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Acupuntura auricular: Tratamento da hérnia de disco lombar

Maria Graciete de Almeida Silveira 1 e-mail: gracieteacunputura@hotmail.com Dayana Priscila Maia Mejia Pós-Graduação em Acupuntura – Faculdade Ávila

Resumo

Pesquisas têm divulgado resultados positivos da acupuntura no tratamento da hérnia de disco lombar. O objetivo geral desse trabalho foi abordar de que forma a acupuntura auricular pode ser utilizada no tratamento da hérnia de disco lombar. Para isso foi necessário: suscitar teorias pertinentes à acupuntura e acupuntura auricular e seus mecanismos de ação; caracterizar a hérnia de disco em seus aspectos conceituais e epidemiológicos; e descrever o tratamento da hérnia de disco lombar por meio da acupuntura auricular. Metodologicamente, esse artigo caracteriza-se como um estudo de revisão, baseado em levantamento bibliográfico. Os principais aportes teóricos revelaram que, para o tratamento da hérnia de disco lombar as opções que a acupuntura oferece são várias, no entanto, especificamente na acupuntura auricular, a literatura registra o ponto da coluna cervical situa-se no terço inferior do anti-hélix, privilegiando os seguintes pontos: 45, 46 e 47. Quanto aos resultados alcançados ressalta-se que, o tratamento da hérnia de disco lombar pela acupuntura auricular apresenta resultados positivos, no entanto, a seleção de pontos, demanda uma avaliação bem detalhada. Nesse sentido, a realização de mais estudos clínicos é necessária para uma compreensão completa dos efeitos e da utilização da acupuntura auricular nos quadros de hérnia de disco lombar. Palavras-chave: Acupuntura Auricular; Tratamento; Hérnia de disco lombar.

1. Introdução

A hérnia de disco lombar constitui-se o objeto de estudo desse artigo que apresenta a

aplicação da acupuntura auricular no tratamento dessa patologia.

A hérnia de disco é um processo em que ocorre a ruptura do anel fibroso, com consequente

extravasamento do material nuclear para o espaço intervertebral. Cerca de 2% a 3% da população mundial são acometidos pelos sintomas da hérnia de disco lombar, que é

considerada a principal causa de lombalgias. Acima dos 35 anos, essa prevalência é de 4,8% nos homens e 2,5% nas mulheres (WELTER; ROCHA JÚNIOR; BARROS, 2004).

A Portaria GM nº 971, de 3 de maio de 2006, publicada pelo Ministério da Saúde, ressalta que

a acupuntura é uma tecnologia de intervenção em saúde que aborda de modo integral e

dinâmico o processo saúde-doença no ser humano, podendo ser usada isolada ou de forma integrada com outros recursos terapêuticos.

A acupuntura é o recurso terapêutico mais conhecido da medicina tradicional chinesa no

Ocidente. Trata-se pelo do meio pelo qual, através da inserção de agulhas, faz se a introdução,

1 Pós-Graduanda em Acupuntura. Enfermeira Especialista em Urgência e Emergência e Saúde Coletiva com Ênfase em Saúde da Família.

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a mobilização, a circulação e o desbloqueio da energia, além da retirada das energias turvas,

promovendo a harmonização e o fortalecimento dos órgãos, das vísceras e do corpo (BRAGA; YAMAMURA, 2008). Souza (2007) esclarece que, nos últimos 80 anos a acupuntura auricular vem sendo aplicada com êxito no tratamento de algias e em procedimento de analgesia profunda (anestesia). Os estudos atuais não mudam, apenas somam novas técnicas de combinações de pontos, novos esquemas clínicos adaptados ao aparecimento de enfermidades ligadas ao desenvolvimento da humanidade. Muitos estudos têm divulgado resultados positivos dos efeitos fisiológicos da acupuntura no tratamento das mais diversas patologias, inclusive no tratamento da hérnia de disco lombar. Além de pesquisas nessa área, também tem aumentado o número de pacientes que vêm

procurando a acupuntura como uma alternativa a medicina alopática. Segundo a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura – SMBA (2012), os primórdios da acupuntura no Sistema Único de Saúde – SUS se remetem ao ano de 1988, através da Resolução CIPLAN 05/88, sendo reconhecida como especialidade médica em agosto de 1995, por meio da Resolução Nº 1445/1995, e introduzida na tabela do SUS em 1999. Sua prática

foi reforçada pela Portaria GM nº 971/2006, que aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares – PNPIC no SUS. Este último documento define que, no SUS, sejam integrados abordagens e recursos que busquem estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e de recuperação da saúde, tais como acupuntura e homeopatia.

A finalidade principal da Portaria GM nº 971/2006, é atender à necessidade de conhecer,

apoiar, incorporar e implementar, no SUS, práticas antes restritas a área privada como a

medicina tradicional chinesa e homeopatia. Entretanto, na realidade são poucos que têm acesso a este tipo de tratamento.

O problema que deu origem à pesquisa está delimitado na seguinte questão: a acupuntura

auricular pode ser utilizada no tratamento da hérnia de disco lombar? Dessa forma, apresenta-

se como hipótese, a assertiva de que, estudos evidenciam que a acupuntura auricular vem sendo aplicada no tratamento da hérnia de disco lombar e tem obtido bons efeitos.

O objetivo geral desse trabalho foi abordar de que forma a acupuntura auricular pode ser

utilizada no tratamento da hérnia de disco lombar. Para isso foi necessário: suscitar teorias

pertinentes à acupuntura e acupuntura auricular e seus mecanismos de ação; caracterizar a hérnia de disco em seus aspectos conceituais e epidemiológicos; e descrever o tratamento da hérnia de disco lombar por meio da acupuntura auricular. Para se justificar a relevância da discussão do tema em meios acadêmicos e sociais, pode-se destacar que a acupuntura não trata apenas da patologia em si, ou de uma parte isolada do corpo, mas sim do organismo como um todo, na busca do equilíbrio físico e energético, eliminado assim a doença. Nesse contexto, cada vez mais pessoas estão procurando a acupuntura como opção de tratamento para hérnia de disco lombar, por indicação médica ou por conhecer e se interessar pela técnica. Além disso, julga-se relevante uma pesquisa que também busca demonstrar que, o tratamento

da hérnia de disco lombar, bem como de inúmeras doenças por meio da acupuntura não está

inserida no cotidiano dos serviços de saúde como deveria estar. Levando em considerando esse contexto, torna-se cada vez mais importante conhecer a hérnia de disco lombar para que sejam criadas intervenções que venham a modificar os dados alarmantes dessa patologia.

