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FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO

ESTUDO DE REQUISITOS ORGANIZACIONAIS E TÉCNICOS DE REDES DE ARQUIVOS USANDO UMA ABORDAGEM DE REDES DE ACTORES SOCIAIS

-Aplicação ao Sector do Vinho do Porto-

Francisco Vicente Teixeira Barbedo

Licenciado em História –variante Arte e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de mestre em Gestão de Informação

Tese realizada sob a supervisão do Professor António Lucas Soares, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Porto, Janeiro de 2003

RESUMO

O presente trabalho propõe como objectivos testar a aplicabilidade de uma abordagem baseada em redes de actores sociais à análise organizacional considerada sob a perspectiva de desenvolvimento ou melhoria de sistemas de informação e sistemas de arquivo. As redes de actores sociais são intensamente utilizadas como metodologia de exploração de disciplinas sociais como sociologia, antropologia ou psicologia social. O seu emprego em planeamento de sistemas de informação e utilização expedita em análise organizacional não tem porém sido muito popularizado. Esta realidade parece no entanto estar a modificar-se. Para a concretização deste propósito assume-se como base de aplicação e exploração da abordagem como universo de estudo o sistema de informação e o sistema de arquivo, considerados como duas entidades conexas, com objectivos diferenciados so bre um objecto comum –a informação–, em que se explora alguns aspectos de análise organizacional nomeadamente a SSM, Redes de Actores Sociais e modelação de processos inter-organizacionais Um segundo propósito consiste na identificação dos requisitos técnicos e organizacionais necessários para constituir uma rede interorganizacional que suporte processos, gestão de informação e de documentos de arquivo. Esta rede de arquivos, que também se poderia designar por rede de documentos ou rede de informação fixada, tem com propósito a realização de actividades e processos entre organizações de forma a aumentar a sua eficiência, eficácia e efectividade mantendo simultaneamente as capacidades de evidenciais inerentes a toda a transacção organizacional.

ABSTRACT

The present work holds the following goals: To test the accuracy and aplicability of an approach based on social actors networks considered under the perspective of information and recordkeeping systems development and/or improvement. Social Network Analysis has been intensively applied in scientific areas such as sociology, anthropology or social psicology. It’s use on the field of information systems planning and operative organizational assessement, however, has not been fully adopted. This trend seems to be changing lately. In order to achieve the stated purpose it is considered as the basis to an approach development, the universe of information and recordkeeping systems, regarded as two connected entities pursuing different ends and sharing a common object –information– in which some aspects of organizational assessement like SSM, SAN and modeling are applied. On a second view this thesis aims to achieve the identification and understanding of organizational and technical requirements that may be needed in order to build networks between organizations able to support information and archival processes comprehended in interorganizational processes. This kind of network, that could as well be called a record or fixed information network, aims to improve the outcoming of activities and processes between organizations on a way that increases efficiency and at the same time, preserves the evidential needs that every organizational activity and transactions must take account on.

AGRADECIMENTOS

A elaboração de qualquer trabalho de investigação implica sempre a colaboração e ajuda directa ou indirecta de um conjunto muitíssimo alargado de actores. No presente caso será quase apropriado falar de uma “rede pessoal de suporte” compreendendo coesão, conectividade, densidade e centralidade suficientes e combinadas nas doses exactas e quase ideais (porque o ideal

é infinito e logo inatingível). Assim sendo a sua individualização torna-se irrelevante dado que o contributo de cada actor (mesmo que ele disso não tivesse consciência) por menor que tenha sido foi sem dúvida decisivo. Mas porque a centralidade é um facto, alguns pontos na rede existem cujo respectivo índice deve ser marginalmente valorado. Gostaria assim de agradecer ao actor IVP pela disponibilidade manifestada (Ana, Sérgio) ao actor ADP pela experiência transmitida, ao ALS (Sim, sim,

por trazer a ordem à desordem e à Maria João

é o António Lucas Soares

Pires de Lima (actor MJPL!) pela sempre mais que benevolente e esclarecida centralidade. E, cla ro, à minha rede egocêntrica de actores sociais

)

SUMÁRIO

CAP. 1

INTRODUÇÃO

13

CAP 2. REDES SOCIAIS e REDES de ACTORES SOCIAIS

18

2.1 Definição e contexto de emergência

18

2.2 Caracterização teórica

21

2.2.1 Redes Sociais v. Redes de Actores Sociais

23

2.2.2 Perspectivas de Análise em RAS

26

2.3

Questões metodológicas

34

2.3.1

Reduzida investigação teórica

34

2.3.2

Problemas de amostragem de rede e generalização

34

2.3.3

Excessiva incidência na análise de dados e reduzida atenção à recolha de

dados

37

2.3.4

Desfasamento entre forma e conteúdo da rede

37

2.4

Análise de redes sociais

38

2.4.1

A recolha de dados

38

2.4.1.1

Príncípios e métodos de recolha de dados

39

2.4.1.1.1 Princípios de recolha de dados

42

2.4.1.1.2 Métodos de recolha de dados

43

2.4.2

Métodos de Análise de Redes Sociais

47

2.4.2.1 Níveis de análise

47

2.4.2.2 Ferramentas de análise

47

2.4.2.3. Parâmetros de Avaliação

52

2.4.2.4

Medidas específicas de análise

60

2.5

Análise organizacional e Redes de Actores Sociais

74

CAP. 3 ORGANIZAÇÕES e SISTEMAS

86

3.1 Teoria de sistemas

86

3.2 Visões da organização

91

3.2.1

Tipologias de organizações

95

3.2.1.1

Organizações clássicas

96

3.2.1.1.1 Metáforas de organizações

97

3.2.1.1.2 Modelos de organizações

99

3.2.1.1.3 Outras perspectivas da organização

104

3.2.1.2

Organizações virtuais

106

3.3 Análise organizacional: princípios e métodos

110

3.4 Sistemas de informação

124

3.5 Sistemas de Arquivo

132

3.6 Processos

139

3.7 Documentos

143

CAP 4 ESTUDO de CASO: O SECTOR do VINHO do PORTO

158

4.1 Contexto legal, social e organizacional

159

4.2 Metodologia utilizada

169

4.2.1 Métodos de recolha de dados

170

4.2.2 Nivel de agregação e envolvimento de actores

171

4.2.3 Exploração da recolha de dados

172

4.3. Descrição de actores

174

4.3.1 Critérios de inclusão de actores

174

4.3.2 Descrição de actores

175

4.4

Análise de estrutura social (RAS)

187

4.4.1 Introdução

187

4.4.2 Análise da rede

193

 

4.4.2.1

Análise global

193

4.4.2.3

Identificação de subgrupos: nCliques

205

4.4.3

Conclusões e Propostas

207

4.5

Processos inter- organizacionais

210

4.5.1

Relação estrutura social/processos/rede

235

4.6 Documentos

237

4.7 Arquivos na rede

244

4.7.1 Rede como infra- estrutura de informação

244

4.7.2 Requisitos tecnológicos

248

4.7.3 Identificação de actores

254

4.7.4 Meta- informação

258

4.7.4.1 Modelo SPIRT/RKMS

258

4.7.4.2 Esquemas para aplicação de valores

263

4.7.4.3 Exemplificação de modelo

268

 

CAP. 5

CONCLUSÕES E TRABALHO FUTURO

272

5.1 Conclusões

272

5.2 Avaliação do trabalho realizado e possibilidades de trabalho futuro

274

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

279

SUMÁRIO de FIGURAS e TABELAS

Cap. 2 Figura 2.1 - Exemplos de díades e tríades Figura 2.2 - Rede tipo borboleta (O actor 4 é transconector) Figura 2.3 - Exemplo de ponte Figura 2.4 - Exemplo de grafo Figura 2.5 - Contexto de metodologia RAS Tabela 2.1 – Perspectivas de análise (segundo R. Burt) Tabela 2.2 Analogias de relações (adaptado de Lemieux. Les Reséaux d’Acteurs Sociaux) Tabela 2.3 - Um exemplo de matriz de adjacência Tabela 2.4 - Síntese de medidas de análise RAS Tabela 2.5 (adaptado de TICHY, Ob.Cit, p. 236)

Cap. 3 Figura 3.1 - SSM (segundo Galliers) Figura 3.2 - Sistema de Arquivo Figura 3.3 - Diagrama de processo Figura 3.4 - Informação, documentos e documentos de arquivo Figura 3.5 - Encapsulação de MI (VERS) Figura 3.6 - Relacionação de MI Tabela 3.1 Relação tecnologia/estrutura/dimensão Tabela 3.2 Síntese de modelos UML

Cap.4

Figura 4.1 - Diagrama de classes do universo analisado Figura 4.2 - Rede de Actores Sociais Figura 4.3 - Grafo de adjacência Figura 4.4 - Grafo caminhos geodésicos Figura 4.5 - Grafo conectividade/fluxo Figura 46 - Grafo grau de centralidade Figura 4.7 - Grafo grau de centralidade: modo sectores Figura 4.8 – Grafo Proximidade Figura 4.9 – Grafo Intermediação Figura 4.10 – Grafo Cliques Figura 4.11 - Grafo nCliques e actores Figura 4.12 - Diagrama de objectivos Figura 4.13 - Diagrama de objectivos 2 Figura 4.14 - Extracto rede actores sociais Figura 4.15 - Diagrama de processo Figura 4.16 – Diagrama de actividades Figura 4.17 - Extracto de diagrama RAS Figura 4.18 - Diagrama de processo Figura 4.19 - Diagrama de actividades Figura 4.20 - Actividades: possível melhoria Figura 4.21 - Extracto de diagrama RAS Figura 4.22 - Diagrama de processo Figura 4.23 – Diagrama de actividades

Figura 4.24 - Extracto de diagrama RAS Figura 4.25 - Diagrama de processo Figura 4.26 – Diagrama de actividades Figura 4.27 – Diagrama de actividades: possível melhoria Figura 4.28 - Diagrama de classes de rede Figura 4.29 – Diagrama de classes Tabela 4.1 – Caracterização do sector de Vinho do Porto Tabela 4.2 - Quadro síntese de actores participantes na rede Tabela 4.3 - Matriz de graus de entrada e saída Tabela 4.4 - Matriz de distâncias geodésicas Tabela 4.5 – Matriz caminhos alternativos Tabela 4.6 – Influência RAS, processos e rede

LISTA DE ABREVIATURAS

ADP – Arquivo Distrital do Porto AGLS – Australian Governement Locator System

CAA – Circuito Administrativo de Amostras CIRDD - Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro DIRKS - Designing and Implementing RecordKeeping Systems EVP – Empresa de Vinho do Porto IAN/TT – Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo II – Instituto de Informática IVP – Instituto do Vinho do Porto IVV – Instituto do Vinho e da Vinha

MI – Meta-Informação

MOREQ – Modeling Functional Requirements NAA – National Archives of Australia OA – Organizational Assessement PRO – Public Record Office RAS – Redes de Actores Socia is RDF – Resource Description Framework

RIA – Rede Interorganizacional de Arquivos RKMS – Record Keeping Metadata Scheme SBDR – Sistema de Bases de Dados Relacional

SA – Sistema de Arquivo

SI – Sistema de Informação SPIRT - Strategic Partnership with Industry - Research and Training

UE – União Europeia

UML – Uniform Modeling Language VERS – Victorian Electronic Records Strategy

CAP. 1

INTRODUÇÃO

Quantas vezes ouvimos falar de redes? Referimo-nos de forma quase generalizada e muitas vezes irreflectida a estas entidades: Redes de comunicação, de informação, de circulação, redes de estradas, portagens, etc. Mas certamente que sob uma aparente simplicidade existe uma

elaborada teia de planeamento, estudo e execução que torna esta entidade num objecto particularmente complexo. No entanto não subsistem dúvidas de que a rede constitui, hoje em dia, uma estrutura básica que abrange uma vasta gama de actividades, técnica

e socialmente solidamente imbricadas no que se convencionou chamar de

Sociedade de Informação. A própria conectividade permitida pelas Tecnologias de Informação e Comunicação que torna a distância física

irrelevante, é um exemplo paradigmático da inevitabilidade de rede. Outros exemplos abundam: As organizações virtuais, o comércio electrónico o conceito de “network centric warfare” - as redes chegaram à guerra!- demonstra claramente que o conceito é um facto estabelecido e mais que isso, essencial para o desempenho normal da maior parte das facetas da vida quotidiana das pessoas e organizações. No entanto será aplicável, e mesmo que aplicável será útil, para todos os tipos de actividade económica, social humana a utilização de redes? E de entre a considerável panóplia de metodologias disponíveis para análise, desenho e implementação de redes haverá eventualmente alguma nova ou pelo menos alguma significativa contribuição insuficientemente explorada?

A presente tese pretende ensaiar uma tentativa de aplicação de abordagem

baseada em redes de actores sociais para efectuar análise interorganizacional sob o ponto de vista de estruturas e agentes sociais e com o objectivo de definir, desenhar e implementar uma rede de informação de arquivo. A razão da opção por esta área prende-se por um lado com o teor do curso de mestrado em que a apresentação desta tese se insere –gestão de informação– e em cujo contexto a escolha de sistemas de informação como foco de aplicação parecia à partida evidente! Mas porquê arquivos? Os arquivos, na realidade sistemas de informação com

peculiaridades próprias, constituem um aspecto habitualmente desprezado por todos os profissionais de informação (e de qualquer outro sector se quisermos ser precisos!) à excepção dos próprios arquivistas! Mas na realidade o documento de arquivo e o sistema que o gere são fundamentais para a concretização de forma legal e socialmente válida dos objectivos de qualquer organização, na medida em que garantem a adequação do seu comportamento funcional ao ambiente externo em que esta opera, considerado sob a vertente da salvaguarda de interesses e posições dessa organização relativamente a outros actores com os quais interactua. Paralelamente o sistema de arquivo não é dissociável lógica e conceptualmente do sistema de informação. Ambos têm como objecto esta entidade embora a abordem com perspectivas e objectivos diferentes. Partindo destes pressupostos pareceu-nos interessante equacionar os requisitos necessários para colocação de arquivos em rede, ou se quisermos dar a volta ao texto, tornar visíveis documentos, considerados no sentido arquivístico do termo, num ambiente de rede ordinariamente absorvido com outras preocupações operacionais e administrativas que não os arquivos! A metodologia de redes sociais é utilizada para investigação substantiva em diversas áreas científicas, como a antropologia, sociologia, psicologia social. Tem também sido alvo de aplicação mais pragmática de carácter eminentemente operacional. Neste último esta metodologia é essencialmente utilizada como uma ferramenta para reestruturação de organizações, embora normalmente dirigida tanto para gestão de recursos humanos, mas também para redes de organizações [122]. Devemos portanto frisar que de toda a bibliografia consultada a maior parte era devotada a definições da organização e de processos de trabalho. A aplicabilidade a sistemas de informação aparece em alguns autores mas de uma forma muito diluída em enquadramentos de posicionamento organizacional. Um elemento que nos dá informação curiosa sobre esta ausência de contacto entre as áreas de investigação é o facto de os autores de ciência organizacional ou de sistemas de informação não citarem autores perfeitamente associados com análise de redes sociais, sendo o contrário igualmente verdade. O silêncio é quase total! Mas no entanto esta parece ser uma área especialmente promissora para uma abordagem baseada em redes sociais. Com efeito um sistema de informação baseia-se na

comunicação de informação através de uma estrutura ou infraestrutura de informação que assenta simultaneamente nas vertentes social e tecnológica. Neste contexto e porque a análise de redes de actores sociais incide a sua análise sobre uma estrutura social de rede em que são especialmente valorizados os atributos e dinâmicas comportamentais das relações estabelecidas entre actores, esta metodologia sugeria fortes possibilidades de aplicação a cenários de análise organizacional para desenvolvimento de sistemas de informação. Na sequência do exposto e sintetizando os desideratos desta tese diremos que o presente trabalho tem como objectivos:

1/ a aplicabilidade da abordagem de Redes de Actores Sociais na análise e concepção de uma rede de arquivos, envolvendo naturalmente sistemas de arquivos e sistemas de informação. 2/ a aplicabilidade de métodos de modelação do negócio da engenharia informática à análise de processos interorganizacionais na área de arquivos. 3/Como corolário deste processo propõe-se um modelo conceptual de rede de arquivos que englobe requisitos de natureza tecnológica – apropriados às características específicas do universo em estudo – e requisitos de meta- informação aplicada tendo em consideração as vistas de identificação, integridade e autenticidade de documentos produzidos numa perspectiva de realização de transacções interorganizacionais jurídica e socialmente válidas. Para a realização deste trabalho partiu-se dos seguintes pressupostos:

A tecnologia interactua com a estrutura social sobre a qual é aplicada Os sistemas de arquivo gerem documentos que são um objecto informacional com atributos e comportamentos específicos. Um processo organizacional gere e manipula objectos documentais de arquivo os quais se inserem necessariamente no contexto funcional e operativo do primeiro. O contexto de análise exclui documentos históricos focando -se apenas nas transacções deco rridas em processos interorganizacionais e nos documentos activos e com utilidade operacional aí produzidos. Este trabalho não partiu de hipóteses de trabalho particulares ou pré- concebidas, procurando-se através de uma recolha de dados orientada segundo métodos escolhidos, avaliar e tentar esclarecer se uma

metodologia muito específica e cientificamente complexa –RAS- é, no todo ou em parte, adequada ou a sua aplicação vantajosa para gestão de informação e sistemas de informação e em que medida contribui para a “montagem” de uma rede. Procurou-se igualmente definir em que medida e em que áreas pode esta metodologia revelar-se de especial interesse. Acrescentamos que a aplicabilidade deste processo foi inevitavelmente condicionada pela rede de teste montada. Mas mesmo no caso em que determinados resultados escaparam à lógica de análise ficamos pelo menos com a informação do potencial resultado se a rede escolhida fosse de outra natureza. Este trabalho foi estruturado nos capítulos indicados no sumário seguindo- se uma breve síntese do conteúdo de cada um deles.

No capítulo dois procura-se dar uma panorâmica geral e estado da arte sobre redes sociais e redes de actores sociais, diferenciando, se bem que superficialmente (visto que os elementos comuns são em maior número que os divergentes) os dois conceitos e respectivos métodos. Serão apresentadas algumas das principais medidas utilizadas na análise social baseada em redes e finalmente falar-se-á da potencial relação entre a abordagem escolhida e a sua aplicabilidade em contextos organizacionais.

