Duas vidas sem destino (Snap Judgement

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Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

— Casaram-se. que já era tido como o casamento do ano. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. Não. porém. Ela própria. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. Suzanne. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. Riquíssimo e muito influente. adorava viajar. Sabia. O que tentava. também ele um jornalista de renome. quem a educara assim. Como sempre. Não que fosse pretensiosa. tinha sido seu pai. horas antes. Edward Andriotti. Sim. na tarde de hoje. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. Kelly pensou.. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. desprovidos de barreiras. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. Aquele trabalho. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. por exemplo. queria ser o próximo presidente do México.. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. um par de tênis. e Emmanuel Echeverria. aliás.. estava longe de ser um político qualquer. Na manhã seguinte. céus.. medíocres. Não que gostasse das pessoas o tempo todo.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. uma. mas vencer era algo natural para ela. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. De qualquer modo. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti. Para ser mais exata. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. local especializada em fofocas e colunas sociais. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio.. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços. Calças jeans. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter. Como sempre. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. Kelly . como odiava arrumar malas! Por outro lado. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. Ao chegar à mansão dos Andriotti. Uma revista. bem cedo. seres humanos a fascinavam. calças de brim caqui. Rodrigo Echeverria. De lá seguiria para a África. sem se dar conta. O pai da noiva. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. talvez até outro Pulitzer. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas. deixavam transparecer a própria alma. era muito mais que um empresário de sucesso. E quanto ao pai do noivo. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco... ligou a televisão. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. bem no fundo de seu coração. Para tentar se distrair um pouco.. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo". Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava. na verdade. Oh. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos. Ao ouvir aquela notícia. Instantes em que. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade.

fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. Conforme costumava acontecer a cada ano. Naquela manhã. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. contudo. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. no entanto. Sem se deixar abater. no entanto. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. porém. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. Assim. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. No instante em que ele se voltou e a viu. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. próprias da estação. ajoelhado ao lado de outro homem. já não vivia. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. Com uma das mãos suja de sangue. De repente. alguns mais importantes e outros nem tanto. usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. além de vários convidados. Sentando-se na beirada da cama. foi testemunha-chave da acusação. repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. de uma modo ou de outro. que mais tarde soubera ser Will Stone. Havia alguma coisa indecifrável. com um buraco de bala no peito. apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. em Folsom. duas. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento. algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. Kelly acordara cedo. com um simples gesto ela havia selado o . O Homem de Pedra. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. Encontrara um homem. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. Uma moradora desta cidade. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. este caído e coberto de sangue. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão. três vezes. Por coincidência. meio que às escondidas.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. O telejornal prosseguiu. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais.

. ou seja. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. a ausência e a rigidez do pai. mais profundo. fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã. pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder. — Ora. minha filha — seu pai costumava dizer. e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria. ela trancou a porta. — Há suspeitas de que esteja armado. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto. porém. sem encontrar uma posição confortável. Além do mais.. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. Durante o julgamento. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. de lá do céu. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz. Não. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem. endereçado à editora da revista. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem. Não conseguia. Sentindo-se um pouco melhor. sem dizer uma só palavra para defender-se. Kelly Cooper. Para piorar. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto.. A morte da mãe. quando o telefone tocou. em voz alta. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância. durante aquela noite.. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado. elemento de alta periculosidade. Decidida. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão. conciliar o sono. Mas Kelly Cooper não podia . Kelly Cooper. E aquele homem agora estava solto. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança.. de frente e de perfil. Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. — Sua mãe está observando tudo.destino do Homem de Pedra. partindo para bem longe dali. pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida. nos raros momentos em que estava em casa. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu. a falta de carinho. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. De volta ao seu apartamento. ela sabia ter selado seu próprio destino também. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque.. Um vazio que ela achava assustador. tomou um banho e preparou-se para deitar. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir.. paradeiro desconhecido até o momento.. ainda mais intenso. à casa da mulher que testemunhara contra ele. Era a polícia informando que. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela. Virava-se de um lado para outro na cama. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. para dar lugar a um vazio cada vez maior. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você.

a melhor entre todos os melhores. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento. Nisso.. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. Onde estaria Will Stone. quando Kelly lhe pedira o divórcio. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava. Gary.. — Não. Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone. algo que a magoara bastante. Resmungando e tornando a virar-se na cama.. Quando conseguiu. costumara imaginar que som teria sua voz. Kelly parou imediatamente de se mover. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor.. e agora ela o ouvia. desde os anos de colégio e faculdade até agora.ser apenas especial. De qualquer modo. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. Na verdade. Um esforço inútil. Era um som grave. porém. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia. E isto ela vinha conseguindo. ela era um completo desastre. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. a não ser quando o assunto era relacionamento humano. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área. fascinantes e assustadores. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. meses atrás. E então começou o pesadelo. sombrio. Sim. fazia pouco mais de um ano. já que era muito menor e mais fraca que ele. tentando libertar-se. . Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. Precisava ser o máximo. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia. em especial. num grunhido. seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões.

se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. portanto não venha me culpar! . Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. — Diga. moça. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. — Ah. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um.. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi.. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita.. forte e musculoso. — Eu vou tirar a mão de sua boca. mas terrivelmente hostis. Will notou não só o olhar de Kelly. E havia sangue em suas mãos. Ele estava muito perto. a mão que lhe cobria a boca se afastou. porém limpas e decentes. — Sinto muito. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. no entanto. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly. por mais que tivesse tentado... E de repente ela estava fitando um rosto familiar. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. — Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. com roupas modestas. ficara apavorada. Will Stone parecia o mesmo. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. E que ainda estava. E você. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. Também devagar. se é isso o que você está pensando. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva. Kelly respirou fundo. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. Kelly não sabia ao certo o que pensar. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou. a imprensa. mas não fui eu quem o colocou na prisão. Agora.— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. — Ah. acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo.. aliás.. ela balançou a cabeça devagar. impassível. como também a direção que tomavam os seus pensamentos. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim.. altiva. — Compensação? — Sim. Preferia morrer a admitir diante dele que. não é? — Will a fitou em silêncio. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. como na primeira vez em que ela o vira. — Acertar as contas. — Não — ela retrucou. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. Tão perto que o seu corpo. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso. por um instante. só que mais velho e cansado. sim. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal. de fato. entendeu? Kelly nada respondeu. mas não quero ouvir nem um pio. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença.

seria sair debaixo do braço que lhe pesava. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. moça. Kelly parou onde estava. — Cale a boca e durma! — Will ordenou. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will. E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo. porém. a seu lado. A menos que. Ele se remexeu. sobre a cintura. O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama.. hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava.. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. — E o quê. na cama. moça. não parecia ter intenção de feri-la. Depois de escapar da cama... talvez fosse melhor fugir para fora da casa e. corpo contra corpo. parou.. quando o homem a seu lado não se moveu.. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele. Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar.. pousou o pé no chão. ele estava fora do ar.. Seria estupidez confiar tanto na sorte. consultou o despertador sobre o criado-mudo. — Bem. sem paciência para argumentar. afinal de contas. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. Kelly resolveu obedecer sem discutir. também era arriscado demais. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não.. com um braço em redor da cintura de Kelly. ou ser ameaçada outra vez. segurando . esperou e. espere aí. Quase quatro horas da manhã. ele não havia movido um só músculo. inerte. isso mesmo! Desceria direto para a garagem. era muito arriscado. Sim. Devagar. Quarenta e cinco minutos depois. desde o momento em que se deitara.. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava. Assim. — E não tente se levantar. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não.. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura. quase entrou em pânico diante daquela constatação. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta. O verdadeiro problema. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado. Com a maior leveza possível. no entanto. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. como catástrofes naturais ou bombardeios. — Ei. Sim.. curvando-se para desamarrar as botinas. Will gemeu.. bem devagar. apagado como uma lâmpada. no entanto.Will resmungou baixinho. Naquele instante. Até então ele não a tinha ferido. ela fez o mesmo com o outro pé. Girando devagar a cabeça. Você me deve uma e estou aqui para cobrar. não quero saber de conversa. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. — ainda tentou protestar. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama. Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali. Além do mais. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra.. principalmente depois do que já passei. com todo o cuidado. Sim. o que já era algum alívio. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio. Will Stone. a coragem de Kelly renasceu... eu lhe devo? — Kelly perguntou. pois eu vou perceber.

Aliviada. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. Kelly conseguia manter sua dignidade. ela se permitiu respirar fundo. em sua independência. depois outro e ainda mais um. A despeito do medo. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. A revolta.. E agora. direta. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. Kelly fechou os olhos e esperou. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. calçando as botas e amarrando os cadarços das . Sabia que era necessário um pedido de desculpas. muito mais fácil do que. moça. — Prepare-se para partir. — Faça isso de novo.. porém não menos alerta. — Entendeu bem? Muda. Como vinham se recusando havia muito tempo. — ela murmurou. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo. aquela vitória tinha um gosto amargo. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama. Kelly se limitou a fitar aquele homem que. Num tom de voz educado. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas. quase calmo. Fácil. demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. moça — disse. acabava de invadir sua vida. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer.. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. agora. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. e olhando nos olhos de Will. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. sem a menor cerimônia. Nada. O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor. De fato. Melhor assim. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. Longos. já estava sendo puxada com violência de volta à cama. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso.. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. era se erguer com muito cuidado. Contou um minuto. ágil como uma cobra dando o bote. Sim. Não tinha outra escolha. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. Centímetro por centímetro o pulso. Observou o rosto de Will. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. Antes que ela tivesse chance de reagir. a teria feito suspirar. por estranho que pudesse parecer. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados. em outra situação. — S-sim.

moça. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. moça. — Céus. — Escute. Você sabe disso! — ela resmungou.. portanto comece a falar — disse ele —. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Tenho compromissos marcados! — Bem. — Falar? — Sim. — Não vai se sair bem desta. Esqueça o avião. com a mesma violência que usara para fechar a porta. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. — Oh. — Também preciso usar o banheiro. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças. E é bom não tentar nenhuma gracinha. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. e só pare quando eu mandar. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. — Aliás devo ir logo para o aeroporto. — Sinto muito. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. moça. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. — Sabe. Apressada pela raiva. Kelly também se sentou. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. se é que você me entende. O barulho chamou a atenção de Will. Furiosa. massageando o pulso dolorido. — Olhe aqui. tornou a abri-la menos de dez minutos depois. — O tom de Will era ríspido e insensível. desconfiada. que até então estivera junto à janela. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. moça. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. — Vamos fazer uma viagem. mas parece que você prefere acordar cedo. isso é mesmo uma pena. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. — Você escolhe. moça. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. saio do banheiro do jeito que estiver. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. Will Stone. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu.. mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui. — Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. não sei em que está pensando. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Estou saindo de uma .mesmas com gestos bruscos.

. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada. muito diferente! Calculando friamente... ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. O pulso ainda lhe doía.. bem perto da porta.. — Estou aqui — Kelly se apressou em responder. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. você tem consciência de que vai acabar se dando mal. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la. — Eu não entendi. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que. contudo.. aonde imagina que vá conseguir chegar. — Aliás. . moça. de dentro do banheiro. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo. como em algum filme de aventura. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. E trate de ficar aqui. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria.. se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. seguido pela água correndo na torneira da pia. Não que se estivesse acovardando. dizer que não me fez mal nenhum. e longe do telefone! Com isto. Prosseguiu. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia. em tentar correr para fora dali. A rua estava totalmente deserta. não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre. — ela ouviu o ruído da descarga. Quanta tolice! Ainda assim. — Não estou ouvindo você — Will avisou. A cidade. Algo que ela. Eles com certeza irão levar isso em consideração. — Sua voz morreu na garganta. aliás.. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga. Além do mais.penitenciária. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora. — Arrume suas coisas — Will ordenou. embarcar no carro. com alguma sorte. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. Daí a ter tempo de abrir o portão. — Como assim? — ela o fitou. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez. Embora o plano fosse bastante inteligente. caso resolva se entregar. — Escute. não tinha a menor vontade de fazer. — ele confirmou. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que.. — É isso aí. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri... parecia quieta e sonolenta. — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. — Isto é. se voltando outra vez para Kelly. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. brusco. chegasse à garagem. intrigada. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra... Will entrou no banheiro e fechou a porta. havia uma grande distância. não por um alegre casal em viagem de férias. áspera.. mas no país inteiro. — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição. dar a partida e fugir.