Este artigo caracteriza-se como um estudo de caráter qualitativo e exploratório, realizado com base em levantamento bibliográfico utilizando livros, revistas, artigos, teses e sites na internet relacionados à aplicação da acupuntura no tratamento da hérnia de disco lombar. Na discussão

e análise bibliográfica foram consideradas as teorias relevantes para a realização do trabalho.

A pesquisa respeitou os direitos autorais, conforme estabelece as normas da Associação

Brasileira de Normas Técnicas - ABNT.

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Para atender aos objetivos da pesquisa, esse artigo foi estruturado em quatro seções principais, conforme segue. Em primeiro lugar, apresenta-se a introdução, onde se contextualiza o tema de forma breve, a situação problemática e sua respectiva hipótese, bem como a sua justificativa, os objetivos e a organização de como se desenvolveu a discussão do assunto. Na segunda seção apresenta-se a revisão da literatura, onde buscou-se através de uma abordagem exploratória das categorias conceituais acerca da acupuntura, da acupuntura auricular e da hérnia de disco lombar embasar teoricamente o trabalho, buscando-se, dessa forma, subsídios para a composição do item de discussão do artigo, terceira seção, e da quarta seção direcionada às considerações finais e possíveis recomendações para estudos futuros.

2. Revisão da Literatura

2.1 Acupuntura: Noções históricas, conceituais e mecanismos de ação

Revendo a literatura sobre a evolução da acupuntura na humanidade, não seria possível furtar- se à perspectiva histórica, que segundo Braga; Yamamura (2008), o Chen-Chui ou a acupuntura, como é conhecido no Ocidente, é um antigo método terapêutico chinês que se baseia na estimulação de determinados pontos do corpo com agulha (Chen) ou com fogo (Chui), a fim de restaurar e manter a saúde. A acupuntura foi idealizada dentro do contexto global da filosofia do Tao e das concepções filosóficas e fisiológicas que nortearam a medicina tradicional chinesa. Tomando-se como base a obra “Acupuntura Científica Moderna”, de I.F. Dumitrescu, Nakano (2008) apresenta um histórico que navega através do tempo, proporcionando o conhecimento de que acupuntura é milenar e se originou na China, embora tenham existido práticas semelhantes em outros povos antigos, dentre os quais se destacam os egípcios, os sumerianos, os persas, bem como nas civilizações maia e asteca e nas populações africanas, sendo também inúmeras as reminiscências na medicina popular dos diferentes povos da Europa. No entanto, Nakano (2008) esclarece que, em nenhum lugar do mundo se deu o significado filosófico profundo à acupuntura como na antiga China. Na Idade da Pedra, existem relatos de agulhas de sílex que eram utilizadas em certas intervenções cirúrgicas. Já o tratado médico “Cânon da Medicina” (770-221 a.C.) descreve nove tipos de agulhas. Com a evolução dos tempos, as agulhas de pedras foram substituídas pelas agulhas de osso e de bambu e com o advento da era do bronze ocorreu um novo desenvolvimento da prática da acupuntura na China e nela foi idealizada a teoria da circulação energética através dos meridianos. Posteriormente, para complementar o “Cânon da Medicina” surgiu o “Clássico que Trata dos Problemas Difíceis”, no qual existe discussão sobre os pontos de acupuntura e suas indicações para os “oito meridianos extraordinários”. Na dinastia Tsin, a acupuntura e a aplicação de moxabustão tiveram rápido desenvolvimento. Na época da dinastia Tang, a acupuntura atinge um desenvolvimento que quase se aproxima ao da acupuntura contemporânea. Nessa época foi então escrita uma série de livros e documentos que se tornaram clássicos para o estudo da acupuntura. Entretanto, como bem esclarece Nakano (2008), a acupuntura continuava sendo praticada frequentemente por pessoas sem formação médica. Por volta do século XVII, a acupuntura começa a ser conhecida na Europa, introduzida pelos jesuítas e viajantes que vinham do extremo oriente. No início do século XIX, o Doutor Berlioz e o anatomista J. Cloquet deram os primeiros passos na introdução da acupuntura na prática médica européia. Em 1929, o sinólogo Georges Soulié de Morant publicou o primeiro livro que espalhou a verdadeira acupuntura chinesa pela Europa (NAKANO, 2008). De acordo com Nakano (2008), nos Estados Unidos, a acupuntura começou ser praticada após os anos 70, encontrando aí um apoio científico em publicações de prestígio e de pesquisas

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importantes. Em 1979, ano que marca três décadas de experimentação científica e moderna da acupuntura, ocorreu em Beijing o primeiro Simpósio Nacional de Acupuntura e Moxabustão, do qual participaram mais de 4 mil especialistas da China e do mundo. Essa reunião marca o triunfo científico da acupuntura. Conceitualmente, Braga; Yamamura (2008) esclarecem que a acupuntura é o recurso terapêutico mais conhecido da medicina tradicional chinesa no Ocidente. Trata-se pelo do meio pelo qual, através da inserção de agulhas, faz se a introdução, a mobilização, a circulação e o desbloqueio da energia, além da retirada das energias turvas (Xie Qi - Energias Perversas), promovendo a harmonização e o fortalecimento dos órgãos, das vísceras e do corpo. A compreensão da fisiologia energética dos meridianos, dos pontos de acupuntura e de suas funções torna-se fundamental para a utilização desta técnica na prevenção e interrupção de um processo de adoecimento. A energia é a forma imaterial que promove o dinamismo, a atividade do ser vivo. Manifesta-se sob dois aspectos principais. Um, de característica Yang, representa a energia que produz o calor, a expansão, a explosão, a ascensão, a claridade e o aumento de todas as atividades; outro, de característica Yin, representa a energia que produz o frio, o retraimento, a descida, o repouso, a escuridão e a diminuição de todas as atividades (BRAGA; YAMAMURA, 2008). A energia é imutável, recebendo denominações diferentes conforme as suas funções:

- Energias Celestes são cinco (calor, vento, frio, secura e umidade) e são

responsáveis pelo aparecimento das quatro estações do ano e, consequentemente, da

vida.

- Energia Terrestre ou Telúrica é responsável pela formação da essência dos

alimentos (Gu Zhi) e do Shen (Rins), sendo este o gerador de todas as energias do

corpo.

