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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razio da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir {1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mals premente do que outrora,
!'■"' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
¡L vista cristáo a fim de que as dúvidas se
- dissipem e a vivencia católica se fortalega
* no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ÍNDICE

Hora Difícil... Hora Preciosa 1S1

I. VIDA MODERNA E RELIGIAO

1) "Falá-Se de secularizando em sentidos diversos. Há cris-


tdo8 que a defendem, enquanto outros a impugnam.

Quisera, pois, saber exatamente o que é secularizando e se


pode ser aceita por um católico" 18S

H. BIBLIA SAGRADA

2) "Qual o sentido exato do 'Pai-Nosso' ?


Como se relaciona com as preces dos judeus ?" 193

HL DOUTRENA

S) "Que'pensar do Novo Catecismo Holandés, que acaba de


ser ■publicado em portugués ?" 20S

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

4) "A marte de Tomás Merton suseitou comentarios no


mundo inteiro.

Quem foi Ssse escritor e que papel Ihe eoube em nossos tem-
posí" ,SU

5) "Poderia dar breve noticia do encontró de mcmges cató


licos e budistas ocorrido na Tailandia em dezembro de 1968 ?" ... 2U

RESENHA DE LIVROS Z28

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


HORA DIFÍCIL...
HORA PRECIOSA...

Permita o amigo leitar, antes de entrar no temario de «P.R.»


n« 113, se lhe diga urna palavra que talvez vá fazer eco a urna Intima
expectativa sua.

Nao há quem ignore a crise por que passa atualmente a Santa


Máe Igreja, Esposa de Cristo. Nao será necessário recordar aqui os
síntomas e efeitos dessa crise, vibrantemente enunciados por Sua San-
tidade o Papa Paulo VI em suas audiencias de quarta-feira e, depois,
amplamente comentados pela imprensa.

Ao ouvir íalar dos desatinos de muitos irmáos na fé (principal


mente sacerdotes e, até, Bispos), nao poucos católicos se deixam tomar
pela perplexidade e o abatimento; sua vida espiritual, por vézes insen-
sivelmente, se torna lánguida ou se extingue. Perguntam: «Vale a
pena ainda crer na Igreja, cuja face humana aparece táo convul
sionada ?>

Na presente situagáo, imp3e-se urna reftexáo serena.

Abater-se e desanimar na hora atual é espontáneo e íácil. Todavía


está longe de ser solucáo para o próprio individuo e para a coletividade.

O bom cristáo jamáis permite que a perplexidade o invada, lem-


brado, como está, das palavras de Cristo: «Eu vos deixo a paz. Eu
vos dóu a minha paz... Nao se perturbe o vosso coracáo, nem se ate-
morize» (Jo 14,27). Em vez de se deter sdbre os aspectos sombríos e
angustiantes da hora atual, o bom cristáo deduz desta fase da historia
da Igreja um grande ensinamento:

É feliz, profundamente feliz, viver no momento presente, por mais


penoso que pareca, por mais desconcertante que seja... Esta frase,
de aparéncia simplória ou infantil, justifica-se do seguinte modo:
...é feliz, sim, porque vivemos um momento de grandes dimensSes,
momento extremamente exigente, que a ninguém permite ser me
diocre, inconsciente ou indefinido. Quem é católico, é excitado, pelas
circunstancias atuais, a ser tal até o extremo, sacudindo a rotina e a
mediocridade. O mundo desatinado e os irmaos na fé titubeantes pedem
dos genuinos católicos urna resposta lúcida, ou seja o testemunho de
urna vida crista esclarecida e coerente. Em outros termos: os males
moráis dos nossos dias constituem convite e incentivo poderosos para
a santidade. Diz o Apoaalipse, ao prever o fim dos tempos com suas
calamidades : «Que o justo pratique ainda mais a justica e o santo
mais se santifique!» (Apc 22,11).
De resto, o católico sabe que as deficiencias e defeccfies de seus
irmáos nao diminuem o poder santificador da Igreja. Esta, como Corpo
Místico de Cristo, nao é apenas a soma de seus memhros, mas desfruta

— 181 —
da presenca e da indefectíve] acáo redentora de Cristo; quem, com as
devidas disposicdes, procura o Senhor <na Eucaristía (ministrada pelas
máos de qualquer legitimo ministro), nunca, é frustrado.

Portanto, renovado zélo e amor, eis a respeta que a atual situacSo


da Igreja pede de cada católico. Assim, e sómente assim, se poderá
remediar aos desmandos que aíligem a Esposa de Cristo. — Para ilus
trar esta verdade, seja licito referir um episodio simples, mas elo-
qüente,:

Num grupo de estudantes chineses católicos, urna estudante íoi


aprisionada pelos comunistas e. mais tarde, apostatou da fé. Sabedores
disto, seus irmáos em Cristo assim manifestaram o seu estado de alma:

«Arrebataram-nos o co.rac.ao de nossa irma e, por isto, sofremos,


Nao penséis, porém, que estamos abatidos. Invocando Cristo do fundo
de nosso cora gao ferido, descobrimos as nossas próprias fraquezas.

Depois de ter resistido por mais de um ano, num absoluto isola-


mento, nossa irmá sucumbiu. Nessa luta gigantesca contra as trevas
que pretendem envolver-nos, somos solidarios. Se alguém de n<5s des-
falece, 6 porque os outros nao Ihe dao socorro suficiente. Nos nao re
zamos bastante, nao nos sacrificamos bastante. Só Deus nos pode sal
var; se atribuissemos a nos o mérito de nao ter sucumbido, estaríamos
prestes a perder a graca divina, que é a única fórca a sustentar-nos».

Posteriormente, auxiliada pela oracáo e a caridade de seus com-


panheiros, a referida estudante recuperou a fé ! >

O caso é profundamente significativo: vem a ser ligüo e para


digma hoje, ino quadro da Igreja Universal. Há enorme sabedoria ñas
palavras : «somos solidarios...) O Senhor, sem dúvida, responderá a
todos os fiéis que, amando sinceramente Cristo e a Santa Igreja, pro-
curarem santificar-se mais e mais, e derem a contribuigáo de suas
preces e de seus sacrificios generosos em prol dos irmáos vacilantes
nos embates da hora que passa !

E. B.

A alma forte nao é a que col he as rosas em seu


caminho, mas, sim, a que as semeia !

i Noticia colhida no livro de Paúl de Surgy, «As grandes etapas


do misterio da salvacao». Petrópolis 1968, pág. 164. O grifo é nosso.

— 182 —
c PERGUNTE E RESPONDEREMOS »
Ano X — N« 113 — Maio de 1969

I. VIDA MODERNA E RELIGIAO

X) «Fala-se de secularizacao em sentidos diversos. Há


cristáos que a defendem, enquanto outros a impugnara.
Quisera, pois, saber exatamente o que é secularizasáo e
se pode ser aceita por um católico».

Resumo da resposta: Secularizacáo é o reconhecimento de que


as realidades déste mundo tém urna autonomía relativa, regendo-se
por leis proíanas (leis de ciencia e de arte), e n&o por leis religiosas.;
a matemática, por exemplo, há de ser estudada segundo os princi
pios da matemática, e nao segundo normas religiosas.
Boje em dia apregoa-se muito a secularizado em oposigáo a
mentalidade dos antigos e primitivos. Estes julgavam dever dar ex-
plicac5es religiosas (muitas vézes, fantasistas e aberrantes) a todos
os acontecimentos da vida; supunham deuses e semi-deuses a pre
sidir a todos os elementos e fenómenos da natureza (fontes, produ-
c6es agrícolas, bosques, doencas, marte...). As explicag5es científicas
modernas removem as interpretacdes pseudo-religiosas ou pseudo-
-sacralizantes dos homens primitivos.
Os cristSos aceitam e preconizam a secularizacáo, na medida em
que ela é a negacáo de urna falsa sacralizagáo ou de urna sacralizacáo
supersticiosa e politeísta. Os cristáos cultivam as ciencias e as técni
cas segundo as leis destas disciplinas, sem apelar necessáriamente
para o seu Credo religioso; e, por isto, podem colaborar com seus
irmaos ateus em tarefas profanas. Todavía, embora o cristáo nao se
distinga dos ateus por seus métodos de trabalho e pelo emprégo de
recursos científicos, ele se diferencia dos incréus por suas atitudes
interiores: sabe que o progresso da tecnología é dom de Deus; agra
dece e reverencia ao Criador através dd seu trabalho profano ou
secularizado.
O cristáo aceita, pois, a descontlnuidade entre o sagrado e o pro
fano; rejeita, parém, o divorcio entre um e outro. É com espirito reli
giosa que o discípulo de Cristo realiza tarefias profanas, visando em
última análise dar gloria a Deus por meio das atividades do século...
Caso se rompa o equilibrio assim concebido, registram-se expres-
s6es aberrantes de secularizac.So, segundo matizes variados: ateísmo
camuflado, agnosticismo, fideísmo, panteísmo, abandono da oracao...
sao conseqüéncias de secularizacáo mal entendida, conseqUéncias in-
compatíveis com a genuina mentalidade crista.

— 183 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 1

Resposta: O tema «secularizacáo» já foi abordado em


«P.R.» 102/1968, págs. 282-291; 104/1968, pág. 336; 109/1969,
págs. 1-9. Todavía ainda nao foi considerado em «P.R.» sob
todos os seus aspectos. Eis por que voltaremos ao assunto
nestas páginas, propondo: 1) o que é própriamente seculari
zacáo; 2) em que sentido a secularizagáo pode ser aceita pelos
cristáos; e 3) os falsos tipos de secularizacáo.

Antes de entrar própriamente no tema, importa-nos aqui fazer


algumas observagoes etimológicas.
A palavra «secular» vem de «saeculum», que significa, no latim
tardío «o mundo» e, de modo especial, o mundo dos lci)?os, o mundo
profano.
«Mundo profano» nao tem Jiecessáriamente sentido pejorativo; é
o mundo em que cristáos e náo-cristáos vivem e trabalham.
«Secularizacáo» é, segundo a etimología, o processo de tornar
alguma coisa «parte do mundo secular ou do mundo profano, náo-
-religioso».
«Dessacralizacáo» é a extincáo ou a negacáo da índole sacral,
religiosa, que até época recente era atribuida a certas instituigóes ou
atividades da vida terrestre.

1. A secutar¡za;6o própriamente dita

Na historia dos últimos anos, «secularizacáo» é o fenó


meno que tende a reconhecer as realidades do mundo e da
vida profana urna autonomía crescente (leis e principios pró-
prios), autonomía frente a toda lei ou autoridade religiosa,
sagrada e eclesial. A existencia désse fenómeno parece evi
dente; ele se vai estendendo progressivamente a quase todos
os setores da atividade humana. Eis alguns dos seus exemplos
mais característicos (citamo-los aqui, sem pretender julgá-tos
por ora):

No setor da assisténcia social, muitos servicos que outrora depen-


diam de iniciativa particular e geralmente eram exercidos por instl-
tuicSes religiosas (cristas), atualmente (ao menos em certos países)
váo sendo assumidos, em grande parte, pela socíedade civil, secular»:
assim os hospitais, as escolas, os pensionatos... Tais instituigóes se
tornam «seculares» ou «secularizadas», deixando de ser confessionais
ou religiosas.
No setor político, há quem conteste a existencia de partidos cris
táos, destinados a fazer ouvir a voz do Evangelho na orientacáo das
estruturas nacionais. O clero já nao constituí urna «ordem» ou um
«estado» na sociedade, como se dava, por exemplo, na Franca do
séc. XVIII.
A Teología, que outrora, máxime na Idade Media, era considerada
a disciplina mais nobre ñas Universidades, atualmente em nao poucos

— 184 —
OS DIVERSOS SENTIDOS DE «SECULARIZAC&O» 5

países é excluida dos programas de ensino oficial; a cultura assim se


vai tornando mais e mais leiga. Quando a Teología ainda perdura no
ensino universitario, é, por vézes, ministrada sob forma de filosofía,
literatura, historia, etc.
Ñas disciplinas de estudo, a preeminencia é geralmente atribuida
ás ciencias ditas «exatas» (matemática, física, química...). Estas se
emancipam de toda inspirac&o religiosa; procuram, antes, impor suas
conclusQes ou teorías aos setores .religiosos e, em particular, á inter-
pretacáo da Biblia.
No campo da arte, os motivos religiosos ainda sao aceitos (fora
dos países de esquerda ditatorial), mas nao por se lhes reconhecer
urna autoridade própria bao menos em varias .regides); ñas emissóes
de radio e televisáo, sao apresentados ao lado de programas nao reli
giosos, em conjuntos que tém face marcadamente profana.

Há autores modernos que, observando tais fenómenos, os


julgam normáis; manifestam o desejo de que se alastran
mais e mais, de modo a se realizar urna secularizagáo total
da vida social. Como se vé, tal processo pode ser tido também
como «dessacralizacáo».
Apregoando tal tese, os autores da secularizagáo a jus-
tificam a partir de consideragóes históricas: a evolugáo da
humanidade parece-lhes sugerir a legitimidade do fenómeno.
Procuremos, pois, observar a historia como a observam
os arautos da secularizacáo.

2. Sociedade primitiva e sacraliza^ao

Numa sociedade arcaica (tal é o caso de povos primi


tivos existentes outrora e ainda hoje), todas as realidades
terrestres ou humanas, principalmente aquelas que escapam
á explicac.áo ou ao poder do homem, sao tidas como sagradas
ou sacrais, e elucidadas, ás vézes arbitrariamente, por recurso
á Religiáo.

Considerem-se, por exemplo, os seguintes tópicos:

1) O céu, a térra e os elementos da. natureza sao de importancia


capital para a subsistencia do homem. Éste precisa da luz e do calor
do sol, assim como da fertilidade da térra (... da MSe-Terra, inesgo-^-
tável em sua fecundidade)... Dal a tendencia a atribuir valor sagrado v
ou divino ao sol, á lúa, ás estrélas, ao fogo, á agua, aos vegetáis e .
animáis... Estes elementos, que compóem o cenário no qual vive o
homem, sao «sacralizados»; lendas e mitos procuram explicar a ori-
gem divina désses diversos seres.

2) A vhla e a fecundidade sao caras a todo homem; nao obstante,


escapam ao homem, que nao as pode dominar a seu bel-prazer. Com-

— 185 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 1

preende-se entáo que os antigos atribuissem também a ésses elementos


urna aura de sagrado ou divino.
3) A autorldade outrora era, por sua vez, envolvida na esfera
do sagrado: os reis, faraos e imperadores eram nao raro tidos como
filhos dos deuses, a quem assistia a Divindade e a quem desobedecer
era crime mortal (até a segunda guerra mundial, o Imperador do
Japao era «filho do céu»). Numa sociedade primitiva tais conceitos
tinham grande importancia, pois serviam eíicazmente á conservagao
da ordem e disciplina entre os homens. Caso estes desrespeitassem a
autoridade e seus preceitos, esíacelar-se-ia o patrimonio cultural e
espiritual da respectiva tribo.
Note-se também que em certos clás primitivos, as funcSes de
«pai do clá», juiz, rei e sacerdote eram acumuladas pelo mesmo
individuo. Vé-se destarte que a Religiáo recobria com a sua aura os
tipos humanos de autoridade.
4) As luzes da inteligencia, os talentos da arte, os predicados
da bravura e do heroísmo eram igualmente tidos como algo de sa
grado ou como dádivas de «daimones» (seres superiores ao homem,
sémi-divinos), que inspiravam o filósofo, o artista e o herói. Baste
recordar as «musas», que moviam os poetas e os músicos.
5) A historiografía outrora era sempre associada á Religiáo. Os
cronistas descreviam os acontecimentos como intervencSes da Divin
dade na existencia dos povos; o desenrolar dos fatos na ter.ra era
geralmente apresentado como cenário em que os deuses mamfestavam
sua ira ou sua benevolencia.