— E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular.. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. e concluiu que os dois veículos. Kelly lançou-lhe um olhar furioso. eu sei — disse Will. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. desaparecesse na distância. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer. moça — ele a preveniu. já o teria feito a estas alturas. ignorando seu pedido como das outras vezes... Como parecia ser de seu costume. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa.. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida. — É que eu percebi que. — Ele apanhou a mala de Kelly.. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —. antes. Aliás. muito mais importantes. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. — Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou. no entanto. teve um mau pressentimento. moça? Ela se voltou para fitá-lo. Kelly o fitou com um ar de completo espanto. que Will sequer notou. — O dia mal começou. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele. mal conservado e de um tom pálido de azul. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque.— Então vamos embora. a um canto do quarto. cerca de um ano antes. Lembrou-se de seu próprio carro.. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. Um setor sem flores ou belas . — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. uma tolice. emergiu na memória de ambos. se você pretendesse me matar. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. — É. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. tão diferentes entre si.

No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. cara. sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez. tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. Nenhum nome ou data. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. — Vamos. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo. — Para falar a verdade. Ficou parado por um longo instante. — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. nenhuma frase inspirada ou consoladora. Nada. Na verdade.. Will enfim encontrou o que estivera procurando. O curioso é que Stephen. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. Transcorridos vários minutos. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. E se você vier para cá irmãozinho.estátuas adornando as lápides simples. dois anos mais velho. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo. de fato acabara por fazer. Algo como puro medo. um dia. Quanto a isso. de um certo modo que não deixava de ser irônico. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. — Ele abriu a porta e desembarcou. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. — Sim. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a . custasse o que custasse. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. minha situação não poderia ser melhor. Haviam nascido num gueto de Chicago. em si.. num lar mal estruturado e muito pobre. Tudo ótimo! — insistira Stephen. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. — Ei. afinal era a única família que lhe restava. Ela se limitou a segui-lo. Não pelo chamado. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito. Num gesto cheio de reverência. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam. frio e sem qualquer sentido. obediente. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos. claro. venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. a não ser um estúpido número. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. Meu emprego é excelente. mandaria colocar ali uma lápide apropriada. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. Algo que. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria.

O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. algo que deveria ter sido até bastante simples. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos. logo ele que jamais os utilizava. Mais do que qualquer desses indícios.tumba. Como resultado. gritando que havia monstros a persegui-lo. Coisa de cidade grande. contudo. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. Will deixara as perguntas de lado. por aqui. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento. está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas. que está fazendo? Me espionando? — Não. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. com notas quase abaixo da média. Stephen. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. — O que significa isto? — perguntara. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta.. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. sabe como é. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas.. porém. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. quanto o haviam ferido havia um ano.. com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. como cigarros e bebidas alcoólicas. O mais velho por falta de capacidade. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. ao recordá-las. De nada adiantara. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. Dois dias após sua chegada. Algo importante. para que estivesse ganhando tanto dinheiro. irmãozinho. vamos. Não houve como não ver o revólver. E aquelas palavras o feriam tanto agora. ele por pura falta de esforço. Stephen respondera de modo evasivo. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco.. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. como um animal enjaulado. — É fácil notar que você está com medo. Zonzo.. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão.. — Ei. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar. Quando criança. apavorado e delirando. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. Além disso. não fosse a reação causada pelo anestésico. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. no entanto. — Ora. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. quando entrei no quarto. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. questionar o irmão quanto a isso. E se até então tivera fortes suspeitas. Sim.

uma mulher de cabelos ruivos aparecera. Will encontrara o apartamento deserto. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. perto do cadáver. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. Sem pensar duas vezes. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. Além do mais. Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão. ao se levantar. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas. E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores. incapaz de conter a curiosidade. por ali. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela. E exatamente enquanto fazia isso. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. porém. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. O modo como Will se ajoelhara. à altura do coração. Era a arma de Stephen.. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma. Certas pessoas. tratava-se de um homem condenado por assassinato. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. Ah. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem.. demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. como abutres. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra.. Desta vez. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano.. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. agindo por puro instinto. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. Stephen. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos. mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito. Will ergueu a cabeça para fitá-la. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha. e levara o revólver consigo. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil.. .. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone.

talvez.. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. Queria dizer que. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. . desaparecendo da cidade logo após o crime. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper. anos antes. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. O corpo de seu único irmão. obediente. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. mas com resultados não menos catastróficos. das ilusões de poder e riqueza. no entanto..do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. Teoria reforçada. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. por arrombamento e invasão. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. para ali se abrigar do frio e da chuva. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos. pois apesar de tudo e contra a própria razão. Tudo isso e muito mais. Não podia confiar nessa mulher. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. De fato. apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento.. Sem intenção. depois de algum tempo. de uma overdose de drogas. De fato. pedindo resposta. Will não era estúpido o bastante para ceder. continuava a amá-lo. permitindo que a culpa recaísse sobre ele. Mas precisava ser encontrado. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. Descobriram até que fora fichado na polícia. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. Sim. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. Kelly o seguiu de perto. A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio. ela já o havia prejudicado antes. fosse quem fosse. aliás. Mas ele não viera. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo. sumido da face da Terra. Além do mais. — Não é da sua conta — respondeu com frieza. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte.. o olhar mais uma vez hostil. pelas drogas encontradas em poder do homem morto.

.. mas que idéia original — ela provocou. moça! — Will sussurrou a seu lado. sim. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada. obrigada.. um resfriado. — Bom dia. sou eu. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado... — Invente uma gripe. não fique preocupada. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF. ignorando o sarcasmo de Kelly. sim? Diga que fará contato de novo. olá. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele. — Parece que é uma gripe daquelas. Ah. neste exato momento. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. claro. está bem. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo. esse médico! — Ela tornou a olhar para Will. estou com muita febre. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. — Até logo. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar.. — E ande logo! Com mãos trêmulas. sem emitir um som.. Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. Escute.. por sinal ele está aqui em casa. Um santo homem. — Como arremate final. Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone. — Sem nenhuma gracinha. sim. — Eu já ouvi. para que eu não precisasse sair.. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone. nervoso. sem maior autenticidade que da primeira vez. não há necessidade — Kelly prosseguiu. Não. Oh. Péssima! — Tornou a tossir. mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. Sim. Kelly. sim? Voarei para Zurique assim que puder. — Oh. — Apenas faça o que estou mandando. não. mas sem que Will percebesse. Will a fitou com os olhos semicerrados.. está bem? — Exasperado. com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse.. estou doente. — Como? Ah. A expressão de Will se endureceu e.. — disse Kelly. Sim. Kelly tossiu. vou tomar cuidado. quando sua editora atendeu. ameaçadores. Ah. quando estiver melhor. não preciso de nada. E enquanto o telefone chamava. Sim. em uma expressão de profunda irritação. Rachel. — O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. por favor. quando uma voz masculina atendeu o telefone. . Stone! Não sou surda. Sob o olhar atento de seu captor. ela tornou a tossir. E quando voltou a falar. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. claro.Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —. Está bem. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. — Eu gostaria de falar com Rachel.. repetindo o aviso.. um som nitidamente falso.

Aquele homem era mesmo estranho. Começava a crer que. dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. e estendeu a mão.. ao extrair da carteira a quantia pedida. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. — Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel. com o olhar faiscando de raiva. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. era tarde demais. nem seria tão difícil de lidar.— Moça. contudo. — Oh. — Bem. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will. no entanto. — O que vai querer? — Nada. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. arranhando as marchas ao entrar em movimento. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. moça? — Will a interrompeu. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. Ela. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. ela não esboçou qualquer reação. manteve o olhar fixo à frente. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. se queria uma boa atriz. pensou. Escondeu um sorriso. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. — Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. moça — ele a preveniu.. Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. — Aí está — disse ela —. Desta vez. Agora.. Lembre-se disso! — Oh. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada.. mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador. de fato. Agora. Will respirou fundo. — Você precisa comer. Além de ser tomada como refém. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato. severo. . Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. Kelly deu-lhe as costas e retomou. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. porém. teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém. não tinha outra saída. Cinco dólares serão suficientes. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. altiva. um. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. Kelly não notou. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença. Um pouco mais calmo. entretanto. — Cuidado com o que diz e faz. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. para dentro do carro. um vagabundo. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos. — Como assim.

— Trate de se comportar. — Pare com isso. cerca de uma hora depois. presente e atento. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou. Ele a tomara como refém. se pôs a comer. Ninguém a não ser o homem a seu lado.. que mais você vai querer? — ela reclamou. no entanto.. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. já havia escolhido para si uma calça jeans.. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. — Você estaria longe daqui. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino. Tal ato revelava um considerável autocontrole. na tentativa de indicar que algo estava errado. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. era seu inimigo. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo.. Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja.. — Talvez não tão longe assim. Depois de pagar e receber as embalagens. afinal. pois sabia que era perda de tempo. Será melhor para você. pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. duas camisetas. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. duas cuecas. ao desembarcar do automóvel. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto. — Céus. Em vez disso. E não vai nem ao menos experimentar essa calça. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. estacionou o carro em uma vaga próxima e. sem dizer palavra. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. moça — ele avisou quando entraram. quando eu saísse do provador. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça.. acredite! . com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa.— Não estou com fome — ela teimou. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. Ninguém. — Coma! — Will mandou. ficaram medindo forças através de olhares. Rumaram para o norte. Não importava quem ou o quê era Will Stone. moça. como já começava a se tornar um hábito. grave. Sem tornar a perguntar o que ela queria. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava. — Desça do carro — ele ordenou. por obséquio. Ele venceu. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando. Ainda era muito cedo. quando já terminava sua refeição. Will se voltou para fitá-la e. mostrou o menor interesse. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine. Cinco minutos depois.

Sem alternativa. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. E no entanto era essa a sua condição. que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou. ora. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam. no entanto. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado. o policial já tinha deixado a loja. E fora isso o que houvera com ele. marginal. Significava. porém. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele. — Eu não tinha nada a dizer. só que ele havia conseguido escapar. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e.. como se não houvesse escutado nada. Claro. Mesmo agora. um condenado cumprindo pena por assassinato. — Isto é. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime. tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar.. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone.. somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. incrédula.. depois de ter passado seis meses atrás das grades. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. Infelizmente. Condenado. ele parecia estar se saindo bem demais.. perante um juiz. — Você estava sendo acusado de assassinato. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. entretanto. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. Voltou-se para Kelly. Você sabe disso! Por ora. Por mais que ela tentasse disfarçar. que o achassem perigoso. sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento. para decepção de Kelly. Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta. — Ora! — Kelly balançou a cabeça. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. em um caminhão de entregas. Na verdade. isto sim... Doze pessoas. As autoridades recomendam extrema cautela. — Supondo eu falasse.. por favor entre em contato com.. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. Por ironia. Culpado. Que continuassem a culpá-lo à vontade... doze cidadãos supostamente justos e normais. Will Stone. que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado. No fundo eram ambos prisioneiros. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento. durante o julgamento.. destrutivo.Quando enfim chegaram ao caixa.

— Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados.. — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro.— Eu não estava. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma. fazendo com que parecessem feitos de fogo. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa. Olhos que. — Bem. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível.. — Kelly deu de ombros. contudo. Ainda assim. com visível satisfação. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. — Afinal de contas. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . quase contra sua vontade. querer eu não quero. é bom me obedecer! — Está bem. — Escute aqui. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna. — Estava sim. nos meus dias de folga. insistiam em olhar nos dele. O que significava isso. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. moça. Céus. Desembarcou e esticou os músculos doloridos.. para falar a verdade. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse. moça. perguntou: — Afinal. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador. — E agora. o que vamos fazer? Ah. — Quer fazer o favor de falar baixo. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro. embora dissessem palavras duras agora. Não pôde. não! — ela o desafiou.. — Então estamos empatados. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final.. num impulso.. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. no entanto. sarcástica.. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou. com um brilho impertinente nos olhos. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi.. sim? — Por que não? — ela perguntou. se estendendo por vários segundos. mas se calou. moça? — ele ralhou. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. Kelly percebeu que. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly. em fitar o rosto anguloso e os lábios que. que estava enchendo o tanque do carro. desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo. Não tem a menor graça. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse. Bem antes que os outros. Sinto muito. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. Faziam três horas que estavam viajando. Kelly chegou a abrir a boca para negar. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. aliás. — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will. como antes. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira. Stone.

lendo tudo o que você escrever naquele comprovante. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. Sem dizer uma só palavra. Além do mais. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável.. — Ele a puxou com mais força. — Nada disso. — Olá! — Um homem gordo e calvo. eu espero por aqui — disse ela. sujas e rasgadas. mas as roupas de Will.. destacou a segunda via para guardá-la consigo. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. Will resmungou algo ininteligível e. provavelmente o próprio Bo. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço. — Além do mais. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão. Após uma inspeção apressada. Vocês dois me parecem gente honesta. Pelo jeito. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito. moça. Céus. Se tinha a intenção de irritar Will. — Vou estar bem a seu lado. — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. Em menos de um minuto. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. deve ser isso mesmo. moça. Stone — ela resmungou. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. também sorrindo. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. os cumprimentou com um largo sorriso.— Com todos os diabos. não é? — Eu mesmo. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. devolveu o cartão ao cliente. claro — o homem tornou a sorrir. — Pode deixar.. dona — ele respondeu. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É. Mais calmo então. impaciente. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. — Diga-me. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. — Nem pense nisso — ele a preveniu. tentando resistir. — Viemos pagar pela gasolina. forçou um sorriso. . — Você é Bo. O sorriso murchou nos lábios de Kelly.. assim que entraram. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. — Oh. Bo. devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico... dona. — Bem. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. estava conseguindo.

