da Pampulha e os edifícios de Brasília. Joaquim Cardozo é responsável por uma verdadeira revolução técnica na engenharia brasileira, estimulado e inspirado pelos projetos de grandes arquitetos com quem trabalhou durante toda sua carreira, como antecipa, muito antes de se consagrar como o engenheiro de Brasília, em 1939, durante uma aula de Teoria e Filosofia da Arquitetura na Escola de Belas Artes de Pernambuco. Neste trabalho faz-se uma análise do projeto estrutural da cúpula da Câmara dos Deputados buscando-se mostrar elementos de criatividade do projetista para equilibrar a estrutura. Fazse uma análise numérica qualitativa da solução estrutural com as ferramentas computacionais disponíveis. Palavras Chaves. Projeto estrutural, Casca, elementos finitos, estrutura de concreto.

1

INTRODUÇÃO

As obras arquitetônicas de Oscar Niemeyer se destacam pelo arrojo das formas e a plasticidade escultural, dentre elas os edifícios públicos de Brasília, projetados em um período em que, segundo seu próprio depoimento, sua carreira passava por um processo de revisão em que o arquiteto começa uma “procura constante de concisão e pureza” (Niemeyer apud Xavier, 1987). Com essa mudança Oscar Niemeyer passa a produzir uma arquitetura onde a monumentalidade aparece na simplificação do número de elementos que cumprem de forma racional seu papel funcional, estabelecendo um “real comprometimento entre forma e estrutura” (Müller, 2003). Antes de projetar Brasília, Oscar Niemeyer surpreende em sua primeira obra individual, o conjunto da Pampulha. Obra diferenciada das obras da época que segundo Júlio Katinsky sintetiza toda sua arquitetura, através da criatividade, da necessidade de contestação e desafio, quebra a rigidez do racionalismo com a introdução da curva (Sabbag, 1987). A relação com a estrutura sempre marcou o trabalho de Niemeyer, ele sempre exigiu muito de seus calculistas, desenvolvendo a cada projeto novas formas para a estrutura (Ohtake, 1987). Dividindo sua trajetória profissional em 4 fases, conforme esquematiza de forma didática o Professor Júlio Katinsky (1987) podemos notar que a técnica e os conceitos estruturais são questões de grande importância em toda sua obra. A primeira fase é a de formação profissional, como estagiário, não remunerado, no escritório de Lúcio Costa, onde teve a oportunidade de participar de forma decisiva na equipe do Ministério da Educação. Iniciando a segunda fase, sua primeira grande obra individual, o conjunto da Pampulha em Belo Horizonte, se destaca como uma ruptura com o formalismo estrutural vigente na época, em suas próprias palavras: “Foi importante porque é um dos primeiros trabalhos que fiz. Com ele, contestei a linha racionalista, a Arquitetura feita com régua e esquadro. E eu queria – naquela época eu mal saía da Escola – mostrar que a Arquitetura pode ser diferente, pode ser mais livre, adaptar-se a tudo que o concreto nos oferece...” (Niemeyer apud Wolf, 1987). Para atingir essa ruptura Niemeyer se valeu da tecnologia do concreto armado, utilizando-a de forma criativa e inovadora. Esse período em sua obra é marcado por diversas experiências estruturais que se tornaram marcas do arquiteto. Novas formas de pilotis para reduzir o número de apoios no térreo, pilares em “V”, em “W”, “em forma de um ramo nascido de um tronco. E cada vez mais esbeltos e audaciosos” (Sabbag, 1987). A fase que mais expõe a importância da estrutura em seu trabalho é a fase de Brasília. Nos edifícios monumentais da Capital a utilização do potencial técnico do concreto armado permite a criação de grandes edifícios que pousam levemente sobre o solo. A unidade de pensamento entre os técnicos do concreto armado e o arquiteto foram fundamentais para o sucesso dos projetos, a integração da equipe, inclusive do Engenheiro Joaquim Cardoso com a leveza arquitetural e a proposta de buscar a beleza e não somente solucionar os aspectos funcionais, criando espaços amplos e flexíveis levou o arquiteto e o calculista a intervirem nos sistemas estruturais, fazendo com que muitas vezes o sistema estrutural definisse e caracterizasse a arquitetura. (Moreira, 2007). Na continuidade de seu trabalho ao longo dos anos, Niemeyer continua exigindo da técnica e utilizando diretamente as soluções estruturais inovadoras, como em seus projetos realizados no exterior nas décadas de 60, 70 e 80, criando estruturas pra vencer grandes vãos e formas cada vez mais livres. (Ohtake, 1987). Nesse último período, Oscar Niemeyer concretiza seus projetos mais arrojados, que testam os limites da tecnologia do concreto armado em balanços gigantescos e colunas cada vez mais esbeltas (Sabbag, 1987).