Em suma, o homem antigo julgava viver num mundo


habitado por espíritos superiores, cujo favor era necessário
conciliar ou cujo furor se devia apartar, mediante sacrificios
e dons. Quem ia á caga, procurava garantir o éxito de seu
empreendimento executando o ritual prescrito; da mesma
forma, quem partía em viagem ou quem seguía para a
guerra... Toda a vida e suas atividades tinham assim sua
dimensáü sacral; nada havia de profano ou náo-sacral para
o homem primitivo.
Todavía, com o progresso da civilizagáo, o modo de pen
sar dos homens foi evoluindo. Os individuos foram mais e
mais utilizando a razáo diante das incógnitas que a natureza
lhes apresentava. Perceberam assim que há explicagóes na-
turais ou científicas para ocorréncias que outrora eram íme-
diatamente atribuidas a intervencóes da Divindade; os homens
cultos dispensaran! o recurso ao sobrenatural ñas suas expla-
nagóes de física, biología, medicina, etc. Deu-se destarte urna
secularizagáo lenta e progressiva, que hoje em dia vai che-
gando ao seu auge.
É nos sáculos XV/XVI, com o humanismo renascentista
(paganizante, em varios casos), que se instaura o processo

— 186 —
OS DIVERSOS SENTIDOS DE «SECULARIZAC&O» 1

de divorcio entre o «humano-profano» e o «religioso-sacral». O


século XVín, com os filósofos da Enciclopedia e o deísmo,
acentuou a marcha da secularizacáo. Hoje o ritmo continua,
em termos acelerados.
Após quanto foi dito até aqui, verifica-se que «seculari
zacáo» ou «dessacralizagáo» vem a ser fenómeno de sentido
ambiguo.

1) De um lado, secularizacáo é, até certo ponto, algo


de sadio. Com efeito, pode significar a recusa da falsa sacra-
lidade ou da religiosidade primitiva. Esta, em virtude de
ignorancia e imperfeigáo (nao por efeito de mística esclare
cida) , fazia de todos os assuntos assuntos religiosos; via em todos
os acontecimentos sinais diretos ou portentosos de Deus. Des-
tarte Deus e a Religiáo eram repertorios para elucidar todos
os casos obscuros, intrigantes, para apaziguar o ánimo do
homem amedrantado, para curar toda e qualquer doenga...
Na medida em que secularizar ou dessacralizar significam um
«Nao» a essa mentalidade primitiva e fantasista, representam
atitudes positivas e louváveis.
2) Doutro lado, a secularizacáo pode ser levada a
termos exagerados. Para muitos pensadores, nao é simples-
mente a recusa da falsa sacraliza?áo e do primitivismo reli
gioso, mas a rejeigáo de toda e qualquer forma de vida ou
de expressáo religiosa. Equivale, de maneira por vézes sutil
e camuflada, á negacáo da própria Religiáo, da fé e do
sobrenatural. — É claro que neste senüdo a secularizacáo
representa destruicáo da verdade e dos mais profundos valo
res, destruigáo inaceitável ao bom senso e á fé.
Depois destas breves reflexóes, importa indagar:

3. Quais as causas da secularízaselo contemporánea ?

A secularizacáo é fenómeno típicamente ocidental, moti


vado pelas seguintes causas:
1) A mensagem bíblica do Antigo e do Novo Testa
mento foi e é certamente poderoso fator de secularizacáo.
Com efeito, a Biblia propóe urna distingáo nítida entre
Deus Criador e o mundo visível; excluí a existencia de deuses
secundarios e semi-deuses ou de seres encarregados de mover
as fórcas da natureza. Segundo as Escrituras, as criaturas
foram pelo Criador dotadas de leis naturais e por elas se

— 187 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 1

regem (o que nao exclui a possibilidade de milagres ou de


intervengóes do Senhor Deus no curso da natureza).
Por conseguinte, ritos mágicos, encantamentos e gestos
de semelhante índole sao repelidos pela Biblia. Em «P.R.»
109/1968, págs. 282-291, éste tema é mais tongamente ex
planado.

2) O progresgo das ciencias modernas é outro fator


notorio de dessacralizagáo. Muitos misterios de outrora sao
hoje em dia elucidados sem que se deva admitir milagre ou
intervengáo direta da Divindade.
O homem sabe que pode influir sobre o desenrolar da
historia; existe mesmo urna ciencia moderna chamada. «Futu-
rologia», que se dedica a prever científicamente o futuro.
Remove-se conseqüentemente a idéia de Fato ou Destino.
3) Os regimes e conceitos democráticos, cada vez mais
disseminados, contribuem para a dessacralizagáo da nocáo de
autoridade. Já nao se fala, ñas sociedades civis, de transmis-
sáo do poder diretamente da parte de Deus (o «direito divino»
dos príncipes...).
4) A criatividade que o homem descobre em si mesmo
e exerce cada vez mais, leva o cidadáo moderno a banir o
pretenso favor de musas ou espirites inspiradores.; a poesía,
a arte e a filosofía sao cultivadas mediante a exploragáo
consciente das riquezas do próprio homem sem evocagao de
«demonios».

5) O fenómeno da urbanizagáo, fazendo que grandes


populagóes vivam destituidas de quase todo contato com a
natureza, lidando geralmente com a técnica e suas invengóes,
concorre nao pouco para materializar e dessacralizar a vida
moderna.
Apresentado o fenómeno da secularizagáo com suas cau
sas, é obvio perguntar:

4. Como julga o cristño a secutar-izagao ?

Como se compreende, o cristáo pode e deve aceitar a


secularizagáo ou dessacralizagáo que se opóe a toda falsa
sacralizagáo (magia, superstigáo, infantilismo religioso...).
Alias, nao sómente em nossos dias, mas em todos os tempos,
por inspiragáo da própria Biblia, a mentalidade crista foi
dessacralizante nesse sentido.

— 188 —
OS DIVERSOS SENTIDOS DE «SECULARIZACAO» 9

Mais precisamente, deve-se dizer: o cristáo


admite desoontinuidade entre o sagrado e o profano ou
secular;
repudia, porém, o divorcio entre aquéle e éste.
Vejamos cada qual destas proposicóes de per si.

1) Descontinuidade : sim !

Por «descontinuidade» aqui se entende o fato de que as


realidades terrestres sao perscrutadas, explicadas e formula
das segundo suas leis e estruturas propinas, sem recurso direto
a códigos ou autoridades religiosos.
Ora o cristáo reconhece, sem trair a sua fé, a relati
va autonomía das ciencias naturais e da técnica. Nao há
matemática «crista», nem física «crista», nem astronomía
«crista».. . Se outrora tais disciplinas eram de algum modo
orientadas por conceptees religiosas (durante séculos a Biblia
foi tida como manual de ciencias naturais, quando na verdade
os autores sagrados nao pretendiam ensinar conhecimentos
profanos), tais ciencias estáo hoje secularizadas ou dessacra-
lizadas no bom sentido.
Mais aínda: o cristáo reconhece que a construgáo da
cidade dos homens, as obras empreendidas em favor de me-
lhores condigóes para a humanidade (Juta contra a fome, o
analfabetismo, a doenga, a guerra, o racismo...) sao metas
válidas para a atividade humana.
Por conseguinte, o cristáo nao pode preconizar urna
ordem de coisas em que o sacral absorva as realidades tem-
porais, colocando-as todas sob o controle direto da Religiáo.
A Religiáo visa, sim, encaminhar cada homem e toda a sua
vida para Deus; por isto todo ato humano, qualquer que seja,
tem urna qualificacáo moral (é julgado á luz do Fim Supremo,
Deus), mas a Religiáo nao dita leis de técnica ou de ciencia.
Além do seu Fim Supremo, o homem na térra tem fins inter
mediarios, que ele deve procurar atingir nao sempre mediante
ritos religiosos, mas desenvolvendo sempre sua inteligencia e
suas energias.

2) Divorcio : nao !

Admitindo, no sentido ácima, a descontinuidade entre o


sagrado e o profano, o cristáo nega o divorcio entre um e

— 189 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 1

outro. Ó que quer dizer o seguinte: no exercicio das tarefas


seculares (empreendidas mesmo com ateus e agnósticos), o
cristáo se distinguirá do náo-cristáo pela sua atitude interior
ou pelo seu espirito de uniáo com Deus. Com efeito, o cristáo,
ao realizar obras profanas, tem consciéncia de que os valores
déste mundo foram criados por Deus e devem dar gloria ao
Criador; sabe também que a autonomía da inteligencia e da
vontade humanas é dom de Deus; sabe, portanto, que nada,
no ser e no agir do homem, escapa a um relacionamento
(direto ou indireto) com Deus. Por isto, o cristáo, ao lidar
com os bens déste mundo á semelhanga dos demais homens,
ñas pesquisas científicas e ñas realizacóes da técnica, nutrirá
sempre em seu íntimo urna atitude de

a4j»o de grabas a Deus, por seus grandes dons ;


culto a Deus, culto que consistirá em que o cristáo utilize
ésses dons táo sómente segundo os designios ou as intengoes do
Criador procurando realizar a missáo que o Criador lhe coníiou
(cf. Géñ 1,28);
humlldade, decorrente da consciéncia de que o homem nada
pode íazer por si, mas em tudo (mesmo nos afazeres seculares) de
pende da graoa de Deus.

Em suma, o cristáo executará suas tarefas em espirito


religioso. Ele nao conhece em si dois foros divorciados um
do outro — um religioso e outro profano —, mas um só foro:
o foro cristáo, que se volta ora para Deus diretamente, ora
para as criaturas que Deus criou. O cristáo encontra Deus
no santuario e na oragáo, e continua ésse encontró com Deus
nos afazeres ditos profanos.
A secularizado, entendida no sentido ácima, pode ser
fácilmente deturpada (é, alias, o que nao raro se dá). As
deturpagóes ocorrem quando se rompe <o equilibrio entre
«afirmacáo de descontinuidade» e «negacáo de divorcio».

5. As formas erróneas de secularizado

Comecemos pelos abusos que ocorrem por

1) Exagero da descontinuidade

Quando se acentúa demais a autonomía das realidades


terrestres e das atividades seculares do homem, registram-se
quatro graves males:

— 190 —
OS DIVERSOS SENTIDOS DE «SECULARIZAC&lC» U

a) Ateísmo, que é a negagáo da existencia de Deus;


só se aceita a existencia do mundo e dos compromissos do
homem com éste mundo. Tém-se a dessacralizagáo radical e
a absoluta autonomía (quáo ilusoria, sem dúvida!) do homem.
b) Agnosticismo. O homem secularizado pode talvez
admitir que Deus existe, mas julgar que a diferenga entre
Ele e o mundo é tal que Deus nao pode ser conhecido pelo
homem; cai entao no agnosticismo.
Se o agnosticismo é radical, redunda em ateísmo. Se é
relativo, pode-se conciliar com a fé crista, pois esta professa
que, diante de Deus, a inteligencia humana é sempre fraca,
embora nao impotente para ter nogóes análogas de Deus
(Deus é Pai, Deus é Amor, Deus é Providencia...).
c) Fideísmo. É a atitude de quem julga que as ver
dades referentes a Deus nada tém de racional; nao podem
ser apreendidas pela razáo, mas sao professadas por urna fé
cega. Deus nao se manifesta no mundo, nao dá sinais de Si
que possam ser reconhecidos pelos sentidos e pela inteligencia
do homem.
Tal fideísmo ou tal «fé pura» dispensa a religiáo, na
medida em que religiáo significa ritos (sacramentos), estru-
turas especiáis (por exemplo, clero), formulagóes intelectuais
(dogmas). Ésse fideismo inteiramente secularizado cai fácil
mente no agnosticismo absoluto e no ateísmo prático.

É ao iideismo secularizado que chega Rudolf Bultmann, aprego-


ando urna fé que é apenas atitude de vida sem credo pr&priamente
dito ou sem comteúdo racional. Demitizando a Biblia a seu modo,
Bultmann julga que esta nao propóe senáo um convite de Deus á
conversao, convite ao qual o homem responde «Sim» (é ésse «Sim»
que resume a fé de Bultmann; cf. «P.R.» 97/1968, pág. 18).

d) Negacao da Divindade de Jesús. Há cristáos secula


rizados que concebem a distincáo (descontinuidade) entre
Deus e o homem a ponto de nao aceitar que Jesús seja Deus
e homem simultáneamente. Reconhecem que Deus está em
Cristo de modo especial, mas nao admitem seja Cristo mais
do que um homem.
Tal é o caso de alguns dos chamados «teólogos da morte
de Deus».
Registram-se também erróneas modalidades de seculari-
zagáo por

— 191 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 1

2) Exagero da continuidade

Quando, ao invés do que acaba de ser considerado, se


incute excessivamente a continuidade entre o sagrado e o
profano, negando-se exageradamente o divorcio entre um e
outro, tem-se a eonfusáo, que se exprime ñas seguintes
formas:

a) Panteísmo: Deus e o mundo sao identificados; tudo


vem a ser divino (com derrogagáo á transcendencia de Deus),
sem deixar de ser profano.
b) «Consagracáo do universo». Após a Encarnagáo e
principalmente após a Ressurreigáo de Cristo, todo o universo
t'oi santificado. Desta verdade deduzem alguns que foi extinta
toda distingáo entre o sagrado e o profano; a Liturgia sa
grada dispensaría seus ritos e identificar-se-ia simplesmente
com o servigo ás realidades déste mundo; o culto a Deus nao
seria senáo atendimento ás necessidades dos homens.

Na verdade, o cristáo deve saber que, embora a gloria da eter-


nidade já esteja germinalmente presente na natureza humana e neste
mundo desde a Ressurreigao de Cristo, a obra da Redengáo ainda nao
se oonsumou. Conseqüentemente, há realidades profanas que ainda
nao sao a plena expressáo da santidade trazida por Cristo ao mundo.
É verdade que o cristáo tem estrita obrigacao de promover o bem
de seus irmáos; todavia isto nao o exime de louvar e adorar a Deus,
a quem se deve dirigir primeiramente o amor humano.

c) «As ativídades temperáis iinem sempre a Deus». Urna


teología mal compreendida leva a dizer que tudo que o cris
táo faga após o seu Batismo é sempre culto prestado a Deus,
em virtude da consagragáo batismal. Conseqüentemente, o
discípulo de Cristo poderia viver sua vida secular, sem pro-
fessar explícitamente interésses religiosos, e, nao obstante,
preencheria seu papel diante de Deus.

Esta concepeáo é errónea, pois o homem, mesmo depois de optar


por Deus em seu Batismo ou na renovacáo de suas promessas batis-
mais, pode tomar atitudes que de algum modo (explícito ou implí
cito) estejam em desacordó com essa sua opgáo fundamental.

Eis o catálogo de posigóes erróneas que a palavra «secula-


rizagáo» pode significar na bibliografía, erudita e popular,
assim como em aulas e círculos de estudos de nossos días.
Pode haver cristáos que defendam, como há os que impugnam
a secularizagáo; uns e outros teráo razáo ou nao segundo a
acepgáo que atribuirem a tal termo. O fiel católico, devida-
mente acautelado, ponderará entáo sabiamente as expressóes

— 192 —
O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO 13

que, em escritos ou debates, lhe ocorrerem; assim evitará os


percalgos e as confusóes que solapam a genuína mensagem
do Evangelho.
A propósito veja-se a coletánaa de artigos publicados na revista
«Lumen Vitae» (Bruxelas) vol. XXIII, 1968, n' 3.

II. BÍBLIA SAGRADA

2) «Qual o sentido exato do 'Pai-Nosso' .


Como se relaciona com as preces dos judeus?»

Resumo da resposta: As páginas seguintes propoem o comen


tario do Pai-Nosso recém-redlgido pelo exegeta alemáo Joachim Jere
mías, famoso por seus oonhecimentos de língua aramaica.
Dentre as duas recensoes do Pai-Nosso nos Eyangelhos, a de Le
11,2-4, mais breve, parece ser a original; as ampliaeñes de Mt 6,9-13
devem-se muito provávelmente ao estilo solene da Liturgia.
A invocacáo «Abba» designa, no Evangelho, as relac.5es vigentes
entre Pai e Filho, relacSes indevassáveis á criatura; cf. Mt 11,27. Ora
Jesús quis estender a seus discípulos o privilegio de inyocarem Deus
como Pai. Dai o temor e a reverencia com que os cristáos sempre
recltaram, e recitam, o Pai-Nosso.
As duas petigóes iniciáis da oracáo do Senhor (as quais se associa
a terceira de Mt) deyem ser entendidas á luz do Qaddisch da sina
goga: tém sentido escatológioo; pedem a plena revelacáo do Reino de
Deus, que já íéz irrupgáo neste mundo desde a vinda de Cristo.
As duas súplicas subseqüentes (pedido de pao e de perdáo) visam,
de certo modo, concretizar as anteriores. Pedem
— o pao do Grande Amanhá, da Eternidade, ou seja. a posse
definitiva da vida celestial. Em funcáo déste bem supremo, o orante
pede também o pao sacramental (a Eucaristía) e o pao de mesa
cotidiano (pao que, para o cristáo, nao é própriamente profano, mas
sagrado, pois tudo que o cristáo faca como cristáo tem um sentido
religioso e sacral);
o perdao das faltas a ser outorgado nao sómente no dia do
Juizo Final, mas no decorrer desta vida.
A peticáo final roga ao Pai, queira preservar o crista© de sucum
bir as tesntagóes: ... á grande tentacáo final, que será a da apostasia,
e ás tentacoes anteriores, inclusive á tentacáo de desesperar do Pal
Celeste, caso parega nao atender ás preces de seus filhos.
O Pai-Nosso assim entendido incute urna mentalidade nova: des-
perta, sim, no cristáo as grandes aspiracóes as quais háo de ser
subordinados os Interésses pessoais de cada orante.

