Você está na página 1de 186

COMENTÁRIOS AO CÓDIGO PROCESSO CIVIL

TOMO XVI
(Art. 1.103.1.210)

TÍTULO II

DOS PROCEDIMENTOS ESPECIAIS DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA

CAPÍTULO 1

Das disposições gerais

1)Jurisdição voluntária
2)Regras jurídicas gerais

Art. 1.103

1)Jurisdição voluntária e ações que se submetem às regras jurídicas gerais


2)Simplificação geral do procedimento

Arts. 1.104 e 1.10517

1)Legitimação ativa
2)Petição nas ações de jurisdição voluntária
3)citações
4)Atendimento e inatendimento pelos citados

Arts. 1.106, 1.107 e 1.108

1)Resposta dos citados


2)Prazo para responder
3)Provas
4)Fazenda Pública

Arts. 1.109, 1.110 e 1.111

1)Sentença e prazo
2)Referência à lei e à conveniência ou oportunidade
3)Recurso
4)Modificação da sentença
5)Custas e outras despesas

Art. 1.112

Ações a que se estende o procedimento


Suplemento de idade (“venia aetatls”
Menor e representação no processo de suplemento de Idade
Fundamento da suplementação de Idade
Provas
Impugnação
Audiência do menor
Processo Inquisitivo
Força eficacial e elemento mandamental da decisão
Recurso
Suplemento por lei e ação declaratória
Ação de sub-rogação
Competência judicial
Sub-rogação de bens inalienáveis
Bem sub-rogado e bem sub-rogante
Recurso
Petição
Sinistro e sub-rogação
Preço de indenização e sub-rogação
Cláusulas de restrição de poder
Desapropriação e sub-rogação
Sub-rogação sem ação
Sub-rogação e gravame
Juiz que desapropria ou indeniza e juiz que mandou gravar
Autorização para venda
Recurso
Bens de incapazes
Falta de autorização judicial
Pressuposto da autorização judicial
Impropriedade de linguagem
Diferença de textos
Permuta de bens de incapazes
~,Jurisdição voluntária ou jurisdição contenciosa’)
Avaliação
Natureza da sentença
Bens dotais
Bens dotais, venda e oneração
Procedimento edital
Sub-rogação real, em quaisquer casos
41 Coisa comum; ações quanto a ela
42)Natureza das ações
43)Alienação, locação e administração de coisa comum
44)IndivIsibilidade e inadequabilidade ao destino
45)Maioria absoluta, valor dos quinhões
46)Silêncio do condômino
47)Natureza da sentença
48)Se algum dos condôminos não se manifestou
49)Votações
50)Escolha do administrador
51)Natureza da sentença
52)Dúvida quanto ao valor dos quinhões ou de algum deles
53)Condôminos e estranhos, preferência
54)Coisa comum e alienação de quinhão
55)Pressuposto da pretensão a aquisição
56)Natureza da ação
57)Pressuposto subjetivo
58)Comunicação do que quer adquirir
59)Instrução sumária
60)Natureza da sentença
61). Depósito do preço
62) Recurso por algum dos competidores
63)Sentença de adjudicação
64)Ação do condômino, incidente
65)Conceito de usufruto
66)Conceito de fideicomisso
67)Fontes do usufruto
68)Fideicomisso oriundo de negôcio jurídico
69)Extinção de usufruto e de fideicomisso
70)Competência para a ação de extinção de usufruto e fideicomisso
71)Audiência do Ministério Público e da Fazenda Pública...
72)Avaliação
73)Cálculo de imposto
74)Partilha dos bens em usufruto ou fideicomitidos
75)Natureza das decisões
76)Desaparição da fiduciariedade
77)Exigência da judicialidade
78)Impostos

CAPITULO II

Das alienações judiciais

Li Alienações judiciais por lei ou necessidade objetiva


2)Ação de nulidade ou anulação de testamento e alienação judicial

Art. 1.113 e li 1.0, 2.0 e 3~O


Art. 1.114
1)Constrição judicial para alienação
2)Alienação judicial, noutras espécies que as previstas
3)Alienação de semoventes e outros bens de guarda dispendiosa
4Citação das partes
5)Decisão de oficio quanto à alienação judicial
6)Avaliação como pressuposto necessário
7)Acordo dos Interessados para que não se proceda aleilão
8)Perito nomeado ou não pelo juiz

Art. 1.115

1)Lanço igual ou superior ao valor estimado


2)Interessados e alienação sem ser em hasta pública
3Alvará

Art. 1.116 e parágrafo único


1)Sub-rogação real
2)Sentido de “ônus”
3íDemora no levantamento do depósito

Arts. 1.117, 1.118, 1.119 e parágrafo único

1)Exemplificatividade
2)Comunhão hereditária e alienação de imóvel
3)Alienação judicial da coisa comum
4)Bens pertencentes a incapazes
5Condomínio e direito de preferência
6Adjudicação antes da assinatura da carta
71Citações

CAPITULO III

Do desquite por mútuo consentimento

1)Desquite, conceito e pressuposto de existência do casamento


2)Ação e sentença de desquite e pedido de decretação de nulidade ou de anulação
3)Espécies de desquite

Árt. 1.120 e ii 1.0 e 2.0

Art. 1.121 e parágrafo unico


1)Pressupostos do desquite amigável
2)Petição de desquite amigável
3)Procuração
4)Certidão de casamento, ou prova que a valha
5)Contrato antenupcial
6)Descrição dos bens do casal e partilha
7)Acordo sobre a guarda dos filhos
8 Criação e educação dos filhos
9 Pensão alimentícia do marido à mulher
10)Ação de modificação
11 Exigência do reconhecimento da firma
12)Acordo sobre a partilha dos bens
13)Partilha em execução da sentença de desquite
14)Partilha Inclusa no acordo inicial

Art. 1.122 e ii 1.0 e 2~


1)Audiência dos cônjuges
21 Convicção suficiente do juiz
3)Prazos e datas
4 Autuação e distribuição
5)Função do Ministério Público
6)Desistência

Art. 1.123
1)Desquite litigioso e conversão
2)Convicção do juiz

Art. 1.124
1)Averbação após o julgamento
2)Cessação dos efeitos da sociedade conjugal
3)Retratação bilateral
4)Morte do cônjuge
5 Eficácia da sentença que homologa o desquite
6)Guarda dos filhos, criação e educação; natureza da decisão
7)Reconciliação dos cônjuges
8)Processo e sentença
9)Morte, antes do trânsito em julgado da sentença
10)Desquite litigioso pedido após o pedido de desquite amigável

CAPITULO IV

Dos testamentos e codicilos


1)Processualistica dos testamentos
2)Integração de forma e execução dos testamentos
3)Arquivamento dos testamentos
4)Cumpra-se dos testamentos
5)Testamentos notariais
6)Testamento público e testamento particular
7)Testamento e processo após a morte do testador
8)Testamento cerrado
9)Eficácia do testamento

Seção 1

Da abertura, do registro e do cumprimento

Art. 1.125 e parágrafo único


1)Abertura do testamento cerrado
2)Presença do apresentante e do escrivão
3)Solenidade da abertura do testamento
4)Questões de forma
5)Verificação do extrínseco

6)Auto de abertura
7 Requisitos do auto de abertura
8)Integração de forma do negócio jurídico
9 Competência judicial
10)Recurso

Art. 1.126 e parágrafo único


1)Formalidades extrínsecas e vícios externos
2)Registro dos testamentos
3)Exame das providências
4)Cópia que se envia à repartição fiscal
5) Natureza do cumpra-se
6)audiência do Ministério Público
7)Sentença favorável e sentença desfavorável
8)Emaçamento e guarda
9)Recurso

Art. 1.127 e parágrafo único


Li Testamenteiro
2)Testamenteiro nomeado em testamento e testamenteiro dativo
3)Testamenteiro oficial e testamenteiro dativo
4)Capacidade do testamenteiro
5)Não-impugnabilidade
6)Arquivamento
7)Cópia do testamento e outras providências

Art. 1.128 e parágrafo único


1) Testamento público, apresentação
2)Natureza do testamento público
3)Procedimento
4As duas fases processuais dos testamentos

Art. 1.129 e parágrafo único


1)Dever de apresentar testamento
2)Fontes do dever de apresentação
3Competência em matéria de testamentos
4Legitimação à apresentação
5)Cominações da lei e dever de apresentação
6)Detentor de testamento
7í Intimação judicial para apresentar o testamento
8)Natureza da intimação do detentor
9Ordem de exibição e busca e apreensão

Seção II

Da confirmação do testamento particular

Art. 1.130 e parágrafo único e art. 1.131 e parágrafo único


1)Apresentação no testamento particular
2Redação infeliz, no direito anterior
3)Apresentação e intimações
4)Legitimados ao requerimento
5, Inquirição de testemunhas
6)Intimações
7)Teor das Inquirições
8)Pessoas não-encontradas

Arts. 1.132 e 1.133

1)Manifestação dos Interessados após as formalidades


2)Impugnabilidade
3)Perfeito juízo
4)Testemunhas que faltam
5)Testemunha que não confirma; testador que ignorava a morte da testemunha
6“Voluntas testatoris”
7Confirmaçao imediata
8).“Comunicação” e “vocatio In lus”
9)Menos de três testemunhas
lO)Manifestação e prazo
11)Intimação e prazo
12)Rito ordinário, se há impugnação
13)Sentença de confirmação
14i Registro, arquivamento e cumprimento
15)Recurso

Seção III
Do testamento mUltar, marítimos nuncupativo e
do codicilo
Li Origens do testamento militar
2 Testamento marítimo
3)Quem pode testar por testamento maritimo
4)Testamento em viagem de avião
5Testamentos especiais e solenidades internas

Art. 1.134
1)Conteúdo das regras jurídicas
2)Testamento marítimo
3Testamento militar
4)Testamento nuncupativo
5)Codicilo
6)Procedimento de direito material

7)Natureza da sentença2298)Impugnação230

Seção IV

Da execução dos testamentos

1)Testamentaria
2)Tomada de contas
3)Prazo para cumprir o testamento e perda do prémio ....

Art. 1.135 e parágrafo único


1 Prazo legal para cumprir as disposições testamentárias
2)Contagem do prazo para se cumprir o testamento e se prestarem contas
3)Previsão de dois prazos
4)Prorrogação do prazo para cumprimento
5)Prazo marcado pelo testador
6)Interpretação de disposiçõe testamentárias
7 Prestação de contas, “lus cogens”
8)Indelegabilidade da testamentaria
9)Sobras

Art. 1.136
í)Inscrição de hipoteca legal
2)Tempo para a inscrição

Art. 1.137
í)Função do testamenteiro e deveres
2)Ações sobre existência, validade ou eficácia de testamento; missão do testamenteiro
3)Deveres do testamenteiro a respeito do testamento
4)Testamenteiro não representa herdeiros
5 Ações de invalidade do testamento
6)Insuficiência dos bens para cumprimento dos legados
7 Sucessão legitima e testamentária
8)Despesas no Interesse do testamento
9)Despesas ínfimas
10)Honorários de advogado
11)Defesa dos bens da herança

Art. 1.138 e H 1.0 e 2.0

1)Prêmio do testamenteiro
2)Pretensão à percentagem
3)Dados históricos sobre a vintena
4)~MáxImo e mínimo~
5)Como se calcula a percentagem
6)Cônjuge do testador e prêmio
7)Preferência pelo prêmio, por parte do testamenteiro, herdeiro ou legatário
8)Herança liquida

Art. 1.139
1 Adjudicação de bens e prêmio do testamenteiro
2)Direito anterior e cônjuge meeiro
3)Herdeiro e adjudicação

Art. 1.140
1)Remoção do testamenteiro
2)Despesas
3)Descumprimento das disposições testamentárias
4)Reversão do prêmio à herança
5)Perda do direito ao prêmio
6)Conteúdo das regras jurídicas

Art. 1.141
1)Testamenteiro que quer demitir-se
2)Decisão do juiz

CAPiTULO V

Da herança jacente
1)Herança jacente
2)Bens de ausentes
3)Bens vagos
4)Cumulação objetiva sucessiva de ações

Art. 1.142

Ãrt. 1.143
1)Remissão à lei civil
2)Posse, na regra jurídica sobre sucessão hereditária
3)Tentativas de explicações
4)Posse no sentido próprio e posse dos herdeiros
5)Objeto da posse
6) Transmissão da posse
7)Arrecadação e provocação da arrecadação
8)Curadoria de bens jacentes
9)Até quando vai a função cautelar
10)Recurso
11)Falta, pelo menos só aparente, de herdeiros
12)Decujo que não deixou cônjuge nem herdeiro
13)Competência para a arrecadação e citações
14)Ausência e falta do testamenteiro
15)Dever de comunicação e oficial do registro civil
Art. 1.144 .e parágrafo unico
1)Função do curador
2)Representação da herança
3)Guarda, conservação dos bens arrecadados e promoção de novas arrecadações
4)Medidas conservatórias dos direitos da herança
5)Balancetes mensais
6)Prestação de contas
7)Bens arrecadados

Art. 1.145 e H 1.0 e 2.0


1)Presença do juiz e auto de arrecadação
2)Depositário
3)Ministério Público e Fazenda Pública

Arts. 1.146 e 1.147


1)Tempo da arrecadação
2)Selos apostos pelo juiz
3)Violações e suspeitas de violação
4 Inquisitividade do processo
5)Exame pelo juiz
6)Bens declarados vacantes

Ârt. 1.148 e parágrafo unico


1)Dispensa da presença do juiz
2)Testemunha e possível necessidades de aposição de selos
3)Multas

Art. 1.149
1)Bens noutra comarca
2)Carta precatória ou carta rogatória

Art. 1.150
1) Inquirição e busca de informes
2) Informações
3) Bens alhures
4) Decujo comerciante

Art. 1.151

1) Causas de pré-exclusão ou suspensão da arrecadação


2) Existência de procurador

Art. 1.152 e §§ 1.0 e 2.0

1) Procedimento edital e habilitação de herdeiros


2)Existência de sucessor ou testamenteiro
3)Falecido estrangeiro

Ârt. 1.153

1)Fase posterior ao julgamento da habilitação deherdeiros


2)Testamenteiro que aparece
3)Cônjuge que se identifica

Art. 1.154

1)Regra de competência para a habilitação dos credores


2)Habilitação e outras ações
3)Verificação de créditos
4)Embargos de terceiro

Art. 1.155 e parágrafo único

1)Alienação de bens da herança jacente


2)Pressupostos para a venda de bens móveis
3)Pressupostos para a venda de semoventes
4)Pressupostos para a venda de títulos de crédito e papéis de crédito
5) Pressupostos para a venda de ações de sociedade
6)Venda de bens imóveis
7)Fazenda Pública e habilitando

Art. 1.156
1)Bens com valor de afeição
2)Vacância da herança
Art. 1.157 e parágrafo único
Art. 1.158
1)Prazo e falta de qualquer habilitação
2)Sentença que proclama a vacância dos bens
3)Processos incidentais e habilitação de herdeiros
4)Ação de petição de herança e ação dos credores
5)Natureza da ação de arrecadação
6)Ação de cognição incompleta e ação de petição de herança
7)Credores e titulares de direitos reais
8)Vacância e herdeiros
9)Entrega de bens aos herdeiros habilitados

CAPITULO VI

Dos bens dos ausentes


1)Conceito de ausência
2)Ações relativas à ausência, natureza
4rts. 1.159 e 1.160
1)Desaparecimento de alguém
2)Pressupostos da arrecadação
3)Procedimento arrecadativo
4)Procurador que não quer ou não pode exercer a procura
5)Provocação
6)Curador do ausente
7)Autoridades policiais e dever de comunicação ao juiz ....
8)Alienação de bens arrecadados

Art. 1.161
1)Procedimento
2)Citação

Art. 1.162
1)Cessação da curadoria
2)Comparência do ausente
3)Morte do ausente
4)Sucessão provisória
5)Recurso

Art. 1.163 e §§ 1.0 e 2.0


1)Sucessão provisória
2)Requerimento da sucessão provisória
3)Contagem do prazo
4)Citação edital
5)Procedimento edital
6)Deferimento e indeferimento de pedido
7)Interessados na abertura da sucessão provisória
8)Órgão do Ministério Público

Ârt. 1.164 e parágrafo único


1)Requerimento da abertura da sucessão provisória
2)Habilitação dos herdeiros e demais sucessores
3 Habilitação de herdeiros
4)Legitimação processual e legitimação para suceder

Art. 1.165 e parágrafo único


1)Natureza da sentença que abre a sucessão provisória
2)Trânsito em julgado, formalmente
3)Herança que se fez jacente

Art. 1.166
1)Entrega dos bens sob caução
2)Caução
Art. 1.167
1)Conversão da sucessão provisória
2)Morte do ausente
3)Certeza da morte do ausente
4)Decêndio após a coisa julgada
5)Ausente com a idade de oitenta anos ou mais
6)Ação de petição de herança e ação do ausente que aparece

Arte. 1.168 e 1.169 e parágrafo único


1)Diferença entre a cessação da sucessão provisória com aparição do ausente, e a aparição do ausente depois de
se ter transformado em definitiva a sucessão
2)Ausente que aparece depois de julgado morto ou tido como morto
3)Pedido do ausente que tardiamente aparece
4)Pedido dos ascendentes ou descendentes
5)Citações e contestações
6)Rito processual

CAPITULO VII

Das coisas vagas

1)Coisas ditas vagas


Art. 1.170 e parágrafo único
1)Bens arrecadáveis
2)Dever de entrega à autoridade judiciária ou policial
3)Declarações do achador
4)Pessoa a que pertencem as coisas
5)Autoridade judiciária competente

Arts. 1.171 e LI 1.0 e 2.0. 1.172 e 1.173


1)Lei processual e lei de direito material
2)Conteúdo dos editais
3)Coisa de pequeno valor
4)Comparência do dono ou possuidor
5 Não-comparência do dono ou possuidor
6)Comunicação de derrelicção

Art. 1.174
1)Dono que prefere abandonar a coisa
2)Seguro
Art. 1.175
1)Hotéis, oficinas e outros estabelecimentos
2)Reclamação dentro de um mes

Art. 1.176
1)“Fundada suspeita” e conversão do processo
2)Dúvida sobre a propriedade ou a posse
CAPITULO VIII

Da curatela dos laterditos

1 Processo de interdição e sentença


2)Inquisitividade do processo
3)Contenciosidade e voluntariedade da jurisdição

Ârt. 1.177
1)Pedido de interdição e processo de interdição
2)Promoção da interdição, legitimação ativa
3)Procedimento para interdição
4)Interditando e curador à lide
Ãrt. 1.178
u promoção pelo órgão do Ministério Público
2)Ausência e falta de promoção
Ârt. 1.179
i)Nomeação de curador à lide
2)Curador à lide e função
Arte. 1.180, 1.181, 1.182 e LI 1.0, 2.0 e 3•0
U Petição inicial
2)Citação do interditando
3 Impugnação do pedido de interdição
4)Representação do interditando
5)Advogado do interditando
6)Parente e advogado
Art. 1.183 e parágrafo único
1)Perícia médico-legal
2)Morte do interditando
3)Juízo, instrução do processo e julgamento
P Juiz e laudo
5)Decretação de interdição e nomeação do curador
6)Exame pessoal pelo juiz
7)Competência judicial

Art. 1.184
1)Correção à impropriedade de linguagem
2)Eficácia da sentença de interdição
3)Recurso que se interpõe da sentença de Interdição
4)Ministério Público e legitimação recursal
5)Registro e publicação da sentença, exigências contenutisticas

Art. 1.185
1)Interdição de pródigo
2)Pródigo, parte na ação
3)Regras jurídicas comuns sobre a interdição
4)Curatela
5)Levantamento da interdição do pródigo
6)Audiência do curador e do Ministério Público
7)Sentença de levantamento da interdição
8)Exame médico-legal do pródigo
9)Eficácia da sentença de levantamento da Interdição
10)Surdos-mudos, interdição
11)Levantamento da interdição do surdo-mudo
12)Entorpecentes e viciados
13)Legitimação ativa para a interdição
14)Atenuação ao principio Inquisitivo
15)Interrogação e informações
16)Incapacidade dos viciados

Art. 1.186 e LI 1.0 e 20


1)Levantamento da interdição
2)Legitimação ativa do interditando e do Ministério Público
3)Regra geral sobre legitimação ativa
4)Particularidade da ação de levantamento
5)Eficácia de coisa julgada formal
6)Regra jurídica de competência por conexão
7)Recaida após o levantamento da interdição
8)Coisa julgada formal e sentença de levantamento

CAPíTULO IX

Das disposições comuns à tutela • à curatela

Seção 1

Da nomeação do tutor ou curador

1)Tutoria e espécies
2)Curadorias e espécies
3)Natureza da nomeação do tutor ou do curador
4)Remoção de tutor ou de curador

Art. 1.187
1)Direito material
2)Natureza e eficácia do ato judicial de nomeação
3)Quando tem de ser feita a nomeação
4)Tutor ou curador testamentário
5)Compromisso e intimação
6)Nomeação e qualidade da nomeação
7Prestação de contas
Art. 1.188 e parágrafo único
Art. 1.189
1)Compromisso do tutor ou do curador
2)Pais, nomeados curadores
3)Órgão do Ministério Público
4Lapso de tempo entre o compromisso e o julgamento da especialização

Arts. 1.190 e 1.191


1)Tutor ou curador de reconhecida Idoneidade
2Tutor ou curador que não pode prestar a garantia
3)Nomeação que fica sem efeito
Art. 1.192 e parágrafo único
1)Recusa da tutela ou da curatela
2)Direito material
3 Prazo de cinco dias
4)Escusa e incapacidade
5)Preclusão

Art. 1.193
1)Decisão sobre o pedido de escusa
2)Novo motivo

Seção II

Da remoção e dispensa de tutor ou curador

1) Remoção
2)Suspensão

Arts. 1.194, 1.195, 1.196 e 1.197

Remoção e suspensão
Direito material
Legitimação ativa e remoção de tutor ou curador
Contestação
Se não houve contestação
Extrema gravidade e suspensão
Eficácia da suspensão ....
Continuidade da função
Art. 1.198
1)Prazo e falta de prazo
2)Termo e recondução

CAPíTULO X

Da organização e da fiscalização das fundações

1)Fundação
2)Estrutura jurídica da fundação
3)Fiscalização das fundações
4)das fundações

Arts. 1.199, 1.200, 1201 e Li 1.0 e2.0

1)Estatuto da fundação
2)Legitimação ativa
3)Aprovação dos estatutos
4)Missão do órgão do Ministério Público
5)Autuação do pedido
6)Suprimento judicial
7)Modificação ou modificações ordenadas pelo juiz

Art. 1.202
1)Apresentação do estatuto pelo Ministério Público
2)Procedimento para a função do órgão do Ministério Público
3)Aprovação ou desaprovação pelo juiz
4)Elaboração judicial ou extrajudicial do estatuto
5)Apresentação

Art. 1.203 e parágrafo único

1)Alteração do estatuto
2)Supimento da aprovação
3)Deliberação da alteração

Art. 1.204
1)Ilicitude, impossibilidade da manutenção e expiração do prazo de existência
2)Impossibilidade da manutenção
3)Prazo atingido
4)Procuração
5)Juízo competente

CAPITULO XI

Da especIalIzação da hipoteca legal

1)Hipotecas legais e especialização


2)Ações exercidas pelos titulares da pretensão
Art. 1.205

1)Legitimação processual ativa


2)Documento em que se funda a especialização
3)Recurso

Art. 1.206 e LI 1.0, 2.0 e 3•0


1)Arbitramento
2)Valor preestabelecido da responsabilidade
3)Atos de constrição judicial
4)Regra juridica de cômputo
5)Falta de arbitramento e nulidade processual
6)Dispensa de arbitramento do valor
7)Dispensa da avaliação

Art. 1.207 e parágrafo único

Art. 1208

Art. 1.209

1)Citação da outra parte


2)Audiência dos interessados
3)Alegações do impugnante
4)Individuação do imóvel
5) Sentença
6)Natureza da ação e da sentença
7)Margem ao procedimento inquisitivo
8)Insuficiência dos bens para a hipoteca legal
9)Hipoteca legal dos bens oferecidos - insuftcient2s
10)Instrumento da especialização
11)Recurso

Art. 1.210
1)Especialização negocial
2)Eficácia contra terceiros

SISTEMÁTICA DO LIVRO IV TITULO II

(Jurisdição vo1untaria)

1.Alienações judiciais
II.Desquite por mútuo consentimento
III.Ações relativas a testamentos
IV.Ações relativas à herança jacente
A)Ação de arrecadação da herança jacente
B)Ações de habilitações de herdeiros nos casos de herança jacente
C)Embargos de terceiro na ação de arrecadação

V.Ações relativas à arrecadação de bens de ausentes ...


VI.Ação de arrecadação de bens vagos
VII.Ações de Interdição
VIII.Ações para nomeação e remoção de tutores e de curadores
IX.Ações de organização e fiscalização de fundação
X.Especialização da hipoteca legal

TITULO II

DOS PROCEDIMENTOS ESPECIAIS DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA

CAPITULO 1

DAS DISPOSIÇÕES GERAIS í)~2)

1)JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA. A jurisdição voluntária tem a sua disciplina mais ou menos homogênea, na
qual passa à frente o elemento da vontade, de modo que o conteúdo do ato inicial mais depende do sujeito da
relação jurídica do que da atitude, positiva ou negativa, de outrem. O autor da ação de jurisdição voluntária
exerce a pretensão sem ter de enfrentar a contenciosidade, a luta. O Estado prometeu a tutela jurídica, tanto na
jurisdição contenciosa quanto na jurisdição voluntária, porém não supõe na jurisdição voluntária, a
angularidade. No desquite amigável, por exemplo, há duas pessoas interessadas, mas a mesmidade do interesse
afasta a angularidade da relação jurídica processual. Nas alienações judiciais, o juiz autoriza o ato, mas antes tem
de ouvir as outras partes, sem que tal audiência angularize a relação jurídica processuaL Na ação de desquite
amigável, há o acordo, que homogeniza. Nas alienações judiciais também a decisão favorável independe de se
ferirem as pessoas ouvidas: o autor da ação apenas exerceu a sua pretensão à tutela juridica, independentemente
do que possa requerer outro interessado, se o •seu direito passa a frente (e. g., o condômino , que tinha direito à
preferência, que é ser primeiro), requer a adjudicação. Cada um está a exercer os seus direitos, voluntariamente e
sem litígio. Quem pede o cumpra-se p.ara um testamento, ou pede a abertura e o cumpra-se, exerce pretensão à
tutela jurídica em jurisdição voluntária. As vezes, é o próprio juiz que dá início à jurisdição voluntária, tal como
ocorre com a herança jacente, a arrecadação de bens de ausentes. O achador de alguma coisa perdida exerce a
pretensão à tutela jurídica em jurisdição voluntária: entrega-a à autoridade judiciária ou policial, que a arrecada,
a descreve e diz quem lha levou. Quem pede a nomeação de tutor ou curador, voluntariamente o faz, e o Estado
atende ao pedido, sem que surja contenciosidade. Pense-se também na organização e na fiscalização das
fundações e na especialização da hipoteca legal. O conteúdo e o objeto põem ao vivo que não se angulariza a
relação juridica processual, posto que, por exemplo, se permita ao interditando constituir advogado, impugnar o
pedido de interdição (portanto, recorrer) e pedir o levantamento da interdição. A função do juiz cresce, porque há
interesse público nos atos que se vão praticar. Daí o elemento de autorização que há sempre na sentença
favorável. Tal interesse cresce, ou parece crescer mais, se concerne a atos registrários.
A expressão “jurisdição voluntária” refere-se à jurisdição e à voluntariedade. O que se quis exprimir foi a
existência da tutela jurídica para a constituição de negócios jurídicos, ou para a eficácia de negócios jurídicos,
criativa, modificativa ou extintiva de relações jurídicas. O Estado ou subordinou a eficácia ao exercício da
pretensão à tutela jurídica, ou o fez um dos meios constitutivos, modificativos ou extintivos. Muito se estranhava
a falta de jurisdição administrativa, mas o que se levou em consideração foi o evitamento de lides ou danos. Não
se deve dizer que a função do Estado, aí, é administrativa, porque também se dilataria o conceito de
administração. Há funções administrativas do Poder Judiciário, como as há do Poder Legislativo, e não só do
Poder Executivo; mas seria absurdo incluir-se nas funções administrativas do Poder Judiciário a chamada
jurisdição voluntária,porque, nela, as funções são puramente judiciárias (sem razão, por exemplo, RENÉ
MOREL, Traité élémentazre de Procedure Givile, 116). A função estatal é exercida pelo Poder Judiciário, sem
administratividade. A tutela jurídica, que se prometeu, é puramente judicial, posto que, às mais das vezes, o juiz
apenas homologue.
Nas ações de jurisdição voluntária passa-se o mesmo, no que concerne à função judiciária, que nas ações de
jurisdição contenciosa: as pessoas que vão a juízo exercerem a. pretensão à tutela jurídica e põem o Estado,
através do juiz, na posição de quem prometeu e tem de prestar. Podia e pode ter deixado alguns atos e efeitos de
relações jurídicas a autoridades administrativas, porém não o fez, e acertadamente abstraiu da contenciosidade
para o que se pediu ao Estado, ao juiz, a prestação que prometera. Seria absurdo que se deixasse à autoridade
administrativa o suprimento de consentimento ou de assentimento, o suplemento de idade e tantas outras ações.
A confusão do poder e do dever administrativo com o poder e o dever judiciário levaria a graves erros. Na
jurisdição voluntária há jurisdição: o juiz aplica a regra jurídica, como juiz, que é, e não deixa de ser. O Estado
representou-o e fé-lo o órgão adequado (cf., no começo do século R. THOMA, Der PoUzeibefehi im badischen
Recht, 29 s., 34 5.).
A função do juiz pode ser de dar cumpra-se a testamentos, ou abri-los e dar-lhes cumpra-se, suprimento de
outorga, suplemento de idade, etc.

2)REGRAS JURÍDICAS GERAIS. A despeito de o Título II ser sobre os procedimentos especiais de jurisdição
voluntária,o art. 1.103 estatui, de início, que, onde o Código não estabelece procedimento especial, o Capitulo 1
(arts. 1.103-1.112)é que rege a jurisdição voluntária. Muito se discutiu se era possível ter-se um só rito para os
processos de jurisdição voluntária, e não se chegava a apontar o que seria, de fure condendo, aconselhável. O
Código de 1973 cogitou das espécies que tinham de ser expressamente regidas e entendeu, para o caso de não
caberem nos Capítulos II a XI, dizer como se processariam as ações.
Qualquer que seja a espÉcie de processo de jurisdição voluntária, há a pretensão à tutela jurídica, há o direito, a
pretensão e a ação de direito material e há a “ação” (remédio jurídico processual). Daí não se poder dizer, como
fez J3sÉ CARLOS BARBOCA MCREIRA (Comentários ao Código de Processo Civil, Tomo V, 104, nota 204),
que “o poder de recorrer existe inclusive nos procedimentos de “jurisdição voluntária”, em ‘que não há ação”.
Há, sim, a ação (no sentido de direito material) e a “ação” (no sentido de direito processual), que foi assunto de
todo o Titulo II do Livro IV (arts. 1.103-1.210). A ação de suplemento de idade, à ação de sub-rogação, à de
alienação, arrendamento ou oneração de bens dotais, de bens de menores, de órfãos e de interditos, à de
alienação~ locação e administração de coisa comum, à de extinção de usufruto ou de fideicomisso, que são ações
de direito material, correspondem as ações de direito processual (remédios jurídicos processuais), que o Código
de Processo Civil regula. Idem, à ação de desquite por mútuo consentimento, à de testamentos e codicilos, à de
herança jacente, à de bens de ausentes, ad e coisas vagas, à de curatela de interditos, à de tutela e à de curatela, à
de organização e fiscalização de fundações, à de especialização de hipoteca legal.
A relação jurídica processual estabelece-se com o pedido, e citam-se todos os interessados, o que às vezes dá
ensejo à angularização da relação jurídica processual (autor, Estado; Estado, interessado).
Na ação de desquite por mútuo consentimento, duas são as pessoas que exercem, juntas, a pretensão à tutela
jurídica, de modo que há a simultaneidade, em vez de se ter de fazer a citação para que se angularize a relação
jurídica.
Os escritores que atribuem caráter administrativo à jurisdição voluntária deformam o conceito de jurisdição e
tentam reduzi-lo ad de jurisdição contenciosa. Só haveria prestação da tutela jurídica pelos juizes se a ação fosse
em torno de controvérsia. No direito processual civil, haveria algo de outro poder, a despeito de ser o juiz quem
vai prestar a tutela jurídica, que o Estado, com o monopólio da justiça, chamou a si. Muitas situações são criadas
para uma pessoa, ou algumas pessoas, em que se precisa da aplicação da lei, sem ser necessário que haja
discrepância entre os interessados. Sem se ter de encontrar autor e réu, que se apresentem em litígio, o Estado
precisa satisfazer o que prometeu: não pode reduzir a sua promessa a situações de contenciosídade . Não há só
jurisdição e administração; há administração e há jurisdição contenciosa e jurisdição voluntária. Algo que lançou,
no fim do século passado, ALBE2RT HANEL (Deutsches Staatsrecht, 1, 109).
Quando se diz que não se deve falar de partes se o processo é de jurisdição voluntária, está-se a raspar referência
à ação se voluntária a jurisdição. Não haveria ação se a ação é de emancipação (suplemento de idade)~ ou de
sub-rogação, ou de alienação, arrendamento ou oneração de bens dotais, de menores, de órfãos e de interditos, ou
de alienação, locação e administração da coisa comum, de alienação de quinhão em coisa comum, ou de extinção
de usufruto e de fideicomisso (art. 1.112). Nem em ações de alienações judiciais, ou de desquite por mútuo
consentimento, de abertura, registro e cumprimento de testamento cerrado, ou de conf irmação de testamento
particular, ou marítimo, militar, ou nuncupativo, ou de codicilo, ou de arrecadação de herança jacente, ou de tens
de ausentes ou de coisas vagas, dê tutela e de curatela, ou de organização ou de fiscalização de fundações e a de
especialização da hipoteca legal.
Em algumas espécies, o julgamento tem como conteúdo conferir status, como se dá com o suplemento de idade;
cr~i muitas, a nomeação, como acontece com a tutela, a curatela e administração judicial; em outras,
homologação. C juiz por vezes atua com a sua volição, que provê (provimento) e r.ao negocia. Daí a profunda
diferença entre o negócio jurídico no plano do direito material, e os provimentos, na atividade da jurisdição
voluntária (ELIO FAZZALARI, La Ciu~isd1rÁcne volontaria, 59).
Nas ações de jurisdição voluntária, há, por vezes, interessados, que participam da fase cogncscitiva, sem que
sejam réus. O co-interesse passa à frente, com paridade simétrica, o que não ocorre na jurisdição contenciosa. Há
participações, há partes, que atuam, sem serem autores e réus. Quando A, B, C e D pedem a alienação da coisa
comum, ou do quinhão em coisa comum, não são autores e réus, são partes (autores), o que, em vez da posição
de confrontação, leva a ações em que só há um só autor, ou há dois ou mais, todos portanto partes do mesmo
lado, sem que haja parte ou partes do outro lado.
Parte é quem está sujeito à eficácia sentencial na ação. A ação, por exemplo, é de A contra B, ou de A e C contra
B, ou de A contra E e D, ou de A e C contra E e D. O que importa é o que vai ser julgado e atinge a pessoa ou as
pessoas. Se na ação de A contra B vai afirmar~se ou negar-se o direito de A e ~, A é terceiro se alguma
providência atingiria o direito de A a c, ou B é terceiro se o direito de B a d seria atingido. O fato de ser A ou B
parte numa ação não afasta a possibilidade de serem tidos ou admitidos como terceiros. Sempre que se diz que
não pode ser terceiro quem não é parte erra-se . Pode A embargar como terceiro em ação entre ele e outra pessoa
se alguma medida judicial se estende ou desde logo atinge algum direito seu que nada tem com a lide. O que se
exige é que a ofensa não seja objeto da causa, razão por que se abstrai de quem seja o autor ou réu da ação e até
mesmo do objeto (a ação é de dívida hipotecária e se começa por penhora de outros bens). Daí não ter sido feliz o
art. 1.046 quando diz que pode opor embargos de terceiro Quem “não sendo parte no processo” sofre turbação
ou esbulho.
Na ação entre A e E pode ocorrer que se constrinja bem de B e tal bem nada tenha com a lide entre os dois, como
se A comprara de B o bem b e a medida constritiva que se deveria restringir a b apanhou o bem c, que é de E e
nada tinha com a relação jurídica entre A e E.
Dizer-se que não há partes nas ações de jurisdição voluntária é evidente absurdo. A relação jurídica processual é
entre autor ou autores e Estado. Pode haver e pode não haver angularização (autor-Estado, Estado-réu). A
citação, nas ações de jurisdição contenciosa, angulariza a relação jurídica processual. Nas ações de jurisdição
voluntária, não. Mesmo se a ação de jurisdição voluntária ocorre quando já há ações de jurisdição contenciosa,
como acontece quando alguma das partes da ação de jurisdição contenciosa pede alienação judicial de algum
bem ou de alguns bens depositados judicialmente (art. 1.113), a audiência da outra parte não a faz réu (ela é
comparte, entra na nova relação jurídica processual como interessado que se litisconsorcia). Na ação de desquite,
por mútuo consentimento (art. 1.120), ambos os cônjuges pedem a homologação. Se estava correndo desquite
litigioso e os cônjuges requerem a conversão em desquite amigavel (art. 1.123), a angularização apaga-se,
porque, em vez de A contra B, passa a haver A e B, autores; portanto, autores-Estado (juiz). Não há mais réu. A
respeito dos testamentos e codicilos, o requerimento é feito por interessado (arts. 1.125--1.134). Não há réus. Na
espécie de herança jacente (artigos 1.142-1.158), O juiz é que toma a iniciativa e, se alguém aparece que reclame
os bens, a pessoa legitimada não se faz parte: ou não se faz a arrecadação, ou se suspende (art. 1.151). No caso de
bens de ausentes, não há a prese~iça do titular, nem de representante, e o juiz, de oficio, manda arrecadar e
nomeia curador (arts. 1.159-1.169). Pode ocorrer a sucessao provisória. Se o ausente regressa, há a citação dos
sucessores provisórios ou definitivos, do órgão do Ministério Público e do representante da Fazenda Pública.
Mas tal citação é um passo para se sair da jurisdição voluntária e se entrar na jurisdição contenciosa (inventário e
partilha, arts. 982-1.045). Se se trata de achada de coisa alheia perdida, quem a achou a entrega à autoridade
judiciária (aris. 1.170-1.176), e a atividade é do juiz. Quem entregou a coisa, exerceu a pretensão à tutela
jurídica, mesmo se a autoridade que recebeu foi policial. Vai ao juiz competente. O achador assinou o auto em
que houve a descrição do bem e as suas declarações (art. 1.170). Na curatela de interditos, há, antes, a interdição
e depois a nomeação. Autor da ação de interdição é o pai, a mãe , ou o tutor da pessoa interditanda, ou o cônjuge
ou algum parente próximo, ou o orgão do Ministério Público (arts. 1.177-1.186). Há a citação do interditando,
que pode impugnar o pedido, mas ele é representado pelo órgão do Ministério Público, ou, se esse foi o
requerente, o curador à lide, e pode mesmo constituir advogado. O juiz decreta a interdição, ou não a decreta.
Dir-se-á que houve o autor da ação e o réu, que seria o interditando. Não houve réu. Se foi interditada a pessoa,
em benefício dela foi que se proferiu a sentença. Se a sentença negou a incapacidade, nada feito. O interditando
tinha de ser ouvido, como o pedido de levantamento pode ser feita pelo interditado (art. 1.186). Antes, como
interditando, foi citado, agora, como interditado, pede que se cesse a interdição. Quanto à nomeação de tutor ou
de curador, o juiz é que atua, de oficio (arts. 1.187-1.193). No tocante à remoção ou dispensa, quem é autor da
ação é o órgão do Ministério Público, ou quem é legitimamente interessado, conforme a lei, e há a citação do
tutor ou curador para contestar (art. 1.195). Aí, há algo de contenciosidade, mas a lei acha conveniente inserir a
ação de remoção do tutor ou curador no Capitulo IX (Das disposições comuns à tutela e à curatela). No que
concerne à organização e à fiscalização das fundações, autor é o instituidor, ou algum interessado, que submete o
estatuto ao exame pelo órgão do Ministério Público, que ou o aprova, ou não o aprova, ou indica modificações.
Se não o aprovou, o interessado em petição motivada requer o suprimento da aprovação. A aprovação pelo órgão
do MiniStério Público seria ato administrativo, e não judicial. Apenas teria acolhido o estatuto que o instituidor
elaborou ou foi feito por pessoa que o instituidor designou. Portanto, se isso não ocorreu, ele, órgão do
Ministério Público, é que tem de elaborá-lo e submetê-lo à aprovação do juiz (art. 1.202). A relação jurídica
processual é entre o interessado em que o juiz supra a aprovaçaO (art. 1.201, § 1.~) e o juiz (Estado), ou então o
Ministério Público e o juiz (Estado). Não há réu. Só há autor da ação de suprimento da aprovação, ou da ação de
aprovação (artigo 1.202). Qualquer interessado ou o órgão do Ministério Público pode promover a extinção da
fundação (art. 1.204), e aí há a ação de extinção, ouvido sempre o Ministério Público, se não foi o autor. Se
cogitamos da hipoteca legal, a homologação é pedida, mas sobre o laudo se manifestam os interessados (art.
1.207). Nas ações de suplemento de idade, de sub-rogação e outras, há a provocação pelo interessado e a citação
de todos os interessados, bem como o Ministério Público (art. 1.105). Para se pôr em relevo a especificidade da
jurisdição voluntária, basta que se atenda a uma das regras jurídicas gerais: os interessados podem produzir as
provas destinadas a demonstrar as suas alegações, mas ao juiz e lícito investigar livremente os fatos e ordenar, de
ofício, a realização de quaisquer provas (art. 1.107) e pode adotar, em cada caso, a solução que reputar mais
conveniente ou oportuna (art. 1.109). A sentença pode ser modificada, sem prejuízo dos efeitos já produzidos, se
ocorrerem circunstâncias supervenientes (art. 1.111).
O que se há de frisar é que, nas ações de jurisdição voluntária, não é pressuposto a lesão de direito material. Se
não há, na ação de jurisdição voluntária, réu, pergunta-se:
se há recurso da sentença favorável, ~quem é legitimado a recorrer se não foi réu? Mesmo se há pluralidade de
autores, ou de interessados, que foram chamados ao processo, ou ouvidos, pode haver recurso de apelação.
Cumpre que não se distínga da jurisdição contenciosa a jurisdição voluntária, em se tratando de apelação. O art.
1.110 foi explícito. No Código de 1939 não havia essa regra jurídica, mas era o que tínhamos de assentar, a
despeito da falta. Na alienação judicial, o juiz ouve sempre a outra parte antes de decidir (artigo 1.113, § 2.0),
razão para que possa ela apelar. Mesmo se foi o depositário que suscitou o processo, ou se o juiz de ofício lhe
deu início, a outra parte ou as outras partes podem apelar.
No Código de 1973, teve-se por fito distinguirem-se a voluntariedade e a contenciosidade, em vez de se ater,
como o Código de 1939, à referência à especialidade processual.

Art. 1 .103. Quando este Código não estabelecer procedimento especial 1), regem a jurisdição voluntária as
disposições constantes deste Capítulo2).

1)JURIsDIçÃo VOLUNTÁRIA E AÇÕES QUE SE SUBMETEM Às REGRAS JURÍDICAS GERAIS. Para se


saber quais as ações dc jurisdição voluntária cujo procedimento há de ser o que em geral se estabelece, tem-se de
lembrar o que consta dos Capítulos 1 a IX. Depois, já escapos à especialidade, há os que o art. 1.112 enumera e
os restantes, a que só se há de exigir a voluntariedade da jurisdição.
Além dos procedimentos de jurisdição voluntária de que os arts. 1.113-1.119 (alienações judiciais), 1.120-1.124
(desquite por mútuo consentimento), 1.125-1.141 (testamentos e codicilos), 1.142-1.158 (herança jacente),
1.159-1.169 (bens dos ausentes), 1.170-1.176 (coisas vagas), 1.177-1.186 (curatela de interditos), 1.187-1.197
(tutela e curatela), 1.199-1.204 (organização e fiscalização das fundações) e 1.205-1.210 (especialização de
hipoteca legal), há outros, dentre os quais merecem especial referência os seguintes: o da outorga judicial de
consentimento, a que o Código de 1973 não dedicou textos (cf. Código de 1939, arts. 625-628); o da
hcmologação do casamento nuncupativo (Código Civil, art. 200); o da permissão para casamento de colaterais,
legítimos ou ilegítimos, de terceiro grau (Decreto-lei n. 3.200, de 19 de abril de 1941, arts. 1.o~3.o), algo de
preparatório para a habilitação de casamento; o da verificação de gravidez (Código Civil, arts. 4», 462 e 1.668,
1). Nesses casos e nos demais, se o Código de Processo Civil não estabeleceu procedimento especial, nem há lei
especial a respeito do que se vai pedir, tem-se de atender à regra jurídica do art. 1.103, c~ue manda aplicar a
esses casos de jurisdição voluntária as regras jurídicas do Capítulo 1 do Título II. No próprio Capítulo 1, art.
1.112, há referências explícitas a espécies que não se puseram nos Capítulos II-XI.
Dizer-se que, com a jurisdição voluntária, há prevenção da lide é cair-se em grave erro. Pode haver, aqui e ali,
finalidade preventiva, mas isso de modo nenhum permite que se dê a essa eventualidade a caracterização das
ações de jurisdição voluntária. Nem se pense em que tal jurisdição é administrativa, e não judiciária, mesmo se se
fala de administração pública de interesse privado: há muitos ‘procedimentos deinteresse privado na própria
administração pública, que e
função do Poder Executivo. A função é do Poder Judiciário e ele, aí, não administra, julga, porque se trata de
iurisdictio. Não se pode sair da apreciação da voluntariedade, em frente à contenciosidade. O normal, nas ações
de jurisdição voluntária, é que, a despeito de haver citações e defesas, n~o há relação jurídica processual autor-
Estado Estado~réu. Coisa julgada há: o que se distingue, na jurisdição contenciosa e na jurisdição voluntária, é
no tocante ao conteúdo do julgado. Quando, no art. 467, se diz que a eficácia da coisa julgada é a de tornar
imutável e indiscutível a sentença, se não mais sujeita a recurso ordinário e extraordinário, não se afasta a
modificabilidade se alguma dais espécies do art. 471, 1 e II, ocorre. Daí termos de entrar em exame preciso do
art. 1.111, onde se diz que a sentença de jurisdição voluntária pode ser modificada, sem prejuízo dos efeitos já
produzidos “se correrem circunstâncias supervenientes”.

2)SIMPLIFICAÇÃO GERAL DO PROCEDIMENTO. Com a observância dos arts. 1.104-1.112 têm-se


reduzidas ao mínimo as exigências processuais : legitimação ativa (art. 1.104); legitimação passiva (art. 1.105);
prazo para qualquer impugnação (art. 1.106); produção das provas e investigação pelo juiz, tal como convém à
sua função na jurisdição voluntária (art. 1.107); a audiência da Fazenda Pública, nos casos em que tenha interesse
para que basta a vista dos autos (artigo 1.108), salvo se interessada é a ponto de se perfazer a necessidade de
citação (art. 1.105); o prazo para a decisão do juiz (art. 1.109); o recurso, que é o de apelação (art. 1.110) e tinha
de ser; a permissão da modificação da sentença se depois ocorrem circunstâncias que levem a isso (art. 1.111).
Tal o procedimento, assaz reduzido.
O art. 1.103 diz que o procedimento em casos de jurisdição voluntária que não constem do Código como especial
se regem pelas disposições do Capítulo 1. Isso não significa que alguma lei, estranha, portanto, ao atual conteúdo
do Código de 1973, não possa estabelecer procedimento especial, estranho ao Capítulo 1. Não se pode interpretar
o Código de 1973, como se ele cerceasse legislação futura. Para que o art. 1.103 incida é preciso que a espécie
não conste de algum texto do Código de 1973, nem que alguma lex speciaUs não haja exigido procedimento
especial diferente do que se regula nos arts. 1.104-1.111. O art. 1.112 já cogitou de algumas ações de jurisdição
voluntária que não cabem nos Capítulos II-XI.
Qualquer regra jurídica posterior pode derrogar o que no art. 1.112 se estatui, mas a eficácia é só a partir da
incidência da nova lei.
No concernente ao procedimento do Capítulo 1, temos
de frisar que a referência do art. 1.103 não afasta regras juridicas processuais gerais como as dos arts. 273
(aplicação de “disposições gerais do procedimento ordinário” em procedimento especial), 282 (requisitos da
petição inicial, além do que se estatui no art. 1.104), 295 e 296 (relativos ao indeferimento da petição inicial e ao
recurso), 304-314 (sobre as exceções de incompetência, de impedimento e de suspeição), 342-347 (determinação
do juiz, de oficio, em qualquer estado do processo, do comparecimento pessoal de qualquer parte, a fim de
interrogá-las sobre os fatos da causa), e não há para a parte obrigação de depor sobre fatos criminosos ou torpes,
que lhe foram imputados, ou a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segredo, pois as ações do art.
347, parágrafo único, não são de jurisdição voluntária, 336, parágrafo único (parte ou testemunha que não pode
comparecer),420-439(prova pericial). Adiante, sob o art. 1.109.

De regra não há o julgamento conforme o estado do processo (arta. 329-331), nem ensejo para o juiz julgar
antecipadamente (art. 330) a ação de jurisdição voluntária.
O art. 1.103 diz que regem a jurisdição voluntária as regras jurídicas do Capítulo 1 (aris. 1.104-1.110) se o
Código não estabeleceu procedimento especial. Mas há outras regras jurídicas de procedimento especial que são
as dos Capítulos II-XI. Além disso, há regras jurídicas gerais sobre constituição e desenvolvimento regular do
processo (arts. 7-41), tais como capacidade processual, deveres das partes e seus procuradores, responsabilidade
das partes por dano processual, despesas e multas, procuradores. Quanto ao Ministério Público, além da
referência dos arts. 1.104 e 1.105, pense-se nos arts. 81-85. Os arts. 86-153 (órgãos judiciários e auxiliares da
justiça) têm de ser atendidos. Bem assim os arts. 154-257 (atos processuais), 262-269 (formação, suspensão e
extinção do processo), 282-296 (petição inicial), 297-314 (resposta do citado), 332-427 (provas), 444-457
(audiência), 458-466 (sentença), 476-479 (processo em tribunal), 496-565 (recursos). Alguns artigos referidos
serão objeto de comentário especial, por ter de ser atendida a especialidade ou à voluntariedade
da ação. Os arts. 319-322 precisam ser examinados minuciosamente ao termos de cogitar de regras jurídicas do
Título II.
A enumeração do art. 1.112 é exemplificativa, uma vez que, conforme já dissemos, há ações de jurisdição
voluntária que não foram incluídas nele e nas dos Capítulos II-XI.
Sempre que alguma decisão é pedida e o juiz verifica que não há a contenciosidade, uma vez que, mesmo se a
resposta do citado pode negar a existência ou a legitimação ativa, não se cria a lide (senso estrito), de jurisdição
voluntária é que se trata. Por isso mesmo, há a possível conversão do processo do desquite por mútuo
consentimento em processo de desquite litigioso, pois que a contenciosidade surgiu, e houve a observância dos
arts. 1.121 e 1.122, § 1.0, primeira parte. Daí em diante o processo é de jurisdição contenciosa, com o respeito
das regras jurídicas a ela pertinentes.
Alguns procedimentos de jurisdição voluntária são os de que cogitava o Código de 1939, em virtude do art. 1.218
do Código de 1973, que diz continuariam em vigor, até que fossem incorporados em leis especiais os
procedimentos dos arts. 457-464 do Código de 1939 (Registro Torrens), 595-599 (averbações ou retificações do
Registro Civil), 647-651 (bem de família)~ 742-745 (habilitação para casamento), 754 e 755 (dinheiro a risco),
756 (vistoria de fazendas avariadas), 757-761 (apreensão de embarcações) 762-764 (avaria a cargo do
segurador), 765-768 (avarias), 769-77 1 (salvados marítimos) e 772-775 (arribadas forçadas). A despeito da
referência ao direito anterior, as regras jurídicas das Disposições Gerais do Código de 1973, Titulo II, Capítulo 1,
são de aplicar-se aos arts. 1.104-1.111, sendo de relevância os arts. 1.109 e 1.111.

Teremos ensejo, sob o art. 1.218, de tratar, pormenorizadamente, do assunto.

Art. 1 .104. O procedimento terá inicio por provocação do interessado ou do Ministério Público ‘),cabendo-lhes
formular o pedido em requerimento dirigido ao juiz, devidamente instruído com os documentos necessários e
com a indicação da providência judicial 2)~

Art. 1 .105. Serão citados, sob a pena de nulidade, todos os interessados, bem como o Ministério Público 3) 4)•

1)LEGITIMAÇÃO ATIVA. A legitimação ativa para O processo (provocação do procedimento) é a de quem


seja interessado, assunto que se prende à natureza da ação e as regras jurídicas de direito material. Interessado
pode ser o órgão do Ministério Público; mas a lei, diante do elemento vontade, que levou ao conceito de
jurisdição voluntária, fez necessária a legitimação ativa do Ministério Público. Pode acontecer que lhe caibam
duas funções, uma, de interesse da entidade estatal, e outra, de órgão do Ministério Público, que defende
interesse público.
O art. 1.104, la parte, atende ao principio geral contido no art. 2.0, sem que isso preexclua a iniciativa do juiz. O
Estado, que prometeu a tutela jurídica, tem de levar em consideração que o seu dever pode ter de ser exercido,
em determinados casos, sem ser necessário que a iniciativa parta do
interessado ou mesmo do Ministério Público. Para apontarmos espécies em que o juiz atua er oflicio, basta que
pensemos: no art. 1.113, relativo a bens depositados judicialmente, de fácil deterioração, que estão com avarias
ou exigem grandes despesas para sua guarda, que estatui que o juiz de oficio ou a requerimento do depositário ou
de qualquer das partes, mande aliená-los em leilão; no art. 1.129, onde se diz que o juiz, de oficio ou a
requerimento de qualquer interessado, ordenará ao detentor do testamento que o exiba em juízo para
os fins legais, se ele, após a morte do testador, não se tiver antecipado em fazê-lo, e, desatendido, determine a
busca e apreensão (arts. 1.129, parágrafo único, e 839-843); no artigo 1.142, que, nos casos em que a lei civil
considere jacente a herança, estabelece que o juiz, em cuja comarca tinha domicílio o falecido, proceda, sem
perda de tempo, à arrecadação de todos os bens da herança; no art. 1.160, segundo o qual o juiz mandará
arrecadar os bens do ausente que não deixou representante a. quem caiba administrar-lhe os bens, ou, se deixou
mandatário, esse não queira ou não possa continuar a exercer o mandato; no art. 1.171, em que, diante de o
achador de coisa alheia perdida tê-la entregue à autoridade judiciária, estatui que o juiz mande publicar edital,
por duas vezes, no órgão oficial, para que o dono ou legítimo possuidor a reclame; no art. 1.190, segundo o qual,
se o tutor ou curador é de reconhecida idoneidade, pode admiti-lo, ou desde logo dispensá-lo.
O interesse, conforme o art. 3•O, ~ o que justifica a iniciativa de alguém a propor a ação, interesse que não se
limita a direitos privados, pois há direitos públicos que têm pretensão e ação exercível perante o Poder Judiciário.
(Ministério Público, trata-se de regra jurídica que exige a sua citação, por se estar a cogitar de ação de jurisdição
voluntária, em que o interesse público é inafastável. No art. 82, 1, .11 e III, fala-se da intervenção do Ministério
Público nas causas em que há interesses de incapazes, nas causas concernentes ao estado da pessoa, pátrio poder,
tutela, curatela, interdição, casamento, declaração de ausência e disposições de última vontade, e em todas as
demais causas em que há interesse público, evidenciado pela natureza da lide ou qualidade da parte.
Compreende-se que apenas se quis, no art. 1.105, explícitar a necessidade de trazer-se ao juízo o Ministério
Público. S~ não há a citação, nulo é o processo. Aliás, já o previa o art. 84. O Ministério Público pode intervir se
há interesse público, mas, nas causas de jurisdição voluntária, é necessária a sua citação: não importa se ele se
manifesta, ou se não se manifesta. Ele pode responder, pode requerer medidas ou diligências necessárias ao
descobrimento da verdade (art. 83, II), como pode juntar documentos e certidões. A verdade, a que se refere a lei,
é a verdade dos fatos alegados, inclusive o interesse que o juiz vai apreciar.

2)PETIÇÃO NAS AÇÕES DE JURISDIÇÃO VOLUNTARIA. A petição é feita pelo interessado, que é
legitimado ativo, inclusive o Ministério Público, que o seu Interesse não é apenas o de ser ouvido, mas o de
propor a ação de jurisdição voluntária. No art. 1.104, a posição do órgão do Ministério Público é a de autor; no
art. 1.105, é apenas a~ de interveniente, razão por que se exige a citação. Pergunta-se: se ação foi proposta por
um órgão do Ministério Público, <tem de ser citado órgão que tenha de conhecer do que se passa? A resposta não
depende sempre da lei de organização judiciária: quer a ação tenha tido iniciação de ofício, ou por ato de órgão
do Ministério Público a que se atribui a propositura da ação, o orgão da Ministério Público perante o juízo tem de
ser citado, salvo se as funções são do mesmo órgão.
A petição inicial tem de indicar: o juízo ou tribunal a que é dirigida; os nomes, prenomes, estado civil, profissão,
domicílio e residência do autor, bem como dos citandos; os fatos e os fundamentos jurídicos do pedido; o valor
da causa; as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados; o requerimento para
citação de todos os interessados e do Ministério Público (arts. 282 e 1.105). Pode acontecer que o juízo, diante da
falta de requerimento, ou diante de defeitos e irregularidades, determine que o autor emende a petição, ou a
complete, no prazo de dez dias (artigo 284), caso em que, não cumprida a diligência, o juiz indelere a petição
inicial (art. 284, parágrafo único).
Surgem algumas questões. ~Pode o autor formular em ordem sucessiva dois ou mais pedidos, a fim de que o juiz
conheça do pedido posterior, se não acolhe o anterior? Não se pode afastar a invocabilidade do art. 289 se tal
sucessividade é justificável. Quanto à cumulação, o que é de exigir-se é que se satisfaçam os requisitos de
admibilidfade (art. 292, § 1.0).

3)CITAÇÕEs. São citados, sob pena de nulidade, todos os Interessados, o que obriga a exame inicial pelo juiz, e
o Ministério Público, que, conforme dissemos, pode ter duas ou mais funções.
Todos os interessados, diz a lei; e cabe ao juiz verificar se, além dos que constam da petição, tem de ser citada
algu
ma outra pessoa, ou serem citadas duas ou mais. Se alguma ou algumas tinham de ser citadas e não o foram, a
sentença não tem eficácia de coisa julgada processual ou material contra ela ou contra elas. A própria sentença
pode ser arguida de nulidade, porque a falta da citação ou a falta das citações levou a isso.

4)ATENDIMENTO E INATENDIMENTO PELOS cITADOs. Algum ou alguns dos citados podem não atender
à citação, isto é, não manifestar ou não manifestarem a sua resposta. Temos, de início, de referir o art. 302,
parágrafo único, onde está . explícito que o ônus da impugnação especificada dos fatos não se aplica ao orgão do
Ministério Público, ao advogado dativo e ao curador especial. Os demais citados, se não respondem, tomam
presumidos como verdadeiros os fatos narrados na petição (art. 302): salvo se não foi admissível a respeito a
confissão, se a petição Inicial não foi acompanhada de documento público que a lei considera da substância do
ato, ou se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto (art. 302, 1,11 e III). Cf. art. 319,
que fala de réu. O art. 320, 1 e II, pode ser invocado. Nele se enuncia que a revelia (a falta de impugnação) não
tem a eficácia de criar presunção da veracidade dos fatos alegados, se, havendo pluralidade de “réus” (aqui
digamos pluralidade de “citados”), algum deles impugnou, se o litígio versar sobre direitos indisponíveis. O art.
320, III, corresponde ao art. 302, II, concernente ao autor. A falta do citado quanto à impugnação não tem a
eficácia que resultaria do art. 319 se ocorreu a falta do autor quanto a petição não ter sido acompanhada do
instrumento público que era indispensavel.
Se foram citados um ou todos os interessados e o órgão do Ministério Público, a impugnação por qualquer um
dos citados, afortiori por dois ou mais, basta para que não se pense em invocação do art. 319.

Adiante, sob os arts. 1.107 e 1.109, trataremos da missão especial do juiz, que de certo modo atinge a eficácia do
inatendimento pelo citado ou pelos citados.
Também se há de respeitar o art. 322, 2~ parte: quem foi revel ou apenas não impugnou algum ou alguns pontos
pode intervir no processo em qualquer fase, recebendo-o como está.

Art. 1 .106. O prazo para responder “~ é de dez (10) dias2).


Art. 1 . 107. Os interessados podem produzir as provas destinadas a demonstrar as suas alega çôes; mas ao juiz
é licito investigar livremente os fatos e ordenar de ofício a realização de quaisquer provas3).

Art. 1.108. A Fazenda Pública será sempre ouvida nos casos em que tiver interesse4).

1) RESPOSTA DOS cITADOS. Os citados manifestam-se e a tal manifestação a lei chama “resposta”, para que
abranja todas as alegações que afastem o que o autor pediu, com as razões de fato e de direito com que algum dos
citados ou alguns ou todos impugnam o pedido (art. 300, 1.a parte). Para isso, há de haver a especificação das
provas que se pretende produzir (art. 300, 2.~ parte). Na resposta, que mais tem por fito negar-se o direito, a
pretensão e a ação do autor, primeiro se há de argúir, conforme a espécie ou o caso, a inexistência ou nulidade da
citação, a competência absoluta (ou mesmo relativa) do juízo, a inépcia da petição inicial, a litispendência, a
coisa julgada, a conexão, a incapacidade da parte, o defeito de representação ou a falta de autorização, a carência
da “ação”, a falta de caução ou de outra prestação
que a lei exige como preliminar (art. 301, 1-Viu, IX, X e XI). Pode a resposta consistir em dizer-se que há a falta
de ação de direito processual, dita carência de ação (art. 301, X). Tal alegação há de consistir em não ter o autor
qualquer “ação ” ou não ter a “ação” de jurisdição voluntária, isto ~, não ser uma das espécies dos arts. 1.103,
1.112 e 1.113-1.210, a que corresponde o procedimento especial.
Depois de tais alegações é que há de vir a de não haver interesse do autor (= não ser titular de direito, pretensão
ou ação), o que corresponde a negação no tocante ao mérito (em sentido amplo, que não há de ser apenas o de
mérito apreciado em jurisdição contenciosa).

2) PRAZO PARA RESPONDER. O prazo para responder é de dez dias, contados da citação. Há, aí, prazo
comum (artigo 241, 1), de modo que a cada interessado não pode corresponder início diferente do prazo. Os arts.
178, 180 3 184 incidem. O prazo começa após a última citação.

3)PRovAs. Os interessados podem produzir as provas, desde que se destinam às suas alegações como
promoventes ou como citados ou como simples audientes (e. g., a Fazenda Pública, art. 1.108). Os arts. 334 e 335
são invocáveis. A despeito haver regra juridica especial, nem
sempre se há de produzir a prova em audiência (ari. 336). Não é preciso que se abra audiência de instrução e
julgamento, salvo se o juiz, de ofício, entende que se marque o dia (cf. arts. 1.107, 2Y~ parte, e 1.109).
Os citados podem produzir provas, ou não as produzir. Não Há o dever de produção; o que há para eles é o Ônus
da prova. Ônus e dever são inconfundíveis. A expressão “podem” do art. 1.107 não foi Impertinente, máxime
porque no art. 1.109, se permite ao juiz “adotar em cada caso a solução que reputar mais conveniente ou
oportuna”. Está-se em matéria de jurisdição voluntária, em que há a alternativa de julgar favorável ou
desfavoravelmente a causa, sem se terem de tratar os citados como réus. Não está o juiz a decidi controvérsias,
dirimir litígio. Apenas recebe dos interessadoS que foram citados o que pode convir ou não ao Julgamento da
ação de jurisdição voluntária.
A permissão de o juiz investigar livremente os fatos e ordenar de ofício a produção de quaisquer provas contém,
entre muitos outros poderes, o de inquirir citados que algo alegaram ou nada alegaram, ou dar ensejo ao
Ministério Público a pronunciar sobre algum, alguns ou todos os pontos, mesmo se nada argúíra.
Qualquer conclusão a que chegue o juiz, com a livre investigação, é assunto para apreciação em recurso. A
instância superior não tem de atender sem liberdade, ao que livremente o juiz investigou e lhe deu base para a
decisão. A presunção de ser verdadeiro o que não foi atacado pelos citados não está incólume a livre investigação
do juiz.

4)FAZENDA PÚBLIcA. Se há interesse da Fazenda Pública, interesse na espécie de ação, tem de ser ouvida.
Não se confunda com o interesse de agir, que lhe daria a legitimação do art. 1.104 ou a do art. 1.105.
A situação da Fazenda Pública é a de interessado, mas o interesse, ai, é inconfundível com o do Ministério
Público. Na ação de desquite por mútuo consentimento pode ocorrer que se haja de proceder a partilha de bens e
haja de ser ouvida a Fazenda Pública estadual (cf. arts. 999 e 1.026). Idem, na arrecadação de herança jacente, na
qual há a intimação da Fazenda Pública e do Ministério Público para que a ela assista (arts. 1.145, § 2.0); na
arrecadação de bens de ausentes (art. 1.160 e 1.169), em que são citados o Ministério Público e a Fazenda
Pública; na arrecadação de coisas vagas (arts. 1.172 e 1.173).

Art. 1 .109. O Juiz decidirá o pedido no prazo de (10) dias 1) 5); não é, porém, obrigado a observar critério de
legalidade estrita, podendo adotar em cada caso a solução que reputar mais conveniente ou oportuna2).

Art. 1 .110. Da sentença caberá apelação 3).

Art. 1.111. Á sentença poderá ser modificada, sem prejuízo dos efeitos já prOduzidos, se ocorrerem
circunstâncias supervenientes4).

1) SENTENÇA E prazo. Há o prazo de dez dias para que o juiz protelar a decisão. Tem ele mais amplitude no
exame, na,.,apreciação das alegações e das provas, com liberdade na verificação dos fatos, na suscitação ou na
produçao de qualquer prova. O art. 1.109 impos-lhe dever de consciência, que lhe obsta estar adstrito áquilo que
resultou da atividade dos interessados. Com a sua liberdade, cabe-lhe buscar qual a soluç&o que mais
conveniente in. casu e mais oportuna.

2)REFERÉNCIA À LEI E À CONVENIÊNCIA CU OPORTUNIDADE.


Nunca se pode dar a juiz a atribuição de julgar contra a lei. “Critério de legalidade estrita” somente pode ser
concernente à atividade processual, com o intuito de abreviar o procedimento, de tratamento mais adequado das
partes e de medidas que afastem a atividade desleal de qualquer dos interessados, inclusive do Ministério Público
e da Fazenda Pública. No que toca ao direito material, de modo nenhum se pode invocar o art. 1.109. O que se
teve por fito, no artigo 1.109, foi alargar-se, na jurisdição voluntária, o poder do juiz, sem que isso possa levá-lo
a infringir ius cogenS. Se tal ocorre, há a própria rescindibilidade da sentença (art. 485, V). Não pode atribuir à
sentença na ação de jurisdição voluntária qualquer poder de ferir as leis. Nos recursos podem ser arguidas as
nulidades dos seus atos; e, com a coisa julgada da sentença, que as cobre, tem-se a ação rescisória.
Qualquer interpretação do art. 1.109 como se nele estivesse regra jurídica de livre arbítrio do juiz seria de vedar-
-se energicamente. O emprego de “legalidade estrita” prove-lo do texto português (Código de Processo Civil, art.
1.410), cuja explicação de Jose ALBERTO DOS REIS (Processos Especiais, II, 400) e de outros temos de
repelir. No Código de Processo Civil brasileiro, art. 127, diz-se que “o juiz só decidirá por equidade nos casos
previstos em lei”. A respeito do juízo arbitral, há o art. 1.075, IV, em que se prevê que o compromisso contenha a
autorização aos árbitros para julgarem por equidade, fora das regras e formas de direito.

O art. 1.109 supõe que haja normas que o juiz observa, sem ofender a lei. Daí termos de evitar implantações de
textos destoantes do sistema jurídico brasileiro. Aliás, na própria doutrina portuguesa, há divergência (e. g., JoÃo
DE CAsTiIo MENDES, Direito Processual Civil, 1, 47 s.).

3) RECURSO. O recurso é o de apelação. Tem os dois efeitos, devolutivo e suspensivo (cp. art. 520).

4) SENTENçA. Não se trata, no artigo 1.111, de alteração da sentença, para corrigenda de inexatidões
materiais, ou de erros de cálculo, nem de obscuridade, dúvida ou contradição da sentença, ou omissão de ponto
sobre o qual tenha de pronunciar-se a sentença (arts. 463-465); porque tudo isso se refere a qualquer espécie de
sentença. O art. 1.111 concerne ao conteúdo da sentença e a circunstâncias supervenientes, que poderiam dar
ensejo, na jurisdição contenciosa, à ação de modificação. O problema que surge, no tocante ao art. 1.111, é se ele
exige a) outra propositura de ação, ou b) a ação de modificação pode ser (ou há de ser)
no próprio processo de jurisdição voluntária. A ação de modificação cabe sempre que a sentença, que transitou
em julgado, pode ser alterada no que estabeleceu para o futuro: a própria eficácia sentencial, ai, está sujeita,
devido à natureza da sentença e do seu conteúdo, a mudança, ou a mudanças, se o juízo o reconhece (cf. art.
471). O art. 1.111 é um dos “demais casos previstos em lei”, que é assunto do art. 471, II, a cujo comentário
fazemos remissão. O que aqui nos importa é sabermos se tem de ser aberto outro processo, o que, em princípio,
ocorre com as ações de modificação, ou se tem de ser ou pode ser no mesmo processo. O art. 1.111
é regra jurídica especial, tanto que, nela, não se diz que se vai decidir “novamente” o que já se decidirá, mas
modificar-se a sentença. Tem de ser, de regra, no mesmo processo.
Tem-se dito que o ato de jurisdição voluntária é ato de administração, de modo que não produz coisa julgada.
Invoca-se, por exemplo, o art. 1.111, em que se diz que a sentença, no procedimento de jurisdição voluntária,
pode ser modificada, sem prejuízo dos efeitos já produzidos, se ocorrem conseqüências supervenientes.
No Código de 1939, art. 288, dizia-se: “Não terão efeito de coisa julgada... as sentenças proferidas em processos
de jurisdição voluntária e graciosa, preventivos e preparatórios e de desquite por mútuo consentimento”. O texto
era lamentável, com a interpretação, que escritores e juizes lhe davam, de que tais sentenças não tinham eficácia
de coisa julgada formal, nem material. Apenas lhe admitíamos não ter eficácia de coisa julgada material
(Comentários ao Código de Processo Civil de 1939, Tomo IV, 107-112). Felizmente, o Código de 1973 retirou o
que se achava no art. 288 do Código de 1939. No art. 1.111 apenas diz que a sentença, em jurisdição voluntária,
pode “ser modificada, sem prejuízo dos efeitos já produzidos, se ocorrem circunstâncias supervenientes”.
De modo nenhum se referiu à falta de eficácia de coisa julgada, formal ou material,
Primeiramente, cumpre advertir-se que se afirma a persistência da eficácia produzida pela sentença, só atingível
por “circunstâncias supervenientes”, que permitam a modificação. Modificar é alterar, como retificar, mas, com a
diferença de não corrigir, e somente regular o modo. No art. 1.111 frisa-se Que isso não pode prejudicar os
efeitos já produzidos. A eficácia persiste até que sobrevenham circunstâncias que dêem ensejo à modificação. O
que foi julgado existiu, persistiu e foi eficaz, até que as circunstâncias supervenientes aos efeitos levem à
modificação. Nenhuma referência à eliminação da coisa julgada: os próprios efeitos da coisa julgada material lá
ficaram e a eficácia, que sobrevém, é a de se haver modificado o conteúdo da sentença. A decisão, aí, também é
sentença. Procuramos caracterizar o que se passa sob o Código de 1973, o que nos permite analisar o que antes se
sustentava, na doutrina, nos comentários e diante do art. 288 do Código de 1939, e repelir qualquer permanência
das interpretações obsoletas. Não se pode dizer, hoje em dia, que se abrem portas à correção da injustiça, uma
vez que voluntária a jurisdição (e. g., FRANz SORLEGELBERGER, Die Gesetze uber die Angelegenheiten der
freiwUligen Gerichtsbarkeit, 1, 24), nem que a regra Res iudicata jus fac~it inter partes, que alguns juristas
pretenderam elevar à categoria de regra geral de direito público (e. g., KONRAD SCHNEIDER, Das
Beschlussverfahren und die Rechtskraft, ín privatrechtlichen streitígen Angelegenheiten der freiwilligen
Gerichtsbarkeit, Zeztschrift flir deutschen Ztvilprozess, XXIX, 153, s.), é afastada.
No XXVI Congresso dos Juristas (Verhandlungen, 1, 86 s.; II, 32; III, 378 s.), M. SCHULTZENSTEIN e E.
BERNATzIK destruíram as afirmações de KONRAD SCHNEIDER. Aliás, CONRAD BORNHAK
(Verwaltungsrecht, II, 475) já fora claro, excluindo o princípio no direito administrativo. Tentou-se também
descobrir (ou indagar-se se seria possível descobrirem-se)
casos de força material de coisa julgada na jurisdição voluntária. Alguns escritores enfrentaram o problema, de
lege feren da. Vale a pena referir o que dizia F. STEIN (Grenzenund Beziehungen, 102): “Devemos lembrar-nos
de que, dentro dos próprios domínios, o reconhecimento da coisa julgada (material) não é “dado”
conceptualmente adquirido (“begrifflich Gegebenes”), mas sim questão resolvida com extremo
cuidado de finalidade”. Aqueles mesmos que pretendem levar a coisa julgada material a outros ramos do direito
público,o que, a priori, não é vedado, tal como SEIDLER, no XXVI Congresso de Juristas (Verhandlungen, III,
385), não desconhecem a gravidade do passo. Maior interesse público é o de se poderem, de regra, corrigir
despachos errados na jurisdição administrativa. Nem se alegue o interesse das partes e a segurança jurídica; pois
que não houve litígio. Nem cabe argumentar-se com o interesse ser público, e não privado, no processo penal: a
acusatoriedade assegura a vigilância pelo promotor e pela parte ou partes.
Os cálculos de imposto, quando controvertidos, são causa da Fazenda Pública dentro do processo alheio. Por
isso, é erro dizê-los de jurisdição graciosa, se gracioso o processo em que ocorrem, e contencioso, se contencioso
o processo. A contenção do processo nada tem com o cálculo; nem o cálculo com o processo. De regra, os
cálculos são amigáveis e suscetíveis de contenção, que suscita a discussão e a decisão judicial com torça de coisa
julgada. Certas, nas conclusões, as Câmaras Conjuntas do Tribunal de Apelação de São Paulo, a 30 de janeiro de
1941 (R . F., 90, 435). O relator, desembargador GoMES DE OLIVEIRA, tocou o ponto, que merece ser
explorado pelos tribunais. Trata-se de caso de processo alheio dentro do processo.
O melhor método prático para se descobrir se a ação ou a sentença é de jurisdição contenciosa ou voluntária é o
de se começar por indagar se não pode ser voluntária. Ficam, então, de fora, para ulterior exame, se, podendo ser
voluntária, os elementos de contenção permitem que se considere tal. Se a ação não é tendente a (a) suprir
capacidade jurídica, nem a (b) cooperar na constituição (positiva ou negativa) do negócio jurídico, nem a (c)
transformá-lo, e sim a (cl) aplicar direito a caso em que o direito incidiu, então não há jurisdição voluntária, e a
questão está resolvida desde já. Mas isso não significa que todas as outras espécies pertençam à jurisdição
voluntária, O elemento contencioso pode superar a voluntariedade ainda nas espécies (a), (b) e (c). De modo que
nem sempre, depois do primeiro exame, se pode responder que “é” de jurisdição voluntária, posto que se possa
responder às vezes que “não é”. Ninguém desconhece a contenciosidade das destituições de tutor e curador. Não
é a forma que decide de ser voluntária ou contenciosa a jurisdição. A preponderância da contenção deriva da
pretensão, mesma, da sua estrutura de pressão contra alguém, que se defende ou pode defender-se, isto é, afirmar
em contrário ao afirmado no pedido. A forma, essa, mais leva em conta o quod plerum que fit, portanto a mais
vulgar maneira de se exercer a pretensão, e não a pretensão mesma. Por isso, encontramos procedimentos
concebidos como sem contraditório e até inaudita altera parte, parecendo de jurisdição voluntária, que, em
verdade, são contenciosos, como as medidas cautelares e aqueles processos em que a parte ré pode introduzir a
contraditoriedade, ou deixar que se ultime como se de jurisdição voluntária. O fato de haver o legislador
processual concebido o “procedimento” como de jurisdição voluntária não basta para afastar a existência, ou,
pelo menos, a possibilidade do contraditório. As vezes, a sua técnica prevê a insurgência da contenção; outras,
não: só se preocupa com o que mais acontece, ou com os casos sem contenção. Seja como for, a distinção entre
jurisdição voluntária e jurisdição contenciosa não pode ser feita dentro da lei de processo, porque os dois
conceitos não são de direito processual; são pré-processuais; são mesmo “dados”, e não “construídos”; estão
antes das leis de organização judicial e das leis de processo. Daí a dificuldade de serem tratados como conceitos
de direito processual. Algumas ações de jurisdição voluntária são constitutivas,
de modo que a sentença tem força constitutiva, ou tem, pelo menos, efeitos constitutivos. Posto que FRIEDRIOR
STEIN (Grenzeu und Beziehungen, 93 s.) ainda vacilasse em separar a força constitutiva (ou efeito constitutivo)
e a força material (ou efeito material) de coisa julgada, KONRAD HELLWIG (Anspruúh und Klagrecht, 480 e
487; Wesen und sub jektive Begrenzung der Rechtskraft, 4) as separou com precisão. Desgraçadamente, os juizes
andaram, nesse ponto, com atraso de mais de setenta anos, razão por que, falando de ações de status, jurisdição
voluntária, e afirmando que a sentença não tem força ou efeito de coisa julgada material, lhe negavam a força ou
efeito de constituição! O erro do Código de 1939 deu causa a isso. Já JosEF KOHLER advertia na força erga
omnes de certas ações de jurisdição voluntária, exatamente por serem constitutivas, e MAx PAGENSTECHER
‘pretendera resolver a questão, retirando das ações de jurisdição voluntária as ações constitutivas. Em verdade,
ações constitutivas podem ser graciosas ou contenciosas; não vem ao caso.
A sentença homologatória de desquite por mútuo consentimento passa, formalmente, em julgado; e multas vezes
se tem de invocar a eficácia de força formal do trânsito em julgado. Tudo ocorre, como sempre, no plano da
inimpugnabilidade da sentença. A sentença pode ser rescindida.
Um ponto que deu lugar a discussões é o de poder haver eficácia constitutiva nas sentenças de jurisdição
voluntária.
Quando, em caso de condenação a prestações periódicas futuras, as circunstâncias se modificarem de tal maneira
que não mais se justifiquem as prestações, no todo, ou em parte, ou a própria condenação, ou a duração delas,
cabe à parte reclamar pela chamada ação de modificação. Nós já a tínhamos, invocando o velho Aligemeines
Landrecht prussiano (1, 6, § 119) ou o Código Civil francês, arts. 209 e 210, a respeito de prestações alimentares.
A generalização foi obra da ciência.
Muitas vezes, a jurisprudência confunde ser suscetível de modificação a sentença e não ter força ou eficácia de
coisa julgada. As sentenças em ação de alimentos, embora suscetíveis de modificação, têm eficácia imediata de
coisa julgada. A própria sentença em ação declaratória da relação jurídica concernente a alimentos somente
declara a relação jurídica, tal como é até a data da prolação, sem vedar que se declare ser diferente do que se
previa após mudança de circunstâncias. Exemplo de decisão que incorre no erro de confundir modificabílidade
por mudança de circunstâncias e carência de eficácia de coisa julgada tem-se na decisão da 3- Câmara Civil do
Tribunal de Justiça de são Paulo, a 18 de dezembro de 1952 (R. dos T., 209, 239).
~Qual a natureza da ação de modificação?
(1)Tem-se entendido, às vezes, que se trata de efeito retroativo do segundo julgado, o que não se compadece com
os fatos e os princípios.

(2) Outras vezes, que é apenas limitação à eficácia executiva do julgado, diante da concorrência da pretensão do
réu, posterior ao julgado. A ação de modificação seria como as defesas em exceção (Aa nHUR NUSSBAUM,
Die Prozesshandlungen, 54) ou os embargos do devedor segundo o artigo 741, mas sem se identificar com eles.
(3)lambém se sustentou que a ação de modificação de modo nenhum ofende a coisa julgada; pois a sentença leva
consigo a consideração implícita (ou explícita) de ser excetuável conforme as novae causae (Cf. RIcii~.iu,
SCHMIDT (Lehrbuch, II, 757; Die Ànderung, 59 5.), JAKOB WEISMÂNN (Lehrbuch, 238; Die
Feststellungsklage, 131, onde considerava a ação de modificação como condictio liberationis), P. KLOPPEL
(Die Einrede der Rechtskrajt, 124 5.) e GEORG KUTTNER (Dieprlvatrechtiichen Nebenwirkungen der
Zivilurteile, 229 s.). Note-se a diferença em relação a (2): ali, a ação é contra a execução, como os embargos do
devedor; aqui, contra a inteligência da sentença como rígida, no processo da ação de condenação.

(4) FiuEDR’CH STEIN (cp. Zeitschrift, 24, 224 s.), que parecia pensar como em (2), explicou, na 10.a ed. do seu
comentário, a ação de modificação como “exceção equidosa” à coisa julgada, explicação bem imprópria do
gênio de FRIEDRICE STEIN. A solução da concorrência de duas ações pela abertura emergencial da equidade
choca-se com os métodos de pesquisa científica. Isso em 1911. Tal como ERNST EXCHHOFF, em 1898 (Die
Lehre von der compensatio lucri cum damno, 133 s.), e J. Cii. SCHWARTZ, em 1904, na sua tese
sobre o § 829 do Código Civil alemão.

(5)JOHANN CHRI5rOPH SCHWARTZ (Das Billigkeitsurteil cles § 829 BGB, 48, 73, 88 5.) pensou em ação de
condictio ob causam finitam, que se coaduna com a eficácia de coisa julgada da sentença. Corresponderia à (não
se subsumiria na) ação contrária à execução de sentença ~nossos embargos do devedor).

(6)Outros vêem na ação de modificação correção àdecisão, espécie de impugnativa da sentença trânsita em
julgado, como a nossa ação rescisória, com o fundamento político-jurídico de limitação aconselhável da coisa
julgada(E.NEUKAMP). Ainda assim pensaram GEORO KLEINFELLER (Lehrbuch, ~ ed., 258), P.
LANGHEINEKEN (Der Urteulsanspruch, 261), que frisou o alterar-se o julgado pela sua injustiça material, e
WILHELM KzscH (Beitrage zur Urteilslehre. 183 e 185), que acentuou a diferença em relação à ação contrária à
execução (nossos embargos) e a semelhança com as ações de restituição (e, pois, a nossa ação rescisória). FELIX
JAEGER (Die Umwandlungskl age, 12 e 29 a.) referiu-se a condictio indebiti e a condictio srne causa.

(7)OPPERMANN (Zeitschrift fur cleutschen Zivilprozess, 38, 445 a.) invocou a semelhança com a renúncia à
execução e com a moratória: aludiu, portanto, aos pressupostos fácticos da eficácia do julgado, que foram (~ou se
tomaram?) errôneos. O lugar de tal ação não seria na ação de execução de sentença, como ação contrária (nossos
embargos do devedor), posto que semelhante a ela.
Também KONRAD HELLWIG (System, 810 a.; Anspruch und Klagrecht, 167; cp. Lehrbuch, 1, 238) admitia
que a ação de modificação altere o julgado mesmo. Algo como os nossos embargos infringentes do julgado, se
eles fossem “ação”, em vez de recurso. A sentença projeta-se no futuro; e a perspectiva do juiz, ao longo do
tempo a vir, foi injusta. KON1IAI) HELLWIG usou mesmo da expressão “computo Injusto” (unrichtíge
Berechnung) do futuro. O julgado seria anulável pelo princípio, novo, de ataque à coisa julgada. Para ele
(System, 810) cabe a ação declaratória (entre nós, a do art. 4.0), ou a ação contrária à execução (os nossos
embargos do devedor).

(8)Porém JOSEF KOHLER (tber die Grundlagen des Civilprozesses, Archiv fur die civilistische Praxis, 97, 10)
tomou, resolutamente, atitude à parte: a sentença mesma é dada na pressuposição de que, mudando as
circunstâncias, ocorra a modificação Existe, pois, reserva implícita, que se faz explícita com o outro e posterior
julgado. Cláusula rebus sic stantibus implícita.
A questão interessa à natureza e à classificação da ação. ~Tratar-se-á de embargos do devedor? <Outra ação, de
cognição? 6Simples ação declarativa? ~,Ou ação contrária à de condenação? ~Correção de cálculo, ou correção
da sentença mesma? ~Ação semelhante aos embargos de declaração, que são recursos, ou semelhante à ação
rescisória, ou semelhante à ação que seriam os embargos infringentes do julgado se eles fossem ação?
A (1) responda-se: nenhum efeito retroativo tem o segundo julgado; a eficácia é ex nunc, de modo que a
construção com a noção de retroatividade destoaria de toda a metodologia da interpretação das leis e de todas as
regras de investigação científica construtiva.
A (2) responda-se: restringir-se a prestação, a que serve a ação de modificação, a simples pretensão a embargos
do devedor (ação contrária à execução) seria entender-se que só se repele efeito executivo. Não devemos admitir
que tal ação de modificação só se refira a julgados em ações de condenação. Não podemos, a priori, exclui-la em
caso de ação executiva lato sensu (exemplo, contra o julgado do art. 641), portanto contra a força executiva (e
não só contra o efeito), nem em casos de ações declarativas, constitutivas e mandamentais.
A (3) responda-se: o juiz não “considerou” que as circunstâncias mudassem; nem a sentença, objetivamente,
podia “considerar” qualquer coisa. As causae são altcra~, e não novae.
A (4) responda-se: a equidade, atuando contra a eficácia das sentenças, seria fundamento bem difícil de admitir-
se e extremamente perigoso.
Responda-se o mesmo a (5), pois na condic tio ob causam finitam não se enquadraria a construção. Sobre essa
condictio, vefa-se B. WINDSCHEID (Lehrbuch, II, §§ 123, nota 13, 124, nota 3, 884, 887; e nosso Tratado de
Direito Privado, III, §§ 305,2,307,1,1V, § 446,2, VI, § 701, e XIII, § 1,489,3).
A (6) responda-se: a ação de modificação de modo nenhum impugna a sentença, que foi a prestação jurisdícional
quando o autor exerceu- a sua pretensão à sentença ou à execução. Nada tem com a ação rescisória, nem com o
recurso de embargos infringentes do julgado.
A (7) responda-se: a) a renúncia à execução é exclusão voluntária da pretensão a executar e à ação executiva, ou
b) desistência com as conseqüências do art. 267, VIII, que não excluem a existência, mas fazem cessar a
instância; no caso b), a desistência nada tem com a sentença que foi proferida, porque diz respeito à relação
jurídica processual em que ainda não se proferiu sentença; no caso a), a sentença anterior nada sofre em si
mesma, ainda em sua eficácia, denúncia não é elisão da sentença, mas da pretensão que corresponde à sua
eficácia. Nem a ação de modificação é constitutiva, erro em que tantos processualistas incorreram.
A (8) responda-se: não há sentença com reserva, no caso da sentença a cuja eficácia se prende a ação de
modificação; a caracterização do primeiro julgado como tal (sentença condicional resolutiva) aberraria dos fatos.
Não há dúvida que a ação de modificação não diz respeito à não-existência, nem à não-validade da sentença que
se quer executar. Tão-somente à interpretação, ou versão, da sua eficácia. Houve modificação essencial e
imprevista das circunstâncias que foram pressupostas para a condenação quanto ao futuro, a determinação do
importe no futuro e a duração da prestação no futuro. E . g., Código Civil, art. 401. Futuro, aí, está por “depois de
encerrado o debate oral”.
Pretendeu-se que a ação de modificação fosse constitutiva (entre outros, PAUL OERTMANN, Zur Lehre von der
Abanderungsklage, Archiv fur die civilistische Praxis, 109, 318); porém ainda ignoravam tais juristas a existência
das ações mandamentais.

