RELAÇÃO ENTRE LAVAGEM DE

DINHEIRO, EVASÃO FISCAL E PARAÍSOS
FISCAIS

por
RUI TAVARES
Vice-presidente da comissão especial CRlM ÷ Crime organizado, corrupção e
branqueamento de capitais ÷ do Parlamento Europeu

Bruxelas, Fevereiro de 2013



A extensão e o contexto da questão
A lavagem de dinheiro é um tema muito vasto e complexo, que exige de nós uma resposta
política profunda e abrangente. O presente trabalho lidará exclusivamente com a relação
entre lavagem de dinheiro, ou branqueamento de capitais, e evasão fiscal, incluindo
através de paraísos fiscais, por razões práticas e para permanecer em linha com as
decisões do comité especial CRlM. No entanto, fazêmo-lo com o entendimento tácito de
que uma abordagem estreita da luta contra a lavagem de dinheiro só poderia resultar
numa deslocação das atividades criminosas para os meios que permanecessem ainda
inadequadamente regulados. Por outras palavras, os canais usados para a lavagem de
dinheiro funcionam como vasos comunicantes, nos quais o dinheiro pode fluir de uma área
para todas as restantes; como tal, só uma abordagem sistémica pode ter eficácia na luta
contra a lavagem de dinheiro.
A lavagem de dinheiro é um crime que tem por objetivo apresentar como legítimos proventos
de origem ilícita ou parcelas de proventos ilegalmente adquiridos ou ocultados da alçada
das obrigações fiscais junto das autoridades tributárias ou outras autoridades, através do
uso de métodos que visam obscurecer a identidade do beneficiário final desses proventos,
bem como a fonte e o método de obtenção dos lucros ilícitos
1
. É um crime cujos efeitos
são prejudiciais para o funcionamento do sistema político e perniciosos para o tecido
sócio-económico, tanto a nível nacional como global. O processo de lavagem de dinheiro
pode ocorrer de diversas maneiras, explorando de forma sofisticada uma complexa rede
de jurisdições de sigilo e/ou paraísos fiscais, ou manipulando o conceito de pessoas
colectivas, ou inventando empresas fictícias (shell companies) que podem funcionar como
biombos para ocultar a corrupção, ou abusando de lacunas na legislação corrente contra
o branqueamento de capitais, ou tirando proveito da fraca implementação dessas regras,
ou corrompendo as autoridades e responsáveis políticos, ou todos esses métodos e outros
ainda, combinados com a cultura de ganância de numerosas instituições financeiras e
atores de mercado estabelecidos em países e economias desenvolvidas, incluindo na União
Europeia. lndependentemente da origem do dinheiro, se ele tiver sido adquirido por meio
de uma actividade criminosa ou uma ofensa punível, ou for objeto de uma sonegação às
autoridades tributárias, as condutas para a lavagem de dinheiro são em larga medida as
1
The Puppet Masters, The World Bank and UNOCD, 2011, http://star.worldbank.org/star/publication/
puppet-masters.
mesmas.
Por causa de regras inadequadas e pouco conducentes à transparência, é muito fácil fazer
uso de uma empresa, grupos de empresas ou fundos de investimentos, ou explorar outros
arranjos legais, para que um indivíduo possa esconder a sua identidade tendo como fim a
lavagem de dinheiro. Para criar ainda mais complexidade, pode criar-se um novelo deste
tipo de estruturas legais, muitas vezes aproveitando a regulação frouxa ou a opacidade
de uma jurisdição de sigilo, que pode muito bem resultar na formação de uma empresa
de fachada sem funcionários ou operações no mundo real. Neste particular, os fundos de
investimentos, fundações e vários outros tipos de entidades legais desempenham um papel
muito importante no universo da lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Os prevaricadores
mais sofisticados optarão em geral pela segurança acrescida que lhes garante esta rede
complexa de fachadas, embora se dê também o caso de ser possível escapar ao alcance da
lei com um edifício legal bastante simples.
De acordo com estimativas do Gabinete das Nações Unidas sobre a luta contra as Drogas e
o Crime Organizado (UNODOC), com base numa meta-análise, 2,1 biliões de dólares norte-
americanos foram lavados em 2009, o que é equivalente a 3,6% do PlB global
2
. Segundo a
Comissão Europeia, os Estados-Membros perdem anualmente entre 2% e 2,5% do seu PlB
em crimes fiscais
3
. A organização Tax Justice Network estimou que a nível global existam
entre 21 a 32 biliões de dólares norte-americanos de riqueza acumulada por indivíduos em
contas acumuladas em paraísos fiscais offshore
4
.
No atual contexto político da crise do euro, com vários países já submetidos a programas
internacionais de resgate, canais de crédito interrompidos, fluxos de capital distorcidos, e
graves desequilíbrios no interior na zona euro em geral, e do Eurosistema em particular,