1.Croqui do Pavilhão Luiz Nunes (atual sede do IAB-PE) . a Caixa D’água de Olinda de 1937 e a Escola Rural Alberto Torres. Joaquim Cardozo é considerado um dos pioneiros do movimento moderno da arquitetura brasileira e sua carreira pode ser exposta em três momentos. escritor. topógrafo.1 Joaquim Cardozo Figura 1 . órgão responsável por projetar. engenheiro. caricaturista. 2007). Foi poeta. como o Congresso Nacional. professor. 2. O primeiro momnto é o movimento encabeçado pelo arquiteto Luis Nunes em Recife entre 1934 e 1937. Figura 2 . segundo Oscar Niemeyer. o homem mais culto que já conheceu (Niemeyer. Além disso. Entre os principais projetos dessa fase destacam-se: o Pavilhão Luiz Nunes de 1937 (atual sede do IAB-PE) – Fig. anos de funcionamento da DAU. construir e fiscalizar todas as obras públicas do estado de Pernambuco do qual faziam parte também o paisagista Roberto Burle Marx. incluindo os edifícios monumentais de Brasília. um conceito evolutivo de urbanismo. Joaquim Cardozo teve suma importância para a viabilização dos principais projetos do arquiteto Oscar Niemeyer. 2000).Joaquim Cardozo “O Engenheiro da Poesia” desenhado por Carlos Scliar Joaquim Cardozo foi um homem muito culto.Esse período inclui também projetos como o da Universidade de Brasília que apresentam um grande amadurecimento. teórico de arquitetura e calculista de estruturas. tecnicamente a construção do edifício do Instituto Central de Ciências “foi considerada um grande canteiro de experimentação da tecnologia do pré-moldado” (Moreira. construída em 1935 e 36.

onde passa a fazer parte do SPHAN. integrado ao projeto desde o início por Niemeyer acompanhou com sensibilidade o arrojo estrutural das novas formas propostas pelo arquiteto. Isso se deve graças ao talento. quando Cardozo é integrado à equipe da NOVACAP por Niemeyer como diretor da Seção de Cálculo Estrutural e é o responsável pelos projetos estruturais dos principais edifícios da nova capital nacional. apesar de não receber tantos méritos quanto seus colegas Joaquim Cardozo (Gallindo. época da construção de Brasília. Figura 3 . de Novembro de 1956. impondo-se sem qualquer efeito ilusório ou misterioso a relação entre carga e suporte. Lúcio Costa. Esse projeto teve a participação decisiva de Joaquim Cardozo que. 2004). Lúcio Costa.Construção das Cúpula do Senado e da Câmara dos Deputados . compreensível pelo menos.Fundos da Igreja São Francisco de Assis (Conjunto da Pampulha) O terceiro momento em que a carreira de Joaquim Cardozo se mistura com a história da Arquitetura Moderna Brasileira é o período entre 1956 a 1964. 1998). “a realidade do equilíbrio é perfeitamente sensível. Roberto Burle Marx e Oscar Niemeyer. Oscar Niemeyer e. quando foram iniciadas as fundações para o Brasília Palace Hotel e para o Palácio da Alvorada. tão diferentes da rigidez que se via na época (Santana. Figuras 4 e 5 . em Belo Horizonte. 1998). criando novos detalhes construtivos para dar vida às formas livres. Brasília foi construída em três anos e meio. a 21 de Abril de 1960.O segundo momento é o “Episódio da Pampulha”. data de sua inauguração. Uma das características desse projeto que o torna mais um marco na história da arquitetura moderna brasileira e na carreira de Joaquim Cardozo e Oscar Niemeyer é o fato de sua forma ser totalmente fiel à estrutura que a suporta. e começa com a mudança de Joaquim Cardozo para o Rio de Janeiro. criatividade e ousadia de três grandes nomes da Arquitetura Brasileira. com quem desenvolve uma importante amizade e quem o convida para fazer o cálculo da estrutura dos edifícios do Conjunto da Pampulha.” (Cardozo apud Santana. ao lado de Rodrigo de Mello Franco.