(9)Trata-se de ação mandamental contra a eficácia da sentença, tal como os embargos de terceiro e os do
devedor.
A eficácia da ação de modificação somente começa ex nune, isto é, desde que se propõe (FELIX JAEGER, Die
Umwandlungsklage, 27). Por isso mesmo pode ser intentada desde que se encerrou o debate oral, pois nada tem
com a apelação, a que se liga o exame do que ocorreu até à sentença da Primeira instância. JAMES
GOLDSCRMIDT (Zivitprozessrecht. 2.~ ed., § 63, n. 4) põe-na, por essa razão, como “ponto médio
entre ação de mandamento e recurso em forma de sentença”; mas, em verdade, trata-se de ação mandamental
típica, contra a eficácia da sentença, proponível o que é a sua peculiaridade desde o encerramento do debate
oral, pela parte-ré.
A alusão a ponto médio entre a ação e recurso cairia em hibridismo que nada esclareceria, nem se compadeceria
com a evidente “ação” (nunca recurso!), que há na ação de modificação.
Não tem razão os que a fazem semelhante à ação rescisória ou à revisão criminal, porque a revisão vai até todo o
início de tempo em que se estabeleceu a eficácia do julgado, ao passo que a ação de modificação só atende a
sentença ex nunc.
A questão de poderem concorrer a ação de modificação e os embargos do devedor teve, durante anos, a maior
voga.
Discutia-se se podiam ser usadas as duas ações, ou se a ação de modificação se subsumia na de embargos do
devedor, ou se, usada uma, a outra estava excluída. Ora, ambas concernem à eficácia, sendo, porém, a ação de
modificação mais ampla. C rito do art. 740 não seria absurdo, mas os embargos não teriam efeito suspensivo.
Rigorosamente, a ação de modificação, mandamental, importa em “embargos” a sentença, como se fosse “ação”
de embargos interpretativos do julgado e tal ação existisse, e não em embargos ao mandado de execução, como
os embargos do devedor. Mas é inegável o fundo comum mandamental negativo, relativo, na ação de
modificação, à interpretação ou versão de qualquer eficácia da sentença que interesse ser elidida, e não só, como
ocorre aos embargos do devedor, à executividade.
Ação mandamental, seria fraco (isto é, praticamente insuficiente) propó-la como ação declaratória: valeria apenas
como “preceito” e não como “mandado”. A cisão obrigaria as duas proposituras, uma de ação declaratória e outra
de mandamento.

LOIHAR SEUH’ERr, L. GAuPP-F. STEIN e OPPERMANN firmaram a solução, sendo de notar-se que o
primeiro excluiu a sentenciabilidade do segundo processo antes de ser sentenciado o segundo. No direito
brasileiro, essa advertência tem fundamento no art. 105. Se foi proferida a segunda sentença antes da primeira, a
ação mandamental não caiu no vácuo:
a sentença no primeiro processo somente pode ir até aquele tempo em que ainda não começou o que foi decidido
na sentença proferida no segundo. De modo que é recomendável aguardar-se; porém não necessário.
Se a ação de modificação pede a exclusão da condenação, a sua eficácia, partindo, como parte, somente da
propositura, de modo nenhum se choca com a da sentença no primeiro
processo, uma vez que essa tem de parar onde a eficácia da sentença naquela começou. Por onde se vê que o
mandamento negativo se dirige ao juiz da sentença no primeiro processo, ab initio. Quer dizer: desde o seu
despacho sobre o pedido para além do tempo que o pedido no segundo processo abrange. Mandamento contra a
eficácia da sentença que for pro ferida ou que se proferiu, razão por que a ação pode ser proposta antes de haver
qualquer sentença do primeiro processo.
(c) A ação de modificação, ainda depois de transitar em julgado a sentença nela proferida, não obsta a outras
ações de modificação que invoquem outras causas (e . g., mudança de circunstâncias em época mais próxima). A
segunda ação pode ser somente do primeiro processo ou contra a eficácia da sentença na primeira ação de
modificação.

5)CUSTAS E OUTRAS DESPESAS. No art. 24 diz-se: “Nos procedimentos de jurisdição voluntária, as


despesas serão adiantadas pelo requerente, mas rateadas entre os interessados”. É aqui que havemos de descer a
exames pormenorizados. Se os autores são dois ou mais, ou um deles ou algum
deles adianta as despesas, ou todos o fazem. O Estado, que prometeu a tutela jurídica, não pode admitir que haja
o adiantamento parcial (que cada um dos autores acuante quanto quiser). O dever e obrigação é de todos,
solidariamente. Se o autor foi um só e fez citar os outros interessados na propositura, ele é que adianta. Se um ou
alguns se antecipam no pagamento das despesas, apenas há o direito de haver dos demais o que lhes corresponde
e foi adiantado
Se a ação de jurisdição voluntária partiu do Ministério Público, não se traga a exame o art. 27, onde se estatui
que as despesas dos atos processuais, efetuados a requerimento do Ministerio Público ou da Fazenda Pública,
serão pagas a final pelo vencido. Nas ações de jurisdição voluntária, não há réu; portanto, não há vencidos. As
despesas têm de ser colocadas dos interessados, inclusive da entidade estatal que o Ministério Público
representou.
Rateamento, aí, é a distribuição do passivo conforme a atuação de cada interessado. Aqui, o que vige é o
princípio do interesse, e não o principio da parte vencida ou princípio da sucumberia.
O pagamento em juízo é integral, mas pode haver negócio jurídico entre os autores para que um deles pague por
todos. Se não houve, a solução é a de ratear-se o quanto entre os interessados. No desquite por mútuo
consentimento podem os cônjuges, na petição, dizer qual dos cônjuges adianta as despesas, ou um deles se
vincula a prestar o pagamento, inclusive no tocante a registro de bens.

Art. 1 . 112. Processar-se-a na formei estabelecida neste Capitulo’) o pedido de:

1 emancipação
II sub-rogação ’2Y26);
111 alienação, arrendamento ou oneração de bens dotais, de menores, de órfãos e de interditos 27)~4O);
IV alienação, locação e administração da coisa comum41) 53);
V alienação de quinhão em coisa comum
VI extinção de usufruto e de fideicomisso 6S)~78)

1)AçõEs A QUE SE ESTENDE O PROCEDIMENTO. O artigo 1.112 exemplifica o procedimento, em geral, de


jurisdição voluntária. Note-se tem: exemplifica.
Conforme antes expusemos, as regras jurídicas gerais dos arts. 1.104-1.111 apanham as ações de jurisdição
voluntária a que se dedicam os Capítulos II-XI, as que constam do art. 1.112 e as que não foram mencionadas em
qualquer desses textos, uma vez que sejam de jurisdição voluntária e alguma lex specialis não haja afastado a
incidência do artigo 1.110.

2)SUPLEMENTO tE IDADE (“vENIA AErATIs”). Desde logo, lamentemos o erro de terminologia, que se
repete no Código de 1973. O instituto, de que se trata, é o de suplemento de idade, ato judicial com que se
completa, se suplementa, a idade de quem já atingiu os dezoito anos. Alguns juristas se enganaram na
caracterização dos dois institutos:
a emancipação, ato divestitívo do titular do pátrio poder, que permite continuar a pessoa sob a tutela de outrem, e
a venta aetatis. Essa não é instituto de direito de família; mas de Parte Geral do direito civil, originariamente de
direito público, como privilégio, por serviço militar, ou outro mérito. Faz pena comparar a precisão dos velhos
escritores de outrora, que tanto discutiam essas coisas, e os de hoje, pouco atentos à lição anciã e à terminologia
dos povos de alta cultura jurídica.
Quem emancipa (de emancupo) põe fora do seu poder, por mancipatio. Não pode suplementar idade, porque isso
pertence ao Príncipe, ao Estado.
Essa confusão foi responsável pelo esquecimento de se exigir a homologação à concessão pelo pai ou pela mãe,
titular do pátrio poder, e contra a interpretação lutamos sempre, até que o Decreto n. 4.857, de 9 de novembro de
1939, art. 16, § 2.0, foi explícito: “. . .deverá ser homologada pelo juiz
togado a que estiver sujeito o oficial competente para a anotação”. Dentro de processos de inventário, há quase
meIo
século, tivemos o ensejo de consignar muítissimos casos, perturbadores, em que os país e as mães, fiscalizados
na administração dos bens dos filhos, se livraram do incômodo, “emancipando-os”. A alguns casos chamamos
suplementos de idade in fraudem legis; outros eram abertamente dolosos e contrários aos interesses dos filhos,
como dois, ou três, feitos nas vésperas de começar a correr o prazo para interposição de recursos, perdendo-o os
suplementados. Falta outro texto, que reponha a terminologia exata, velha de tantos séculos, e expressiva. Sobre
a crítica ao direito anterior, além de decisões nossas, quando juiz, o nosso Fontes e Evolução do Direito Civil
Brasileiro (160).
O suplemento de idade completa a “idade” do menor para a tornar “maioridade”. Tal o que diz a expressão
(“suplemento”) e tal o conceito jurídico. É a venia aetatis, que nem sempre ocorria com a emancipatio; nem o
nosso direito as confundia. A troca de nomes afeou o Código Civil, que trocou 03 conceitos, na ânsia de copiar
leis de países estrangeiros, em vez de aprender a ciência do direito, seja onde for, e aplicá-la ao aperfeiçoamento
da nossa técnica legislativa.
Se procuramos descer ao fundo do Instituto, o que encontramos é o critério da apreciação a posteriori da
capacidade,em vez do critério da quantitatividade fixa (vinte e um anos, no Código Civil). A tese da qualificação
(julgamento a postetiori da capacidade), para que o homem apto entrasse na classe dos capazes, opôs-se a
antítese da qualificação. Atenuou a luta a graduação intermédia (infantes, infantiae proarimi, ~ubertati proximi).
A fixação quantitativa legal, sem se excluir, depois de certa idade (antítese), a verificação do merito (tese),
produziu as diferentes sínteses de que dão exemplo os Códigos Civis contemporâneos.
A aptidão militar ou sacerdotal, a posteriori, foi a causa mais encontrável de “maiorização ”. Não se tratava de
completar, suplementar a idade menor para a fazer maior, e sim, apenas, de determinar a capacidade. No período
pré-romano do direito lusitano, a condição de incapaz persistia para o filho, durante toda a vida; e o direito
romano recebido apenas abria as portas da “emancipação”. No direito visigótico, foi notável a evolução: acabou
o direito de vender os filhos, e o lus vttae necis que (salvo para as filhas encontradas em relação sexuas ilícitas).
O casamento fazia cessar o pátrio poder. Se o filho vivia separado do pai, com o seu consentimento, aos vinte
anos de idade iniciava-se a capacidade (quantificação, antítese). No direito da Reconquista, apareceu a tutela para
filhos que os pais maltratavam.
A venha aetatís proveio de privilégio imperial, já em Roma, embora rarissímo; e obedecia a limite quantitativo
mínimo (vinte anos para os varões; dezoito para as mulheres; a evolução posterior foi no sentido da lei geral de
simetria). A ação de venia aetatis, correspondente à pretensão á constituição da capacidade, foi após a recepção.
No direito processual civil, a ação constitutiva é exercida pelo menor, porém maior de dezoito anos, que é autor,
sendo o réu o pai, ou mie, titular do pátrio poder, ou o tutor. A ação de homologação das “emancipações”
concedidas, segundo o Decreto n. 4.857, de 9 de novembro de 1939, art. 16, § 2.0, era exercida pelo próprio pai
ou mãe “emancípante” ou pelo filho “emancipado’). O contraditório é eventual e transforma ri uma. das çartes
em íéu un acao dita contenciosa.

A Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973, sobre os registros públicos, no art. 89, diz que serão “registrados em
livro especial as sentenças de emancipação, bem como os atos dos pais que a concederem”, em relação aos
menores domiciliados na comarca. Nos arts. 90-94 volta a falar de emancipação e das providências.
O processo para o suplemento de idade, aí, é o de pedido de homologação; ouvidos o menor e o órgão do
Ministerio Público, o juiz, se nada se argúi e está convencido do acerto da medida, homologa. Se alguma
arguição surge, .admite prova, inclusive conforme o art. 1.107, e decide, conforme o.s arts. 1.109 e 1.110. Não há
indicação de meio de prova (testemunhal, documental, circunstancial).
Juiz competente é o do domicilio do menor, e não o de seu nascimento (1ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça
de São Paulo, 16 de novembro de 1948, R. dos ‘1’., 178, 155).

3)MENCE E REFRESENTAÇAO NO PRocEsso LE SUPLEMENIO LE IDALE. O menor, para se apresentar


no processo de suplemento de idade, não precisa de assistência do tutor. A prova da capacidade é a de que o
menor tem qualidades ou habilitações para administração dos seus bens e direção própria, que correspondem ao
comum das pessoas de vinte e um anos cumpridos, pelo menos. Não basta, portanto, a boa conduta (Corte de
Apelação do Distrito Federal, 20 de junho de 1933), nem o ser bom estudante, ou ter curso notável. O processo é
inquisitivo: o poder do juiz vai além dos próprios arts. 130 e 131, pois que há o art. 1.109.
Se o menor não tem tutor, nem por isso se lhe pode negar a suplementação de idade; mas há de ser nomeado tutor
ad hoc, ou tutor, que fale no processo.

4)FUNDAMENTOS DA SUPLEMENTAÇÃO DE IDADE. O Suplemento de idade resulta: a) da concessão do


pai, ou da mãe, que tenha pátrio poder; b) da sentença do juiz. É pres~ suposto comum o ter dezoito anos feitos.
Os outros casos são consequências de fatos (Código Civil, art. 9~ú, ~ 1.0, II-V) e independem de processo
judicial. A sentença, em ambos os casos, é constitutiva; a do caso a), integrativa. A concessão do titular do pátrio
poder é ao mesmo tempo declaração de vontade e comunicação de conhecimento (afirmação da “capacidade” do
menor): negócio jurídico unilateral.

e suplemento de idade por sentença é eficácia da decisão judicial, após exame do desenvolvimento do menor.
Embora não seja preponderantemente declarativa, não se pode dizer, como disse a 3~a Câmara Civil do Tribunal
de Justiça de São Paulo, a 25 de outubro de 1951 (R. dos T., 197, 247; R. F., 146, 319), que não há direito, não há
pretensão à decretação. Há pretensão à tutela jurídica e há pretensão à decretação. Quem tem mais de dezoito
anos e satisfaz os pressupostos do art. 92, ~ 1.<~, 1, do Código Civil tem direito e pretensão a decretação. A 3,~
Câmara Civil sublinhou as expressões “concessão” e “sentença”, mas a expressão “concessão” está, no art. 9, §
1.0, 1, em lugar de conferimento, o que é vulgar na redação das leis, posto que, em boa terminologia, reprovável.
Dá-se o mesmo a respeito de invenções e outras criações industriais, a respeito das quais impropriamente se fala
de “concessão)’ e, até, de “privilégio)’, reminiscência regaliana.

5) PROVAS. As testemunhas não são indispensáveis A prova pode ser documental. A audiência do tutor e do
órgão do Ministério Público é independente de terem, ou não, assistido.

6) IMPUGNAÇÃO . Tutor e Ministério Público podem impugnar o pedido, alegando a falta de idoneidade do
menor e provando-a. Se aquele ou esse impugna, há novo dia para as provas do órgão do Ministério Público e do
tutor.

7)AuDIÊNCIA co MENOR. Basta que haja alegações ou provas, para que se ouça o menor; porque, tratando-se
de comunicações de conhecimento, se aplica o art. 334. Os artigos 1.107, 2Y- parte, e 1.109 são expressivos.

8)PRocEsso INQUIsITIvO. Regem os princípios do processo inquisitivo.

9)FORÇA EFICACIAL E ELEMENTO MANDAMENTAL DA DECISACÃO. A sentença, que concede o


suplemento, tem de ser enviada, por cópia, ao registro civil. Os seus efeitos, entre pai ou mãe, titular do pátrio
poder, que recusou o suplemento, entre tutor e tutelado, começam do trânsito em julgado. A força erga omnes,
somente da inscrição. Depois de feita a inscrição no livro especial, é de proceder-se à anotação no registro de
nascimentos e nos mais a que interesse.
Quanto a necessidade de haver sentença, no tocante ao suplemento de idade, a Lei n. 6.015, de 31 de dezembro
de 1973, afastou qualquer discussão, pois, no art. 89, explicitamente está dito que têm de ser registrados, em livro
especial, as sentenças ditas de emancipação, como os atos dos pais que a concedem. Assim, as únicas espécies
em que se não cogita de sentença são os suplementos de idade que os pais concederam. A capacidade começa,
pois, com o ato do titular do pátrio poder, que tem de ser registrado para a eficácia erga omnes. Com o
casamento ou com o exercício do emprego publico efetivo, ou com a colação de grau científico em curso de
ensino superior, com o estabelecimento civil ou comercial, com economia própria, ou com o serviço militar se o
menor completou dezessete anos (Lei n. 4.375, de 19 de agosto de 1964, art. 73; Decreto n. 57.654, de 20 de
janeiro de 1966, art. 239), é exigida a sentença registrada.

Na Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973, art. 91, parágrafo único, enuncia-se que “antes do registro, a
emancipação, em qualquer caso, não produzirá efeito”. Mas a eficácia, aí, é da sentença, pois o art. 91 estabelece:
“Quando o juiz conceder emancipação, deverá comunicá-la, de ofício, ao oficial do registro, se não consta dos
autos haver sido efetuado este dentro de oito dias”. Aí é posta em evidência a responsabilidade do juiz que
proferiu a sentença, ou quem o substitui. Quem teve ciência da sentença não pode invocar o art. 91, parágrafo
único, da Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973, porque efeito sentencial houve, o que não houve, se ao
registro não se procedeu, foi a eficácia erga ormes. É o que se passa com os figurantes do contrato de
transmissão da propriedade imóvel, antes de se proceder ao registro do contrato. As vezes, a alienação é, até, em
hasta pública, e o registro serve a efeitos que o edital não produzira.
Na ação de suplemento de idade, o menor que já alcançou dezoito anos, ou em caso de serviço militar, dezessete,
tem capacidade processual. Não se invoquem os arts. 8.0 e 92 do Código de Processo Civil, em que se diz que os
incapazes serão representados ou assistidos por seus pais, tutores ou curadores, na forma da lei civil, e que o juiz
dará curador especial ao incapaz, se não tiver representante legal, ou se com os interesses colidirem o do
representante legal. O que o menor de vinte e um anos e maior de dezoito anos (ou de dezessete, no caso de
serviço militar) exerce é a sua pretensão à tutela jurídica, em ação de suplemento de idade. Aí, a própria lei supóe
que haja a capacidade processual, porque o que se pede é a declaração da capacidade de direito material. Se não
há prova do elemento suficiente para o suporte fáctico de alguma das regras jurídicas do Código Civil, art. 9~o, ~
12, I-V, e § 2.0.
Temos de entender que hão de ser ouvidos os interessados e o Ministério Público (art. 1.105). Por exemplo: o
titular do pátrio poder ou o tutor do maior de dezoito anos (ou de dezessete, em caso de serviço militar), que aí
não assistem, são citados. A decisão do juiz, favorável ou desfavorável, é declarativa, positiva ou negativa. Se se
trata de ação de suplemento de idade em que é citado o titular do pátrio poder ou o tutor, que se recusa à
concessão (Código Civil, art. 9», § 12, 1), então tem o juiz de verificar se quem se negou a conceder não tinha
razão. No Tratado das Ações. Tomo II (Ações declaratórias), 78, mostramos que, ai, a sentença éde força
constitutiva (3 de declaratividade, 5 de constitutividade, 1 de condenatoriedade, 4 de mandamentalidade, e 2 de
executividade). Diferentes as outras ações de suplemento de idade (5 de declaratividade, 3 de constitutividade, 1
de condenatoriedade, 4 de mandamentalidade e 2 de executividade). Cf. Tratado das Ações, III, 29 s.

10) RECURSO. O recurso é ode apelação (art. 1.110), inclusive do indeferimento do pedido de venia aetatis (cf.
42~ Câmara Cível do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, 30 de janeiro de 1945, D. da J., de 14 de março,
1336).

11)SUPLEMENTO POR LEI E AÇAO DECLARATÓRIA . lia casos em que não se precisa de constituir a
capacidade, isto ~, quando essa decorre de fato (casamento, exercício de emprego público efetivo, colação de
grau científico em curso de ensino superior, estabelecimento civil ou comercial, com economia própria, cf.
Código Civil, art. 9•Ú, § 1.~, II-V), de exercício de serviço militar, se completos os dezessete anos de idade
(Código Civil de 1916, art. 92, § 2.0). Se há interesse em prova, basta justificação com documentos e
testemunhas; se alguém a nega ou está em causa alguma relação juridica, é intentável a ação declarativa típica
(art. 42).

12)AçÃo DE SUB-ROGAÇAO . Os Romanos desconheceram a significação atual, larguíssima, da sub-rogação.


Tiveram a sub-rogação da pessoa, em lugar de outra (sub-rogação subjetiva), que evolveu, através do direito
canônico, até à sub-rogação pessoal do direito francês. A sub-rogação real, essa assenta na Glosa (Pretium, in
universatibus, s-uccedit in locum rei, et res in locum pretii). Foi produto da teoria dos urtiversalia. (Sobre essa
evolução, nossos Tratado dos Testamentos, III, 353-355; e Tratado de Direito Privado, LVII, § § 5.754 e 5.756.)
C papel de JAsÃO DE MAINO, no século XVI, de C. G. voN WACHTER (Erorterungen, 9 e 13) e do direito
francês (com a teoria da ficção) foi enorme. As tratações sistemáticas, no sentido de se extrair o princípio da sub-
rogação, são recentes: THIELE (Studíen zum ehelichen Guterrecht, Archiv fíir die civiUstische P-raxis, 91, 1 s.),
E. WINDMULLER (Die Bedeutung und Anwendungsfalle des Satzes Pretium succedit in locum rei, res in locum
pretíi, 13), JosEF KOHLER (Das Vermogen, Archiv jur Burgerliches Recht, 22, 1 5.) e o nosso estudo no
Tratado dos Testamentos (III, 353-378).

Nas coisas coletivas, nos universalia, opera-se certa organização aquisitiva necessária (Código Civil, art. 56).
Mas outros casos há em que, no interesse do sujeito dono de um bem, ou de outras pessoas que têm Interesses no
bem, se estabelece o principio da sub-rogação real. Certo, ali há aquisição necessária; aqui, adoção de critério de
destinação. Se se opera, ou não, a sub-rogação, o assunto depende do princípio de sub-rogação por nós estudado
na obra acima citada e no Tratado de Direito Privado (Tomos II, § 154, VIII, § § 855, 11, 896, 4, 934, e XII, §
1.282).

No sentido da ação de jurisdição voluntária, sub-rogação é o princípio (ou o in~stituto que dele resulta), segundo
o qual bem ou bens tomam o lugar de outro ou outros, em substituição jurídica, portanto submetendo-se ao
mesmo regime. Para que ocorra, é preciso: a) que o bem adveniente entre em patrimônio, de que o bem saiu; b)
que o patrimônio ou esse bem estivesse (esteja) sujeito a regime próprio. Cumpre não confundir essa noção com
a noção de fungibilidade.
No sentido do que dissemos quanto a se ter de indicar o bem sobre .que recairá a cláusula, a 5.~ Câmara Civil do
Tribunal de Justiça de São Paulo, a 6 de junho de 1952 (R. F., 147, 279).
Não há sub-rogação se se pretende, com a venda de um bem, reparar outro. A sub-rogação é noutro bem, ou, por
exemplo, em apólices da dívida pública (Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará, 8 de maio de 1952, J. e
D., VI, 7C). A ~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, a 23 de fevereiro de 1951 (A. J., 101,
484), lançou proposições como essa, qu.e deve ser repelida energicamente, por violação de rudimentares
princípios jurídicos: “O restabelecimento da situação anterior, ou de retorno da cláusula sobre os bens em que
incida, só deve ser feito quando se verifique a conveniência de tal medida”. Não seria isso sub-rogação, mas
levantamento de cláusula, revogação estabelecera o testador ou o doador.
As custas do processo de sub-rogação não podem sair do preço ou valor do bem gravado (sem razão, a 3.~
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 24 de abril de 1950, R. dos T., 186, 274).

13) COMPETÊNCIA JUDICIAL. Quanto ao foro da ação de sub-rogação, é determinado pela conexão,
segundo sempre praticamos como juiz, defendendo a competência dos juizes que ordenaram a gravação da
cláusula de inalienabílidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade, e. g., o juiz do inventário. Assim, o
Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, a 12 de julho de 1927, R. da R., 1, 470; e a 6.~ Câmara da Corte de
Apelação do Distrito Federal, a 3 de novembro de 1933 (CÂNríro DE OLIVEIRA FILHO, Prática Civil, XII,
249; contra pareceres de CLÓVIS BEVILÁQUA e A. MENDES PIMENTEL, 245, a favor do foro do
domicilio). Se. se trata de inalienabilidade, ou de impenhorabilidade ex lege, o foro é o do bem, ou o do
domicílio, conforme a vedação de dispor se origina da razão a parte obiecti, ou de razão a parte subiecti, como a
dos bens pertencentes a Municípios, inalienáveis por lei, e sitos noutro Município.
Alguns acórdãos sobre sub-rogação são errados; e. g., o da 2.R Câmara Cível do Tribunal de Apelação do Rio de
Janeiro (14 de novembro de 1944), que negou a competência do juízo clausulante.

14)Sub-RogAçÃo DE BENS INALIENÁVEIS. Fala-se de sub-rogação de “bens inalienáveis”, para se frisar que
os outros casos de sub-rogação se operam ipso iure; mas, havendo, como há, outros casos de sub-rogação pedida
ao juiz, a referência é exemplificativa. Quanto às sub-rogações ipso iure, a lei processual nada tem com elas.
Passam-se no terreno do direito material, e somente nele; salvo quando seja efeito de direito material da sentença
(e. g., se há condenação a indenizar, no caso do art. 762, § 1.~), do Código Civil).

15)BEM SUB-ROGADO E BEM SUR-ROGANTE. A indicação do bem a ser alienado e a do bem que se
pretende adquirir (bem adveniente) são elementos do conceito mesmo de sub-rogação. A referência à permuta ou
troca é supérflua: seria útil, se se houvesse aludido, antes, à venda. Dizendo bem a alienar-se e bem a adquirir-se,
tudo ficou dito. A particularidade da sub-rogação de bens inalienáveis está em que a lei exige que o juiz
examine in casu a alienabilidade excepcional, a equivalência do bem alienado e do bem adveniente e permita a
alienação e a aquisição. Há declaração de vontade do juiz, porém não tanto quanto nas ações de suprimento
judicial de outorga de consentimento ou assentimento. O elemento de declaração de vontade não chega a
caracterizar a resolução judicial: é mais decisão do que “declaração”; o conteúdo de comunicação de
conhecimento é mais forte, donde quase completo esvaziamento de vontade do juiz. Mais julga do que toma
parte em negócio jurídico. Daí vem que a ação perde muito do que seria a ação constitutiva típica, porém não é
ação declarativa, a despeito da grande dose de declaratividade; continua sendo ação constitutiva, cujo conteúdo é
a sentença constitutiva de sub-rogação, com es efeitos de recebimento do preço que há de ser depositado.

16)REcuRso. Quer se negue quer se decrete a sub-rogação, o recurso que se pode interpor é o de apelação (1.R
Câmara Cível do Rio de Janeiro, 1) de dezembro de 1952; 4Y- Câmara Cível do Distrito Federal, 8 de julho de
1952, D. da J. de 26 de fevereiro de 1953).
De valor teórico e prático é comparar-se a sentença do art. 641 do Código de Processo Civil, executiva, com a de
sub-rogaçáo , constitutiva: ali, o juiz nenhuma declaração de vontade sua emite; ao passo que, embora lastreado
de comunicações de conhecimento, na ação de sub-rogação, o conteúdo da sentença é declaração de vontade,
donde serem constitutivas a ação e a sentença de acolhimento.

17)PETIÇÃO. A petição está sujeita aos arts. 232, 295 e 1.1C4. A parte da sentença em que se verifica se o caso
é de alienação não é simples questão prejudicial; pertence ao pedido mesmo. A avaliação obedece aos arts. 680,
2.~ parte, C81-685, no que lhe corresponde.

18) suB-RoGaçÃo. O fiscal, depositário, é depositário judicial, mas o depositante (consignatário) não é o juiz: é
o dono do bem vendido. Tem, perante o juízo, as responsabilidades e penas do depositário judicial. As ações de
depósito cabem ao dono do bem vendido e ao órgão do Ministério público, por sua função de parte nas ações
sobre bens inalienáveis, para que se efetive a cláusula ou se observe a lei. Mas é o fiscal instrumento do juiz.

19)PREÇO DE INDENIZAÇÃO E sUB-ROGAÇÃO . A transferência do ônus obedece, na venda e compra, à


seguinte construção no tempo: (a) bem inalienável (a vender-se) e inalienabilidade que termina com a venda
(entrega do preço); (L) preço inalienável, pelo princípio de sub-rogação (Pretium in inalienalibus succedit in
locum rei); (c) bem alienável, que é inalienável desde a compra. O preço tem a inalienabilidade do bem
destinado a um fim e que somente para esse fim se aliena. Para resguardá-lo é que o juiz nomeia o fiscal e esse
responde como depositário do dinheiro. O bem adveniente é submetido a todas as exigências legais (pagamentos
de impostos, extinção de garantias reais, gravação de inalienabilidade, etc.), a que estava subordinado o bem
vendido. No caso de troca ou permuta, só há dois momentos: o momento (a) e o momento (c). O Decreto-lei n.
6.777, de 8 de agosto de 1944, estabeleceu (art. 1.0) que “na sub-rogação de imóveis gravados ou inalienáveis,
estes serão sempre substituidos por outros imóveis ou apólices da divida pública”. No art. 2/) foi dito: “Se
requerida a sub-rogação mediante permuta por apólices da dívida pública, o juiz mandará vender o imóvel em
hasta pública, ressalvado ao interessado o direito de conservá-lo livre, desde que, antes de assinado o auto de
arrematação, ofereça, em substituição, apólices de valor igual ou superior ao de maior lanço acima da avaliação,
ou ao desta, na falta de licitante.”
Por vezes acontece que a sub-rogação ~e imponha, ou seja de acolher-se, por se verificarem circunstâncias
supervenientes que o testador ou doador não previu e façam inadequado o bem à finalidade que o alienante
queria ou impusera. Advirta-se que o juiz tem a função do art. 1.107, isto é, de investigar livremente os fatos e de
ordenar a realização de quaisquer provas. Uma das suas atribuições básicas é a de pesquisar e atender à vontade
de quem quis a cláusula de inalienabilidade (C. LEGROS, Des Clauses d’inaliénabilité dans les actes à titre
gratuit, 97; M. DIMITRESCU, Des Clauses d’inaliénabilité suivant la jurisprudence, 105). Se é assunto do
Decreto-lei n. 6.777, tem de ser respeitado.
A respeito, disse a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará, a 31 de março de 1952 (J. e D., VII, 179): “O
art. 1.~ do Decreto-lei n. 6.777, de 8 de agosto de 1944, permitiu a sub-rogação, além da substituição por outros
bens imóveis , por apólices da dívida pública. Mesmo na hipótese de desapropriação por necessidade ou
utilidade pública (art. 1.676 do Código Civil), a importância da indenização aplicar-se-à na aquisição de outro
imóvel ou de apólices da dívida pública. ex vi do disposto no art. 1.677 do Código Civil combinado com art. 1.”
do Decreto-lei n. 6.777, de 8 de agosto de 1944. Assim, ressalvada a execução do próprio bem clausulado para o
pagamento de dívida resultante de impostos recaidos sobre o mesmo imóvel, só se admite a sub-rogação dos bens
clausulados, para que sejam substituidos por outros imóveis ou por apólices da dívida pública”.

20)CLÁuSuLAS DE RESTRIÇÃO DE PODER. No caso de gravação de cláusula de inalienabilidade,


impenhorabilidade e incomunicabilidade, o alvará, além de conter a permissão da venda ou da permuta. contém a
ordem de se proceder à transcrição com a cláusula. Pode dar-se que o bem adveniente pertença também ao dono
do prédio sub-rogado. Dá-se, ou não, o contrato de permuta consigo mesmo; de modo que se pode construir
como (a) transferência sem mudança de sujeito (negócio unilateral) e como (b) transferência com mudança de
sujeito (negócio bilateral), a despeito de serem o mesmo o adquirente e o alienante, ou (c) sem transferência.
Naturalmente, as soluções (a) e (b) não podem ser admitidas quando se trate, por exemplo, de alienar bem de
usufruto ou de fideicomisso, porque elemento real se transfere e não seria admissível eliminá-lo na construção. A
solução no caso de se haver vendido um bem de propriedade do que pede a sub-rogação, por outro também de
sua propriedade, e a solução (c), que lembra o ato unilateral de vontade (declaração unilateral de vontade), a que
recorria MAX RUMELIN (Das Seibstcontrahieren des Stellvertreters, 15-28), que seria falsa em muitos
negócios juridicos do representante consigo mesmo, porém, aí, de toda. a pertinência. A construção do Código de
1939, art. 632, estava certa: “se uns e outro6 bens pertencerem ao requerente” e só se tratar de cláusula de
inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade, apenas ocorrerá declaração unilateral de vontade do
dono dos prédios, sem transmissão de propriedade. A Fazenda Publica não pode, ai, cobrar imposto de
transmissão de propriedade.

21)DESAPROPRIAÇÃO E SUB-ROGAÇAO . No caso de desapropriação, tudo se passa como à nota 19); ou,
se o desapropriante entrega apólices da dívida pública ou bem, ad instar das permutas. Ai, não há ação de sub-
rogação quanto ao preço, mas sub-rogação consequente à sentença de desapropriação. Efeito de sentença, não
conteúdo de ação e sentença. As formalidades registrárias são feitas por mandado, quer as de extinção, quer as de
nova gravação. Cf. Código Civil, artigos 1.676 e 1.677. Sobre a competência, nota 24).

22)SUB-ROGAÇÃO SEM Ação . No caso de indenização, não há ação cujo conteúdo seja a sub-rogação; essa é
efeito da sentença, e só isso. Adiante, nota 24).
As despesas com a sub-rogação incluem-se na indenização (2.a Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São
Paulo, 24 de fevereiro de 1942, R. F., 91, 172).

23)SUB-ROGAÇÃO E GRAVAMES. Advirta-se que de modo nenhum se permite que se sub-roguem bens
livres por bens onerados, e sim que se troquem os bens gravados por outro~’
livres, que se venham a gravar. Não há bens inalienáveis c” impenhoráveis onerados com outro gravame que
esse. No case porém, de haver conveniência em se sub-rogar bem por uma causa por bem gravado por outra
causa, o alvará autoriza a que se troquem as respectivas clausulações .

24)JuIz QUE DESAPROPRIA OU INDENIZA E JUIZ QUE MANDou GRAVAR. É assaz importante notar-se
que a desapropriação nem sempre seria da competência do juiz que mandou gravar. Nem, sequer, o seguro.
Sendo outro o juiz, a sub-rogação não passa de e jeito da sentença: nada mais tem de fazer o juiz do gravame, a
sub-rogação operou-se; e o juiz da desapropriação tem de mandar que se deposite o preço, com a restrição legal,
ou que se proceda à transferência do gravame. Quanto à aplicação desse preço, nenhuma competência tem o juiz
da desapropriação, porque cessou a sua cognição com a sentença. É o juiz do gravame que decide quanto à sub-
rogação do preço pelo bem adveniente. A natureza das duas resoluções, a do juiz da desapropriação e a do juiz
do gravame, esclarece bem as duas relações juridicas: a) o juiz da desapropriação nenhuma declaração de
vontade emite, nem, sequer, resolve sobre sub-rogação; apenas julga a desapropriação; a sub-rogação é efeito; b)
o juiz do gravame examina, in casu, a sub-rogação.
No caso de execução por dívida dos impostos prediais (Código Civil, art. 1.676), a sub-rogação também é
consequente à execução, e não sub-rogação por pedido ao juiz. (Sobre os problemas que surgem, fora dos já
examinados acima, quanto à competência, Tratado dos Testamentos, III, 352; Tratado do Direito Privado, LVII,
§ § 5.754 e 57756.)

25)AUTORIZAÇÃO PARA VENDA. A autorização para venda já é primeiro passo para a sub-rogação: o preço
sub-roga-se ao bem, desde o momento em pue se realiza a compra-e-venda, com a substituição do titular do
direito real. O preço mesmo, ainda que destinado a fim (aquisição de outro bem), já é sub-rogado, já está sujeito
às cláusulas de restrição de poder, a que estava sujeito o bem vendido. Outro momento é o da aquisição do bem
que deve substituir o vendido e, pois, o preço desse: o preço deixa de ser clausulado no momento em que se
clausula o bem adquirido. Processualmente, tudo se passa sem descontinuidade, pela intermediariedade do preço.
O depósito do preço, até que se lhe dê a aplicação devida, tem a função de assegurar a ficção legal da sub-
rogação. Essa ficção, que se baseou na L. 20, § 1, e na L. 33, § 1, D., de heredítatis petitione, 5, 3, através da
Glosa, evolveu até o principio de sub-rogação (o “grande desconhecido”, no dizer de A. WALLEE, Surrogation,
22), princípio que pertence ao direito material, e não ao direito processual.
No Código de 1939, art. 632, dizia-se que, concedida a autorização e efetuada a venda, o juiz nomearia fiscal,
que receberia o preço e procederia à compra dos bens, aos quais se transferia o ônus. Tal fiscal ficaria sujeito a
responsabilidade e penas de depositário, enquanto não prestasse as contas em juízo. O Código de 1973 não o
reproduziu. As vezes é desnecessária a providência para que se nomeie alguém que receba o preço e providencie
para a compra. No art. 1.107, 2.~ parte, permite-se ao juiz investigar livremente os fatos e ordenar, de ofício, a
realização de quaisquer provas; e pode ele adotar a solução que lhe pareça mais adequada (art. 1.109:
“mais conveniente ou oportuna”).
Se o critério, in casu, para a sub-rogação, é o da necessidade ou o da conveniência , responde o direito material
respectivo (4.a Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo, 6 de maio de 1943, R. dos T., 147, 667).
Oimposto de transmissão é o da situação do imóvel, e só ele (3.a Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São
Paulo, 1.0 de setembro de 1943, R. F., 96, 350). As questões relativas a imposto de sub-rogação, fora do imposto
de transmissão, são de direito local e estranhas ao direito processual civil.

26)RECURSO. Da decisão que decide sobre a sub-rogação de bens o recurso é o da apelação (já assim antes,
Conselho de Justiça do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. 13 de fevereiro de 1947, R. F., 113, 132).

27)BENS DE INCAPAZES. “Bens de incapazes” diria tudo. Menores são incapazes, O Código Civil, art. 429,
disse que os imóveis pertencentes aos menores somente podem ser vendidos quando houver manifesta vantagem,
e sempre em hasta pública. O art. 386, tratando dos menores sob pátrio poder, exigiu a prévia autorização do juiz,
e não aludiu a venda em hasta pública. Duas correntes surgiram: uma, que aplicava, no caso dos filhos sob pátrio
poder, a parte final do art. 429; outra, que distingu-la as espécies. O Código de Processo Civil de 1939, ficou ao
lado da última (art. 635). A questão é de direito material. Tem-se, pois, a estrita observância do art. 429, parte
final, do Código Civil.

28)FALTA DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. C~5digo Civil, art. 429; exceto no caso dos arts. 455, § 2Y, e
251, parágrafo único. A falta de autorização judicial é nulidade de direito material (Corte de Apelação do Distrito
Federal, 3 de novembro de 1931, 18 de maio de 1932, A. J., 23, 359).

29)FREssuPcsr3 DA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. Código Civil, arts. 427, V, 453. A falta de autorização é
nulidade de direito material (Tribunal de Justiça de São Paulo, 1.0 de setembro de 1931, R. dos T., 79, 613; 18 de
novembro de 1932, 86, 151).

30)IMPROPRIEDADES DE LINGUAGEM. Em nenhum dos incisos do art. 427 do Código Civil se falou de o
tutor ou curador hipotecar os bens do menor ou do interdito, O Código de 1939, art. ~35, falava de “hipotecar ou
onerar bens pertencentes a órfãos ” (lapso! há tutela sem orfandade) “ou a interditos”, O mesmo erro está no
Código de 1973, artigo 1.112, III.

31)DIFERENÇA DE TEXToS. Nos casos de venda de bens de menores sob o pátrio poder, es pressupostos de
direito material para a venda são: a necessidade, ou a evidente utilidade da prole (Código Civil, art. 386). Nos de
venda de bens de menores sob tutela ou de interditos, exige-se a “manifesta vantagem” (Código Civil, arts. 429 e
452). A prática não conseguiu distinguir os dois conceitos (necessidade ou evidente utilidade do filho e manifesta
vantagem do menor): a “manifesta vantagem” compreende a necessidade e a evidente utilidade.

32)PERMUTA DE BENS DE INCAPAZES. O Código de 1939 não cogitou da permuta de bens de incapazes,
que já se ia insinuando, perniciosamente, na jurisprudência (Tribunal de Relação de Minas Gerais, 10 de outubro
de 1928, R. dos T., 70, 171; Corte de Apelação de São Paulo, 21 de outubro de
1936, R. F., 69, 327). A 5,a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 20 de junho de 1952 (R. dos T.,
203, 315), reputou impraticável, por haver a exigência legal da hasta pública, a permuta de bens de tutelados ou
curatelados. O art. 1.112, III, do Código de 1973, em vez de venda, falou, explicitamente, de “alienação”.

33) JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA OU JURISDIÇÃO CONTENCIOSA?

A inserção dos processos da classe do que está regulado no art. 1.112, III, do Código não basta, no sistema
juridico brasileiro, para os tornar litígios. Mas a inserção no Livro IV tem essa consequência, salvo regra jurídica
contrária. Em nenhum deles é tão forte a reminiscência da voluntarra turis
clictio; porém é mais aparente do que real tal aspecto. O órgão do Ministério Público é necessariamente ouvido.
Essa audiência tem de ser provocada. Ainda que seja de simples vista, a relação jurídica processual faz-se
angular: tutor ou curador, juiz; juiz, órgão do Ministério Público. É parte o menor que já fez dezesseis anos; não
o próprio absolutamente incapaz, ainda que possa dar esclarecimentos. Porque, tratando-se de relativamente
incapaz, necessariamente tem ele de ser ouvido. Mais: se há algum parente do menor, ou do interdito, que por ele
se interesse, tem de ser ouvido. ‘Chegamos, pois, ao que mais importa: ~todas essas pessoas são partes, ou
algumas delas são informantes? Nem o órgão do Minist3rio Público, nem o dono dos bens podem ser tidos como
informantes. São partes, e podem recorrer da sentença que concede a autorização . Quanto ao parente, a lei de
modo nenhum circunscreveu o seu papel ao de informante: ao contrário, equiparou todas as pessoas do art. 1.112,
III. A fonte foi o art. 917 do antigo Código do Distrito Federal e sempre o interpretamos como pondo o parente
do incapaz na qualidade de interveniente adesivo, com a pretensão a defender e a usar de recurso. Entenda-se
qualquer parente, sem distinção de grau, pois o interesse, aí, é pelo incapaz, e não pela provável’ sucessão nos
seus bens. Não responde pelas custas, salvo dos seus ates ou recursos. O recurso é o de apelação (1.R Câmara
Cível do Tribunal de Apelação do Paraná, 20 de junho de 1945, Paraná J., 42, 21).

34)AVALIAÇÃO. A avaliação rege-se pelos arts. 680-683. O arrendamento em praça, ou leilão, faz-se por
lanços, de acordo com a avaliação, a qual deve ter tomado por base contrato-tipo, para que os lanços possam
consistir em maiores vantagens quanto às cláusulas, se não houve discriminação das que não podem variar. O art.
704 é aplicável.

36)BENS DOTAIS. Dote é a porção de bens que a mulher, ou alguém por ela, transfere ao marido, a fim de
contribuir com os frutos e rendimentos para os encargos do casamento, com a cláusula de restituição ao se
dissolver a sociedade conjugal. É incomunicável, ainda que se dê transferência do domínio, figura jurídica
especialissima, que examinamos nos livros Direito de Família (í.~ ed., 201, s., 205-208; 3,5 ed., Tomo II;
Tratado de Direito Privado, Tomo VIII, § § 911-944). Não se procura, com o dote, garantir a subsistência dos
filhos, mas apenas subsidiar, na constância do matrimônio, a obrigação pessoal do marido de prover à mantença
do lar (ALVARO V&x.~Asco, Praxis Part itionum, 141). Concerne, pois, à sociedade conjugal, e não ao
vínculo. Ainda que esse persista, deve o dote ser restituído, qualquer que seja a causa da dissolução da sociedade
conjugal: morte de um dos cônjuges , nulidade ou anulação do casamento, desquite amigável ou litigioso, O
Código não trata dessas ações, que são de rito ordinário.
No pacto antenupcial pode ser incluída cláusula que limite ou amplie os direitos do marido quanto à alienação e
quanto ao gravame dos bens dotais. Na falta de cláusula expressa, presume-se transferido ao marido o domínio
dos bens dotais móveis e não transferido o domínio dos bens dotais imóveis (Código Civil, art. 290). Os imóveis,
em princípio, não podem ser alienados; de modo que só a expressa exceção no pacto antenupcial os faz
transferíveis ao domínio do marido.
Na ação de alienação, arrendamento ou oneração de bens dotais, ou de menores ou de interditos, que é a ação de
jurisdição voluntária, a petição há de ser fundamentada, têm de ser citados os interessados e o Ministério Público.
Se não há dúvida quanto a ser de deferir-se o pedido da autorização,
DISPOSIÇÕES GERAIS ART. 1.112)

quer se trate de alienação, de arrendamento ou de oneração ou gravame, o juiz pode ordenar as providências
necessárias, inclusive a da avaliação, e decidir.

Os arts. 420, 278-288 e 293 do Código Civil têm de ser atendidos.


Todo esse assunto é de direito material; razão por que remetemos aos nossos livros acima referidos.
Quando os bens dotais, imóveis ou móveis, são inalienaveis, certas circunstâncias e necessidade de certos fins
podem permitir que se alienem, dependendo a alienação, em tais casos excepcionais, de ser autorizada pelo juiz e
em hasta pública (Código Civil, art. 293). Os sete casos legais são os seguintes: (a) se, de acordo, mulher e
marido quiserem dotar as filhas comuns (Código Civil, art. 293, 1); (b) havendo extrema necessidade, por
faltarem outros recursos para a subsistência da família (Código Civil, art. 293, II), fundando essa exceção na
obrigação da mulher de alimentar, subsidiariamente, a família; (c) para pagamento de dívidas da mulher,
anteriores ao casamento, se o dote foi constituído pela mulher, quando não houver ou não bastarem os seus bens
extradotais e os móveis que por ela ou por outrem foram constituídos em dote (Código Civil, arts. 293, III, 299);
(d) para reparos indispensáveis à conservação de outro imóvel ou imóveis dotais (Código Civil, art. 293, IV),
donde se conclui que não podem ser alienados ou onerados para a conservação de bens móveis, nem para o
conserto e reparação de bens extradotais, quaisquer que sejam; (e) quando se acharem indivisos com terceiros, e
a divisão for impossível ou prejudicial (Código Civil, art. 293, V), mas, nessa hipótese, o preço deve ser aplicado
em outros bens, em que ficarão sub-rogados, e tais bens recém-adquiridos, ou da mulher, quer sejam móveis quer
imóveis, ficam, como os anteriores sujeitos a inalienabilidade; (f) havendo desapropriação, por utilidade pública
(Código Civil, art. 293, VI), em que se terá,igualmente, de empregar o preço em outros bens, que se sub-roguem
aos antigos para todos os efeitos; (g) quando estiverem em lugar distante do domicílio conjugal, e for manifesta a
conveniência de aliená-los (Código Civil, art. 293, VII), devendo-se, como nos dois casos anteriores, substituir
por outros, que entrarão no dote com sub-rogação (Código Civil, art. 293, parágrafo único).
O marido responde pela alienação: a) se a fez fora dos casos acima referidos; b) se usou de simulação, invocando
alguma daquelas exceções; c) se deixa de empregar o preço. O juiz tem responsabilidade subsidiária (Código
Civil, art. 294).
O que se disse sobre a alienação dos imóveis dotais vale sobre a alienação dos móveis dotais inalienáveis; e não
vale para os imóveis que o pacto antenupcial excluiu da intransferibilidade.

37)BENS DOTAIS, VENDA E ONERAÇÃO. Entenda-se: bens dotais inalienáveis. As apólices da dívida
pública que foram deixadas em dote, sem expressa declaração de serem inalienáveis, ou sem se excluir a
transferência ao marido, presumem-se transferidas. Fora daí, são inalienáveis os móveis (Código Civil, art. 44,
II). A cláusula de não transferência contém a de inalienabilidade, porém só no caso excepcional do pacto dotal.
O interessado é o marido, ou a mulher, ou, no caso de desapropriação , qualquer dos dois ou o poder público
desapropria.nte. No caso de dívidas da mulher anteriores ao casamento, se o dote foi constituído por ela, qualquer
deles ou credor.
A autorização judicial é indispensável em qualquer dos casos do art. 293 do Código Civil. As mesmas a
responsabilidade do marido, que requereu a venda, e a do juiz que concedeu (Código Civil, art. 294).
38)PROCEDIMENTO EDITAL. A função do órgão do Ministério Público é a de fiscal. A avaliação obedece
aos artigos 680-684.
O órgão do Ministério Público, uma vez que não é parte, mas fiscal, não podia recorrer. Hoje, pode, porque o art.
499,§ 2.0, foi explícito. Se alguém recorreu, fala no processo nas duas instâncias (cf. 3.~ Câmara Cível do
Tribunal de Apelação do Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1941, A. J., 61, 260).

39)SUB-ROGAÇÃO REAL, EM QUAISQUER CASOS. Quando a lei exigir sub-rogação, isto é, nos casos (e),
(1) e (g) da nota 33, observa-se o processo de que falamos a respeito do art. 1.112, II.
Nos casas (a), (b), (c) e (d), dada a responsabilidade do juiz (Código Civil, art. 294), deve ser depositado o preço
para a aplicação de que tratam os incisos 1-1V do art. 293 do Código Civil, porém não se opera sub-rogação
(Código Civil, art. 293, parágrafo único). A nomeação do fiscal só é indispensável nos casos (e), (1) e (g).
40)EXIGÊNCIA GERAL DA HASTA PUBLICA. Código Civil, art. 293: “...salvo em hasta pública”. No caso
(1) ou de desapropriação, ocorre a aplicação conforme o art. 738 do Código Civil. No caso (c) ou de dívidas da
mulher, anteriores ao casamento, a hasta pública é indispensável. Não se pode prescindir dela. O privilégio do
dote passa à frente. Sobre isso, nosso Tratado de Direito de Família, 4.~ ed., vol. II.
As ações são constitutivas integrativas; bem assim, as sentenças favoráveis.

41)COIsA cOMUM; AÇÕES QUANTO A ELA. Quando a indivisibilidade da coisa comum a torna imprópria
ao seu uso em comum (a), ou quando a divisão da coisa (naturalmente divisível) a faz imprópria ao seu destino
(b), pode o condômino pedir a citação dos demais condôminos para resolverem sobre matéria, ou entregando-a à
administração de alguém, ou vendendo-a, ou alugando-a. Os dois casos estão longe de exaurir as dificultações e
impossibilitações do uso comum. O direito material somente focalizou as impossibilitações objetivas, que
merecem os cuidados do legislador do Código Civil (art. 632) quanto à venda (não quan~to à admini.straçáo, ou
à locação). Em vez de, nesses casos (a) e (b), pedir-se a alienação, o Código de Processo Civil de 1973, na
esteira do Código de 1939, arts. 405-409, concebeu o pedido normalmente como alienação, locação e
administração da coisa comum. Naturalmente, cabe a alternatividade de dois pedidos ou de três, ou de qualquer
deles, dos dois ou dos três com outro que se não mencione na lei (e. g., comodato a um dos condôminos,
reconstrução, demolição e novo aproveitamento, etc.). O Código de Processo Civil de 1939 não inovara, porque
os condôminos já possuiam, para a administração, para a locação, etc., a pretensão a “decisão” sobre uso, nesses
e noutros casos (Código Civil, arts. 635 e 623, 1). Fora do caso da alienação, a pretensão existia, existia a ação;
apenas essa não tinha qualquer procedimento especial. Esse ponto foi postergado, de maneira grave, pelos
comentadores, que desejaram, ao que parece, que o Código de 1939 houvesse previsto todas as ações (são elas
milhares!) das leis civis e houvesse impecável ajustamento numérico entre as pretensões, as ações e as formas
processuais. O Código somente conferiu o rito especial às ações entre condôminos que tenham fundamento
conforme direito material, em impossibilitações objetivas. Foi isso o que se estatuiu. É isso o que devemos
explicitar, de lege lata. Advirta-se, porém, em que não era e não é inaceitável, de lege ferenda, quanto se disse, o
critério do Código. As impossibilitações subjetivas podem esperar o rito ordinário.
42)NATUREZA DAS AÇÕES . As ações a que se refere o art. 1.112, IV, são ações constitutivas; a sentença
constitui o título que habilita aos contratos de alienação, locação ou administração. Distinções “interiores” ao
processo de constituição não transformam em declarativas as ações constitutivas do art. 1.112, IV, erro em que
incorrem juristas. A ação somente é declarativa, em vez de constitutiva, quando há declaração sentencial da
existência de declaração de vontade ocorrida antes do pedido. Aí, sim, a sentença seria declarativa, e não
constitutiva. Desde, porém, que se pede ato ou negócio jurídico que a ação vai provocar, a sentença é
constitutiva, e não declarativa, ainda quando o juiz se limite a homologar a declaração de vontade das partes.
Esse ponto, na ciência e na prática, é de extrema importância.
As ações para alienação, locação ou administração de. coisa comum têm os seguintes pesos de eficácia: 4 de
declaratividade, 5 de constitutividade, 1 de condenatoriedade, 2 de mandamentalidade e 3 de executividade.

43)ALIENAÇÃO, LOCAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DE COISA COMUM. Temos de prestar atenção quanto


aos dois fundamentos do pedido (indivisibilidade, divisão sacrificante do destino do prédio). A causa da
dificultação pode ser subjetiva (e. g., Código Civil, art. 635, verbis “quando, por circunstância de fato, ou por
desacordo, não for possível o uso e gozo em comum”); mas, se não ocorre algum dos dois fundamentos, não se
admite o rito especial. A questão de se saber se exclui qualquer outra pretensão à alienação da coisa comum é de
direito material e estranha a esta obra. O que é importante saber-se é que a ação do art. 632 do Código Civil é
ação para resolução de destino, conservada a divisão, ou para a alienação da coisa. O pedido de alienação, sem
alternativa, pode ser feito, porque o autor tem, por direito material, a sua pretensão, independente da audiência
dos outros condôminos (Código Civil, art. 632). Não há contradição entre o art. 1.112, IV, e o art. 1.117, II,
porque esse só se refere às alienações judiciais acessórias. Aqui, a ação é principal, autônoma.

Se há contribuição a gastos que não correspondem às quotas, por acordo entre comuneiros, o preço tem de ser
dividido, de modo que se atenda aos valores das quotas e das contribuições que se refletiram no preço (cf. 4.~
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 16 de novembro de 1950, R. dos T., 190, 810: “Tratando-se de
propriedade comum e indivisível de terreno adquirido por todos os condôminos, em quotas ideais, de diferentes
valores e representando o trabalho encetado, igualmente, contribuições pecuniárias de todos os interessados, de
maior ou menor importância, deve, no caso de paralisação da construção e desentendimento entre os
condôminos, ser feita a venda do prédio, em hasta pública, para rateio do produto entre os mesmos,
proporcionalmente a contribuição de cada um”).
44),’DI visibilidade E INADEQUABILIDADE AO DESTINO. Somente quando a coisa é indivisível ou se
tornaria, com a divisão, imprópria ao seu destino, tem o condômino preferência na aquisição (Código Civil, arts.
632 e 1.139; 2.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, 11 de agosto de 1950, R. F., 136, 100).
Os arts. 632 e 1.139 do Código Civil não dizem respeito à herança aberta, porque a expressão “indivisível”, no
que se refere à herança (Código Civil, art. 1.580), não tem o sentido de “indivisível”, nos arts. 632 e 1.139: nos
arts. 632 e 1.139, a indivisibilidade é do objeto; no art. 1.580, é do direito. A 2.~ Turma do Supremo Tribunal
Federal, a 12 de janeiro de 1951 (R. F., 137, 72), confundiu as espécies, levado por comentadores Irrefletidos do
art. 1.580 do Código de 1916. Se a coisa não é indivisível, não há direito de preferência (Turma Julgadora do
Tribunal de Justiça de Magoas, 28 de abril de 1952, D. O. de 18 de maio).
Não basta notificação ou comunicação do condômino para que exerça o direito de preferência; é de mister a ação
do art. 1.112, V (já antes, 1.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 15 de maio de 1952, O
Direito, de Belo Horizonte, 28-29 de outubro de 1952).
A 2.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, a 18 de novembro de 1949 (R. dos T., 199, 608), entendeu que a
divisibilidade do prédio só se aprecia economicamente, e não pelo aspecto jurídico. Mas isso é de se repelir: se o
uso em comum é ou se tornou impossível e o bem é juridicamente indivisível, a ação do art. 1.112, IV, exsurge
(cf. 2.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 18 de setembro de 1952, R. dos T., 208, 266).
Na ação, cada interessado tem o ônus da prova da sua propriedade, O prazo comum corre depois de citado o
último réu, se forem vários, e o Ministério Público (art. 241, II).
A citação inicial é para todos os atos do processo. A superveniência do casamento de uma das partes não torna
nulos os atos que se processaram depois sem o assentimento do outro cônjuge, mas, se tem ele parte no bem,
como cônjuge meeiro, tem de ser citado, para se inserir na relação jurídica processual. Sem distinguir,
erradamente, a 2.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, a 26 de janeiro de 1951 (D. da J. de 10 de novembro de
1952).
2e dois condôminos querem que não se aliene e um 50 deseja que se aliene, nem por isso se há de alienar a coisa
comum divisível: a maioria é que decide sobre o aluguer ou a administração, se algum deles não pede a divisão.
A exigência de todos concordarem que se não venda faria supor-se que se tem de vender, se um só o quer. Ora,
isso depende da propositura da ação de alienação da coisa comum, em que se há de deliberar se há de ser
alienada,administrada ou alugada, e aí é que qualquer dos condôminos pode requerer a alienação:
O art. 635, § 1.0, do Código Civil é para o caso de ninguém requerer a venda judicial. N~ é preciso que haja
unanimidade na intenção de não vender, mas sim que nem todos estejam de acordo com a venda. Se algum quer
vender e não quer adjudicar aos outros ou a alguém, porém não promove a ação do art. 1.112, IV, o que se há de
fazer é deliberar a administração ou a locação. Se o uso e gozo é comum e possível , ainda que todos queiram não
alienar, nem por isso se procede segundo o art. 635, § 1.0. O art. 635, § 1.0, depende do art. 635, com os seus
pressupostos.

45)MAIORIA ABSOLUTA, VALOR DOS QUINHõES. A maioria absoluta dos condôminos, calculada pelo
valor dos quinhões, pode determinar o destino da coisa. Pergunta-se: <,o pedido pode ser alterado? E. g., se não
se pediu locação, resolver-se locar? Não há, no caso, mudança, nem acréscimo do pedido, mas simplesmente
exercício do direito dos réus em suas declarações de vontade. Em tais demandas, os votos e soluções proferidos
pelos citados dilatam ou restringem o pedido do autor. Por isso, permite-se, sempre, a deliberação unânime, ainda
que antes se houvesse o condômino manifestado em contrário.

46) SILÉNCIO DO CONDÔMINO . Resolve-se o problema técnico do silêncio do condômino escolhendo-se


o segundo dos três meios à sua escolha: (a) considerá-lo a favor da alienação; (b) contra a alienação; (c) não
computável como voto. Se nenhum dos condôminos opinar a favor da venda, presume-se ser contrário o voto do
que se não manifestar. Não se deve supor a discórdia. Aí, a regra Qui tacet consentire videtur, ubi loqui potuit ac
debuit de emprego resultante de lei, tem aplicação. O voto é então declaração de vontade, sem qualquer
necessidade de efeito (constitutivo) de resolução do juiz. Vale por si. Se a resolução judicial o omite, ou o conta
mal, infringiu a lei e deixou, ao mesmo tempo, de atender à declaração de vontade (cp. EUGEN EKRLICH, Die
stillschweigende Wiflenserklarung, 173). Se, porém, o autor pediu a alienação, o condômino, que deixa de se
manifestar, entende-se que concorda, pelo mesmo princípio de que, podendo manifestar-se e devendo fazê-lo,
não se manifestou. Nem se poderia interpretar o seu silêncio como contestação, ou como declaração em sentido
contrário. Essa é a solução. Áliter, art. 1.112, V (Código Civil, art. 1.139) em alienação de quinhão em coisa
comum.
47) NATUREZA DA SENTENÇA. Contestada a ação, tem de haver a sentença, que é declarativa, devendo ser
repelido, ou não, o pedido. Dela cabe apelação em ambos os efeitos. Se favorável ao autor, ordenará que se
aliene a coisa, ou que opinem sobre o destino da coisa, conforme tenha sido pedida a alienação, ou não, quer pelo
autor, quer por um, que seja, dos condôminos.

48)SE ALGUM DOS CONDÔMINOS NÃO SE MANIFESTOU. Maioria absoluta, isto é, mais de metade da
soma do valor dos quinhões. Se algum dos condôminos não se manifestou, cumpre distinguir: a) o autor pedira
fosse alugada (ou administrada); b) algum dos condôminos requerera; c) nem o autor nem qualquer dos
condôminos requerera. No caso a), qualquer condômino que é contumaz se tem como favorável à medida
proposta pelo autor. No caso b), o condômino que é contumaz tem-se como favorável ao requerimento de que foi
ciente. No caso c), deve o juiz, ordenando que se manifestem, formular a cominação, sem o que o seu ato cai no
vácuo.

49) VoTAçõEs. As votações podem ser separadas, uma, para o destino da coisa, e outra, para a escolha do
administrador; ou juntas, se há base para a eleição. A lei ordena que, ao se resolver sobre a administração, não se
adie a escolha de quem administre; o ato judicial é um só, a despeito das duas partes.

50) Escolha DO ADMINISTRADOR. Se os condôminos opinam pela escolha do administrador; não se há de


determinar o destino da coisa. Se há empate (metade por metade do valor dos quinhões, sempre computado como
favorável a medida proposta o quinhão do contumaz), decide o juiz, por um nome ou por outro. Cabe-lhe o
desempate, não como declaração de vontade sua, e sim como resolução judicial. Ouve, antes, os condôminos,
sobre as causas das suas preferências. Em tais casos, as leis atribuem ao juiz colher dos informes dos declarantes
afirmações, que possam ser aferidas e conferidas, para que a sua decisão seja certa. O art. 1.109 é Invocável. N~
há arbítrio puro, o que só se dá quando a lei o concedeu ao juiz. Se o juiz erra na apreciação das razões que os
condôminos tiveram para votar, o seu erro é ontológico se erra por haver crido poder declarar, em vez de
“decidir”, o erro é nomológico infringiu a lei, e cabe ação rescisória se o cometeu em decisão. A votação é
negócio jurídico (ANDREAS VON TUHR, Der Alígemeine TeU, ii, í.~ parte, 234; contra, Orro voGIEIXE,
JOSEF KOHLER e J. E. KUNTZE); tem de ser construída como ato uno, declaração comum, sendo o ato do juiz
elemento constitutivo integrativo (efeito constitutivo da resolução). Sobre o ato coletivo, J. E. KUNTZE (Der
Gesamtakt, Fest gabe fiir Orro MtTLLER, 72). O administrador tem ação de Imissão de posse, contra o
possuidor, inclusive o administrador substituido.

51) NATUREZA DA SENTENÇA. A sentença sobre a administração ou sobre a escolha do administrador é


sentença em demanda de estado modificável, de forma que depende permanência das circunstancias, segundo as
conseqüências de direito material respectivas. Se, por direito material, pode ser retirado o poder do
administrador, claro que outra resolução judicial é provocável, inclusive nos casos de responsalz&lidade do
administrador, ou de novo uso da coisa. Nessa parte da decisão, a força específica e a coisa julgada formal não
são obstáculo. (Não pelo motivo, que se assoalha por aí, de ser de jurisdição voluntária o feito.) O pedido mesmo
fora feito como subordinado a nascerem ações de modificação. Sobre o assunto, notas ao art. 471, 1.

52)DúvIDA QUANTO AO VALOR DOS QUINHÕES OU DE ALGUM DELES. Se há dúvida sobre a fração
dos quinhões, ou de algum deles, a solução técnica pertence ao direito material. Nada tem com o processo.
Tratando da administração do condomínio, o Código Civil, após a regra jurídica sobre a repartição dos frutos na
proporção dos quinhões, se não há em contrário estipulação ou disposição de última vontade (art. 638), estatui,
em regra jurídica interpretativa, que nos casos de dúvida, se tenham por iguais os quinhões (art. 639). No direito
civil alemão (§ 742), a regra jurídica é geral; também no suíço (art. 646, alínea 2.a). Apesar da colocação do art.
639 do Código Civil brasileiro, entendeu-se, e bem, que a regra interpretativa se aplica a outros casos que o da
divisão dos frutos (e. g., deliberação sobre administração, locação). A regra jurídica de direito material incide
antes de qualquer demanda sobre o valor. O direito conhece pretensão à tutela jurídica nascida de se não
concordar em que haja dúvida sobre o valor dos quinhões, por erro ontológico das partes, de ordem objetiva (não
foi feita a avaliação) ou subjetiva (má apreciação do juiz). Portanto, pode ser disputada a própria aplicabilidade
do art. 639 do Código Civil.
A dúvida a que se refere o Código Civil, art. 639, é a dúvida sobre o tamanho, as dimensões, do quinhão, dúvida
sobre a quantidade, a fração de cada condômino.
Se, em vez de se determinarem as quotas por tamanho,e. g., A tem 1,3, B 1/6, C 1/6, D 1~’3, foi estabelecido que
essas frações seriam sobre o valor, qualquer diferença entre o valor pelo tamanho é inoperante: cada condômino
tem a fração do valor, e não a do tamanho. Então, é possível que algum ou alguns condôminos entendam que há
diferença entre o valor global do bem e a soma dos valores dos quinhões, considerados de per si.
Quando essa controvérsia pode ser dirimida mediante avaliação, ordena-se que se avaliem os quinhões, porém
não se pode, hoje, deixar de respeitar o art. 1.109 do Código de 1973.
Ao exemplo. A fração 1/3, por circunstâncias de ser suscetível de aproveitamento separado, ou pelo que importa
como peso, nas deliberações, vale 10; a fração 1/6, menos de 5. Aí tem de fazer-se a avaliação; porque não se
tem a igualdade entre a soma dos valores das quotas a do bem, ou porque não coincidem as frações do valor.

53)CONDÔMINOS E ESTRANHOS, PREFERÊNCIA . Código Civil, art. 636. O condômino prefere ao


estranho. Entre os condôminos, rege o art. 1.118. Não houve alteração ao Código Civil, nem em 1939, nem em
1973, mas solução (processual) analógica à do direito material e à da alienação do quinhão; aliás, já se
explicitava no Código Civil. Igualdade de condição, e não só de preço, ou de prazo, apreciada, pelo juiz, ouvidos
os interessados, se há vantagens numas cláusulas e desvantagens noutras. A discussão das desvantagens traz À.
balha enunciados de fato, não declarações. A sentença, que decide sobre a locação, e constitutiva (homologatória
); sujeita, portanto, a ser feito algum pedido se as circunstâncias mudarem, relativamente ao contrato. A demanda
e de estado modificável, como a de alimentos. Sobre as ações de modificação, notas ao art. 471, 1.

54)COISA COMUM E ALIEI(AÇÃO DE QUINHÃO . O condômino , que quer alienar a sua parte na coisa
indivisível , tem a pretensão a aliená-la, mas subordinada ao exercício da pretensão à aquisição por parte dos
outros condôminos (e. g., à formação do contrato de compra-e-venda, à Opção). A referência que não se encontra
no Código Civil, art. 1.139 (o parágrafo único usa “preferirá”, a propósito de competição entre condôminos). A
ediçã9 francesa do Código suíço, artigo 682, fala de “direito à preempção legal”.

55) PRETENSÃO A AQUISIÇAO . A pretensão é sujeita ao pressupostos da Indivisibilidade da coisa, tendo a


lei material ficado entre as duas soluções extremas:
(a)a do tratamento igual dos condôminos e dos estranhos e (b) a do tratamento preferencial, em todos os casos,
dos condôminos. Aquela é a da maioria dos sistemas jurídicos; essa depende de lei expressa ou de cláusula
negocial (entre vivos ou causa mortis), e não é verdade que tenha sido a do direito luso-brasileiro anterior (cp.
MANUEL DE ALMEIDA E SousA, Fascícitlo de Dissertações, II, 48; LAFAIETE RODRIGUES PEREIRA,
Direito das Coisas, 1, 86; LACERDA DE ALMEIDA, Direito das Coisas, 1, 108; Ordenações Flilpinas, Livro
IV, Título 11). O Código só admitiu a pretensão se indivisível a coisa. A ação do art. 1.112, V, não é adio duplex.

56)NATUREZA DA AÇÃO . A ação de alienação de quinhão em coisa comum é ação constitutiva, quer haja
concorrência, quer não, para adquirir o quinhão, quer todos concordem com a alienação, quer não concordem. Há
a sentença que decide a alienação e há a adjudicação que contém a determinação do comprador, completando a
resolução judicial; de modo que ocorre a particularidade de se cindir a entrega da prestação jurisdicional
(declaração do direito a alienação e resolução de permiti-la; constituição adjudicatória ). Se não há pretendentes,
a segunda fase é omitida.

A sentença na ação do art. 1.112, V, apenas declara que é caso de se alienar e que não houve concorrentes. De
posse de tal sentença, é livre o autor de alienar o bem a quem entenda alienar. A sentença, então, é constitutiva
negativa, porque desconstituiu a pretensão dos outros condôminos à preferência . N~ se pense em ação
declarativa negativa, porque antes do pedido existia a pretensão dos condôminos:
a ação do art. 1.112, V, serve a constituir-se o negócio jurídico da compra pelo preferente, ou a desconstituir-se a
pretensão dele.
57)PRESSUPOSTO SUBJETIVO. é ser condômino; o pressuposto da coisa (não basta o tornar-se se dividida
fosse).
O pressuposto subjetivo objetivo, a indivisibilidade imprópria ao seu destino,

58) CoMUNIcAÇÃo DO QUE QUER ADQUIRIR. O condômino tem de comunicar se quer adquirir e afirmar
a sua melhor legitimação, quer dizer a sua pretensão por ser condômino, por ser condômino e ter benfeitorias,
por ser condômino e ter mais benfeitorias do que os outros que pretendem adquirir, por ser condômino e não
terem os outros benfeitorias e ter maior quinhão (o art. 639 do Código Civil é aplicável), ou não ter querido o de
maior quinhão que o seu. Se os quinhões forem iguais, a parte vai a todos os que se apresentaram. Não cabe dois
ou mais se juntarem para perfazer quinhão maior; salvo se, antes da lide, transferiram a um só a parte ideal da
propriedade. Deve-se ter toda a atenção com a diferença entre declaração de vontade e comunicação de
conhecimento.
A soma de quinhões assenta na sucessão de direito material, e não na sucessão de direito processual, de modo
que, se, antes da dedução dos artigos, se der a sucessão material, nada se há de exigir processualmente; mas, feita
a dedução e findo c prazo, nada mais se pode alterar, devido à relação jurídica processual a que as declarações
serviram.
Trata-se de direito real de preferência.

59)INsTRUÇÃO SUMARIA. Findo o prazo, contestado, ou não , o pedido, o juiz procede à instrução sumária
dos arte. 1.107 e 1.109, facultando às partes a produção de provas e decide de acordo com o seu livre
convencimento, isto é, com solução que reputar conveniente ou oportuna. A sentença, desde que não repila a
ação, deve estabelecer a gradação entre os concorrentes (excluídos os contumazes, por ser incabivel qualquer
ficção ou presunção de vontade); ou, se todos estiverem em iguais condições (mesmas benfeitorias ou não-
-benfeitorias, mesmos quinhões), declarar que tais e tais concorrentes têm direito à adjudicação e podem exercê-
la. Essa parte não é executiva, nem de mandamento. É parte declarativa do direito à aquisição, em sentença
preponderante-mente constitutiva. Apenas o elemento constitutivo está no fim, por ser a constituição precedida
da decisão. Ainda depois da sentença não pode ser transferido o direito, porque éacessório do direito de
propriedade; transfere-se com essa, ipso iure, sendo supérfluo mencioná-lo na transferência e ineficaz reservá-lo.

60)NATUREZA DA SENTENÇA. A sentença é constitutiva-declarativa conlorme já dissemos, e condicionada


à mantença da declaração de vontade dos que concorreram. Dela cabe apelação. Qualquer deles, ou todos eles
menos um podem recusar a aquisição em comum. A particularidade está, não em se não ter vinculado o
concorrente, mas em se ter introduzido elemento novo, a aquisição por mais de um. Se um só aceitou ficar, em
com um, com o quinhão posto à alienação, a ele cabe adquiri-lo, sozinho, se todos repeliram a comunhão no
adquirir. Essa declaração, para todos os efeitos, incluido o da prioridade, pode ser feita antes da sentença.
61)DEPóSITO DO PREÇO. Sendo um o condômino, ou sendo alguns os que vêm no primeiro lugar, têm de
depositar o preço. O que não depositar é excluido. Se um ~ó, deposita todo o preço; se dois ou mais do mesmo
grau, deposita-se a parte que cabe a cada um. O que falha, sendo o único, substituido pelo do grau seguinte, ou
pelos que, sendo dois ou mais, aceitarem a comunhão no quinhão alienando; se falha um, ou se falharem alguns
dos que foram chamados, a parte ou partes vagas podem ser adquiridas pelos restantes, requerendo-a ao juiz, com
o depósito do resto do preço. Se não a quiserem, ou não as quiserem, são chamados os do grau seguinte, como
acima se expôs. Sempre que tenha de os chamar deve o juiz marcar-lhes o prazo para o depósito.

62)RECURSO POR ALGUM DOS COMPETIDORES. Se algum dos competidores recorre (aos contumazes
falta o interesse, salvo para discutir a contumácia), somente o pode fazer depositando o preço. O efeito
suspensivo da apelação não dispensa o depósito no prazo porque não é efeito atributivo, mas acautelador.
O condômino omitido nas citações tem o prazo do artigo 1.139, 28 parte, do Código Civil para pedir ao juiz, em
ação contra o adquirente e o vendedor, a adjudicação do quinhão alienado. Tem de provar que, se tivesse sido
citado, lhe teria tocado a aquisição, com exclusão total ou parcial daquele a que foi atribuida. O art. 1.139, 2.~’
parte, refere-se à mesma ação quando o adquirente foi estranho e quando foi condômino, pois o parágrafo único
apenas modifica a í.a parte do art. 1.139.

63)SENTENÇA DE ADJUDICAÇÃO. Há sentença para se adjudicar a parte alienada. Essa sentença é


integrativa. Dela cabe apelação.
64)AçÃo Do CONDôMINO, INCIDENTE. O art. 1.112, V, somente se refere à ação do condômino que quer
alienar, e não à do condômino que quer exercer o direito de preferência. Só se pode invocar o art. 1.139, La parte,
do Código Civil.
Surge o problema do exercício do direito do condômino se o outro vendeu a sua parte a estranhos, sem ter dado
ao condômino notícia da venda. Lê-se no art. 1.139 do Código Civil: “N~ pode um condômino em coisa
indivisível vender a sua parte a estranhos, se outro consorte a quiser, tanto por tanto. O condômino a quem não se
der conhecimento da venda, poderá, depositando o preço, haver para si a parte vendida a estranhos, se o requerer
no prazo de seis meses”. <Desde quando se começa de contar esse prazo? As soluções possíveis são as seguintes:
o prazo preclusivo inicia-se a) no momento em que se vende o bem comum; b) no momento em que se transfere
a propriedade; c) no momento em que o condômino tem ciência da venda, ciência, ex hypothesi, posterior à
venda.
A solução a) é de afastar-se, porque ainda não se operou a alienação (o contrato de compra-e-venda é consensual,
o acordo de transmissão só tem efeito transíativo com o registro). Seria a opinião de A. L. CÂMARA LEAL
(ComentáriOS, V, 272 e 281).
A ciência há de ser antes da compra-e-venda (art. 1.139, 1~a parte, do Código Civil); se não houve essa ciência,
pode vir a dar-se após a assinatura da escritura, e desde aí se conta o prazo; se não ocorreu por ato judicial ou
extrajudicial, há a publicidade oriunda do registro de imóveis, de modo que o prazo tem de ser contado daquele
dia.
A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal, a 9 de outubro de 1958, reformou acórdão em que se contava o prazo
conforme a solução a). Adotou a solução c), por ter o relator lido CUNHA GONÇALvES; mas é preciso
advertir-se em ue, se é certo que o art. 1.139, 2.~ parte, foi inspirado pelo art. 1.566, ~ 1/), do Código Civil
português, daquele tempo, a lei brasileira, exatamente no que se refere o texto português ao inicio do prazo, não o
importou. Lê-se no art. 1.566, § 1.0, do Código Civil português: “O com proprietário, a quem se não der
conhecimento de venda, poderá haver para si a parte vendida a estranhos, contanto que o requeira dentro do
prazo de seis meses, a contar da data em que tenha conhecimento da venda, depositando, antes de efetuada a
entrega, o preço que, segundo as condições do contrato, estiver pago ou vencido”. N~ são idênticas as duas
regras jurídicas. Evitou-se, no texto brasileiro, qualquer alusão ao início do prazo, porque o art. 1.139, 2.8 parte,
cai em sistema jurídico cujo regime de aquisição da propriedade imobiliária é peculiar e rígido. No direito
português, CUNHA GONÇALVES não podia dizer outra coisa Que aquilo que escreveu; mas é fora de toda
pertinência invocá-lo no direito brasileiro, que riscou, precisamente, a alusão ao “conhecimento da venda”. Não
só. A afirmação do relator de que a transação é sem importância para o começo do curso do prazo não pode ter
acolhida em sistema jurídico que tem o art. 530, 1, do Código Civil.
No caso que a 1.8 Turma julgou, tinha havido arrematação (precedida, portanto, por editais), tinha saído carta de
arrematação, que é sentença, e se havia feito a transcrição. Quando a lei quis dar sanção à falta de notificação
judicial a respeito de credor hipotecário, disse-o explicitamente (Código Civil, art. 826, 2.8 parte; cf. Código de
Processo Civil, art. 698).
Trata-se de alienação de parte do bem, que pertence ao alienante, e apenas se cogitou de regular o exercício do
direito de preferência que tem o condômino. Não há nenhuma nulidade de aquisição da arrematação, se o
condômino não teve conhecimento: apenas a lei lhe confere a ação para haver o bem, depositado o preço, se o faz
nos seis meses. Se teve conhecimento antes, dessa d ata começou de correr o prazo; salvo se tal conhecimento foi
em citação na ação de que cogita o art. 1.112, V, porque então não há pensar-se na 2Y~ parte do art. 1.139 do
Código Civil. O Código de Processo Civil não tratou da ação do condômino para haver a coisa julgada cuja
propriedade já se transferiu. A ação há de ter rito ordinário. Se a transcrição foi de título sentencial, de que o
condômino não teve noticia, a ineficácia é relativa e só enquanto não preclui o prazo do art. 1.139, 2.8 parte, do
Código Civil.

65)CONCEITO DE USUFRUTO. Usufruto é o direito real, ou o conceito que se emprega, para se distinguir o
direito elementar composto do usus e do fructus, com as consequentes pretensões a usar da coisa e a frui-la
(perceber-lhe o~ frutos), ius utendi fruendi. A propriedade racha-se em nua propriedade e usufruto. O
usufrutuário exerce o direito real e a posse em coisa que é do domínio de outrem, ius aUenis rebus utendi
fruencU, dizem os textos. (Pode haver usufruto de coisa própria; uma vez que se tenham os dois elementos:
o uso e o fruto. JOHANN VOET falava de usufruto causal do proprietário, e formal do usufrutuário; o que
desatendia à diferença dos conceitos de direito e elemento, de direito e de pretensão.) A propriedade despida do
uso e do fruto, os textos romanos relativamente recentes, e o direito anterior ao Código Civil chamavam “nua
propriedade” (cf. Decreto n. 4.355, de 17 de abril de 1869, art. 7•0, § 6.0) e o Decreto n. 5.881, de 28 de março
de 1874, art. 25, § 1.0, e art. 31, par~,grafo único), “propriedade separada”.
Por influências de teorias filosóficas, que iam à maravilha com o estado econômico da época, os textos romanos
falavam de substância; o direito do dono seria o direito à substância, e o do usufrutuário, sem a substância. Note-
se o acento de Idéias reacionárias, que faziam ser substância,coisa, a “abstração”, o conceito de propriedade,
exatamente como se filosofava à decadência grega e na hipótese platônica. (Os conceitos de propriedade e de
Usufruto são os melhores materiais psicanalíticos da evolução filosófica romana; e da evolução econômico-
social, está claro.) Sobre o direito material do usufruto, Código Civil, arts. 674, 713-741, 1.602 e 1.688.
Também o fiduciário tem uso e fruição, separados do domínio, sem que o fideicomisso se confunda com o
usufruto. E o locador de prédio que dê frutos.
66)CONCEITO DE FIDEIcOMISSO. No fideicomisso, h~ duas figuras titulares de direito, partindo-se, no tem
pn, a propriedade, em vez de se partir nos elementos do direito de propriedade (nua propriedade; uso e fruto). A
subjetividade é dupla em toda a extensão dos elementos, menos a sucessão temporaL Há o fiduciário, que recebe
e guarda a herança; e o fideicomissário, que a “terá” depois. Mas são herdeiros da mesma herança.
Materialmente, as duas sucessões ligam-se ao mesmo instante, o da abertura da sucessão, o da morte do testador.
Temporalmente, uma se sobrepõe à outra, começa onde a outra acaba, o fim de uma é começo da outra, O seu
processo histórico é o da posposição, a ligação dos bens a dois sujeitos, que ocupam cada um a sua região
temporal, o seu sítio na duração. Quanto ao testador, dois herdeiros, inconfundíveis, dos mesmos bens. Diz-se
que o fiduciário é herdeiro restrito, limitado; não o é menos o fideicomissário, contra o qual corre um tempo,
antes (ai a sua vantagem posterior), em que não tem a herança. Apenas, o fiduciário perde-a para sempre quando
o fideicomissário a recebe definitivamente. Contudo, para se ver quanto é também limitada a situação desse,
basta pensar-se em que, se morre antes de receber a herança, foi herdeiro sem ter tido herança. Herdeiros
confinantes, no tempo, herdeiros cujas raias juridicas temporalmente se tocam e se excluem. F rE»mcn
ENDEMANN (Lehrbuch, 8~a e 9.~ ed., III, 1.~ parte, 371) fala de herdeiros “em camadas”, herdeiros
estratificados.
No momento da abertura da sucessão, vai ao fiduciário direito subjetivo atual, em dia; ao fideicomissário, direito
expectativo, Wartrecht. A qualidade de herdeiro vai aos dois; a mesma herança é objeto de dois direitos. Por isso
mesmo, objetivamente, devemos tratar a herança como patrimônio, universalidade ou valor “destinado a um
fim”. Que o fideicomissário seja o herdeiro do testador, é a opinião assente, e resiste às criticas de KONRAD
HELLWIG. Esse entende que o fideicomissário ou o pós-herdeiro é sucessor do fiduciário ou do pré-herdeiro, e
não do testador. Porque, argumenta, no momento em que o pós-herdeiro recebe a herança, já não existe o
testador. Recebe-a do pré-herdeiro, que tinha direito resolutivamente condicionado ou a termo. Ainda mais:
porque a passagem consiste, não em se chamar o fideicomissário ou pós-herdeiro, mas em se limitar o direito do
pré-herdeiro ou fiduciário. Assim falou KoNaw HELLWIG (Lehrbuch, 1, 278, System, § 177; Rechtskraft, § §
32-34). Sem razão. Há confusão entre herdar e recoLher, materialmente, a herança. Se o fideicomissário
herdasse do fiduciário, suceder-lhe-ia nas dividas. No entanto, só pelas di~id&s do testador responde o
fidelcomissário. Não é verdade que o direito do fiduciário passe ao fideicomissário. O que se dá é que o direito
do fiduciário se extingue; começa a atua do do direito do fideicomissário, direito existente desde a abertura da
sucessão .

67)FONTES DO USUFRUTO. O usufruto pode ser criado por ato inter vivos, ou por ato testamentário
(usufrutos negociais), ou por lei. Ao testador é facultado desmembrar, em direitos reais, a propriedade, ou deixar
ao herdeiro, ou legatário, os direitos reais que tem sobre coisa de outrem. Também lhe é dado legar a pretensão a
haver de outrem, ou legar direito que se tenha ainda de adquirirr. O direito processual nada tem com a
constituição dos direitos de usufruto. Tem com a extinção dos direitos negociais de usufruto. O usufruto
constituído pelo enfiteuta a favor do proprietário é usufruto de proprietário.

68)FIDEICOMISsO ORIUNDO DE NEGOCIO JURÍDICO . O fideicomisso é oriundo de testamento, negócio


jurídico testamentário. Foi discutido se em negócio jurídico inter vivos podia ser estabelecido. De um lado, os
que o negavam (e. g., JOAQUIM INÁCIO RAMALHO, Instituições Orfanológicas, § 30; nosso Tratado dos
Testamentos, IV, 179, 180); do outro, os que afirmavam (e. g., Dus FERBEIRA, Código Civil portugués, III,
447; TEIXEIRA DE FREITAS, Tratado, 329; CARLOS DE CARvAnio, Nova Consolidação, art. 1.194). As
construções, que foram tentadas, não provaram existir o fideicomisso em negócio entre vivos, por lhes faltar a
fidúcia; e o caso mais interessante, o de Díogo GUERREIRO (Decisiones, 163), era doação sub modo. Outras
são de doações com reversão, ou de propriedade resolúvel simples. Mas há fidúcia entre vivos, propriedade
fiduciária.