que continuam a crescer; nesse contexto, no qual o Banco Central Europeu tem tomado
medidas extraordinárias para prevenir a desintegração da moeda única, no qual a crise da
dívida continua a aprofundar-se e a atividade económica permanece em estagnação ou em
declínio, no qual as políticas de austeridade aceleram a contração económica e continuam
a minar o bem-estar social, torna-se cada vez mais premente garantir que a atividade
criminosa não exacerbe os problemas existentes, nem represente uma ameaça adicional
para a genuína solidariedade europeia e para os esforços necessários a uma recuperação
sustentada das economias da União.
A evasão fiscal como desafio multi-facetado
A evasão fiscal deve ser tratada de forma eficaz por uma série de razões. Desde logo, ela
priva os estados de gerar receitas suficientes, impedindo-os portanto de implementar as
políticas sociais, económicas, ambientais, culturais e outras adequadas à comunidade. A
evasão fiscal mina os esforços do governo para promover o bem-estar e a coesão social, o
que o impede de realizar sua função social. Além disso, corrói a credibilidade das instituições
democráticas e mina a confiança dos cidadãos nos meios e fins de um governo legítimo
2
United Nations Office on Drugs and Crime (October 2011), Estimating Illicit Financial
Flows Resulting From Drug Trafficking and Other Transnational Organized Crimes
Research Report, October 2011, p.5 http://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/Studies/
lllicit_financial_flows_2011_web.pdf.
3
Commission Communication COM(2006) 254, "concerning the need to develop a coordinated strategy
to improve the fight against fiscal fraud¨, 31 May 2006.
4
James Henry, Tax Justice Network (2012), The Price of Offshore Revisited New Estimates
for Missing Global Private Wealth, Income, Inequality, and Lost Taxes, p. 9, http://
www.taxjustice.net/cms/upload/pdf/Price_of_Offshore_Revisited_120722.pdf.
e democrático. Em poucas palavras, pode originar sentimentos que podem evoluir para
mentalidade anti-sociais, anti-democráticas e/ou eurofóbicas.
Em segundo lugar, aqueles que estão em melhor posição de evitar a tributação são
as pessoas que conseguem drenar os seus rendimentos para bancos ou jurisdições
estrangeiras, o que geralmente significa que são os mais ricos. Ao contornar os seus
deveres e responsabilidades para com a sociedade e o estado, os sonegadores estão
na verdade a colocar uma carga maior sobre aqueles que acabarão por pagar os custos
efetivos da tributação, que são na sua maioria membros das camadas baixas e médias da
distribuição de rendimentos. Como tal, a fraude fiscal promove ou amplia a desigualdade
social enquanto produz uma divisão de facto entre cidadãos privilegiados e não-privilegiados.
Em terceiro lugar, a evasão fiscal proporciona às instituições financeiras estabelecidas, bem
como a autoridades ou políticos, incentivos para se envolverem em atividades corruptas,
em busca de seu próprio enriquecimento ou outro benefício. As instituições financeiras ÷
os bancos ÷ estão interessadas em aumentar os seus lucros, fazendo uso deste fluxo de
fundos, mesmo que isso implique contornar as regras existentes
5
. As autoridades podem
ser atraídas para fechar os olhos a este processo, de modo a que a sua própria posição no
poder seja consolidada. Um exemplo de um claro caso de corrupção pela autoridades é o do
mais recente escândalo na Grécia sobre a chamada "lista Lagarde"
6
.
Em quarto lugar, a evasão fiscal é facilitada pelas assimetrias e heterogeneidade dos
regimes fiscais e de fiscalização em todos os Estados-Membros da UE. As baixas taxas
de imposto sobre as empresas, uma base fiscal minimalista sobre os lucros e transações
financeiras e uma supervisão negligente no domínio da criação de holdings são fortes
incentivos para empresas dispostas a evitar a tributação. Desta forma, a concorrência fiscal
desleal entre Estados-Membros da UE torna-se numa realidade subjacente, o que se tornou
particularmente prejudicial durante a atual crise económica na Zona Euro, uma vez que priva
os Estados na necessidade de fundos a partir de uma quantidade substancial de receitas.
O caso da lista pública de empresas portuguesas que deslocaram a sua sede fiscal para a
Holanda, tornando-se de facto em "letterbox companies", é um exemplo a realçar.
7
Em consequência, torna-se necessária uma administração fiscal mais eficaz nos Estados-
Membros, combinada com o reforço da cooperação e da coordenação da política fiscal,
sem no entanto colocar encargos adicionais sobre a sociedade. Um primeiro passo louvável
nesse sentido seria a introdução de uma Base Comum Consolidada de lmposto Empresarial
(Common Consolidated Corporate Tax Base).