- Energia-Fonte (Yuan Qi) resulta da transformação da essência do Shen (Rins) em

energia Yang (Yang Qi) e energia Yin (Yin Qi) do corpo.

- Energia Nutritiva (Yong Qi) provém da essência dos alimentos e é responsável por

toda a nutrição energética das estruturas do corpo; circula nos meridianos (BRAGA; YAMAMURA, 2008, p.27-28).

Ainda sobre as denominações da energia e suas funções, destacam-se:

- Energia de Defesa (Wel Qi) é proveniente da união da energia celeste com a

terrestre e responsável por toda defesa e resistência contra as energias perversas (fatores de adoecimento); circula fora ou dentro dos meridianos principais, dependendo do horário.

- Zhong Oi de formação semelhante ao Wei Qi é o responsável pela dinâmica

cardiorrespiratória e pela respiração celular.

- Energias Perversas (Xie Qi) representam as energias celestes que se encontram em excesso, real ou falso, em relação à vitalidade do corpo.

- Xue Qi (Energia do Sangue) também é resultante da união da parte Yin da energia

celeste com a essência dos alimentos; é responsável pela dinâmica do Xue (Sangue).

- Jin Ye constitui a energia dos líquidos orgânicos e é formado à custa da união da energia celeste com a essência dos alimentos. É o responsável pelo aquecimento e nutrição do corpo e meio de circulação do Wei Qi do Xue (Sangue) (BRAGA; YAMAMURA, 2008, p.27-28).

Estas diversas formas de energia, umas de característica Yang e outras de característica Yin, são as mantenedoras das atividades do corpo. As técnicas da acupuntura têm a finalidade de promover a mobilização, a circulação e o fortalecimento das energias humanas, bem como a expulsão de energias perversas (Xie Qi) que acometem o indivíduo. A acupuntura visa restabelecer a circulação da energia (Qi) nos meridianos e nos órgãos (Zang) e nas vísceras

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(Fu) e, com isso, levar o corpo a uma harmonia de energia e de matéria (BRAGA; YAMAMURA, 2008). Como bem esclarecem Braga; Yamamura (2008), o reconhecimento dos principais pontos de

acupuntura não foi um mero achado experimental, mas deriva de todo o conceito do Yang e do Yin e dos princípios dos cinco movimentos, que são os alicerces da filosofia chinesa. Assim, a origem dos pontos Shu antigos nos meridianos principais representa a relação Yang/Yin, Alto/Baixo, Superficial/Profundo e Esquerda/Direita, enquanto o dinamismo funcional desses pontos de acupuntura está de pendente dos princípios que regem os Cinco Movimentos.

A acupuntura aborda não somente os aspectos funcionais dos pontos de acupuntura, mas

também as diferentes funções dos meridianos (Jing Luo), que representam o importante

sistema de consolidação e de comunicação dos Zang Fu com a parte somática, condicionando, na sua trajetória, a forma física do ser humano. Relacionar as alterações produzidas na estrutura física aos meridianos é reconhecer o estado energético dos órgãos e das vísceras e, por conseguinte, representa um recurso adequado para o tratamento (BRAGA; YAMAMURA, 2008). Segundo Tabosa; Yamamura (2008), durante milênios, acreditou-se que o mecanismo de ação da acupuntura fosse puramente energético, ou seja, aceitava-se apenas a concepção dos meridianos ou canais de energia (Jing Luo). No entanto, com a difusão da medicina tradicional chinesa no Ocidente, muitos pesquisadores começaram a questionar sobre a participação de estruturas orgânicas no mecanismo da ação da acupuntura, e o desenvolvimento de pesquisas científicas nesta área, principalmente nas últimas décadas, evidenciou íntima relação entre os efeitos da acupuntura e o sistema nervoso central - SNC e periférico, bem como com vários tipos de neuro hormônios (neurotransmissores). Este novo conhecimento da medicina tradicional chinesa permite que hoje se aceitem três mecanismos para explicar a ação da acupuntura: energético, humoral e neural, ou a associação dos três mecanismos.

A eficácia da acupuntura como método terapêutico praticado durante milênios, no Oriente, e,

mais recentemente, a sua aplicação na analgesia cirúrgica motivaram pesquisas com o objetivo de encontrar alguma explicação científica de seu modo de ação. Há basicamente duas

formas distintas de explicação do seu mecanismo: a energética e a científica: A primeira é a da escola tradicional chinesa, que define que a estimulação adequada dos pontos de acupuntura situados nos meridianos regulariza a corrente de Qi que circula nos mesmos e, consequentemente, nos Zang Fu (órgãos e vísceras), distribuindo esse Qi por todo o corpo. A explicação científica refere-se aos mecanismos humoral e neural, que, em última análise, relacionam se com o sistema nervoso central (TABOSA; YAMAMURA, 2008).

O mecanismo humoral diz respeito à produção de substâncias, geralmente neuro hormônios,

neurotransmissores e hormônios, que são secretados no sangue, por ação da acupuntura. Tabosa; Yamamura (2008) salientam que o efeito humoral depende também indiretamente do sistema nervoso central, que determina a liberação, ao nível endócrino, das substâncias encontradas no sangue. A transmissão dos efeitos da acupuntura da gestante ao feto representa outro exemplo claro do mecanismo humoral da acupuntura. Deste modo, entende-se a concepção da indicação dos diversos pontos de acupuntura para as mais diversas patologias. No que se refere ao mecanismo neural, Tabosa; Yamamura (2008) esclarecem que, os estímulos que as agulhas de acupuntura desencadeiam nos diferentes receptores nervosos podem explicar os múltiplos efeitos observados, pois o sistema nervoso é específico em relação à via de condução dos estímulos e, consequentemente, as respostas também são específicas. O estímulo originado pela inserção de agulha de acupuntura pode variar amplamente, de acordo com a intensidade, o movimento giratório no sentido horário ou anti-

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horário e a frequência. Esses fatores devem determinar a liberação de neurotransmissores específicos nas sinapses, excitando-as ou inibindo-as, desencadeando respostas diferentes. Assim, compreende-se por que os chineses preconizavam que, para se tonificar um ponto de acupuntura, dever-se-ia fazer movimento giratório da agulha inserida no sentido horário ou direcioná-la obliquamente no sentido da corrente de energia no meridiano e que, para sedar, dever- se- ia proceder de modo inverso. Essas formas específicas de manipulação do ponto de acupuntura e as respostas diversas obtidas encontram respaldo científico, uma vez que, cada forma de estímulo gerado pela manipulação da agulha pode liberar neurotransmissores específicos, que podem inibir ou excitar as várias sinapses em todo o SNC e, com isto, promover respostas também específicas (TABOSA; YAMAMURA, 2008).