No capítulo três aborda-se a questão da organização. Procura-se explicitar alguns conceitos logo a seguir amplamente utilizados, como o de sistema e ainda de teoria organizacional, organizações virtuais, organizações em rede e processos inter-organizacionais. O objectivo é de preparar teoricamente o cenário para a exploração do capítulo seguinte no qual que se desenvolve o estudo de caso. Apresenta-se uma breve síntese sobre metodologias utilizadas em análise organiz acional, procurando referir diversos princípios e métodos de abordagem. Fala-se ainda de sistemas de informação e sistemas de arquivos apontando algumas abordagens relativamente a estas entidades. Aborda-se finalmente as características e especificidades do objecto documental e redes de arquivos como suporte a redes transaccionais de negócio e suporte de processos.

No capítulo quatro é apresentado o estudo de caso compartimentado nas três vistas sistémicas que julgamos pertinente incluir: a representação da rede como uma estrutura social e interorganizacional em que são incluídos actores e relações verificadas entre esses actores e realizadas medidas que se julgaram mais adequadas à caracterização efectiva da estrutura social observadas e das possíveis influências verificáveis nas vistas adjacentes; os processos que decorrem como substância dessas mesmas relações, ou seja, a camada operativa da rede (aquela onde se passam acções) são igualmente analisados e finalmente os documentos produzidos em cada processo e que irão preencher a rede de arquivos propriamente dita. Ainda nesta parte procede-se à aplicação parcial do modelo RKMS/SPIRT de meta-informação incidente sobre classes (entidades) presentes na rede. Partimos do princípio se enquadra em sectores transaccionais de negócio, i.e., que os seus actores transaccionam através desta estrutura e que os documentos, na sua condição de bem e subproduto de processos aí desenrolados, devem ser geridos em rede.

No capítulo cinco são apresentadas conclusões e possibilidades de trabalho futuro.

A última parte é constituída por quatro anexos onde são apresentadas respectivamente no anexo A as tabelas e grafos efectuados para a análise de redes de actores sociais, no anexo B a descrição e modelos dos processos realizada em UML com extensões Eriksson-Penker, diagramas de actividade e de conexão actores/papéis, no anexo C a descrição sucinta dos documentos produzidos no âmbito dos processos identificados e finalmente no anexo D a explicitação dos diversos elementos do modelo SPIRT/RKMS utilizado.

CAP 2. REDES SOCIAIS e REDES de ACTORES SOCIAIS

2.1 Definição e contexto de emergência

A metodologia de análise de redes sociais e particularmente de redes de

actores sociais (daqui em diante denominada de RAS), disseminou-se de

forma significativa durante a década de 70, associada ao desenvolvimento

de

informática que possibilitou a exploração das possibilidades matemáticas

de

análise.

A utilização desta metodologia exige uma base de aplicação normalizada e

exactamente estruturada de forma a sustentar a aplicabilidade de recursos quantitativos. Essa estrutura foi encontrada na matemática discreta e mais particularmente na tautologia de rede, conceito directamente inspirado na teoria de grafos. Um grafo é por definição uma rede sendo a teoria de grafos o estudo do aspecto conectivo dessa rede. Ou seja, a única ilação a retirar de um grafo é estrutural [59]. Os antecedentes da análise de redes sociais enraízam num conjunto de disciplinas que surgem e se disseminam amplamente a partir da década de

40.

A

sociometria inicialmente aplicada por Moreno, [43] introduziu os

conceitos de actores e relações assim como o emprego de métodos quantitativos para análise de estruturas sociais.

Os trabalhos de Radcliff-Brown e de Lévi-Strauss na área de antropologia e

que entroncam na corrente estruturalista, constituem igualmente uma base epistemológica e heurística para o desenvolvimento do conceito de estrutura social. Sob o ponto de vista metodológico, o estruturalismo analisa grandes sistemas sociais através da observação das relações e funções dos elementos atómicos constitutivos desse sistema. Pretende portanto identificar as infraestruturas “inconscientes”, ou seja, não conscientemente percepcionadas, de fenómenos culturais/organizacionais à luz de uma aproximação relacional. As relações que se estabelecem entre agentes são o objecto de estudo e não os actores individualmente

considerados, ou sequer a entidade social na sua totalidade. Complementarmente adopta-se uma abordagem sistémica da realidade propondo leis gerais explicativas de padrões comportamentais subjacentes à própria estrutura social. 1 As redes sociais radicam igualmente na psicologia social, através de autores como, por exemplo, Bavelas que em 1948 introduziu a noção de que a ordenação estrutural dos laços que ligam os membros de um grupo orientado para a realização de tarefas pode ter consequências significativas na sua produtividade e consciência laboral. Este autor propôs, segundo Freeman, [43] ser a centralidade o atributo estrutural dominante para a realização deste tipo de análise, tendo especificado formalmente este parâmetro. Estas acções precursoras de investigação baseadas em análise estrutural, entram num período de latência que se prolonga até à década de 70. A razão para este facto reside na ausência de ferramentas de cálculo suficientemente poderosas que permitissem a exploração de modelos qualitativamente significativos. Os cálculos associados à análise estatística sociométrica são substancialmente exigentes de capacidades de computação, à época (décadas de 40-50) inexistentes. A aplicabilidade deste método de análise estava, portanto, à partida limitada por falta de ferramentas capazes de o potenciar. Sem esses recursos a extensão dos casos observados era reduzida e portanto insusceptível de deduzir conclusões genéricas ou produzir teoria formal [49]. A partir da década de 70 no entanto, várias circunstâncias se combinaram para produzir o contexto propício ao recrudescimento da metodologia, a qual se traduziu nomeadamente no aparecimento de diversas revistas especializadas e associações profissionais. 2 Em primeiro lugar o desenvolvimento sistemático de informática e indústria de computadores pôs à disposição dos investigadores poderosas ferramentas que viabilizavam análise rápida e conclusiva sobre estruturas sociais de grande dimensão bem como a computação de algoritmos complexos [107] 3 .

1 Lévi-Strauss afirmava que para um observador capturar na sua totalidade um minuto da vida de um actor numa sociedade primitiva, necessitaria de toda uma vida de trabalho. (entrevista dada à TF1 em 1972) 2 As revistas Connections, Social Networks e a fundação do INSNA (International Network for Social Network Analysis)

3 os algoritmos NEGOPY ou o CONCOR, ambos muito exigentes computacionalmente, datam desta época

Em segundo lugar o desenvolvimento da área de matemática discreta com particular ênfase na teoria de grafos e matemática algébrica com recurso a matrizes, proporcionou os recursos para construção de modelos estruturais alargados e genéricos. A análise de redes sociais é realizada fundamentalmente a partir de duas representações matemáticas: o grafo, ou a representação gráfica de actores e relações existentes entre eles, e a matriz ou representação canónica dessa estrutura gráfica. Estes dois processos de representação estão intrinsecamente relacionados coexistindo por norma nos estudos baseados em redes sociais [21], [42],[59]. Diversas perspectivas teóricas em áreas tão variadas como teoria organizacional, teoria cognitiva, teoria de acção, são susceptíveis de ser condensadas através de análise baseada em estruturas de rede. Isto é explicável pelo facto desta constituir um modelo estruturado que representa de forma simplificada mas significativa, visto conter intrinsecamente todos os atributos que caracterizam os actores incluídos e as relações que os unem, uma determinada realidade social. Uma rede social pode pois, nessa óptica, ser considerada como um modelo particularmente vocacionado para sobre ela serem testados diversos tipos de análise de acordo com os mais diversos paradigmas teóricos e epistemológicos. A aplicabilidade de análise de redes sociais alarga-se a áreas variadas das ciências sociais, como a epidemiologia, análise organizacional e interorganizacional, sociologia, administração de empresas, implementação de infra-estruturas informáticas ou ainda organização militar nomeadamente na aplicabilidade do paradigma de 4CISR (Command, Control, Communications, Computers & data, Intelligence, Surveillance, Reconnaissance) [35]. Este exemplo tem particular importância porque constitui um caso exemplar de aplicação de RAS a sistemas de informação, sendo que actualmente, um cenário de intervenção militar - mesmo que sem fins bélicos- se articula numa arquitectura de rede (network centric warfare), sendo a informação recolhida, processada e distribuída pelos actores que nela participam de forma interactiva. A metodologia RAS neste contexto tem capital importância para caracterizar a rede e determinar caminhos óptimos de circulação de informação.

2.2 Caracterização teórica

Lemieux [82] considera uma rede de actores sociais como um sistema baseando -se para o efeito na definição avançada por Le Moigne para quem um sistema é uma entidade que existe em algo (contexto ambiental) para realizar qualquer coisa (objectivo), que concretiza algo (actividade, função) através de algo (estrutura, forma estável) que se transforma no tempo (evolução). Esta definição é-nos útil no presente contexto já que se adequa admiravelmente bem à descrição e adaptação a realidades organizacionais e inter-organizacionais. Com efeito, se concretizarmos o modelo proposto podemos substituir cada uma das constantes enunciadas por entidades concretas observadas no terreno. O contexto ambiental será o sector de negócio específico com o seu quadro regulamentar, técnico, jurídico e normativo cujos objectivos são respectivamente a produção, comercialização e preservação de um produto. Esses objectivos são conseguidos através de uma rede interorganizacional que mantém entre si processos de negócio documentados (actividade função) ao longo do tempo. Uma estrutura segundo, por exemplo, Eisenberg é a ordenação de elementos de um sistema e do conjunto de relações que conectam esses mesmos elementos e os mantêm unidos. A tradição estruturalista defende que indivíduos ocupam posições designadas no sistema e os papéis que estão associados a essas mesmas posições restringem o comportamento desses mesmos indivíduos (unidades individuais de observação). A palavra sistema aparece neste contexto indiferentemente citada e referindo-se a uma entidade integrada e coerente. Um sistema total é representado por todos os componentes e relações necessárias para a concretização de um objectivo, atendendo a um conjunto de restrições identificadas. O objectivo do sistema define a finalidade para a qual foram ordenados os componentes e relações (em RAS designadas por actores e conexões) enquanto que as restrições constituem as limitações introduzidas no seu desempenho que definem os seus limites e permitem explicar as condições de funcionamento. Este conceito parece-nos directamente associável à concepção de uma rede como estrutura de oportunidades e constrangimentos [34] que se oferecem aos actores participantes.

Os sistemas são normalmente representados através de modelos. Uma

rede, por exemplo, é um modelo de um sistema social. Uma organização por seu turno, é um sistema e uma rede de actores sociais modela essa

organização representando o sistema social composto pelos actores e relações entre eles estabelecidas com objectivos individuais e comuns de viabilizados pela troca/apropriação de recursos aí existentes.

A análise baseada em redes sociais baseia-se primariamente no

pressuposto de que uma estrutura social não se organiza aleatoriamente mas sim de forma padronizada (BROWN citado por FREEMAN)[42][43]. O comportamento social dos actores, qualquer que seja o nível de agregação considerado (individual ou colectivo), manifesta-se através de padrões – latentes ou evidentes – concretizados através de conexões estabelecidas com os restantes actores que compõem essa rede. Estabelece-se portanto um modelo de rede para representar a estrutura social que se pretende retratar, de forma a permitir a aplicação de métodos de matemática estatística que permitam a emergência e caracterização desses padrões sociais comportamentais e relacionais latentes os quais resistem a análises sociológicas convencionais.

Esta estrutura social na qual o actor se insere constitui, na medida em que uma rede permite a comunicação de recursos e a efectivação de acções 4 , uma fonte de oportunidades que se oferece ao actor para este conseguir os interesses próprios por si percepcionados. Mas por outro lado, representa também conjuntos de restrições na medida em que o alcançe de metas ou interesses, quer individuais ou colectivos, podem ser condicionados ou mesmo impedidos pelos interesses próprios dos outros actores existentes na rede. A análise de redes sociais pretende deste modo identificar estruturas profundas [107] i.e., padrões regulares que se inscrevem, ou decorrem debaixo da superfície complexa dos sistemas sociais através de aplicação

de matemática estatística cujos resultados são directamente interpretados

à luz da teoria social. Esta metodologia comporta ainda duas assumpções importantes relativamente a comportamento social. [42], [73].

4 Neste contexto a acção é entendida como um comportamento revestido de intencionalidade e competência. (PACHERIE, E., Action Concepts.)

a/ Todo o actor participa num sistema social que envolve outros actores os

quais constituem referenciais fundamentais para as suas decisões e acções empreendidas. Este pressuposto é exemplificado pelo facto do próprio comportamento social não ser isolado mas colectivo, ou pelo menos conter implicações colectivas, na medida em que os actos de um indivíduo afectam

e podem mesmo colidir com os interesses ou comportamentos dos

restantes actores. Este facto é particularmente claro através de observação de mecanismos desenvolvidos para regular a vida em sociedade como os quadros legis lativo, regulamentar e normativo. Da mesma forma o comportamento do indivíduo isolado será influenciado pela percepção dos seus interesses e pelas relações que estabelece com outros actores. Por outras palavras, a acção de um actor deve ser considerada à luz de variáveis recolhidas da sua conectividade na estrutura social e da percepção dos seus próprios interesses enquanto indivíduo.

b/ Existem vários níveis de estruturas num sistema social, considerando -se

como definição de estrutura, neste contexto, as regularidades nos padrões relacionais entre entidades concretas, i.e., unidades individuais de observação. Significa isto que a organização de relações sociais constitui um conceito nuclear da análise de redes na medida em que esta se interessa fundamentalmente pelas propriedades estruturais em que os actores sociais se integram e pela detecção dos fenómenos sociais os quais não existem exclusivamente ao nível do actor individual. Isto significa que a análise de redes sociais incide antes de mais, sobre o conjunto de relações mantidas pelos actores e não sobre os seus atributos individuais.

2.2.1 Redes Sociais v. Redes de Actores Sociais

Sintetizando o exposto diremos que a análise de redes sociais procura localizar e caracterizar propriedades emergentes nascidas da articulação de unidades individuais de observação com as conexões efectuadas ou existentes entre elas.

As redes de actores sociais, constituem uma variação ou se quisermos, um ramal daquela metodologia. A diferença de substância encontra-se na atenção atribuída aos atributos dos actores que constituem os nós da rede [80]. A par da caracterização das conexões que unem os pontos da rede, é considerada e realizada a descrição dos atributos dos próprios actores ou vértices que circunscrevem uma relação. Sobre este aspecto as redes sociais não prestam especial atenção. Os actores são considerados apenas na medida do seu capital conectivo com os restantes, o qual é avaliado, medido e descrito de forma quantitativamente exacta. Considera-se assim não existir vantagem em concluir teoria social a partir dos atributos individuais dos actores. Esta posição constituiu uma ruptura com anteriores escolas epistemológicas que consideravam estas características tais como sexo, idade, etc., elementos por si só explicativos de comportamentos sociais. Na análise RAS (Redes Actores Sociais), embora se mantenha como ponto nuclear as relações sociais estabelecidas, é igualmente atribuída atenção aos atributos específicos de cada actor os quais são analisados associadamente com a caracterização do seu capital conectivo. Há portanto uma análise matricial (vertical e transversal) dos elementos da rede. Os aspectos diferenciadores entre uma abordagem exclusivamente centrada em redes sociais e outra baseada em redes de actores sociais (RAS) podem assim ser sintetizados nos seguintes pontos:

1/ O interesse das redes sociais reside, como atrás dito, na estrutura social representada na rede. A RAS interessa-se igualmente por essa entidade mas considerando que esta deriva das acções observadas dos actores que participam nessa rede, ou seja, os actores sociais. Estes têm características próprias, que devem ser consideradas e incluídas na análise a empreender.

[3].

2/ Simultaneamente a relação efectuada entre unidades individuais de observação (actores), possui propriedades que não são apenas específicas dos actores participantes, - entre os quais se estabelece a relação -, nem tão pouco constituem o simples somatório dessas mesmas propriedades. São essencialmente atributos emergentes da relacionação dessas unidades individuais de observação. As conexões são pois, baseadas num contexto

específico que ao ser alterado modifica ou extingue as propriedades dessa mesma relação.

3/ A RAS compreende procedimentos de reconstituição da estrutura ou seja, da morfologia do sistema de troca e acção, constituindo blocos de actores obtidos através de medidas estatísticas de equivalência, das quais adiante se falará mais detalhadamente, em que se incluem as relações estabelecidas entre esses bloco s e os atributos individuais dos actores que não se diluem no contexto global da rede.

4/ Os actores são posicionados dentro da estrutura de acordo com o seu capital conectivo e atributos individuais.

5/ São efectuados procedimentos de associação entre posição e comportamento de actores. Esta estrutura de relações entre os actores e posições que eles ocupam pode ser considerada como uma variável independente que contribui para a identificação de influência exercida sobre os comportamentos sociais.

Autores como Lemieux [82], por exemplo reduzem a fronteira entre redes sociais e de actores sociais a problemas de terminologia. Considera este autor a primeira designação demasiado vaga uma vez que pode incluir redes materiais de intercâmbio. As redes de transportes, dadas a título de exemplo, constituem conjuntos de pontos representando locais unidos por linhas de comunicação por onde circulam, entre outros, actores sociais. Não são portanto exclusivamente redes de actores sociais embora se possam considerar redes sociais. A fronteira entre estas duas abordagens não constitui uma linha divisória concreta. Note-se que os métodos quantitativos analíticos são idênticos e os investigadores utilizam indiferentemente as duas designações bem como processos de investigação similares. Poderemos portanto considerar a RAS como uma evolução ou aperfeiçoamento de análise de redes sociais, não existindo qualquer ruptura metodológica ou epistemológica entre as duas aproximações. Na realidade os pontos de vista de análise de atributos individuais de actores e as propriedades das relações que os unem são,

embora de naturezas diferentes, complementares e ambos coexistem articuladamente [73].