durante uma aula de Teoria e Filosofia da Arquitetura na Escola de Belas Artes de Pernambuco. Os projetos de Brasília trouxeram desafios e exigiram que Joaquim Cardozo trabalhasse. 6). como ainda chegaram a incutir nos mesmos um caráter bem pernambucano (. dizendo: “. Essa volumetria sugerida por Lúcio Costa possuía apenas uma torre ou bloco vertical e uma cúpula. inclusive com uma proposta volumétrica para tal edifício (Fig. Brasília. quase que ao mesmo tempo. em 1939. com problemas e soluções estruturais complexas. responsável pelo cálculo estrutural. do Presidente Jucelino Kubitschek.. aos 81 aos veio a falecer em uma clínica em Olinda – PE.. abaixo do equador” da cúpula da Câmara dos Deputados” (Cardozo. destacando ao projeto da Catedral de Brasília e a Cúpula da Câmara dos Deputados. o Congresso Nacional foi projetado por Oscar Niemeyer. que o levou para o Rio para que pudesse freqüentar o escritório do arquiteto diariamente (Niemeyer. que além de cálculos extremamente complexos e sem referências na arquitetura vigente tinham prazos mínimos para serem resolvidos. Como todos os edifícios da nova sede do governo federal. como antecipa.. 2 HISTÓRICO O arrojado “Plano de Metas”. estimulado e inspirado pelos projetos de grandes arquitetos com quem trabalhou durante toda sua carreira. não mais como abóbodas.) conseguindo ao mesmo tempo os melhores efeitos plásticos do concreto armado. Figura 6 . como os “verdadeiros arcobotantes.” (Cardozo apud Santana. Joaquim Cardozo encerrou suas atividades em 1972. Em quatro de Novembro de 1978. 1998). 2007). Para escolher o projeto da nova cidade foi feito um concurso nacional que contou com a participação dos principais nomes da arquitetura e do urbanismo brasileiro e consagrou vencedor o projeto do arquiteto e urbanista Lúcio Costa (Meyer. Joaquim Cardozo é responsável por uma verdadeira revolução técnica na engenharia brasileira. Dentro desse plano de Lúcio Costa já existia a previsão da localização da Praça dos três poderes. 1998). que contou com a valiosa colaboração do Engenheiro Joaquim Cardozo. 1965). ou “uma casca limitada pela superfície de uma zona de elipsóide de revolução. concebido para ser cumprido em 4 anos..Volumetria proposta por Lúcio Costa . sendo necessárias investigações imediatas e as vezes até antecipadas (Santana. continha como “meta síntese” a construção da nova capital brasileira. mas escorando-se entre si” da Catedral.Esse período na carreira do engenheiro é marcado pelos maiores desafios estruturais. Já nos outros palácios o desafio eram os reduzidos pontos de apoio das colunas e a esbeltez dos perfis e das grandes e finas lajes desenhadas por Niemeyer. aos 75 anos. tive a oportunidade de colaborar com arquitetos que não somente mostraram nos seus projetos o mais perfeito conhecimento de adaptação dos materiais plásticos modernos ao caso brasileiro. Passou ainda um período no Rio de Janeiro ao lado do amigo Oscar Niemeyer.. muito antes de se consagrar como o engenheiro de Brasília. e nela a posição do Congresso Nacional.. 2002).

