Você está na página 1de 11

A ressurreição corporal na tradição paulina: O sôma psychikón e o sôma pneumatikón

Dionísio Oliveira Soares

Introdução A presente comunicação tem como temática o desenvolvimento da idéia da ressurreição corporal dentro da tradição paulina, especialmente em 1Ts 4,13-18 e 2Co 15, tradição esta que, em relação ao tema, talvez seja mais antiga que a sinótica. A preocupação do apóstolo parece não tangenciar o reino messiânico material, humano, mas sim o escatológico. Para tanto, serão analisados os textos acima citados, observando-se possíveis relações com o helenismo platônico e com a antropologia judaica, bem como possível tensão na concepção de homem presente na antropologia paulina: a relação entre o corpo físico (sôma psychikón) e o corpo espiritual (sôma pneumatikón). Por fim, não se pode deixar de mencionar como tal expectativa foi assimilada pelo cristianismo nascente. 1. A ressurreição no cristianismo primitivo As concepções acerca do pós-morte no judaísmo do século I d.C. não eram homogêneas, como não era o próprio judaísmo de uma forma geral. Havia tendências diversas e conflitantes. Anteriormente, já no período do judaísmo pós-exílico tardio, as concepções do pós-morte haviam sido modificadas. O contato com as concepções gregas e persas já havia se dado. Com os gregos encontra-se o conceito de imortalidade de alma (grupos filosóficos e religiosos gregos discutiam e aperfeiçoavam aspectos referenAtualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n.º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33, setembro a dezembro / 2009 407 407

I século a. Em 8. as expressões em conformidade com a idéia grega de imortalidade da alma em 4Esd 7. cf. p. a idéia da ressurreição possui mais de uma tradição. Em 1. In: DAVIES. No texto de Sb 3. SEGAL. Podemos concluir também que as duas hipóteses acima citadas não são excludentes. The Eschatology of the Avesta.C. MÜLLER.. p.E. como no judaísmo”4. antes da época persa (VI século a. 4Mc 9. trata-se da imortalidade da alma como recompensa pela justiça de Deus. 19. 177-207. Para uma visão geral da escatologia do Avesta. uma hipótese provável é que o contato tenha se dado por ocasião do exílio. The Method and Message of Jewish Apocalyptic. 371. S.). Este intercurso com as culturas predominantes resultou em novas expectativas relacionadas a crenças antigas. Gerhard. essas mudanças levarão a duas formas distintas de expectativas e esperanças relacionadas ao futuro no cristianismo primitivo: uma a que chamaremos simbolicamente de “histórica” e outra que denominaremos. Shaul. refletindo tais elaborações no judaísmo e.tes a essa temática)1. p. “as concepções são flácidas. Em 4Mc 17 a teologia do martírio necessário para salvar a nação do opressor com posterior recompensa aos justos é enfatizada. FRIEDRICH.C. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religious of the West. W. com os persas. 3 Cf. Hagner assevera que a disjunção entre as narrativas de ressurreição no NT é uma conseqüência lógica da dificuldade de compreensão do fato por parte dos discíCf. a noção de ressurreição. 314. 2 Cf. 408 Revista do Dept.C. In: Theosophy or Psychological Religion. de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica Atualidade Teológica 1 408 . The Cambridge History of Judaism: Introduction. mas sua esperança estava cheia de imortalidade”. e uma parcela imensurável de cada uma contribuiu significativamente para as mudanças na escatologia judaica pós-exílica.75-101 (do I século d. to Second Century C. as noções escatológicas persas que teriam influenciado a apocalíptica judaica em RUSSELL.4 a última palavra do verso é athanasía (imortalidade). Em relação a esses últimos. D. inusitada no Primeiro Testamento: “Aos olhos humanos pareciam cumprir uma pena (os mortos). Theological Dictionary of the New Testament I.º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Revista do Dpto. 351-353. outra hipótese seria o contato com a cultura persa no pós-exílio já como substrato cultural no Império Macedônio. de “escatológica”. juízo final e outras noções de cunho escatológico2. também simbolicamente. tema caro às civilizações antigas. p. p. Entre essas noções esta a idéia da ressurreição corporal.21-22 (também do I século d. O judaísmo a que o autor se refere é o do período pós-exílico tardio.E. Iranian Influence on Judaism: First Century B.) e Sb 3.4.). FINKELSTEIN. Gerhard (Ed.).C. e em SHAKED. Friedrich Max. In: KITTEL. 4 OEPKE.1-4 (mais antigo. Conforme já verificado neste trabalho.C. Resurrection in the NT. posteriormente.13 ela é usada com o sentido de imortalidade pela lembrança. the Persian Period. Louis (Ed. D.).) não se encontra evidência de uma nova elaboração nesses conceitos a partir de influências estrangeiras. No Novo Testamento. Alan F. com a posterior influência de Ciro II e seus sucessores. no cristianismo3. Albrecht.