2.2.2 Perspectivas de Análise em RAS

A investigação com base em análise RAS constitui um meio de identificar a estrutura de comunicação de recursos através do emprego de dados individuais e relacionais sobre unidades de análise. Neste contexto podemos apontar duas perspectivas de macroanálise utilizadas:

1/ A perspectiva relacional em que a unidade atómica de análise é o actor sendo a sua relação com os outros actores entendida sob perspectivas interpretativas obtidas através de várias aproximações analíticas como força, coesão, proximidade. São neste caso analisadas as relações entre actores através de constituição de díades (conjuntos de dois actores) e tríades (conjuntos de três actores), consideradas como sub-estruturas atómicas da rede, sem incluir nessa análise as relações com outros actores que escapem a esses conjuntos simples de unidades. Essas relações serão analisadas dentro dos conjuntos de díades e tríades em que o mesmo actor participe [121]. Por exemplo, um actor A é analisado no contexto da relação mantida com o actor B. No entanto o actor mantém igualmente relações com os actores C, F e Z residentes na rede. Existem portanto 4 díades que irão ser sucessivamente analisadas: {AÆ B}; {AÆ C};

{AÆ F}; {A Æ Z}, sem no entanto serem integradas essas análises, ou seja, a comparação da díade 1 com a 2, etc. Esta representação é extensiva a tríades sendo que estas são compostas de três actores e das respectivas conexões. {AÆ B}; {AÆ C}; {BÆ C} 5 [26], [80]. Os conceitos de diferenciação utilizados nesta aproximação baseiam-se essencialmente em aspectos sócio-psicológicos.

2/ A perspectiva estrutural ou posicional em que o objecto de pesquisa consiste na identificação de padrões idênticos ou similares de relacionamento com os restantes actores da rede e que, dessa forma,

5 Note-se que as direcções das conexões entre tríades não obedecem obrigatoriamente apenas ao esquema apresentado.

permitem a identificação topológica de um actor ou conjunto de actores que ocupem posições semelhantes dentro da

estrutura social observada.

A B díade: conexão
A
B
díade: conexão

adjacente

A B A B díade: conexão díade: conexão direccionada direccionada simétrica
A
B
A
B
díade: conexão
díade: conexão
direccionada
direccionada simétrica
B A C tríade adjacente
B
A C
tríade adjacente
B 1 2 A 3 C tríade transitiva
B
1
2
A 3
C
tríade transitiva

Figura 2.1 - Exemplos de díades e tríades

Por outras palavras, identificam- se actores individualizados ou grupos de actores que mantêm

posições equivalentes com os restantes actores que integram a rede, inferindo padrões comportamentais e relacionais de uns relativamente a outros. A análise padronizada de conjuntos de relações permite determinar posições relativas de conjuntos de actores (singulares ou colectivos) ocupadas na estrutura social observada. Nesta perspectiva o desenvolvimento destes mesmos conceitos baseia-se em aspectos antropológicos e sociológicos. Sintetizando o exposto pode-se afirmar que a RAS pretende identificar numa rede de actores sociais, padrões de relacionamento entre conjuntos de dois ou três actores (díades e tríades) e, complementarmente, isolar conjuntos – singulares ou colectivos – com posições equivalentes, relativamente a todos os restantes membros da rede. Estas definições são mais claramente visíveis através da tabela 1. Numa leitura vertical é-nos dado o nível de agregação dos actores como unidades de análise, sendo identificados 3 níveis: actor, subgrupos, subestruturas. Numa leitura horizontal temos as definições para cada nível de agregação de acordo com as duas perspectivas de análise descritas: relacional e posicional.

Tabela 2.1 – Perspectivas de análise (segundo R. Burt)

 

Nível de agregação de actores na unidade de análise

Perspectivas

Actor

Vários actores unidos num subgrupo

Múltiplos subgrupos como sistema estruturado

de análise

Relacional

Rede pessoal

Grupo primário como uma clique de rede: Conjunto de actores unidos por relações coesas

Sistema estruturado denso ou transitivo

extensiva, densa

e/ou multiplexa

 

Posicional

Ocupante de uma posição central e/ou prestigiada na rede

Conjunto posição/papel considerado como posição na rede; um conjunto de actores estruturalmente equivalentes

Sistema estruturado como estratificação de conjuntos de posições/papéis

Segundo Burt [26] a tabela acima representada apresenta duas dimensões complementares: As células da primeira fila corresponderão à análise de redes egocêntricas (egonet) e análise tríadica, ou seja, análise de transitividade e densidade da rede e consequentemente das relações em que os actores se encontram envolvidos (abordagem relacional). Uma segunda dimensão ou classe, representada pela segunda fila consiste em actor, subgrupo e modelos de sistemas de topologias sociais. Esta classe serve para destacar e descrever a estrutura social em termos de diferenciação entre actores e subgrupos (abordagem posicional). Considera-se a combinação destes dois tipos de análise como complementares já que os resultados pretendidos se enquadram em objectivos diferentes. Blau, citado por Rogers [107] afirma que a perspectiva relacional será mais útil para estudar sistemas recém- formados 6 enquanto que a aproximação posicional poderá ser mais eficaz para estudar sistemas já estabelecidos e consolidados há mais tempo. Na realidade não há estudos em número suficiente que ponham em comparação as duas abordagens e que permitam aferir com propriedade da maior ou menor adequação ou apetência de um ou de outro relativamente à sua aplicabilidade a RAS. Um outro aspecto que no entanto é necessário esclarecer refere-se à natureza essencial dos actores da rede. Um grafo integra dois elementos estruturais característicos [59] –linhas e pontos– que sob a perspectiva de RAS, poderemos designar como unidades individuais de observação. Estes objectos podem ter vários níveis de agregação. O ponto de vista de análise no entanto é sempre individual, no sentido em que a observação a um nível de abstracção elevado considera conjuntos de actores e relações. Significa isto que os actores incluídos na rede podem representar pessoas, objectos, unidades orgânicas, organizações, países, etc., não havendo na prática qualquer limite para o critério de agregação utilizado para a construção da rede de análise [42]. A preferência pressentida por um universo de

6 No contexto do presente trabalho referimo-nos sempre a sistemas organizacionais.

observação estável, no sentido de manter padrões relacionais e comportamentais regulares, justificou durante algum tempo a tendência da escolha de actores colectivos para inclusão na rede. Preferiam-se entidades com o maior nível de agregação possível - papéis, estatutos, grupos, instituições - preterindo-se o nível individual dada a sua tendência para variabilidade. Esta opção, no entanto, acabou por ser abandonada por se considerar que o próprio grau de instabilidade ou estabilidade de uma dada estrutura social é por si só um tópico de investigação [73]. No entanto, a unidade de análise pode não ser o actor singular ou apenas a relação que o une a outros actores. Há portanto que distinguir entre estas realidades: a unidade individual de observação, que é sempre o actor individual ou colectivo, e a unidade de análise. Esta última pode possuir vários níveis de agregação, incidindo quer sobre o actor individualmente e independentemente do seu nível de agregação (e nesse caso as duas entidades são coincidentes) quer sobre conjuntos de actores considerados como subgrupos definidos pela coesão e reciprocidade das conexões estabelecidas dentro da rede constituída, ou ainda, aí constituindo subsistemas estruturados e estratificados. Esta realidade concorda com as perspectivas de análise relacional e posicional atrás referidas.

Actores, nós Atendendo às características específicas da RAS julgamos conveniente referir alguns aspectos relevantes sobre actores, ou seja, unidades individuais de observação de uma rede. De uma forma geral os actores presentes numa rede – na medida em que esta representa uma estrutura social – utilizam os recursos que lhes estão acessíveis para realizar os seus interesses, qualquer que seja a sua natureza [34]. De acordo com a teoria social e económica [25][26][27] os interesses manifestados por um actor são gerados pela percepção que esse mesmo actor detém ou adquire sobre a possibilidade ou vantagem de empreender acções alternativas. Ou seja, uma determinada acção é efectuada se não for entendido como vantajosa a realização de uma outra acção alternativa. Estes aspectos são de forma geral nítidos na análise organizacional, manifestando-se nas várias camadas funcionais e hierárquicas de uma instituição.

A este respeito é importante referir que uma organização constitui antes de

mais uma estrutura social e nessa condição inclui níveis de actuação

política (caracterizada por poder) e cultural (caracterizada pelos arquétipos culturais dos actores individuais e colectivos ou cultura organizacional). Estas camadas, ou vistas, articulam-se através de relações permanentes e dinâmicas efectuadas entre os actores que participam na organização e que desempenham acções as quais podem obedecer a motivações diversas:

funcionais, amizade, interesse, progressão, louvor, etc. No quadro funcional de uma organização há actividades que são obrigatoriamente desempenhadas, no entanto a forma como o são pode ter variações consideráveis e essas flutuações podem moldar decisivamente a eficiência, eficácia e efectividade do seu desempenho. A forma de actuação de actores pode ser considerada à luz de três interpretações teóricas:

1/ Atomista em que se consideram os actores como a mais pequena unidade social existente numa rede, agindo portanto em função dos seus interesses próprios, ou seja, dos interesses que percepcionam como válidos ou vantajosos para si próprios. Neste sentido a avaliação de vantagem de aquisição de um recurso é realizada sem ter em atenção as necessidades de outros actores. Esta perspectiva é normalmente utilizada em análise macroeconómica [25]. 2/ Normativa, em que se consideram os actores como interdependentes entre si empreendendo acções de acordo com normas socialmente estabelecidas e aceites. Esta é uma aproximação essencialmente antropológica e sociológica.

A este respeito é apropriada uma referência sucinta à aproximação teórica

apresentadas por Giddens (GIDDENS citado por WALSHAN) [119], enquadrada em contextos organizacionais. Giddens ao propor a sua teoria de estruturação, identifica em qualquer organização dois níveis distintos relacionados com agentes humanos e sistemas sociais, descrevendo uma camada intermédia de ligação através de, respectivamente, esquemas interpretativos, suporte material e normas. Esta abordagem ao considerar a existência de agentes humanos /actores e sistemas sociais (redes) é articulável com a caracterização de actores em RAS através de duas particularidades: (1) os actos são desenvolvidos por agentes humanos quer

de acordo com a perspectiva atomística ou normativa (2) Os actos são desenvolvidos em estruturas sociais. O comportamento dos actores/agentes humanos insere-se numa perspectiva atomista enquanto que a sua interacção/participação em sistemas sociais, obriga a uma perspectiva de acção normativa. 3/ Burt [25] propõe uma terceira alternativa sugerindo que os interesses dos actores são padronizados pelas posições que ocupam na estrutura social, as quais são definidas por conjuntos de propriedades individuais e gerais da rede na sua qualidade de modelo representativo da estrutura social. Segundo este autor um actor avalia o aumento de utilidade que um determinado recurso lhe oferece relativamente a outro em função de referências por ele estabelecidas ou pré-existentes e subordinadas a um determinado critério, ou melhor, em função do incremento marginal de utilidade que é avaliado com base nesses critérios. Cada actor possui portanto um capital social que lhe servirá para adquirir ou manter posições dentro da rede. O capital social, ao contrário dos capitais humano (atributos pessoais de carácter profissional, pessoal) e económico, é relacional uma vez que é composto pelo conjunto de relações que um determinado actor possui numa rede (capital conectivo) [27]. Este capital funciona como critério de ponderação relativamente à acessibilização do actor às oportunidades –aqui citadas como significando acesso a recursos- criadas na rede. Burt refere-se a posições ideográficas definidas por relações com forma e conteúdo de especial significado dentro de um determinado sistema de actores (localização topológica) num ponto específico de tempo (localização cronológica). De acordo com esta perspectiva posicional (que neste autor tem directamente a ver com equivalência estrutural) e posto perante um problema de avaliação de um determinado recurso, a um actor A colocar- se-ia a questão de em que medida uma acção poderá incrementar ou melhorar o seu controlo sobre um recurso relativamente ao nível de controlo exercido sobre esse mesmo recurso por outros actores que lhe são estruturalmente próximos (equivalentes). Desta forma o facto de um determinado actor ocupar uma posição estruturalmente equivalente com outro actor pode revestir-se de dois significados, sendo um exacto -os dois

actores ocupam uma posição topológica e ideograficamente idêntica-, e o segundo interpretável -os dois actores podem reciprocamente substituir-se, i.e., um deles pode ser redundante e dispensável.

Relações/Arcos Uma relação é composta por forma e conteúdo [26] [73]. A primeira diz respeito à medida que representa a força da relação entre um actor [A Æ B], ou seja, as propriedades da conexão de uma díade as quais existem de forma independente do conteúdo dessa mesma conexão. Este atributo é normalmente resolvido pelo grau de intensidade estabelecido entre os dois actores e ainda o grau de participação comum nas mesmas actividades. O conteúdo é o tipo de relação que representa, ou seja, a substância e natureza da própria forma de conexão de um actor [AÆ B]. Este atributo

pode ser classificado de acordo com categorias de relações que convenham ser definidas: Por exemplo do ponto de vista de formalização da relação

esta pode constituir uma relação de transacção, de controlo, multiplexa. No entanto se a considerarmos numa óptica dos recursos difundidos através dessa mesma relação, poderá então ser designada de informação, recursos materiais, acção, etc. Do ponto de vista organizacional esta dicotomia é importante na medida em que permite a integração de processos funcionais na qualidade de conteúdos de uma relação entre actores a qual possui uma forma específica que irá condicionar a forma de realização desse mesmo processo. Dito de outro modo, se um recurso ou acção (conteúdo) que circula entre dois actores é controlada por um deles (forma), se a iniciativa (forma) parte de um actor ou se mesmo que isso não aconteça esse actor assume o domínio desse recurso ou acção (conteúdo), podemos dizer que a relação é de controlo. Se o recurso for transaccionado pelos actores envolvidos na relação, quer de forma livre ou condicionada, podemos então dizer estar perante uma relação transaccional (forma). Finalmente se as conexões que unem dois actores são de natureza individual e não relacional, i.e., se se reportam exclusivamente a atributos específicos de cada actor

estaremos perante conexões de

(personalidade, concentração, poder laços [82].

)

Estabelecendo uma comparação curiosa entre as interpretações de relações dadas por analogias antropológicas e matemáticas obtemos o seguinte quadro:

Tabela 2.2 Analogias de relações (adaptado de Lemieux. Les Reséaux d’Acteurs Sociaux)

Relações

Analogia antropológica

Analogia matemática

transacções

Deserção

Estruturas algébricas

controlos

Tomada da palavra

Estruturas de ordem

laços

lealdade

Estruturas topológicas

Outra forma de caracterizar uma relação é identificar a direcção que ela assume. Uma relação pode exprimir um contacto apenas, expresso numa variável dicotómica –existe ou não– mas pode assumir igualmente direccionalidade, ou seja, a relação inicia-se num nó e dirige-se para outro. Pode igualmente ser simétrica o que é diferente da simples expressão de contacto. Neste caso o recurso é simetricamente enviado de um actor para outro havendo capacidade de iniciativa de parte a parte. A simetria exprime apenas a possibilidade de uma relação se estabelecer nos dois sentidos, independentemente do teor dessa relação (controlo, transacção, laço). As características atrás referidas coexistem numa mesma conexão podendo -se portanto classificá-las como, por exemplo, controlo bilateral (simétrico) ou transacção assimétrica. A orientação não implica necessariamente controlo. A identificação dos recursos transmitidos na rede pode ser à partida explicitamente definida no momento da constituição da rede. No entanto uma rede pode e normalmente tem muitos tipos de recursos a circular nela. Lemieux categoriza-os de acordo com a sua natureza e ainda com a sua condição de serem reno váveis ou não. No primeiro caso são identificados seis grupos: normas, estatutos, comandos, recursos humanos, recursos de informação, relacionais [80]. Categorizações deste género são no entanto livres, podendo ser utilizadas as que mais se adaptarem ao caso em estudo, desde que sejam devidamente explicitadas e descritas. No caso da rede analisada por exemplo foram identificados recursos de tipo informacional (em que se incluem documentos como subespécie de objecto informacional), de tipo normativo, material e humano.

2.3

Questões metodológicas

A teoria e práticas metodológicas de RAS não são consideradas como isentas de problemas quer sejam eles intrínsecos à sua própria natureza teórica, como à própria estrutura metodológica. Estes problemas percepcio nados por teóricos da disciplina agrupam-se, segundo Rogers, em 4 categorias [107].

2.3.1 Reduzida investigação teórica

A escassez de investigação redunda numa excessiva tendência para análise

prática sobre modelos de redes constituídas a partir de recolecção de dados, tendo igualmente como consequência a relativa ausência de produção de teoria formal. A este respeito relembramos os conceitos de teoria substantiva e teoria formal tal como Glaser e Strauss a apresentam [49] sendo a primeira desenvolvida para uma área empírica da investigação social, enquanto o desenvolvimento da segunda se reporta a áreas formais

ou conceptuais da teoria social (estes conceitos são igualmente aplicáveis a qualquer área de investigação de ciências sociais). Esse facto permite a produção de trabalhos metodológicos, de desenvolvimento de investigação social (ou de qualquer outra área em que RAS seja aplicável) mas não de produção teórica sobre o método o que de facto retarda o desenvolvimento

e amplitude de estruturação metodo lógica da própria teoria. A análise de

redes sociais consiste na maior parte dos casos de modelos descritivos e

não prescritivos de uma determinada realidade [26].

2.3.2 Problemas de amostragem de rede e generalização

Este problema traduz -se pelo que se convencionou designar pelo problema de delimitação de fronteiras. Na prática trata-se de estabelecer as entidades que devem (ou podem) ser incluídas na rede a estudo. Este aspecto é particularmente delicado quando aplicado a redes, já que uma rede é por natureza expansível a conjuntos de actores que por uma razão ou outra possam com ela ser conectados.

Para ilustrar este último ponto imaginemos, por exemplo, que construímos uma rede de uma organização com um determinado intuito – por exemplo, determinar a estrutura concorrencial dessa empresa face ao mercado em

que se insere. Logo à partida se torna evidente a falibilidade dos actores a escolher: se nos limitamos aos actores que integram a organização excluímos entidades externas que com essa organização mantêm relações. Se, por outro lado, os incluirmos, “herdamos” todos os actores com que essas organizações, agora elementos da rede, estabelecem relações. Mas de facto, caso essa rede social não os inclua, resultará num modelo incompleto da estrutura que pretende representar. Os problemas ligados à inclusão de actores (delimitação de fronteiras) residem portanto no facto de se excluir actores que à partida e em consequência de uma primeira observação não seriam particularmente significativos para a estrutura em análise mas que na realidade podem desempenhar papéis fulcrais para a caracterização da mesma, como por exemplo o papel de transconectores [73]. Para ilustrar esta possibilidade de enviesamento apresenta-se na figura 1 o exemplo clássico da rede tipo borboleta [73] em que o actor 4 soma apenas “2” relações desempenhando no entanto o papel topológico de união entre dois conjuntos de actores. Ou seja, caso este actor fosse excluído da rede a interpretação da mesma e sua disposição topológica revestir-se-ia de aspectos e interpretações completamente diferentes e desfasadas da realidade.