69)ExTINÇÃO DE USUFRUTO E DE FIDEICOMISSO. Extinção de usufruto ou de fideicomisso é nome


genérico para significar que a propriedade se consolidou, ou os bens passaram ao fideicomissário. Extinto o
usufruto, consolida-se a propriedade, deixa de ser nua. Veste-se. Extinto o fideicomisso, não há mais fiduciário,
ou não há mais fideicomissário. Nesse sentido, a caducidade do direito de fideicomissário não é extinção. Caduca
o fideicomisso: a) em caso de repudio da herança, se os credores não aceitam a herança (Código Civil, arts.
1.735, 1.586); b) em caso de indignidade do fideicomissário; c) quando fideicomissário premorre ao fiduciário
(art. 1.738). Só se ocorre a condição, depois da abertura da sucessão, a que se subordinou a instituição do
fideicomissário, pode ser preciso, fora do caso da morte do fiduciário, processo de extinção do fideicomisso. A
aplicação mais freqüente é a da extinção por morte do fiduciário; porém não é a única.
Nos casos em que se extingue o usufruto pela morte do usufrutuário, ou pelo advento do termo ou condição, ou
pela cessação da causa, ou pela destruição da coisa, ou pela consolidação negocial ou acidental, ou pela
prescrição, cabe a extinção do usufruto, em processo especial de ação de mandamento, eficácia erga omnes e
eficácia executiva lato sensu, com sentença mandamental. Tem ela efeito de coisa julgada material. Não se pode
pensar em ação declarativa. no caso de extinção por culpa do usufrutuário: a ação é de condenação, com efeito de
mandamento e efeito executivo. Ainda nos casos de extinção sem culpa do titular, o elemento declarativo é
secundário: apenas se revela na eficácia de coisa julgada material, inter ‘partes. A classificação da verba feita na
partilha tem de ser respeitada. A propositura da ação declaratória típica não seria apenas, nas espécies, uso do rito
ordinário, em vez do rito especial; seria menos, no plano das ações, e não só do procedimento. O mesmo que
acima se disse vale para os fideicomissos. A ação e a sentença são de mandamento (cancela-se a inscrição no
registro), com efeito erga omnes e executivo.
Nenhuma ação de condenação pode ser processada com o rito da ação de extinção.

70)COMPETÊNCIA PARA A AÇÃO DE EXTINÇÃO DE USUFRUTO E DE FIDEICOMISSO. A


competência é determinada: a) pela conexão, se o usufruto ou o fideicomisso provém de verba testamentária, é
competente, para as extinções de usufruto ou de fideicomisso, o juiz do inventário e partilha dos bens deixados
em usufruto ou em fideicomisso; b) pela ligação ao domicílio do doador ou do outorgante, aliás, pode não ser o
lugar da doação ou do negócio, o juízo desse domicilio, em regra jurídica não prevista; c) pela situação do bem
imóvel. (As outras ações, quanto à doação ou outro negócio jurídico.não ficam subordinados ao art. 1.148;
obedecem aos princípios gerais de competência.) A arrecadação determina, pela conexão, as ações que se refiram
à herança; e. g., petição de herança cumulada à. de investigação da paternidade (1.~ Turma do Suprema Tribunal
Federal, 11 de novembro de 1943, R. F., 99, 396).
Se o usufruto ou o fideicomisso foi de origem testamentária, o foro é o do juízo do inventário (art. 96). Se não se
trata de usufruto ou de fideicomisso de origem testamentária (e. g., de doação entre vivos), a regra jurídica do art.
94 ~ que Incide (bem como as dos § § 1.o~4.a), uma vez que se trate de usufruto ou fideicomisso de bens
móveis. Se, porém, o usufruto ou o fideicomisso é de bem Imóvel, o foro é o da situação do bem (art. 95, 1.a
parte).

71)AUDIÊNCIA DO MINISTÉRIO PUBLICO E DA FAZENDA PÚBLICA. A audiência do órgão do


Ministério Público ou do representante da Fazenda Pública é indispensável em qualquer extinção, ainda que não
se trate do processo especial do art. 1.112, VI.

72)AvALIAÇÃO. A avaliação é para efeitos de direito material privado (obrigações do usufrutuário, ou do


fiduciário) ou de direito fiscal.

73) CÁLCULO DE IMPOSTO. O cálculo de imposto sobre extinção de usufruto ou de fideicomisso é feito pelo
contador do juízo. Não é preciso sobre ele ouvirem-se Interessados, nem se proferir sentença.
A sentença não pode dar nem tirar aos efeitos que produziu o fato da extinção; nem esses efeitos precisam da
declaração do juiz. Quando ele diz “julgo extinto o usufruto (ou o fideicomisso)” apenas manda e executa (efeito
executivo); não declara nem constitui, propriamente, manda. Os dois elementos preponderantes são o
mandamental, determinante da situação de publicação do direito real, e o efeito executivo do direito de caráter
privado, então declarado. Conseqüências :
não se pode falar de força material de coisa julgada das sentenças de extinção de usufruto ou de fideicomisso; a
sua força é a das sentenças de mandamento; efeito constitutivo somente no que concerne à publicação do direito
real (não à relação entre os interessados); efeito declarativo, quanto ao direito de usufruto e pressupostos da
extinção (efeito de coisa julgada material).

74)PARTILHA DOS BENS EM USUFRUTO OU FIDEICOMITIDOS.

A partilha, de que se trata, resulta da verba testamentária ou da doação, e nesses casos a sentença é ea.,ecutiva
do negócio jurídico testamentário ou entre vivos. O juiz do inventário ou do domicílio do doador pode não ser
competente para a partilha dos bens do nu-proprietário ou do fideicomissário, que faleceu e a cujos herdeiros ou
legatários vão os bens, para ação communi dividundo. Não se podem intercalar na ação do art. 1.112, VI, os
processos de inventário ~ partilha (arts. 982-1.045), ou de divisão e demarcação (artigos 946-981), posto que,
quanto aos bens partilhados por força da verba testamentária, ou do negócio jurídico da doação, seja permitida a
divisão geodésica das terras, ou, se jeito, a demarcação de quinhões.
Somente após o trânsito em julgado da sentença de extinção de usufruto ou de fideicomisso, pode haver partilha
do que se recebeu com o fato da extinção (3.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, 4 de
maio de 1950, J., 32, 237). Partilha anterior a isso seria ineficaz; portanto eficacizável, se ratificada (não “nula”,
como pretendeu a 3•a Câmara Cível).

75)NATUREZA DAS DECISÕES . A partilha amigável depende de serem capazes (não só maiores!) os
interessados (art. 1.129, e parágrafo único). Em qualquer caso, mesmo se leita por escritura particular, não se lhe
dispensa a homologação. Aqui, a sentença, que é uma só, julga o cálculo, se houve, julga extinto o usufruto, ou o
fideicomisso, e julga a partilha. O seu caráter compósito estabelece o recurso da apelação nos dois efeitos. Na
parte em que julga extinto o usufruto é mandamental negativa, de efeitos constitutivos (efeitos erga omnes) de
integração da publicidade (dos direitos reais), e não declarativa, a despeito do forte elemento declarativo. A
distinção é de conseqüências práticas consideráveis. O usufruto e o fideicomisso estavam extintos, ex hypothes:;
nas relações entre o usufrutuário e o nu-proprietário ou entre o fiduciário e o fideicomissário, a extinção, por
direito material, começara de produzir todos os efeitos. Enquanto a outrem, a publicidade é indispemável e é a
isso, não à declaração por sentença, que o chamado processo de extinção do usufruto ou do fideicomisso provê. É
a extinção, no plano do direito público, que é processual.

76)DESAPARIÇÃO DA FIDUCIALIEDADE. Extinto o fideicomisso, não há mais fiduciário. Entregues os


bens ao lideicomissário, passa quem fora o herdeiro a ser estranho para herança, que foi sua. As ações contra os
bens da herança ou a favor dela já lhe não interessam, nem ele é autorizado a prosseguir, como autor, ou como
réu, em tais processos: a mudança de sujeitos opera-se ipso iure, ao chegar o advento do termo, ou ao realizar-se
a condição. Mas, se deixou de pagar alguma dívida para que recebera dinheiro da herança, a sua responsabilidade
continua.
Depois de entrega dos tens, o fiduciário não é mais devedor das obrigações da herança. Se algum herdeiro
retardatário recusa a quota, ou passa em julgado a sentença que pronunciou a indignidade de um deles, o
acrescimento já lhe não aproveita, e sim ao fideicomissario. Pelas dividas assumidas pelo fiduciário, ainda que
para a exploração e administração dos bens, não respondem esses, porque a sua destinação os imuniza às
obrigações do fiduciário. Feito o inventário, segundo ele é que responde o fiduciário. Aliás, feito judicialmente,
pelas dívidas da herança, que aparecem, ambos respondem, salvo se excedem às forças dela. Os credores da
heranca s~o credores do fiduciário, até o montante de bens herdados, e do fideicomissário, até o mesmo importe.
No momento em que o fideicomissário recebe, responde na qualidade de herdeiro, que é. Se o fiduciário não
pagou as dívidas da herança, paga-as o fideicomissário. Os credores do fiduciário não são credores da herança.
As dívidas decorrentes de impostos atrasados, multas aplicadas às coisas da herança, ele as paga, mas tem por
elas ação contra os fiduciários.
As dívidas do fiduciário garantidas pelos bens (hipoteca, penhor, anticrese, caução) não são cargos dos bens.
Com a mudança dos sujeitos da propriedade, todas se extinguem quanto ao bem; os credores têm ação contra o
fiduciário, e não as ações contra os bens hipotecados, empenhados ou anticréticos. A penhora do direito do
fiduciário, nos bens, por divida do fiduciário, extingue-se ipso iure. são bens alheios. Se o fiduciário pagou, com
dinheiro seu, a hipoteca de bem fideicomitido, dá-se a sub-rogação a seu favor (R. BEYER, Die Surrogation,
216). Tal doutrina combina com os arts. 985, III, e 988 do Código Civil.
A jurisprudência continua eivada de erros quanto a bens deixados em usufruto e fideicomisso. A 3.~ Câmara
Civil do Tribunal de Apelação de são Paulo, por exemplo entendeu que é “juridicamente impossível” que os
bens vinculados passem (?), por morte do usufrutuário, com a cláusula de inalienabilidade, aos proprietários (1.0
de março de 1944, R. dos T., 149, 259). Ora,OS bens passaram, com a morte do decujo, com a cláusula!

77)EXIGÊNCIA DÁ JUDICIALIDADE. Não há ato negocial declaratório de extinção de usufruto ou de


fideicomisso, extrajudicial, que possa ser registrado, sem que haja a sentença de jurisdição voluntária de que
cogita o art. 1.112, VI, do Código de Processo Civil.
A decisão judicial é de força mandamental e de eficácia imediata declarativa, se está em causa espécie do art.
739, 1-VI, do Código Civil (morte do usufrutuário, termo da duração, cessação da causa de que se originou,
destruição da coisa, consolidação, prescrição da pretensão), ou de força condenatoria e de eficácia imediata
mandamental, se a espécie é a do art. 738, VII. Ainda que se trate de pessoas capazes, a renúncia por escritura
pública tem de ser apresentada na ação do art. 1.112, VI, do Código de Processo Civil (sem razão, a 1.a Câmara
Cível do Tribunal de Justiça do Pará, 12 de março de 1951, J., de 1951, 51). O oficial público só cancela o
registro mediante requerimento que contenha o mandamento judicial, ou se lho manda, diretamente, o juiz.
os do tempo da abertura da sucessão. Se a lei permitiu dlvidir-se em duas parcelas o imposto do fideicomissário,
uma por ocasião da execução testamentária, outra por ocasião da extinção do fideicomisso, houve favor da lei.
O fideicomissário não é herdeiro do fiduciário; de modo que, na extinção de fideicomisso, não há imposto de
transmissão a causa de morte (cf. 4a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 9 de fevereiro de 1950,
R. dos T., 185, 350). Idem, quanto ao usufruto.
78) IMposTos. Há imposto de transmissão a ser pago, porque o uso e o fruto passam ao seu proprietário,
imposto que é o do tempo da extinção, pois o outro, o que concerniu ao direito de nua propriedade, já fora pago,
segundo o valor ao tempo da sucessão. Certa, a 2.a Câmara Civel do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a 15
de abril de 1952. Quanto a extinção de fideicomisso, é diferente (e. g., Câmaras Civis Reunidas do Tribunal de
Justiça de São Paulo, 30 de outubro de 1950, R. dos T., 190, 967; 6.R Câmara Civil, 21 de setembro de 1951,
196, 296, 2.~ Câ1mnara~ Civil, 25 de março de 1952, 201, 323; 1.& Câmara do Tribunal de Alçada, a 14 de
novembro de 1951, 197, 381). Se a lei fiscal permite que se pague por ocasião da constituição o imposto de
aquisição da nua propriedade e o imposto da extinção, trata-se de regra juridica favorecente. O fideicomisso dá
ensejo a duas aquisições de dominio: há duas transmissões simultâneas.

CAPITULO II

DAS ALIENAÇÕES JUDICIAIS 1).2)

1)ALIENAÇÕES JUDICIAIS POR LEI OU NECESSIDADE OBJETIVA.


A despeito da generalidade do título, as alienações judiciais dos arts. 1.113-1.119 não compreendem todos os
casos de alienações judiciais, nem a arrematação dos bens executados (arts. 686-707). Aos casos dos arts. 1.113-
1.119 falta a razão suficiente da execução. Os do art. 1.113 supõem fácil deterioração, avarias, grande despesa
para a guarda dos bens; os do art. 1.117, 1, não caber no quinhão de um herdeiro, ou não admitir divisão cômoda,
o bem a ser partilhado; os do art. 1.117, II, ser indivisível a coisa comum, ou se tornar imprópria ao seu destino;
os do art. 1.117, III, terem de ser vendidos, com autorização judicial, os bens de incapazes (“órfãos ”, diz o art.
1.117, III). A arrematação tem outra motivação, que lhe é intrínseca: converter, para executar o Estado a
obrigação. O Código de 1973 não cogitou do processo especial da venda da coisa comum e nem dos bens a
serem partilhados que não são suscetíveis de divisão cômoda e não cabem no quinhão de algum herdeiro.

2)AçÃo DE NULIDADE OU ANULAÇÃO DE TESTAMENTO E ALIENAÇÃO JUDICIAL. A 3•~ Câmara


Cível do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, a 27 de julho de 1945 (R. F., 107, 495), decidiu que, proposta
a ação de nulidade ou de anulação do testamento, começa o interesse do autor nos bens do espólio e pode opor-se
à alienação de algum bem.
É muito vago. O que o autor pode requerer é a assistência segundo os arts. 50 e 54, ou a medida dos arts. 798,
822 e 826.
A alienação do imóvel, no processo de partilha, por se não pôr no quinhão de um herdeiro, ou de dois ou mais
herdeiros, que o queiram em comum, é alienação para se levar por diante a partilha. Há ato alienativo para a
finalidade de ação executiva lato sensu. As alienações segundo o art. 1.117, III, também supõem necessidade
para a disposição e obedecem a pressupostos de direito material. Isso náo quer dizer que bens de incapazes (e. g.,
quotas hereditárias) não possam achar-se entre bens de que fala o art. 1.117, 1 e II. Se os bens sob medida
constitutiva são de fácil deterioração, ou avariados, ou causadores de graves despesas, e pertencem a incapazes,
não se dispensa a autorização judicial para a alienação, se exigida pelo direito material. Passa-se o mesmo quanto
às espécies do art. 1.117, II. A respeito da quota hereditária, o juiz do inventário e partilha é que decide enquanto
não há adjudicação do bem ao incapaz.

Art. 1 .113. Nos casos expressos em lei2) e sempre que os bens depositados judicialmente forem de fácil
deterioração, estiverem avariados ou exigirem grandes despesas para ~i sua guarda, o juiz, de oficio5) ou a
requerimentoc) do depositário ou de qualquer das partes, mandará aliená-los em leilão 1)
§ 1.0 Poderá o juiz autorizar, da mesma forma, a alienação de semoventes e outros bens de guarda dispendiosa;
mas não o fará se alguma das partes se obrigar a satisfazer ou garantir as despesas de conservação3).
§ 2.0 Quando uma das partes requerer alienação judicial, o juiz ouvirá sempre a outra antes de decidir4).
30 Far-se-~ a alienação independentemente de leilão, se todos os interessados forem capazes e nisso convierem
expressamente 7).
Art. 1.114. Os bens serão avaliados6) por um perito nomeado8) pelo juiz quando:
1 não o hajam sido anteriormente;
II tenham sofrido alteração em seu valor.

1)CoNsmIçÁo JUDICIAL PARA ALIENAÇÃO. Ao tratarmos da penhora dissemos da diferença do pape? do


Estado na prenda do arresto, do seqüestro , do depósito e da penhora. Aqui, havendo a motivação dos arts. 1.113
ou 1.117, defere o juiz a alienação judicial, ou determina-a de ofício, pela necessidade que se contém em
qualquer dos motivos.
“Nos casos expressos em lei” e “sempre” que ocorra algum dos outros motivos (fácil deterioração, avarias,
despesas excessivas). Esses motivos são exemplificativos, conforme já se disse. A premente conveniência da
venda, fazendo-a necessária, basta a compor o motivo; nunca a simples conveniência ou vantagem, ainda de
vulto e extraordinária.
Nos casos expressos em lei entram, por exemplo: o do art. 1.070, §§ 1/) e 2.0 (alienação imediata em leilão das
coisas vendidas com reserva de dominio); o do art. 1.155 (alienação de bens móveis e semoventes, das heranças
arrecadadas); os casos de necessidade do art. 1.155; o do art. 606 do Código Civil (venda do achádigo).
O art. 1.113, verbis “sempre que. . . “, à diferença do art. 1.117, estabelece direito processual objetivo de que
resulta pretensão à alienação, sem qualquer alusão, ou, a fortiori, dependência do direito material. É a situação de
direito processual (arresto, sequestro, depósito, penhora) que põe O problema técnico da alienação, ocorrendo o
motivo de necessidade.
2)ALIENAÇÃO JUDICIAL, NOUTRAS ESPÉCIES QUE AS PREVISTAS. O art. 1.113 fala de “casos
expressos em lei”. Alguns casos constam do próprio Código de Processo Civil: art. 1.070, § 1.0 (alienação
judicial em leilão de coisa vendida que foi penhorada, por se tratar de venda a crédito com reserva de domínio),
art. 1.155 (alienação de bens na herança arrecadada), art. 1.173 (alienação de coisa alheia perdida, que foi
depositada), art. 1.112, III (alienação de bens de incapaz), art. 1.139 (alienação do quinhão do condômino na
coisa indivisível), art. 1.017, § 3,0 (alienação de bens necessários para o pagamento do passivo do inventário).
Também no Código Civil, art. 293 (alienação de bens dotais) e art. 606 (alienação de bens achados quando não
se encontra quem prove a propriedade).

A alienação pode ser judicial sem que se trate dos “casos expressos em lei” e dos de arresto, sequestro, depósito
ou penhora. Outros há em que o juiz mantém sobre a coisa poder de vedar a disposição ou de dispor da coisa, e a
alienação é judicial. O Supremo Tribunal Federal, a 10 de abril de 1929 (A. J., 10, 374), decidiu que a venda,
realizada em juízo, de embarcação atingida por dividas privilegiadas, a requerimento do proprietário, era venda,
“voluntária”, pois que a coisa não se achava penhorada, nem depositada. De modo que, segundo o raciocínio do
Supremo Tribunal Federal, os créditos acompanhariam a embarcação vendida, gravando-a. Sem razão. Ou a
venda prescindia de motivação e era livre de fazê-la o proprietário, desconhecendo o direito brasileiro a venda
em juízo a líbito dos donos, o que rebaixaria os juizes à função dos notários, empurrando-os para o tempo da
velha voluntaria jurisdictio; ou a venda foi deferida, após cognição de motivo para vender e com as cautelas
judiciais, e. g., depósito do preço, e então se operou a sub-rogação real, segundo os princípios.
Se a alienação tem de ser judicial, ou se é permitido não ser em hasta pública, responde, primeiro, o direito
material.
Se há divergência de regras no direito processual e no direito material, entende-se que as daquele são gerais e
essas especiais, se, na hipótese, exigem a hasta pública.

3)ALIENAÇÃO DE SEMOVENTES E OUTROS BENS DE GUARDA DISPENDIOSA. Tratando-se de


semoventes, pode o juiz determinar a alienação, salvo se uma das partes se obriga a satisfazer ou garantir as
despesas de conservação . Para assumir tal atitude, tanto é legitimada qualquer das partes ou o próprio
depositário. Além dos semoventes há a referência a outros bens de guarda dispendiosa. <~,E os deteriorados, ou
que estiverem avariados? <‘~Só seria de deferir-se o requerimento se tais bens exigirem grandes despesas para a
sua guarda? A despeito do art. 1.113, § 1.~, não ser explicito como o foi no art. 1.113 a resposta é afirmativa.

4)CITAÇÃO O DAS PARTES. - O art. 1.113, § 2.0, diz que, requerida a alienação por uma das partes, a outra
tem de ser ouvida, antes de o juiz decidir. Está em ação de jurisdição voluntária, de modo que o art. 1.105 é
imperativo: são citados, sob pena de nulidade, todos os interessados, bem como o Ministério Público. Pode dar-
se que a ação parta de ato d próprio juiz, que, embora atue de ofício, não pode deixar de observar o art. 1.105.
Aí, não está ele obrigado a tomar, antes de decidir, a providência do art. 1.113, § 2)’. Se foi uma das partes que
suscitou a alienação judicial, os interessados tinham de ser citados (art. 1.105) e, além disso, depois das medidas
do art. 1.114 e quaisquer outras, a outra parte ou as outras partes têm de ser ouvidas.

5)DECIsÃo DE OPÇÃO QUANTO À ALIENAÇÃO JUDICIAL. Os casos em que o juiz pode ordenar de
oficio a alienação são aqueles em que: a) a lei lhe dê responsabilidade pela guarda da coisa e sua conservação; b)
tendo-lhe sido aberta a cognição, estaria prejudicado, sem ela, interesse de incapaz ou do público (e. g., perigo
para a saúde pública: doenças contagiosas de animais, deterioração de certos gêneros, etc.), sendo de notar-se
que, aí, a determinação da alienação é que é de ofício, sem ser provocado pelo juiz o processo; c)
quando a venda judicial seja ordenada em lei dirigida aos juizes; cl) nos casos expressos em lei e naqueles em
que, sem a alienação, o processo mesmo, com prazo para terminar, não andaria sem ela.

6)AVALIAÇÃO COM3 PRESSUPOSTO NECESSÁRIO . O Código no art. 1.114 exige, sempre, a avaliação,
para servir de base à venda, salvo se os bens foram, antes, avaliados judicialmente. N~ estabeleceu tempo em que
valha essa avaliação anterior. Entenda-se, porém, que se exclui o seu valor se ocorre alguma das espécies do art.
683. ~Qitid luris, se for provada a sua imprestabilidade pelo tempo decorrido? Essa imprestabilidade tem na
hasta pública o ensejo de ser co~firmada; e nada obsta a que o preço antigo sirva de base para a hasta pública.
Atende-se, sempre, à correção monetária.

7) INTERESSADOS PARA QUE NÃO SE PROCEDA A LEILÃO . No art. 1.113 cogentemente se diz que a
alienação há de ser em leilão e no § 3~0 permite-se que se aliene o bem independentemente de leilão, se todos os
interessados são capazes e nisso convierem expressamente. N~ basta presunção de concordância, nem, sequer,
concordância tácita. O interesse pode ser público, razão para se ter de manifestar o Ministério Público. Também
pode ter interesse alguém que tenha registrado algum direito de ‘preferência, quer de ordem legal quer de ordem
negocial.
No exame do acordo, tem o juiz de adotar a solução que reputa mais conveniente ou oportuna (art. 1.109, 2.a
parte), isto é, o leilão.

8)PERITO NOMEADO OU NÃO PELO JUIZ. O art. 1.114,1 e II, estatui que os bens são avaliados por um
perito nomeado pelo juiz quando não tiverem sido avaliados anteriormente, ou quando tenham sofrido alteração
no seu valor. Supõe -se que a lei estadual não haja criado cargo público para tal missão. Não se trata de processo
civil, que seja da competência da União, mas de função que a lei estadual pode estabelecer. Se há perito oficial,
não tem o juiz de nomear perito. No art. 680, concernente ao procedimento de execução, diz-se que o juiz nomeia
perito para estimar os bens penhorados “se não houver, na comarca, avaliador oficial”. No sistema jurídico
brasileiro, interpretação restrita do art. 1.114 dele destoaria.
Se o bem ou os bens a serem alienados são de cotação na Bolsa, é de afastar-se a exigência da avaliação por
perito, nomeado ou oficial.
Para se afastar a exigência do leilão, que consta do art. 1.113, de modo nenhum se pode invocar o art. 1.109,
porque seria permitir-se o arbítrio do juiz, principalmente diante do art. 1.113, § 3~0, que só admitiu a alienação
sem ser em leilão se todos os interessados são capazes e nisso convierem expressamente. Nem se diga que há
contradição entre o art. 1.113 e ~ 3•0 e o art. 1.109. Seria contradição entre enunciados interpretativos que
dessem ao juiz, no artigo 1.109, poder de infringir a lei. A redação do art. 1.109 não permite ciue até aí se vá. Por
outro lado, se os imóveis sã~ pertencentes a menores, porque, conforme’ o Código Civil, art. 429, “só podem ser
vendidos, quando houver manifesta vantagem, e sempre em hasta pública”.
O que o juiz pode ordenar é que o edital e os atos de publicidade sejam em jornais adequados, evitando-se
qualquer fraude (art. 17, IV), prevenir qualquer ato contrário à dignidade da justiça (art. 125, III), ou obstar a
objetivos das partes ou de alguma parte, proibidos por lei, ou prática de ato simulado (art. 129). Para o leilão tem
de haver edital, com os pressupostos do art. 686, afixado no átrio do edifício do fórum e publicado, em resumo,
no órgão oficial do Estado-membro, e duas vezes em jornal diário, se houver (art. 687). Também se hão de
respeitar os §§ 1.0 e 2.~ do art. 687.

Árt. 1 . 115. Á alienação2) será feita pelo maior lanço oferecido, ainda que seja inferior ao valor da avaliação’).
1)LANCE IGUAL OU SUPERIOR AO VALOR ESTIMADO. A regra jurídica do art. 1.115 é a do princípio
que rege as alienações ao público, “a quem der mais”. Sempre que há estimação de valor, toma-se por base esse.
Se não houve lanço igual ou superior, outra comunicação de vontade expressa o juiz, manda que se venda pelo
preço obtido. O órgão da alienação não tem autoridade para a emissão dessa vontade, essencial à declaração de
vontade que vai constituir o negócio jurídico da alienação judicial, qualquer que seja, nela, o papel do juiz. Pode
ser a de simples elemento de cooperação (constitutiva integrativa), como acontece nas alienações de bens de
incapazes; ou constitutiva, como se dá nas alienações de bens penhorados, que é feita pelo Estado mesmo, sem
qualQuer declaração de vontade dos donos dos bens. O poder de conversão passara ao Estado.
Temos de lembrar o art. 701 onde se lê: “Quando o imóvel de incapaz não alcançar em praça, pelo menos oitenta
por cento do valor da avaliação, o juiz o confiará à guarda e administração de depositário idôneo, adiando a
alienação por prazo não superior a um ano”. “Se, durante o adiamento, algum pretendente assegurar, mediante
caução idônea, o preço da avaliação, o juiz ordenará a alienação em praça” (§ 1.0). Se o pretendente se
arrepende, há a multa de vinte por cento sobre o valor da avaliação, em beneficio do incapaz, valendo a decisão
como título executivo (§ 2.0). Findo o prazo do adiamento, aliena-se o imóvel (§ 4Y) conforme o art. 686, VI.

2)INTERESSADOS E ALIENAÇÃO SEM SER EM HASTA PÚBLIcA.

Os interessados, que podem preferir a alienação, sem ser em hasta pública, são os donos dos bens arrestados,
sequestrados, depositados ou penhorados, ou, por outra razão, subordinados ao processo dos arts. 1.113-1.119,
desde que capazes e concordantes. A construção, pelo menos a respeito dos tens penhorados, não é fácil: a
penhora invade a esfera juridica do executado, tirando-lhe a disposição eficaz dos bens, que passa ao Estado. Se
ocorre algum dos motivos do art. 1.113, que regula a alienação necessitatis cansa dos bens penhorados, a
constrição desses bens não muda: a alienação “particular” é de bens de que só o Estado pode dispor, de modo que
a declaração de vontade é a do Estado, a despeito de ser fora da hasta pública a alienação. O legislador,
deslizando pela superfície dos conceitos, não percebeu quanto estava, por baixo deles, de realidade jurídica.
Interessados, na venda de bens penhorados, não são somente o exequente e o executado; são outros credores que
se apresentam com preferência, ou de outras penhoras. Feito o alvará para essa alienação fora de juízo, é
inelidivel que esse alvará contém a declaração de vontade do Estado, os bens continuam penhorados (arrestados,
seqúestrados, depositados, etc.), até que se alienem e sejam entregues. Enquanto não se deposita o preço, para
que a sub-rogação real se opere, a constrição do bem persiste. Sempre que o negócio jurídico, como é o caso dos
bens penhorados, é negócio jurídico do Estado, e não do dono dos bens, o dono coopera com esse, ainda que se
lhe permita vender, particularmente, bens que estão à disposição do Estado e só o Estado os pode converter. Daí
deriva, por exemplo, a responsabilidade do Estado e, eventualmente, do juiz, em alienações com fundamento no
art. 1.113, que foram feitas contra lei (e. g., sem ocorrência de suficiente motivo) ou com dolo.

Cumpre não se pensar que a alienação dita, no Código de 1939, “particular” é a alienação não-judicial.
Acertadamente, o Código de 1973, no art. 1.113, § 2.0, riscou a referência a “venda particular”, que estava no
Código de 1939, art. 704, § 2.0. As alienações não se dividem, segundo em alienações judiciais e alienações
particulares. A alienação particular é apenas o oposto à praça e ao leilão: a alienação que não é ao público. Não
se dispensou a judicialidade da venda. Termo mais técnico seria a alienação fora de hasta pública, ou “não-
pública”, ou “não ao público”. A alienação em hasta pública é combinação da compra-e-venda com a declaração
unilateral de vontade. A outra é por declaração bilateral. A “alienação judicial” o que se opõe é “venda extra-
judicial”, venda de direito material puro.

3)ALVARÁ. Não se pode dispensar o alvará, pois que o Estado chamou a si o poder de dispor, ou de autorizar,
e a alienação é judicial, posto que “alienação particular”, isto é, sem hasta pública. Hasta pública e judicialidade
não são conceitos coextensivos.

É de toda importância não se confundir com a alienação dita “particular” feita em juízo, se o sistema jurídico a
permite, a alienação “por iniciativa particular” do art. 670, que é alienação antecipada. A alienação particular é
limitada, de ordinário, aos casos de fácil deterioração, avarias ou grandes despesas para a sua guarda, ou de
evidente vantagem. Fora dai, ela não cabe.
Art. 1 .116. Efetuada a alienação e deduzidas as despesas, depositar-se-á o preço, ficando nele sub-rogados 1)
os ónus2) ou responsabilidades a que estiverem sujeitos aos bens.
Parágrafo único. Não sendo caso de s~ levantar o depósito antes de trinta (30) dias, inclusive na ação ou na
execução, o juiz determinará a aplicação do produto da alienação ou do depósito, em obrigações ou títulos da
divida pública da União ou do Estado3).

1)SUB-ROGAÇÃO REAL. Nos casos de arresto, seqüestro , depósito, penhora, etc., o bem está sob as ordens
do Estado, a que, de regra, porém não em todos os casos, exceto os de penhora, passou a disposição do bem. Até
que se opere a sub-rogação, o bem continua ~sob essa constrição estatal. O depósito do preço, deduzidas as
despesas, tem função apenas cautelar, para que se evite a perda ou o desvio do objeto em que se dará a sub-
rogação real. Nenhum ato é preciso, a mais, para que se efetue. A sub-rogação acontece ipso iure no momento da
alienação judicial ou particular. Quer nessa, quer naquela, o preço, deduzidas as despesas, é depositado antes de
se entregar a coisa, ou de se instrumentar a transferência. Não há transferência sem a sub-rogação da coisa pelo
preço, deduzidas as despesas; porque somente com a sub-rogação cessa a constrição estatal. Nos casos de outras
vendas em que o bem não está constrito pelo Estado, o poder de vigilância do juiz toma a intensidade que a
espécie exige. Sempre, porém, que a sub-rogação real se tem de dar, o depósito prévio é necessário.

O preço fica in locum rei; e ai termina a eficácia das sentenças de venda judicial; não é essa ato, em sequência de
atos como a arrematação, que é ato de conversão, como os outros, mas em sequência de atos executivos

2)SENTIDO DE “ÔNUs” Ônus está, no art. 1.116, em sentido larguíssimo: o destino do bem, que fez exigível a
intervenção do Estado, completa (e. g., penhora) ou apenas integrativa (e. g., bens de incapazes), na alienação. A
simples autorização do juiz, ou o suprimento do assentimento de pessoa que deveria assentir ao ato de outrem,
não faz judicial a venda, se se trata de ato do juiz, integrativo de negócio jurídico de direito privado, sem a
constrição estatal, ou sem a vigilância do Estado quanto ao ato da alienação (e. g., Código Civil, arts. 235 e 237,
242 e 245).

Tudo se passa em três momentos: a) permissão da alienação; U) alienação e sub-rogação no preço; c) sub-
rogação na coisa adquirida. Ou só em dois: a) e b), se é caso de poder ficar o preço sob a constrição.

3)DEMORA NO LEVANTAMENTO DO DEPOSITO. Se, no caso, não é levantável o depósito antes de trinta
dias, inclusive na ação ou na execução, o juiz determina a aplicação do produto da alienação ou do depósito em
obrigações ou títulos da dívida pública da União ou dos Estados-membros.

‘Tratando-se do depósito, se o credor exequente não concorda que fique como depositário o devedor, o art. 666,
1, estabelece que se há de depositar no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal, ou em banco de que o
Estado-membro tenha mais de metade do capital social integralizado, ou, em falta de tais estabelecimentos de
crédito, ou agências suas no lugar, em qualquer estabelecimento de crédito designado pelo juiz. No art. 1.116,
referente às alienações judiciais, de jurisdição voluntária, há a aplicação do produto da alienação ou do depósito
em obrigações ou titulos da dívida pública da União ou dos Estados-membros (redação da. Lei n. 5.925, de 1.0
de outubro de 1973). Com isso se evitam os males dos depósitos sem juros e da desvalorização monetária. O
dinheiro, hoje, é algo em deterioração.

Art. 1.117. Também1) serão alienados em leilão, procedendo-se como nos artigos antecedente.~:
1 o imóvel que, na partilha, não couber no quinhão de um só herdeiro ou não admitir divisão cômoda , salvo se
adjudicado a um ou mais herdeiros acordes 2);
li a coisa comum indivisível ou que, pela divisão, se tornar imprópria ao seu destino, verificada previamente a
existência de desacordo quanto à adjudicação a um dos condôminos3);
111 os bens móveis e imóveis de órfão s, nos casos em que a lei o permite e mediante autorização do juiz4).
Art. 1 .118. Na alienação judicial do coisa comum, será preferido ~):
1 em condições iguais, o condômino ao estranho;
II entre os condôminos, o que tiver benfeitorias de maior valor;
III o condômino proprietário de quinhão maior, se não houver benfeitorias.

Art. 1 . 119. Verificada a alienação de coisa comum sem observância das preferências legais, o conáômino
prejudicado poderá requerer, antes da assinatura da carta, o depósito do preço e adjudicação da coisa 6).
Par~graf o único. Serão citados o adquirente e os demais condôminos para dizerem de

seu direito, observando-se, quanto ao procedimento, o disposto no art. 803 7)~

1) EXEMPLIFICATIVIDADE. O art. 1.117 é exemplificação do art. 1.113, pr. Submete os casos dos incisos 1-
111 ao procedimento dos arts. 1.113-1.116.

2)COMUNHÃO HEREDITÁRIA E ALIENAÇÃO DE IMÓVEL.


O imóvel, que, na partilha, não cabe no quinhão de um herdeiro, nem admite divisão cômoda, nem, a respeito
dele, se chega a acordo quanto à reposição pelo herdeiro, nem quanto à Inclusão no pagamento de dois ou mais
herdeiros, que fiquem em comum, tem de ser alienado, necessitatu causa. A equiparação aos casos do art. 1.113
é fácil de compreender-se. A regra jurídica pertence ao direito material (Código Civil, art. 1.777), a que a lei
processual apenas atende, com o~s princípios de direito formal. No mesmo sentido, com citação da í.a ed. dos
Comentários ao Código de 1939, IV, 159 (2.a ed., VIII, 493), a L8 Turma do Supremo Tribunal Federal, a 23 de
outubro de 1952 (D. da J. de 5 de setembro de 1955).
A venda dos bens necessários ao pagamento do passivo da herança (art. 1.017 e § § 2.0 e 3.0) obedece às regras
jurídicas da alienação em execução de sentença.

Se há quotas ideais e contribuições diferentes para a construção, que se paralisou, sem atendimento entre os
condôminos, aliena-se o prédio para se dividir o preço conforme as quotas e as inversões (4.a Câmara Civil do
Tribunal de Justiça de São Paulo, 16 de novembro de 1950, R. F., 138, 172).
O art. 1.117, 1, do Código de 1973, como o art. 706, 1, do Código de 1939, e o art. 1.777 do Código Civil d~
1916, só se refere a imóvel que, na partilha, não couber no quinhão de um só herdeiro, ou não admitir divisão
cômoda. Pergunta-se: se um bem móvel que, na partilha, não cabe no quinhão de um herdeiro, ou não admite
divisão cômoda, ~,como se há de resolver? Cogitamos da questão (Tratado de Direito Privado, LX, § 5.994, 1) e
dissemos que, já antes do Código de 1939, se aplicava ao bem móvel que não cabe no quinhão de um só
herdeiro, ou não admite divisão cômoda , o artigo 1.777 do Código Civil (cf. 5.~ Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Distrito Federal, 30 de outubro de 1939, A. J., 54, 229).
Pode dar-se que um ou alguns herdeiros peçam a adjudicação. O art. 1.117, 1, fala de um ou mais herdeiros
concordes. Aí, há aquisição por um ou por mais de um, se cabe nos quinhões, ou a aquisição do que excedeu ao
quinhão ou aos quinhões. A reposição permite que o interessado ou os interessados adquiram bem que excede o
‘seu quinhão. O excesso n~o é aquisição causa mortis; ó compra-e-venda, e, como tal, sujeito a imposto de
transmissão inter vivos. O dinheiro reposto paga a compra e sub-roga-se ao excesso, para todos 03 efeitos da sub-
rogação real (preAini succedit in loco rei); ainda que se trate de citação em que o inventariante, com o dinheiro,
complete a aquisição do bem, para satisfazer exigência testamentária. Porque o principio da sub-rogação real, em
assunto de comunhão hereditária, a faz independente de se ter adquirido o bem com meios da herança, ou não
(FRANZ LEcNHARD, Errecht, 2.~ ed., 183; aliter. R. BEYER, Die Surrcgaticn bei Vermõgen im BGB., 222).

3)ALIENAÇÃO JUDICIAL DA COISA COMUM. Código Civil, arts. 632 e 635. A alienação da cosa comum,
nos casos do art. 632 do Código Civil, pode ser sem qualquer intervenção do Estado, desde que os condôminos
estejam de acordo: e venda para divisão do preço, com a pluralidade subjetiva de vendedores, sem qualquer
processualidade civil. Há pretensões, para cada um dos condôminos, baseadas no art. 632 do Código Civil, e
eventualmente ações. A espécie não se confunde com a do art. 635 do Código Civil. A alienação, a que se refere
o art. 1.117, II, do Código de Processo Civil, é a que supõe a ação nascida do desacordo entre os condôminos
(elemento que pode não existir na ação do Código Civil, artigos 632 e C35) quanto à adjudicação a um só. Pode
dar-se que todos, menos um, prefiram aliená-la; devido a esse um, não se estabelece a possibilidade de ser
vendida em ato de direito material, ou durante o processo correspondente aos arts. 632 e 635 do Código Civil.
Entendamos o art. 1.117, II:se um, ou dois, ou alguns pedem a adjudicação, e os outros não concordam, tem-se
de alienar a coisa, judicialmente.

4)BENs PERTENCENTES A INCAPAZES. Sempre que a autorização judicial é necessária à alienação de bens
de incapazes, tal alienação se rege pelos arts. 1.013-1.016. Se a autorização judicial é necessária, responde o
direito material. Afirmativa a resposta, aplica-se o art. 1.117, III, onde “órfãos” está por “incapazes”, uma vez
que seria absurdo só se cogitar da alienação de bens de órfãos. O direito material é que dá a solução.
Sempre exprobramos a expressão imprópria, “órfãos”, que estava no Código de 1939, art. 706, III, e se
conservou ‘sob o Código de 1973, art. 1.117, III. Temos de entender hoje, como entendíamos, que a regra
jurídica se refere a quaisquer incapazes, sejam pela menoridade ou sejam pela interdição. Antes, art. 1.112, III,
onde tratamos do assunto.

5)CONDOMÍNIO E DIREITO DE PREFERÊNCIA . Código Civil, arts. 632, 1.139 e parágrafo único.

6)ABJUDIICAÇÃO DE ANTES DA ASSINATURA ~A CARTA. A adjudicação, no art. 1.119, é conteúdo de


comunicação de vontade (verbis “poderá requerer”) mais a comunicação de conhecimento de que não lhe foi
respeitada a preferência do art. 1.118, (Código Civil, arts. 632 e 1.139 e parágrafo único),
ainda que algum outro condômino, acima do requerente, houvesse sofrido com a inobservância das regras legais.
Os pressupostos gerais e necessários são: infração do art. 1.118; ser o requerente um dos condôminos, com
preferência em relação ao comprador. Pretensão à adjudicação, tem-na ele sempre, porque, sendo condômino, se
a alienação foi feita a estranho, a sua pretensão é evidente. Quando a alienação foi feita a outro condômino, então
muda de figura: tem-se de apurar quem vem em primeiro lugar, depositando-se o preço.
Não cabe discutir-se se esse condômino conhecia, ou não, a alienação. O art. 1.118, III, nada tem com a espécie
do art. 1.139, 2.~ parte, do Código Civil (essa regra juridica deve ser lida, como se fosse § 2i~, depois do
parágrafo único do mesmo artigo): se o condômino não teve conhecimento da alienação, cabe-lhe a pretensão,
não firmada no art. 1.118, III, mas no art. 1.139, 2.~ parte, do Código Civil, de haver para si, depositando o
preço, a parte vendida a estranhos, precluivel em seis meses. A essa pretensão corresponde ação autônoma, quer
tenha havido, ou não, a sentença na espécie do art. 1.139, 2.~ parte, do Código Civil, pois que, ex hypotheSi, não
foi citado.

Discutiu-se se os que têm preferência, como condôminos, têm de comparecer à praça, ou se basta que peçam a
adjudicação até ser assinada a carta de arrematação. Se não se exige o lanço, porque o exercício é “antes da
assinatura da carta”, conforme diz o art. 1.119, e o texto era e é claro, dispensa-se o lanço ~nesse sentido, a 1.a
Turma do Supremo Tribunal Federal, a 31 de outubro de 1950, R. F., 135, 88; 1.a Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Distrito Federal, 27 de agosto de 1952, D. da J. de 9 de julho de 1953; 2Y’ Câmara Cível do Tribunal
de Justiça do Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1951).
Temos de corrigir a conclusão a que se chegara, porque o art. 1.119 diz que “verificada a alienação de coisa.
comum sem observância das preferências legais, o condômino prejudicado poderá requerer, antes da assinatura
da carta, o deposito do preço e adjudicação da coisa.”. Se o condômino não lançou, nem se manifestou, desde
logo, que está a exercer a pretensão à preferênCia~ o que é lançar, por estar implícito o lanço, não pode, depois
da alienação a outrem, requerer o depósito do preço e a adjudicação do bem, porque não verificou “alienação de
coisa comum sem observância das preferencias legais”. o elemento do lanço igual é indispensável . O condômino
foi intimado para o leilão, com a data certa (art. 687, ~ 2.0), e tinha de se manifestar para que, diante da
igualdade~ o direito de preferência surgisse.
O condômino foi intimado, por edital, para a licitação, de cuja data teve ciência (art. 687, § 2.0). O condômino
tem de manifestar a sua pretensão à preferência e, se acaso lançou com o mesmo valor que outrem lançou,
evidente está que ~a exerceu a sua pretensão à preferência. O que importa em todas as espécies do art. 1.118, 1,
II e III, é que se parte do prinCíPio da igualdade de lanços. Se o lançador ou lançadores são estranhos, basta a
invocação de tal princípio. A igualdade não basta se o outro lançador ou os outros lançadoreS são condôminos.
Aí, tem-se de observar o art. 1.117, II ou III, que atende a existirem benfeitorias feitas pelo preferente, ou
benfeitorias de maior valor feitas por ele.
O pressuposto da igualdade é comum a estranhos e a condôminos, razão por que, diante dela, é que se têm de
verificar OS outros pressupostos. Pode haver benfeitorias de maior valor, feitas por um dos condôminos
lançadores, e, ate mesmo, haver quinhão de maior valor, e ter faltado o que mais importa, que é a igualdade dos
lanços. Então, não há direito de preferência.
O art. 1.139, 2•a parte, do Código Civil só se refere a venda de parte a estranhO, não a venda, da coisa comum.
O art. 1.139, 2,a parte, também alcança os co-herdeiro5~ se algum deles aliena a parte hereditária (Câmaras
Cíveis Reunidas do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1953).
A ação de consignação é adequada ~s.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 12 de maio de 1950,
R. dos T., 187, 304).
Temos agora de cogitar do conteúdo dos incisos 1, II e III do art. 1.118. No inciso 1, dá-Se preferência na
alienação judicial do condômino diante do estranho. O elemento essencial é a igualdade dos lanços, e havemos
de entender que é indispensável a manifestação de vontade do condômino diante da manifestação feita pelo
estranho. Não pode o condômino que nada disse diante do lanço do estranho pretender a preferência. Para que
ele, antes da assinatura da carta, requeresse o depósito do preço e a adjudicação da c&.sa, seria preciso que “a
alienação de coisa comum” tivesse sido “sem observância das preferências legais” e, uma vez que ele não lançou,
ou, talvez, nem sequer tenha comparecido ao leilão, nenhum desrespeito houve ~ sua pretenSão à preferência.
Não se pode exercer preferência sem que se haja produzido algo que pré-fira outra pretensão. Não é a sua
qualidade de condômino que gera a sua possível preferênCia~ é a de condômino que faz lanço igual.
Se a espécie é a do art. 1.118, II, a preferência resulta de ter sido o mesmo o valor do lanço, de serem
condôminos os dois ou mais lançadores e um deles ter feito benfeitorias na coisa, que foram as únicas ou as de
valor maior do que o que outro condômino fez, ou que os outros condôminos , de per si, fizeram. Se as
benfeitorias do condômino foram do valor 3 e as dos outros, respeCtivamente, 2 e 2, prefere O condômino das
benfeitorias de valor 3. Não se somam 05 valores das benfeitorias dos outros condôminos. Surge um problema se
o lanço foi pelos dois, que tinham, respeCtivamente, as benfeitorias de valor 2, ~,podem-se somar os dois
valores? A resposta, devido à unicidade da figura de lançador, é afirmativa; porém não devemos afastar a
invocação, pelo juiz, da regra jurídica do art. 1.109, 2.~ parte.
Quanto à espécie do inciso III, em que há concorrência de condôminos com quinhões de diferentes valores, o
condômino cujo quinhão é de maior valor tem direito de preferência Mas o problema que apontamos a respeito
do inciso II surge para a pretensão à preferência, em se tratando de condôminos cujos quinhões têm valores
diferentes. Se o lanço foi feito por dois ou mais como único lançador, i,como se há de tratar o assunto?
~~Somam-se os valores dos quinhões ou não se somam? A solução é a de atender-se a que houve um lanço por
dois ou mais, que de certo modo mantiveram entre si a comunhão. Todavia, o juiz pode invocar e aplicar o art.
1.109, 2.~ parte.
Se ocorreu o leilão sem ter havido a intimação do condômino, houve violação da lei. O interessado pode pedir a
decretação da nulidade do leilão (arts. 247-249).
Qualquer exercício da pretensão a que se deposite o preço e se adjudique a coisa só é permitido antes que se
assine a carta do ato de arrematação ao estranho, ou a carta de adjudicação ao condômino.

7) CITAÇÕES . São citados, no caso de condômino que requer a adjudicação, o adquirente e os outros
condôminos. Não havendo contestação pelas pessoas que foram citadas, são tidos como verdadeiros os fatos
alegados pelo requerente e, dentro de cinco dias, tem o juiz de decidir (arts. 1.119, parágrafo único, e 803).
Também é citado o Ministério Público (art. 1.105).

CAPITULO III

DO DESQUITE POR MÚTUO CONSENTIMENTO 1)~2).3)

1)DESQUITE, PRESSUPOSTO DE EXISTÊNCIA DO cASAMENTO. A palavra “desquite”, que o Código


Civil , para designar a dissolução da sociedade conjugal, conservando-se o vinculo (Joedus matrzmcnii),
corresponde ao divórcio canônico, que se superpusera, no tempo, ao divórcio romano. A indissolubilidade do
vínculo, onde se manteve nas formas jurídicas, perdeu quase toda a significação, sob a complacente atitude de
tolerância com que os crentes aceitam a hipocrisia das anulações de casamentos. A sua conservação é um dos
índices de que a personalidade humana está em decadência nesses países; o favorecimento das anulações, a
recepção desses casamentos nos meios dito.~ católicos, é índice de quanto a hipocrisia constitui a base da
sociedade política. ~ tão grave o dano, que advém disso, e tão profundas as conseqüências , que os povos
imperialistas protestantes prestigiam todos os movimentos a favor do vínculo nos povos de cuja desordem
psicológica •e econômica tiram proveito. A política alemã na Itália, antes da guerra e provavelmente depois,
ordenava que se combatesse, fora da Alemanha, a adoção da lei do divórcio. Sobre a história do divórcio
católico, Direito de Familia, 2.~ ed., 1,345-349,e 3~a ed., 1, 412-419; Tratado de Direito Privado, VIII, § 829.
Hoje, o Brasil tem o divórcio.

O desquite supõe a existência do casamento. Enquanto não se declara a inexistência, ou não se pronuncia a
nulidade do casamento, pode ser pedido o desquite. Ao juiz do desquite não é dado, salvo em reconvenção,
decretar a nulidade, ou pronunciar anulação. Não assim, se se trata de matrimônio não existente. Então, cabe-lhe
recusar-se a decidir o desquite, quanto ao mérito, declarando, antes, a inexistência. Toda a ação de desquite, que
é ação constitutiva, a despeito da forte dose de condenação (exceto no desquite de mútuo consentimento), leva
consigo, implícito, ponto prejudicial de existência. Daí terem os que promovem o desquite de provar a existência
do casamento (Tribunal da Relação do R~o de Janeiro, 20 de novembro de 1925; Corte de Apelação de São
Paulo, 25 de julho de 1934). Se não está junta a certidão, ou a prova pue a supra (Tribunal de Justiça de São
Paulo, 25 de fevereiro de 1919; 1.a Câmara da Corte de Apelação do Distrito Federal, 26 de abril de 1923), é de
converter-se o julgamento em diligência, para que o façam as partes (Tribunal de Justiça de São Paulo, 4 de
agosto de 1906), e a qualquer tempo, pendente a lide, pode exigi-lo o juiz. Não há, porém, inconveniente em que,
justificada a urgência da separação e certa prova do estado de casados, e esclarecida a dificuldade de ser atendido
o despacho, se homologue o desquite amigável, ou se profira sentença no processo de desquite litigioso em que
ambos os cônjuges afirmam a existência do casamento (art. 319). Se, sem prova do casamento, o juiz proferiu a
sentença de desquite e, após recurso, ou sem ele, a decisão passou em julgado, ou se passou em julgado decisão
de outra instância, que, provendo ao recurso de sentença denegatória, o concedeu, não constitui tal resolução
prova de casamento. Pode ser invocada como um dos meios de prova, na posse de estado de casados.

No Código Civil, art. 323, diz-se que, “seja qual for a causa do desquite, e o modo como este se faça, é lícito aos
cônjuges restabelecer a todo o tempo a sociedade conjugal, nos termos em que fora constituída, contanto que o
façam, por ato regular, no juízo competente”.

2)AçÃo E SENTENÇA DE DESQUITE E PEDIDO DE DECRETAÇÃO DE NULIDADE OU DE


ANULAÇÃO. A ação ou a sentença de desquite não obsta ao pedido de decretação de nulidade, ou de anulação
do casamento, nem a litispendência da ação de nulidade ou de anulação obsta ao pedido de desquite. Se passou
em julgado a sentença que decretou a nulidade, ou que anulou o casamento, não mala se pode pedir o desquite:
o casamento não existe mais. Nem o desquite decretado persiste.

3) EsPÉcIES DE DESQUITE. Duas são as espécies de desquite: a) o desquite amigável, que é permitido, por
mútuo consentimento dos cônjuges, se forem casados por mais de dois anos; b) o desquite litigioso, erradamente
dito “judicial”, em que uma das partes alega e prova um dos motivos graves que a lei menciona para que se possa
requerer o desquite. O Código não trata da ação de desquite litigioso, porque é ordinário o rito do processo.

Art. 1 . 120. O desquite por mútuo consentimento 1) será requerido em petição assinada por ambos os
cónjuges2).
§ 1.0 Se os cônjuges não puderem ou não souberem escrever, é licito que outrem assine a petição a rogo deles3).
§ 2.0 As assinaturas, quando não lançadas na presença do juiz, serão reconhecidas por tabelião 11)
Árt. 1 . 121. A petição, instruída com a certidão de casamento4) e o contrato ante-nupcial se houver5), conterá:

1 a descrição dos bens do casal e a respectiva partilha 6);


Ii o acordo relativo à guarda dos filhos menores 7);
III o valor da contribuição para criai e educar os filhos8);
1V a pensão alimentícia do marido à mulher, se esta não possuir bens suficientes para
se manter9) 10)

Parágrafo único. Se os cônjuges não acordarem sobre a partilha dos bens 12), lar-se-á esta, depois de
homologado o desquite 13) 14), na forma estabelecida neste Livro, Titulo 1, Capítulo IX.

1)PRESSUPOSTOS DO DESQUITE AMIGÁvEL. São pressupostos do desquite amigável: a) estarem casados


os cônjuges, há mais de dois anos (datando-se o pedido, portanto, pelo menos, do dia imediato ao segundo
aniversário); b) consentimento dos cônjuges, conjuntamente manifestado perante o juiz; c) homologação judicial.
É o que resulta do Código Civil, art. 318. Nada obsta a que os cônjuges acordem em que a separação seja apenas
quoad lectum, permanecendo eles sob o mesmo teto, o que suscita a questão de se saber se os filhos da mulher,
concebidos após a separação, se presumem do marido. Diante do art. 341, do Código Civil, não seria possível ao
pai invocar a só separação legal para excluir a legitimidade do filho. Com o mesmo teto extingue-se a presunção .
O desquite amigável pode ser proposto, a despeito da existência de pedido de desquite litigioso. Não há
litispendência contra ele; nem o pedido de desquite litigioso determina a competência por conexão (certa, a ~
Câmara Cível
do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, a 18 de março de 1941, R. E., 87, 132), nem previne a competência.
O desquite amigável pode mesmo ser aforado noutro juízo que o do domicílio dos cônjuges, ou do marido, ou da
mulher, que é o dos desquites litigiosos em geral (art. 100, 1). Por outro lado, a propositura do desquite litigioso
depois do desquite amigável não impede que os cônjuges prossigam nele. Não se dá litispendência contra aquele,
nem fica determinada a competência pela conexão, nem prevenida. A razão é simples:
não há eadem causa petendi; e o desquite amigável conserva certa liberdade de aforamento, própria da maioria
das ações constitutivas.
No art. 1.123, o Código de 1973 fez lícito às partes, a qualquer tempo, no curso do desquite litigioso, requererem
a conversão de desquite litigioso em desquite por mútuo consentimento, caso em que se há de observar os arts.
1.121 e 1.120, § 1.0, l.a parte. A conversão não se confunde com o que expusemos acima a respeito de
duplicidade de pedido ou de extinção de um e permanência do outro.
A sentença de homologação do desquite amigável é de força constitutiva negativa, se considerarmos que o estado
natural é o de não casado, e o casamento, vínculo que declarações de vontade das partes constituíram, e ressaltam
apenas a data da propositura da ação e eficácia da sentença. O “consentimento”, o ato dos cônjuges, o seu
negocio jurídico bilateral para o desquite, é juridicamente relevante, posto que precise da homologação que o
integre.
A validade das cláusulas pode ser apreciada pelo juiz, não lhe sendo possível decretar a nulidade das que só em
ação seriam alegáveis pelas partes. Tudo depende, pois, dos princípios de direito material. Demasiado largo o
acórdão do Tribunal de Apelação de Santa Catarina, a 26 de novembro de 1943 (J., 1944, 109). Todavia, o juiz
pode invocar o art. 1.109.
Convertida em ação de desquite amigável a ação de desquite litigioso, processa-se na forma da lei, apresentando-
se a petição com os requisitos dos arts. 1.120 e 1.121 (5.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 30
de março de 1951, R. dos T., 192, 732).

2)PETIÇÃO DE DESQUITE AMIGÁVEL. No caso de desquite amigável, devem os cônjuges apresentar ao juiz
a petição, assinada por ambos, ou, se não sabem ou não podem escrever, pelo procurador, por instrumento
público, ou, ainda, a rogo (art. 1.120, § 1.’~, inovação do Código de 1939, art. 642), se não souberem ou não
puderem escrever, não sendo de se desprezar o despacho do juiz para que se tome por termo o pedido. No direito
anterior a 1939 era repelida a assinatura a rogo. O Código permite a assinatura a rogo, com firmas reconhecidas.
Uma só pessoa pode assinar a rogo por ambos os cônjuges, se é o caso (Turma Julgadora do Tribunal de Justiça
de Alagoas, 23 de abril de 1948, R. de J. B., 80, 201). Em vez disso, podem constituir procurador, por escritura
pública, se não podem ou se não sabem escrever (sem razão, a 2.~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de
Janeiro, a 3 de agosto de 1948). Se sabem e podem escrever, não pode ser assinada por procurador a petição (2.a
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 12 de outubro de 1948, R. dos T., 177, 716).
O juiz não pode suspender o processo do desquite litigioso somente porque foi pedido o desquite amigável: teria
fixado prazo para o processo do desquite amigável, o que seria impróprio. O que poderia haver seria a
desistência, mas essa terá de ser com as assinaturas dos cônjuges ou procuração com o poder especial (arts. 264 e
38).
Adiante falaremos da conversão da ação de desquite litigioso em ação de desquite amigável.
O art. 1.121 apenas concerne aos requisitos especiais da petição inicial. O art. 282 vem à. frente, porque, como
iws cogens, atinge qualquer petição. Dela há de constar o juiz ou tribunal a que é dirigida (dissemos tribunal
porque o desquite amigável pode ser pedido, dentro do processo de desquite litigioso em grau de recurso, que
esse naquele se converta, conforme o art. 1.123). Na petição hão de estar os nomes, prenomes, estado civil (que é
necessariamente o de casados), a profissão, o domicílio e a residência dos cônjuges, o fato (sociedade conjugal
que se quer dissolver) e os fundamentos jurídicos do pedido (manifestações de vontades concordantes para o
desquite) e o pedido, com a especificação. Pode ser que os cônjuges acordem em que a mulher continuará com o
nome do marido, o que, em caso de omissão, é o que se tem por assente (Código Civil, art. 240), ou em que passe
a mulher a usar o seu nome de solteira, ou que use outro à sua escolha. Também a petição há de referir-se ao
valor da causa.

Os atos processuais correm em segredo de justiça (artigo 155, II).

3) PROCURAÇÃO. A procuração por instrumento público não foi posta de lado pelo Código, se o cônjuge não
sabe ou não pode escrever. Quem pode o mais pode o menos,
mas é procuração em que o texto da petição deve ser inserto.

O art. 1.120 exige a assinatura dos cônjuges no pedido de desquite amigável. Daí procurou tirar a Câmara Cível
do Tribunal de Apelação de Santa Catarina, a 19 de março de 1945 (J., de 1945, 93), que se exigia ser feita aos
cônjuges, e não aos procuradores ou advogados, a intimação da sentença; mas a mesma Câmara Cível, a 14 de
maio e a 4 de junho de 1945 (J., de 1945, 244), afastou-se de tal ilação.
Se os cônjuges podem assinar, têm de fazê-lo na presença do juiz; se não o fazem, a lei exige que sejam
reconhecidas as firmas por tabelião.

4)CERTIDÃO DE CASAMENTO, OU PROVA QUE A VALHA. A prova que valha a certidão de casamento é
a que se determine em direito material.
No Código de 1939, art. 642, ao falar-se da petição instruída com a certidão do casamento, dizia-se que tinha de
ter sido realizado há mais de dois anos. O Código de 1973, art. 1.121, apenas exige a certidão de casamento.
Com isso não se revogou o art. 318 do Código Civil, no qual se estatuiu que se dá “o desquite por mútuo
consentimento dos cônjuges, se forem casados por mais de dois anos, manifestado perante o juiz e devidamente
homologado”. A retirada do que constava do Código de Processo Civil de 1939 de modo nenhum significa que se
atingiu o Código Civil. Se bem que não devamos estar a buscar a intenção do legislador, em vez de aplicarmos
regras jurídicas de interpretação das leis, de base científica, frisemos que há dúvida sobre o próprio legislador ter
tido tal intuito. A regra jurídica do Código Civil estava no Código de 1939 e o Código de 1973 não a reproduziu;
nem precisaria fazê-lo, porque se trata de regra jurídica de direito material. O Código de 1973 exigiu a certidão
de casamento, porque isso é preciso no campo do direito processual. No art. 1.122 está claro que o juiz tem de
verificar se a petição inicial preenche os requisitos; mas o prazo do art. 318 do Código Civil é assunto do mérito,
e ele pode examinar desde logo a petição no tocante à falta da causa de pedir (ad. 295. 1, e parágrafo único, 1). A
petição é inepta. Se um cônjuge entende que há razões para o desquite litigioso, que proponha a ação. No próprio
Projeto do Código Civil ainda se marca prazo, posto que diminuído para um ano (Suplemento do Diário Oficial
de 13 de junho de 1945).
5) CONTRATO ANTENUPCIAL. A exigência que fez o Código de 1939, art. 642, 1, de se instruir a petição
com o contrato antenupcial atendia a que o juiz precisa saber qual o regime matrimonial dos desquitandos. No
Código de 1973 retirou-se a alusão, de modo que apenas, multas vezes, há conveniência, porque se faz a
descrição dos bens do casal.

6)DESCRIÇÃO DOS BENS DO CASAL E PARTILHA. Comunicação de conhecimento, e não declaração de


vontade, quanto aos bens que são comuns e, o que é conveniente, quanto aos bens que são próprios, ou apenas
quanto aos bens somente comuns. Há exteriorização da vontade de ambos os cônjuges sobre a partilha, dirigida
ao juiz, de modo que a declaração de vontade, que ai se faz, no tocante a partilha, ainda não é o negócio jurídico,
uma vez que a cooperação da autoridade, que é o juiz, é necessária ao negócio jurídico da partilha dos bens dos
desquitandos. A distinção entre comunicação de conhecimento (art. 1.121, 1, verbis “descrição dos bens do
casal”) e declaração de vontade (verbis “. . . respectiva partilha”) érelevante, na teoria e na prática. Por aquela,
pode ser responsabilizado o cônjuge que deu a Informação ao outro, ou que escreveu a petição, se o outro não
pode ler, etc. A manifestação c~uanto à partilha não contém afirmações, mas vontade. O ad. 1.121, 1, não faz
essencial a declaração de vontade sobre a partilha dos bens, devido ao art. 1.121, parágrafo único. A
comunicação de conhecimento sobre os bens é essencial; sobre ela repousará o inventário, podendo fazer-se nova
comunicação (complemento, não retificação da relação anterior) se, por ocasião da partilha, se tiverem de
inventariar outros bens. Se fora feita a decLaração da partilha (portanto acordo quase feito), então houve
sentença sobre a partilha, que somente pode ser impugnada por ação ordinária. A retificação da relação feita
também depende de ação.
É essencial a descrição dos bens do casal na petição inicial (1.R Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São
Paulo, 7 de outubro de 1940, 17 de novembro de 1941, 8 de junho de 1942, R. dos T., 128, 244; 134, 576; 136,
677; 3~8 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 28 de julho de 1947). É escusada se não há
bens. Ou se as circunstâncias mostrarem que não se pode, no momento, saber quais sejam esses bens. Não se
submete o interesse de assunto ligado à pessoa ao interesse de ordem econômica.
Se um dos cônjuges abre mão de algum bem, de modo que o outro recebe mais do que lhe tocava, paga esse os
impostos de transmissão de imóveis, como foi liberalidade (1.8 Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São
Paulo, 4 de maio de 1948, R. dos T., 174, 665).

A Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, a 21 de março de 1946 (J., 212), entendeu que não
prevalece (isto é, não é eficaz) o acordo que desobriga um dos cônjuges de prestar assistência aos filhos do casal.
Não está certo. Se se julgou e transitou em julgado a decisão, só a ação rescisória poderia caber. A questão nada
tem com a pretensão dos filhos a alimentos, Invocando os arts. 396 e 397 do Código CiviL
O acordo sobre os bens em que fica evidente o grave prejuízo de uma das partes não deve ser homologado (2.8
Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo, 29 de setembro de 1942, R. dos T., 140, 614). O juízo do
desquite não é o próprio para atos de liberalidade que infrinjam os arfa. 1.175 e 1.176 do Código Civil; a fortiori,
se não há aplicação do art. 320 do mesmo Código ou art. 1.121, IV, do Código de Processo Civil. Todavia pode
acontecer que a medida caiba no art. 1.109, 2.~ parte.

A ação de sonegados pode ser proposta em caso de inventário em desquite (1.8 Turma de Câmaras Civeis do
Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 24 de setembro de 1951, R. dos T., 205, 532), ainda se litigioso (3.8
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 5 de abril de 1951, 192, 772).
Ao fazerem a descrição dos bens, têm os cônjuges de mencionar as dívidas, bem como os gravames e ônus dos
bens descritos, inclusive referir-se a que alguma ação está pendente no tocante a algum ou a alguns bens.

7)AcoRro SOBRE A GUARDA DOS FILHOS. O acordo sobr2 a guarda dos filhos é declaração de vontade.
Somente se há de entender como tal; e a regra legal sobre a guarda dos filhos é, aí, dispositiva, ou interpretativa.
Em consequência, o juiz não pode homologar o desquite se: a) no acordo, um dos cônjuges renunciou a direito
irrenunciável, e. g., ao pátrio poder (a guarda dos filhos pode ser objeto de convenção); ou

b) um dos cônjuges se isentou de algum dever cogente quanto aos filhos; ou c) se nada se estabeleceu sobre o
sustento em sentido lato (criação’), ou educação dos filhos.

8)CRIAÇÃO E EDUCAÇÃO DOS FILHOS. A criação dos fílhos compreende comida, casa, vestes, remédios,
médico, etc.;a educação, o meio em que hão de viver, as convivências a escola.
A decisão Que homologa a cláusula do desquite amigável concernente aos filhos, ou que foi inserta pelo juiz, em
virtude do art. 327 do Código Civil, pode ser modificada, se as circunstâncias por modo tal mudaram que se
impõe a modificação, no interesse do filho ou dos filhos (ação de modificação). Na espécie, devido ao art. 327
do Código Civil, a ação pode ser iniciada pelos cônjuges, inclusive em acordo modificativo, que se leve à
homologação, pelo Ministério Público, porque foi ouvido sobre a cláusula, ou, de oficio, pelo juiz.
Competente para julgar a ação de modificação de cláusula do desquite sobre os filhos é o próprio juiz do
desquite, e não o do domicilio posterior dos pais, ou dos filhos (7.8 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Distrito Federal, 17 de julho de 1951).
A 8.8 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, a 13 de janeiro de 1950 (D. da J., de 8 de janeiro
de 1951), entendeu que, no desquite amigável, não podem os cônjuges estabelecer o internamento dos filhos. A
confusão ressalta. A cláusula é licita.
Se as circunstâncias posteriores sugerem aos desquitados outra solução, podem eles modificar aquilo em que
acordaram. Tais circunstâncias, quando sejam concernentes a interesse dos filhos, ou do filho, ou, ainda, a algum
ou alguns deles, podem ser tão importantes que perfaçam a pretensão de qualquer dos desquitados ou do
Ministério Público à modificação da cláusula. Trata-se, então, de ação de modificação, que, com fundamento
analógico no art. 327 do Código Civil, pode ser iniciada pelo juiz, de ofício. A ação de modificação é
inconfundível com a do art. 394 do Código Civil, exercida após o trânsito em julgado da sentença proferida na
ação de desquite.
Quando o 1.0 Grupo de Câmaras Civis do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 14 de novembro de 1950, e a 2.8
Câmara Civil, a 20 de junho de 1950 (R. dos T., 190, 216, e 188, 247), julgaram que os motivos graves podem
dar ensejo a “alteração” das cláusulas adotadas na ação de desquite a respeito dos filhos ou por serem os fatos
alegados “desabonadores da conduta do progenitor prejudicado”, ou porque tais fatos possam ser nocivos ao
“bem-estar do menor” ou ao “seu desenvolvimento físico e moral”, como se houve prematura internação em
estabelecimento de ensino, andaram perto da distinção entre as duas ações, a de modificação da cláusula do
desquite e a ação do art. 394 ou mesmo do art. 395 do Código Civil, ação que não modifica o acordado no
desquite, ou estabelecido pelo juiz, e apenas tem eficácia que atinge a esfera jurídica dos pais ou de um deles.

9)PENSÃO ALIMENTÍCIA DO MARIDO A MULHER. A pensão alimentícia do marido à mulher é


dependente das necessidades da mulher e dos meios do marido. A sentença, nesse ponto, é sujeita à mudança das
circunstâncias. Antes, sob o art. 471,1; salvo se nada quis a mulher.
O direito a alimentos, na ação de desquite, pode não ser exercido. Todavia, homologado o desquite, a
necessidade posterior de prestação alimentícia não faz titular de pretensão a alimentos o desquitado, salvo a ação
de nulidade ou de anulabilidade do acordo, se é o caso (2.8 Turma do Supremo Tribunal Federal, 22 de julho de
1947, D. da J., de 17 de fevereiro de 1949; sem razão a Turma Julgadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande
do Norte, a 26 de março de 1947, R. F., 117, 515, e 1.8 Câmara Cível do Tribunal de Ju~tiça do Rio de Janeiro,
13 de outubro de 1947, 12 de abril, 2 e 6 de setembro de 1948; 3~8 Câmara Civil do Tribunal de Justiça de S~o
Paulo, 24 de abril de 1947, R. dos T., 168, 270). Pode dai--se mesmo que haja base para a ação rescisória.
Se a mulher é dona de bens ou tem rendas que bastem para mantê-la, o art. 1.121, IV, permite que disso não se
fale na petição, posto que seja conveniente dizê-lo, salvo se a descrição dos bens por isso dá o suficiente informe.
Extinta a sociedade conjugal, não há direito superveniente da mulher a exigir pensão alimentícia.
Surge um problema: ~vale a cláusula de prestação de pensão alimentícia do marido à mulher se essa possui bens
suficientes para se manter? Se a mulher não tem bens suficientes para se manter, há a exigência do art. 1.121,
IV; mas isso não afasta que o marido possa fixar pensão alimentícia ou não só alimentícia, se a mulher tem bens
suficientes (e. g., marido milionário e mulher que tem renda ou vencimentos
ou honorários suficientes’).

O Código somente se refere à prestação de pensão alimentícia se a mulher não tem bens suficientes. Pergunta-se:
se a mulher, por exemplo, tem grande renda e o marido está paralítico e não tem renda suficiente, <tem-se na
petição de mencionar essa pensão? A resposta há de ser afirmativa, porque solução diferente feriria o art. 153, §
1.0, da Constituição de 1967, com a Emenda n. 1, que é princípio supraestatal dos Direitos Humanos. Não se
trata, outrossim, de divórcio, o que cortaria o vinculo conjugal, mas de des4uite, com o qual permanece o vínculo
e só se extingue a sociedade conjugal, que pode ser refeita. Advirta-se que, mesmo no desquite litigioso, se tem
de dar igual interpretação ao art. 320 do Código Civil onde se diz que, “no desquite judicial, sendo a mulher
inocente e pobre, prestar-lhe-á o marido a pensão alimentícia, que o juiz fixar”. Ora, se o marido é inocente e
pobre, talvez mesmo em estado físico ou psíquico que não lhe permite trabalhar, admitir-se que nenhuma
obrigação tem a mulher condenada na ação de desquite litigioso, seria contra o art. 153, § 1.0, da Constituição de
1967, com a Emenda n. 1, e contra os Direitos Humanos retirar o dever, que o marido, se fosse o condenado,
teria.
O art. 404 do Código Civil não concerne a alimentos em ação de desquite (Tratado de Direito Privado, IX, §
1.001, 1; sem razão, a 2.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 29 de abril de 1947, e a 4.~
Câmara Civil, a 4 de dezembro de 1947 e 5 de fevereiro de 1948, R. dos T., 168, 707, 172, 199 e 173, 305).
Certas, a 6.~ Câmara Civil, a 12 de dezembro de 1945, 172, 231, e a 4Y~ Câmara Civil, a 24 de setembro de
1948, 177, 325).

10)AçÃo DE MOIFICAÇÃO . A ação de modificação da cláusu1a de alimentos ao cônjuge, por mudança de


circunstâncias, somente se pode referir à importância da prestação (cf. Supremo Tribunal Federal, 6 de dezembro
de 1950, R. dos T., 209, 476, Á. J., 97, 391; 1.a Turma, 11 de julho de 1949, R. dos T., 194, 474; ~ Câmara Cível
do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 13 de março de 1951, R. F., 137, 116; 8.a Câmara Cível, 9 de outubro
e 22 de novembro de 1951; 2.~’ Turma do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, 21 de agosto de 1951, R. do T.
de J. do E. S., VI, 384). E. g., se sobreveio grande desvalorização da moeda.
Se a mulher desquitada, para a qual não se cogitou de pensão alimentícia, vem, mais tarde, a precisar dessa, não
lhe nasce pretensão a recebê-la (Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará, 21 e 28 de maio e 24 de setembro
de 1951, J. e D., II, 28 e 50, III, 54, e IV, 108, 145, 149, R. dos T., 2C5, 521, com algumas decisões discordantes,
datadas de 18 de fevereiro de 1952, J. e D., V, 53 e 56, e VII, 171; ~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Distrito Federal, 3 de agosto de 1949, R. F., 128, 144; 8.R Câmara Cível, 18 de julho de 1950, R. dos T., 194,
365; 6.~ Câmara Cível, 8 de agosto de 1950; Seção Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 25 de setembro de
1950, e 1.a Câmara Civil, 28 de março de 1950, R. dos T., 189, 895 e 619; ~ Câmara Civil, 20 de setembro de
1951, 195, 226, R. F., 145, 311 e 16 de junho de 1952, 203, 186; sem razão, a 2.~ Câmara Cível do Tribunal de
Justiça da Bahia, a 2 de outubro de 1951, R. dos T., da Bahia, 44, 400; ia Câmara Cível, 18 de dezembro de 1951,
45, 274; 8.~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 12 de junho e 24 de agosto de 1951, 1?. F.,
142, 230; ~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 14 de agosto de 1952, R. dos T., 204, 268; 2.~
Câmara Civil, 9 de setembro de 1952, 206, 285).
Se era ignorado o paradeiro do marido, que assinara a petição, e depois se descobre que poderia dar à mulher
pensão alimentícia, entende-se que não houve renúncia (1Y~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de
Janeiro, 13 de setembro de 1951).
A questão de rescindibilidade por erro, coação ou dolo do acordo ou da renúncia é outra questão (art. 486). A
decisão quanto à pensão alimentícia ao outro cônjuge, no desquite amigável, é simplesmente homologatória.
11)EXIGÊNCIA DO RECONHECIMENTO DA FIRMA. No artigo 1.120, § 1.0, a propósito do pedido de
desquite amigável (“por mútuo consentimento”), diz-se que a petição há de ser assinada pelos cônjuges, ou, “se
não puderem ou não souberem escrever”, assinada a rogo. Acrescenta o § 2.0: “As assinaturas, quando não
lançadas na presença do juiz, serão reconhecidas por tabelião”. A espécie é de pressuposto de validade, de modo
que se sana a nulidade com o reconhecimento posterior à entrega da petição, ou há a ratificação em juizo.
A exigência do reconhecimento da firma por tabelião é quanto à assinatura que não for lançada na presença do
juiz. Se não o houve, converte-se o julgamento em diligência para que seja reconhecida a firma (6.~ Câmara
Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 9 de fevereiro de 1951, R. dos T., 191, 677, R. F., 146, 321; 1.a
Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1951), ainda que em superior
instância. A solução de se decretar a nulidade (2.R Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 24 de abril
de 1951, R. dos T., 193, 272) viola os princípios do direito processual civil. Se foi arguida e não atendido o
arguente, a sentença, que transitou em julgado, é rescindível por ofensa (art. 485, V) “violar literal disposição de
lei”.
O art. 1.120, § 2.0, nada tem com a assinatura do procurador judicial (6.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de
São Paulo, 5 de dezembro de 1952, R. dois T., 208, 296). Só se refere às assinaturas dos cônjuges e devemos
evitar confusões .
Se só um cônjuge não podia assinar e o outro assinou, aquele tem o tratamento do art. 1.120, § 1.~, e esse, o do
art. 1.120, § 2.0. No caso de ambos poderem assinar e terem assinado, mas um na presença do juiz e o outro não,
a assinatura desse tem de ser reconhecida por tabelião.

12)Acoimo SOBRE A PARTILHA DOS BENs. A partilha dos bens, se houve acordo, é parte integrante da
sentença da homologação, ainda que o juiz exclua a parte ilícita ou contra os bons costumes, se separáveL Se não
houve acordo, procede-se a inventário dos bens. De modo que o requisito da declaração de vontade sobre os
bens do casal (comuns) não é essencial ao pedido. Não tendo havido a declaração de vontade do art. 1.121, 1, 2.~
parte, não houve sentença sobre os bens, mesmo que tenha havido sobre os bens comuns alguma comunicação de
conhecimento do art. 1.121, 1.
A partilha feita no desquite dispensa o inventário posterior, judicial (4.a Câmara Cível do Tribunal de Apelação
do Distrito Federal, 14 de janeiro de 1944, J., 22, 14).
A 2.~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a 28 de maio de 1951 (R. dos T., 197, 422),
explicitou: “É necessário que os próprios requerentes descrevam os bens individualmente..., e dêem valor a cada
um deles separada-mente. Não é exato que o § 3•0 do art. 642 só se ajuste à hipótese prevista pelo § 21’; ainda
na hipótese do art. 642, II, há necessidade de serem os bens descritos e avaliados separadamente”. Hoje, art.
1.121, 1, e parágrafo único.
Disse a 3•~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a 23 de agosto de 1951: “No sistema do
Código de Processo Civil, não é essencial ao desquite amigável que os cônjuges desquitandos acordem, desde
logo, sobre a partilha dos bens do casal, quando houver bens a partilhar. Desde, porém, que, com o pedido de
desquite, os desquitandos manifestam, como na espécie dos autos, expressamente seu acordo quanto à partilha
dos bens, tal acordo deve ser homologado na mesma sentença, a menos que o juiz tenha motivos para o não
fazer, caso em que deveria declará-los. Quando não há acordo dos desquitandos, ou quando a partilha por eles
proposta não é legalmente possível, é que se aplica o preceito contido no § 2.0 do art. 642 do Código de Processo
Civil”. Hoje, art. 1.121, parágrafo único.
O art. 1.121, parágrafo único, manda que se observem as regras jurídicas sobre inventário e partilha. É
dispensável nova comunicação de conhecimento sobre a relação dos bens, pois que foi feita antes. Se há outros
bens, a relação desses é indispensável. O art. 988 só é aplicável se um dos cônjuges morre antes da partilha, caso
em que a competência é do juiz do desquite, quanto aos bens da relação, somente podendo atrair o inventário e
partilha da herança se pode dar-se, segundo a lei de organização judiciária, a prevenção ou prorrogação. O art.
990 é inaplicável. Pode ocorrer, contudo, remoção do inventariante (art. 995).
Inventariante, no processo de inventário e partilha, é o cônjuge inocente; no desquite amigável, quem foi
escolhido no acordo, ou, se o não foi, o marido (cp. 2.~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 2
de maio de 1947; 6.R Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 8 de agosto de 1947, R. F., 116, 184).
Se ambos são condenados, no desquite litigioso o marido.

13)PARTILHA EM EXECUÇÃO DA SENTENÇA DE DESQUITE.. A partilha, se não houve acordo, tem de


ser em execução da sentença de desquite, que é sentença de separação de corpos e de bens. A sentença é o título
executivo e dá a base ao inventário judicial e à partilha, segundo os arts. 1.022-1.030 ou 1.031-1.045, mutatis
mutandis, e eliminado tudo que é peculiar à partilha entre herdeiros. Trata-se de ação de inventário e partilha no
mesmo processo, salvo se as partes preferirem fazer noutro processo, ou se, tendo morrido um dos cônjuges, se
prefere, por economia processual, levar a partilha entre os cônjuges ao juízo do inventário e partilha dos bens da
herança.
(Teoricamente, observe-se que a sentença constitutiva negativa do desquite tem efeito executivo. Efeito, e não
força. A semelhança das sentenças condenatórias . Porque tem efeito
executivo, há ação de partilha, que é executiva, fundada no titulo executivo da sentença de desquite. Esse ponto é
assaz importante, para se confirmar o que dissemos sobre a ação de inventário e partilha, a propósito dos arts.
982 e seguintes.)

14)PARTILHA INCLUSA NO ACORDO INICIAL. O juiz não pode obrigar a que no desquite amigável se faça
desde logo a partilha. Pode não ser possível, no momento, o acordo, ou ser de conveniência p.ara os cônjuges,
que só se faça depois. A omissão da partilha só é dependente dos cônjuges. Se houve acordo ~e, antes da
homologação, um dos cônjuges alega erro, dolo ou outro defeito de vontade, a decisão do juiz que, homologando
o desquite, deixe de fora a partilha, se entende que remeteu os interessados às vias ordinárias (anulabilidade do
acordo, negócio jurídico bilateral). O que o juiz não pode fazer é indeferir o pedido de homologação por
considerar elemento necessário a partilha (2.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, 17 de janeiro de 1950, R. F.,
132, 90, O D., 70, 173; Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, R. do 1. de J. do E. 8., VII, 507).
A descrição e a avaliação, sim, são requisitos necessários. Se os bens são atribuidos em sua totalidade ou por
mais de metade ao outro cônjuge, há doação <5.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 2 de maio
de 1952, R. dos T., 202, 271), ou outro negócio jurídico de disposição. A afirmativa da 5.~ Câmara Civil do
Tribunal de Justiça de São Paulo, a 2 de maio de 1952 (R. dos T., 202, 271), no sentido de somente poder haver
doação após a partilha, é de repelir-se. Doa-se parte pro indiviso, doa-se a metade em determinado bem, o que
pode ser feito antes da partilha, ou fora da partilha; doa-se por negócio jurídico incluso no acordo de partilha,
para que se considere cláusula desse e dependa da homologação da partilha (pode ser concebido, aliás, como
separável, só dependente,portanto, da homologação do desquite). Se se atribuem todos os bens a um só dos
cônjuges, entende-se que houve partilha e doação, ou partilha e outro negócio jurídico, oneroso, devendo-se
respeitar os princípios concernentes ao negócio jurídico que está à base da atribuição.
Entende-se, outrossim, que se respeitou o principio de Igualdade (imprópria a explicação que dá a 2Y Turma do
Supremo Tribunal Federal, a 11 de junho de 1948, R. F., 126, 89): ainda se se atribuem• todos os bens, houve,
implícita, a partilha, na qual é de se supor que se hajam observado os princípios pertinentes.

Art. 1 .122. Apresentada a petição ao juiz, este verificará se ela preencho os requisito., exigidos nos dois (2)
artigos antecedentes; em seguida, ouvirá os cônjuges sobre os motivos do desquite, esclarecendo-lhes as
conseqüências da manifestação de vontade1).
§ 1.0 Convencendo-se o juiz2) de que ambos, livremente e sem hesitações, desejam o desquite, mandará reduzir a
termo as declarações e, depois de ouvir o Ministério Público3) no prazo de cinco (5) dias, o homologara; em
caso contrário, marca-lhes-á dia e hora, com quinze <15) a trinta (30) dias de intervalo, para que voltem, a fim
de ratificar o pedido d~ desquite3) ‘) 6)~
§ 29 Se qualquer dos cônjuges não com. parecer à audiência designada ou não ratificar o pedido, o juiz
mandará autuar a petição e documentos e arquivar o processo.

1)AUDIÊNCIA nos CÔNJUGES . O juiz tem de ouvir os cônjuges sobre os motivos do pedido. Está na lei (as
criticas de TíTo FULGÊNCIO, Do Das quite, 234, seriam para ser exantinadas e discutidas de lege ferenda e não
foram atendidas). A ratificação do pedido de desquite é formalidade essencial e constitui parte integrante da
comunicação de vontade e da declaração, que foi a petição inicial no juízo dúplice do desquite amigável.
Adiante, falaremos. Pode esclarecer algum item da petição, até mesmo alterá-lo (arg. ao art. 264), desde que
mantenha o pedido de desquite por mútuo consentimento. Ratificado o pedido, o desaparecimento do cônjuge
não obsta à homologação (Tribunal de Justiça de são Paulo, 12 de fevereiro de 1913); não assim, a morte, ainda
que o desquite esteja em grau de apelação, de oficio ou não (1.~ Câmara Cível da Corte de Apelação do Distrito
Federal, 9 de julho de 1906, R. de D., 1, 368; Tribunal de Justiça de São Paulo, 28 de fevereiro de 1919). Aliter,
se em grau de recurso extraordinário, intentado do acórdão que reformou a sentença homologatória, por simples
quaestio inris. É preciso cuidado em não se confundirem as ações de invalidade de casamento (absoluta e
relativa) com as ações de desquite. As de nulidade ou de anulação dizem respeito ao passado, e o elemento
declarativo é maior, posto que sejam ações constitutivas. As ações de nulidade e anulação correm contra o morto.
Não coincidem a legitimação ativa e a legitimação passiva, nas ações de nulidade ou de anulação, e nas ações de
desquite. As ações sobre existência do casamento são ações declarativas.
Alguns juristas atacavam a regra jurídica de serem ouvidas as partes sobre os motivos do desquite amigável,
porque tais motivos não devem vir a público e poderia isso causar escândalo. Ora, o desquite amigável, como o
próprio desquite litigioso, é em segredo (art. 155, II), e o conhecimento dos motivos somente pelo juiz de modo
nenhum se há de considerar base para divulgação prejudicial, salvo se há atitude criminosa do juiz. Além disso,
tem aí o juiz dados que podem servir à conciliação.
2)CoNvIcçÃo SUFICIENTE DO JUIZ. No art. 1.122, § 1?,há duas hipóteses: a) a de ficar convencido o juiz de
que ambos os cônjuges, livremente e sem qualquer hesitação, desejam desquitar-se, razão por que manda reduzir
a termo as declarações ouvidas e, após falar o órgão do Ministério Público no prazo de cinco dias, homologará o
pedido de desquite; b) a de faltar ao juiz a convicção de que os cônjuges não hesitam quanto ao desquite
amigável.