A History of the Synoptic Tradition. p. Essa tradição ajudava também a superar outro problema: a crença em fantasmas e espíritos já era quase universal na cultura popular. afirma tratar-se de uma “legenda apologética”6. Pela narrativa mateana. referindo-se a Mc 16. fato que inviabilizaria a tradição do túmulo vazio como prova cabal da ressurreição. Jo 11. Donald. ou seja. Esses episódios não aparecem nos outros sinóticos e nem no evangelho joanino.24. concretamente. texto que narra a primeira atestação do túmulo vazio. Gospel. com a predominância da doutrina grega acerca da imortalidade da alma. de forma que descrever Jesus simplesmente como um espírito era o mesmo que equipará-lo a um fantasma. Nas cartas paulinas não se menciona a ressurreição dos ímpios. considerada uma tentativa de amenizar um grande problema para o cristianismo primitivo: o fato de.º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33. pesa também o fato de que. não aparece relacionada somente a um evento futuro. (Ed. Lc 14. 311. ninguém ter testemunhado a ressurreição de Jesus. a qual pretende “provar a realidade da ressurreição de Jesus pelo túmulo vazio”7. trata-se de desHAGNER. p. seja de justos ou de ímpios. Em Mateus 27 e 28 a polêmica judaico-cristã se torna clara: os judeus aparecem solicitando a Pilatos que colocasse guardas no túmulo para que o corpo de Jesus não fosse roubado pelos discípulos (Mt 27. como na apocalíptica judaica. 6 BULTMANN.16).28. Life in the Face of Death: the Resurrection Message of the New Testament.1-8.11-15). dos que já estão “mortos em Cristo” (1Ts 4. Richard N. Rudolf Bultmann. setembro a dezembro / 2009 409 409 5 .). pelo menos nenhum dos escritores neotestamentários. 7 Ibidem. o que significaria dizer que sua morte foi igual a dos demais mortais. Uma das tradições presentes no NT é a do túmulo vazio. posteriormente. p.31-46. a forma de dissipar a dúvida entre os judeus que não criam na ressurreição (dissipando também o surgimento da mesma dúvida entre os cristãos) seria atribuir àquele grupo de fraudadores a culpa pela existência dessa dúvida. corria-se o risco de se assumir que somente a alma imortal de Jesus teria sobrevivido à sua morte.pulos5. 25. In: LONGENECKER. Ap 20.52. a uma ressurreição geral (Mt 22.14). 99-121. Atualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n.62-66) e.1115). mas também a uma “primeira” ressurreição específica dos justos antes do fim (Mt 27. já as epístolas universais não mencionam qualquer ressurreição. A própria noção de “ressurreição” no NT. efetuada pelas mulheres. Rudolf. Kingdom and Resurrection in the Synoptic Gospels. 314. Por outro lado. subornando esses guardas romanos para afirmarem que o corpo do Cristo tinha sido roubado pelos próprios discípulos (Mt 28. fazendo parte de um estágio tardio das tradições pascais.