A selecção de actores a incluir na rede pode obedecer a dois

critérios [73] [77]. a) As fronteiras da entidade

social (neste caso as

organizações e respectivas redes de actores) podem ser impostas de acordo com os limites conscientemente percepcionados pelos actores que fazem parte dessa(s) entidades(e) (método ideográfico), b) estas são determinadas pelo investigador na medida em que este impõe uma estrutura conceptual que serve um determinado propósito de investigação (método nomotético). Neste último são considerados

2 5 1 4 7 3 6
2
5
1
4
7
3
6

Figura 2.2 - Rede tipo borboleta ( O actor 4 é transconector)

conjuntos de factores que possam eventualmente influenciar a investigação na direcção de uma determinada meta. Os critérios de inclusão no caso da abordagem nomotética sugerem possibilidades para a definição concreta dos actores a incluir na rede. [73]. É o caso por exemplo de mútua relevância. Este critério [77] estipula que apenas as actores que sejam reciprocamente relevantes deverão ser incluídos na rede de análise. Os actores cujas acções reais ou potenciais sejam inconsequentes do ponto de vista de participação nessas acções, serão excluídos. Para a aplicação deste critério os autores citados [77] especificam 4 tipos de evidência empírica: Posicional (organizações formais com funções ou interesses no domínio do problema); decisional (actores que são chamados a decidir sobre assuntos relacionados com a área em que se inscreve a rede); reputação (actores considerados influentes por painéis de especialistas reunidos para o efeito); relacional (actores nomeados durante as entrevistas com representantes das organizações obtidas pelo primeiro grupo). Como método de inclusão de actores na rede existe ainda o processo de bola de neve (“snowball”). Neste método solicita-se a um actor que indique os actores com quem tem relações relativamente a uma determinada actividade, processo. Depois indagam-se os actores assim obtidos com a mesma interrogação o que nos dá um segundo conjunto de actores, eventualmente mais alargado, os quais serão por sua vez interrogados daí resultando um terceiro conjunto de actores. Este processo é iterativamente efectuado até se considerar ter uma amostra representativa do universo a estudar. Trata-se de um processo similar ao utilizado para a compilação de bibliografia num trabalho de investigação. Neste caso, particularmente quando o tema não seja muito popularizado, inicia-se a pesquisa bibliográfica a partir de um pequeno conjunto de obras a partir das quais se seleccionam outras obras a partir da bibliografia que elas contêm (na realidade trata-se de uma interrogação indirecta aos autores/actores) e vai- se progressivamente, seguindo este processo iterativo, aumentando o conjunto de referências até que este seja considerado como um corpus suficiente de informação bibliográfica. Este método é apropriado quando a investigação social e teórica seja escassa.

2.3.3

Excessiva incidência na análise de dados e reduzida atenção à

recolha de dados

Este aspecto refere-se à idiossincracia entre os métodos de recolha de dados realizados em Ciências Sociais e a sua posterior análise. No primeiro caso é inevitável uma percentagem mais ou menos elevada de subjectividade que pode potencialmente levar a ausência de rigor dos dados recolhidos. Por outro lado o estudo desses mesmos dados é realizado a partir de análises rigorosas – positivistas – sobre esses mesmos dados à partida suspeitos de falibilidade [107]. Como outro aspecto negativo da recolha de dados de rede é apontado o recurso excessivo a dados indirectos, ou seja, dados pré-existentes recolhidos por outras entidades em função de outro caso de estudo particular. Este facto é apontado como causa de uma ausência de conhecimento e percepção mais precisas da rede em análise visto os dados não terem sido recolhidos directamente pelo investigador nem especificamente para o caso em análise. Outro problema levantado por Rogers [107] reside na ausência de exploração do contexto histórico, entendido numa perspectiva de curta duração. Esta análise, de resto igualmente defendida por Lazega [80] possibilita uma melhor compreensão da evolução da estrutura social o que facilita a direccão tomada da recolha de dados segundo métodos correntemente utilizados em Ciências Sociais.

2.3.4 Desfasamento entre forma e conteúdo da rede

Rogers [107] afirma que os analistas focam a sua atenção sobretudo na forma das redes e ignoram, ou pelo menos atribuem menor importância, ao conteúdo da informação que flui pelas conexões existentes. Este autor avança como motivo principal para este facto os métodos de recolha de dados e particularmente o tipo de perguntas formuladas, as quais considera limitadoras de veiculação de informação sobre o conteúdo das relações percepcionadas. Um actor questionado presencialmente pode não dar

informações relevantes para a caracterização dos conteúdos de relação identificada. Muitas vezes porque não se lembra no momento em que é questionado, de detalhes por vezes fundamentais. O autor aponta como forma de ultrapassar esta limitação a utilização de novos meios tecnológicos que através de capacidades de interactividade poderão

viabilizar a recolha pormenorizada de dados com interferência indirecta, dos actores observados. É o caso por exemplo de correio electrónico, em que a análise das mensagens tro cadas entre actores seleccionados, constitui potencialmente uma poderosa fonte de informação. As desvantagens identificadas no entanto não são menos importantes embora

se situem noutro plano: Quantidade sobredimensionada de informação e

direito à privacidade são alguns dos problemas que impõem precauções na exploração desta metodologia.

2.4 Análise de redes sociais

O primeiro aspecto a considerar para a análise de redes sociais é

naturalmente a sua constituição ou montagem. Hierarquizando procedimentos teremos antes de mais a definição do universo de análise que implica a inclusão de actores como unidades individuais de observação. Este aspecto em particular não será aqui explorado visto ter sido atrás focado relativamente ao problema de delimitação de fronteiras. Refere-se apenas que as amostragens de populações para inclusão na rede pressupõem a escolha do nível de agregação das unidades individuais de observação, i.e., se se trata de indivíduos, unidades orgânicas, processos,

instituições, etc. A escolha sobre os actores a incluir, ou seja, a realização

da amostragem a partir da qual se passará à generalização, pode obedecer

a diferentes princípios -ideográfico e nomotético- e ainda a diversos

métodos como por exemplo a “bola de neve” (ver secções 2.2.2 e 2.3.2)

2.4.1 A recolha de dados

Esta questão diz antes respeito à forma e método de recolha e análise de dados. Dentro desta área podemos contar essencialmente duas tendências:

Uma denominada clássica em que se procede a extensas recolhas de dados orientados por hipóteses de trabalho formuladas à priori e que se enquadram nas grandes teorias sociológicas, destinando-se portanto a deduzir teoria substantiva e, em última análise, explorar ou confirmar a teoria formal. Esta metodologia foi recorrentemente utilizada pelas sucessivas escolas de sociologia e deu origem a grandes conjuntos de dados recolhidos por meio de processos de inquéritos muito complexos e elaborados. Apresenta à partida o inconveniente de cercear o investigador pelos limites que ele próprio impôs através da escolha ou formulação de hipóteses a ser testadas. Uma segunda escola denominada “grounded theory” [49], prescreve ao contrário uma análise qualitativa dos dados que vão sendo recolhidos através de trabalho de campo. Ao contrário da metodologia anterior, o investigador vai formulando as hipóteses de trabalho na medida em que a análise dos dados progressivamente recolhidos elucida ou permite a emergência de factos ocultos que podem e devem alterar o sentido inicial da investigação. Neste campo, o investigador não está condicionado por qualquer idéia preconcebida – e portanto limitadora – sendo livre para seguir e alterar o curso da sua investigação à medida que os dados recolhidos e analisados dão potencialmente novas pistas e direcções de análise. A recolha de dados é igualmente baseada na percepção recolhida pelo investigador, podendo concentrar-se numa determinada área à partida não considerada como nuclear ou, ao contrário, reforçar uma determinada área em detrimento de outras. O problema de recolha de dados é particularmente pertinente em ciências sociais já que ao contrário de ciência positiva em que a realidade é -pelo menos aparentemente- estável, a recolha de dados em contexto social e humano caracteriza-se pela subjectividade e ausência de métodos de recolha exactos.

2.4.1.1 Príncípios e métodos de recolha de dados

Considerando as características próprias de RAS atrás mencionadas há que fazer incidir a recolha sobre dados relacionais, sobre dados relativos aos atributos dos actores (caracterização de actores) e finalmente sobre os comportamentos susceptíveis de ser influenciados pela posição destes últimos na estrutura relacional observada. A recolha de dados neste contexto deve ser precedida ou acompanhada de investigação de contexto ambiental, funcional e histórico de forma proporcionar um quadro integrador da rede a estudar [80]. A recolha de dados em ciências sociais consiste como atrás referido numa área classicamente problemática. Não tendo as características exactas e experimentais de ciências positivas ou exactas, elas tornam-se alvo de subjectividade, mesmo por uma poderosa razão: é que inserindo-se em contextos de actividades humanas, a recolha de dados passa obrigatoriamente pela colaboração desses mesmos actores. A recolha de dados é à partida limitada por esse facto visto que por variadíssimas razões os inquiridos podem não fornecer dados exactos ou podem fornecer dados que considerem exactos mas que eventualmente se venha a verificar que efectivamente o não eram. A observação directa de actores humanos, embora seja um método utilizado (serão a seguir discriminados os métodos mais difundidos em ciência sociais) não retorna resultados tão exactos como a observação levada a cabo sobre actores não humanos. Os indivíduos ao sentir-se observados podem adoptar comportamentos inabituais e defensivos, possivelmente causadores de enviesamento de dados. Outro problema de base consiste na ausência de vontade de cooperação dos actores. Este aspecto é particularmente relevante em contextos organizacionais em que se torna difícil ganhar adeptos ou voluntários para a realização de uma série de inquéritos que normalmente são considerados como maçadores ou sem utilidade prática e imediata visível! Outro aspecto focado nesta secção trata da opção que o analista toma ao recolher dados sobre determinados tipos – e não outros – de relações que unem os actores do universo de recolha. Por exemplo na rede em análise neste trabalho, foram tomadas em atenção as conexões caracterizadas por relações de controlo e transacção. No entanto a inclusão de elos baseados em preferências e pessoais tais como amizade, cooperação comum

poderiam ter igualmente sido incluídas. Foi de facto observado que em determinados processos este tipo de elos existente entre actores individualmente considerados, actua como elemento facilitador no desempenho informalizado de determinadas actividades constituintes de processos. Ao excluir um determinado tipo de relação estamos necessariamente a não ter em conta o enriquecimento estrutural de uma rede. Essa posição é defensável caso sejam equacionadas as consequências e justificadas as opções tomadas. A análise de vários tipos de relações revela muitas vezes informação significativa, já que há actores muito fortemente conectados em determinados tipos de relações e fracamente noutro tipo. Este aspecto é por exemplo observável dentro de organizações em que os actores podem encontrar-se funcionalmente conexos, porque participam, por exemplo, em processos ou estruturas orgânicas comuns, mas no entanto a distância entre eles sob o ponto de vista de relações pessoais (aconselhamento, cooperação) ser considerável. As repercussões ao nível de desempenho poderão ser significativas atendendo à necessidade de informalização da comunicação para o incremento de eficiência de processos [29] [119]. Uma regra cooptada da análise estatística obriga a que as unidades individuais de observação, i.e., os actores, se situem ao mesmo nível de agregação. Caso isso não aconteça os resultados não serão conclusivos. Para combinar dados de diferentes níveis de agregação será necessário constitui tantas redes quantas os respectivos níveis de abstracção escolhidos. Interessa ainda, para completa explicitação deste capítulo, enumerar de forma sintética os princ ipais métodos normalmente utilizados para recolha de dados em ciências sociais. Façamos um esclarecimento entre as duas realidades apresentadas a seguir: Os princípios de recolha de dados são as posições teoricamente sustentadas da perspectiva que o investigador deverá assumir sobre o universo de recolha, ou seja, sobre os actores que se propõe inquirir, independentemente do seu nível de agregação ou da sua natureza. Os métodos utilizados, por seu turno, referem-se ao conjunto de procedimentos práticos realizados para a recolecção dos dados. Os últimos podem ser incluídos nos primeiros. Avançando um exemplo:

independentemente de se adoptar uma perspectiva de “observar os

actores” ou “seguir os actores”, poderão ser utilizados processos como o questionário ou a entrevista. Gostaríamos ainda de ressalvar que para a realização deste estudo apenas alguns destes processos foram utilizados, não se tendo considerado os restantes como úteis ou passíveis de aplicação efectiva neste contexto (Estes aspectos serão desenvolvidos no cap. 4). Refira-se finalmente que deverá ser sempre deixada ao investigador a imaginação metodológica indispensável para em cada caso específico retirar o conjunto de dados mais completo e preciso de forma a responder às metas por si propostas

[80]

2.4.1.1.1 Princípios de recolha de dados

a/Associação Livre Associação livre consiste em não impôr uma determinada matriz de análise sobre os actores forçando -os a assumir papéis pré-determinados. Adopta- se ao contrário uma postura que permita o investigador seguir todas as translações livremente seguidas pelos actores [104].

b/ Deixar falar os actores O investigador deve seguir as interpretações dos actores envolvidos no processo em vez de impôr as suas interpretações. Os actores de uma rede definem o seu quadro de referência e impõem os seus próprios limites, O investigador deve situar-se dentro deste quadro tentando questionar apenas o que os actores fazem e relatar as negociações que decorrem na rede de observação [104].

c/Seguir os actores Esta atitude significa que o investigador não tem qualquer concepção pré- definida do processo a ser estudado. Segue portanto os actores para identificar as formas por que estes definem e associam os diferentes elementos com os quais constroem e explicam o seu mundo, seja ele social ou natural. Esta prática dá ao investigador informação sobre as acções e crenças dos actores envolvidos [104].

2.4.1.1.2 Métodos de recolha de dados

Inquérito

O inquérito é um instrumento essencial de recolha de dados em ciências

sociais. Realizá-lo é

tendo em vista uma generalização

directa ou indirecta de actores de forma a obter dados que sejam posteriormente analisados. Pode revestir-se de diversas formas sendo mais ou menos extensivo. O inquérito é normalmente realizado pelos processos de questionário e entrevista (e ainda a observação). A este instrumento de recolha de dados é associada a recolha indirecta de dados secundários provenientes de arquivos ou levantamentos de dados eventualmente realizados com propósitos diferentes (por exemplo, inquéritos levados a cabo por instituições especializadas, por ex., o Instituto Nacional de Estatística).

um determinado número de indivíduos [48] Trata-se portanto da inquirição

interrogar

a. Questionário

O questionário pode ser presencial em que o investigador se encontra em

presença dos respondentes prestando -se a dar esclarecimentos quanto ao

preenchimento do mesmo. Pode ser não presencial que é normalmente utilizado quando em presença de uma população muito extensa de potenciais inquiridos. Neste caso o inquérito deve ser claro e sempre acompanhado de notas explicativas relativamente a cada item a responder

a1. Questionários fechados Trata-se de inquéritos com respostas fechadas ou seja em que respostas alternativas são oferecidas ao entrevistado limitando-se este a assinalar aquela (s) que julga como correcta(s).

a.2 Questionários abertos Neste caso as perguntas formuladas são genéricas e vagas apelando ao discernimento e formulação de conceitos e juízos por parte do entrevistado

a.3 Questionários semi-abertos São características deste tipo de inquéritos perguntas com alternativas fechadas mas contendo por vezes elementos abertos. Normalmente nos inquéritos este tipo de entrevista manifesta-se por uma pergunta final em que se apela ao entrevistado a opinar sobre o assunto a que respeita o bloco de perguntas em que aquela pergunta se insere.

b. Entrevistas

A entrevista, o método mais utilizado para a realização da presente tese,

tem vantagens apreciáveis visto que permite ao analista um contacto directo com o entrevistado e portanto uma percepção e capacidade de orientação da recolha de dados de acordo com o posicionamento detectado no entrevistado e que se julgue mais eficaz para alcançar a meta à partida proposta. A entrevista tem no entanto as suas limitações que consistem nomeadamente no enviesamento por parte do entrevistador, ou na retracção do entrevistado posto perante questões pessoal ou organizacionalmente delicadas. Este facto foi verificado na experiência deste trabalho, tendo -se constatado uma progressiva descontracção dos entrevistados ao fim de algumas sessões de trabalho. Note-se que estas nem sempre são passíveis de ser realizadas repetidas vezes o que obriga a um aumento de eficiência num curto espaço de tempo .

b.1 Directivas Neste tipo de entrevista é elaborado um guião com perguntas específicas a realizar procurando-se da parte do entrevistado perguntas e respostas curtas e incisivas. Este método permite o lançamento dos dados que vão sendo obtidos em matrizes ou formulários construídos para o efeito. Este procedimento simplifica a posterior análise e sintetização da informação assim como o seu carregamento em ferramentas informáticas de análise. Implica um conhecimento profundo por parte do entrevistador da área em

estudo pretendendo -se dos actores respostas curtas e específicas com vista

a recolher dados sobre aspectos que necessitam de esclarecimentos.

b.2 Não directivas

Neste caso não existe qualquer tipo de guião deixando os actores entrevistados discorrer livremente sobre um tema ou temas sugeridos pelo analista. Estes temas no entanto funcionam como meios de desencadear a comunicação não sendo linhas condutoras rígidas da entrevista. Este método é adaptável ao princípio atrás referido de seguir os acto res e significa que não existe uma percepção ou idéia pré-concebida sobre a área a estudar, sendo portanto da maior utilidade permitir o livre discurso do entrevistado.

b.3 Semi-directivas Este caso, que constitui um compromisso entre os dois métodos anteriores, consiste numa série de perguntas genéricas obedecendo a temas que se pretendem analisar, mas dentro de cada pergunta é dada uma extensa latitude de resposta aos entrevistados. O analista pode dirigir, interromper, ou redireccionar o curso da conversa conforma isso convenha à informação que pretende recolher. Insere-se no método de deixar falar os actores porque existe uma idéia e uma linha de força presente na perspectiva do entrevistador e é dentro dela que se dá latitude aos entrevistados para discorrer.

c. Dados indirectos e arquivos Este método de recolha de dados é indicado por todos os autores consultados e que se referem a recolecção de dados [48] [73] [107] - embora por vezes referindo-se-lhes através de termos curiosos como “vestígios” [Cf. 48, p.7]- como uma fonte potencialmente rica de dados essenciais para a constituição (através de inclusão dos actores participantes) e caracterização das unidades individuais de observação. Apresenta como principais vantagens:

1) A interrogação e levantamento de dados ser realizado sobre actores passivos, ou seja, cuja validação de dados transmitidos depende exclusivamente do investigador não estando sujeito a enviesamentos indirectos provocados -voluntária ou involuntariamente- pelo agente interrogado. 2) Reportarem-se a acontecimentos distanciados no tempo e sobre os quais possam não existir actores ou testemunhos directos vivos.

