A GIBITECA E O ESTÍMULO À LEITURA NOGUEIRA, Natania (E. M. Judith Lintz Guedes Machado) natanianogueira@yahoo.com.

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NOGUEIRA, Natania. A Gibiteca e o estímulo à leitura. 5º Encontro de Literatura Infantil e Juvenil – Leitura e crítica. Rio de Janeiro: Universidade federal do Rio de janeiro, Faculdade de Letras, 2008.

Resumo: A História em Quadrinho é uma mídia popular que há mais de 100 anos está presente em nosso cotidiano, despertando em muitos o prazer pela leitura e pela arte. Infelizmente, muitas crianças e jovens, notadamente os que residem na zona rural nos bairros de periferia, não têm acesso a este recurso e uma forma mais extensa. Partindo desta constatação, foi colocado em prática um projeto de leitura, interdisciplinar, que se desenvolve a partir da instalação de uma gibiteca em uma escola pública, localizada em um bairro de periferia. Nesta apresentação iremos relatar resultados, fazer indagações e arriscar algumas previsões sobre as vantagens deste recurso na formação de jovens leitores. Introdução Embora ainda exista muita resistência em relação à introdução de mídias populares nas escolas, aos poucos o cinema, os quadrinhos e os computadores – com seus jogos e programas interativos -, estão ocupando seu espaço. Estas mídias, em especial as Histórias em Quadrinhos, nos fornecem uma matéria-prima rica em possibilidades para se trabalhar questões que envolvem a leitura de sinais, de imagens, de idéias. São instrumentos lúdicos que abrem caminho para um ensino interativo, envolvendo o desenvolvimento de habilidades, de competências necessárias para se efetuar uma leitura mais crítica da realidade em que vivemos

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Na presente comunicação iremos relatar o uso das histórias em quadrinhos (HQ’s) nas salas de aula e a possibilidade de se trabalhar com esta mídia nas mais diversas disciplinas. Ao mesmo tempo queremos refletir sobre as vantagens e dificuldades encontradas para se trabalhar de forma interdisciplinar, buscando entender a dinâmica da escola e o papel integrador que a leitura pode ter neste contexto. A experiência que desejamos apresentar gira em torno dos trabalhos realizados na Escola Municipal Judith Lintz, da cidade de Leopoldina (MG), onde a criação de uma gibiteca surgiu como alternativa para se enfrentar alguns dos problemas atuais da educação brasileira, refletidos nos baixos índices de rendimento escolar e no pouco investimento real na formação continuada de professores.

1 – Por que as Histórias em Quadrinhos? As Histórias em Quadrinhos possuem uma linguagem simples e de fácil compreensão e são relacionadas a uma forma de entretenimento e lazer. Eles podem ser utilizados nas salas de aula como recurso para complementar o ensino uma vez que prendem mais a atenção dos alunos pois permitem que ocorra uma leitura simultânea da página, podendo o leitor captar a ação em todos os seus tempos (CALAZANS, 2004).

Segundo Moysés Alves (2001), o uso dos quadrinhos nas escolas pode ajudar a despertar nas crianças o gosto pela leitura, pois permite desenvolver nas crianças, por exemplo, o hábito de “brincar sozinho”, desenvolvendo a criatividade da criança e ajudando a desenvolver seu raciocínio desde bem cedo, abrindo caminho para a exploração de textos mais complexos, sem que o ato da leitura se torne algo cansativo.

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O estudante deve aprender a trabalhar as informações que adquire através da leitura. Uso os quadrinhos como uma forma de expressão do aluno que, desafiado a exercitar sua capacidade criativa, acaba por criar seu próprio conhecimento. As HQ’s ajudam os estudantes a compreender melhor o conteúdo estudado em sala de aula. Segundo Diamantino Silva (1979), a informação quando transformada em História em quadrinhos é compreendida numa velocidade maior, tento que é cada vez mais freqüente o uso de tirinhas ou fragmentos de histórias em quadrinhos em livros didáticos.

