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MARIA APARECIDA MARTINS SOUZA

Retalhos de Vidas: Escravidão contemporânea nas agropecuárias do Araguaia (1970 – 2005)

Cuiabá

2009

MARTINS SOUZA Retalhos de Vidas: Escravidão contemporânea nas agropecuárias do Araguaia (1970 – 2005) Cuiabá 2009

1

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

INSTITUTO DE CIENCIAS HUMANAS E SOCIAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Retalhos de Vidas: Escravidão contemporânea nas agropecuárias do Araguaia (1970 – 2005)

Maria Aparecida Martins Souza

Dissertação apresentada como requisito para obtenção do grau de Mestre em História pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais – Programa de Pós-Graduação Mestrado em História da Universidade Federal de Mato Grosso, sob orientação do Prof. Dr. João Carlos Barrozo.

Cuiabá-MT Junho de 2009.

da Universidade Federal de Mato Grosso, sob orientação do Prof. Dr. João Carlos Barrozo. Cuiabá-MT Junho

2

S237r

Souza, Maria Aparecida Martins. Retalhos de vidas: escravidão contemporânea nas agropecuárias do Araguaia (1970-2005) / Maria Aparecida Martins Souza. – 2009. 163 f.; il. ; 30 cm. -- (inclui figuras e tabelas).

Orientador: João Carlos Barroso. Dissertação (mestrado). Universidade Federal de Mato Grosso. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Programa de Pós-Graduação em História, 2009.

1. Trabalho escravo. 2. Violência. 3. Exploração. 4. Araguaia-

história.

5. Mato Grosso. I. Título.

CDU 94:331-058.243.4(817.2)

3

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE CIENCIAS HUMANAS E SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Maria Aparecida Martins Souza

Retalhos de Vidas: Escravidão contemporânea nas agropecuárias do Araguaia (1970 – 2005)

Banca Examinadora

Presidente: Prof. Dr. João Carlos Barrozo

Orientador

Profª. Drª. Ângela Maria de Castro Gomes

Membro Externo

Prof.ª Drª. Regina Beatriz Guimarães Neto

Membro Interno

Prof. Dr. Vitale Joanoni Neto

Suplente

Drª. Regina Beatriz Guimarães Neto Membro Interno Prof. Dr. Vitale Joanoni Neto Suplente Cuiabá-MT Junho de

Cuiabá-MT Junho de 2009.

Drª. Regina Beatriz Guimarães Neto Membro Interno Prof. Dr. Vitale Joanoni Neto Suplente Cuiabá-MT Junho de

4

Aos

Dedicatória

vários

Peões,

que

com

sua

coragem,

denunciaram

o

vários Peões, que com sua coragem, denunciaram o trabalho escravo contemporâneo, descortinando o mundo de
vários Peões, que com sua coragem, denunciaram o trabalho escravo contemporâneo, descortinando o mundo de

trabalho

escravo

contemporâneo, descortinando o mundo de violência que se produz no interior das

fazendas.

À D. Pedro Casaldáliga bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, que

incessantemente

sempre

lutou

e

denunciou

a

prática

do

trabalho

escravo

na

Amazônia. “Minhas causas valem mais que minha vida”. (D. Pedro Casaldáliga).

5

Agradecimentos

5 Agradecimentos A presente dissertação só foi possível porque contei com a contribuição de várias pessoas,

A presente dissertação só foi possível porque contei com a contribuição de várias

pessoas, que neste percurso me ajudaram, compreenderam e me apoiaram. Portanto, quero agradecer aos meus pais, Abraão Souza Silva e Maria Permina Martins Souza, que mesmo nunca tendo frequentado escola, sempre lutaram para que seus filhos estudassem. A minha madrinha Maria de Lourdes Carlos, que carinhosamente cuidou da minha filha nos momentos em que estive ausente. Nesse mestrado foram importantes as várias conquistas, entre elas quero destacar a

amizade de Daniela Alves Braga Sant’ana e Marluce Scalop, duas grandes amigas com quem sempre pude contar nesses momentos em que estive morando em Cuiabá, e suas preciosas

leituras foram de grande contribuição para este trabalho, vocês são muito importantes para mim. Agradeço a uma pessoa a qual admiro muito pela sua capacidade de compreensão, nas mais diversas situações, Maria do Rosário Soares Lima, minha comadre querida e, mãe do meu filho de coração João Pedro e seus irmãos Carlos Augusto e Laura Beatriz, que sempre me incentivou a pleitear o mestrado. Rosário mesmo no momento em que você estava distante se fazia presente. Você é para mim um exemplo de pessoa, conviver com você é um novo aprendizado a cada momento. Ao Edson Flávio Santos, irmão de coração que sempre me incentivou e, carinhosamente lê os meus textos, mesmo distante você se faz presente na minha vida.

A professora Maria do Socorro Souza Araújo e Luiz Antônio Barbosa Soares, amigos

que me incentivaram, e acreditaram que seria capaz de realizar a pesquisa.

A Ana Maria de Souza, amiga que compartilhou comigo muitas angustias e também

alegrias, obrigado amiga. Aos colegas do Curso em especial Abrelino, Aluisio, Carlos, Anderson, Leonan e

Arthur.

A minha querida filha, Pâmella Martins Souza que soube suportar a minha ausência

durante o curso. A Enéia Barbosa que nos momentos em que estava distante cuidou e assumiu o

papel de mãe da minha filha, muito obrigado.

6

As amigas Leuter Inês de Carvalho, Dagmar Aparecida Teodoro Gatti e o amigo Pe. Félix Valenzuela, com vocês aprendi a querer sempre mais e a trilhar novos caminhos, sem esquecer o próximo. Aos amigos Egidio Clair Quinhões e Maria Bonfim Souza Torres, que sempre me incentivaram e acreditaram que seria possível desenvolver a pesquisa.

A amiga Analucia Ribeiro de Sousa, sempre atenciosa, suas palavras sempre foram

animadoras.

A amiga Rosimeire Santos Souza, que mesmo distante está sempre presente na minha

vida.

As amigas Francielme Mendes e Noemi Ruthi Wong Goméz, com quem compartilhei

momentos de angústias, aflições e alegrias no período em que estive em Cuiabá. Ao D. Pedro Casaldáliga, sempre disposto a falar, denunciar, lutar e enfrentar o problema do trabalho escravo contemporâneo no Brasil e no mundo.

A amiga Regina Beatriz Guimarães Neto, que aceitou fazer parte da minha banca,

trazendo uma contribuição impar para este trabalho, e que tem um carinho especial pelas pesquisas e as pessoas do Araguaia.

A professora Drª. Ângela Maria de Castro Gomes, suas contribuições foram importantes

para o meu trabalho. Aos vários peões que me concederam entrevistas e conversas, sem a colaboração de

vocês seria impossível desenvolver este trabalho.

À Universidade do Estado de Mato Grosso- Campus de Luciara- Núcleo Pedagógico de

Confresa.

À CAPES – Coordenadoria de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior que me

concedeu a bolsa que possibilitou a realização do mestrado.

À Prelazia de São Félix do Araguaia que possibilitou a pesquisa em seus arquivos.

Ao meu orientador João Carlos Barrozo, que com suas preciosas orientações e amizade foi possível desenvolver este trabalho. Por várias razões o resultado dessa pesquisa é um esforço coletivo de pessoas que fazem parte da minha vida. Sou grata a todos vocês

7

Sumário

Introdução----------------------------------------------------------------------------------------------13

Capítulo I– Araguaia territórios e territorialidades-----------------------------------------------30

1.1- Migração: o encontro com o estranho---------------------------------------------------------31

1.2- Políticas públicas: reconfiguração do espaço na fronteira amazônica--------------------44

Capítulo II – Prelazia de São Félix do Araguaia: Uma Igreja em defesa da Vida------------57

2.1 – Discursos e práticas: a opção pelos pobres--------------------------------------------------58

Capítulo III – O Trabalho escravo contemporâneo na Amazônia hoje: debates, problemas e

discussões----------------------------------------------------------------------------------------------83

3.1 - Trabalho escravo contemporâneo – o caso brasileiro--------------------------------------97

3.2 – A escravidão contemporânea sob o ponto de vista jurídico-----------------------------105

Capítulo IV – Trajetória do peão: do roçado para o “cativeiro”-------------------------------108

4.1 – O aliciamento do peão------------------------------------------------------------------------118

4.2 – O peão dentro da fazenda--------------------------------------------------------------------126

4.3 – A degradação dos trabalhadores ------------------------------------------------------------137

4.4 – As estratégias de sobrevivência e fugas dos peões---------------------------------------142

4. 5 – Os peões depois da “libertação”------------------------------------------------------------145

Considerações finais -------------------------------------------------------------------------------148

Referencias bibliográfica---------------------------------------------------------------------------151

Anexos------------------------------------------------------------------------------------------------162

Anexos------------------------------------------------------------------------------------------------162

8

Lista de abreviaturas

BASA – Banco da Amazônia

CEAS – Centro de Estudos e Ação social

CBs – Comunidades de Base

de Estudos e Ação social CBs – Comunidades de Base CODEARA – Companhia de Desenvolvimento do

CODEARA – Companhia de Desenvolvimento do Araguaia

CNBB – Confederação Nacional dos Bispos do Brasil

CP – Código Penal

CPT – Comissão Pastoral da Terra

DTC – Departamento de Terras e Colonização

GEMF – Grupo Especial de Fiscalização Móvel

IBAMA – Instituto Brasileiro de Recursos Renováveis

INCRA – Instituto de Colonização e Reforma Agrária

MPT – Ministério Público do Trabalho

OIT – Organização Internacional do Trabalho

ONGs – Organizações Não Governamentais

ONU – Organização das Nações Unidas

PF – Policia Federal

PIN – Programa de Integração Nacional

POLOAMAZÔNIA – Programa de Desenvolvimento da Amazônia

POLOCENTRO – Programa de Desenvolvimento dos Cerrados

PROTERRA – Programa de Redistribuição de Terras e Estímulos à Agropecuária do

Norte e Nordeste

9

SIT – Secretaria de Inspeção do Trabalho

SUDAM – Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia

SUDECO – Superintendência de Desenvolvimento do Centro Oeste

TL – Teologia da libertação

UNEMAT – Universidade do estado de Mato Grosso

10

Lista de figuras

Figura 01- Mapa da localização da área de estudo

Figura 02 - Mapa com projetos agropecuários com incentivos da SUDAM.

Figura 03 - Mapa do Território da Prelazia de São Félix do Araguaia em 1970

Figura 04 - Mapa Território atual da Prelazia de São Félix do Araguaia

Figura 05 - Cortadores de cana na destilaria Gameleira no município de Confresa/MT

Figura 06 - Mapa do trabalho escravo no Brasil

Figura 07 - Caderneta de anotações de um gato

11

Resumo

Nesta dissertação apresentamos a trajetória de vida de trabalhadores, homens e mulheres que se deslocam de um lugar a outro em busca de trabalho e melhoria de vida. Mas, muitos encontraram no novo lugar uma situação de violência e degradação humana. Essas pessoas constituem parte importante da história do Araguaia, situado no nordeste de Mato Grosso. Na construção desta narrativa, analisamos diversas fontes que registraram a memória, as representações, práticas sociais e políticas vivenciadas pelos diferentes grupos na ocupação do território do Araguaia. Esta dissertação baseou-se em relatos orais, em fontes escritas, mapas, fotografias e filmagens em vídeo. A ocupação do nordeste de Mato Grosso, por grandes empresas, incentivadas pelo governo federal, a partir da década de 70 do século XX tem revelado múltiplos conflitos, embates e disputas pelo uso e posse da terra. A pesquisa realizada para esta dissertação mostra a complexidade e a singularidade das relações no mundo do trabalho. A precarização do trabalho, novas formas de exploração, algumas mais sutis outras escancaradas, as quais levam à exploração e degradação do trabalhador. A abordagem das trajetórias de vida dos peões revelou estratégias diversas para escapar do aprisionamento, da super exploração, das diversas formas de violências, no mundo do trabalho.

Palavras-chave: Trabalho – Violência – Exploração – Mato Grosso – Araguaia.

12

Abstract

This dissertation shows the life trajectory of workers, men and womem who move from one place to another seeking a work and a better life. Though, many have found a violent scenario and human degradation in this new place. These people make up an important part of the History of Araguaia, in the Northeast of Mato Grosso. During the development of this narrative, we analysed various sources that recorded memoirs, representations, social and political practises experinced by the different groups during the settlement of Araguaya territory. This dissertation is based on oral and written reports, maps, photographies, and e video camera.The settlement of the Northeast of Mato Grosso, by big companies, and encouraged by the federal goverment since the 70's in the twentieth century have revealed multiple conflicts, clashes and disputes due to the use and possession of land. The research which was carried out for this dissertation shows the complexity and uniqueness of the relationship in the world of business. The precariousness or lack of work, new ways of exploitation, in which some are more subtle, others aren´t, which leads to the exploitation and degradation of the worker. The approach of life trajectories for walkers showed different strategies to escape from the imprisonment, of overexploitation, of various ways of violence in the world of work.

Keywords: Work – Violence – Exploration – Mato Grosso – Araguaia.

13

Introdução

Para

estudar

a

história

do

tempo

presente,

“[

]

o

historiador

do

presente

é

contemporâneo de seu objeto e, portanto partilha com aqueles cuja história narra, as mesmas

categorias essenciais, as mesmas referências fundamentais”. (Chartier, 2002, p. 216). Viver o

mesmo

tempo

histórico,

e

partilhar

categorias

e

referências

fundamentais,

criam

alguns

problemas de ordem metodológica, os quais podem dificultar a análise. Ao selecionar as histórias

de homens e mulheres que se deslocam no território amazônico, que aqui serão apresentadas,

realizamos escolhas e elegemos documentos a serem trabalhados na construção de nossa

narrativa entrecruzando uma diversidade de fontes orais e escritas documentos escritos com a

intenção de dar maior inteligibilidade aos fatos, atribuindo significados ao passado.

A escrita da história ao ser considerada por Certeau (1982, p. 66)

como uma

operação, ele destaca que “[

]

a operação histórica se refere à combinação de um lugar social,

de práticas “cientificas” e de uma escrita”. Como também essa escrita segue regras, e controles

que nos possibilitam criar uma narrativa com efeitos de “verdades”. É como montar uma

encenação, onde as peças escolhidas, selecionadas (documentos, referências bibliográficas) vão

encaixando-se, sendo costuradas para dar compreensão ao que queremos contar.

Nesta dissertação apresentamos a trajetória de vida de trabalhadores, homens e

mulheres que se deslocam de um lugar a outro em busca de trabalho e melhoria de vida, mas que,

no entanto encontraram no novo lugar uma situação de desenraizamento sócio-cultural que os

tornam

vulneráveis

à

violência

e

a

degradação

humana.

Essas

pessoas

constituem

parte

14

importante da história do Araguaia 1 , situado no nordeste de Mato Grosso. Ao falar no Araguaia

estamos nos referindo apenas à parte situada em Mato Grosso (Baixo e Médio Araguaia), na

divisa com o sul do Pará. São quinze municípios que compõem a micro-região Araguaia/Xingu,

com uma população de aproximadamente 100.000 habitantes (IBGE, 2007). Esse espaço

corresponde à área da Prelazia de São Félix do Araguaia. Ao longo da dissertação nos referimos a

este espaço de estudo como o Araguaia.

A população residente na área enfocada, se refere à região denominando-a “o

Araguaia”. Por esta razão optamos por manter essa terminologia, que para aquele grupo social

tem um conteúdo definido, como veremos no decorrer desse trabalho.

1 A denominação Araguaia utilizada nesse trabalho compreende o Nordeste do Estado de Mato Grosso, do qual fazem parte os seguintes municípios: Alto da Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, Confresa, Canabrava do Norte, Luciara, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Querência, Ribeirão Cascalheira, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Santa Terezinha e Vila Rica. Essa denominação acrescida do município de Cerra Nova Dourada, constitui a micro-região do norte do Araguaia (com exceção do município de Querência esse na micro região da Canarana ( segundo dados do IBGE) , sendo ainda a área de jurisdição da Prelazia de São Felix do Araguaia, Prelazia criada em 13 de março de 1970, através do Decreto Papal “Quo Commodius” assinado por Paulo VI. São 14 municípios da micro região norte do Araguaia e um, Querência, da micro região de Canarana.