2.2 Acupuntura Auricular: Caracterização e pavilhão auricular

Quanto à perspectiva histórica, segundo Yamamura (2001), a acupuntura auricular foi praticada na China antiga e no ocidente, mais especificamente, na França, estudos de acupuntura auricular ganharam grande impulso e vários pontos novos, bem como técnicas de tratamento foram desenvolvidas nesta área. Souza (2007) complementa essas informações destacando que o uso da auriculoterapia como forma de tratamento reporta-se à antiguidade, tendo relatos que as mulheres do antigo Egito já usavam pontos auriculares como forma de anticoncepcional, isto pelo século 2.500 A.C. Posteriormente, apresentou difusão maior que a acupuntura sistêmica, no Oriente Médio e na Europa Antiga. Os escritos de Hipócrates diziam que as incisões efetuadas no pavilhão auricular do homem produziam ejaculação escassa, inativa e infecunda. Ele ensinava que os escitas picavam uma veia no dorso auricular para cura da impotência masculina. Essa punção provocava sono, do qual o paciente acordava curado. Hipócrates indicava uma punção com estiletes nos vasos auriculares, para tratamento de processos inflamatórios. Porém, muito antes de Hipócrates, os chineses do século 27 A.C., faziam menção do tratamento auricular através de agulhas, associado ao tratamento pela acupuntura sistêmica (SOUZA, 2007). Segundo Souza (2007), a obra clássica da acupuntura, o livro “Hung Ti Nei Ching”, escrita há mais de 5.000 anos, refere que o pavilhão auricular é um área isolada que mantêm relações com os demais órgãos e regiões do corpo através do reflexo cerebral. O desenvolvimento da auriculoterapia se acentuou mais a partir do 3º século e em 1.572 foi publicada, na China, uma obra sobre acupuntura, onde se mencionava as relações entre os meridianos da acupuntura e a orelha, esta considerada como centro de reunião dos meridianos e onde era mais intensa a relação meridiano-órgãos. A partir de então, os estudos sobre a associação de pontos auriculares com a acupuntura sistêmica foram sendo intensificados pelos orientais, surgindo o sistema de diagnóstico por observação do pavilhão auricular. De acordo com Souza (2007), a localização e nomenclatura dos pontos foram introduzidas gradativamente, à medida que eram intensificados os estudos e observações da relação:

aurícula/órgãos, aurícula/funções orgânicas e aurícula/posições anatômicas do corpo. Esses estudos abrangeram um período de tempo de 2.900 anos, compreendidos entre o ano 1.200 A.C. até o ano 1.700. No século 17, em 1.637, um médico português de nome Zacuto usava para cauterizar um ponto do pavilhão auricular para tratamento e cura da ciatalgia. Em 1.718, médicos franceses usavam cauterização no pavilhão e no dorso do antitrago para tratamento de odonto- nevralgias. Em 1.810, Colia de Parma usava o mesmo processo de cura, da ciatalgia por cauterização de pontos situados no dorso do pavilhão auricular. Em 1.890 o Dr. Luciani de Bastia, na França, usava cauterizar a raiz do anti-hélix em tratamento de ciatalgia (SOUZA,

2007).

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Dulceti (1994) esclarece que, nos últimos tempos, vem se utilizando auriculoterapia na anestesia por acupuntura, no tratamento, diagnóstico e prevenção de doenças. Souza (2007) complementa essas informações esclarecendo que, nos últimos 80 anos a Auriculoterapia vem sendo aplicada com êxito no tratamento de algias e em procedimento de analgesia profunda (anestesia). Os estudos atuais não mudam, apenas somam novas técnicas de combinações de pontos, novos esquemas clínicos adaptados ao aparecimento de enfermidades ligadas ao desenvolvimento da humanidade. Ao discorrer sobre o pavilhão auricular, Souza (2007), esclarece que se trata de uma parte muito importante do corpo humano, por constituir um microsistema, capaz de funcionar como um receptor de sinais de alta especificidade, podendo refletir todas as mudanças fisiológicas dos órgãos e vísceras, dos quatro membros, do tronco, tecido e outros. Conforme Xinnong (1999), quando ocorre a doença em diversas partes do corpo, podem aparecer várias reações positivas nas áreas correspondentes da orelha, e nesse sentido, os pontos da orelha podem ser usados como pontos de acupuntura para tratar as doenças, sendo que o exame e a inspeção das áreas positivas reativas sobre a superfície auricular, podem também ser utilizados como referência no diagnóstico da doença. Yamamura (2001) destaca que, quando um órgão/víscera ou parte do corpo humano apresenta alguma doença, aparece reação reflexa na região correspondente ao órgão lesado na orelha, caracterizando os pontos auriculares. Fernandes (2008) por sua vez esclarece que, as condições patológicas fazem surgir na orelha alterações tais como dor à pressão, alteração na condutividade elétrica, mudança de cor, manchas, escamações, nódulos, etc. Ao se puncionar com agulhas ou ao se pressionar estes pontos, as enfermidades podem ser tratadas. Em termos conceituais, como bem esclarece Souza (2007), a auriculoterapia é uma técnica da acupuntura, que usa o pavilhão auricular para efetuar tratamento de saúde, aproveitando o reflexo que a auricula exerce sobre o sistema nervoso central. Cada orelha tem pontos de reflexo que correspondem a todos os órgãos e funções do corpo. Ao se efetuar a sensibilização desses pontos por agulhas de acupuntura, o cérebro recebe um impulso que desencadeia uma série de fenômenos físicos, relacionados com a área do corpo, produzindo a cura. Fernandes (2008) esclarece ainda que, a técnica de acupuntura auricular consiste em puncionar com agulhas certos pontos, situados na orelha ou estimulá-los, por pressão, com outros recursos, tais como sementes ou esferas de metal. No que se refere ao diagnóstico e a avaliação auricular, Maciocia (1996a) destaca que, o diagnóstico e a avaliação auricular tendem a fornecer o desenvolvimento cronológico das enfermidades e a predisposição a processos patológicos que ainda não se manifestaram clinicamente. De acordo com Souza (2007), a auriculoterapia tem relação com a reflexologia, seguindo, entretanto, o mesmo sistema de diagnóstico das terapias convencionais, ou seja, anamnese, exames clínicos e laboratoriais, Raios X, dentre outros. O diagnóstico auricular faz parte da avaliação clínica para o atendimento de aurículo e é através da observação dos sinais no pavilhão auricular, que são indicativos e/ou tendências a processos patológicos, crônicos em atividade ou não. Esses sinais ocorrem devido a alterações energéticas nos Zang Fu (órgãos e vísceras), que se manifestam no exterior através do pavilhão auricular, indicando disfunção energética, funcional ou orgânica. No entanto, adverte Junying et al. (1996) que, para a avaliação é muito importante que a orelha não tenha sido manipulada, dessa forma se evita alterações que possam mascarar e prejudicar a avaliação, levando-se em consideração ainda fatores como idade e sexo da pessoa a ser avaliada, bem como a estação do ano. Para localizar o ponto reflexo na orelha, é preciso procurar com calma. Cada pessoa possui um formato de pavilhão diferente, assim, o ponto