3) Poderem potencialmente cobrir um hiato cronológico significativo. Apresenta no entanto como inconvenientes o facto do investigador se encontrar descontextualizado do comportamento a ser estudado, o qual se encontra operacional e cronologicamente terminado, e os dados não terem sido recolhidos com propósitos específicos de análise científica, o que limita a sua apetência de resposta. Glaser [49] refere similaridades entre o trabalho de campo realizado pelo investigador e as pesquisas realizadas em Arquivos na medida em que se torna necessário escolher um ângulo posicional de análise. Num Arquivo este é dado pela análise de instrumentos de pesquisa e subsequente posicionamento topográfico de documentos. No trabalho de campo o investigador tem de se dirigir para local de trabalho ou de permanência dos actores a ser interrogados o que na prática equivale à mesma acção. A forma e a especificidade com que os dados devem ser recolhidos são objecto de atenção de vários autores (MORENO, citado por BURT) [26]. Este processo deve obedecer a uma série de condições como por exemplo as fronteiras do sistema (rede) deverem ser conhecidas pelos respondentes; estes devem ser solicitados a indicar os indivíduos que escolhem ou rejeitam em termos de critérios específicos; as questões técnicas mais complexas devem ser colocados ao respondente a um nível de compreensão adequado, etc. Informação sobre o teor das perguntas a ser realizadas é igualmente fornecido em vários trabalhos especializados. 7 Os princípios que presidem à recolha de dados sociais aconselham a confirmação de resultados obtidos através de fontes cruzadas de forma a despistar eventuais incoerências e enviesamentos. O métodos da triangulação, i.e., o cruzamento de três fontes diferentes é aconselhável, nomeadamente através de fontes arquivísticas com as vantagens próprias deste tipo de informação. Da mesma forma a confirmação de dados através de recolha por processos indirectos, ou seja, sem a intervenção dos actores participantes, é uma forma cada vez mais utilizada em RAS (por exemplo através de recurso a TIC, como a contabilização de mensagens de correio electrónico trocadas. (Ver a este respeito [46] [54] [61]).

7 Autores como HALINAN; BERNARD e KILLWORTH não referenciados no presente trabalho.

2.4.2 Métodos de Análise de Redes Sociais

Relativamente aos métodos de análise podemos considerar os seguintes aspectos: (1) níveis possíveis de análise , (2) ferramentas de análise utilizadas e (3) principais medidas estatísticas de rede utilizadas, i.e., parâmetros de avaliação.

2.4.2.1 Níveis de análise

De acordo com Lazega [80] podem ser distinguidos três níveis de análise:

estrutural ou posicional, relacional e individual. No nível estrutural ou de rede completa segundo Knoke [73] procura-se descrever conjuntos sociais completos e compará-los. Nesta circunstância a análise incide sobre a rede globalmente considerada, procurando -se identificar padrões relacionais e posicionais que permitam a agregação de actores equivalentes e a identificação de subconjuntos relacionais coesos. As medidas utilizadas para caracterizar a rede a este nível consistem nas categorias de coesão e densidade. Knoke divide este nível em rede completa que incide sobre análise posicional e rede egocêntrica em que o objecto de análise consiste em cada nó individual e as suas relações com cada um dos restantes actores da rede. Ao nível relacional os objectos de análise são as estruturas atómicas da rede: (1) díades compostas por um conjunto de dois actores e (2) tríades compostas por três actores e as suas conexões. Este nível de análise é em Knoke dividido em análise diádica e triádica. O objectivo da análise é caracterizar as relações propriamente ditas descrevendo a sua forma e conteúdo. Sob o ponto de vista individual o objecto de análise consiste nos atributos de cada actor existente na rede. Neste caso procuram-se essencialmente medidas de centralidade e prestígio que levam a uma localização topológica do indivíduo na estrutura de rede.

2.4.2.2 Ferramentas de análise

A análise de RAS baseia-se na utilização de grafos e de matrizes.

Grafos Basicamente um grafo consiste numa estrutura simplificada que representa realidades lineares através de pontos e linhas. Nesta estrutura são indiferentes as características de cada nó, podendo ser este uma representação de qualquer tipo de objecto ou entidade, desde um circuito integrado até um objecto social. As características relevantes e objecto de estudo são apenas as propriedades de conexão que unem os diversos nós nessa rede [59]. Num grafo aplicado a RAS os nós e arcos que os relacionam constituem actores ou unidades individuais de observação. Sobre este conjunto de entidades recai a análise macroscópica quando incidente na simples observação do desenho da rede, ou análise baseada em cálculos retirados a partir de matrizes. Note-se que numa rede de pequena dimensão a simples observação do grafo constituído pode trazer resultados reveladores. Quando a análise RAS incide sobre diversas redes que representem estruturas organizacionais, e a esfera de influência dessas redes se cruzam embora sem se integrarem numa estrutura inter-organizacional, diremos estar perante redes multimodais, Na prática de análise esta abordagem significa o estudo separado (em vários modos) das diversas redes entrecruzadas [52]. Uma rede pode ser considerada como uma estrutura com diversas vistas concorrentes representadas por tipos dissimilares de relações estabelecidas entre os actores: uma relação de controlo, de transacção, de amizade, etc. esta capacidade multivariada constitui uma poderosa capacidade de RAS já que condensa uma pluralidade de visões numa única estrutura, caracterizáveis através de análises combinadas. Esta forma de representação da rede permite visualizar facilmente argumentos como distância e proximidade entre actores. Alguns aspectos básicos sobre grafos [21][59] permitem sintetizar superficialmente as seguintes propriedades: Um grafo pode ser direccionado ou não, consoante as linhas que unem os actores demonstrem direccionalidade. Esta é expressa diagramaticamente por uma seta. No

caso de não ser representada seta a linha evidencia apenas adjacência. Quando uma linha é direccionada toma o nome do arco. Os grafos podem ser ou não valorados, ou seja, pode ser atribuída ponderação a qual indica neste contexto de análise os atributos específicos de cada relação. O grau de um nó significa o número de nós a que é adjacente. No caso de um dígrafo ou grafo direccionado consideram-se os graus de entrada e saída que correspondem aos números de linhas que saem do nó e que nele entram. O conceito de distância transparece das ilações a retirar de grafo:

O caminho mais curto entre dois pontos, i.e., entre dois nós, constitui um geodésico e está relacionada com a eficiência de comunicação do grafo, ou melhor, da estrutura que o grafo representa, e ainda com o desempenho da atingibilidade. A distância num grafo é avaliada pelo número de linhas que ele contém, sendo esta uma medida essencial para redes sociais. O grafo é inteiramente conectado se existe um caminho (pelo menos um) entre todos os nós representados, sendo este grau de conexão obtido pelo número de caminhos existentes. Caminho é uma sequência de pontos adjacentes e das linhas que os conectam. Quanto mais caminhos existirem num grafo, maior será, em princípio, o seu grau de conectividade. Como conceitos básicos mencionaremos ainda os pontos de desconexão, ou seja, nós que se retirados do grafo implicariam a desconectividade do mesmo e pontes que possuem as mesmas propriedades dos elementos anteriores mas reportam-se a linhas e não a pontos (ver figura 2.3).

Harary refere limitações de aplicação desta metodologia a análise social ao avisar que a teoria de grafos por si só não é suficiente para deduzir leis ou tendências empíricas de

atributos estruturais [59]. Por esse motivo à representação gráfica é normalmente associada a representação matricial.

2 5 1 4 7 6 3 Figura 2.3 - Exemplo de ponte
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Figura 2.3 - Exemplo de ponte
Figura 2.4 - Exemplo de grafo Matrizes Uma matriz é uma representação matemática do grafo

Figura 2.4 - Exemplo de grafo

Matrizes Uma matriz é uma representação matemática do grafo desenhado. É de uma forma geral necessário elaborar a matriz relativa à estrutura em análise, porque só ela permite a elaboração de cálculos de análise social. Os programas UCINET [22] ou Netminer [98] consideram todos os

dados carregados como matrizes realizando trabalho a partir dessa estrutura. Existem vários tipos de matrizes aplicáveis a análise social, no entanto a mais correntemente utilizada é a matriz de adjacência em que é representada a existência positiva ou negativa de relações entre dois actores. Caso essa relação exista é representada através de um “1” caso não se verifique é representada através de um “0”. É pois uma matriz binária. É de facto possível e nalguns casos desejável ponderar os valores carregados nas matrizes, quando por exemplo queremos exprimir numa só matriz relações diferenciadas (controlo, transacção, etc.) ou se se pretende por exemplo atribuir valores diferentes a distâncias diferentes constatadas ao desenhar o grafo. No entanto o processo mais comum é o acima descrito. A metodologia de matrizes para RAS implica que os actores dispostos em linhas emitem para os actores em colunas. Se a relação for simétrica, ou recíproca, ou seja, tanto um actor A emite para o actor B como o contrário se verifica, cria-se a situação mais simples para análise estatística. Por vezes, mesmo sendo a matriz assimétrica e ponderada, torna-se necessário simetrizá-la e dicotomizá-la para realizar determinados cálculos, como por exemplo relacionados com identificação de subestruturas. Sendo a matriz simétrica há tantos casos verificados através do somatório das linhas como das colunas, visto que uma para cada linha se verifica exactamente o mesmo número de recíprocos nas colunas. No entanto no caso de uma relação não ser simétrica isto provocará um desequilíbrio nos valores totais obtidos pelos somatórios individuais de cada coluna e cada linha. Nestes casos o preenchimento da matriz é feito por duas vezes: uma para as relações emitidas pelas colunas e outra para as relações emitidas

pelas linhas. Os resultados obtidos para umas e outras serão significativamente diferentes. Para exprimir numa mesma relação diferentes tipos de transacção, por exemplo se se verificar -como é o caso do presente estudo - relações onde se reúnem simultaneamente ou pela realização de processos de natureza características diversas, transacção e controlo, há que representar estas duas tipologias relacionais, uma vez que ambas dão percepções diferentes de uma determinada realidade organizacional/social. Neste contexto será útil criar várias matrizes em que estas situações sejam representadas. Haverá então uma matriz que comportará as relações transaccionais, outra as relações de controlo isolando-se apenas os actores em que se verifica esta sobreposição. As relações consideradas numa perspectiva relacional podem ser identificadas e tratadas através deste método visto que numa díade a relação estabelecida entre dois actores, embora tenha repercussões na rede, não influencia as relações directas desse actor com outro com que mantenha um único tipo de relação. A análise posicional, no entanto, porque implica a comparação da posição ideográfica de um actor com todos os outros actores, torna necessário em cada matriz criada incluir todos os

actores da rede, já que as relações posicionais do actor com os restantes é condicionada pela natureza da relações estabelecidas.

A representação binária numa matriz não permite a representação de toda

a informação observada na rede. É, por exemplo, complexo representar a

intensidade de uma relação ou se quisermos a sua força. Um actor está conectado com outro, mas de que forma, com que intensidade, qual frequência dos seus contactos?

 

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Tabela 2.3 - Um exemplo de matriz de adjacência

Para ultrapassar esta contingência é possível a utilização de outros tipos de

dados, nomeadamente nominais, valores positivos e ainda intervalos, não sendo no entanto incluíveis na mesma matriz. As matrizes podem ter duas dimensões caso apresentem apenas dois tipos de entidades, i.e., as entidades representadas nas linhas sejam

idênticas às das colunas. Neste caso representamos igualdades e respectivas adjacências. Mesmo neste caso uma matriz pode ter mais que duas dimensões se estiverem em causa outras variáveis, como por exemplo o tempo. Se se pretender representar as conexões ente actores ao longo de um determinado período de tempo e se essas conexões se alterarem em função dessa variável tempo, teremos uma terceira dimensão que deve ser representada [54][120]. Uma matriz pode ser multimodal, ou seja, apresentar diversos tipos de entidades estabelecendo as relações entre elas. Po r exemplo avaliar relações sociais estabelecidas por actores em organizações e, simultaneamente, avalia a conectividade estabelecida entre esse mesmo conjunto de actores em contextos de actividades desenvolvidas nos tempos livres [54]. Refira-se que as categorias de dados utilizados em RAS são idênticos aos utilizados em estatística geral. A metodologia quantitativa em Ciências Sociais é de resto baseada em matemática estatística. Tem no entanto um propósito específico e portanto delimitado, ou, se quisermos, especializado. Apesar disso todas as medidas utilizadas podem ser obtidas, se bem que não directamente, através de programas estatísticos como o SPSS ou o STATISTICA.

2.4.2.3. Parâmetros de Avaliação

Antes de iniciar esta secção será talvez útil explo rar brevemente a relação entre análise RAS e matemática estatística geral. Embora esta metodologia utilize as medidas estatísticas nos seus planos descritivos, inferenciais e de teste de hipóteses, existem algumas diferenças que justificam uma aproximação particular aos métodos estatísticos convencionais, a mais flagrante das quais consiste no facto das variáveis utilizadas em RAS serem dependentes. A estatística descritiva aplica-se convenientemente à extracção das medidas caracterizadoras da rede considerada globalmente. A estatística inferencial no entanto encontra maior restrições para aplicabilidade a RAS por várias razões. Primeiro porque a inferência de resultados procura a identificação de possibilidades de generalização dos resultados que satisfaçam a condição de repetibilidade das condições

observadas e do resultado obtido. Na análise de redes este objectivo não é primordial quer porque não interessa generalizar uma população de rede específica e portanto não generalizável, ou porque a amostra/rede não foi obtida através de métodos de recolha estatísticos. Por outro lado o teste de hipóteses normalmente não é aplicável a RAS. Esta área da estatística pretende comparar hipóteses para deduzir da validade de um determinado resultado. O procedimento consiste na apreciação de um resultado relativamente a outro artificialmente determinado e designado por hipótese nula. O resultado desta comparação determina o grau de probabilidade da validade ou não da hipótese nula, sendo esta confirmada ou eliminada e, em função desse resultado concluindo-se pelo grau de probabilidade de repetição da ocorrência, mediante a verificação das condições observadas sobre o universo de análise [36]. O problema fundamental consiste no facto dos dados de rede serem por definição dependentes, na medida em que são relacionais, enquanto na estatística convencional as variáveis são independentes. A aplicação destas medidas sem a devida parametrização podem resultar em subavaliações da variabilidade real da amostragem. Nesta secção pretendemos incluir descrição de alguma das medidas de análise mais comuns em RAS. Não são de forma alguma exaustivas mas representam métodos básicos de análise a partir dos quais se desenvolvem variações e especializações algorítmicas. A sua inclusão neste trabalho não significa que todos tenham aplicação imediata na análise organizacional e mais concretamente no desenvolvimento de sistemas de informação. Pretende-se antes dar uma síntese descritiva de alguns parâmetros analíticos correntemente utilizados. Todos eles foram aplicados a título experimental à rede utilizada neste trabalho (ver capítulo 4) no entanto concluiu-se, em alguns casos, do seu interesse restrito no caso de estudo analisado. Isto não significa que as medidas consideradas de pouca utilidade para este caso não tenham real aplicabilidade em outros contextos determinados por factores como a natureza das organizações envolvidas, o quadro legislativo e regulamentador em que se integrem e ainda os objectivos que se pretendem alcançar através da análise organizacional e dos sistemas de informação subentendidos.

Para cada medida são dadas as seguintes indicações: A categoria, o título, a descrição da metodologia associada, a interpretação considerada na perspectiva de RAS, ou seja, qual o conhecimento (ou padrões sociais e comportamentais) que a medida pretende extraír dos dados analisados; a interpretação que numa óptica de concepção e implementação de sistemas de informação e sistemas de arquivo pode ser eventualmente retirada e, finalmente, o grau de aplicabilidade, segundo a nossa opinião, que a medida descrita pode ter para esta última meta. As diferentes medidas foram agrupadas em categorias obtidas pelos objectivos que normalmente presidem aos respectivos algoritmos e ainda de acordo com o nível de agregação de aplicação (actor individual, grupos, rede global) [22] [80] [98]. Com este objectivo foram identificadas categorias ou grupos de medidas. Embora estas categorizações não sejam uniformemente utilizadas por todos os autores. No entanto esta hierarquização corresponde de forma geral aos tipos de medidas vulgarmente utilizadas. O primeiro nível hierárquico de categorização diz respeito ao tipo macro de análise, ou seja, se se trata, como atrás referido, de uma abordagem relacional ou posicional. O segundo nível hierárquico corresponde ao nível de agregação das unidades individuais de análise. Finalmente no terceiro referem-se categorias de parâmetros de avaliação. Cada uma delas dispõe de objectivos especializados que serão brevemente descritos. Refira-se finalmente que para esta secção foram sobretudo seguidas as obras de Hanemman [54] e Wasserman [121]

Tabela 2.4 - Síntese de medidas de análise RAS

   

1.1

Densidade

 

A. Análise relacional

1. Rede global

1.2

Distância

1.2.1

Geodésicos

 
 

1.2.2

Centralização

   

2.1.1

Grau

2. Actor

2.1

Centralidade

2.1.2

Proximidade

individual

 

2.1.3

Intermediação

2.2

Rede egocêntrica

 
 

3.1

Cliques

3. Subgrupos

3.2

nCliques

3.3

nClãs

B. Análise

posicional

4. Similaridade

4.1

Posições/papéis

4.1.1

Equivalência estrutural

 

4.1.2

Equivalência

automórfica

4.1.3 Equivalência regular
4.1.3 Equivalência regular
4.1.3 Equivalência regular

4.1.3 Equivalência regular

A.1. Rede global

A conexão exprime a capacidade de comunicação de uma rede. O grau de

conectividade entre actores determina em parte a eficiência da rede em termos de fluxo de informação. As medições realizadas avaliam igualmente

a força de saída e de entrada de linhas para cada actor, identificando dessa forma os emissores e consumidores de informação.