. (Ed. que os ressuscitará no último dia (Jo 6. mas sim o próprio Jesus. João apresenta também uma novidade em relação à ressurreição dos fiéis na tradição sinótica: não é Deus quem os ressuscitará. W. 18. 10 GROSSOUW. p. de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica Atualidade Teológica 8 410 . Dicionário enciclopédico da Bíblia. como demonstração de seu poder.4. seus leitores eram. Verbete Ressurreição de Jesus Cristo. e mete-a no meu lado. Flávio Josefo testemunha que “eles [os fariseus] acreditam que as almas têm o poder de sobreviver à morte e que existem recompensas e punições sob a terra para aqueles que viveram na virtude ou no vício: prisão eterna é a sorte das almas ruins. o Evangelho de João faz questão de não deixar dúvidas quanto à ressurreição física de Jesus: trata-se de uma ressurreição corpórea e física11. p. certamente não nos moldes apregoados por Cristo. a escola joanina polemiza freqüentemente com o gnosticismo. 11 Jo 20. é dito que os fariseus a aceitavam. atribuindo esta idéia a uma invenção maldosa das autoridades judaicas9. SEGAL. 9 JEREMIAS. 1310. E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje”. 14 JOSEPHUS. mas crente”. A explicitação do evangelista da presença dos guardas junto ao túmulo exclui totalmente a hipótese de furto. 12 Cf. enquanto as almas boas recebem uma passagem fácil para uma nova vida”14. Teologia do Novo Testamento. por aceitarem somente a Torá escrita como paradigma. os Sinóticos e Atos revelam a diferença entre Saduceus e Fariseus quanto à ressurreição13. e vê as minhas mãos. e não mais sejas incrédulo.). 23. Jewish Antiquities. mas também pede comida e a come diante deles (Lc 24. A. helênicos (negavam a ressurreição do corpo). Esses textos do evangelho de Mateus “pertencem a uma fase da tradição que reflete uma atitude apologética dos cristãos frente às asserções dos judeus de que os discípulos de Jesus haviam roubado seu corpo”10. In: VAN DEN BORN. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religious of the West.6-10. p. 430. chega a tua mão. 410 Revista do Dept. Segundo este autor. Reiterando essa posição.44)12.15: “Então eles. Alan F.3643). 457. Harvard: Harvard University Press. nesse trecho o evangelista faz a conexão entre a ressurreição e a eucaristia. fizeram como foram instruídos. Quanto aos adversários de Jesus. Dentro da tradição sinótica. tendo recebido o dinheiro. não aceitavam a ressurreição. Ao passo que os primeiros. Edição da Loeb Classical Library. 13 Mt 22. em grande parte. Josefo também parece expressar sua própria opinião: Mt 28.27: “Depois disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo. Joachim.40.qualificar a possibilidade da dúvida e ratificar a tradição do túmulo vazio8. Lucas deixa claro a ressurreição corpórea de Jesus: este não somente pede para que os discípulos toquem em seu corpo físico. At.º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Revista do Dpto.23-33 par.