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reflexo varia de indivíduo para indivíduo conforme o tipo do ponto apresentado. Na prática

clínica não é indicado localizar os pontos apenas baseando-se no mapa auricular, mas utilizar

o método de apalpação, na busca de pontos dolorosos a pressão.

Dessa forma, Neves (2010) ressalta que, a avaliação auricular passou a ter o valor semiológico muito próximo do diagnóstico através do pulso e da observação da língua na Medicina Tradicional Chinesa. A auriculoterapia é de fácil aplicação e boa aceitação pelos pacientes, bem como apresenta baixos custos na execução da técnica, por estes motivos se justifica no tratamento de diversas patologias, inclusive no tratamento da hérnia de disco lombar.

2.3 Hérnia de Disco Lombar: Aspectos clínicos e formas de tratamento

A hérnia de disco lombar é uma das causas mais frequentes das lombalgias e para se compreender melhor o mecanismo dessa patologia, bem como a atuação da acupuntura, nesse item serão abordados os aspectos clínicos e mecanismos da hérnia de disco lombar, bem como

o tratamento, tanto conservador, quanto cirúrgico para no item seguinte discorrer o porquê da

escolha da acupuntura auricular como parte do tratamento conservador. Antes de apresentar os aspectos clínicos e mecanismos da hérnia de disco, não se pode furtar à perspectiva da evolução do tratamento dessa patologia ao longo da história da humanidade que, segundo Wetler; Rocha Júnior; Barros (2004), o primeiro tratamento conservador da hérnia de disco, há mais de 400 a.C., foi preconizado por Hipócrates, sendo que, esse tratamento consistia em pendurar o paciente de cabeça para baixo, encostado numa escada, por um período de 40 dias. Tratava-se de uma tração por gravidade e nessa posição o paciente deveria realizar todas as suas necessidades diárias. Adentrando nos aspectos clínicos da hérnia de disco lombar, segundo Negrelli (2001), na faixa etária entre 30 e 50 anos de idade, é mais comum o aparecimento da hérnia de disco, em decorrência da degeneração do disco intervertebral, juntamente com as pressões de forma desigual, em virtude de desequilíbrios estruturais. Além disso, fatores de risco ambientais, tais como, hábitos de carregar peso, dirigir e fumar também têm sido sugeridos. A hérnia de disco ocorre, então devido a uma combinação de fatores biomecânicos, alterações degenerativas do disco e situações que levam a um aumento de pressão sobre o disco, podendo provocar quadros de lombalgia, lombociatalgia ou, mais raramente, síndrome da cauda equina. De acordo com Kapandji (2000), geralmente, a hérnia de disco aparece após um esforço de levantamento de uma carga com o corpo inclinado para frente e levando-se em consideração que o disco foi previamente deteriorado por microtraumas repetidos e se, as fibras do anel fibroso começarem a se degenerar, a hérnia de disco se produz em três tempos. No primeiro tempo a substância nuclear se projeta para trás através de rasgaduras preexistentes do anel fibroso. Portanto, nesse primeiro tempo, a flexão do tronco para frente diminui a altura dos discos na sua parte anterior e entreabre o espaço intervertebral para trás. Ainda sobre os tempos pelos quais se processam a hérnia de disco, Kapandji (2000) esclarece que, no segundo tempo, alcança-se a face profunda do ligamento longitudinal posterior, em decorrência do aumento da pressão axial que achata todo o disco intervertebral e desloca a substância do núcleo violentamente para trás. Já no terceiro tempo, ocorre uma dor intensa na região lombar, em virtude da retificação do tronco que nesse momento, já está praticamente terminada e a trajetória em ziguezague pelo qual o pedículo da hérnia de disco passou se fecha novamente sob pressão dos platôs vertebrais e a massa constituída pela hérnia fica presa debaixo do ligamento longitudinal posterior. Conforme Kapandji (2000), em geral, a hérnia de disco aparece na parte póstero-lateral do disco, no lugar onde o ligamento longitudinal posterior é menos espesso, sendo que, nessa região desloca-se progressivamente a raiz do nervo isquiático, até o momento que a parede