se tivesse com quê escrevê-la. — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will. Will — disse. Não. observando com toda a atenção as paredes.. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino. Não pode fazer isto comigo! E terrível. Estava com raiva. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios.. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. Stone! — gritou. é. — Pois é. estava furiosa. Kelly parou de repente.. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa. porém nada encontrou.. Pensou em escrever com as unhas. havia uma janela. na pior das hipóteses. Kelly subiu no tampo do vaso e. porém.. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo. Kelly bateu ainda uma vez na porta.. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. dona... — Já que estamos aqui. Tornou a olhar em redor.Ela. um batom. — Se eu não mantiver tudo trancado. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. Do jeito que suas unhas eram fracas. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. ainda não se havia dado por vencida. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro. o vaso.. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. conseguiu por fim abrir a janela. Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer. Will. para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. esmurrando a porta. com raiva não. pendurada na parede. no alto da parede. é. Janela? Sim.. Tentou abrir a porta. espere um pouco. é desumano. Mais uma vez. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo.. fosse um grampo de cabelos. Era tão estreita que por um instante ela . mas desistiu logo na primeira tentativa. acho que vou aproveitar para ir ao toalete. — Aposto como a chave é aquela ali.. — Ele sorriu e deu de ombros. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly. os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos. já dentro do toalete ao lado. isso sim! E como poderia estar.. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. foi mais rápido e a tomou para si. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. depois de uma breve luta com um fecho.. a janela. bem acima do vaso sanitário. no entanto. como se acabasse de se lembrar de algo importante. não é? — É sim. — Ei. a pia. — Oh. descascando a tinta da porta. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro.

que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. Talvez fosse isso o que a incomodava mais. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor. tremendo e de olhos fechados. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que... duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar. Quando teve a coragem de tornar a abri-los. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e. sua vida ordeira. E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho. Afinal de contas. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada. no topo disso tudo. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor.. Encolhida no assento do passageiro. caso conseguisse passar por ali. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas. Uma vida que. já colocava a cabeça e os ombros para fora. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. Desde a chegada de Will. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé. Só mais um pouquinho e estaria fora. mas nada poderia fazê-la desistir. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando. era algo mais forte que isso. Bem. perfeitamente controlada. mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. Aflita. exceto por um casamento desfeito. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. pensou. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular. satisfeita.. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima.. Ela o havia deixado furioso. Ótimo. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon. Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso. Fracasso.. Kelly ficou caída junto à parede. apoiada sobre o próprio peito. como ela estava? Furiosa também? Não.. causar-lhe um novo acesso de fúria. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar. Sucesso. Sim. não conhecera outra coisa que não o fracasso.. chamado Will Stone. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco. Seu olhar encontrou-se com o de Will. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar. Mais especificamente a um certo demônio. com isso. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor. ofegante. Paralisada pela dor e pelo susto. ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz. severo e acusador. não era? . notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo. E nesse momento.. além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão.chegou a desanimar. não agora quando. Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. um rosto que a fitava..

tão especial que jamais cometia um erro. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. ela era especial. Sim. e era isso o que deixava o papai orgulhoso. melancólico. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez. para lançá-la num morno torpor.. Mesmo agora que estava fora da prisão. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido. naquela manhã. Will respirou fundo. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. por menor que fosse. Tinha medo da própria reação.. Fazia muito tempo que não pensava em rendas. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. Para ser mais exato.. A pele. Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. continuava sendo uma . lisa e clara. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente.. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade. tão mal dormida. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não. por exemplo.. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência.. mas que diabos. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência.. pensou. até então. O olhar de Will desceu um pouco mais. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. o que lhe emprestava um ar adolescente. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa. a curva pronunciada de sua cintura. Alternando a atenção entre ela e o tráfego. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem. Sim. tão especial que chegava a ser perfeita. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente. até agora. arriscando um olhar para o lado direito. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes.. Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que. percebeu que Kelly havia adormecido.. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres. durante quinze longos anos.. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. Ora. não é? Por outro lado. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total. a não ser no que tocava a si mesmo. Ele estava furioso. Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise. Ao menos perante si mesmo.Especial. de fato você nunca será mais que isso. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante. Os cabelos espelhavam sua personalidade. você acaba por acreditar. E embora tal pensamento o surpreendesse. pensou Will. tão. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha. ela parecia tão doce e vulnerável.

ao desembarcar do automóvel.. Duas lanchonetes. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. moça. — Escute aqui. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas. e olhou em redor. as coisas estivessem começando a melhorar. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos. numa tentativa de ajeitá-los. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia. com fome e sob uma pressão muito grande... resignada. Curioso.. ele olhou em redor. apenas talvez. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. E era óbvio que ela iria tentar de novo. por ali. Irritado. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. Se pretendia mesmo escapar. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento. um supermercado e uma loja de ferramentas.. — Uma loja de coisas usadas? Céus. aspirador de pó funcionando bem. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. se não precisasse de você para o disfarce.. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. Não que aprovasse. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor. portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. — Will deu de ombros. que diabos. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. ralhou consigo mesma por ter adormecido. e escute direito: estou cansado. Era só o que se via em termos de comércio. no entanto. Era um lugarejo comum. E isso se não o matassem antes! Além do mais. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades. Alguém buzinou. a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar.futilidade pensar nisso. Assim. Violão em estado de novo. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. Forçado a parar em um sinal vermelho. pingente em ouro com diamante de um quilate. O sinal passou de vermelho para verde. legítimas algemas policiais. Agora nós vamos entrar . com a visão turva e a boca seca. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. de modo que não podia permitir que lhe escapasse. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra. uma loja de roupas. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda. Ela suspirou e obedeceu. Talvez. Mas ora. Em vez de seguir adiante.

Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão. avisara. se preciso. quatro. idiota! Ele se voltou e. Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou. pois prosseguiu: — Como se atreve a. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona. — Dois. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. sim? Vou buscar a chave delas. — Cinco.. — Tem cinco segundos para ficar quieta. Kelly explodiu. lançando um olhar maroto a Will. com um brilho de desafio nos olhos verdes. Pedira. a fez lembrar que deveria ficar calada. — Eu me atrevo ao que for necessário. uma só palavra de você. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua.. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. E era tudo culpa sua. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. agora percebia que jamais o tivera. o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta. — E agora. mas nada adiantara. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. — ela Kelly prosseguiu. senhor. Assim que se viu a sós com Will. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos.. nojento. moça. Stone.nessa loja e não quero ouvir um pio. Era . — Sim. mas não se importava. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. lá fora — Will respondeu.. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos.. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista. Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação. Puxou-a para si até que estivessem face a face. logo atrás do balcão.. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa. que nada vira da discussão... Contrariado. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas... um. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja. lá no escritório. fizera ameaças. — Seu verme.. mas ninguém mesmo. com um olhar glacial. três. Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo. — Só um instante. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio. Em uma vitrina trancada. não é preciso. aqui está a chave! — disse o balconista. ao voltar do escritório. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly. Dito isto. pois estas coisas venderam como água.. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro. Ninguém. Will a fez calar bruscamente. furiosa. — ela o provocou. O rapaz. moça. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. Sabia estar agindo de modo infantil. — Oh. não sei por quê.

Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis. A polícia procurava um homem sozinho. — Sabe. Balançou a cabeça. carregadas de ameaças. Apontou algo na vitrina. Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar. calada. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida. Will só estava garantindo a própria segurança. foi adiante.. — Will hesitou por um instante. isto é. A farsa sugerida por Will era assustadora.. — Bem. Sabe como é. Na verdade. o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento. — Não é mesmo. Will o ignorou e permaneceu calado. afinal. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio. Mesmo assim.. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia. bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa. não um homem acompanhado de uma mulher. Em silêncio. se entende o que eu quero dizer. por fim.. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. claro que não. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento. Ela estava prestes a pôr tudo a . — Não. com um sorriso definitivamente malicioso. — E além do mais. Céus. com todos os diabos. ela não podia fazer o mesmo.. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz. Ela engoliu em seco. como que imaginando que tipo de clientes. perplexa.. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo. tia Millie é um pouco estranha. parecendo tão surpreso quanto Kelly. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela.. — Deixe-me ver aquilo ali. tinha? Não. podia? — Oh.. ah... junto ao par de algemas. por exemplo. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly.. haviam entrado em sua loja. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente. Aquelas palavras pairaram no ar. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo.. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. Para alegria do rapaz e desespero de Will. — Não! — Kelly respondeu. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou..tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários.. um pequeno e outro bem maior —. O balconista ficou a fitá-los. acho que estes vão servir. para espanto desta. Por que. muito menos da esposa. Lembranças. impulso do momento. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. mas Kelly.

duas portas de carro foram fechadas com toda a força. certo? — Kelly arriscou. E agora. Não lhe restava energia para tanto. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. para ser mais exato. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. ela se deixou cair numa poltrona. Sim. Largando a câmera e a valise no chão. Senhor e senhora Cooper. — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. quando o sol já se punha no horizonte. fechou os olhos e suspirou. Minutos depois. Por um longo instante em seguida ao beijo. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. vitorioso. A idéia de comer algo. — Tome — disse o diabo. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. sim! — Will retrucou.. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã. — Já sei. Estava faminta e cansada. Will parou numa lanchonete. o sopro cálido da respiração contra sua pele.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. Decorado em tons suaves de malva e cinza.. — Ah. assim que o motor deu o primeiro ronco. Em seguida rumaram para um hotel próximo. Chegaram a Seattle no fim da tarde. onde comprou sanduíches. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. — Pronto. — É isso aí. a raiva.. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. entregando o cartão de crédito ao balconista. batatas fritas e refrigerantes. a leve aspereza da barba por fazer. sem a menor delicadeza. mas ela não se importava com isso. quando ele já estacionava o carro diante da recepção. — Trate de descer e ficar quieta. tudo embalado para viagem. tampouco. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . mais próximo que nunca. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. aquilo era o paraíso. Era fácil notar que Will também estava exausto. ma no fundo não se importava. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. enfiou-lhe a aliança no dedo anular. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua. moça. você vai. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. trate de. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele.. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida. iam passar a noite ali. qual fora a sua reação. A menos que estivesse enganado. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque. Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café. senão a sua ao menos a dos outros. Aquilo devia ser piada. Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida. no entanto. Jamais devia tê-la beijado. porém. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. Em momento algum. No entanto.. revirado e gemido. Capítulo V Sentado na beira da cama. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado. onde um bolso rasgado sobressaía.. Bem. apesar dos tremores e do suor frio. No fundo. Sim.. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. Também precisava de algumas horas de sono. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. Algo que. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse... por sua vez.. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel. o fazia lembrar de muitas outras coisas. pedira para ser libertada das algemas. amargo. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. num claro sinal de desconforto. E então. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher. Ele mesmo o tinha rasgado. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos. deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina.. Ao longo da noite ela se havia debatido. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. Podia ter perdido tudo. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas. um fato que ele não podia deixar de admirar. Com um suspiro. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . inclusive o amor-próprio e a dignidade. Longe disso. Mitch fechou os olhos. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. Calça. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava. ou seja. Parecia muito mal acomodada. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças.lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho.. Memórias que a distância tornava dolorosas. aliás. mas agora teria que ser diferente. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. afinal? Não sabia dizer. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher.