65-66. a autora analisa a idéia da ressurreição entre os primeiros seguidores de Jesus.º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33. Community and Self-Definition. A expectativa cristã reflete ainda um desejo por vida eterna antigo. No segundo capítulo dessa obra. Neste sentido simbólico. suas almas. incluindo entre esses os de Corinto. incluindo nessa análise as inscrições funerárias. setembro a dezembro / 2009 411 411 . na revolução dos tempos. como no caso da tradição paulina. In: ANRW II. Heavenly Ascent in Hellenistic Judaism. obtêm reconhecimento eterno. a ressurreição torna-se uma espécie de símbolo que condensa uma visão de mundo. Um aspecto digno de nota é que as idéias de ressurreição estiveram presentes nas camadas populares da sociedade judaica. Early Christianity and their Environment. e o movimento de Jesus era influente nesses redutos. de onde. 18 SEGAL. The Jewish War. com as promessas de recompensa ou punição eterna num corpo físico ressuscitado. No quinto capítulo. sempre em relação aos justos. 1980. p. a ressurreição corporal pode ser uma idéia utilizada para identificar determinados grupos17. alcançada através da ressurreição em um corpo transformado e uma posterior ascensão aos céus18. Alan. tal idéia não encontra recepção nos textos da Escritura Hebraica.374.23. SETZER. entretanto. Resurrection of the Dead as Symbol and Strategy. 1333-1394. 16 15 Atualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n.Não sabeis que aqueles que deixam a vida em conformidade com as leis da natureza e pagam o empréstimo recebido de Deus. In: Journal of the American Academy of Religion 69. Harvard. a autora discute a importância da crença na ressurreição em termos da definição da comunidade sobre si mesma. Resurrection of the Body in Early Judaism and Early Christianity: Doctrine. Assim. Sua idéia parece se alinhar mais na perspectiva apocalíptica já presente em Dn 12. suas casas e famílias estão seguras. recebem os lugares mais santos no Céu. A convicção da ressurreição permitiu a esses grupos uma articulação a partir da definição de sua identidade. 2001. Claudia. retornarão para encontrar nova habitação em corpos castos?15 Essa concepção poderia representar a ressurreição como uma espécie de reencarnação. Loeb Classical Library. A influência grega pode ser percebida. p. traça limites e constrói comunidades16. 3. quando ele que emprestou achar por bem cobrar. especialmente no que tange a uma adaptação da perspectiva helenística sobre o destino do homem no pósmorte: mesmo se em alguns círculos do cristianismo primitivo se ignorasse a idéia de uma alma que sobrevive à morte. sendo muito improvável que Josefo pensasse nestes termos. p. 93. Idem. 17 Idem.2. o qual perpassa todo o Novo Testamento. pensava-se numa imortalizarão futura. imaculadas e obedientes.1.

p. 20 Cf. Fp 1.51. havendo zonas separadas para justos e injustos. Das origens do evangelho à formação da teologia cristã. 412 Revista do Dept. Cf. 9-47.6-10. de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica Atualidade Teológica 19 412 .). p. conforme verificado acima. podendo até mesmo conversar. Pode-se pensar ainda que as mesmas influências persas e helênicas que se deram na escatologia judaica tardia passaram ao cristianismo. Immortality and Eternal Life in Intertestamental Judaism and Early Christianity. Pode-se então afirmar o mesmo sobre a escatologia cristã primitiva: não havia uma unicidade de pensamento. George W. em continuidade com a escatologia judaica. muito menos uma existência sombria no Sheol como destino final de todos os homens. Na própria escatologia judaica parece existir a idéia de que algumas pessoas especiais teriam uma assunção imediata aos céus.6.13-18. por exemplo. Resurrection..220.403. Op. certamente retomada de Dn 12. Jesus afirma ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Nos escritos paulinos aparece a metáfora do sono (1Co 15. o que pode indicar que alguns escritores do NT estavam pensando sobre a questão do lugar onde os mortos passariam o período interregno de morte e ressurreição final.9-10). 2Co 5. SEGAL. estando os cristãos em continuidade com essa visão21. 1Ts 4. Oscar. Neste último texto.20. p. como acontece na parábola do rico e Lázaro em Lc 16. idéia que.12-26.18. Alan F.43. também a crítica em NICKELSBURG. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religious of the West. ao contrário do que postula. Este último texto deixa transparecer também a idéia de que felicidade e miséria no pós-morte são fruto da postura em vida. Já em 1En 22 e 4Esd 7 as recompensas da nova vida eram experimentadas.19-31. 22 NICKELSBURG. supondo haver uma mesma visão acerca do pós-morte entre os judeus. 219-223. George W. 174. 1Ts 4. em sua terceira publicação: CULLMANN. Immortality and Resurrection. pelo menos em parte.Alguns textos no Novo Testamento sugerem ainda a ascensão imediata do fiel após a morte19. cit. Death in the Western World: Two Conflicting Currents of Thought. Krister (Ed. mesmo que em menor grau. como vimos. por exemplo. por vezes existe a idéia de que os mortos estão conscientes no Sheol (Hades). p. pessoas essas que morreram em perseguição religiosa. a versão portuguesa desse texto em: CULLMANN. num estado intermediário22. Oscar Cullmann. 5. Cf. Oscar. p. Essas diferentes tradições presentes no corpo do Novo Testamento permitem aferir que não havia uma idéia unívoca de como se efetuaria a própria ressurreição.14 e Lc 23. os mártires. 183-210. é razoável supor que nem todos os grupos judaicos no judaísmo tardio pensavam a mesma escatologia. o que também não desmerece a contribuição de cada grupo Cf. 21 Cf.º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Revista do Dpto. Dessa forma. o clássico artigo. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? In: STENDAHL. já estava presente em Zoroastro e Hesíodo..