3) PRAZOS E DATAS. A regra jurídica do Código de 1939, art. 643, provinha do Decreto n. 181, de 24 de
janeiro de 1890, ari. 86, onde se dizia: “Recebidos os documentos referidos e ouvidos separadamente os dois
cônjuges sobre o motivo do divórcio, pelo juiz, este fixar-lhe-á um prazo, nunca menor de quinze dias, nem
maior de trinta, para voltarem a ratificar ou retratar o seu pedido”. Donde a pluralidade de
interpretações, todas com decisões judiciais que as preferissem: a) o juiz teria de dizer que somente após quinze
dias, ou somente após mais de quinze dias, até trinta dias, se podia dar a ratificação, de modo que, despachado o
pedido, não poderia ser ratificado antes desse prazo, considerado de reflexão, mas o poderia ser após ele, sem
limite; b) o juiz marcaria a data entre o décimo quinto dia após o despacho e o trigésimo dia, podendo ser
marcado outro dia se justificada a falta; c) o juiz marcaria prazo, que terminaria no décimo quinto dia após o
despacho, ou noutro dia até o trigésimo dia, e prazo de quinze a trinta dias, após expirar aquele; d) o prazo de
quinze a trinta dias, iniciado no dia seguinte ao despacho. Hoje, há o art. 1.122, § 1.~, que não estava no Código
de 1939.
a) A verdadeira solução era a solução a): o prazo era de reflexão. Acertadamente, as Câmaras Civis Reunidas do
Tribunal de Justiça de São Paulo, a 6 de março e a 3•8 Câmara Civil, a 30 de novembro de 1950 (R. do~ T., 185,
901, e 190, 892), converteram o julgamento em diligência para nova ratificação por se ter ratificado o pedido no
décimo quinto dia, pois somente poderia ser ratificado a partir do décimo sexto dia (quinze + um).
b)A 6.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 16 de maio de 1952 (R. dos T., 202, 284), disse que
o juiz havia de designar o dia, e não fixar prazo. Ora, a lei estabelecia exatamente o contrário: “lhes fixará prazo
de quinze a trinta dias”. Se havia conveniência em se determinar, desde logo, o dia, era outra questão (1.R
Câmara Civil, 23 de outubro de 1951, 197, 215); e a não comparência dos cônjuges para a ratificação, sem
ocorrer força maior, havia de ser tida como mudança de vontade. Ai é que se precisava alegar força maior
(Código de 1939, art. 38). Força maior somente se havia de afirmar e provar ter existido se foi admitido pelos
cônjuges o dia marcado; ~porque a lei não falava, de modo nenhum, em designação de dia.
Frestemos atenção ao que desejava a 6.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, porque, contra a lei
de então, é o que hoje está na lei, e, de lege jerenda, foi acertado.
O prazo era de quinze a trinta dias. A lei não dizia que havia de ser designado o dia nos quinze até trinta dias
(sem razão, também, a 6.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 31 de outubro de 1947, R. dos T.,
172, 178). O prazo é que tinha de ser de quinze a trinta dias (2.a Turma do Supremo Tribunal Federal, 26 de
janeiro de 1951, A. J., 101, 233). Havia nulidade (não cominada) de processo se O juiz marcasse prazo a começar
de quatorze dias ou menos (6.a Câmara Civil, 3 de setembro de 1948, 177, 181) e a ratificação foi no décimo
quarto ou no décimo quinto dia. A prática de se designar dia, sem se marcar o prazo, era ilegal; a designação do
dia, se se marcou prazo, somente pode ser entendida como de dia inicial do prazo. Tudo isso mudou. É o juiz,
hoje, que marca o dia e a hora.
c) Se o prazo fora prazo menor de quinze dias e a ratificação se deu, havia nulidade, porque a lei exigia que a
ratificação somente se fizesse após quinze dias de reflexão (prazo mínimo para a ratificação). Assim, a 2.~
Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a 6 de agosto de 1951 (3. M., V, 531), e a 1.a Câmara
Cível do Tribunal de Justiça~ do Paraná, a 16 de inalo de 1950 (Parana 3., 25, 209); sem razão, a 5•B Câmara
Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal,a31 de julho de 1951 (D. daJ., de 23 de fevereiro de 1952). A
interpretação c) era de repelir-se exatamente porque o texto não permitia que se pensasse em dois prazos, um de
reflexão (prazo de pelo menos quinze dias, findo o qual podiam os cônjuges ratificar o pedido) e outro de
atividade (prazo de quinze dias, ou mais, até trinta dias). Ou se entendia que daquele cogitou a lei, ou se entendia
que cogitou desse. Hoje, há a regra jurídica do art. 1.122, § 1.0, verbis “o juiz marcar-lhes-á dia e hora, com
quinze e trinta dias de intervalo, para que voltem, a fim de ratificar o pedido de desquite”, de jeito que se lê como
se dissesse “o juiz marcar-lhes-á dia e hora, para com o prazo de quinze a trinta dias, findo o qual possam
ratificar o pedido de desquite”.
d) A solução d) eliminaria a ratio legis do Código de 1939, que era a de se dar tempo para que os cônjuges
refletissem e pudessem retirar o pedido.
Se, em técnica legislativa, se poderia adotar a), b) e c), a solução d) não teria sentido, a ratw legis haveria de ser a
oportunidade para a reflexão. De lege lata, a solução b) era a única acertada; porque a lei tem por fito estabelecer
trato de tempo para que os cônjuges repensem as suas declarações de vontade, o que afastava a solução d); o
Código de 1973 falou em designação de dia e hora, o que compreende, hoje, à solução b); não se podem buscar à
proposição única dois conteúdos, o que rechaça a solução d).
Muitos erros provieram de não terem os juizes distinguido as quatro soluções e por vezes adotarem ora uma ora
outra.
Alguns erros, ainda sob o Código de 1939 foram graves (e. g.,~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São
Paulo, 26 de abril de 1951, R. dos T., 193, 211, que seguiu c), e 1.a Câmara Civil, 5 de agosto de 1952, 204, 265).
Frise-se bem que o Código de 1973 seguiu a solução b), ao passo que o Código de 1939, art. 643, acolhia a
solução a), mais adequada.

(2) A ratificação antes de iniciado o prazo não valia (nulidade não-cominada). Dizia-se que não valia se depois
de expirado, salvo força maior (Câmaras Cíveis Reunidas do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 30 de
outubro de 1947, A. J., 87, 274; ~ Câmara Cível , 11 de maio de 1951, D. da J., de 16 de abril de 1953; 3•~
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 5 de fevereiro de 1947, R. dos T., 166, 616, e 5 de junho de
1947, 168, 678), mas isso se chocaria, hoje, com o art. 1.122, § 2.0, onde explicitamente esta dito que, “se
qualquer dos cônjuges não comparecer à audiência designada ou não ratificar o pedido, o juiz mandará autuar a
petição e documentos e arquivar o processo”. Todavia, a audiência pode ser adiada se algum dos cônjuges não
puder comparecer “por motivo justificado” (art. 453, II), ou se os dois cônjuges acordarem, o que só se permite
uma vez (art. 453, 1). O impedimento tem de ser provado até a abertura da audiência (art. 453, § 1.0).

(3) A ratificação tem de ser feita pessoalmente. Não se admite representação (2.a Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Paraná, 20 de janeiro de 1948, Paraná 3., 47, 171). A ratificação há de ser na presença do juiz (3.a
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 8 de setembro e 20 de novembro de 1947, R. dos T., 170, 583;
6.~ Câmara Civil, 2 de maio de 1947 e 27 de fevereiro de 1948, 167, 688, e 173, 738; 1.a Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 19 de julho de 1948, B; 1., 37, 52; 8.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça
do Distrito Federal, 17 de março de 1951) e por ele assinada (sem razão, a 1.a Turma do Supremo Tribunal
Federal, a 15 de setembro de 1947, O D.,50, 254). A 3•~ Câmara do Tribunal de Justiça de são Paulo,a 20 de
novembro de 1947 (R. dos T., 171, 648), permitiu a ratificação perante o juiz no dia, e a lavratura e assinatura
do termo noutro dia, o que é contra os princípios (com razão,a 6.~ Câmara Civil, a 2 de abril e a 13 de agosto de
1948,173, 742, e 176, 652; 1.a Câmara Civil, a 14 de setembro de 1948, 177, 304, que mandou ouvi-los de
novo).
A data sói ser uma só para ambos os cônjuges (3.R Câmara Civil, 16 de setembro de 1948, 177, 316; 1~a Câmara
Civil, 28 de outubro de 1948, 178, 166; sem razão a 2.& Câmara Civil, a 28 de setembro de 1948, 177, 611);
porém nada impedia que se fixassem dois prazos (cp. 3•a Câmara Civil, 20 de abril de 1950, 186, 710). Hoje, a
data é uma só e uma só a hora.
Quanto à designação do dia, há de ser depois de se haver completado o prazo mínimo; portanto, se o prazo foi de
quinze dias, no décimo sexto dia, não Incluído o dia do despacho. Tinha de ser pedida de início, ou após a
marcação do prazo, ou após se haver completado o prazo. Se o juiz designou o dia no despacho de fixação do
prazo, sem que se houvesse pedido a designação, entendia-se que o fez por ter sido implícito o pedido de
designação, e hão de manifestar-’se os cônjuges, aceitando a designação ou não a aceitando, pois, aceita,
expressamente ou pela ciência sem imediata manifestação de não servir o dia a ambos, ou a um deles, surgia o
dever de comparência, Invocável para que não se torne ineficaz a petição inicial com a Invocação do texto legal.
A designação de outro dia pelo juiz era nula (5.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 2 de abril de
1950, R dos T., 187, 800), salvo se houve Impedimento ou não-comparência do juiz, ou se vai haver
Impedimento ou não-comparência desse ou se ocorreu para qualquer dos cônjuges motivo justificado de não-
comparência. Se o juiz havia marcado prazo que foi de menos de quinze dias e a ratificação se deu no décimo
sexto dia, não havia nulidade; porque decorrera. o tempo mínimo de reflexão. Era erro dizer-se como disse a 2.~
Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a 26 de dezembro de 1952, que era nulo o processo se o
prazo de reflexão concedido aos cônjuges foi inferior a quinze dias. Nulo seria o despacho, nessa parte; e nula a
ratificação que antes do décimo sexto dia se operou. Se depois ou no décimo sexto dia, satisfeita foi a ratio legvs.
A qualquer tempo, ainda que em grau de recurso, as partes podem desistir <Tribunal de Relação do Rio de
Janeiro, 28 de outubro de 1919); mas um só, depois da ratificação, não pode desistir, fora do art. 264 (Direito de
Família, 2.~ ed., 1, 377; Tratado de Direito Privado, VIII, 3.~ ed., § 837). Se o desquite não foi homologado e
houve recurso de ambas as partes, ou de uma, podem ambos desistir dos seus recursos, ou o que recorreu desistir,
sozinho. Aí não há retratação do pedido, mas desistência do recurso.
A 2.R Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo, a 24 de setembro de 1940 (R. dos T., 128, 240),
entendeu que a falta de audiência dos cônjuges não acarreta nulidade do processo. Tal afirmação romperia com o
princípio da relevância de todas as regras jurídicas de forma e com o principio da relevância das regras sobre
audição das partes. Ora, o art. 1.122 é insofismável: .... .ouvirá os cônjuges.
Trata-se de nulidade não cominada (art. 244). O que se pode passar é o que se passaria com qualquer outra
nulidade dessa natureza (arts. 244-249, 245 e 248), principalmente o que se prevê nos arts. 244, 248 e 250. A
mesma 2.R Câmara Civil julgara bem, pronunciado a nulidade, no acórdão de 26 de maio de 1942 (R.’dos T.,
137, 643), tal como, anteriormente, a 1.a Câmara Civil, a 10 de março de 1941 (R. dos T., 130, 667).
A expressão “ratificar” está, aí (art. 1.122, ~ § 1.0 e 2.’j, em vez de “recomunicar”, e não no de “declarar ez
noijo». É integração.
Morto um dos cônjuges, extingue-se a pretensão ao desquite e, pois, a ação. A 1.a Câmara Cível da Corte de
Apelação do Distrito Federal (9 de julho de 1906, R. de D., 1, 368) e’ o Tribunal de Justiça de São Paulo (28 de
fevereiro de 1919) assim julgaram. Posteriormente, a 4•~ Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo
(23 de julho de 1942, R. F., 92, 718) entendeu que a morte, depois de homologado o desquite amigável, quando
em grau de apelação a ação, não o extingue. Negar-se-ia, assim, o princípio de que em causa de desquite (ou de
divórcio, nos países que o têm), não cabe sucessão. A solução seria Injusta, porque: eliminaria a retratabilidade
essencial à ação; estabeleceria coisa julgada formal, sem comunicação da sentença a uma das partes, a que
faleceu. As próprias ações de nulidade de casamento são, a priori, sem sucessão: é a lei que abre exceções a Isso.
Admitir-se que se constitua o desquite (ou o divórcio), cuja sentença é constitutiva negativa ex nunc, quando não
há mais casamento, pois um dos cônjuges morreu, seria absurdo. Esse argumento não prevalece quanto às ações
de nulidade de casamento, porque essas são de eficácia constitutiva negativa ex tune: no passado há casamento,
para ser decretada a nulidade, se a lei acha que deve admitir a hereditariedade da ação iniciada. Naturalmente,
não se está a cogitar da ação de nulidade de casamento em que houve a chamada substituição processual
(Código Civil, arts. 178, § 5•0, III, 2.~ parte, 213-216, 190, e 208, parágrafo único, sendo que, ainda nos casos
de casamento nulo por infração de regra jurídica de competência, a propositura pelo órgão do Ministério Público
é dependente da vida dos cônjuges).
As custas do desquite amigável, se ocorre morte, são pagas pelos herdeiros e pelo cônjuge sobrevivente, não por
aplicação analógica do art. 26 e § § 1.0 e 2.~, e sim em virtude de principio geral de direito judicial. Nos
desquites litigiosos, pelos herdeiros do autor, ou pelo autor sobrevivente.
As vezes, as leis brasileiras empregam a expressão “ratificação” no sentido de reafirmação ou recomunicação de
conhecimento, ou de recomunicação de vontade, em lugar de ~e aterem ao sentido estrito, técnico, em que se fala
de “ratificar” o negócio jurídico nulo.

~,Qual a função da “ratificação” nos pedidos de desquites amigáveis? A de asseverar que a vontade dos cônjuges
de se desquitarem persistiu. Portanto, não-revogação. A comunicação de vontade inicial era, pois, revogável; e a
lei, em vez de se satisfazer com o simples decorrer do prazo, para que cessasse a revogabilidade, e~vige a
explicitude dessa vontade de não revogar. A relevância da matéria, que é a sociedade conjugal, e a experiência da
vida, que aponta a frequência das conciliações entre os desquitandos, sugeriram que se adotasse o pressuposto da
ratificação, que tem ai o conteúdo de afirmação da conservação da vontade antes comunicada.
A lei poderia ter-se satisfeito a) com o prazo para revogar o pedido, ou b) com a exceção de conciliação, à
semelhança do desquite litigioso, ou exigir c) a ratificação. Fez a essa pressuposto necessário.

4) AUTUAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO . A autuação e a distribuição fazem-se, excepcionalmente, depois de


decorrido o prazo e antes do ato judicial da ratificação. Assim temo3 a inquirição das partes pelo juiz,
perfeitamente explicável e de grande alcance, razão por que recusamos valor às criticas à velha regra jurídica do
art. 1.122 (“ouvirá os cônjuges sobre os motivos do desquite”), e tal inquirição era separadamente; depois, a
fixação do dia e hora para a ratificação; a ratificação, que é comunicação de vontade e declaração, ao
mesmo tempo (aliter, no desquite litigioso, onde não há declaração de vontade, salvo acidental), e faz-se por
termo nos autos; ouve-se o órgão do Ministério Público; sobem os autos, conclusos, ao juiz. Se a data do art.
1.122, § 1.0, foi além de trinta dias, a nulidade é não-cominada (art. 244; antes, no Código de 1939, art. 273; cp.
4•~ Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo, 12 de abril de 1945, R. F., 102, 491).
Tivemos de entrar em referências ao passado e ao presente, porque o texto de 1939 levou a controvérsias e até
acórdão que foi, de lege lata, errado e hoje estaria certo. Não se pode negar que foi de boa orientação o Código
de 1973, com o art. 1.122, § 1.0, 2.a parte. Há o prazo mínimo de quinze dias, que hoje é para o juiz, e também o
máximo de trinta dias, que também é para ele, em cujo intervalo há de ser fixados por ele o dia e a hora para que
os cônjuges se manifestem. Não há outra interpretação possível para o art. 1.122, § 2.0, 2.a parte, mas isso não
afasta que se invoque o art. 183 e o § 1.0, em que se ressalva a parte provar que não realizou o ato “por justa
causa”. O juiz, acolhendo a alegação, tem de marcar outro dia e hora (art. 183, § 2.0). A solução do art. 1.122, §
2.0, evitou outras discordâncias: o juiz marca o dia e a hora, e o intervalo, que á para a fixação da data, faz a
reflexão pelos cônjuges ser, pelo menos, de quinze dias.

5)FUNÇÃO DO MINISTÉRIO PUBLICO. O órgão do Ministério Público é fiscal, não parte (2.a Câmara Cível
da Corte de Apelação do Distrito Federal, 22 de abril de 1919). A falta importa em nulidade, mas são aplicáveis
os arts. 243, 245 e 248 (também o art. 113, § 2.0).
No desquite amigável, o art. 1.122, § 1.0, exige a audiência do órgão do Ministério Público. Entendeu a 3•~
Câmara Cível do Tribunal de Apelação do Rio Grande do Sul (22 de julho de 1943, J., 23, 463), que não
Intervém o órgão do Ministério Público se litigioso o desquite. A interpretação do Código de Processo Civil, aí,
tem de ser a fortiori. Se se exige na ação de desquite amigável, com mais forte razão no desquite litigioso (veja
Tratado de Direito Privado, Tomo VIII, § 830, 10).

6) DESISTÊNCIA . A desistência antes da ratificação, em que resulta a retratação, tem o efeito de, sendo feita
pelos dois, excluir qualquer traço do processo, de que nenhuma anotação fica no cartório; feita por um só, vale o
processado, que fica arquivado, juntando-se-lhe a própria retratação. Só as partes podem requerer certidões ou
cópias dessas peças. Quanto às custas, no caso de algum dos cônjuges não comparecer, regem~se pelo art. 26.

Art. 1 . 123. É licito às partes, a qualquer tempo, no curso do desquite litigioso, lhe requererem a conversão em
desquite por mútuo consentimento); caso em que ser~ observado o disposto no art. 1.121 e primeira parte do
§ 19 do artigo antcedente 2)

1) DESQUITE LITIGIOsO E CONVERSÃO. No processo de desquite litigioso (não importa até que ponto já se
chegara, mesmo em via de recurso), podem os cônjuges requerer que se converta em ação de desquite amigável a
ação de desquite litigioso. O requerimento tem de conter a descrição dos bens do casal e a respectiva partilha, o
acordo relativo à guarda dos filhos menores, o valor da contribuição para criar e educar os filhos e a pensão
alimentícia do marido à mulher, se essa não possuir bens suficientes para se manter (art. 1.121). Se não
acordarem quanto à partilha dos bens, depois da homologação se procederá à partilha (art. 1.121, parágrafo
único
2) CoNVICÇÃO DO juiz. Para que o juiz defira o requerimento de conversão do desquite litigioso em desquite
amigável, é preciso que esteja convicto de que o requerem livremente e sem hesitações. Tem de ser ouvido o
Ministério Público, no prazo de cinco dias (art. 1.122, § 1.0, 1.~ parte).

Art. 1 . 124. Homologado o desquite, averbar-se-á1) 5) 6) a sentença no registro ci. vil2) 3) 4) e, havendo bens
imóveis, na circunscriação onde se acham registrados7) ~1t~).

1)AVERBAÇÃO APOS O JULGAMENTO. A averbação é feita no livro de casamentos, ainda que estranha a
jurisdição (efeito mandamental da sentença de desquite, que é constitutiva). A averbação não é integrante da
constitutividade da sentença, mas ligada à eficácia erga omnes. O pedido de desquite amigável é irretratável após
a ratificação (1.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, 15 de setembro de 1947, O D., 50, 254, R. dos T., 182,
463, 1?. 7., 122, 381; 5•ft Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 2 de julho de 1947, A. J., 88,
50; 2~a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1948, B. J., 38, 67). A fortiom,
após a homologação ~í.a Turma, 4 de outubro de 1948, A. J., 89, 138, R. dos T., 183, 461; 3~R Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 5 de julho de 1946, R. de 1. B., 77, 59; 3~ Câmara Civil do Tribunal de
Justiça de São Paulo, 27 de novembro de 1947, R. dos T., 172, 765, R. F., 119, 478). Foi absurda a decisão da 2.~
Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 4 de novembro de 1947 (R. dos T., 171, 256), que admitiu a
retratação unilateral a qualquer tempo, ainda na via recursal.

2)CESSAÇÃO DOS EFEITOS DA SOCIEDADE CONJUGAL. Relativamente aos efeitos quanto à divisão dos
bens, dependem eles de ser registrada a sentença no Registro de Imóveis (Corte de Apelação do Distrito Federal,
25 de setembro de 1934, A. J., 33, 280). Mas os efeitos da sociedade conjugal cessaram com o trânsito em
julgado da sentença (Corte de Apelação do Distrito Federal, 6 de outubro de 1929, A. J., 14, 59; 12 de março de
1940, 82, 106), ou, erga omnes, da averbação da sentença de desquite no registro de casamentos. A comunhão
que persiste não é mais de direito matrimonial. ~de direito das obrigações e das coisas. Esse ponto é assaz
relevante.

3)RETRATAÇÃO BILATERAL. A retratação bilateral na superior instância tem efeito de descida dos autos,
para que se arquivem no cartório onde foi proferida a sentença. Se não foi Lateral a desistência, a descida dos
autos permite mandado de segurança contra o tribunal (Supremo Tribunal Federal, 19 de janeiro de 1945, A. J.,
75, 3).

4)MORTE »o CÔNJUGE. Após a morte do desquitando, não mais se pode homologar o desquite (Tratado de
Direito PrivadO, VIII, § 837, 7; cf. ~.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 27 de janeiro de
1947, R. 7., 114, 406; sem razão, 3~a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 2~ de junho de
1948, B. J., 37, 67).

5)EFICÁCIA DA SENTENÇA QUE HOMOLOGA O DESQUITE. Sobre a sentença que homologa o desquite
amigável, 3á se discorreu às notas ao art. 469. O Código de 1939, art. 288, tinha o defeito de não haver
compreendido o princípio do art. 323 do Código Civil, que permite, a todo o tempo, o restabelecimento da
sociedade conjugal dissolvida pelo desquite (qualquer) e de pensar que as sentenças de desquite não têm a
eficácia material de coisa julgada. Interessante é observar-se que os críticos caiam em erros semelhantes:
mal viam ou sentiam o engano do legislador (sem saber por que era erro), ora o estendiam ao caso dos desquites
litigiosos (e. g., discussão do Código de Processo Civil de Minas Gerais, em ODILoN DE ANDRADE, Código
do Processo Civil, 1, 93), ora timidamente aventuravam que as sentenças de desquite não produzem coisa julgada
“no que diz respeito ao restabelecimento da sociedade conjugal” (Código de Processo Civil de Pernambuco, art.
172, inciso 4; CLóvIS BEvILÁQUA, Código Civil Comentado, II, 284; LAFAIETE RODRIGUES PEREIRA,
Direito de Família, 64; pareceres de ALFREDO BERNAIIDES e L. F. 5. CARPENTER, A. J., 19, 32; 6.~
Câ,mara Cível da Corte de Apelação do Distrito Federal, 29 de maio de 1931), ora negando a coisa julgada à
sentença de qualquer desquite (assim, TíTo FULGÉNcIO, Do Desquite, 154).
Felizmente, o legislador de 1973 atendeu a rija crítica que fizéramos ao Código de 1939, art. C45, e a juristas que
incidiam no mesmo erro, e retirou todo o art. 645.
A reconciliação dos cônjuges é circunstância nova, nova declaração constitutiva, que nada tem com a questão da
coisa julgada material. Se perdi a ação de reivindicação, não fico privado de comprar a coisa. O elemento
constitutivo é comum a todas as sentenças de desquite; o elemento de condenação, só às do desquite litigioso. A
sentença no desquite amigável é constitutiva: opera como operaria o contrato de compra-e-venda por instrumento
público, mais o reforçamento da decisão judicial. A do desquite litigioso é constitutiva e, em segundo plano, de
condenação.
Se foi suspensa a lide quanto ao desquite judicial, por ter havido acordo dependente de homologação, a retratação
ou a falta de homologação permite que qualquer cônjuge requeira a continuação da ação de desquite litigioso.
Qualquer desistência somente produz efeitos após a homologação (art. 158, parágrafo único). Se, após a ação de
desquite judicial, se fez acordo para o desquite amigável, a cessação da instância somente ocorre com a
desistência homologada pelo juiz.

6)GUARDA DOS FILHOS, CRIAÇÃO E EDUCAÇÃO NATUREZA DA DECI5AO. O acordo sobre a


guarda dos filhos, quotas para criação e educação deles, bem como sobre a pensão alimentícia à mulher, tem de
ser respeitado como a parte da sentença do desquite litigioso em que o juiz fixa a pensão alimentícia da mulher
pobre (Código Civil, art. 320), ou a quota para criação e educação dos filhos (Código Civil, art. 321). Ali,
declaração dos cônjuges; aqui, decisão do juiz. Como se trata de equiparação das cláusulas do acordo à
resolução do juiz, tem-se de saber de que natureza é essa resolução. Ora, essa resolução contém exatamente um
dos problemas mais sutis de direito processual: o problema da sentença em que o juiz tem de emitir declaração de
conteúdo ainda não determinado (a do art. 641 é de conteúdo já determinado). Tal sentença (cf. WILHELM
KIsCH, Beitrage zur Urteilslehre, 110 s.) não é gênero à parte das sentenças de condenação, declarativas,
constitutivas, executivas e mandamentais; é especie de cada uma delas, mas principalmente da constitutiva ou da
executiva. No caso dos desquites, essas sentenças chamadas “dispcsitivas” (verfugende Urteile) têm a função de
dispor, na falta do acordo, sobre aquela pensão e aquela quota. De modo que a inteligência brasileira viu o
problema técnico, apontou a semelhança entre as duas fixações de quota e de pensão, porém não dispunha da
técnica para isolar (a) o elemento comum da dispositividade, (b) a judicialidade do acordo homologado e (c) a
judicialidade da determinação pelo juiz, com simples diferença de grau na cooperação do juiz. Não se pense em
caso de simples determinação ao modo do arbitrador; porque o juiz, aí, coopera, por si, no desquite litigioso; e
não arbitra, homologa, no desquite amigável. O assunto é assaz importante em questões de direito do trabalho.
Não se aluda à força material da coisa julgada; aluda-se à constitutivídade, fazendo-se claro que é inoperante a
diferença de grau de cooperação do juiz para que a eficácia constitutiva se exerça.
A dispositividade é insignificante, no caso da resolução judicial: o acordo não é prius, embora se diga que o juiz
disporá, na falta de acordo; o prius é a resolução sobre o que é necessário para a criação e a educação dos filhos,
pensão alimentícia à mulher e guarda dos filhos, fundando-se os julgamentos em comunicações de conhecimento
feitas pelas partes cuja verdade se apure (o elemento condenatório é ressaltante). Apontar como dispositiva a
sentença de fixação de quota ou pensão, nada adiantaria. A sentença é, aí, constitutiva, com forte dose de
condenatoriedade, se não houve acordo. Se houve acordo, constitutiva integrativa. Assim, apenas se diz,
tautologicamente, que as sentenças constitutivas, com elemento Condenatório, e as constitutivas Integrativas são
sentenças constitutivas, de força constitutiva. Tais regras jurídicas são úteis enquanto não se eleva o nível da
cultura jurídica. Podem ser, porém, mal-entendidas.
Se não foi cumprido o acordo sobre a guarda e educação dos filhos, cabe a ação de modificação da sentença, por
mudança de circunstâncias (5.~ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 9 de abril de 1948, D.
da J., de 8 de dezembro). Aliás, podem os cônjuges acordar diferentemente do que se estabelecera,
homologando-o o juiz (8.a Câmara Cível, 27 de novembro de 1946).

7)RECONcILIAÇÃo DOS CONJUGES. O Código de 1973 não se referiu à reconciliação. Uma vez que o
direito brasileiro só possui a separação quoad thorum et habítaticmem, e não quoad foedus et vinculum, a
reconciliação é sempre possível. “Seja qual for a causa do desquite”, diz o Código Civil, ad. 323, “e o modo
como este se faça, é lícito aos cônjuges restabelecer a todo o tempo a sociedade conjugal, nos termos em que fora
constituída, contanto que o façam, por ato regular, no juízo competente”.
Pode requerer a reconciliação o próprio cônjuge que pediu o desquite. O cônjuge separado, que se reconciliou,
pode ainda intentar nova ação de desquite. Não podem alegar, todavia, os fatos apontados para o primeiro
desquite, e sim outros, ainda que da mesma natureza, mas posteriormente à reconciliação, ou, se anteriores,
ignorados, provadamente, pelo autor do novo processo de desquite. O ato de reconciliação perante o juiz
competente restaura, integralmente, a anterior situação matrimonial, renascendo em cada cônjuge todos os
direitos e deveres que a sentença de desquite apagara. Se a mulher perdera o direito a usar o nome do marido,
readquire-o com a reconciliação. O Código Civil fala em restauração “por ato regular”. “Ato regular”, dizíamos
(Direito de Família, 2.~ ed., 391), “é o que for indicado pela lei processual, pois que se trata de ato perante o
juiz, ato que pode revestir-se do caráter de pedido de prestação jurisdicional, ou de simples ato em cartório, no
juízo competente. A perfeição depende, em consequência disso, da formalidade que exige a regra jurídica
processual, a que remete, evidentemente, o art. 323 do Código Civil, não só quando aludê à competência do
juízo, como igualmente quando e exige o ato regular. Reconciliação somente há quando satisfeitas as ‘exigências
da lei processual. Fora disso, apenas é reconciliação de fato”. Citando o que escrevemos, a ~ Câmara Cível do
Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a 8 de março de 1956. Quanto aos bens, a reforma do direito brasileiro, com
a incidência do Código Civil, foi radical. Enquanto o direito anterior não admitia que restabelecido fosse o
regime, a nova lei civil, retomando, aliás, a trilha de velho direito (então dizia, por exemplo, L. TRIGO LE
LouREIRo, Instituições, 1, 124: “. . . cesse entre eles a comunhão. Ela, porém, revive, se algum dia tomarem a
unir-se, e a viver na mesma casa como marido e mulher”), não só o permitiu, como estatuiu a restauração
da sociedade conjugal, nos termos em que era constituída, antes do desquite. A verdadeira interpretação do art.
323 do Código Civil é, portanto, a •seguinte: é lícito aos cônjuges desQuitados restaurarem a sociedade conjugal,
contanto que o façam nas condições anteriores do desquite. A política do art. 323 do Código Civil, ao conceder a
reconciliação com o restabelecimento da sociedade conjugal “nos termos em que fora constituída” foi justamente
estabelecer a volta ao que era. Eis o que dizia o parecer da Comissão especial da Câmara dos Deputados (1902):
“O regime dos bens dos cônjuges desquitados que se reconciliaram fica restabelecido” (Trabalhos, Rio de
Janeiro, 1932, VIII, 30). Cessado o desquite isto é, restaurada juridicamente a sociedade conjugal, readquire
cada cônjuge o direito de suceder ao outro (Código Civil, art. 1.611). Não basta a reconciliação de fato, nem o
pedido de reconciliação, ainda que mandado tomar por termo, pois a lei processual exige homologação pelo juiz
para que a reconciliação juridicamente se perfaça. Atendendo às vicissitudes da fortuna dos cônjuges
desquitados, antes ou durante a separação quoacl vitae consuetudinem, bem como às simulações, por interesses
inconfessáveis, de sucessivos desquites e reconciliações, o Código Civil, no art. 323, parágrafo único, disse que
“a reconciliação em nada prejudicará os direitos de terceiros, adquiridos antes e durante o desquite, seja qual for
o regime de bens”. Se o desquite foi litigioso ou amigável, é indiferente.
Particularidade da reconciliação é a de ser um dos poucos casos de comunicação de sentimento, conteúdo de
declaração de vontade.
A sentença de reconciliação é constitutiva positiva (negativa da constitutiva negativa sobre o desquite, portanto
positiva), o que concerne a formalidades registrárias é efeito mandamental, para eficácia erga omnes. Não há
eficácia ex tunc,
8) PRocEsso E SENTENÇA. A reconciliação tem de ser reduzida a termo, por ambos assinada, seguindo-se-lhe
a homologação por sentença. A sentença é constitutiva integrativa da forma. A averbação no registro civil é
necessária para os efeitos erga omnes; e, se há imóveis que tenham de volver a ser comuns, ou dotais, é
indispensável a averbação no respectivo registro. O regime matrimonial dos bens restabelece-se entre os
cônjuges com o trânsito em julgado da sentença e opera erga omnes com a averbação no registro civil. Não há
escolha de novo regime; restabelece-se o anterior.

9)MORTE, ANTES DO TRANSITO EM JULGADO DA SENTENÇA. A morte, antes do trânsito em julgado


da sentença de homologação, extingue a ação de reconciliação. Não se deu e, pois, não mais se poderia dar a
passagem em coisa julgada formal. Trata-se de ação, não herdável, constitutiva ex nunc.

10)DESQUITE LITIGIOSO PEDIDO APOS O PEDIDO DE DESQUITE AMIGÁVEL. Extinta a sociedade


conjugal por desquite amigável, não há possibilidade de desquite litigioso (Supremo Tribunal Federal, 26 de
julho de 1~46, O D., 51, 132). Se, durante o desquite amigável, há propositura do desquite
litigioso, o juiz não pode julgar a esse antes de transitar em julgado a sentença que deixe de homologar aquele.
Não há razão para se vedar, enquanto isso não ocorre, que se processe a ação de desquite litigioso (só assim se
pode admitir o que disse a 2.~ Turma, a 27 de junho de 1948, O D., 50, 238): não se pode pensar em exceção de
litispendência, pois faltam os pressupostos.
Convertida em ação de desquite amigável a ação de desquite litigioso, processa-se na forma da lei, apresentando-
Se a petição com os requisitos do art. 1.121 (5.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 30 de março
de 1951, R. dos T., 192, 732).
1)PROCESSUALíSTIcA DOS TESTAMENTOS. Sobre o direito material testamentário, os nossos Tratado dos
Testamentos (cf. Tratado de Direito Privado, Tomos LVII-LX). Testamento é a declaração unilateral de última
vontade (contendo, às vezes, comunicações de conhecimento e de vontade), pela qual alguém, nos limites da lei,
e para depois da sua morte, dispõe dos seus bens, no todo ou em parte, ou algo resolve para efeitos jurídicos. Ato
unilateral, não existe qualquer aceitante, ou recebedor da declaração de última vontade, posto que o testador
possa dar cargos a alguém. Sobre disposições estranhas ao testamento, contratos e promessas de venda, pactos
sucess5rios, testamento para excluir herdeiro, etc., nosso Tratado dos Testamentos, 1, 78-90. O testamento é
imprescritível (só há prescrição de pretensões), embora as pretensões nascidas do domínio e da posse, ou de
alguma obrigação, sejam prescritíveis. O Código deixou ao processo ordinário as ações de nulidade de
testamento e as ações de anulação de disposições testamentárias em si.
A capacidade testamentária ativa é regida pelo Código Civil de 1916, arts. 1.627 e 1.628. O negócio juridico do
testamente é suscetível de trato comum aos outros negócios juridicos e do trato especial, derivado da sua
natureza (Tratado dos Testamentos, 1,145-421). As formas testamentárias têm importância variável, conforme as
circunstâncias do sujeito que testa, e pertencem ao direito material (Código Civil, arts. 1.629-1.663). Esse direito
por vezes invade a parte processual (direito formal), razão por que ocorre, por incúria legislativa, a dupla
legislação (a mesma regra jurídica no direito civil e no direito processual). Não se pode arguir o Código Civil de
ter muitas vezes exorbitado. As regras jurídicas dos arts. 1.644 e 1.655 contém proposições que pertencem a um
ramo; e outras que pertencem a outro ramo do direito. Mas a lei processual incorreu, aqui e ali, no mau vezo de
usurpar as regras de direito material, derrogando o Código Civil.

2)INTEGRAÇÃO DE FORMA E EXECUÇÃO DOS TESTAMENTOS. Nos arts. 1.125-1.141 têm-se duas
espécies distintas de regras jurídicas, umas sobre a integração da forma do testamento, do negócio jurídico, para
a sua eficácia (não para a sua conclusão), que são aquelas que vão, no tempo, ate o cumpra-Se, e outras sobre a
execução dos testamentos. Cientificamente, a primeira fase ainda diz respeito à forma do negócio, caso de
exigência da cooperação judicial, sem a presença do autor da declaração, posterior à conclusão. Não éúnico.
Existem muitos casos como esse; por exemplo, nos registros de atos inter vivos, quando não se requer a presença
do autor da declaração, ou, sequer, a sua anuência.
A execução do testamento contém a execução voluntária ~e a execução forçada. Além dessas ações exec~ittiVa5
(1010 sensu) existem as ações ligadas às pretensões declarativas ou condenatórias, à existência ou inexistência,
ou à eficacia ou ineficácia do testamento. A ação declaratória (art. 4.0) e admitida. A de nulidade do testamento
n~o foi disciplinada no Código. por ser de rito ordinário. É ação constitutiva negativa.

3)ARQUIVAMENTO DOS TESTAMENTOS. O arquivamento dos testamentos vem-nos do Decreto n. 834, de


2 de outubro de 1851, art. 41. Sobre isso, comentário ao art. 1.125, parágrafo único. O emaçamento deve ser por
ordem cronológica, acompanhado de índice, que facilite a procura do original.
O arquivista tem a responsabilidade civil e penal pelo de~aparecimento. Subsdiariamente, o Estado.

4)CUMPRA-SE DOS TESTAMENTOS. 05 processos para obtenção do cumpra-se são integrativos da forma do
negócio jurídico dos testamentos. O juiz funciona cooperando posteriormente, para que tenha eficácia o negócio
juridico. Essa cooperação é quase a mesma nos testamentos públicos, cerrados, particulares e especiais. Verdade
é, porém, que maior âmbito para impugnação surge nos particulares e nos especiais. Daí A. J. DE GOUvEIA
PINTO (Tratado, 6.~ ed., 61) ter dito que o processo de publicação dos testamentos particulares é contencioso,
dissentindo de PAScOAL Jos~ DE MELO FREIRE (InstitutiOnes, III, 40). Essa fusão das duas jurisdições é
freqúente, desde séculos; e a observação de A. J. DE GOUVEIA PINTo mostra a sua perspicácia em apontar o
elemento de “demanda”, pelo menos eventual, no processo de cumpra-Se dos testamentos.

5) TESTAMENTOS NOTARIAIS. Os testamentos públicos e os cerrados são duas espécies de testamentOS


notariais. Os testamentos públicos são, no seu todo, atos jurídicos lançados pelo oficial público. Nos testamentos
cerrados, só os atos de aprovação, fechamento e costura pertencem ao oficial público. Sobre eles, Código Civil
de 1916, arts. 1.632-1.644 e 1.650.
As ações relativas aos testamentos cerrados e aos testamentos públicos são ações constitutivas integrativas, que
se processam sem angularidade (non audiatur altera pars). A força probatória de forma, que provém da fé
pública do tabelião, permite que a lei confira ao juiz tal atitude; de modo que fique às impugnativas à sentença,
em ações, qualquer ataque (ações constitutivas negativas da sentença, como a de nulidade e a ação de rescisão,
da sentença). Quanto as ações de nulidade ou de ineficácia do conteúdo do testamento, ‘são ações que investem
contra o testamento mesmo, de modo que se passa o que será exposto à nota ao art. 1.126.

6)TESTAMENTO PUBLICO E TESTAMENTO PARTICULAR. Havendo já o testamento público e o


particular (Código Civil, arts. 1.632-1.637, 1.645-1.649 e 1.650), justifica-se o testamento cerrado como a forma
velada, secreta, com a qual o testador, se o quer, oculta as suas últimas vontades. Se ele permite a divulgação
delas, o oficíal pode lê-lo e verificar se a cédula está com as formalidades necessárias. De regra, isso não se dá; e
o próprio testador não precisa lê-lo. A exigência de saber e poder ler o testador provê exatamente a essa
verificação do conteúdo. O segredo não é pressuposto necessário (aliter, Código Civil francês, art. 976; holandês,
art. 987; chileno, art. 1.C23; venezuelano, art. 845).

7)TESTAMENTO E PROCESSO APOS A MORTE DO TESTADOR.


O Código de modo nenhum tratou da feitura do testamento. Essa parte pertence, de todo, ao direito material,
naquela zona do direito civil, que fica entregue, hoje, aos tabeliães (notários), sucessores, historicamente, dos
juizes, antes encarregados da atuação nesses negócios jurídicos (desjudicíalízação da “jurisdição voluntária”), ou
às próprias pessoas figurantes no negócio jurídico. Não temos, pois, de tratar de como se fa~em os testamentos. O
que interessa à lei processual é o testamento depois de morto o testador. As formalidades iniciais são: a) a
apresentação (e, sendo cerrado, a abertura); b) a leitura; c) o auto de apresentação (abertura) e leitura; d) a
audiência do órgão do Ministério Público; e) o cumpra-se; f) o registro; g) a inscrição. Se particular, há o
processo da “publicação” (art. 1.130). Publicação significa, ai, menos comunicar ao público do que tornar, pela
intervenção judicial, público (= equiparado ao testamento público). Segue-se a confirmação.

8) TESTAMENTO CERRADO. Os arts. 1.125-1.127 falam do testamento cerrado. A palavra “abertura”,


generalizada até abranger o rompimento de envoltório somente materiais, a jurídicos, dos testamentos públicos,
era erro grave, porque esses são testamentos abertos, “públicos”, por sua natureza, havia multissecular confusão
entre apresentação e cumpra-se, elementos necessários e comuns a todos os testamentos, e abertura solene dos
testamentos cerrados, ou, ocasionalmente, dos particulares.

9)EFICÁCIA DO TESTAMENTO. Nem sempre coincidem a competência para o cumpra-se e a competência


para a ação sobre eficácia do testamento, seja a declarativa (ação declaratória do art. 4.0), seja a constitutiva
negativa (ação de nulidade ou de anulação do testamento). Daí prever-se a requisição por outro juiz. Se a
diligência de falsidade se processa no mesmo juízo, não há requisição: há determinação do juiz.

SEÇÃO 1

Da abertura, do registro e do cumprimento

Art. 1 . 125. Ao receber testamento cerrado, o juiz9), após verificar se está intato 4) 5), o abrirá 1) 3) e mandar~
que o escrivão o leia em presença de quem o entregou 2).

Parágrafo único. Lavrar-se-á em seguida o ato de abertura 6) que, rubricado pelo juiz e assinado pelo
apresentante, mencionará 7) 10):

1 a data e o lugar em que o testamento foi aberto;


11 o nome do apresentante e como houve ele o testamento;
III a data e o lugar do falecimento do testador;
1V qualquer circunstância digna de nota, encontrada no invólucro ou no interior do testamento ~).

1)ABERTURA t O TESTAMENTO CERRADO. Cf. Código Civil de 1916, art. 1.644. A regra jurídica firma
que o testamento cerrado é aberto pelo juiz. No Código Visigótico, a publicação pertencia ao sacerdote. A Lei de
21 de maio de 1349 repôs a jurisdição secular. Mas, a despeito dessa lei, ainda P. J. DE MELO FREIRE, na linha
dos outros juristas, transigia (Institutzones, 1, 81; III, 39). O que se devia fazer a abertura pelo juiz (MANUEL
DE ALMEIDA E SousA, Coleção de Dissertações, 195) ele apenas atestava ter visto. Persistência da tradição
visigótica, pensou HENRIQUE LA GAMA BARROS (História da Administração Pública, III, 299 e 301).
Também persistência era a abertura por outra pessoa: “sacerdote, veZ testibus” (HENRIQUE LA GAMA
BARROS, 299, diz “pároco e testemunhas”; mas sem razão cf. nosso Tratado dos Testamentos, II, 168, e
Tratado de Direito Privado, Tomo LIX).

2)PRESENÇA DO APRESENTANTE E DO ESCRIVÃO . A exigência da presença do apresentante e do


escrivão, de direito processual, resulta da natureza das coisas: quem apresenta tem de permanecer e assinar o auto
de apresentação; e esse auto lavra-o o escrivão, cuja presença se supõe.

3)SOLENIDADE LA ABERTURA LO TESTAMENTO. A abertura do testamento cerrado ato material, mas


solene tem, na praxe, a feição ditada pelas circunstâncias: cortar das linhas que cosem o testamento, arrancar ou
quebrar do lacre, desdobrar das folhas. Vulgarmente por cima dele ainda há outro invólucro, em que o testador o
meteu, e talvez mesmo tenha cosido e lacrado. Se, por fora, há algum escrito, convÉm que o juiz o leia alto.
Antes de qualquer gesto para abri-lo, deve o juiz examiná-lo por fora, para verificar se está intacto e se contém
vício extrínseco, que o torne suspeito de nulidade ou falsidade.
(A abertura do testamento particular, eventualmente “fechado”, é ato material, que se consigna.)

4) QUESTõES DE FORMA. Os arts. 1.125 e 1.123, à diferença do art.1.128, apenas se referem a questões de
forma. O art. 1.130 não mais alude à verificação superficial, já se vê do “perfeito juízo” do testador, o que
constava do Código de 1939, art. 532, a propósito de testamento particular. Em todo caso, se o testador estava
interdito por alguma causa que o tornaria incapaz de testar, não pode a juiz apor a seu cumpra-se. Mas a
alegação, ainda provada, de estar, por exemplo, louco, ou de ter estado ausente do lugar em que se diz ter sido
feito o testamento público ou cerrado, não basta para que o juiz negue o cumpra-se. A regra é a de somente poder
e dever o juiz respeitar decisões anteriores com as quais seja incompatível o cumpra-se, bem como atender a
fatos constantes dos registros públicos, como se o testamento, datado de 31 de dezembro, é atribuido a pessoa
que já estava morta, segundo o registro de óbitos, a essa data.
5) VERIFICAçÃO DO EXTRINSECO. O juiz primeiro verifica se o testamento cerrado se acha intacto e se não
contém vicio extrinseco que o torne suspeito de nulidade ou de falsidade. Se o testamento não está intacto, o juiz
deve mandar que se diga no auto qual o seu estado (art. 1.125). Se contém vício extrínseco, ou esse vício é causa
a) de inexistência, ou b) de falsidade, ou c) de nulidade, ou d) de anulabilidade.
Se ocorre a), 1), ou c), o juiz Pode negar o cumpra-se, fundamentando a decisão, posto que dificilmente possa o
vício extrínseco evidenciar a falsidade. Se ocorre d), a ação de cumprimento, que é ação constitutvia, com
eficácia mandamental imediata, não é adequada à desconstituição. Aliás, a carga da sentença de cumpra-se e a de
denegação do cumpra-se são assaz expressivas:

TABELA L
EFICÁCIA DA SENTENÇA QUE DEFERE O PEDIDO
DE CUMPRA-SE
Declara Cons Conden Manda- Exec
- titu- a- utiva
tiva tiva tórta mental

5 1
3
2 4
TABELA LI
EFICÁCIA DA SENTENÇA QUE NÃO DEFERE O PEDIDO
DE CUMPRA-SE
Declar Cons Manda- Exec
a- titu- Conden utiva
mental
Uva Uva
a-tória
4

2
3
O juiz não pode apreciar mais do que o que se refere ao extrínseco e o que resulta de sentença sobre a capacidade
do testador, ou de documento de fé pública (e. g., certidão de idade do testador). O que ele declarar, dentro do
que lhe cabe decidir, terá de ser desconstituído em recurso, ou em ação rescisória, se algo há para se lhe argúir.
Tinha-se pretendido que a decisão sobre o cumpra-se podia ser reformada, a qualquer tempo, por se tratar de
decís~o que não fazia coisa julgada. Antes, fundando-se em se tratar de jurisdição voluntária, a 2.~ Turma do
Tribuna] Federal de Recursos, a 10 de novembro de 1950 (D. da J. de 1.0 de outubro de 1951). O art. 288 do
Código de 1939, a que corresponde, hoje, o art. 469 do Código de 1973, referia-se à juridição voluntária. Mas
criticamo-lo. Hoje foi suprimida a alusão à jurisdição voluntária. A diferença entre jurisdição voluntária e
jurisdição contenciosa somente pode ser feita concretamente, por exame do direito vigente (cf. LEO
ROSENBERG, Lehrbuch, 5.a ed., 51).

6) AUTO LE ABERTURA. Aberto o testamento, deve o juiz examiná-lo externa e internamente, a fim de
verificar se tem as formalidades essenciais. O juiz ou o escrivão o lê em voz alta. É leitura para a publicidade
limitada (a certo número de pessoas), de que falam os processualistas. Finda a leitura, lavra-se o auto de
abertura, logo depois do auto de aprovação do testamento cerrado, que foi cerrado em vida do decujo. (No texto
está “ato de abertura”, em vez de “auto de abertura”.)

7) REQuIsITos DO AUTO tE ABERTURA. No auto de abertura tem-se de dizer qual a data e o lugar em que o
testamento foi aberto, quem o apresentou, se o fez por si, ou a mando de outrem, quais as relaçóes entre o
apresentante e o testador, ou entre ele e os herdeiros, ou entre o guarda-dor, o apresentante e o testador, a razão
para ter havido do Testador o testamento, isto é, como lhe chegou às mãos o testamento. Também do auto de
abertura e leitura há de constar a data da morte, nome por inteiro, estado, naturalidade, filiação, domicilio e
residência do testador. ~ indispensável mencionar-se se foi achado e apresentado intacto, cosido e lacrado, se os
pontos estavam sem irregularidade, ou se estavam desfeitos, cortados ou forçados, se havia emendas, rasuras,
rasgaduras dentro e fora do testamento, e se foram encontrados outros defeitos. São circunstâncias dignas de
nota, além de outras.
O Código de 1973, como o Código de 1939, não falou de circunstância de ter o testador determinado que só seja
aberto o testamento depois de certo acontecimento, ou em certa data. Há juristas nacionais e estrangeiros que
acolhem, sem restrições, tal cláusula. Pense-se que o art. 983 do Cc digo de 1973, como o anterior art. 467,
fixaram prazos para que se requeiram o inventário e a partilha. Se o testador no invólucro ou na part.e externa do
testamento fixou data ou época da sua abertura, não se há de pensar em atendê-lo se há herdeiros legítimos, quer
necessários ou não; outrossim, se não tem herdeiros legítimos, porque se estaria sem saber quais são os herdeiros,
ou quais são os legatários, e a quem passaram a propriedade e a posse, em virtude da saisina (Código Civil, art.
1.572). Se no invólucro estava a cláusula, ou mesmo dentro do testamento, o juiz tem de mencioná-lo (art. 1.125,
parágrafo único, IV).

8)INTEGRAÇÃO .~E FORMA DO NEGóCIO JURÍDICO. Para a abertura dos testamentos não é preciso
citarem-se interessados: ainda não se trata de exercício de pretensão, ainda não se está no plano das actiones,
mas sim de integração da forma do negócio jurídico à causa de morte. Morte, ou sucessão provisória (Código
Civil de 1916, arts. 10, 471, 481 e 482). No direito brasileiro, há a successio praematura após o prazo legal de
espera da pessoa desaparecida, desde quando se pode abrir o testamento: procede-se como se falecido estivesse o
ausente; a curadoria definitiva, que vem depois, é apenas período de mais forte presunção, espécie de segundo
grau de morte presumida. O juiz dos ausentes, havendo testamento, oficiará ao dos testamentos, para que o abra.
A jurisdição da ausência não lhe confere, só por si, a atribuição de abrir e de mandar cumprir o testamento do
ausente. Tudo se pratica “como se” o ausente estivesse morto. Fictio tantum operatur in casu ficto quanlum
ventas tu casu vero.

9)COMPETENCIA junícux.~. A competência para o cumpra-se de quaisquer testamentos é a do juiz do lugar da


morte, (a) ou do último domicílio do decujo ou da decretação da sucessão provisória, (b) ou a do juiz do lugar em
que se acha, em poder de alguém, o testamento (c). Não coincide sempre com a competência para o inventário e
partilha, porque se trata de integração da forma do negócio jurídico, e não de litígio. Em qualquer caso, se
apresentado a outro juiz que o competente para o inventário e partilha (Código Civil, art. 1.578; Código de
Processo Civil, art. 96), o juiz do testamento cumpre as chamadas “disposições de corpo presente”, do enterro,
dos funerais, e remete cópia autêntica ao juiz competente para o inventário e partilha (se não tem as duas
competências), - não ao juiz dos testamentos do lugar em que devam correr inventário e partilha (nosso Tratado
dos Testamentos, IV, 340, s.). Sobre a diferença entre a competência para a apresentação e o cumpra-se do
testamento e a competência para. o inventário e partilha, adiante, nota ao art. 1.129. Abstraímos das leis de
organização judiciária.
Como é de praxe, oriunda do Decreto n. 834, de 2 de outubro de 1851, art. 41, há o arquivamento do tostamento
no cartório, registro e emaçamento por ordem cronologica,acompanhado de índice, que facilite a procura do
original. Se o testamento é cerrado, há a abertura, com o respectivo ato processual, a conclusão e o registro, a que
se segue o arquivamento. Se particular pode ter havido ou não a confirmação, mas, de qualquer modo, há o
registro e o arquivamento.
Podem ser competentes o juízo para cumprimento do testamento e para conhecer de ações sobre a ineficácia do
testamento, seja declarativa (ação sobre não existir ou existir o testamento, cf. art. 4.0), seja constitutiva negativa
(ação de nulidade ou anulação do testamento), seja somente sobre ineficácia (e. g., não é verdade que tenha
morrido o testador). Nas duas primeiras espécies, pode acontecer que dois sejam os juizes, razão por que tenha de
ser requisitado o testamento. Se tal acontece, o juízo competente para a ação declarativa ou constitutiva negativa
tem de proceder, com urgência, à diligência, para que se não perturbe o cumprimento. Ficou traslado no juízo. Só
a coisa julgada na ação declarativa negativa, ou na ação constitutiva negativa, pode obstar ao cumpra-se, salvo se
o próprio juiz do cumpra-~se aponta fundamento para o não cumprir. Aliás, pode ocorrer na ação de
cumprimento do testamento a ação incidental de falsidade (art. 5.0).
As sentenças quanto a existência, validade ou eficácia do testamento podem ser rescindidas, conforme o art. 485.

10)RECURSO. Decisão que nega ou dá o cumpra-se é decisão sobre mérito; dela cabe recurso de apelação (já
antes, a 3.~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo,10 de outubro de 1952, J., 12, 135 e 211).
Art. 1 . 126. Conclusos os autos, o juiz, ouvido o órgão do Ministério Público 6), mandará registrar, arquivar e
cumprir o testamento5) 7) 9), se lhe não achar vício externo’), que o torne suspeito de nulidade ou falsidade3).

Parágrafo único. O testamento será registrado2) e arquivado no cartório a que tocar 8) dele remetendo o
escrivão uma cópia, no prazo de oito (8) dias, à repartição fiscal4).

1)FORMALIDADES EXTRÍNSECAS E VICIOS EXTERNOS. O juiz verifica se o testamento está com as


formalidades extrínsecas . Formalidades extrínsecas são as que derivam de todas as regras jurídicas de forma,
aplicáveis à espécie de testamento. Essa inspeção é anterior à conclusão ~ consta do auto de abertura. Conclusos
os autos, manda o juiz que seja ouvido o curador de testamentos (“órgão do Ministério Público”).

2)REGISTRO DOS TESTAMENTOS. Os testamentos têm de ser registrados. O registro é exigido aos
testamentos públicos, aos cerrados, aos particulares, ao marítimo e ao militar. Aos codicilos também (Tratado
dos Testamentos, IV, 355).

3) EXAME DAS PROvIDENCIAS. A inscrição ou apresentação nas repartições fiscais era velharia, em que a
legislação de 1939 insistia (sobre a legislação fiscal, Tratado dos Testamentos, IV, 336, 337). O cumpra-se
precede ao registro e ao arquivamento. Mas, perguntava-se, 1~que é que devem fazer os escrivães: registrá-lo,
para maior garantia do testamento, que lhe foi entregue e vai sair do cartório; ou mandá-lo à inscrição e só depois
registrá-lo, incluindo, no registro, mais essa formalidade cumprida? Razão fiscal contra razão do interesse dos
beneficiários. Leis discordantes. No Distrito Federal, por exemplo, até 1929, havia duas praxes diferentes nos
dois cartórios. Na doutrina, afirmativas obscuras quanto à anterioridade do registro. Nas leis fiscais, é

que se devia buscar a solução, e eram elas acordes em mudar que se inscrevessem depois de registrados. Uma
delas, para inscrição, fixava prazo de oito dias contados do registro. Mandava-se cumprir (chamado “despacho”
de cumpra-se), registrar e inscrever. Exprobramos tais velharias. Tudo isso mudou. O testamento cerrado, com o
cumpra-se, é registrado e arquivado, conforme a lei. Quem for legitimado a pedir certidão pode fazê-lo.
Repitamos o que dissemos nos Comentários ao Código de 1939 (Tomo VII, 2.~ ed., 213):
“Só após o registro e a inscrição é que se começa a cumprir. É isso que querem dizer as leis fiscais. Aliás,
obsoleta e inútil providência a da inscrição: a Fazenda Pública limita-se a tomar o nome do testador, o estado
civil, se consta, e o cartório a que foi distribuído. As verbas ainda vão ser interpretadas, classificadas, reduzidas,
e pouco adiantaria à estação fiscal o inteiro teor da cédula. N~ se justifica a exceção, que ela é, ao principio de
não saírem dos cartórios os originais dos testamentos. Nota escrita do escrivão, assinada ou fiscalizada pelo juiz,
chegaria ao mesmo resultado. E essa é a praxe”. Acertadamente, na esteira do que dissemos, resolveu o Código
de 1973, art. 1.126, parágrafo único.

4)COPIA QUE SE ENVIA À REPARTIÇÃO FISCAL. O artigo 1.126, parágrafo único, diante da solução de se
arquivar o testamento cerrado, estatui que o escrivão remeta cópia. no prazo de oito dias, à repartição fiscal. Não
só com a nossa crítica ao texto anterior como com a praxe que em alguns lugares já havia chegado a esse ponto,
afastados foram os inconvenientes que apontáramos.

5)NATUREZA ro CUMPRA-SE. - O cumpra-se, introduzido pela praxe e, mais tarde, ato legal, constitui sanção
judicial, para a exeqúibilidade do testamento, exame preliminar’: (cognição superficial) pelo juiz. É o conteúdo
de sentença de constituição integrativa de forma. Por ele, proclamar e que deste” um testamento sem aparentes
ou visíveis flexidades (elemento declarativo da sentença): diz-se que está regular-mente feito, com as solenidades
extrínsecas e sem aparente nulidade ou ineficácia. N~ se trata, porém, de sentença declarativa. É constitutiva
(integrativa de forma). Nulidades, se as há, dependem de provas aliunde, de contenda de provas, de longo exame,
que as tome, afinal, visíveis. Essas, ainda alegada, não podem ser discutidas e julgadas no rito de apresentação,
abertura e cumpra-se que precede ao registro e ao arquivamento. Não é lugar, nem momento próprio, e o
cumpra-se ou a denegação do cumpra-se não as julga:
são estranhas ao poder de decidir que, na espécie, tem o juiz.

O que se requer ao juiz é a inspeção, para verificar se o instrumento tem as formalidades extrínsecas essenciais, e
também, por força do art. 145 do Código Civil de 1916, se não contém nulidade pronunciável de ofício. Diziam o
mesmo, no direito anterior, os tratadistas. Pena foi que o Código de 1939, art. 526, só se referisse a solenidades
extrínsecas. Foi o que lhe criticamos e o Código de 1973 atendeu ao que dissemos, posto que ainda fale de “vicio
externo”. Na execução, eliminará o juiz tudo que for contrário a direito, decretando a nulidade das diversas
disposições; mas há nulidades visuais, não extrínsecas, que fazem nenhum o próprio testamento, e fora absurdo
que, vendo-as, o juiz ordenasse o cumprimento da cédula. Casos típicos são o testamento feito pelo interdito, o
testamento do menor de dezesseis anos, o do louco, ou surdo-mudo que não possa exprimir a sua vontade. Trata-
se de comparação fácil de datas, diante das certidões. Se o Código Civil, art. 146, parágrafo único, manda que o
juiz as pronuncie de oficio, também no plano processual, o art. 1.126 (“suspeito de nulidade ou falsidade”) não
nos deixa dúvida, a despeito do final do assunto. É regra, pois, que se há de negar o cumpra-se quando houver
nulidade resultante de se haverem preterido formalidades visíveis no próprio instrumento (como número
insuficiente de testemunhas) ou em prova literal (ser absolutamente incapaz uma delas); ou se houver nulidade
por falta de solenidade intrínseca, daquelas nulidades substanciais ao testamento e pronunciáveis, de ofício, pelo
juiz, sejam visíveis no testamento (“eu, testador, interdito por loucura na cidade de São Paulo, mas em verdade
com uso das minhas faculdades mentais”), sejam só verificáveis em certidões (testamento feito pelo interdito e
certidão de registro).
Qualquer outra nulidade, das que de ofício não se pronunciam, terá de ser apreciada em ação própria, e não no
processo especial da apresentação e cumpra-se dos testamentos, que é de cognição superficial. Sobre as que o
juiz pode apreciar, não precisa que se arguam, para que ele as decrete. Não se trata de “anulação”, mas de exame
prévio, exatamente com o fim de decretar as nulidades e a ineficácia, como uma peneira judicial para melhor
policiamento das cédulas testamentárias. Criou-a a prática, utilitatis cansa; consagraram-
-na, depois, as leis, considerando-a indispensável. Em geral, as provas de incapacidade absoluta não se podem
considerar aliunde, porque as interdições se Inscrevem em registro público (Código Civil de 1916, art. 12, III) e
os nascimentos têm o seu, cujas certidões não se poderiam aguardar ações para produzirem os seus efeitos de fé
pública. Dir-se-a o mesmo quanto ao testamento com data posterior à morte do testador. Juntou-se certidão de
óbito (Código Civil, art. 12, 1); não se compreenderia que o juiz, conhecendo-a, apusesse o cumpra-se a tal
cédula. Na espécie, nem sequer é nula; não existe, pela falta do sujeito.

No art. 1.126 diz-se que o juiz dá o cumpra-se se não achar no testamento “vício externo, que o torne suspeito de
nulidade ou falsidade”. O juiz, apesar de ter dado o cumpra-
-se e não ter suspeitado de nulidade ou falsidade, não disse na decisão que não há nulidade ou falsidade do
testamento, apenas não suspeitava. Pode ser que o erro do juiz tenha consistido em não suspeitar de haver
nulidade ou falsidade do testamento. O cumpra-se não afasta a propositura das ações de invalidade ou de
falsidade. Apenas se permite que o juiz, suspeitando de haver nulidade ou falsidade, se recuse a dar o cumpra-se.
~E se o juiz indefere o pedido? Tem ele de fundamentar a sua suspeita e cabe, então, a ação em que se peça ser
repelida a suspeita (não haver nulidade ou falsidade); mas da decisão de indeferimento cabe recurso. O que se
teve por fito com alusão a algo que torne suspeito de nulidade ou falsidade (Código de 1973, art. 1.126, e Código
de 1939, art. 524) foi não se dar o cumpra-se se há dúvida que justifique a ação declarativa de não haver
falsidade ou a ação negativa de haver nulidade. De certo modo se deixa de julgar o que não compete ao juiz a
quem se levou o testamento apenas para o cumpra-se. O indeferimento, com base no art. 1.126, in une, apenas é
de cognição incompleta: ~) juiz não se convenceu, apenas suspeitou. No recurso é que convém que o interessado
ou os interessados mostrem não haver razão para a suspeição, que apenas é desconfiança. O caminho que o
direito processual tomou pode dar ensejo a retardamento do inventário e partilha, mas, enquanto não se chega ao
cumpra-se, o juízo do inventário e partilha não pode atender às cláusulas testamentárias. Não deixa de haver, ai,
algo de perturbante, de modo que, de iure condendo, seria conveniente que o juiz só indeferisse o cumpra-se se
havia fundamento suficiente para se reputar nulo ou falso o testamento.

Estudando-se, a fundo, a natureza da ação de cumprimento de testamento, baseada naquela cognição superficial
de que falamos, temos que (a) essa cognição superficial é aquela que têm os juizes na verificação dos
pressupostos para o adiantamento de execução de títulos extrajudíciais, ou para a concessão de medidas
preventivas. Apenas, a sentença de cumpra-se é sentença que constitui, integrando, dita, por isso, constitutiva
integratíva, em vez de executiva-condenatória (arts. 585 e 586), ou mandamental, nas ações de medidas
cautelares, como o arresto, o sequestro, a busca e apreensão e o depósito de menores e incapazes. A cognição
superficial basta para que toda a eficácia constitutiva-integrativa se opere: a sentença tem toda a sua força e
produz todos os seus efeitos. Por Isso mesmo, é suscetível de rescisão , de querela de nulidade (e. g., casos do
art. 741, 1) e de perder a sua eficácia se, em ação de cognição completa, se desconstitui o testamento (ação de
nulidade de testamento, que é ação constitutiva negativa, de cognição completa).
Assim, a sentença do cumpra-se, Integrativa do testamento, tem eficácia somente enquanto tem eficácia o
testamento. Perdendo-a esse, perde-a aquela. Portanto, a) se alguma relação jurídica testamentária é, em ação
declaratória, segundo o art. 4•o, declarada inexistente, não tem eficácia, ai, o cumpra-se; b) se foi decretada a
nulidade, ou a Ineficada de alguma disposição, aí, não tem eficácia a sentença do cumpra-se; c) se o ato do
testamento foi anulado (eficácia constitutiva negativa, desconstituidora do testamento, contra eficácia
constitutiva positiva, Integrativa ~1o testamento), cessa toda a eficácia; d) se o testamento se tornou,
posteriormente, ineficaz, o cumpra-se também se tornou.
A ação constitutiva negativa (de nulidade de testamento) desconstitui o testamento e a sentença de cumpra-se
(cognição completa contra cognição superficial).
A eficácia do cumpra-se, baseada em cognição superficial, cede à eficácia das sentenças de cognição completa,
porque foi concebida com tal limitação a própria sentença do cumpra-se. Se essa, ciente ou não o juiz, foi
proferida após a sentença de cognição completa ter passado em julgado, a eficácia Integrativa cal no vácuo: não
há testamento, ou não há eficácia do testamento, e não pode Integrá-lo (não se Integra o que não existe), ou
atribuir eficácia ao que não mais existe como fonte de eficácia.
A exigência de citação de interessados, para o cumpra-se doa testamentos públicos e cerrados, é sem qualquer
base em direito (sem razão, o Tribunal de Apelação do Rio Grande do Norte, 27 de novembro de 1944, R. dos T.,
154, 788).

6)AUDIÊNCIA DO MINISTÉRIO PUBLICO. Após a lavratura do auto de abertura do testamento cerrado e


conclusos os autos ao juiz, tem ele de ouvir o Ministério Público, antes de proferir o cumpra-se. Na decisão, que
sentença é, ele manda registrar, arquivar e cumprir.

7)SENTENÇA FAvORÁvEL E SENTENÇA DESFAvORÁVEL. ~Para se negar o cumpra-se a um testamento


basta que o testador casado tenha deixado os bens à concubina? 60u tal nulidade há de ser alegada pelos meios
ordinários? O Tribunal de Justiça de São Paulo reputou questão de alta indagação, que só pelos meios ordinários
poderia ser discutida e resolvida (29 de novembro de 1918); mas um dos juizes entendia que, diante do art. 1.717
do Código Civil de 1916, sendo casado o testador e deixando os bens à concubina, devia ser negado o
cumprimento, por ser contrário ao direito. Nem o acórdão nem o voto vencido feriram, como deviam, a questão:
a disposição é contrária ao direito, mas uma coisa é a disposição e outra o testamento. O cumpra-se não torna
válida, nem nesta a cláusula desonesta. Trata-se, no cumpra-se, de apreciação do ato unilateral do decujo, e não
do que, dentro do ato, dispôs. Para o despacho do cumprimento, há de o juiz examinar os requisitas essenciais
(Código Civil, arts. 1.632--1.C34, 1.638-1.643, 1.645, 1.647 e 1.648 etc.), e não as cláusulas, no que contenham
e dependam de prova. Pode negar o cumpra-se ao que só Institua herdeiro universal um animal, ou, sendo
casado, “a minha amante, ou quem viver”, porque, aí, falta o sujeito passivo do ato jurídico, e a nulidade consta,
evidente, de dados extrínsecos do testamento. Se, porém, não é o animal nem a concubina o único instituído ou
interessado, a nulidade da disposição não invalida o testamento. É o testamento que o juiz está a apreciar, para
exercer a sua função integradora da forma, embora posterior à conclusão do negócio jurídico.
A sentença é constitutiva integrativa, de cognição superficial, ou constitutiva negativa, de cognição completa. Se
o testamento não existe, então a sentença é declarativa.

8) EMAÇAMENTO E GUARDA. Depois de registrados, devem-se guardar nos cartórios do juiz dos
testamentos os originais, emaçados com os do mesmo ano (Código Civil, artigo 1.644, Decreto n. 834, de 2 de
outubro de 1851, art. 41). É o arqulvamento. Antes, ao tempo das Ordenações Filipinas (Livro 1, Titulo 62, § § 8
e 9), ficavam com os testamenteiros, e tal era a praxe. A Lei de 7 de janeiro de 1692 ordenou que, apés o registro,
se entregassem às partes. TEIXEIRA DE FREITAS (nota 9 ao art. 1.094 da Consolidação) aplaudiu a inovação
acauteladora do Decreto n. 834, art. 41 (contra, A. P. REBOUÇAS, em observações ao citado artigo). Tudo
aconselhava que se conservasse tal disposição: se fosse perdido o original, restaria o registro; e não tem
procedência o argumento do censor de TEIxEIRA LE FREITAS, o custo da tirada do traslado. Deve prevalecer
contra tais motivos o interesse público.
A solução explícita do arquivamento foi acertada (artigo 1.126: “o juiz... mandará registrar, arquivar e cumprir o
testamento”).

9) RECURSO. Quer se negue o cumpra-se, quer ‘se dê, o recurso é o de apelação. A afirmação de que não cabe
recurso da decisão que manda cumprir é sem qualquer fundamento jurídico (sem razão, a 6.~ Câmara Civil do
Tribunal de Justiça de São Paulo, a 27 de agosto de 1948, R. dos T., 177, 638, que a reputava mero despacho
interlocutório).

Art. 1 . 127. Feito o registro, o escrivão ) intimara o testamenteiro’) 4) 5) nomeado a assinar, no prazo de cinco
(5) dias, o termo da testamentaria; se não houver testamenteiro no meado, estiver eje ausente ou não aceitar o
encargo, o escrivão certificará a ocorrência e fará os autos conclusos; caso em que o juiz nomeara
testamenteiro dativo 2), observando-se a preferência legal 3) 6) 7)•

Parágrafo único. Assinado o termo d~ aceitação da testamentaria, o escrivão extraira cópia autêntica do
testamento para ser juntada~ aos autos de inventário ou de arrecadação da herança.
1)art. 1.135.TESTAMENTEIRO. Sobre o testamenteiro, nota ao
2)TESTAMENTEIRO NOMEADo EM TESTAMENTO E TESTAMENTEIRo LATIvO . A regra jurídica é
que o testador nomeie e discrimine, no tempo, no espaço e quanto às funções, 05 poderes dos testamenteiros.
Vulgarmente, o testador nomeia dois ou mais de dois, enumerados por ordem, ou não, mas presumidos separados
e não conjuntos, porque mais se vêem aqueles do que esses. Separados, ou o são no tempo, um em falta do outro,
ou por funções discriminadas (simultâneas e de atribuições inconfundíveis). Conjuntos, solidários, se não há
distinção do que fazem e se se diz que exercem, ao mesmo tempo, o cargo, ou não-solidários, se, a despeito de
serem conjuntos e da regra jurídica do art. 1.765 do Código Civil de 1916,tem de ser excluida a solidariedade,
por tê-los querido conjuntos o testador, porém só responsáveis pelos atos próprios, nas resoluções, segundo o
discrime eventual para os casos de discordância . Não é o testador obrigado a nomear testamenteiro o herdeiro,
ou o cônjuge, ou pessoa que lhes mereça a confiança. É ato todo seu, de escolha íntima, baseado só no seu
Interesse. Pode ser também para cláusulas relativas à porção indisponível, ou somente para isso; bem como dar-
se que seja a única disposição testamentária. Há deveres legais que justificariam, de si só, tal designação, uns
eventuais, outros permanentes (Cf. F. RITGEN, em O. PLANCK, Kommentar, V, 386 s.).
A nomeação é revogável, em outro ato jurídico, inclusive suplementar se feita pelo testador; é retratável até à
aceitação , se feita pelo juiz. Pode ser em testamento ou em codicilo (Código Civil, arts. 1.753 e 1.693). A
disposição mesma, em que o testador nomeia, não precisa, para ser eficaz, de explicitude. Em vez de
testamenteiro, ou executor testamentário, é admitida qualquer expressão que signifique “testamenteiro”. A
Intenção é que importa.

A 2.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a 3 de fevereiro de 1947 (R. F., 118, 495), disse ser
formalidade útil, porém não indispensável, a aceitação da testamentaria, e serem as funções do testamenteiro
Independentes da aceitação. Há evidente confusão. Quem não assinou o termo não é testamenteiro, foi apenas
nomeado; o termo contém a aceitação.
Pode o testador referir-se à pessoa que nomeia ou a alguma dentre duas ou muitas, indicando a maneira de se
determinar. Se o testador nomeia sem qualquer indicação que caracterize o nomeado, ou deixando em branco o
lugar do nome, é como se não tivesse escrito. Não precisa de palavras solenes. As vezes faz-se em tom de
pedido, de desejo, ou com breves informações de funções a serem exercidas: “espero que A ordene (ou ponha em
ordem) tudo isso”. “A entregará essas coisas” (sobre a matéria da nomeação, modalidades do ato, etc., nossos
Tratado dos Testamentos, V, 176-182; Tratado de Direito Privado, LX, § 5.957). A lei confere ao testador a
faculdade de nomear testamenteiros sucessivos, ou não. Resta saber-se qual o número deles.
Tudo que podia fazer, quanto à nomeação, o testador, pode o juiz. Se os testamenteiros exercem em comum a
testamentaria, cabe ao juiz, em caso de desacordo, se não têm de deliLerar por maicria, ou em caso de empate,
decidir.

3)TESTAMENTEIRO OFICIAL E TESTAMENTEIRO DATIVO. Onde não há testamenteiro oficial, a


nomeação do dativo tem de obedecer à ordem legal (cf. art. 990, a cujas notas nos reportamos). Acrescente-se
apenas que os instituidos preferem aos legítimos, devido à natureza do cargo.

4)CAPACIDADE DO TESTAMENTEIRO. O testamenteiro tem de ser capaz no momento em que deve


começar as suas funções. EMIL SIRORAL (Das cLeutsche Erbrecht, 3.~ cd., § 40, nota 1C’) e outros entendem
que o momento de apreciar-se éo da abertura da sucessão ou o da ciência da nomeação. FRIEDRICR
ENE’EMANN (Lehrbuch, 574) fixa-o à época da aceitação da testamentada. E com razão. Portanto, se aceitou,
verifica-se-lhe, então, a capacidade. Se foi intimado e não foi assinar, toilitur quaestio, supõe-se não ter aceito.
De onde resulta que se devem intimar os que não poderiam ser, mas, munidos de ato convalescedor, puderem ser,
isto é, as mulheres casadas, ou menores suplementáveis na idade. Fica-lhes tempo para se habilitarem, prazo,
aliás, que, por eqúidade, pode o juiz dilatar. É escusado dizer que a incapacidade superveniente põe fim à
testamentaria (cf. Código Civil chileno, art. 1.275). Mas, em relação à mulher casada, cumpre atender ao que
adiante se dirá.A fixação da verificação da capacidade no momento da aceitação facilita, evidentemente, a
solução das questões.
Facilmente se revela o direito relativo à capacidade. Omisso O Código Civil, dos princípio5~ expedientes
quantitativos e soluções referentes à vida conjugal, resulta que são incapazes para que possam exercer
testamentaria:

(1) Os menores, salvo se se lhes suplementou a idade (a.rts. 5~O, 1, 6.~, [, 9~O, § 1.0, do Código Civil de 1916),
por um dos meios dos incisos i-V do art. 9~o, § 1.0, do Código Civil. Esses poderiam exercer mandato judicial.
São maiores ou “declarados” maiores, na terminologia legal (Código Civil, art. 1.325, 1). A regra jurídica do art.
1.298 do Código Civil não poderia ser aplicável ao mandato em juízo. Com maioria de razão, à testamentaria.
portanto, em relação à idade, só os que têm a plena capacidade civil podem ser testamenteiros. A capacidade
deve-se apurar ao temipo em que se vai assinar o termo, e não antes. A abertura da sucessão fixa o momento da
capacidade hereditária, mas seria afastar-Se da natureza das coisas exigir-se que em taí momento tenha sido
capaz o futuro testamenteiro. Se o testador nomeou menor e, aberto o testamento, está maior, ou vai habilitar-se
O nomeado, trazendo a juízo o documento da sua recente maioridade legal (exemplo: certidão de casamento, ou
sentença do juiz, titulo de emprego público efetivo), não se lhe pode recusar o exercício de um cargo, que só
então vai começar. Na velha doutrina, FRANCISCO PINHRIRO sustentava a capacidade do relativamente
incapaz, hoje menor de vinte e um e maior de dezesseis anos, para o exercício da testamentaria. Atuava em seu
espírito, como no de outros, em diferente propósito, a falsa concepção de ser mandato ad negotia. a
testamentaria. Mas basta atendermos à gravidade do cargo para concluirmos ser contraditório permanecer
insuplementado na idade o menor a. que se deu autorização para assinar o termo e cumprir as delicadas e
arriscadas missões de testamenteiro. Pode o testador dizer: nomeio testamenteiro meu filho, que, se, quando eu
morrer, não tiver chegado à maioridade, tenho-o como filho a que suplementei a idade. Morrendo quando o
suplemento podia ser feito, suplementado na idade está o filho.

(2)Os interditos: loucos (Código Civil, art. 5~o, II), surdos-mudos, que não puderem exprimir a sua vontade (III),
e pródigos (Código Civil, art. 6.0 II). Ainda sujeita a recurso, a sentença de interdição tem eficácia desde logo
(Código Civil, art. 452). Se, por ocasião da assinatura do termo, já estiver pendente processo de interdição,
consultando as circunstâncias, mandará o juiz que o imediato testamenteiro, ou um dativo, se não houver outro
nomeado pelo testador, assine, a titulo provisório, o termo. Assim será aguardado o julgamento do juízo de
interdições. No caso de ter assinado o termo o interditando, cumpre ao juiz e, a fortiori, ao órgão do Ministirio
Público, fiscalizar, atentamente, os atos testamentários.

(3)Os silvícolas (Código Civil, art. 6.0, III). Enquanto sujeitos ao regime tutelar e, pois, ainda inadaptados à
civilização, seria contraditório confiar-lhes cargos da importância material e moral da testamentaria. Os
silvícolas ficam sujeitos a regime tutelar, que as leis e regulamentos especiais estabelecem (Código Civil, art. 6.0,
‘parágrafo único). Ocorreu que pessoa de fortuna, que ia às terras de uma tribo, convivia com uma silvícola, e a
trazia, de quando em quando, para a sua casa da aldeia e às vezes até a levava à capital. Já aprendeu a ler e
escrever, mas insistia em viver na tribo. O amante deixara testamento em que a fizera herdeira de uma parte da
herança e testamenteira. Quiseram afastá-la da testamentaria. O juiz telefonou-me e respondi que tal afastamento
era absurdo. Ela exerceu a função de testamenteira até O fim, sem qualquer problema para o juízo.

(4)Os ausentes julgados tais por ato do juiz (Código Civil, art. 5~o, IV). Aqui, não só se trata do instituto da
ausência. No art. 1.764 do Código Civil, travam-Se as questões relativas aos ausentes nomeados testamenteiros, à
indelegabilidade e à representação judicial dos testamenteiros.
~,Quando se há de considerar ausente o testamenteiro para se aplicar o art. 1.127? Houve a intimação do
testamenteiro nomeado no testamento a assinar o termo. Se está declarado ausente, não se pode pensar em
intimação. A ausência já consta de sentença. Se ainda não foi declarado ausente, tenta-se a intimação. Não é só
ao ausente de que cogita o art. 463 do Código Civil que se reporta o art. 1.127. O testamenteiro pode mesmo
estar ausente por muito tempo e não poder vir assumir o cargo. Então, o juiz tem de nomear testamenteiro. Se o
testamenteiro nomeado pelo testador reside noutra comarca ou no exterior, o que era sabido do testador, não se
pode deixar de atender à cláusula testamentária, salvo ~e o nomeado declara que não pode exercer o cargo. Tem-
se de atender ao art. 1.764 do Código Civil, que faz intransmissível e indelegável o encargo de testamenteiro,
mas permite representação por procurador com poderes especiais.

Pergunta-se: se o testamenteiro nomeado pelo testador declara que somente pode exercer o cargo depois de
determinado tempo, ~como há de proceder o juiz? Se no testamento não se pensou em substituto ou em dois ou
mais testamenteiros, cabe ao juiz escolher, atendendo ao art. 1.109, entre nomear substituto temporal, ou nomear
definitivamente o testamenteiro, por considerar inconveniente ou inoportuna a e~era do testamenteiro nomeado
pelo testador.
Convém que o juiz, ao nomear testamenteiro, a despeito de poder escolher quem quiser, nomeie algum herdeiro,
ou legatário.
No direito anterior à Lei n. 4.121, de 9 de agosto de 1962, as mulheres casadas não podiam ser testamenteiras se
não autorizadas pelos maridos, ou, se esses recusassem a autorizacão, ou nos demais casos, quando não
obtivessem o suprimento judicial da outorga. Está visto que a mulher desquitada, ou a que tivesse a direção e a
administração do casal (Código Civil, art. 25) podia livremente exercer a testamentaria Surgiu uma questão: se o
testador nomeou testamenteira a mulher de alguém, que figura no testamento com a sua assinatura, ~presume-se
ela outorgada? Sim, mas, revogável , como era, a todo tempo, o assentimento (Código Civil, ~.rt. 244), só podia
tal circunstância constituir elemento de prova para a apreciação do juiz suprimentador. A mulher, a que o marido
revogou o assentimento podia pedir o suprimento judicial da outorga. Esses problemas, hoje, não surgem mais,
porque nada obsta a que se outorguem poderes a mulher, mesmo como Inventariante ou testamenteira.

(5)As pessoas jurídicas. Assim se entendeu, até hoje, no direito brasileiro. Em consequência, não podem aceitar e
exercer por outra ~pessoa o múnus testamentário (Código Civil, art. 1.764). Viu-se na personalidade da função
empecilho a corpos que precisam de órgão para funcionar em juizo (2.a Câmara da Corte de Apelação, 12 de
julho de 1927). Em relação às ordens, irmandades, corporações, há leis explícitas na vedação da testamentaria
(Lei de 9 de setembro de 1769, § 21, Alvará de 20 de maio de 1796, Assentos: 1.0, de 29 de março de 1770, 4~0,
de 5 de dezembro de 1770, 1.0, de 20 de julho de 1780, e 2.0, de 21 de julho de 1797). Sobre essas questões,
veja-se nossos Tratado dos Testamentos, V, 176 s., e Tratado de Direito Privado, LX, § 5.953. Pode haver
fraude à lei se apenas se faz figurar a pessoa física.

Também não podem ser executores testamentários as pessoas de direito público, interno ou externo. Cs monges,
a que as ordens proibem a testamentaria, não são, perante a lei, incapazes (cp. EMIL MEISCEEIEER, Die
letztw:Iligen. Ver$gungen, 469). O testador pode deixar a alguém a função de indicar o testamenteiro. Com isso
não infringe a regra jurídica da indelegalzilidade do ato de fazer o testamento e de exprimir a sua vontade. A
pessoa que tal encargo recebe deve desempenhá-lo dentro do prazo marcado pelo testador, ou pelo juiz. Se o não
fizer, perde o direito de indicar. Resta saber se pode ser pessoa jurídica esse terceiro indicante. A situação não é
a mesma que se observa quanto ao cargo do testamenteiro. Decidiram, por isso, alguns que sim (e. g., F.
HEB.ZFELDER, J. v. Staudingers Kommentar, V, 551, contra BRETTNER, Der Testamentsvollstrecker Archiv
flir Burgerlich.es Recht, 17, 216). Aceita-se que também possa ser um dos herdeiros. Pode o terceiro indicar a si
mesmo (contra, FRANZ LEoNluiw).
É omisso o direito civil, e com ele o processual, sobre a capacidade ou incapacidade dos funcionários da Justiça.
Mas devemos, no assunto, adotar o principio geral da capacidade. Temos visto funcionar, como testamenteiros,
Ministros do Supremo Tribunal, juizes de Tribunal de Justiça e da primeira instância, secretários de tribunal e
escrivães. Em todo o caso, uma exceção naturalmente se impõe: o funcionário do juízo de testamentos, no círculo
da sua jurisdição, não pode ser testamenteiro (M. E. EcDíus, Theorie und Praxis, IV, ~ 255, nota 56; RICHARD
WILKE, Erbrecht, nota 5 ao § 2.197; contra, sem maior exame, ADOLF WEISSLER, Das deutsche
Nachl.assver! ahren., 183). Seria preterir pelo cargo privado, do interesse de um, o cargo público, de natureza
permanente e geral. Mas, se, pelo laço de parentesco, ou outro fundado e notório motivo de impedimento, não
poderia servir, no processo, o funcionário público, juiz, escrivão, escrevente, etc., cessa, na es~çécie, o obstáculo
funcional.
~Pode ser testamenteiro a pessoa que, a rogo, escreveu o testamento, o seu cônjuge, ou alguns dos ascendentes,
descendentes, ou irmãos? Velha dúvida, criada pela proibição de serem tais pessoas nomeadas herdeiros ou
legatários (Código
Civil, art. 1.719, 1). Função de extrema confiança, não descobrimos imoralidade intrínseca em ser essa mesma
pessoa aquela em que o testador confie para lhe escrever um testamento. Certamente, de lege Jerenda,
discordaríamos das facilidades do testamento cerrado no Código Civil (arts. 1.638--1.644), porém isso é outro
assunto. Simplificou-se com as considerações feitas em torno do art. 1.719, relativo a herdeiros e legatários, a
questão de se saber se vale a nomeação, em testamento, de uma ou mais das testemunhas, para testamenteiro. Já
vimos a heterogeneidade histórica da capacidade para ser executor testamentário e a de adquirir por testamento.
Restaria o aspecto moral, mas não ofendeu a raciocinadores mais éticos do que científicos, como DIAs
FERREmA, J. A. FERREIRA ALvEs, CARvALHO MouRÃo (R. de D., 52, 477) e ITABAIANA DE OLIvEUU
(Elementos, 452). Aqui, porque nula seria a liberalidade (Código Civil, art. 1.719, II), cumpre proceder às
distinções que a respeito do escritor do testamento foram feitas. Nulidade das mandas liberais, validade da
nomeação de testamenteiro e elemento estritamente remuneratório, atendidos, em globo, e tornados entre si
coerentes, os arts. 1.763, 1.766, 1.767, 1.719, 1.720 do Código Civil.