De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora. moça. Quanto a isso. que no dia anterior. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei. apontando a porta do banheiro —. Ele não insistiu.. Will também parecia estar em péssima forma.. Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio.. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava.culpado. Ao perceber que ele ia realmente sair. se aproximou e abriu as algemas. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. moça. — Ei. mas não demore demais. mas desta vez não vai adiantar. para então caminhar em direção à porta. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso.. penteara os cabelos e . Will precisou respirar fundo e desviar o olhar. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar. — Quer que eu a solte? — Oh. se pôs em pé. Eu sou bem real.... Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. — Stone. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. Calado como sempre. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim. — ela murmurou. Will não fez conta das ironias de Kelly. embaraçado. A noite mal dormida na dureza daquele chão. Meu nome é Kelly! Como sempre. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. — Dizem que a esperança é a última que morre. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. — Ei. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. deixe-me ver. tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos. depois de uma noite inteira de repouso. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. contudo. — ela resmungou. Stone. céus. vamos logo! — Will chamou. apenas pousou a mão na maçaneta. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. você devia tentar! Além do mais. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. — Bem. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava. Apontou as algemas. Trocara de roupa. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua.. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. como se estivesse diante de uma questão muito difícil. Em silêncio. É emocionante. aonde você vai? Will não respondeu. Observando-a. acho que não. ele ignorou a observação. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo. ela fez questão de recusar o auxílio. dez minutos depois. porém. — Kelly. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram.

meus documentos e minhas credenciais de imprensa. — Devia saber. — mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. ao entregar os cheques assinados . mas que medo — ele ironizou. que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima. assine estes. Começou a busca pela carteira. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e. com um sorriso triunfante. Calado. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou. fez questão. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. que ele tratou de guardar no bolso. — Pronto — disse. pensou? — Bem. esse é o primeiro mandamento do manual do refém. Mais uma vez Will a ignorou. certo? — É isso aí. — Kelly argumentou. — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico. Acertou em cheio.. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele. nada a não ser meu passaporte. Ela obedeceu sem discutir mas. ácida. — Ei.. como sempre. Estou anotando cada centavo e saiba que.parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera. na verdade. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar. não é.. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço. sério. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma. — Esteja à vontade. — Kelly tentou corrigir. agora? Ele se limitou a fitá-la. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. de ter a última palavra no caso. se for necessário. Stone? Que vamos fazer. para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama. Eu vou sair e comprar algo para comermos. Colocou de lado o estojo de pó compacto.. Ele sequer ergueu o olhar. ríspido. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira. apressada. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa.. a qual constatou estar mesmo vazia. — Muito engraçado — ele resmungou. Recolheu os cheques espalhados na cama. Ao fechar . o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia.. — Isto é. sem pedir licença ou desculpas. — Tome. colocou dois deles diante de Kelly.. Apressada demais. Nada. moça. E agora que já dei o dinheiro. — Ela deu de ombros. Will olhou-a nos olhos.. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. moça. minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível. — Que pena. causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem.

Manobrou devagar o carro e. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros. contudo. cercado por um muro de pedra. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios. olhando em redor. sem pressa. ele cuidaria pessoalmente disso. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. em letras negras. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum.. passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si. Filial de atuação bastante modesta. pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas. não era o momento. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. Assim. outros problemas. pensou ele. que era operado por controles elétricos. inclusive. Muito além. com os olhos postos na estrada . guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco. pensou Mitch Brody. Desse modo. Para manter a própria sanidade. Bem mais adiante. E tinha mesmo que ser logo. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento. A hora certa não demoraria a chegar. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. Reduzindo a velocidade vez por outra. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. Ao ler aquele nome. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la. Agora. No alto do prédio. e que havia uma filial em Seattle. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco.. Tinha certeza de que aquela companhia era. Vinte minutos depois de sair do hotel. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. Havia algo de muito estranho ali. Ele respirou fundo. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. ainda ao longe. Aquele era um esconderijo perfeito. se olhares matassem.. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. — É. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. Uma chuva fina começou a cair. Junto ao portão de grades de ferro. sentindo um nó na garganta. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra.. cortando o centro em direção aos subúrbios. pois não lhe restava muito tempo. de algum modo. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto. antes. em San Francisco. prosseguia pela cidade. Sem descer do carro.. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. havia uma guarita. aliás. A lei estava era seu encalço. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão..porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. Mais à frente.

O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista. observando e pensando.. impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda.alguns metros à frente. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela. havia por ali que pudesse interessar a Stone. porém. se o seu automóvel ou sua vida. afinal. — Sente-se — ele insistiu. Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. Mitch. era difícil saber o que estava pior. . ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha. usando o seu canivete suíço para.. mas preciso ter cuidado. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. mas não estava com fome. Deu mais alguns passos Pelo quarto. Will Stone era inocente.. Dando a partida em seu velho automóvel. teria feito o mesmo. n0 lugar dele. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. disso tinha plena certeza. Não ficou surpreso simplesmente porque.. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. moça? — E se eu não parar. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. Porco agridoce à moda chinesa. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. Kelly obedeceu.. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. Tensa. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. Olhou em redor. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle. Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto. estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. Seu instinto lhe dizia. Sim. Com o passar das horas. De fato. E por falar em teia. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. jamais o abandonara nos momentos difíceis. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete. nada mau. no meio de um arvoredo. já teria alertado as autoridades competentes! De repente. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma. outra vez a caminho da cidade. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos.. Por algum tempo ficou à espera. por exemplo. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés. seguiu um pouco adiante para ver o quê.

E não me pergunte mais nada. ao ver a maneira . — E então. Ainda assim. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez.. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum.num gesto nervoso. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem. O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. — E então. Pequenas tiras de madeira. O que sentiu.. encaracoladas como os cabelos de Kelly. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê. no entanto. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. Será que conhecia alguém ali. pensou ela. o que vamos fazer. nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. Não. Will a fitou e disse: — Vamos esperar. em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se. exatamente. Delicadeza? Era estranho que logo ele. Will estaria planejando para aquela noite. pela manhã. o semblante sério. Parecia ter se enganado. no entanto. esperando sentir por ele uma raiva imensa. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. prepotência e amargura. a noite. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos.. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho. ao lado de sua valise. Um lado desconcertante. Will não conseguia esquecer aquele olhar. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade. que até então soubera mostrar apenas rispidez.. sua delicadeza.. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor. Kelly Cooper não conhecia o medo. com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas. — Sim. achou que seria um bom modo de começar uma conversa.. para seu espanto. — Bem. — A noite — ele respondeu.. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. Sua força. pensou Kelly. moça! Aborrecido. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. e dessa vez a levara consigo no carro. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar.. lacônico. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. isso era impossível. mas os seus olhos. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder. Não.

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

como se aparecesse do nada.. ora. — Ainda não viu esse cachorro. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor. em última análise. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado. ainda segurando sua mão. — Ora. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão. — Horário estranho para uma entrega de flores. É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. moça! — resmungou. O veículo. incomodando-a e tolhendo seus movimentos. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição. moça. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. Tudo o que havia em sua mente. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. mas Will não podia correr risco algum. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica.. — Sim — Will concordou —. O cão de guarda latiu. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. material para uma grande reportagem. com um gritinho abafado. era a certeza de que ali existia uma história.. Um muro alto. . um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão. tentando assim mantê-lo perto. — Quieto! — ela sussurrou. — Fique quieta. mas não pensava nisso. parando bem diante da guarita. — Além do sujeito na guarita junto ao portão. Algumas dezenas de metros à direita. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol.. Stone. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis.Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso. De repente. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta.. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. muito estranho. naquele instante.. e a convicção de que. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões. Algo que ela pareceu notar. se jogou ao chão e o arrastou consigo. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. Seu espírito jornalístico não permitiria. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. quando ela. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. porém. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos. ela não iria a parte alguma.. Antes que ele pudesse entender o que se passava.. não acha? — Kelly murmurou. mesmo que Stone a libertasse agora. — E ouviu mesmo. Ela. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott.. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher..

— Ei. ao ver que não obtinha uma resposta. afastando-se do muro e de Will Stone.. depois de cruzar os portões. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. . pousou as mãos no peito dele. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração. Kelly ficou estática por um instante até que. — Não consigo ver. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. Talvez estejam. agora.. — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. Como o contrário seria impossível. — Porque talvez não estejam entregando nada. — Kelly principiou. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou. — A voz de Will soou grave e rouca. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. Oh. mas dessa vez lhe deu as costas. Ele continuou em silêncio. numa tentativa de recuperar o equilíbrio. Ao longo de toda a sua vida. Kelly já imaginava o que Stone queria. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. ele a colocou no chão. Mas não era só isso. isto sim. Um de seus pés derrapou na terra molhada e. Enquanto isso. Uma vez lá ele se pôs em pé.. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. disse a si mesmo que tal reação era normal.. — Venha cá — ele sussurrou.. — O que está vendo? — Will rosnou.. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. Aborrecido. irritado com ela sem nenhum motivo lógico.. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso. espere aí. engatinhando para junto dele. apanhando uma carga. — Carga de quê? Ele se calou. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras. — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu. só o que Will podia ver eram as costas dela. Will a tomou pela cintura e a ergueu. como se. respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo.. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. Difícil saber ao certo. Até então usara apenas seu sobrenome. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante. Assim. mas. como se realmente se importasse com ele. de maneira tão feminina e suave. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. por mais que ele tentasse resistir. embaraçada.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro.

— Com todos os diabos. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. Afinal de contas. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia.. — Bem. Stone. — Escute. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca. Correndo atrás dele. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. mas é o que pretendo conseguir. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que. sim — insistiu. orgulhosa. mas Por certo não fora aquela. obrigado. que não estivera esperando tal reação. — Não simples remédios. você foi pego. como que ..— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu.. Encharcados e tremendo de frio. mas entorpecentes e drogas proibidas. ninguém o notou. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. precisa! — Por que acha isso? — Ora. o criminoso sou eu! — Bem. — Ah. sim. Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. sim! — Kelly se empertigou. tivera a mesma desconfiança. bem à vista! — Dez a um para mim. Stone.. Stone. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. um carro vermelho é algo difícil de não se ver. mas o problema não foi só o carro. num sussurro. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois. é? — Sim. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão.. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto.. no parque? Muito obrigado. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez. moça. — Então vai precisar de uma parceira. mas resolvi assumir esse risco. por fim. — Pode ser. — Você precisa da minha ajuda. preciso. segurou-o por um braço. — Você tem alguma prova? — Não. fítaram-se demoradamente um ao outro. de nós dois. seu voto de confiança me emociona. — Sim. — Pois eu aposto que foi notado. diante do forte aparato de segurança. se tentar fazer isto por conta própria.

os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. para só então voltarem a se erguer. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada. contudo. Pensando melhor. Ao lado da mesma. decidiu que tinha todo o direito do mundo. Caso fosse verdade. enquanto se esgueiravam de volta ao carro. para quê tanto interesse? Além do mais. Senão. Deitados na terra molhada. aliás... onde brilhavam pequenas gotas de água. o túmulo que ele fizera questão de visitar. Por um instante chegou a ficar preocupado. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa. e outra vez sem avisar. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. um ser humano em seu estado original. Afinal. cheia de folhas e galhos. a caminho do banheiro. apenas entrou no carro. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. porém. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will.medindo forças. exatamente. Kelly suspirou. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. o quê. Mas por outro lado. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. A polícia e aquela mulher. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. Não. apanhara no armário e jogara em sua direção. no entanto. nada a impedia de satisfazer sua . — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante. mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. afinal. Ao chegar ao hotel. depois da visita à Anscott. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. bastavam para atormentá-lo. avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will.

se é que existia algum. e depois de tudo isso. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. pode tratar de fazê-lo sozinho. sentindo-se subitamente culpada.. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. para sua surpresa. Guardados os retratos. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. para não dizer ordinária. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. Era uma peça comum.curiosidade. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. moça. as fotos ainda em suas mãos. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. Nesse ponto. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. mas pelo visto era pouco. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. foi a falta de volume daquela carteira.. — Ah. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. Kelly apenas o fitou. Nada de couro legítimo. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. Por um longo instante.. Pensando assim. já com alguma impaciência. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira. Bem pouco. abriu-a para examinar seu conteúdo. dois pequenos retratos em branco e preto. todavia. seus dedos tocaram em algo. muda. por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. . Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. O que impressionou Kelly. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. fazendo Kelly estremecer. na vida. num sobressalto. Incapaz de resistir. mas não podia evitar a pergunta. num gesto brusco. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. — Coloque de volta — ele repetiu. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone.. — Quem são eles? — Kelly perguntou. — Coloque-os de volta. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. — Não é da sua conta. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor. o outro de um rapaz moreno e sorridente. — Eu. ao verificar um último compartimento. para ficar revirando as minhas coisas. algo que o tornava ainda mais assustador. Curiosa. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira. a minha vida? Já me roubou e me feriu. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim.

quanta delicadeza. Will ficara ouvindo cada movimento. — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante. Will nada respondeu. Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis.. Por algum estranho motivo.. Mais uma vez. Muito grata. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. dessa vez bem mais alto. Uma vez só. Mas. escolheria mil vezes o chão. Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu. Céus. Não conseguia deixar de sentir por Kelly. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. — Oh. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre. Kelly ainda estava acordada. pareciam ter se . Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado. Seus pensamentos. Com toda a calma. na esperança de poder ignorá-la. ainda desejava isso. No silêncio que se seguiu.. a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional. seu. mas de nada adiantou. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado.. Sem que estivesse esperando.. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso..— Ora. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso. seu. mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. Bem. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado. um travesseiro voou como que do nada. Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. Além do mais.. Will virou-se na cama e lhe deu as costas.. no entanto.. Na verdade.. ele atravessou o quarto e apagou as luzes.. aquela noite fora bastante agitada. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença. Sim. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. para alívio de Will. Kelly tornou a gemer. sem que pudesse evitar. atingindo-a no alto da cabeça. nos lábios dela. Stone! Como já era de se esperar. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração. veio-lhe a imagem daquele homem nu. Uma hora e meia depois. mas não obteve qualquer efeito. cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta.. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos. Para piorar. por quê? Por que o seu nome.