— 193 —
14 ' «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 2

Resposta; Já muito se tem. escrito sobre o Pai-Nosso e


o significado de suas petigóes. Á medida, porém, que se pas-
sam os anos e progridem os estudos de lingüistica, os exege-
tas váo dispondo de novos e novos subsidios para entender o
genuino sentido da oragáo ensinada pelo Senhor.
Recentemente apareceu um estudo do Pai-Nosso devido
ao exegeta protestante Joachim Jeremias 1. Éste autor, bene
mérito por procurar compreender os dizeres do Evangelho
mediante o recurso á lingua aramaica, propóe um entendi-
mento original e profundo da oragáo dominical. Sao as idéias
désse estudioso, complementadas por observagóes sugeridas
pela fé católica, que as páginas seguintes exporáo sucinta
mente.
Proporemos abaixo: 1) algumas consideragóes sobre a
forma mais antiga do Pai-Nosso, o que servirá de base para
2) um comentario da oragáo ensinada pelo Senhor.

1. O texto original do Pai-Nosso

Sabe-se que o Pai-Nosso ocorre duas vézes no S. Evan


gelho: em Mt 6,9-13 e em Le 11,2-4. As duas recensóes, em-
bora concordem entre si quanto á substancia, diferem quanto
á forma literaria: o texto de Mt apresenta sete petigóes e
tem seu vocabulario próprio, ao passo que Le só consigna
cinco petigóes.
Eis as duas recensóes da oragáo dominical (a de Mt vai
reproduzida na sua forma usual):
Mt 6,9-13 Le 11,2-4
Pai nosso, que estáis no céu, Pai,
santificado seja o vosso nomo. santiíicado seja o vosso nome,
Venha a nos o vosso reino. venha o vosso reino.
Seja feita a vossa vontade,
assim ¡na térra como no céu.
O pao nosso de cada dia Dai-nos cada dia o pao
nos dai hoje. necessário á nossa vida.
E perdoai-nos as nossas dividas, Perdoai-nos os nossos pecados,
assim como nos perdoamos aos pois nos também perdoamos
nossos devedores. a todo aquéle que nos ofende.
E nao nos deixeis cair em tentacáo, E nao nos deixeis sucumbir
á tentagao.
mas livrai-nos do mal.

i «Das Vater-Unser im Lichte der neueren Forschung» (O Pal-


-Nosso a luz da mais recente pesquisa), em Calwer Verlag, Stuttgart,
1962. A traducáo francesa apareceu no volume: J. Jeremias, «Paroles
de Jesús». Editions du Cerf, 1963.

— 194 —
O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO 15

O fato de que há duas recensóes do Pai-Nosso no Evan-


gelho quer dizer que, entre os anos de 70 e 85, quando foram
redigidos os Evangelhos de Mateus e Lucas, existiam ñas
comunidades cristas duas maneiras de recitar a oragáo domi
nical. Os textos evangélicos nao sao senáo o reflexo da praxe
anterior. Na verdade, os Evangelistas nao teriam ousado re
tocar o texto da oracáo ensinada pelo Senhor.

Para explicar a dualidade de formas, poder-se-ia admitir que Jesús


terina ensinado duas vézes o Pai-Nosso. Todavía esta hipótese nao é
plausível, de mais a mais que se sabe que os Evangelistas nao se
preocuparam sempre com o relato verbal dos dizeres do Senhor. Os
estudiosos julgam, com boas razñes, que urna das duas formas do
Pai-Nosso é original; a outra se deve a adaptacóes que os primeiros
cristáos introduziram no texto original.

Qual será entáo o teor primitivo do Pai-Nosso?


Note-se que o texto de S. Mateus. é mais longo em
tres pontos:

na invocagáo inicial: «Pai nosso, que estáis no céu».


em lugar de «Pai» (ou melhor, «Pai bem-amado»);
após as duas primeiras petigóes que tém a forma de
voto, Mateus acrescenta urna terceira: «Seja feita a vossa
vontade assim na térra como no céu»;
a súplica final é prolongada por urna frase adversa
tiva: «Mas livrai-nos do mal».
Ora a crítica dos textos litúrgicos ensina que, quando
um texto breve (como o de Le) está integralmente encerrado
em um texto mais longo (como o de Mt), é o texto breve
que se deve considerar original. Em verdade, nao se compre-
ende bem que um cristáo ou um grupo de .cristáos tenha
ousado cancelar do Pai-Nosso duas peticóes formuladas pelo
Senhor Jesús mesmo. Entende-se, porém, o contrario: ao usar
constantemente urna fórmula de oracáo, os fiéis fácilmente a
ampliam e enriquecem. O texto de Mt, portante, aparece como
o desenvolvimento do texto de Le.

Esta conclusao se confirma mediante a segulnte observado: os


tres acréscimos do texto de Mt encontram-se nos fináis, ou seja, no
fim da invocacáo inicial, no fim dos dois primeiros votos, no fim das
tres súplicas subseqüentes. Ora na Liturgia as fórmulas fináis ou as
conclusñes de preces tendem naturalmente a se alongar.
Ademáis verifica-se que a sétima petic3o de Mt nao é senSo a
segunda parte da sexta peticáo. Esta entáo, em Mt, passa a ter dois
membros, como a quarta e a quinta.

— 195 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 2

Nótense também que no texto de Mt assim entendido, há tres


petigSes em forma de voto e tres em forma de súplica.
Estas observag5es (que talvez parecam sutis, mas sao de grande
valor) dáo a ver que o texto originario de Lucas foi adaptado ao
ritmo da Liturgia, a qual muito estima o paralelismo de membros.
A fórmula breve «Pai» (no sentido de «Pai bem-amado») apresen-
tada por Le é antiqüissima, como se depreende dos textos paulinos
de Rom 8,15 e Gal 4,G: «No Espirito, clamamos: 'Abba. Pai'». A fór
mula de Mateus: «Pai nosso, que estáis no céu» é mais solene; parece
depender dos costumes litúrgicos da Palestina.
O texto de Mt, oriundo na Liturgia, tornou-se usual na oragáo
comum dos cristaos — o que bem se compreende. A «Didaqué», opús
culo de leis e preces cristas datado talvez dos anos de SO/70, consigna
a forma ampia do Pai-Nosso.
Acontece, porém, que o vocabulario e a construgáo de frases do
texto de Mt conservam mais o sabor do aramaico primitivo do que o
texto de Le. Com efeito, Mt, por exemplo, diz: «Perdoai-nos as nossas
dividas», ao passo que Le consigna: «Perdoai-nos as nossas ofensas».
Mt supSe o vocábulo aramaico hoba, cujo sentido é, primariamente,
divida, e, secundariamente, pecado. O texto de Le, supondo leitores
gregos, preferiu usar diretamente o termo «pecados»; deixou, porém,
traaisparecer o substrato aramaico no final da peticáo: «pois também
nos perdoamos a quem nos deve».
Em suma, admitindo-se que a extensáo primitiva do Pai-Nosso
era a de Le e que o vocabulario originario é o de Mt, assim se pode
reconstituir a oracáo que Jesús ensinou a seus discípulos em ara
maico:

'Abbá

jitqnddásh shemák / tete malkutók


lahman delimitar / liab lán joma den
usheboq lán hohuín / k^dischebáqnan lehajjabaín
w»lan ta 'elinnan Imisjón.

Note-se o paralelismo de membros e a rima ñas linhas 2 e 4


k. inalkuták e hobain... jabafn).

O texto ácima pode ser assim traduzido:

«Pai bem-ainado,

Santificado seja o teu nomc,

Vcnha o teu reino,


Nosso pao de amanha, dá-no-lo hoje,
E perdoa-nos nossas dividas domo também nos, ao
dizer estas palavras, perdoamos ao's nossos deve-
dores,
E nao nios deixes sucumbir á tentacao».

1OR
_ O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO _17

Vé-se a estrutura da prece:

1) Invocacáo;
2) Dois pedidos paralelos sob forma de votos (Mt tem
tres votos);
3) Dois pedidos paralelos sob forma de súplica;
4) Conclusáo: pedido de protegáo.

Pergunta-se agora: qual •o sentido exato dessas petifióes?

É o que se verá no respectivo

2. Comentario

Percorreremos sucessivamente os diversos membros da


oragáo do Senhor, tal como se encontra ácima.

1) lnvoca;5o : «Pa¡ bem-amado»

A invocacao de Deus como Pai é assaz antiga na historia das


ReligiSes: no Oriente, desde o terceiro milenio antes de Cristo, en-
contram-se preces dos sumaros que designam a Divindade como Pai:
<Pai, cheio de graca e misericordia, em cuja- mao repousa a vida de
todo o país, ...» (hiño de Ur ao deus lunar Sin).

Entre os hebreus, os livros do Antigo Testamento, em


quatorze ocasióes apenas, atribuem a Deus o apelativo «Pai»:
Deus é o Pai de Israel; libertou, salvou e escolheu Israel
mediante as suas intervengóes na historia. Os Profetas muito
insistiram no conceito de patemidade divina, freqüentemente
ultrajada pelo povo escolhido Eis, por exemplo, o que se lé
em Malaquias 1,6:

«O filho honra seu pai, e o servo o seu senhor.


Ora, se eu sou pai, onde está a minha honra ?
E, se eu sou o Senhor, onde está o temor que se me deve?
— diz o Senhor dos exércitos a vos».

Cí. Dt 32 5s; Jer 3, 4. 19s; Is 63, 15s¡ 64 7s.

Nao obstante as ofensas de Israel, Deus afirmava cons


tantemente a sua paternidade em passagens de grande elo-
qüéncia; veja-se Jer 31,20:

«Porventura nao é Efraim o meu filho querido, ternamente amado?


Todas as vézes que falo contra ele, mais viva se me torna a sua lem-

— 197 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 2

branca. E o meu coragáo comove-se ao pensar néle. Terei compaixáo


déle _ oráculo do Senhor» (cf. Os 11,8).

Note-se, porém, que o conceito de filiacáo divina, no An-


tigo Testamento, se aplicava geralmente ao pavo como tal;
foi sómente no fim da era pré-cristá que os judeus concebe-
ram a idéia de qir Deus poderia ser pai de cada um dos
homens (cf. Sab 2,13.16.18).
Por mais significativas que fóssem as expressóes do An-
tigo Testamento referentes á paternidade divina, elas sao
uitrapassadas, quando se considera o comportamento de Jesús
Cristo. Para dirigir-se a Deus, Jesús empregou um nome
inédito nesse setor: «Abba, Pai» (tenha-se, por exemplo, em
vista a oracáo no horto das Oliveiras, Me 14,36).
A vasta literatura dos judeus sobre a oracáo nao atesta,
em parte alguma, a invocacáo de Deus mediante o título
«Abba».
Como explicar isto?
— Os escritores da Igreja dos séculos IV/V, como Sao
Joáo Crisóstonro, Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro,
oriundos de Antioquia (Siria) e conhecedores do aramaico,
atestam unánimemente que «Abba» era o apelativo com que
a criancinha se dirigía a seu genitor.
O Talmud (coletánea de dizeres dos rabinos) o confirma,
asseverando:

«Quando urna crianca prova o trigo (=é desamamentada),


aprende a dizer 'abba' e 'imma' (papai, mamae)».

«Abba, imma», portante, sao as primeiras palavras da


crianga .que balbucía. «Abba» era expressáo infantil e coti
diana. Ninguém teria ousado dizer «Abba» a Deus! Jesús,
porém, o fez em todas as oracóes que déle nos foram trans
mitidas, excetuado apenas o clamor: «Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?» (Me 15,34; Mt 27,46), clamor que
nao é senáo o texto do SI 21,2.
Em Mt 11,27, o Senhor dá a ver o «porqué» dessa sua
atitude de orante: o binomio «Pai-Filho» exprimía as relacóes
de igualdade vigente entre duas pessoas da SS. Trindade:

«Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho


senáo o Pai, como ninguém conhece o Pai senao o Filho e aquele a
quem o Filh'o O quiser revelar».

— 198 —
O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO 19

A Jesús, portante, competía, a titulo único, interpelar


Deus como Pai; «Abba» vem a ser urna das palavras mais
auténticas nos labios de Jesús.
Ora no Pai-Nosso Jesús estendeu a seus discípulos o dl-
reito de dizer «Abba», como Ele dizia; fez que seus discípulos
participassem da dignidade do Filho, interpelando o Pai Ce
leste com toda a confianga. Mais ainda: Jesús afirmou que
sámente quem se faz pequenino e simples como crianga,
sámente quem clama «Pai», poderá entrar na marisáo do Pai:
«Em verdade, eu vos digo: Se nao voltardes a ser cómo cri-
ancinhas, nao podereis entrar no reino dos céus» (Mt 18,3).
Para encontrar o caminho do Reino, é preciso, pois, que
o cristáo tenha a confianga de filho que se exprime pela pa-
lavra «Abba». Sao Paulo, alias, o confirma quando em duas
passagens ensina que o clamor «Abba, Pai» é o sinal da fi-
liagáo divina do cristáo (cf. Rom 8,15; Gal 4,6).
Eis por que a Igreja sempre recitou — e recita — o
Pai-Nosso com o máximo de temor e respeito:

«Digna-te conceder-nos, Senhor, que ousemos com alegría e sem


temeridade chamar-Te Pai, Tu. o Deus do céu, dizendo: 'Pai-Nosso.. .'>
(Liturgia de S. Joáo Crisóstomo).

2) Os dois votos Iniciáis

As primeiras palavras do filho ao Pai Celeste sao: «San


tificado seja o teu nome, venha o teu reino». Estas petigóes
fazem eco a urna antiga oragáo aramaica que encerrava o
culto na sinagoga e provávelmente era familiar a Jesús:

«Glorificado e santificado seja o Grande Nome de Javé no mundo


que Ele criou segundo a sua vontade!
Faga prevalecer o seu Reino em vossa vida e em vossos dias e
na vida de tdda a Casa de Israel, em breve e num tempo próximo!»
(Qaddish).

A afinidade das duas petigóes iniciáis do Pai-Nosso (ás


quais se acrescenta a terceira de Mt, cujo teor corresponde
as anteriores) com o text& do Qaddish mostra que essas
fórmulas tém sentido escatológico: pedem a revelagáo plena
do Reino de Deus no fim dos tempos; venha a consumagáo
da historia, o momento em que será glorificado o nome do
Senhor Deus, por ora blasfemado e conculcado, e será ma
nifestó o Reino, de acordó com a profecía de Ezequiel:

.— 199 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, gu. 2

«Manifestarei a santidade do meu augusto Nome, que foi aviltado


entre as nacSes e que vos proíanastes entre elas. E as nacóes saberáo
que sou o Senhor. quando a seus olhos eu fizer resplandecer a minha
santidade pelo meu modo de proceder para convosco» (Ez 36,23).

Assim entendidas, as peticóes iniciáis do Pai-Nosso sao


um, apelo que procede do fundo da miseria. De um mundo
sujeito á escravidáo do pecado, mundo em que Cristo e o
Anticristo se defrontam incessantemente, os cristáos pedem
a manifestagáo da gloria de Deus. E pedem-na com a certeza
absoluta de ser atendidos: os cristáos sabem que, mediante
Jesús Cristo, Deus Pai já come^ou a realizar seu designio de
graga e salvacáo neste mundo; nao resta senáo aguardar o
pleno desabrochar da obra já iniciada em Jesús Cristo. Tal é
a diferenra entre a Igreja e a Sinagoga: esta podia orar com
palavras semelhantes. as dos cristáos; fazia-o, porém, numa
expectativa ainda sombría e angustiada.