Uma das vantagens de se trabalhar com histórias em quadrinhos é que elas não possuem uma faixa etária exata: há quadrinhos para todas as idades, da educação infantil até a universidade. Na Europa, por exemplo, ensina-se latim usando-se Asterix. Infelizmente, no Brasil, existe ainda um certo preconceito em relação aos quadrinhos, quer por parte dos alunos, quer por parte dos professores. Há uma tendência em se classificar os quadrinhos como um gênero narrativo inferior e inadequado para leitura em algumas idades. Da mesma forma há, também, uma tendência de se rotular alguns destes gêneros como inadequados para “meninas”, tal como acontece com os quadrinhos de aventura e de super-heróis, considerados “coisa de menino”. Um dos desafios de se trabalhar com quadrinhos é justamente vencer este tipo de postura e mostrar que gosto literário independe de idade ou sexo. Segundo Nágila Caporlingua Giesta, vivemos em uma sociedade cada vez mais escrita, onde a leitura é uma atividade de integração. Sendo assim, as HQ’s são um recurso a mais na inserção das crianças no mundo das letras, dependendo do professor encontrar o caminho para introduzir o aluno neste universo (GIESTA, 2006). 2 – A implantação do projeto Nossa experiência com o uso dos quadrinhos nas escolas tomou corpo com a criação de uma Gibiteca Escolar, um projeto realizado a médio prazo e que

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envolveu toda a escola, oferecendo a professores e alunos oportunidades de aprenderem juntos. A Gibiteca é um espaço destinado ao armazenamento e divulgação de Histórias em Quadrinhos. Ela oferece aos leitores uma enorme variedade de quadrinhos (terror, ficção científica, humor, aventura, etc.). A primeira gibiteca inaugurada no Brasil foi a Gibiteca de Curitiba, em 1982. A maior gibiteca do Brasil é mantida por um organismo do Estado: a Gibiteca Henfil. Órgão do Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis da Secretaria de Cultura do município de São Paulo, ela foi inaugurada em 1991. Existem gibitecas que constituem sessões de grandes bibliotecas, como a Gibiteca da Biblioteca Pública Infantil Aglaé Fontes, em Aracaju/SE. No caso da Gibiteca Escolar da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, a criação da gibiteca veio a ser uma resposta às necessidades da escola, que possui pouca infra-estrutura, mas que conta com um corpo docente muito bem preparado. Escola da periferia da cidade de Leopoldina (MG), o projeto de se criar a Gibiteca foi, antes de mais nada, uma forma de fazer a diferença, de oferecer a alunos e professores um espaço onde pudessem crescer juntos. A Gibiteca surgiu, inicialmente, da doação de parte da minha coleção particular (cerca de 600 exemplares de HQ’s), Em seguida, realizei uma campanha na internet, entre amigos e nas editoras, em busca de doações para expandir e diversificar o acervo. Paralelamente, a escola cedeu uma pequena sala onde colocamos estantes para alojar as doações que íamos recebendo. Em cerca de sete meses já tínhamos aproximadamente 1.200 exemplares, doados por editoras – notadamente as de pequeno porte -, por colecionadores e professores. Neste primeiro momento a maior parte as doações foram feitas por pessoas de outras cidades e mesmo, de outros Estados. O processo de instalação da gibiteca durou cerca de um ano e contou com a ajuda de membros da comunidade, que doaram seu trabalho para ajudar a decorar e organizar a

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Gibiteca. No início do ano letivo de 2007, com as instalações praticamente prontas, recebemos os professores da escola para lhes apresentar seu novo espaço de trabalho. A inauguração ocorreu oficialmente no dia 11 de maio de 2007, contando com a presença de autoridades locais, ligadas ao ensino. Tínhamos, então, um acervo aproximado de 1600 exemplares, em vários formatos e gêneros. O passo seguinte foi levar nossa idéia para outras escolas. Para fazer isto, foi organizado I Seminário sobre Quadrinhos, Leitura e Ensino, com apoio da Secretaria Municipal de Educação, tendo como público-alvo professores da educação infantil e do ensino fundamental. O objetivo era demonstrar que o uso das histórias em quadrinhos podia ser um caminho para o processo de ensino/aprendizagem e que elas poderiam ser usadas em todos os conteúdos, não sendo apenas prerrogativa das séries iniciais. O seminário reuniu 230 professores das redes municipal de ensino de Leopoldina, pública e privada de Leopoldina. Ele foi realizado no dia 18 de maio de 2007 e teve a participação dos professores: Waldomiro Vergueiro (USP), Octavio Aragão (UFES), Arthur Soffiat (UFF) e Valéria Fernandes (Colégio Militar de Brasília). Nele os pesquisadores procuram mostrar como os quadrinhos podem ser importantes no ensino, enfocando desde a literatura até temas especícos como meio-ambiente, história e geografia. Os nosso professores tiveram, então, o primeiro contato do as HQ’s, do ponto de vista acadêmico. A resposta a este contato veio na forma de um segundo seminário, voltado ao ensino de ciências através dos quadrinhos, marcado para o dia 06 de junho de 2008. Durante o ano de 2007 procuramos tornar o espaço da Gibiteca cada vez mais atraente. Para tanto conseguimos a doação de computadores feita por empresas particulares, Ongs ou por membros da nossa comunidade. Atualmente contamos com seis computadores em funcionamento, onde os alunos podem ler e criar gibis. Firmamos no início do ano uma parceria com o