De fato. as características espirituais não estão ausentes (Jo 20. 422-423. em todas as coisas. se Cristo não foi ressuscitado. sendo Jesus o Filho do Homem que retornaria para punir os ímpios e trazer vida eterna aos justos. A ressurreição corporal na tradição paulina Além da tradição sinótica. também Cristo não foi ressuscitado. Verbete e*geivrw. talvez mais antiga que a sinótica (o apóstolo afirma aos coríntios que “vos entreguei o que também recebi”.47-50). Atualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religious of the West. 2. Gerhard. p. tornando-se paradigmática para a futura ressurreição dos fiéis. 335). In: KITTEL. A diferença é que para os cristãos a ressurreição de Jesus ocorre antes do grande julgamento. Por outro lado.º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33. humano. e especialmente na Igreja (Cl 1. Sua preocupação tangencia não o reino messiânico material. A única exceção a esse quadro geral se dá em Mt 27. Paulo apresenta uma expectativa futura que.18s). mas sim como o sw~~ma pneumatikovn Daquele que é exaltado à condição de personalidade universal. Contudo. Nesse sentido. apesar de utilizar categorias helênicas em suas descrições. logo é vã a nossa pregação. e também é vã a vossa fé” (1Co 15.41. ele não pensa no corpo do Senhor ressuscitado em termos materiais. Ele afirma que o corpo soAlbrecht Oepke assinala que “embora Paulo aceite o túmulo vazio (1Co 15.25s). Theological Dictionary of the New Testament II. pelo visionário Daniel.26). outra tendência importante com relação à ressurreição se dá na tradição paulina. Jo 20.). Gerhard (Ed. setembro a dezembro / 2009 413 413 23 . Neste capítulo. OEPKE. a crença num futuro pessoal para além da morte física dita as regras para a fé cristã24. At 10. e talvez uma distinção deva ser feita entre o Senhor imediatamente ressuscitado e o Senhor exaltado” (cf. mas sim o escatológico. E. muitos grupos cristãos interpretaram o evento de Cristo a partir do cenário apocalíptico descrito por Daniel. 25 Cf. não deixa de estar em continuidade com a tradição de martírio presente em 2 Macabeus e em Dn 12.13-14). 24 “Mas se não há ressurreição de mortos. Para ele. A ênfase cristã na ressurreição se dá a partir do martírio do Cristo. expressa em 1Co 15.3a). Assim.19. p. independe da tradição do túmulo vazio23. Albrecht. o grupo dos seguidores de Jesus viu na sua morte e na crença em sua ressurreição a consumação da história: os eventos da Páscoa foram vistos como o começo da concretização dos eventos preconizados pelos profetas hebreus e.em sua realidade existencial. interesses apologéticos direcionaram a tradição evangélica pós-canônica para um sentido mais material (Lc 24. FRIEDRICH. em 15. 51-53. diferentemente dos evangelistas.39s. SEGAL. mais detidamente.17. Alan F. o apóstolo expõe seu pensamento acerca da ressurreição distanciando-se da idéia platônica de que o corpo estava destinado à destruição25.