3) As duas súplicas subseqüentes

O pedido de pao e o de perdáo estáo intimamente associados entre


si É o que se depreende da sua própria formulacáo literaria;; cada
qual consta de dois membros: «amanhá... hojex>. «perdoa... perdoa- -
mos». Ao passo que as peticóes anteriores tinham seu paralelo no
Qaddish as subseqüentes nao o tém; donde se segué que é sobre essas
súplicas, formuladas originariamente par Jesús, que se coloca toda a
énfase do Pai-Nosso; é para essas súplicas que as peticóes anteriores
tencionam chamar especialmente a atengáo do orante.
Vejamos cada qual de per si.

a) O pedido de pao. A palavra grega cpitfusios (adje


tivo qualificativo que acompanha «pao») presta-se a diversas
interpretacóes, que os exegetas discutem. Alguns a traduzem
por «supersubstancial»; outros, por «conveniente, suficiente,
necessário»; outros ainda, por «cotidiano»; e mais outros, por
«de amanhá>.
A controversia pode-se dirimir desde que se leve em
conta o seguinte testemunho, assaz valioso: S. Jerónimo (f 421)
refer que o Evangelho aramaico dito «dos Nazarenos» tra-
zia, nessa passagem do Pai-Nosso, a palavra mahar, que
significa «amanhá»; dever-se-ia entáo ler: «o pao nosso de
amanhá, dá-no-lo hoje». Éste testemunho tem autoridade, pois
o Pai-Nosso foi ensinado em aramaico e recitado pelos pri-
meiros discípulos nessa lingua.
S. Jerónimo refere outrossim em que sentido se entendía
«o pao de amanhá»: «Nosso pao de amanhá, isto é, futuro,

OAO
O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO 21

dá-no-lo hoje». Em verdade, no judaismo tardío, a palavra


nvahar designava nao apenas o dia subseqüente, mas também
o Grande Amanhá, ou seja, o dia da consumagáo. Sabe-se,
de resto, que a Igreja antiga, tanto no Oriente como no Oci-
dente, interpretou freqüentemente «o pao de amanhá» no
sentido de «o pao do tempo da salvagáo», «o pao da vida»,
«o maná celeste». Todas estas expressóes designam a vida
eterna e o encontró face a face com o Senhor Deus, de que
se saciaráo os justos. Jesús mesmo, alias, apresentou freqüen
temente a vida celestial sob a imagem de urna ceia; cf. Le
22,30; 12,37; Mt 22,1-14; 25,1-13...
De resto, o sentido escatológico que tém as demais peti-
qoes do Pai-Nosso, corrobora tal interpretagáo.
Dirá, porém, alguém: entáo nao se pede o pao tempo
ral no Pai-Nosso, como sempre ensinaram os comentadores
cristáos1!1
— Na verdade, o pedido do «pao da vida eterna» nao
excluí, antes incluí, o pedido do pao temporal. Éste, porém,
é considerado em fungáo daquele.
Com efeito, para que o cristáo possa obter a felicidade
eterna, precisa normalmente na térra de dois subsidios:

a S. Eucaristía, que é o antegózo da posse definitiva de Deus;


o pao das refelcoes cotidianas e os demais elementos (roupa,
casa, saúde, trabalho...) sem os quais o homem nao exerce normal
mente suas func5es. Todavía observe-se que o pao de mesa e os
subsidios desta vida temporal carecem freqüentemente de sentido
para quem nao tenha a espenanca da vida eterna. Era verdade, nao
sao poucos aqueles que se suicidam ou que .renunciam ao pao tem
poral por desespero, ou seja, par Jiáo admitlrem a «ceia da vida
eterna». É esta so, em última análise, que dá sentido ao pedido do
pao de mesa.

Mais: o Senhor no Evangelho rejeita o divorcio entre as


realidades sobrenaturais e as naturais. A irrupeáo do Reino
de Deus neste mundo deve dar significado e valor novos a
todas as atividades, mesmo profanas, do cristáo. Assim sao
transfigurados

— as palavras do cristáo: cf. Mt 5, 21s.33-37,


— os olhares do cristáo: cf. Mt 5,28,
— a maneira de saudar os irmáos ñas pracas públicas: cf. Mt
5, 47,
— a maneira de comer e beber: cf. Me 7,15.

— 201 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 2

Por conseguinte, pode-se dizer que a primeira grande


súplica do Pai-Nosso pede tudo que seja necessário aos discí
pulos para que vivam a verdadeira vida... na eternidade
sem dúvida, mas também no tempo. Ela pede implícitamente
que todas as atividades, mesmo as mais simples, do cristáo
sejam penetradas pelas gragas do mundo invisível e eterno.
Hoje, já hoje, exilado neste mundo de fome e sede, possa o
discípulo de Cristo desfrutar a presenga latente e saborosa
dos dons que o saciaráo anranhá e por toda a eternidade. Tal
é o sentido da antítese «amanhá — hoje» no Pai-Nosso.

b) O pedido de perdáo: «Perdoa-nos as nossas dividas


como também nos, ao dizer estas palavras, perdoamos aos
nossos devedores». A orientagáo escatológica das petigóes an
teriores leva a ver que éste pedido de perdáo tem em vista,
antes do mais, a grande prestagáo de cantas para a qual se
encaminha a historia; é a perspectiva do juízo final que
domina o quadro. Os discípulos de Jesús tém consciéncia de
estar envolvidos no pecado e na divida; sabem que sómente
o perdáo gratuito de Deus os pode salvar. Por isto pedem
perdáo... Todavía nao pedem perdáo apenas para o dia do
juízo final, mas rogam ao Pai, lhes queira perdoar desde já;
o tempo presente, sendo a era do Messias, a era da salvagáo
já em curso, é também o tempo do perdáo: «Perdoa-nos, Pai
bem-amado, desde o presente momento!»

A súplica de perdáo tem uma cláusula complementar que


pode surpreender: alude ao comportamento do orante («assim
como nos...»). Quem reza, deve-se recordar sempre da sua
obrigagáo pessoal de perdoar. Jesús o incutiu freqüentemente:
«Quando vos dispuserdes a orar, se tiverdes alguma coisa
contra alguém, pefdoai primeiro para que vosso Pai que está
no céu vos perdoe também os vossos pecados» (Me 11,25;
cf. Mt 5,23; 18,23-35). Tal é a importancia que Deus quer
atribuir ao procedimento do próprio homem.

Em suma, as duas súplicas que acabamos de considerar,


supoem o homem peregrino na térra, colocado na perspectiva
dos bens eternos; pedem, de certo modo, a antecipasáo e o
antegózo désses bens. O cristáo sabe que tais bens já fizeram
sua irrupgáo neste mundo e que importa sumamente viver
déles em toda a medida do possível. — As duas súplicas tor-
nam assim muito concretos os dois votos iniciáis do Pai-Nosso:
a revelagáo escatológica do Reino e da Gloria de Deus comega
a se realizar aqui na térra mediante os dons sobrenaturais
que o Pai bem-amado comunica a seus filhos.

— 202 —
O «PAI NOSSO» E SEU FUNDO ARAMAICO 23

4) Conclusóo : pedido de protejao

Até aqui as petigóes do Pai-Nosso (votos e súplicas) se


dispunham duas a duas paralelamente; cada qual das súplicas
constava de dois membros. — Em contraste, a conclusáo apa
rece brusca e dura : está isolada, e nao apresenta bipartigáo:
além disto, difere das frases anteriores pela sua formulacáo
negativa: «E nao nos deixes sucumbir á tentagáo». Tais ca
racterísticas estilísticas tém seu significado: o pedido final
deve realmente sugerir algo de duro e impressionante ao
leitor.
Examinemos o sentido dessa frase, atendendo aos seus
dois vocábulos principáis:

a) O verbo grego eisenenkeis quer dizer própriamente


«levar, oonduzir para dentro». Daría a crer que é Deus quem
tenta o homem ou coloca o .homem em tentagáo. — Ora.
S. Tiago afasta peremptóriamente tal hipótese, tendo em vista
talvez a cláusula final mesma do Pai-Nosso:

«Ninguém diga, quando fór tentado: 'É Deus quem me tenta'.


Deus nao pode ser tentado pelo mal e nao tenta ninguém» (Tg 1,13).

O genuino sentido do verbo grego é sugerido por antiga


oragáo vespertina dos judeus, oragáo qué Jesús bem pode ter
conhecido:

«Nao coloques o meu pé sob o poder do pecado,


E nao me atires sob o poder da falta,
Nem sob o poder da tentacSo,
Nem sob o poder da infamia»
(b. Berakoth 60b).

O fato de que, nessa prece, a tentagáo esteja ao lado de


«pecado, falta e infamia», mostra que os judeus nao pensa-
vam numa intervencáo direta de Deus, mas apenas numa
permissao'. O sentido seria, pois: «Nao permitas que eu caía
ñas maos do pecado, da falta, da tentagáo e da infamia». A
prece judaica pedia, pois, que Deus preservasse o seu devoto
de cair no momento da tentagáo. Tal é, sem dúvida, também
o sentido da petigáo final do Pai-Nosso: «Nao nos deixes su
cumbir á tentagáo».
Certamente nao era a intencáo de Cristo ensinar seus
discípulos a pedir, fóssem isentos de tentagóes: «Ninguém é
coroado sem luta previa» (cf. 2 Tim 2,5); «o discípulo nao

— 203 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 2

está ácima do Mestre» (cf. Jo 15,18). Por isto o Pai-Nosso


nao pede seja o orante dispensado de sofrer tentac.oes, mas,
sim, seja, por Deus, auxiliado a superá-las.

b) E que quer dizer própriamente o vocábulo «ten-


• tagáo» no Pai-Nosso?
— Significa, antes do mais, a grande provagáo final que
se desencadeará, quando se revelarem plenamente o misterio
da iniqüidade e a agáo do Anticristo, quando se verificarem
a abominagáo da desoía ;áo (Satanás no lugar de Deus), as
perseguigóes derradeiras, o surto de falsos Cristos e falsos
profetas.
Entáo a tentagáo será, sem dúvida, a apostasia. Por isto
pode-se dizer que a cláusula final do Pai-Nosso pede antes
do mais: «Senhor, preservai-uos de apostatar!» É o que parece
confirmar-se pelo apSndice de Mt: «Mas livra-nos do Mal (ou
do Maligno)».
Compreende-se agora por que a petigao final do Pai-Nosso
tem seu ritmo brusco, contrastante... — Jesús ensinara seus
discípulos a pedir o Reino do Pai e sua antecipagáo mediante
os dons sobrenaturais. Quis, porém, acautelá-los contra qual-
quer falso iluminismo ou euforia, despertando-lhes a consci-
éncia de que a vida do cristáo sobre a térra é sempre amea-
gada; o assalto final do Maligno se antecipa ñas tentagóes e
provagóes de cada dia. E entre essas tentagóes deve-se men
cionar urna que é particularmente daninha: a tentagáo que
pode acometer o cristáo quando ora (ou quando diz o Pai-
-Nosso) e julga nao ser atendido pelo Pai; nao raro entáo o
orante tende a descrer da própria oragáo, do próprio Pai-
-Nosso, e a abandonar a prece. No final do Pai-Nosso, por
tante, quis Jesús que seus discípulos pedissem a gragá da
perseveranga (perseveranca na fé, e perseveranga na oragáo):
«Escuta, o Pai, ao menos esta prece final: Preserva-nos de
duvidar de Ti!... de duvidar de Ti por julgarmos que nao
escutas os nossos pedidos anteriores»'.
Urna tal súplica nao tem paralelo no Antigo Testamento.
É cheia de ensinamento teológico e de significado prático.
constituindo um digno fecho para a oragáo do Senhor.

3. Reflexáo final

Clemente de Alexandria. escritor cristáo do sáculo III,


consigna urnas palavras atribuidas a Jesús, que nao foram

— 204 —
O «NOVO CATECISMO» HOLANDÉS 25

consignadas no Evangeltoo escrito: «Pedi as grandes coisas e


Deus vos concederá as pequeñas».
Se esta frase nao é de Cristo mesmo, deve-se reconhecer
que a sua mensagem corresponde ao pensamento do Senhor.
Jesús teria a lembrar que as oragóes dos homens estáo
geralmente presas a interésses particulares e pessoais; rara
mente levam em oonta as grandes intencóes que devem mover
o filho de Deus: a gloria e o reino de Deus todo-poderoso, o
pao da vida eterna, o derramamento da infinita misericordia
do Pai, etc. ... O Senhor nao recusa os pequeños pedidos
concernentes ás necessidades pessoais de cada orante (ao con
trario, como insinúa Jesús em Le ll,9s), mas quer que estes
sejam subordinados ás grandes aspiragóes da vida crista. Ora,
o Pai-Nosso ensina a rezar dessa forma nobre; dilata a mente
do orante e incita-o a refletir sobre verdades capitais da men
sagem crista, a saber:
O Reino de Deus já se iniciou aquí na térra, a eternidade
já irrompeu no tempo. É necessário, portante, que átii
viva cada vez mais de tais realidades. ^

III. DOUTRINA

3) «Que pensar do Novo Catecismo Holandés, que acaba


de ser publicado em portugués?
Tem sido muito elogiado' e muito condenado!» -

A Editora Herder acaba de langar a edicáo brasileira


do Novo Catecismo Holandés para adultos («A Fé para adul
tos. O Novo Catecismo»). O livro tem merecido entusiásticos
aplausos como também alarmadas críticas por parte do pú
blico nacional e internacional. Parece que, no caso, o melhor
arbitro é a palavra oficial da Santa Igreja, que se pronunciou
recentemente (15/X/68) sobre o referido Catecismo.
Éste pronunciamento da Santa Sé compreende duas par
tes: a primeira resume os passos da controversia suscitada
pela publicagáo do Novo Catecismo na Holanda em outubro
de 1966; a segunda indica dez pontos (que se desdobram em
muitos outros), a respeito dos quais a Santa Sé pede formu-
lagóes mais claras e corretas.

— 205 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 3

A propósito do Novo Catecismo já foi publicado um artigo em


«P.R.» 96/1967, pág. 515-527; íoram ai expostos os porqués e o
Jiistórlco da controversia até dezembro de 1967. As páginas que se
seguem, atualizaráo o assunto, fornecendo ao leilor ampios dados
para julgar a obra.

Abaixo apresentaremos, na integra e em tradugáo fiel,


o texto da Dedaragáo da Comissáo de Cardeais encarregados
de examinar o Catecismo Holandés (cf. «Acta Apostolicae
Sedis» LX, 30/XI/1968, pág. 685-691). Em outro artigo de
«P.R.» será proposto um comentario a tal declarasáo.

1. A Declarasáo da Comissáo de Cardeais (15/X/1968)

Eis a tradugáo do texto latino désse documento:

I. PARTE HISTÓRICA

«Quando na Holanda foi publicado O1 Novo Catecismo (1966J,


obra que, por um lado, apresenta méritos singulares, mas, de outro
lado, provocou desde o principio inquietacáo entre nao poucos fiéis,
a Sé Apostólica, em virtude do seu mandato de proteger a fé do povo
de Deus, nao pode deixar de se interessar pela questáo. Por isto, o
Sumo Pontífice quis que, para examinar as diíicuídades apresentadas
pelo texto dp 'Catecismo', se realizasse inicialmente um encontró de
tres teólc-eos-«orneados pela Santa Sé oom tres teólogos designados
• Drelo-jeptóc%>aclp 'holandés.
"* •' 4 »1 ÍNess^eñcontro, que ooorreu de 8 a 10 de abril de 1967, os teó-
" - -»logosrGsi Santa Sé, seguindo um programa elaborado pela S. Congre-
gacao do Concilio, e segundo a intengáo do Sumo Pontífice, pediram
confiantemente, fóssem introduzidas no 'Catecismo' algumas explici-
tag5es bem meditadas, que indubitávelmente correspondiam a fé da
Igreja, á verdade e ao senso cristao dos fiéis. O encontró, porém, foi
pouco frutuoso. Nao foram feitas modifioacñes, nem mesmo a res-
peito dos pontos que o Santo Padre, á guisa de exemplo, havia indi
cado: 'por exemplo, no que diz respeito á conceicfio virginal de Jesús
Cristo, dogma da fé católica; a cren?a na existencia dos anjos, que
se fundamenta sobre o Evangelho e a tradicáo da Igreja; o caráter
satisfatório e sacrifical da agáo redentora que Cristo ofereceu ao Pai
Eterno a fim de apagar os nossos pecados e reconciliar os homens
com Ele', i
O Sumo Pontífice tomou conhecimento do resultado do mencio
nado encontró, antes do mais pelo relatório xedigido conjuntamente

i A Comissáo de Cardeais alude aqui a urna carta que o Santo


Padre Paulo VI, a 30/111/67, dirigiu ao Cardeal Alfrink. de Utrecht,
preparando o encontró dos seis referidos teólogos. Nessa carta. S. San-
tidade mostrava o desejo de que se reformulassem os dizeres do
Catecismo referentes, «por exemplo», aos tres mencionados pontos (a
enumeracao nao era exaustiva).