Figura 8 . fazendo isso visualmente. típica cúpula de cobertura que cobre um vão de 39 metros. virada para cima. já que ao se aproximar do Congresso. Oscar Niemeyer optou por separar as duas casas. Senado e Câmara dos Deputados. que fica abaixo do nível das vias do Eixo Monumental. que foram construídos para serem os mais altos edifícios do Plano Piloto. 2007). a praça. os anexos principais do congresso. 2007). que exigiu soluções estruturais jamais vistas nos mais completos manuais de estrutura da época (Othake. aberta. como um prato emborcado. Esse nivelamento da cobertura do palácio com as avenidas se deve a intenção do arquiteto de integrar o Congresso Nacional na Praça dos Três Poderes. essa solução permitiu liberar a vista do horizonte e destacar os dois principais elementos do projeto: as cúpulas – demonstrando a hierarquia que Niemeyer queria imprimir ao conjunto (Niemeyer.Croqui de Oscar Niemeyer para o Congresso Nacional .Congresso Nacional É possível observar semelhanças na volumetria inicial de Lúcio Costa e no projeto elaborado por Oscar Niemeyer para o Congresso Nacional. por entre as cúpulas.3 ARQUITETURA Figura 7 . Ela tem 62 metros na cobertura e 30. 2000). com 28 andares. A Cúpula da Câmara. representando um plenário aberto ao povo (Moreira. retrata um local de reflexão.70 metros na base que se apóia sobre a laje do volume horizontal. A cúpula do Senado. porém destacam-se elementos arquitetônicos e conceitos que diferenciam completamente as idéias dos dois arquitetos. conhecidos como “H”. Além disso. é possível enxergar. criando cinco volumes. virada para baixo. Um volume horizontal. Dois volumes verticais e estrutura metálica. serenidade. interligados por passarelas. ponderação e equilíbrio. com uma leveza impressionante.

que tinha visto antes coisa parecida” (Niemeyer. chegou a telefonar para o arquiteto para dar a notícia: “Oscar. é um conjunto constituído – enumerando-se de baixo para cima – de uma casca limitada pela superfície de uma zona de elipsóide de revolução.O Congresso Nacional é o monumento de maior destaque dentre os edifícios de Brasília. 2000) 4 O SISTEMA ESTRUTURAL A Cúpula invertida da Câmara foi mais um desafio proposto por Niemeyer ao calculista Joaquim Cardozo. a que corresponde. à Câmara dos Deputados. utilizadas para manter o equilíbrio desses edifícios de Brasília oferece aspectos novos. se achou que o projeto era bom. as mais altas do Plano Piloto. 9. Cardozo. no mesmo edifício. Ao vencer mais esse desafio e encontrar a forma de fazer a cúpula do congresso funcionar.Foto da Construção da Cúpula da Câmara . que podem ser observados na Fig.” (Cardozo. no centro visual do Eixo Monumental e pelo arrojo estrutural da Cúpula Invertida da Câmara dos Deputados. a cúpula correspondente ao Senado. consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara. limitada pela superfície de uma “zona de elipsóide de revolução. abaixo do equador” onde está apoiada a arquibancada da galeria do plenário. insere-se uma terceira casca limitada por uma calota esférica. A inventividade nas formas das grandes cúpulas do Congresso Nacional também impressiona grandes nomes da arquitetura mundial. 1965) Foram utilizados anéis de aço. como a de calota esférica. sendo que esta última extremamente rebaixada (relação flexa/corda de 1/14) foi calculada pela fórmula de Gravina para este tipo de casca. com o uso de vergalhões embutidos no concreto. é um parabolóide de revolução apoiado sobre as vigas da grande plataforma da cobertura. 2004). Esse sistema forma a primeira casca da cúpula. no ponto de tangência das duas. para sustentar o forro do plenário da Câmara. abaixo do equador. como conta o próprio Niemeyer. pelo porte das torres. como o Conjunto da Pampulha e os edifícios de Brasília. mas nunca podia dizer. limitada pela superfície de um tronco de cone invertido. solta como você queria!” (Gallindo. Niemeyer parece concordar com esse destaque ao falar do monumento: “Quando alguém vai à Brasília eu pergunto se viu o congresso nacional e pergunto depois se gostou. como Le Corbusier. Não só a que tem a forma de uma zona de elipsóide. no Parlamento. ofereceram várias dificuldades. que ao subir a rampa do Congresso disse a Ítalo Campofioríto: “Aqui há invenção!” (Niemeyer. 2000). Conhecido como o “Engenheiro da Poesia”. Figura 9 . tangente a esta primeira está uma segunda. pela localização. O Engenheiro descreve assim o Sistema Estrutural do edifício: “A parte correspondente às estruturas de concreto armado. Certo de que ela podia ter gostado ou não. Cardozo é considerado um pioneiro do Movimento Moderno e se destaca como calculista das principais obras de Oscar Niemeyer.

