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Direito Civil IV (JUR3104) ◊ Prof. Rodrigo Caldas ◊ Turma A07 ◊ Sl. 402-A [pág. 1 de 6]

CONTRATO DE DEPÓSITO

(Arts. 627/652)

Art. 627. Pelo contrato de depósito recebe o depositário um objeto móvel,

para guardar, até que o depositante o reclame”.

Pelo contrato de depósito, alguém recebe objeto móvel para guardar e

restituir, dentro de certo prazo. O mecanismo desse contrato se estabelece, portanto,

a partir das obrigações de guarda e restituição da coisa.

Obs.: a palavra “depósito” é utilizada no Código Civil tanto para referir o

contrato (art. 627), quanto seu objeto (art. 630).

O contrato distingue-se do empréstimo e da locação porque, nestes, é

causa do contrato o uso (ou a utilização) da coisa, enquanto, no depósito, ele é, em

princípio,

autorizado pelo depositante. Assim, tem-se que o comodato e a locação, embora

envolvam o dever de guarda (como também ocorre em outras modalidades

expressamente

vedado

ao

depositário,

apenas

podendo

ocorrer

se

contratuais), não o têm como causa. Eis a distinção que faz Pontes de Miranda:

O que faz típico o negócio jurídico bilateral do depósito é a confiança do

tradente na custódia pelo que tem de guardar a coisa. Guardar é pôr em

lugar seguro. Pode haver, noutros negócios jurídicos, o dever de guardar,

e essa é a razão por que as leis se referem a certas pessoas dizendo-as

responsáveis ‘como depositários’, e algumas respondem como o

depositário responderia, sem serem depositários (Tratado de Direito

Privado. v. 42. 3ª ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1972. p. 341)(grifou-se).

As partes desse contrato são:

- depositante:

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- depositário

Classificação: real, contrato unilateral (em regra), gratuito (em regra), e intuitu personae. Se oneroso, converte-se em bilateral.

O contrato de depósito é, em regra, gratuito. Exceções (art. 628):

- convenção entre as partes;

- resultado de atividade negocial;

- depositário profissional.

Nesses casos, o depósito será oneroso, computando-se a remuneração do depositário na forma prevista no art. 628, parágrafo único. Também o depósito necessário não se presume gratuito (art. 651).

A pessoalidade do depósito também está posta em xeque, já que é

possível (e cada vez mais comum) a utilização de auxiliares. Todavia, o art. 640 expressamente a prevê.

OBJETO: o depósito tem por objeto bens móveis (art. 627). Sabe-se que, por força de regras processuais, pode haver o depósito judicial (CPC, art. 666, III) de bens imóveis. Todavia, a aplicação a esse depósito da regras do contrato de depósito só se dá por analogia.

FORMA: a forma escrita é exigida ad probationem (art. 646). Essa exigência quanto à prova torna o ato inválido caso seja desobedecida?

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ESPÉCIES:

1) Voluntário: convenção (arts. 627/646);

2) legal (art. 647, I)

2.1 necessário 2.2 miserável (art. 647, II)

3) Regular: bem infungível

4) Irregular: bem fungível (lembrando que os bens fungíveis podem ser “infungibilizados”).

No caso de depósito irregular, aplicam-se as regras do mútuo (art. 645). No entanto, não há conversão substantiva (ou seja, o contrato de depósito não se “converte” em contrato de mútuo), já que o depositante continua tendo o direito de solicitar a coisa quanto lhe aprouver. Exemplo mais comum: contrato de depósito bancário.

OBRIGAÇÕES DO DEPOSITANTE:

i) pagar o preço, em caso de depósito oneroso (art. 628), sob pena de permitir a retenção (art. 644);

ii)

pagar

as

despesas

feitas

com

o

depósito

(art.

643);

o

indadimplemento também dá direito à retenção (art. 644);

iii) indenizar o depositário por prejuízos decorrentes do depósito, como, por exemplo, por vício da coisa.

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OBRIGAÇÕES DO DEPOSITÁRIO:

i) guarda e conservação da coisa, como se sua fosse (art. 629);

ii) manutenção do estado do depósito (art. 630);

iii) não se servir da coisa, nem dá-la novamente em depósito, exceto

se expressamente autorizado (art. 640);

iv) restituir o depósito, acrescido de seus frutos, assim que o exija o

depositante (art. 629), ainda que haja prazo assinado (art. 633); o depositário pode ser recusar a entregá-lo, nas hipóteses do art. 633, ou na falta de pagamento (direito de retenção, art. 644);

v) entregar o bem dado em substituição (art. 636);

vi) alguns autores inserem ainda, entre as obrigações do depositário, o

sigilo sobre o depósito.

OBS.: se o depositário se tornar incapaz, quem lhe administre os bens deve imediatamente diligenciar para entregá-los (art. 641).

RESPONSABILIDADE DO DEPOSITÁRIO:

O contrato de depósito se estrutura a partir de duas obrigações impostas ao depositário: i) guardar o objeto e ii) restituí-lo quando exigido pelo depositante. Indica Pontes de Miranda que a obrigação de guardar tem em mira a conservação da possibilidade de adimplemento da obrigação de restituir.

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Segundo Serpa Lopes, existiria uma distinção radical entre as duas

obrigações:

A obrigação de restituir a coisa depositada encarna uma obrigação de resultado, enquanto a obrigação de guarda importa uma obrigação de meios. Sendo uma obrigação de resultado, o depositante nada tem a provar, a não ser a própria relação do depósito. Qualquer alegação excludente dessa obrigação por parte do depositário necessita ser por ele provada” (Curso de Direito Civil. v. IV. 4ª ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1993. p. 265).

Está claro que, admitida essa distinção, o descumprimento do dever de guarda pode levar ao desaparecimento da coisa. O descuido, a colocação em local inadequado ou a falta de conservação podem acarretar o desaparecimento da coisa. Nesse caso, o descumprimento da obrigação de meio levará ao inadimplemento da obrigação de resultado.

O descumprimento desta última, todavia, pode se dar sem a contribuição do depositário, como no caso fortuito ou de força maior. Aplica-se, nesse caso, a regra res perit domino, ou seja, o depositante suportará os riscos da perda da coisa depositada. No entanto, impõe-se ao depositário provar a ausência de culpa:

Art. 642. O depositário não responde pelos casos de força maior; mas, para que lhe valha a escusa, terá de prová-los”.

Necessário observar que, excepcionalmente, o depositário pode responder pelo caso fortuito ou de força maior. A própria redação do art. 642, aliás, deixa claro que a ausência de prova dessa excludente (ainda que ela tenha de fato ocorrido) implica responsabilização do depositário.

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Além disso, é preciso considerar as hipóteses de i) o próprio contrato

prever a responsabilização pelo caso fortuito e de ii) o depositário se achar no

descumprimento de depositada (art. 640).

a coisa

obrigações

acessórias, como,

v.g.,

a

de não

usar

PERGUNTA PARA REFLEXÃO: é possível a prisão do depositário que não restitui a coisa quando exigido? Cf. CC/2002, art. 652; CF/88 art. 5º, LXVII; Súmula Vinculante 25 do STF.