No art. 1.719, III, do Código Civil, proibe-se que receba legado ou herança a concubina do testador casado. No
artigo 1.720 declaram-se nulas as disposições que acaso forem feitas. ~Importa isso nulidade da nomeação de
testamenteiro e de possíveis remunerações respectivas? Na vigência da sociedade conjugal, constituiria
imoralidade executar um testamento a amante do testador, em frente ao cabeça do casal, talvez meeiro em todos
os bens. Se colisões de interesses permitem soluções demissionárias, com maioria de razão colisões de Interesses
morais. Não se trata de trazer ao terreno da capacidade para ser testamenteiro, por analogia ou revelação de
conteúdo, o art. 1.719, III, do Código Civil, e sim da livre revelação de norma jurídica, de conteúdo moral, de
que o art. 1.719, III, apenas constitui caso menor, especial, que o trato das circunstâncias mais visíveis da vida
pós ante os olhos de legislador, tão desatento que ainda se esquece, no redigir os artigos, do adultério das
mulheres. Se desquitados os cônjuges, nenhum óbice há em que faça testamenteiro a pessoa com que viva.
Não podem ser herdeiros nem legatários e, se forem, serão nulas as disposições, o oficial público, civil e militar,
nem o comandante, ou escrivão, perante quem se fizer, assim como o que fizer, ou aprovar o testamento (Código
Civil, artigo 1.719, IV). Fundada em DIOGO GUERREIRO (De Inventario, c. 6, ns. 12, 13), a doutrina anterior
concedia que fossem testamenteiros (F. DE P. LACERDA DE ALMEIDA, Sucessões, 471;
J. A. FERREIRA ALvEs, Consolidação, § 157). O Código não no proibe.
Pela falência fica o falido privado da administração e disposição dos bens que hão de responder pelas obrigações
assumidas para com os credores, e não pode, desde o dia da sentença decretativa, praticar atos que digam, direta
ou indiretamente, com os bens, direitos, interesses e obrigações que a falência abrange. For isso, mantém plena
administração e disposição de bens que naqueles não se incluam c assume as obrigações estranhas ao patrimônio
sujeito à falência. Não é um incapaz. Mas, aqui, surge, questão: ~se culposa ou fraudulenta a falência? Aqui, só
dois elementos podem resolver (como, aliás, em todas as pronúncias em crime contra propriedade e abusos de
confiança), as circunstâncias que pesaram para a nomeação pelo testador, que podem ter mudado, e a idoneidade
não atingida por essas pronúncias. Assunto, esse, delicadíssimo. Quanto aos condenados, por certo, esses devem
ser excluídos. Em relação às nomeações pelo juiz, deve ele evitar que sejam testamenteiros herdeiros de maus
antecedentes (escolha relativa), ou estranhos sobre que pairem dúvidas (nomeação de arbítrio judicial, porém,
como sempre, não de arbitrio puro).

5)Não -IMPUGNABILIDADE. O art. 1.000 é inaplicável. Contra a nomeação há o recurso de agravo de


instrumento.

6) ARQUIVAMENTO. Antes, nota 5) ao art. 1.126. O arquivamento é, hoje, antes de se assinar o termo de
testamentaria.

7)CÓPIA DO TE5TAMEN~O E OUTRAS PROVIDENCIAS. As cópias autênticas (aliás cópias notariais) são
os documentos suficientes para serem atendidos no inventário e partilha, ou no processo da arrecadação de
herança. Também servem às diferentes ações a respeito do testamento, ou fundadas nele. 8omente quando se
discuta a falsidade podem os originais sair do arquivo, a fim de se realizarem diligências periciais; ou se tiver de
servir de prova na responsabilização de arquivista, pela infidelidade das cópias. Em todo caso, se não é
Imprescindível saírem, deve o juiz impedi-lo.

Nomeado pelo testador ou pelo juiz, ou oficial o testamenteiro, assina, no prazo de cinco dias, o termo de
aceitação do encargo, sendo de costume forense a promessa de bom desempenho das funções.
O escrivão expede a certidão, por inteiro, do testamento e dos despachos do juiz, principalmente da decisão do
cumpra-se, bem como do termo de aceitação do testamenteiro.
Art. 1 . 128. Quando o testamento for público 2), qualquer interessado, exibindo-lhe o traslado ou certidão,
poderá requerer ao juiz que ordene o ~eu cumprimento’).

Parágrafo unico. O juiz mandará4) processio conforme o disposto nos arts. 1 .125 ~ 1.126~).

1)TESTAMENTO PUBLICO, APRESENTAÇÃO . O testamento público apresenta-se. Não se abre, nem se


publica. Se o traslado vem dentro de invólucro, a abertura constitui ato material sem importância. B. CARPZOV,
W. A. LAUTERBACE, J. BRTJNNEMANN e SAMUEL STRYK afirmavam não se usar publicação de
testamento público ou cerrado. Dela somente precisavam os particulares. G. L. BOEIIMER dizia: solenis
apertura fit in testamentis mere privatis, auct orit ate iudiczs, ut luze ipsa publicam lidem accipiant.

2)NATUREZA DO TESTAMENTO PÚBLICO. O testamento público vem-nos, provavelmente, da prática de


se procurar o tabelião para os negócios mais graves. Nada tem com o testamentum publicum romano: é o que os
nossos maiores chamavam testamento aberto a tabeflione scriptum, que nada tem de origem romana quanto à
forma (sobre isso, contra HENRIQUE LA GAMA BARRos, Hist6ria da Administração Publica, III, 280, nota 1)
nosso Tratado dos Testamentos, II, 25 5.). Os pressupostos necessários dos testamentos públicos são de direito
material; de modo que remetemos à nossa obra especial (II, 25-116), ou ao Tratado de Direito Privado, (LIX,
§5.864). Note-se, contudo, o seguinte: (a) O testamento que está nas notas tem força probatória de forma. Ainda
que o testador ou outra pessoa rasgue o exemplar que o oficial entregou ao testador, ou a outrem, o que está
escrito existe, e só se revoga por outro testamento (público, cerrado, particular, ou especial). (b) Quanto aos fatos
de que o oficial teve notícia propriis sensibus, visus et auditus, e constam do escrito, têm força Probatória de
conteúdo. Não, por exemplo, quanto à capacidade do testador, que poderia parecer ser capaz e não no ser. (c) Se
alguém tem traslado ou certidão o testamento e incêndio destruiu os livros do tabelião, não Importa: a certidão
basta.

3)PROCEDIMENTO. O procedimento é o mesmo que se estabelece para o testamento cerrado (arts. 1.125 e
1.126).Portanto, recebendo-o, o juiz verifica se está intacto, se dele constam a data e o lugar em que foi feito, a
competência do tabelião. Tem de ser lido, rubricado pelo juiz e lavrado o auto de apresentação, no qual o
apresentante tem de mencionar a data, o seu nome e como houve o traslado ou a certidão, o lugar do falecimento
do testador e qualquer outra circunstância que mereça ser exposta (e. g., os herdeiros foram buscá-lo, mas o
testador lhes deixara uma carta em que disse onde se achava o traslado ou a certidão). Conclusos os autos, o juiz
ouvido o órgão do Ministério Público, registra e arquiva o traslado ou a certidão. após isso, vem o cumprimento.

4)As DUAS FASES PROCESSUAIS Dos TESTAMENTOS. Já. deixamos clara a distinção entre (a) a fase que
vai da apresentação ao cumpra-se, Integrativa da forma do testamento como negócio jurídico a causa de morte, e
(b) a fase de execução do testamento, atributiva de bens da vida àqueles a favor de quem foram criadas as
pretensões. Os testamentos, como todos os negócios juridicos que fazem nascer pretensões a bens, suscitam, se o
que tem o dever de cumprir não o cumpre (cumprimento voluntário pelos que têm o dever de fazê-lo), casos
assaz diferentes de cumprimento forçado.

Árt. 1.129. O juiz3), de ofício ou a requerimento de qualquer interessado4), ordenará 7) 8) ao detentor de


testamento6) que o exiba em juízo para os fins legais2), se ele, após a morte do testador, não se tiver antecipado
em fazê-lo’).

Parágrafo único. Não sendo cumprida ~ ordem, proceder-se-á à busca e apreensão do testamento 9), de
conformidade com o disposto nos arts. 839 a 843~).

1)DEVER DE APRESENTAR TESTAMENTO. Não há, na lei processual, nem no Código Civil, regra jurídica
sobre a competência judicial para apresentação e cumpra-se dos testamentos. Não se diga que ficou às leis de
organização judiciária. A lei de organização judiciária apenas tem oportunidade para dizer qual o juiz que, dentro
da unidade política, ou da comarca, pode mandar cumprir. Devia o Código ter redigido a norma processual de
competência para todo o Brasil. Existe, porém, a regra a priori, de que falamos em nota ao artigo 1.125: (a) lugar
do falecimento; (b) lugar da successio praematura; (c) lugar onde se acha, por vontade do testador, o testamento.
A diferença, para a determinação da competência, foi explicada em nosso Tratado dos Testamentos (IV, 341).
No juízo do inventário e partilha cogita-se de universalidade, que é a herança, e nele são discutidos interesses
dos herdeiros, legatários, beneficiados, credores, cessionários, etc., até que se faça cessar a indivisão; precisa-se
de ponto certo, que ao mesmo tempo tenha probabilidade de ser o centro de negócios e bens do decujo; não
poderia ser, precípuamente, o do óbito casual, nem aquele onde mora alguém a quem o testador confiou o
testamento ou onde o testador ou esse alguém o guardou. Daí a concepção de regras jurídicas como as do art. 96
e parágrafo único. Lei que invertesse a ordem dos dados que fixam a competência seria contra os princípios. Não
se dá o mesmo a respeito do juízo dos testamentos. Se a regra é que as pessoas morrem no foro do domicílio, há
exceções. Se a regra também é que o testamento se encontre
nesse foro, exceções também sofre. Porque o testamento, antes do cumpra-se, interessa mais ao morto que aos
outros, e talvez dele conste qual o domicílio do testador, e porque há disposições de última vontade para o tempo
imediato à morte e antes da abertura do inventário, é o lugar da morte (ou da sucessão provisória), ou o lugar em
que está o testamento, que determina a competência. Estando o testamento fora do domicilio do testador, as
competências deixam de ser coincidentes. Se o testador leva consigo, ou faz alhures o seu testamento, de algum
modo transfere, para onde vai, aquela presumida escolha do juiz integrador da forma do testamento. Se testa e
entrega o testamento a pessoa de outro lugar, está-se a ver que escolheu o lugar para o cumpra-se. Assim, é
acidental, a despeito da freqüência , coincidirem as duas competências. Nem vão os testamentos para o foro, ou
para o juízo do Inventário. Vão, apenas, cópias. Nunca os originais. Não havendo instruções expressas do
testador, ou circunstâncias que o indiquem, o apresentante leva o testamento a qualquer deles. A confiança do
testador confere-lhe esta faculdade. Mas, uma vez apresentado, previne-se a competência: podendo haver três
juizes competentes, o que primeiro conhece não pode declinar a causa. Qualquer ato dos outros deve ser enviado
a esse, em favor de quem se operou a jurisdição preventa.

Duas questões interpõem-se: (1) Se o apresentante houve o testamento por meio Inábil, ~pode apresentá-lo,
indiferentemente? Não. Se não há pessoa a quem o testador houvesse confiado, somente duas competências
podem concorrer: a do domicilio do testador, se é perto, e a do lugar em que faleceu. (2) ~Pode o testador
designar onde se deve apresentar o testamento? Trata-se de escolha. Nos contratos, podem 05 contraentes
especificar domicilio, ou lugar onde se exercitem e cumpram obrigações resultantes dos contratos; não o foro.
Mas, se aquela competência de que falamos, para os testamentos fora de domicílio, se funda em presunção,
maiores razões temos para aceitar que o próprio testador, por vontade, não presumida, mas expressa, ou até
expressa em circunstâncias, diga aonde se deve levar, para que se cumpra, o testamento. A cópia vai ao juizo do
inventário e partilha. De um Estado para outro, de um Município para outro Município, o juiz dos testamentos
não transmite, nem partilha, com outro juiz dos testamentos, as funções que tem. Exercendo as funções de
inventariar, o do inventário vigia a execução. No Código de 1939, arts. 540 e 544, como no de hoje, arts. 1.129 e
1.135, já o juiz dos testamentos não mantÉm, como era no direito anterior, a sua autoridade, Quanto à prestação
das contas do que se recebeu e despendeu. Relativamente à vontade do testador, à validade do próprio testamento
e de cada uma das disposições, ao desempenho pelo testamenteiro, nomeação, remoção, direito à vintena,
percentagem, perda e exata execução das verbas, a competência depende da lei de organização judiciária.
Se ocorre apresentação de testamento a juiz sem competência, nunca essa se prorrogará: trata-se de juízo ratione
materiae. Se aquele a quem for apresentado tem competência, porém não se trata daqueles casos de prevenção, a
que acima nos referimos, vai ao competente o original do testamento. Se o abriu o juiz sem competência, trata-se
o caso como resulta do art. 113, § 2.0. Vindo de outro juízo dos testamentos, mas incompetente, a ordem pública
não sofre, chegam os autos e, ouvidos os fiscais e interessados, podem
ser ratificados os atos (nosso Tratado dos Testamentos, IV, 342).
(Quando, acima, raciocinamos com a regra jurídica do Código Civil, art. 42, sobre lugar da execução do contrato,
conceito de direito material, de modo nenhum o confundimos com o forum contractus, com que o Código Civil,
nada tem e, sendo, como é, conceito de direito processual, absolutamente
não resulta de haver a regra do art. 42 do Código Civil. Se invocamos esse texto é porque se trata de integração
da forma do testamento , e não de litígio. Se há, preponderantemente, litígio, a competência rege-se por outros
princípios, conforme se disse em nota 1) ao art. 1.127. Adiante, nota 3). Código Civil nada tem com o foro. Se
tivesse invadido o terreno do direito processual, estaria agora derrogado. Se o devedor fixou o lugar do
pagamento, aí tem de executar; se não executa, a demanda contra ele obedece ao Código de Processo Civil, e não
ao Código Civil.)

2)FONTES DO DEVER DE APRESENTRAÇÃO. O dever de apresentação ou se origina da lei civil, ou das leis
de direito público, eventualmente penais. Adiante, nota 5). Deriva do fato de esta em poder da pessoa o
testamento. Ainda que o guardador do testamento seja, por sua vontade, ou não, eliminado a sucessão, o dever de
apresentação persiste (e. g., testamenteiro que desde logo não aceitar a testamentaria).

3)COMPETÊNCIA EM MATERIA DE TESTAMENTOS. Ainda a respeito de competência, tem-se de


distinguir da competência para a apresentação e o cumpra-se a competência para as ações de nulidade de
testamento~e. petição de herança ou de legado. Já vimos, à. nota 1), que’podem’. Não coincidir a competência
para a apresentação e a competência para o inventário e partilha. Quanto à prestação de contas do que o
testamenteiro recebeu do juízo do inventário, o Código atribui a competência a esse juízo, o que as leis de
organização judiciária não podem alterar (art. 1.135, verbis “no juízo do inventário”). Há, porém, outros casos
em que é réu o testamenteiro, ou em que é autor, a respeito de disposições testamentárias. O Código fio atribuiu
ao juízo do inventário tal competência. Cada espécie tem de ser aforada segundo os princípios que as leis
de organização judiciária firmarem. Temos, pois, a respeito de testamentos, três competências, pelo menos, que
podem estar juntas e podem não estar: a) para apresentação e cumpra-se do testamento; b) para o inventário e
partilha dos bens testados e as prestações de contas do art. 1.135; c) para as ações testamentárias em que seja réu
ou autor o testamenteiro, ou em que tenha de ser interveniente ou assistente.

4)LEGITIMAÇÃO À APRESENTAÇÃO. O que encontrou, ou tem em seu poder o testamento, é legitimado à


apresentação. Dever de ordem civil, ou de direito público, a Que corresponde legitimação. Se dever somente de
direito público, a sua legitimação para a ação constitutiva integrativa, que é a de cumpra-se ao testamento, é
dependente da aparição de algum legitimado, que lhe suceda, afastando-o, e da sua própria vontade. O achador
do testamento é obrigado a apresentá-lo, não a levar a cabo o processo de cumprimento. Têm-se, pois, de separar
o dever de apresentar, que se pode exaurir, e o dever de promover e incoar o processo de cumprimento do
testamento. O legitimado de primeira plana, para a ação de cumpra~se, é o testamenteiro. A sua aparição, corre-
lhe a maior responsabilidade, como, se está com ele, ou se ele sabe da existência do testamento, o maior dever de
apresentação e suscitamento do processo, prosseguimento e outros atos necessários à execução do testamento.
Nos casos do art. 1.129, em que o detentor não apresentou
o testamento, nem sempre se tem, apenas, provocação da apresentação, há, às vezes, provocatio ad agendum.
Adiante, explicitamente, nota 8).

5)CoMINAÇõEs DA LEI E DEVER DE APRESENTAÇÃO. O


art. 1.129 não mais fala de cominações da lei, o que estava no Código de 1939, art. 541. Mas tal regra jurídica é
implícita. Há cominações da lei. Isto é: da lei civil (e. g., Código Civil,
art. 1.595, 1.a parte, verbis “São excluidos da sucessão os herdeiros, ou legatários: III. Que... lhe obstaram a
execução dos atos de última vontade”; mas a indignidade não opera ~pao lure e exige ação ordinária, art. 1.596,
cp. arts. 1.579, 1.763, não devendo o faltoso ser nomeado testamenteiro pelo juiz, 1.768, cp. Código de Processo
Civil, art. 1.140), da lei

6) DETENTOR DE TESTAMENTO. “Detentor” está, no art. 1.129, por pessoa que tem consigo, por vontade do
testador, ou não, o testamento. Quem tem em seu poder (e. g., em suas mâ)s, em cofre, gaveta, arca, ou deixado
por alguém sobre a mesa) algum testamento de pessoa que morreu, tem o dever de apresentá-lo ao juiz. Se
alguma indicação existe, por fora, do juiz a quem há de entregar, cabe-lhe obedecer a essas Instruções. Se não há,
nem sabe onde faleceu o testador, pode entregá-lo onde era domiciliado; ou, se também o Ignora, ou é distante,
ao juiz do lugar em que se acha o testamento, competente para o cumpra-se de testamentos.

7)INTIMAÇÃO JUDICIAL PARA APRESENTAR O TESTAMENTO.


Basta que tenha noticia da morte de alguém, dentro da sua jurisdição, ou cuja sucessão caiba na sua competência,
ou cujo testamento esteja em sua jurisdição, para que possa o Juiz, de ofício, mandar que se Intime quem devia
apresentar e não apresentou. O pressuposto de estar de má-fé o intimando de mo4o nenhum exclui a competência
do juiz.

8)NATUREZA DA INTIMAÇÃO DO DETENTOR. A intimação do art. 1.129 é cominatória, dependendo de


cada espécie o conteúdo da cominação. A provocatio é a a,presentar, não a propor a ação de cumprimento do
testamento. Pode, todavia, ocorrer que implicita ou explicitamente se contenha a intimação a propor, provocatio
ad agendum, o que ocorre, por
exemplo, sempre que o detentor é o testamenteiro. Nada obsta a que o interessado conceba a ação cominatória
como ação condenatória , quer o dever de apresentar seja de ordem civil, quer seja de direito público.

9)EXIBIÇÃO E BUSCA E APREENSÃO. O detentor, qualquer que tenha sido a causa da posse ou da tença,
tem o dever de apresentação. Nasce tal dever no momento após a morte, porque pode dar-se que o testamento
diga o que se há de fazer para os seus funerais ou quais as medidas relativas a filhos, cônjuge, herdeiros ou outras
pessoas, ou quais as medidas relativas a bens (e. g., “no dia da minha morte quero que a minha casa seja, desde
logo, ocupada por B”, “no dia da minha morte, quero que providencie para que meu corpo seja transportado para
tal cidade”).
Não sendo cumprida a ordem de apresentação, há a busca e apreensão do testamento, conforme as regras
jurídicas dos arts. 839 e 843.
A intimação do detentor para apresentar o testamento pode partir do juiz da comarca a que se teria de levar o
testamento, a requerimento de algum interessado, ou do Ministério Público, ou de ofício, ou em que teria de ser
movida a ação de inventário, ou em que já. o foi. Se o detentor se acha em lugar estranho à competência para o
cumpra-se do testamento, ou para abertura de inventário, pode o juiz da comarca em que teria de ser apresentado
o testamento, ou iniciado o inventário, remeter carta precatória, ou mesmo rogatória, para que o detentor seja
intimado (arts. 202-212).

Há as sanções piara o caso de não cumprimento (deixa de entregar ou com culpa deixa deteriorar-se ou
desaparecer, de ordem civil, que são assunto do Código Civil, arts. 1.595, III e 1.596, de ordem processual
(custas e despesas) e de ordem penal (e. g., Código Penal, art. 330). A referência a serem as sanções processuais
“sem prejuízo das sanções de ordem penal e civil estabelecidas pela omissão” estava na redação do Código de
Processo Civil de 1973, art. 1.129, parágrafo único; mas a Lei n. 5.925, de 1.0 de outubro de 1973, retirou-a. Tal
exclusão é sem relevância, porque é de sanções de direito material que se trata.

SEÇÃO II

Da confirmação do testamento particular’)

1)HOLOGRAFIA E TESTAMENTO. A generalização do testamento hológrafo, que fora para casos


particulares, assim no direito romano como no Breviarium Alaricianum, operou-se dentro do próprio direito
português, e o testamento de Santa Perpétua, em 511, já era hológrafo (Tratado dos Testamentos, II, 181). Sobre
os pressupostos de tal testamento, tem de ser consultado o direito material.

Art. 1 .130. O herdeiro, o legatário ou o testamenteiro4) poderá requerer, depois da morte do testador, a
publicação em juízo do testamento particular’), inquirindo-se as testemunhas 5) que lhe ouviram a leitura e)
depois disso, o assinaram.

Parágrafo único. A petição será instruída com a cédula do testamento particular2).

Árt. 1 .131. Serão intimados 6) 7) para a inquirição3):


1 aqueles a quem caberia a sucessão legitima;
11 o testamenteiro, os herdeiros e os legatários que não tiverem requerido a publicação;
lii o Ministério Público.

Parágrafo único. As pessoas, que não forem encontradas8) na comarca, serão intimadas por edital.

1)APRESENTAÇÃO DO TESTAMENTO PARTICULAR. Abertura de testamento é formalidade relativa ao


testamento cerrado. Apresentação é ato concernente a quaisquer. Todos os testamentos, igualmente, dependem
do cumpra-se. Em todo caso, nos tratadistas do uso moderno, nas leis luso-
-brasileira e nos praxistas, fala-se em abertura como solenidade comum a todos os testamentos, extensão
perfeitamente compreensível mas imprópria, porque só se abre o que está fechado. Se o público, ou o particular,
vem em carta fechada ou capeado, com lacre, amarras, ou costura, abri-lo é ato materiaL, mais do que de
jurisdição. Tanto assim que poderiam os apresentantes tê-lo aberto antes de apresentar. Para a abertura do
testamento não é mister citação daqueles a quem interessa, eorum quorum interest. A citação é solenidade que se
requer para publicar, e não para abrir. O testamento cerrado, que, supõe, necessariamente, tê-lo fechado e cosido
o tabelião, quando o aprovou, e o testamento público, que foi escrito pelo oficial em seu livro de notas, n~.o
precisam de publica ção. Já os tratadistas do uso moderno (C. ThoMAsius, J. SCRILIER, J. BRUNNEMAWN)
insistiam em distinguir abertura e publicação; e, compendiando-os, SAMUEL STRYK escreveu (29, 3, ~ 2.0):
“si testamentum in scripts privata auctoritate condi.tum est eo casu publicationem legem requirunt, quae fit citatis
illis, quorum interest, vocatísque testibus ad recognitionem subscriptiones, et sigillorurfl”. Assim o Código Civil,
que somente fala de publicar-se o testamento, e de citarem-se as testemunhas, se particular.

2)RELAÇÃO INFELIz, NO DIREITO ANTERIOR. O art. 530 do Código de 1939 dizia a respeito do
testamento hológrafo ou particular: ..... será aberto e publicado depois da morte do testador que o escreveu e
assinou”. Testamento particular não se abre. Dai termos escrito: “O art. 530 recorre a circunlóquiO para se referir
ao testamento particular, como se esse testamento fosse ligado ao requisito da aprovação, de que se desligasse.
Nem é verdade histórica, nem cientifica. Eni todo o caso, se a lei pudesse começar o Capitulo a tratar do
“testamento teratológico”, estudado por nós (Tratado dos Testamentos, II, 169), compreender-se-ia a alusão à
superposição do ato ineficaz”. Falava-se, também, de faltar o instrumento de aprovação.
Como persistem as formas mortas! Ainda em Código do ano de 1939 reminiscência da Ordenação Afonsina do
Livro IV, Título 103, § 2, verbis “sem teendo estormento publico nas costas” (os autores da Ordenação
ignoravam a história dos dois testamentos).
O Código de 1973, art. 1.130, diz que “o herdeiro, o legatário ou o testamenteiro poderá requerer, depois da
morte do testador, a publicação em juízo do testamento particular, inquirindo-se as testemunhas que lhe ouviram
a leitura e, depois disso, o assinaram”. Atendeu às nossas críticas ao Código de 1939.

3)APRESENTAÇÃO E INTIMAÇÕES. O Código Civil, artigo 1.646, abrangendo a matéria dos arts. 1.130 e
1.131, apenas disse: “Morto o testador, publicar-se-á em juízo o testamento, com citação dos herdeiros
legítimos”. O processo dos artigos 1.130-1.133 é o de publicação do testamento, integrativo da forma do
negócio jurídico, não necessariamente contenção.

4)LEGiTIMADOS AO REQUERIMENTO. A regra jurídica é exemplificativa. O apresentante há de ser quem


“tem de apresentar” o testamento. Se coincide ser o herdeiro instituido,o legatário, ou o testamenteiro, claro que é
do seu interesse que se processe a publicação, obtendo-se o cumpra-se. Se não foi qualquer deles o apresentante,
nem por isso fica privado de promovê-la. O “interessado”, melhor se dirá, porque a qualidade de herdeiro, a de
legatário e a de testamenteiro não exaurem as categorias de interessados na execução do testamento (e. g., o
beneficiado pelo moclus, a Fazenda Pública). O próprio cônjuge sobrevivente e o herdeiro legítimo são
interessados. Abririam inventário e partilhariam inutilmente, se não observassem o testamento.
Por vezes acontece que o testador não quis fazer testamento público, nem testamento cerrado, e faz o testamento
particular. Mas alguma razão teve para entregá-lo a pessoa de sua confiança, ou mesmo para evitar, com a ajuda
de outrem, Que algum parente ou c~njuge não lhe rasgue o testamento particular, destruindo assim todas as suas
declarações de vontade.

5)INQUIRIÇÃO ~E TESTEMUNHAS. Essa inquirição das testemunhas é uma das velharias, que o Código
Civil reintroduzira , m/atando, por bem dizer, a forma privada dos testamentos. Confusão com as formas
extraordinárias ou especiais e o testamento a rogo. Tecnicamente, o Código Civil ficou inferior às Ordenações
Afonsinas, Livro IV, Título 103, § 2 (Tratado dos Testamentos, II, 216-218). Como ele, os Códigos de 1939 e o
de 1973.

6)INTIMAÇÕES. Outro circunquilo do Código de 1933. Cf. Código Civil, art. 1.646, verbis “citação dos
herdeiros legítimos”. Citação é que seria certo; a expressão “notificação”, que estava no Código de 1939, art.
531, obrigava à aplicação do art. 167 quanto à forma, em vez dos arts. 161 e demais, concernentes à citação. Nas
Ordenações Afonsinas (Livro IV, Título 103, § 2) mandava-se que fossem “chamadas as partes, a quem pertencer
(a herança), segundo forma de direito”.As Ordenações Manuelinas (Livro IV, Título 76, § 3) e Filipinas (Livro
IV, Título 80, § 3), copiaram-no. PASCOAL JOSE DE MELO FREIRE explicou (In-stitution.es, III, 40): “citatis
iis, quorum interest hereditatem ab intestato deferri”.
C Código de 1973, art. 1.131, apenas se refere às intimações para a inquirição, isto é, para assi.stirem à
inquirição das testemunhas (art. 1.130). Pôs-se de lado, por enquanto, o cumprimento do testamento e a abertura
do inventário.
Se está em dúvida a revogação de anterior testamento, devem ser intimados os interessados do outro, se fora
apresentado no mesmo ou noutro juízo. Como cautela. E é indispensável intimar-se o cônjuge do testador, se se
suspeita haver póstumo, ou nascituro.
São intimadas para assistirem à inquirição: aqueles a quem caberia a sucessão legitima; o testamenteiro, os
herdeiros e os legatários que não tiverem requerido a publicação; o Ministério Público.

7)TEOR DAS INQUIRIÇÕES . C.p. Código Civil, art. 1.647, que se interpreta do seguinte modo, com mais
forte razão depois do Código de Processo Civil, do atual e do anterior, que distingue da função integradora da
forma, que tem o juiz, a sentença sobre a disputa eventual.

A solenidade da publicação, com intimação dos herdeiros legítimos, bem como dos herdeiros e legatários,
constitui formalidade essencial para se cumprirem os testamentos particulares. O que o art. 1.647 do Código
Civil quer (e o que os princípios superiores de direito permitem vejamos nele) é bastar ao processo de redução a
público serem as testemunhas contestes, pelo menos sobre a leitura perante elas, e serem por elas reconhecidas as
assinaturas próprias e do testador. A lei processual não diz que “só se confirmará”, mas que “o confirmará”.
Quanto ao testamenteiro, aos herdeiros e legatários “que não tiverem requerido a publicação”, deles se tem
conhecimento através do próprio testamento. Se A foi nomeado testamenteiro pelo testador, se B está no
testamento como um dos herdeiros, ou o herdeiro, ou um dos legatários, ou o único legatário, compreende-se a
necessidade de serem intimados, para que se manifestem.

8)PESSOAS NÃO -ENCONTRADAS. Se alguma das pessoas que tenham de ser intimadas (art. 1.131) nêo
forem encontradas, têm de o ser por edital. Por aí se vê que a presença delas tem a relevância para se apurar a
verdade do testamento. Aliás, ele pode ser autêntico, mas alguma das pessoas intimadas ou pessoa estranha sabe
que existe testamento posterior. O testamento posterior pode ser público ou cerrado, ou outro testamento
particular.

Art. 1 . 132. Inquiridas as testemunhas4), poderão os interessados, no prazo comum de cinco (5) dias,
manifestar-se 1) 3) ~sobre o testamento2) 1O)~15)

Art. 1 .133. Se pelo menos três (3) testemunhas contestes reconhecerem 5) 9) que ~ autêntico o testamento, o
juiz, ouvido o orgão do Ministério Público, o confirmar é, observando-se quanto ao mais o disposto nos arts. 1 .
126 e 1.127.

1)MANIFESTAÇÃO DOS INTERESSADOS APóS AS FORMALIDADES.

Sobre o testamento, após a inquirição das testemunhas, que são cinco (Código Civil, art. 1.645, II), podem
manifestar-~e os interessados. Têm eles o prazo de cinco dias, sendo de relevância- o seu comparecimento. Não
são interessados apenas o herdeiro, o legatário e o testamenteiro, legitimados a requerer a publicação em juízo do
testamento particular. Na Seção II fala-se de “confirmação do testamento particular”; não há impropriedade da
expressão, porque testemunho afirmativo é testemunho que confirma. O que não há é a fé do tabelião, que é
essencial ao testamento público, em que ele colabora; nem a aprovação pelo tabelião (Código Civil, art. 1.638, V,
VI e VII), indispensável a constituição formal do testamento cerrado. Da confirmação pelas testemunhas e pelo
próprio testador (art. 1.638, V) é que resulta a atuação do tabelião. No testamento particular as testemunhas,
ouvidas depois da morte do testador, confirmam ou não confirmam o que do testamento consta e serem
verdadeiras as suas assinaturas e a do testador (Código Civil, arts. 1.645-1.649).
O Código de 1939, art. 532, era minudente ao referir-se às “disposições de última vontade”, a que foi lido o
testamento “em sua presença” e a que o “testador, quando testou, se achava em perfeito juízo”. Tudo isso não era
necessário que constasse de regra jurídica do Código de 1973, porque se trata de inquirição das testemunhas em
processo de jurisdição voluntária, no qual tem o juiz, além das outras atribuições em geral, no tocante ao objeto
da causa, os poderes do art. 1.109, 2.~ parte. O juiz inquire sobre tudo que lhe pareça necessário ou útil para a
confirmação. Por exemplo:se foi lido pelo testador às testemunhas o testamento (Código Civil, art. 1.645, III), se,
ao lê-lo, alguém estava junto que o obrigava a isso. Mais: o juiz pode verificar se houve rasura ou acréscimo, o
que lhe permite determinar perícia quanto às letras e aos cancelamentos. Se as testemunhas confirmam que era
assim o testamento lido, há a confirmação judicial. Mas isso não obsta à propositura de ações de nulidade,
mesmo.

2)IMPUGNABILíDADE. Os arts. 1.647 e 1.648 do Código Civil somente cogitaram do reconhecimento das
assinaturas pelas testemunhas e do depoimento, pelo menos, sobre a leitura; e outra questão, bem velha, continua.
Se as testemunhas reconhecem as assinaturas e depõem segundo o Código Civil, art. 1.647, porém os herdeiros
citados afirmam que a letra e a assinatura não são do testador, ou só a letra, ou só a assinatura, não no é, <que
deve fazer o juiz: reputar assunto estranho à sua verificação, que é de ordem superficial (cognição incompleta),
ou, desde logo, admitir a prova? FURGOLE (Traíté des Testaments, Capitulo II, Seção VI) distinguia segundo os
costumes, pois esses reputavam, aqui ou ali, solene, ou não solene, o testamento hológrafo: onde eram solenes,
como em Paris, eles valiam, como se fossem públicos, e não precisavam de tal reconhecimento de letra
(em 6 de junho de 1744, por exemplo, remeteu-se a interessada às vias de direito). E FURGOLE errava: o
costume de Paris não autorizava isso (BouluoN, Droiit Commun, II, 203).
Todavia, não ficava excluída a possibilidade da questão onde, por lei, tal testamento não fosse solene. R.
POTRIER cortava cerce o problema (Traité des donations testamentaires, Capitulo 1, art. 2.0, § 3.0): “11 faut
que le testament olographe soit reconnu par les héritiers pour être écrit et signé de la main du testateur, ou que,
sur leur refus de le reconnaiVre, l’écriture soít reconnue par des experts”. No nosso direito de hoje, a solução
deve ser essa, a de impugnabilidade, desde logo, do testamento, mas, no direito das Ordenações Filipinas (Livro
IV, Titulo 80, § 3), que copiou as outras Ordenações, mais acertado fora decidir com FURGOLE, porquanto, em
todas elas, iguais entre si, estava escrito “seja havido em lugar de tabelião”, posto que no fim se exigisse a
publicação. (Tudo isso mostra, mais uma vez, as camadas heterogêneas do direito português, que, se em muitos
pontos conseguiu a síntese, em quase todo seu corpo deixou indeléveis os azulejos das fusões étnicas e culturais.)
De qualquer modo, ao que alega incumbe a prova. Pode alegá-lo o órgão do Ministério Público, ou o Procurador
da Fazenda, quando essa é herdeira legítima.
(a)Se ninguém alegou, no prazo Que a lei processual fixou, só a ação de nulidade pode ser proposta.
(b)Se ninguém impugnou, mas parece ao juiz que se não trata de testamento escrito e assinado pelo testador, quid
iuris? J) Devemos admitir que o juiz, na sentença com que o há de mandar cumprir, possa converter em
diligência o julgamento para os exames que se façam precisos? A praxe dos juizes brasileiros é ordenar-se, em
qualquer tempo, nos processos de testamento ou de inventário, que se reconheçam, quaisquer escritos que foram
juntos. Mas a conversão em diligência poderia, eventualmente, ser perigosa: não reconhecido o escrito, ou teria
sido inútil a providência, ou levaria o juiz a negar, somente por isso, o cumpra-se, e sem o rito processual devido.
Melhor há de ser que se ordenem tais providências na fase das impugnações e das provas.
Está entendido, em todo o caso, que o não-reconhecimento não retira ao juiz o poder do art. 131.

3)PERFEITO Juízo. O art. 532 do Código de 1939 falava de se verificar se, ao testar, “se achava em perfeito
juizo” o testador. A prova admitida seria somente a testemunhal, mas das testemunhas instrumentais; não se
admitia outra. De modo que a apreciação do juiz, qualquer que seja os seus enunciados, não podia exceder os
limites dessa cognição superficial. A sentença de confirmação somente possuia, quanto a esse ponto, o valor de
proposição em que o juiz dissesse:
“pelo depoimento das testemunhas Instrumentais não posso negar o cumpra-se~’. Em consequência, não havia
julgamento da questão de incapacidade do testador, ficando aberto o campo às futuras demandas. Cognição
superficial. Se o Juiz nega o cumpra-se por entender que o testador era incapaz, então profere sentença de
cognição completa, com as suas diversas espécies de eficácia. Na apelação, que é o recurso cabível, o interessado
atacá-la-á. Se transitar em julgado a sentença denegatória do cumpra-se, quer do primeiro grau
quer de qualquer outro, a~ interessados somente resta a ação rescisória de sentença. Ou a de nulidade da
sentença, se é o caso.
O Código de 1973 não alude ao objeto das inquirições, mas a pergunta pode ser feita, como algumas outras,
inclusive quanto a elementos de coação. O que havemos de entender é que, se três testemunhas dizem que o
testador era capaz e não houve coação, o juiz tem de confirmar o testamento. Isso não afasta a propositura de
alguma ação de invalidade, como não afastaria a própria ação de falsidade.

4)TESTEMUNHAS QUE FALTAM. Cp. Código Civil, artigo 1.648, verbis “faltando até duas das
testemunhas”. As testemunhas são cinco (Código Civil, art. 1.645, II).
Exigem-se, no direito material, cinco testemunhas para a assinatura do testamento (art. 1.645, II: “que nele
intervenham cinco testemunhas, além do testador”). No processo de confirmação, “faltando até duas
testemunhas, por morte, ou ausência em lugar não sabido, o testamento pode ser confirmado, se as três restantes
forem contestes, nos termos do artigo antecedente” (art. 1.648). No art. 1.647, “se as testemunhas forem
contestes sobre o fato da disposição, ou, ao menos, sobre a sua leitura perante elas, e se reconhecerem as próprias
assinaturas, assim como a do testador, será confirmado o testamento”.
Surgem problemas. Se a morte das testemunhas ou a ausência em lugar desconhecido foi ocorrência em vida do
testador e ele sabia disso, ~,como se há de resolver? Disso adiante trataremos. Se a falta é, por exemplo, por estar
mentalmente incapaz a testemunha, ~,conta-se ela? Já na í.a ed. dos Comentários ao Código de 1939, Tomo III,
2, p. 152) dizíamos que referência à morte e à ignorância do domicilio ou morada é apenas exemplificativa. (Já
no Tratado dos Testamentos, V, 368.)
A falta pode ser por morte ou ignorância do domicilio Houve o edital. O que importa é que a falta não pode ser
de mais do que de duas testemunhas. Qualquer que seja a causa da falta. Mas o art. 1.648 do Código Civil e o art.
533 do Código de 1939 não podiam ser interpretados contra os princípios superiores de direito, se o testador não
conhecia a falta da testemunha. O que não deixa dúvida é que os dois legisladores ainda permaneciam com a
reminiscência da nuncupação, com a lembrança do testamento oral, ao tempo da grande camada rica, mas
analfabeta, de Portugal e do BrasiL A verdadeira solução seria a de PAsCOAL JosÉ DE MELO FREIRE, a de
valer o testamento hológrafo com as testemunhas restantes (Institutiones, III, 40), em vez de caducar, como
queriam, no século XVII, DOMINGOS PORTUGAL e MELCnIoR FEBO, e, no século XVIII, JoÃo
RODRIGUES CARNEIRO, nas suas Dubitationes. A despeito do tardio formalismo dos arts. 1.648 do Código
Civil e 533 do Código de Processo Civil de 1939, temos de atender a que somente cogitaram das circunstâncias
normais, se o testador está ciente da morte ou da ausência em lugar não sabido das duas testemunhas. Temos de
recordar que o Código Civil não adotou a teoria de A. KOEPPEN (Der oblig. Vertrag unter Abwesenden,
Jherings Jahrbucher, 11, 153), nem a de E. R. BIEBLING (Juristische Prmnzipienlehre, II, 267), quer dizer
para ele o testamento é perfeito desde que se faz, e não pela morte, nem pela publicação. Ainda instrumento
particular, ele se consumou com a assinatura do testador e das testemunhas: lei nova não no atinge, incapacidade
superveniente não no ia-valida. No art. 1.648 do Código Civil substitui-se o qualificativo pelo quantitativo
(RUDOLF voN JHERING, Der BesitzwiUe, 147-150; Der Geist des romischen Rechts, 1, 53, 54; nosso Sistema,
1, 484; II, 246-248). Mas o meio traiu o fim: a iaterpretação estrita, literal teria o grave resultado de matar ato de
extraordinária importância , como é o testamento, sem a culpa e contra a vontade, provada, do testador. Então, o
artifício, que tinha por fito proteger a testamentificação, passaria a constituir injunção contrária à justiça. Nessa
discordância entre o meio e o fim, a inércia do juiz pode ser indefensável, pode, mesmo, ser felonia à sua missão.
Ele não é um instrumento de imposição, mas instrumento do direito, e o conflito entre o texto imperfeito e as
realidades que compõem a situação juridica deve resolver-se segundo o direito, e não pela capitulação diante da
letra injusta. Os arte. 1.647 e 1.648 do Código Civil são de forma probatória. ~ dever do juiz reputá-los tais. Por
outro lado, acreditava o legislador que o disponente, sabendo da morte, da ausência ou da incapacidade da
testemunha, fizesse outro testamento. Era compreensível que se supus isso.

Mas essa suposição pode falhar: (1) Três ou mais testemunhas, após a morte e antes da apresentação do
testamento para se publicar, morrem, enlouquecem, ausentam-se para lugar não sabido, surdo-emudecem, de
modo que não possam depor. (2) Três ou mais testemunhas morrem, tornam-se incapazes ou desaparecem, ainda
em vida do testador, sem que esse saiba. Pressuçomos que se prove ter morrido ele na convicção de que nada
disso ocorrera. (3) Três ou mais testemunhas, peitadas pelos interessados no não-cumprimento do ato
testamentário, depõem contra o próprio ato que firmaram. Muitas vezes o direito cede à sugestão moral
corrigindo o abuso de poder da legislação, do fenômeno político; aqui, se prevalecesse o falso testemunho, com
a ajuda da lei de forma, que o art. 1.648 do Código Civil consagra, teríamos a imoralidade (o que é absurdo),
prevalecendo contra o direito, no domínio desse. Ora, a perfectibilidade da adaptação social global está a
crescente redução do conflito entre o texto e o que devia ser, entre o escrito na lei e a regra jurídica não
descoberta pelo legislador na sua insuficiência de ciência e de técnica. Aos casos principais que a4pontamos
acrescentaremos outro, pelo caráter especial que o extrema daqueles.
(4) Morte simultânea do testador e das testemunhas no mesmo navio, no mesmo trem, no mesmo avião, ou em
lugares diversos. Em qualquer dos casos que sugerimos, feita a prova de que o testador n~o teve conhecimento
do golpe no seu ato testamentário, impõe-se o cumprimento do testamento particular. O testemunho não é prova
insuprivel, e não deve, nem pode a lei criar injunções contra a realidade das coisas.

Examinemos as quatro hipóteses Ver-se-á que a delicadeza do problema constitui séria crítica ao sistema do
Código Civil. Mas será frutífera a solução, por invocar os princípios superiores de direito. Se somente duas, das
cinco testemunhas, morreram, enlouqueceram, ficaram surdas-mudas, ou se ausentaram para lugar não sabido, o
texto legal basta: o juiz pode mandar cumprir, satisfazendo-se com as afirmativas das três. Quid, <,se a morte,
incapacidade ou ausência ocorre a três ou mais? O testador não podia prever. Não será possível atribuir qualquer
culpa ao testador, e a solução negativa resolveria, duramente, contra a sua própria suposição de ter morrido com
testamento válido. Por outro lado, o próprio juiz pode estar plenamente convencido da verdade do escrito e da
observância instrumental das formas solenes do art. 1.645 do Código Civil. Ainda mais: pode ser apresentante o
único interessado na nulidade, o herdeiro legítimo. Ou que todos os herdeiros legítimos reputem valioso,
expressão exata e indiscutível da vontade do testador, tudo aquilo que no escrito se insere. Seria ofensivo à
verdade, à realidade perceptível das coisas, dar ao testemunho o caráter de prova insuprível. Também entre os
Romanos iure civili continuava válido o testamento cujo fio foi cortado, o linum que unia as tabuas. Nem por isso
deixou o Pretor de introduzir a distinção: incisos feitas por terceiro, ou fortuitas, e incisões de própria vontade do
testador (li 1, § 9, D., de bonorum posseseione secun4um tabulas, 37, 11). Iguais atitudes tomou ele em certos
casos de testamento ruptum e irritum. E ia além a L. 21, § 5, C., de testamentis, 6, 23, relativa a escrituras
imperfeitas, caso, bem se vê, de forma solene, e não de forma probatória, posto que a solução fosse por um
favor: “licet imperfecta videatur scriptura posterior, infirmato priore testamento secundam eius voluntatem non
quasi testamentum, sed quasi voluntatem intestatio valere sancimus”. No caso da dita L. 21, § 5, fala-se em
juramento de cinco testeenunhas (em vez das sete instrumentais), de modo que se tratava, não de intervenção no
ato, mas de juramento das disposições, conforme explicaram os glosadores e MAREZOLL. Cumpre ainda
advertir que o Código Civil não conhece prescrição ou prazo preclusivo de testamento, nem, no capitulo da
revogação, cogitou da invalidação dos testamentos pela falta de testemunhas ibnstrumentáias. Ex hypothesz, nem
se poderia cogitar disso: com as formalidades do art. 1.645 do Código Civil ficou perfeito o ato; com a morte do
testador, nenhuma idéia de revogação se poderia invocar. É preciso atentar na diferença que se operou entre GMo
e Justiniano:
após esse, e com esse, a eficácia somente cessa ante a não-persistência expressa da vontade do testador, ainda
que da simples rotura dos fios, se feita por ele. Nesse caso, o imperador dirá testamentum non valere. Ao passo
que, em circunstância idêntica, diria valer.
Posto que negotia perfecta os testamentos, no caso de um aviso tão direto ao testador, como é o do art. 1.648 do
Código Civil, não seria possível afastar a invalidação pela falta dos confirmantes instrumentais, se dessa falta
houve conhecimento o testador. Mas muda inteiramente de figura a questão se fica provado que o testador não
conheceu tais fatos, ou era de presumir que os não conhecesse. Decidir contra tal testamento, que não oferece
dúvidas, ou, se as havia, foram plenamente afastadas pelos meios probatórios admitidos em direito, seria
sacrificar aquilo mesmo que as formas solenes quiseram plenamente assegurar.

5)TESTEMUNHA QUE NÃO CONFIRMA; TESTADOR QUE IGNORAVA A MORTE DA TESTEMUNHA.


Pode ocorrer que uma das testemunhas não confirme a assinatura ou as disposições ou alguma delas. É a velha
questão, de q~e nos deu conta P. MULLEE, anotador de G. A. STIWvE, entendendo presumir-se válido, e não
suspeito, o testamento. Ora, provado que a testemunha mente, que é sua, pelo exame pericial (Código Civil
espanhol, art. 691), a assinatura que ela nega, e verdadeiros os fatos que procura inquinar de falsos, <.como
fazer-se dependente de criminoso proceder de outrem a validade de ato tão relevante como o testamento? Se
nega, e fio há prova contrária, nem circunstâncias apreciáveis, então sim, não pode ser confirmado o ato
(MANUEL DE ALMEIDA E SousA, Coleção de Dissertações, 100). Em todo caso, deve o juiz mandar cumprir
testamento se, no caso de igualdade de elementos probatórios, ou de inexistência deles, três testemunhas, das
cinco, contra duas, o confirmarem, ou, ainda no caso do art. 1.648 do Código Civil, se houver o depoimento
respeitàvel de urna e as duas outras forem convencidas de faLso.
Valerá o mesmo se falecidos sem se poder averiguar quem morreu primeiro (Código Civil, art. 11). Tal
disponente estava seguro do seu testamento. Não era de presumir-se, nem provável, que falecessem ele e as
testemunhas na mesma vez. Infirmar o seu ato perfeito, com que ele contava em reverência ao texto escrito,
obsoleto na sua técnica, fora sancionar a injustiça.

Processualmente, admitamos que o Código de 1973 apenas deu o dever ao juiz de confirmar o testamento
particular se pelo menos três testemunhas reconheceram que é autêntico o testamento. As outras questões ficaram
ao direito material e podem os Interessados propor a ação declarativa, a fim de se dar como autêntico o
testamento. Não podemos deixar margens a grandes Injustiças. Pense-se na morte simiiltânea do testador e de
três testemunhas. Por exemplo, no mesmo acidente de automóveL

6)“VoLuesd TESTATOEIS”. Nos casos especiais, que apontamos às notas 4) e 5), exemplificativos, se o juiz
está convencido, deve mandar cumprir o testamento. Tudo deixa de aconselhar-lhe Isso se o testador sabia da
falta das testemunhas. Então, posto que devamos estar sempre vigilantes no respeito das vontades dos testadores,
omnimodo testatc,rum voluntatibus prospzcwntes, tal zelo perde a razão de ser, porque a vontade negativa
também é vontade e o mesmo merece que a positiva, São meios probatórios para a convicção do juiz todos os
que a lei civil adnute (Código Civil, art. 136), inclusive o depoimento dos herdeiros legítimos não contemplados,
a que não se pode, em sã consciência, negar forte valia. As distinções, a que se: procedeu, são tanto mais
necessárias quanto a dura aplicação, contra a vontade do testador, teria o gravíssimo efeito de deixar que
operasse a disposição do art. 1.748 do Código Civil: ~ficar em vigor um testamento anterior, que o particular
revogou! Pense-se nas consequências da Interpretação gramatical dos dois artigos, e notem-se os males que dela
adviriam. Outro inconveniente que não é de somenos Importância : se o testador, ou alguém por ele, mandou
reconhecer as assinaturas e há elementos probatórios, convincentes, do ato testamentário, e. g., a referência
escrita da testemunha ao testamento a que assistira, 6como refugar tudo Isso e os princípios de direito para se
ater o juiz a texto de injustificável velharia, que exporia o Código Civil a flagrantes contradições com os seus
próprios principios?

7)CONFIRMAÇÃO IMEDIATA. Não se diga que o artigo 1.133 veio reafirmar a dureza do art. 1.648 do
Código Civil. Leia-se com cuidado a lei. O art. 1.133 só se refere aos casos em que compareçam as testemunhas
intimadas e não ofereçam impugnações para o efeito de ser confirmado, desde logo, o testamento. Trata-se de
função integrativa da forma, e somente dessa função. Havendo impugnação, a discussão vai ser sobre a validade
do testamento. O âmbito de apreciação do juiz é outro (art. 131). Não é mais o simples integrador da forma do
testamento.

8)“COMUNICAÇÃO” E “VOCATIO IN lus”. O Código considerou a comunicação dos arts. 1.130 e 1.131
“Intimação” e não “citação”, com que talvez tenha querido afastar classificar-se o processo dos arts. 1.130-1.133
como provocação ad agendum, tanto mais quanto o intimado manifesta-se, em vez de embargar. Já ANTóNIO
JOAQUIM Ría (Consolidação , art. 941) falava de dar-se vista aos interessados, porem no comentário ao
enunciado explicou que se trata de “citação”. 6Por que se referiu o Código a “intimação”? Que há chamamento
dos interessados a juizo, não há dúvida; e já aí entra o elemento da vocatio in ius. ~Existe, na comunicação dos
arta 1.130-1.133, aviso para que se faça, ou se abstenha de alguma coisa? Tudo se passa à semelhança das outras
ações constitutivas, com a particularidade de não haver, sequer, cominação. Ora, se se chamou citação, pela
prevalência da vocatio rn tua, à comunicação, por exemplo na ação de comi-nação, ~por que não se há de chamar
citação à do~s artigos 1.130-1.133? De citação é que se trata. Nem sequer se pode argumentar com a alternativa
“ou Impugna. ou se tem por testamento cumprivel o de que se trata”; pois, se não há Impugnação, nem
comparência, se ouvem as testemunhas.

9)MENOS DE TRÊS TESTEMUNHAS. “...Se pelo menos três. . .“ Todavia, se o testador faleceu
conjuntamente com elas ou com alguma ou duas das três, ou se o testador lhes ignorava a morte, conforme os
casos da nota 4), ou a) o órgão do Ministério Público pede a aprovação, ou b) o juiz, convicto, aprova o
testamento, quer dizer, procede consoante o art. 131, ou c) recusa a confirmação e o cumpra-se. De tal sentença
cabe o recurso de apelação.
Diante de diferenças entre os textos do Código de Firo-cesso Civil de 1939, art. 533, a que correspondia o Códgo
Civil, arts. 1.647 e 1.648, o art. 1.133 do Código de 1973, temos de frisar que não se alude, hoje, a não serem
presuntivos (mortos, ou ausentes, em lugar não sabido) duas testemunhas e as três restantes confirmarem. Mesmo
se nenhuma está morta, ou ausente em lugar não sabido, e três confirmam, o art. 1.133 incide.
A regra jurídica do art. 1.133 do Código de 1973 não pode ser Interpretada como se nela estivesse o que estava
no Código de 1939, art. 533 (“se pelo menos três das testemunhas, falecidas as restantes ou incerto o seu
domicilio, forem contestes em confirmar-lhe a autenticidade”). O que rode acontecer é que o juiz dê maior vaiar
ao que as duas testemunhas manifestaram, e não ao que disseram as outras três.

10) MANIFESTAÇÃO E PRAZO. Para corroborar a interpretação que demos aos arts. 1.647 e 1.648 do Código
Civil confirmando a A. 3. DE GOUvEIA PINTO, contra PAsCoAL JosÉ DE MELO FERIas, que comprimia o
processo da publicação dos testamentos particulares nos limites da jurisdição voluntária,
o art. 1.132 mantêm a tradição do direito luso.brasileiro em concebê-lo como integração da forma e como
demanda eventual. Em melhor técnica o art. 1.132 considera manifestação (confirmação ou impugnação) , e não
embargos, a defesa dos Interessados. Vantagem evidente em relação aos revogados códigos de processo civil
estaduais. Observe-se, porém, que se dá à impugnação o rito ordinário, sem se dizer qual a matéria sobre que
pode versar. Os arts. 292 e 245 têm de ser invocados. Donde duas questões.
(a)Se o testamento foi apresentado no foro da sucessão (art. 96), nenhuma questão de competência surge. Se foi
apresentado noutro lugar, a contestação somente pode conter alegações que caibam na competência do juiz do
cumpra-se. Não se há de pensar em prevençao, pois a hipótese é a de faltar a competência ao juiz do cumpra-se
(foro da apresentação) para a sucessão (forum heredÃtatis, art. 96). Também não se trata de reconvenção: trata-
se de exclusão que vai além do pedido; como toda dedução do réu que tende a rejeitar a demanda do autor,
demanda é; salvo o caso de haver a lei de organização judiciária concebido a competência para a apresentação
como competência de juiz que não processa ações sobre a sucessão, pode dar-se a prorrogação da competência,
com fundamento no art. 114, uma vez que o forum hereditatis não seja ratione materuze ou da hierarquia (art.
111). Quanto à conexão, nunca se entendeu que as causas sobre a validade do testamento, em cognição completa,
e sobre a validade das disposições testamentárias, fossem conexas à do exame superficial do testamento
(cognição incompleta). Não ocorre a sugestão político-jurídica de que se deva fazer um só processo (simultaneus
processus).
(b)Admitido que se tenha dado o aforamento no juízo da apresentação, conforme (a), então havemos de converter
a impugnação em petição de ação de nulidade, segundo os princípios assentes no Código. Tal conversão é fácil,
devido ao rito ser o ordinário (art. 245). Faltando a competência, segundo (a), a conversão é impossíveL

11)INTIMAÇÃO E PRAZO. No Código de 1939, art. 534, contando-se da citação o prazo, a contestação era
anterior, provavelmente, à inquirição da,s testemunhas (aliter, nos códigos de processo civil estaduais). Com
isso, mais se acentuava a separação entre a função integradora da forma, que tem o juiz, e a demanda sobre a
forma ou sobre a validade intrínseca do testamento. Os contestantes não conheciam, talvez, o que iriam dizer as
testemunhas.
O Código de 1973, art. 1.132, com todo acerto, na esteira dos extintos Códigos de Processo Civil estaduais, fez
contar-se o prazo depois das inquirições (verbis “inquiridas as testemunhas”, “no prazo comum de oinco dias”).
A manifestação antes da Inquirição levaria os Interessados a terem de dizer o que pensavam antes de ouvir as
testemunhas. Isso não obsta a que os interessados aleguem antes algo que não dejacente das testemunhas (e. g.,
há outro testamento posterior).

12)RiTo ORDINÁRIO , SE HA IMPUGNAÇÃO. Se não há impugnação, a função do juiz fica limitada à


Integração da forma, com o cumpra-se. Se há, então a demanda eventual surge, dando razão a A. J. DE GoUv!u&
PINTO contra PAScOAL JosÉ DE MEW FREIRE. Daí em diante, o rito é ordinário. No caso da nota 8), in fine,
tratam-se os impugnantes como autores, no tocante a alegações que excedam as que seriam, nos casos normais,
apreciadas pelo juiz do cumpra-se. Ao ser-lhe apresentada a Impugnação, ou durante o saneamento, ou, entre
aquele fato e esse momento em determinação de oficio ou provocada, deve o juiz ordenar que sejam citados os
interessados que não apresentaram o testamento (art. 47), o órgão do Ministério Público e os litisconsortes
necessários dos contestantes, que são simultaneamente autores e réus, daí em diante. O art. 47, parágrafo único,
tem dupla aplicação. Quanto ao apresentante, ou apresentantes, dada a conversão tem direito a quinze dias (art.
297)? De lege jerenda, preferível seria a solução do art. 297, inclusive com a citação do apresentante, sempre que
a impugnação do
art. 1.127 trouxesse matéria nova. De lege lata, havemos de entender que, para os apresentantes e mesmo para as
pessoas que tinham sido intimadas e não Impugnaram, mas, como aquelas, têm alegações em matéria nova, há o
prazo de cinco dias (art. 1.132), novo prazo. Assim, poderá o processo converter-se em ordinário, daí por diante.
Para isso, é preciso que o juízo seja competente ratione materiae e hierarquicamente. Fora daí, ou se os
interessados preferirem, cabe outra ação, com os dados do processo de confirmação do testamento particular.

13)SENTENÇA DE CONFIRMAÇÃO. Nem sempre a sentença é meramente integrativa da forma. Nos casos
das notas 8), in fine, e 10), é sentença em demanda sobre a validade
do testamento ou das suas disposições, com força de sentença constitutiva negativa, se desfavorável a sentença.

14)REGISTRO, ARQUIVAMENTO F CUMPRIMENTO. Sobre registro, arquivamento e cumpra-se, notas ao


art. 1.126.
15)RECURSO. O recurso, conforme dissemos à nota 9)ao art. 1.126, é o de apelação. Houve quem discutisse se
tinha ou não efeito suspensivo; mas isso denuncia em quem levantou a questão ausência de qualquer
conhecimento do que seja sentença de repulsa em ação constitutiva, ainda Integrativa de forma, e efeito da
apelação. A sentença que nega confirmação deixa de conferir perfeção (e eficácia) ou ei zcdcia, de modo que
havia O e continuou 0; o efeito suspensivo da apelação não poderia suspender O e fazer aparecer o que antes não
havia: porque antes havia 0. Se confirmado o testamento, a apelação é suspensiva. (No sentido do que
escrevemos na l.~ edição dos Comentários ao Código de 1939, a 3~a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São
Paulo, a 28 de junho de 1951, R. dos T., 194, 230).

SEÇÃO III

Do testamento militar, marítimo, nuncupativo e do codicilo ‘5)

1)ORIGENS DO TESTAMENTO MILITAR. Sobre a história e sociologia do testamento militar, nosso Tratado
dos Testamentos (II, 343-361). Cf. Tratado de Direito Privado, LIX, § § 5.923-5.930. Teve-o Portugal, para lá
do direito visigótico. Procurou-se estender o testamento militar aos cavalheiros das Ordens militares, a clérigos e
doutores, o que PASCOAL JosÊ DE MELO FREnu (Institutiones, III) e,probrou. Não disse quem cometia o erro.
Mas, muito antes dele, ANróNIO MENDES AROUCA (Aflegationes, 219) informava que o Senado profligava a
prática, tendo como ritos tais testamentos. ~ privilégio de serviço. Em todo caso, ao tempo das Ordenações
Manuelinas ainda não se assentara a doutrina. Daí a longa explicação das Ordenações Filipinas (Livro IV, Título
83, ~ 9).
Na sua própria pátria com a emenda mrnime sunt mutanda, quae interpretationem certam semper habuerunt,
ANTÔNIO MENDES AROUCA (Aflegationes luris, 219) apontou o erro crasso.
Tratava-se de privilégio em serviço. Eram testamentos in expeditione constitutis. Só então cabiam a todos,
soldados ou não: soldados ou auditores militares, Capelães , médicos, cirurgiões, quartéis-mestres, comissários e
empregados de munições (SAMUEL STRYK, De CauteUs testamentorum, c. 9, § 17).
Ao tempo das Ordenações Manuelinas, podia discutir-se se o soldado, ainda em tempo de paz isto é, sem guerra
viva, ou cerco, podia testar na forma especiaL A luta havia entre os doutores: contra ALvARo VALAsc~o
(Decisionum Consultationum ac Rerum zudicatarum, c. 104, n. 11) erguia-
-se JORGE DE CAREnO (Practicarum Observattonum swe Decsionum Supremi Senatus Regni Lusitamae, 1,
dec. 129).
PASCOAL JosÉ DE MELO FREIRE dizia que a causa do <privilégio era o imminens periculum, e não a militum
imperitia.. Porém MANUEL RIBEIRO NETO (Commentaria :n lus Civile :n quíbus universa ulUmarum volunt
atum materiam, tam speculative quam practíce explwatur, L. 3, tit. 33), chamava a atenção, com o cuidado de
sempre, para o acrescento que as Ordenações Manuelinas fizeram as Ordenações Filipinas (Livro IV, Título 83, §
9): “E todos testamentos, que os soldados fizeram fora do exército, ou expedição ou conflito da guerra em suas
casas, ou em outra parte, serão feitos com a solenidade, que o direito requer nos testamentos dos que não são
soldados. E portanto os que temos postos em Presídios, ou Fortalezas, e os moradores e fronteiros dos lugares de
África , não gozarão do dito privilégio de testar sem as solenidades, que o direito requer, salvo se os soldados dos
ditos Presídios e Fortalezas estiverem de cerco, ou em conflito de batalha; porque em tais casos poderão fazer seu
testamento de maneira que acima dissemos, que o podem fazer os outros soldados”.

2)TESTAMENTO MARÍTIMO . Do testamento marítimo não trataram as Ordenações. Se, a despeito disso, ele
existia, ou não, no direito luso-brasileiro, discordavam os tratadistas:
com o seu espírito novo e esclarecido, TEIXEIRÁ DE FREITAS
consignou-o (Consolidação das Leis Civis, art. 1.053, nota 1; Tratado dos Testamentos, § § 97 e 98) como
testamento em estado de necessidade: não usou desses termos, mas vale o mesmo o que escreveu, admitindo,
como A. J. DE GOUvEIA PINTO (Tratado, 82) e os outros, o testamento maritimo, mas discordando dos outros
quanto a ser privilegiado. Disse A. J. DE GOuVRIA Puiro: “Eu julgaria válida a disposição com semelhantes
solenidades externas (do Código Civil francês), se, contudo, se provassem as internas, e pelos fundamentos
seguintes: 1.0, por não reputar isto privilégio, mas sim necessidade que carece da lei” carece significa não tem;
não se diga precisa, nem anui houve omissão do não, por erro tipográfico; “2.0 pela regra deduzida da L. 183,
D., de diversis regulis iurzs antiqui, 50, 17 (ULPIANO), e outras que lhe correspondem; 3~O pelo disposto no §
90 da Lei de 18 de agosto de 1769, como matéria marítima. Assim, aparecendo o testamento com as solenidades
que a lei vizinha exige, não teria eu dúvida em julgá-lo válido”. Com a noção de privilégio
SILVA LISBOA, CORREIA TELES, COELHO DA RoCHA e FERREIRA BORGES. No meio de tudo isso,
duas opiniões esporádicas, singularmente retrógradas, para as quais não bastaram os formidáveis argumentos de
A. J. DE GOUVEIA PINTO e de TEIXEIRA DE FREITAS, um critico da 1.a edição de A. J. DE GOUVEIA
PINTO e CLÔvIS BEVILÁQUA (Direito das Sucessões, 247), que não atendeu às razões citadas nem ao espírito
assimilador que presidiu a. Lei de 1769. Por influência desse, sem raciocinar, o inútil § 149 de J. A. FEEREIR&
ALVES (Consolidação, 1, 172 s.).
É bem certo que, se se não explicitou, nos &‘culos Ip:assa~ dos, o princípio do testamento em estado de
necessidade, estava nos fatos, como hoje está, podia o intêvprete colhe-lo na vida, apanhá-lo, segurá-lo, trazê-lo
à categoria de regra, como fórmula legal inspirada nas próprias realidades. Porêm não se chegara a tal estado
amadurecido de t~cnic~’ Feio fato de ser fruto imediato das realidades, das circuri~tâncias excepcionais e
prementes, há uma como usurpação dos princípio3 superiores de direito por parte dos Códigos que não provêem
a tais situações de extrema dificuldade para a express~c. <ias últimas vontades.
3)QUEM PODE TESTAR POR TESTAMENTO MARITIMO. DO testamento marítimo (Código Civil de 1916,
art. 1.656) pode usar qualquer pessoa que esteja a bordo. Em viagem de alto-
-mar, não é preciso que já esteja, ou ainda esteja em alto..
-mar. A legislação brasileira considera aplicável a forma dos arts. 1.656-1.659 do Código Civil aos testamentos
de navios brasileiros, ainda que em águas estrangeiras. Daí derivam delicadas questões de direito internacional
privado. Se o testador quer, pode dispensar as formalidades do ari. 1.656, testando segundo o art. 1.657. Cessa a
testamentificação espedaí se o navio está em porto em que o testador possa descer e testar em terra por forma
ordinária.

4)TESTAMENTO EM VIAGEM DE AVIO. Tivemos o ensejo de falar do testamento em viagem de avião. O


que se acha a bordo da aeronave pode usar a forma dos arts. 1.656 o 1.657 do Código Civil. Tudo depende de
haver pressupostos que correspondam à viagem em alto-mar. Está em viagem de alto-mar o que, na própria
barca, em busca de navio que o levará, já prestes a partir, precisa testar, e pode fazé-lo na forma especial. A
viagem começa com a partida para o navio. No domínio aéreo dá-se o mesmo. Não se pára a aeronave para que o
passageiro ou tripulante teste. Se a morte é de esperar-se e não pode recorrer às formas ordinárias, devem
entender-se aplicáveis os arts. 1.656-1.659 do Código Civil (nossos Tratado dos Testamentos, II, 365 s.); Tratado
de Direito Privado, LIX.

5)TESTAMENTOS ESPECIAIS E SOLENIDADES INTERNAS. O Código Civil somente tratou de dois


testamentos especiais:o marítimo e o militar.
são especiais: neles, conservam-se caracteres dos testamentos em geral; dispensa-se-lhes o que os torna
especiais.
Vejamos o que se lhes conserva e o que se lhes escusa. São tua commune, aplicável aos iura singularia dos
testamentos marítimos e militares: a) tudo que concerne à faculdade de testar (capacidade de direito); b) toda
matéria de capacidade de testar (capacidade de exercício), art. 1.627; c) a regra jurídica do art. 1.628 do Código
Civil; d) as nulidades de disposições, de que cogitam os arts. 1.719, 1.720 e 1.650, IV e V, do Código Civil; e) as
incapacidades de testar passivas, a que se referem os arts. 1.717 e 1.718 do Código Civil ~ a~s regras de direito
sucessório; f) toda a matéria imperativa de sucessão legítima, como a quota necessária dos herdeiros legítimos,
segundo a léi pessoal; g) as disposições captatórias, que são nulas (art. 1.667 do Código Civil), e tudo mais que o
Código estatui quanto a condições, causa, tempo, incerta pessoa, interpretação das cláusulas, erro, etc. (em suma:
todos os preceitos dos aris. 1.664-1.769 do Código Civil); h) o que se estabelece na Parte Geral do Código Civil,
quer quanto aos defeitos de vontade quer quanto às nulidades; i) e à incapacidade das testemunhas arts. 1.650, 1-
111, 142, 1-111, do Código Civil; j) as regras de revogação e ruptura são inteiramente aplicáveis. Na mesma
guerra, ou na mesma batalha, o posterior revoga o anterior, se o não completa ou modifica.
Quando ocorrem os pressupostos da forma militar, <deixam-se de aplicar as exigências de solenidades internas?
Exemplo: cegueira, surdo-mudez, analfabetismo. Onde fica autorizada a simplificação de forma, exigências
internas e externas são igualmente dispensadas (HOMMEL, Dissertatio, ~ § 23 5.); mas só as solenidades
internas que constituem inaptidão a formas testamentárias, e não as que derivam de incapacidade (de exercício,
art. 1.627 do Código Civil, e, a fortiori por absolutamente inderrogável, a de direito). Também não se derroga o
que pertence à lei pessoal contrária. Hoje, o privilégio do testamento militar não possui aplicação quanto a
efeitos, como o de permitir deixas a incapazes. É restrito à forma.
Art. 1 .134. As disposições da seção precedente’) aplicam-se 6) 7) ‘):
1 ao testamento marítimo 2);
II ao testamento militar 3);
III ao testamento nuncupativo4);
IV ao codicilo5).

1)CONTEúDO DAS REGRAS JURÍDICAS. As regras jurídicas do art. 1.134 são alusivas ao testamento
marítimo, ao militar, ao nuncupativo e ao codicilo. Remetem, implicitamente, ao direito material, que estabelece
os pressupostos materiais e formais desses testamentos e do codicilo, e apenas diz que os arts. 1.130-1.133,
relativos ao testamento particular, se aplicam às quatro espécies de negócios jurídicos unilaterais a causa de
morte. Acontece que o testamento marítimo pode ser lavrado pelo comandante ou pelo escrivão de bordo, ou
pelo próprio testador ou por outrem, caso em que o tem de entregar ao comandante ou ao escrivão, perante duas
testemunhas (Código Civil, arts. 1.656 e parágrafo Único , e 1.657 e § § 1.0 e 2.0). Quanto ao testamento militar,
os arts. 1.660 e 1.661 são minuciosos e neles se prevêem situações diferentes. inclusive nuncupativamente. Pode
mesmo ser testamento cerrado (art. 1.661). A despeito de todas as circunstáncias ,o Código de 1973 fez
aplicáveis as regras jurídicas processuais sobre testamento particular, afastando-a do Código de 1939, art. 536, no
qual se dizia que se cumpriria do mesmo modo que o testamento cerrado, e abria exceção para o testamento
nuncupativo, a que se estendiam as regras jurídicas do testamento particular (art. 537).

2) TESTAMENTO MARITIMO. Código Civil, arts. 1.656-1.659. Traço e princípio comum dos testamentos
especiais ou extraordinários é que, feitos, como são eles, em circunstãncias particulares, perdem a eficácia
quando se passa certo tempo apos a cessação delas. Não se confundem com as simplificações de outra natureza,
que não dizem de perto com a acidentalidade do ambiente, como as guerras, as pestes, as inundações e
comunicações interceptadas. A diferença é visivel nos países que têm o testamento ruri ConA:iitum e o in
tempore pestis. Aquele é simplificação, e esse, ligado a addentalidade. Se o testador pode desembarcar, por se
achar em porto o navio, cumpre atender ao seguinte: (a) Só se lhe permite a forma especial, se, a despeito de
desembarcar, não pode, pelo tempo, pela ignorância da lingua, pela: falta de quem. o reconheça, ou por outro
motivo de igual índOle, testar na forma ordinária. A lei não diz só: “não valerá o testamento marítimo.., se, ao
tempo em que se fez, o navio estava em porto, onde o testador pudesse desembardar’~, pois acrescentou “e testar
na forma ordinária”. (b) permite-se-lhe a forma especial, se desembarcou, podia testar, mas, sentindo-
-se mal, voltou <para bordo e só aí, já não havendo tempo, ou n~o podendo descer, resolveu testar. O poder
desembarcar e testar na forma ordinária só se aprecia no momento em que se vai testar: é o principio da
atualidade das circunstâncias extraordinárias, justificativas dos testamentos especiaiS.
(c) Descida a terra para função que suponha incógnito não se compadece com o uso da forma ordinária. (á) As
proibições de descer valem impossibilidades. Exemplos: por parte do comandante da polícia ‘marítima, ou
sanitária. (e) Valem impossibilidade de testar em terra, na forma ordinária, os estados extraordinários, como as
pestes, os motins, os sítios e as revoluções
o processo ê o da Seção II (Da confirmação do. testamento particular, arts. 1.130-1.133).

3) TESTAMENTO MILITAR. Código Civil, arts. 1.660--1.662. O art. 1.660 prevê os seguintes casos: (a)
Militares e mais pessoas ao serviçO do exercito em campanha, dentro
ou fora do país. (b) Militares ou mais pessoas em praça sitiada. Não se disse se em terra do Brasil, ou do
estrangeiro. Mas há de entender-se num e noutro caso. (c) Militares ou mais pessoas em praça que esteja de
comunicações cortadas. É evidente o intuito de aplicar o testamento ao caso bélico, quer se trate de campanha,
quer de praças que estejam sitiadas ou sem comunicação. Aqui, põe-se à mostra que a adjetivação militar,
constituindo instituto à parte, já destoa dos princípios: Se o militar foi, com o seu corpo, salvar população cujas
comunicações estão cortadas por acidente (não bélico) e fica na mesma posição, ~,pode usar do testamento
militar? Se pode, também dele podem usar as outras pessoa~5: a lei diz “militares e mais pessoas”. Tudo isso
evidencia a inferioridade técnica em relação aos Códigos Civis alemão e suíço. A solução que os princípios
superiores de direito nos aconse111am é a seguinte: a) Se o militar recebe ordem de trabalho de salvação pública
é como se estivesse ao serviço do exército em campanha. b) Onde pode o militar usar da forma do art. 1.660 do
Código Civil, pode qualquer pessoa, se o mesmo o perigO.
As enfermeiras que receberam ordens para seguir as tropas são consideradas militares para os efeitos do art.
1.660 e seguintes.

6Pode testar pela forma militar a mulher do soldado que se acha nas tropas? Essa, evidentemente, partilha dos
mesmos riscos. Se não se achava contra lei, residia legalmente, corria os mesmos riscos. Nada obsta a que ela
entre na imensa classe dos “omnes omnino, qui jure militari testam 11071 pOsSUllt, mas que as circunstâncias
sujeitaram aos mesmos riscos”. Todos entram na classe; salvo os que proibidamente lá se acham, ou com fins
ilícitos. A mulher de um soldado que mora em fortaleza, ou em farol miLitar, pode usar, havendo as referidas
circunstâncias extraordinárias , o testamento militar.

Os militares ou demais pessoas feridas em manobras, ou que estiverem a falecer na ocasião delas, podem usar
das formas especiais. Quanto aos arts. 1.656-1.659, não há dúvida:
estão a bordo as pessoas. Quanto aos arts. 1.660-1.663, manobras são serviços militares, que podem provocar
acidentes graves, e é da natureza de tais exercícios tratarem-se os casos como em guerra: as ambulâncias levarão
o enfermo, unidade de um corpo, o que não deve ter o efeito de suspender as evoluções, os ataques, as defesas.
Se o ferido (ou vítima de outro meio mortífero) entender de declarar as suas últimas vontades, o oficial de saúde,
ou o diretor do estabelecimento, deve tomá-las por escrito (art. 1.660, § 2.0). Não podendo escrever, pela
maneira que se admite no art. 1.663. Não tendo sido conduzido por ambulância para posto de saúde e achando-se
em corpo destacado, escrever-lhe-á o testamento o comandante respectivo, ainda que oficial inferior (art. 1.660, §
1.0). Escreve o testamento do oficial mais graduado aquele militar que o substituir (art. 1.660, § 3.0).

O Código Civil não permite somente o testamento militar em serviço de campanha; reconhece-o aos militares e
mais pessoas ao serviço de exército, se em praça sitiada, ou em praça não sitiada que esteja de comunicações
cortadas.
A situação do aviador ou da pessoa a serviço do exército, ou das forças aéreas, que se ache em aeronave de onde
não possa descer, como no caso de defeito mecânico que apenas retarde a queda, equipara-se à daqueles soldados
ou pessoas a serviço do exército que se achem num forte, cujas comunicações foram cortadas. O estado de
necessidade é o mesmo.
Toda organização militar constitui-se de unidades com chefes; grupos de unidades formam novos corpos, à frente
dos quais há um comandante. O comandante, a que se refere o Código Civil, é o da unidade imediata: a primeira
patente superior que comanda. Se a seção do corpo se acha separada, de guarda, de vigia, em reconhecimento,
em exploração, o chefe desse grupo sozinho é oficial público a que se refere a lei. O oficial que se recusa a isso
comete infração das leis do pais e responde civil e criminalmente. Cabe a própria ação de perdas e danos.
Exemplo: se se negar, e o testador, recorrendo a outro meio, testar nulamente. No artigo 1.660, o testamento
militar constitui simplificação do testamento público, sendo oficial público o comandante do corpo ou seção de
corpo destacado, o oficial de saúde ou o diretor do estabelecimento.

4)TESTAMENTO NUNCUPATiVO. É o que consiste em declaração de última vontade, verbal, ante duas
testemunha8, feita por pessoa que pode fazer o testamento militar, se empenhados em combate ou feridas
(Código Civil, art. 1.663). O art. 1.134 diz que se aplicam ao testamento nuncupativo as regras jurídicas da Seção
II (arts. 1.130-1.133), sendo que o art. 1.133 também remete aos arts. 1.126 e 1.127, que não são da Seção II.
Código Civil de 1916, art. 1.663. Para testamentificação nuncupativa é de mister tal situação extraordinária que
exclua, objetivamente, a possibilidade de escrever (exemplos: refrega do combate, falta de material, ocultação
das tropas em trincheiras, posição dos soldados em árvores, como guardas avançadas), ou subjetivamente
(exemplos: ferimento, fraturas, cegueira, efeitos de gases). Em geral, basta a existência do combate. Não se vai
exigir ao soldado, ou à própria enfermeira, que traga consigo papel e tinta, convoque testemunhas, etc. O texto do
art. 1.663 fala em pessoas feridas. Deve entender-se que também gozam da nuncupatividade excepcional, com só
duas testemunhas, os militares e mais pessoas em serviço de guerra, que por motivo de qualquer recurso bélico,
como os gases asfixiantes, cáusticos ou lacrimogênicos, ou acidentes de batalha se achem em perigo de vida. O
perigo de vida, em conseqúência de serviço de guerra, ou a impossibilidade de usar formas ordinária devido a
esse serviço tal o que deve orientar-nos na aplicação do art. 1.663. Em razão disso, o cego, que a guerra cegou
(definitiva ou temporariamente) e ainda dela não saiu, pode testar, oralmente, de acordo com o referido artigo
1.663.

5)CODICILO. Codicilo, diminutivo de codex, pequeno. rolo, caderninho, mantém-se, através dos tempos, com
forma simplificada, inferior, do testamento. Poderes, extensão, exigências formais, variaram, desde o seu
aparecimento. Como os testamentos especiais, foi criação imposta pela vida e constitui vitória da voluntas contra
a forma.
O Código Visigótico não cogitava de codicilos. Provavelmente, eles aparecem no século XIII. Na coleção da
Torre do Tombo, há um (esp., caixa 86), a que a testadora chama enadimento e o tabelião enadimento e
declaramento. É Santarém, a 12 de maio da era 1320 (ano de 1282). Foi por esse tempo que surgiriam indícios
do romanismo da instituição de herdeiro. Trata-se, pois, de influxo então recente do direito romano.
Nas Ordenações Afonsinas, os codicilos haviam de ter quatro testemunhas (já diferente do direito romano, que
exigia cinco). Mas, nos lugares de pouca povoação, três, como se permitia nos próprios testamentos.
Muito nos auxiliará, no trato das questões relativas a codicilos, o exame sintético dos três critérios pelo quais,
discordantes entre si, se orientaram os Códigos Civis hodiernos. Por bem dizer, um deles é o de quase todos;
outro, o do Brasil. Bastaria isso para apontar à necessidade de aprofundar o estudo daquilo que o extrema dos
demais países. Do sistema romano, já não havemos de falar: pertence ao passado e nas linhas gerais já o
conhecemos. Contemporâneos, três são os critérios que podemos apontar como as soluções vigentes do direito a
propósito de codicilos:
a) A solução da inexistência dos codicilos. Nesta, se não é testamento, não é disposição codicilar, porque só
existe testamento, ou, em alguns povos, testamento e contrato de herança. Ou é testamento, ou não e.
b)A solução da existência de codicilos, sem distinção quanto à forma. Nesta, que é a do Código Civil austríaco,
eliminam-se várias questões, eliminações comuns a esta e à terceira solução, ou peculiares a esta. Exemplo de
eliminaçao peculiar: impraticabilidade da cl4usul.a cociicitar (F. A. voN ZEILLER, Commentar uber das ali
gemeine burgerliche Gesetzbuch fur die gesammten deut4schen ErblÉinder der osterrezchischen Monarchie, III,
489): se, por defeito de forma, como testamento não vale, não vale como codicílo (identidade de formas, que
caracteriza o segundo sistema). Mas, se si nula ou caduca a instituição, vale o texto, sem ela (§ 726), e o herdeiro
legítimo cumpre os legados como os cumpriria o testamenteiro (quasi substitutus). Aqui, a transição realizada
pelo Código Civil austríaco mostra-se ao vivo, nítida, como peça anatômica: em verdade, deixou de exigir a
instituição de herdeiro, e por isso, excluída ela, vale o resto (conser-vaçao), mas atribuindo-se ao instituto do
codicilo a permissão não se pode cogitar de conversõ~o, pois que a forma é a mesma, nem da cláusula codicilar.
Em todo o caso, quanto a esta, é discutível: desde que a lei conhece os dos institutos, e caduca ou é nula a
instituição, apode-se explicar o efeito sem a subinteligência da cláusula? Outra dificuldade surge com o § 778 do
Código Civil austríaco, no caso de se preterir, erradamente, herdeiro necessário. A doutrina falaria de cláusula
codicilar propter defectus volun.tatis.
Com essa solução o Código Civil boliviano, arts. 659-661, de pasmosa inutilidade.
c)O da existência de codicilos, distintos, quanto à forma, dos testamentos. Tal ê o caso do Brasil. Por isso
mesmo que se conservam diferenças formais, exsurgem as velhas questões, que precisam ser tratadas com a
mentalidade dos dias de hoje. Sobretudo, em relação aos fenômenos de conservação, conversão, cláusula
codicilar, os recursos de hoje são maiores para lhes conhecermos, cientificamente, a natureza.
A diferença entre a solução austríaca e a brasileira, comparadas à romana, está na maior autonomia que elas dão
aos codícílos, ainda testamentários; mas a solução c) não pode, de modo nenhum, excluir a cláusula codicilar,
reputando-a velharia. Contraviria à letra da lei, pois que adotara esta, contra os outros sistemas, a diversidade
formal. A discussão pode persistir quanto à natureza da cláusula; mas, quanto à sua existência, é questão liquida.
Basta pensar-se na cédula hológrafa a que só se oponha faltarem as testemunhas (Código Civil de 1916, arts.
1.645, II, e 1.648), porém no qual o testador tenha dito “como posso, pelos arts. 1.651, 1.653 e 1.654, revogar os
codicilos anteriores, revogo-os por esse ato”, ou “como pode ser que não nos salvemos, se esse meu ato puder ser
confirmado na forma do art. 1.648, quero que se observe, como codícilo, tudo que dispu] sobre o meu enterro e
as minhas jóias
Com a cláusula codicilar, pode ocorrer o seguinte: a) vedá-la a lei (Preussisches Aligemeines Landercht, II, 7, tit.
17); b) estatuir a lei, expressamente, que se subentenda a cláusula (Código da Sabóia, V, 1, § 20); c) deixar à
ciência a questão; d) pelo fato de equiparar quanto aos requisitos formais e intrínsecos testamentos e codicilos,
como se dá no Código Civil boliviano, ou pelo fato de proibir codicilos (o que é o mesmo), tornar sem objeto, ou
inútil, a cláusula codicilar; e) ou, ainda, equiparar formalmente testamentos e codicilos, deixando dúvidas quanto
ao intrínseco, como sucede ao Código Civil austríaco.
Ora, a tradição do direito brasileiro é a da letra c). Todas as outras soluções seriam arbitrárias. O Código Civil
nada mudou a esse respeito. Dizer que a cláusula codicilar desapareceu seria o mesmo que afirmar não haver, no
direito brasileiro, ação de rn rem verso, porque não há texto de lei. Compare-se tal atitude com a que têm os
juristas nos pr& prios países em que se extinguiram os codicilos. No direito francês, disse MARCEL PLANIOL
(Traité élementaire de Droit Civil, III, 673, nota 1): “De lã l’usage de la clause codicillaire, par laqueile le
testateur, prévoyant le cas oú son testament serai declaré nul comme tel, declarait qu’il devrait valoir au moins
comme codicille. L’ordonnance de 1735 en avait conservé l’usage; elle est devenue mutile sous le ~ode Civil,
qui ne distíngue plus le testament proprement dit du codicille”. No direito alemão, não se perderam da rota
científica os escritores. Por exemplo, P. SIMÉON (Lehrbuch des Bitrgerlichen Rechts, 1, 186, nota 6) escreveu
que a cláusula codicilar, pela qual, em caso de necessidade, o testamento havia de valer como codicilo, é, hoje,
sem objeto, porque o Código Civil alemão misturou, identificou, codicilo e testamento. Se futuro legislador
brasileiro revogar a exigência de testemunhas no tel3tamento particular do art. 1.645, então ocorreria igual perda
de objeto à cláusula cocticilar, tornada inútil. Nas circunstâncias atuais, absolutamente não: não só não se
proibiu, como também a vitoriosa doutrina anterior, quase unãnime e só discordante em pormenores que nada
têm com a existência, força o respeito à tradição nacional, o voluntas testators e mais do que tudo isso: aos
princípios de direito.
Aqui cogitamos da possitilidade da cláusula. Adiante trataremos da sua natureza no direito brasileiro, da sua
extensão e dos seus efeitos.
Diz o art. 1.651 do Código Civil: “Toda pessoa capaz de testar poderá, mediante escrito particular seu, datado e
assinado, fazer disposições especiais sobre o seu enterro, sobre esmolas de pouca monta a certas e determinadas
pessoas, ou, indeterminadamente, aos pobres de certo lugar, assim como legar móveis, roupas ou jóias, não mui
valiosas, de seu uso pessoal (art. 1.797) “.
A lei estatui que seja escrito pelo disponente, que tenha data (exigência que, ainda ai, só eventualmente será
essencial, dado o sistema do direito brasileiro). Nada mais se lhe exige.

Exigindo o Código Civil a escrita particular aos codicilos, afastou questões do velho direito. É de notar-se que
em tais instrumentos supôs data, contrariamente ao proceder em relação aos testamentos. Não precisa de
testemunhas.
Se o cego pode escrever, respeitando o art. 1.651, é-lhe facultado o codícilo, sem necessidade de leitura por
outrem, pois que se não trata de nuncupatividade. Não ha codicilos nuncupativos. C art. 1.637 só se refere aos
testamentos. No caso do art. 1.663, quem pode o mais pode o menos: se as pessoas designadas do art. 1.660,
achando-se nas circunstâncias do art. 1.663, podem fazer testamento nuncupativo perante duas testemunhas, a
fortiori podem dispor quanto àmatória dos arts. 1.651 e 1.653.