15

Mapa 01 - localização da área de estudo

ESTADO DE MATO GROSSO

60° 56° 52° 8° AMAZONAS PARÁ 01 02 04 05 03 TOCANTINS 06 08 07
60°
56°
52°
AMAZONAS
PARÁ
01
02
04 05
03
TOCANTINS
06
08
07
ILHA DO BANANAL
09
10
12°
11
13 12
14
RONDÔNIA
15
GOIÁS
BOLÍVIA
16°
0
70Km
Escala
MATO GROSSO DO SUL
Municípios que Integram a Área de Estudo 01- Vila Rica 02- Santa Cruz do Xingú
Municípios que Integram a Área de Estudo
01- Vila Rica
02- Santa Cruz do Xingú
03- São José do Xingú
04- Confresa
05- Santa Terezinha
06- Porto Alegre do Norte
07- Canabrava do Norte
08- Lucaiara
09- São Félix do Araguaia
10- Alto Boa Vista
11- Serra Nova Dourada
12- Novo Santo Antônio
13- Bom Jesus do Araguaia
14- Querência
15- Ribeirão Cascalheira
América do sul - BRASIL
PRELAZIA DE SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA
Vila Rica
Santa Cruz
AM
do Xingú
PA
MA
CE
RN
Confresa
Santa
BRASIL
São José
Terezinha
PB
PI
do Xingú
PE
Porto Alegre
AL
do Norte
RO
SE
Canabrava
Luciara
MT
BA
do Norte
GO
São Félix
do Araguaia
ILHA DO BANANAL
Alto Boa Vista
MG
Serra Nova Dourada
Bom Jesus
Novo Santo Antônio
do Araguaia
SP
PR
Querência
SC
Ribeirão
Cascalheira
RS
Fonte: Cartografia de Leodete Miranda

O recorte temporal da pesquisa compreende o período entre a década de setenta do

século XX, estendendo-se até os primeiros anos do século XXI (1970 a 2005). A partir da

documentação analisada, este recorte temporal justifica-se pelos seguintes aspectos: é um

16

momento em que, no Araguaia 2 , está no auge a abertura das fazendas; é nesse período que vieram

a público as primeiras denúncias de exploração dos trabalhadores, particularmente os que estão

localizados nas agropecuárias. Deve-se ressaltar o papel de destaque que teve a Prelazia de São

Félix do Araguaia, criada na década de 1970, bem como o seu enfrentamento com os grandes

proprietários e o governo militar.

Durante a pesquisa, analisamos diversas fontes que registraram a memória, as

representações, práticas sociais e políticas vivenciadas pelos diferentes grupos na ocupação do

Araguaia. Esta dissertação baseou-se em relatos orais, em fontes escritas, mapas, fotografias e

filmagens em vídeo, além da observação participante e a elaboração de um diário de campo.

Ressaltamos a importância do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia que possui uma rica

documentação sobre a história do Araguaia e do país 3 .

Ao trabalharmos com a história do presente, as fontes orais possibilitaram a utilização

de depoimentos de pessoas que vivenciaram práticas violentas na (re) territorialização desse

espaço.

Utilizamos

a

história

oral

como

método

de

pesquisa

histórica,

entrevistando

e

conversando prioritariamente com agentes sociais envolvidos 4 como estratégia para compreender

as trajetórias de vida dessas populações pobres, os peões 5 , que migram à procura de trabalho,

no estado de Mato Grosso, podemos

considerar que este território esta no Baixo Araguaia. 3 O Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia possui uma importante documentação sobre a luta pela terra no território do Araguaia. Neste arquivo, a documentação encontra-se digitalizada e disponibilizada para consulta. Foi um das principais fontes documentais para o desenvolvimento desta pesquisa. Ver site da Prelazia, www.alternex.com.br/~prelazia

4 Agentes de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, agentes da CPT – Comissão Pastoral da Terra, presidentes de Sindicato dos Trabalhadores Rurais e os peões.

5 Peões - definido no dicionário Aurélio (2005) como: individuo recrutado em geral em outro Estado como mão-de- obra para as grandes empresas radicadas na Amazônia; ajudante de boiadeiro; trabalhador rural; amansador de cavalos, burros e bestas; condutor de tropa. Contudo, essas de nominações necessitam ser significadas no curso das ações dos trabalhadores pobres e mais, nas especificidades de suas experiências. Neide Esterci (1987), ressalta que este termo carrega noções de inferioridade, impregnadas de negatividade que desqualificam os trabalhadores. Optamos nesta dissertação pelo termo peão para designar os trabalhadores. Durante as entrevistas eles mesmos se alto designavam como peão.

2 Se levarmos em conta a localização geográfica

do Rio Araguaia situada

17

melhoria de vida, em busca de um sonho, objeto de nosso estudo. Como destacou Ana Maria de

Souza (2007, p. 71):

A mobilidade e deslocamento de segmentos sociais pobres, como fator de luta pela sobrevivência, é uma prática significativa da apropriação e configuração contemporânea dos espaços sociais do Estado de Mato Grosso. Essa mobilidade produz algumas figuras exemplares desses deslocamentos, expressas através de designações como peões de trecho, trecheiros, andarilhos e pés-inchados. Imagens emblemáticas de deslocamentos populacionais que podem ser flagradas em vários outros espaços sociais do Estado de Mato Grosso.

No percurso desta pesquisa realizamos reflexões sobre o trabalho do historiador no

tempo presente, porque se trata de estudar acontecimentos históricos, “[

]

à luz de depoimentos

de pessoas que deles participaram ou os testemunharam” (Alberti, 1989, p. 2). Os peões ao

relatarem suas histórias revisitam a memória trazendo fragmentos do que foi vivido, em que

muitas vezes o passado e presente entrecruzam-se em suas falas.

A história dessas pessoas como

considerou

Guimarães

Neto

(2008,

p.

9)

“[

]

São

histórias

e

memórias

tecidas

em

territorialidades configuradas e re-configuradas em um universo marcado por conflitos os mais

diversos”. São histórias entrelaçadas na luta pela terra, pela sobrevivência, em busca de sonhos na

maioria das vezes inalcançáveis. Nesse entrelaçar de histórias muitos desses trabalhadores

relatam suas histórias como se tivessem vivenciado duas vidas; uma a que sonhou e a outra a

realidade encontrada nas fazendas, povoados e pensões em que chegavam. Foram aventuras que

os envelheceram, ficando apenas o sofrimento, os sonhos não realizados. Como destacou um

peão, “[

]

a aventura vai ficando velha, a cabeça vai ficando branca, quando a gente sai do

serviço sai pobre” 6 . Ao envelhecerem os peões continuam pobres, longe das famílias e já não

6 Entrevista realizada com I. S. em São José do Xingu, maio de 2008.

18

servem mais como mão-de-obra nas fazendas, perambulando nas periferias das cidades. Muitos já

velhos vão morar em abrigos, albergues e casas de idosos 7 .

No procedimento de análise das fontes orais recorremos a vários autores 8 , que através

de seus trabalhos nos auxiliaram, possibilitando um maior entendimento do uso da metodologia

da história oral. Nessa perspectiva, a história será reconstruída atribuindo-lhe significados, visto

que “[

]

a memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, que há tantas memórias

quantos grupos existentes, que ela é por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e

individualizada”. (Nora, 1993, p. 9). Sob este aspecto, este trabalho apresenta parte da história da

ocupação recente de Mato Grosso.

Considerando o conjunto de depoimentos orais produzidos pelas entrevistas no

decorrer da pesquisa, em parte fragmentados, porém ricos. Entendemos que “[

]

a memória não

se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas,

globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas sensível a todas as transferências, cenas,

censuras ou projeções”. (Nora, 1993, p. 09).

Nesse

sentido

realizamos

uma

“operação”

ao

analisarmos

um

mosaico

de

depoimentos, considerando todas essas especificidades da memória. Ao mesmo tempo colocamo-

nos perante o desafio de dialogar com as memórias do trabalho que os peões constroem e suas

dimensões no processo de degradação e violência vivenciado por eles. No entanto precisamos ser

cautelosos com os afazeres da memória como (re) significação do mundo do trabalho. Essas

pessoas se referem ao trabalho nos relatos, atribuindo-lhe um significado que vai além de uma

7 Em São José do Xingu-MT, existe um casa que abriga peões velhos, que não encontram mais trabalhos nas fazendas. Nesta casa há alguns que moram lá a mais de 6 anos, estive neste local e conversei com vários deles, muitos não sabem mais da família, ou tem vergonha de procurá-los, pois estão velhos e pobres. Este local foi organizado por um peão que conseguiu juntar um pouco de dinheiro e criou uma Associação com vários outros moradores de São José do Xingu. Hoje é mantida pela prefeitura municipal. 8 Montenegro (2003, 2005) Guimarães Neto (2006, 2008), Nora (1993), Alberti ( 1990), Maria Isaura P. de Queiroz (1983, 1988),

19

simples ocupação ou apenas um salário para garantir a sobrevivência cotidiana. Denota a busca

pela realização de expectativas e as possibilidades de um futuro diferente. Como também

representa as suas frustrações, angústias e sonhos não realizados. Como destacou Montenegro

(2003, p. 22), “[

]

no momento em que os entrevistados narram acontecimentos que transcendem

o fazer mais imediato de suas vidas, são sempre os elementos que têm aspectos comuns com as

experiências do cotidiano as marcas relembradas”.

Nessa perspectiva, podemos destacar nas falas como a violência física ou psicológica

a que foram submetidos os peões, a saudade das famílias, a vergonha de não poder voltar porque

não conseguiram melhorar de vida, as distâncias percorridas, são acontecimentos que marcam de

maneira profunda suas vidas. Foram vidas que se esfacelaram, em busca de um sonho, ou pelo

menos de uma vida não tão sofrida. Essas falas também são reveladoras do universo da

exploração do mundo do trabalho. É através desses fragmentos de memória que podemos

perceber o quanto, através de pequenos gestos, falas e ações, essas pessoas reivindicam a sua

condição de pessoa humana, sua dignidade; “[

]

dona eu não sou vagabundo, olha as minhas

mãos, eu trabalhei, quero só o que tenho direito” 9 . Mostrar as mãos com cicatrizes produzidas

pelo trabalho pesado, exaustivo durante entrevistas e conversas com eles, era um gesto constante.

Com este gesto eles estavam denunciando a violência e humilhações que haviam sofrido.

Verena Alberti (1989, p 07), contribui com essa discussão chamando a atenção do

pesquisador para o respeito que se deve ter com o entrevistado:

O trabalho com a história oral exige do pesquisador um elevado respeito pelo

outro, por suas opiniões, atitudes e posições, por sua visão de mundo enfim. É esta

visão de mundo que norteia seu depoimento e que imprime significados aos fatos

e acontecimentos narrados. Ela é individual, particular àquele depoente, mas

9 Entrevista realizada com F. R. S. em Canabrava do Norte/MT, junho de 2006.

20

constitui também elemento indispensável para a compreensão da história de seu grupo social, sua geração, seu país e da sua humanidade como um todo, se

considerarmos que há universais nas diferenças.

Nos depoimentos dos peões podemos considerar que há particularidades que podem

ser generalizadas. A violência, a humilhação e os longos percursos realizados por estes

trabalhadores aparecem praticamente em todos os relatos. Já as estratégias de fugas, os

relacionamentos, são como uma marca particular de cada um, que os diferenciam. Nos relatos,

eles realizam mentalmente uma cartografia dos espaços percorridos como no relato a seguir: “[

]

estive lá naquela fazenda, que fica do outro lado do rio Xingu; [

]

quando saímos do Piauí,

trabalhei no Goiás, depois vim para Mato Grosso, cheguei e fui trabalhar lá na Codeara, lá perto

do Rio Araguaia”. 10

Os

depoentes

transformam

os

espaços

geográficos

em

espaços

sociais.

Essa

transformação se dá através de suas práticas. Os peões dão um novo sentido ao lugar, passando

do mundo sonhado ao inferno vivido no interior das fazendas. “[

]

Eu fui para a fazenda

enganado. Chegando lá era obrigado a trabalhar das 5 da manhã às 7 da noite, se não eu apanhava

ou eles me matavam” 11 .

Em seus relatos os peões recompõem e decompõem os territórios por onde passam.

Há uma constante transformação do espaço social. Para eles cada lugar tem um significado

diferente, pois foram experiências que marcaram parte de suas vidas que passaram nesses lugares.

Eles vivem deslocando-se de um lugar a outro, mas quase sempre sem encontrar o seu próprio

lugar, se sentem como estrangeiros dentro da própria pátria. Como considerou Certeau ( 1994, p.

10 Entrevista realizada com I .S. em maio de 2008, em São José do Xingu/MT.

11 Entrevista com C. P. S. realizada em julho de 2006 em Confresa-MT.

21

183) “[

]um

universo de locações freqüentada por um não-lugar ou por lugares sonhados”. No

caso dos peões, eles passaram do lugar sonhado ao “inferno” vivido.

Desse modo, os relatos de memória desses homens e mulheres que narram suas

experiências sobre a abertura das fazendas no Araguaia, trazem múltiplas leituras da (re)

ocupação desse espaço. Assim, as experiências vivenciadas nesse período podem ser entendidas

como leituras múltiplas, plurais de cada narrador que viveu o cotidiano do trabalho nessas áreas

de ocupação recente.

O tema da ocupação recente da Amazônia é complexo e aparece envolvido em uma

multiplicidade de questões, pois os contextos da Amazônia ou Amazônias (Gonçalves, 2005), são

variáveis e heterogêneos, o que nos possibilita diferentes análises.

chamado

a atenção para trabalharmos

com as especificidades

Guimarães Neto (2002), tem

da Amazônia fugindo

das

homogeneizações que nos imobilizam, na construção de um conhecimento mais pertinente e

profícuo. É importante se destacar que existem grupos distintos que mesmo estando no mesmo

território amazônico possuem singularidades e práticas próprias. Como destacou Guimarães Neto

(2008, p. 18) referindo-se aos relatos de trabalhadores que circulam pelo território Amazônico,

“[

]

as

histórias

narradas,

ao

transitarem

pelas

experiências

dos

personagens

e

grupos

focalizados, levando-se indicadores de comportamentos e atitudes de homens e mulheres, que

anunciam suas escolhas no imbricado jogo das redes sociais”.

A (re) ocupação do nordeste de Mato Grosso, por grandes empresas, incentivadas

pelo governo federal, a partir da década de 70 do século XX tem revelado múltiplos conflitos,

embates e disputas pelos usos e posse da terra.

A partir de 1964, os governos militares,

elaboraram e conduziram um projeto de ocupação e controle de acesso às terras na Amazônia,

materializado pelo Estatuto da Terra (Lei 4.504/64). A política de integração nacional, parte do

22

projeto civil-militar para o Brasil iniciada na década de 70 do século XX, deveria segundo seus

objetivos incorporar grandes áreas de terra ao processo produtivo e integrar economicamente a

Amazônia, objetivando dessa forma, reduzir os desequilíbrios regionais, através da ocupação

desses novos espaços (Guimarães Neto, 2002). Mas o que ocorreu foi à concentração de grandes

áreas de terra, a expropriação e exploração de índios, posseiros e peões, causando intensos

conflitos pela posse da terra.

O estabelecimento das empresas agropecuárias trouxe para a Amazônia uma série de

conflitos de duração prolongada, principalmente porque essas terras consideradas “vazias” eram

ocupadas, há muito tempo, por índios, pequenos agricultores e posseiros. De acordo com Ianni

(1979), o maior número de incentivos fiscais destinados pela SUDAM (Superintendência do

Desenvolvimento

da

Amazônia)

foram

para

as

agropecuárias,

o

que

provocou

uma

reconfiguração do espaço agrário: “Foram os projetos agropecuários que receberam elevados

incentivos fiscais e creditícios governamentais, que provocaram uma intensa e generalizada

transformação das terras tribais, devolutas, ou ocupadas em terras de grileiros, latifundiários,

fazendeiros ou empresários” (Ianni, 1979, p. 79).

Segundo José de Souza Martins (1997), este território desde o início da sua conquista

tornou-se objeto de múltiplos e complexos movimentos, seja na caça e escravização do índio ou

na busca e coleta das plantas conhecidas como “drogas do sertão’, e também, na coleta do látex e

da castanha. Mas, “[

]

a partir de 1964, a Amazônia transformou-se num grande cenário de

ocupação territorial violenta e rápida” (1997, p. 47). Outros autores que também tem estudado o

tema da ocupação da Amazônia podem ser mencionados no que diz respeito ao movimento de

expansão, apropriação e reconfiguração das suas terras. Entre esses autores que se dedicam a

estudar essa questão podemos destacar: José de Souza Martins (1973; 1975; 1997); Alcir Lenharo

23

(1985); José Vicente Tavares dos Santos (1994); Regina Beatriz Guimarães Neto (2003; 2005;

2007; 2008) Ariovaldo Umbelino de Oliveira (1989; 1997), Octávio Ianni (1978; 1979), João

Carlos Barrozo (1992; 2008) Carlos Walter Porto Gonçalves (2005), entre outros.