Medidas preventivas para identificar beneficiários finais e combater a
evasão fiscal
A evasão fiscal é facilitada pelos paraísos fiscais onshore e offshore e pelas jurisdições
de sigilo em países fora da UE, mas a ocultação de atividades deste tipo também ocorre
em Estados-Membros da UE. Para abordar este aspecto do problema, as autoridades da
UE, a nível europeu e ao nível dos Estados-Membros, devem exigir o pleno cumprimento
de todos os princípios internacionais, diretrizes e melhores práticas mas devem, além disso,
5
Undue Diligence: How banks do business with corrupt regimes, Global Witness, March 2009.
6
http://www.nytimes.com/2012/10/28/world/europe/list-of-swiss-accounts-turns-up-the-heat-in-
greece.html.
7
Rui Tavares, Bas Eickhout, Question for written answer to the Commission (E-000499/
2012) http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+WQ+E-2012-
000499+0+DOC+XML+V0//EN.
pedir reciprocidade entre jurisdições em relação ao nível de transparência e à troca de
informações nestes domínios. A União Europeia deve cooperar com outras jurisdições, em
particular com os Estados Unidos da América, na recolha de todos os dados e informações
relacionadas com a prevenção da lavagem de dinheiro, como aliás faz com outras áreas
de implementação de políticas, tais como as questões de segurança, exemplificadas
pelos programas PNR ÷ Passengers' Names Records ÷ e TFTP ÷ Terrorist Finances
Tracking Program ÷, sem prejuízo para o facto de que tais acordos, que têm por objetivo
a cooperação na área do criminalidade transnacional grave, incluindo na deteção dos seus
proventos, necessitem hoje de reconsideração profunda, na medida em que têm levantado
problemas de respeito pelos direitos fundamentais, em particular pela proteção de dados, e
pelas normas democráticas, nomeadamente no que diz respeito ao escrutínio parlamentar
desses programas.
No que diz respeito à troca de informações, existem atualmente áreas nas quais o difícil
acesso a dados, ou mesmo a opacidade total e a falta de responsabilização características
predominantes. As variações nas culturas bancárias de diferentes jurisdições, bem como
a heterogeneidade geral dos regulamentos, abrem muitas vezes brechas para abusos em
transações inter-regionais, onde, por exemplo, o sistema bancário perfeitamente legal e
respeitável de uma região do mundo também funciona como o sistema bancário sombra
de outra região e vice-versa. Para este efeito, a UE deve exigir como requisito obrigatório
o acesso permanente à obtenção de informações sobre o beneficiário final de uma
pessoa coletiva ou de um investimento, de modo a que ninguém possa esconder-se sob a
complexidade, opacidade ou assimetrias nas relações jurídicas inter-regionais ou na ordem
jurídica global.
Para ser eficaz na resposta à necessidade de combater a evasão fiscal e identificar os seus
beneficiários finais, com base nas recomendações de 2012 da Financial Action Task Force
(FATF) e dos documentos que esta produziu durante a última década, a UE deve avançar
com legislação e regulamentação que tenha por objetivos:
· Exigir transparência total às instituições financeiras no fornecimento de todas
as informações sobre as suas atividades junto de autoridades de supervisão offshore.
A este respeito as instituições financeiras devem ser desencorajadas ou, se necessário,
proibidas de operar em territórios que constem das listas negras elaboradas pela FATF, pela
OCDE
8
ou pela iniciativa StAR do Banco Mundial
9
. Os bancos europeus devem garantir que
todas as suas subsidiárias globais estejam em conformidade com a directiva da UE sobre o
combate à lavagem de dinheiro (diretiva AML)
10
.
· Estabelecer um sistema integrado de registos de acionistas legais envolvendo
a União Europeia e os seus Estados-Membros, que contará com todas as informações
necessárias sobre os acionistas de empresas que operam dentro da UE. Este registo pode
ser complementado com um índice de risco que levará em consideração alguns dos aspetos
mais suspeitos das operações de uma empresa. As informações sobre este registo devem
estar disponíveis para as autoridades que as peçam e deve caber a todas as empresas a
prestação de informações relativas aos seus beneficiários finais, no momento em que lhes é
pedido ou num prazo de 48 horas.
8
Organisation for Economic Co-operation and Development.
9
Stolen Asset Recovery lnitiative.
10
EU Anti-Money Laundering Directive, atualmente num processo de revisão de que farão parte as
presentes recomendações, bem como as outras recomendações da comissão CRlM e os processos
legislativos atualmente em curso nas comissões LlBE e ECON do Parlamento Europeu.
· Criar ao nível da UE um registo periodicamente atualizado de beneficiários
finais. A partilha desta informação deve ser coordenada sem obstáculos por toda a UE
para que os casos de dumping fiscal sejam evitados e as variações na legislação nacional
não ofereçam uma janela de oportunidade aos criminosos e a todos aqueles que fazem um
uso sofisticado, estruturado e sistemático dos buracos na legislação de forma claramente