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posterior do forame intervertebral a detém, então, estando a raiz comprimida, manifesta-se o sofrimento com o aparecimento de dores nessa região, que, posteriormente pode causar também distúrbios dos reflexos, bem como distúrbios motores. Hennemann; Schumacher (1994) esclarecem que, a sintomatologia da hérnia de disco vai depender do nível e da compressão radicular que a hérnia produz e quando está localizada no segmento L4-L5, ela comprime a quinta raiz lombar e afeta a seguinte região: face póstero- lateral da coxa e do joelho, face lateral da panturrilha, face dorsal lateral da garganta do pé e face dorsal do pé até o hálux. Quando se localiza no segmento L5-S1, comprime a primeira raiz sacral, afetando então a seguinte região: face posterior da coxa, de joelho e da panturrilha, calcanhar e margem lateral do pé até o quinto dedo. Porém é importante lembrar que a hérnia de disco L4-L5 quando está mais próxima a linha média pode comprimir simultaneamente L5 e S1, ou ainda somente S1. Segundo Hennemann; Schumacher (1994), a dor varia com as mudanças de posição e suas manifestações clínicas, com ou sem irradiação para o metâmero correspondente, bem como o comprometimento de reflexo, a diminuição de força do membro afetado e as alterações de sensibilidade, são variáveis, modificando-se de caso para caso. A posição de decúbito lateral associada à flexão do quadril costuma aliviar a dor ciática de L5 e S1 e muitas são as variações existentes e elas são decorrentes da localização da hérnia em seus diferentes níveis. Fazendo referência à síndrome da cauda equina, Sizínio (2003) esclarece que, a mesma é uma manifestação de uma volumosa hérnia de disco que acaba comprimindo a cauda equina, se manifestando com dor súbita, aguda, com perda de força nos membros inferiores, perda do controle esfincteriano e anestesia em sela, tratando-se portanto, da única situação de urgência cirúrgica da hérnia de disco. No que se refere às formas de tratamento, tanto Hennemann; Schumacher, (1994), quanto Wetler; Rocha Júnior; Barros (2004),destacam que o tratamento conservador tem apresentado bons resultados em torno de 80% a 90% dos casos de lombociatalgia causados pela hérnia de disco lombar, tendo sido indicada também como primeira escolha, na grande maioria dos casos, devendo ser empregado por um período mínimo de pelo menos quatro a seis semanas. De acordo com Negrelli (2001), os principais objetivos do tratamento conservador são: o alívio da dor, o aumento da capacidade funcional e o retardamento da progressão da doença e caso o indivíduo obtenha pequena, mas progressiva melhora com o tratamento conservador, a intervenção cirúrgica deverá ser prorrogada. A indicação do tratamento cirúrgico deve ser realizada de maneira absoluta e de urgência nos quadros de síndrome da cauda equina. Outras indicações definitivas são os casos de dor insuportável e progressivo enfraquecimento muscular ou quando houve falha no tratamento conservador. Ainda sobre o tratamento cirúrgico, Negrelli (2001) continua esclarecendo que, em outros casos, a indicação é relativa e depende essencialmente: da qualidade e severidade dos sintomas; da duração dos sintomas; e da estenose do canal vertebral ou forame. A presença isolada de déficit motor ou sensorial não é indicação para a cirurgia, uma vez que as chances de recuperação são semelhantes, tanto com a utilização do tratamento conservador ou cirúrgico. Quanto ao repouso, embora o mesmo seja indicado, Negrelli, (2001) esclarece que, não há estudos conclusivos sobre seus benefícios, sendo indicado com mais segurança, a utilização de analgésicos, que provocam um alívio rápido da dor periférica e é capaz de prevenir a evolução para um estado crônico. Os relaxantes musculares também podem ser utilizados, e em casos, onde ocorrem um severo espasmo muscular para-vertebral. Conforme Sizínio (2003), em linhas gerais, o repouso é amplamente indicado nos casos agudos de hérnia de disco, de modo particular, nos dois primeiros dias, se estendendo o tempo suficiente para proporcionar a redução do processo inflamatório. Após esse período começa a

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ocorrer a perda de massa óssea e muscular e o retorno às atividades deve acontecer de forma gradual.

3. Discussão

3.1 Acupuntura Auricular no Tratamento da Hérnia de Disco Lombar

Na fase pós-aguda, na qual a dor já é mais suportável são indicadas diversas modalidades terapêuticas de tratamento, como a aplicação de gelo, aplicação de calor, acupuntura, tração e exercícios físicos. Nesse item irá se discorrer primeiramente sobre a utilização da acupuntura como forma de tratamento conservador da hérnia de disco lombar, para posteriormente abordar a utilização da acupuntura auricular no tratamento dessa patologia. Maciocia (1996b) afirma que a acupuntura tem-se mostrado muito eficiente no tratamento das lombalgias, especialmente nas lombalgias ocasionadas pela hérnia de disco, e tem sido indicada como parte do tratamento conservador desta patologia. Durante as últimas décadas, a acupuntura se popularizou mais e é parcialmente aceita em países ocidentais, principalmente como uma técnica de alívio da dor, aparecendo também um grande número de estudos divulgando os efeitos benéficos da acupuntura. Segundo Hopwood (2001), o que permitiu que a acupuntura fosse integrada a medicina convencional como um método para o alívio da dor, foram os seus mecanismos que podem ser descritos e explicados na esfera científica. Muitos mecanismos diferentes para o alívio da dor podem estar envolvidos e resultados semelhantes podem ser obtidos com outros tipos de estimulação mecânica, elétrica e térmica. Os estímulos excitam os receptores ou fibras nervosas no tecido estimulado. De acordo com Hopwood (2001), a utilização clínica da acupuntura como método de alívio da dor está baseada em um grande número de ensaios clínicos e não resta dúvida de que a acupuntura tem um efeito potente e confirmado no tratamento da dor músculo-esquelética, inclusive em casos de hérnia de disco lombar. Geralmente, é utilizada em clínica geral e em tratamentos de dor como um complemento da terapia convencional e além de aliviar a dor, também é utilizada na MTC para tratar diversas doenças. Conforme Hopwood (2001), a inserção da agulha de acupuntura deve provocar o mínimo de incômodo ao paciente, que deve estar em uma posição confortável durante a terapia. A profundidade da picada resulta da posição topográfica anatômica de ponto e da estimulação pretendida, devendo-se objetiva a sensação de Deqi. Em consonância com a MTC a estimulação por agulha deve produzir uma sensação especifica de agulha, Deqi ou atingir o Qi, que é percebida como um entorpecimento, peso e parestesia irradiante, uma sensação semelhante à dor muscular profunda quando os pontos musculares são estimulados, sendo um sinal da ativação das fibras nervosas. Segundo os critérios da MTC, ativam a circulação de Qi e Xue liberando estagnações, dispersam o calor e drenam a umidade. Para a MTC o fígado é o órgão que armazena o sangue, controla os tendões e ligamentos e a região intercostal, regula a energia através da ativação do Qi e Xue, fortalece a função digestiva, beneficia os olhos e as unhas e controla a raiva (NEVES, 2010). O ângulo de inserção da agulha vai variar de acordo com cada um dos pontos, sendo que, a direção da agulha é definida a partir da ação desejada em cada ponto. Quando há necessidade de tonificar o ponto, a agulha deve ser direcionada a favor do fluxo do meridiano, quando se deseja a sedação do ponto, a agulha deve se direcionar contra o fluxo e quando o objetivo é apenas estimular o ponto, buscando uma ação neutra, a agulha é colocada de acordo com a