Na discussão sobre a temática do trabalho escravo contemporâneo trabalhamos com

diversos autores que desenvolveram pesquisa sobre o tema na Amazônia como: Neide Esterci 12 ,

Ricardo Resende Figueira 13 (2004), Binca Le Brenton 14 (2002), João Carlos Barrozo 15 (1992),

Pedro Casaldáliga 16 (1971), José de Souza Martins 17 e Ângela de Castro Gomes (2007).

No Araguaia, entre as décadas de 1960 a 1980, foram implantados vários projetos

agropecuários financiados pelo Governo Federal, através da SUDAM 18 . Para a instalação das

grandes fazendas na Amazônia, foi necessário arregimentar milhares de trabalhadores braçais

para abrir a mata, fazer cercas, plantar pasto. Estes trabalhadores foram aliciados por fazendeiros

e gatos 19 , sobretudo nos estados do Nordeste e de Goiás, com promessas de ganhar dinheiro fácil

e o sonho de uma vida melhor, um futuro promissor para eles e seus familiares. Esses

12 Antropóloga que morou e desenvolveu pesquisa na área de Prelazia de São Félix do Araguaia no final da década de 1970 e inicio de 1980.

13 Padre que trabalha na CPT no sul do Pará e desenvolveu pesquisa no Araguaia também, fez mestrado e doutorado em antropologia sobre a temática do trabalho escravo contemporâneo.

14 Jornalista inglesa que mora em Minas Gerais e escreveu um livro (Vidas Roubadas) sobre o tema, abrangendo áreas do sul do Pará e o Baixo Araguaia.

15 Sociólogo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso desenvolveu, uma pesquisa para dissertação de mestrado sobre o trabalho escravo contemporâneo nas agropecuárias de Mato Grosso.

16 Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, uma das primeiras pessoas a fazer denúncias da prática do trabalho escravo contemporâneo na Amazônia.

17 Sociólogo e professor da USP possui, pesquisa sobre a Amazônia. 18 A criação do Banco de Crédito da Amazônia (atual BASA Banco da Amazônia), e da SUDAM, ambas em 1966, tinha por objetivo estimular os projetos de ocupação da região Amazônica. Em 1970 foi lançado o Programa de Integração Nacional (PIN), marco de uma ação mais ostensiva do Governo Federal sobre toda a região, criado através do decreto lei nº 1.106, de 16/06/70. O primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (1972-1974), elaborado sob a orientação do ministro do Planejamento Reis Velloso, esteve mais voltado para grandes projetos de integração nacional (transportes, inclusive corredores de exportação, telecomunicações).

19 Agentes contratados por fazendeiros/latifundiários para aliciar os peões e vigiá-los nas fazendas para onde foram enviados. Segundo Corrêia (199, p. 77) “em alguns casos, o gato pretende-se investido da qualidade de empreiteiro, dotado de relativa autonomia; em outros, mais se aproxima de mero líder de turma, sofrendo espoliações similares à experimentada pelos demais trabalhadores, com os quais usualmente presta serviço. Em ambos os casos, porém, resulta clara a intermediação fraudulenta de mão-de-obra, aplicada em atividades essenciais ao tomador dos serviços e em seu manifesto proveito, o que caracteriza sua responsabilidade final pela relação de trabalho”.

24

trabalhadores foram obrigados a enfrentar longas jornadas de trabalho e castigos físicos no

interior das fazendas; outros foram mortos ou submetidos ao trabalho escravo contemporâneo.

No Brasil é possível estabelecer uma relação entre a concentração fundiária e a

utilização do trabalho escravo contemporâneo, porque além da riqueza concentrar-se nas mãos de

poucos, a grande propriedade praticamente extingue qualquer perspectiva de geração de emprego

e renda para os pequenos agricultores, pois não há como estes concorrerem com a grande

produção.

Esses

agricultores

sem

a

terra

e

sem

financiamentos

são

forçados

a

migrar,

abandonando seus locais de origem em busca de melhores oportunidades. Não suportando mais a

pobreza em seus estados de origem, saem à procura de trabalho em outros estados, onde são

aliciados por empreiteiros e gatos. São esses trabalhadores que estão mais expostas à prática do

trabalho escravo contemporâneo.

Embora houvesse uma população carente na Amazônia, que poderia ter ocupado as

terras, a opção foi pela distribuição de extensas áreas, com incentivos fiscais e empréstimos

milionários para as grandes empresas, inclusive multinacionais. A Volkswagem foi uma das

empresas que ocupou uma grande área no sul do Pará, posteriormente envolvida em denúncias de

trabalho escravo. As áreas que localizam-se fora das rodovias dificulta o acesso do grupo de

fiscalização,

e

à

ganância dos

grandes

proprietários

são

ingredientes

importantes

para a

exploração

do

trabalhador

nessas

propriedades.

Algumas

dessas

grandes

empresas

estabeleceram-se no Araguaia: Codeara, Suiá Missu, Tamakavi, Bordon, Frenova, entre outras.

Na Amazônia, onde ocorre uma grande concentração fundiária, a utilização da do

trabalho escravo contemporâneo como de mão-de-obra de fácil acesso é empregada, sobretudo,

na transformação da floresta em pastos para a pecuária e lavouras, especialmente na monocultura

de soja, de algodão, criação de gado e cana-de-açúcar. As práticas dos fazendeiros se perpetuam,

25

em alguns casos produzindo igualmente violência, trabalho escravo contemporâneo e desrespeito

às leis trabalhistas (Figueira, 2004). São temporalidades diversas e formas de ocupação do

Araguaia que se sobrepõem, em um universo marcado pelo conflito e pela violência.

A incidência do trabalho escravo contemporâneo está concentrada, especialmente, nas

áreas de expansão agropecuária da Amazônia e do Cerrado. Contudo, há casos confirmados nos

Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, o que demonstra que

este fenômeno não está vinculado apenas à abertura de novas áreas, mas a outros elementos que

perpassam por realidades sociais distintas (CPT, 2005).

As ocorrências de trabalho escravo contemporâneo, na maioria das vezes, começam

como forma de obtenção de mão-de-obra para as grandes fazendas. Geralmente estas estão

instaladas em locais distantes de onde saíram os trabalhadores. Estes, atraídos com promessas de

um trabalho decente e bem remunerados, se constituem em uma presa fácil para os aliciadores. A

composição da dívida com o gato se inicia pela cobrança do transporte dos trabalhadores, pelo

adiantamento de um determinado valor no momento do aliciamento, ou pelo pagamento dos

débitos contraídos em pensões, o que se tornará para o trabalhador impagável, sujeitando-o ao

trabalho forçado (Esterci, 1994).

Os casos de trabalho escravo contemporâneo, denunciados e noticiados, no geral,

possuem um período de duração curta, o que dificulta a fiscalização, pois em grande parte quando

os fiscais chegam já não há mais trabalhadores (Figueira, 2004). Portanto, esta prática de

exploração do trabalhador pode estar apontando para novas formas de exploração no mundo do

trabalho, e sua precarização na contemporaneidade, especialmente em razão da terceirização e da

supressão de direitos sociais. Nas últimas décadas do século XX, as denúncias sobre a escravidão

contemporânea aumentaram de forma a chamar a atenção da sociedade. A imprensa tem um

26

importante papel na divulgação desses fatos. O Brasil, reconhecendo a existência do problema,

passou a adotar uma série de medidas para coibir essa prática. Entre elas podemos destacar o

Plano Nacional para a erradicação do trabalho escravo, lançado pelo governo federal em 2003 20 .

No cenário internacional, a O.I.T. elaborou novas recomendações para que os países signatários

adotassem essas convenções, garantindo os direitos fundamentais do trabalhador.

A nova escravidão em alguns aspectos é mais vantajosa para os empresários que a

escravidão da época do Brasil-Colônia e Império, sobretudo do ponto de vista financeiro e

operacional (Figueira, 2004; Sakamoto, 2006).

Podemos destacar o fato que, na escravidão colonial, era permitida a propriedade

legal do escravo. Era muito mais caro comprar e manter um escravo do que hoje. O negro

africano era um investimento dispendioso que poucas pessoas podiam ter. Hoje, o custo do

trabalhador explorado nas fazendas é muito baixo. Paga-se apenas o transporte e, no máximo, a

dívida que a pessoa possui em algum comércio ou pensão. O valor desta dívida será descontado

posteriormente do trabalhador, e multiplicado várias vezes (Sakamoto, 2008, Breton, 2002,

Casaldáliga, 2000, Figueira, 2004, Barrozo, 1992 e Martins, 1997) 21 .

A estrutura econômica e política do país estimulam a concentração de renda e amplia

a miséria, promove a formação de aglomerados de trabalhadores dispostos a aceitar as piores

condições em troca de um trabalho que lhe permita o sustento próprio e de sua família. Como

assinalou Bourdieu (1997, p. 164) “[

]

os que não têm capital são mantidos à distância, seja

física ou simbólica, dos bens socialmente mais raros e condenados a estar ao lado das pessoas ou

dos bens mais indesejáveis e menos raros”. No caso dos peões desprovidos da posse de qualquer

20 Este plano encontra-se disponível no site do Ministério do Trabalho e emprego www.mte.br.

vários tipos de informações dobre a

temática do trabalho escravo contemporâneo, como também vários artigos e reportagens, constituindo-se em uma

importante fonte de pesquisa.

21 A ONG Repórter Brasil possui, no seu site www.reportebrasil.com.br ,

27

bem, a não ser sua força de trabalho, são empurrados para as fazendas onde possivelmente serão

submetidos a situações de violência e degradação humana.

Em entrevista ao jornal o Globo a auditora Fiscal do Trabalho e responsável pela

coordenação dos grupos de Fiscalização Móvel, que combatem o trabalho escravo no Brasil

desde 1995, a auditora Ruth Vilela, secretária de Inspeção do Trabalho do governo federal,

afirma categoricamente sobre quem são esses novos escravos :

A enorme maioria, 99%, é de seres humanos invisíveis. Nascem sem certidão de nascimento e vão morrer sem atestado de óbito. Nas fazendas, vivem em condições desumanas, sob lonas sem higiene, e bebem a mesma água do gado. Os animais são mais bem tratados, vivem em estábulos pintados e arrumados. 22

No

interior

das

grandes

fazendas

esses

trabalhadores

vivem

um

cotidiano

de

violência, são pessoas pobres que por diversas razões, vivem em constantes deslocamentos.

Chegam às novas áreas de abertura de fazendas a procura de trabalho e, na sua grande maioria

sem qualificação, sem documentos, são considerados como um incomodo nas cidades e vilas.

Para garantir o próprio sustento submetem-se a condições de trabalho cruéis e desumanas.

A pesquisa realizada para esta dissertação mostrou a complexidade e a singularidade

das relações no mundo do trabalho. A precarização do trabalho, novas formas de exploração,

algumas mais sutis, outras escancaradas, mas ambas levam à exploração e degradação do

trabalhador.

Assim, a abordagem das trajetórias de vida dos peões revelou estratégias diversas

para escapar do aprisionamento, da super exploração, das diversas formas de violências, no

mundo do trabalho. São essas pessoas que também construíram a história do Araguaia, que se

caracteriza pelos múltiplos conflitos relacionados à luta pela terra.

22 Entrevista cedida ao Jornal O Globo disponível em www.globo.com/oglobo , acessado em janeiro de 2008.

28

No arranjo dos capítulos que integram esta dissertação procuramos articular as fontes

escritas, orais e visuais à construção da narrativa histórica, observando “[

]

um conjunto de

regras que permitam “controlar” operações destinadas à produção de objetos determinados”

(Certeau 1982, p. 109).

No

primeiro

capítulo

trazemos

um

quadro

da

ocupação

do

Araguaia,

para

compreender o espaço em que desenvolvemos a pesquisa. Faz-se uma análise das políticas

públicas que contribuíram para a reconfiguração daquele espaço, dentro do projeto de ocupação e

exploração do território amazônico.

No segundo capítulo enfocamos a importância e a atuação da Igreja Católica,

representada regionalmente pela Prelazia de São Félix do Araguaia, no combate ao trabalho

escravo contemporâneo e em defesa dos posseiros, índios e peões. O bispo, D. Pedro Casaldáliga,

juntamente com os padres e agentes de Pastoral, enfrentaram o regime militar na década de 1970,

para defender os pobres do Araguaia.

No terceiro capítulo procuramos realizar uma discussão sobre o uso do termo trabalho

escravo contemporâneo, considerando que, ao utilizarmos o termo “trabalho escravo”, este foi re-

significado, chamando a atenção para um novo fenômeno que surge no mundo do trabalho na

contemporaneidade. Este possui especificidades próprias nas novas formas das relações de

trabalho.

No quarto capítulo propomos construir uma cartografia dos espaços percorridos,

através das memórias de homens e mulheres, e a trajetória de vida dos peões, através de

entrevistas,

de

cartas,

bilhetes,

relatórios,

jornais,

declarações

e

processos

judiciais

que

29

encontram-se no Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia 23 . Os documentos pesquisados

sobre os peões que se deslocaram para o Araguaia, indicam um intenso movimento de homens e

mulheres desterritorializados a procura de novos espaços e melhores condições de vida.

A

história desses trabalhadores no Araguaia está cercada de imagens que são amálgamas de sonhos,

realidades e irrealidades. As experiências vivenciadas por essas pessoas são reconstruídas com as

memórias dos tempos das aberturas das fazendas, das festas nos cabarés, e do afastamento das

famílias, entre tantos outros sonhos que não foram realizados.

Os relatos de memória desses homens e mulheres que narram suas experiências sobre

a

abertura

das

fazendas

no

Araguaia

trazem

múltiplas

leituras

dessa

(re)

ocupação.

As

experiências vivenciadas nesse período pelos trabalhadores podem ser entendidas como leituras

plurais de mundo que cada narrador desenvolve.

23 Os documentos do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia, encontram-se digitalizados, sendo permitido pesquisas nos arquivos. Neste arquivo as pastas estão divididas por temática e por Municípios que fazem parte da Prelazia. No site da prelazia www.alternex.com.br/~prelazia é possível encontrar várias informações.

30

Capitulo I

Araguaia territórios e territorialidades

Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio. Uma imensa experiência social da privação de lugar, uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis e infinitas (deslocamentos e caminhadas) compensadas

pelas relações e os êxodos que se entrelaçam. (

um pulular de

passantes, uma rede de estadas tomadas de empréstimo por uma circulação, uma agitação através das aparências do próprio, um universo

de locações freqüentadas por um não-lugar, ou por lugares sonhados (Certeau, 1994, P. 183).

)

31

1.1. Migração: o encontro com o estranho

as
as

Neste capítulo discorreremos sobre a dinâmica da migração de trabalhadores para

áreas de abertura de grandes fazendas, no nordeste de Mato Grosso, Baixo Araguaia. Esses

deslocamentos populacionais ocorrem em diferentes momentos, tecendo assim, a história desse

território. Também discutiremos as políticas públicas de ocupação dos espaços amazônicos 24 ,

para uma melhor compreensão do espaço geográfico em que se desenvolve a pesquisa.

Ainda que o início do século XX não esteja inserido no recorte temporal selecionado

para

este

trabalho,

consideramos

importante

voltar

a

esse

período

para

compreender

a

procedência das pessoas que ocupam o espaço estudado. Pois é através de suas histórias que

iremos construir nossa narrativa, trabalhando com as complexas relações sociais, econômicas,

políticas, culturais e espaciais que estão constituindo-se entre, o posseiro, o fazendeiro, o peão, o

índio, a Igreja Católica e o Governo.