prejudicial, na intenção de abusar do sistema e não de conduzir operações comerciais ou
financeiras normais. lnformações relativas aos beneficiários finais de ativos na banca de
investimentos ou tradicional devem ser disponibilizadas aos departamentos de cobrança
de impostos num registo oficial, mas cumprir em simultâneo com todos os princípios de
governança justa em matéria de transparência e de acessibilidade. A identidade dos
proprietários e controladores de uma pessoa jurídica, organização jurídica ou estrutura
similar deve ser sempre fornecida aos registos oficiais de forma a que essas entidades ou
acordos possam deter peso legal
11
.
· Reforçar os requisitos que recaem sobre as funções dos administradores.
As administrações devem ser responsabilizadas por não terem tomado as medidas
necessárias e adequadas para evitar a lavagem de dinheiro, incluindo no caso de
administradores "testas-de-ferro¨. lnformações deste tipo devem, por questões de
transparência e legitimidade democrática, serem tornadas públicas aos cidadãos, jornalistas
e ONGs, para além de outros, de modo a que uma camada adicional de escrutínio público
possa ser aplicado às empresas. Além disso, só pessoas singulares devem ser autorizados a
atuar como administradores. Pessoas colectivas não devem ser autorizadas a desempenhar
este papel.
· Repensar e reforçar as regras sobre a diligência devida pelos registos empresariais
e instituições financeiras, sempre numa abordagem precisa baseada no risco, na tentativa de
verificar se todas as informações referentes à propriedade beneficiária são as corretas e de
não deixar margem para atividade fraudulenta ou corrupta.
· lntroduzir os requisitos para uma diligência devida reforçada nos casos em que
estejam identificadas "pessoas politicamente expostas¨, com a opção de anular ou limitar a
operação em questão.
· Formação de uma Unidade Europeia de Investigação para a Área Financeira
(UElAF), cujo papel será o de monitorar, avaliar e analisar em toda a UE operações e
contratos suspeitos. Esta entidade pode operar dentro do contexto do Mecanismo Único de
Supervisão que em breve será incorporado na gama de responsabilidades do Banco Central
Europeu. A UElAF deve trocar informações com todas as autoridades que lidam com as
questões relacionados com a lavagem de dinheiro e deve legitimamente responder perante
os cidadãos e seus representantes eleitos para garantir que as suas operações da UElAF
decorram em conformidade com todas as normas legais e políticas.
O acima enunciado são algumas diretrizes gerais e, certamente, não esgotam as possíveis
medidas que a UE pode considerar nos seus esforços para colmatar as falhas que existem
na legislação atual e que permitem a criação de empresas de fachada, assim como na
necessidade de conhecer os beneficiários finais das empresas que operam no mercado
único. Tudo isto também acabará por dar origem à necessidade de uma melhor avaliação de
11
Alguns países já elaboram registos de beneficiários últimos de ativos empresariais em banca: Markus
Meinzer, "Bank account registries in selected countries: Lessons for registries of trusts and foundations
and for improving automatic tax information exchange¨, Tax Justice Network and CCFD, 21 August
2012, http://www.taxjustice.net/cms/upload/pdf/BAR2012-TJN-Report.pdf.
risco
12
de clientes por parte dos agentes particulares. Entidades privadas como os bancos
devem cumprir com as regras gerais neste domínio, de modo a que estejam totalmente
certos de com quem estão a lidar e de se os seus ativos são de origem lícita ou ilícita.
A UE deve também tomar medidas eficazes contra as infrações fiscais. lsto deve incluir
todas as tentativas deliberadamente ilegais e também deve ser interpretado de forma a
incluir a utilização sofisticada, estruturada e/ou sistemática dos meios legais para a evasão
fiscal ÷ os tais métodos de engenharia fiscal que fazem parte do "planeamento fiscal
agressivo¨. Além disso, deve ser prática obrigatória que uma empresa originária de um
Estado-Membro da UE cumpra as regras e regulamentos que se aplicam no seu país de
origem, mesmo quando mantém operações noutros Estados-Membros da UE, embora o
ideal seja introduzir regras harmonizadas ou comuns em toda a UE. O objectivo é retirar
incentivos ao abuso das assimetrias existentes nos regimes fiscais e nas práticas de
supervisão dos Estados-Membros, o que distorce a concorrência entre entidades privadas
dentro do mercado único e gera concorrência fiscal desleal entre Estados-Membros.
Algumas empresas são capazes de desfrutar de encargos menores do que outros, graças à
sua influência económica e à sua panóplia de assessores jurídicos que detetam e na prática
abusam com impunidade das lacunas existentes nos quadros legais. Tais medidas estão
em linha com a letra e o espírito dos artigos 151-153 do TFUE, em relação às questões
sociais, e uma vez que a sociedade, especialmente os grupos vulneráveis, são os que mais
sofrem com esta distribuição desigual de responsabilidades, uma realidade que não pode ser
ignorada ou tomada de ânimo leve.