— 206 —
O «N6VT0 CATECISMO» HOLANDÉS 27

pelos tres teólogos da Santa Sé e os tres do episcopado holandés.


Confiou entáo a urna Comissáo constituida pelos Canteáis Frings,
Lefebvre, Jaegen Florit, Browne e Journet o encargo de examinar
a questáo e proferir um juizo sobre a mesma. Tal Comissáo, ma sua
primeira reuniao, ocorrlda nos dias 27 e 28 de junho de 1967 — com
a participado de teólogos peritos na lingua holandesa —, decidiu
que, antes de se proceder a novas edigSes e tradugSes, o 'Novo Cate
cismo' deveria ser diligentemente revisto e corrigido. Além disto, esco-
lheu urna segunda Comissáo de teólogos — pertencentes a sete nacio
nalidades —. aos quais confiou a tarefa de examinar o texto do
mencionado Catecismo e de formular seu parecer a respeito.
A tal Comissáo foram entregues, além do volume do Catecismo,
o texto integral do relatório final do primeiro encontró de teólogos
ácima referido. Durante o mes de setemhro, foi-lhe também consignada
urna serie de emendas apresentadas no entretempo pelos autores do
'Catecismo1. Depoi.s de diligente trabalho, esta segunda Comissao de
teólogos elaborou suas observagóes tanto a respeito do texto do 'Ca
tecismo' quanto a propósito das emendas que haviam sido apresen-
tadas; estas foram, em sua maioria, tidas como insuficientes. Todas
as observacóes feitas por essa Comissí.o receberam a aprovacáo uná
nime dos respectivos membros presentes.
Depols disto, os Cardeais, tendo em máos, entre outros documen
tos, as observagóes da Comissáo de teólogos, procederam a urna se
gunda reuniáo de 12 a 14 de dezembro de 1967. Nesta sessáo, exami-
naram cada urna das observacóes e Tesolveram em termos definitivos
— depols de votagSo sobre cada um dos pontos — estipular quais os
pontos que dever¡am ser modificados no texto do 'Catecismo' e como
o deveriam ser. Tomaram determinacSes para que essas modificagóes
fóssem redigidas por urna Comissáo especial, romeada por éles com
o auxilio do Eminentíssimo Cardeal Alfrink: essa Comissáo constaría
de dois delegados da Santa Sé e dois do episcopado holandés. O tra
balho dessa Comissáo. concluido em fevereiro de 1968, foi apresentado
á Santa Sé, á Comissao de Cardeais e ao episcopado holandés.
Entrementes!. porém, foram publicadas sem a aprovacáo do epis
copado holandés e sem correcáo alguma, a traducáo inglesa; a seguir,
a traducáo alema e. mais recentemente. a traducáo francesa do "Novo
Catecismo'. Além disto, em um jornal holandés e num volume dado
a lume na Italia, faram publicados documentos .reservado? e, por sua
natureza, secretos, entre os quais urna carta do Sumo Pontífice.

Nesse volume, os documentos publicados s&o acompanhados de


noticias cronísticas e comentarios difusos, nos quais nño s&mente sao
atribuidas aos teólogos nomerados pela Santa Sé ooiniSes our lh^s
eram estranhas, mas também sao atenuados, com grande habilidade.
os pontos do 'Catecismo' que necessitam de sor corrigidos; a ésses
pontos é dada urna forma aparentemente inocua, mas nao conforme
á verdade. Nao raro os autores do volume propSem afirmacSes válidas
em ?i, mas que nao sao suficientes para corrigir explicacñes onostas,
tanto mais que tais explicagóes concordam em mais de um ca.so com
ooini&es expressas em outros escritos pelos autores do 'Catecismo'.
No tocante as futuras edicóes do 'Catecismo*, os redatores do men
cionado volume propOem solu<r6es contrarias ás aue. com a aprovacáo
da Santa Sé foram estipuladas reía Comissao de Cardeais; sugerem
aue se fa^am apenas as emendas explícitamente mencionadas pelo
Sumo Pontífice, embora seja claro, como decorre das palavras citadas

— 207 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 3

atrás, que o Papa intencionava apenas dar alguns exemplos dos escla-
recimentos que eram desejados.
No mesmo volume eram citadas abusivamente as opiniOes de
alguns exegetas contemporáneos relativos ao modo como S. Mateus
e S. Lucas apresentam e explicam os íatos principáis concernentes
ao nascimento e á infancia de Jesús. Ao passo que os varios teólogos
e exegetas referidos no dito volume sustentam que a conceic&o vir
ginal de Jesús deve ser enumerada entre os acontecimentos principáis
que o Eyangelho da infancia do Senhor apresenta como realmente
históricos, o volume mencionado pretende concluir — nao sem ofensa
á fé católica — que se deve permitir aos fiéis católicos nao creiam
no misterio da conceicáo virginal de Jesús como realidade corporal e
espiritual, mas admitam tao sómente um certo significado simbólico
de tal misterio.
As publicacGes até aqui mencionadas póem obstáculos varios a
intencáo que anima a Santa Sé, de resolver, para o bem do Povo de
Deus e de acordó com o episcopado holandés, urna questáo de nao
pouca importancia. Por tais motivos, e também pelo fato de que o
'Catecismo' sem as modificacdes propostas já foi difundido em quatro
línguas, pareceu necessário — antes mesmo que estejam prontas as
edigoes e as traduc/les emendadas — dar ao conhecimcn'to do público
um compendio do julgamento formulado pela Comissáo de Cardeais
a .respeito de cada um dos pontos controvertidos. Destarte os fiéis
ficaráo sabendo como pensar e testemuinhar a respeito da Boa-Nova
da salvacáo humana, em plena consonancia com a Igreja de Cristo
e a Sé de Pedro.

II. PARTE DOUTRINARIA

1. No tocante a Deus Criador. — É preciso que o 'Ca


tecismo' declare qu« Deus criou, além do mundo sensível no
qual vivemos, o mundo dos, puros espíritos que chamamos
anjos (cf., p. ex., Conc. do Vaticano I, Oonst. 'Dei Filius'
c. 1; Conc. do Vaticano II, Const. 'Lumen Gentium' n* 49-50).
Deve também explicar que a alma de cada homem, por ser
espiritual (cf. Conc. do Vaticano n, Const. 'Gaudium et Spes'
n» 14), é criada ¡mediatamente por Deus (cf., p. ex., ene.
•Humani generis1, A.A.S. XLII [1950], p. 575).
2. A propósito da oueda de todos os homens em Adao
(cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Lumen Gentium' n? 2).
— As questóes concernentes á origem e a lenta evolugáo do
género humano tém causado novas dificuldades ao entendi-
mento do dogma do pecado original. Deve-se todavía propor
fielmente no 'Novo Catecismo* a doutrina da Igreja segundo
a qual o homem, desde o inicio da sua historia, se rebelou
contra Deus (cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Gaudium et
Spes', n9 13 e 22); conseqüentemente perdeu, para si e para
toda a sua descendencia, a santidade e a justiga ñas quais

— 208 —
O «NOVO CATECISMO» HOLANDÉS 29

fóra constituido; passou a transmitir a todos os seus descen


dentes, atrávés da propagacáo da natureza humana, um ver-
dadeiro estado de pecado. Sem dúvida alguma, devem-se evi
tar as expressóes que possam significar que cada novo mem-
bro da familia humana contrai o pecado original pelo simples
fato de que desde a sua origem está sujeito á influencia da
sociedade, onde o pecado reina, e por isto já se acha inicial-
mente na vida do pecado.

3. Acerca da Oonceicáo de Jesús e da virgindade de


Alaria. — A Comissáo de Cardeais pediu que o 'Catecismo'
proclame abertamente que a Bem-aventurada Máe do Verbo
Encarnado sempre gozou da honra da virgindade e afirme
claramente o fato da conceigáo virginal de Jesús, a qual se
coadunava perfeitamente com o misterio da Encarnagáo. Por
conseguinte, o 'Catecismo' nao deveria dar ocasiáo a que os
leitores já nao acreditem na realidade do fato da conceicáo
virginal, contido na Tradigáo da Igreja e fundamentado na
Escritura Sagrada; nao basta professar um certo sentido sim
bólico désse episodio evangélico, como se, por exemplo, ensi-
nasse apenas a suma gratuidade do dom que Deus nos outor-
gou mediante o seu Filho.

4. A respeito da satisfacáo prestada por Nosso Senhor


Jesús Cristo. — Devem-se expor sém ambigüidade os elemen
tos da doutrina que nossa fe professa oom relágáo á satis
fago prestada por Cristo. Deus amou de tal modo os homens
pecadores que enviou ao mundo o seu,Filho a fim de os
reconciliar consigo (cf. 2 Cor 5,19).. Diz S. Agostinho: Tomos
reconciliados com Deus, que já nos amava..., e com quem
contrairamos inimizade por causa do pecado' (Com. ao Ev. de
Joáo, tr. CX, n« 6). Por conseguinte, Jesús, como Primogénito
de muitos irmáos (cf. Rom 8,29), morreu por nossos pecados
(cf. 1 Cor 15, 3). Santo, inocente, sem mancha (cf. Hebr
7,26), nao sofreu pena que o Pai lhe tivesse infligido, mas,
obedecendo com amor filial ao Pai (cf. Flp 2,8), aceitou livre-
mente, em favor de seus irmáos pecadores e como Mediador
déles, a morte que para os homens é salario do pecado
(cf. Rom 6,23; cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Gaudium et
Spes' n* 18). Mediante essa súa santissima morte — que, aos
olhos do Pai, compensou copiosamente os pecados do mundo —,
Ele fez que a graga de Deus fósse restituida ao género humano
como um bem que os homens acabavani de merecer através
do seu Divino Chefe (cf., p. ex., Hebr 10, 5-10; Conc. de
Trento, sess. VI, Decreto 'De justificatione', cap 3 e 7,
can. 10).

— 209 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 3

5. No tocante ao sacrificio da Cruz e aa sacrificio da


Missa. — É preciso dizer claramente que Jesús se ofereceu
ao Pai para reparar as nossas faltas, como vítima santa na
qual Deus pos sua complacencia. Em verdade, Cristo 'nos
amou e se entregou por nos como oblagáo e sacrificio ofere-
cido a Deus com suave odor1 (Ef 5,2).
O sacrificio da Cruz se perpetua na Igreja mediante o
sacrificio eucarístico (cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Sacro-
sanctum Concilium', n* 47) Com efeito, na celebragáo da
Eucaristía, Jesús, como Sacerdote principal, se oferece a Deus
por meio da oblagáo e da consagrado que os sacerdotes rea-
lizam e á qual se associam os fiéis. Tal celebragáo é sacrificio
e ceia. A oferta sacrifical tem seu pleno complemento na
Comunháo, em que a vítima oferecida a Deus é recebida
como alimento, a fim de unir a si os fiéis e associar uns aos
outros na caridade (cf. 1 Cor 10, 17).
6. Acerca da presenta real e da conversao encarística.
— É necessário que no 'Catecismo' seja afirmado sem ambi-
güidade que, depois da consagragáo do pao e do vinho, estáo
presentes sobre o altar o corpo e o sangue mesmos de Cristo
e que na santa Comunháo Cristo é recebido sacramentalmente,
a fim de que aqueles que se chegam á Mesa Sagrada com
as devidas disposigóes sejam espiritualmente restaurados pelo
Senhor Jesús. O 'Catecismo' deve, além disto, explicar como
o pao e o vinho, em sua realidade profunda (nao aparente),
sao convertidos no corpo e no Sangue de Cristo, táo logo
estejam pronunciadas as palavras da consagragáo. Ademáis
é preciso explicar como, em conseqüéncia, a própria huma-
nidade de Cristo, unida á sua Divina Pessoa, está latente, de
modo misterioso, sob as aparéncias do pao e do vinho.
Urna vez efetuada a admirável conversao, que na Igreja
é designada pelo termo 'transubstanciacáo', as aparéncias do
pao e do vinho tem conseqüentemente urna nova significagáo
e urna nova finalidade, pois contení e significam o próprio
Cristo como fonte da grar;a e da caridade que sao outorga-
das pela Sagrada Comunháo. Todayia as aparéncias do pao
e do vinho assumem essa nova significagáo e essa nova fina
lidade, porque se efetuou previamente a transubstanciagáo
(cf ene. de Paulo VI 'Mysterium fidei', A.A.S. LVH [1965],
p. 766; 'Schreiben der deutschen Bischofe an alie, die von
der Kirche mit der Glaubensverkündigung beauftragt sind',
n' 43-47).
7. Cora referencia á infalibilidade da Igreja e a pofcsi-
bilidadc de conhecer os misterios revelados. — A Comissáo

_ 910 —
O «N6V10 CATECISMO» HOLANDÉS 31

pediu que o 'Catecismo' declare que a infalibilidade da Igreja


assegura a esta nao sómente um reto procedimento em urna
procura continua, mas também a veracidade para que a Igreja
conserve a doutrina da fé e a explique sempre no mesmo
sentido (cf. Conc. do Vaticano I, Const. TDei Filius', c. 4, e
Conc. do Vaticano n, Const. T)ei Verbum', c. 2). 'A fé nao
é apenas procura, mas é principalmente certeza' (Paulo VI,
alocucáo ao Sínodo dos Bispos, A.A.S. LIX [1967], p. 966).
O 'Catecismo' deve evitar tudo que poderia induzir os leitores
a pensar que a inteligencia humana se detém apenas sobre
as expressóes verbais ou conceituais do misterio revelado. É
preciso, ao contrario, usar linguagem tal que faga compre-
ender que a inteligencia humana, por meio dos seus conceitos,
pode significar e atingir os misterios revelados 'como que em
espélho e de maneira confusa e imperfeita', segundo diz Sao
Paulo (1 Cor 13,12).
8. A respeito do, sacerdocio ministerial ou hierárquioo
e sobre o poder de ensinar e governar na Igreja. — É preciso
cuidar de que nao pareca diminuida a grandeza do sacerdocio
ministerial, o qual, no modo de participar do sacerdocio de
Cristo, difere do sacerdocio comum dos fiéis, nao sómente
por urna diferenqa de grau, mas por urna diferenga essencial
(cf. Conc. do Vaticano II, Const 'Lumen Gentium' n9 10:
'Instrugáo sobre o culto do misterio eucarístico', A.A.S. LIX
[1967] n* 11, p. 548).
Ao descrever o ministerio dos sacerdotes, trate-se de
apresentar mais claramente a mediacáo entre Deus e os
hornens que éles exercem, nao sómente pregando a palavra
de Deus, formando a comunidade crista, administrando os
sacramentos, mas também, e principalmente, oferecendo o
sacrificio eucarístico em nome de toda a Igreja (cf. Conc. do
Vaticano II, Const. 'Lumen Gentium' n" 28, e Decreto 'Pres-
byterorum Ordinis' n? 2 e 13).
Além disto, parece necessário que o 'Novo Catecismo'
reconheca claramente que na Igreja o poder de ensinar e
governar é conferido diretamente ao Sumo Pontífice e aos
Bispos que lhe estáo unidos em comunháo hierárquica, e nao
primeiramente ao Povo de Deus como intermediario. Em con-
seqüéncia, a missáo dos Bispos nao depende de um mandato
a éles comunicado pelo Povo de Deus, mas de um mandato
que Deus mesmo comunica para o bem de toda a comunidade
dos fiéis.
No 'Novo Catecismo' deve aparecer melhor que o Sumo
Pontífice e os Bispos, na sua tarefa de ensinar, nao se limi-

— 211 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 3

tam a recolher e sancionar o que toda a comunidade dos


fiéis eré. Na verdade, o Povo de Deus é movido e sustentado
pelo Espirito de Verdade, de modo que dé sua adesáo firme
a Palavra de Deus sob a guia do magisterio, a quem compete
auténticamente conservar, explicar e defender o depósito da
fé. Destarte realiza-se admirável convergencia entre os Bispos
e os fiéis quando penetram com a inteligencia a fé recebida,
quando a professam com palavras e quando a manifestam
com suas obras (cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Dei Verbum',
n' 10). A Sagrada Tradicáo c a Sagrada Escritura — que
constituem um único sagrado depósito da Palavra de Deus —
e o magisterio da Igreja sao realidades táo ligadas entre
si que nao podem subsistir separadamente urna da outra
(cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Dei Verbum', n" 10).