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CEFET/Uned- Leopoldina que tem oferecido gratuitamente cursos de informática básica e edição de histórias em quadrinhos para nossos alunos e, posteriormente, para nossos professores. Há na gibiteca um espaço reservado para o professor, onde ele pode dispor de periódicos e livros que versam sobre o uso das HQ’s na sala de aula. Além de material impresso, contamos com textos digitalizados, produzidos por educadores e pesquisadores de todas as partes do país, centenas de tirinhas e HQ’s digitalizadas. Os professores são estimulados a ler os gibis, tanto quanto estimulam seus alunos. Eles também participam das atividades que são oferecidas aos alunos, tais como oficinas de quadrinhos e cursos de informática para edição de quadrinhos. Esta comunhão possibilita ao professor compreender melhor o próprio universo dos seus alunos-leitores e, ao mesmo tempo, ter mais segurança para usar este material na sala de aula. Atualmente a Gibiteca conta com um acervo de 2620 exemplares (segundo levantamento realizado no final do mês de fevereiro de 2008), tendo sido observada um grande crescimento nas doações feitas por pessoas da própria cidade. O acervo está distribuído da seguinte maneira:
Superheróis 1243 Álbuns 200 Infantis 443 Mangás 149 Inglês 92 Educativas 220 Raridades 50 Repetidas 166 Suspense 57 Total 2620

A Internet foi uma ferramenta muito importante para o êxito do projeto. A construção de um blog com a finalidade de divulgar os trabalhos realizados na Gibiteca, assim como disponibilizar referentes aos quadrinhos nos possibilitou expandir nossos contatos. O blog Gibiteca.com tornou-se nosso cartão de visitas. Lá as pessoas podem observar o que está sendo feito na escola e tomar conhecimento dos nossos projetos e de seus resultados. Por meio de vídeos, pode entrar na Gibiteca, mesmo estando em outras cidades, estados ou países. São divulgadas,

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periodicamente, as doações que recebemos, mantendo desta forma um diálogo aberto com nossos leitores. Além disto, a necessidade de manter sempre atualizado o espaço digital, nos permitiu desenvolver uma série de pesquisas e buscar soluções para questões levantadas pelos leitores do blog e pelos próprios professores.

2.1 – Gerenciado a Gibiteca Uma das preocupações que tivemos durante o ano de 2007 foi de tentar manter um registro daquilo que nossos alunos estavam lendo. A cada semana, quando eram realizados os empréstimos de revistas em quadrinhos, os alunos assinavam o livro de empréstimos e nele era registrado o título da Hq que estava sendo emprestada. A partir destes dados pudemos verificar as preferências dos alunos, levando em conta as doações que eram recebidas. Para facilitar o estudo, dividimos os meses de maio a novembro em três períodos, como pode ser verificado na tabela abaixo:
Período 29/05 a 05/07 30/07 a 27/09 01/10 a 21/11 Total de empréstimos Nº de dias corridos 38 62 52 1027 Nº de HQ’s emprestadas 287 470 270 Média semanal 53,1 53,4 36,4

Quanto aos dados acima, cabem aqui alguns esclarecimentos. A princípio os empréstimos eram realizados para os alunos dos turnos da manha e da tarde. Observem que nos dois primeiros períodos o número de empréstimos por semana permanece o mesmo. A partir do terceiro período, os empréstimos foram realizados apenas para os alunos da tarde, devido ao aumento de serviço do professor eventual do turno da manhã, que não lhe permitia manter os empréstimos no mesmo ritmo. No entanto, a gibiteca continuou funcionando no turno da manhã para leitura, acompanhada por professores. Neste caso, nem sempre se registrava o que era lido, pois os professores tinham a liberdade de levar as HQ’s para a sala de aula.