Aspectos societais da luta contra a lavagem de dinheiro e evasão fiscal
Uma linha adicional de defesa ou de escrutínio está na sociedade civil em geral e em
particular em grupos ou setores como os jornalistas, as ONGs e as universidades, uma vez
que todos desempenham o papel benéfico de um poder de equilíbrio, avaliação e verificação.
Os parceiros sociais devem ser incentivados a monitorar a implementação de todas as
regras sobre lavagem de dinheiro e detectar quaisquer irregularidades neste domínio e, além
disso, deve-lhes ser garantida proteção total contra qualquer tipo de censura e perseguição
politicamente motivada. O jornalismo de investigação, em particular, é de suma importância
a este respeito, pois ele executa a função de não só revelar o crime ou mal existente, bem
como de impedir a possível criminalidade futura. As fontes dos jornalistas de investigação
devem sempre ser mantidas em segredo para não prejudicar as investigações em curso e
para não desencorajar futuras fontes.

O apoio proativo ao jornalismo de investigação, nestes tempos de transição tecnológica
e económica, deve ser considerado como um fim desejável, especialmente no que diz
respeito ao seu impacto na contenção do crime e da corrupção. Além disso, os denunciantes
("whistleblowers¨) ou ONGs envolvidas nos esforços para descobrir fraudes e corrupção,
incompetência das autoridades e/ou más práticas de entidades privadas, devem sempre
desfrutar de toda a proteção e apoio necessários.