Por fim, o poder pelo qual o Sumo Pontífice governa a


Igreja, deve ser apresentado como poder pleno, supremo e
universal, que o Pastor de toda a Igreja pode sempre exercer
livremente (cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Lumen Gentium'
n" 22).
9. A propósito de alguns temas de teología dogmática.
— É preciso fálar mais adequadamente da Santissima Trin-
dade de pessoas em Deus, Trindade que os cristáos contem-
plam devidamento com os olhos da fe c amam filialmente,
nao apenas enquanto se manifesta nos acontecimentos da his
toria da salvacáo, mas também tal como ela desde toda a
eternidade é em sua vida intima; é essa vida íntima de Deus
que esperamos um dia contemplar.
É necessário, em alguns casos, falar da eficacia dos sa
cramentos com maior exatidáo
Faz-se mister evitar que o 'Catecismo' parega dizer que
os milagres só podem ser realizados por Deus na medida em
que nao se afastem do curso dos efeitos que as fórcas do
mundo criado produzem.
Por fim, é preciso tratar claramente da sorte das almas
dos justos falecidos. Depois de ter sido convenientemente
purificadas, gozam da visáo direta de Deus, enquanto a Igreja
peregrina ainda espera a vinda gloriosa do Senhor e a ressur-
reicáo final (cf. Conc. do Vaticano II, Const. 'Lumen Gentium'
n* 49 e 51).
10. No tocante a alguns temas de teología moral. —
O texto do 'Catecismo' deve evitar qualquer ambigUidade a
respeito da existencia de leis moráis que o homem pode reco-
nhecer e exprimir de modo tal que sua consciéncia esteja

— 212 —
O «NOVO CATECISMO» HOLANDAS 33

vinculada sempre e em todas as circunstancias. Evitem-se as


solugóes de casos de consciéncia que nao levem na devida
conta a indissolubilidade do matrimonio. No 'Novo Catecismo',
com razáo dá-se grande importancia á atitude interior e pro
funda da pessoa no setor moral; é preciso, porém, que nao
se atribua a essa atitude interior urna demasiada independen
cia em relaqáo aos atos externos da pessoa 1. As considera-
cóes referentes á Moral conjugal sejam mais fiéis á doutrina
do Concilio do Vaticano II e da Sé Apostólica.

Estas observacóes, embora nao sejam poucas nem de


pequeña importancia, deixam intata a mor parte do 'Novo
Catecismo' com o seu louvável caráter pastoral, litúrgico e
bíblico. Elas nao se opóem ao intento, digno de elogio, dos
autores do 'Catecismo', que procuraram propor a eterna Boa-
-Nova de Cristo em termos adaptados ao modo de pensar
dos homens de nossos tempos. Os grandes predicados que
caracterizam a obra, requerem que esta reproduza sempre a
doutrina da Igreja sem sombra alguma.

Card. José Frings


Card. José Lelebvre
Card. Lourengo Jaeger
Card. Hermenegildo Florit
Card Miguel Brovvne
Card. Carlos Journet
15 de outubro de 1968
Pedro Palazzini, Secretario».

2. Reflexoes fináis

Como se vé, a Comissáo Cardinalícia reconhece os valores


do «Novo Catecismo». Todavía nao pode deixar de apontar
nao poucas falhas e lacunas que tornam o livro um espélho,
as vézes, pouco fiel da fé católica, chegando a lhe conferir
cá ou lá um matiz de protestantismo.

i Isto é: nao se faca pouco caso do comportamento exterior das


pessoas. Leve-se em conta que atitudes interiores e atos exteriores
estáo Intimamente relacionados entre si. A consciéncia moral pre-
ceitua nao sómente atos interiores, mas também comportamentos
exteriores.

— 213 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 4

É neeessario que os teólogos reproduzam a fé católica em


termos acessiveis ao homem moderno. Também é compreen-
sivel que éste empreendimento nao esteja perfeito em sua
primeira tentativa, máxime quando esta é efetuada por teó
logos de urna só nacionalidade. Pergunta-se entáo : por que
nao aceitar as emendas propostas pelos teólogos da Santa Sé,
principalmente quando esta se empenha com a autoridade do
magisterio da Igreja? O pronunciamento da Comissáo Cardi-
nalícia constituida pela Santa Sé tem toda a autoridade deso-
jável para que um fiel católico o acate sem titubear.
Leve-se em conta que a fé nao é crragáo dos homens;
ela nos foi revelada por Jesús Cristo e confiada a Pedro e
seus sucessores. Disse Jesús a Pedro: «Roguei por ti, para
que tua fé nao desfaleca. E tu, urna vez convertido, confirma
teus irmáos» (Le 22,32). Por conseguinte, visto que o Sumo
Pontífice pede sejam reformulados certos ítens do «Novo
Catecismo», o fiel católico nao pode em sá consciéncia reger-se
por ésse livro nao corrigido, como ele acaba de ser publicado
no Brasil. O «Novo Catecismo Holandés», em edicáo brasi-
leira pode servir aos estudiosos, para que estejam a par do
movimento teológico e catequético de nossos dias, mas nao
é apto a ser manual de cursos de Religiáo. Para agradar a
Deus, nao basta ter urna fé qualqucr (por mais bem apresen-
tada que seja), mas é preciso ter a fé que Deus mesmo re-
velou e que Ele continua a manter viva e intata através do
magisterio da Santa Igreja. Deus, Cristo e Igreja sao inse-
paráveis entre si, de modo que quem contradiz aos pronun-
ciamentos oficiáis désse magisterio da Igreja, se distancia de
certo modo do próprio Cristo. Nao «formemos» cristáos defor
mados, cristáos cuja fe seja inspirada por teólogos mais do
que por Jesús Cristo o sua S. Igreja !

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

4) «A morte de Tomás Merton suscitou comentarios no


mundo inteiro.
Quem foi ésse escritor e que papel lhe coubc em nossos
tempos?»

Resumo da resposta: Nascido na Franca, filho de pai neo-ze-


landés e mae norte-americana, Tomás Merton teve urna juventude
aciden tada : carecendo de formacao religiosa, procurou ávidamente o
TOMÁS MERTON 35

sentido da vida. Quando já se inclinava para o Catolicismo, caiu no


marxismo, durante a viagem que fazia para os E.U.A. Aos poucos,
foi-se firmando nos principios cristáos mediante boas leituras. Depois
de muito Iutar interiormente, converteu-se ao Catolicismo em 1938,
com 23 anos de idade em Nova lorque. Desejou consagrar-se a Deus
na vida eremítica (solitaria), mas, já que só o poderia fazer na
Europa (de difícil acesso durante a guerra), resolveu entrar no
Mosteiro trapista de Gethsemani (U.S.A.) em 1941. Ordenado em
1949, foi, pouco depois, nomeado mestre de monges estudantes na
Abadía, cargo que exerceu até 1960, quando pediu licenca para abra
car a vida eremítica na Ordem Trapista. A partir de 1961, habitava
um eremitério ñas dependencias de Gethsemani, onde se entregava
á oracüo, ao estudo, á redacto de livros e ao trabalho manual. Em
1968, foi a Asia, convidado para participar de um encontró de monges
na Tailandia; morreu durante ésse Congresso, eletrocutado (como se
supfie), justamente no dia em que proferirá interessante conferencia
sobre «Marxismo e Monaquisino».
Sao muito numerosas as obras de Merton em prosa e poesía,
abordando temas ascétíoo-misticos, filosóficos e sociológicos de nossos
dias.
O significado de Tomás Merton nos tempos atuais é extraordi
nario; em pleno sáculo de agitacáo, deu válido testemunho de quanto
o homem pode sofrer por ignorar a Deus e depositar esperanca ape
nas nos bens temponais. Merton descobriu o Bem Infinito após ter
batido em diversissimas portas, e proclamou ao mundo a ¡mensa
felicidade que dai lhe adveio. O eco que essa mensagem suscitou no
mundo inteiro. atesta que a experiencia do grande convertido é
auténtica: o mundo, apesar de seu aparente materialismo, tcm sede
de Deus. de sorte que o exemplo de quem vive integralmente para o
Senhor embara longe do mundo, desparta ecos profundos nos homens
retos (cristáos e nao cristáos).

Resposta: Faleceu aos 10/XII/68 em Bangkok (Tailan


dia) o monge trapista Tomás Merton (em Reíigiáo. Father
Louis), encerrando, ainda relativamente iovem (53 anos),
urna vida rica do perertrinarróes e experiencias. Tomás Merton
possuia uma personalidade rara em nossos dias, personalidade
que constituí verdadeira mensagem para os homens contem
poráneos.
Abaixo percorreremos sintéticamente as etapas da vida
de Tomás Merlon; após o que, tentaremos refletir sobre a sua
figura.

1. Currículo de vida

Tomás Merton nasceu em Prades, no SO da Franca, aos


31 de Janeiro de 1915. Seu pai era natural da Nova Zelandia,
oriundo de familia inglesa; dedicava-se talentosamente á pin
tura e 'á música, o que despertou na crianga o sens:o da arte
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 4

e da estética Professava a religiáo anglicana; tinha fé, mas


nao freqüentava a igreja. A genitora de «Tom» era norte-
-americana; estudava pintura em París, quando conheceu seu
futuro esposo; pertencia á seita protestante dos Quakers.

Merton escreveu a respeito de seus genitores: «Meu pai e minha


máe estavam no mundo, mas nao eram do mundo, nao porque
íóssem santos, mas porque eram artistas, como Cézanne». Segundo
Tomás Merton. a arte eleva o homem ácima do mundo, mas nao o
liberta de si mesmo.

Batizado no anglicanismo, Tomás ná'o recebeu de seus


pais a mínima instruqáo religiosa; preocupavam-se apenas
com a retidáo humana e a lealdade de caráter de seu filho;
a genitora queria que o mesmo fósse original, independente,
alheio a todo rebanho. Tomás perdeu-a quando tinha seis anos
de idade.

Um ano depois de nascido, Tom foi levado por seus pais para
os Estados Unidos da América, onde nesidiam os avós maternos do
menino; a familia dcsejava escapar ao clima europcu, que a guerra
tornava cada vez mais pesado. Aos cinco anos, Tom aprendeu o
«Pai-Nosso» por zélo de sua avó paterna, recém-chegada da Nova
Zelandia.

O avó materno de Tom, sendo magon, incutia ao menino


o odio do Catolicismo; alias, aos nove anos de idade, a crianca
era hostil a toda idéia de religiáo.

Depois de ter estado ñas ilhas Bermudas, em 1925 Tom voltou


com seu irmáo mais jovem John Paúl para a Franca, onde continuou
os estudos iniciados na América do Norte. A fim de nutrir seu espi
rito sequioso e desorientado, lia com prazer os altos feitos dos heróis
da Grecia antiga.

Em 1928, o pai de Tom resolveu ir morar na Inglaterra,


onde o menino tinha urna tia, que Ihe poderia prestar os
cuidados maternos. O jovem continuou a freqüentar a escola,
mostrando propensáo crescente para as letras, as artes e a
filosofía.

Ñas ferias escolares de 1933, o estudante Tomás Merton foi h


Italia atraído principalmente pelas obras de arte daquele pais. As
igrejas de Roma, com suas pinturas e suas reminiscencias dos tempos
dos mártires, o impressionaram profundamente, levando-p a ler o
Novo Testamento. Certo día, quando passeava no monte Aventino,
sentiu-se vivamente interessado pela igreja de Santa Sabina; entrou
nela e — feito inédito em sua vida — tomou agua benta, dirigiu-se
decididamente para o altar-mor, diante do qual se ajoelhou; recitou
entáo lentamente, e com toda a atencao de que era capaz, o «Pai-
-Nosso». Saiu da igreja com a impressáo de que nascera de novo; urna
TOMAS MERTON 37

paz profunda inundava-lhe o ooragao; pela primeira vez pensava em


mudar de vida e encaminhar-se para Deus.
Alguns d!.as mais tarde, sentiu novo impulso para o Criador,
quando visita va a igreja dos trapistas de «Tre Fontane» em Roma ;
urna vaga e fugitiva idéia passou-lhe pela mente: «Teria prazer em
tornar-me trapista».

Terminadas as ferias, Merton deixou Roma com o cora-


cao cheio de nostalgia. De volta á Inglaterra, inscreveu-se na
Universidade de Cambridge, onde passou a ler e admirar a
«Divina Comedia» de Dante. Em 1934, transferiu-se definiti
vamente para os Estados Unidos da América, influenciado por
seu padrinho. A travessia oceánica foi para Merton ocasiáo
de brusca mudanca de mente: tornou-se comunista, embora
nao soubesse muito exatamente os «porqués de sua nova ati-
tude; os filmes russos e a arte russa o atraiam; além do que,
certos amigos o influenciavam nesse sentido. Matriculou-se
entáo na Universidade de Colúmbia em Nova Iorque, a qual
tinha fama de ser um reduto do marxismo nos Estados
Unidos. Como quer que seja, o estudante procurava sequiosa-
mente r> sentido da vida, experimentando dolorosa lacuna no
ateísmo.

Enquianto preparava a tese para obter o diploma em filosofía,


Merton tomou conhecimento de alguns livros, que o incitaram a novas
reflexóes, desta vez segundo orientacáo crista. Tal foi, entre outras,
a obra de Étienne Gilson «L'esprit de la philosophie médiévale», que
lhe inspirou profundo respeito pelo pensamento e a fé católica. Com-
preendeu entáo, com profunda aatisfacáo, que «Deus é o próprio Ser.
Deus existe por si sem outra causa senáo a da sua própria natureza,
que consiste em existir».

Tendo aceito essa exata e básica nogáo de Deus, Tomás


Merton foi mais e mais iluminado pela graca de Deus. Com
avidez pós-se a 1er mais e mais livros, á procura de pao
substancioso: tinha consciéncia crescente de que o homem
precisa de fé e de que o puro racionalismo é de todo incon
sistente.

Um belo dia, encontrou um monge hindú, Bramachari, que lhe


sugeriu a leitura das «Confissóes» de S. Agostinho e da «Imitacáo
de Cristo» de Tomás de Kempis... Pouco depois, Merton estudou a
obra «Art et Science» de Jacques Maritain, a qual lhe esclareceu novas
dúvidas que lhe pairavam na mente.

Essas diversas leituras suscitaram no jovem a idéia de


ir procurar um sacerdote católico, com quem abriría a alma.
Assim em 1938 já estavam sólidamente langados os funda
mentos da conversáo de Merton; de ateu que era, tornara-se

— 217 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 4

crente e aspirava a consagrar toda a sua vida a Deus. Todavía


a caminhada espiritual nao estava concluida: Merton sentía
ainda os atrativos dos sentidos e da carne. A luta era grande
em sua alma; prevalecía, porém, aos poucos o melhor pro
pósito.
Finalmente a leitura de Gerard Manley Hopkins, o poeta
protestante que se tornou jesuíta, parece ter sido decisiva.
Urna vozlhe subiu á mente: «Que esperas? Por que ainda
hesitas?» Saiu entáo de casa, debaixo de chuva, e, movido por
fórca irresistível, foi procurar o P. Ford, cura da paróquia
onde morava em Nova Iorque; avistando-o, disse-lhe: «Padre,
désejo tornar-me católico!»
Depois dos últimos preparativos catequéticos, foi escolhida
a data de 16 de novembro de 1938 para a iniciacáo de Merton:
nesse día, com 23 anos de idade, o grande convertido recebeu
o Batismo sob condi;áo (válido apenas no caso de nao ter
sido devidamente batizado no anglicanismo), fez a sua pri-
meira confissáo e participou da S. Eucaristía, com imensa
alegría e profunda consciéncia do dom de Deus.
Aos poucos, Merton foi penetrando o significado e o al
cance da vocagáo crista. O seu estado de alma nos primeiros
meses após a conversan é bem manifestado pelo episodio
seguinte, onda se retrata um jovcm choio de nobres aspira-
góes, mas ainda inseguro na vida:

Certa voz, Merton eaminhava pela 6* Avenida do Nova Iorque


com seu amigo Lax, jovcm judou choio do idoal religioso, quandn Lax
lhe perguntou:

«Afinal, que queres fazer ?»