Mas se era assim. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer. algemá-la na cabeceira. Se ele fosse tão decente quanto queria crer. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de. ainda que a contragosto. não? Afinal. Não. Por um breve instante. num único movimento. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação. Não fora? Kelly gemeu. de certo modo.. a trouxeram para junto de um peito nu.. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho... Will praguejou baixinho e. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz. Em meio a tudo aquilo.. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e. sentira que faziam parte um do outro. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo. Kelly Cooper estava em débito com ele. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos. Era um sonho estranho. Agora que pensava melhor.. Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama. Sim. as mãos pousadas em seu peito. logo agora. Tinha o pulso machucado. Confusa e ainda não de todo desperta.. se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber.. amordaçá-la e sair. — Não me deixe presa de novo. tivera suas próprias razões para fazer o que fizera. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro. as costas contra um muro de concreto. o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. Aliás. Ela voltou a gemer. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole. admitiu que acabava de ser derrotado. .tornado inseparáveis. E então notara as fotos nas mãos dela. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. não a tratara sequer com humanidade pois. O peito de Will! — O que você. ele não a tratara com gentileza. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater. pois fora a maior responsável por sua condenação. Raios. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel. Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor.. jamais a teria seqüestrado. na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. — Fique quieta. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will.no entanto. incapaz de raciocinar com clareza. logo após o banho. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade.. no qual tudo parecia gelado e hostil. Kelly não estaria agora deitada no chão frio.

segundo que Will não estava nu como imaginara. ele de fato lhe soltou os pulsos. Era como se. — Por favor. Ela suspirou. as curvas. Ou talvez porque. agarrando-lhe os pulsos. o que não era muito mas. a voz outra vez seca e direta. eles se tivessem fundido num só. enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. renovando suas forças. era melhor que nada.— Eu vou com você aonde quiser. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e. Fiel à palavra dada. ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si... Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. caso ele a quisesse algemar outra vez. aquecidas contra o peito de Will. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. sem a menor cerimônia. juntou-se a ela. — Vamos. está bem? Kelly não saberia dizer por que. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela. — Não vou algemar você e não vou sair. de tomá-la em seus braços e protegê-la. — Durma — ele ordenou. . deite-se. não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. naquele breve lapso de tempo. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. mas por favor. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel. Não conseguiu. com certeza... a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. — Pare de se debater que eu a solto. lutando e se debatendo como podia. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. — Não! — ela implorou de novo. antes que pudesse protestar. obrigou-se a se afastar dela. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante. no fundo. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração. mas acreditava nele. no entanto. — Pare com isso! — ele ordenou. rude. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. Perturbado. Como se as formas. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. Ergueu os lençóis para Kelly.

Afinal. recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone. hoje. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. Não. e no sentido mais verdadeiro da palavra... tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada. aquela seria uma relação impossível. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. Pensando bem. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. mas muito mal. de costas para ela. continuar correndo. Lá estava Will. a julgar pelo péssimo humor. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. percebeu que Will havia falado com ela. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista. estava atraída por Will Stone. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. Com um sobressalto. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. Will se voltou. Afinal também era uma fugitiva. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez.. um pouco antes de adormecer. Kelly acordou assustada. A despeito do frio que fazia naquele quarto. mas... no entanto. Não era. Sim. Vou mudar de hotel.. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher. ela o queria. Aos poucos. Ao contrário dele. Sim.. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional.. um presidiário fugitivo. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga. devagar. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. Alguma coisa. agora. — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele.. pensou ela. era um lugar quente. mas. — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes.. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . O quarto está gelado. Onde estava? Com certeza não era o chão. ponderou Kelly.O que apenas o tornava mais perigoso. macio e. Como ele. Ele a seqüestrara e. — Ah. O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. estava em guerra com o mundo todo. no entanto. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. o avisou de que ela havia despertado.

eu faço isso — disse Kelly. Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. — É isso aí — ela respondeu. Para cada ruga que conseguia eliminar. — As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas. sentindo-se ludibriada. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca. Will nada disse. — Acho que está bem no fundo. permaneceu sério como sempre.. na vida! — Calças molhadas. mas estavam sempre limpas e bem passadas. passados alguns minutos. ele criava outras duas. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor. saindo da cama. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. apenas sacou o canivete. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro. certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las. pensativo. mas não ousou tocar nesse assunto. Kelly continuou calada. Will. eu e uma série de babás. — Não é necessário. Ou melhor. — Will murmurou. claro — ela respondeu. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz. preferiu fazer um comentário menos direto. — Lembranças são sempre maravilhosas.. — Sim.. do lado direito. — ele comentou. ainda deitada. A tática funcionou.. — É verdade. mas escondeu a surpresa que sentia. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. — Pode deixar. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira. porém. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. por mais que os anos se . Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. Após alguns minutos. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. em minha mala. em silêncio. É um modelo de viagem.. mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém.. Já passei muitas calças. — O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe. como também é mestre em secar a ferro calças molhadas. — Sou uma mulher de muitos talentos. — Tenho um ferro de passar. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido. — Posso? Kelly o fitou por um instante. Ela concordou. Em vez disso. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos.mesmo lugar.

. Eu li a seu respeito — ele confessou. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. ele dedicado a seu entalhe.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. — ele riu sem vontade. intrigada. aqui está. contudo. Como que por um entendimento mútuo. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara. Podia ver isso em seus olhos. — Afinal. sem erguer o olhar. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will.. — Sinto muito — ele se desculpou. Will deslizou um dedo sobre o hematoma. visivelmente perturbado.. — Pronto. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. — É. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. foi Kelly quem quebrou o silêncio.. o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. no entanto. na prisão. não pudera e nem quisera se conter. Quando ela fez menção de se afastar. — Diga. Embaraçado como um adolescente. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta. Mais que essa constatação. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly. — Kelly murmurou. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele. nada importante — ela respondeu. às vezes. Não por falsa modéstia. — Jamais tive a intenção de machucá-la. Will a segurou por um braço e a impediu. ambos permaneceram mais algum tempo calados. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto... Kelly o fitou. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. mas simplesmente porque detestava falar a respeito. mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou. surpresa. mas não se iluda com as aparências. — Meu pai também viajava. diante dela. . Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. — Quantos prêmios você já ganhou. além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio... Com extrema delicadeza. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. Alto demais. — Eu sei.. — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. ela secando a calça aos poucos.. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém. Aliás. evasiva. Transcorridos alguns minutos. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. mas naquele momento. — E então.

O problema .. Quanto à pergunta de Will. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. Na verdade. não é? Depois da conversa daquela manhã. mirando o fundo daqueles olhos verdes. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. moça. Mais que inquieta. Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro.Confusa. Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio. para então espirrar. é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. O que não significa que tenha. ela passara a sentir-se inquieta. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. — Ah. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. mas. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. — Sinto muito. Por razões que Will não saberia explicar. Dito isto. Não tinha mais nada a dizer. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. diga-me como devo fazer. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. Mas. devo dizer. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. acha? — Talvez. — Kelly deu de ombros. será que não estava enganada? Afinal. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. como fizera no outro hotel. — E graças a você. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will. Will os registrara como marido e mulher. necessariamente. A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. ela se limitou a fitá-lo por um instante.. na verdade: ficara assustada. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu.. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. Sim pois. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem. capturado a verdade.. — Afinal. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. Faz um julgamento daquele instante.

a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. — Poupe-me de seus conselhos. você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera. Afinal.. De fato. Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda. culpando a Anscott? — Moça. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. — Você tem esperanças de provar a sua inocência. para quê tudo isto. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu. se não pretende provar sua inocência. Quem venceu foi esta última.. Então. a jogara pela janela.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. E mesmo assim.. — Não. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe. Kelly o fitou. Pronto. — Ninguém acreditaria.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças. — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. sim? — ele retorquiu. — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é. séria. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. sarcástico. Não. ela não sabia ao certo.. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido. E pode ficar tranqüilo. — Preciso. eu. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe. moça.. Kelly se calou e o fitou. moça! — Dito isto. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. ou melhor. de nós dois o criminoso é você. — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. porém.. — Não preciso saber de mais nada.. sim! — Ah. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. — É. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda. como uma imagem fora de foco que de . — Seu irmão? — Sim. então? — Como já lhe disse. você está certo. O quê. é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão... Não mesmo! Aliás. — Kelly deu de ombros. A seu lado..

pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços.repente ganhasse definição. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. pensou Mitch. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. ao menos por ora. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. Ótimo. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. Em tempo algum olharam em redor. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira. Não tinha dinheiro para quase nada. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. um imenso vazio denunciava a emoção contida. — Tem duas opções. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. Suas dívidas se acumulavam. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. casa e emprego. dormindo sentado. mas sua vontade valia pouco naquele caso. para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. As palavras de seu superior. Em seus olhos. por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. Seu novo trabalho. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. enfim —. Dessa vez. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. observando dali o movimento na portaria da empresa. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho. Pare de sentir pena de si mesmo. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. Ele perdeu o equilíbrio e foi . pois não tinha idéia do que dizer. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. era quase o mesmo que não ter trabalho algum. do lado de fora dos portões da Anscott. caso fosse pego. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. aliás. não pensou em nosso filho? — Papai. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance. Não queria ser notado. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar. ele ordenou. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar.

— Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades.. — Você joga duro. Zonzo de surpresa e dor. Da janela. Tudo nele inspirava leveza e agilidade.. pela décima vez. seco. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado. a despeito da dor. duas.. três vezes em seguida.. — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel. no entanto. talvez devesse ter pensado duas vezes. embora de porte físico menos maciço. Isso por certo significava alguma coisa. a porta do quarto se abriu. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão.lançado com violência contra a lataria. Este obedeceu e imaginou. antes de se envolver naquilo. foram seu olhar sombrio e desconfiado. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. Lado a lado com Will. que conferiam a Stone um ar agressivo. Sim. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. Will fitou o detetive por um momento. acho que vou morrer de pneumonia. continuava a lutar. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. — Escute. quase que no mesmo instante. era tão alto quanto este. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele.. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. não? — Não. como se tivesse algo de felino.. se não estaria cometendo um erro. não só a Will. Um leopardo ferido que. aquele homem parecia um enorme leopardo. um homem louro de meia-idade. isto não é um jogo — Will respondeu. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois. A despeito da escuridão que reinava no estacionamento. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação. Sim. ainda massageando o braço. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo. se é o que está pensando. — Oh. O que mais lhe chamou a atenção. — Mitch deu de ombros. — E o que mais acha que eu poderia pensar? — É. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! . Ao entrar no quarto o desconhecido. por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer. Com um gesto. — Olá — ele a cumprimentou. antes de concordar. me desculpe. você está certo.

antes de desaparecer. E bem depressa. — Continue — disse Will. — Mitch arriscou. mas há muita gente atrás de você. — Sente-se — ordenou ao visitante. Pela expressão em seu rosto. Stone. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. nessa briga? — Porque. Dinheiro que. Stone.. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott. — Por que estaria interessado em ficar do meu lado. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento. sem muitas pretensões de convencer alguém. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato.. tecnicamente. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso.. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas. — Obrigado.. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom. — Tente outra história. — Bem... tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso.. que você não mencionou. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. voltou a atenção para Mitch. Não sei se tem visto os noticiários. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos. Kelly o fitou por um instante.. Espirrou mais algumas vezes. . está certo.. num tom neutro. Alguém que o usou para deixar a cidade. Como antes. Em vez disso. — Vou abrir o jogo.. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. Sr. Tomara um havia menos de uma hora. — O que acha? — Por enquanto não acho nada. Prossiga. E agora o Sr. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história. porém. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas. então. Brody. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma. — Ele se voltou paira Will. — Você mesmo me disse que. Bem. mas eu não preciso de um fã-clube. — Detetive particular? Ora. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado.Will preferiu ignorar o comentário. — O detetive respirou fundo e deu de ombros.. — Está certo. para variar. um fato. Não é uma proeza pequena. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. aliás.. Brody! — Talvez não. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. também não foi encontrado com Stone. ela não teve tempo de pensar a respeito. — Bem. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. — Ele tornou a olhar para Will. alguém se apoderou desse dinheiro. aliás. Se querem saber o que penso.

muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio. — Kelly balançou a cabeça. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso. acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda. tenso. também... E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. Não sabiam sequer que tinha um irmão.. — Ele abriu um breve sorriso. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou. — Se ele fugiu para Los Angeles. . — É isso o que você pensa. mas nunca foi um viciado.. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. — Não entendo. Brody? — Pode me chamar de Mitch... decerto não notaram a relevância desse detalhe. Sr. — Sim — Will replicou. deixando-a sonolenta. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. De fato. — Bem. — Ora. certo? — Kelly argumentou. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína. A angústia era transparente em sua voz. — O que aconteceu com o irmão de Will. intrigada. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. pois para eles isso pouco importa. brusco. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa. ou preferiram não notar. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se. — Ele pode ter sido. Mitch apenas confirmou com um gesto. indo direto ao ponto.. — Will hesitou. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim. O remédio para gripe já estava fazendo efeito. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel. Foi enterrado como indigente em San Francisco. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma. Aliás. Pelo modo como Will franziu a testa. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros. talvez não. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele. — Mitch olhou para Will.. — Exato. calado. — Quando consegui localizá-lo. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber. Ao que soubessem. como se lhe custasse muito dizer aquilo. Aos olhos da acusação. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam. Em caso positivo.. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia.. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou. — Quero dizer.

com a voz trêmula de emoção. — Bem. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott. se voltou de repente. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. que até então estivera de costas. por ora. Mitch. Stone. Ele telefonou para o seu advogado. — É uma descoberta recente. para saber o que fora feito do corpo. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório.. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles. você nunca me contou isso! — ele acusou. Guardei para você. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly. — Brody. e quero tomar parte nisso. — Mas não explica por que vinha nos seguindo.. tudo isto é fascinante.. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou. ainda encarando o detetive. olhando pela janela. Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. então liguei para ele. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado. Vamos deixar nesses termos. — Se querem mesmo saber. — Exato. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott. — Eu as quero.— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro. — Kelly espirrou.. Apreciava tal demonstração de sensibilidade. em respeito aos sentimentos de seu cliente. ao longo da conversa. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários. Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável.. .. — Antes que o outro pudesse protestar. Kelly percebeu que. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. — Eu sei. dizendo que precisava falar a respeito do caso. Marcou um encontro com seu irmão. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos.. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. — Bem lembrado — Will interveio. Will. Na verdade. Seu irmão tentara fazer a coisa certa. — No meu escritório. — Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. que me contou a respeito do encontro. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão.. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. Por fim. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote. Como ele não compareceu.

— Como eu disse. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. — Estou impressionada — Kelly resmungou. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. — Acho que vou... mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto. a fuga de Stephen... para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas. parecia mais desperto e atento que nunca. que acabara de trancar a porta do quarto. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. o fez com mais rispidez do que pretendia.. — Hmm. E para a terrível necessidade por um gole. — Bem. um só gole de bebida. de modo que quando se dirigiu a Kelly... — É.. na verdade. Além do mais.. — O que você acha disso tudo? — ela murmurou... Queria demais aquelas plantas da Anscott.. você sabe. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É.. — Muito justo. — ela concordou.. — Mas ele está certo.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado. — Como? — ela perguntou. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados. não sabe? — perguntou Will. vá se deitar — resmungou. Mas já joguei limpo e de acordo com as regras. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara. Já teria avisado a polícia. seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. Will.. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás. — Você sabe que isso é ilegal. Coisas demais. — Kelly gemeu. você pode apostar que sei. já o teria feito desde o início.. cruzando a passos incertos os poucos metros . a mágoa que tal covardia lhe causara. sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite. antes. se fosse o caso. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial. Brody. — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque. — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia. Kelly deu de ombros. Will. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco.. Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. Stone. e perdi. tenho as minhas conexões. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez. sério.. — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will. pensava um monte de coisas. tonta. ao contrário. mesmo. para o desconforto do banco de seu carro. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu. — Ande. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos. Esse era um sentimento que o perturbava. Não.

Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. — Você não vai fazer nenhuma besteira. No entanto. Quando fez menção de se levantar. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia. Sim. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will. por algum motivo. Vendo-a estendida na cama. ele a deixara sozinha no quarto. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco. Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele. Assim adormecida ela mais parecia um anjo. depois de um banho rápido. eu. as pálpebras pesadas de sono. O quarto. Com toda a certeza. e com um futuro ainda mais incerto. Ela se mexeu.. Além do mais. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e.. ficou imerso em uma agradável penumbra e. — Eu. Abriu devagar os olhos. pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. num tom muito mais brando. Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava. Não só ela estava sem condições de sair dali. Will engoliu em seco. num gesto terno. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper.. Céus. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física.que a separavam da cama. imaginando se não seria melhor algemá-la. Gemeu baixinho. que dormia a sono solto. mas nem por isso menos adorável. mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. Respirou fundo e desviou o olhar.. Embora de forma indireta. porém. sem que pudesse evitar. Minutos mais tarde. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. E Kelly ficara.. Kelly o segurou por um braço. quero dizer. — Olá. Sim.. — ela olhou nos . ela já havia dado provas de que pensava assim. porém. não é? Na Anscott. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil. que lhe tocava o coração. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. contudo.. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo. No mesmo instante. como tivera a chance de fugir e não o fizera. Will parou e olhou para trás. — ela sussurrou. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. — Volte a dormir — ele repetiu. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair.. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las. seu olhar pousou em Kelly. — confusa e sonolenta. se deu conta de que era uma idéia ridícula. A meio caminho do banheiro. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. porém. Essas coisas. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia.

Por outro lado. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro... Sim porque. Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história. Tolo por acreditar em milagres. ter sua participação aceita. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão. do lado de fora do carro... apenas talvez. mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. e tudo vai terminar bem.. ao menos uma vez. Will respirou fundo. sem rodeios. Naquele instante. sem saber que decisão o outro havia tomado. dessa vez ele pudesse vencer. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça. ao deitar-se na dureza do chão. Mitch usou a outra para abrir a janela. — Então você vai ficar livre. Alguém iria pagar pela morte de Stephen. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava..olhos de Will. gritou para si mesmo. E naquele instante. odiando a si mesmo pela mentira.. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. — Não vai entrar lá com. vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza. mas é claro! — Will murmurou. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. mas com uma condição. — Você não está mentindo para mim.. para ele. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott. Nada jamais terminava bem. . Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais. Tolo. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. — Oh. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will. Acreditara que talvez.. enquanto ouvia Kelly falar. não só queria que a justiça prevalecesse. em silêncio. sério e calado. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido.. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. eu terei minha reportagem. certo? Certo? — Certo — disse Will. — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está. E por mais que tentasse. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante.. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito.. pensou.

. haviam seis salas. — Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel. Ela. — É. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. perturbando-lhe a concentração. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch. — Bem. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou.. — Sim.. certo? — disse Kelly. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. O furgão da floricultura entrou aqui. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. Will e Kelly. e neste fica a produção. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. — Este canto é ocupado por escritórios. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão. — Vejam. há uma porta principal que separa esta ala do restante . — Não que eu seja um especialista no assunto. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali. pelos fundos. então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will. — Will apontou as divisões expostas no projeto. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. Mitch.— Pode dizer. além de um sujeito no setor de carga e descarga. Tudo está claro e bem explicado demais. com um ar mais grave que nunca. vejam. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. salas e corredores da construção. — Eu dou as ordens. entrar. de acordo com a planta. — Faz sentido — Kelly concordou.. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência. Horas mais tarde. Diante do comentário de Mitch. verificavam as entradas. Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. ajoelhado aos pés da cama. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum.. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui. lado a lado. — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. Mitch sorriu e deu de ombros. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. no entanto. o mesmo se aplica a todos estes papéis. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. acho que posso suportar isso. estudava o sistema de alarmes do prédio. o desespero com que ele desejara beijá-la. Era um grande corredor no qual. Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga. apanhar as provas e sair. todas muito bem pagas. com isto aqui. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição. Apontou a área onde ficava a produção.

Kelly olhava não em seus olhos castanhos. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. — Em primeiro lugar. temos que encontrar um modo de entrar no prédio. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. pode ser qualquer um: cartão magnético. — Bem lembrado — Mitch concordou. continuaremos sem o cartão. E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. Kelly começou a espirrar de novo. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo. E aqueles lábios. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. — Estou pensando. — O dono. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. a barba por fazer. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais. Talvez não tenham percebido. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou. impaciente. claro. Ele tem urna carreira nesse setor. então. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica. os três estavam sentados no chão do quarto..do prédio. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável. Lá pelo final da tarde. Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. Kelly. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. Constrangida. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. nele pareciam apenas realçá-la. mas não para ele mesmo — Will insistiu. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. teclado com senha numérica.. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. mas o que havia em redor deles. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. — Eu discordo. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. — Quanto ao atual administrador. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will... — Talvez. — E quanto ao tipo de sistema. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. — Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens. hoje em dia. ou donos. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. — Está bem — interveio o detetive —. Não há indicação específica na planta. depois de passar por muros. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will. — Estou pensando — disse ela. vencida pelo sono. mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. deviam ser. O cabelo despenteado. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio. sempre atenta. devorando uma pizza de queijo. guardas e cães. — Alguma idéia? — Will perguntou. bem sucedido. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu.

. hã.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça. Mitch abriu um sorriso largo. — Mitch sorriu. intrigado. certo? — B-bem. — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono. sim. . mas. Durante vários segundos silenciosos... Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior. Kelly e Will se entreolharam. — Obrigado. — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado. — Acho que estou. — Alugue um quarto. Mitch se levantou.. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. Hesitante e embaraçado. Will continuou. pigarreou e prosseguiu. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido.. caminhou até a janela e olhou para fora. depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. parece ter um número infindável deles. Consultoria Califórnia. homem! — Will insistiu. ou melhor. esta madrugada — disse Will. afinal. não está? — Sim. como Quantex. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la. — Quer vir junto. fitando um ao outro. mesmo.. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade.. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. eu não preciso. O que foi impossível descobrir. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e.. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças. — Vou vigiar os portões da Anscott. Mitch recusou: — Eu.. Diamond e Santico. mas. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores. por fim. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. — Então trate de alugar um quarto e descansar.. — Will olhou nos olhos do outro. Brody? — Ora. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem.. mas ninguém tem o controle acionário. — Ainda está trabalhando para mim. no limite da exaustão. — Ah. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta. por exemplo. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch. Parecia cansado. — Se bem me lembro. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou. sem jeito. — Esse laboratório parece não ter um dono. — É. De repente. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada. — A quem. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott..

— Boa idéia. — Acho que posso investigá-la. Kelly sentia o tempo correr contra eles. Tenso.— Você sabe jogar duro. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. nem que vivesse até os cem anos de idade. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. De repente. Enquanto isso. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. mas dessa vez não a feriu. oferecer o quarto a ele. hein. caindo ao chão e espiando em redor. Como um manto negro. sem perder tempo. O tom da voz dele soou áspero. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. como sempre. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. algo de que Will parecia compartilhar. desta vez acompanhada de sua câmera. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. se puder — disse Mitch. A uma certa distância dali. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. até parar diante do portão. na primeira noite? — Mitch perguntou. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. Mitch e Kelly. mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo. também — observou Mitch. Uma . Kelly espirrou. não se esqueça disso! — disse Will. o cão de guarda começou a latir. Will. — A que horas apareceu o furgão. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele. — Vamos ver quem é o dono. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. — Foi muito gentil de sua parte. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. porém. teriam que fazê-lo o quanto antes. este a estava observando. — Desculpem! — ela sussurrou. Nunca. Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. — Abaixem-se — Kelly alertou. — Está bem. — Não sei. — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite. Com isto o detetive se retirou. — Pois é. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. Mais perto agora que da outra vez. Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. — Faça uma foto. Era o único ruído por ali. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol.

