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Nós comemos apenas quando temos fome?

O comportamento alimentar está normalmente regulado por


mecanismos automáticos no sistema nervoso central (SNC). A sensação
de fome tem origem em estímulos metabólicos e em receptores situados
na boca e no tubo digestivo, induzindo a sensação de apetite até chegar
ao ato de se alimentar. A sensação de saciedade faz cessar os estímulos
da fome e se detém o processo. Embora o processo de alimentação
possa parecer fisiologicamente automático e elementar, não são apenas
os elementos neurobiológicos que regulam a conduta alimentar, mas
também as experiências prévias. Há mecanismos mais complexos e
relacionados com nossas experiências sociais e psicológicas, tais como
antecedentes de carência e privação ou sentimentos de segurança, bem-
estar e afeto que são experimentados através do aleitamento materno.
O ato de comer tem um aspecto eminentemente social e cultural e
normalmente as características dos alimentos definem os diferentes
grupos culturais, expressos nos chamados “pratos típicos”. A comida
ocupa um lugar de destaque nas reuniões sociais, nas comemorações,
nos rituais, em diversos eventos representativos de um grupo ou de
uma cultura. O ato de comer sempre foi e sempre será um fenômeno de
comunicação social e pode ser melhor compreendido através dos
tempos.
Da conquista do fogo até o império do fast-food, a alimentação
acompanhou as mudanças na humanidade, demonstrando as relações
entre a cultura e as maneiras de se alimentar. As condutas alimentares
não refletem somente a satisfação de uma necessidade fisiológica, mas
também demonstram a diversidade de culturas e a identidade de cada
povo, a partir de suas técnicas de produção, de suas estruturas e
representações sociais e religiosas. É uma construção lenta influenciada
pela visão de mundo e pelo conjunto de eventos, tradições e costumes.
Durante séculos, os gregos e romanos banquetearam deitados, mas
durante a Idade Média os ocidentais passaram a comer sentados,
liberando as mãos para trinchar os alimentos, o que mais tarde
determinará o surgimento de talheres, pratos, mesas e cadeiras altas. O
uso de utensílios foi sendo incorporado ao cenário da alimentação,
inclusive por motivos de higiene e saúde, depois da epidemia da peste
negra.
A partir do século V, encontramos na literatura teológica as descrições
de jovens jejuadoras que renunciavam ao alimento como meio de
alcançar a elevação espiritual, interpretada naquele momento como
escolha divina. Por esta razão, entre os anos 1200 e 1500, muitas
mulheres que praticavam o jejum por um longo tempo eram
consideradas santas ou milagrosas, inclusive pela façanha de
sobreviverem ao prolongado estado de inanição. No entanto, durante o
período da Inquisição, o que antes era visto como devoção passa a ser
interpretado como ato demoníaco, heresia ou insanidade. A renúncia a
comer, anteriormente dignificada pela idéia de uma comunicação com
Deus, pode agora levar as jejuadoras à fogueira. No século XIV, essas
“santas anoréxicas” passam a ter um papel social como representantes
contra a dominação das estruturas patriarcais, fazendo do jejum um
meio de reação às imposições da época, tais como os casamentos
arranjados.
Podemos considerar essas mulheres as primeiras anoréxicas descritas
na literatura, ainda que as santas e beatas da Idade Média não fossem
motivadas por ideais de magreza, mas sim uma comunhão com Deus ou
uma oposição aos casamentos impostos.
Podemos encontrar na história e evolução das condutas alimentares a
compreensão para o aparecimento, por exemplo, de Transtornos
Alimentares como parte do processo da alimentação influenciada por
fatores como religião, cultura, status, moda, saúde, entre outros.
As transformações, portanto, não são apenas em relação ao que se
come, mas também ao como se come, ou seja, devemos estar atentos
não só ao alimento propriamente dito, mas também ao comportamento
alimentar. Através dessa reflexão, é possível compreender, por exemplo,
patologias do comportamento alimentar, como a Anorexia e a Bulimia.
Atualmente, os Transtornos Alimentares são mais conhecidos através de
diversos casos veiculados na mídia, tais como jovens modelos que
morrem em decorrência de Anorexia ou personagem de novela que
sofre de Bulimia. São desvios do comportamento alimentar que podem
levar ao emagrecimento extremo ou à obesidade. Vários estudos
indicam um aumento na incidência de Anorexia e a Bulimia em razão do
padrão de beleza associado a um corpo cada vez mais magro em
conexão com fatores socioculturais. Alguns especialistas acreditam que
os Transtornos Alimentares são síndromes ligadas à cultura, ou seja,
apresentam um quadro de sinais e sintomas causados pela pressão
cultural em associação a fatores biológicos, psicológicos e familiares,
gerando uma excessiva preocupação com o corpo, um medo anormal de
engordar e uma ansiedade marcantemente acompanhada de alterações
físicas e distorção da imagem.