Se ao codicilo falta a data, não vale como codicílo, por infração do art. 1.651 do Código Civil. Assim, se o
testamento hológrafo não vale e lhe falta a data, não se pode dizer que vale como codicilo (cf. 2.~ Turma do
Supremo Tribunal Federal, 23 de janeiro de 1951, R. F., 136, 114: “É o sistema da nossa lei civil, cuja
singularidade realça PONTES DE MxRANLA. Dá-se o mesmo se as disposições não são “sobre o seu enterro,
sobre esmolas de pouca monta a certas e determinadas pessoas”, ou “aos pobres de certo lugar”, ou de “legado de
móveis, rouipas, ou jóias, não mui valiosas, de seu uso pessoal”; 5~a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Distrito Federal, 21 de maio de 1948, R. F., 133, 447, e R. dos T., 185, 417: “. . . os juristas, dentre outros
sobrelevando PONTES DE MIRANtA, têm entendido tratar-se de coisas não
excedentes de um vigésimo do valor do monte, suprida, assim, pela doutrina, a deficiência da ‘lei, que silenciou
quanto à proporção aritmética interpretativa ou fixadora do conceito de pouca monta. No caso dos autos não se
provou ter o de cuius deixado outros bens. Como um codicilo, o apelante só teria direito aos bens que pretende,
se demonstrado que efetivamente representam eles um vigésimo do valor do monte-mor. É paralelamente o
mesmo critério para a doação manual, a que alude o parágrafo único do art. 1.168 do Código Civil, onde a noção
de pequeno valor é condicionada ao que possuir o doador. Ao que tudo indica, entretanto, os bens cor~stitutlvos
do codicilo representam tudo quanto o de cuius possuia, não sendo, assim, de pouca monta, em face do seu
pequeno patrimônio”; 1.a Câmara Civil do Tribunal de Apelacão de São Paulo, 22 de abril de 1946, R. dos T.,
1~4, 287, sobre falta de data).
No direito anterior, o codicilo podia fazer-se por escritura pública, isto é, em notas do oficial público. Diferia do
testamento em se não poder, nele, instituir herdeiro, substítuí-lo ou deserdá-lo, e em bastarem quatro
testemunhas, ou, nos lugares de pequena povoação, três (Ordenações Filipinas, Livro IV, Título 86, § § 1 e 2).
Hoje, o Código Civil, art. 1.651, só se refere ao codicilo “mediante escrito particular”. Pergunta-se: ~já se não
permite por instrumento público, ou cerrado, com aprovação do Tabelião? De qualquer modo, seria alitndans
cautela. Aliá, o próprio Código Civil, no art. 1.655, admitindo que seja fechado, cita o art. 1.644.
Resta saber se precisa ser hológrafo. Sim, ainda que cerrado, com aprovação. Se não for hológrafo, terá de ter
todas as solenidades do testamento cerrado. Mas, se públicO, <terá de ter o mesmo número de testemunhas que
os testamentos? Aqui, a holografia não é possível. O oficial público deve exigir as formalidades dos testamentos.
Se for nulo, responde civil e criminalmente.
Diz o art. 1.655 do Código Civil: “Se estiver fechado o codicilo, abrir-se-á do mesmo modo que o testamento
cerrado (art. 1.644) “.
No direito anterior, o codicilo seguia as três formas do testamento.
o art. 1.655 do Código Civil constitui reminiscência e diz que, sendo cerrado o codicilo, o juiz o abra, fazendo-o
registrar e arquivar no cartório a que tocar, ordenando que seja cumprido se lhe não achar vicio externo que o
torne suspeito de nulidade, ou de falsidade (art. 1.644).
O Código de 1973, no art. 1.134, IV, faz aplicáveis as regras juridicas do testamento particular em se tratando de
codicilo. Mas havemos de entender que, se o codicilo é cerrado, tem-se de atender ao que se dispõe nas regras
juridicas sobre testamento cerrado (arts. 1.125-1.129).

6)PROCEDIMENTO DE DIREITO MATERIAL. O testamento do art. 1.661 do Código Civil é simplificação


do testamento cerrado ordinário, ou particular, aberto, com a notação do auditor ou oficial. Se o testador, ao
escrever o testamento e ao levar ao auditor, com as duas testemunhas, que o leram, ou, pelo menos, sabem a que
iam, for ferido e morrer, ou, já antes ferido, morrer, deve o juiz inquiri-las e mandar cumpri-lo, uma vez que o
art. 1.663 permite a nuncupação. Por isso mesmo, no art. 1.662, está referido, como em contraposição ao
testamento do art. 1.661, o que se compõe de instrumento do art. 1.661 com as formalidades do parágrafo único.
Aquele, sujeito ao prazo do art. 1.662; esse, não. Quanto ao art. 1.662, como a respeito do art. 1.658, a vitaildade
do testamento é curta: o mesmo prazo de três meses. Salvo se for da espécie do art. 1.661, acrescentado das
formalidades do art. 1.661, parágrafo único. Portanto, podemos dizer que o testamento do art. 1.661, parágrafo
único, constitui forma Qrdinaria, no tocante à durabilidade. Apenas, para ser feito é que se lhe exige a
legitimação do art. 1.660. A caducidade concerne: (a) Ao testamento escrito pelo chefe militar (artigo 1.660, §
1.0). (b) Ao testamento escrito pelo oficial de saúde ou pelo diretor do estabelecimento (art. 1.660, § 2Y).
(c) Ao testamento escrito, datado e assinado pelo testador, aberto ou cerrado, entregue ao superior (art. 1.661).
(cl) Ao testamento nuncupativo do art. 1.663. O prazo, nos casos das letras (a), (b) e (c), é o de três meses,
contados de Quando o testador chegou a lugar onde podia testar na forma ordinária. Claro que, no caso de
permanência em terra estranha, neo se conta o prazo: o militar não testa pela lex loci do Estado adversário. No
caso da letra (cl), o prazo é incerto:
se o testador morrer na guerra, é eficaz; não no é, se convalesce o testador. A caducidade não concerne ao
testamento do art. 1.661, com as formalidades do parágrafo único.

7) NATUREZA DA sENTENÇA. A sentença, em tais casos, é integrativa da forma, não . da declaração de


vontade do testador. Nem, sequer, o elemento declarativo da sentença chega, aí (ainda nos casos dos testamentos
notariais), a fazer declarativa a sentença, que é meramente constitutiva (integrativa da forma). Tambem é contra
os princípios dizer-se que a sentença é o “original do testamento” (J. M. DE CARVALHO SANTOS, Código,
VI, 256; ODILoN DE ANLEADE, Comentários, VII, 90). Ninguém diz que a sentença que me manda pagar x,
por ter havido contrato verbal, é o original do contrato. As sentenças constitutivas não são “originais”, salvo
quando a cooperação judicial não se limita à forma, isto é, traz consigo declaração de vontade da autoridade (e.
g., sentença de suplemento judicial de idade). Porque não é declarativa, a sentença do juiz, no processo da Seção
II (testamento particular) que é o do testamento militar, não tem força de coisa julgada material. Porque não é
constitutiva com elemento de vontade da autoridade, a ação de nulidade de testamento pode atacá-la em seu todo,
para que só prevaleça o que o testador declarou. O que foi posto pelo juiz, como revestimento formal da parede
testamentária, cai, quando cai a parede mesma. Todo elemento judicial integrativo cal, caindo o elemento
negocial a que se juntou.

8)IMPUGNAÇÃO E RITO ORDINÁRIO . Havendo impugnação, a função do juiz não é mais somente a de
integração da forma, ele vai decidir sobre a demanda de nulidade do testamento ou das suas disposições. A
sentença tem força constitutiva negativa, de cognição completa, se a sentença negar o cumpra-se.
Há a questão de poder, ou não, ser intentada ação de nulidade do testamento, ou das disposições, todas, algumas,
ou urna delas, se há litispendência da ação do art. 1.134 ou eficácia da sentença nela proferida, impedindo
rediscussão e julgamento noutro processo. A resposta é negativa, porque a Impugnação somente concerne às
afirmações de que o testamento obedeceu às formalidades legais e de que as suas disposições devem ser
cumpridas por terem sido feitas e serem eficazes. Não há dúvida que alguma ou algumas disposições podem ser
negadas (afirmação de que não foram feitas) ou ter de ser decidida a questão do perfeito juizo do testador, e se
foi levantada, mas cabe a regra de que somente nos limites do pedido e do julgado se pode pensar em
litispendência e força específica da sentença.

SEÇÃO IV

Da execução dos testamentos 1)2)3)


1) TESTAMENTÁRIA . O Código Civil deixou à doutrina a construção da testamentaria. Não há teoria legal. O
mesmo sucedeu com o Código Civil alemão (F. RITGEN, em G. PLANCK,
EXECUÇXO DOS TESTAMENTOS (ARTS. 1.135-1.141) urg3rlich.es Gesetzbuch, V, 381). Porém, aqui como
lá, só a natureza de cargo especial, mais do que a incumbência do mandatário, mais do que a do legatário com
encargo (modas) e menos do que a função do juiz arbitral, se pode atribuir à testamentaria. Ainda assim, vemos
KONRAD CosAc~ (Lehrbuch, II, § 395) e EaNs’r JARGER (Erbenhczftung, 40, nota 14) considerarem o
testamenteiro representante do herdeiro com relação à herança, FRIEDRICH ENI~EMANN (Lehrbuch, III, § 52)
recorrer às relações jurídicas fiduciárias, BRETTNER (Der Testamentsvoilstrecker, Archiv fur Biirgerliches
Recht, 17, 227) tê-lo ~por mero representante legal dos herdeiros, com particularidades de função, F. SEOKr
(Be:itrag, 54 e 82), como orgão dos interesses juridicamente reconhecidos do testador, ADCLF WEISsLER (Das
deutsche Nachlassverfahren, 179-180), como órgão de justiça preventiva (conceito digno de atenção),
A.SrURM (Die Lehre von den Testamen-tsvollstreckern, 26, 59, 73) distinguir na sua teoria do instituto a
representação da herança e a administração de bens alheios, processo a que não se pode negar o valor de certa
análise das relações, K. HELLWIG (Lehrbuch, 1, 301) socorrer-se da representação do património autônomo,
EMIL MEISCEEIDER (Die letztwiUigen Verfungungen, 464) voltar à teoria de GEORG BESELER. JAKOB
WEI5MANN (Lehrbuch, 1, 74) seguiu a KONRAD . Seguro ao fio histórico, ALFRED SCHULTZE
(Treuhãnder, Jherings Jahr~ucher, 43, 64 s.) considera o Treuhander titular de limitado direito real, conforme os
velhos negócios jurídicos longobardos, que eram caracteristicamente fiduciários.
No Código Civil suíço também não se adotou expressa-mente uma teoria (A. ESCEER, no Kammentar, de
AUGUST EGGER, III, 105). Vemos aceita a do testamenteiro com direito próçrio, como assentavam alguns
(ERNsT Ecic-R. LEONHARD, Vortrage, III, 144), exercendo ele direito real sotre a herança (ALFREL
SCHULTZE, Die langobardische Treuhand, 73); portanto a teoria fiduciária (PETER Tuon, no Kommentar de
GMÚR, III, 363; AUGU5T Esci~, 106). No Exposé des Mohfs escreveu-se: “Si cela était nécessaire, nous
n’hésiterions pas à le définir dans la loi, en disant que l’exécuteur testamentaire est le représentant ou l’honime
de conf lance (Treuhander) du disposant”.
No direito brasileiro, à semelhança do direito inglês, do alemão, etc., a testamentaria é um cargo, privado, se
quiserem, mas, irrecusavelmente, cargo. Adotam opinião demasiado simplista, e sem fundamento histórico ou
científico, aqueles que (J. A. FERREIRA ALvEs, Manual, 19, 413; F. DE P. LACERDA DE ALMEIDA,
Sucessões, 467), na esteira do velho FURGOLE e de MZRLIN, a consideram mandato. Se fosse mandatário do
testador, não se explicaria o testamenteiro dativo. Dativo, seria absurdo considerar-se mandante ao juiz. É um
munus, um cargo, e o testamenteiro um funcionário privado. Por isso mesmo, não está adstrito à vontade de
outrem, que lhe dê instruções. Nomeado pelo juiz, se dele discorda, pode agravar, apelar, representar. Tem
função autônoma e arbítrio no cumprimento do seu dever. Obrigado ao que se’ julga e ê~ leis, ele o é, como todo
o mundo.
Em verdade, o testamenteiro exerce as suas funções em seu pn5prio nome, com fundamento no amparo e na
execução das últimas vontades do testador, segundo a lei. Nem representa o testador: não se representam mortos.
Nem os herdeiros: pois que pugna contra eles (KoN~ HELLWIG, Anspruch und Klagrecht, 74 e 236). Nem se
poderia aludir à testamentaria como espécie de pessoa jurídica, de corporação, de que o testamenteiro fosse o
representante: tal escapatória doutrinária de KoNB~ HELLWIG (74) não consulta os antecedentes germânicos do
instituto, como deles se afasta a representação da herança proposta por HEINRICH DERNBURG (Lehrbuch. III,
§ 164; Fandekten, III, § 124). Nem os mais recentes Códigos europeus, nem o brasileiro, cogitam de outras
pessoas jurídicas que as vulgarmente reconhecíveis,União, Estados-membros, Municípios, sociedades e
associações , fundações.
Devido à natureza do seu cargo, chama-se, após o cônjuge e os herdeiros, à administração da herança, aquele que
exerce a testamentaria. Se não lhe cabe a inventariança, pode ele intervir, com seus ofícios, petições , recursos,
em tudo quanto, no inventário, possa interessar à execução testamentária. Exerce as suas funções suo nomine
(KoI.TxAi HELLWIG, Lehrbuch, 1, 301), quiçá contra todos os herdeiros e legatários. Por isso mesmo, deve
ser citado nas ações contra o espólio e pouco importa, na espécie, que tenham sido citados todos os herdeiros e o
inventariante. Não representa os herdeiros. Se a causa foi proposta em vida do testador e, depois, se chamaram a
juízo os outros interessados, também ele o deve ser: não representa o morto. Obra suo nomine, dissemos; com
deveres, é certo, mas separadamente, autônomo, como quem quer que exerça cargo de que só se demite com
provas de mau proceder. Afirmar-se que obra por si, que exerce as suas funções suo nomine, é o bastante.
Apurar a verdadeira origem do cargo de testamenteiro é mais valioso do que, no vulgar, se crê. Sabendo-se,
evita-se falar em mandato, em representação dos herdeiros ou da herança e quejandas impropriedades, com que
se não compadece a lição histórica. Quando o 1 Projeto alemão falou em representante legal do herdeiro (§
1.903), todos sabemos quais as críticas que irromperam na II Comissão e no ‘Congresso dos Juristas Alemães.
Daí a compreensível irritação de ALFRED SCHULIZE (Treuhãnder, Jherings Jahrbuch,er, 43, 65) contra
GOLEFELE (Vortrag, Deutsche Jur~sten-Zeitung, 1, 256), J. PETERSEN-E. ANGER (Die
Civiiprozessorclnung, §§ 50 5.), e os poucos que insistiram nas erronias de mandato e de representação. Diz-nos
a história que a execução testamentária surgiu, cresceu, ganhou em precisão, exatamente contra a vontade e o
interesse dos herdeiros. Primeira consequência;é absurdo falar-se de representação ou de mandato deles. Como
tem frisou GUSTAV HARTMA!~N, no 21.0 Congresso dos Juristas Alemães, a testamentaria contradiz a
essência da representação (Verhandl., 1, 8 5.). Ainda hoje, constitui um dos fins precípuos do testamento tal
vigilância, por vezes compressão dos interesses dos herdeiros, talvez necessários (Código Civil, art. 1.723), pela
vontade do testador. Mais ainda: catem ao testamenteiro funções que o herdeiro não poderia exercer por si,
menos ainda delegá-las, ou fazer-se nelas representar. Pode exercê-las quando, cabeça de casal, ou herdeiro, além
dz,sso, assumir o posto da testamentaria.

Sociologicamente, a concepção da testamentaria como espécie de tutela (GEORG BESELER, Die Lehre von den
Erbvertragen, 173; “Executores ultimarum voluntatum tutoribus aequiparantur”) denuncia a impressão deixada
aos antigos germanos pela autonomia do testamenteiro em relação aos herdeiros. Impressão, e nada mais. A
outra, a do mandato, ccnstituiu romanismc; portanto, noção estranha ao instituto. A idéia de representação, do
direito canônico (c. 19, X, 3, 26), não satisfaz às exigências históricas. De todas, a mais extravagante é a do
mandato. Nos documentos medievos e pós-medievos, em que se fala de mandatum, os textos de si só provam que
testamentaria não é mandato (Au~RRI SVHULTZE, Treuhãnder, Jherings Jahrbiicher, 43, 60; R. CAILLEMER,
Origines, 130 s.; M. ROBERTI, Le Origini dell’Esecutore testameutarjo, 138 e 226). Ainda hoje, no Brasil, se
adjudicam os bens ao testamenteiro, e ele, indicando, na nota de transcrição, a relação de sucessão entre o decujo
e o beneficiado, procede à transmissão real. Hoje, como outrora, faz o registro dos bens do falecido, vice sua,
mas em virtude de direito próprio (ALFRED SCHULTZE, 62; R. CAILLEMER, 145 s.). Exerce ações de
posse contra o herdeiro legítimo e o testamentário; imite-se na posse, antes de os herdeiros receberem a herança,
como se vê em ROLANEINUS DE PAssAGERIUs (Fios Testamentorum,257). Nas mais puras fontes, o
testamenteiro tem direito real limitado, é um senhor ad tem pus. (G. MESsINA, Negozii Jiduciarti, 202 s.,
sustentou teoria, mais doutrinária que histórico-técnica, da propriedade resolutivamente condicionada.) O gênio
dos tempos modernos fundiu o elemento romano e o elemento germânico-medieval, que resultaram no
testamenteiro, algo de oposto aos herdeiros legítimos, aos testamentários, a todos, como portador da fidúcia do
defunto. Daí a separação integral que o direito romano não conheceu, esse direito romano, que tanto pensara,
meditara, e aplicara os testamentos. A Igreja encheu, com o que era seu, o instituto bárbaro, deu-lhe um pouco da
sua política econômica pertinaz e sutil. Resultou a testamentaria, função de cujo bom cumprimento se pode
concluir sobre o caráter dos povos. Pense-se no povo inglês e nos outros nórdicos. Sem o estudo da filiação
histórica, não se poderá compreender a situação do testamenteiro, em relação aos bens da herança. Limitado,
exíguo. nem por isso perde o caráter de erga omnes o seu direito, embora se desvista da antiga realidade. Toda
idéia de representação e de mandato constitui superfetação, sociologicamente inadmissível (C. F. KccH, Das
preussische Erbrecht, 339, 360; OTTO FI5CHER, Recht und Rechtsschutz, nota 2; EMIL STRCHAL, Das
deutsche Erbrecht, § 40, 164; G. FROMMHOLD, Erbrecht, nota 1 ao § 2.212; R. SCHCTT, Armenrecht, 64).
OTTO FISCEER caracterizou-o: disponente de bens alheios, sem ser representante. JOSEF KOHLER
(Gesammelte Beitrage, 347) é igualmente expressivo: “o que obra em próprio nome, porém com poder jurídico
sobre bens de terceiro”. NãO menos decisiva fora a jurisprudência (Reichsger., 26 de janeiro de 1894). No direito
europeu (como no Brasil, herdeiro do instituto), cogita-se de cargo, e a idéia de representação só poderá intervir
com o caráter especialissimo dos funcionários, dos eleitos do povo, e outros que exercem cargos. Na espécie,
particular, privado; mas isso longe está de transformá-lo em mandato,ou, sequer, de identificar o testamenteiro
com as pessoas que assistem a incapazes. É um cargo que se rege pelo direito privado (ALERED SCHULTZE,
Treuhãnder, Jherrngs Jahrbucher, 43, 83), porém mais próximo dos funcionários públicos, a serviço da justiça,
do que dos mandatários (GusTAv HARTMANN, 21 d. Juristentag, 1, 13; ALGIa’ WEISSLER, Das deutsche
Nachlassverfahren~, 176; ERNST JAEGER, Erbenhaftung, 40 5.).

2)TOMArA tE CONTAS. A regra é que se tomem as contas findo o prazo da execução testamentária. Mas, com
a lição de outrora, deve o juiz deferir a intimação para as prestar~ (a) se o testamenteiro quer deixar o cargo; (b)
se quer ausentar-se; (e) se se tornou suspeito. Segundo alguns que interpretaram as Ordenações Filipinas, Livro
1, Titulo 62, § 12, podia ser desde logo interinamente removido (J. A. FERREIRA ALVEs, Consolidação, §
187), até que se lhe apurasse a culpa e fosse privado da testamentaria e do prêmio ou cômodo que lhe deixou o
testador. Mas tal remoção interina não se justifica. Antes do tempo, tomam-se as contas dos testamenteiros, se
eles próprios o requerem, ou nos casos acima, e toda remoção é definitiva.
3) PRAZO PARA CUMPRIR O TESTAMENTO E PERDA DO PREMIO.
Trata-se de um dos casos em que perde’ o prêmio o testamenteiro. Se, chamado a prestar contas, sob a
cominação de tomada à revelia, apresentadas pelo autor, não comparece a juízo, deve o juiz removê-lo e decretar
a perda do prêmio:
é consequência da desatenção ao mandado. A cominação entende-se feita com a assinação de prazo. Se
comparece e fica provada a negligência, a prevaricação, ou lhe são glosadas as despesas por ilegalidade, ou não-
conformidade com o testamento, remove-se o testamenteiro, perdendo o prêmio. Se, ainda depois de prestadas as
contas, e recebido o prêmio, o testamenteiro deixa de defender a validade do testamento,ou é negligente ou
prevaricador no desempenho da sua função, deve ser condenado à restituição do que recebeu ou de parte. Em
todos esses casos, o prêmio reverte á herança. Isso há de ser interpretado de acordo com as realidades: (1) se for
nomeado outro testamenteiro, ou assumir o cargo o imediato designado pelo testador, terá direito à paga dos
serviços que prestar (pode não ser o mesmo prêmio, se o testamento já está, em parte, cumprido; talvez todo,
como se dá nos casos de perda total posterior à prestação de contas pelo testamenteiro anterior); (2) se havia mais
de um, e o ato causador da. pena resultou de culpa exclusiva do condenado à perda do prêmio, a apreciação de
quanto deve ser diminuído importa apreciação prévia dos serviços do que continua nas funções. O prêmio tirado
ao testamenteiro não exclui a paga de prêmio ao novo testamenteiro, ainda quando, perdido aquele, não possa a
herança reavê-lo. Os serviços do novo executor nada têm com a situação de débito ou de culpa do removido.

Art. 1 . 135. O testamenteiro devera cumprir4) as disposições testamentárias no prazo legal 1) 2), se outro não
tiver sido assinada pelo testador 3) 5) e prestar contas, no juízo do inventário, do que recebeu e despendeu6).
Parágrafo único. Será ineficaz a disposição testamentária que eximir o testamenteiro da obrigação de prestar
contas 7) 8) 9)•

1) PRAzO LEGAL PARA CUMPRIR AS DISPOSIÇ3ES TESTAMENTÁRIAS . Ou o testador assinou o


prazo .para o testamenteiro cumprir o que, pela função, lhe incumbe, ou não o assinou.
O prazo legal estava no Código Civil de 1916, art. 1.762: “Não concedendo o testador prazo maior, cumprirá o
testamenteiro o testamento e prestará contas no lapso de um ano, contado da aceitação da testamentaria”. E no
parágrafo único: “Pode esse prazo prorrogar-se, porêm , ocorrendo motivo cabal”. O prazo ficou reduzido a seis
meses pelo Código de Processo Civil de 1939, art. 544, ~ 2.0: “Se o testador não houver marcado tempo para
cumprir-se o testamento, será de seis meses o prazo contado da data da aceitação da testamentaria”. Agora, o
Código de 1973, art. 1.135, fala de “prazo legal”, sem o fixar. A interpretação que temos de dar às ocorrências é
que o legislador de 1973 considerou de direito civil a matéria e deixou volver ao sistema jurídico o texto do
Código CiviL Tínhamos reprovado a derrogação do texto de direito material pelo Código de 1939. Daí
escrevemos (Comentários ao Código de 1939, Tomo VII, 2.~ ed., 271): “Sem explicação, muito menos
justificativa, a lei processual der-rogou o Código Civil (ari. 1.762), que marcava um ano para o cumprimento.
Esperamos que legisladores futuros, conhecedores da distinção entre direito material e direito formal, capazes de
segui-lo e cônscios da sua utilidade prática, além de teórica, dêem ao Código Civil o que é do Código Civil”.
A principal consequência do Código Civil, art. 1.762, é a de não haver execução testamentária por tempo
indefinido. Primeiro, procura-se saber se há prazo fixado ou subentendido pelo testador. Onde o há, deve
respeitar-se. Os herdeiros necessários e o cônjuge meeiro, que o reputar demasiado longo, não podem atacá-la.
Inventário e execução testamentária são coisas distintas; o inventário deve ultimar-se nos três meses do art.
1.770, a testamentaria no prazo que lhe deu o testador ou no legal, de modo que não há nenhuma possibilidade de
se ferirem, com os prazos amplos ao testamenteiro, os direitos dos herdeiros necessários ou do cônjuge (cp. arts.
1.579, 1.754, 1.770 e 1.754, parágrafo único).
O testador é o máximo e único interessado na fixação do prazo para a execução testamentária: os herdeiros
testamentários, por definição ex testamento, não têm direitos que
não sejam os que o testador lhes deu, e o testador podia, livremente, exclui-los. Tão amplo era o seu poder, tão
perfeita a sua livre disposição, que, em relação aos herdeiros legítimos, para os excluir, Lastaria dispor de todo o
patrimônio sem os contemplar (art. 1.725). Quanto ao que o art. 1.726 chama “remanescente”, também deriva do
testamento a herança:
“entender-se-á”, diz a lei, “que instituiu os herdeiros legitimos no remanescente”. Se ocorre que o testador
instituiu herdeiros aos descendentes e ascendentes, que o são necessários (arts. 1.603-1.619 e 1.721), ou pelos
mencionar, ou por não ter disposto da metade disponível, tais herdeiros necessários não podem opor-se aos
prazos da testamentaria, nem às atribuições do testamenteiro. A metade indisponível, esta sim, transmite-se desde
logo, e não pode sofrer as restrições do art. 1.754. As únicas restrições que os bens de tais herdeiros podem sofrer
são as do art. 1.723.
Se o testador não fixou prazo para o cumprimento das suas últimas vontades, estatui a lei que seja,
presumidamente, o de um ano. Mas não se lhe exigiu dilatação expressa do prazo: pode resultar, por
interpretação, de verbas testamentárias. Exemplo disso é determinar ele que os impostos sejam pagos com as
rendas, mas estas n~o darem para o cumprimento no limite legal. Aqui, cabe distinguir: dilatação propriamente
dita, como se disse “paguem-se os impostos com as rendas dos três primeiros anos”, o que faz presumir prazo de
quatro; é dilatação não resultante de direito dizer do testador, mas de circunstâncias criadas pelas verbas, e neste
caso apreciada pelo juízo em processo de prorrogação de prazo.
Dentro dos prazos hão de ser cumpridas as verbas e prestadas as contas.
No Código Civil, art. 1.754, parágrafo. único, diz-se que, tendo o testamenteiro a posse e a administração,
qualquer herdeiro pode requerer ~partilha imediata ou devolução da herança, habilitando o testamenteiro com os
meios necessários para o cumprimento dos legados, ou dando caução de prestá-los. Mas verdade é que o
testamenteiro pode ter prazo fixado pelo testador para cumprimento do testamento, quer quanto a encargos, quer
quanto a legados, quer quanto às próprias heranças. Claro que, nesses casos, a partilha imediata e a entrega
infringiriam a vontade do testador. O herdeiro ex testamento não tem direitos contra o testamento. Nas espécies
que imaginamos, o requerimento do art. 1.754, parágrafo único, chocar-se-ia com os arts. 1.761 e 1.762, e 05
princípios gerais de sucessão testamentária.

(Cumpre não ligar o art. 1.754, parágrafo único, à vexata quaestio do art. 1.665: uma coisa é o começar e cessar
da existência de um direito, e outra, o começar e cessar o seu exercício. Sobre quais as disposições que, em
virtude do artigo 1.665, se hão de reputar não-escritas, já dissertamos.)

O prazo de um ano ou mais para cumprir não inibe a aplicação do art. 1.690: o art. 1.762 trata da prestação de
contas, isto é, execução de todo o testamento; não cogita do direito dos legatários (TEIXEIRA DE FREITAs,
Tratado de Testamentos e Sucessões de A. J. GOUVEIA PINTO, notas 273, 244).

2)CONTAGEM DO PRAZO PARA SE CUMPRIR O TESTAMENTO E SE PRESTAREM CONTAS. Fixado


pelo testador, ou pela lei, o prazo corre desde o dia em que o testamenteiro aceitou.

Conforme veremos na nota 5), a solução, que se impunha à écnica legislativa, foi a que se acolheu no sistema
jurídico brasileiro. Não se poderia deixar de atender às circunstâncias que aí se prevêem. As duas funções, a de
inventariança e a e testamentaria, são diferentes; mas pode ocorrer, e isso muito acontece, que a mesma pessoa as
tenha de exercer. As faltas podem ser do Inventariante ou do testamenteiro, se são duas as pessoas que têm de
funcionar, e tudo se há de resolver com a apuração da culpa. Se houve substituições, também é de levar-se em
consideração que não se há de culpar quem culpado não foi, nem se há de menosprezar os critérios para a
atividade e os prazos.

A nota 5) contém o que é necessário para se respeitar a eficácia da regra legal ou a da cláusula testamentária. O
art. 1.127, parágrafo único, é de relevância; bem assim, o art. 1.135 e o art. 1.137, sobre deveres do
testamenteiro.

3) DE DOIS PRAZOS. Se o testador permitiu prazo maior de um ano, dizendo: “cumprirá no segundo, se não
for possível no primeiro ano”, ou “marco um ano e, se for preciso, dois”, os testamenteiros só têm tal dilatação se
mostrarem que, no primeiro, empregaram toda a diligência (TEIXEIRA DE FREITAS, Consolidação das Leis
Civis, art. 1.105; Tratado dos Testamentos, IV, 245). Se o contrário se der, devem ser removidos, por ser essa a
vontade do testador.

4)PRORROGAÇÃO DO PRAZO PARA CUMPRIMEI4TO. A regra é constituir causa suficiente para remoção
dos testamenteiros o não terem cumprido o testamento, ou não terem prestado as contas dentro do prazo que o
testador ou a lei fixou. A brevidade da execução dos testamentos interessa ao bem público (Alvará de 2 de
outubro de 1811). Se o não cumpriram e não prestaram as contas, ou são removidos, ou, provado impedimento
legitimo, se lhes há de prorrogar o prazo. São motivos cabais ou justas causas para a prorrogação: (a) Litigio
sobre os bens da herança, salvo chicana ou outra culpa
do testamenteiro. (b) Impossibilidade de cumprimento por dificuldade de liquidação ou de entrega, exceto se há
culpa, mora ou negligência dos testamenteiros (cf. Ordenações Filipinas, Livro 1, Titulo 62, § § 2, 17; Decreto n.
834, de 2 de outubro de 1851, art. 34, § 1.0). Os juizes em correção podem revogar as prorrogações concebidas
sem justa causa (cf. Decreto n. 834, art. 34, § 1.0), se tal atribuição consta da lei de organização judiciária. A
construção jurídica, em tal caso, seria a de não passar formalmente em julgado ~ resolução judicial que prorroga.
No caso de falência da sucessão, não terminam as funções do testamenteiro, suspendem-se, de fato e de direito,
para tudo quanto se refira à administração dos bens e pagamento dos credores. O testamenteiro pode pedir a
abertura da falência. No que escapa à falência, a função continua.

5)PRAzO MARCADO PELO TESTADOR. Fixado pelo testador, o prazo corre conforme o marcou o
testamento. Se não foi Indicado por ele o dia do início do prazo, ou se o prazo é da lei, por tê-lo deixado de fixar
o testador, corre desde que o nomeado aceitou, excluido esse dia. Portanto: a) no caso de só ter ciência
tardiamente, ainda depois de seis meses da abertura, corre do dia em que compareceu a juízo para aceitar a
testamentaria; b) tendo declarado aceitar, porém, por culpa sua, não tendo assinado o compromisso, ou não tendo
exercido as funções, desde o dia em que aceitou: não devia cindir aceitação e funções; c) sucedendo a outro, o
prazo corre de novo, exceto se o testador previu a espécie, ou se, ao aceitar a testamentária já em parte
executada, lhe foi fixado pelo juiz prazo especial. Se o Inventário compete a outrem e ainda não foram, sem
culpa do testamenteiro, entregues os bens ou recursos para a função que lhe cabe, não pode ser Increpado de
mora. A esse respeito, a Corte de
Apelação do Distrito Federal (30 de outubro de 1919) entendeu que a atribuição~specífica do testamenteiro não
começa da abertura do inventário, e sim do julgamento da partilha, em virtude da qual recebe do inventariante os
bens que bastem para cumprir o testamento. Não está certo. Confunde-se o curso do prazo com as razões de
escusa, defluir de tempo com o correr sem culpa. O prazo corre desde a aceitação; por isso mesmo, esgotado,
precisa prorrogar-se, alegado e provado o motivo cabal, e a “culpa de outrem” (na especie, o inventariante) é um
desses motivos.

6)INTERPRETAÇÃO DE DISPOSIÇÕES TESTAMENTÁRIAS Da ecisão que interpreta verba testamentária


cabe o recurso de apelação. Trata-se de decisão declarativa, porque versa, necessariamente, sobre a afirmação ou
negação da existência de relação jurídica. Quanto ao recurso de apelação, a jurisprudência é assente (6.a Câmara
Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, 17 de outubro de 1947, R. F., 120, 471; 2.~ Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1947).

7) PRESTAÇÃO DE CONTAS, “IUS COGENS”. Regra de direito material, pois que diz respeito à validade de
disposição testamentária. Heteretópica, no Código de 1973, art. 1.135, parágrafo único, como no de 1939, art.
550, a regra jurídica. As Ordenações Filipinas, Livro 1, Título 62, § 4 e pr., eram no mesmo sentido. A doutrina
assim entendia o art. 1.757 do Código Civil (nosso Tratado dos Testamentos, V, 2224 233). É também nula e
ineficaz a cláusula testamentária que exima o testamenteiro de inventariar (se tem a posse e administração), de
administrar com os deveres legais de administrador, da responsabilidade pelo não-cumprimento de qualquer das
verbas testamentárias, salvo se Ineficazes essas, passada em julgado a decisão do juiz.

8)INDELEGABILIDADE LA TESTAMENTARIA. Outrossim, são nulas e ineficazes as disposições que


permitam a delegação da testamentaria, ou não-responsabilidade pela ração do art. 1.764, ou do art. 1.765 do
Código Civil.

9)SOBRAS. As vezes, no testamento, há mais bens do que os que são necessários para o cumprimento das
últimas vontades. De tais sobras cogitou a lei (Código Civil, art. 1.726). Mas, se o testador disse: “fica o
testamenteiro sem qualquer responsabilidade pelo que sobrar da execução do testamento”, vale a disposição. No
Brasil, pelos princípios de direito que regem a testamentaria e o direito de testar. Igualmente, se o testador lhe
permite quaisquer contratos consigo mesmo, vale a disposição. Salvo: se contra os princípios de moral ou se
viola principio de lei. Os poderes devem resultar dos termos do testamento, na parte que permite e na parte que
institui herdeiros ou deixa legados, encargos, etc. Nos países em que os notários têm missão de exercer
testamentaria, o Estado não responde pelos atos que eles praticarem, nem pelas indevidas transferências do
cargo. Mas o Estado responde sempre, subsidiariamente, pelos danos que resultarem da negligência, ou culpa
grave do órgão do Ministério Público, que concordou com as contas.
Art. 1.136. Se dentro de três (3) meses, contados do registro do testamento, não es~ tiver inscrita a hipoteca
legal 1) da mulher casada, do menor e do interdito instituidos herdeiros ou legatários, o testamenteiro requerer-
lhe-ei a inscrição, sem a qual não se haverão por cumpridas as disposições do testamento2).

1)INSCRIÇÃO DE HIPOTECA LEGAL. Fonte: Decreto n.370, de 2 de maio de 1890, arts. 174, 187. O Código
Civil somente cogitou da hipoteca legal dos incapazes (ad. 340, II). Só ao marido e ao pai atribuiu o dever
(Código Civil, art. 839). Está claro que nenhuma derrogação se operou: a Inscrição da hipoteca legal da mulher
casada, no que concerne ao ad. 1.136, é nos sós casos de execução de disposição testamentária que a suscita (não
em geral), e dela não precisava falar o Código Civil como dever do testamenteiro. Os dois textos estão certos.
Exemplo: se o testador deixa à filha bens inalienáveis, permitindo a administração pelo marido.

2) A INscRIÇÃo. O Código Civil, art. 840, II, diz que o testamenteiro deve requerer a inscrição antes de
entregar o legado, ou a herança. Tal a regra de direito material. Como o Código de 1939, art. 545, o de 1973, na
estrada do Decreto n. 370, manda que o faça dentro de três meses após o registro do testamento. Não há a
contradição que os comentadores apontavam: dentro dos três meses após o registro e antes de entregar o legado
ou a herança. O primeiro prazo supõe que o marido ou o pai tenha requerido a Inscrição, ou o próprio
testamenteiro; se não ocorreu tal, o Código ordena que o requeira o testamenteiro. Enquanto o não faz, as
disposições testamentárias não se reputam cumpridas, com todas as consequências que advêm ao testamenteiro
de não as haver cumprido dentro do prazo.
O testamenteiro tem de requerer a inscrição da hipoteca legal antes da entrega dos bens herdados ou legados a
mulher casada, a menor ou a interdito, se a hipoteca legal não fora inscrita nos três meses, contados do registro
do testamento. A data posterior é para que ao testamenteiro incumba a missão. O marido, o pai ou tutor ou
curador pode alegar que ainda não se sabe quais são os bens que correspondem à herança ou ao legado, ou qual o
valor deles, razão para ainda não poder apontar os seus bens que legalmente se hipotequem. Não devemos
interpretar o ad. 1.136 como se contivesse a. ressalva, que alguns comentadores do Código Civil e do Código de
Processo Civil entendiam, de só haver a obrigação do testamenteiro se se apontarem e avaliarem os bens. A data
para requerer é a imediata aos três meses, contados do registro do testamento, se não foi inscrita a hipoteca legaL
O dever do testamenteiro é de direito material (Código Civil, art. 840, II), e não só de direito processual.

Árt. 1 . 137. Incumbe ao testamenteiro ‘):

1 cumprir as obrigações do testamento 4);


II propugnar a validade do testamento2) 3) 5);
III defender a posse dos bens da herança 11);
IV requerer ao juiz que lhe conceda os meio necessários 6) 7) para cumprir as disposições testamentárias 8).
lo).

1)FUNÇÃO DO TESTAMENTEIRO E DEVERES. O testamenteiro exerce o seu cargo sem representar o


decujo, ou a herança, ou os herdeiros, ou co-interessados: de direito próprio e por força da última vontade do
testador e da lei, ou só da lei, para cumprimento das últimas vontades de alguém. É autorizado a todos os atos
que sejam prática e juridicamente necessários para a execução do testamento. Para isso, pode receber um bem,
em adjudicação judicial, e ele mesmo dar a nota ao oficial de registro para transferir, diretamente, no nome do
herdeiro, ou legatário. A transcrição há de ser do cálculo julgado mais a verba testamentária que vai cumprir,
com os esclarecimentos que ele, pra pro nomine, pode prestar.
Há transferência a ele, fiduciária; não paga impostos; nem precisa ela de registro, porque a testamentaria é cargo.
Nas discussões de direito, dentro da porção legítima, na qualidade de testamenteiro não precisa ser ouvido (Orro
WAENEYER, Komment ar, II, 1186); nem é legitimado a isso. Aliter, se a discussão envolve a de se saber se o
testador excedeu, ou não, a parte disponível.

Os deveres do testamenteiro não começam somente da aceitação do cargo. Essa, em verdade, é a regra. Casos há
em que, antes da aceitação, o testamenteiro teve conhecimento das disposições testamentárias, ou seja ~pela
nomeação e no momento dela, ou pela publicação (F. HEP.ZFELDER, J. v. Staudzn gera Kommentar, V, 673;
cp. EMIL MEISCEXIDER, Die letztwihzgen Verfiigungen, 470), ou pela notificação oficial (leitura na ocasião
de se abrir), ou, até, pela correspondência entre o testador e o testamenteiro, ou entre herdeiros e ele. Da ciência,
e não da aceitação, começam os deveres: quem vai aceitar um cargo, desde o momento em que principiam as
funções, deve velar por ele. Claro que isso não se dá se há nomeação com a condição suspensiva ou termo inicial.

2) AçõEs SOBRE EXISTÊNCIA , VALIDADE OU EFICÁCIA DE TESTAMENTO; MISSÃO DO


TESTAMENTEIRO. Nas ações negativas sobre a existência, validade ou eficácia do testamento e das
disposições testamentárias, o testamenteiro é réu ex se. O art. 12, V, que só se refere à representação da herança
pelo Inventariante, nada tem com essas ações. É direito e dever precípuo do testamenteiro pugnar peia existência,
validade e eficacia do testamento. Quem não está disposto a fazê-lo não pode continuar no cargo de
testamenteiro.

Quem tem de propugnar a existência, validade e eficácia do testamento não só é réu nas ações negativas, também
o tem de ser autor ou litisconsorte nas ações declarativas de existência e de eficácia.
Qualquer que seja o conteúdo, econômico ou não econômico, da disposição testamentária, tem o testamenteiro
de cumprir o seu dever. Tudo que está no testamento (desde que não constitua simples conselhos ou
recomendações aos herdeiros) e que lhe é pertinente, inclusive o que é matéria de testamento sobre as legítimas
(e. g., cláusula de inalienabilidade, partilha feita pelo testador). Certo, os meios para execução do testamento são
os da herança, e não os próprios. Se ocorre, por exemplo, o caso do art. 1.679 do Código Civil, duas qualidades
tem ele: a de testamenteiro e a de legatário. Mas, se o legatário em tais situações é outrem, cabem-lhe as medidas
para realizar o que o testador quis. De regra, a consequência do art. 1.679 do Código Civil não importa perda da
testamentaria. Porém isso pode resultar de vontade do testador (o que desloca para o terreno da interpretação o
problema sugerido). Se o testador disse: “nomeio testamenteiro A, que tem de cumprir tudo que consta do meu
testamento, inclusive ceder 100 ações da Companhia B para completar a legítima de meu filho C”, claro que,
nomeado, recusando-se a fazê-lo, não pode pretender a testamentaria. A aceitação não pode ser sob condição ou a
termo, mas à nomeação não se proíbem condições e termos. O testamenteiro deve executar as vontades do
testador, ainda contra o parecer unânime dos herdeiros. Se há divergência, recorre ele ao juiz. Se depende de
tempo, enquanto não for decidido, não deve executar, podendo, para que a espera não se dilate em demasia,
marcar prazo dos Interessados (E. CURTI-FORREi, Commentazre, 410), ou requerer ao juiz que o marque,
cientes aqueles a que Interessa o exame da existência ou da validade ou da eficácia ou da Interpretação. Pode
usar ações cominatórias.

3)DEVERES DO TESTAMENTEIRO A RESPEITO Do TESTAMENTO. O testamenteiro tem de pugnar pela


existência, validado e eficácia do testamento. Em consequencia disso, é parte
na ação declaratória (positiva ou negativa), na de nulidade ou de anulação e na declaratória de eficácia ou de
ineficácia do testamento e de qualquer das disposições nele contidas. É o réu principal (Tribunal de Justiça de
São Paulo, 2 de maio de 1892; errado, a 3 de junho de 1899). Têm de ser citados os herdeiros instituidos,
litisconsortes necessários, e o inventariante, salvo se a ação declaratória (positiva ou negativa) de existência, de
invalidade ou de eficácia ou ineficácia de disposição testamentária ou mesmo do testamento não implica, nem é
implicada, nem se cumulou com a ação de petição de herança.

Se o testamenteiro se persuade da inexistência, nulidade ou ineficácia do testamento, jquid jurís? No caso de


nulidade, T. HUC (Commentazre, VI, 461) entendia que, nessas circunstâncias, podia deixar de Intervir.
Portanto, cessava o dever de defesa do testamento. Sem razão. Ou esse testamenteiro, convicto do que alegou o
autor, requer a própria substituição; ou falta à defesa, e responde por todos os prejuízos que resultarem aos
herdeiros, legatários e mais beneficiados. A contuniâcia já é, de si só, motivo alegável pelos Interessados, ou
pelo órgão do Ministério Público, ou pelos demais testamenteiros nomeados no testamento, para se remover o
testamenteiro. No caso de ruptura, a responsabilidade do testamenteiro é inteira: a) se o testador previu a
alegação e lhe deu, ainda que implicitamente, a incumbência de defender; b) se com ele estão as provas, ou estão
a seu alcance, de que depende a aplicação do art. 1.750 ou 1.751 do Código Civil. Responde por todos os danos
se ficar provada a sua culpa na coisa julgada da ruptura ou na vitória dos que pugnavam por ela. O mesmo, se
está em causa, em vez da ruptura, invocação de cláusula rebus szc stantíbws, erro, infirmação (Código Civil, art.
1.747, parágrafo único), revogação expressa em palavras (arts. 1.746 e 1.747), ou por ato (art. 1.749).

EXEcUÇÃO DOS TESTAMENTOS (ART. 1.137)

O que se disse acima há de entender-se quanto as ações declaratórias de existência, ou inexistência, de eficácia e
de ineficácia.
4)TESTAMENTEIRO NÃO REPRESENTA HERDEIROS. Procedendo em juízo ex se, nada tem o
testamenteiro com o inventariante, ou com os herdeiros. A sua missão é defender
o testamento, porque o seu cargo assenta nessa suposição de existência, validade e de eficácia. A teoria da
representação dos herdeiros instituidos é posta de lado pelo Código Civil, arts. 1.760 e 1.769; e a doutrina do
direito brasileiro leva a palma à de outros povos cultos (nosso Tratado <los Testamentos, V, 240). Se o
testamenteiro representasse os herdeiros, poderia aceitar por eles; e não pode. Demais, há testamentos sem
herdeiros, e até sem herdeiros e legatários. A doutrina da representação dos herdeiros contém contradição
Imanente, que em ciência se há de repelir, e a do mandato, mera figura analógica (BuGio Bmioí, Istituzio,U,
882). Por isso mesmo podem todos os herdeiros confessar, transigir, desistir, renunciar, etc., e o testamento há de
prosseguir.
O dever de pugnar pela existência, validade ou eficácia não cessa enquanto alguém há, que venha a juízo. O
testamenteiro tem o dever de alegar prescrições. Houve quem pretendesse que, com a prestação de contas,
passada em julgado, eximido do dever do art. 1.760 do Código Civil ficasse o testamenteiro; mas o Supremo
Tribunal Federal, a 14 de setembro de 1918, refugou tão falsa afirmação. A regra é a de que, passada em julgado
a prestação de contas, continuam todos os direitos e deveres, exceto, apenas, qssunto às contas, nos termos da
sentença trânsita em julgado.

5)AÇÕES DE INVALIDADE Do TESTAMENTO. O testamenteiro pode propor as ações concernentes a erro,


violência e dolo, que viciaram disposições ou disposição de última vontade, principalmente para iem cumprir o
testamento. Mas, ~)e perder as ações, ~,as custas, quem as paga? Não se trata de nomeação nula de
testamenteiro, como se daria no caso de nulidade do testamento; de modo que deve pagá-las a parte disponível,
salvo má-fé do autor da ação. No caso de dúvida sobre a validade da disposição, deve o testamenteiro submeter
ao juiz a espécie controvertida, e, ouvido o órgão do Ministério Público, aquele decidirá. Têm recurso o órgão do
Ministério Público e o testamenteiro. Conforme a eventual atinência, os herdeiros e os legatários. Há um dever
do testamenteiro quanto ao prévio exame das verbas que vai cumprir. Se executa legado ou encargos, que sejam
nulos de pleno direito, responde pelo seu ato (F. HERZFELDER, J. v. Staud:ngers Kommentar, V, 675). A
decisão do juiz ou do tribunal, de que não recorreu, não o exime de responsabilidade. Só o exonera a sentença de
prestação de contas, que passou em julgado, salvo, ainda assim, quando ocultou elementos que induziram à
ineficácia ou não-validade da disposição ou do modo de executar. (A ação contra o testamenteiro não exclui a de
enriquecimento injustificado exercível contra o que recebeu o legado ou a deixa modal, ou teve, pela execução
indevida da ‘verba, enriquecida, isto é, aumentada, a sua quota hereditária. Exercida a ação contra o
testamenteiro, tem ele a condictio contra quem indevidamente recebeu. Em qualquer caso, os princípios não são
os dos atos ilícitos; só excepcionalmente. E, sim, os do enriquecimento injustificado e do Inexato cumprimento
do testamento e da lei de sucessão. Cumprir os legados, que excedem as forças da parte disponível, ou o que seria
necessário para executar vontades que preferem àqueles, constitui execução indevida de verbas testamentárias e o
testamenteiro responde.)
Na discussão sobre a existência, validade ou eficácia, ou extensão das disposições, devem ser ouvidos o
testamenteiro e todos os interessados na disposição. Se os herdeiros legítimos nada têm com a parte disponível, a
sua audiência n~o é necessária, nem se lhes deve permitir recurso.

6)INSUFICIENCIA DOS BENS PARA LEGADos. O testamenteiro não é obrigado a denunciar a provável
insuficiência dos bens para o cumprimento dos legados antes de se verificar tal insuficiência. Mas, ouvido para
dizer se cabe, tem de fazê-lo, ainda sumariamente, e responde pelo que disser. Se, ouvido o inventariante, o
testamenteiro apuser “De acordo com o inventariante”, respondem solidariamente. (Ocorre o mesmo quanto ao
“nada oponho” e ao “F. J.” do órgão do Ministério Público.) Exime-se da responsabilidade quando diz: “De
minha parte, em princípio, não me oponho; se é verdade a informação do Inventariante, concordo”. Porque a
pessoa que administra é precipuamente obrigada a informar,. inclusive quanto às circunstâncias ocasionais (baixa
de títulos, falências de devedores do espólio, prescrições, ações perdidas, etc.).
Se há alguma cláusula de inalienabilidade, ou outra semelhante, a propósito de alguma herança legitima, o
testamenteiro há de ser ouvido, porque qualquer cláusula testamentária está sob sua verificação.

7)SuCEsso LEGÍTIMA E TESTAMENTARIA Sobre os direitos regidos pela lei de sucessão legitima não é
ouvido o testamenteiro, porque a parte indisponível é metade dos bens compreendidos na herança, e nada
importam os denominadores e numeradores das frações. Salvo: quanto ao artigo 1.723 do Código Civil; quanto à
existência, ou não, de herdeiros necessários; quanto aos arts. 1.726-1.728 do Código Civil. Em verdade, tudo isso
é de ordem testamentária. Se o testamento não cogita de um herdeiro e esse Intenta ação de herança ou de
filiação, só é Indispensável que ele figure se está em causa a validade ou eficácia do testamento ou de algumas
das deixas. Quando estiver em causa ou em via de
satisfazer-se interesse personalíssimo do herdeiro, ainda que oriundo de disposição testamentária, atender-se-á
ao que opina o interessado.

8)DESPEsAs NO INTERESSE DO TESTAMENTO. As despesas podem ser feitas pelo testamenteiro e terem
de ser pagas segundo o Código Civil, art. 1.758. As despesas, de que se trata, são as custas e despesas do
processo do testamento, ou de inventário, as que teve de fazer fora de juízo, ou em juízo, sempre que exercia
dever de testamenteiro (e. g., ação de nulidade de testamento, deserdação, sonegados). São havidas por ação
própria. Aliás, as próprias despesas com a prestação de contas correm contra a herança, e nao contra o
testamenteiro, salvo nos casos de ser condenado a pagar custas (cf. DIAs FEBREIRA, Código Civil Português,
IV, 272). Não se trata de jurisdição meramente graciosa, de modo que a regra do art. 19 é inaplicável. O art. 547
e os § § 1.~’ e 2.0 do Código de 1939 foram eliminados.
Diz-se no Código Civil, art. 1.758: “Levar-se-ão em conta ao testamenteiro as despesas feitas com o desempenho
de seu cargo e a execução do testamento”. Tal regra jurídica, de direito material, existiria no sistema jurídico,
mesmo se não constasse do art. 1.758 do Código Civil. O Código de Processo Civil de 1939, art. 547,
acrescentava regras juridicas, supérfluas, sobre dispensa de comprovantes até determinada quantia e sobre multa
se se afirmava algo de falso perante o juízo. O Código de 1973 não cogitou de um assunto, nem de outro.
As despesas a que se refere o Código Civil são as custas e despesas do processo do testamento, do inventário, as
que se tiveram de fazer fora do juízo, ou em juízo, sempre que se exerce dever de testamenteiro (e. g., ação de
nulidade de testamento, de deserdação, de sonegados). Não ficam sem qualidade para serem reembolsadas as
despesas posteriores à prestação de contas, se advieram do exercício da sua função, ou se ignoradas por ele
(feitas, por exemplo, noutro foro, por conta dele). São havidas por ação adequada.

9) DESPESAs ÍNFIMAS . As Ordenações Filipinas, Livro


1, Título 62, § 21, a despeito do dever de prestar contas in rebus mimmis, dispensavam o recibo nas despesas até
duas onças de prata (então = Cr$ 0,65). Modernizandoa, J. H. COmIA TELES fixou em Cr$ 15,00 o total, não
excedendo cada parcela de Cr$ 1,87. O Código de 1939 dispensou documento até CrS 25,00, repetindo o Código
de Processo Civil do Distrito Federal, art. 813, § 1.0, que também condenava ao tresdobro, em sendo falsa a
afirmação (§ 2.0). O preceito nada tinha com o art. 141 do Código Civil, que só se refere à relação entre o
testamenteiro e os terceiros.
Pode ser falsa a afirmação. A afirmação, entenda-se, de que fora feita a despesa.
Mesmo se há meios suficientes para o exercício das suas funções, por ser o testamenteiro quem administra os
bens, o emprego de tais meios não pode ser a líbito do testamenteiro. Daí ter sido acertado que o art. 1.137, IV,
se refira, como o anterior, a requerer ao juiz que lhos conceda. Se os herdeiros ou legatários ou o inventariante
lhos pós à disposição, não precisa requerer ao juiz que lhos conceda, salvo se há dúvida quanto à legitimação do
herdeiro ou do legatário a fazê-lo.
No caso de instruções reservadas do testador (Tratado dos Testamentos, V, 232, contra AQUINO E CAsTRo,
Prática das Correições, 415 e 416), o testamenteiro é criado para pagamento de imposto, mas tem de provar o
imposto pago.

10)HONORÁRIOS DE ADVOGADO. Quanto a honorários de advogado do testamenteiro, deve-se lembrar o


que se escreveu sobre honorários do advogado do Inventariante. Os interessados tém de ser ouvidos. Se
concordam, não há questão. Se algum discorda, tem ação o testamenteiro para haver o que deveria ser prometido
ao advogado e não foi. Só então é que se pode pensar em discutir se era preciso advogado, ou se o era e é, se
deve subir a z, ou ser menos de x a remuneração. Não, no inventário.
Interessados são os beneficiados pelo testamento e aqueles a que se dirige alguma disposição testamentaria.
Nem sempre precisa de constituir advogado o testamenteiro; de modo que não se pode falar de direito a
honorários de advogado, como fez a í.a Câmara Civel do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a 21 de junho de
1951 (J. M., V, 499), nem de direito a constituir advogado. As circunstâncias é que podem fazer nascer a
necessidade.

11)DEFESA DOS BENS DA HERANÇA. O art. 1.137, III,fala de ter o testamenteiro de defender a posse dos
bens da herança. Se o testamenteiro tem a posse Imediata, claro é que lhe incumbe exercer as ações possessórias.
Se não a tem, quem tem a posse imediata é que há de defendê-la, de modo que havemos de interpretar a regra
juridica como se o testamenteiro, que não tem posse, também pode intervir nas ações possessórias, ou mesmo
suscitar ação possessória de bens da herança sempre que se trate de cumprimento das obrigações do testamento.
Porém de modo nenhum se há de entender que o testamenteiro, para que se cumpram as obrigações do
testamento, conforme se estatui no art. 1.137, 1, esteja sempre com a obrigação de defender a posse de algum
bem da herança, pois a posse pode estar, por exemplo, com o herdeiro testamentário ou com o legatário (e. g., o
testador deixou o bem a legatário que é a pessoa que o havia alugado). Se a ofensa é à posse mediata própria do
legatário, mesmo futura, pois que não ocorreu a saisina, a missão do testamenteiro, com as ações petitórias ou
possessórias, é elemento da sua função, que não só está no art. 1.137, III, mas no art. 1.137, 1 e IV.

Árt. 1 .138. O testamenteiro tem direito a um premio que, se o testador não o houver fixado, o juiz arbitrará,
levando em conta o valor da herança e o trabalho de execução do testamento 1)

§ 1!) O prêmio, que não excederá cinco por cento ,será calculado~) 4) sobre a herança líquida5) 8) e deduzido
somente da metade disponível quando houver herdeiros necessários, e todo o acervo liquido nos demais casos2).

§ 2.0 Sendo o testamenteiro casado, sob o regime de comunhão de bens6), com herdeiro ou legatário do testador,
não terá direito ao prêmio; ser-lhe-á lícito, porém, preferir o prêmio à herança ou legado7).

1)PREMIO DO TESTAMENTEIRO. O prêmio do testamenteiro ou vintena (vigésima parte = 5%) é a


remuneração percentual da herança, paga aos testamenteiros, pelos seus serviços na execução do testamento e,
eventualmente, no respectivo Inventário. Trata-se, pois, de quantia estipulada pro labore et administratone, com
as peculiaridades de poder ser predeterminada nos testamentos, ou de se ter de fixar até o limite percentual 5. Em
qualquer dos casos, o testamenteiro tem direito à vintena, como ao pagamento de serviços que prestou. Ainda
que a tivesse fixado o testador, não constitui liberalidade. Ao testamenteiro toca a pretensão de direito material à
percentagem (Tratado dos Testamentos, V, 272); Tratado de direito Privado, LX, § 5.972, 4).

2) À PERCENTAGEM. Sobre a pretensão à percentagem, o assunto é de direito material, a despeito do art.


1.138, § 2.0: ou o testador a fixa, considerando-se legado, para efeito do pagamento do in~posto, o que 2xcecler
da vintena, ou tem de ser fixado pelo juiz. Antes, porem, está a questão da pretensão ao prêmio, que não têm
todos os testamenteiros. (a) Os herdeiros, a que se refere o art. 1.766 do Código Civil, sem direito ao prêmio, são
somente os instituidos, isto é, os imediatamente nomeados pelo testador (não, portanto, os legítimos e os do art.
1.726 do Código Civil). Diz o art. 1.766 do Código Civil: “Quando o testamenteiro não for herdeiro, nem
legatário, terá direito a um prêmio, que, se o testador o não houver taxado, será de um a cinco por cento,
arbitrado pelo juiz, sobre toda a herança liquida, conforme a importância dela, e a maior ou menor dificuldade na
execução do testamento (arts. 1.759 e 1.768) “. A letra da lei é ambígua; mas a interpretação que sempre
sustentamos de ser remunerada a função do testamenteiro se só herdeiro legítimo, ou cônjuge sobrevivente, que
não seja herdeiro testamentário ou legatário, foi a que prevaleceu (e. g., ~ Câmara Civil do Tribunal de Justiça de
São Paulo, 20 de fevereiro de 1947, R. dos T., 167, 184; Câmaras Cíveis Reunidas do Tribunal de Justiça do
Distrito Federal, 12 de dezembro de 1946, O D., 47, 302; A. J., 82, 195). (b) Mas pode dar-se que, ex testamento,
caiba aos próprios instituidos direito à vintena: o art. 1.766 cria presunção elidível por elementos da cédula ou
pelas circunstâncias. (c) Outrossim, pelo testamento, ou pelas circunstâncias, pode ocorrer que os legítimos
ainda necessários, se herdeiros de mais do que a porção necessária não tenham direito à vintena. (d) Os herdeiros
ou legatários nomeados com causa expressa (serviços prestados, compensação), em geral, não cabem na
presunção do art. 1.766 do Código Civil. Seriam duas causas. Aliter, se as duas causas se compadecem uma com
a outra.
(e) O legatário pode optar (art. 1.767 do Código Civil); há casos em que é desnecessário: tem direito às duas
coisas, ao legado e à vintena. O art. 1.766 do Código Civil é apenas regra de interpretação e, como tal, sujeita à
sorte das regras legais de interpretação. O art. 1.767 do Código Civil supõe que tenha prevalecido, na espécie, a
interpretação do art. 1.766 do Código Civil: se não prevaleceu, nenhuma pertinência tem a opção.
3)D~os HISTÓRICOS SOBRE A VINTENA. Na história do direito nacional, a vintena apresenta cinco
períodos:
(1) O das Ordenações Filipinas, Livro 1, Título 62, § 12, em que só se dava quando consignada no testamento.
(2) O do Alvará de 23 de janeiro de 1798, em que se consagrou a praxe de abonar-se ao testamenteiro, se nada
dizia o testamento, a vigésima parte do que se apurasse da herança líquida. Calculava-se sobre a herança e, pela
praxe, deduzia-se do monte. Compreende-se a grita, devido a ferir--se, com isso, o princípio da inviolabilidade
das legitimas.
(3) O do Decreto n. 834, de 2 de outubro de 1851, art. 37:“O prêmio que ao testamenteiro compete, quando o
testador não lhe deixar, ou ele não for herdeiro ou legatário, é de 5% da importância da terça, depois de
aprovadas e deduzidas as despesas do funeral e bem da alma, e será imputado na terça do mesmo testador”. Note-
se bem: calculava-se sobre a parte disponível e somente dela se deduzia. Havia, assim, atendimentos.
(4) O da variabilidade do prêmio que só em 1854 nos vem em direito escrito, O Decreto n. 1.405, de 3 de julho
de 1854, tornou variável, a arbítrio do juiz, até 5%, o prêmio, mas atendidos os costumes do lugar, tamanho da
herança e trabalho da liquidação. Se havia herdeiros necessários, da terça; no caso negativo, da herança liquida.
Dentro desse período deu-se o aumento da parte disponível, metade, em vez da terça. Desde esse decreto,
calculou-se sobre a herança, mas sé se deduziu da parte testável.
(5)O do Código Civil, no qual se manteve o direito anterior, exceto quanto à remissão aos costumes do lugar
como um dos elementos no critério, para se arbitrarem os prêmios, e ao mínimo, que passou a ser 1%. Desde
1917, não se podia arbitrar l/27, nem 1/3%, nem qualquer outra fração inferior a 1; entre 1 e 5% é que se exercia
o arbítrio do juiz: 1,1 1/20, 1 1/30, 2 1/2, etc. Qualquer número inteiro ou fracionário, entre 1 e 5.
É preciso notar-se que tal evolução ) só foi a do direito escrito, tardo, assaz tardo, entre nós e em Portugal, em
ver a vida, em trazer à forma legal a regra jurídica que, nos atos, já se observa. Continuamos a querer que os
costumes não derrogassem as leis, e a cada passo vemos desmentido a esse afã de tentar prender em malhas
abstratas o surto irrefreável da existência. Já ao tempo das Ordenações discutiam os doutores; e a praxe teve em
AGOsTINHo BARBOSA (Vota Decisiva Canonina, 126, n. 143) e em MIGUEL DE REINoso (Observationes
Fractzcae, 283) quem aprovasse o pedirem os testamenteiros a paga dos seus trabalhos. Aliás, decidiam questão
anterior, assaz renhida. Com eles, ficou P. J. DE MELO FP.EIRE, sempre propenso ao realismo jurídico e à
atenuação da mal compreendida rijeza dos textos (Instítutiones, III, 77): “possunt tamen a iudice salarium petere,
qui illud suo arbitrio dare, et aestimare debet pro modo facultatum defuncti, et ad loci consuetudinem”.

4) MÁxIMo E MíNIMO? ~Constitui o art. 1.138, § 1.0, com as expressões “não excederá cinco por cento”,
permissão para se~ descer além do mínimo (um por cento)? Noutros termos: ~o limite mínimo do Código Civil,
art. 1.766, desapareceu, derrogada a lei material, ou permanece? Continuação do Cédigo Civil, ou volta ao
critério do período (4)? A lei processual foi levada à omissão, quanto ao mínimo, por estar a trabalhar com livros
e leis de processos anteriores ao Código Civil, isto é, feitas ao tempo do período (4) do direito material. Lapso.
Não derrogou o Código Civil: o limite mínimo existe. Somente quando se não podem conciliar o direito material
e o processual é que se tem como derrogada pela lei posterior a anterior; não basta terem versado o mesmo
assunto. Aliás, o assunto é de direito material.

5)COMO SE CALCULA A PERCENTAGEM. O prêmio, ou se calcularia sobre a herança líquida (a), ou sobre
a parte disponível (b), ou sobre a parte testada (c), três critérios dentre os quais a lei tinha de escolher um. O
direito anterior ao Código Civil (Decreto n. 1.405, de 3 de julho de 1854) adotava o critério (b), para os casos de
haver herdeiro necessário, e o critério (a) para os outros casos. O Código Civil nada inovou (art. 1.766 e
parágrafo único). Mas distinguiu calcular e deduzir, aliás seguindo o Decreto n. 834, de 2 de outubro de 1851,
art. 37, contra a praxe a que se referia o Alvará de 23 de janeiro de 1798, na qual a dedução também obedecia ao
critério (a). Sobre a história do problema técnico, nosso Trata4o dos Testamentos (V, 276-282). CLóvIs
BEvILÁQUA (R. de D., 73, 489) pretendeu que, ainda depois do Código Civil, o cálculo era sobre a parte testada
(“herança líquida”): o critério (c); e a dedução sobre a metade disponível (b). Combatemos esse parecer (V, 278-
280). Prevaleceu a interpretação que reputávamos certa: para o cálculo, (a); para a dedução, (b). Cf. Corte de
Apelação do DIstrito Federal, lide agosto de 1937 (R. F., 66, 522; A. J., 45, 168); Tribunal de Apelação de São
Paulo, 2 de março de 1938 (A. J., 46, 378). Cf. 1.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 24 de
agosto de 1950 (R. F., 147, 312).
O arbitramento não é pura vontade do juiz. Não h~, salvo expressa regra de lei, arbítrio judicial absoluto. A
fixação das vintenas é função de muitas variáveis. Deve o juiz, com a prática, atender, no máximo, a esses
dados, que a fazem crescer ou decrescer. Um dos critérios, assaz fácil e justo, é o de se partir da metade do
quanto arbitrável (2 1~’2) e de se examinarem os elementos a que chamaremos aumentativos e diminutivos. São
elementos aumentativos: (1) Exercer o testamenteiro a função de inventariante, que devia caber ao cabeça de
casal, ou ao herdeiro, e só em falta deles lhe toca (Código Civil, art. 1.579, § 32). (2) Exercer ele a função de
cabeça de casal; pois então toda a herança está distribuída em legados e lhe fica toda a responsabilidade
hereditária (Código Civil, art. 1.769). (3) Ter havido luta na defesa (vitoriosa) de disposições restritivas, apostas
pelo testador a herança ou legado. (4) Não haver contrato de honorários pagos pela herança ou pelas
2 quotas dos herdeiros, para auxiliar o exercício da testamentaria, ou dela e da inventariança.
6 (5) Dificuldade, ou longa duração, com a conversão de juros em apólices, no cumprimentos dos encargos,
4 ou dos legados.
(6) Correção, ‘presteza, dedicada exatidão no exercício do cargo, elemento que, na boa ordem dos
serviços forenses, não pode deixar de conferir certo valor qualitativo ao trabalho do profissional. São elementos
diminutivos: (1) Haver contrato de honorários, pagos à parte. (2) Não ser inventariante o testamenteiro, nem
exercer funções de cabeça de casal. (3) Não ter havido luta judicial nem trabalho de persuação em interpretação
de disposições testamentárias. (4) Ser simples, e não trabalhosa, a testamentaria.
Outro critério também é aconselhável: partir-se de 1, e subir-se em função dos serviços prestados. Só se atende,
então, aos elementos aumentativos.
O testamenteiro não pode reclamar paga pelos serviços, que prestou, como advogado, ou como guarda-livros,
contabilista, etc. Está incluída na vintena. Os serviços funcionam como elemento aumentativo. Os serviços fora
da função da testamentaria, como a defesa em ações contra a herança, contam-se à parte da vintena.
Se todos os herdeiros maiores oferecem o quanto e o testamenteiro aceita, deve o juiz homologar o acordo, salvo
se lesa a algum outro beneficiado (legado, modua). Se não há concordância primeiro se atende à vontade do
testador, depois à sugestão (LUDWIG KUHLENBECK, Hand kommentar, 2.~ ed., III, 276), que vale também
como elemento informativo do juiz. Se há herdeiros menores, somente como elemento informativo. Não se
homologa se não há concordância de todos, por faltar o ato coletivo, como acontece com todas as declarações de
vontade, ainda se contêm comunicações de conhecimento. Se são apenas declarações de vontade, isto é, se os
herdeiros afastam a intenção de arbitrar e só têm a de negócio jurídico de solução, a homologação é integratidade
do negócio jurídico que se compuser.

6)CÔNJUGE DO TESTADOR E PRÊMIO. O cônjuge do testador, n~o sendo herdeiro testamentário, tem
direito a vintena (nosso Tratado dos Testamentos, V, 287). Quanto ao cônjuge do herdeiro legítimo, o art. 1.138,
§ 2.0, é inaplicável, porque esse herdeiro teria direito ao prêmio. A questão era sobre o cônjuge de herdeiro
instituído. TEIXEIRA DE FREITAS (Tratado dos Testamentos, 254) distinguia os regimes matrimoniais de
bens, excluindo do prêmio o cônjuge do herdeiro instituído. O Código de Processo do Distrito Federal, art. 814, ~
2», o seguiu. Submetendo a estudo o problema, chegamos às seguintes conclusões (Tratado dos Testementos, V,
295-297): a) a regra jurídica do Código do Distrito Federal, que passou ao art. 548, § 2.0, do Código de 1939 e
ao art. 1.138, § 2.0, do Código de 1973, é dispositiva; b) as circunstâncias criam tantos e diferentes casos que as
regras jurídicas, quaisquer que sejam, podem falhar, trata-se de questão de vontade do testador, de modo que
somente na falta de elemento ex testamento é que se recorre a textos de lei; c) o regime de bens do casamento É
dado que serviu à técnica legislativa para se formular a regra dispositiva, mas, se esse foi esvaziado da sua
significação pelo testador, há de entender-se que a regra juridica do art. 1.138, § 2.0, não se aplica.
O cônjuge meeiro, que foi nomeado testamenteiro, ou que o é dativo, ou por ser herdeiro legítimo, tem direito ao
prêmio. Não é preciso que lhe haja dado tal direito o testador (sem razão, a 5.a Câmara Civil do Tribunal de
Justiça de São Paulo, a 30 de maio de 1952, R. dos T., 203, 333).

7)PREFERÊNCIA PELO PREMIO, POR PARTE DO TESTAMENTEIRO, HERDEIRO OU LEGATÁRIO. O


testamenteiro pode preferir o prêmio à herança ou ao legado (Código Civil, arti. go 1.767). No direito anterior ao
Código Civil, o legado ao testamenteiro n~o se presumia remuneratório dos serviços prestados na execução do
testamento. Sobre a interpretação do art. 1.767 do Código Civil que é regra de direito material, o Tratado dos
Testamentos, (V, 303-308) e o Tratado de Direito Privado, Tomo LX.

8) HERANÇA LIQUIDA. Supõe-se ter sido liquidada a herança para se conhecer o líquido. É intempestiva,
antes disso, qualquer fixação de percentagem. Nem se pode saber qual o trabalho que dará a execução
testamentária .
Se não há herança líquida, isto é, se foi negativo o inventário, não há cogitar-se de prêmio ao testamenteiro (sem
razão, a 5~a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, a 20 de junho de 1952, R. dos T., 203, 340). O
artigo 1.138, § 1.0, fala de cálculo sobre a herança liquida. Se não há herança, não pode haver herança líquida.
Não poderia calcular x% sobre O ou 1, ou y.

Árt. 1 . 139. Não se efetuará o pagamento do prêmio mediante adjudicação 1) 3) de


bens do espólio, salvo se o testamenteiro for meeiro2).

1)ADJUDICAÇÃO DE BENS E PRÊMIO DO TESTAMENTEIR0.

O art. 1.133, 1, do Código Civil não se aplica aos testamenteiros, se os bens não estão confiados à. sua guarda e
administração. Nem sempre as têm. Se são inventariantes, ou por outro motivo os guardam ou administram,
então sim. O art. 1.139 do Código de 1973, como o art. 549 de 1939, de modo nenhum veio excetuar a regra
jurídica do art. 1.133, 1, do Código Civil. ~ regra juridica processual9 de que não se podem tirar consequências de
direito material.

2) ANTERIOR E CÔNJUGE MEEIRO. A alusão a. vintena do cônjuge meeiro do testador de modo nenhum
derroga o direito anterior, porque o cônjuge meeiro a tinha e a tem, uma vez que nenhum principio do Código
Civil se opunha a isso. Tal a nossa opiniãO, contra a de PERLIGAO MAWEIRO (Manual, 479) e de CLÕvIs
BEVILÁQUA (Direito das sucessõeS, 373, nota 2; de Lege lata, mudou, Código Civil Comentado, VI, 235) e de
alguns comentadores e julgados. O fundamento demo-lo no Tratado dos Testamentos (V, 285).
Permite-Se, implicitamente, que o cônjuge, testamenteiro do espólio, tenha remuneração, quer seja meeiro, quer
não . Se era meeiro, compreende-se que se lhe ressalve o direito à adjudicação de bens do espólio, se o prefere.
Trata-se de regra jurídica que atende à situação patrimonial do cônjuge supératite e dos sucessores do cônjuge
falecido, se o regime é o da comunhão de bens.

3)HERDEIRO E ADJUDICAÇÃO . A restrição à adjudicação de bens é somente quanto ao pagamento do


prêmio. Ainda quando inventariante, pode dar-se a adjudicação de que aí se fala. Quando herdeiro, a sua
qualidade de herdeiro passa
adiante de qualquer proibição ao testamenteiro, porque é condômino dos bens. Sempre que pode licitar pode
pedir adjudicação.

Art. 1 .140. O testamenteiro será removido ’) 4) 5) 6):


1 lhe forem glosadas as despesas por ilegais ou em discordância com o testamento2);
II não cumprir as disposições testAmentárias3).

1)REMOÇÃO DO TESTAMENTEIRO. A remoção do testamenteiro é um acabar da testamentaria. só em


relação a ele. Há funções de execução testamentária (como a defesa em ação de nulidade de testamento), ainda
depois de prestadas e julgadas boas as contas. De modo que a remoção é possível ainda depois disso.
Cumpre não se confundir com a incapacidade o fundamento para a remoção, quer se trate de remoção por
destruição, quer por mudança de clrcunstâncias , que importem resolução das funções. Assim, longas ausências
ou o não se saber do paradeiro, posto que nao importem incapacidade por ausência, podem ser fundamento para
se remover o testamenteiro. Deve remover-Se o testamenteiro: a) quando fizer despesas ilegais ou não conformes
ao testamento (Código Civil, art. 1.759); b) quando não cumprir, no prazo devido, o testamento (Código Civil,
arts. 1.757 e 1.762); c) quando não prestar contas, sendo chamado a prestá-las (Código Civil, arts. 1.757, 1.762 e
1.768); ci) se for negligente ou prevaricador; e) se não promover a inscrição da hipoteca legal ou qualquer devida
averbação, inscrição, cancelamento, clausulamento, gravação ou transcrição; 1) se for destituído de Inventariante,
por motivo que o torne suspeito, ou incompatível para o exercício do cargo da testamentaria .
Não há remoção interina. Suspeito, tomam-se-lhe as contas desde logo; e, havendo prova de culpa, desde logo se
destitui.

2)DESPESAS. Trata-se de casos especiais de culpa. Culpa entenda-se: a remoção pode fundar-se em culpa zn
eligendo, ou na ação ou na omissão.
A primeira causa apontada para a remoção é o não terem sido admitidas algumas despesas, ou alguma despesa,
por serem ilegais, ou em discordância com o testamento. A expressão “ilegais” foi empregada em Sentido amplo
e pode ocorrer que alguma regra jurídica proiba que algo se dispenda ou que para algum fato se dispenda; o
simples fato de serem desnecessárias ou evidentemente supérfluas as despesas justifica que se glosem; se o
testamenteiro pagou z e recebeu comissão com a compra, ou com outro negócio jurídico, há ilegalidade, em
sentido largo; outrossim se não lhe cabia, no caso, a função de dispender. No que, por ser fora da atividade
testamentária, não pode ser pago pelo testamenteiro, há causa para a remoção, posto que possa acontecer que,
diante do atraso no pagamento dos impostos de bens que não cabem nas disposições testamentárias, resolva o
testamenteiro pagá-los porque as multas e outras consequências poderiam atingir a parte de que o testador dispôs.
Se foi decretada a nulidade do testamento, ou da disposição, que dera qualidade ao beneficiado para ser
testamenteiro ou inventariante, cumpre-se a decisão, e remove-se o testamenteiro ou inventariante; porém não
antes de passar em julgado (sem razão, a 5•ft Câmara Cível do Tribunal de Apelação do Distrito Federal, a 12 de
dezembro de 1944, D. da J., de 7 de fevereiro de 1945).

3)DESCUMPRIMENTO DAS DISPOSIÇõES TESTAMENTÁRIAS . Quaisquer que sejam as cláusulas


testamentárias, tem o testamenteiro de fazer com que sejam cumpridas. O que pode ocorrer é que alguma
cláusula seja contra a lei, ou, até mesmo, contra princípios constitucionais. Então, convém que o testamenteiro,
para tomar qualquer atitude que podia ser interpretada como descumprimento de disposição testamentária,
requeira que sejam ouvidos os Interessados e o Ministério Público, submete1do o caso ao juiz. Pense-se na deixa
do testador a que se distribua algo aos pobres da margem do rio ou do lago, “exceto pretos”, ou “exceto
descendentes da raça a”.

4)REVERSÃO DO PE MIO À HERANÇA. Perdido o prêmio, reverte á herança, diz o Código Civil, art. 1.768,
que se há de entender em termos. Se for nomeado outro testamenteiro, ou assumir o cargo o imediato designado
pelo testador, tem direito à paga dos seus serviços (pode não ser o mesmo prêmio, se não há meio de ser
restituído), ou se for de um só a culpa, porque então o outro ou os outros se legitimam eventualmente, ao todo,
não se dá reversão.

5)PERDA DO DIREITO AO PREMIO. Efeito anexo de direito material, a perda opera-Se em relação a todo o
prêmio, ainda que, no mais, tenha sido fielmente cumprido o testamento.

6)CONTEÚDO DAS REGRAS JURÍDICAS . O art. 1.140 enumera, com largueza, as espécies de causa de
remoção. Os itens são de grande generalidade: se lhe foram glosadas as despesas por ilegais, ou em discordância
com o testamento:
se não cumpre as disposições testamentárias. Se as despesas não correspondem ao que era devido, ou se
excederam aquilo que seria o limite das dividas, ou se foram desnecessárias OU supérfluas, têm de ser retiradas
do cálculo as quantias que lhes correspondem. As disposições testamentárias somente podem ser descumpri-las
se são invalidos isto é, nulas ou anuláveis ou se não cabem no que era disponível pelo testador.
Art. 1 .141. O testamenteiro, que quiser demitir-se do encargo, poderá requerer ao juiz a escusa, alegando causa
legitima’). Ouvidos os interessados e o órgão do Ministério Público, o juiz decidirá2).

CAPITULO V

1)TESTAMENTEIRO QUE QUER DEMITIR-SE. Para que o testamenteiro possa requerer demissão, é preciso
que haja causa legitima, razão óbvia, para tal atitude. Têm de ser ouvidos os interessados, o órgão do Ministério
Público. Interessados são todos os que têm interesse no cumprimento do testamento.
“Causa legítima” é qualquer razão que lhe assista par.~ o afastamento voluntário. Se a razão, que ele tem, é de tal
natureza que não lhe convenha, ou não convenha a ele e a outras pessoas, ou não seja assunto para se publicar,
cabe o requerimento de decisão em sigilo. O segredo pode ser de interesse dos herdeiros e legatários e até do
Ministério Público. Demos um exemplo: o testamento, de que aceitara a incumbência de cumprir, parece-se-lhe
nulo, ou anulável, ou contém ilegalidades que lhe vedam, moralmente, a função de defender o que nele se
contém. O juiz é que decide.
Deferido o pedido de remoção, se ainda há alguma atividade de testamentaria a ser cumprida, tem o juiz de
mandar que assuma o cargo o seguinte, se consta do testamento, ou de nomear outra pessoa (art. 1.127).

2)DEcIsÃo DO JUIZ. Ouvidos os interessados e o órgão do Ministério Público, profere o juiz a decisão. Pode,
todavia,ojuiz não admitir a razão que foi apresentada, mesmo se concordarem todos os interessados e o
Ministério Público, como decidir favoravelmente ainda que todos os Interessados e Ministerio Público se hajam
manifestado contrariamente.
1) HERANÇA JACENTE. O nome “herança jacente” é sobrevivência do tempo em que, entre a morte e a
adição, a herança jazia. Não temos mais heranças que jaza.m; e temos, a despeito disso, em nossas bocas, cheias
de detritos romanísticos à semelhança das crenças mortas que nos atulham o espírito “heranças jac3ntes”. Os
mortos não só nos acompanham; às vezes nos atropelam. Raros são os povos que seguem o conselho do Cristo:
enterrá-los. For medida de limpeza, como nos comentários, em sentido preciso, a expressão “herança jacente”.
Assim, passa a jacência a ser falta de assunção da posse imediata, pois mesmo aos herdeiros que não se
encontram, ou que não sabem quem sejam, a posse se transmitiu. Aí, então, algo jaz. Com i~:o, podemos
empregar com diferente conceito do romano a expressão “herança jacente”, que o Cédigo de 1973 manteve.
Aliás, os textos romanos falavam de herança que “iacet” e de “vacuum ter.ipus”, tendo-se (depcís) chamado
herança vacante (hereditas vacafl3) ao que os textcs diziam vacante. Assim, distingamos; “herança vacante”, a
que esta em processo de se verificar se é herdeiro o Estado. Porque não há mais nenhuma herança sem hcrdeiro e
o próprio Estado tem a saisína. Os bona vacantia eram c~s bens que os Romanos, no direito novo, devolviam ao
fisco. Não os qui iacenL O Código Civil fala de “bens vacantes” e de “herança vacante”. A resolução judicial
final era constitutiva, de efeitos ex nunc; hoje, é mandamental. Processualmente, ainda mais do que em direito
material, tudo isso é muito importante. O juiz das sucessões regidas pelo direito brasileiro, ignorando se há
herdeiros parentais ou testamentários, diligencia por saber a quem há de entregar os bens. Todo o processo da
arrematação dos bens dos falecidos, nos casos de herança jacente, somente tem por fito a execução; e a decisão
judicial de habilitação do Estado é apenas mandamental. Não é declarativa: não tem força de coisa julgada
material de exclusão de possiveis herdeiros. O elemento declarativo não prepondera. Lá está, é verdade, como
em qualquer julgado, mas depois do outro, em dose relevante para a eficácia, porém não para a sua
caracterização. (O ato de entrega material, executivo, é após as decisões devolventes.)

Em boa técnica legislativa, tendo acabado a adição de herança e, pois, transmitindo-se os tens, ipso iure, com a
morte, aos herdeiros inclusive ao Estado, o C~digo Civil deveria ter distinguido: os casos a) de se saber se o
decujo não tinha herdeiros ~parentais (legítimos, menos o Estado) e testamentários; e os casos b) de se não ter
certeza subjetiva. Somente os casos b) exigiriam a arrecadação dos bens do decujo com o procedimento edital.
Nos casos a), o Estado, como qualquer outro herdeiro, recolheria os bens. A lei civil não procedeu assim; nem o
Código de Processo Civil. Abstraiu-se da certeza sobre a pretensão do Estado. Essa pretensão pode ser certa,
certissima, e a lei a trata, ainda nesses casos, como duvidosa.

2)BENS DE AUSENTES. Bens de ausentes são os bens cujos donos se acham fora do lugar em que estão
situados os bens. O direito positivo restringe o sentido. A chamada herança jacente pode ser de herdeiros não
identificados, ou ausentes.
•3) BENS VAGOS. Bens vagos são aqueles cujo dono, se existe, é ignorado. Nisso, distinguem-se dos bens
vacantes, que são suspeitos de não haver para eles sucessores parentais ou testamentários e de terem de ser
entregues (ex tunc) ao Estado.

4)CUMULAÇÃO OBJETIVA SUCESSIVA DE AÇÕES. No processo de arrecadação de bens de defuntos, dá-


se cumulação objetiva sucessiva: a) a ação constitutiva da curadoria, com o elemento mandamental da
arrecadação, de intuitos cautelares, seguida de procedimento edital, com provocatio ad agendum, e suscetível de
terminação do processo pela habilitação de herdeiros (ação autônoma, de eficácia contra a eficácia da sentença
constitutiva), ou pela absorção dos bens pelas dividas, ou pelo concurso de credores; b) a ação de devolução à
Fazenda Pública, em virtude da vacância, ação de cognição incompleta, cuja natureza explicaremos sob cs
artigos 1.151 e 1.157.
No processo de arrecadação de bens de ausentes, a cumulação objetiva sucessiva é mais complicada: a) ação
constitutiva da curadoria, seguida do procedimento edital de citacão (vocatio in ius) do ausente e da provocatio
ad agendum dos outros interessados; b) ação de abertura da sucessão provisória; c) ação de conversão da
sucessões provisória em sucessão definitiva.

Art. 1.142. Nos casos em que a lei civil considere jacente a herança 1) 2) 3) 4), o juiz, em cuja comarca tiver
domicilio 13) o falecido, procederá sem perda de tempo à arrecadação5) õ) 7) de todos os seus bens.

Árt. 1 . 143. Á herança jacente ficará sob a guarda, conservação e administração de um curador 8) até a
respectiva entrega ao sucessor legalmente habilitado 11) 12), ou até a declaração de vacância9 ) ~ ~ ~); caso em
que sera incorporada ao dominio da União, do Estado ou do Distrito Federal.