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Sendo assim, durante o ultimo período o número de empréstimos diminuiu em relação aos outros meses, mas ao mesmo tempo notamos um aumento relativo entre os alunos do turno da tarde. Em relação à leitura em si, fizemos um levantamento do que foi lido nestes três períodos e chegamos aos seguintes resultados:
Período 29/05 a 05/07 30/07 a 27/09 01/10 a 21/11 Super-heróis, aventura e mistério 84% 43% 33% Infantis 13% 47% 42% Mangás 3% 10% 25%

Também com relação a estes dados, é relevante sublinhar alguns pontos. No primeiro período de empréstimos, os quadrinhos infantis disponíveis eram poucos e a maior parte do nosso acervo era composto por HQ’s de superheróis. No segundo período, a escola recebeu uma grande doação de HQ’s infantis, notadamente da Turma da Mônica, o que permitiu que fosse liberado sem restrições o empréstimo deste gênero, provocando uma grande queda na leitura de gibis de super-heróis. No último período conseguimos recursos para comprar mangás, que até então eram em número muito reduzido, mas cuja leitura estava aumentando gradativamente. O aumento do acervo, no mês de novembro, fez com que muitos alunos se interessassem mais por este gênero. Ao adquirir os títulos levamos em conta a preferência dos alunos: as meninas gostavam de Sakura e Vídeo Girl AI, enquanto que os meninos queriam Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. Tendo em visto o curto período em que este material ficou disponível, o crescimento da leitura pode ser considerado muito significativo. Sobre os títulos mais lidos, destacaram-se as revistas do Homem Aranha, dos X-Men, da Turma da Mônica, da Turma do Xaxado, Vídeo Girl AI e Dragon Ball. Notamos pouco interesse dos alunos nos álbuns e nas histórias em quadrinhos de terror e mistério.

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Ao reorganizar o espaço da gibiteca no início do ano de 2008 nos preocupamos em etiquetar as caixas e as prateleiras com os nomes dos títulos, destacando os gêneros. Na primeira semana de aula, foi afixada no mural e cada sala de aula sala de aula e na própria gibiteca dicas de como fazer o melhor uso do espaço, explicando, por exemplo, onde encontrar histórias completas, a entender a seqüência das revistas seriadas, identificando as mais antigas e as mais novas, etc. A professora eventual que fica responsável pelos empréstimos semanais faz a orienta os alunos sobre necessidade de conservar os gibis e de efetuar sua devolução dentro do prazo previsto (que é de uma semana). Ao mesmo tempo, criamos um mural externo onde estão sendo colocados mensalmente, imagens e textos falando sobre títulos que são pouco lidos ou que são desconhecidos, mas que fazem parte do acervo da gibiteca, como, por exemplo, Corto Maltese, de Hugo Pratt, Novos Titãs, da DC Comics, etc. É nossa intenção observar se a disponibilização destas informações irá influir nas escolhas dos alunos. 3 - Uma experiência com leitura e interdisciplinaridade Durante o ano de 2007, aos poucos, alguns professores começaram a desenvolver pequenas experiências de ensino utilizando histórias em quadrinhos. Neste primeiro momento destacaram-se, três iniciativas. A primeira foi da professora de série inicial Maria de Fátima Alves que desenvolveu uma pequena oficina de HQ’s junto a alunos da escola que estavam com dificuldades de aprendizagem. São meninos e meninas de idades variadas para os quais ela estava ministrando aulas de reforço. O objetivo da oficina era estudar sobre folclore produzindo uma HQ. Segundo a professora, o trabalho de produção de HQ’s foi estimulante pois incentivou-os a usar da criatividade, transformando um trabalho escolar em uma atividade lúdica, prazerosa.