1Ts 4. p. J. é ressuscitado (egeíretai) corpo espiritual (sôma pneumatikón). Fílon). o corpo físico (sôma psychikón) é o corpo ordinário (carne e alma). nesse caso. destinada não somente aos que já morreram. (Ed. entretanto. santidade. num abrir e fechar de olhos. Se há corpo físico. Este corpo transformado é o corpo ressuscitado (egeíretai). o corpo é apenas um santuário que abriga a “imagem divina”. de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica Atualidade Teológica 26 414 . imortalidade. Lucien. e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis.). tornou-se alma vivente (psychên zôsav). as concepções helenísticas vêm de encontro à antropologia judaica. a exemplo de Sb 3.breviverá à morte. “à semelhança dos judeus alexandrinos (Sabedoria. 29 CERFAUX. Para Fílon. espírito vivificante (pneûma zôiopoioûn). Para Segal. nenhuma contradição na expressão “corpo espiritual” (cf. Na concepção paulina. Dicionário enciclopédico da Bíblia. num momento. ou 414 Revista do Dept. assim. 371. pois.51-53 registra: “Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados. há também corpo espiritual. 218. ou seja. 27 Cf. mas a sua transformação. ordem religiosa”29. para Paulo. ressuscitado em glória e perfeição por Deus. depois o espiritual”. mas também aos que estiverem vivos na parousía (1Co 15. a “alma racional”.13-18)26. porque a trombeta soará. É possível que os que negavam a ressurreição em Corinto (mencionados pelo apóstolo em 1Co 15. Assim também está escrito: O primeiro homem. senão o físico. ao som da última trombeta. Theological Dictionary of the New Testament I. Gerhard. In: KITTEL. a concepção de Paulo lembra a antítese platônica mundo inteligível (nou~~ς) e mundo sensível. 28 1Co 15. aparece certa tensão em sua concepção de homem28. Cristo na teologia de Paulo. e nós seremos transformados. Resurrection in the NT. Gerhard (Ed. 1307). o apóstolo ensina uma espécie de antes e depois da parousía. ao passo que o corpo espiritual (sôma pneumatikón) é o corpo ordinário transformado pelo espírito. “não é sinônimo de imaterial. o qual recebe o pneu~~ma. Na antropologia paulina de 1Co 15. forma o “corpo vivo”.º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Revista do Dpto. com essas expressões antagônicas. entretanto. Paulo substituirá ordinariamente o nou~~ς pelo pneu~~. o apóstolo ensina não a destruição do corpo. mas significa força. Paulo utiliza o discurso de transformação O texto de 1Co 15. A última palavra do verso é. Mas não é primeiro o espiritual. alguma coisa proveniente do mundo do divino”. o último Adão. O termo pneûma. Dessa forma. profundamente modificado. o corpo. p. Nessa antítese paulina. OEPKE. A. p. Nos versos 44 e 55. Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade (athanasían)”. luz. Observa-se que o apóstolo contrapõe os adjetivos psychikós e pneumatikós e os substantivos psychê e pneûma. Albrecht. assim como foi o corpo de Jesus.51-53. tanto a vida no seu sentido mais básico (psíquica) quanto a vida espiritual (pneumática) eram corpóreas. tornando-se uma oposição de ordem filosófica. NELIS. O sentido da antítese platônica está. Portanto.).44-46 registra: “Semeia-se corpo físico (sôma psychikón).12) tinham sido rechaçados pelo materialismo presente na expectativa judaica27. animado pela yuchv. Adão.4.35-53. não havendo para ele. FRIEDRICH. In: VAN DEN BORN. Verbete Ressurreição.