Figuras 10 e 11 .O ponto de tangencia entre a primeira e a segunda casca visto externa e internamente Exatamente na junção desses dois elementos. uma calota esférica côncava extremamente rebaixada – “relação flecha / corda = 1/14” – esta terceira casca ainda suporta 2 lajes. uma superfície de um tronco de cone invertido. detalhe da espessura da laje . apóia-se a terceira casca. que por apoiar-se no ponto de tangência do elipsóide de revolução da primeira casca cria uma continuidade visual perfeita aparentando ser um só elemento estrutural. O que indica ser essa a “tangente” a qual se referia Joaquim Cardozo ao telefonar para Oscar Niemeyer.Furo na laje forro para instalações.Vão entre a laje forro e a terceira casca Figura 13 . Figura 12 .Sobre essa primeira casca apóia-se uma segunda. um forro horizontal (laje de forro) e a laje superior. em um anel de concreto intermediário. plana e com um vazio circular no centro.

laje forro e laje superior – está interligado através de uma série de pilares de concreto armado de seção quadrada 10x10cm. que apóiam a laje superior na terceira casca e sustentam nesta. 14 a Fig.Esse sistema – terceira casca. sem nenhum obstáculo visual para os congressistas ou para o público e imprensa (Fig.Pilares entre terceira casca e a laje superior e aberturas na terceira casca que permitem uma excelente ventilação Figura 18 . a laje de forro. 17). chamada de esplanada por Niemeyer e que . deixando todo o plenário livre. como tirantes.Plenário da Câmara dos Deputados Toda essa estrutura da cúpula invertida está apoiada em um grande anel de concreto (anel de compressão) e este está engastado a uma grande malha de vigas de sustentação. Figuras 14 e 15 . 18). Essa estrutura de fechamento superior da Cúpula vence um vão de 62 metros de diâmetro. (Fig.Detalhe da junção do pilar na laje forro e detalhe da junção do pilar na terceira casca Figuras 16 e17 . que também formam a ampla laje horizontal.

4 metros nas extremidades até 2 metros de altura na base onde se apóia o anel de compressão. 21) – desenhado a partir dos dados coletados das cópias heliográficas dos projetos originais do acervo da Câmara dos Deputados – mostra o sistema estrutural criado pelo engenheiro Joaquim Cardozo para dar vida à inventividade de Oscar .Planta Nível Túnel O corte a seguir (Fig. logo abaixo da cúpula da Câmara dos Deputados.Corte Longitudinal do Congresso Nacional Figura 20 . Nesse ponto é interessante observar que a altura da viga é aproveitada para formar as galerias de imprensa do plenário e os corredores que interligam as duas casas. As vigas de sustentação da grande laje de cobertura do volume horizontal possuem altura variável. Senado e Câmara. 19) e. por paredes de concreto que fazem o fechamento do plenário – cortinas de concreto. de 0.corresponde ao teto do edifício horizontal do palácio onde se apóiam as cúpulas do Senado e da Câmara. esta laje é sustentada por um conjunto de pilares visíveis nos salões do nível do plenário (Fig. Figura 19 .

10. 8. 12. Enumerando os elementos – de baixo para cima. 7. . no mesmo nível dos pilares inferiores. 11. Laje Forro. uma cúpula côncava formada por uma calota esférica. que formam as paredes do salão do Plenário. que apóiam a laje superior na terceira casca. Laje Superior. Pilares Inferiores que sustentam a grande laje de cobertura do volume horizontal que une as duas casas – Senado e Câmara dos Deputados. 6. onde esta se liga à laje superior. 13. limitada pela superfície de uma “zona de elipsóide de revolução. Anel Intermediário. Primeira Casca. Vigas de Sustentação da grande laje. abaixo do equador” onde está apoiada a arquibancada da galeria do plenário. uma superfície de um tronco de cone invertido. 5. uma laje circular plana com um vazio também circular em seu centro. no ponto de tangência entre a primeira e segunda casca. como fez o próprio Joaquim Cardozo – temos: 1. Pilares do Forro. 2. Pilares Superiores. Cortinas de Concreto. um reforço na extremidade da segunda casca. Segunda Casca. onde apóia-se a estrutura de cobertura.Niemeyer. Anel Inferior de compressão. Terceira Casca. Anel Superior. 3. 4. onde apóia-se a estrutura da cúpula e abre-se o vão na grande laje para o plenário. 9. por onde aparece a terceira cúpula. que funcionam como tirantes de sustentação da laje forro.

Figura 21 .Corte Transversal da Câmara dos Deputados .