1)REMI5SAO À LEI CIVIL. O Código de 1973 recebeu do direito material, do Código Civil de 1916, o
conceito de herança jacente. O que nos incumbe, hoje, diante da referência é restringir, como fizemos, fugindo ao
direito romano, que o direito luso-brasileiro e, mais precisamente, o brasileiro, o Sentido de jazer da herança. A
posse imediata é que jaz. Segundo os princípios da sais!na, a que o direito brasileiro deu a extensão que devia dar
(nossos trabalhos: A Saisina do Direito brasileiro, Ciência do Direito, III, 115-145; Tratado de Direito Privado,
LVI, § § 5.648-5.650).
Rigorosamente, dois principios disputam as preferências, e a História, aqui, os extrema e, ali, os mescla um ao
outro:
O principio da adição da herança ou aquisição pelo ato jurídico do herdeiro; o princípio da situação criada pela
acidentalidade da morte para os bens já comuns. A modernidade juntou-os, e fez sistemas novos, que são os
vigentes, mais próximos ou mais distantes da noção romana, mais próximos ou mais d1stantes do
Sachsenspzegel, 1, 33 e III, 83, § 1, e do Preussisches Aligemeines Landrech.t, 1, 9, § 67 s. Na sucessão dos
tronos, le roí est mort, vive le roil
No primeiro sistema, são em tempos. diferentes delação e aquisição; no segundo, simultâneos. A aditio operava
a transmissão. Havia efeito retroativo à morte do sucedendo. Com ela, adquiria-se o domínio; não, porém, a
posse. Posse seria questão de fato. Havia princípio da compropriedade familiar, e só a sucessão legítima operava
tal comunidade. Morto o chefe, a administração tinha, naturalmente, de passar a outrem. Não se podia cogitar de
aceitação, de aditio; tampouco, de ingerência judicial, que fosse instrumento de
passagem do chefe aos compropretários. De hereditas uzcens também não se podia falar. Não havia sucessores
propriamente ditos. Havia a comunhão sob a chefia; passada a chefia, continuava o que antes era: a comunhão, já
sem aquele que morreu. Der Todte erbt den Lebendigen. Mortuus saisit vivum. Saisina dejuncti descendit in
vivttm. Le mort saisit le vil, son jlus prcchain héritier habile à lui succéder.
No direito romano, havia o principio da transmissão recta via ao legatário (L. 80, D., de 1-e gatis et
jideicommissis,31), donde as duas ações, a real e a pessoal (L 2, O., communia de legatis et fideicommsszs et de
in rem missione tollenda, 6, 43). Ao herdeiro o legatário havia de pedir a posse; se o legatário arbitrariamente se
imitia, concedia-se ao herdeiro o interdictum quod legatorum (L. 1, § 1, D., quod legatorum,
43, 3).
A diferença entra o direito romano e o hodierno, inclusive o brasileiro, resulta da posição de domínio e posse do
herdeiro. Havia proL lema técnico, que os juristas romanos não resolveram, e parecia estarem a procurar,
problema a que a modernidade, fundidos o sistema romano e o germânico, deu solução, de origem híbrida,
porém, na teoria posterior e nw resultados, de toda a inteireza.
A saisina iur:s estabeleceu a nova ordem. Der Todte erbt den Lebendigen, le mort saisit le vif, ou, na Itália,
transeat possessio :n heredem dei uncti ipso inre sine aliqua apprehension~ (Estatuto de Busseto, r. 54).
No direito romano, havia a continuação da posse no sucessor a tít’dlo universal, e a conjunção das posses no
sucessor a título particular (L. 40 e L. 31, ~ 5, D., de usurpartionibus et usucapwnibus, 41, 3; L. 13, § 10, D., de
adquirenda vei amittenda possessione, 41, 2). Todavia, entre a delação e a adição, se outrem possuía a coisa, não
havia espoliaçao, porque não havia possuidor (L. 6, § 2, D., pro emptore, 41, 4). O lapso constituía o problema
técnico. Donde a lacuna na tutela possessoria. A imaginação prática dos jurisconsultos romanos experimentou
expedientes, como aquele de obrigaI à pronta adição, o znterdictuin quorum tonorum e, devido a Marco Aurélio,
o crimen expilatae hereditatis. Expedientes, tão-só.
A vida posterior deu a solução; mas a vida, a experiência, só o ousou depois de ver a fórmula que trazia a
concepção germânica da continuidade, da unidade patrimonial e da investidura imediata (a saisina iuris).
No conjunto do direito, esse grito germânico dominou, mas como exceção, como direito singular, e por isso disse
A. FAZER, no Codez Fabrianus, L VII, 6, IV: “beneficium possessionis consuetudinariae quod a defuncto in
heredem recte continuatur singulare ius et privilegium est”.
Da saisína excluia-se o legatário, porque era sucessor a título particular. A vida aproveitou os dois sistemas e
deu-se. historicamente e evolutivamente, o seguinte: ao direito romano somou-se o elemento germânico; a tutela
jurídica da posse fez-se possível, sem os incompletos expedientes romanos, de modo que a aspiração do direito
romano se realiza com a fusão dos dois direitos; e teori.a e prática consagraram a nova concepção da investidura
imediata, que se coadunava com a necessidade social da sucessão, in universum ius.

Conforme o Código Civil, art. 1.591, 1 e II, há a jacéncia se o falecido não deixou cônjuge, herdeiros,
descendentes ou ascendentes, nem colateral sucessível, notoriamente conhecido, ou se os herdeiros, descendentes
renunciam a herança, e não há cônjuge, ou colateral sucessível, notoriamente conhecido. Se há testamento, o art.
1.592, 1-1V, a herança e jacente (1) se o falecido não deixou cônjuge, nem herdeiro, descendente ou ascendente,
(II) se o herdeiro nomeado não existe, ou não aceita a herança, se, em qualquer desses cases acima referidos (art.
1.592, 1 e II), não há colateral sucessivel, notoriamente conhecido (III), ou se, verificada alguma das hipóteses
dos números anteriores , não há testamenteiro nomeado, ou não existe o que foi nomeado ou não aceita a
testamentaria (IV).
O que mais acontece é que o juiz tenha recebido a comunicação do óbito, com os informes. Mas pode ocorrer
que não se haja procedido ao registro, devido à ocorrência (incêndio, naufrágio, desastre de trem ou de outro
‘veículo sem identificação do morto ou de mortos). Se o declarante do óbito ignora se o falecido deixou cônjuge
ou herdeiro ou testamento, a herança jaz e tem o juiz de proceder à arrecadação. Se vem o juiz a ter notícia da
morte e, ignorando se há cônjuge ou herdeiros, é de que alguém se está apossando dos bens, ou há perigo em que
sejam furtados, ou deteriorados, cabe-
-lhe providenciar.

2) NA REGRA JURÍDIcA SOBRE SUCESSÃO HEREDITARIA.

A posse de que fala o Código Civil, no art. 1.57¶2, a propósito da herança, independe de qualquer eletividade:
ela se transfere, saiba ou não o herdeiro que se lhe transferiu; posse nec animo nec corpore. O elemento
germânico reponta, vê-se--lhe bem o traço de espiritualidade, que atravessa, firme, a materialidade das
concepções romanas. Posse, que não precisa de ato ou gesto ou reconhecimento do possuidor. Um é, categórico,
que a tradição germânica disse, e as leis escritas, após os costumes da França e de alhures, repetiram. No tempo
em que a posse tonorum (Código Civil, arts. 485-523) era de configuração romana, ao jeito de F. C. voN
SAvIGNY, isso criava embaraços teóricos; hoje, com a concepção nova, refletida no Código Civil brasileiro,
esmaeceu. A lacuna romana foi preenchida, com a consequência de se transmitir ao herdeiro a posse dos bens de
que o testador era proprietário ~ a dos pertencentes a outrem, desde que lhe coubesse a posse. Porém, como a
posse cio testador vai toda ao herdeiro, o título testamentário atribui a propriedade ao legatário e a posse vai do
testador ao herdeiro, em virtude da saisina iuris. Daí a cisão; e ter o legatário de pedir a posse.
Em francês, saisine é palavra de origem germânica, que significa posse, mais direito de possuir, ou posse que o
direito dá, do que posse no sentido de exercicio efetivo. Tão portuguesa, como de outra lingua, porque está nos
textos do latim cosmopolita: saisina, in sai si na. No brocardo francês, le mort salsit le vil, a psique germânico-
latina da França bem se retrata: saisir do germânico, traduz a passagem por força de direito, da posse do defunto
aos herdeiros, isto é, palavra germânica para exprimir conceito germânico.
A posse vai aos herdeiros que receberem a herança, quer dizer potencialmente deslocável de grau, incluído o
efeito da representação: se um dos chamados não aceita a herança, ela toca aos co-herdeiros, ou, se é o único, ou
se todos renunciarem, aos sucessíveis do grau imediato. No Brasil, ao próprio cônjuge sobrevivo e ao Fisco (art.
1.603; cp. Código Civil francês, art. 724, que não se estende a esses). Mas repugna aos nossos dias concepção da
saisina coletiva aos parentes; só se refere a herdeiros.
Em vez de seguirem os dados históricos e os veios do princípio, através dos tempos e em luta com o direito
romano, que partia a posse, pontuando-a com a morte do decujo, e deixando lapso entre esse momento e a
tomada de posse pelos herdeiros, os juristas deixam-se levar pela ambição de explicar o fato, que o art. 1.572
apodictamente cria, mas segundo os propósitos dos seus raciocínios.
É a exigência de explicação dogmática, que, por vezes, conduz a edificações ~ó a priori. Aliás, para o bom êxito
dos métodos científicos, esse desejo de explicar tem de precipuamente buscar os dados históricos e os informes
de sociologia. Todo caminho, que não seja esse, pode ser desvirtuador das realidades e dos próprios preceitos que
se querem explicados.
3)TENTAtIvAs DE EXPLICAÇÕES. a) JULIUS BINDER (Die Rechtsstellung des Erben, 47) entendeu que a
posse do Código Civil alemão, § 857, é posição juridica ligada ao poder efetivo, mas que se desprende, ao
passar, do seu suporte fundamental, da sua base materiaL.
b) Em tal ato vêem W. TURNAU K. FÕESTER (Das Sachenrecht, 3Y~ ed., § 857) e MARTIN WOLFF (Das
Sachenrecht, Lehrbuch, III, 36), apenas ficção da posse. Assim, também, ROTER1NG (Aus der Lehre vom
Besitz, Archiv fiir Burgerliches Recht, 27, 95 5.).
c)FERDINAND KNIEP (Der Besitz des BGB., 168) esforçou-se por mostrar que só se transmite a pretensão para
que continue a posse.
d)Entendia Huao KRE5S (Besitz und Recht, 168 s. e 186) que os herdeiros adquirem a posse imediata
(Verkersbesit~) sem apreensão, desde que saibam da morte e queiram ser herdeiros. É estranho aludir a esse
elemento intruso da vontade do herdeiro.

e)Para CARL CROME (System des deutschen tiirgerlichen Rechts, III, 16 s.), trata-se de relação de posse, e
nessa sucedem os herdeiros, sem dificuldades conceptuais e práticas.
f)M. GREIWF (G. PLANCK, Kommentar III, 39) achava que o poder efetivo do decujo acabou com a morte: não
poderia transmitir-se aos herdeiros; de modo que esses precisam de tomar posse efetiva, para serem possuidores
no sentido do art. 485 (Código Civil alemão, § 854), e os arts. 496 e 1.572 (§ 857) não bastariam. (Na 4•R ed. de
G. PLANCK, E. BRODMANN rediscutiu o assunto, e continuou a sustentar que a posse não é algo de separável
da personalidade, é relação de pessoa com a coisa; não pode ser tratada como se trata, por exemplo, o domínio.
Mas acabou por explicar como ficção, “pelo menos”.)
g) A verdadeira teoria é a que busca o fundamento e a evolução do princípio, que é estranho ao direito romano;
e dele há de tirar, como fazemos, todas as conseqüências doutrinárias e práticas. Sem esse elemento histórico-
cultural,nada se consegue de sólido e de certo.

4) NO SENTIDO PRÓPRIO E POSSE DOS HERDEIROS. A respeito de posse dos herdeiros e legatários,
encontram-se dados no Código Civil, arts. 495, 496, 1.572, 1.580, 1.754, 1.755 e 1.579. Mas, a despeito de usar-
se a mesma palavra posse, cumpre distinguir-se da posse dos arts. 495 e 496, referida no capitulo sobre posse
(Direito das Coisas, rei possessio, Besitz ou Sachenbesitz, e posse dos demais artigos, que é a hereditatis
possessio do direito romano, Erbschaftsbesitz. São institutos distintos, outrora e hoje, que concernem a fatos
idênticos.

Como havemos de ver, a heredÁtatis possess-zo apresenta, no direito romano, no comum e no vigente entre
povos cultos, estrutura particular que a olhos cuidadosos teria lembrado, na feitura dois Códigos Civis, nome que
evitasse qualquer confusão. Se no Código Civil alemão se empregou o romanismo Erbschaftsbesiteer, para que
se não misturasse com Besitzei da doutrina da posse, nenhum cuidado tiveram os legisladores de outros Estados,
desatentos a linhas mestras das instituições. Na prática, a diferença é de importância . Basta pensar-
-se em que a ação do possuidor, no taso do art. 495, combinado com os arts. 485, 499, 501, 502 e 504, esbarra,
em se tratando de bens móveis, diante do art. 618 (usucapião, no caso de boa-fé e posse ininterrupta de três
anos), ou do art. 619 (ainda com má-fé e sem título, durante cinco anos), ao passo que não prescrevem em tais
tempos as ações oriundas da hereditatis possessi,o. Quando já é nenhum o meio de reaver-se a posse, possessio
rei, ainda perdura a ação contra o possuidor da herança. Em se tratando de imóveis, as ações
possessorias têm de parar, diante de quem alega posse, justo título e boa-fé, de dez anos entre presentes, ou
quinze entre ausentes (art. 551), e no entanto persistem os meios legais fundados no direito hereditário (e. g.,
petição de herança, querela de doação oficiosa). Cp. Código Civil, arts. 177, 179 e 1.772, § 2.0.
É evidente a relevância da distinção. No instituto da posse da herança, dois elementos alteiam-se como
indestrutíveis colunas, e é impossível, sem graves erros, tomar-se uma por outra das duas construções
heterogêneas, a posse do direito das coisas, que só ela rigorosamente merece chamar-se posse, e a outra, a do
herdeiro, que se funda em título, e não no ter-se, de fato, o exercício, pleno, ou não, de algum dos poderes
inerentes ao domínio, ou outro direito real (art. 485). Aquelas duas colunas, a que nos referimos, dão caráter
próprio ao instituto: uma é o pensamento de universalidade, que dilata a significação mesma da palavra posse;
outra, o de título lucrativo, mas ineficaz, pelo qual alguêm, em vez de herdeiro, possui (A. A. voN
BUCHHOLTZ, Juristische A1’hand-lungen, 10; RUDOLF LEONHARD, Der Erbschaftsbesitz, 76, s.; JosEF
SCHAEFER, Verglezch ~wischen Sachbesitz und Erbschaftsbesítz, 71). No fundo (bem significativo é o fato do
excesso dos prazos da usucapião), privilégio para restaurar a ordem intrínseca, dentro do tempo (cp. JuLIus
BINLER, Die Rechtssteflung des Erben, 421 5.). Os dois elementos dão a posse do herdeiro as ações que
decorrem de particularidades de direito material e de direito processual, tão firmes, que RUECLF LEONHARD
não acreditava em que, no futuro, se apaguem (127). Foram baldados os propósitos assimiladores do
Preussisches Áligemeines Landrecht e do Código Civil francês: teve a prática, fruto da vida, de trazer as águas a
leito próprio; bem assim, o exemplo do Código Civil alemão (~ § 2.C18-2.031). No Brasil, deixou-se à doutrina,
mas, em verdade, subentendem-se as regras jurídicas materiais precisadoras do instituto e constitutivas do velho
e tradicional direito das ações.
Na posse, rei possessio, cogita-se de relação entre a pessoa e a totalidade dos sujeitos, a respeito de coisa sobre a
qual se exerce poder fáctico, estado social, que independe do direito à coisa. Nas ações fundadas no Código
Civil, arts. 1.572, 1.580, 1.754, 1.755 e 1.769, alega-se direito. A ação de petição de herança compete ao
herdeiro, legitimo ou testamentário, contra aquele que, com fundamento em direito sucessório que em verdade
não tem, só ~xssui os bens da herança (Código Civil alemão, § 2.018: “der auf Grund eines ihm in Wirklichkeit
nicht zustehenden Erbrechts etwas aus der Erbschaft erlangt hat (Erbschaftsbesitzer)”; Código Civil brasileiro,
art. 1.580, parágrafo único: “ao terceiro, que indevidamente a possua”). Ação universal, que nada tem a ver com
os efeitos da posse, nem com os da usucapião, pois, semelhante à reivindicação, constitui luta entre direitos,
porém luta de títulos, independente das regras jurídicas de aquisição por outro título que não seja hereditário. Por
isso mesmo, o réu pode opor-lhe, não só a prescrição de vinte anos, que é a das ações do direito hereditário,
como também o não se tratar de possuidor a título de herança, caso em que só seria possível a ação do art. 524,
ineficaz além dos prazos usucapitivos. Aproveitemos o ensejo para meditar no punctum dolens.: é o fato de o réu
‘possuir com pretendido direito hereditário, isto é, crer-se ou ter-se por herdeiro, que lhe escancara as portas às
investidas dos autores contra a sua posse, ainda depois de cumpridos os prazos que lhe dariam, se outro fosse o
título, a propriedade dos bens móveis (arts. 618 e 619), ou imóveis (aris. 550-552).

5)OBJETO DA POSSE. Quanto ao próprio objeto, há diferença entre o que pode ser objeto de proteção
possessória (Código Civil, arts. 485, 486 e 493, 1, II) e o que pode ser compreendido sob o conceito de posse do
herdeiro (arts. 1.572 e 1.580), ou de posse e administração (arts. 1.754 e 1.755). Se um título nominativo pode ser
reclamado com fundamento na posse da herança, não no seria pelas ações dos arts. 499-519. Tudo que é
patrimonial constitui objeto de hereditatis possessio. Não se compreendem na posse, em sentido próprio, os
direitos, isto é, o que se pode ter sem ser objeto de direito das coisas. Pela mesma razão, não se poderia reclamar
por ação possessória universitas iuris, ao passo que os herdeiros, com as ações do art. 1.580, pedem,
precisamente, a herança, a universalidade, na qual se incluem dívidas ativas nominais, quiçá simples ações a
serem contra outros. Bastaria ler-se a L. 18, § 2, D., de hereditatis petitione, 5, 3. Agora vejamc~, disse
ULPIANOP , que coisas se compreendem na petição da herança, et placuit universitas res hereclitarias in hoc
iudicium venire, sive iura sive corpora sint. Ora, sabemos quais os direitos, pretensões e ações que, em razão de
recaírem em coisas, se protegem, mas, no direito romano, “possideri autem possunt quae sunt corporalia” (L. 3,
pr., D., de adquirenda vel amittenda possessione, 41, 2), nem se cogitaria de admitir posse sobre universalidade
de coisas (HEINRIcH DERNBURG, Panclekten, 1, § 176, nota 3, 407). Enquanto pende a ação dos herdeiros, o
réu continua a ser protegido, pelas regras jurídicas sobre posse, na sua posse. Na justa dos títulos, entre sujeitos
determinados (autores e réus) não se apaga situação pessoal em relação a totalidade dos sujeitos, protegida em
virtude de considerações de ordem social entre os cidadãos.
Tão radical é o efeito da petição de herança, que ela busca ações nascidas contra o próprio possuidor, dividas
que, noutros casos, desapareceriam pela confusão dos sujeitos.

Seria difícil conceber “posse” em tais espécies (RUDOLF LEONHARL, Der Erbschaftsbesitz, 11; ARNOLD
LEINWEBER, Die hereditatis petitio, 7). Pede-se um património (LUDWIZ~ARNUTS voN ARNESBERG,
Gesammelte civilistische Schriften, II, 280).
Também no Código Civil alemão não se poderia pensar em “posse” que não fosse poder fáctico sobre coisas.
Escapa ao conceito a chamada posse de direitos. O objeto da hereditatis possessio ultrapassa as raias do que a
teoria e a lei traçaram à posse.

Na ação de reivindicação, o réu é possuidor. Na de petição de herança, é de mister que o réu tenha adquirido
algo da herança, ponto em que se percebe a má redação do art. 1.580, parágrafo único, que insiste na expressão
“possua”, afastando-se da precisa frase do Código Civil alemão, § 2.018 (“do que, em virtude de um direito
hereditário, que, na realidade, não lhe pertence, adquiriu algo da herança”). Aqui, basta oue faça a prova de ter
adquirido, a título hereditário, ao passo que, ali, a posse no momento constitui um dos pressupostos de
legitimação passiva (PAUL LANGHEINEKEN, Anspruch und Einrede, 157; RUDOLF LEONHARD, Der
Erbschaftsbesitz, 24; EMIL STROHAL, Das deutsche Erbrecht, 2.~ ed., 554). Em todo caso, há caracteres
comuns quanto ao sujeito. No direito romano, o que tinha a posse jurídica, com animus domini, ou era a) em
relação de fato com o objeto da posse, b) qui liti se obtulit, ou c) qui dolo desiít possidere, ou qui fecit quonimus
possideret (G. W. WETZELL, Der romischen Vindicationsprozess, 214 s.); WILHELM FRANOKE (Exegetisch-
dogmatische Kommentar u~er den Pandektentitel de hereditatis petitio, 175 5.). Na rei vindicabo, também o
detentor e o que não possuía para si, pois que eles tinham a facultas restituendi, pouco importando a boa-fé ou a
má-fé (WALTER NAGELSCHMILT, Der Eigentumsanspruch wegen Besitzensziehun-g, 24), e na hereditatis
petitio, como na possessoria hereditatis iJetitio, seria impossível a ação contra o detentor, porque esse, se está
em situação de restituir, só possui alieno nomine, ou, como disse ULPIANO (L. 13, § 12, D., de hereditatis
petitione,5, 3), contem platione a~terius, ao contrário das ações possessórias que se exercem contra os
detentores, parecendo que o exerce contra aquele qui pro possessore possidet, se sem qualquer iusta causa
possessionis ou nulo o titulus.
No Código Civil alemão, a rei vindicatio dirige-se ao possuidor imediato, isto é, ao qui habet et tenet e ao
mediato do § 868, aquele em primeiro lugar (OTTo WENUr, Der mittelbare Besitz der BGB., Archiv fur die
cívilistische Praxis, 87, 68 5.), porém não ao servidor da posse (§ 855); nem aos ficti possessores, ao contrário,
aqui, do direito romano (JOsEF SCHAEFER, Vergleich zwischen Sachbe.site und Erbschaftsbesitz, 32). Quanto
a hereditatis possessio, trata-se de posse como pretendido herdeiro, espécie de animus, como diz C~sL CROME
(System, V, 531), e essa subjetividade é que lhe dá a abertura para invasão além dos prazos usucapitórios. É
preciso crer-se herdeiro sem se ser.
No direito anterior e, com a mesma razão no vigente, claro está que, se ninguém impugna ao autor a qualidade de
herdeiro, é inútil a ação. Se possui por título singular mas nulo, compete a rei vindicatio, e não a petição de
herança. Se a questão é de posse, pode o herdeiro intentar as ações possessórias, que forem mais hábeis.
O terceiro pode ter adquirido apenas a posse da herança. Então, a sua posiçõo jurídica é a que teria o possuidor
da herança, se não a tivesse alienado. Tem ele de entregar os frutos e outros proventos, inclusive aqueles de que
adquiriu a propriedade. Se algum herdeiro tem direito relativo a algum bem da herança, inclusive, por exemplo,
se obteve penhora, tem o possuidor de respeitá-lo e atender às suas consequências <cf. ALFRED NAVE,
Eineelklage und Erbschaftsanspruch, 25 s.).

6)TRANsMIssÃo DA POSSE. A posse passa aos herdeiros legítimos e testamentários. Se só os há legítimos,


fácil é saber-se quais são. Se pende algum prccesso de habilitação, ou de investigação de paternidade ou de
maternidade, de que aquela dependa, só a sentença fará certo o direito e com ela é que se pede a imissão de
posse, se bem que o herdeiro assim reconhecido tenha sido proprietário e possuidor desde a abertura da sucessão.
Se existem herdeiros testamentários, foi a posse a todos os que herdaram do decujo por força do testamento que
se mandou cumprir. Daí a importância do “cumpra-se”. O que é, segundo o testamento, herdeiro, ou legatário
com posse, tem direito à imissão enquanto não passa em julgado a sentença que decreta a nulidade ou anula o
testamento. Após esse trânsito, os que são herdeiros legítimos. ou testamentários segundo outro testamento, ou
outra cláusula, é que podem propor a ação de imissão. Se há herdeiros legítimos e testamentários, cada um tem o
direito à imissão segundo o seu título.
Uma vez que o testamento dá a posse, desde logo, a algum legatário, cabe-lhe a ação de imissão.
O herdeiro que é imitido na posse, que lhe faltava, quase sempre posse imediata, já estava na posse, em virtude
da saisina. A sentença favorável na ação de imissão declara a posse em virtude da saisina e põe na posse que
faltava o sucessor a causa de morte.
A posse pelo legatário pode ocasionar a usucapião; não basta o decurso do prazo, porque a posse, que se
transmitirá, em virtude do princípio da saisina, ao herdeiro ou ao legatário, pode ser retirada por outrem, mesmo
se já houve a transcrição. O registro concerne à propriedade e não à posse. Cp. o que diz LUIGI FERRI (La
Trascrizione degli acquisti mortis causa e problemi connessi, 147 e 152).

Tem o juiz de proceder. “sem perda de tempo”, à arrecadação de todos os bens do falecido. Alude-se ao conceito
de herança jacente conforme o direito civil.
bens jacentes são leis de quem morreu sem alguém aparecer como sucessor. A falta da aparição é restrita aos
herdeiros parentais e testamentários, ou legatários, uma vez que se não pode pensar em não-aparição do Estado.
A definição é, pois, a de bens a que se ignoram herdeiros, ou não existem herdeiros, parentais ou testamentários.
Um é certo, se não existem outros: o Estado.ofício; portanto, se alguém pede a arrecadação, sem ter qualidade, a
comunicação de vontade é eficaz como elemento informativo.
O Código de 1939, art. 555, dava ao juiz o prazo de vinte e quatro horas para a arrecadação dos bens do falecido,
cientificados o órgão do Ministério Público e o representante da Fazenda Pública. O Código de 1973,
acertadamente, empregou outros dizeres: “sem perda de tempo”. Nem sempre O juiz pode, no prazo de vinte
dias, proceder à arrecadação. Quanto a serem ouvido os órgãos do Ministério Público e da Fazenda pública, não
se precisava da explicitude: há necessidade de terem conhecimento do que vai ocorrer ou já
ocorreu.

O pedido do órgão do Ministério Público é ato de autor, na ação de arrecadação de bens do falecido, de modo
que ele é parte, no processo. Não fiscaliza apenas. Parte é, também, a Fazenda Pública, a que o seu representante
serve, postulacionalmente. Na função de ofício, o juiz inicia e procede em segunda função, que não é a de juiz,
segundo a explicação, já conhecida, da iniciativa processual do próprio juiz. Duas funções estatais numa só
pessoa. Intervindo o representante da Fazenda Pública no processo de arrecadação, se por ele não foi promovido,
a sua função é a de parte, e não só a de fiscal. Porque, arrecadando-se os bens, se supõe que o interesse do Estado
seja precípuO, unia vez que lhe vão os bens. A presença do representante da Fazenda Municipal, que aí se
explica como de outra natureza, é, de ordinário, como interessada no imposto, ou como &poente dentro do
processo (e. g., se alega que os bens são do seu domínio), ou fora dele (embargos de terceiro).

A ação de arrecadação de bens, na sua primeira fase, começa como constituição da curadoria dos bens
arrecadados; é, portanto, ação com adiantamento da constituição. A verificação de existirem, ou não, herdeiros e
sucessores é questão prejudicial, sobre a qual não se profere, desde logo, decisão de cognição completa. Depois
de passar em julgado a sentença de desoluçáo (arts. 1.157 e 1.158), é somente por meio de ação “direta” que se
pleiteia a entrega dos bens ou o pagamento. Sobre a natureza de tal ação, veja-se nota ao art. 1.158. A segunda
fase do processo é a que, entregues os bens ao curador, para o que bastou a cognição superficial a que se referem
os arts. 1.142, 1.150, 1.151 e 1.153, se inicia com a publicação dos editais e vai até à entrega dos bens aos
herdeiros e sucessores, ou donos (terceiros), ou ao Estado. Tal entrega é feita em virtude de sentença, que pode
ser de cognição completa (e. g., aos terceiros), ou não (devolução à Fazenda). A sentença do ad. 1.157 tem força
de coIsa julgada formal, porém não de coisa julgada material. Nem se pode considerar, Sequer, incluída na classe
das sentenças a que se refere o art. 471.

8) CURADORIA DE BENS JACENTES. O art. 1.143 alude à guarda e administração de curador. Refere-se à
curadoria de bens vacantes. (Cf. Código Civil, arts. 1.591 e 1.592), durante o ano depois de concluído o
inventário (art. 1.593) e antes da declaração de vacância. O curador é o curador oficial (dito judicial), se o há; ou
de nomeação do juiz. esse tem de prestar compromisso, como o tutor e o curador de incapazes. Cf. Ordenações
Filipinas, Livro 1, Titulo 90. Oficial, ou não, é o representante da herança em juízo ou fora dele (Decreto n. 160,
de 9 de maio de 1842, art. 24, ~ 1.0: “Aos curadores ou administradores dados às heranças jacentes e bens de
ausentes compete: 1.0 A arrecadação e administração das heranças e bens dos ausentes de que forem
encarregados, representando pelas mesmas heranças e bens em juízo, e fora dele, demandando e sendo
demandado pelo que lhes disser respeito”). Antes, art. 12.

9)ATÉ QUANDO VAI A FUNÇÃO CAUTELAR. O art. 1.143

fez bem em dar o destino provável dos bens ditos jacentes; mas eles jazem, não só até que se entreguem ao
sucessor, ou aos sucessores habilitados: podem ser declarados vacantes, isto é, sem aqueles herdeiros que se
esperavam, sem serem a entidade estatal. Dir-se-à que podem aparecer terceiros que aleguem e provem que são
proprietários ou possuidores. Todavia, aí, a decisão apaga, ex tunc, a pretendida jacência:
os bens, que se criam jacentes, não jaziam.

10) REcuRso. O recurso cabível da decisão que indefere o pedido de declaração de vacância da herança é o de
apelação (e. g., já antes, a 2.~ Turma do Tribunal Federal de Recursos, 29 de agosto de 1951, D. da J., de 8 de
julho de 1954). for que se pretendeu que tal não fosse o recurso? Exatamente se disse que faltam os pressupostos
para se declarar vacante a herança, isto é, afirma a decisão que não morreu a pessoa, ou que deixou herdeiros
notoriamente conhecidos, ou cônjuge, ou que há testamenteiro e está presente o testamenteiro. Qualquer dessas
proposições é sobre mérito. O recurso é o de apelação. Idem, quanto à decisão que julgue a devolução à Fazenda
Pública, ou que julgue não vacante a herança que antes se entendera ser vacante.

11)FALTA, PELO MENOS SÓ APARENTE, DE HERDEIROS. Se algum defunto não deixou herdeiros
legítimos, nem testamento, ou, pelo menos, se se ignora quem sejam os herdeiros,ou se deixou testamento, ou se
morreu com testamento, porém o testamenteiro está ausente e se lhe desconhecem os herdeiros,
o dever do oficial do registro é comunicar o fato, imediatamente, ao juiz. Esse dever lhe nasce no momento
mesmo em que se lhe comunica o óbito. Além das penas disciplinares, o oficial responde aos sucessores do
morto, inclusive o Estado, por perdas e danos, que advierem da sua omissão de participar ao juiz.

12)DECUJO QUE NÃO DEIXOU CÔNJUGE NEM HERDEIRO. No Código de 1939, art. 554, dizia-se que,
cientificado do óbito, o oficial tinha de comunicar a possível falta de sucessores ao juiz, se o decujo “não tenha
deixado cônjuge”. Fez bem em retirá-lo o Código de 1973. A referência ao cônjuge era obsoleta. O cônjuge
sobrevivente é, hoje, herdeiro (Código Civil, art. 1.603, III); se estavam desquitados o que morreu e o que
sobrevive, a sua existência de modo nenhum obsta à arrecadação. Adiante, nota ao art. 1.153.

13)COMPETÊNCIA PARA A ARRECADAÇÃO E CITAÇÕES . Os arts. 1.142 e 1.143 contêm duas regras:
uma, a de determinação da competência para a arrecadação (não para o inventário normal, que eventualmente
pode sobrevir); outra, a de instrução, a em que se dá ao juiz o dever de proceder “sem perda de tempo” à
arrecadação dos bens, com ciência (“intimação”, art. 1.145, § 2.~) do órgão do Ministério Público e do
representante da Fazenda Pública.
No Código de 1973, art. 1.142, faz-se competente para a arrecadação dos bens da herança jacente o juiz em cuja
comarca tinha domicílio o falecido. No Código de 1939, artigo 555, falava-se do juiz em cuja circunscrição se
verificara o óbito. A favor da solução do direito anterior havia argumentos de que a ligação ao óbito era a
melhor, porque tal arrecadação nada tem com o inventário e a partilha. O artigo 555 do Código de 1939 teve sua
fonte no art. 819 do antigo Código de Processo Civil do Distrito Federal, que atendeu a sugestões da experiência
contra a ligação ao domicilio do defunto e a prevenção em caso de dois ou mais domicílios, segundo o Decreto n.
2.433, de 15 de junho de 1859, art. 29. A arrecadação, dizia-se, é medida urgente, que deve ser tomada o mais
rápido possível, coincidir com o lugar da abertura da sucessão e onde tém de ser encontrados os objetos de uso
pessoal do morto.
A solução do foro do domicílio encontra alguns problemas. Por exemplo: o lugar do domicílio não é onde o
falecido deixou bens e o juiz da comarca da situação dos bens tem ciência do que ocorreu e se convence de que é
necessária a medida cautelar. Por outro lado, pode a morte ter sido alhures. O art. 126 exige o pronunciamento
afirmativo, ou a abstenção.
Se a pessoa tinha dois ou mais domicílios, qualquer deles tem a competência (cf. art. 94, § 1.0). Se não tinha
domicilio certo, a competência é do foro da situação dos bens (art. 96, parágrafo único, 1). Se não tinha domicilio
certo e os bens são situados em lugares diferentes, a ação é no foro em que ocorreu o óbito (art. 96, parágrafo
único, II).

14)AUSÊNCIA E FALTA DO TESTAMENTEIRO. Não basta a presença do procurador do testamenteiro para


que não se arrecade a herança, porque o cargo é personalíssimo (Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, art.
3~o, interpretado, ex professo, por A. M. PERDIGÃO MALHEIRO, Manual do procurador dos Feitos, 2.a cd.,
1? 136, nota 594).

15)DEVER DE COMUNICAÇÃO E OFICIAL DO REGISTRO CIVIL.

A comunicação do oficial do registro civil é comunicação de conhecimento e do seu ato de inscrição. Responde
pelos danos provenientes da omissão, erro ou dolo, segundo os princípios comuns. Os cônsules brasileiros têm o
mesmo dever de comunicar, se falece onde eles se localizam pessoa de que se tenha de fazer inventário no Brasil.
Porque aos bens dela são aplicáveis os arta. 1.143-1.158 (Aviso n. 112, de 11 de outubro de 1845).

Árt. 1.144. Incumbe ao curador’):

1 representar a herança em juízo ou fora dele, com assistência do órgão do Ministerio Público 2).
lI ter em boa guarda e conservação os bens arrecadados e promover a arrecadação de outros porventura
existentes3);
III executar as medidas conservatórias dos direitos da herança4);
IV apresentar mensalmente ao juiz um balancete da receita e da despesa 5);
V prestar contas a final de sua
gestão õ)•
Paragrafo único. Aplica-se ao curador o disposto nos arts. 148 a 150 7)•
1)FUNÇÃO DO CURADOR. Já o art. 12, IV, disse que a herança jacente e a herança vacante são representadas
por seu curador. No art. 1.144, 1, acrescenta-se que tem ele a assistência do órgão do Ministério Público.
O primeiro dOs deveres é o de guarda e conservação dos bens arrecadados. Depois, vêm os de exercer os
direitos, pretensões e ações que tem a herança e não só executar as medidas cominatórias dos direitos da herança.
Mensalmente, cumpre-lhe apresentar ao juiz balancete de receita e despesa.
No final da gestão, prestar contas. É de importância a remissão aos arts. 148-150.
Uma das atividades do curador da herança jacente, que
o art. 1.144 não menciona, é a do art. 1.152, onde se fala da expedição de edital, para que venham habilitar-se os
sucessores do falecido; e não precisava referir-se a isto, porque se trata de função do juiz que tem de mandar
expedi-lo.

2)REPRESENTAÇÃO DA HERANÇA. Em tudo que concerne à herança jacente, quer no campo dos negócios
jurídicos o outros assuntos de direito material, quer no do direito processual, o curador da herança jacente,
qualquer que seja, mesmo oficial, é quem a representa. Isso não afasta que, no tocante a interesses do Estado, não
possa o órgão do Ministério Público ou da Fazenda Pública, não defende-la e até mesmo manifestar-se contra a
atividade exercida pelo curador, que tem a herança jacente sob sua guarda e administração. Já o art. 12, IV,
referiu-se’ à legitimação ativa e passiva do curador da herança jacente. Sempre que em juízo ou fora dele o
curador atua, ativa ou passivamente, tem de ser chamado a assisti-lo o órgão do Ministério Público, o que não
afasta a esse a legitimação não-assistencial. Sempre o órgão do Ministério Público é citado, sob pena de
nulidade, razão porque não é simples assistente (arts. 82, III, 84 e 1.105). Ele é citado e a sua assistência, é algo
semelhante à do assistente equiparado a litisconsorte <art. 54). No que toca à representação extrajudicial, a
função do curador da herança jacente é a de gestor de negócios, por força de lei, e há de administrar os tens
“segundo o interesse e a vontade presumível de seu dono” (aí os possíveis sucessores do falecido) e fica
responsável perante os interessados na gestão de negócios e as pessoas com quem contratar (Código Civil, art.
1.331).

3)GUARDA, coNsERVAÇÃO BENS ARRECADADOS E PROMOÇÃO DE NOVAS ARRECADAÇÕES.


Tem o curador de proceder com “toda a ~sua diligência habitual na administração do negócio” (Código Civil, art.
1.336), mas a sua escolha pelo juízo já supõe que a sua diligência é a de quem deve exercer, com exatidão, a
administração. Quem administra bens alheios tem de tomar as providências necessárias à conservação deles
(adiante nota 4). Se pode advir a prescrição ou a preclusão de algum direito, que se insere nos bens da herança
jacente, cumpre ao curador a prática de qualquer ato que evite o dano à herança jacente. Pode ter, por exemplo,
uma vez que há interesse da herança jacente, a prorrogação ou renovação de um negócio jurídico, como o de
locação. Mais: se há dinheiro depositado e convém que se exerça o direito de subscrição de ações, ou algum
direito de preferência.
No Código de 1939, o ad. 945, a respeito dos bens penhorados, cogitava do depósito no Banco do Brasil, na
Caixa Econômica, ou em Banco de que os Estados-membros da União possuíssem mais de metade do capital
social integrado. Sobrevieram leis que o modificaram. A Lei n. 4.595, de 31 de dezembro de 1964, ad. 19, disse:
“Ao Banco do Brasil S. A. competirá precipuamente, sob a supervisão do Conselho Monetário Nacional e como
instrumento de execução da política creditícia e financeira do Governo Federal: II como principal executor dos
serviços bancários de interesse do Governo Federal, inclusive suas autarquias, receber em depósito, com
exclusividade, as disponibilidades de quaisquer entidades federais, compreendendo as repartições de todos os
ministérios civis e militares, instituições de previdência e outras autarquias, comissões, departamentos, entidades
em regime especial de administração e quaisquer pessoas fincas ou jurídicas responsáveis por adiantamentos,
ressalvados o disposto no § 5 deste artigo, as exceções previstas em lei ou casos especiais expressamente
autorizadas pelo Conselho Monetário Nacional, por proposta do Banco Central do Brasil”. Hoje, Código de
1973, ad. 666.

4)MEDIDAS CONSERVATÓRIAS DOS DIREITOS DA HERANÇA.. Algumas dessas medidas de


conservação são suscitadas pelo curador como representante (art. 1.144, 1); outras são apenas atos que têm por
fito conservar direitos. Em parte já cogitamos disso na nota 2). Pense-se em consertos de máquinas e aparelhos,
substituição de telhas e comida para animais.

5) BALANCETES MENSAIS. Compete ao curador apresentar ao juiz, mensalmente, um balancete com


indicação da receita e da despesa. Trata-se de nova regra juridica inserta no Código de 1973. Tanto o curador
nomeado ‘pelo juiz como o curador oficial tem esse dever como os outros deveres do ad. 1.144.

6) PRESTAÇÃO DE CONTAS. Já o curador da herança jacente, qualquer que seja, tem a obrigação de
apresentar os balancetes mensais. No final da sua gestão, tem de prestar contas, o que é mais do que a simples
apresentação de contas (receita e despesas), porque são apresentadas em forma mercantil, especificando-se os
recibos e a aplicação das despesas, bem como o respectivo saldo, devidamente instruídas com os documentos
justificativos (art. 917). Tal prestação de contas é em apenso aos dutos do processo da herança jacente (cf. art.
919).

7)BENS ARRECADADOS. Os bens arrecadados são confiados ao curador, que não é só administrador, é
depositário.
Tem direito a remuneração, que é fixada pelo juiz, “atendendo à situação dos bens, ao tempo do serviço e às
dificuldades de sua execução” (arts. 148 e 149). São permitidos os prepostos, nomeados pelo juiz (art. 149,
parágrafo único). O art. 150 estatui que responde pelos prejuízos que, por dolo ou por culpa, causar à parte (aliás,
a urna, a algumas, ou a todas as partes). Perde, com isso, a remuneração que lhe foi arbitrada, mas tem direito a
haver o que legitimamente despendeu no exercício do encargo (art. 150).

Art. 1 . 145. Comparecendo à residência do morto, acompanhado do escrivão e do Curador, o juiz 1) mandará
arrolar os bens e descrevê-los em auto circunstanciado.

§ 1.0 Não estando ainda nomeado o curador, o juiz designará um depositário e lhe entregará os bens, mediante
simples termo nos autos, depois de compromissado2).

§ 2/’ O órgão do Ministério Público e o representante da Fazenda Pública serão intimados a assistir à
arrecadação, que se realizara, porém, estejam presentes ou não 3)~

1)PRESENÇA DO juíz E AUTO DE ARRECADAÇÃO. A presença do juiz é indispensável, salvo no caso do


art. 1.147; o ato, sem ele, não existiria. Os arts. 243-250 são inaplicáveis. Também são pressupostos necessários:
a presença do escrivão; o arrolamento e a descrição dos bens ad instar do art. 993 e parágrafo único, e art. 994; o
auto de arrecadação; a entrega dos bens ao depositário, não constituindo depósito, ainda que de pequeno valor, a
guarda por qualquer dos figurantes dos arts. 1.145 e 1.146, ou do oficial de justiça.
Se não há curador estatal de bens de defunto, dito oficial, isto é, órgão do Ministério Público com tal função, o
juiz nomeia o curador da herança, antes de arrecadar. Pode dar-se, porém, que o curador ainda não tenha sido
nomeado, razão por que se há de designar depositário.

2)DEPosITÁRIO. O depositário a que se refere o artigo 1.145, § 1.0, é de nomeação do juiz, até que seja
nomeado curador. A relação jurídica entre ele e o Estado é de direito público, ainda que se não trate de
funcionário público. Não há relação entre ele e os herdeiros, respondendo por perdas e danos ao Estado e como
pessoa que guarda bens que pertencem a terceiro (arg. ao Código Civil, art. 1.098, parágrafo único).

O depositário presta o compromisso e depois lhe são entregues os bens, mediante termo nos autos.

3)MINITÊRIo PÚBLICO E FAZENDA PÚBLICA. É intimado o órgão do Ministério Público, como também o
representante da Fazenda Pública a assistirem à arrecadação. A presença deles não é pressuposto de validade,
nem de eficácia; mas, se presentes, as suas declarações são de interesse público.

Árt. 1 .146. Quando a arrecadação não terminar no mesmo dia 1), o juiz procederá à posição de selos2), que
serão levantados à medida que se efetuar o arrolamento, mencionando-se o estado em que foram encontrados os
bens3).

Art. 1 .147. O juiz examinará 5) reservadamente os papéis, cartas missivas e os livros domésticos; verificando4)
que não apresentam interesse, mandará empacotá-los e lacrá-los par.~i serem assim entregues aos sucessores
do falecido, ou queimados quando os bens forem declarados vacantes 6)

1)TEMPO DA ARRECADAÇÃO. Pode acontecer que no mesmo dia se ultime a arrecadação, ou que não se
ultime. Se não terminou no mesmo dia, a lei tomou as providências que pareceram necessárias.

2<) SELOS APOSTOS PELO JUIZ. os selos, a que se refere o art. 1.146, são tiras de papel, ou de pano, em que
Possam ficar a assinatura do juiz e os lacres, ou, se as circunstancias recomendarem, fios de metal que circundem
os Invólucros e cujas pontas se prendam entre si, com o selo de chumbo ou de lacre sobre elas e a assinatura do
juiz no selo, ou em papel sob o selo. A única exigência formal é a da verificabilidade da abertura, no intervalo do
outro dia, ou nas subseqúentes, se não tiver concluído a arrecadação.

3)VIoLAÇÕES E SUSPEITAS DE vIOLAÇÃO. Sempre que se encontrem violações, ou se suspeite disso, têm
de ser abertos os selos; e é de exigir-se que se mencione no auto o estado dos selos ao serem abertos os
invólucros, achados incólumes.

4)INQUISITiVIDADE DO PROCESSO. O processo da arrecadação, que começa pela permissão (e pelo dever)
de ~er determinado de ofício, é o tipo do processo inquisitivo. O juiz tem toda a liberdade em inquirir, procurar
provas, Inclusive lendo os papéis do morto, para lhes descobrir os herdeiros e os bens, ou o testamento, o
codicilo ou simples instruções da classe das velhas cartas de consciência. Sempre que as pesquisas ou respostas
das pessoas inquiridas forem úteis ou utilizáveis, têm de constar do auto, porque a diligência do art. 1.150 é parte
integrante da diligência da arrecadação.

5)EXAME PELO JUIZ. Cabe ao juiz examinar, em sigilo, os papéis, a correspondência (pode não ser apenas em
cartas missivas, e. g., informes, ou ordens, ou avisos gravados), os livros domésticos. Podem ter interesse em que
fiquem com o juízo, ou com o curador, que foi nomeado, ou que ainda o vai ser. Se tal não acontece, são
empacotados, lacrados os pacotes, para serem entregues, como se acham, aos sucessores do falecido.
O exame pelo juiz é em sigilo, sempre que ocorra privatividade dos papéis, da correspondência e dos livros
pessoais, ditos “domésticos”, posto que possam ser, por exemplo, papéis, cartas e livros do escritorio do
advogado, ou do gabinete do medico. AI, mesmo que seja no mesmo edifício, ou num ou
mais salões da casa ou do apartamento residencial, há a separação entre o que é doméstico e o que é profissional

6)BENS DECLARADOS VACANTES. O art. 1.147, in tine,

determina que sejam queimados os pacotes e os seus conteúdos


“quando os bens forem declarados vacantes”. Ora, a entidade estatal, que pode vir a ser o sucessor, apenas
aguarda que se lhe devolva a herança (Código Civil, art. 1.619; Código de 1973, arts. 1.143, 1.157 e parágrafo
único, e 1.158). O ôrgão do Ministério Público e o representante da Fazenda Pública foram intimados a assistir à
arrecadação. Se estavam presentes, ou um só estava, o juiz não podia levar o sigilo a ponto de não deixar que
vissem os documentos e livros domésticos antes do empacotamento. Algum papel ou outro objeto de
comunicação pode ser 4e interesse do Estado, ou do Povo.
Não se queimam, por exemplo, cartas de conteúdo , nem livros domésticos que serviriam às homenagens à
mamária do falecido ou à cultura, à moral, à atividade artística, ou da população, ou do pais, ou do Mundo.

Art. 1 .148. Não podendo comparecer imediatamente por motivo justo ou por estarem cs bens em lugar muito
distante, o juiz requisitará à autoridade policial que proceda à arrecadação e ao arrolamento dos bens 1) 3)~

Parágrafo único. Duas testemunhas assistirão às diligências 2) e, havendo necessidade de apor selos, estes só
poderão ser abertos pelo juiz.

1)DISPENSA DA PRESENÇA DO JUIZ. Dispensa-se, no art. 1.148, a presença do juiz; não a de escrivão. O
auto é lavrado por esse e assinado pelo delegado, por ele e pelas duas testemunhas. O delegado tem os mesmos
deveres que o juiz (e. g., art. 1.150). Trata-se de juiz instrucional, delegado, que tem de proceder à arrecadação
sem perda de tempo, a partir da ciência do óbito ou do dia em que se lhe requisitou a diligência judicialiforme.
A função do delegado de natureza judicial, restringe-se à medida cautelar da arrecadação e arrolamento, com a
designação delegada; a sua resolução é puramente mandamental e não vai adiante do simples arrolamento e da
aposição de selos. O ato do delegado fica entre o mandamento da requisição judicial e o cumprimento pelo
escrivão da polícia ou pelo escrivão do juizo, com ou sem oficiais de justiça, permanentes ou ad hoc.
Não pode atender a quem se diga herdeiro. Essa função só a tem o juiz e é indelegável, pois que é ele, como o
escrivão, responsável pelo atendimento de falso herdeiro (cf. C. CHORINSKY, Das Notariat und die
Verlassenscluzftsabhandluug in Oesterreich, 27 5.).

2)TESTEMUNHA E POSSIVEL NECESSIDADE DE APOSIÇÃO DE SELOS. As testemunhas são duas. Há


aposição de selos, se necessário no caso. Só o juiz pode abri-los. A autoridade policial tem o dever do art. 1.147.

3)MULTAS. Pode haver multa aplicável ao delegado, em caso de afluência de serviço, ou de distância, porque
as leis de polícia prevêem sempre a substituição ocasional dos delegados. A legislação local interessada pode
adotar outras multas. A lei local não pode limitar a responsabilidade do delegado, porque a entidade estatal é
sujeita ao art. 107 e parágrafo único da Constituição de 1967, com a Emenda n. 1.

Art. 1 .149. Se constar ao juiz a existe3ncia de bens em outra comarca 1) mandara expedir carta precatória2) a
fim de serem arrecadados.
1) BENS NOUTRA COMARCA. Se existem bens noutra comarca, tem o juiz, que veio a saber disso, de mandar
que se expeça a carta precatória, a fim de que se proceda à arrecadação. O juiz da outra comarca tem as mesmas
funções e deveres. Os papéis, a correspondência e os livros domésticos, a que se refere o ad. 1.147, que não
apresentam interesse para o inventário e a partilha, têm de ser empacotados e lacrados. O juiz da outra comarca,
se é o juízo do inventário e partilha, retém tais elementos a fim de serem entregues aos herdeiros. Se não no é,
tem d~ remetê-los ao juízo da arrecadação, que deprecara, ou, se esse lhe informa, ao juízo onde se há de
processar o inventário e a partilha. O juiz da herança jacente quase sempre, por ser o juiz do domicílio, é o juiz
do inventário e da partilha; mas pode acontecer que o falecido não tinha domicílio certo, caso em que o juízo é da
situação dos bens (art. 96, parágrafo único, 1), ou não tinha domicílio certo e possuia bens em lugares diferentes,
sendo competente o do lugar que ocorreu o óbito (art. 96, parágrafo único, II). O juiz deprecado, que foi o
competente, tem de comunicar a circunstância ao deprecar.I’~e. Pode dar-se conflito de competência (arts. 112-
124).

2)CARTA PRECATÓRIA OU CARTA ROGATÓRIA . O art. 1.149

tem de ser interpretado como permissivo da carta rogatória, observadas as regras jurídicas dos arts. 88-90.

Árt. 1 .150. Durante a arrecadação o juiz inquirir~ 1) os moradores da casa e da vizinhança sobre a
qualificação do falecido, o paradeiro de seus sucessores e a existência de outros bens3) 4), lavrando-se de tudo
um auto de inquirição e informação2).

1)INQUIRIÇÃO E BUSCA DE INFORMES. Durante a arredação e, provavelmente, antes de começar, o juiz


busca fazer perguntas aos moradores, inquiri-los a respeito de que interesse ao procedimento futuro do Inventário
e da partilha. O que mais importa é saber-se quanto ao falecido, sua nacionalidade, seu estado civil, sua
profissão, seus descendentes e ascendentes ou outros parentes e onde são encontráveis, e quanto aos bens que ele
deixou na comarca, fora da comarca e mesmo no estrangeiro. Da inquirição lavrará auto o 2scri-vão, que com o
juiz assinará. Se já nomeado o curador, tem de assinar.

2) INFORMAÇÕES . Se as informações são de relevância, delas também há de ser lavrado auto. Nada obsta a
que a inquirição e as informações constem de um só auto.

3) BENs ALHURES. Se, com as inquirições do art. 1.150, ou por outros meios, vier o juiz a descobrir a
existência de bens noutra comarca, tem de depredar o outro juiz para que se proceda à arrecadação. Aliás, esse
juiz, que, ex hypothesi, não é o do lugar do domicilio, tem o dever de arrecadar, se é o do óbito do morto, ou se
apenas é o do lugar da situação dos bens. Chegando a precatória, dá-se inicio, ai, à arrecadação de herança.
Nomeado o curador, cabe-lhe requerer as medidas arrecadatórias, como se fosse inventariante.

4)DECUJO COMERCIANTE. Se o decujo era comerciante de firma coletiva, procede-se ao balanço, e só


depois, embora se nomeie curador, se arrecada o líquido (cf. Código Comercial, arts. 309 e 310); se há órgão do
Ministério Público, com funções de curador, é, como esse o seria, parte, desde a decisão de arrecadar (art.
1.142). Também funciona o representante da Fazenda Pública. Adiante, notas aos arts. 1.159 e 1.160.

Árt. 1 .151. Não se fará a arrecadação 1) ou suspender-se-á esta quando iniciada, se se apresentar para
reclamar os bens o cônjuge, herdeiro ou testamenteiro notoriamente conhecido e não houver oposição motivada
do curador, de qualquer interessado, do órgão do Ministério Público 2) cu do representante da Fazenda
Pública.

1)CAUSAS DE PRE-ExCLUsÃO OU SUSPENSÃO DA ARRECADAÇÃO . Não se procede à arrecadação: 1)


se algum herdeiro está habilitado, inclusive o cônjuge; 2) se o decujo faleceu testado e o testamenteiro reclama os
bens. Se, a despeito disso, se fez, e algum dos herdeiros, ou o testamenteiro, reclama, a arrecadação cessa,
considerando-se (a) nula se havia, à sua data, habilitação de herdeiros ou abertura regular de inventário, com o
termo dos herdeiros pelo inventariante (arts. 991, III, 1.031 e 1.036), ou (b) prejudicada em seu seguimento
(atuação de circunstâncias novas), se a abertura regular do inventário ou a habilitação se deu depois. Não
aludimos ao cônjuge sobrevivente, porque, se não estava desquitado e não há outras herdeiros anteriores,
herdeiro é. No caso de ter sido excluído, ou de estar desquitado, o seu interesse em bens comuns que existam não
impede a arrecadação.
A conversão pode operar-se por simples ratificação do inventariante, ou do inventariante e de herdeiros, julgada
pelo juiz, ou a ele requerida e feita, em virtude do seu despacho, por termo lavrado nos autos.
Procede-se à arrecadação se há cônjuge sobrevivente, ou testamentário, porque, na arrecadação de bens jacentes,
se supõe que o cônjuge queira ser o curador (cp. Código civil, art. 466) e não há, ainda, herdeiros, o testamento si
se abre no momento previsto no art. 471 do Código Civil (Código de Processo Civil, art. 1.165). Não há pensar-
se em saisina (1.a Câmara Civil do Tribunal de Justiça de São Paulo, 22 de junho de 1148, R. dos T., 175, 716),
salvo se vem a ser certa a morte do ausente (art. 1.168), porque então à data da morte incidiu o art. 1.572 do
Código Civil. Antes, a posse, que tem o cônjuge ou o herdeiro é recebida do juízo, e não em virtude do art.
1.572. Se decorreu o prazo do art. 1.167, II (Código Civil, art. 481), entende-se que incidiu o art. 1.572. Idem, na
espécie do art. 1.167, III.

2)EXISTÊNCIA DO PROCURADOR. Se ocorre que não se habilitaram herdeiros, nem foi aberto,
regularmente, o inventário, nem o testamenteiro se apresentou e o falecido tinha procurador e esse sabe existir
herdeiro, ou testamento, com razão para ser crido, ~,não se procede à arrecadação, ou, se começada, suspende-
se? No Código de 1939, art. 563, não se fazia a arrecadação, ou se suspendia, se o falecido havia deixado
procurador, que declarasse haver cônjuge supérstite, ou algum herdeiro legitimo ou testamentário. Hoje, não há
tal regra juridica Diante do Informe, o que o juiz há de fazer é procurar, Imediatamente, o cônjuge ou o herdeiro,
de modo que não retarde a arrecadação. Não há qualquer pretensão de direito material, ou de direito processual,
por parte do procurador, que fora, a ser depositário judicial. Pesa-se apenas o interesse da herança, aceitando-se
que se confie na pessoa em que o falecido confiava. O que faz suspender-se ou não se efetuar a arrecadação é a
comunicação de conhecimento, que se contém na afirmação de existir herdeiro ou testamenteiro; não, o ter
havido procuração do falecido. Por isso mesmo, inverossimil a comunicação, nada se há de confiar no
procurador.

Árt. 1 . 152. Ultimada a arrecadação, o juiz mandará expedir edital, que será estampado três (3) vezes, com
intervalo de trinta (30) dias para cada um, no órgão oficial e na imprensa da comarca, para que venham a
habilitar-se 1) os sucessores do finado no prazo de seis (6) meses contados da primeira publicação.
§ 1.0 Verificada a existência de sucessor ou testamenteiro em lugar certo, far-se-á a sua citação, sem prejuízo
do edital 2)~
§ 2.0 Quando o finado for estrangeiro3) será também comunicado o fato à autoridade consular.

1)PROCEDIMENTO EDITAL E HABILITAÇÃO DE HERDEIROS. Trata-se de procedimento edital, uma vez


que a Fazenda Pública apenas aguarda que a herança lhe seja entregue, após a presunção de não existirem
herdeiros. O que se tem por fito, com os editas, é a preparação dessa presunção legal. frisante de presunção legal
constituída. Os editais têm de ser publicados três vezes (e. g., a primeira, no primeiro dia dos seis meses, a
segunda, no trigésimo segundo dia, e, a terceira, no sexagésimo terceiro). Para ser útil a última publicação, a lei
deixou mais quatro meses após o último edital.

A citação edital do art. 1.152 é provocatio ad agen dum; portanto, não se pense em integração da relação jurídica
processual que a promoção da arrecadação e do arrolamento conforme arts. 1.142-1.150 suscitou. Não se chama
à relação jurídica processual, chama-se a propor a ação de habilitação. O assunto será melhor explanado à nota
ao art. 1.157.
No art. 1.152 fala de “imprensa da comarca”, ao passo que, no art. 232, III, a respeito das citações por edital, a
alusão é em “jornal local, onde houver”, e, no art. 687, relativo à arrematação, a “jornal local diário, se houver”.
No Código de 1939, art. 5C1, apenas se dizia que o juiz mandaria publicar editais, para que viessem habilitar-se
os herdeiros. Pergunta-se: hoje, se na Comarca há dois ou mais jornais, ~a publicação há de ser em todos eles, ou
só num dos jornais locais?
A referência é a “imprensa da comarca”. Devido a serem muitas as circunstâncias possíveis, a solução, por se
tratar de procedimento especial de jurisdição voluntária, é a de deixar-se o assunto à apreciação do juiz,
conforme o art. 1.109 (“a solução que reputar mais conveniente ou oportuna”).

2) EXISTÊNCIA DE SUCESSOR OU TESTAMENTEIRO. Se se vem a saber que há sucessor herdeiro ou


legatário, não importa ou testamenteiro, e está em lugar certo, faz-se a citação, sem prejuízo do edital. Há um
plus, a citação pessoal, que aí tinha de ser feita.
Se o juiz examinou, reservadamente, os papéis, cartas missivas e livros domésticos, ou livros de escrita do
falecido (pode ser que não sejam domésticos, mas sejam secretos), tem informes concernentes a prováveis
sucessores e testamenteiro, têm de ser citadas as pessoas, ou tem de ser citada a pessoa. Não se exclui a
publicação edital, porque pode ser que existam outros interessados.
A citação é algo, aí, de individualização, porque já houve o edital. Embora unua ex publico, quem foi citado por
edital é citado de novo, com o nome; aliás, pode ser caso, aí, a despeito de se saber quem é, de citação edital (art.
231). Há o prazo do art. 1.152, in une, que é de seis meses para que os sucessores do finado se habilitem. Da
citação do art. 1.152, § 2.0 (de que não se cogitava no direito anterior). É feita quando já está correndo o prazo
oriundo do edital. Se ainda não se extinguiu, não há problema, uma vez que o citado o foi em sua pessoa. Se a
citação foi no último dia dos seis meses (art. 1.152), temos de invocar, por analogia, o art. 999
e ~§ 1.0. O art. 1.153 incide.

3)FALECIDO ESTRANGEIRO. Se o falecido era estrangeiro, além do edital, tem-se de enviar comunicação
oficial à autoridade consular. O mesmo dever tem o juiz a que se enviara a carta precatória do art. 1.149.
No Código de 1939, art. 578, dizia-se que, não havendo convenção ou tratado internacional, a arrecadação, o
inventário e a partilha de espólio de estrangeiro, se fariam na forma que se estabelecia em geral, “notificar o
agente consular da nação do falecido para assistir, quando possível, a arrecadação da herança”. Se não havia, no
lugar, agente consular, a arrecadação seria na presença de duas testemunhas, de preferência da nacionalidade do
finado”. Se o falecido era agente consular, a arrecadação seria “na forma estabelecida para a de herança dos
membros do Corpo Diplomático”, salvo se exercera “atividade comercial ou industrial no Brasil, caso em que se
procederá segundo a regra geral”. No parágrafo único do art. 578 estatuia-se: “Não se admitirá a interferência de
agente consular, quando qualquer herdeiro, mesmo ausente, foi cidadão brasileiro”. Interpretava-Se que o
legatário brasileiro e o beneficiado pelo modus não se incluiam na expressão “herdeiro” do art. 578, parágrafo
único. A fonte do arit. 578 fora, em parte, o Decreto n. 855, de 8 de novembro de 1851, art. 2.0.
No art. 1.152, § 2.0, do Código de 1973 apenas se diz que o fato será comunicado à autoridade consular. N~ há
mais a intimação a assistir. Se no lugar não há agente consular, a comunicação é ao agente consular a que
corresponda a região, ou, se não o há para ela, o agente consular em Brasilia. O agente consular não pode pedir
inclusão de testemunhas que sejam da nacionalidade do falecido, nem o juiz h.á de determiná-lo.

Quanto ao agente consular falecido, nada disse o Código de 1973. O art. 578, III, do Código de 1939, relativo a
agente consular que faleceu, regra jurídica que não era de direito administrativo internacional, mas sim de direito
interno, proveio do Decreto n. 855, de 8 de novembro de 1851, art. 11:
“Quando falecer um agente consular estrangeiro, a sua herança será arrecadada pelo mesmo modo pelo qual o
são as dos membros do Corpo Diplomático”, “exceto se o agente consular tiver exercido alguma indústria no
pais”, porque nesse caso se procede “segundo a regra geral”; quer dizer, como a respeito dos bens de qualquer
outro defunto. A despeito de não mais se dizer isso no Código de 1973, é o que havemos de entender, pois agente
consular é membro do Corpo Diplomático.
Se algum herdeiro estrangeiro falece, antes de ser ultimada a partilha, tem o juiz de comunicar a morte e a
herança ao agente consular, pois, mesmo se o estrangeiro não tinha outros bens, tem de ser feito o inventário, na
forma da lei. Pode ser que não seja jacente a herança, então aos herdeiros do herdeiro falecido cabem as
providências do inventário e partilha.
Qualquer manifestação do agente consular no processo de herança jacente só se há de considerar comunicação de
conhecimento, e nunca declaração de vontade. Portanto, não tem ele outro papel que o de titular de pretensão a
fazer comunicações de conhecimento. Se há algum herdeiro ou legatário ou qualquer beneficiado estrangeiro,
cabe a qualquer deles habilitar-se, ou propor alguma ação. Dá-se o mesmo com os credores do decujo
estrangeiro.

Art. 1 .153. Julgada a habilitação do herdeiro 1), reconhecida a qualidade do testamenteira 2) cu provada a
identidade do cônjuge 3), a arrecadação converter-se-á em inventário.

1)FASE POSTERIOR AO JULGAMENTO DA HABILITAÇÃO DE HERDEIRO. Logo após a habilitação de


um herdeiro, há a conversão legal da arrecadação em inventário, de modo que se inicia a ação de inventário e
partilha. Cumpre, porém, atender-se a que o juiz que fez a arrecadação, assunto de que já tratamos, não seja o
competente para isso. Os autos têm e ir ao juízo competente e não é possível que ocorra conflito de competência.
A habilitacão de herdeiros é conforme se estabelece nos arts. 1.055-1.C62. Procura-se nos autos da causa
principal. Pergunta-se: uma vez que o art. 1.060, IV, diz que, “determinada a arrecadação da herança jacente” se
procede à habilitação nos autos da ação principal, “independentemente de sentença”, ~como se há de interpretar
o art. 1.153, onde se lê que, “julgada a habilitação do herdeiro, reconhecida a qualidade do testamenteiro ou
provada a identidade do cônjuge”, a arrecadação se converte em inventário? O art. 1.060, IV, há de ser
entendido, como referente à sentença de habilitação do herdeiro na ação de inventário e partilha, o que é o
normal: uma vez que houve a arrecadação da herança jacente e foi julgada, aí, a habilitação, não mais se preci~ia
de sentença de habilitação na ação de inventário e partilha, pois a ação de arrecadação se converteu em ação de
inventário.

2)TESTAMENTEIRO QUE APARECE. Se aparecer testamenteiro, tem de ser provada a sua qualidade, o que
só se dá se há testamento público, ou testamento cerrado, que já -foi aberto de acordo com a lei, ou particular,
que já teve o cumpra-se, ou codicilo.

3)CÔNJUGE QUE SE IDENTIFICA. O cônjuge, que se apresenta, com a prova da sua identidade, há de ser o
cônjuge ainda em sociedade conjugal. Não precisa ser herdeiro, nem legatário, porque lhe basta ser o cônjuge
supérstite para requerer a abertura do inventário (art. 988, 1) e ser nomeado inventariante (art. 990, 1). No art.
990, 1, atribui-se qualidade para ser inventariante ao “cônjuge sobrevivente casado sob regime de comunhão,
desde que estivesse convivendo com o outro ao tempo da morte deste”. No art. 1.153, não se aludiu a comunhão,
nem ao fato da vida em comum. Todavia, o art. 1.153 combina com o art. 988, 1, onde se reconhece
A conjuge supêrstite”, em geral, legitimação concorrente ao requerimento da abertura do inventário.

Art. 1 . 154. Os credores’) da herança poderão habilitar-se como nos inventários ou propor a ação de
cobrança2) 3)•

1)REGRA DE COMPETÊNCIA PARA A HABILITAÇÃO . Há a habilitabilidade dos credores, enquanto jaz a


herança, tal como ocorre quando já aberto o inventário. Também podem ser propostas as ações de cobrança, isto
é, ações condenatárias e ações executivas de títulos judiciais e de títulois extrajudiciais. A fortiori, as ações
declarativas, as constitutivas e as mandamentais. A herança jacente é representada por seu curador (art. 12, IV).
A herança jacente jaz, mas é herança, patrimônio que foi do falecido, com o ativo e o passivo. O tratamento dos
credores tem de ser como seria no prDcesso de inventário e partilha. Os arts. 1.017-1.021 incidem.

2)HABILITAçAO E OUTRAS AÇÕES. A regra jurídica de competência, que se contém no art. 1.154, é
cunxulativa com a do foro em geral, e não exclusiva; de modo que tanto uma quanto outra pode prevenir a
competência. Apenas se estabelece a desnecessariedade do processo ordinário ou especial. De certo modo se
trouxe ao juízo da herança jacente a competência do juízo de inventário para as habilitações.
Seria absurdo que, durante a jacência da herança, os credores não pudessem executar, nem pedir medidas
cautelares. O que se há de entender é que o juiz da herança jacente não pode obstar pedidos de execução feitos a
outros juizes, conforme as regras jurídicas sobre competência, nem se abster da cognição, por exemplo, da ação
executiva de título cambiario ou cambiariforme.
3)VERIFICAÇÃO DE cRÉI)rros. As verificações de crê-ditos processam-se em apartado. As verificações de
crédito não se aplicava o violento art. 2.0, §§ 1.<’~ e 2.0, do Decreto-lei n. 1.907, de 26 de dezembro de 1939, já
revogado.
As verificações de crédito são incidentais; não atacam a procedência da ação de arrecadação, nem os
pressupostcs dessa. Podem coexistir, uma vez que os seus conteúdos são diferentes, e não, opostos. Tais
verificações são ações declarativals incidentais; portanto, sem o efeito executivo, mediato, das sentenças
condenatórias. Podem tomar a natureza das ações de separação (arts. 1.017 e 1.018), ou a da ação
(mandamental) de reserva (art. 1.018, parágrafo único, ou a da ação declarativa incidental.

4)EMBARGOS DE TERCEIRO. Tem-se de cogitar dos embargos de terceiro. ~,Da oposição de terceiro,
intervenção principal, ou dos embargos de terceiro? Para sistema jurídico, como o brasileiro, em que não houve,
ainda, investigação científica para a grande maioria dos institutos de direito processual, o problema é novo e
assaz difícil.
A ação de arrecadação e julgamento de vacância tende a essa. cognição suficiente mas incompleta, de modo que
ocorre a sentença com reserva (não se confunda com a sentença de cognição completa quando cabe a ação de
modificação, de que falamos sob o art. 471, 1). ~É a vacância que a “oposição” nega, é a futura sentença que ela
impugna? Não. Aí, o que o terceiro combate é a arrecadação mesma, o ato judicial de constrição ; não lhe
importa qualquer discussão de haver, ou não, herdeiros parentais e testamentários, o terceiro afirma que não se
“podia” proceder à arrecadação. Impugna a ação em seus pressupostos, nega a pretensão c. a ação de direito
hereditário. Não se pode, no julgamento dos embargos de terceiro, aludir à improcedência da ação de
arrecadação e julgamento da vacância, como seria o caso da. sentença de repulsa nas ações de habilitação de
herdeiros; e sim à improcedência da ação de arrecadação, na sua fase inicial, que é a determinadora do ato
judicial constritivo. Os embargos de terceiro atacam a ação pela raiz, porque vão, mandamentalmente, contra o
mandado de arrecadar e contra a constituição da curadoria. E são ação, com toda a eficácia da sentença.
favoráveL

Art. 1 . 155. O juiz poderá autorizar a alienação 1):

1 de bens moveis, se forem de conservação difícil ou dispendiosa 2);

11 de semoventes 3), quando não em -pregados na exploração de alguma indústria;


Iii de títulos e papéis de crédito 4), havendo fundado receio de depreciação;

IV de ações de sociedade quando, reclamada a integralização, não dispuser a herença de dinheiro para
pagamento 5);

V de bens imóveis6):
a) se ameaçarem ruína, não convindo a reparação;
b) se estiverem hipotecados e vencer-se a dívida, não havendo dinheiro para o pagamento.
Paragrafo único. Não se procederá, entretanto, à venda se a Fazenda Pública ou o habititando adiantar a
importância para as despesas 7),

1)ALIENAÇÃO DE BENS DA HERANÇA JACENTE. A alienação pelo curador da herança jacente tem de ser
autorizada pelo juiz. No Código de 1939, art. 567 § 1.~, falava-se de
“venda por iniciativa particular ou em praça”. No Código de 1973, fala-se de alienação, sem a permissão
excepcional da renda particular, que acusamos de chocar-se “com todos os princípios de direito administrativo
(bens de Fazenda Pública, que talvez sejam), de administração de patrimônio de incerta persona, de bens
judicialmente depositados. A sábia legislação administrativa do tempo do Império, que anuiu na venda em praça
a prazo, se não houvesse outro jeito (Decreto n. 510, de 13 de março de 1847; Decreto n. 2.433, de 15 de junho
de 1859, art. 63), sempre repeliu a venda particular, sem exceção (Oficio do Ministro da Fazenda, de 10 de
março de 1858; A. M. PERDIGÃo MALnXIRo, Manual do Frocurador dos Feitos, 1, 143, nota 620) “. O
Código de 1973 fez bem em retirar o erro de 1939.

2)PRESSUPOsTOS PARA A VENDA DE BENS MOVEIS. O sentido de bens móveis, no art. 1.155, 1, é muito
limitado: estão fora os semoventes, os títulos de credito e os papéis de crédito e as ações de sociedade. São dois
os pressupostos: tratar-se de bem móvel, senso estrito; ser de difícil conservação , ou de conservação
dispendiosa.

3)PRESSUPosTOs PARA A VENDA DE SEMOvENTES. Se há semoventes, que não são empregados em


exploração de terras ou de alguma indústria, pode ser dada a autorização; portanto, se há conveniência na Venda.
Se’ os semoventes são empregados na exploração de alguma indústria, são bens que pertencem à indústria, razão
por que só seriam alienáveis com ela. Se for de conservação difícil ou dispendiosa, e a indústria é bem móvel,
pode essa, com os semoventes (art. 1.155, II) ser vendida (art. 1.155, 1). Se é bem imóvel, a indústria (art. 1.155,
V) e há ameaça de ruína não convindo a reparação (art. 1.155, V, a) ou se estiver hipotecado e se vence a dívida
sem haver dinheiro para o pagamento (art. 1.155, V, b), há alienabilidade. Todos esses assuntos têm de ser objeto
da apreciação cuidadosa do juiz. Aliás, muito se há de exigir do curador (arts. 1.134, III, e 150). Ao juiz assiste o
art. 1.109.

4)PRESSUPOsToS PARA A VENDA DE TITULOS DE CREDITO E PAPÉIS . Para que seja acertada a
autorização, é preciso que o juiz esteja suficientemente informado de que vai ou pode ocorrer depreciação
(“fundado receio”). Se falta tal pressuposto, não se justifica a venda de títulos de crédito ou de papéis de crédito,
sem que o juízo da herança jacente não aguarde, pelo menos, a declaração de vacância.

5)PRESSUPOSTOS PARA A VENDA DE AçõEs DE SOCIEDADE. As ações de sociedade têm tratamento


diferente daquele que a lei deu aos títulos de crédito e aos papéis de crédito: têm de ser ações de sociedade ainda
não integralizadas; mais ainda: não haver no ativo da herança dinheiro suficiente para o pagamento.

6) VENDA DE BENS IMÓVEIS. Se os bens imóveis estão ameaçados de ruína, não convêm a reparação
(assuntos para detidos exames), pode ser autorizada a venda. Se o bem imóvel está hi~potecado e venceu-se a
dívida ou vai vencer-se, sem que haja no ativo da herança jacente dinheiro que t’as!te para o pagamento, pode ser
autorizada a venda.

7)FAZENDA PUBLICA E HABILITANDO. Se, diante da situação, a Fazenda Pública se presta a adiantar a
quantia para qualquer das despesas do art. 1.155, I-V, ou se alguma pessoa está em ação de habilitação na
herança jacente e requer que adiante o dinheiro, a autorização da venda perde a eficácia. Se o pedido foi anterior
à propositura da ação d’e habitação, não se dá a autorização. A lei reconhece o interesse dos herdeiros (ou
legatários quanto ao objeto legado) durante a fase de cognição da situação jurídica deles. A 4.~
Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, a 30 de dezembro de 1947 (A. J., 87, 283), deixou de
aplicar o art. 567, § 3•o, do Código de 1939, em caso de livros cuja guarda e conservação exigiam despesas (art.
567, § 1.0), porque o art. 567, § 3~0, só se referia, disse, a bens de raiz. Posto que o art. 567 falasse de bens de
raiz, os § § 1.<), 2.~ e 3~0 concerniam aos hereditários em geral. O erro da 4.~ Câmara Civil ressaltou. No
Código de 1973, art. 1.155, é claro. Em qualquer das espécies do art. 1.155, a Fazenda Pública ou o habilitando
pode adiantar a importância, evitando a venda. Passa a ser credor da herança jacente.

Art~ 1 . 156. Os bens com valor de afeiçã0 1), como retratos, objetos de uso pessoal, livros e obras de arte, só
serão alienados depois de declarada a vacância da herança 2)~

1)BENS COM VALOR O Código de 1973, art. 1.156, não afastou o que se estabelecia no art. 566, parágrafo
único, do Código de 1939. O texto anterior dizia que não serão vendidos antes da devolução à Fazenda Pública
os bens móveis com valor de afeição, “como retratos de família, coleções de medalhas e livros raros”. O de hoje
diz que só serão alienados depois de declarada a vacancia da herança (cf. art. 1.158). Daí em diante, os herdeiros
e os credores somente podem reclamar qualquer direito por ação direta. É possível que juizo em que tal ação seja
proposta defira o requerimento de diligência para que não se proceda à venda antes de se julgar a ação.
Os bens móveis, com valor de afeição, são aqueles que não têm preço, fixo ou aproximado, de mercado. Supõe-
se não ser corrente o valor. Somente há de ser vendidos quando não mais estiver em curso o prazo de um ano
para que herdeiros, descendentes ou ascendentes, ou testamentários, se habilitassem. Nada obsta a que no dia da
expiração se faça a venda, se a Fazenda Pública o requerer.

2)VACÂNCIA DA HERANÇA. Declarada a vacância, os bens “com valor de afeição”, de que fala o art. 1.156,
que não foram alienados, terão de ser entregues à Fazenda Pública; cessada a função do curador, é a ela que cabe
requerer a alienação. O produto é depositado, cabendo a aplicação do art. 1.116 e parágrafo único (“do produto
da alienação ou do depósito, em obrigações ou títulos da dívida pública da União ou dos Estados”Y
Aqui, são de relevância os textos do Código Civil, art. 1.594 e parágrafo único, com a redação que lhes deu o
Decreto-lei n. 8.207, de 22 de novembro de 1945. Lê-se no art. 1.594: “A declaração de vacância da herança não
prejudicará os herdeiros que legalmente se habilitarem; mas, decorridos cinco anos da abertura da sucessão, os
bens arrecadados passarão ao dominio do Estado, ou ao do Distrito Federal, se o “de cuius” tiver sido
domiciliado nas respectivas circunscrições, ou se incorporarão ao domínio d.:t União, se o domicílio tiver sido
em território ainda não c’instituído em Estado”. No parágrafo único: “Se não forem notoriamente conhecidos, os
colaterais ficarão excluídos da sucessão legítima após a declaração de vacância”. Tal regra juridica de modo
nenhum apanha os herdeiros testamentários ou os legatários, a despeito de serem, na hipótese, parentes
colaterais.

Árt. 1 . 157. Passado um ano da primeira publicação do edital (art. 1 .152) e não havendo herdeiro habilitado
nem habilitação pendente 1), será declarada vacante 2)
Parágrafo único. Pendendo habilitação 3), a vacância será declarada pela mesma sentença que a julgar
improcedente. Sendo diversas as habilitações, aguardar-se-á o julgamento da última.
Art. 1 . 158. Transitada em julgado a sentença que declarou a vacância, o cônjuge, os herdeiros e os credores só
poderão reclamar o seu direito por ação direta4) 5)6) 7)8) 9)•
1)PRAZO E FALTA DE QUALQUER HABILITAÇÃO. Passado um ano da primeira publicação edital de que
o art. 1.152, para que se habilitasse quem entendesse ser sucessor do falecido, e nenhuma pessoa se tenha
habilitado, nem esteja penaente qualquer requerimento de habilitação, tem de ser declarada a vacância. Vacante,
aí, no sentido de hoje, é a herança a respeito da qual, extinto o prazo, ninguém se habilitou. A vacância somente
concerne a herdeiros, legítimos ou testamentários, e a legatários, porque a Fazenda Pública e herdeira, a respeito
da qual não há eficácia da vacância. A função do juiz da herança jacente acaba com o trânsito em julgado da
sentença.

2)SENTENÇA QUE PROCLAMA A VACÂNCIA DOS BENS. A sentença que proclama a vacância é sentença
mandamental, em ação não ainda executiva, com a particularidade de conter reserva de se apresentarem no prazo
legal os sucessores do morto. A cognição é incompleta e mantêm-se incompleta ate cair, com a preclusão, a
reserva.
O processo de arrecadação e entrega dos bens arrecadados de defuntos é extremamente complexo em suas três
fases:
a) a da arrecadação, medida cautelar, portanto, aí, mandamental, já fortemente dosada de executividade e baseada
em cognição incompleta, mas tida por suficiente para a arrecadação e as providências posteriores; b) a do
procedimento edital, com que se reforça esse elemento de cognição, sem se vir a considerá-la completa; c) a da
sentença de vacância

HERANÇA JACENTE (ARTE. 1.157 E 1.158)


(arts. 1.157 e 1.158). Na linguagem vulgar, fala-se da declaração de vacância, o que, de si só, levou os menos
cautos a, desde logo, terem tal ação como declarativa. A fácil confusão dos dois sentidos de “declarar”, a que por
vezes aludimos.
Ora, a classificação da ação dos arts. 1.143-1.158, envolve, além de outras dificuldades, a da cumulação
sucessiva das resoluções judiciais que a desenvolvem através do processo.
É inegável a existência de elemento declarativo, porém esse elemento declarativo é o elemento comum às ações
de cognição, e não pequeno nas ações executivas de títulos extra-judiciais e na própria ação executiva de
sentença. Se ele preponderasse, a sentença dos arts. 1.157 e 1.158 (julgamento da vacância) teria força material
de coisa julgada em toda a extensão, com a conseqúência necessária da cognição completa e secundariedade dos
outros elementos, em vez de permitir a ação do art. 1.158, que mostra tratar-se de julgamento com reserva.
O elemento constitutivo, que vai até o julgamento da vacância, não enche, predominantemente, a eficácia desse
julgamento. O que se julga é estarem sem herdeiros parentais e testamentários os bens, baseando-se o juiz no
procedimento edital, e da sentença de vacância resulta a entrega dos bens à Fazenda Pública. Já vimos que o
elemento declarativo, que serve de fundamento à sentença, é evidente, porém não preponderante. Se nos
cingirmos à pesquisa da composição da eficácia da centena, como cumpre que se proceda sempre que se quer
classificação científica das ações segundo a sua eficácia, vemos que a eficacia preponderante da sentença dos
arts. 1.157 e 1.158 é mais do que a eficácia preponderante das sentenças declarativas. As sentenças somente
sobre a existência da vacância, se, por um lado, teriam por base cognição completa (plus), que a sentença dos
arts. 1.157 e 1.153 não tem, por outro lado não teriam eficácia mandamental, isto é, estariam limitadas à força e à
eficácia de preceitação .
No fundo, o que resta, historicamente, da sentença proferida a respeito das heranças sem dono (antes, pois, do
instituto da saisina, cf. Código Civil, art. 1.572; veja-Se nosso A Saisina no direito brasileiro, Ciência do Direito,
III, 115-147), ao tempo da lacuva de propriedade e de posse entre a morte e a atribuição ao fisco, é apenas
estrutura vazia, o fóssil, o julgamento com reserva da vacância. Nada que mais engane a olhos desatentos que
essas reminiscências de antigas “ações” a que correspondiam direítos subjetivos e pretensões que profundamente
se transformaram. No choque entre a concepção romana da jacência e a concepção germânica da saisiiuz,
arrebentaram-se partes dos institutos, donde se acharem detritos como a sentença sobre a vacância ainda não
suficientemente reconcebída para caber na síntese. A sentença de hoje, embora fundada em cognição
(incompleta) que provém do procedimento edital, é sentença mandamental, que se profere em processo
tipicamente executivo: medida constritiva, apoiada em cognição superficial, à semelhança de algumas ações
executivas que se iniciam com a penhora; procedimento de cognição (edital); liquidação e venda de bens,
segundo regras jurídicas especiais; embargos de terceiros, à feição dos embargos de terceiro nas ações
mandamentais e executivas.

3)PROCESSOS INCIDENTAIS E HABILITAÇÃO DE HERDEIROS. Os processos de habilitação de herdeiro,


quando tenha havido arrecadação, devem ser em apartado, para que se não perturbe o rito da arrecadação; mas
sân impugnações-habilitações, e não habilitações incidentes. O adjetivo “incidentes” estaria, aí, no sentido da
linguagem vulgar. Não se confundem tais habilitações com as habilitações incidentes dos arts. 1.055-1.062.
A habilitação de herdeiros de que aqui se fala, se, quanto ao processo, é como as habilitações dos arts. 1.055-
1.062, contêm, no que é ação, impugnativa do processo dos arts. 1.142-
-1.157.Não há, propriamente, incidentalidade. Trata-se de meio de impugnativa, no preciso sentido, com o fim
de excluir a procedência da ação de arrecadação e julgamento da vacância, e em verdade a citação do art. 1.152
continha provocatio ad agendum.
De inre condendo, a habilitação de herdeiros, no processo de herança jacente, poderia ser concebida: a) como
defesa, se a ação de arrecadação tendesse à descoberta dos herdeiros, em vez de à sentença de vacância; b) como
incidente, se a ação de arrecadação tivesse o fito de acautelar o interesse dos herdeiros desconhecidos, em vez de
ser o processo preliminar para a entrega dos bens ao herdeiro certo, a Fazenda Pública; c) como impugnativa
(“oposição”) à ação mesma, em sua procedência, uma vez que tal ação é acauteladora dos interesses da Fazenda
Pública, se e enquanto não é afastada pela aparição dos herdeiros. O Código preferiu a ultima concepção; de
modo que a citação edital do art. 1.152 se entende como provocatio ad agendum. De iure condito, e assim que
temos de raciocinar.

4)AçÃo DE PETIÇÃO DE HERANÇA E AÇÃO DOS CREDORES. Ao comentar-se o art. 1.158, observe-se
que o Decreto-lei n. 1.907, de 26 de dezembro de 1939, art. 2.0, § 1.0, tabelecera a prescrição de qualquer
pretensão quanto à herança, depois dos seis meses a que se referiu o art. 2.0. O próprio testamento sofrera a mais
violenta e anti juridica amortização. Mas a regra jurídica não derrogara todo o conteúdo do art. 576 do Código de
1939. Se o testador era casado, ou se deixara testamento e foi apresentado antes de ser arrecadada a herança, o
Decreto-lei n. 1.907 não se aplicava. Se, feita a arrecadação, fora apresentado antes do prazo de seis meses, ou se
algum dos herdeiros se habilitara, a arrecadação cessava (Código de 1939, art. 562). O Decreto-lei n. 1.907 foi
revogado. Veja-se, hoje, o Código Civil, art. 1.594 e parágrafo unico (Decreto-lei n. 8.207, de 22 de novembro de
1945, art. 1.0).
A competência para a ação, depois de transitar em julgado a sentença de vacância, cabe ao juizo dos feitos da
Fazenda Pública, e não ao juizo da arrecadação, nem, ainda, ao do inventário. Esse princípio foi desde cedo
firmado, tendo sido incluido no Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, verbis “depois de julgados vacantes e
devolutos para o Estado, as habilitações dos herdeiros e as reclamações de dívidas ativas e passivas relativas às
mesmas heranças, bem como quaisquer outros processos que com elas entendam, terão lugar pelo juízo dos
feitos”. Mas pode haver regra juridica especial sobre a competência ratione materiae.

5)NATUREZA DA AÇÃO DE ARRECADAÇÃO. Nos casos em que o decujo, que era solteiro ou viúvo,
deixara testamento, mas fora feita a arrecadação, por não serem conhecidos os herdeiros, nem ter sido
apresentado o testamento, esperavam-
-se durante seis meses o testamento e os herdeiros, a partir do óbito. Se não fosse apresentado, com o cumpra-se,
nem os herdeiros se habilitassem, dava-se a devolução definitiva de que o cogitavam os art& 1.0 e 2.0, pr., e § §
iS) e 2.~ do Decreto-lei n. 1.907, de 26 de dezembro de 1939. Se fosse apresentado, cessava a arrecadação
(Código de 1939, art. 562). Se o decujo, que era solteiro ou viúvo, não deixara testamento, nem se lhe conheciam
os herdeiros, tudo se passava como nas espécies anteriores. Havendo devolução definitiva, em que importava a
prescrição da pretensão segundo o art. 2.0, § § 1.<) e 22, do Decreto-lei n. 1.907, o art. 576 do Código de 1939,
era sem qualquer aplicação. Portanto, o art. 576 do Código de 1939 somente se aplicava quando o falecido não
era solteiro ou viúvo. Observe-se, além disso, que o atrabiliário decreto não vacilara em invadir o domínio das
competências legislativas dos outros Estados, territorializando, aí, a sucessão dos estrangeiros e subordinando-as
à própria amortização do testamento. O Decreto-lei n. 1.907 foi revogado pelo Decreto- lei n. 8.207.
Competente para prosseguir no processo, após a devolução dos bens, é, em princípio, o juiz que arrecadou
(Supremo Tribunal Federal, 15 de outubro de 1947, R. F., 118, 393). Mas a lei de organização judiciária é que
diz qual o juiz competente ratione materiae para conhecer da ação de petição de herança.