«Eu nao podia responder (observa Tomás Merton). Quero ser
Tomás Merton, o famoso autor de todas as criticaa de livros do 'Times
Book Revievv', ou Tomás Merton. proíessor adjunto de inglés? Por
isto, colocando a questáo no plano espiritual, que eu sabia ser o de
Lax, respondí:
Nao sei; sem dúvida. quero ser um bom católico.
— Que entendos por isso?»
Comenta Merton: «Minha pobre explieacüo exprimía a minha
confusáo e revelou quáo pouco eu pensava nessas coisas; Lax a
rejeitou».
— «O que deverias dizer, é que tu queres tornar-te um santo!»
«Um santo! Isto rae pareceu um pouco estranho», observa Merton.
«Repliquei: 'Como queres que me torne santo?'
— «Querendo tornar-te santo», disse simplesmente Lax.
— «Nao o posso, nao o posso». E reflete Merton: «Meu espirito
se obscureceu por urna mistura de realidades e quimeras: a conscl-

— 218 —
TOMAS MERTON 39

éncia de meus pecados, a falsa humildade que leva os homens a dizer


que sao incapazes de fazer o que devem fazer, que nao se podem
elevar aonde se devem elevar; a covardia que se contenta com salvar
a sua alma, evitar o pecado mortal, sem renunciar a seus pecados
e apegos».

Lax continuou: «Para ser santo, basta queré-lo. Se consentes em


deixar Deus agir, julgas que Deus nao permitirá que te tornes aquilo
para que fóste criado? Basta que tu o queiras».
Depois que Lax se foi. observa Merton, reíleti e compreendi,
também eu. No dia seguinte, disse eu .a Mark van Doren:
«Lax pretende que basta, para ser santo, querer ser santo".
«Sem dúvida», respondeu Mark.
E conclui Merton: «Eram ambos mais cristáos do que eu. Que
fazia eu entao? Por que era ainda táo lento, tao confuso, tao hesi
tante e táo inseguro no caminho a seguir?»

Tomás Merton percebia cada vez melhor que era cha


mado a consagrar-se totalmente a Deus. Todavia hesitou
muito sobre a maneira como o faria; a vida franciscana o
atraía. Decidiu-se, porém, pela vida solitaria e contemplativa,
que ele désejaría realizar numa Cartuxa; contudo, já que nao
havia Cartuxas nos E.U.A. e a guerra Ihe dificultava a
viagem para a Europa, resolveu escolher a Abadia Trapista
de Nossa Senhora de Gethsemani (Kentucky, U.S.A.); os
trapistas lovnni vida austera, dedicada a orac-fvo. ao trabalho
manual e ao cstudo. Tendo entrado em Gethsemani aos
10/XII/1941, Merton fez sua profissáo religiosa aos 19/111/1944
com o nome de «Fr. Louis», e foi ordenado sacerdote na festa
da Ascensño de 1949 (26/V).
Em 1951, foi nomeado Mestre dos estudantes trapistas
que se preparavam para o sacerdocio na Abadia de Gethsemani.
Exerceu ésse cargo até 1960, quando pediu demissáo para
poder levar vida eremítica, o q\is sempre almejara desde que
entrara no Mosteiro. Sendo o désejo de Merton algo de extra
ordinario entre os trapistas, foi submetido á consideragáo do
Capitulo Geral, que houve por bem conceder a Fr. Louis a
permissño para levar vida semi-eremítica. Conseqüentemente,
desde 1961 Merton habitava um pequeño eremitorio («Hermi-
tage») nos bosques de Gethsemani a cerca de 4 km do Mos
teiro: levantava-se as 2 h 30 min da madrugada; preparava
e tomava um pouco de café; a seguir, entregava-se á leitura
e á oracáo até as 10 h 30 min, quando saía da ermida para
ir celebrar na cripta da igreja da Abadia. Alm.oc.ava com os
monges no refeitório comura; depois voltava á sua solidáo,
onde se consagrava ao estudo, á meditagáo e ao trabalho
manual; os bosques e a natureza o deleitavam profundamente,

— 219 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 4

inspirando-lhe o espirito poético e contemplativo. A partir de


1966, passou a viver inteiramente no eremitorio; todavía sem-
pre recebeu visitantes provenientes do mundo inteiro e per-
tencentes a credos diversos.

Em 1968, tendo sido eleito em Gethsemani um novo


Abade, o P. Louis recebeu licenga para ir á Asia, atendendo
a um convite do Abade Primaz da Ordem de S. Bento para
participar de um encontró de monges católicos (beneditinos e
trapistas). Havia anos que Merlon estudava as antigás reli-
gióes da Asia, especialmente o Zen-budismo (entre outras
coisas, Merton julgava que a tese budista da náo-violéncia,
difundida no Ocidente, seria benéfica para a causa da paz).
Por isto esperaya visitar mosteiros católicos e náo-católicos
da India, da Tailandia, de Hong-Kong, da Coréia e do Japáo;
o contemplativo de Gethsemani desejava observar as escolas
de ascetas e orantes do Oriente.
O referido encontró teve inicio na segunda-feira 9 de
dezembro na sala de conferencias da Cruz Vermelha da Tai
landia, em Suwang Kaniwat, a 30 km de Bangkok. Na terca-
-feira 9 de manhá, Tomás Merton apresentou á assembléia
urna dissertacáo sobre «Monaquismo e Marxismo», após a qual
respondeu a dúvidas e questócs que Ihe foram propostas.

O conferencista observou que o marxismo e o monaquismo tém


em comum «urna atitude de critica radical em relacáo ás estruturas
antigás da sociedade»; distanciam-se, porém, um do outro pela ma-
neira de conceber e apregoar a respectiva revolugáo: o marxismo
visa transformar o mundo sócio-económico como se tudo dependesse
da materia, ao passo que o monaquismo preconiza primeiramente a
mudanca do homem interior mediante total conversáo a Deus.

O montee P. Louis se nchnva cntño no auge do sua pro-


dutividade humana e religiosa, desdobrando as riquezas de
sua personalidade e beneficiando a urna multidáo de homens
e mulheres, eclesiásticos e leigos, católicos e náo-católicos;
humanamente falando, estava fadado a desenvolver ainda urna
extraordinaria missáo, sem deixar de ser eremita. Todavía a
Providencia tinha outros designios; na tarde mesma do dia
em que fez sua conferencia na Tailandia, foi encontrado morto
em seu quarto, tendo 53 anos de idade
Os pormenores désse falecimento misterioso foram con
signados por seis monges trapistas participantes do Oongresso,
que da Tailandia escreveram urna carta-relatório a D. Fla-
viano Burne, Abade de Gethsemani, da qual váo aqui extraídos
os seguintes trechos:

— 220 —
TOMAS MERTON 41

«Todos nos aqui presentes, cada delegado em particular (e mais


algumas centenas daqueles que representamos), estamos profunda
mente agradecidos á bondade e á generosidade de V. Patemidade,
permitindo ao P. Louis assistir a esta Conferencia. Foi a presenga
" déle que nos atraiu e nos chamou; desde o primeiro momento da sua
chegada, ele se tornou o centro de todos os acontecimentos. Alguns
já o haviam encontrado, mas a maior parte o via pessoalmente, face
a face, pela primeira vez. Ele era conhecido no mundo inteiró por
seus escritos e por sua fama. Agora, porém, que tivemos o privilegio
de enoontrá-lo pessoalmente e de conviver com ele durante alguns
dias, sabemos exatamente como ele era, de fato, um grande monge.
Ele se tornou caro a ciada um de nos pela sua simplicidade, sua
abertura para oom todos, sua disponibilidadc e seu desejo de dar
tudo que tinha. Ácima de tudo, porém, o que mais nos impressionou,
foi o fato de ser ele um verdadeiro monge.
Na manhá de sua morte, ele havia feito urna conferencia, para a
qual se havia preparado com muito cuidado. E todos nos estávamos
ansiosos, aguardando a conferencia da tarde em que ele iria res
ponder ás nossas perguntas sobre o assunto de sua conferencia e sobre
o monaquisino em geral na época presente.
Depois do almóco, o P. Louis retirou-se para seu quarto. A ca-
minho, encontrou-se com um de nos e disse que estava desejoso de
repousar, pois na véspera nao tinha descansado por se ver obrigado
a organizar um encontró do qual devla também participar.
Pouco depois de ter-se ele retirado par.a o quarto, alguns ouvi-
ram um grito, vindo da pequeña casa que ocupava. Depois de alguns
instantes, pensaram que fósse imaginacáo e nao deram maior impor
tancia.
Á tardo, ele foi encontrado no chao, vestido de pijama. Deitaclo
de costas, tinha sobre o peito um ventilador elétrico, que ainda fun-
cionava. Via-se urna grande queimadura, muito profunda, sobre o
peito. Estava também ferido, apresentando cortes no peito e no braco
direito. A parte de tras da cabega, que repousava no chao, estava
sangrando.

Urna das monjas, que tinha conhecimentos médicos, veio depressa


para o seu lado, procurando socorré-lo. Era, porém, evidente que já
estava morto.

Um módico Thni fisto (:, pagfio) foi chamado, e mais tardo outro
médico Thai também comparcccu. É difícil, no entanto, determinar
exatamente qual tenha sido a causa da morte.

Cré-se que ele tomou um banho de chuveiro e depois teve um


colapso cardiaco. Ao cair perto do ventilador, derrubou-o sobre seu
peito; oontinuando a funcionar, o aparelho o feriu. — Outra hipótese
é que, estando Merton descalco sobre as lajes do chao, possa ter
recebido um choque fatal.
Logo depois da investigacáo da policía, pedimos licenca para ves
tir o seu corpo com o hábito monástico completo: escapulario e capuz.
Esta permissáo foi prontamente concedida.
O corpo foi lavado e. em seguida, vestido e colocado sobre o leito.
Comeoou entáo urna vigilia ininte.rrupta ao lado do seu corpo. Come-
camos pela .recitaeño lenta do rosario e, em seguida, do Salterio in-
teiro, até que os Oficiáis do Exército Americano chegaram para levar

— 221 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 4

seu corpo. A vigilia, que se iniciou ás seis horas da tarde, durou até
1 h 30 min da manha.
Na morte, o rosto do P. Louis tinha expressáo de profunda paz e
grande alegría. Era evidente que ele tinha encontrado Aquéle que
procurara com tanta diligencian

O corpo de Tomás Merton voltou, por via aérea, para os


E.U.A.; as exequias e o sepultamento tiveram lugar na Aba-
dia de Gethsemani na terca-feira 17 de dezembro; a cerimónia
teve caráter privado, o que nao impediu que amigos e cola
boradores do grande monge participassem do Oficio litúrgico.

2. Personalidade e mensagem efe Merton

Merton foi, por certo, urna personalidade excepcional-


mente rica: a sua vida pré-cristá lhe proporcionou grande
experiencia dos homens e do mundo, através de viagens e
contatos numerosos; deu-lhe também a ocasiáo de ler, e ler
muito, com grande avidez.

Quando entrou no Mosteiro, foi sabiamente observado por seu


Abade, que néle deve ter percebido algo de seus talentos lntelectuals
e místicos <aos onze anos de idade, já escrevera o seu primeiro
romance!). Aínda novico, foi designado para trabalhar na Biblioteca
e efetuar alguns trabalhos de redacao: folhetos para divulgar o ideal
trapista, traducóes de livros ou artigos... Pediram-lhe também que
escrevesse a biografía de urna monja trapista desconhecida, a qual
poderia despertar interésse na juventude ardorosa.

A qualidade déstes primeiros ensaios levou o Abade de


Gethsemani a confiar a Fr. Louis ampias tarefas no mesmo
setor: prevendo o grande bem que poderia fazer, o Pai espi
ritual pediu-lhe publicasse a autobiografía (coisa que entre
os trapistas é de todo insólita). O respectivo livro «The seven
Storey Mountain» (A montanha dos sete patamares) teve
enorme sucesso, pelo seu estilo simples e seu conteúdo pro
fundo; foi difundido num total de mais de 600.000 exemplares.
Tornou-se assim evidente que Fr. Louis se devia dedicar
nao sómente á contemplagáo, mas também á publicacáo de
suas consideracóes sobre a vida espiritual e a uniáo com Deus.;
o público recebia com simpatía e proveito os escritos do
monge, obrigando-o de certo modo a continuar a escrever.

A correspondencia de Merton era enorme, atingindo o mundo


inteiro. O famoso escritor russo Boris Pasternak escreveu-lhe da
Rússia, muito antes que seu nome se tornasse conhecido no Ocidente,
a fim de comentar um de seus poemas. Entre os correspondentes de

— 222 —
TOMÁS MERTON 43

Merton, assinalam-se Jacques Maritain, James Baldwin. Dorothy Day,


o prefeito de Hiroshima.

A produgáo literaria de Merton sobe a um total de vinte


e cinco livros em prosa, dez de poesía, numerosos artigos
publicados em revistas e copiosa correspondencia. Em todas
as suas obras, o escritor manifestou sempre fino senso de
«humour» e delicada maneira de refutar teorías erróneas
Pode-se tentar delinear nos seguintes termos o itinerario
espiritual de Merton após a sua conversáo, ou seja, após urna
vida desorganizada, boémia, sem familia, vida de rapaz amar-
gurado e desiludido:

1) Mergulho absoluto no silencio: «DEUS SÓ!» Logo após sua


entrada na Trapa, o jovem monge se entregou totalmente ás obser
vancias comunitarias e austeras, procurando o máximo distancia-
mentó do mundo.

2) Após dez anos de vida monástica, já como sacerdote e mes-


tre de jovens monges, Fr. Louis passou a caracterizar-se principal
mente pela mansidáo, por profunda compreensáo do próximo, princi
palmente quando soíredor; o seu amor contemplativo nao o impedia
de querer dar-se ou de compartilhar com os seus semelhantes a ale
gría e a paz que Deus comunica.

3) A partir de 1961, os escritos de Merton manifestam que o


autor se interessa vivamente por assuntos capitais do mundo contem
poráneo; já nao tratam apenas de contemplacáo, mas também, e
íreqüentemente, abordam os grandes temas que preocupam a Igreja
e a humanidade de nossos días: Vaticano II e atualizacáo da vida
católica, cristáos russos, ecumenismo, aproximagüo de todos os ho-
mens entre si, espiritualidade budista, racismo Vietnam, guerra,
objecao de consciéncia, bomba atómica e de H, «Beatles»...
Sem deixar a solidáo, ao contrario, vivendo-a mais intensamente.
Merton voltou a olhar para o mundo, a fim de oonsiderá-lo com um
olhar de fé e grande «com-paixáo». Além do mais, tratou, com eru-
dicao e sabedoria, do pensamento de autores modernos fateus, protes
tantes, católicos) como Sartre. Camus, Barth, Robinson, Bonhoeffer,
Maritain, Teilhard de Chardin...

Fr. Louis foi assim um grande contemplativo, mas tam


bém um notável escritor e destarte um grande benfeitor da
humanidade, com a qual procurou compartilhar os ricos dons
que Deus lhe concedeu. — De passagem, pode-se notar que
Merton nutria grande amor ao Brasil e ao seu povo, amor
que transparece através das numerosas cartas que escreveu aos
amigos brasileiros.
Merton proclama, ainda hoje, quáo erróneas e vas sao
as tentativas de realizar um Cristianismo «secularizado» ou
«sem Deus», isto é, um Cristianismo interessado exclusiva-

— 223 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 5

mente na política e nos interésses temporais da humanidade.