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A segunda experiência foi realizada pela Roseane Peres Rocha, que decidiu tornar as avaliações de matemática mais divertidas para os alunos da 5ª série do Ensino Fundamental. Ela utilizou tirinhas da Turma da Mônica para montar problemas matemáticos e desafiando os alunos a fazerem o mesmo. Para a professora, o uso dos quadrinhos nas atividades desperta a atenção dos alunos, que inclusive preocupam-se com pequenos detalhes quando preenchem os balões: "Eles colocam a fala errada do Cebolinha e sublinham as palavras que estão erradas”. Uma vez que os resultados foram positivos, a professora pretende repetir a atividade neste ano de 2008 e tem também se interessado em buscar outras formas de usar quadrinhos no ensino da matemática. Para isto, uma ferramenta importante está sendo a Internet, onde ela recolhe o material que usa para montar duas avaliações. Outra professora que investiu nos quadrinhos foi Mary Ângela Carraro Dibo, que trabalha com a disciplina língua portuguesa. Preocupada com os péssimos resultados dos alunos da 6ª série, nas primeiras avaliações do 2º bimestre notadamente erros de ortografia e interpretação - a professora decidiu mudar a rotina das suas aulas. Uma vez por semana dividia os alunos em dois grupos. Uma metade fica na biblioteca e a outra é encaminhada à Gibiteca, sendo que em cada semana os grupos se alternam. Lá os alunos faziam uma aula de leitura livre. Além dos alunos terem melhorado seu desempenho nas aulas e nas avaliações, até a disciplina da turma - que tinha muitos problemas desde o início do ano – também mudou. Mary Ângela destaca que os alunos preferem as aulas na gibiteca pelo ambiente agradável e despojado, diferente da biblioteca, onde eles ficam sentados em cadeiras e mesas. A professora observa que na biblioteca os alunos folheiam livros e muitas vezes não os lêem. Já na gibiteca a atenção com a leitura é bem maior. Ela assinala que o apelo visual das HQ’s é um fator

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importante, pois o desenho prende a atenção e mesmo que o aluno "pule" algumas falas, ele consegue entender a história graças à leitura das imagens. A professora já trabalhava com quadrinhos em suas aulas, na forma de atividades. Usando tirinhas do Snoopy - personagem de Charles Schulz -, ela propõe exercícios que misturam desde questões gramaticais (identificar locuções verbais, vocativos e onomatopéias) até interpretação. Em 2008, Dibo continua investindo nos momentos de leitura na Gibiteca, agora com alunos do EJA (educação para Jovens e Adultos) que freqüentam o turno da noite na escola. Neste ano o número de professores interessados em desenvolver atividades com quadrinhos aumentou consideravelmente. Os professores de educação infantil e alfabetização foram os primeiros a procurar material na Gibiteca para trabalhar com seus alunos. Alguns ofereceram ou vão oferecer uma pequena oficina de quadrinhos, sugestão do Guia Prático do Professor do Ensino Fundamental I. Trata-se de uma experiência de ensino desenvolvida pela professora Antônia de Sousa Carvalho (2008), em Ribeira do Pombal (BA). A oficina dura cinco dias e está sendo desenvolvida com a ajuda da professora eventual. Nela os alunos aprendem a montar HQ´s e a produzir materiais diversos como a TV quadrinhos e o Porta Gibis, e são incentivados a terem sua mini-gibiteca em casa. O interesse dos alunos pela atividade é grande e tem sido desenvolvida na 2ª e 3ª séries do fundamental. Uma disciplina que está se interessando pelos quadrinhos é a educação física. A professora Milena está produzindo material didático para alunos de 5ª a 8ª séries utilizando HQ´s. A educação física é uma disciplina que envolve esporte e atividades lúdicas. Os quadrinhos são uma atividade lúdica, portanto se encaixam dentro do conteúdo.

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O obstáculo está em montar e selecionar material, pois há muito pouco – ou quase nada – sobre o assunto, além dos textos que já havíamos disponibilizado no Blog da Gibiteca Escolar. Procuramos em primeiro lugar identificar as atividades esportivas nos quadrinhos, buscando em HQ’s publicadas no Brasil referências a estas atividades. Encontramos algumas, como a Turma do Xaxado, a Turma da Mônica, Senninha, Zé Carioca, e Oscarzinho, por exemplo, onde o esporte aparece como tema de algumas histórias. A realização dos jogos Pan Americanos no Rio de Janeiro, em 2007, ajudou a disponibilizar algum material, que já está sendo utilizado pela professora para compor aulas de educação física. A idéia é mostrar que se estuda educação física tanto quanto outras disciplinas e alternar as aulas nas quadras com aulas dentro de sala, onde os alunos estudam sobre cada esporte, fazem atividades envolvendo quadrinhos – onde tem inclusive que trabalhar interpretação de texto – e são avaliados.

Cabe ao professor avaliar a melhor forma de utilizar as HQ’s com seus alunos. Alguns autores sugerem que os quadrinhos podem ser trabalhados de três formas básicas: a) através da análise critica da história; b) incentivando a criação de histórias em quadrinhos pelos próprios alunos; c) utilizando os quadrinhos como um meio de expressão e conscientização política.