A.1.1 Densidade Medida obtida pela média de todos os valo res aferidos e lançados na matriz. Quanto maior for a densidade maior a coesão da rede, maior acessibilidade e comunicabilidade de recursos se verifica.

A.1.2 Distância Avalia as distâncias, mínima, média e máxima, que separam os actores na rede.

A.1.2.1 Geodésicos Analisa os caminhos mais curtos existentes entre actores, sendo um caminho um conjunto de nós sucessivos unindo dois actores. Avalia portanto a medida de atingibilidade ou, por outras palavras, a capacidade de um actor alcançar outro nó na rede.

A.1.2.2 Centralização Avalia a percentagem de centralização de uma rede considerando a existência de um ponto virtual de referência central (baseado na topologia de rede em estrela) e as médias de variações relativamente a esse ponto.

A.2 Actor individual

A.2.1. Centralidade Normalmente em RAS a centralidade e poder são entendidos como directamente relacionados, ou seja, quanto mais central se encontra

posicionado um actor maior será a sua capacidade relacional de exercício de poder. No entanto, como veremos, nem todos os analistas pensam dessa maneira. Há no entanto um aspecto generalizadamente aceite: o poder é inteiramente relacional, i.e., exerce-se relativamente a outro(s) actor(es) sobre o qual esse mesmo poder é exercido [114]. Existem fundamentalmente três tipos de medições que reflectem aspectos conceptuais e morfológicos do exercício do poder. São eles o grau, a proximidade e a intermediação.

A.2.1.1 Grau

O grau avalia o número de conexões que um actor possui. Quantas mais

existirem maior será teoricamente o seu poder.

A.2.1.2 Proximidade

A proximidade avalia a frequência com que determinado actor se situa nas

proximidades de outros actores; essa proximidade pode indicar poder na medida em que a influência é mais facilmente exercida estando perto do objecto de exercício de poder.

A.2.1.3 Intermediação

A intermediação avalia a capacidade de um actor ser necessário para

outros actores comunicarem entre si. Esta medida tem muito a ver com os conceito de “vazio estrutural” [27] e de capital social. Um actor que tenha muitos contactos e que impeça os actores com que tem esses contactos de comunicarem entre si, está numa posição de vantagem. Este conceito é muito vulgarizado e utilizado em estratégia concorrencial.

A.2.2 Rede egocêntrica As medidas incluidas nesta subcategoria reportam-se à rede considerando como ponto focal um actor, daí o nome de egocêntrica. Na realidade procura-se determinar os tipos de relações que unem esse actor a cada um dos restantes. O exercício é sucessivamente aplicado a todos os actores que integram a rede individualmente considerados. Avalia-se a conectividade de todos os nós da rede considerados de forma individual e sucessiva.

3. Subgrupos Esta categoria de medições incide sobre a identificação dentro da rede de subgrupos que estabelecem conexões particularmente fortes entre os actores que os compõem. Este tipo de análise pretende não só identificar subgrupos mas também o seu comportamento e atitudes relativamente a outros subgrupos e à globalidade da rede. Este tipo de análise tem duas aproximações metodológicas designadas por base-topo e topo -base [54]. No primeiro caso parte-se da estrutura atómica de uma rede que é composta por uma díade (dois actores conectados) e sobe-se a partir daí tentando determinar todo s os outros actores que se conectam com cada um dos membros da díade que constituíu o ponto de partida, até obter um grupo coeso. No segundo caso partindo-se da rede completa, pretende-se identificar os pontos de desconexão (“cut-edges”) constituídos por actores ou subgrupo de actores que caso fossem retirados da rede a tornaria, no todo ou em parte, desconectada. Na primeira abordagem os critérios de inclusão e coesão podem ser flexibilizados de forma a poder-se identificar não apenas cliques perfeitas (teoricamente uma clique perfeita será aquela em que se verificam todas as conexões possíveis entre cada um e todos os seus membros), mas grupos com elevado grau de coesão embora esta não seja integral. Os grupos definíveis enunciados em ordem descendente de coesão são ncliques, nclãs, kplexos, knúcleos. A aplicabilidade destes variações de uma medida depende (1) das características da estrutura social/organizacional representada na rede; (2) dos objectivos pretendidos pela análise. Na aplicação desta medida à rede de teste e para todos os casos foi definido “4” como número mínimo de participantes num subgrupo.

3.1 Cliques Identifica subgrupos de actores entre os quais se verificam todas as conexões possíveis, ou seja, possui o grau de coesão máximo e nenhum outro actor na rede é adjacente a todos os membros da clique. Pode haver ocorrência de sobreposição, i.e., os membros pertencerem a mais que uma

clique simultaneamente. Este parâmetro comporta várias submedidas com flexibilização de critérios que podem ser eficazes em vários contextos sociais.

B. Análise Posicional

B.4. Similaridade Avalia a similitude topológica de actores ou conjuntos de actores na rede relativamente à totalidade de actores.

B.4.1 Posições/papéis Esta categoria de análise pretende identificar posições dentro da rede. Entende-se por posições actores ou conjuntos de actores que mantêm o mesmo perfil de relacionamento com os restantes actores da rede. Esta realidade é expressa pela proposição AÆ B; C Æ B então AÛC. Na prática pretende-se identificar equivalências. Dois actores equivalentes ocupam portanto o mesmo espaço na rede sendo substituíveis visto que ambos desempenham exactamente os mesmos papéis e mantêm as mesmas relações com os restantes actores. Esta medida está associada à categoria de análise realizada em grupos e subgrupos para a identificação de cliques. Do ponto de vista de análise RAS este tipo de análise sobre uma estrutura social (representada pela rede e matriz) pode ser considerada sob duas perspectivas:

1/ a identificação de actores similares leva a identificação de redundância e a “dispensabilidade” de um deles; 2/ a identificação de actores posicionalmente equivalentes indica que esses actores têm à disposição a mesma estrutura de oportunidades e constrangimentos dentro da rede observada. Esta medida está compartimentada em 3 tipos de posições sucessivamente flexibilizadas. A razão para a necessidade desta flexibilização é simplesmente o facto de ser raro encontrar uma equivalência estrutural perfeita. Aliás esta é possível apenas matematicamente, visto que na realidade existem apenas aproximações maiores ou menores à similitude absoluta.

Para além da equivalência estrutural são aplicadas a equivalência automórfica e regular.

4.1.1 Equivalência estrutural

Identifica posições idênticas que actores individuais ou integrados em grupos ocupam na rede. Os actores com equivalência estrutural podem não ter conexões entre si, mas dispõem de idênticos perfis relacionais com os restantes actores da rede. A equivalência estrutural perfeita é uma realidade praticamente virtual já que é difícil em contexto real dois actores ou conjuntos de actores desempenharem ocuparem exactamente os mesmos papéis. São portanto retornadas aproximações expressas em números decimais (sendo 1 a equivalência máxima e 0 a mínima).

4.1.2 Equivalência automórfica

Esta situação verifica-se quando se torna possível realizar um reposicionamento de actores, i.e., uma redistribuição física na rede, sem que as propriedades dessa rede sejam alteradas. Mais que actores individuais, manipula sobretudo conjuntos de actores. Esta análise procura determinar conjuntos de actores “trocáveis” dentro da rede mas cujo reposicionamento não afecte estruturalmente a rede em que se integram.

4.1.3 Equivalência regular

Na equivalência regular os nós são equivalentes regularmente se tiverem o mesmo perfil de laços com outros conjuntos de actores que também são equivalentes regularmente. Esta afirmação é exemplificada pelos conceitos sociais de, por ex., “mãe”, “patrão”, “colaborador”, etc. Um funcionário é similar a outro havendo no entanto, se detalharmos a posição, um conjunto significativo de diferenças marcantes. Esta equivalência funciona portanto como generalização de conceitos de posições sociais. A atenção é focada no papel desempenhado, ou seja no arco ou relação entre actores, e não nos “valores” dos actores envolvidos. A atenção é focada no papel desempenhado, ou seja no arco ou relação entre actores, e não nos “valores” dos actores envolvidos. Numa relação chefe Ûcolaborador é indiferente quem é individualmente o patrão ou o funcionário ou em que empresa ou sector eles se integram. O tipo de relação (papel) será idêntico

independentemente dessas variáveis. Em vez de assentar nos atributos dos

actores para definir papéis sociais e compreender como estes dão origem a

padrões de interacção, a equivalência regular procura identificar papéis

através das regularidades dos padrões das relações (arcos), tenham ou não

os ocupantes dos papéis nomes para as suas posições.

2.4.2.4 Medidas específicas de análise

Apresentam-se seguidamente algumas medidas de análise mais

vulgarizadas na abordagem baseada em RAS. Como atrás referido, este

conjunto apresentado não esgota de forma alguma as medidas existentes e

as diversas variações e refinamentos desenvolvido e aplicados. Pretende-se

apenas dar uma idéia geral dos métodos analíticos usados e resultados

específicos esperados.

Para cada medida é são indicados o nível e categoria em que se insere (ver

tabela 2.4) o título, uma descrição sucinta, a interpretação aplicável aos

resultados obtidos na perspectiva de RAS, a possível interpretação da

medida sob o ponto de vista do Sistema de Informação (SI) e Sistema de

Arquivo (SA) e finalmente a potencial aplicabilidade da mesma sob este

último ponto de vista (SI/SA)

Título:

Estatísticas descritivas: medidas de tendência central e de dispersão

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede global

Descrição:

Análise estatística básica aplicada a toda a matriz de

adjacência.

No

caso

de

se

tratar de matriz

assimétrica, i.e., direccionada, aplicam-se estas medidas às colunas e linhas.

Interpretação

As medidas gerais aplicadas a toda a matriz dão a densidade através da média, i.e., a percentagem das relações efectivamente verificadas relativamente a todas as relações potencialmente verificáveis na matriz 8 . A variância e o desvio padrão indicam a variabilidade das relações constatadas. Uma matriz pouco densa é menos propícia à transmissão de recursos e a transmissão dos mesmos pode ser mais lenta. A análise aplicada às colunas indica o grau de

Ras:

8 Fórmula N*(N -1) para N= todos os vértices da rede

 

emissão dos actores de recursos. Segundo normas aplicáveis a matrizes de adjacência a leitura da

mesma é feita da fila (que emite) para a coluna (que recebe). Esta avaliação permite portanto de acordo com a teoria RAS indicação de influência e poder na

medida

em

que

se

determina os actores

essencialmente emissores ou receptores de recursos - ou que detêm uma posição equilibrada entre essas alternativas (no caso deste trabalho os recursos são constituídos por informação e documentos). A análise de cada coluna retorna indicação da percentagem dos actores que recebem arcos. Muitos arcos recebidos podem indicar centralidade, i.e., posição central na estrutura observada assim como posições de prestígio

Interpretação

A observação da densidade de uma estrutura social

SI/SA:

reflecte a maior ou menor apetência da circulação e disseminação da informação. Atendendo à vontade de

reorganizar

a

forma

como

processos

interorganizacio nais decorrem. Por outro lado a informação sobre actores na sua qualidade de emissores, receptores ou mantendo uma posição equilibrada, podem ou devem ser potenciados no contexto de um sistema de informação/arquivo

Aplicabilidade :

Elevada

Título:

Transitividade

 

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede global

 

Descrição:

Análise estatística

social

em

que

são medidas e

contadas

todas

as

ocorrências

em

que

existe

transitividade entre subestruturas de três actores. A

transitividade

perfeita

entre

tríades

baseia-se

no

seguinte teorema: [iÆ j]; [jÆ k]; [iÆ k]. Esta condição

é por vezes flexibilizada não se exigindo a conexão final

[i Æ k]

estando

nesse

caso

perante

tríades

vacuosamente transitivas, i.e., aquelas que não contêm

suficientes arcos para respeitar as

condições do

teorema 9 . Na prática uma tríade

é um conjunto

de

triplos, compostos pelas diferentes possíveis combinações entre os nós constituintes Ti, j, k, ; Tj, i, k, etc. A identificação destas subestruturas pode ser feita pelo processo de adjacência, i.e., actores vizinhos, ou pelo método euclidiano que pressupõe estimação de distâncias lineares. Os resultados diferem em cada método.

Interpretação

As relações de tríades são por vezes consideradas por sociometristas, como as mais perfeitas sob o ponto de vista de circulação de recursos. Nesse sentido aferir do número de tríades e da sua não vacuidade, ou seja a

Ras:

9 cf. Wasserman, p. 245.

 

sua transitividade, ajuda a caracterizar a eficiênc ia social e, consequentemente, a capacidade de comunicação de uma rede.

Interpretação

Avaliar a capacidade e eficiência de uma estrutura social, da sua potencialidade e preparação para suportar sistemas de informação consideradas as capacidades existentes de comunicação e circulação de recursos. Uma elevada transitividade potencia a circulação de informação enquanto um valor reduzido permite supor da fraca conectividade da rede e consequente necessidade ou possibilidade de elaborar um sistema de informação que justamente colmate essa falha. Neste sentido esta medida pode permitir aferir de necessidades para identificar o que deve ser alterado:

por exemplo quais os conjuntos (tríades) transitivos de actores existentes (que à partida apresentam conectividade) e quais os actores que incluem conjuntos intransitivos.

SI/SA:

Aplicabilidade :

Baixa.

Normalmente

esta

medida

é

utilizada

em

contextos de redes de afinidades, suporte e mobilização

Título:

Caminhos geodésicos

 

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede Global | Distância

 

Descrição:

Determina o caminho mais curto entre dois actores. Numa estrutura de rede cada actor pode atingir outro actor aí existente quer de forma directa, i.e., está-lhe adjacente, quer de forma indirecta necessitando de intermediário s para atingir a meta. Eventualmente um actor pode estar desconectado e nesse caso a distância entre ele e a rede é considerada infinita.

Interpretação

Perante opções de comunicação um determinado actor escolhe o caminho mais curto. No entanto, circunstâncias diversas podem alterar esta premissa. Por exemplo se os actores adjacentes são unidos por relação de controlo ou se o seu estatuto recíproco é por qualquer motivo modificado (uma reestruturação organizacional, alterações de competências da instituição, etc.). Trata-se na realidade de modificações incidentes sobre a relação (arco estabelecido) que altera os atributos da mesma. A coesão da rede é em parte avaliada pelos valores obtidos por este cálculo. Na realidade o que é indicado é o número de arcos que separa cada actor dos restantes. Quanto maior as distâncias (nós intermédios) entre um actor emissor e um actor destinatário, maior a lentidão na comunicação de recursos (propagação de informação)

Ras:

Interpretação

A aferição

da

coesão

da

rede pode

ser um factor

SI/SA:

significativo na definição de SI. Imaginemos que num contexto transaccional se deseja averiguar da real forma de comunicação de recursos no contexto

 

funcional 10 de processos organizacionais. A distância de comunicação entre actores é um dado importante para determinar por exemplo a infra-estrutura tecnológica a utilizar, particularmente se os papéis desempenhados pelos actores envolvidos são nucleares para o desempenho do processo (Ver cap. 4). No caso analisado verifica-se esta medida como indicadora de actores que desempenham papéis preponderantes nos processos interorganizacionais. Do ponto de vista estrutural esta medida pode dar pistas no aspecto de aferir se actores que participam indirectamente em

processos estão distantes

daqueles que

participam/influenciam directamente nesses mesmos processos. As acções a empreender podem influenciar a infra-estrutura tecnológica, a rede de informação e de arquivos (por exemplo colocar determinado documento produzido no processo disponível a actores que até aí não dispunham desse acesso) Muitas vezes verifica-se que a comunicação entre actores não existe, pese embora fosse suposto tal acontecer, quer por motivos sociais, tecnológicos ou outros. Por outras palavras, os canais de comunicação podem por alguma razão encontrar-se obstruídos tornando a troca recursos ineficiente ou mesmo inexistente. A identificação desta circunstância permite diagnosticar eventuais hiatos que convenha manter ou contrariamente colmatar. No caso de um sistema de informação coeso os vazios de comunicação poderão ser considerados negativos pese embora o facto que a informação não deve ser igualmente difundida, visto que diferentes funções ou papéis exigem informação diferenciada.

Aplicabilidade :

Elevada

Título:

Fluxo máximo

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede Global | Distância

Descrição :

Esta medida pretende aferir do total de pontos de transmissão que um determinado actor possui adjacentes a si. Este valor dá o grau de “escolha” que esse actor detém relativamente à transmissão ou recepção de um recurso.

Interpretação

Esta medida está relacionada com o conceito de intermediação de uma rede. Permite determinar a capacidade de um actor de enviar recursos e influência. Inclui identificação de grupos (clusters) para determinar padrões similares de comportamento e posicionamento de actores

Ras:

Interpretação

Na rede estudada é normalmente vantajoso determinar actores com comportamento e/ou necessidades

SI/SA:

10 Por contexto funcional entende-se o ambiente organizacional directamente ligado ao desenvolvimento de processos e produção documental

 

similares a nível de partilha de recursos. As medidas de fluxo máximo permitem identificar padrões à partida latentes e portanto não detectáveis através de outros processos.

Aplicabilidade:

Elevada, mas as medidas de centralidade proporcionam de certa forma resultados idênticos e mais detalhados.

Título:

Influência de Hubbell e de Katz

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede Global | Distância

Descrição:

Estas medidas, desenvolvidas pelos sociólogos que lhes deram o nome, permitem aferir o total de arcos necessários para conectar dois actores (díade) , atribuindo no entanto uma ponderação por cada arco que compõe a distância geodésica. Baseia-se no pressuposto que a dimensão de uma distância não é irrelevante. Quanto mais perto um actor estiver dos restantes maior coesão da rede e portanto a velocidade de circulação de recursos (informação). Estas medidas, no entanto, não diferenciam relações direccionadas, assumindo as linhas como não dirigidas

Interpretação

As distâncias são valoradas sendo acrescentado a cada arco do conjunto que separa dois actores, segundo um determinado coeficiente de ponderação (variável em função da rede em análise e dos critérios do analista). Um valor menor portanto significa uma maior coesão ou proximidade entre dois actores

Ras:

Interpretação

Os resultados deste parâmetro são aperfeiçoamentos do anterior, pelo que as observações feitas aplicam-se- lhe. Permite apenas determinar com maior grau de detalhe valores de coesão entre actores ou participantes em processos organizacionais.