402. Este lhe deu novo significado a partir da seja. Texto mais antigo que o de 1Co 15 é 1Ts 4. ou seja.). Já Sanders está entre os que reconhecem o fato. sendo tal expectativa assimilada pelo cristianismo nascente. para que o homem seja espiritual. o apóstolo estaria usando categorias helênicas para argumentação contra o conceito grego de imortalidade e. setembro a dezembro / 2009 415 415 . O apóstolo embasa seu texto em uma “palavra que recebeu do Senhor”. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religious of the West. esse “corpo vivo” deve ser espiritualizado (ibidem. Wright in Dialogue. sistematizando o seu próprio conceito (evangélico-cristão). 31 Alguns estudiosos hoje acreditam. 13) tendo em vista o consolo da comunidade de Tessalônica. a ressurreição deu um caráter particular à escatologia judaica. In: STEWART. Atualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n. Posteriormente os vivos (entre os quais o apóstolo se inclui) serão arrebatados e também encontrarão o Mestre nas nuvens. em meu julgamento. o apóstolo afirma que. deixando implícito que estes continuarão mortos pela eternidade. p. assim. a própria pessoa. um fato. Baseando sua argumentação na ressurreição de Cristo como fonte e princípio para a ressurreição também dos cristãos em geral. p. John Dominic. por motivos diversos. no qual o apóstolo trata da questão “dos que dormem” (v. Alan F. T. mas sem poder prová-lo: “Que os seguidores de Jesus (e depois Paulo) tiveram experiências de ressurreição é. T. The Resurrection of the Son of God. Já N. E. e não um evento histórico em sentido estrito (cf. visto que não se encontra no NT o registro desse ensinamento por parte do Cristo. Wright está entre os que postulam uma ressurreição literal em termos históricos (cf. 686-696 e 709-710). o evento da ressurreição está presente em todas as tradições que compunham a escatologia da Igreja primitiva31. a partir dessas mesmas categorias. que a narrativa da ressurreição constitui uma metáfora. 321. p. Robert (Ed.13-18. 30 SEGAL. Nicholas Thomas. encontrando-se com Cristo nos ares. uma certa modificação no pensamento do apóstolo acerca da questão da parousía e conseqüente ressurreição corporal. como representante dessa corrente CROSSAN. 280). p. Embora não sendo uma idéia originalmente judaica ou cristã. por ocasião da parousía. The Historical Figure of Jesus. espiritual. certamente pela tradição oral. Qual realidade deu levante às experiências eu não sei” (cf. Resurrection of Jesus in its Jewish Context. p. P. SANDERS. WRIGHT.espiritual para evangelizar os gentios30. 220).º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33. os mortos cristãos terão prioridade na ressurreição. Percebe-se. The Resurrection of Jesus: John Dominic Crossan and N. 46-47). Conclusão Seja uma ressurreição com ênfase mais no próprio corpo físico seja num corpo transformado. Não se fala em julgamento final e nem na ressurreição dos ímpios.