6)Ação DE COGNIÇÃO INCOMPLETA E AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA . A ação de que tratamos é


a de petição de herança, embora exercida após o julgamento da vacância (cf. a decisão 81 de JORGE DE
CABEDO). Se a sentença dos arts. 1.157 e 1.158 (julgamento da vacância), fosse de cognição completa, a ação
direta do ad. 1.158, 2.~ parte, seria ação rescisória de sentença, caso que se teria de juntar aos dos arts. 485 e
486; mas a sentença dos arts. 1.157 e 1.158 (verbis “Transitada em julgado a sentença...”), é de cognição
incompleta, sentença com reserva, sentença anexa com a condição resolutória típica, hoje rara (as do art. 471, 1,
não no são, e no confundi-las erram juristas do mais alto valor). A restituição, a que a Fazenda Pública é
obrigada, deriva de ser o Estado o ultimus legitimae ~uccessionis ordo. Possuindo na qualidade de herdeiro os
bens da herança e tendo-os pela entrega do art. 1.157, o Estado é réu de ação de petição de herança (J. H.
CORREIA TELES, Doutrina das Ações, § 122, nota 2) e o ônus de restitui-la aos herdeiros de ordem anterior é
um dos ônus que tem o possuidor dos bens ditos vacantes (PAsCOAl.. JosÉ DE MELO FREIRE, Institutiones,
III, 98).

7)CREDORES E TITULARES DE DIREITOS REAIS. Os credores têm a ação condenatória e a executiva, ou


qualquer outra que derive de pretensão pessoal ou real, ainda após a devolução à Fazenda Pública (cf. l.a Turma
do Supremo Tribunal Federal, 14 de outubro de 1946, D. da J., de 14 de junho de 1948). Dá-se o mesmo com os
títulos de ações reais. Cf. Supremo Tribunal Federal, 14 de março de 1963 (D. da J., 16 de maio): “... . a opinião
de PONTES DE DE MIRANDA abrange todos os títulos”
8)VACÂNCIA E HERDEIROS. Temos de pensar nos casos em que, antes do trânsito em julgado, algum
herdeiro se habilitou, ou alguns herdeiros se habilitaram. Não houve ainda devolução definitiva. Havia a regra
jurídica do Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, art. 58 (TEIXEIRA DE FREITAS, Consolidação das Leis
ações, ad. 1.257; ANTÔNIO JOAQUIM RiRAS, Consolidação, ad. 978); depois, o art. 577 do Código de 1939,
onde se dizia: “Os bens da herança jacente serão entregues aos legítimos herdeiros, pagos os impostos e à vista
de deprecada do juiz competente, instruida com as habilitações originais julgadas por sentença.”

Hoje, temos. de dar solução mais clara, mais científica. Se o juízo da herança jacente é o juízo competente para o
inventário e a partilha, tem de ocorrer a entrega aos herdeiros habilitados conforme os princípios que regem o
inventário e a partilha. Entrega, aí, é mais declaração de que houve a saisina a favor do habilitado, ou dos
habilitados, quiçá ma s a posse imediata, se já se sabe de quem são os bens. Se juízo da herança jacente não é o
competente para o inventário e a partilha, no momento de se saber incompetente tem de remeter os autos ao juízo
competente. Isso não afasta que possa surgir conflito de competência.

9)ENTREGA DE BENS AOS HERDEIROS HABILITADOS. Se houve habilitação de herdeiros, os bens são
entregues aos habilitados. Tal habilitação de herdeiro é ação em que a sentença de acolhimento tem efeito
material de coisa julgada, para a ação de arrecadação da herança e de julgamento de vacância, com a força
mandamental, negativa, que se caracteriza na entrega ao herdeiro (em vez da arrecadação para a finalidade do
julgamento de vacância). Essa habilitação não tem eficácia erga omnes, de modo que herdeiros que venham
antes, na ordem hereditária, podem reclamar os~ bens, se não prescrita a sua pretensão, pela ação de petição de
herança, e os terceiros, pela ação de reivindicação, embora pudessem, antes, pendente a ação de herança jacente,
ter usado dos embargos de terceiro e não usaram.
Nas ações de petição de herança, bem como de reivindicação, é possível a oposição dos arta. 56-61.

DOS BENS DOS AUSENTES 1)~2)

1)CONCEITO DE AUSÊNCIA . O conceito de ausência, nos arts. 1.159-1.169, de ordinário se refere ao


domicílio da pessoa, é a negativa da presença, no lugar em que é ela domiciliada, mais a falta de notícias.
(Excepcionalmente, pode dar-se que faltem notícias, posto que a pessoa se ache no lugar, e. g., falta de notícias
mais falta de identificação.) O conceito de ausência, no art. 9,0, parágrafo (mico, é mais largo: dispensa a falta de
notícias; é negativa de presença, somente, O ausente, que se cita por precatória, não é ausente no sentido dos arts.
1.159-1.169. No sentido dos arts. 1.159-
-1.169há, porém, casos em que o domicílio não é o ponto de referência. Daí termos dito que, de ordinário, o
conceito de ausência alude a ele. Então, para que se fixe o conceito e se mantenha o de domicílio, ou se corrige
aquele ou esse. Pela palavra “domicílio” (Código Civil, art. 463), diziamos em 1917 (Direíto de Família, 1.a ed.,
454), deve entender-se, nesse caso, o lugar onde a pessoa possui bens; porque a curatela do ausente é cura rei, e
não curl personae; mas o Código de 1939 e o de 1973 mantiveram a expressão “domicilio”. Cf. M.A. COELHO
DA ROCHA (Instituições, 1, 269) e nosso Tratado de Direito de Familia (3~ ed., III, 330 s.). Cf. Tratado de
Direito Privado, IX, § § 1.050-1.058.
2)AÇÕES RELATIVAS A AUSÊNCIA, NATUREZA. A ação dita por muitos declarativa de ausência é
constitutiva, e não declarativa; tal como a ação de interdição. Os juristas costumam pá-la entre as ações
declarativas, porque a eficácia da sentença cessa com o comparecimento do ausente (art. 1.162, 1), ou com a
certeza da morte do que estava ausente (artigo 1.162, II). Cp. art. 471, 1. Isso não basta para classificá-la, com
rigor de ciência. Que a sentença que nela se prefere não é como as sentenças do art. 471, 1, não há dúvida; nem
há dúvida em que se trate de sentença com reserva (condição resolutiva); tanto que a chamada “declaração de
morte” do direito alemão, não no sendo, fica de pé, enquanto não passa em julgado a sentença na ação de
nulidade. A sentença, na ação do direito alemão, é declarativa; a sentença, na ação brasileira, não no é. O que
levou ao erro os juristas foi exatamente o falar-se, no direito material, de “declaração de ausência”. A palavra
influiu no ato de classificação, que desprezou (ou negligenciou) o exame do conteúdo dela. O Código Civil, art.
12, IV, refere-se mesmo à “sentença declaratória da ausência”; mas claro é que não empregou o adjetivo no
sentido técnico da classificação quinária das sentenças.
Se compararmos a ação dos arts. 1.159-1.169 com a de arrecadação de bens de defunto e julgamento de vacância
(arta. 1.142-1.158), temos: (A) a ação de arrecadação e julgamento de vacância tem algo de comum com a ação
de bens de ausente (arts. 1.159-1.169), a) o terem ambas, na primeira fase, a medida cautelar da arrecadação, b)
haver, em ambas, quanto à entrega dos bens, sentença com reserva, c) a resolução da cognição provoca,cta pela
aparição dos donos dos bens; (B) a ação de arrecadação e julgamento de ausência possui, a mais, a) o elemento
lógico e sentencial sobre o estado de pessoa (a ausência), em vez de se restringir a julgamentos sobre os bens e a
sua pertinência a alguém, b) duas, em vez de urna sentença de cognição Incompleta, lato é, com reserva (arts.
1.163, sucessão provisória; 1.167, II e III, sucessão definitiva, aliás também “provisória”, c~f. art. 1.168).
A sentença, na ação de arrecadação e julgamento de vacância , é mandamental. A sentença na ação de bens de
ausentes contém duas sentenças, unia, sobre status (a ausência), e é constitutiva, outra, sobre os bens, que é a de
entrega provisória, ou, melhor, em virtude de sentença com reserva. A última é mandamental. Cessando a
ausência, cessa a presunção de morte; cessando a presunção de morte, cessa a sucessão que nela se fundou.
A ação do art. 1.159 do Código de Processo Civil é ação arrecadativa. A decisão sobre status é inclusa, como
questão prévia, na decisão mandamental. Tal ação é lnseparável da questão prévia, mas a questão prévia pode
ser concebida como questão separada, correspondendo-lhe a ação de decretação de ausência, como ação
constitutiva. Funda-se no art. 5•0, Iv, do Código Civil. O rito tem de ser, não o dos arts. 1.187-1.193 do Código
de Processo Civil, mas o ordinário, nomeado, ad instar do que se fez nas interdições, defensor.
O ausente pode não ter deixado bens e ter-se-lhe de declarar a ausência e nomear curador (ação constitutiva
declarativa), ou só declarar-lhe a ausência (ação declarativa, que aparece inclusa em todas as questões em aue se
declare ausência sem se nomear curador, e. g., na espécie do art. 251, 1, e na dos arts. 242 e 245 do Código
Civil).
A ação constitutiva declarativa tem de ser proposta no foro do domicilio do ausente, ou, na falta de domicilio, no
da última residência (Tribunal de Justiça de São Paulo, 3 de fevereiro de 1948, R. dos T., 173, 423).
Sob o Código de 1973, temos de precisar as regras juridicas sobre competência, em se tratando de bens de
ausentes. O foro do último domicilio é o competente para a arrecadação (arts. 1.159 e 97). Se o ausente não tinha
domicílio certo, competente é o da situação dos bens (art. 96, parágrafo único, 1).
Mas lugar da a ação arrecadativa também pode ser proposta no situação dos bens arrecadáveis.
Art. 1 . 159. Desaparecendo alguém 1) do seu domicilio sem deixar representante a quem caiba administrar-lhe
os bens, ou deixando mandatário que não queira ou não possa continuar a exercer o mandato4), declarar-se-a a
sua ausência5) 7)•
Art. 1 .160. O juiz mandará arrecadar2) os bens do ausente e nomear-lhe-á curador6) na forma estabelecida no
capitulo antecedente3) 8)•

1)DESAPARECIMENTO DE ALGUÉM. Lugar em que se acham os bens, tal seria o conceito de domicilio,
nos artigos 1.159-1.169. Antes nota 1) ao Capítulo VI. O Código continuou com o erro que apontáramos no
Código Civil, art. 463 (Direito de Família, 1.a ed., 454; cf. Tratado de Direito privado, Tomo IX, ~ 1.051, 2).
O quinhão hereditário do herdeiro ausente ou o legado (ou benefício) do legatário (ou beneficiado modal)
ausente arrecada-se como bem de ausente, e não como bem de defurto. A nomeação de curador é no próprio
inventário, até que se dê a arrecadação. Rege-se pelo art. 9~O, parágrafo único. Feita a arrecadação, pelos arts.
1.159-1.169. Sendo estrangeiro, a comunicação ao agente consular não se dá, salvo se sobre-vêm morte (art.
1.152, § 2.0).
A ausência da pessoa pode ser danosa para ela e para outras pessoas, inclusive para o Estado. Dai a regra jurídica
do Código Civil, art. 5~O, IV, onde se diz que são absolutamente Incapazes, ao lado dos menores de dezesseis
anos, dos loucos de todo o gênero e dos surdos-mudos que não puderem exprimir a sua vontade, “os ausentes,
declarados tais por ato do juiz”. O elemento declarativo, apesar de referir-se ao tempo em que se iniciou a
ausência, nada mais poderia produzir que a declaração; daí, só o elemento constitutivo, que é a força sentencial,
criar a incapacidade. Diante de tal situação, tinha o Estado de estabelecer a tutela jurídica. No Código Civil, art.
463, apenas se fala do requerimento de qualquer interessado ou do Ministério Público. Sob o Código de 1973, o
art. 1.159, depois de referir-se ao desaparecimento, sem deixar representante a quem caiba administrar-lhe os
bens, ou, se o deixa, não quer ele exercer o mandato ou continuar no exercício, “declarar-se-á a sua ausência”.
Além disso, há o art. 1.160, que remete ao Capítulo antecedente, onde o artigo 1.142 estabelece dever do juiz (“o
juiz procederá sem perda de tempo à arrecadação de todos os seus bens”).

2)PRESSUPOSToS DA ARRECADAÇÃO . Os pressupostos são os seguintes: a) haver bens na jurisdição do


juiz; b) não se ter notícia do proprietário ou possuidor; c) não ter deixado procurador, ou não o ter constituído,
estando ausente, para administrar esses bens, ou, se o deixou, não querer ou não poder (art. 1.159) exercer a
procuração (evitamos falar de mandato, porque a procura abrange outros negócios juridicm). Quanto à letra b),
observe-se que, se o ausente partira em navio, ou avião, de que não se tem notícia, a arrecadação é regida pelos
arts. 1.159-1.169, e não pelos arts. 1.142-1.158 (herança jacente). Mas o Decreto n. 2.433, de 15 de junho de
1859, depois de aludir às Ordenações Filipinas, Livro 1, Título 62, § 38, acrescentara, na alínea 2.~ do art. 47,
inciso 1.0: “Os Juizes de Órfãos, quando tiverem de julgar as habilitações dos herdeiros do ausente, atenderão
sempre aos motivos da ausência e às causas que obstam à falta de noticias, embora tenha decorrido qualquer dos
referidos prazos”. Daí ter-se insinuado, na prática, que, no caso do navio desaparecido, se havia de admitir que os
herdeiros presuntivos recebessem os bens sob fiança. Não se deve acolher essa exceção . Ou se faz prova da
morte, segundo os princípios de prova quando não há a comunicação normal, ou não se faz, e o caso é de
arrecadação de bens de ausente, e não de arrecadação de bens de defunto. Ocorrendo que se saiba que o navio
naufragou, ou o avião caiu, e tudo indique que nenhum se salvou, ou que não se salvou a pessoa cujos bens estão
na situação do art. 1.159, então tem o juiz de proceder à arrecadação.
Os bens podem ser de pessoa que se ausentou, ou bens cuja propriedade se passou a pessoa já ausente.

3)PROCEDIMENTO ARRECADATIVO. O processo é semelhante ao da herança jacente. O que se disse


quanto a créditos e embargos de terceiro é aplicável à arrecadação de bens de ausente. Também se há de atender
a que a arrecadação, mandamental como é, exige, para se desfazer, a força, ou, pelo menos, o efeito mandamental
de outra sentença. Isso serve para estabelecer a natureza mandamental contrária das habilitações de herdeiros e
dos embargos de terceiro.

4)PROCURADOR QUE NÃO QUER OU NÃO PODE EXERCER A PROCURA. E. g., se o procurador cai
em Incapacidade; se, por mudança de estado, o procurador não pode mais exercer a procuração; em caso de
renúncia; se não há noticia do procurador.

5)O juiz procede de oficio, ou por provocação de interessado ou de interessados, incluido o órgão do Ministério
Público. São interessados, por exemplo, os presumidos herdeiros, os credores, os sóclos, os condôminos, os réus
proprietários dos bens de que é usufrutuário o ausente, o fideicomissário dos bens, o enfiteuta dos bens, o
proprietário dos bens vendidos com reserva de domínio e o titular do direito expectativo a esses bens, etc. O
devedor que se quer liberar da obrigação deve pedir a consignação em pagamento, e não a arrecadação do
crédito.

6) CURADOR ro AUSENTE. A nomeação, aí, é para que o incapaz, que o é em virtude da decisão, tenha
representante, durante a ausência. Não se trata de declaração de morte, nem de se ter como morto o ausente. Os
bens arrecadáveis
rodem ser mesmo bens que o ausente recebera pena morte de alguém; e até ocorrer que se trate de quinhão do
herdeiro ausente ou do legado (ou beneficio) do legatário ausente (ou do beneficiado modal), por estar ausente e
tendo sido declarado tal o decujo, de que se abriu sucessão provisória.
A nomeação do curador é logo que se dê a arrecadação. O curador pode ter de ser oficial (art. 9•0, parágrafo
unico). Sendo estrangeiro o ausente, não se tem de comunicar a ocorrencia ao agente consular, como acontece
em caso de herança jacente (art. 1.152, § 2.0). Tal providência somente é de exigir-se se aberta a sucessão
provisória (arts. 1.163 e 1.160).
Quanto à competência já dissemos o bastante na nota 2) antes do art. 1.159. Se não há domicilio , ou se não é
certo, o juízo é o do lugar da situação dos bens (art. 96, parágrafo único, 1). Se os bens são situados em lugares
diferentes, o juiz de qualquer deles (art. 96, parágrafo único, II, por analogia, pois falta o pressuposto do óbito).
O que pode acontecer é que tenha havido duas ou mais arrecadações dos bens do ausente, hipótese em que vigem
as regras jurídicas dos arts. 103 (conexão), 106 (prevenção da competência) e 107.
Se a ação de declaração de ausência e nomeação de curador (ação constitutiva com forte carga de
declaratividade) foi proposta sem ser preciso arrecadação de bens, não há preponderância do elemento
mandamental, típico, das ações arrecadativas. Pode não haver bens, ou havê-los e não se precisar de arrecadar,
por estarem na administração do procurador: então, não há pensar-se em arrecadação. Os artigos 1.159-1.169
somente cogitaram da ação arrecadativa. A competência é, em princípio, a do foro do domicílio. Se a ação foi
proposta no foro do domicílio, têm de ir precatórias ao foro dos bens sitos alhures, onde a mandamentalidade
prepondera; em verdade, aí é que se aplicam os arts. 1.1594.169.

Se a ação foi proposta no foro da situação dos bens, que não era a do domicilio do ausente, a eficácia da sentença
é especialmente limitada à circunscrição do juiz, mas pode dar-se prevenção. Esse fato se parece, porém não se
identifica, com o da presença em certo lugar, fora do domicílio, do que se ausentara do domicilio e foi julgado
ausente pelo juiz do domicílio: então, a presença espacialmente caracterizada limita a eficácia da sentença
constitutiva e da sentença mandamental constitutiva.

A propósito da nomeação do curador, aqui em circunstâncias que não são as da nomeação do curador da herança
jacente, tem-se de atender ao que, acertadamente, estatui o Código Civil: o cônjuge do ausente, sempre que não
esteja judicialmente separado, é que há de exercer o cargo de curador do ausente (art. 466); na falta dele, a
curadoria dos bens do ausente incumbe ao pai, à mãe, aos descendentes, se não há impedimento que os iniba de
exercer o cargo (art. 467). Lê-se no art. 467, parágrafo único: “Entre os descendentes, os mais vizinhos
precendem aos mais remotos, e, entre os do mesmo grau, os varões precedem as mulheres”. O curador oficial, se
existe, vem após as pessoas acima indicadas. Na falta de todos, é que o curador é dativo. Isso não impede que o
juiz invoque o art. 1.109 do Código de 1973 para afastar-:’ dos arts. 466 e 467, parágrafo único do Código Civil,
no tocante à ordem legal, se reputa mais conveniente e fortuna a solução que escolhe.
Se não há alguém que caiba nos arts. 466 e 467 do Código Civil, nem curador oficial, na escolha o juiz aprecia a
competência, o interesse (e. g., condômino dos bens do ausente, proprietário do bem ou dos bens de que o
ausente tem uso ou usufruto) e outros requisitos para o cargo.

7)AUTORIDADES POLICIAIS E DEVER DE COMUNICAÇÃO AO juiz. A função policial já estava clara no


Decreto n. 160, de 9 de maio de 1842. O Código de 1973 deixou de referir-se a tal dever, mas ele existe. Se se
permite na legislação policial a multa, supõe-se que a autoridade policial conheça os fatos do desaparecimento e
da existência de bens. Não há comunicações de conhecimento onde não há conhecimento. A penalidade depende
de constar dos regulamentos policiais, inclusive de se ter continuado a aplicar regra jurídica a respeito. A regra
jurídica de direito judiciário material, determinadora de multa, é apoiada no dever de comunicação de
conhecimento que têm as autoridades policiais. A policia tem notícia fácil do desamparo dos tms, im5veis,
provinientes e outros móveis; de modo que basta, para a incidência da regra jurídica penal lato sei zsu, a forte
presunção de ter conhecimento da ausência a autoridade policial. Uma das consequências é o tocar às
autoridades policiais, a que incumba a função de comunicar, o dever de dar instruções, no sentido de informes, a
todos os seus subordinados, que possam estar a par de tais ausências e de oficiar às autoridades municipais,
sanitárias ou outras, a fim de bem conhecerem as suas circunscrições. O mesmo havemos de entender a respeito
do art. 1.148. Previa as instruções aos inspetores de quarteirão o Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, art.
23.

8)ALIENAÇÃO DE BENS . Durante o ano, que começa com a primeira publicação dos editais, os bens estão
sob a administração do curador. O ausente, incapaz, nada podia fazer, porque tal incapacidade absoluta provelo
da declaração de ausência (Código Civil, art. 5, IV). O artigo 1.155 permite que se alienem bens da herança
jacente e tal texto do Código é aplicável no tocante a bens arrecadados pela ausência do proprietário ou
possuidor, porque o art. 1.160, que é sobre bens de ausentes, remete ao que se estabelecia quanto à herança
jacente. A Fazenda Pública ou algum habilitando pode adiantar a importância para as despesas, a fim de que se
não proceda à alienação. O juiz tem de levar em consideração a diferença das duas situações (bens da herança
jacente e bens do ausente), mas os seus poderes são iguais.
Passado o ano da publicação do primeiro edital, mesmo se esta pendente alguma habilitação, bens do ausente
podem ser alienados, como o podiam ser os da herança jacente (artigos 1.160 e 1.155).

Árt. 1 .161. Feita arrecadação, o juiz mandara publicar editais durante um ano, reproduzidos de dois em dois
meses, anunciando a arrecadação 1) e chamando o ausente a entrar na posse de seus bens 2)

1)PROCEDIMENTO. O procedimento é edital com sete publicações: no primeiro dia do prazo (que é de um
ano), dois, quatro, seis, oito, dez, doze meses depois. Aplicável o art. 241, III.

2)CITAÇÃO A citação do art. 1.161, 2.~ parte, é vocatio zn ius, não provocatio ad agendum. Os interessados
são chamados a) a comparecer, se é o ausente, ou seu procurador, ou quem o represente, b) a comunicar ao juízo
o fato da morte de quem se crê esteja ausente, não a deduzir em juízo a sua pretensão à sucessão provisória. Esse
procedimento edital, no processo da arrecadação de bens de ausentes, nada tem com o procedimento edital do art.
1.164, que pertence
ao processo da provocação à habilitação, que se iniciou com a provocatio do art. 1.161, 1.a parte.
Uma vez que, no art. 1.160, se remete aos artigos concernentes à arrecadação da herança jacente, o art. 1.152 tem
de ser observado: ultimada a arrecadação, manda o juiz expedir edital, que será estampado no órgão oficial e na
imprensa da comarca. Tal publicação tem de ser feita durante um ano, com reprodução do edital de dois em dois
meses.
Pergunta-se: se o ausente se achava em outra Comarca, <~faz-se necessário que também nela se publiquem os
editais? O juiz tem de examinar a relevância da medida, porque a estadia alhures pode ter sido sem importância.
A lei não exige que se convoquem herdeiros e legatários , porque ainda se está na fase da ação de declaração de
ausência e só após o pedido da abertura da sucessão provisória (art. 1.164) é que há a habilitação dos herdeiros
(arts. 1.164, parágrafo Único, e 1.057) e a abertura da sucessão provisória, que alguém pediu, e tal sentença só
tem eficácia após sei~s meses da publicação pela imprensa.

Art. 1.162. Cessa a curadoria’) ~):


1 pelo comparecimento do ausente, do seu procurador ou de quem o representante 2);
II pele certeza da morte do ausente 3);
III pela sucessão provisória4).

1)CESSAÇÃO DA CURADORIA O art. 1.162 fala da cessação da curadoria, acertadamente, porque o que foi
arrecadado continua arrecadado, porque o procedimento da arrecadação cessa com a entrega dos bens ao ausente
que comparece, ou de quem o represente. Ele ou o seu representante comparece e os bens têm de ser-lhe
entregues. Com a entrega cessam as funções do curador e o procedimento arrecadatório. Com a certeza da morte
do ausente, há a transformação do processo de arrecadação e administração pela conversão em processo de
inventário e partilha, com abertura de sucessão. Nada mais há que seja concernente à ausência.

2)COMPARÊNCIA DO AUSENTE. Se comparece o ausente, durante a curadoria, que começa com a


arrecadação e termina, normalmente, com a sucessão provisória, cessa a curadoria. Dá-se o mesmo se comparece
o procurador, ou quem represente o ausente (e. g., o curador do ausente interdito). Tal entrega inde~pende de
habilitação, conforme a praxe, interpretando o direito reinicola, e JoÃo MAuRíCIO VANDEELEI, Presidente do
Tribunal do Tesouro Nacional, na Ordem n. 76, de 25 de fevereiro de 1857, pôs claro, distinguindo entrega ao
ausente que se apresenta e entrega aos herdeiros presumíveis. O c~ue é preciso é que o juiz exija a prova de
identidade (A. M. PERDIGÃO MALHEIRO, Manual do Procurador dos Feitos, 1, 163).
No Código Civil, art. 169, 1, diz-se que não corre o prazo de prescrição contra os incapazes. O ausente declarado
tal é incapaz (art. 5, IV). Pergunta-se: ~deixa de correr prescrição contra o ausente declarado tal numa região,
mas que se acha, conhecido, noutra? O que pode acontecer é que a pessoa interessada ~~\o exercício de direito
contra quem não é tido por ausente noutra região alegue a presença e o prove. Com os dados e as provas
suficientes, pode comparecer ou representar-se na região em que se declarou a ausência, a fim de que ce.~sse a
arrecadação ou a própria sucessão provisória (art. 1.167). O declarado ausente pode ser citado pessoalmente,
onde quer que esteja, porque a sua presença ou a confirmação basta para a invocação do art. 1.162, 1, ou do art.
1.167. O juízo da região em que corre ação contra a pessoa presente, que alhures foi tida por ausente, pode enviar
precatórias para constrição de bens do declarado ausente, com as provas da sua presença.
3)MORTE DO AUSENTE. Se há certeza da morte do ausente, cessa a curadoria, e a sucessão tem de ser tratada
sem presunção: abriu-se, para todas as consequências, no dia da morte. O recurso é o de apelação. A arrecadação
converte-se em processo de inventário (1.~ Turma do Supremo Tribunal Federal, 26 de julho de 1943, D. da J. de
15 de fevereiro de 1944), se os interessados não preferirem iniciar outro processo.
Inversamente, se, aberto o inventário, há dúvida sobre a morte, cessa aquele, e procede-se à arrecadação como de
bens de ausente.

4)SUCESSÃO PROVISÓRIA . A sucessão provisória (Código Civil, art. 469) abria-se passados dois anos da
publicação do edital, se o ausente não deixara procurador, ou três (derrogado, aí, já em 1939, o Código Civil, que
marcava dois e quatro, se o deixara, contados das últimas notícias que se tiveram do ausente). Hoje basta que
tenha passado um ano da publicação do editaL Trata4se de successzo praematitra, sucessão antecipada, com o
fim de entregar aos herdeiros ou interessados nos bens a herança prematura e criar ao ausente, até que apareça ou
morra, curatela circunscrita aos bens.
O fundamento é presunção iurLs tantum da morte do ausente, sem a força da sentença que se profere nos países
cujo sistema jurídico possui a declaração de morte. (No direito derrogado, já em 1939, o violento Decreto-lei n.
1.907, de 26 de dezembro de 1939, arts. 1.0 e 2.0, não teve a conseqúência, nos casos de decujos solteiros ou
viúvos, de encurtar esse prazo, porque a presunção de morte não foi regulada por ele; mas teve-se de atender à
modificação, que ele fez, na sucessibilidade, ascendentes, descendentes, irmãos, sem direito de representação por
parte dos sobrinhos, verbis “e sobre-viventes”.)
A sucessão provisória faz presumir-se a morte no dia em que se completou o prazo da lei (um ano), e não no dia
o desaparecimento. É a data ficta. Os herdeiros são os desse dia, e não os daquele em que se não soube mais do
decujo.

5) RECURSO. Da decisão que manda retificar-se assentamento do registro civil, suprir-se ou restaurar-se, cabe
recurso de apelação (2.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 24 de novembro de 1947, M. F.,
1, 43, R. F., 123, 182).

Árt. 1.163 Passado um ano3) da publicação do primeiro eaital4) 5) sem que se saiba do ausente e não tendo
comparecido seu procurador ou representante, poderão os interessados requerer2) que se abra provisoriamente
a sucessão1) 6)

§ 1.0 Consideram-se para este efeito interessados ~):

i o cônjuge não separado judicial-mente;

II os herdeiros presumidos legítimos e os testamentários;


111 os que tiverem sobre os bens do ausente direito subordinado à condição de morte;
IV os credores de obrigações vencidas e não pagas.
§ 2.0 Findo o prazo deste artigo e não havendo absolutamente interessados na sucessão provisória, cumpre ao
órgão do Ministério Público requerê-la 8)•

1) SUCESSÃO PROVISÓRIA. A sentença que nomeou o curador dos bens do ausente também o considerou e
julgou ausente, porque a ausência é questão prejudicial para a nomeação. Não há curador do ausente, no sentido
do artigo 1.160, sem ausência julgada (Código Civil, arts. 5~0, IV, 12, IV, e 463). Sentença constitutiva, quanto
ao status (ausência), e mandamental, quanto à arrecadação dos bens (medida constritiva cautelar). Sentença com
reserva, porque a) pode aparecer o ausente, e deixando de haver ausência, cessa a eficácia da sentença, b) pode a
Justiça vir a ter certeza da morte do ausente ou tido como tal, caso em que se abre o processo de Inventário e
partilha, aproveitando-se tudo o que foi processado e que é compatível com os arts. 982-1.045. A cessação da
curadorla não traz nulidade dos atos praticados; os atos praticados somente são nulos e precisam das regras
jurídicas dos arts. 243-250, se houve ~ecurso que decretou a nulidade ou o juiz mesmo as decretou.
O pedido de sucessão provisória supõe deferido o pedido de habilitação, exceto se a requer o próprio curador,
pois há o herdeiro certíssimo, que é a Fazenda Pública.

2)REQUERIMENTO DA SUCESSÃO PROVISÓRIA . A sucessão provisória pode ser pedida pelos herdeiros
e pelas pessoas enumeradas no art. 470 do Código Civil, que sofre, hoje, a explicitação do art. 988 do Código de
1973.
3)CONTAGEM DO PRAZO. Copiando sem atenção o Código de Processo do Distrito Federal, art. 469, que
nunca aplicávamos, pois tínhamos o lapso como inoperante, o Código de 1939 falou do prazo contado “da
publicação do último edital”. Talvez com isso tenha o legislador pensado em adaptar-se ao Código Civil, art.
469, encurtando de um ano O prazo de quatro, mas a balbúrdia foi ainda maior. A solução, de lege lata, era a
seguinte: arrecadam-se os bens e nomeia-se curador; publicam-se os editais; quando se conclui-se o prazo de dois
ou três anos, a partir dos editais, abria-se a sucesSão, derrogado o Código Civil, art. 469. Com razão , na critica
8.0
Código de Processo Civil de 1939, mas, sem razão na constração, ODILON DE ANDRADE (Comentários, VII,
183). Também não era de admitir-se a construção de ZóTIco BATISTA (Código de Processo Civil, II, 81).
A nossa crítica foi atendida. O Código de 1973, em vez de se falar de “passados dois anos da publicação do
último edital”, como estava no Código de 1939, art. 583, acertadamente disse: “passado um ano da publicação do
primeiro edital sem que se saiba do ausente e não tendo comparecido seu procurador ou representante, poderão
os interessados requerer que se abra provisoriamente a sucessão”. Não mais se falou de último edital.

4)CITAçÃo EDITAL. O art. 583 do Código de 1939 derrogara o Código Civil, art. 469, quanto ao prazo de
quatro anos, que passara a ser de três. O Código de 1973, art. 1.163, diminuiu o prazo para um ano, sem precisar
remeter ao art. 1.157, sobre herança jacente. Na herança jacente, o prazo de um ano, contado da primeira
publicação do edital, é para a declaração da vacância. Na arrecadação de bens de ausente, o mesmo é o prazo,
com o mesmo inicio (publicação do primeiro edital), para se abrir a sucessão provisória. Maior simplicidade,
melhores fundamentos. A sucesSão prematura, como praeoccupatio successionis, obedece às regras jurídicas do
inventário e partilha da sucessão regular (Código Civil, ad. 471). O art. 1.165 rege a espécie. Os interessados no
pedido de abertura são: a) o cônjuge não separado judicialmente ou na qualidade de herdeiro; b) os herdeiros
presumidos legítimos, ou testamentários (ou os legatários); c) os que tiverem sobre os bens do ausente direito
subordinado a condição ou termo de morte; d) os credores de obrigações vencidas e não pagas (Código Civil, art.
470). O ari. 1.163 § 1.0, do Código de Processo Civil é, hoje, mais explícito; mas temos de comentá-lo.
5)PROCEDIMENTO EDITAL. A sucessão prematura também constitui procedimento edital, ainda que se citem
diretamente os herdeiros presentes, segundo os princípios. O artigo 999 é aplicável, bem assim o art. 1.041. A
citação dos interessados deve conter as indicações que se tenham, porém é indispensável citar a todos os
interessados, indistintamente.

6)DEFERIMENTO E INDEFERIMENTO DE PEDIDO. Se o que pede a abertura da sucessão não é o que está
legitimado a suceder, a sentença somente defere ou indefere o pedido e dela cabe a apelação.

7)INTERESSADOS NA ABERTURA DA SUCESSÃO PROVISÓRIA . São interessados: 1) o cônjuge não


separado judicialmente, de modo que não é preciso o estar vivendo em comum, elemento fáctico, nem que o
regime matrimonial de bens tenha algo em comum; II) os herdeiros presumidos legítimos ou testamentárics, isto
é, quem, se o ausente morresse, herdaria conforme as regras jurídicas sobre sucessão legítima, ou conforme
cláusula testamentária (a despeito do art. 1.163, § 1.0, II, somente aludir a “herdeiros presumidos legítimos e os
testamentários”, devemos incluir as pessoas que do testamento constam como legatários); III) os que tiverem
sobre os bens do ausente direito subordinado à condição de morte (e. g., doação a causa de morte); IV) os
credores de obrigações vencidas e não pagas.
O art. 1.163, § 1.0, 1, não se referiu a desquite, a fortiori a qualquer desconstituição do vínculo conjugal
(decretação de invalidade, divórcio). Supõe-se que o vinculo exista e que não tenha havido, sequer, separação de
corpos judicialmente estabelecida. Surge o problema do desquitado. Se estava pendente a lide de desquite
contencioso, suscitada pelo cônjuge ausente, porém ainda não tenha sido deferida a separação, tem o juiz de
analisar a situação existente entre os cônjuges, para se certificar da acolhida da nomeação (cf. art. 1.109). No
caso de desquite amigável, também o que importa e saber-se se houve a separação judicial O cônjuge, que é parte
em ação de desquite, pode prosseguir na ação e no juízo do desquite é que pode ele pedir que, após a
arrecadação, seja dividido o patrimônio, se o há. Com a separação judicial, não pode pedir a sucessão provisória,
mas nada obsta a que se proceda a partilha dos bens comuns. Isso é noutro juízo.
Tem-se lido o art. 1.153, § 1.0, II, onde se fala de “herdeiros presumidos legítimos” como se a expressão
“legítimos” aí não estivesse como está em “herdeiros legítimos”, mas no sentido “filhos legítimos”. Se tal
interpretação vingasse o herdeiro legítimo que não fosse filho legítimo não poderia ser tido como interessado na
sucessão provisória. O herdeiro por lei é herdeiro legítimo; o que o não é por lei, há de ser herdeiro
testamentario.

8)ORGÃO Dro MINIST*RIO PUBLICO. Findo o prazo de um ano da publicação do primeiro edital, sem que
qualquer Interessado houvesse requerido a abertura da sucessão provisória (art. 1.163), a legitimação a requerê-la
cabe ao órgão do Ministério Público (art. 1.163, § 2.0): Segundo o Código de 1973, art. 1.165, a sentença que
determina a abertura da sucessão provisória só tem eficácia seis meses depois de publicada pela imprensa,
mesmo que requerente haja sido o órgão do Ministério Público. Mas, antes disso, isto é, trinta dias após a
decretação da abertura da sucessão provisória, a herança fica jacente, mesmo se requerente foi o orgão do
Ministério Público. Publicada a sentença de abertura da sucessão provisória, que o órgão do Ministério Público
requereu, há o prazo de seis meses, para que se abra o testamento, se o há, e se proceda ao Inventário e partilha,
dependente de requisição (cf. art. 1.165, parágrafo único); se nenhum dos interessado,s ou herdeiro não
comparecer, dentro dos trinta dias,
há a jacência da herança. Ainda não se entregam os bens à entidade estatal. Bens somente vão à Fazenda Pública
advindo a vacância.
Se foi aberta a successio praem4tura e não se habilitam herdeiros, tem-se de cuidar da jacência e da vacância.

Árt. 1 .164. O interessado, ao requerer a abertura da sucessão provisória’) 4), pedirá a citação pessoal dos
herdeiros presentes e do curador e, por editais, a dos ausentes para oferecerem artigos de habilitação2).
Parágrafo único. A habilitação dos herdeiros obedecerá ao processo do art. 1 . 057 3),

1)REQUERIMENTO DA ABERTURA DA SUCESSO PROVISÓRIA.


O interessado em que se abra a sucessão provisória, que pode ser simples credor de obrigação vencida e não
paga, ao requerer que se abra, pede a citação pessoal dos herdeiros presentes e do curador, bem como, por
editais, a dos ausentes, para que se habilitem. Os bens ainda não são jacentes; são bens de ausente, que não se
sabe onde se acha, nem deixou poderes a alguém para administrar os bens, ou deixou outorga, mas o outorgado
não quis exercer, ou não quis continuar de exercer tais poderes.

2)HABILITAÇÃO DOS HERDEIROS E DEMAIS SUCESSORES. N~o se trata de legitimação à abertura de


sucessão, mas sim de legitimação à sucessão. Quem é legitimado pede que seja julgada a sua ação de habilitação:
recebida a petição inicial, defere o juiz o pedido de citações para que, no prazo de cinco dias, contestem a ação de
habilitação (art. 1.057).

3)HABILITAÇÃO DE HERDEIROS. Nos artigos de habilitação, a lei exige comunicações de conhecimento,


que são em essenciais à caracterização da pretensão à herança. Observe-se que já se previu a sucessão legitima
ou testamentária , pois pode existir testamento aberto, público ou particu1ar, independente, pois, de abertura.
Aliás, se, abrindo-se, for notado que se alterou a sucessão legítima, não há grande’ inconveniente, porque o
Código deu o prazo de seis meses para a eficácia da sentença de devolução provisória (art. 1.165).
os seis meses é que se procede ao inventário e partilha, que, aliás, têm o prazo do art. 983, prorrogável se há
motivo justo (art. 983, parágrafo unico). Os herdeiros que se habilitam são só os legítimos. Os testamentários não
se habilitam, desde logo, porque habilitar-se é pedir sentença com prejudicial da qualidade de herdeiro, embora
mandamenta1; e o herdeiro testamentário, como o legatário, tem a sentença constitutiva integrativa do cumpra-
se, com o seu elemento de mandamento (c.t. art. 1.165).

4)LEGITIMAÇÃO PROCESSUAL E LEGITIMAÇAO PARA SUCEDER.

Não se contunda legitimação para provocar a abertura da sucessão (Código Civil, art. 470) com a legitimação
pexa suceder (habilitação ou vocação ex testamento). as herdeiras testamentários têm aquela, se o testamento é
público, ou particular, ainda envolvido materialmente; Igualmente, o legatário. Quanto à legitimação para
suceder, ter~ processo peculiar ou à 8UCessao legítima, ou à. Sucessão testamentária . O testamento cerrado é
assunto do art. 1.165, in fine.

Art. 1.165. A sentença que determinar a abertura da sucessão provisória 1) só produzirá efeito seis (6) meses
depois de publicada pela imprensa; mas, logo que passe em juIgado2), se procederá à abertura do testamento, se
hcxrver, e ao inventario e partilha dos bens, corno .e o quando fosse falecido.

Parágrafo único. Se dentro de trinta (30) dias não comparecer interessado ou herdeiro, que requeira o
inventário, a herança será considerada jacente3).

1)NATUREZA DA SENTENÇA QUE ABRE A SUCESSAO PROVISÓRIA. A sentença que determina a


abertura da sucessão provisória é mandamental, com reserva. Passa formalmente em julgado, sendo de apelação
o recurso. A sua eficácia depende do prazo de seis meses, para que haja tempo de ~e proceder ao inventário e
partilha. A sentença da partilha, que então se profira, é parte integrante do seu efeito constitutivo, como sentença
lato sensu que é.
Com a sentença que determinou a abertura da sucessão provisória, aberta está a sucessão provisória. Os efeitos
são após os seis meses, porém há efeitos excepcionais, porque, por exemplo, se há testamento fechado, des4e
logo se tem de abrir e já. se procede ao inventário e partilha, se isso foi requerido.
Não se confunda a eficácia de coisa julgada com o efeito, a que se refere o art. 1.165, que é uni só, o da
sucessãoo provisória. Um só, dis8emos, e acertadamente o legislador de 1973 riscou “efeito”, o que estava no
Código de 1939, art. 587. Por outro lado, o que veio depois do “mas” na parte final do art. 1.165 é algo que
escapa ao prazo de seis meses: abertura do testamento cerrado, se há, e processo de inventário e partilha, posto
que a. sucessão provisória só se inicie seis meses depois da publicação da sentença. Os trinta dias do art. 1.165,
parágrafo único, são após a sentença. A 2.~ parte do art. 1.165 e o parágrafo único do art. 1.165 nada têm com o
prazo para o efeito da sucessão provisória. vemos de Interpretar as leis com cuidado. Logo que finda o prazo de
um ano, que é o do art. 1.163, os interessados já podem pedir a abertura da sucessão provisória. Já a~ pedir-se ta~
abertura são citados pessoalmente os herdeiros presentes e o curador e, por editais, os ausentes para oferecerem
artigos de habilitação (1.164). Provavelmente já se sabe quais são os sucessores, herdeiros legítimos e
testamentários, e há logo o trânsito em julgado da sentença, a abertura do testamento cerrado, o que dá ensejo a
saber-se quais os herdeiros. Então, se nenhum interessado ou herdeiro, dentro de trinta dias, não requer o
inventário, a herança é considerada jacente. A imissão na posse dos bens do ausente pelos herdeiros e efeito da
sucessão provisória, o que somente ocorre após os seis meses da publicação na imprensa. Entenda-se que, entre o
proferimento da sentença e a extinção do prazo para o recurso (que é ode apelação), há um lapso: o prazo para a
eficácia sucessorial da sentença de abertura da sucessão provisória é o dos seis meses contados da publicação da
sentença; a res zudicata resulta da ação em que houve a citação de todos os interessados na sucessão provisória,
presentes ou ausentes (~por editais), conforme o art. 1.164, já para se habilitarem, e de ter de ser publicada pela
imprensa a sentença favorável e não ter havido recurso, ou, se houve, após o julgamento na superior instância.
Não se confunda a eficácia de coisa julgada com o “efeito” a. que alude o art. 1.165, 1.8 parte, que é o de
transmissão da propriedade e posse, provisoriamente.

2)TRÂNSITO EM JULGADO, FORMALMENTE. A sentença passa em julgado, formalmente. É mandamentai,


sujeita às limitações do art. 1.162 (sentença dita com reserva). Mas há força material de coisa julgada por parte
de tal sentença, com reserva (cf. BORGES CARNEIRO, Direito Civil, III, 222). Provada a morte, a data da
abertura da sucessão é a data verdadeira, e não a ficta (nossos Direito de Familia, 1.a ed., 459; Tratado de
Direito de Familia, 3•8 ed., III, Tratado de Direito Privado, IX, § 1.053, 3); aparecendo o ausente, a sentença
não mais tem eficácia. Cessa a provisoriedade, nas espécie do art. 1.167,‘-III.
Outra particularidade dessa sentença é a de só ser eficaz seis meses depois. Para os efeitos do recurso, que é o de
apelação, esse prazo é inoperante. Não se confunda a eficácia de força formal de coisa julgada com as outras
eficácias.

3)HERANÇA QUE SE FEZ JACENTE. O art. 1.165, parágrafo único, estabelece que, se, dentro de trinta dias,
não comparece interessado ou herdeiro, que requeira o inventário, a herança é considerada jacente. Trata-se de
inovação, que merece elucidação suficiente. No a.rt. 1.165, ao cogitar-se da eficácia ~da sentença que
determinou a abertura da sucessão provisória, fixou-se o prazo de seis meses: até então, nenhuma eficácia da
sucessão, porque ainda se esperam interessados e sucessores. A despeito da eficácia so se irradiar apos os seis
meses, abre-se o testamento, se há, e se procede ao inventário e partilha, como se o ausente fosse falecido. Se
algum herdeiro ou interessado comparecer, toUitur quaestio: faz-se o inventário, que o comparecente requer e a
partilha tem de ser conforme as regras jurídicas típicas. Se ninguém comparece, tem-se como jacente a herança
(arts. 1.142-1.158). Os trinta dias, a que se refere o art. 1.165, parágrafo Único, são os trinta dias após a res
ludicata: o testamento, se havia, já foi aberto, e já se iniciou o inventário.

Art. 1 .166. Cumpre aos herdeiros 1), imitidos na posse dos bens do ausente, prestar caução2) de os restituir.

1)ENTREGA DOS BENS SOB CAUÇÃO . Os bens são entregues sob caução, em sentido amplo, aos que se
habilitarem. Os direitos dos herdeiros prematuros pendem de condição resolutiva. Para se evitarem os danos
provenientes da dissipação dos quinhões recebidos, exige-se à imissão na posse dos bens a observância do art.
1.166. Os efeitos não são equiparados aos da saisina (Código Civil, art. 1.572), devido ao art. 473 do Código
Civil e ao art. 1.166 do Código de Processo Civil. Em todo caso, entregues os bens, tudo se passa, por força da
ficção da sucessão provisória, como se tivesse havido a saisina ao tempo da terminação do prazo. O que tem
pretensão à herança ou ao legado, mas não pode prestar caução, não sucede provisoriamente. Os bens, que lhe
caberiam, fijam sob a administração de um curador, ou de herdeiro que o juiz designe e preste a caução (Código
Civil, art. 473, parágrafo único). Ao excluido é dado requerer que lhe seja entregue metade dos rendimentos do
quinhão que lhe tocava, no caso do Código Civil, art. 478. Sobre o conceito de caução, veja-se o art. 827 do
Código de 1973.
Ação mandamental, e não declarativa, o indeferimento do pedido não declara a Inexistência da qualidade de
herdeiro.

2) CAUÇÃO. A caução é a do art. 473 do Código Civil (penhor ou hipoteca), mas o art. 827 permite o
“depósito” ou a “fiança”. É a forma contemporânea da fiança das Ordenações Filipinas, Livro 1, Título 62, ~ 38
(“fiador abonado, que possua bens de raiz..., com outorga de sua mulher, se for casado, o qual fiador se obrigue
por escritura pública, como depositário e principal pagador”).
O art. 1.166, a respeito da caução, remete, implicitamente (não mais explicitamente, como o Código anterior, art.
585). O herdeiro pode garantir a possível restituição com hipoteca, ou penhor de algum ou de alguns dos seus
bens (Código Civil, art. 473), ou os depósitos de que se fala no Código de Processo Civil, art. 826. Se o herdeiro
não pode prestar a garantia, não é imitido na posse, e os bens que lhe caberiam continuam sob a administração do
curador, ou de outro herdeiro, que preste a garantia (art. 473, parágrafo único). Advirta-se que, com tal posse dos
bens, os sucessores provisórios representam, ativa e passivamente, o ausente, de jeito que correm contra eles as
ações pendentes e as que de futuro sejam movidas (art. 476).
Se, antes da sentença da abertura da sucessão provisória, se apresentar algum testamento público ou particular,
nada obsta a que o juiz o leve em consideração, porque já se cogitara de herdeiros testamentários como
legitimados ao pedido de abertura da sucessão provisória (art. 1.163, § 1.’), II).
Pergunta-se:~podem ser dados em garantia os bens inconsumíveis, em vez de serem gravados os bens do
herdeiro?
De modo nenhum. O que se exige é caução e o conceito consta do art. 827 que, após se haver falado de caução
real ou fidejussória (art. 826), diz: “Quando a lei não determinar a
espécie de caução, esta poderá ser prestada mediante depósito em dinheiro, papéis de crédito, títulos da União ou
dos Estados, pedras e metais preciosos, hipoteca, penhor e fiança”. Nunca tais bens podem ser os do ausente,
mesmo porque a posse só é atribuida após a prestação da garantia. O que pode acontecer é que terceiro preste a
favor do sucessor provisório.
O art. 827 do Código de 1973 de modo nenhum afasta que se preste a garantia com penhor ou hipoteca, a
despeito do conteúdo do art. 827. Ao juiz acolher a solução que lhe pareça mais conveniente ou oportuna (art.
1.109).

Árt. 1 .167. Á sucessão provisória cessará pelo comparecimento do ausente e converter-se-á em definitiva 1) 6):
1 quando houver certeza 3) da morte do ausente 2);
11 dez (10) anos depois de passada em julgado a sentença de abertura da sucessão provisória4);

III quando o ausente contar oitenta (80) anos de idade e houverem decorrido cinco (5) anos das últimas noticias
suas

1 SUCES5AO PROVISÓRIA. A sucessão provisória, isto é, a relação juridica, subordinada a condição


resolutiva, em que se acham aqueles a quem fora dada a posse dos bens da herança, ou cessa pela comparência
do ausente; ou se converte em sucessão definitiva, isto é, pela transformação em sucessão deI zrntwa, apagando-
se todos os efeitos da presunção, a) pela certeza objetiva (verdade) da morte do decujo, ou b) pela certeza
subjetiva e legal da morte, após os dez anos do art. 1.167, II, isto é, dez anos após o trânsito em julgado da
sentença de abertura de sucessão provisória; ou c) por ~e dar o caso do art. 1.167, III. A cessação é pela
resolução da sucessão provisória, em virtude da aparição do decujo.
A aparição do decujo não torna responsáveis pela arrecadação os que providenciaram para o acautelamento dos
seus bens; tanto mais quanto o fato da aparição dele, ou de sucessor seu, nem sempre elide a oportunidade com
que se pediu e se obteve o procedimento cautelar, de que os demais atos são consequências. Naturalmente, pode
ser arguida a responsabilidade por ato ilícito.
2) MORTE DO AUSENTE. Código Civil, art. 483. No fundo, o Código Civil, sem chegar à solução técnica da
declaração de morte, criou dois graus de presunção da morte (presunções, ambas iuris tantum, com grande dose
de efeitos de ficção). O processo para a sucessão definitiva (Código Civil, arts. 481 e 482) é de simples
requerimento, dentro dos autos da sucessão provisória, com recurso (Código Civil, art. 481, verbis “levantamento
das cauções prestadas”). Isso não impede que se prefira outro processo.
3)CERTEZA DA MORTE DO AUSENTE. O conceito de certeza da morte, aí, é de grave relevância. Mas, na
história dos séculos passados e deste, ~quantos casos ocorreram de se ter como morta pessoa que, depois, se
suspeita que está viva, com outro nome, disfarçada no corpo e nas vestes!

4)DECÊNDIO APÓS A COISA JULGADA. A função do artigo 1.167, II, é a de afastar a provisoriedade da
sucessão sempre que haja incerteza quanto à morte do ausente. Pode acontecer que o juiz ache considerado
morto, pelos dados, o ausente, e haja errado. Há a ação rescisória de tal sentença. Mas o tempo dos dez anos
apaga quaisquer consequências do erro se não ocorreu o julgamento favorável da ação rescisória. A ratio legis é
de grande relevo, porque, com a regra jurídica do art. 1.167, II, se cobre qualquer circunstância que tenha levado
a apontar-se o erro do juiz.

5)AUSENTE COM A IDADE DE OITENTA ANOS OU MAIS. O fundamento do art. 1.167, III, coincide com
o do art. 1.167, II.
Apenas se levou em consideração, para a fixação do tempo (cinco, em vez de dez anos), a idade do ausente. A
eficácia, de que falamos na nota 3), é a mesma.

6)AÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA E AÇÃo DO AUSENTE QUE APARECE. A reclamação dos bens,
depois de se haver deferido a sucessão definitiva, quer a herdeiros parentais ou testamentários, quer à Fazenda
pública, faz-se por ação de petição de herança.
Se é o ausente que a~parece, a sua petição pode ser junta aos autos, porque se trata de ação dentro do mesmo
processo, para a prova da sua identidade. Ação, nesse caso, mandamental negativa, para que o juiz ordene a
entrega dos bens, cessando a eficácia da sentença de sucessão definitiva. O elemento declarativo somente
concerne à relação entre o ausente que aparece e os bens, e o elemento constitutivo negativo restringe-se à
eficácia; ~prepondera o elemento mandamental que abrange todos os atos de entrega e constrição desde a
sucessão definitiva, até, remontando-se ao passado, a arrecadação dos bens e julgamento da ausência. Por isso
mesmo, a sentença manda que se dê baixa no registro da sentença declaratória da ausência, de que cogita o art.
12,1V, do Código Civil.

Art. 1 .168. Regressando o ausente2) nos dez (10) anos seguintes à abertura da sucessão definitiva ou algum dos
seus descendentes ou ascendentes, aqueles3) ou estes4) só poderão requerer ao juiz a entrega dos bens existentes
no estado em que se acharem, os sub-rogados em seu lugar ou o preço que os herdeiros e demais interessados
houverem recebido pelos alienados depois daquele tempo’).

Art. 1 .169. Serão citados para lhe contestarem o pedido os sucessores provisórios ou definitivos, o órgão do
Ministério Público e o representante da Fazenda Pública 5)~
Parágrafo único. Havendo contestação, seguir-se-á o procedimento ordinário6).

1)DIFERENÇA ENTRE A CESSAÇÃO DA SUCESSÃO PROVISÓRIA, COM A APARIÇAO Do


AUSENTE, E A APARIÇÃO Do AUSENTE DEPOIS DE SE TER TRANSFORMADO EM DEFINITIVA A
SUCESÃO. A cessação pela aparição do ausente enquanto pendeste a sucessão provisória funda-se na inverdade
da certeza (admissão judicial da certeza que pode ser errada, como por exemplo, ~e resultou de documentos
falsos ou de falsa execução de pena de morte). Mas o ausente, nas espécies de tempo posterior ao trânsito em
julgado da transformação da sucessão provl4ória em definitiva, também pode aparecer, e seria absurdo
terem-se como absolutos os enunciados de que decorre a transformação do provisório em definitivo. A técnica
jurídica teve de atender a que o ausente tido como morto, ou como incluso nas presunções do art. 1.167, II e III
pode aparecer e apresentar-se.

2)AUSENTE QUE APARECE DEPOIS DE JULGADO MORTO OU TIDO COMO MORTO. Na espécie do
art. 1.167, 1, o juiz julgou morto o ausente. Nas espécies do art. 1.167, II e III, presumiu que estivesse morto
(presunção legal). Tinha-se de regular o tratamento após tais circunstâncias. Temos de ver, nas notas 3) e 4), qual
o tratamento da aparição do ausente, qual a ação que há de propor, e qual o tratamento dos herdeiros que, apesar
de tanto tempo ter passado, surjam perante o juízo em que tudo se processou, provavelmente após o próprio
trânsito em julgado da partilha ou da entrega definitiva dos bens.
Os frutos e rendimentos que os sucessores provisórios perceberam até o dia da chegada do ausente (aliás, pode
ser que apareça e esteja longe, mas pelos meios legais comunique ao juiz), não têm de ser entregues ao que
reclama os seus bens. Não importa a qualidade de sucessor provisório.

3)PEDIDO Do AUSENTE QUE TARDIAMENTE APARECE. Se o ausente aparece nos dez anos seguintes à
abertura da sucessão definitiva, não importa o trânsito em julgado da sentença de partilha ou de adjudicação,
porque a lei lhe permitiu pedir ao juiz a entrega dos bens existentes no estado em que se acharem, os sub-rogados
a eles, ou o preço que os herdeiros e demais interessados houverem recebido pelos alienados depois daquele
tempo. De algum modo, com isso se cria situação difícil se os herdeiros e interessados, que receberam os bens,
dispuseram deles e das quantias e não estão em possibilidade de prestar.
No art. 1.168 estabelece-se que, regressando o ausente nos dez anos seguintes à abertura da sucessão definitiva,
pode ele requerer ao juiz que lhe sejam entregues os “bens existentes no estado em que se acharem”, os sub-
rogados no lugar deles, ou o preço dos bens alienados. Trata-se ai, com tal terminologia, de algo em suspenso,
em que sucessão definitiva está em vez de sucessão pré-definitiva, isto é, entre a sucessão provisória e a sucessão
definitiva, diante da qual não mais há qualquer direito do ausente que apareça (depois dos dez anos seguintes à
abertura da sucessão dita, no artigo 1.168, definitiva).

4)PEDIDO DOS ASCENDENTES OU DESCENDENTES. O que se teve por fito no art. 1.168, a respeito de
herdeiros, foi a garantia futura dos quinhões legítimos necessários. A legitimação é conforme a ordem se dois ou
mais pedem a entrega. O que dissemos à nota 3) tem cabimento, a Fortiori, a respeito dos herdeiros necessários
que fazem o pedido.
bens. Podem eles apresentar contestação, pois que o art. 1.169 cogitou da citação dos sucessores, provisórios ou
definitivos, e do órgão do Ministério Público e do representante da Fazenda Pública. Se não há qualquer
contestação, procede-se à entrega dos bens ou dos valores, conforme o art. 1.168. Se alguma contestação advém,
o rito é ordinário.
Não houve erro do legislador em dar às controvérsias entre os sucessores provisórios ou definitivos ou órgão do
Ministério Público ou representante da Fazenda Pública e o ausente, que se apresenta, o rito ordinário. Algo de
grave se pode discutir e não se pode estabelecer o principio de que o rito da jurisdição voluntária não possa ser
impróprio ou desaconselhável se surge algo que leva à contenciosidade.
5)CITAÇÕES E CONTESTAÇÕES. No pedido, que faça o ausente, ou que faça ascendente ou descendente, há
de estar o de citação dos sucessores provisórios, se antes da definitividade, ou dos recursos definitivos, se dentro
do prazo de dez anos seguintes à abertura da sucessão definitiva, para que contestem, o órgão do Ministério
Público e o representante da Fazenda Pública. A contestação pode consistir, por exemplo, em não se ter
identificado o ausente, ou qualquer das pessoas que se dizem herdeiros necessários (ascendentes ou
descendentes), ter expirado o prazo dos dez anos seguintes à abertura da sucessão definitiva, ter havido no
testamento deserdação de alguma delas, ou de algumas ou de todas elas.
O que herdeiro pede é o que como tal lhe teria cabido, sem atingimento da metade disponivel.

1)COISAS DITAS VAGAS. O Cochigo regula, nos artigos 1.170-1.176, o processo das co$sas achadas “coisas
vagas”, diz ele, elevando à categoria de adespotia o bem que tem dono e se lhe ignora quem seja. Uns e outros
bens, os sem dono e os de dono Ignorado, se alguém CiS encontrou, são achádigos (Ordenações Filipinas, Livro
V, Titulo 62, § 2; JOAQUIM DA SANTA ROSA DE VITEBEO, Elucidário, 1, 30) e deve o achador (assim
traduziu BENTO PEREIRA, Tesouro da Lingua Portuguesa, ed. 1647, 4, verso, o “inventor” dos textos latinos)
entregá-los à autoridade policial. Vagos são os bens sem dono ou de que se não sabe quem é o dono; mas o
sentido das Ordenações Filipinas e do Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, ia além. Esse decreto definia
“bens vagos” (art. 11):
“1.0 Os móveis e de raiz a que não é achado senhorio certo. 2.0 Os bens dos intestados que não deixam parentes
ou cônjuges herdeiros nos termos de direito, ou dos falecidos com testamento ou sem ele, cujos herdeiros,
mesmo abintestado, repudiaram a herança”.
Se se sabia que o decujo tinha herdeiros, então eram chamados os bens, escapos ao art. 11, inciso 2.0, do Decreto
n. 2.433, “bens de defuntos” (art. 1.0, inciso 1.0). O Código Civil, abstraindo da distinção sobre o saber-se, ou
não, da inexistência de herdeiro, submeteu a inútil processo de editais os bens de defuntos, ditos vagos, pela
incerteza de existirem herdeiros. De modo que os dois conceitos, o remicola e imperial e o do Código Civil, não
se superpõem.

No Código, coisas vagas são as que não cabem na classe dos bens de defunto, na herança jacente (arts. 1.142-
1.158), nem na classe dos bens de ausentes (arte. 1.159-1.169). Porque, nas duas clases,. ou se sabe de quem
foram, ou se sabe de quem são, ao passo que, por definição, as coisas vagas são bens cujo dono, se tiveram e
têm, se ignora. A ignorância de quem seja o titular do direito aos bens ou à posse dos bens é que constitui o
elemento diferenciador.

Art. 1 .170. Aquele que achar coisa alheia perdida, não lhe conhecendo o dono ou legitimo possuidor4), a
entregará à autoridade judiciária ou policial2), que a arrecadará 1), mandando lavrar o respectivo auto, dele
contando a sua descrição e as declarações do inverter 3)•

Parágrafo único. A coisa, com o auto, será logo remetida ao juiz competente, quando a entrega tiver sido feita à
autoridade policial ou a outro juiz ~).

1) BENS ARRECADÁVEIS . Os bens que se acharem quer tenha havido derrelicção, quer não, uma vez que se
ignora o dono ou sejam jóias, ou dinheiro, ou quaisquer co~sas móveis (Ordenações Filipinas, Livro II, Titulo
26, § 17; Aviso n. 197, de 20 de julho de 1855), são coisas vagas, no sentido do texto. Nos móveis também se
incluem os semoventes, que se encontram vagando (bens do vento, do evento), posto que não perdidos: sendo de
notar-se que a existência de sinais ou marcas, quer nos semoventes, quer nos outros, exclui pensar-se em co~sas
vagas, uma vez que esses sinais ou marcas dêem noticias suficientes de quem seja o dono.
2)DEvER DE ENTREGA k AUTORIDADE JUDICIRIA Ou POLICIAL. O dever de entregar à autoridade
judiciária ou policial já aparecia nas Ordenações Manuelinas, Livro V, Titulo 41 (“souber cuja he, lha entregue
loguo, posto que requerido nom seja”) e foi reproduzido nas Ordenações Filipinas, Livro V, Título 62, § 3. Havia
o prazo de trinta dias, que o Código Civil omitiu, mas há de entender-se ser o prazo que consta da lei penaL Se
essa nada estatui, o tempo em que o achador razoavelmente deveria fazê-lo.

3)DECLARAÇÕES DO ACHADOR. Tudo que então diz o achador é comunicação de conhecimento. Como tal,
suscetível de ser tratado, no processo judicial, penal ou civil, como afirmações (e. g., art. 332). Se for descoberto
pela policia, desde logo (Isto é, antes da remessa dos autos ao juiz), que os bens têm dono, o processo das coisas
vagas é sem razão de ser, e as coisas são entregues àquele a quem pertencem. O procedimento dos arta. 1.170-
1.176 é edital e somente se justifica quando se não sabe quem seja o dono, ou mesmo se o tem.

4)PESSOA A QUE PERTENCEM AS COISAS. Nas ações de arrecadação de bens de defunto, não se sabe a
quem passaram os bens, hereditariamente. Nas ações de arrecadação de bens de ausente, sabe-se a quem
pertencem e ignora-se onde se acha o dono deles ou possuidor. Nas ações de arrecadação de coisas vagas, ignora-
se a quem pertencem. Nas primeiras, há a provocatu) ad agendum, dirigida aos sucessores; nR5 segundaz, a
vocatio zn :us e a provocati ad agendum, dirigida, aquela, ao ausente, e, essa, como a das primeiras, aos
prasumidos sucessores; nas últimas, há vocatio 271 :us, mera citação dos que se crêem donos ou possuidores,
para que estabeleçam o contraditório. A diferença, processualflleflte, éda mais alta relevância. O procedimento
edital é para a contrariedacle (ad. 1.171, verbis “para que o dono ou legítimo possuidor a reclame”). Houve o
mandado do juiz, com o qual se efetuou a medida constritiva. Comparecendo algum interessado, dono ou
possuidor, há de provar o seu direito e, ouvido o representante da Fazenda Pública, decidirá o juiz. Se ninguém
comparece que reclame os bens, dentro do prazo, procede-se de acordo com a lei civil, quer dizer serão
devolvidos à pessoa de direito público (Código Civil, art. 606). O art. 1.173 exige a avaliação e a alienação,
sendo o preço destinado a pagamentos e a entrega à União, ao Estado-membro ou ao Distrito Federal.
A lei poderia ter concebido a comparência como pedido em ação mandamental negativa; não no fez. As defesas
do art. 1.172 são defesas não puramente declarativas, mas defesas de dupla~ natureza (eventual): declarativas do
direito dos donos ou possuidores que aparecerem e conseguirem sentenças de acolhimento e confirmativas, ou
não, do direito do inventor (recompensa, diz o art. 1.173, prêmio, segundo o Código Civil, arts. 604 e 606), e
declarativas, quanto à Fazenda Pública. Cumpre, por.~m, advertir em que, no caso do Código Civil, art. 605, há
elemento condenatório, que aparece em virtude de conterem artigo reconvencional (reconvenção metida na
“reclamação” ou contrariedade) as alegações do interessado comparecente.
Nos casos do art. 1.176, a autoridade policial ou instaura o processo inquisitivo, sem exorbitar das regras de
direito processual penal, ou converte a apreensão em inquérito. A entrega ao dono ou possuidor, em tais
circunstâncias, põe em relevo o elemento condenatório da resolução da autoridade policial, ou, pelo menos, o
elemento de cognição incompleta (condenatória), para que o processo penal a com pt~te. A dúvida sobre a
procedência da alegação do reclamante permite a bifurcação, processo criminal do pretenso achador e processo
civil de arrecadação dos bens achados. A falta de qualquer base para se desconfiar do alegado exclui o processo
penal.

5)AUTORIDADE JUDICIÁRIA COMPETENTE. É assaz relevante saber-se qual a autoridade judiciária


competente, porque a coisa pode ser entregue, diretamente, desde logo, a ela, ou, se a arrecadação foi feita pela
autoridade policial, tem ela imediatamente (“logo”) de remetê-la ao juiz competente. Se a entrega foi a algum
juízo não competente, tem ele de remetê-la ao juiz competente. A remessa é sempre com o auto de arrecadação.

Depositada a coisa, o juiz edital, por duas vezes, no intervalo de dez (10) dias, ou legítimo possuidor a re
Art. 1.171. mandará publicar órgão oficial, com para que o dono clame’).
§ 1.0 O edital conterá 2) a descrição da coisa e as circunstâncias em que foi encontrada.
§ 2.0 Tratando-se de coisa de pequeno valor, o edital será apenas afixado no átrio do edifício do fortim3).

Art. 1 .172. Comparecendo o dono ou o legítimo possuidor4) 5) dentro do prazo do edital e provando o seu
direito, o juiz, ouvido o orgão do Ministério Público e o representante da Fazenda Pública, mandar4~ entregar-
lhe a coisa.

Art. 1.173. Se não for reclamada 6) será a coisa avaliada e alienada em hasta pública e, deduzidas do preço as
despesas e a recompensa do invento4 o saldo pertencera, na forma da lei, à União, ao Estado ou ao Distrito
Federal. em ter sido derrogado, no Código Civil, o art. 606; portanto, não fci derrogado, nesse ponto, quanto ao
prazo:
os arts. 1.171 e 1.172 concernem ao procedimento edital e ao prazo de comparência, assunto puramente
processual; o art. 606 do Código Civil, ao prazo para a venda dos bens vagos em hasta pública. Durante esse
tempo e até depois, o dono pode reclamá~lo por ação de reivindicação ou outra. A Fazenda Pública (da União, do
Estado-membro ou do Distrito Federal) somente os adquire com a sentença que lhe atribua o remanescente: é
sentença constitutiva, com reserva, e não declarativa. Aliás assim era a tradição do nosso direito (Ordenações
Filipinas, Livro III, Título 94, § 3, que apenas mandava vender depois da sentença, o que foi invertido pelo
conselheiro ToRREs HOMEM, com o Decreto n. 2.433, art. 94, piara que até a remessa pudesse o dono
comparecer). Depois da sentença do art. 606 do Código Civil, ainda cabe a reclamação do dono, em ação de
reivindicação da posse (CÓdigo Civil, art. 521, que remete ao art. 603 do mesmo Código). Sobre isso, nosso
Titulos ao Portador (1.a ed., 443; 2.a ad., II, 187). Também, aí, o direito anterior ao Código Civil influiu sobre a
concepção posterior (Decreto n. 2.433, de 15 de junho de 1859, art. 95, verbis “se depois de concluída a
arrematação e recolhido o produto”). Na historia do direito processual, o artigo 1.111 do Código de Processo
Civil de Pernambuco estava certo; e não há erro em manter-se a diferença entre o prazo dos arts 1.171 e 1.172 do
Código de Processo Civil e o prazo do art. 606 do Código Civil.

2) CONTEÚDO DOS EDITAIS. Os editais têm de descrever os bens achados, de modo que se lhes possa
conhecer a “identidade” (expressão d’o Decreto n. 2.433, art. 5O), mencionar as circunstáncias de lugar e tempo
em que foram achados os bens, mais a data (circunstância de tempo), e chamar o dono ou donos ou possuidores
para darem as razões do seu direito. No edital há de estar o prazo para a comparência.
A não-comparência é permissiva da aplicação do art. 603 do Código Civil, que é a liquidação anterior à sentença
de devolução, devolução definitiva se prescreveu a pretensão do dono ou do possuidor (Código Civil, art. 521),
mas, fora daí, concebida a sentença como de reserva.

3)COISA DE PEQUENO VALOR. A regra jurídica do artigo 1.171, § 2.0, foi novidade do Código de 1973.
Quis-se, com toda razão, afastar despendimentos com editais e outras providências. O juiz, com o art. 1.109, é
que h.á de ver se convém ou se não convêm a publicação do edital. Pode acontecer, por exemplo, que o valor em
pecúnia seja pequeno, mas a natureza do objeto leve a ter-se como objeto de estima. Aliás, se, depois da simples
afixação no átrio do edital, se verifica que o valor não é de pequeno valor, tem o juiz de publicar o edital, por
duas vezes, no orgão oficial, com intervalo de dez dias (art. 1.171).
4)COMPARÊNCIA DO DONO OU POSSUIDOR. Se o dono ou possuidor comparece, e prova a sua posse, os
bens são-lhe entregues, ouvidos o órgão do Ministério Público e o representante da Fazenda Pública.

5)NÃO-COMPARÊNCIA DO DONO OU POSSUIDOR. Se não


comparece o dono ou possuidor, o juiz procede na forma do art. 606 do Código Civil, que manda vender os bens
em hasta pública, exceto se outra for a comunicação de vontade da pessoa juridica de direito público a quem
vão ser devolvidos os bens. Esse principio, de direito administrativo, já estava claro no Decreto n. 2.433, de 15 de
junho de 1859, art. 12, alíneas 1.a e 2.a: “Todos estes bens se devem arrecadar, inventariar, avaliar e arrematar,
recolhendo-se o produto aos cofres públicos, na conformidade deste Regulamento. Todavia, se algum ou alguns
destes bens forem próprios para o serviço do Estado, o Governo, pelo Ministério da Fazenda, poderá ordenar que
não o sejam arrematados, para destiná-los ao referido serviço”. Sobre a devolução, o art. 606 do Código Civil.

6)COMUNICAÇÃO DE DERRELICÇÃO . Se o dono comparece e comunica c~ue abandonara o bem, deu-se


a derrelicção, o que se ignorava; e o achador tem a ocupação da coisa no sentido dos arts. 593 e 592, com o
parágrafo único, do Código Civil. É a ele que o juiz tem de entregar.

Art. 1 .174. Se o dono preferir abandonar a coisa 1), poderá o inventor requerer que 1h~ seja adjudicada2).

1)DoNo QUE PREFERE ABANDONAR A COISA. O art. 1.174 fez bem em referir-se à hipótese de o dono,
que comparece, preferir “abandonar a coisa”. Está ele diante de despesas, que teria de pagar, e da íecompensa
devida ao achador. É ao achador que cabe requerer, diante disso, que lhe seja adjudicada a coisa. Claro que o
dono exerce tal direito de derrelicção antes da hasta pública. Se só após o exercer, o que pode acontecer é que,
pela má-fé no abandono, haja de responder pelas despesas que o preço da hasta pública não cobriu e pelo que é
devido ao achador.

No art. 1.174 diz-se “se o dono preferir abandonar a coisa, poderá o inventor requerer que lhe seja adjudicada”.
Em vez de manifestar que prefere abandonar a coisa, o que seria manifestação de vontade posterior ao
comparecimento do dono ou possuidor, pode a pessoa declarar que a havia abandonado, e não que a havia
perdido, ou dela se esquecido.
2) SEGURO. Nada se disse quanto à coisa achada, sem se saber quem é o dono ou o possuidor, se estava
segurada pela perda ou pelo furto ou roubo. Aí, se houve o edital e o dono ou possuidor não compareceu, ou
compareceu para dizer que quis abandonar ou que a quer abandonar, não lhe é devido o seguro. Aliás, a empresa
de seguros pode comparecer para retirar a coisa, pagar as despesas e pagar a recompensa do achador, a fim de
entregá-la ao dono ou poSSuidor que fez o seguro.

Árt. 1 .175. O procedimento estabelecido neste Capitulo aplica-se aos objetos deixados nos hotéis, oficinas e
outros estabelecimentos 1), não sendo reclamados dentro de um mês 2)

1)HOTÉIS, OFICINAS E OUTROS ESTABELECIMENTOS. O Código de 1973 fez explicita a regra juriclica
segundo a qual o dever do achador se estende a quem encontra as coisas deixadas em hotel, oficina, ou outro
estabelecimento. Se o achador foi hóspede de hotel, ou ele leva a coisa ao juizo, ou à polícia, comunicando-o
previamente ao hoteleiro, ou a entrega ao hoteleiro, podendo exigir declaração escrita do recebimento. Ai, o
dever de levá-la ao juízo, ou à autoridade policial, passou à empresa do hotel. Dá-se o mesmo com quem
encontra coisa vaga em oficina, loja, mercado, gabinete de medico ou de outro profissional, ou no elevador do
edificio, ou em qualquer parte indivisa ou divisa do prédio. O dever persIste enquanto não se leva ao síndico, aô
habitante do apartamento, ou mesmo ao porteiro, sendo aconselhável exigir-se sempre a declaração escrita do
recebimento.

2)RECLAMAÇÃO DENTRO DE UM MÊS . Nos hotéis e noutros estabelecimentos de comércio ou de


indústria, os objetos de que o hóspede ou freguês ou cliente, ou mesmo visitante, deixar em algum lugar, quase
sempre se sabe de quem são. Se não se tem qualquer dado ou informe a respeito, costuma-se indagar. Onde há
vigilância e rigor nas verificações possivelmente se chega a saber quem é dono ou possuidor da coisa perdida ou
esquecida. Por vezes, não se pode pensar em serem bens vagos os que, por exemplo, o hóspede deixar de levar
com a bagagem, ou o relógio que o cliente deixou no gabinete do médico, ou a jóia que o freguês comprou na
joalheria e deixou de receber de quem a estava pondo numa caixa. Mas, sempre que se não saiba quem é dono, o
bem tem de ser considerado como coisa vaga. Embora raramente isso aconteça, tem o comerciante, ou o
industrial de proceder como qualquer achador (art. 1.170).

Árt. 1 .176. Havendo fundada suspeita 1) de que a coisa foi criminosamente subtra1-da, a autoridade policial
converterá a arrecadação em inquérito; caso em que competirá ao juiz criminal mandar entregar a coisa a
quem provar que é o dono ou legitimo possuidor2).

1)“FUNDADA SUSPEITA” E CONVERSÃO DO PROCESSO. No art. 1.176 fala-se em “fundada suspeita”. É


a suspeita para a qual há razões de suspeitar-se. Diz-se que a autoridade policial “converterá a arrecadação em
inquérito”. Leia-se: converterá em inquérito policial o processo de recebimento da coisa achada, com o envio da
coisa achada ao juiz criminal.
No art. 1.176 diz que compete ao juízo criminal mandar entregar a coisa a quem provar que é dono ou legitimo
possuidor. Ai, a autoridade policial converteu a arrecadação em inquérito. Ainda não ocorreu a remessa da coisa
ao juízo competente, de modo que o caso vai diretamente da autoridade policial para o juízo penal competente.
No intervalo há a conversão da arrecadação em inquérito, após a qual o juiz penal é quem decide quanto a todos
os assuntos. Pode acontecer que o próprio juízo civil submeta a inquérito policial e decisão do juízo criminal a
fundada suspeita. Se é certo que o juiz da jurisdição civil não pode aplicar penas criminais, não se diga que o juiz
criminal não pode apreciar propriedade e posse para proferir a sua sentença. Daí dizer o Código de 1973, no art.
1.176, que compete ao juiz criminal “mandar entregar a coisa a quem provar que é dono ou legitimo possuidor”.
N~ é de afastar-se a hipótese do próprio juiz do cível, com a remessa, achar que vai ao juízo criminal a simples
apreciação do débito, e não a da entrega da coisa. A matéria penal pode ser apenas de ato do que se diz achador,
ou de algum empregado do hotel ou outro estabelecimento.

2)DÚVIDA SOBRE A PROPRIEDADE OU A POSSE. Se há qualquer dúvida sobre a propriedade ou a posse


(não sobre o fato do crime), é prejudicial que compete ao juiz do civel, mesmo se o processo é penal. No cível,
com os editais, pode aparecer o dono, e alegar o crime. Decidida a questão da propriedade, o juiz do cível dá a
sua sentença, sem prejuízo da ação penal.

CAPITULO VIII

DA CURATELA DOS INTERDITOS 1).2).3)

1)PROCESSO DE INTERDIÇÃO E SENTENÇA. O Código tratou do processo da interdição do incapaz (ação


com efeito eventual no passado, ex tunc, mas ação e sentença de sua natureza constitutiva, e não declarativa,
como erradamente se usa construir). Todas as incapacidades, exceto a resultante da idade (porque nasce com o
homem e se extingue com o advento do dia certo, ou em virtude de ato de outrem, suplementando a idade),
exigem decisão judiciaL O louco, para ser louco, prescinde de ato judicial; e o surdo-mudo. Mas a interdição só
existe se houve a decisão do juiz.
Quanto à ação de interdição, surge o problema de se tratar de ação constitutiva negativa, ou de ação constitutiva
positiva, ou de ação declarativa. O elemento declarativo é alto, porém não preponderante. O estado da pessoa é
declarado e o que se constitui é a incapacitação. O argumento de que pode haver eficácia retroativa, o que
imporia a classificação da ação como declarativa, não bastaria. Nulidades decretam-se, com efeitos ex tunc, sem
que se haja de considerar declarativa a ação. A ação de interdição desconstitui; ~e há retroeficácia da sentença, a
razão está em que se teve de acolher enunciado de fato, relativo ao inicio da causa. Dá-se o mesmo se se propõe
ação de nulidade por ser absolutamente incapaz, mas ainda não interditado, quem figurou em ato jurídico.
O assunto tem sido descurado. A natureza das ações de Interdição de modo nenhum se confunde com a natureza
das ações de paternidade ou de filiação, inclusive quando se discute a maioridade ou a existência do pátrio poder.
Algumas delas são declarativas; as de interdição, não. As decisões, naquelas, têm força de coisa julgada material;
nessas, constitutiva. O que fez a confusão foi a eficácia ex tunc, aliás eficácia restrita às sentenças nas ações de
interdição por loucura e surdo-mudez. Sobre as interdições, Código Civil, artigos 446-458 (loucos), 459-46 1
(pródigos), 462 (nascituros). Uma das consequências de tal pensamento é que se não permite a ação declaratôria
típica (art. 4.0), porém cabe, em ação ou em defesa, a alegação da loucura ou da surdo-mudez, própria ou de
outrem, com efeito declarativo da sentença que julga essa questão prejudicial (e. g., exceção de direito material
de incapacidade do contraente). Existe elemento declarativo na sentença, porém não é preponderante; o
constitutivo, sim. A ação e a sentença de interdição têm por fito organizar a defesa do Incapaz e assegurar a
eficácia erga omnes. Quando o juiz deixa preciso, na sentença, o tempo em que começou a incapacidade, o efeito
declarativo de modo nenhum é inerente à sentença de Interdição (pode omiti-lo, como é frequente); é o efeito
declarativo da parte da sentença que a essa data se refere, tanto assim que pode esbarrar com a coisa julgada
material de alguma sentença anterior em ação diferente, ou sobre alegação, ou defesa, com elemento declarativo.
A sentença de interdição, essa, é constitutiva, quer se trate de Interdição por Incapacidade absoluta, quer se trate
de interdição por incapacidade relativa. Prática judiciária de dezesseis anos e investigação de mais de um quartel
de , posteriores à 1.~ ed., do nosso Direito de Família (435 e 436), levaram-nos a essa distinção, de
consequências, teóricas e práticas, relevantes. O efeito declarativo ex tune não seria erga omnes. A sentença de
interdição adquire essa eficácia. (Sobre tratar-se de sentença constitutiva,
Koi,nuz) HELLWIG, Lehrbuch, 1, 52.)
A sentença de interdição exclui qualquer outra demanda de interdição ex eadem causa, não porque tenha força de
coisa julgada material, e sim porque, sendo constitutiva, importaria reconstituir o constituído (~)is ia idem). O
levantamento da interdição não importa, como se tem pretendo, quebra da co!sa julgada material, e sim em ação
de niodificação, à semelhança (não identidade!) das ações do art. 471, 1. A ação de levantamento é con3titutiva
negativa, não declarativva (não confundir com os efeitos ex tune de direito material, quando os há).

2)INQUISITIVIDADE DO PROCESSO. Note-se que o processe inquisitivo predomina, menos radicalmente, é


certo, do que no velho direito português e no luso-brasileiro até o século XIX. Uma das consequências mais
importantes é a de ser irrevogável e intransmissível o pedido de interdição ou de levantamento da interdição, pelo
interesse do interditando ou do interditado em que, qualquer que seja o conteúdo da sentença, o juiz a profire
Afasta-se, pois, a desistência. O principio não vale quanto à interdição por prozligalidade.
A competência é, precipuamente, do juiz do domicílio do interditando (não do que pede a interdição; sem razão,
a 4•~ Câmara Civil do Tribunal de Apelação de São Paulo, a 3 de fevereiro de 1944, R. dos T., 150, 132).

3)CONTENCIOSIDADE E vOLUNTARIEDADE DA JURISDIÇÃO (a) O processo de interdição é tido por


LEO ROSENEERO (Lehrbuch, 511) como contencioso, porque assim entendem os legisladores; mas, disse ele,
seria mais próprio inclui-lo na jurisdição voluntária. Ora, há variedade na determinação dos limites entre as duas,
devido à época. Porém a variedade não depende somente da forma. O elemento histórico muda alguma coisa
mais do que o procedimento. Adiante, nota ao art. 1.177. A sentença estrangeira de interdição precisa de
homologação (Supremo Tribunal Federal, 16 de maio de 1944, J. do S. T. F., 22, 7).

(b)O interditando, na ação de interdição, é parte, e tem capacidade processual, embora se nomeie curador à lide.
Pode recorrer, inclusive apelar, ainda que o não faça o curador à lide (art. 1.184). A curadoria não lhe tira a
autonomia processuaL Tem capacidade processual para pedir o levantamento (art. 1.186, § 1.~). Também pode
ele querelar a nulidade da sentença, se não foi ouvido, ou se foi nula a audiência (e. g., sem a presença do juiz)
ou a citação. A ação rescísoria também lhe é permitida, porque ele foi parte. As regras jurídicas dos arts. 1.182, §
2.0, e 1.186, § 1.0, levam a essa conclusão.
(c)Ainda que não tenha sido proposta pelo órgão do Ministério Público a ação de interdição, à função consultiva
dele está junta, potencialmente, a junção de parte (art. 499, § 2.0), sempre que ele seria legitimado a propô-la.
Daí a sua legitimação para recorrer e para prosseguir no pleito, ainda que o promovente da interdição tenha
desistido da causa, ou se tenha dado absolvição da instância. A sua. situação, desde o Inicio da demanda, é, in
potentia, a de litisconsorte necessário. Não nos serve a figura do litisconsórcio necessário in actu, porque nada
obsta a que o órgão do Ministério Público também se desinteresse do processo e promova processo seu, em c~ue
parte, desde o começo e in actu, seja ele. O direito processual apresenta-nos vários casos como esse, em que o
legitimado como parte se satisfaz com a posição de interveniente assistente, equiparado ao litisconsorte, ou de
assistente vulgar, ou, mesmo, de consultor, ajudando ao juiz. Isso leva-nos a entender que, nos casos de
interdição promovível pelo orgão do Ministério Público, se outrem suscitou o processo, somente a conduta
expressa ou tácita do Ministério Público o investe da situação de parte. Dele depende, e só dele, litisconsorciar
-se ao promovente.

Se, na ação pendente, o orgão do Ministério público se mantém na sua função só consultiva, porque a postulação
e a diagnose não permitiam que fosse parte, pode ele inserir-se como parte e, no mesmo processo (atendendo-se
ao artigo 250), pedir a interdição pelo novo fundamento que as condições psíquicas ou nêuricas do interditando
configuraram. Não importa distinguirem-se condições anteriores à propositura da ação de interdição e condições
novas. A inquisitividade do processo de interdição permite esse aproveitamento, para o qual, concorre, do seu
lado, o assente principio de economia processual.
(d)A função inquisitiva do juiz dá ensejo a alguns problemas técnicos de processo, que se parecem com os
expostos e resolvidos acima. O juiz não tem a promoção; a sua função inquisitiva restringe-se à Investigação da
verdade sobre o que se articulou e a sua possível revelação a mais; portanto, exclui-se, no estado atual do direito
brasileiro, a iniciativa pelo juiz, que se contruiria, nos casos especiais, como cumulação de duas funções estatais
(a de órgão de promoção e a de julgador), como em todas as iniciativas de oficio. Resta saber-se se, abandonando
as partes o processo (inclusive o órgão do Ministério Público, se o promoveu, ou se se litisconsorciou, ou se
recusa a inserir-se na relação jurídica processual como parte), pode o juiz prosseguir na instrução. A resposta,
pois que, ex hypothesi, lhe falta a iniciativa (o poder de prosseguir não supõe o de iniciar), é positiva. As
desistências somente não operam se terminada a instrução. No mesmo sentido, na Itália, a opinião de SAVERIO
CASTELLETT (Effetti deila perenzione del giudizio di interdizione, Rivista, VI, Parte II, 5, nota 2).

(e)Uma das conseqüências da transformação da função consultiva em função de parte, em virtude da conduta
do órgão do Ministério Público, conforme se disse sob (c), é a de cessar a função de defensor do incapaz, que ele
tInha (Código Civil, art. 449, 2.~ parte). Desde o momento em que o órgão do Ministério Público se insere, como
parte, no processo, o juiz, nomeando o curador especial, aí defensor1 tem de substitui-lo nas funções de defensor
do Incapaz. Do mesmo modo, se, por falta superveniente do defensor nomeado, o juiz tem de nomear outro, e o
órgão do Ministério Público, que fora parte promovente, ou que fora litisconisorte, se retira da relação jurídica
processual (e. g., se convenceu de que o interditando sarou), pode ficar a seu cargo e é bom que fique a função
de defensor do incapaz. Dissemos “pode”, porque, em tais casos, não nos parece que a lei civil faça completa a
regra jurídica: o Código Civil, art. 449, se, por um lado, põe a alternação (ou o nomeado, na falta do órg~o do
Ministério Público, ou esse), dá relevo especial, por um lado, na í.a parte, à promoç