SI/SA:

Aplicabilidade:

Média

Título:

Influência de Taylor

Nível:

Relacional

Categoria:

Rede Global | Distância

Descrição:

Esta medida toma em atenção a direcção dos arcos associados aos actores, atribuindo factor de atenuação que permite valorar diferenciadamente os arcos que entram e aqueles que saem. Os valores positivos são interpretados como preponderância de arcos enviados sobre recebidos ou complementarmente como um equilíbrio entre os dois. Os arcos que saem são expressos por valores negativos

Interpretação

De novo esta medida pretende determinar a relação de um actor com os restantes analisando o grau de conectividade através do factor distância. Possui a vantagem de ser possível diferenciar os emissores dos receptores, o que possibilita a aferição do

Ras:

 

direccionamento de actores, e do seu papel no conjunto das relações que mantém com os restantes actores da rede.

Interpretação

A

informação é um recurso que não obedece a circuitos

SI/SA:

ponderadamente idênticos. Nem todos os actores recebem a mesma informação ou se espera de um determinado actor tipos específicos de informação. O equilíbrio necessário e preciso é uma meta desejada em gestão de informação. Receber/enviar a informação na qualidade e quantidade estritamente necessárias aos actores certos nos momentos certos. Neste contexto esta medida parece mais útil que as anteriores já que identifica para cada actor ao seu relacionamento com os restantes de forma normalizada e informativa sobre o seu papel como emissor/receptor de informação

Aplicabilidade:

Média/elevada

Título:

Medidas de Freeman de centralidade de grau

 

Nível:

Relacional

 

Categoria:

Actor individual | Centralidade

 

Descrição:

Esta medida calcula o grau de entradas e saídas para

cada actor normalizando

os

resultados

para

comparações absolutas entre diferentes redes.

Interpretação

O

grau de saída revela influência, O grau de entrada

Ras:

revela prestígio. Pode ser concluída eventual vontade de aproximação de actores mais prestigiados e centrais.

Interpretação

Esta medida é semelhante à análise estatística por linhas e colunas. No caso analisado as médias são idênticas enquanto se verifica variabilidade maior na medida de grau de saída. Há no entanto um parâmetro atribuído em medidas de centralidade: a macroperspectiva da rede denominada de medidas de centralização do grafo de freeman. Este parâmetro exprime o grau de desigualdade ou variância da rede observada, como uma percentagem de uma rede perfeita em forma de estrela da mesma dimensão, ou seja,. com o mesmo número de nós e linhas. De acordo com a perspectiva RAS uma rede estrela será a

estrutura de equilíbrio perfeita, em que todos os actores

SI/SA:

se

encontram a idênticas posições uns dos outros.

 

Aplicabilidade:

Relativa. Não será particularmente útil dado ser muito semelhante às estatísticas gerais. E estas bastariam para uma análise “operacional” de uma situação. No entanto a macro perspectiva pode ter interesse embora seja sempre um valor síntese.

Título:

Proximidade de Freeman

Nível:

Relacional

Categoria:

Actor individual | Centralidade

Descrição:

A

medida anterior avaliava o número de laços directos

 

que cada actor possui não tendo em conta os laços indirectos. Este facto pode potencialmente ocasionar enviesamento já um actor pode estar fortemente conectado com actores que por sua vez estão fracamente conectados com outros sectores da rede. Nesta circunstância haveria uma forte conectividade “local” mas não significativa na globalidade da rede. Esta medida tem em conta as relações indirectas utilizando para o efeito o total de caminhos geodésicos que um actor mantém com os restantes. A soma destas

distâncias corresponde à distância (“farness”) Este valor

é

dividido por 1 e depois normalizado relativamente ao

actor

mais

central.

Quanto

menor

for

o

valor

encontrado mais central é o actor.

 

Interpretação

O

valor macro encontrado dá o grau de concentração da

Ras:

rede. Na realidade pretende-se identificar ou despistar subgrupos na rede que minem a sua coesão. O valor macro é obtido pela desigualdade comparativa com uma rede em estrela da mesma dimensão (ver medida anterior). Um número elevado exprime elevada concentração da rede.

Interpretação

Estas medições são especialmente úteis em contexto de investigação sociológica e não em contextos interorganizacionais em que as posições são à partida definidas. Em cenários de organizações virtuais podem no entanto contribuir para definir graus de hierarquização no desempenho de tarefas [3]. Pode ainda ser útil em contextos de desenvolvimento concorrencial e hostis, ou ainda de reestruturação

SI/SA:

Aplicabilidade:

Neste trabalho reduzida. Noutros contextos pode ser útil.

Título:

Centralidade intermediária

Nível:

Relacional

Categoria:

Actor individual | Centralidade

Descrição:

Esta medida vê um actor como ocupando uma posição privilegiada na medida em que esse actor se situa nos caminhos geodésicos existentes entre outros actores na rede. Por outras palavras, quanto mais pessoas dependerem de um actor na rede maior será o seu poder. O algoritmo localiza os caminhos geodésicos entre todos os pares de actores e contabiliza a frequência com que cada actor se encontra em cada um desses caminhos.

Interpretação

Quanto maior o valor estimado para cada actor maior será o seu grau de intermediação, ou seja, a capacidade de constituir ponto de passagem obrigatório [77]

Ras:)

Interpretação

Esta medida é de aplicação ambígua neste contexto, pelas razões já apontadas (rede com processos e relações obrigatórias e determinadas por um quadro legal). Em termos de aplicação de SI, pode ser útil, tal

SI/SA:

 

como as restantes medidas de centralidade para averiguar do poder exercido por cada actor na rede e da sua influência no desenvolvimento de processos

organizacionais (e inter-organizacionais). A estrutura de informação pode ser determinada em função da correlação de forças existente, ou da capacidade de cada actor constituir um ponto de passagem. Se um actor ocupa uma posição central no desenvolvimento de processos nucleares ao negócio, a estrutura de informação deverá ter isso em conta de forma a optimizar o desenrolar do mesmo. A não ser que se

pretenda

retirar

poder

a

esse

mesmo

actor

(imaginemos

uma

reestruturação

de

uma empresa

baseado na adopção de novos processos organizacionais, vulgarmente designado por um processo BPR = Business Process Reengeneering) o que pode justificar a “decrementação” de influência desse actor. Este aspecto é igualmente aplicável a organizações virtuais e tradicionais no contexto de relação tarefa/estrutura [3]

Aplicabilidade:

Média

Título:

Centralidade de fluxo

 

Nível:

Relacional

Categoria:

Actor individual | Centralidade

 

Descrição:

Esta medida é obtida através de proporção do fluxo

completo entre dois actores (ou seja, através de todos

os caminhos

que

os

conectam)

que

ocorre nos

caminhos em que o actor participa. Na realidade é

retornado o grau de mediação dos actores

 

Interpretação

Esta medida pretende determinar a capacidade de um actor utilizar não apenas os caminhos geodésicos relativamente a um actor que deseje alcançar, mas de utilizar todos os caminhos disponíveis no caso do caminho mais curto (geodésico) lhe ser inacessível por, suponhamos, a oposição de outro actor. Esta medida articula-se com a anterior, podendo confirmá-la ou não. Em todo o caso permite sempre um refinamento mais preciso para a percepção dos actores mais centrais na rede.

Ras:

Interpretação

Identificação de caminhos alternativos para a circulação de informação, prevendo percursos alternativos quer em situações de contingência quer com o objectivo de reduzir dependência no contexto inter-organizacional

SI/SA:

Aplicabilidade:

Média

Título:

Índice de poder de Bonachich

Nível:

Relacional

Categoria:

Actor individual | Centralidade

Descrição:

O algoritmo distingue a centralidade do poder

Interpretação

Bonachich defende a teoria que centralidade não significa necessariamente poder. Um actor pode estar numa posição central mas o poder não ser efectivo em virtude do tipo de conexão estabelecida com tipos específicos de actores. A conexão com actores que se encontram “mal” relacionados, traduz normalmente poder porque se cria um ascendente de um actor sobre os outros, explicado precisamente pela má qualidade relacional desses actores, ou seja a sua falta de opções de comunicação e consequente dependência. Se um actor está conectado com outros actores que detêm um capital conectivo eficaz, então o poder desse actor será reduzido. O facto de um actor ter relações com actores que por sua vez têm muitas relações com outros actores reduz o poder desse primeiro actor na medida que o seu grau de influência é limitado pelo capital relacional dos actores com quem se conecta. Na prática este índice não considera apenas o número de conexões mas também a sua qualidade bem como a dos actores conectados (o seu capital social).

Ras:

Interpretação

A

forma mais vulgar de representar uma instituição é

SI/SA:

através do seu organigrama que transmite uma imagem demasiado estática e formal do funcionamento da organização. As estruturas de poder, representadas por linhas de hierarquia vertical não correspondem por vezes ao real poder exercido pelos actores institucionais. [91][92], nem tão pouco as formas por que os actores executam processos correspondem ao institucionalmente formalizado. Esta estrutura “subterrânea” é designada por organigrama informal e dá a perspectiva de como as coisas realmente funcionam debaixo do organigrama institucionalizado. A sua identificação e dos seus actores determinantes é fundamental para o funcionamento de a compreensão da circulação da informação e consequentemente para o desenvolvimento de sistemas de informação adequados.

Aplicabilidade:

Elevada. Num sistema de informação que se aplica a sistemas de actividades humanas é necessário determinar esta dicotomia entre centralidade e poder, traduzida em, por exemplo, quem pode influenciar um processo ou quem participa em vários processos sem a capacidade de os influenciar (alterar).

Título:

 

cliques

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação base-topo

Descrição:

Método bottom-up (base – topo). A partir de uma díade incrementa-se o número de actores totalmente

conectados

Interpretação

A

determinação de cliques permite identificar subgrupos

Ras:

analisar possíveis comportamentos diferenciados ou desviantes que ajudem a compreender a estrutura social.

e

Interpretação

Uma análise deste género pode ser útil tanto num

SI/SA:

contexto organizacional como interorganizacional. Mas note-se que no primeiro caso a aplicabilidade desta

medida irá variar muito em função

da estrutura e

cultura corporativa utilizadas. Normalmente na AP

(Administração Pública), por ex., a estrutura burocrática

e

hierarquizada dá origem a constituição de focos de

isolamento orgânicos ou funcionais em que cada serviço só se ocupa dos seus processos e problemas sem

comunicar

com

os

restantes.

Um

exemplo

paradigmático desta realidade é por ex., o facto observado em serviços camarários e através de abertura temporalmente sucessiva de obras exactamente no mesmo local coordenadas por serviços diferentes. Esta medida é aplicável em contextos de horizontalização de trabalho e na criação de uma estrutura de projectos e matricial. Neste caso formam- se grupos (em princípio coesos) unidos por objectivos finitos comuns. A análise de cliques pode ser aplicável para identificar padrões de comportamento social e afinidades comuns entre funcionários; padrões de interesses ou desenvolvimento funcional comum de funcionários (por ex. relações provenientes de mesmo tipo de formação ou interesses funcionais idênticos). Note-se que o trabalho cooperativo (CSCW) é um ponto crítico de sistemas de informação. Em contextos interorganizacionais as coisas tornam-se diferentes. De novo aqui se torna a verificar como condição prefiguradora a cultura e estrutura interorganizacional adoptada. Acrescente-se ainda o quadro regulamentador impositivo, se o houver. A identificação de cliques pode ter duas aplicações práticas: 1/ A definição de grupos de trabalho eficazes e consequente planeamento e montagem de infraestrutura de informação. 2/ A monitorização de coesão de grupos constituídos.

Aplicabilidade :

Média / elevada

 

Título:

nCliques

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação base-topo

Descrição:

Esta medida é uma flexibilização da anterior. Partindo do princípio que pode ser dif ícil encontrar cliques totalmente conectadas, introduz -se um elemento de folga. Esse elemento é a distância admissível a que os actores podem estar conectados (ver conceito de caminhos e caminhos geodésicos). O analista define o

 

valor de “n” que representa a distância conectiva admissível para o caso em estudo

Interpretação

Esta medida equivale à formalização da proposição “os amigos dos meus amigos”. Neste caso define um círculo de relações que podem ser de diversos tipos: amizade, funcionais, trabalho, ou acesso a informação ou a arquivos/documentos

Ras:

Interpretação

Trata-se de um refinamento da anterior. Dá uma

SI/SA:

perspectiva mais pormenorizada e rica da existência de subgrupos. Note-se que o critério de constituição de subgrupos obedece apenas aos critérios de recolha de dados para análise. Neste caso sendo o pólo orientador

a

informação e documentos.

 

Aplicabilidade:

Média

Título:

nClãs

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação base-topo

 

Descrição:

Trata-se da aplicação do método para determinar nclãs mas acompanhado de uma condição:

 

Interpretação

Pode ser totalmente idêntica à anterior. Este método impede que um actor membro de uma clique e que esteja conectada com actores que não participem de forma alguma nesse subgrupo, seja contabilizado.

Ras:

Interpretação

Idêntica à anterior

SI/SA:

Aplicabilidade:

Baixa. Será essencialmente aplicável à investigação de carácter social. Numa rede e sistema de informação a contabilização de actores não participantes na clique é irrelevante. Apenas numa situação de restrição de acesso a informação esta medida pode ser pertinente. Imaginemos que um

 

actor faz parte

de

uma clique

e

que apenas os

membros dessa clique podem ter acesso na rede a

 

documentos classificados como restritos ou confidenciais.

Título:

kPlexos

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação base-topo

Descrição:

Neste caso inclui-se uma variável de restrição. Um actor

é

membro de uma clique se tiver conexões (o atributo

“n” é aplicável) com todos os membros da clique excepto um número “k”. Dito de outro modo, esta aproximação indica que um nó é membro de uma clique de dimensão “n” se mantiver relações directas (adjacentes) com n-k membros dessa clique. Na rede analisada por exemplo determinou-se k ="2” a

 

dimensão da rede é de 16 actores o que significa que um actor é membro de uma clique se tiver conexões com o número “n” de actores (determinado pelo analista e neste caso 3) menos 2 (=k). Neste caso o resultado não seria significativo dado que o actor formaria praticamente cliques com todos os restantes.

Interpretação

Este método permite a identificação de muitos e pequenos subgrupos dentro da estrutura de teste, focando a atenção em sobreposição e centralidade em

vez de solidariedade e atingibilidade. Por exemplo, na rede analisada verifica-se que nenhum actor aparece e

Ras:

todas

as

cliques,

o

que

pode

indicar

uma

rede

descentralizada.

Podemos

igualmente

contabilizar

o

actor(es) que mais surgem e nas cliques definidas obtendo assim uma perspectiva dos actores mais centrais

Interpretação

Trata-se de uma medida demasiado detalhada para ser útil no contexto de sistemas de informação. A centralidade é importante mas é dada por outras medidas já descritas. A identificação de cliques é igualmente importante mas não justifica esta medida que na prática retorna “falsas” cliques

SI/SA:

Aplicabilidade:

Baixa

Título:

Conjuntos lambda

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação topo -base.

Descrição:

rata-se de encontrar na rede

a

ou

as

estruturas

disruptivas, i.e., sem as quais a rede ou partes da rede ficariam isoladas

Interpretação

Identificação de subgrupos coesos que constituem blocos de desconexão da rede.

Ras

Interpretação

A aplicação neste contexto tem uma perfeita identificação com a análise SWOT (pontos fortes; pontos fracos; constrangimentos; oportunidades) normalmente empreendida em abordagens de definição de planos estratégicos de sistemas de informação (PESI). Neste âmbito esta medida contribui para a compreensão de pontos fortes internos, i.e., pontos necessários para a coesão da organização,

SI/SA:

Aplicabilidade:

Média/baixa

Título:

Facções

Nível:

Relacional

Categoria:

Subgrupos

Sub-categoria:

aproximação base-topo

Descrição:

Em termos de RAS os actores dizem-se equivalentes se detêm idênticos perfis e relações com os outros actores. Nessa perspectiva torna-se possível fraccionar a

 

estrutura em partições de acordo com critério de similitude dos actores conectados entre si.

Interpretação

Esta aproximação relaciona-se com a noção de hiatos estruturais como elementos de poder. Permite num grafo direccionado avaliar, diferenciando, emissores e receptores de recursos. Em análise social pode determinar potenciais amigos e inimigos.

Ras:

Interpretação

As observações anteriores aplicam-se a esta medição

SI/SA:

Aplicabilidade:

Média/baixa

Título:

Coeficiente de correlação de Pearson

Nível:

Posicional

Categoria:

Similaridade | Posições/papéis

Sub-categoria:

equivalência estrutural

Descrição:

Matriz de similitude entre actores que computa a sua proximidade relativamente a todos os outros actores. Os resultados variam entre –1 interpretado como os dois actores terem perfis de relações completamente opostos e 1 que representa equivalência estrutural perfeita.

Interpretação

Identificação de capital social de actores e posições ou blocos de posições similares na rede analisada

Ras:

Interpretação

Perante uma situação de análise de uma organização será importante determinar actores que desempenham ou possam desempenhar papéis exactamente idênticos e relativamente aos mesmos actores. Do ponto de vista de eficiência, eficácia, efectividade devolve a existência de redundância ou sobreposição funcional. Um SI ou estrutura de informação [58], sob uma perspectiva singular é essencialmente uma “dialéctica” entre normalização e flexibilidade. Nesta perspectiva esta análise pode justificar-se para a detecção em grandes estruturas organizacionais ou inter-organizacionais, pontos de redundância informativa (actores que sejam receptores, emissores ou híbridos do mesmo tipo de informação, partindo do princípio que essa situação é disfuncional ou no mínimo inútil!). Uma aplicação mais evidente situa-se no campo de BPR o que escapa ao domínio exclusivo de SI.

SI/SA:

Aplicabilidade:

Depende do objectivo que se pretenda atingir. No caso da rede de análise tem baixa utilidade. Mas pode por exemplo definir na infra-estrutura de informação/arquivo actores que, visto a sua posição ser idêntica, devam ter acesso aos mesmos documentos na rede.