º de Teologia da PUC-Rio / Brasil Revista do Dpto. Teologia do Novo Testamento.456. Tradução Monjas Beneditinas da Abadia de Santa Maria. T. o Messias cristão Jesus Cristo: “A ressurreição de Cristo dava o sinal da parusia e da ressurreição geral dos mortos. A History of the Synoptic Tradition. Books 18-19. Louis (Ed. ______. Mestre e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. the Persian Period. p. JEREMIAS. Bacharel e Licenciado em Letras Clássicas pela UFRJ. Cambridge: Cambridge University Press. Gerhard (Ed. p. 7. 1963. Lucien. São Paulo: Novo Século. Lucien. p. 2000. W. Harvard: Harvard University Press.com. ed. 33 32 416 Revista do Dept. a influência paulina se fez sentir com mais vigor. The Cambridge History of Judaism: Introduction. p. O cristão na teologia de Paulo. 2003. p. certamente. e-mail: dionisiosoares2001@yahoo. FINKELSTEIN. (Loeb Classical Library). Costa.br Referências Bibliográficas BULTMANN. In: BRYAN. FRIEDRICH. Wright chega a definir o cristianismo primitivo em três categorias justapostas: um movimento do Reino de Deus. Theological Dictionary of the New Testament. 2. 1927. CERFAUX. WRIGHT.443 CULLMANN. de Teologia da PUC-Rio / Brasil Atualidade Teológica Atualidade Teológica 416 . Tradução de Daniel Costa. imp. Oscar.368. (Loeb Classical Library). N.). 1998. vol. 23-38. Jewish Antiquities. KITTEL.). Cristo na teologia de Paulo.461.). JOSEPHUS. Cf. Rudolf. Docente da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (FABAT). 2004. São Paulo: Teológica. p. Dificilmente se opunham a ressurreição de Cristo e a dos outros mortos”32.ressurreição de seu fundador. Dionísio Oliveira Soares CERFAUX.504. p. The Jewish War. 1. p. Christian Origins and the Resurrection of Jesus: the Resurrection of Jesus as a Historical Problem. p.448.224 DAVIES. Gerhard. Christopher (Ed. Tradução de João R. New York: Harper & Row.. 55. 2004. I-II. Joachim. 1977. Books III-IV. D. São Paulo: Teológica. Michigan: Eerdmans. Sewanee Theological Review 41. um movimento messiânico e um movimento de ressurreição33. v. É nesta última etapa que.2. Harvard: Harvard University Press. 1965. Das origens do evangelho à formação da teologia cristã.

Krister (Ed. p. Massachusetts: Boston University. Early Christianity and their Environment. Life in the Face of Death: the Resurrection Message of the New Testament. setembro a dezembro / 2009 417 417 . Leiden: Brill.º 33 – setembro a dezembro / 2009 Ano XIII nº 33. The Resurrection of the Son of God. London: Penguin Books. p. Massachusetts: Harvard University Press. Immortality. The Historical Figure of Jesus. In: Theosophy or Psychological Religion. p. WRIGHT. 1996. p. 1980. P.352. Life after Death: a History of the Afterlife in the Religions of the West. Journal of the American Academy of Religion 69. Robert (Ed. Expanded ed.177-207. 56). Montana: Kessinger.65-102. Nicholas Thomas.). Friedrich Max. Richard N. p.314.1333-1394. p. 1971.). 2006. The Resurrection of Jesus: John Dominic Crossan and N.740. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro Limitada. p. MÜLLER. and Eternal Life in Intertestamental Judaism and Early Christianity. Aufsteig und Niedergang der Romischen Welt II. STENDAHL.2. Atualidade Teológica Atualidade Teológica Ano XIII n.220. E. VAN DEN BORN. Minneapolis: Fortress Press. Resurrection. The Method and Message of Jewish Apocalyptic.). Philadelphia: The Westminster Press. SETZER.333. North Carolina: Oxford University Press. p. Tradução de Frederico Stein.LONGENECKER. Claudia. 2005.1. David Syme. Cary. 2006. ed. Petrópolis: Vozes.366. Wright in Dialogue.866. Michigan: Eerdmans. p. 2001. P. NICKELSBURG. Immortality and Resurrection. George W. Dicionário enciclopédico da Bíblia.190. T. ______. p. 2007. (Harvard Theological Studies. SANDERS. New York: Doubleday. RUSSELL. 2004.464. 1965. Resurrection of the Body in Early Judaism and Early Christianity: Doctrine. New York: Macmillan. (Ed. 2003. 1998. Minneapolis: Augsburg Fortress. A. The Eschatology of the Avesta. Community and Self-Definition. 1964. Resurrection of the Dead as Symbol and Strategy. SEGAL.23. (Ed. STEWART. 3. E. Death in the Western World: Two Conflicting Currents of Thought.). P. Heavenly Ascent in Hellenistic Judaism. ______. Alan F.