Detalhe do Projeto de Estrutura da Cúpula Invertida 4. tomaremos como ponto de partida o corte transversal (Fig.1 Análises Para uma análise qualitativa do sistema estrutural da “cúpula invertida” da Câmara dos Deputados no Palácio do Congresso Nacional. 21). considerando o sistema engastado na base das cortinas de concreto e nos pilares no nível do Plenário. conforme desenho da Fig. 24. Figura 24 ..Corte esquemático transversal da Câmara dos Deputados .Imagens do Projeto de Estrutura da Cúpula Invertida Figura 23 . Figura 22 .

1. intermediário e superior).10 1.00 1. Primeira Casca 6.00 1.25 0.15 0.2.15 0.12 1. Balanço da Galeria A (m) 1. Vigas de Sustentação (trecho 3) 4.1. Anel Intermediário (trecho 1) 6. Anel Intermediário (trecho 2) 7. Para a simplificação da análise em corte foi considerado 1 metro de largura para os elementos contínuos. .10 0. Pilares da Laje de Forro 10. Vigas de Sustentação (trecho 1) 3.3.58 0. Pilares Inferiores 2.2.00 2.00 1.1.Dimensões levantadas para análise estrutural Elemento 1.38 0. Laje de Forro 9.40 Cor A: Base (vigas e lajes) ou Lado A (pilares) B: Altura (vigas e lajes) ou Lado B (pilares) Inserindo os dados da tabela no programa SAP 2000 (versão 9).66 1. Tabela 01 . Pilares Superiores 12.00 B (m) 0.00 1.10 1. Terceira Casca (trecho 2) 11.2.00 0. foi considerada a altura das vigas (38cm).15 1.79 1.68 0.50 0. que são estruturadas com um sistema de vigas em duas direções. 25: Figura 25 .32 0. segunda e terceira).00 0. Cortinas de Concreto 3.40 1.10 0.10 0. Laje Superior 14. os Anéis (inferior. o balanço da galeria e a cortina de concreto.00 1.Terceira Casca (trecho 1) 10. que completam os 360 graus da Cúpula – as Cascas (primeira.2. Anel Inferior (trecho 2) 5.Perspectiva do sistema estrutural simplificado para análise no programa SAP 2000.As dimensões adotadas para esta análise estão na Tabela 01 e foram extraídas dos desenhos originais do acervo da Câmara e de medidas tomadas no local. Anel Inferior (trecho 1) 4. Anel Superior 13.00 0.15 0.20 1. Vigas de Sustentação (trecho 2) 3.10 1.00 0. temos o desenho mostrado em perspectiva na Fig.58 0. Segunda Casca 8.1.00 1.12 0. Nos casos das duas lajes (forro e superior).35 0.38 0.

que tem as mesmas dimensões funcionam como pilares. É interessante notar como os pilares de concreto entre a laje de forro e a terceira casca funcionam sob tração. Analisando os deslocamentos apresentados pelo modelo observamos dois pontos críticos: na extremidade superior da estrutura. onde está apoiado todo o sistema. apoiando a laje superior. observamos que no sistema que compõe a cobertura (Laje de Forro. 27) temos o diagrama de momento fletor: 58tf. formado pela laje forro.4tf -85tf 57tf 55. já os pilares superiores.5cm na direção . Nesse sistema o momento é maior nos apoios (Anel Intermediário) – 58tf. no primeiro ponto os deslocamentos são 3cm na direção horizontal (X) e 9.5tf 5. que por sua vez sustenta a laje de forro que apresenta uma tração praticamente constante em todo seu comprimento – -85tf. Observando os resultados apresentados no programa SAP 2000 (Fig.m.5tf Figura 26 .4tf no ponto indicado.Utilizando o programa SAP 2000 para analisar o sistema estrutural montado. pilares e laje superior) existe compressão na cúpula formada pela Terceira Casca – 39.m 97tf. 39.5tf 72. que mostra que a Primeira Casca (base da Cúpula invertida) sofre grande compressão (vermelho) – 57tf no ponto indicado.Diagrama de Forças Normais Além disso. já a segunda parte da Cúpula (Segunda Casca) não apresenta grande momento. 26). temos o seguinte diagrama de forças normais (Fig. como tirantes suportando o forro. assim como as Cortinas de concreto – 56tf no encontro da primeira casca com a cortina e 72tf na base.Diagrama de Momento Fletor Nesse diagrama notamos que a Primeira Casca apresenta um grande momento principalmente próximo ao engaste na base (Anel Inferior) – 97tf. pois esta faz parte do conjunto da cobertura. Na figura a seguir (Fig. terceira casca e pilares.m. 28) temos que. logo abaixo delas. sob compressão. o ponto mais alto da cúpula invertida e o ponto central da laje forro.5tf no ponto central.m Figura 27 . Notamos também como essa compressão é bem menor na Segunda Casca (continuação da Cúpula) que tangencia essa primeira – 5. que recobre o salão do plenário. Terceira Casca.