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região do ponto, perpendicular ou inclinada, não se preocupando com o fluxo do meridiano (HOPWOOD, 2001). Como bem observa Hopwood (2001), a seleção dos pontos de acupuntura para o tratamento é ao mesmo tempo o aspecto mais fácil e mais difícil da técnica, uma vez que se podem atingir bons resultados mesmo fazendo uma seleção ruim dos pontos. A seleção básica de pontos é direta e não requer grande habilidade além de uma técnica segura de inserção de agulhas, sendo necessários um maior conhecimento e habilidade para selecionar os pontos de apoio pertinentes e identificar e tratar os desequilíbrios encontrados. Hopwood (2001) continua esclarecendo que, no caso de uma dor músculo-esquelética, advinda de uma hérnia de disco lombar, por exemplo, a seleção de pontos é mais simples, sendo que, a primeira escolha serão os pontos locais sobre os canais que passam sobre o ponto ou área dolorosa ou próxima a ela, devendo serem incluídos os pontos distais, que situam-se nas extremidades dos canais já identificados. Além da seleção básica, devem ser contemplados os pontos Ashi, que são os pontos dolorosos

a palpação. Os pontos Shu dorsais e Mo, por exemplo, são utilizados para o diagnóstico, pois

são pontos sensíveis a palpação quando há um desequilíbrio no órgão ou canal correspondente. Os pontos Shu antigos, ou pontos dos Cinco Elementos, ou pontos de transporte estão situados ao redor ao abaixo das articulações do joelho e cotovelo e são definidos em termos de Qi ou de fluxo de energia. São usados com muita frequência em distúrbios músculoesqueléticos dolorosos, onde a estagnação ou o bloqueio do fluxo de Qi dá origem a dor, podem ser usados também em problemas agudos ou crônicos ou sistêmicos (HOPWOOD, 2001). É importante ainda destacar que, raramente esses pontos se encontram sobre os meridianos e podem variar de tratamento para tratamento. Os pontos são selecionados de acordo com os sintomas específicos, sendo que a MTC define esses pontos e a eles atribuem funções específicas. As combinações de pontos são indicadas, sendo que muitos pontos quando usados individualmente não apresentam a mesma ação do que quando combinados com outros (HOPWOOD, 2001). Segundo Maciocia (1996b), o tratamento da hérnia de disco lombar pela acupuntura é baseado na distinção entre casos agudos e crônicos, ao invés de uma diferenciação dos padrões

energéticos. Nesse sentido, o aspecto mais importante para se obter o sucesso no tratamento é justamente a escolha adequada dos pontos locais e distais, por meio da manipulação adequada

e irradiação da sensação da aplicação. Entretanto, existem algumas visões que dependem da

diferenciação dos padrões, quando ocorre uma invasão de frio e umidade, as agulhas devem ser aplicadas no sentido de sedar os pontos nos casos agudos e de forma neutra nos casos cônicos. De acordo com Maciocia (1996b), quando a dor nas costas é causada pela estagnação de Qi e sangue, as agulhas devem ser aplicadas no sentido da sedação nos casos agudos e de forma neutra nos casos crônicos. Os casos agudos são decorrentes de umidade-frio ou de estagnação de Qi e sangue na região afetado. Para esses casos, considera-se que a seleção dos pontos distais é particularmente importante, e esses pontos vão depender da localização da dor e dentre os pontos distais indicam-se os pontos B-10, B-40, B-58, B-59, B-62 e ID-3. Depois de retiradas as agulhas dos pontos distais serão inseridas as agulhas nos pontos locais, devendo ser aplicados com método de sedação, e as agulhas sendo mantidas por aproximadamente 20 minutos. Conforme Maciocia (1996b), os quadros crônicos são sempre decorrentes da deficiência do Rim, que pode ser combinada com retenção de umidade-frio ou estagnação de Qi e sangue, ou com ambas. Os pontos distais são os mesmos indicados para os casos agudos, com o acréscimo dos pontos ID-3 combinado com o B-62 e também dos pontos B-60, R4, BP3, VG- 20 e C-7. É importante ainda selecionar outros pontos para tratar a condição básica do

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problema, recomendando-se tratar o baço-pâncreas para afetar os músculos das costas, o fígado para afetar os ligamentos e a cartilagem das vértebras e os rins para afetar os ossos. Os pontos locais para o quadro crônico também são selecionados de acordo com a sensibilidade à palpação, porém o ponto B-23 deve ser utilizado em todos os casos. Em um de seus estudos sobre o tratamento da hérnia de disco lombar Yamamura (1996) afirma que a remissão do quadro clínico com o tratamento pela acupuntura pode estar relacionado à redução do processo inflamatório. Nesse estudo avaliaram-se 22 pacientes com hérnia de disco lombar, que foram tratados com a acupuntura e tiveram um controle tomográfico. Em sua análise da situação pré e pós-tratamento obteve-se uma diferença significante em 100% dos casos em relação ao tamanho da hérnia de disco lombar. Em outro estudo, Yamamura et al. (1996) analisaram 41 pacientes com quadro clínico de lombalgia com dor irradiada para os membros inferiores e para esses pacientes foram acionados os seguintes pontos de acupuntura: VG-2, VG-4, VB-30, B-54, B-60, R-2, R-3, ID- 3 e o ponto extra Yintang. Para o tratamento específico do canal afeado foram adicionados os seguintes pontos: para o meridiano da vesícula biliar os pontos: TA-2, TA-3, VB-41 e VB-43; para o meridiano do estômago, os pontos: IG-2, IG-3, E-43 e E-44 e para o meridiano da bexiga, os pontos: ID-2, ID-3, B-65 e B-66. Para análise desses pacientes foram utilizados parâmetros subjetivos com a intensidade da dor, e parâmetros objetivos, como o teste de Lasègue, sendo evidenciada melhora significante em todos os parâmetros obtidos. Adentrando na utilização da acupuntura auricular no tratamento da hérnia de disco lombar, de acordo com Xinnong (1999), os pontos auriculares que correspondam às áreas doentes são selecionados para tratamento. Os pontos de área correspondente à coluna vertebral, membro inferior e membro superior têm como principal objetivo tratar a dor e combater a inflamação. Essas regiões representam estruturas musculoesqueléticas, que têm melhor estimulação no dorso auricular, região onde a inervação espinhal é mais abundante. Segundo Souza (2007) para o tratamento das afecções das vértebras lombares e cervicais, como a hérnia de disco lombar, há indicações terapêuticas da acupuntura auricular, em uma área situada na borda do anti-hélix e que se estende da área de vértebras torácicas até um ponto situado na altura do vértice da fossa triangular. O ponto da coluna cervical situa-se no terço inferior do anti-hélix, privilegiando os seguintes pontos: 45, 46 e 47, área situada no anti-hélix, a da junção do anti-hélix com anti-trago, com 3mm de tensão, correspondentes à localização das vértebras cervicais. A colocação das agulhas vai responder às vértebras a serem estimuladas. O primeiro milímetro corresponde às 1ª, 2ª e 3ª vértebras; o segundo, à 4ª e 5ª e o terceiro, à 6ª e 7ª vértebras. De acordo com Giaponesi; Leão (2009), a acupuntura auricular mostrou-se efetiva na redução da dor musculoesquelética independente do local, uma vez que não houve diferença significativa à comparação entre os locais de dor, todos obtiveram melhora da dor. Um outro estudo realizado em uma equipe de enfermagem, apresentou resultados semelhantes em que a acupuntura auricular reduziu sintomas de estresse e dores nas costas em 85% da amostra do estudo. De acordo com Coutinho (2012) a acupuntura auricular deve ser aplicada uma vez por semana, e se forem utilizadas sementes no tratamento, as mesmas devem ser fixadas com esparadrapo hipoalergênico, que permita a pele transpirar, sobre a superfície auricular e deverão permanecer durante 5 dias. O paciente deverá estimular os pontos de acupuntura, massageando-os 5 vezes ao dia, sendo que, no quinto dia, as sementes devem ser retiradas, deixando a superfície auricular descansar por pelo menos 48 horas, antes de se fazer uma nova aplicação. É importante ainda destacar que os pontos do pavilhão auricular devem ser cuidadosamente selecionados de acordo com os sintomas, queixas e laudos de exames complementares, para que o tratamento seja efetivo e