Na abertura de novas áreas são constantes as migrações, pois as pessoas estão à

procura de oportunidades. Nesses espaços, para quem vive em situação de pobreza, há a

possibilidade de construir uma vida com menos sofrimento. Na Amazônia, no inicio do século

XX, esses deslocamentos migratórios se deram principalmente com a vinda de pessoas do

Nordeste do país. De acordo com Guimarães Neto (2007, p. 89): “[

]

famílias inteiras, com a sua

24 A Amazônia Legal possui uma extensão de 5.109.812 km², que corresponde a cerca de 60% do território nacional. Por ser a maior parte dessa área coberta por florestas, com grande dificuldade de acesso, ficou por vários anos sem ter sua ocupação e exploração como prioridades dos governos. Essa situação, contudo, começou a se modificar quando foi verificada a possibilidade de exploração dos valiosos recursos naturais descobertos na região. Pode-se dizer que o marco inicial dessa fase foi a exploração do látex para a produção da borracha no final do século XIX. Essa exploração proporcionou grande desenvolvimento econômico para a Amazônia, possibilitando a geração de divisas para o país. Ao mesmo tempo, atraiu uma população miserável que buscava uma oportunidade de sustento, mas que acabou sendo explorada como escravo. Essa história de exploração econômica da Amazônia foi acompanhada de violência e exploração do homem, situação que perdura até os dias de hoje. Informação disponível em: <http://www.ada.gov.br/amazonia.asp>. Acesso em 28 de maio de 2007.

32

história de vida e morte, abandonaram sua terra, procurando fugir à miséria, à seca. Lutando

contras as adversidades do meio físico mas, sobretudo contra as arbitrariedade do domínio

político do latifúndio e da exclusão social, fizeram-se nômades”.

Num primeiro momento com o ciclo da borracha e, a partir da década de 1940 com a

“marcha para o Oeste”, intensificando-se a migração em 1942 com os “soldados da borracha”,

que foram levados, sobretudo, dos estados do Nordeste para os seringais na Amazônia. Durante a

segunda guerra mundial, o governo brasileiro firmou acordos com o governo norte-americano

para suprir aquele país com a matéria prima para a fabricação da borracha (Hevea brasiliensis e

Castilloa elástica). O governo brasileiro organizou uma campanha nacional para incentivar a

migração dos nordestinos para a Amazônia, no que foi denominado pelo governo como “a

Batalha da Borracha” 25 .

Na segunda metade do século XX a migração para a Amazônia se intensificou com a

implantação de empresas agropecuárias, contando com a mão-de-obra de nordestinos para

trabalhar na abertura das fazendas e a colonização privada ou pública com os colonos da Região

Sul 26 .

Esses

deslocamentos

populacionais,

organizados pelo Governo.

em

momentos

distintos,

foram

incentivados

e

Para Martins (1980) esses descolamentos tiveram três momentos importantes na

reocupação de terras no país no século XX:

Podem-se distinguir no país três grandes correntes migratórias, duas das quais orientadas para a região amazônica. Uma delas é a já antiga e conhecida corrente que leva trabalhadores do Nordeste para o Sul, particularmente para o

25 Ver o trabalho de GUILLEM, Izabel Cristina Martins. Errantes da Selva História da Migração Nordestina para a Amazônia. Recife, Ed. Universitária UFPE, 2006, IANNI, Octávio. A luta pela terra: história social da terra e da luta pela terra numa área da Amazônia. Petrópolis, Vozes, 1978 e Guimarães Neto, Regina Beatriz – Cidades da Mineração:

memória e práticas culturais – Mato Grosso na primeira metade do século XX. Cuiabá Carlini & Caniato; EDUFMT,

2006.

26 Ver sobre a Ocupação recente de Mato Grosso os trabalhos de Guimarães Neto (2002), Oliveira (1989) Santos (

1993) Souza ( 2004), Barrozo ( 2000), entre outros.

33

São Paulo, Rio e Paraná. [

ao Norte e ao Centro-Oeste, o que basicamente quer dizer Amazônia Legal. Uma outra grande corrente migratória, mais recente, é a que se dirige do Rio Grande do Sul e do Paraná para Mato Grosso e Rondônia (Martins, 1980, p.

um outro fluxo migratório do Nordeste em direção

]

82).

Na área banhada pelo Araguaia, no nordeste de Mato Grosso, é possível identificar

quatro momentos distintos de deslocamentos populacionais, estabelecido por pessoas de diversas

regiões do país, que foram ocupar esse território No primeiro momento chegaram famílias que

formam pequenos povoados às margens do rio Araguaia (inicio do século XX), constituído por

uma migração espontânea. Os primeiros povoados foram Furo de Pedra (Santa Terezinha), Mato

Verde (Luciara) e São Félix do Araguaia. Nesse primeiro momento chegam famílias do

Maranhão, Goiás e Pará (Soares, 2004). Essa migração dá-se através de uma rede de parentesco e

compadrio que procuram melhores condições de vida e novas terras. Segundo Soares (2004, p.

34):

“Estes

deslocamentos

populacionais

eram

lentos

e

as

notícias

sobre

os

garimpos

diamantíferos do leste mato-grossense e de novas terras de pastagem propicias para a criação do

gado eram veiculados “de boca em boca”.

Muitas dessas pessoas chegam para o Araguaia no inicio do século XX, algumas

vezes vinham alguns membros (mais especificamente o pai e algum dos irmãos mais velhos) para

olhar as terras e depois voltavam para buscar os outros integrantes do grupo familiar. Em alguns

casos estavam de passagem para os garimpos do leste mato-grossense e constituíam família nesse

lugar. Como também alguns grupos foram para o Araguaia seguindo a representação mítica das

“bandeiras verdes” 27 . Essas pessoas como observou Guimarães (2007, p. 90):

27 Profecia de Padre Cícero, de que os nordestinos deveriam seguir para o Oeste onde havia matas e rios que não secavam, ver os trabalhos de Martins ( 1992) Lima (2002) Capelete (2002).

34

Levavam em sua bagagem não só a miséria que se restringia à penúria econômica e à exploração degradante do trabalho, mas a que também pode ser vista em outra dimensão: aquela que pressiona grupos sociais pobres a se deslocarem de um lado ao outro, aprisionados a incessantes construções míticas.

Essa população que ocupou as margens do Araguaia, até inicio da década de 1950,

vivia principalmente da caça, pesca, extrativismo e venda de pele de animais para barcos que

navegavam pelo rio Araguaia. Os caçadores/coletores trocavam as peles de animais por sal, café,

tecido e açúcar.

No inicio da ocupação, essa população foi assistida pela Prelazia de Conceição do

Araguaia até 1971. Como observou Casaldáliga (1971, p. 06):

A maior parte do elemento humano na região é sertanejo: camponeses nordestinos, vindos diretamente do Maranhão, do Pará, do Ceará, do Piauí, ou passando por Goiás. Desbravadores da região, “posseiros”. Povo simples e duro, retirante como por destino numa forçada e desorientada migração, com a rede de dormir nas costas, os muitos filhos, algum cavalo magro e uns quatros “trens” de cozinha carregados na sacola.

Antes da ocupação desse território por migrantes de vários estados, esse espaço era

ocupado por povos indígenas das etnias: Xavante, Karajá, Tapirapé e Kaiapó. Os Karajá habitam

às margens do Araguaia há mais de três séculos, convivendo sem grandes conflitos com

as

populações que chegaram no inicio do século XX. O Kaiapó, um povo guerreiro, aparece nos

relatos como um povo que vivia em constantes conflitos com os não índios e índios de outras

etnias, como os Tapirapé que foram quase dizimados por eles. 28

p. 52)

Como destacou Soares (2004,

28 Sobre a sobrevivência e reorganização desse povo ver o “Diário das Irmãzinhas de Jesus”, lançado em 2004, em comemoração aos 50 anos de convivência dessas irmãzinhas com o Povo Tapirapé e BALDUS, Herbert. TAPIRAPÉ: Tribo Tupi no Brasil Central. São Paulo, Companhia Editorial Nacional, 1970.

35

] [

contatos entre as diferentes sociedades indígenas e os sertanejos/posseiros que

fixaram residência nas margens dos rios Araguaia e Tapirapé construindo o povoamento não indígena desta parte nordeste de Mato Grosso. Foram mais de seis décadas de contatos, de convívio diário, demarcando/construindo um novo re-ordenamento neste espaço.

pelos indícios é possível pensar na complexidade desta longa experiência de

Essas áreas às margens do Araguaia com a chegada dessas populações, oriundas do

nordeste do país e do sul do Pará, juntamente com as etnias que já habitavam esse espaço

vivenciam um complexo contato inter-étnico, que resultou em conflitos os mais diversos 29 .

Conceição do Araguaia no final do século XIX e início do XX constituiu-se em um

importante núcleo urbano do sul do Pará (Ianni, 1978), tornando-se para as pessoas que vinham

do nordeste do país para os garimpos do leste de Mato Grosso um importante lugar de passagem.

Com

o

ciclo

da

borracha

do

inicio

do

século

XX

este

povoado

desenvolveu-se

consideravelmente. Aparece constantemente nos relatos de viajantes e entrevistados. Para chegar

a Santa Terezinha, Luciara e São Félix do Araguaia vindos, sobretudo do Maranhão, essas

pessoas passavam primeiro por Conceição do Araguaia 30 .

A queda na produção da borracha na década de 1910 provocou uma reorganização na

economia dos povoados do sul do Pará, que se constituíram em função da expansão da borracha.

Com a crise da borracha 31 , os garimpos do leste de Mato Grosso, atraíram grande parte dessa

população que subiu o Rio Araguaia em direção às áreas de garimpos (Soares, 2004).

29 Sobre esses conflitos e contatos inter-étnicos ver o trabalho de WANGLEY, Charles. Lágrimas de boas- vindas:índios Tapirapé do Brasil Central. São Paulo, Edusp, 1988, BALDUS Op. cit.

30 Octávio Ianni desenvolveu um importante trabalho sobre Conceição do Araguaia. IANNI, Octávio. A luta pela terra: história social da terra e da luta pela terra numa área da Amazônia. Petrópolis, Vozes, 1978. 31 Sobre a expansão e a crise da borracha consultar o trabalho de WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia:

expansão e decadência (1850- 1920). São Paulo, UCITEC, 1993 e Ianni, op. cit.

36

As pessoas que seguiam para os garimpos do Leste de Mato Grosso 32 , alguns

permaneciam nos povoados às margens do Araguaia, onde se dedicavam à agricultura e criação

de animais. Foi o caso da família do senhor Cecílio Carlos Pereira. Seu pai, Martiniano Carlos

Pereira, chegou no inicio da década de 1920, no povoado Furo de Pedra (hoje Santa Terezinha),

vindo do Maranhão, perfazendo o caminho a pé, a cavalo e em alguns trechos de canoa, levando

consigo toda a família. Cecílio casou-se e constituiu família. Mais tarde na década de 1940,

deixou sua família no povoado e partiu para garimpo no leste de Mato Grosso, retornando anos

mais tarde. No princípio conseguiu um pouco de dinheiro, o que proporcionou melhorias para a

família. O senhor Cecílio teve nove filhos, sendo quatro deles homens que mais tarde, já na

década de 1980, também seguiram para garimpos no leste de Mato Grosso 33 .

Muitos dos que migraram para o Araguaia, antes de estabelecerem-se nos povoados,

moraram e trabalharam na Ilha do Bananal 34 . A maioria dessas pessoas não tinha um lugar

definido para se fixar, pois vinham seguindo informações verbais de outras pessoas que já

moravam na área ou ouviram falar dela (Cardoso, 2002).

Essas pessoas migraram para escapar da extrema pobreza nos locais de origem

(Nordeste e Goiás) e à procura de terras férteis para plantar (Soares, 2004). Para esses migrantes

a Ilha do Bananal se apresentava como a concretização de melhoria de vida, como destaca em seu

depoimento, um ex-morador:

Nós viemos para a Ilha do Bananal em 1968, por causa da criação de gado. Quando casei com Jú eu era pobrezinho, e o meu sonho era ser fazendeiro, e eu tinha uma terra e um pouco de gado, mas aquele lugar (Maranhão) era tão

32 Sobre as migrações para os garimpos em Mato Grosso ver os trabalhos de Guimarães Neto, Regina Beatriz – Cidades da Mineração: memória e práticas culturais – Mato Grosso na primeira metade do século XX. Cuiabá Carlini & Caniato; EDUFMT, 2006 e BARROZO, João Carlos, Em busca da pedra que brilha como estrela: garimpo e garimpeiros do Alto Paraguai. Cuiabá, Carlini & Carniato EDUFMT, 2007, entre outros.

33 Informações obtidas a partir de entrevistas com Maria de Lourdes Carlos, filha de Cecílio Carlos Pereira.

34 Sendo a maior ilha fluvial do mundo, este espaço foi ocupado, desde o final do século XVII, por populações indígenas de várias etnias. Somente a partir do final do sec. XIX é que passou a ser ocupada por não índios.

37

pobre, cheio de erva, o gadinho que tinha, que nós arrumamos, o gado secava e morria na saída das águas, ( depoimento de J. A. G. C. apud, Cardoso, p. 6).

Os estudos sobre as migrações do Nordeste para a Amazônia têm apontado diversos

fatores que levam as pessoas a migrarem; fome, seca, procura por terras livres, melhores

condições de vida e a questão mítica, de que na Amazônia há a possibilidade de enriquecimento

fácil, como considerou Barrozo (2007, p. 130) em sua pesquisa sobre garimpo e garimpeiros do

Alto

Paraguai/MT:

“[

]

As

migrações

estão

articuladas

com

o

processo

de

mudança

desencadeado no conjunto das relações de produção. Os fluxos migratórios expandem-se e

retraem-se de acordo com os ciclos econômico”. E Aragon (apud, Barrozo, 2007, p. 131) assinala

que: “[

]

as pessoas que migram muitas vezes vão à procura de uma retribuição pessoal, mas

como integrante de uma estratégia grupal, cujo objetivo é melhorar as condições de vida ao nível

agregado da família”. No primeiro momento da migração essas pessoas vinham em grupos

articulados com a rede de parentesco e compadrio.

Trabalhando também com migrações para a Amazônia, Guimarães Neto (2006, p. 97-

98) destaca que:

Não se pode perder de vista que os deslocamentos migratórios para a Amazônia alinhavam-se na trama de conteúdo mítico, alimentados por técnicas de propagandas do Estado, projetando poderosas imagens, nas quais se produzem bandeirantes, soldados da borracha, soldados do trabalho, novos bandeirantes. Portando, os regimes de poder, em seu próprio funcionamento, exigem e produzem um discurso mítico sobre a terra prometida, ajustada às “necessidades nacionais” (em diferentes versões); e os trabalhadores, apresentados como migrantes culturalmente desterritorializados, apareciam, pois, como conquistadores de novos territórios, construtores da nação e pioneiros na fundação das cidades.

38

O Estado incentivou e direcionou os deslocamentos migratórios em diferentes

momentos da história do país, agindo conforme seus interesses sem levar em conta as

necessidades dos pequenos agricultores, trabalhadores sem terra, pessoas que se deslocaram de

seus locais de origens. O Estado deixou os trabalhadores e pequenos agricultores à própria sorte

quando estes já não atendiam aos interesses dos governantes, como sucedeu com os “soldados da

borracha”, abandonados nos rincões da Amazônia, de onde muitos nunca mais conseguiram

voltar ao seu lugar de origem (Guillem, 2007). De forma análoga aconteceu com os colonos do

Sul, que foram atraídos pela colonização, pública ou privada. Ao chegarem às terras de Mato

Grosso, de Rondônia e outras áreas do território amazônico, não puderam contar com o apoio do

Estado e das colonizadoras.

A partir do final década de 1960, há um segundo momento migratório, com a

transformação do espaço social, cultural, econômico e geográfico desse território, devido à

chegada das empresas agropecuárias subsidiadas pelo governo federal. As terras antes comunais 35

passam a ser propriedade privada, gerando vários conflitos pela posse da terra 36 . Até inicio da

década de 60 do século XX, nesse espaço não havia grandes fazendas.

Até então, no Araguaia existiam quatro povoados: Santa Terezinha, São Félix,

Luciara e Porto Alegre do Norte. Todos faziam parte do Município de Barra do Garças que

abrangia mais de 200.000 km². Essa população praticamente não conhecia o trabalho assalariado.

Se matava que fosse um porco, todo mundo da rua comia. Quando era gado ia mais de um quilo para os vizinhos. Aqueles vizinhos que agradava mais, mandava duas vezes. O que agradava menos recebia uma vez só, mas todos

35 As terras comunais no Araguaia constituíam as várzeas, varjões, aguadas, que eram utilizadas por todos dependendo da necessidade de cada um, essas pessoas não possuíam titulo dessas terras.

36 O território Araguaia nas décadas de 60,70,80 do século XX, ficou conhecida pelos vários conflitos e luta pela terra, ver Souza ( 2002), Pereira (2002), Martins (1994), Esterci (1987) , Canuto (1972) e Casaldáliga (1971).