m.vertical (Z). contra os 97tf.Diagrama de Forças Normais No Diagrama de Forças Normais (Fig. 5x) Esses valores seriam bem menores se tomássemos o sistema estrutural completo em três dimensões.3tf 35. que mostram o sistema estrutural sem a cobertura. 3. o momento nesse ponto é o dobro se comparado com o mesmo ponto no sistema inteiro – 185 tf. apenas com a primeira casca e a segunda casca soltas.5cm 21. 31) mostra um aumento significativo no ponto de encontro da base da primeira casca com a laje inferior e a cortina de concreto.7tf 6. Já o Diagrama de Momentos Fletores abaixo (Fig. Figura 29 . 29 a 32. também ajudam a equilibrar o sistema.Corte transversal da Câmara dos Deputados sem a estrutura da cobertura 6. isso se deve a grande diminuição de peso próprio na estrutura. com 360º.Diagrama de Deformação (esc.5cm e na direção vertical (Z) é de 21. .3cm 9. 30) notamos que. Já no segundo ponto o deslocamento na direção horizontal (X) é de 1. Como podemos observar nas Fig. porém tomaremos esses valores como uma referência qualitativa para analisarmos a estrutura de forma comparativa.5cm 1. as forças de compressão sobre a primeira casca e sobre a cortina de concreto na base do sistema estrutural são bem mais baixas que na análise do sistema inteiro.8cm Figura 28 .m.8cm. considerando que as cascas completas.2tf Figura 30 .

Diagrama de Deformação (esc.185tf. No corte que estamos analisando podemos observar que a Laje Forro. 42cm 64cm Figura 32 . Podemos chegar a essa conclusão ao observarmos os diagramas abaixo (Fig. principalmente a laje forro. podemos observar que o deslocamento da estrutura da primeira e segunda cascas sem a estrutura da cobertura é também significativamente maior que na primeira análise – 42 cm na direção horizontal (X) e 64cm na direção vertical (Z). com apenas 6cm de espessura funciona com um tirante. 5x) A cobertura da cúpula é responsável por diminuir o momento na base da cúpula invertida e diminuir o deslocamento em seu ponto mais extremo. O que evidencia que a cobertura da cúpula.m Figura 31 . de apenas 6cm de espessura tem uma importante função estrutural. 32. evitando assim que a casca se abra. já que no caso simplificado em questão estamos utilizando o desenho em apenas duas dimensões.Diagrama de Momento Fletor Na Fig. como veremos a seguir.Corte esquemático transversal da Câmara dos Deputados sem a Laje Forro . 33 a 36) que mostram como reage a estrutura sem a Laje Forro: Figura 33 .

187tf. Esse deslocamento evidencia a importância do sistema estrutural que compõe a cobertura. 21cm 38cm 1.1tf. 35 mostra que o momento fletor na base da cúpula invertida não sofre grandes mudanças apenas com a estrutura de cobertura sem a laje forro em relação ao mesmo diagrama para o sistema completo (Fig.Diagrama de Forças Normais No Diagrama de Forças Normais acima (Fig. 5x) Esse diagrama mostra também um enorme deslocamento da terceira casca (cúpula de cobertura) – 1. 36). o que evidencia que esta é essencial para diminuição desse valor. Abaixo (Fig.Diagrama de Momento Fletor A Fig.3cm 227cm Figura 36 . no diagrama de deslocamentos. horizontal e 38 na direção vertical (Z). com a . 27).1tf 23. Na extremidade da cúpula invertida temos 21cm na direção X.m Figura 35 .3cm na direção horizontal (X) e 227cm na direção vertical (Z). onde antes havia uma compressão podemos notar uma pequena tração – 9.Diagrama de Deformação (esc. função que no diagrama completo era da laje forro. vemos que nos mesmos pontos medidos anteriormente os valores deslocamentos são bem altos. Já na terceira casca (cúpula de cobertura) temos uma inversão. 34) notamos uma pequena diminuição nas forças de compressão da primeira casca e na cortina de concreto que a suporta.2tf 19tf 55tf Figura 34 . o que indica que essa casca está tendendo a “segurar” a cúpula invertida.9.

