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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

 

Registro: 2011.0000150386

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 9046104- 97.2000.8.26.0000, da Comarca de Piracicaba, em que são apelantes HELIO MILANEZ MESCOLOTTI e DEISE MARIA BRAJAO MESCOLOTTI sendo apelado CONDOMINIO EDIFICIO PORTAL DAS FLORES.

ACORDAM, em 10ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento ao recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores JOÃO CARLOS SALETTI (Presidente sem voto), LUCILA TOLEDO E MARCIA REGINA DALLA DÉA BARONE.

São Paulo, 23 de agosto de 2011.

Coelho Mendes RELATOR Assinatura Eletrônica

PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO VOTO Nº: 3136 APEL. Nº:

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VOTO Nº: 3136

APEL. Nº: 9046104-97.2000.8.26.0000

COMARCA: PIRACICABA

ORIGEM: 1º OFÍCIO CÍVEL

JUIZ 1ª INSTÂNCIA: MILTON PAULO DE CARVALHO FILHO

APTE: HELIO MILANEZ MESCOLOTTI E DEISE MARIA BRAJÃO MESCOLOTTI

APDO: CONDOMÍNIO EDIFÍCIO PORTAL DAS FLORES

AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C PEDIDO DE MULTA COMINATÓRIA. CONDOMINIO QUE PRETENDE O CUMPRIMENTO DE REGRA PREVISTA NA CONVENÇÃO CONDOMINIAL. PROIBIÇÃO GENÉRICA DA PRESENÇA DE ANIMAIS NO CONDOMÍNIO. NÃO DEMONSTRADO QUALQUER INCÔMODO. CONFIGURADO CERCEAMENTO INJUSTIFICADO AO LIVRE USO DA PROPRIEDADE. RECURSO PROVIDO.

Vistos.

Trata-se de obrigação de fazer cumulada com pedido cominatório interposta por condomínio em face de condômino visando o cumprimento de previsão expressamente contida na Convenção Condominial que impedia a manutenção de animais tanto nas unidades autônomas, como nas partes comuns do edifício. Argumenta o autor que os réus mantêm um cão em seu apartamento e mesmo advertidos para a retirada do animal, insistem em descumprir as normas advindas da Convenção. A sentença de fls. 104/108, cujo relatório é adotado, julgou procedente o pedido inicial, impondo aos vencidos a responsabilidade pelas custas e despesas processuais, além dos honorários advocatícios estabelecidos em R$ 700,00 (setecentos reais). Os requeridos apelam buscando modificar o resultado do julgamento. Sustentam que inadmissível a retirada do interior de sua propriedade, de animal de pequeno porte e que não provoca problemas ou desconforto aos demais condôminos. Questiona a validade da convenção condominial, entendendo exagerada a restrição em análise. Recurso preparado, admitido e contrarrazoado.

PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Peticiona o autor clamando pela

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Peticiona o autor clamando pela desistência da ação. Determinada a manifestação dos réus, ora apelantes, estes mantiveram-se silentes, razão pela qual prossegue o exame do recurso (art. 267, §4º).

É o relatório.

A controvérsia devolvida pelo recurso consiste em analisar se é lícita ou não, disposição contida em convenção condominial e que estabelece o impedimento de acesso de animais ao condomínio autor. A questão não é pacífica na jurisprudência o que exige a

tomada de posição.

Verifica-se que a vedação contida na convenção condominial é genérica e nitidamente abrange a forma como os condôminos farão o uso de sua unidade autônoma condominial, e implica que os condôminos previamente consideraram que a presença de qualquer animal gera uma situação que se pretende evitar. Todavia, tendo a convenção disciplinado expressa

restrição que impunha limitação à forma do uso de propriedade privada, é certo que deve ser analisada com critério, com o fim de impedir que haja excesso capaz de injustificadamente inibir o amplo direito de gozo da propriedade. Neste passo, cumpre destacar que não foi apontado qualquer distúrbio ou abalo do sossego ocasionado pelo animal que é de pequeno porte. Pelo contrário, há até manifestação de outros condôminos atestando que o animal não provoca incômodo. Cumpre considerar ainda, que há comprovação de que o cão estava devidamente vacinado e não oferecia qualquer perigo à higiene e à saúde dos demais moradores do condomínio. Dispunha o artigo 1.335 do Código Civil de 1916, vigente na época da propositura desta ação, que:

“art. 1.335. São direitos do condômino:

I. usar, fruir e livremente dispor das suas unidades; ”

PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Desta forma, considerando as particularidades

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Desta forma, considerando as particularidades do caso

concreto, prestigia-se a norma legal que estabelece o direito ao livre gozo da

propriedade, regra esta que somente poderia ser desconstituída por razão

justificada, o que, conforme já destacado, não ocorreu.

Sobre o tema interessante citar:

“EMENTA OBRIGAÇÃO DE FAZER CONDOMÍNIO Improcedência Pretensão visando o ingresso e permanência de animal (cão de raça não definida) de pequeno porte Tutela antecipada indeferida. Convenção condominial que proíbe a manutenção de qualquer espécie de animal nas dependências do condomínio. Abusividade, na hipótese Ausência de prova de que o animal coloque em risco a salubridade do ambiente ou importune o sossego dos demais moradores Entendimento jurisprudencial que permite a permanência de animais de pequeno porte nas dependências do condomínio nesses casos Procedência decretada, com ”

inversão dos ônus da sucumbência

(AP.

Cível

994.06.133590-3, Rel. Salles Rossi, julgado em 19/01/2011).

“Condomínio edilício - Cláusula de convenção condominial que veda genericamente a permanência de animais e aves em toda edificação - Nulidade - Confronto com o direito de propriedade exercido sobre as unidades autônomas - Recurso desprovido. (AP. Cível nº 994.07.099237-7, Rel. Fortes Barbosa, julgado em 27/10/2010)

Desta forma, no presente caso, não há como imperar a

disposição contida na convenção condominial, razão pela qual decreta-se a

improcedência do pedido inicial.

Modificado o resultado do julgamento, inverte-se a

responsabilidade pelas custas da sucumbência, dentre elas os honorários

advocatícios ora estabelecidos em R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais).

Pelo exposto, pelo meu voto, DOU PROVIMENTO ao

recurso.

COELHO MENDES Relator