O genuino Cristianismo se volta primeira e necesaáriamente
para Deus, a fim de O adorar e louvar; quem faca isto — e
sómente isto — durante toda a sua existencia terrestre, en-
cheu a sua vida; ocupa na Igreja e no mundo urna posicáo
plenamente justificada; está sendo, ao mesmo tempo, um
irmáo e benfeitor de todos os homens, pois, em última aná-
lise, é na oracáo e no contato imediato com Deus que se
resolvem todas as grandes batalhas da humanidade. Tomás
Merton representa, de maneira eloqüente, o ideal da contem-
placáo em pleno sáculo XX; ele lembra a todos os cristáos
de hoje o primado da oracáo e da vida interior, sem as quais
se torna infrutífera toda acáo apostólica ou política dos dis
cípulos de Cristo. O Cristianismo foi e será sempre orante;
todo cristáo também deve ser tal. Ao mesmo tempo, a figura
de Tomás Merton é testemunho de como a contemplagáo
nobilita o homem, elevando-o mais e mais para Deus, sem o
alienar, mas, ao contrario, tornando-o mais e mais irmáo de
seus semelhantes.

Realmente, a historia continua a ensinar — e com elo-


qüéncia crescente — quáo verídicas sao as palavras de S. Agos-
tinho (f 430): «Senhor, Tu nos fizesle para Ti, e inquieto c o
nosso eoracáo enquanto nao repousa em Ti!»

5) «Poderia dar breve noticia do encontró de mionges


católicos e budistas ocorrido na Tailandia em dezembro de
1968?»

Resumo da resposta: Nao se trata de um diálogo sistemático


entre católicos e budistas, mas de encontros formáis e, principalmente,
informáis, por ocasiáo de urna reuniáo de setenta monges e monjas
católicas em Bangkok. O Patriarca budista Sankarat visitou oficial
mente a assembléia católica no día 9/XII/69. Nos dias seguintes, os
monges católicos foram repetidamente entreter-se com os bonzos no
Mosteiro budista da regiüo. Quanto ao congresso dos monges cató
licos (entre os quais se achava Tomás Merton), teve por objetivo
tratar de questóes relativas á incrementagáo do monaquisino na Asia,
regiáo que tem características bem diferentes das dos países ociden-
•tais: «Deverá ha ver eremitas católicos na Asia?... estáveis ou am
bulantes (como os monges budistas)? Participarüo os monges da
campanha de desenvolvimento humano das populagoes com que vivem
na Asia?» Em suma, o encont.ro íoi algo de inédito na historia da
Igreja e deixou balango muito positivo.
ENCONTRÓ DE MONGES CATÓLICOS E BUDISTAS 45

Rcsposta: Eis as grandes linhas do encontró:

1) A iniciativa

O órgáo promotor désse encontró é o AIM («Auxilio á


Implantagáo Monástica»).

O AIM vem a ser urna comissüo de monges beneditinos presi


didos atualmente polo P. de Floris, ex-Abadc de En-calcat (Franga),
que visa favorecer a fundagáo e o desenvolvimento de mosteiros
beneditinos, cistercienses e trapistas (os quais militam todos sob a
Regra de S. Bento). Essa entidade publica um Boletim de ligacáo
entre os monges. manda livros, revistas e medicamentos aos mosteiros,
conferencistas as comunidades do Terceiro Mundo... AJém do que,
organiza nos diversos continentes reunióes de Superiores e represen
tantes de mosteiros; em 1965, houve uma dessas em Bouaké (África):
em 1967, na cidade de Roma.

2) A Cosembléia e sua abertura

De 4 a 15 de dezembro de 1968, efetuou-se o primeiro


encontró de monges católicos orientáis., cuidadosamente pre
parado pelo AIM mediante questionários dirigidos aos respecti
vos participantes.

A ésse encontró compareceram setenta Superiores (homens e


mulheres) de diversos mosteiros da Asia; eram Abades, Abadessas,
Priores, Mestres de novigos beneditinos. cistercienses, trapistas, pro
venientes do Japáo. da Coréia, de Hong-Kong, de Formosa. das Fili
pinas, do Vietnam, da Indonesia, da India — na maioria asiáticos —,
aos quais se associavam peritos do Extremo-Oriente e do Ocidente.
Reuniram-se em Sawang Kanvwat, a 30 km de Bangkok (Tai
landia). Sob a presidencia de D. Rembert Weakland, Abade Primaz
dos Beneditinos, deviam estudar os problemas que se prendem ao
incremento do monaquisino católico no Extremo-Oriente, onde os
budistas vém levando vida monástica segundo características muito
próprias (eremitismo, peregrinagSes constantes...) há mais de dois
milenios.

Na segunda-feira 9/XII, ás 9 h da manhá, a semana foi


inaugurada pela visita que fez aos monges católicos Somdet
Phra Sankarat, o Patriarca supremo dos budistas da Tailan
dia. Entrou acompanhado por um representante do govérno
tailandés e tres outros monges budistas; acolheu-o Monsenhor
Jadot, Delegado Apostólico na Tailandia, no Laos, na Malasia
e em Singapura. O Abade D. Weakland prestou entáo sua
homenagem ao Patriarca budista, assim como a Tailandia e
aos seus governantes; a seguir, dois monges católicos ofere-
ceram presentes ao visitante. O Patriarca respondeu com
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 5

alocugáo cordial, em que dizia: «Se todos os homens religiosos


pusessem em comum suas atividades em favor da paz, a hu-
manidade inteira experimentaría a unidade e a justiga numa
paz geral e duradoura».
Essa visita, discreta e simples, mas muito calorosa, durou
cérea de quinze minutos, constituindo algo de inédito na his
toria da Tailandia: foi acontecimento de grande importancia,
que bem correspondia aos desejos do S. Padre Paulo VI expli-
citados em telegrama enviado á dita reuniáo.
De resto, no decorrer da Semana Monástica registraram-
-se diariamente encontros de monges católicos e hindus no
mosteiro budista de Sawang Kaniwat; os religiosos fomeceram
uns aos outros informales sobre as respectivas regras, mé
todos de ascese (disciplina) e oragáo. Após encerrados os
trabalhos da Semana no domingo 15, dois monges católicos
foram recebidos no referido mosteiro por vinte e quatro horas

3) O decorrer da Semana

Cada manhá da Semana foi preenchida por duas confe


rencias; á tarde, seis grupos de trabalho, formados pela as-
sembléia, se reuniam para estudar os temas do día. A rente,
a oragáo comunitaria se nutria de leituras cristas assim como
de textos náo-cristáos provenientes dos Upanishads do anti-
go hinduísmo, dos escritos de mestres modernos (Ramana
Maharshi, Tagore.. .) e de Lao-Tsé.
Além das conferencias, muito proveitosos foram os con
tatos pessoais dos semanistas entre si. Alguns déles eram
verdadeiros líderes do monaquisino cristáo na Asia:

Tal, por expropio, o mongo católico indiano Ittyavirah. cx-esco-


lástico jesuíta, que, dois anos antes de sua ordenacáo sacerdotal,
dcixou a Companhia de Jesús para se tornar monge itinerante; nos
últimos dez anos, tem-se dedicado aos pobres e necessitados ñas esta-
g5es ferroviarias, nos mercados, ñas rúas, nos ambientes operarios e
estudantis da India.
Tal é também a Irma Sraddhananda, alema, que durante dezes-
seis anos foi beneditina em sua térra natal; depois emigrou para o
centro da India, onde, há tres anos, vive em mosteiro hindú femi-
nino. seguindo a ascese das monjas locáis, guardando, porém, a fé
católica.
Tal é aínda John Moffitt, americano, que durante vinte e cinco
anos foi monge hindú; depois converteu-se ao catolicismo, e tornou-se
um dos redatores leigos da revista «América» dos jesuítas de Nova
Iorque.
Tal íoi também Tomás Merton, que durante dois dias ilustrou
notávelmente a assembléia...
ENCONTRÓ DE MONGES CATÓLICOS E BUDISTAS 47

.,4) Os debates

Os debates da semana, além de abordar questóes práticas


de adaptagáo, trataram de tres principáis temas:

a) Pode-se ou deve-se estabelecer um eremitismo (vida


monástica a sos) católico na Asia?

— Verificam-se tendencias a isto. nao, parém, idénticas em toda


parte: na India, o eremita católico deveria ser itinerante, como sao
os monges budistas, que passam a vida inteira a peregrinar ao longo
dos rios sagrados do país. Em Ceiláo e na Coréia, seria mais esti
mado e compreendido o eremita católico que vivesse no seio mesmo
de comunidades. Ao contrario, no Vietnam e ñas Filipinas ainda
nao há fundamentos culturáis que despertem o interésse pelo ere
mitismo.

b) Como manter o equilibrio entre contemplagáo e acáo,


que sempre pareceram antagónicas urna á outra?

— Na India, o candidato á vida monástica procura principalmente


a contemplacáo; quer encontrar urna casa de oracáo, nao um dispen
sario, ncm urna íazenda modelar. Em outras térras asiáticas, porém,
os jovens. interessados pela transformacáo social, dáo preferencia á.
agao, tida como expressáo da caridade. A propósito calou profunda
mente na assembléla urna observacüo do P. Enomya-Lasalle, jesuíta
do Japüo, especialista em Zen-budismo (cí. «P.R.» 90/1967, pág. 233-
242): requer-se que a acáo do monge se derive da contemplagáo. Sim.
dizia o padre, o monge deve encontrar Deus no mundo e nos irmáos;
mas poderá ele .realmente reconhecer Deus no próximo, se nao tiver
previamente purificado o coragáo?

c) Por que nao permitir haja monges católicos eom votos


temporarios, e nao perpetuos, como os há no budismo?

— A idéia nao era própriamente nova na Igreja Católica, mas


parecía particularmente adaptada aos ambientes asiáticos.

5) Conclusóes

A assembléia de Sawang Kaniwat resolveu fixar os se-


guintes principios:

a) haja mais elasticidade (liberdade para novas inicia


tivas e experiencias) na formagáo dos monges e na redagáo
das Constituigóes monásticas;

b) a tensáo entre agáo e contemplacáo deverá ater-se


aos dois seguintes termos:

— o mosteiro há de dar o testemunho da índole escatológica


(transcendental) do Cristianismo;

— 227 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 113/1969, qu. 5
— todavía as comunidades monásticas fazem parte integrante
do quadro humano em que estáo situadas; por isto devem exprimir
sua candade fraterna e contribuir para o desenvolvimento do res
pectivo povo.
Urna das últimas frases de Tomás Merton foi justamente esta:
«E preciso que o monge possa deixar o trabalho para atender ás
exigencias próprias da comunidade monástica, como também é mister
que o monge saiba interromper a oracáo (explícita) pana exercer a
atividade necessaria ao servico dos irmáos».
c) a pobreza deve ser concebida como desapego e
partilha;
d) dar-se-á atenqáo especial ao acolhimento de monges
náo-cristáos em mosteiros católicos;
e) criem-se pequeñas comunidades (de trinta membros
no máximo) ou pequeños grupos de monges esparsos sob a
dependencia de um mosteiro central;
f) incentive-se o intercambio de informaeóes e auxilios
entre os mosteiros. Para tanto, foi fundada a «Uniáo dos
Superiores monásticos da Asia», cujo presidente eleito é o
jovem Abade, alemáo dos beneditinos da Coréia, D. Odo Haas.
Como se vé, a reuniáo de Sawang Kaniwat marcou no-
tável etapa tanto na historia do monaquismo (que tomou mais
profunda consciéncia de si nos tempos atuais) como na das
relacóes entre cristáos e náo-cristáos (que se contactaran!
fraternalmente, burlando qualquer preconceito).
Como fonte de informagóes a propósito, pode-se citar «Informa-
tions Catholiques Internationales» n' 327, 1/1/1969, pág. 4-6. 25s.
RESENHA DE LIVROS
O assunto é Padre, por diversos autores. — Editora Agir, Rio de
Janeiro 1968/ 120x185 mm, 182 pp.
O livro ácima é urna coletánea de artigos devidos á pena de esti
listas famosos (mais do que teólogos), os quais, em traeos simpáti
cos, evocam o sacerdocio ou a figura de dignos sacerdotes. A vida de
um padre fiel e santo torna de certo modo transparente a presenca
e a acao de Deus entre os homens.
O livro apresenta, pois, interessantes páginas de Adonias Filho.
Amando Fontes, Cassiano Ricardo, Gustavo Corgáo, Helio Silva Josué
Montello, Murilo Meló Filho, Octavio de Faria, Rachel de Queiroz,
Walmyr Ayala. Em particular, merecem atenctio:
O perfil do Padre Leonel Franca, trabado por Helio Silva. Entre
as linhas marcantes da personalidade do sabio jesuíta, salienta o
autor a seguinte:

«Como indagasse o segrédo da multiplicidade de suas tárelas,


explicou-me humildemente: *O meu dia também tem 24 horas, mas
aproveito os cinco minutos...' Os cinco minutos eram essas sobras
de tempo, o intervalo entre duas ocupacoes, o relaxe necessário, todas
essas partículas de tempo perdido para o trabalho. No confessionário,
entre dois consulentes. No colegio, entre duas aulas. Na rúa, entre
dois destinos. Sempre havia alguma coisa a fiazer que comecava a ser
íeita» (pág. 89).

... As páginas de Gustavo Corcáo, que preconizam «padre padre»,


ou seja, sacerdotes totalmente dedicados ao servico de Deus e das
almas, nao contaminados por aspiracSes profanas.

Importa também realcar as consideracSes de Murilo Meló Filho,


que, de um lado, se esmera por encarecer o sacerdocio e, de outro
lado, aponta ^ dolorosa escassez de clero que aflige o Brasil.

Que o exemplo dos sacerdotes mais velhos empolgue os mais


jovens, e contribua para suscitar numerosas vocac6es!

A Lógica da Fé, por Henri Bouillard. — Editora Herder, Sao Paulo


1968, 140x210 mm, 153 pp.

Esta obra atende a um problema atual, a saber: «Em que consiste


prdpriamente a fé?» Há quem julgue Jioje em día que a fé é urna
vaga adesao a Deus, sem conteúdo doutrlnal; ou é sentimento reli
gioso cujas expressfies podem variar de sáculo para sáculo; ou aínda
há quem diga que é a aceitacSo cega do absurdo (um auténtico desa
fio á razáo). Ora Bouillard, através de suas páginas, apresenta o
genuino conceito católico: a fé é ato da inteligencia humana (como se
eompreende, movida pela vontade e pela graca de Deus); a fé tem
um conteúdo doutrinal. Quem eré, aceita verdades reveladas por Deus;
e nao as aceita cegamente, mas, sim, porque tais verdades tém a sua
credibilidade. isto é, apresentam-se apoiadas em credenciais que a razáo
humana pode averiguar. — Doutro lado, insiste Bouillard no íato de
que a íé tem também caráter existenclal; ela tende a mover a perso
nalidade táda para Deus.

Muito interessantes sao os capítulos do livro em que o autor


expde o conceito de fé professado por pensadores protestantes anti-
intelectualistas. No sáculo passado Kierkegaard, por exemplo, em seu
estilo pregnante, sugería que a fé é algo de irracional, algo cuja cer
teza se opee as certezas da inteligencia. Karl Barth (tl968)' julgava
que «urna linha de morte» separa Deus e o homem, de modo que a
razáo humana nao pode atingir a Deus; é só mediante Jesús Cristo
e o Evangelho que eonheeemos Deus. Bultmann, apregoando a demi-
tizacáo da fé, tira-lhe todo conteúdo Intelectual e objetivo.
O livro de Bouillard oferece ótimas sínteses do pensamento de
filósofos e teólogos modernos; muito se recomenda a quem se queira
aprofundar em filosofía religiosa.

D. Estévao Bettencourt O.S.B.


NO PRÓXIMO NÚMERO :

Marcuse e o «Homem unidimensional»

Novo Cc-ei'.srrs Hc:sr.¿és -. cc-er.'ó'';s

<'Goiileu Galilei» no teatro

«O diabo celebra a Mis3a»

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

porte comum NCr$ 17,00


Assinatura anual |
porte aéreo NCr$ 22,00

Número avulso de qualquor mes e ano NCr$ 1,50

Número especial de abril de 1968 NCr$ 3,00

Volumes encadernados: 1957 a 1963 (prego unitario) .. NCr$ 10,00


Volumes encadernados: 1964 e 1967 (prego unitario» .. NCr3 15,00

índice Gerai de 1957 a 1964 NCr$ 7,00

Índice de 1967 NCr$ 1,00


Encíclica «Populorum Frogressio» NCr$ 0,50

Encíclica «Humanae Vitae» (Regulacáo da Natalidade) NCr$ 0,70

Avisamos aós nossos leitores que se encontra á dispo-


sicao o índice de «P.R.» 1968. Preco: NCr$ 1,00.

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