A Anorexia Nervosa é a doença psiquiátrica com maior taxa de
mortalidade, ocorrendo a morte por inanição ou suicídio. Trata-se de um
transtorno emocional que consiste numa significativa perda de peso
associado a um intenso temor à obesidade e à distorção da imagem
corporal, acometendo significativamente mais mulheres entre 14 e 18
anos. Os sintomas mais freqüentes são: medo intenso de ganhar peso,
mantendo-o abaixo do valor mínimo normal; pouca ingestão de
alimentos ou dietas severas; distorção significativa na percepção da
forma e/ou tamanho do corpo (sensação de estar gorda quando se está
magra); grande perda de peso em um curto período de tempo;
sentimento de culpa ou depreciação por ter comido; hiperatividade e
exercício físico excessivo; perda da menstruação; excessiva
sensibilidade ao frio, mudanças no estado de humor (depressão,
irritabilidade, ansiedade) e progressivo isolamento de familiares e
amigos. De acordo com o tipo de comportamento alimentar, a Anorexia
pode ser restritiva ou purgativa. No tipo restritivo, os indivíduos obtêm a
perda de peso através de dietas, jejuns e/ou exercícios excessivos, por
vezes limita a ingestão de somente alguns alimentos e excluem aquilo
que percebem como sendo altamente calóricos. O tipo purgativo utiliza
métodos adicionais como a auto-indução de vômito e/ou uso indevido de
laxantes ou diuréticos.
As principais complicações são: desnutrição e desidratação, anemia,
redução da massa muscular, diminuição da motilidade gástrica,
osteoporose e diminuição da pressão arterial.
A Bulimia Nervosa acomete preferentemente a mulheres jovens e se
caracteriza por episódios repetidos de ingestão excessiva de alimentos
num curto espaço de tempo e às escondidas, seguido por um
sentimento de perda de controle que leva a pessoa a adotar condutas
inadequadas e perigosas para sua saúde, tais como: vômitos
provocados, uso de laxantes, diuréticos, inibidores de apetite, enemas,
realização de exercício excessivo e jejuns. Além desses sintomas,
verificamos também a distorção da imagem corporal; manutenção do
peso pode ser normal ou mesmo elevado; erosão do esmalte dentário,
podendo levar à perda dos dentes; mudanças no estado emocional
(depressão, tristeza, sentimentos de culpa e ódio para si mesma).
As principais conseqüências da Bulimia são: desidratação; grande perda
de massa muscular, além de dores e cãimbras; cáries dentárias;
inflamação da garganta e do tecido que reveste o esôfago pelos efeitos
do vômito; inchaço na face e nas articulações; sangramento intestinal;
desequilíbrios metabólicos e hormonais; infertilidade; perda de função
renal e problemas gástricos, entre outras.
Vale ressaltar que a Bulimia pode emagrecer no início, mas depois a
tendência é engordar, pois o metabolismo, responsável pela queima de
calorias, torna-se cada vez mais lento e fica difícil a perda de peso. Além
disso, vomitar não elimina completamente as calorias ingeridas, pois o
corpo do bulímico parece aprender que a comida não vai ficar muito
tempo no estômago e cria mecanismos de absorção rápida, enviando os
alimentos direto para o intestino.
Pacientes com Bulimia podem ter muita semelhança com os que têm
Anorexia, mas a significativa diferença é a capacidade de controlar seus
impulsos, pois enquanto a anoréxica se orgulha do seu auto-controle,
pacientes com Bulimia administram a vergonha e o descontrole
alimentar através de atos compensatórios.
Para o tratamento dos Transtornos Alimentares é fundamental a
intervenção de equipe interdisciplinar agindo nos aspectos biológicos,
psicológicos e nutricionais. Familiares também devem fazer parte da
ação terapêutica, pois muitas vezes há diversos conflitos nesse
ambiente que contribuíram para a ocorrência do transtorno.
Além da família, amigos, professores e outros profissionais devem ficar
atentos aos sinais da presença de anorexia ou bulimia, pois é
fundamental a imediata ajuda para que o quadro não se agrave e não
faça mais uma vítima.