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propicie um rápido alívio da dor e restabelecimento da saúde do paciente com hérnia de disco lombar (COUTINHO, 2012).

4. Considerações Finais

A dor é o principal sintoma que leva uma pessoa com hérnia de disco lombar a buscar

tratamento que deve, estar voltado para a dor, bem como seus fatores incapacitantes. Os protocolos de tratamento devem fazer referência se a dor lombar decorrente dessa patologia é aguda ou crônica. Uma outra condição intermediária que merece referência é, se essa dor é recorrente, haja vista que, a prevenção da recorrência também vai fazer parte do tratamento. E dentre as novas terapêuticas de tratamento, encontra-se a acupuntura.

Para o tratamento da hérnia de disco lombar as opções que a acupuntura oferece são várias, no entanto, especificamente na acupuntura auricular, a literatura registra o ponto da coluna cervical situa-se no terço inferior do anti-hélix, privilegiando os seguintes pontos: 45, 46 e 47, área situada no anti-hélix, a da junção do anti-hélix com anti-trago, com 3mm de tensão, correspondentes à localização das vértebras cervicais. Essa pesquisa bibliográfica comprovou a hipótese que os estudos evidenciam que a acupuntura auricular vem sendo aplicada no tratamento da hérnia de disco lombar e tem obtido bons efeitos. O tratamento da hérnia de disco lombar pela acupuntura auricular apresenta resultados positivos, no entanto, a seleção de pontos, pode variar de profissional para profissional, demandando uma avaliação bem detalhada. Nesse sentido, a realização de mais estudos clínicos é necessária para uma compreensão completa dos efeitos e da utilização

da acupuntura auricular nos quadros de hérnia de disco lombar.

Na realidade, a literatura é escassa e existem poucos estudos comparando a eficácia entre os tratamentos conservadores e os tratamentos alternativos como a acupuntura, de modo particular, a acupuntura auricular. O que se percebeu na literatura consultada é que não existe uma uniformização nos estudos realizados, no que se refere ao diagnóstico, composição da amostra de pacientes, delineamento experimental e uniformização dos critérios que meçam os resultados.

A acupuntura em geral tem demonstrado excelentes resultados, principalmente no alívio das

dores do paciente com hérnia de disco lombar, no entanto, os especialistas advertem que,

juntamente com ela há necessidade de um trabalho de fortalecimento e alongamento muscular. Nesse sentido, recomenda-se que os pacientes pratiquem alguma atividade física regular, haja vista que, o quadro de hérnia de disco lombar, também está relacionado a desequilíbrios musculares que geram desalinhamento corporal.

A acupuntura, além do alívio da dor também promove um equilíbrio energético do corpo, e

partindo-se do pressuposto de que, se uma pessoa estiver com corpo, mente, e energia equilibrados, dificilmente será acometida por doenças. No entanto é sempre importante que procure um profissional capacitado em Acupuntura, para que não corra riscos de lesão e tenha pleno sucesso em seu tratamento. Como o profissional Especialista em Acupuntura atende às exigências para tal, o mesmo encontra-se habilitado para poder atender essas pessoas de forma segura e eficaz, já que a hérnia de disco lombar está se tornando cada vez mais frequente entre a população em geral. É necessário também que sejam realizados mais estudos em relação a acupuntura auricular e sua aplicação no tratamento de hérnia de disco lombar, para que cada vez mais pessoas e profissionais tenham informações e opções seguras para escolher e orientar seu tratamento. Embora os objetivos propostos tenham sido alcançados durante o estudo, faz-se mister salientar que o presente trabalho trata-se de uma pesquisa inicial, logo, os estudos devem ter continuidade e serem devidamente atualizados para um adequado aprofundamento do assunto.

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O trabalho não pretendeu inferir conclusões definitivas sobre o tema, pois se tem consciência

de que as questões pertinentes sobre de que forma a acupuntura auricular pode ser utilizada no tratamento da hérnia de disco lombar, são complexas, e que um trabalho não contempla o

assunto em todas as suas particularidades.

O tratamento que envolve técnicas e a aplicação da acupuntura, inclusive a auriculoterapia,

tem se revelado eficaz, pois visa o restabelecimento das estruturas musculares a partir do

equilíbrio energético. A aplicação das técnicas de acupuntura aumenta de forma considerável

o prognóstico na reabilitação do paciente, haja vista que, a acupuntura acelera o processo através do equilíbrio da energia corporal.

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