Conclusão Para muitas pessoas que tomam conhecimento do projeto, usar as HQ’s nas escolas, como instrumento de ensino pode parecer uma novidade. Mas não é bem assim. Já existem no Brasil e mesmo no exterior várias iniciativas de aproximar o leitor – jovem ou adulto – das histórias em quadrinhos. Em Portugal, por exemplo, temos a Bededeteca de Lisboa (lá as HQ’s são chamadas de banda desenhada, nos países de língua francesa elas são as bande dessinées), na França há no Museu de Angoulème a Fanzinothèque de Pottiers.

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Criada em 1989 por iniciativa do “Conseil Communal des Jeunes de Poitiers”, a Fanzinoteca desenvolve suas atividades em duas direções: a documentação e o patrimônio de um lado e organização de eventos de outra. Ela funciona como uma grande empresa e classifica e arquiva toda produção amadora (música, HQ’s, literatura, etc.) Ela possui a disposição do público um fundo de mais de 50.000 documentos e publicações. É a única fanzinoteca do mundo que mantém atividades constantes. No Brasil há gibitecas espalhadas por várias cidades do país, mas ainda são em número reduzido. Embora as HQ’s sejam uma mídia popular, ainda há quem restrinja o espaço que elas ocupam como forma de leitura, ensino e comunicação. Estamos procurando promover pequenos cursos e eventos envolvendo toda a comunidade escolar e colegas de outras escolas, buscando divulgar a leitura e o uso das HQ’s nas salas de aula, assim como os benefícios de se ter uma gibiteca. Recebemos periodicamente e-mails e telefonemas de pessoas que desejam criar gibitecas nas suas escolas, mas não sabem como fazê-lo. Procuramos sempre orientar da melhor forma possível e estamos abertos a todos que desejem multiplicar esta idéia. O ensino se dá pela comunhão e pela partilha, e a solidariedade deve se a base de toda atividade escolar. Pode parecer, a primeira vista, que o uso de HQ’s e a criação de gibitecas nas escolas esteja sendo apresentado como uma solução milagrosa para os problemas que enfrentamos no ensino. Este equívoco talvez seja responsável pela resistência de muitos profissionais do ensino em aceitar os gibis e outras mídias nas escolas. Elas não substituem o professor nem são suficientes para formar nossos estudantes. Mas são instrumentos didáticos importantes que podem auxiliar neste processo. A Gibiteca é um apoio para o professor que deseja diversificar as suas aulas. Ela não garante por si só o êxito do aluno, mas ela fornece a ele a possibilidade de ampliar seus horizontes e de desenvolver sua capacidade de

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ler. Ela também age na auto-estima dos professores. Eles passam a dar mais valor ao seu trabalho. O professor redescobre junto com o aluno o prazer da leitura e acaba promovendo sua auto-formação, construindo seu conhecimento, aprimorando suas metodologias de trabalho, deixando de ser apenas um profissional do ensino, mas sobretudo um educador.

Referências

ALVES, José Moysés. Histórias em quadrinhos e educação infantil. Psicol.cienc. prof. Brasília, vol..21, num.3, set. 2001. Disponível em: < http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141432001000300002&lng=pt&nrm=is>. Acesso em: 05/02/2006. CABRINI, Conceição et. alii. O Ensino de História: revisão urgente.- 5a ed – São Paulo: Brasiliense, 1994. CALAZANS, Flavio Mario de Alcântara. História em quadrinhos na escola. São Paulo: Paulus, 2004. CARVALHO, Antônia de Sousa. Gibiteca na Escola. Guia prático do professor do ensino fundamental I. São Paulo: Editora Lua, ano 5, nº 49, março/2008 FIORIN, José Luis, SAVIONI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. - 2. ed. São Paulo: Editora Ática, 1991. GIESTA, Nágila Caporlíngua. Histórias em quadrinhos: recurso no ensino e na investigação educacional In: XIII Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, Recife/PE. Anais do XIII ENDIPE, 2006 GONÇALVES, Jussemar Weiss. O campo da história na Escola Pública. In: Qual história? Qual ensino? Qual cidadania? – Porto Alegre: ANPUH, Ed. Unisinos, 1997. SILVA, Diamantino da. Quadrinhos para Quadrados. Porto Alegre: Bels, 1979.

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