Lavagem de dinheiro e paraísos fiscais
Dado haver semelhanças significativas entre as técnicas utilizadas para a lavagem do
12
Transparency lnternational, Review of the Third Anti- Money Laundering Directive, http://
ec.europa.eu/internal_market/company/financial-crime/received_responses/responses-to-the-
consultation/transparency-international_en.pdf.
produto do crime e para os crimes fiscais, em maio de 1998 os Ministros das Finanças do G7
incentivaram a ação internacional para aumentar a capacidade dos sistemas anti-lavagem de
dinheiro em lidar eficazmente com crimes relacionados com a lavagem de dinheiro e a fuga
aos impostos.
O G7 considerou, corretamente, que a acção internacional coordenada nesta área
fortaleceria os mecanismos anti-lavagem de dinheiro e aumentaria a eficácia dos acordos
de troca de informações em questões fiscais. A este respeito, a Comissão da OCDE para
os Assuntos Fiscais estabeleceu um diálogo com a FATF e continua a estudar formas de
melhorar a cooperação entre autoridades fiscais e de anti-lavagem de dinheiro.
Workshops conjuntos de funcionários fiscais e anti-lavagem de dinheiro foram realizados
permitindo aos especialistas compartilhar experiências sobre algumas das práticas que são
comuns a ambos (evasão fiscal e lavagem de dinheiro). O trabalho da OCDE sobre o crime
fiscal e lavagem de dinheiro foi concebido para complementar o que já foi realizado pela
FATF.

Controle da transferência de ativos para paraísos fiscais
O uso de paraísos fiscais por indivíduos pode ser combatido com os instrumentos da
política de combate à lavagem de dinheiro de forma a controlar a transferência de bens
para paraísos fiscais. No que respeita à aplicação das recomendações da FATF como
consagrado na 3.• diretiva AML, a utilização de paraísos fiscais atualmente só pode
ser controlada indiretamente ou em caso de um anterior crime subjacente ou "primário¨
(a que a evasão fiscal simples não pertence ainda, e de que ainda não é certo de se o
legislador europeu terá sucesso em introduzir como crime "primário¨, na base das novas
Recomendações 2012 da FATF). No entanto, existem iniciativas a nível da FATF para
classificar a evasão fiscal como crime precursor para a lavagem de dinheiro, visando
aumentar a transparência e dificultar aos criminosos e terroristas a ocultação das suas
identidades ou ocultar os seus bens sob pessoas colectivas ou acordos.
As recomendações revistas em 2012 pela FATF também se referem a crimes fiscais
como incluídos na lista de crimes de que os países devem tratar como infrações prévias à
lavagem de dinheiro. lsto irá colocar o produto de crimes fiscais sob a alçada dos poderes
e autoridades usados para combater a lavagem de dinheiro. Clarificou-se também que o
delito de contrabando inclui agora infrações relacionadas com direitos aduaneiros e impostos
especiais sobre o consumo ou outras tarifas. lsto irá contribuir para uma melhor coordenação
entre as autoridades de aplicação da lei, autoridades fiscais e de fronteiras, possibilitando a
remoção de possíveis obstáculos para a cooperação internacional sobre crimes fiscais.