39

ganhavam nem que fosse gordura

(Luiza moradora de Santa Terezinha, apud Esterci, Neide, 1987, p. 101).

E

não comprava não, tudo isso era trocado

Com a chegada das empresas agropecuárias, constitui-se nesse espaço o trabalho

assalariado, sobretudo nas empresas agropecuárias. Essas empresas utilizam o trabalho do peão

levado de outros estados. Quando há posseiros na área ele é expropriado e expulso ou então passa

a ser explorado pelas fazendas.

A população local sobrevivia praticamente da troca de produtos e serviços entre se.

Havia barcos que percorriam o Araguaia – armazéns flutuantes - trocando sal, café e tecidos com

os moradores das margens do Araguaia. No entanto, com a chegada das empresas agropecuárias

há uma transformação no modo de vida dos moradores. Dona Joselita relata como eram

realizadas as trocas:

As coisas eram muito difícil, quase não tinha dinheiro, ai se eu tenho uma coisa para vender, mas não tem quem comprar, eu troco, você fica com o meu, eu fico com o seu, é assim. Com o serviço no roçado era também assim, quando meu marido colocava a roça ou ia colher, ele trocava dia de serviço com o compadre ou outro vizinho mais próximo, ninguém pagava para o outro e todo mundo trabalhava assim 37 .

Nesses relatos podemos observar um pouco do cotidiano da comunidade de Furo de

Pedra

(atual

Santa

Terezinha).

Na

década

de

1950,

o

comércio

era

muito

precário

ou

praticamente inexistente. O que acontecia era a troca de produtos e serviços entre os moradores.

Com a abertura das fazendas a procura por mão-de-obra intensifica-se ao longo das

décadas de 1970 e 1980. Na abertura destas fazendas, foram contratados centenas de peões para

trabalhar, sobretudo, na derrubada da mata.

37 Entrevista realizada com Joselita Filomena Costa, em 10 de novembro de 2000, em Goiânia.

40

Houve assim, uma segunda corrente migratória para o Araguaia, constituída pelos

peões que chegam para trabalhar nas fazendas que estão sendo

formadas no Baixo Araguaia.

Quando terminava a “empreitada” eles permaneciam nesse território, muitas vezes perambulando

de vilarejo em vilarejo ou de fazenda em fazenda. Alguns constituem novas famílias, mesmo

tendo mulher e filhos no lugar de procedência. Eles vem principalmente do Nordeste e de Goiás.

São homens à procura de melhores condições de vida, fugindo das adversidades vividas no seu

lugar de origem.

Com a chegada dessas pessoas no Araguaia há uma desestruturação dos povoados.

Em Santa Terezinha em 1970, chegaram para trabalhar na fazenda CODEARA (Companhia do

Desenvolvimento do Araguaia) aproximadamente 1.200 trabalhadores e o povoado contava com

aproximadamente 140 famílias (que não chegava a 500 pessoas). Muitas vezes os “chegantes”

são

mais

numerosos

que

a

população

local,

provocando

rupturas

na organização

social,

econômica e cultural desse espaço social, uma desestabilização e fragmentação dos povoados.

Naquele período, surgiram os prostíbulos e muita violência, denunciada por Casaldáliga:

O peão fechado na mata por muitos meses, nessas condições de tensão desumana, quando vai ou é levado à cidade, gasta, muitas vezes, tudo o que recebeu, em bebedeiras, prostituição e é facilmente roubado. Vários chegam a São Félix depois de 4 ou 5 meses de trabalho na mata (Casaldáliga, p. 27,

1971).

Essa situação foi constante em praticamente todos os povoados do Araguaia no inicio

da década de 1970. Para as pessoas do lugar era um grande constrangimento ver suas filhas junto

com os peões, forasteiros como eram denominados pelos habitantes do lugar. Estes estavam

sempre envolvidos em brigas e assassinatos.

41

Norbert Elias e John Scotson (2000) estudaram uma pequena cidade do interior da

Inglaterra, Winston Parva, no início da década de sessenta do século XX. Os autores centraram

suas análises em torno das relações estabelecidas na vida social desta cidadezinha da Inglaterra.

O que eles chamam de fantasias grupais, o imaginado e o vivido, na Amazônia podemos

considerar como o mítico, o lugar promissor que passa a ser o inferno vivido pelos peões do

Araguaia.

No Araguaia os outsiders, utilizando um termo empregado pelos autores, são os peões

que na maioria das vezes nunca são aceitos na comunidade. Para Elias e Scotson, os outsiders

mesmo vivendo por vários anos na comunidade não conseguem integrar-se à mesma, sendo a

maioria das vezes, tratados como estranhos pelos estabelecidos.

Em Winston Parva, havia uma distinção entre os grupos que viviam em áreas

diferentes da cidade. Em situação análoga, os peões nas cidades do Araguaia têm os lugares

determinados onde podem circular, ou seja, são tratados como estrangeiros no lugar em que

chegam. Isso gera tensões múltiplas entre os habitantes do lugar e os que chegam depois. Os

peões são indesejados, e a população os quer longe das cidades e fora dos lugares que são

freqüentados pelas famílias.

Segundo Norbert Elias e John Scotson (2000, p. 26) “[

]

não é fácil entender a

mecânica da estigmatização sem um exame mais rigoroso do papel desempenhado pela imagem

que cada pessoa faz da posição de seu grupo entre outros, e, por conseguinte de seu próprio status

como membro desse grupo”. Portanto, essa população está olhando, analisando e julgando os

peões a partir da posição que ocupam nessas cidades.

Os migrantes do Nordeste, destacando-se os peões ou trabalhadores temporários que

chegam para trabalhar, como mão-de-obra não qualificada nas agropecuárias, vieram também em

42

busca de terras para trabalhar como agricultores. Estas pessoas são agricultores pobres que

fugiram das mais diversas e complexas situações no Nordeste: concentração de terra, seca, fome,

entre outras. Essa corrente migratória intensificou-se a partir da década de 1960. O Governo,

também estimulou a migração como estratégia para resolver as pressões que os movimentos

sociais do Nordeste faziam sobre ao Governo Federal. Naquele momento, lutavam por acesso à

terra e contra a concentração desta.

Essas migrações atenderam em parte às necessidades de

mão-de-obra para trabalhar nas empresas que se instalaram na Amazônia.

Em um terceiro momento dos deslocamentos migratórios para o Araguaia podemos

destacar a segunda metade do século XX, quando chegaram os migrantes vindos do Sul, através

dos projetos de colonização privada. Estes projetos contavam com incentivos e subsídios do

Governo Federal. Favorecendo esse fluxo migratório houve uma intensa propaganda por parte

das colonizadoras privadas. Os agricultores que possuíam uma pequena propriedade no Sul do

Brasil migraram para Mato Grosso por várias razões. Naquele momento estava em andamento

um processo de modernização da agricultura, que exigia o remembramento das pequenas

propriedades. A solução proposta pelo Governo Federal para não fazer uma reforma agrária e

evitar os conflitos sociais na região sul, foi a transferência desses agricultores para projetos de

colonização na Amazônia. Segundo Ianni (1979) o governo faz uma “contra reforma agrária”.

No Araguaia foram formados seis núcleos de Colonização privada: Vila Rica,

Querência,

Santa

Cruz

do

Xingu,

Água

Boa,

Canarana

e

Confresa,

gerenciados

pelas

colonizadoras: Vila Rica, CODEBRASA, Confresa e COOPERCANA. No caso de Confresa,

Santa Cruz do Xingu e Vila Rica, as colonizadoras não cumprindo com os acordos firmados com

os colonos, sobretudo no que se refere à questão da mecanização das terras que não foi realizado

por

parte

das

colonizadoras.

Algumas

nem

mesmo

possuíam

maquinários.

Os

colonos

43

reclamavam da falta de escola para os seus filhos, assim como da inexistência ou precariedade

das estradas que davam acesso aos lotes. Os colonos foram abandonados à própria sorte, longe

dos centros urbanos e sem dinheiro para retornar ao lugar de origem. Dinheiro público que serviu

para enriquecer os donos das colonizadoras e empobrecer os trabalhadores, que saíram de seu

lugar de origem à procura de melhoria de vida. 38

A partir da década de 1990, configura-se no Araguaia um novo migrante, o

“sazonal 39 ”. Este trabalhador irá ocupar espaços mais definidos, como o da destilaria Gameleira

que se instala no Município de Confresa a partir de 1980. Esses migrantes que vão trabalhar no

corte da cana são originários, principalmente de Alagoas, Pernambuco, Piauí e Maranhão. Em

alguns casos os migrantes não retornam para o lugar de onde saíram, constituindo família no

novo lugar. Na cidade de Confresa há bairros onde um percentual alto dos moradores é

constituído por migrantes do Nordeste, que vieram para trabalhar na destilaria Gameleira 40 .

A partir da década de 1970 intensificou-se a chegada de migrantes de diversas regiões

do país no Araguaia, assim como o avanço do capital através das empresas agropecuárias e

colonizadoras que se instalaram naquele espaço.

38 Sobre essas áreas de colonização no Araguaia ver os trabalhos; Martini, Ângela Maria. Reféns da Esperança- Artífices da Cidade em construção: relatos da colonização em Vila Rica/MT (anos 1980). Monografia de especialização, Confresa, UNEMAT, 2007; RECH, Marinez Irene Folador. Mulheres na Colonização de Vila Rica/MT – 1970 a 1980. Monografia de especialização, Confresa, UNEMAT, 2007 (ambas sobre a colonização de Vila Rica); Ribeiro, Carla Soraya Nunes. A mulher na colonização de Confresa (1970 a 1980). Monografia de conclusão de curso, UNEMAT, 2007. Silva, Aureci Barros da. A formação da cidade de Confresa a partir da memória década de 1970 a 1980 (sobre Confresa); Fedrigo, Elsedir Maria. Terra, Sonho e Saga: Construção histórica sobre Santa Cruz do Xingu. Monografia de conclusão de curso, UNEMAT, 2007 ( sobre Santa Cruz do Xingu) .

39 Estamos nos referindo especificamente aos cortadores de cana, que vêm dos estados do nordeste (Maranhão, Piauí e Pernambuco) para trabalhar na Destilaria Gameleira.

40 Ver o Trabalho de SANTOS, Francisco José dos. Contaminação das águas dos poços na Rua Wilson Saivá por fossas em Confresa-MT. Monografia, Luciara, UNEMAT, 2007.

44

1.2. Políticas públicas: Reconfiguração do espaço na fronteira

amazônica

Na década de 1930, Getúlio Vargas assume o poder no país, cria o Estado Novo em

1937, e reorganiza as instituições estatais, com o objetivo de empreender o desenvolvimento e

integração do país, promovendo a ocupação dos “espaços vazios”. Getúlio Vargas propõe uma

política de integração nacional, como projeto de desenvolvimento do país que ficou conhecida

como “Marcha para o Oeste”. Em seu governo foram colocados em ação programas para que essas

políticas se concretizassem. Vejamos um trecho do Discurso de Getúlio Vargas sobre o seu projeto

de ocupação dos “espaços vazios”:

Desse modo o programa rumo ao Oeste é o reatamento da campanha dos construtores da nacionalidade, dos bandeirantes e dos sertanistas, com a integração dos modernos processos de cultura. Precisamos promover esta arrancada sob todos os aspectos e com todos os métodos, para sanar os vácuos

demográficos do nosso território e fazer com que as fronteiras econômicas coincidem com as fronteiras políticas (discurso de Getúlio

Vargas em 1937, apud, SOUZA, 2002, p 15).

De acordo com Lenharo (1980, p. 59): “[

]

O Estado inventou novos dispositivos de

apoio à sua obra civilizadora. Dentre eles a Fundação Brasil Central é a sua realização mais

avançada e espetacular”.

A Fundação Brasil Central e Expedição Roncador-Xingu, são parte

importante dessa arrancada para o Oeste, mais precisamente no Leste e Nordeste de Mato Grosso.

Foi

com

esse discurso

de integração

e

exploração

dos

“espaços

vazios”

que

organizou-se a Fundação Brasil Central e a expedição Roncador-Xingu. A Fundação Brasil Central

45

criada em 1943 com objetivo de desbravar e colonizar as áreas do Araguaia e Xingu. A primeira

base foi organizada em Aragarças (GO), e posteriormente em Xavantina (MT).

O incentivo para a colonização do norte acabou por vir indiretamente no bojo das medidas implantadas pelo Estado Novo, ainda em 1943. Neste ano foi criada a Fundação Brasil Central, com o objetivo de desbravar e colonizar as áreas do Estado: Araguaia, Xingu, estimulou a colonização do nordeste do Estado e facilitou a penetração de contingentes de migrantes que avançaram em regiões de garimpo. (Lenharo, 1983, p. 39).

Com a Fundação Brasil Central as ações do governo federal abrangeram maiores

dimensões territoriais e políticas, chegando a abarcar a parte norte e nordeste do estado de Mato

Grosso. Atendia ao interesse da colonização dos “espaços vazios”, demonstrando que era possível

ocupar esse território “imensamente desocupado”. Porém, essa área não era “desocupada”. Havia

povoados (como Barra do Garças e os garimpos) com milhares de pessoas,

como também não

consideravam as populações indígenas que neste momento ocupava esse espaço expressivamente.

Como considerou Lenharo (1980, p. 74) “[

]

também nessa parte do estado, a imagem da

exploração de um território ainda vazio não correspondia à realidade”.

A ação da Expedição Roncador-Xingu se estendeu do Rio Araguaia, saindo de Barra do

Garças, rumo ao Rio das Mortes e posteriormente até o Rio Xingu. Essa área era entendida como

um imenso território a ser conquistado, como mostra o relato dos irmãos Villas Boas:

Em 1943, os nossos quarenta e tantos milhões de habitantes viviam praticamente na faixa litorânea. A Amazônia era um mundo remoto, e o Brasil Central parecia mais distante do que a África. Nascia assim, em plena guerra, um impulso expansionista, desta feita alentado pelo próprio Estado. Dois organismos foram criados pelo Governo: o primeiro a expedição Roncador- Xingu; o segundo a Expedição Brasil Central, com função definida de implantar

46

núcleos populacionais nos pontos ideais marcados pela Expedição. O primeiro órgão era assim a vanguarda do segundo (VILLAS BÔAS, Orlando, VILLAS BÔAS, Cláudio, 1994, p. 24).

A “Marcha para o Oeste” foi uma das primeiras políticas de colonização e exploração

da Amazônia constituída pelo Governo no século XX. Esta política pública será retomada mais

tarde nos Governos militares após 1964.

A ocupação e exploração da Amazônia passaram a ser uma prioridade para os

governos militares, após o golpe de 1964. Com o lema “é preciso integrar para não entregar”,

promoveu-se uma grande campanha de integração e exploração da Amazônia 41 . Para desenvolver

este programa, o governo construiu uma rede de estradas, ao longo das quais foram implantados

projetos de colonização pública e privada, onde seriam assentados os colonos deslocados de outros

Estados. O processo concebido pelos governos militares para integrar, ocupar e explorar a

Amazônia foi organizado a partir de programas, tais como o PIN (Programa de Integração

Nacional) 42 e o PROTERRA (Programa de Redistribuição de Terras e Estímulos à Agropecuária

do Norte e Nordeste). Além disso, foram criados os “pólos” de desenvolvimento, entre os quais o

POLOAMAZÔNIA, o POLOCENTRO 43 e o POLONOROESTE. Parte vital do ambicioso projeto

41 Os programas criados pelo governo federal para viabilizar a política de integração nacional da Amazônia foram discutidos em Cardoso e Müller (1977), Soares (2004), Moreno (1993), Oliveira (1997), Barrozo (2000), Souza (2004) e Guimarães Neto (2002). Sobre a política de ocupação de terras no Centro-Oeste brasileiro, sobretudo em Mato Grosso ver. Lenharo (1986). O autor discute pontos importantes sobre a especulação com a terra no Oeste brasileiro desde o Estado Novo até (com maior ênfase) a década de 1950. O autor aponta os critérios políticos que favoreceram a atribuição de terras aos detentores de capital, em detrimento de trabalhadores pobres.