Título:

Distâncias euclidianas

Nível:

Posicional

Categoria:

Similaridade | Posições/papéis

Sub-categoria:

equivalència estrutural

Descrição:

Trata-se de, ao contrário da medida anterior, de uma medida de dissimilitude. Neste caso o valor=”0” corresponde a equivalência estrutural total diminuindo esta qualidade de forma directamente proporcional ao incremento dos valores obtidos para cada relação. Ou seja o resultado, na prática, é a distância normalizada entre actores e grupos de actores e quanto menor a distância maior a similitude. Os resultados são normalmente idênticos à medida anterior.

Interpretação

Esta medida é menos eficiente do que a anterior visto que não permitindo valores negativos não é dado o peso de afastamento entre posições dissimilares. Neste sentido é menos clara que a anterior

Ras:

Interpretação

idem da anterior

SI/SA:

Aplicabilidade:

idem da anterior

Título:

Percentagem de ocorrências exactas (percentage of exact matches)

Nível:

Posicional

Categoria:

Similaridade | Posições/papéis

Sub-categoria:

equivalência estrutural

Descrição:

Esta medida contabiliza entre dois actores qual a percentagem de vezes em que se verifica (ou não verifica) a ocorrência de relação entre esses actores com outros idênticos actores.

Interpretação

O resultado desta medida identifica a proximidade posicional de actores

Ras:

Interpretação

Idem, anterior

SI/AS:

Aplicabilidade:

Idem, anterior

Título:

Similitude máxima

Nível:

Posicional

Categoria:

Similaridade | Posições/papéis

Sub-categoria:

equivalência automórfica

Descrição:

Baseia-se em equivalências geodésicas, sendo utilizada a distância euclidiana para determinar a dissimilaridade entre os perfis de distâncias para cada par de actores. O algoritmo marca os actores com perfis de distância idênticos como mais automorficamente equivalentes. A escala começa em zero (mais automórfico), aumentando o automorfismo na razão directa dos valores retornados.

Interpretação

Esta categoria de medidas é uma flexibilização de equivalência estrutural. A sua validade consiste na identificação de grupos de actores intercambiáveis na rede, sem que esta seja estruturalmente modificada. Quanto menor a distância identificada mais

Ras:

 

intercambiáveis serão os actores.

Interpretação

Opções de canais de informação (o circuito lógico e físico da informação) dentro de um sistema inter- organizacional. Opções de actores substitutos. Na modificação de atitude corporativa face às funções de fiscalização, por ex., verificou-se na rede em análise a substituição de um actor por outro, mantendo -se aparentemente a estrutura física da rede embora a teia de relações antes existentes se tenha modificado.

SI/SA:

Aplicabilidade:

Média

Título:

Weitz/Reitz Algoritmo REGE contínuo

Nível:

Posicional

Categoria:

Similaridade | Posições/papéis

Sub-categoria:

equivalência regular

Descrição:

Este algoritmo era o único disponível na aplicação UCINET aplicável a este tipo de análise (também pode ser usado o categorizado). Esta aplicação permite no entanto programar outros algoritmos.

Interpretação

Este algoritmo não é considerado muito fiável dado que normalmente retorna uma elevada (excessiva) percentagem de actores equivalentes regularmente

Ras:

Interpretação

Identificação de papéis atribuídos a actores. Identifica eventuais sobreposições de papéis que se possam verificar em processos ou actividades.

SI/SA:

Aplicabilidade:

Reduzida. Um papel é normalmente definido pela organização

2.5 Análise organizacional e Redes de Actores Sociais

Nesta secção pretende-se abordar em que medida a RAS potencia a

análise organizacional e as soluções tendentes a produzir informação de

diagnóstico sobre situações problemáticas bem como a propor melhoria das

mesmas.

Para o efeito assumimos os seguintes pressupostos:

1/ A componente social de um sistema organizacional é base endógena de

qualquer organização e nessa condição influencia toda a estrutura

subjacente. Desse modo interactua com restantes tipologias sistémicas

existentes numa organização, nomeadamente sistemas de informação,

processos, infra-estrutura tecnológica (TIC).

2/ A metodologia RAS é considerada como instrumento de apoio a diagnóstico e proposta de acomodações no âmbito de projectos de mudança organizacional, seja ela macro (estruturas) ou micro (processos) e que implique essencialmente sistemas de informação ou sistemas de arquivo. Não pretende portanto ser utilizada como método de investigação pura em que se pretenda produzir teoria formal ou substantiva. O diagrama a seguir apresentado pretende enquadrar a metodologia RAS no contexto de análise organizacional. Nele são representados o objecto sobre o qual se pretende elaborar estudo para propiciar acção - o sistema de informação e sistema de arquivo -, o ponto de vista de observação que consiste na colocação da componente social como factor determinante do objecto acompanhado de diversas bases teóricas necessárias para apoiar a acção a empreender. O

Bases teóricas teoria organizacional teoria de sistemas teoria da acção Tópico Sistemas de informação/
Bases teóricas
teoria organizacional
teoria de sistemas
teoria da acção
Tópico
Sistemas de
informação/
Sistemas de
Estrutura
arquivo
Objecto de análise
Organizações e
redes inter-
organizacionais
Premissa geral
Valor de teoria
social para
percepção/
compreensão de
fenómeno
Processos
Metodologias
de
exploração
SSM
Redes actores
DIRKS
sociais
outros
UML
investigação-
acção

Figura 2.5 - Contexto de metodologia RAS

próprio objecto onde se desenrola a análise que é a rede interorganizacional que se divide em estruturas –componente fixa– e processos –componente dinâmica. Tanto para a determinação e análise social como da rede interorganizacional perspectivada nas duas componentes que a integram,

são utilizadas metodologias específicas que possibilitam a recolha de dados

e a sua análise de forma a adquirir um conjunto de visões da organização integradas num todo coerente que viabilize intervenções (melhorias ou desenvolvimento) de sistemas pretendidos. A RAS apoia a análise interorganizacional, ou seja, de rede, compreendida na sua componente social.

3/ O grau de aplicação de metodologia RAS é definida em função das metas

que se queiram atingir. Por outras palavras, a profundidade de aplicação do

método varia em função do objectivo. Se, por exemplo, são detectadas disfunções organizacionais a nível de processos e seu desempenho, a análise envolverá apenas actores internos à organização e portanto apenas algumas medidas de caracterização serão eventualmente úteis: o nível de centralidade, a densidade da rede e a análise relacional que considere a caracterização das relações entre actores. No entanto, caso o objectivo seja, por exemplo, estimular ou revitalizar o posicionamento de uma entidade empresarial no mercado, so b uma perspectiva de elevado nível concorrencial, deverão então ser aplicados métodos que viabilizem uma análise posicional, identificação de grupos que contemple equilibrios de poder, aproveitamento ou criação de vazios estruturais de forma a criar cenários operativos que permitam o reposicionamento competitivo dessa organização.

Uma rede, ao representar uma estrutura social que através daquela é caracterizada e avaliada proporciona uma ferramenta efectiva para o

conhecimento de disfunções latentes, i.e., não explicitamente observáveis.

A circulação da informação, ou seja a forma como ela circula, através de

que actores, qual a rapidez de circulação é uma área cuja aplicabilidade de

RAS parece evidente.

A este respeito será útil mencionar um fenómeno tradicionalmente

constatado em RAS e traduzido por “mundo pequeno” (small world). A formulação deste fenómeno propõe que todos os actores de uma rede conectada, neste caso falaremos especificamente de uma organização, se encontram a distâncias que nunca excedem valor =”5,5”, desde que nessa rede se verifique elevado nível de coesão. Por outras palavras, no caso de

uma rede em que não se verifiquem actores isolados, i.e., sem qualquer conexão com os restantes, qualquer actor é alcançável e consegue alcançar outros (alter) percorrendo uma distância que atinge no máximo 5,5 pontos intermédios [74] [121]. Considera-se, segundo este conceito, corresponder este valor a uma pequena distância e que portanto qualquer rede, desde que conectada e coesa, poderá potencialm ente permitir uma eficiente circulação de recursos. Situando-nos no contexto organizacional e de sistemas de informação, diremos que a informação e sua gestão (que inclui obviamente a circulação) constituiria um recurso facilmente acessível e resolúvel através de uma rede coesamente estabelecida. No entanto, autores como Friedkin [44] tendem a desvalorizar e mesmo a contrariar directamente este pressuposto [74]. Numa organização formam- se normalmente subgrupos (clusters) coesamente unidos por actividades comuns inseridas em contextos orgânicos, de função, ou de projecto. Esses grupos partilham endogenamente informação, especializada ou não, e conhecimento. No entanto a comunicação da informação detida ou gerida por um grupo pode ser dificilmente transmitida para outro grupo dentro da mesma ou de outra organização. As razões radicam em diversas ordens de razões como competividade, cultura organizacional, ausência de canais de comunicação, entre outras. No entanto interessa focar aqui que as características im anentes a uma estrutura de rede que impedem a eficiente gestão de informação podem, desde que identificadas e corrigidas, vir a potenciar a eficiência dessa mesma gestão. A ausência de comunicação -ou utilizando uma expressão curiosa, de conhecimento do co nhecimento [74]- é uma disfunção do ponto de vista organizacional. Muitas vezes o conhecimento é subcontratado a entidades externas, quando ele existia na própria organização e seria vantajoso a ele recorrer. A apreensão de informação, i.e., a capacidade que a rede possui (ou não ) -em várias plataformas de eficiência-, de reconhecer a existência deste tipo de recursos na sua estrutura, denomina-se horizonte de observação. Investigação desenvolvida 11 [44] veio determinar que numa rede, esse horizonte se sit ua a um máximo de três graus de distância. Ou seja, até 2 graus - uma distância geodésica de dois caminhos dentro do grafo (vértices, linhas)- um actor tem conhecimento esclarecido sobre recursos, oportunidades e

11 Investigação desenvolvida em 6 sistemas interorganizacionais de I&D universitária)

restrições disponíveis na rede abarcando o que aí se passa ou existe. Com 3 caminhos de distância entre actores, a informação sobre o que se passa na rede, torna-se difusa. A uma distância superior a 3 graus a rede torna-se virtualmente invisível para um actor, independentemente do seu ponto de observação. Por outras palavras, esse actor desconhece as actividades desenvolvidas por outros actores, mesmo que essas actividades sejam da mesma natureza das desempenhadas pelo observador. A efectivação desta situação está ainda dependente de outras variáveis relacionadas com análise de redes como sejam o nível de coesão, a densidade e a dimensão. No entanto a constatação deste facto clarifica um papel que a RAS pode desempenhar na identificação e optimização da gestão da informação.

A utilização de RAS pode ser particularmente útil para a reestruturação de

organizações, processo consideravelmente consumista de recursos de

análise. Neste cenário várias estratégias de redes podem ser utilizadas para

o desenho da arquitectura organizacional: Tichy [113] Avalia organizações identificando grupos que também designa por coligações e cliques, bem

como as conexões entre eles estabelecidas.

Se considerarmos que numa organização coexistem camadas política, social

e cultural [30] [119] e que todas interactuam nos objectivo comuns que

presidem à organização, a análise da rede de acordo com métodos RAS, permite, neste contexto determinar quem realmente influencia a organização; identificar os interesses dos grupos dominantes; avaliar o grau de acordo ou desacordo entre grupos, seleccionando -se as estratégias a desenvolver. Se há concórdia desenvolve-se numa perspectiva de cooperação senão convém criar cenários de negociação partindo do princípio que grupos embora antagónicos, desejam simultaneamente a eficiência da organização e o reforço do seu próprio poder. Tichy elabora um quadro- síntese [113] em que discrimina os dados sociométricos passíveis de ser utilizados em análise organizacional. São aí apontadas diversas propriedades pertencentes a respectivamente, relações, rede global, actores, associadas com as características dos grupos-tipo identificados. Neste contexto a RAS viabiliza a identificação do organigrama informal da organização, ou seja a forma como realmente as coisas funcionam debaixo de uma estrutura formalizada [91][92].

O quadro seguinte apresenta uma síntese possível de focos de análise RAS aplicada a organizações como sistemas totais e seus componentes.

Tabela 2.5 (adaptado de TICHY, Ob.Cit, p. 236)

Foco de análise

Sistemas

Sistemas políticos

Sistemas culturais

tecnológicos

 

Aquisição de

Formas de cooptação, cooperação e concorrência que unem as organizações.

Influência de valores sociais e tradicionais sobre culturas organizacionais

Redes

interorganizacionais

informação pelas

organizações

Capacidade

Valores e normas individuais transportados para as organizações

 

“construtiva” de

conflitos inter-

organizacionais

Organizações

Relações entre a estrutura organizacional , missão, estratégia e ambiente da organização.

Identificação de coligações ou gru pos (cliques), caso haja alguma, dominantes.

Doutrinação/integração de novos membros (formação, formas de trabalho, gestão de conhecimento)

Hierarquização da propagação de influência.

Hierarquização de controlo de recursos

Homogeneidade de valores

Gestão de incerteza e complexidade

Existência de

 

subculturas

Grupos

Padrões de comunicação que ocorrem em grupos de trabalho.

Autonomia de grupos de trabalho

Relação de normas sociais e pessoais com tarefas e tecnologias

Comportamentos de cliques relativamente a influências externas

Pontos de ocorrência de conflitos numa coligação/clique

 

Identificação de transconectores e pontes

Identificação de

 

transconectores

Identificação de “estre las” (actores em volta dos quais as relações e processos se estabelecem)

Quem resolve

Conflitos decorrentes de choque entre expectativas e valores

Actores

conflitos

Um outro aspecto que julgamos elucidativo da aplicabilidade de RAS a sistemas e gestão de informação encontra-se materializado e explorado no conceito de estratégia militar baseado numa aproximação de rede, designado por network centric warfare [4], e do paradigma desenvolvido nessa base - o 4CISR 12 . A estratégia militar e o que em termos militares é designado por ciclo de decisão (observar, orientar, decidir, agir) implica a gestão de informação baseada numa perspectiva de aquisição activa de

12 4CISR significa «Command, Control, Communication, Computers, Information, Surveillance, Reconaissance»

informação, o seu tratamento (filtragem, descodificação) e sua disponibilização de forma mais eficiente aos actores que dela necessitem– esses e não outros. Num cenário de guerra a rapidez de comunicação de informação é claramente um factor de vantagem “competitiva”. Será importante referir que o conceito acima mencionado é aplicável a cenários diversos, nomeadamente missões de paz e humanitárias. Num caso concreto analisado por Dekker [35] foram utilizadas diversas medidas de RAS para reformular a gestão de informação numa rede de apoio humanitário. No caso analisado como resultado da análise efectuada e baseada em medidas de centralidade e centralização da rede, reposicionaram-se agentes recolectores e receptores de informação numa rede estruturada com ausência de redundância de informação e sua distribuição de forma temporalmente adequada. Acrescenta-se que a aplicabilidade de métodos militares a contextos civis é em parte possível, bastando para tal alterar o objecto de informação e de negócio. Veja-se a título exemplificativo, as diversas metáforas militares utilizadas correntemente na gíria técnica empresarial: vantagem posicional, concorrência, aquisições agressivas, etc. A este nível não deixa ainda de ser interessante referir a bibliografia produzida na área de gestão e teoria organizacional a partir de obras tão elucidativas como “A Guerra” de Von Clausewitz 13 .

A redundância de informação é um aspecto susceptível de ser identificado numa rede através de processos de análise RAS, nomeadamente por análise posicional que identifique actores equivalentes. Numa rede o capital social pode ser gerido através de gestão de vazios estruturais, ou seja, hiatos de comunicação entre actores aproveitados por terceiros para assumir o papel de transconectores, de forma a criar redes de contactos de actores não redundantes. Os contactos são redundantes na medida em que dão acesso aos mesmos actores e consequentemente à mesma informação. A diversificação de fontes de informação (ou capital social) é desejável porque permite a expansão do universo disponível de informação. Este aspecto de RAS parece imediatamente aplicável em contextos organizacionais de gestão de informação. Um processo , por exemplo, deve ser gerido de forma

13 Carl Philip Gottfried von Clausewitz (1780-1831) ver http://www.clausewitz.com/CWZHOME/CWZBASE.htm

pré-existente e consumida nesse

processo, seja distribuída pelos agentes participantes de forma não redundante para evitar disfunções características como ruído informativo e distribuição desnecessária (perda de tempo, e afectação desnecessária de recursos materiais) da mesma a actores que dela não necessitam.

a

que

a

informação

produzida

ou

A tecnologia- a sua utilização e desenvolvimento - interactua com

estruturas sociais. Nesta conformidade a análise de uma organização não pode restringir-se a uma perspectiva positivista que considere apenas aspectos técnicos. Uma organização é antes de mais um conjunto de sistemas de actividades com participação humana -e não humana [78]- e em que portanto os aspectos sociais são estruturais. Ignorar este facto e desprezar o conhecimento detalhado das ramificações sociais existentes é comprometer qualquer solução tecnológica que envolva sistemas de informação [29]. A este respeito apresentamos alguns exemplos observados na execuç ão deste trabalho que, julgamos, ajudarão a ilustrar este aspecto.

Exemplo 1: Nas díades (conjunto de dois pontos e uma linha) em que a relação se tenha verificado ser tendencialmente transaccional, -embora possa ser multiplexa na medida em que haja actos ou intenções de controlo associadas-, existe uma aceitação de novas tecnologias num contexto de cooperação interorganizacional e de melhoria de desempenho de actividades. As relações processuais estabelecidas são formais e quase amigáveis. No entanto entre actores em que se estabelecem exclusiva ou principalmente relações de controlo, a resistência à adopção de tecnologias para facilitar processos inter-organizacionais é maior constantando -se uma vontade de isolamento, por vezes artificiosa, relativamente ao actor que

exerce o controlo. (O actor fiscalizado afirma ignorar a localização da sede

do actor fiscalizador

).

Exemplo 2: A informação sobre centralidade -periferia - de actores pode basear o estudo de optimização de processos assim como a determinação e escolha de tecnologia. Por exemplo um actor situado numa posição periférica e sem iniciativa de transmissão de recursos ou que os receba

apenas de um pequeno número de actores pode ser objecto de uma valorização ou reposicionamento na rede, dependendo das vantagens que venham a ser equacionadas no contexto de desempenho de negócio e do posicionamento global dos restantes actores. No caso da rede analisada verificou-se que actores em posição periférica conectados através de uma relação de controlo unilateral manifestaram resistência em considerar novos processos de trabalho ou de gestão de processos que envolvam o actor que exerce controlo.