Possíveis caminhos: interligando políticas para lidar com os paraísos
fiscais

Os paraísos fiscais parecem ser relevantes para uma série de políticas para além da
política fiscal entendida em sentido estrito. Eles cruzam-se com outras questões, como a
política comercial ou de desenvolvimento, que podem ser reconsideradas à luz de alcançar
objetivos específicos na política fiscal. Os objetivos de áreas de ação política como a luta
anti-fraude, o direito financeiro e empresarial, a prevenção da criminalidade e o combate
ao branqueamento de capitais podem ser alcançados se forem incorporados num quadro
único ao enfrentar-se a questão dos paraísos fiscais. A política fiscal poderia ter um papel
importante a desempenhar, uma vez que está fortemente centrada na transparência e
cooperação, sempre com o objetivo de simplificar e harmonizar as regras existentes para
permitir políticas justas e eficazes e, sobretudo, para expandir a dimensão democrática do
estado.
Embora as políticas afins dos campos não-fiscais lidem com as jurisdições dos paraísos
fiscais por razões e objetivos diferentes, as ferramentas e os meios de pressão ÷ por
exemplo, a ajuda financeira ou a conclusão de acordos comerciais com a UE ÷ são mais
ou menos os mesmos. Assim, a Comissão deve considerar a possibilidade de adotar uma
abordagem comum na perspectiva de unir forças, ou seja, nas áreas anti-fraude, lavagem de
dinheiro, regulação dos mercados financeiros e prevenção do crime.
A cooperação com países terceiros pode ser um elemento importante no combate à fraude
e no que diz respeito a assuntos aduaneiros, cooperação em investigações policiais e
assistência jurídica e administrativa. É necessário o aumento do número e o alargamento do
âmbito (no sentido da tributação direta) dos acordos anti-fraude, como com a Suíça. A este
respeito, é lamentável que o projecto de um acordo anti-fraude com o Liechtenstein (que
deve cobrir impostos diretos) esteja no limbo por causa de considerações relacionadas com
a necessidade de unanimidade em matéria de política fiscal.

Observações finais
A extensão total do branqueamento de capitais na UE não pode ser quantificada com
precisão, mas todos os indicadores sugerem que é um problema generalizado e em
ascensão. Este problema é redobrado, uma vez considerado à luz da evasão fiscal que tem
vindo a aumentar desde que a crise financeira e económica atingiu a UE. A questão em si
precisa de ser tratada de forma eficaz e sistemática, independentemente das condições
gerais nas frentes económica, financeira e fiscal, a bem de mitigar uma forte ameaça
criminosa, juntamente com todos os comportamentos ilícitos ou prejudiciais que gera.
No entanto, a crise da zona euro demonstrou que um estado que se encontre numa
posição precária em termos orçamentais e que deve, ao mesmo tempo respeitar as regras
orçamentais da moeda única, fica cada vez mais exposto aos efeitos perniciosos da evasão
fiscal, do planeamento fiscal agressivo e da lavagem de dinheiro.
A evasão fiscal e/ou o uso indevido e sem escrúpulos de brechas legais na legislação fiscal
transfronteiriça pode prejudicar ainda mais a situação fiscal dos estados, enquanto produz
incentivos à especulação socialmente prejudicial, em tempos de crise económica, e que
aumentam as hipóteses de corrupção de funcionários e/ou agentes financeiros dispostos a
burlar ou a desobedecer às regras existentes e aos princípios vigentes, portanto iniciando um
ciclo vicioso de dano social e deslegitimação política.
As questões que foram exploradas neste documento temático podem e devem ser vistas
como constituindo o lado criminoso, o "lado sombrio¨, por assim dizer, da crise do euro. Os
efeitos indesejáveis do crime fiscal crime são multi-facetados e vão desde a criminalidade
à corrupção, da injustiça e assimetria social até à actividade de distorção económica e dos
mercados. Para piorar a situação, estes crimes também têm um efeito mais profundo e
corrosivo no ambiente institucional da res publica, pois corroem a confiança e a fé que
os cidadãos têm nas instituições democráticas e na capacidade de um governo eleito
diretamente em melhorar a vida dos seus cidadãos.
Por fim, o Parlamento Europeu, na sua dupla capacidade de canal para as preocupações e
aspirações dos cidadãos europeus e de co-legislador da União, deve tomar a iniciativa na
luta para preservar os valores da justiça e da democracia na Europa e para garantir que a
atividade económica seja conduzida para produzir resultados benignos para todos e não de
enriquecer uns poucos privilegiados. É obrigação legal e moral do Parlamento Europeu ter
um papel fundamental na preservação dos nossos valores
13
e objetivos
14
para este fins.


13
Art. 2 TEU.
14
!Art. 3 TEU.

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