42 PIN – Plano de Integração Nacional, previa a localização dos projetos de colonização oficial numa faixa de 100 quilômetros de cada lado das rodovias federais na Amazônia e Centro-Oeste. Criado durante o governo do presidente Médici (1969-74) pelo decreto lei nº 1.106 de junho de 1970, o PIN tinha entre outras finalidades, financiar o plano de obras de infra-estrutura nas áreas de atuação da SUDAM e da SUDENE e promover sua mais rápida integração à economia nacional. Além do plano de irrigação do Nordeste, a primeira etapa do PIN compreendia a construção de rodovias na Amazônia. Entre elas, a Transamazônica e a BR 163, ligando Cuiabá, em Mato Grosso à cidade de Santarém, no Pará. ( Ianni, 1979,Cardoso e Miller, 1997, Barrozo, 1997 Souza 2005 e Soares 2004).

43 O POLOCENTRO – Programa de Desenvolvimento dos Cerrados – foi criado no governo do general Geisel através do Decreto nº 75.320 de 29/01/1975 para transformar os cerrados em áreas de expansão de frentes comerciais a partir do Centro-Oeste e Oeste de Minas Gerais. Como meta, deveria incorporar cerca de 3,7 milhões de hectares

47

foi a construção das rodovias Transamazônica, Cuiabá – Santarém, Cuiabá – Porto Velho, Porto

Velho – Manaus, Manaus – Boa Vista. No Araguaia foi construída a BR 158, ligando Barra do

Garças a Marabá e Belém. Com o mesmo objetivo, foram criados a SUDAM (Superintendência do

Desenvolvimento

da

Amazônia) 44 ,

o

BASA

(Banco

da

Amazônia) 45

e

a

SUDECO

(Superintendência do Desenvolvimento do Centro – Oeste).

O governo militar após 1964, monta um grande aparato para atender ao grande capital

nacional e estrangeiro, pois a ocupação da Amazônia era considerada uma questão de segurança

nacional. Sem incentivos e uma infra-estrutura mínima, os empresários não investiriam nem

instalariam empresas na Amazônia.

A partir de 1968 ocorreram conflitos violentos pela posse da terra no nordeste de Mato

Grosso 46 . Visando “solucionar” esses conflitos e ao mesmo tempo controlar a ocupação dessas

terras, o governo volta os olhos para esse território, até então pouco habitado, intensificando a

ocupação através das empresas agropecuárias.

A construção da BR 158, interligando o Baixo Araguaia com o centro-sul do Brasil, e

com o sul do Pará, foi uma importante via de comunicação e acesso a este território. Até a abertura

da rodovia (1975) a principal via de transporte era o rio Araguaia, que na época da seca ficava

praticamente intransitável, dificultando o acesso dos moradores e migrantes.

ao setor produtivo nas áreas de agricultura, pecuária e florestas. Suas ações preconizavam apoio à infra-estrutura (armazenamento, estradas rurais, eletrificação e assistência técnica, preocupando-se ainda com pesquisas de sementes visando promover o plantio de soja no cerrado). ( Ianni, 1979,Cardoso e Miller, 1997, Barrozo, 1997 Souza 2005 e Soares 2004).

44 A Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), foi criada no governo de Castelo Branco, em 1966, mantida através de incentivos fiscais e financeiros especiais para atrair investidores privados, nacionais e internacionais. A SUDAM substituiu uma outra autarquia denominada Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), criada por Getúlio Vargas, em 1953, com objetivos semelhantes aos da SUDAM. ( Ianni, 1979,Cardoso e Miller, 1997, Barrozo, 1997 Souza 2005 e Soares, 2004).

45 O BASA – Banco de Desenvolvimento da Amazônia - foi criado em 1966, em substituição ao Banco de Crédito da Borracha, fundado em 1942, com o objetivo de garantir o suprimento de borracha natural aos aliados, durante a Segunda Guerra Mundial. ( Ianni, 1979,Cardoso e Miller, 1997, Barrozo, 1997 Souza 2005 e Soares 2004).

46 Em Santa Terezinha ( posseiros X Codeara), São Félix do Araguaia (posseiros e índios X Suiá Missú), Serra Nova Dourada ( posseiros X Bordon), Porto Alegre do Norte (posseiros X Fazenda Frenova) Novo Santo Antônio ( posseiros X o grupo Abdalla Zarzu).

48

A SUDAM era o órgão responsável pela aprovação dos grandes projetos empresariais

na Amazônia, promovendo um re-ordenamento fundiário. Segundo Ianni (1974, p.79), os objetivos

da SUDAM eram:

a) concentração de recursos em áreas selecionadas em função de seu potencial e populações

existentes;

b) adoção de política migratória, aproveitando excedentes populacionais internos e

contingentes selecionados externos;

c) incentivo e amparo à agricultura, à pecuária e a piscicultura como base de sustentação

das populações regionais;

d) ampliação conjunta dos recursos federais constantes da administração centralizada e

descentralizada, ao lado da contribuição do setor privado e de fontes externas;

e) adoção de intensiva política de estimulo fiscais, creditícios e outros para atrair

investimentos nacionais e estrangeiros e assegurar a elevação da taxa de re-inverção na

região, dos recursos nela gerados;

f) concentração da ação governamental nas tarefas de planejamento, pesquisa de recursos

naturais, implantação e expansão da infra-estrutura econômica e social, reservando para a iniciativa privada as atividades industriais, agrícolas, pecuárias, comerciais e de serviços básicos rentáveis.

Para por em prática os seus objetivos a SUDAM não respeitou as populações que

habitavam a Amazônia, sobretudo os posseiros e índios. No território do Araguaia as agropecuárias

com projetos aprovados pela SUDAM e com incentivos fiscais, colocaram em prática uma política

de expropriação de índios e posseiros 47 . D. Pedro Casaldáliga em um poema assim se refere à

SUDAM: “[

]

Maldito seja o latifúndio, exceto os olhos da vaca. Maldita para sempre a SUDAM,

47 Sobre os conflitos de terra no Araguaia, especificamente sobre o conflito entre posseiros e a empresa CODEARA ver ESTECI ( 1986), SOUZA (2002), entre outros.

49

a sua amante ilícita. Maldita para sempre, a CODEARA!” (Casaldáliga, apud, Escribano, 2000, p.

67) 48 .

A ação da SUDAM no Araguaia foi através das agropecuárias, fomentando a ocupação,

a exploração e o controle da Amazônia. Segundo Ianni (1979, p. 60):

A SUDAM passou a ser, desde sua criação em 1966, provavelmente o principal órgão do governo federal para a dinamização da economia amazonense. Além de coordenar e supervisionar (e mesmo elaborar) programas e planos de outros órgãos federais atuando na região, a SUDAM criou incentivos fiscais e financeiros especiais para atrair investidores privados, nacionais e estrangeiros. Foi a partir da criação da SUDAM que começaram a ganhar dinamismo os

empreendimentos dos setores agrícola, pecuários, industriais e de mineração.

A partir desse conjunto de políticas, mantidas à custa de subsídios governamentais, os

governos

militares

desenvolveram

seu

projeto

de

ocupação

e

exploração

da

Amazônia,

especialmente

voltado

à

instalação

nesse

território

de

grandes

empresas

agropecuárias

e

colonizadoras com capital nacional e estrangeiro. Com base neste conjunto de políticas, o governo

federal concretizou uma aliança com o capital privado, numa clara preferência pelo grande capital,

deixando de fora dessas políticas uma grande parcela da população que vivia na Amazônia,

sobretudo os índios, posseiros e ribeirinhos. Esta população será desagregada e des-territorializada,

para

que

outros

sejam

re-territorializados.

Este

processo

instituiu

uma

prática

de

expropriação/expulsão e exploração das populações tradicionais no espaço agrário brasileiro.

48 Companhia do Desenvolvimento do Araguaia, na época um latifúndio com mais de 190.000 hectares de terra, esteve em conflito com os posseiros de Santa Terezinha de 1968 a 1975. Sobre este Conflito ver o trabalho de ESTERCI, Neide. Conflitos no Araguaia: Peões e Posseiros Contra a Grande Empresa. Petrópolis, Vozes, 1987, SOUZA, Maria Aparecida Martins, A Luta pela permanência na terra: Resistência dos posseiros de Santa Terezinha ( década de 1970). Monografia de graduação, Luciara- UNEMAT, 2002. Relatórios, e documentos do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia.

50

No que se refere ao Estado de Mato Grosso, convém destacar que o Estado foi

privilegiado com recursos de quase todos os programas do Governo Federal para a Amazônia

(Ferreira, 1986). Nesse contexto econômico-social de ocupação e exploração da Amazônia um

grande número de empresas agropecuárias do Centro Sul do Brasil se instalou no Araguaia,

atraídas pelas terras baratas e pelos vantajosos incentivos fiscais. Esta política modificou as práticas

sociais dos grupos que ocupavam esse território. Como indica Soares (2004, p. 100), “[

empresas

nacionais

e

internacionais

instituíram

novas

práticas

de

domínio

do

]

Essas

espaço,

desencadeando uma série de conflitos nestes antigos povoados. As ações para expulsar os posseiros

e índios de seu território foram as mais diversas”.

Entre os anos de 1966 e 1977, a SUDAM concedeu incentivos fiscais a centenas de

empresas, aprovando 549 projetos de empresas agropecuárias. A maior parte dos incentivos

concedidos foi destinada às agropecuárias. Um total de 335 projetos que tiveram incentivos

liberados, dos quais foram aprovados 205 projetos no estado de Mato Grosso. Essas empresas são

predominantemente do Centro-Sul do país.

51

Mapa 02 com projetos agropecuários com incentivos da SUDAM

Mapa 02 com projetos agropecuários com incentivos da SUDAM FONTE – SUDAM In. GARRIDO, Irene Filha,

FONTE – SUDAM In. GARRIDO, Irene Filha, 1976.

Neste mapa podemos visualizar o grande número de projetos instalados em Mato

Grosso, destacando-se o Araguaia, sendo a maioria de agropecuárias.

Com a chegada dessas

empresas há uma reordenação do espaço, onde eclodiram conflitos pela posse da terra.

A especulação da terra passou a ser um meio para os “grileiros” 49 agirem, sempre

abrigados por governos estaduais que não tomaram nenhuma atitude, no sentido de coibir ou

controlar a grilagem.

Ao contrário, contribuíram para que essas práticas se fortalecessem,

sobretudo, em/nas terras tradicionalmente ocupadas por índios e posseiros (Oliveira, 1997).

49 Os grileiros ocupam uma área com o objetivo de vender para ganhar dinheiro. Normalmente não moram nela. Alguns põem um morador na terra ocupada para dar a impressão de que é uma posse. Os grileiros também são identificados como falsificadores de documentos de terra.

52

O Estado acelerou o processo de apropriação privada da terra, principalmente a partir

da década de 1970, concedendo, através da SUDAM, os incentivos fiscais largamente utilizados

por grandes empresas e latifundiários, os quais deflagraram uma verdadeira corrida para ocupar

terras, sobretudo na Amazônia. Em conseqüência da ânsia governamental de desenvolvimento da

Amazônia, a chamada política de integração e desenvolvimento, vastas áreas de terra foram

vendidas por preços baixos a grandes empresas nacionais e estrangeiras.

A análise do processo de alienação de terras públicas, a partir da década de 1960, é

indispensável para entendermos a existência das atuais grandes propriedades no Araguaia. Trata-se

do re-ordenamento do espaço agrário e da produção de uma nova dinâmica demográfica induzida,

desterritorializando populações tradicionais e constituindo novas territorialidades, como sucedeu

com os peões.

A alienação de terras públicas, em Mato Grosso muitas vezes, fazia-se através de

compras por procuração ou em nome de diferentes membros da mesma família. Estas práticas

envolveram procuradores, imobiliárias e cartórios na fabricação de documentos falsos. (Moreno,

2007).

No Araguaia o Cartório de Barra do Garças de propriedade do Senhor Valdon Varjão

era o responsável pela emissão de escrituras das terras. Muitas dessas fazendas estavam a mais de

700 quilômetros de distância do cartório, facilitando a corrupção na titulação das terras. Como os

cartórios estavam distantes dos locais onde as terras eram negociadas, ficava praticamente

impossível saber se a área que estava sendo vendida era a área descrita na escritura.

Foi o que

parece ter ocorrido com a Fazenda CODEARA, localizada no município de Santa Terezinha, na

divisa com o Pará. O Estado foi conivente com a ilegalidade e os interesses do grande capital.

53

Funcionários do Departamento de Terras e Colonização (DTC) aceitando subornos; governadores

utilizando as terras públicas como moeda de troca política. (Moreno, 2007).

O Governo de Mato Grosso emitiu os títulos definitivos de áreas sem que estas

fossem localizadas, medidas e demarcadas contrariando todas as normas legais. Muitos desses

proprietários nem sabiam onde se localizavam as terras, das quais receberam o título. A

corrupção fragilizou da Lei de Alienação de Terras Públicas de Mato Grosso (Lei 3.922/77). O

agrimensor ou engenheiro que fazia a demarcação e medição da área deveriam ser pagos pelo

comprador. Obviamente estes atendiam ao interesse do comprador, demarcando uma área

superior à comprada. Segundo Moreno (2007), a corrupção e o abuso de poder eram constantes.

Em geral os documentos foram elaborados no cartório, sem sair a campo. Estas

práticas fraudulentas eram frequentes, sendo denunciadas por vários governadores e diretores do

Departamento de Terras e Colonização (DTC), como uma das causas da grande desordem que se

instalou nos cadastros de terras do Estado, mas nenhum deles agiu no sentido de coibir essa

prática.

O fato é que centenas de processos foram formalizados irregularmente, e milhares de hectares de terras foram destinados de forma indiscriminada, sem a observância dos dispositivos legais, que pregam a alienação para fins de interesse coletivo, objetivando o interesse coletivo do estado. A maior venda executado pelo INTERMAT, foi nessas circunstâncias, sem a existência de qualquer projeto que pudesse revelar um programa mais amplo de política fundiária para o ordenamento territorial do estado (Moreno, 2007, p. 258).

Segundo Moreno (2007), foram constantes as práticas de distribuição de terras pelas

instituições públicas e as políticas dos governadores que favoreciam o processo de alienação de

terras públicas à iniciativa privada.

54

No Araguaia, entre as décadas de 1960 a 1980 foram instalados vários projetos

agropecuários financiados pelo Governo Federal. Foi neste período que um grande contingente de

trabalhadores foram aliciados pelos gatos e fazendeiros para trabalharem na abertura das

fazendas incentivadas pela SUDAM.

As agropecuárias com a maior área (anexo a relação das agropecuárias situadas no

Araguaia) estão localizadas no nordeste de Mato Grosso no Baixo Araguaia: a CODEARA, a Suiá

Missú 50 e outras, que são constantemente denunciadas pelos peões à Prelazia de São Félix do

Araguaia pela exploração e violência a que submetiam os trabalhadores (peões). Estas denúncias

foram

constatadas

em

centenas

de

cartas/relatórios

no

Arquivo

da

Prelazia.

Destaca-se

a

CODEARA, que na década de 1970, levou centenas de trabalhadores para a derrubada da floresta,

e expulsou os antigos moradores de Santa Terezinha da maior parte das terras.

Abria-se,

assim,

um

vasto

campo

para

expansão

do

capitalismo

na

Amazônia,

transformando os usos do espaço e inaugurando novas, conflituosas e violentas relações sociais de

produção nesse território. Era objetivo do governo e dos empresários, ocupar e produzir nessas

terras de “ninguém”. Para desenvolver seus projetos de ocupação e expansão na Amazônia, as

empresas valiam-se da violência do “jagunço”, da super exploração do trabalho e do “trabalho

escravo”, (a exploração dos trabalhadores será discutida no IV capítulo). Ainda hoje, dezenas de

trabalhadores, em regime de trabalho análogo ao de escravo são encontrados, com relativa

freqüência, em empresas agropecuárias no Araguaia, no nordeste de Mato Grosso.

50 A Suiá Missú foi uma grande fazenda (695.843ha.), que pertencia na década de 1970 ao Grupo Ometto e Ariosto da Riva. Na sua expansão expropriou e entrou em conflito com posseiros e índios da etnia Xavante. Pois esta fazenda foi instalada dentro de terras do povo Xavante que foram deportados para o Parque do Xingu. Nesta fazenda foram feitas várias denúncias de trabalho escravo. Na década de 1990, esta entrou em decadência e inicia-se um processo junto ao Governo Federal para devolução de parte das terras indígenas dos Xavantes, o que está esperando uma decisão judicial para a desocupação da área e retornos dos xavantes. Sobre instalação e os conflitos com os Xavantes ver o trabalho de Lima, Terezinha Gomes. Suiá Missú X Sociedade Xavante: a deportação dos Xavantes da aldeia Marâiwatsede – Baixo Araguaia. Monografia de conclusão do Curso de História, UNEMAT, 2002.