6tf. os Pilares da Laje Forro. 41. similar ao observado no sistema completo. Isolamos então essa parte da estrutura. com a estrutura completa. comparamos o corte da Cúpula com uma ponte classificada como de Sistema de Arco Sob Tabuleiro (Lopes.7cm Figura 40 . projetada em 1930 por Robert Maillart. fixando (engastados) os pontos de apoio do Anel Intermediário (Fig. e se concentram na base de apoio do “arco” (terceira casca) e do “tirante” (Laje Forro).Diagrama de Forças Normais O Diagrama de Forças Normais (Fig. Figura 39 . Já o diagrama de Momento Fletor (Fig.Diagrama de Momento Fletor O Diagrama de Deformações abaixo (Fig. a Terceira Casca (Cúpula de Cobertura) os pilares superiores e a Laje Superior. 2006).Corte esquemático transversal da Cobertura da Câmara dos Deputados 45tf Figura 38 . 38) mostra que o arco que representa a terceira casca apresenta compressão de 45tf. 39) mostra que. Nesse caso. 8tf. situada em Schiers na Suíça.2cm 0. 5x) É impossível não notar a semelhança do sistema estrutural da cobertura da Cúpula Invertida com o sistema estrutural de uma ponte. vemos esta semelhança nas proporções – arco.Diagrama de Deformação (esc.3cm 0cm 1. 0.Laje Forro. vão e apoios – ilustrada na foto da Ponte Salginatobel. 37 a 40): Figura 37 . isolando a cobertura os valores de momento apresentados são bem menores que os observados nos diagramas anteriores. 40) mostra que os deslocamentos nessa parte isolada da estrutura são quase desprezíveis. Na montagem feita na Fig. pois imaginamos a Laje Superior como sendo o .

Departamento de Engenharia Civil.htm). Intervenções e Proposta de Estratégias para Manutenção. a compressão passa a ser tração. 9-33. Bogéa. Belo Horizonte. Meyer. 10. a estrutura se assemelha a uma ponte Pendurada (Lopes. Marta. Dissertação de Mestrado. na Espanha (Fig.Foto-montagem: Corte da Cúpula da Câmara do Congresso Nacional sobre imagem da Ponte Salginatobel de Robert Maillart Se tomarmos a Laje Forro como sendo o tabuleiro da ponte. André Luis Andrade Moreira.tabuleiro da ponte. MG. 11. n. 42).br/cdbrasil/itamaraty/web/port/index.gov. 2003. Joaquim Cardozo. BIBLIOGRAFIA Gallindo. 2007 Moreira. nesse caso o Anel de Apoio. 1958-70: Redução e Redenção.Ponte Luzitânia. Universidade de Brasília. São Paulo. SP. p. João Marcos. em Brasil em Foco – CD-ROM e Internet (www. 2006. 2006). . Yopanan. Figura 42 . Regina Maria Prosperi. v. Execução. Arquitetura da Engenharia. ou. a mesma diferença observada entre os pilares superiores que sustentam a laje superior e os pilares-tirantes que sustentam a laje forro na cobertura da Cúpula Invertida. Rede de Idéias – 2004. Müller. Científicos e Tecnológicos de Projeto. Mérida. Cyl. Nesse modelo os esforços nos apoios do tabuleiro se invertem. Urbanismo – A construção de Brasília. Engenharia da Arquitetura. Rebello. Catedral de Brasília. DF. Editora Mandarim. A Estrutura do Palácio da Justiça em Brasília: Aspectos Históricos. que se apóia sobre o arco. 2007. Lopes. Figura 41 . do engenheiro-arquiteto Santiago Calatrava de 1991 em Mérida. como a Ponte Lusitânia.mre. in: Cadernos de Arquitetura e Urbanismo. Fábio. Brasília. transferindo os esforços de compressão até o ponto de apoio. Espanha (1991) de Santiago Calatrava.

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