55

As empresas prometem a esses trabalhadores boas condições de trabalho e bons

salários, ou empreita. Para os que estão em situação de pobreza, as propostas parecem melhores do

que a situação no local de origem.

Chegando ao local de trabalho, no interior da mata, os trabalhadores têm que enfrentar

um ambiente desconhecido, sempre sob o controle armado dos gatos e seus auxiliares, sendo

proibidos de sair do acampamento. Vivem em barracos (de lona plástica ou de folhas de palmeira)

sem pagamento, mal alimentados, sem assistência médica e submetidos ao trabalho duro, do nascer

ao pôr-do-sol. As promessas morrem na porteira da fazenda.

Esta forma de exploração passou a ser considerada como “trabalho escravo” ou

“escravidão branca”, para se diferenciar da escravização dos africanos, embora grande parte do

contingente de peões fosse formada por negros e mestiços. Atualmente, esta forma de trabalho é

chamada de escravidão temporária, porque dura enquanto durar a empreitada na mata. Entretanto,

em muitos casos, a situação se prolonga, porque o peão é retido pelo gato, por conta de supostas

dívidas. Por isso, perde-se também a ilusão do retorno à terra natal. Mesmo aqueles que conseguem

fazer o caminho de volta estão com a saúde debilitada e sem dinheiro. Sem contar que muitos

desses peões chegam a perder a própria vida nos ambientes violentos em que são isolados. (Ver

Capítulo IV).

É importante ressaltar que, nas áreas de ocupação recente na Amazônia a empresa

agropecuária que, supostamente, representaria a modernidade utiliza-se de uma forma arcaica de

trabalho (a peonagem), para incrementar o processo de acumulação de capital. Entretanto,

estabelece-se no interior destas fazendas um tipo de relação social de produção, onde o trabalhador,

peão, não vende a sua força de trabalho, mas ele mesmo que é “comprado”, tornando-se uma

56

mercadoria (Esterci, 1996). Estas pessoas são aliciadas nas regiões pobres, rurais e urbanas, nas

pensões e na periferia das cidades.

Essa prática no estado de Mato Grosso se reporta ao inicio do século XX quando a

Companhia Matte Laranjeira, foi denunciada por manter centenas de trabalhadores, em regime de

escravidão no corte e processamento do mate. Essa empresa utilizou da violência física e o

elemento da dívida para manter os ervateiros atrelados a ela, e em vários momentos contava com o

apoio do poder público para exercer seu domínio sobre essa população 51 .

Outros mecanismos mais diretos, como a violência física ou castigos disciplinares, para quem tentasse fugir, somavam-se aos já apontados. Os mais significativos entres os instrumentos de coerção física eram os chamados “comitiveiros”, grupo de homens armados e mantidos pela Cia. para “caçar” os mineiros e peões que fugissem do local de produção com débito na “conta”. Os fugitivos apanhados com vida aplicavam-se surras com chicote (Arruda, 1997, p. 106).

Na abertura das agropecuárias no Araguaia os fazendeiros e gatos utilizam várias

formas de aliciamento, inclusive valendo-se de meios legais para arregimentar a mão-de-obra.

Assim, embora em alguns casos assinem a “carteira” do trabalhador e lhe ofereçam alojamento,

como determina a Lei, valem-se do antigo expediente da dívida para manterem os peões no

trabalho forçado e degradante, transformando-os, na prática, em escravos. A dívida, agora, não é

mais acumulada nos barracões das fazendas, sendo transferida para os supermercados da cidade,

que mantêm acordo com os fazendeiros, praticamente aprisionando o trabalhador até que ele

consiga pagar a dívida sempre crescente.

51 Sobre a atuação dessa empresa e a organização dos trabalhadores no processo de trabalho na

mate, ver o trabalho de ARRUDA, Gilmar. Frutos da terra: os trabalhadores da Matte Laranjeira. Londrina, Ed. Da

UEL, 1997.

extração da erva

57

Capítulo II

Prelazia de São Félix do Araguaia: Uma Igreja em defesa da Vida

Em certo sentido, a palavra romantismo significa também viver a história, ter memória forte, ter capacidade de sentir de entusiasmar-se, de ser utópico. Seria bom se houvesse um pouco mais de romantismo hoje, nessa pós-modernidade pragmatista, imediatista. Seria bom. Sem um certo romantismo, a vida não tem

beleza nem romantismo (Casaldáliga, 2000).

58

2.1. Discurso e prática: a opção pelos pobres

58 2.1 . Discurso e prática : a opção pelos pobres Neste capítulo apresentamos a Prelazia

Neste capítulo apresentamos a Prelazia de São Félix do Araguaia, enfocando as ações

voltadas para no combate ao trabalho escravo contemporâneo e às diversas formas de exploração

dos trabalhadores das agropecuárias, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980.

A Prelazia de São Félix do Araguaia foi criada em 1970 52 , abrangendo uma área de

aproximadamente 150.000 km². Está localizada no nordeste do estado de Mato Grosso. Na época

de sua criação apenas existiam dois municípios no Nordeste de Mato Grosso, Luciara e Barra do

Garças. Atualmente fazem parte da Prelazia os seguintes municípios: Alto da Boa Vista, Bom

Jesus do Araguaia, Confresa, Canabrava do Norte, Luciara, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do

Norte, Querência, Ribeirão Cascalheira, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Santa Cruz

do Xingu, Santa Terezinha e Vila Rica.

Naquele

momento

as

instituições

governamentais

ali

instaladas

atendiam

principalmente ao interesse do grande capital, deixando a população local desprotegida da

assistência básica à saúde, educação e acesso à justiça. Como destacou Casaldáliga (1971, p.31):

Os moradores da região, em condições de pura sobrevivência, submetidos às

provas do clima tropical e desatendidos por parte das autoridades e dos

organismos responsáveis, vivem numa falta habitual de assistência básica. (

) a

saúde é um trágico problema em toda a região. Um problema sem solução para

80% dos moradores.

52 Através do decreto “Quo commodius”, assinado por Paulo VI, aos 13 de março de 1970.

59

A Igreja Católica sediada em São Félix do Araguaia, tendo à frente o bispo D. Pedro

Casaldáliga organizou as equipes de pastoral e passou a oferecer um pouco de assistência básica

aos índios, posseiros e peões que estavam sendo expropriados de suas terras e explorados pelas

grandes empresas que estavam se instalando naquele território.

Para amenizar os problemas de saúde a Prelazia organizou equipes em São Félix e

Santa Terezinha, construindo um ambulatório que atendia gratuitamente a população. Para juntar-

se a esta equipe veio uma enfermeira da França, Srª. Suzane Robin, que trabalhou por vários anos

em Santa Terezinha. A Prelazia também organizou a assistência à educação, construindo em São

Félix do Araguaia o GEA – Ginásio Estadual do Araguaia. Esta Instituição foi construída com

recursos da Prelazia. Alguns anos depois a Escola foi repassada para a Secretaria de Educação do

Estado de Mato Grosso. Dessa forma a Igreja Católica passa a assumir ações que o Estado não

assumia junto à população. Nesse mesmo período, D. Pedro passa a defender os peões que estão

chegando de diversos estados contra a exploração e violência que sofriam nas fazendas do

Araguaia e Xingu. (Ver Mapa Nº 02).

60

Mapa 03 - Território da Prelazia em 1970

60 Mapa 03 - Território da Prelazia em 1970 Fonte: Arquivo da Prelazia de São Félix

Fonte: Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia – jornal Alvorada nº. 01/1970

Mapa 04 – Território atual da Prelazia de São Félix do Araguaia

nº. 01/1970 Mapa 04 – Território atual da Prelazia de São Félix do Araguaia Fonte: Cartografia

Fonte: Cartografia de Leodete Miranda

61

Os padres Manoel e Pedro Casaldáliga chegaram ao Araguaia em 1968, antes da

criação da Prelazia de São Félix do Araguaia, para organizar as bases da Igreja de São Félix. O

Padre Francisco Jentel 53 , um francês que veio em dezembro de 1954 para trabalhar com o povo

Tapirapé juntamente com as irmãzinhas da Congregação de Charles de Foucaud 54 , que haviam

chegado no inicio do ano de 1954.

É preciso lembrar que no período da organização da Prelazia de São Félix do

Araguaia, o país passava por um regime ditatorial, com um controle rigoroso pelos militares,

mesmo nas mais longínquas áreas do país. A Prelazia nos anos de 1972 a 75 passou por um

controle e vigilância sistemática promovida pelos militares, que muitas vezes ocuparam a casa do

bispo e dos agentes de pastoral. Assim como invadia qualquer instituição ou reunião que fosse

suspeita.

Quando Casaldáliga foi sagrado bispo, em 1971 ele organizou as equipes com base

nos princípios de solidariedade, e co-responsabilidade que se apóiam e organizam na distribuição

das funções e responsabilidades entre os componentes das equipes. Essas equipes eram formadas

por pessoas de diversas regiões do país e do exterior, sendo constituídas por professores,

enfermeiros, padres, irmãs e leigos.

No momento da sagração episcopal, D. Pedro Casaldáliga 55 , em um gesto pessoal, fez

uma opção de estar ao lado dos pobres, pondo a Igreja da Prelazia de São Félix do Araguaia na

53 Sobre Pe. Francisco Jentel ver: DUTERTRE, Alain; CASALDÁLIGA, Pedro; BALDUINO, Tomás. Francisco Jentel defensor do povo do Araguaia. São Paulo. Edições Paulinas, 1986, REIS, Ana Amélia Teixeira. O Pe. Jentel narrado nas vozes da lembrança: história resistência pela memória. Monografia de conclusão de curso – UNEMAT,

2007.

54 Sobre as Irmãzinhas de Jesus e o povo Tapirapé ver o trabalho de conclusão de curso de NOGUEIRA, Margarete. Uma luz para o povo Tapirapé: a história de vida das Irmãzinhas de Jesus que vivem com o povo Tapirapé desde 1952. UNEMAT, 2007 e O Renascer do Povo Tapirapé: Diário das Irmãzinhas de Jesus de Charles de Foucaud. São Paulo, Ed. Salesiana, 2002. 55 Casaldáliga renuncia a toda pompa eclesiástica. Demonstrando, que seria um bispo diferente. Decidiu não utilizar nem mitra, nem báculo, nem anel. Dizia em seu diário: “não quero dar lição a ninguém”. Simplesmente quero ser consequente.

62

luta pelos direitos dos pobres daquele território, como relata no trecho da carta Pastoral que

publicou na sua posse:

Olhamos com bastante amor a terra e os homens da Prelazia. Nada dessa terra ou desses homens nos é indiferente. Denunciamos fatos vividos e documentados. Quem achar infantil, distorcida, imprudente, agressiva, dramatizante, publicitária, a nossa atitude, entre na sua consciência e leia com responsabilidade o Evangelho; venha morar aqui, neste sertão, três anos, com um mínimo de sensibilidade humana e de responsabilidade pastoral.

(Casaldáliga 1971, p. 42).

É importante destacar que no seu convite/lembrança da cerimônia de sagração é

evidenciada uma declaração de escolha por uma Igreja Católica dos “pobres de Deus” 56 como

definiu Casaldáliga. Ao redigir este documento Casaldáliga demonstrava sua opção pastoral:

Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo, o sol e o luar, a chuva e o sereno, o olhar dos pobres com quem caminhas e olhar glorioso de Cristo, o senhor. Teu báculo será a verdade do evangelho e a confiança de teu povo em ti. Teu anel será a fidelidade da Nova Aliança do Deus libertador e a fidelidade ao povo desta terra. Não terás outro escudo que a força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus, nem calçarás outras luvas, a originalidade do convite, que o serviço do amor. 57

A cerimônia de sagração foi presidida pelo arcebispo de Goiânia, Dom Fernando

Gomes dos Santos. Este bispo havia protegido muitas vezes os religiosos mais progressistas da

Igreja Católica. Casaldáliga o chamava afetuosamente de “padrinho”. Também participaram

outros bispos, como Tomás Balduíno, da diocese de Goiás, um dos idealizadores da criação e

organização da CPT (Comissão Pastoral da Terra), e um grande amigo de Casaldáliga e

companheiro das “causas dos pobres”.

56 Esta é uma expressão amplamente utilizada por Casaldáliga em documentos e entrevistas.

57 Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia, 1971.

63

Referindo-se à Carta Pastoral intitulada “Uma Igreja na Amazônia em Conflito com o

Latifúndio e a Marginalização Social”, D. Tomás Balduíno destacou 58 que era a primeira vez que

alguém se atrevia a fazer uma denúncia pública e documentada contra a situação de exploração e

violência na Amazônia. E apesar da censura imposta pelo regime militar, o documento chegou a

todo país e exterior.

D. Pedro Casaldáliga foi uma das primeiras pessoas que organizou uma denúncia

contundente e irradiadora, pois apresentava documentos relatando a situação de expropriação e

exploração de índios, posseiros e peões e se posicionou contra a política fundiária do governo

brasileiro na Amazônia. Este documento distribuído no ato de sua sagração ganhou repercussão

mundial 59 . Tornar púbica suas ações foi uma estratégia que a Prelazia de São Félix do Araguaia

utilizou para enfrentar o regime militar e os grandes proprietários de terras que se instalaram no

Araguaia no final da década de 1960 e ao longo da década de 1970.

O Jornal Alvorada é um veículo de comunicação que a Prelazia de São Félix do

Araguaia mantém desde 1970. Este jornal circula dentro da Prelazia, mas também circula em

outras

partes

do

país

e

no

exterior.

O

jornal

“Alvorada”

veicula

diversos

tipos

de

informações/denúncias e tem sido um importante veículo de informação, divulgação e denúncia

da violência a que é submetida a população do Araguaia 60 . Em um fragmento do jornal podemos

verificar como é o teor dessas noticias/denúncias:

58 Cf. de documentos do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia

59 Cf. de documentos do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia

60 Sobre o Jornal Alvorada ver a pesquisa que Marluce Scaloppe esta desenvolvendo para a Dissertação de mestrado, no Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal de Mato Grosso.

64

64 Fonte – Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia - Jornal Alvorada Agosto de

Fonte – Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia - Jornal Alvorada Agosto de 1976, p. 3.

Casaldáliga ao fazer a opção de defender centenas de sertanejos, peões e índios que

viviam

nas

mais

precárias

condições

naquele

sertão,

entra

em

choque

com

os

grandes

proprietários que vêem nessa ação de defender os pobres uma ameaça aos seus planos de

ocupação e exploração de vastas áreas no Araguaia. Pois diante da violência com que era tratado

o ser humano como dizia ele: “nessa terra é fácil nascer e morrer, difícil é viver”. Nesse quadro,

ele teve que escolher entre os dois lados (de um lado peões, posseiros e índios e de outro o grande

latifúndio que explorava e violentava parte da população) como assegura:

Olha, em áreas conflitivas é muito difícil, por um lado, a demarcação dos campos e, por outro, a equanimidade, pois tudo é quente. Você não pode andar com meias tintas. É preciso deixar claro de que lado você está. Então nós éramos maldosamente chamados de comunistas, terroristas, diziam que estávamos

65

envolvidos com a guerrilha no Pará. Advertiam a quem chegava: cuidado com a Prelazia, cuidado com o bispo. Tudo porque, na época, se não organizássemos nós, não organizaria ninguém. Isso fez com que o próprio povo tivesse de optar:

com a Prelazia ou contra a Prelazia 61 .

Na década de 1970, a SUDAM aprovou sessenta e seis (66) projetos agropecuários no

município de Barra do Garças e Luciara ( Casaldáliga, 1970) 62 . Na época a fazenda Suiá Missú,

um dos maiores latifúndios do país com 695.843 ha. A fazenda estava no município de Barra do

Garças, porém a sua

a sede estava

localizada nas proximidades de São Félix do Araguaia. Na

Suiá Missú chegaram a trabalhar centenas

depoimentos.

de peões

como relatam os trabalhadores nos

Ao ser convidado para uma festa na fazenda Suiá Missú, Casaldáliga constatou a

situação de degradação em que se encontravam centenas de peões nessa fazenda. Esse episódio

aconteceu em 1969. Essa foi uma das poucas vezes que Casaldáliga esteve com os grandes

proprietários de terra do Araguaia. Ele relata em vários documentos e entrevistas trecho desse

episódio:

Cento e sessenta pessoas empanturrando-se com cinco bois assados, cabritos, sobremesas e bebendo. Uma palhaçada! Vinte aviões na pista da fazenda, a poucos passos da mata, em contraste com a mais primitiva civilização. Nessas circunstâncias, é difícil não sair logo gritando irado. Tanta fartura diante de tanta miséria! Foi um dos dias em que menos comi. Aquela tarde fui visitar a pensão dos peões, chegados como náufragos em busca de trabalho: havia uns 12 doentes, entre eles um que

2007.

www.diariodecuiaba.com.br. 62 Ver os trabalhos sobre a ocupação da região do Araguaia de ESTERCI, Neide. Conflito no Araguaia: Peões e posseiros contra o grande latifúndio. Petrópolis, Vozes, 1987. SOARES, Luis Antônio Barbosa Soares. Trilhas e Caminhos: Povoamento não- indígena no Vale do Araguaia – parte nordeste do estado de Mato Grosso, na primeira metade do séc. XX Dissertação de Mestrado, UFMT, 2004.

61

Trecho

da

entrevista

concedida

ao

diário

de

Cuiabá

em

23/02/2003,

acessado

em

junho

de

66

tentara suicidar-se. Verdadeiramente o contraste era duro (Casaldáliga,

1971).

Sua indignação é expressa nos seus discursos e sermões. Para ele, “[

] Foi uma opção

terrível, que violentava nosso temperamento, a vontade natural de estar bem com todo mundo, a

formação de mansidão evangélica recebida, a velha norma pastoral de não apagar a mexa que

ainda fumega”. (Casaldáliga, 2000, apud, Escribano, 2000, p. 18).

A decisão de ficar do lado dos pobres deu origem a muitos problemas, conflitos e lhe

criou inimigos considerados “poderosos”, mas também o ajudou a encontrar amigos para toda a

vida, os “seus pobres do evangelho” como ele considera:

Temos dito muitas vezes que, aqui, ou você está de um lado, ou do outro.

Tenho dito muitas vezes que o missionário que uma vez por semana vai tomar

] não é que eu

não possa ir um dia tomar café na casa de um rico, mas, se vou lá toda semana e não acontece nada, não digo nada, não dou uma sacudida naquela casa, naquela consciência, já me vendi já neguei minha opção pelos pobres. (Idem, p. 19).

café na casa de um rico não pode fazer opção pelos pobres, [

Viver nesse mundo de injustiças, longe de tudo e de todos como destaca Casaldáliga,

é como se a vida das pessoas não tivesse valor. “[

]

aqui se morre e se mata mais do que se vive.

Morrer ou matar é mais fácil aqui, e está mais ao alcance de todos, do que viver. “Aqui manda o

38” 63 .

Quando Casaldáliga começou a denunciar as injustiças cometidas pelos grandes

proprietários de terras começou a ganhar a confiança dos peões, dos camponeses e dos índios.

Então os representantes do governo militar da época, que estavam em geral, do lado de quem

detinha o poder econômico, começaram a vigiar mais proximamente as ações da Prelazia de São

Félix do Araguaia, e de modo particular, o bispo e os seus colaboradores.

63 Cf. documentos do Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia.

67

As ações da Prelazia de São Félix do Araguaia na luta contra a exploração e violência

a que eram submetidos os peões foram diversas, como: denunciar as autoridades, esconder os

peões,

protegendo

esses

dos

gatos

nas

casas

das

equipes

e

do

bispo,

quando

doentes

encaminhando-os ao único hospital público nesse território do Araguaia, que ficava na Ilha do

Bananal 64 . Ações como estas foram realizadas dezenas de vezes, havendo registros das mesmas

no arquivo da Prelazia. Em um documento Casaldáliga descreve a tentativa de não deixar morrer

um peão:

descreve a tentativa de não deixar morrer um peão : Fonte – Arquivo da Prelazia de

Fonte – Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia

A Prelazia de São Félix do Araguaia, por meio do bispo ou de seus agentes de pastoral

envolveu-se na defesa das pessoas pobres que estavam no Araguaia e os que iam chegando entre

64 Um hospital construído na década de 1950 para atender a população indígena que moravam na Ilha do Bananal ficava localizado na aldeia Santa Izabel, a poucos quilômetros de São Félix do Araguaia na outra margem do Rio Araguaia.

68

eles os peões. Estes sofreram exploração e violência, pelos fazendeiros e gatos. Casaldáliga toma

a frente e os defende, o que é evidenciado nos escritos/denúncias em diversas entrevistas e

discursos. D. Pedro utiliza os meios de comunicação para denunciar a prática de trabalho escravo

no Araguaia.

para denunciar a prática de trabalho escravo no Araguaia. Fonte: Arquivo da Prelazia de São Félix

Fonte: Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia – Jornal Alvorada ano 25 nº. 187, Julho/Agosto- 1995.

A Igreja Católica no Araguaia abrangia um território relativamente grande em

extensão, porém com poucos habitantes, com baixa densidade demográfica, se comparada a

outras áreas do país. No território da Prelazia de São Félix do Araguaia encontram-se os povos

69

indígenas: Karajá, Tapirapé, Xavante, Kayapó e outras etnias no Parque Nacional do Xingu 65 .

Neste território também se instalaram vários dos maiores latifúndios do estado de Mato Grosso

que passaram a ocupar a área no final da década de 1960 e inicio de 1970. Entre estes se

destacam a Suiá Missú (695,843 ha.), e a CODEARA (196,947 ha.) e outras empresas 66 .

A Prelazia de São Félix do Araguaia se constitui pautada em um novo modo de ser

Igreja Católica no Brasil, atendendo aos pobres, agindo contra os interesses do grande capital.

Uma Igreja que, segundo Fernandez (1994) nasce na “periferia”, mas que é revolucionária e

profética:

A Igreja do Araguaia, enquanto figura associada à “periferia” é vista como uma Igreja “profética” que tem uma presença decisiva na vida da Igreja contemporânea brasileira e exerce uma grande força no imaginário das pessoas

e das lideranças que participaram diretamente da sua constituição. (Fernandez,

1994, p. 9)

Na sua organização a Prelazia contou com a participação de uma equipe constituída de

leigos, jovens, que eram universitários ou estavam terminando o colegial, quase todos originários

do sul e sudeste do país. Alguns haviam participado de movimentos contrários ao regime militar e queriam

de alguma forma combatê-lo. Uma Igreja na Amazônia e com um espírito revolucionário seria o

cenário ideal para a atuação, sobretudo de jovens que não aceitavam as imposições do regime militar.

Entre os muitos jovens que foram para a Prelazia de São Felix na década de 1970,

estava Dagmar Aparecida Teodoro Gatti. Era uma jovem que se casou com um jovem italiano,

que havia trabalhado na construção da transamazônica. O casal saiu de São Paulo em 1976

65 O Parque Nacional do foi criado em 1961, através do Decreto nº. 50.455, com uma área de aproximadamente 22.000 quilômetros quadrados. Sobre o processo de construção desse parque ver o trabalho de SOARES, Lima. Luiz Antônio. Trilhas e Caminhos: Povoamento não- indígena no Vale do Araguaia – parte nordeste do estado de Mato Grosso, na primeira metade do séc. XX. PPG-História , Instituto de Ciências Humanas e Sociais, UFMT, 2004.

66 Anexo segue uma lista com as agropecuárias que se instalaram no Araguaia com financiamento/incentivos fiscais do Governo Federal.

70

(Franca) para trabalhar na Prelazia. Ela trabalhou como professora, e auxiliar da Irmã Irene

Franceschini na organização do Arquivo dessa instituição. A Srª. Dagmar permanece até hoje no

Araguaia. Atualmente ela ainda participa das atividades desenvolvidas pela Prelazia. Ela também

se engajou na política partidária no município de Santa Terezinha, como sucedeu com vários

outros jovens que foram trabalhar na Prelazia, os quais tiveram uma atuação importante no

período de redemocratização do país.

A Prelazia de São Félix do Araguaia propunha uma forma diferente de ser Igreja

Católica naquele momento, vivenciando as causas do povo. Como diz Casaldáliga “minhas

causas valem mais do que a minha vida”. Esta postura era assumida, no inicio, por todos os

membros das equipes de pastoral. Procurando, cada qual, entregar-se ao desafio em cada atitude.

Este tipo de Igreja Católica foi alicerçada nas diretrizes da Conferência Episcopal de

Medellín ( 1968) e Puebla (1979), dentro de uma nova configuração de Igreja Católica na

América Latina. Um marco de ruptura com a Igreja tradicional. No Brasil parte dessa Igreja

renovada institui uma pastoral voltada para a Amazônia 67 , a partir das orientações da Conferência

Episcopal de Medellín.

A partir de 1968, com as Conferências Episcopais de Medellín e Puebla, as mais

importantes reuniões da Igreja Católica na America Latina, membros dessa Instituição foram

convocados a colocar em prática o conceito de Povo de Deus discutido no Concilio Vaticano II 68 .

Nessas conferências a Igreja Católica fez uma opção pelos pobres como um modo de intervir na

sociedade para superar os problemas sociais em que viviam grande parte da população na

67 Cf. Estudo realizado pelo CEAS ( Centro de Estudos e Ação Social) – Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia – Pasta B- 7-1-23.

68 O Concílio Vaticano II foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1962 e foi concluído no pontificado do Papa Paulo VI em 1965. Foi idealizado por João XXIII para realizar o que ele chamou de aggiornamento (atualização) da Igreja Católica no mundo. Para mais informação sobre esse assunto ver: BRAÚNA, Guilherme (org). A Igreja do Vaticano II. Petrópolis, Vozes, 1965.

71

America Latina. A Prelazia de São Félix do Araguaia nasce dentro de uma nova orientação da

Igreja Católica. Como também o bispo da Prelazia vem da Europa no “[

]

ano (1968)

revolucionário na Europa do proibido proibir, dizia a juventude”. (Casaldáliga, 2000, apud,

Escribano, 2000, p. 20). Ele mesmo passara pela experiência de ter vivido na Espanha durante

guerra civil. A Prelazia de São Félix do Araguaia nasceu com o espírito revolucionário em seus

princípios e experiências pessoais:

Vivia-se na Espanha, um tempo de revolução e de confronto. Em casa, éramos camponeses e católicos, e isso na Catalunha daquela época queria dizer que éramos de direita. Falava-se em casa, de Gil Robles e de La Ceda. Os Casaldáliga eram gente da ordem e da tradição, mas não eram ricos. Uma das frases que meu pai mais repetia em casa e que me parece que ainda agora escuto é: “nós somos pobres”. Nunca chegamos a passar fome, mas em casa não sobrava nada. Em casa, respirava-se um certo menosprezo em relação aos ricos, o dinheiro mal ganho, a exibição. Já quando era pequeno, o luxo me parecia uma ofensa. Os padres e as freiras eram perseguidos. Todos viviam permanentemente num clima de perseguição. As persianas de casa sempre abaixadas, tínhamos de falar em voz baixa. A escola do povoado, mista e atéia, era dirigida por uma professora socialista que minha mãe sempre chamava depreciativamente de “a porca”. Tivemos de acostumar-nos ao segredo, éramos muito jovens, mas aprendemos a calar quando vinham os milicianos perguntando pelo esconderijo de um padre ou de freira. Nós não tivemos adolescência. (Casaldáliga, apud, Escribano, 2000, p. 53).

Casaldáliga procura manter a Prelazia de São Félix do Araguaia a serviço dos pobres. Neste

caso,

juntavam-se

indignações

provindas

econômica de setores da população.

de

convivência

com

regimes

de

opressão

e

exploração

72

A Teologia da Libertação 69 e as idéias marxistas tiveram uma grande influência na

estruturação das práticas dos agentes de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia. A

Teologia da Libertação era uma nova forma de fazer teologia, articulando fé e transformação

social. Nesse sentido, parte da Igreja Católica orientada por essa nova postura da Igreja Católica,

sobretudo na América Latina, se envolve na luta em defesa dos direitos humanos, como afirma

Casaldáliga:

O diálogo aberto com o marxismo e com os marxistas tem tido lugar na América Latina. Aqui, misturamos as canções, o suor e o sangue. E é mentira afirmar que a Teologia da Libertação se inspira no marxismo: a Teologia da Libertação se inspira no Evangelho e na pobreza. Mas, evidentemente, utilizamos categorias marxistas e, graças a Marx, temos entendido melhor o capitalismo (Casaldáliga, 2000).

Em um período de regime militar que desrespeitava os direitos humanos e convivendo

com diversos tipos de violações, a Prelazia de São Félix do Araguaia assumiu a nova orientação

social e política de Puebla e Melellin, passando a defender os direitos de índios, peões e posseiros

em um território em que estes praticamente não eram considerados e respeitados. Casaldáliga, à

frente da Prelazia, assumiu essa causa, e em consequência desta postura alguns dos membros

foram perseguidos, torturados e expulsos do país. Entres os membros da Prelazia de São Félix do

Araguaia que foram perseguidos podemos citar o Padre Francisco Jentel, que foi preso em 1972,

enviado para Campo Grande-MT e processado. Ele foi julgado por um tribunal militar e

69 Para uma compreensão mais detalhada sobre a Teologia da Libertação ver trabalhos de Leonardo Boff (1981 e 1998), Frei Beto (1986), Clodovis Boff (1985) Carlos Meister (1982) que são alguns nomes de destaque que escreveram sobre a Teologia da Libertação.

73

condenado a dez anos de prisão. Depois de cumprir dois anos da pena na prisão ele foi expulso do

Brasil. 70

 

Na década de 1970 na Amazônia e Nordeste, um setor da Igreja, sintonizado com as

diretrizes

de Puebla e Medellín, organizam

as

Comunidades Eclesiais de Base 71 . Nestas

Comunidades de Base nasce uma Igreja Católica com dois princípios orientadores na Amazônia:

por um lado - o princípio de encarnação que faz descobrir as bases da Igreja nas situações reais e

dinâmicas em que vive o homem comum; e de outro -

o princípio de libertação que alerta,

sobretudo, para a situação de domínio e submissão em que esse homem vive 72 .

Nessa perspectiva, a Igreja Católica na Amazônia estava orientada “à luz de uma

difícil sociologia do Pai Nosso” que, nas palavras do cardeal D. Avelar Brandão Vilela era:

Muito profunda e capaz de provocar as mais sérias conseqüências. Somos um continente em transformação. E a consciência religiosa não quer ser o ponto de apoio para a garantia de privilégios de uma pequena minoria contra a esmagadora maioria da população. Não quer também jogar essa maioria contra a minoria. Mas se sente obrigada a advertir a minoria de que não se pode cuidar primeiro, e por tempo indeterminado, de seus interesses e só depois, sem saber exatamente quando, se cuidaria dos interesses da maioria o ‘x’ do problema que

70 Sobre Pe. Francisco Jentel ver o trabalho de, REIS, Ana Amélia Teixeira. O Pe. Jentel narrado nas vozes da lembrança: história resistência pele memória. Monografia de conclusão de curso – UNEMAT, 2007. DUTERTRE, Alain; CASALDÁLIGA, Pedro; BALDUINO, Tomás. Francisco Jentel defensor do povo do Araguaia. São Paulo. Edições Paulinas, 1986 e Esterci, op. Cit.

71 As CBs como ficou conhecida teve o ponto de partida a base popular, que constitui grupo que participa de qualquer programação e se orienta pelos próprios interesses do grupo. A solidariedade e co-responsabilidade se apóiam e desenvolvem na distribuição de funções entre os componentes do grupo, diversificando-se de tais funções progressivamente, na medida do crescimento quantitativo e qualitativo do grupo, até abrange a vizinhança, aldeia, etc. O dinamismo fundamental da comunidade vem de suas lideranças, suficientemente treinadas, a partir das quais se processa a animação, estruturação, planejamento de atividades de vida dos grupos comunitários. A condição de sobrevivência da comunidade é a sua abertura, que implica a sua colaboração com organismo, oficiais ou particulares atuantes na área no sentido do desenvolvimento social. A inspiração religiosa fundamental do grupo se mantém graças ao dialogo continuo entre a fé e a vida, sendo possível partir, tanto desta como daquela. Nos casos em que a formação da fé tem prioridade, os agentes de pastoral passam a ser liderança também prioritária.

72 Estudo realizado pelo CEAS (Centro de Estudos e Ação Social) – Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia, p. 8, 1973, Pasta– B- 7-1-23.

74

deve ser objeto de estudos e de revisões, numa linha de respeito ao desenvolvimento da sociedade. 73

A Igreja Católica na Amazônia passou a ter uma orientação voltada para o homem,