— Claro. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. em plena noite de domingo! — Realmente estranho. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. Pensou em Will. Mitch. Agora. . — Interessante — Mitch considerou. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. — É verdade.. ou talvez ao longo de toda a sua vida. embora dissesse ser inocente? Céus. Menos de vinte minutos depois. — Dessa vez foi Will que respondeu. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas. faltou ontem e tornou a aparecer hoje. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. — Consegui — sussurrou Kelly.. Ao passar pela guarita.. que contava com uma boa visão da frente do prédio. — Bem. sem ninguém? Ou será que. dali a alguns minutos. deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. Em parte por saber o que tinha à sua espera. — Grande garota! — Mitch elogiou. — Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. outra vez. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. também. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou. e agora? — perguntou Mitch. no entanto. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos. — Faz sentido — Will ponderou. — Vamos ficar mais um pouco. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade. parecendo calmo e indiferente. Will procurava não pensar em nada.foto. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite.. não acha? — Will comentou. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. duas. imaginou o que seu filho estaria fazendo. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um . está indo para os fundos do prédio. — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial. — Kelly fez mais uma foto do guarda. três e o furgão saiu de seu alcance. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. fora forçado a trilhar aquele caminho? . Sim. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. afinal se estava doente não deveria sair de casa. estaria achando tudo muito estranho. Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. àquela hora. Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. sentado no chão úmido. que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. domingo. nenhum deles falou muito. Will. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. chamou os companheiros e apontou: — Vejam. como ela própria. no entanto.

o homem se voltou em sua direção. Por causa da distância e da pouca luz. — Psiu.. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida. Só que você não respondeu. curioso. inquieto. E naquele momento. Brody. por que está fazendo isto? — Will perguntou. Com justiça e honra. — Oh.. com esses vidros.. no entanto. Mitch se remexeu. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. um dos vidros começou a baixar lentamente. — Bem. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. — Kelly murmurou. ontem. por exemplo. Isso. porém. desça mais! — Olhe lá. — É. e me senti bêbada. rosnando e latindo como louco. Ao ouvir a palavra bêbada. A coruja tornou a piar e então se calou. — Mitch deu de ombros.. — Não. não o faria mudar um só detalhe de seu plano. Em questão de segundos. obrigada. Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás.. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. como que esperando também pela resposta de Mitch. — Kelly anunciou. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. — Bem que uma das janelas podia estar aberta. com a maior velocidade possível. vamos lá. — Raios! — Will resmungou baixinho.. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou. Stone.metro de distância dele. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper. — Quero dizer. pegue o sujeito! — Will sussurrou. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele. No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros. Já tomei remédio. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. enquanto a limusine atravessava os . o silêncio que pairou entre eles foi total. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. já que se pôs a correr rente à cerca.. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. mais para si mesma que para os dois homens. Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais. Durante dez minutos. eu sei.. — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. — Diga. Com um gesto rápido. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou. ansioso. — Difícil saber. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. Mitch resmungou um saúde. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos. Além do mais. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou. em direção ao arvoredo. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. como se suas preces tivessem sido atendidas. Então.

— Ou teria sido número oito e letra C? Céus. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. Sim. estavam os três novamente no quarto do hotel. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores. Se conseguira ou não. — É. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que. E como seria se. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno.. porque o detetive também estava fugindo. — Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional. pode ser — o detetive resmungou. — Não sei — disse Will —. no desespero da fuga. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo. saindo e fechando a porta atrás de si.. a ansiedade explodira entre eles. de algo que Will ainda não sabia o que era. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. às pressas e sem muito êxito. — Nove da manhã. . Mas o fato era que ela estava. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse.. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo. — Estava escuro. Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. — Ótimo. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. na verdade. — Aqui. já tinha muito com que se preocupar. — Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. agora não tenho bem certeza. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços. Não pude ver. encontrei um — disse Will. Quanto mais cedo. — A que horas abre? — Kelly perguntou. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la. intrigado. Will concordou.. já de saída para seu quarto. retirando o filme de dentro da câmera. Brody. — O que é que você achou? — ele perguntou. era algo que teriam que esperar para ver. mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora..portões.. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer. melhor.. Era um sentimento que não desejava a ninguém. com um gesto..

orgulhosa. E que Will estava presente. como você é teimosa! — Sou mesmo.. — Por um instante Kelly franziu a testa. Will fora dormir no chão. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. quando ela acordou assustada. — Diabos. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico.. que não havia algema alguma.. conferindo-lhe um tom prateado. E perdera de fato. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. saindo da cama em direção ao banheiro. — Ela balançou a cabeça. sem compreender.. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will.. Sim. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. convencido de que ela não iria fugir. Engraçado. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante. mas quase que no mesmo instante ela constatou. — Como assim? — Não sei. — Não precisa ser santo. nada. ele fitava a noite em completo silêncio. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. sombras. pensativa. com as mãos na cintura. porém. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. mas então deu de ombros. o que ia dizer? — Will quis saber. Na noite anterior. Será que faria o mesmo. aliviada. moça. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. — Ah. Seja como for. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou. mas. seja apenas um pouco menos. pode parecer esquisito. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou. — Vá logo dormir — ele explodiu. — Bem. formas e . — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. — Oh. mas. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. Kelly finalmente adormeceu. Parado diante da janela. Poucos minutos se haviam passado. Esqueça! — Não. como se tivesse perdido por completo a paciência. com Kelly e consigo mesmo.. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. algo naquele homem me pareceu familiar. Corpo que já tivera bem junto de si. — Bem. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes. na Anscott — ele se explicou. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão.— O que achei? — Ela o fitou. e daí? — Ela se empertigou. colado ao seu.

— Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada.tons. — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe. sim? — ele pediu. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo.... evasivo. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa. À luz difusa do luar. A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly. — Will. ouvir os sons da noite. Se quer saber. em meio à solidão da noite. Will voltou a cabeça para fitá-la.. — Eu estou fugindo da polícia. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu. não me venha com essa. vingança? — Kelly perguntou. Ver a lua e as estrelas. Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo. mas não conseguiu. num tom suave. está morrendo de medo de falhar. que não ganhe uma dúzia de prêmios. — Não entendi — ela resistiu. por aqui. mas havia mais que isso naquela cena. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo. moça. grata pela escuridão quase total do quarto. sem obter resposta. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. na prisão. Pode partir quando quiser. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. calada. tudo bem. Se a pergunta o pegou de surpresa. após um longo e angustiante silêncio. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa. ora! — disse Kelly. — O que está tentando provar.. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. Will não o demonstrou. . — A lua — ele respondeu. orgulhosa. seus olhares se encontraram.. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora. Na melhor das hipóteses. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo. — Ora. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora. era disso que eu mais sentia falta. jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama.. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa... a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão.. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas. sem se voltar. Por fim. Havia algo de intangível. tocar a escuridão. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito. — Coisas como.

Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si.. Fale-me de você. — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou... talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. agora. — Kelly balançou a cabeça. — Will mal podia crer no que estava fazendo. com um sorriso triste nos lábios.. Nem todas vão embora — disse Will. que precisasse de outra pessoa em sua vida. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. também! — Não há nada para falar a meu respeito... — E quanto a você.. vamos. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. Minha mãe morreu. — Pode ser. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos. — Não sabe nada a meu respeito. — Faça de conta que acredito. Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. — Oh. — Ela deu de ombros e suspirou. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável. embora estranhamente acreditasse nele. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. — E ele tem razão. já disse. então — ele insistiu. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar.. que quisesse. Precisava se proteger. antes. Como em outras ocasiões. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. — Não seja ridículo — Kelly respondeu. Will estava sendo ainda pior. Nada! — Então me conte. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. apenas talvez. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. quando diz isso? — É. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. claro. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. — Ora.A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly. cínico.. — Todo mundo. Talvez. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. — Escute aqui.. está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. E no entanto lá estava ele. Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher. — Eu não tenho medo. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida. Stone? Vamos conversar a seu respeito. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. Ela se calou de repente e baixou a cabeça.

não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou. Os cabelos cor de fogo. — Por quê? — Kelly perguntou. carnudos e tão tentadores.. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações. Como um vampiro. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo. sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo. a pele branca banhada pelo luar. não dissera nada quanto a chamar atenção. — Não. Foi você quem começou com isto! — Olhe. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura. caso aquilo fosse um espelho. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. — Volte para a cama — disse ele. lembra? Will engoliu em seco. Macios. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. — Você não existe. deixando-a tontas enfraquecida. e que desejava beijar de novo. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la. ousada.. Mais que tudo.. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. vou acabar beijando você. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou.. Tomou a olhar pela janela imaginando que. você parece bem real. porém. — Com o devido respeito à opinião de seu pai. ainda fitando a lua.dos outros através da perfeição. como eu já lhe disse. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar. Diante daquela confissão. pensou que seu coração fosse parar de vez.tom ríspido e cansado. Lábios que ele beijara uma vez. para mim. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. Sabia que ela o estava provocando. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto. a voz mais rouca que nunca. — Isso é impossível — ela murmurou. — Volte a dormir — ele resmungou. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha. A partir desse instante. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. E quando a viu tão próxima. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. mas através de seus defeitos. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will. que também não deixava de ser um desafio. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que . num. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça.. — Não se pode falar do que não existe. porém..

abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos. — Ande. tentando levantar um assunto mais leve —. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura. Seus lábios. — Isso é bom — Kelly comentou. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte..permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. teve toda a madrugada para pensar se teria. pela manhã. Lábios que se abriam devagar sob os seus. — Vá dormir! — Will ordenou. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. Kelly voltou para a cama. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono. fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços. Ele a queria. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento. ou então para o norte. O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. de fato. num doce convite. Tinha. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. que Will Stone existia. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. ofegante. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. como você — Kelly perguntou. Will. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. ou estou vendo filmes demais na . Com um murmúrio abafado. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. contudo. Dominado pela paixão. em toda a sua vida. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse. rumo à fronteira com o México. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda. molhados e vermelhos. O consenso geral é que você está fugindo para o sul. enquanto tomavam o desjejum..os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. — Sim. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia. Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. em direção ao Canadá. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. entregaram o filme no laboratório fotográfico. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. Mitch e Kelly. Deitada sozinha. No momento em que o vira. se arrependido se houvessem feito amor. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa. evitava olhar na direção dela. vá dormir! E vá logo. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. da maneira mais eloqüente. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. mas não conseguiu dormir. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não.

Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta. é o furgão. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos . — Um curto silêncio se seguiu. E havia mesmo. no final do monte. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. — Não foi culpa de ninguém. aqui está. Sem palavras. e sim contra a própria incompetência. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível. mas não contra as condições precárias em que fotografara. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. — É. mas. — Ah. E quando Kelly já pensava que não. voltou-se para fitá-lo. — Eu e ele éramos parceiros. cabelos negros e um enorme bigode. Assim que chegaram ao carro. eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e. Mais tarde. Kelly resmungou uma imprecação.. começou a olhar as fotos. ao ver cenas de uma festa. Não agora. — Parceiros? — Kelly o fitou. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. — Kelly colocou para trás. porém. aliás.. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte... intrigado... — O que é isso? — Mitch perguntou. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. iria mesmo responder. mas não respondeu de imediato. eu costumava trabalhar com esse policial.. a voz de repente tornada mais rouca. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. No caminho de volta para o hotel. também. — Tudo bem — ele murmurou. Ansiosos. Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior.. Cinco delas.. as quatro fotos da festa.televisão? Mitch a fitou. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. Seus olhares se encontraram e então. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly. — Não. — Eu devia ter feito melhor. — Ontem à noite. Quinze minutos depois. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. — Ótimo — Mitch exclamou. Kelly abriu o envelope e. — Calma. mas não há como ler o número da placa — Will observou. ao ver a foto seguinte. ansioso.. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. intrigada. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro. estava escuro como o diabo! — disse Will. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho. num gesto terno e reconfortante. tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou. — A culpa foi minha. — Nada. quem sabe. — Raios! — Will praguejou. não está nada bem! — ela discordou. Will e Kelly compreenderam a deixa. — Nesta aqui há. como na sexta-feira.

. Nesse instante Mitch.. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato. — A Santico. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly.escuros que chegara na limusine. também. — Santico? — Kelly repetiu. E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim. com um ar misterioso. — ele comentou. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. — Saúde — Mitch sussurrou. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. apanhou as quatro que colocara para o final. de modo que as deixou de lado. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. — Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim. Quando dei o número da placa.. — Mitch sorriu. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem. Deixando de lado essa foto em especial.. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. — Não me pareceu. porém. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista. — Não. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. — Ah. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. as peças começavam a se encaixar... se aprende logo a confiar no instinto.. — Ela balançou a cabeça. — Sinto muito. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone. — Engraçado. E quando se é um policial. Onde? Não fazia idéia. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho. eu acho que não. — Deixe-me ver — pediu Mitch. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé. — E quem é — perguntou Will.

— Eu. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais.. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. — São dois homens uniformizados. dentro de uma caixa de isopor com gelo. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras.. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. Kelly percebeu Will se remexer. Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e. ao lembrar daquele beijo. As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. Nem todas vão embora. — Outro disfarce. Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. Dentro havia um aspirador de pó. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado. No mesmo instante. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. sério. depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson. — Bem.. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. sentir os lábios dela. Mesmo na escuridão quase total podia ver. Na verdade. nenhum dos dois . fora terrível e demorara uma eternidade para passar.. assim que a pousou de volta no chão. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados. você pode eliminar mais três — Kelly observou.. — Aí é que você se engana. inquieto.. — Will resmungou. E por falar em gelo. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei. ou melhor. ela prosseguiu. a boca tão úmida e macia. — E então? — Will perguntou. como o da floricultura? — Will arriscou. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa. rapazes. deixando claro que desejava mais dele. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch. A noite anterior não fora das melhores. Também no furgão. a língua tocando e acariciando a sua. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott. sorrindo. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. Muito mais. — Só esperando para ver — disse Mitch. — Na verdade. vários punhados de carne moída. — Kelly sorriu.— É. você e Mitch! Will a fitou. — Menos dois na sua lista. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano.

Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia. com os olhos verdes a faiscar de ódio. — Não se esqueça.. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch. Eu ainda não sei como. Will já desceu do carro resmungando. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. Com tantas mulheres bonita no mundo. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. Incapazes de conciliar o sono. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will. Ele nada disse. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. Chamava-se traição. moça. O resultado não poderia ser 0utro . — Já cansei de ouvi-la falar em processo. que havia chegado ali uns dez minutos antes. Sim. no estacionamento do hotel. até o dia amanhecer. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. moça! — Will gritara.. mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto.conseguira descansar. — Avise-os. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. não é? — ele pousou as mãos na cintura. — Oh. moça. dois ânimos exaltados. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. . em seus olhos. Kelly. assustada. Ela se voltou. Stone. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. — Esqueça... mas a acusação estava ali. Rachel. um detalhe que não havia notado antes. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. Will não lhe contou? — dissera. como que vindo do nada. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. Surpreso. — Não se preocupe. tão clara como se Will a tivesse gritado. depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. Kelly na cama e Will no chão. — Ah.. mas manterei contato. estava de costas para a porta e falando ao telefone. por favor — disse ela. ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens.. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele. furioso. por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. obrigada. — Estou aqui com ele. — Seja original — ele continuara provocando.

Com toda a força. — Como pôde acreditar que eu faria isso com você. fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. como se não tivesse percebido que a estava segurando.. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento.. — O que você esperava que eu fizesse. aqui em Seattle. — Seu idiota! — ela gritou. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. eu não estivesse lá para atender. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar. que ele também estava sofrendo.. na Europa. desde hoje de manhã. mas a dor não cessou. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. você está me machucando. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. porém ainda me recuperando. Só o que tem feito é gritar. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. Bem. num gesto dramático. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou. melhor. Will pareceu surpreso.— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma. mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se... e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! . — Ela abriu os braços. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela.. . num movimento rápido. apesar de doente... ao menos no coração de Kelly... Podia notar.. No mesmo instante e sem a menor timidez. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer. mas não se deixou intimidar. inesperado. Ela ficou em silêncio. — Então por que não me conta o que é. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir. — Foi essa a minha grande traição. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo. — a lembrança daquele beijo passou por sua mente. — Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. — Amigos — ela repetiu. mais calma. — Se quer saber. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem. aí está. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior.— Não — Kelly insistiu. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo.. Soltou-a no mesmo instante. Will Stone! Ele permaneceu calado. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias. porém. talvez devesse ter acontecido. — Está bem. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. o que eu acho que já estava um pouco.

— Eu te quero — ele confessou. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas. com os olhos ainda fixos nos dele. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. Assim encorajado. se contraíam a seu toque. Quando chegou ao último botão. agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. Will não tentava esconder a própria excitação. sabia? — Fala sério? — Sim. os pêlos encaracolados que o recobriam. Will permanecia calado. separados apenas pela barreira das roupas. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly. Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão.. tudo em você me deixa louco. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole. moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans. descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. por exemplo. buscando mais uma vez os lábios de Will. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior.. passando a lhe abrir bem devagar a camisa... ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço.. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. Will. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. E quando voltaram a se abraçar. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido. — Promete? — ela o provocou. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo. — Também te quero. sobre os mamilos que. Tomando-lhe o rosto entre . Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas. sensíveis. Ela estremeceu e suspirou. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou. Que ironia... já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. Naquele momento. Disso não lhe restava dúvida. porém ele a impediu. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco.. o seu jeito. neste instante! — Will sussurrou. Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza.Will mal podia crer que a tinha nos braços. — Seus lábios me deixam louco.. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela. só um pouco mais para cima. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez.. deliciada. e no entanto o silêncio pouco importava. E também os seus cabelos. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo. pele contra pele. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. macia e sensível. — Eu te quero! — ele repetiu. Respirando fundo. como se hesitassem em subir um pouco mais. sensuais. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. quente. deliciando-se com o atrito. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. num murmúrio rouco.

Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então. ele não pode conter um murmúrio de encantamento. enquanto ele a beijava na boca. E mesmo que não tivesse estado preso. Mais . O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos.. eu não tenho o direito — ele murmurou. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas.. — Um ano é tempo demais — ele repetiu.De fato faziam uma dupla bem estranha.. prometo. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali. — Eu.. Will abriu o zíper das calças de Kelly. — Não vou me arrepender nunca. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas. apenas a se fitar. à exceção da calcinha. lento e profundo que a fez gemer de prazer. induzida apenas pelo modo como Will a fitou. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer. um. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam. os ombros largos. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris. olhou-a nos olhos. eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo. ardente. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável. — ela murmurou. Por um instante ficaram ali parados..Não... Céus. — Nunca mais diga isso. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir. muito devagar. nos seios.. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor. no ventre.. musculosos.. Você não é um perdedor. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento.. — Não. suas coxas e abaixo. Sem poder esperar mais um minuto. mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza. por favor! — Sim. enquanto ela fazia o mesmo com as dele. seus corpos a ondular num ritmo crescente.. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado.. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la.. Kelly sentia-se queimar em desejo.. Uma onda de excitação se irradiou. Will chegara aos limites de seu autocontrole.. pelo corpo de Kelly. pensou Kelly. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também. num fio de voz. — Eu sei. sequer. — Will.as mãos. Um fugitivo e uma refém. — Como eu poderia me arrepender por. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele. em investidas cada vez mais poderosas e rápidas. eu.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. longo. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos. das curvas sedutoras de seus seios e ancas. de tornar culpados mesmo os mais inocentes.

E à mesma pessoa. — Humm.. depois de me divorciar. se entende o que quero dizer. tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes. no aconchego dos braços um do outro. apenas trocando um pensamento perturbador por outro.. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. Em outras palavras um homem muito bem sucedido.. A resposta. — Não. — Me desculpe — disse Will. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão. — Kelly sorriu. e ainda assim impossíveis de se refrear. corpos .. . pensou Will. Uma doce terna ameaça. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim. mas. — Ele é um bom homem.. mas nem por isso menos perigosa. Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador. que pedia desculpas por algo.. — Não odeia crianças nem chuta cachorros. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido. — ela admitiu. — O que ele faz para viver? É fotógrafo. Afinal já era a segunda vez. um ano é tempo demais.. É doutor em Física e leciona em Berkeley. mas a verdade era que estava curioso. de maneira irreversível. sem abrir os olhos. no mínimo lacônica. também — ela confessou. Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante. mais rápidas do que quisera. — Acho que fui rápido demais..ainda banhados em suor. Estavam ambos perdidos. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer. Algo que mudaria suas vidas para sempre.. — Desculpe a pergunta. como você disse. O clímax não demorou a chegar para ambos e.... também? — Não. — Nunca mais estive com um homem. em uma semana.rápidas do que Will pretendera. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou. — Fazia muito tempo para mim. veio num tom sem expressão. se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. Tem senso de humor. sentindo-se mais uma vez inferiorizado. — É. talvez.. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça. Ambos sabiam que algo incomum se passara.

Ironicamente. agora. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro. Algo especial. por mais que tentassem evitar. Stone. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. depois de uma breve carícia. só que em excesso! — Ele murmurou. — disse Kelly. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora. Assim que entrou naquele quarto. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa.. De algum modo. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele. de modo tão súbito quanto aparecera. não queria pensar nisso. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. E isso porque.. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. fazendo de conta que era feliz. Com a respiração entrecortada. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava.. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. na tarde seguinte. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então. — Por que diz isso? — ele perguntou. — É. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela. com Will. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. — Ora. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar.. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava. não existe algo bom em excesso. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. serviam apenas para confirmar as . como se tivesse lido os seus pensamentos. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve. O que sabia sobre o assunto.. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora. Mas isso também não adiantou. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo. talvez você tenha razão — ela concordou. O estranho era que. apesar do que haviam acabado de compartilhar. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. — O que foi? Não é bom? — É.. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro..... E no entanto. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque. algo diferente acontecera. Sentimentos. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer.— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre. Mas não. num tom preguiçoso. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio. embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. O sorriso se fora de seu rosto. sim. — Sei que você vai achar absurdo. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras.

— Vejam — Ele apontou.. e rezar para que dê tudo certo. sem atrapalhar ninguém. certo? Na verdade. coletar amostrar e então sair do prédio. ervas. — Eu disse que tinha conexões úteis. os planos para aquela noite. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. — Acho que nesse caso teremos que arriscar. — Ora. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. E não é necessário.. — É uma porta de segurança. Por isso. Tudo parecia estar caminhando bem. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. A garota. Claro. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. muito gentil aliás. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga. — São comprimidos. — E que aparência tem o que vamos procurar. — Kelly sorriu. A partir daí. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. arrebentar aquela parede. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança.suspeitas do detetive. — Não. — Olhem. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. mas eu seria capaz de apostar que não. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. de fato. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. pós. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. Na minha opinião.. Mitch conteve a vontade de rir. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se . — Deixe-me ver se entendi — disse ela. hoje à noite? — Kelly perguntou. mas isso é ótimo! — Will elogiou. inconformado. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia. procurar as drogas. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. E por falar nisso. — Podemos entrar por um deles.. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção.

tanto física como emocionalmente.. — Nós devemos estar entrando às oito. Do assento ao lado. — E quanto ao cão. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. Kelly espirrou. — Mitch insistiu.. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante. o que nos dá uma hora para a operação toda. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. — Eu também — disse Mitch. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. procurando detalhes que tivessem sido esquecidos. — Kelly informou. Ele a vinha afastando de si. — Céus. e nada garante que nos saiamos bem. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. de seu posto na parte de trás do furgão. quando este saiu de seu cubículo. — Se algum de vocês quiser desistir. Sabiam agora que teriam de se apressar.. Kelly o fitou. — Não se preocupe com as chaves. Kelly e Will se entreolharam. ainda é tempo — disse Will. O homem .. Não podia condená-lo.. ao chegar. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado. — Eu continuo — ela respondeu. — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. desde que haviam feito amor. Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros. mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura. por exemplo.. nervosa. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou. Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar. — Isso! — Kelly apoiou. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. visivelmente tenso..contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch. Stone. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função. porém. — E para entrarmos no prédio. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda..

certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que. — Somos a turma da limpeza. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório.. — Seu furgão não tem o logotipo. porém. não funcionou? — ela se defendeu. cara. — Olhe. — Ah. cara. ainda esta noite. assim que começaram a descarregar o equipamento —. — Só uma coisa — Mitch perguntou.. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade.. no entanto. O tempo está passando! . Em vez disso. com uma risada tensa.. — Funcionou. cara. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. Ele não disse nada. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido. incapaz de continuar calada. o cão latiu algumas vezes. O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. — Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. Segurando apertado a chave em sua mão. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la. que o enfrentou com um olhar. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. podem ir — o vigia ordenou. — Agora vamos com isso. — Duvido que consiga esquecer. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar.. vamos. Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado. cético. — Os dois de uma vez? — É. meu caro — Will resmungou.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura. — É. — Mas ligue logo. parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. como que para confirmar. — Kelly interveio. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita. Aliás. ainda assim. — É novo na frota. permanecia indeciso. não sabia se teria voz para tanto. e agora sobrou para nós. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas. Quanto a Mitch. Olhe. — Ficaram doentes e estão de licença. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho. Além disso temos dois outros escritórios para limpar. voltou-se para Kelly.. — Está bem. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa. antes que Will pudesse dizer algo. com o coração batendo tão rápido. cara. Assim que estacionou. Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou... — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele.

— Sai de baixo! — ela brincou. estas duas paredes levam a salas. Will foi o primeiro a entrar. — Se não alteraram o projeto original. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. em posição oposta à da recepção. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. com uma lanterna em cada mão. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. como o tempo passa depressa. Por algum motivo. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. Eram. Conforme o esperado. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura. de fato. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. o fabrico de alguma droga ilegal. Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. — Ora. assim que entraram no prédio. Mitch veio por último. no entanto. ainda que remotamente. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. . — Certo — Will respondeu. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. A primeira vista. além daquela por onde tinham entrado. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. — Céus. fotografando o corredor e o início da perfuração da parede. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. — Vamos. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. — Parte do plano vai ser alterada. Uma rápida inspeção revelou que. — Pela planta. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. assim que acendeu as luzes. — Já são oito e quinze. passando a serra elétrica a Will. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. seis salas no total. que por sinal estava destrancada. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. ela não se convenceu. Estavam no corredor. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. aqui — disse Will. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. — Como podem ver.

Parte deles continha um líquido vermelho.. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua. sim? — Kelly pediu. mas estava de fato trancada. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança.. mas. Sou esperta demais para que me peguem. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos.. mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco.. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will.. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado. ei. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu. — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. Segundo. transparente. — Aposto como não é açúcar. Mitch iluminou a sala. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio. — Ora. embora também não estivesse vendo nada suspeito.. Apanhou um béquer. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. acho que não estou vendo droga alguma. incrédulo. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada. então deve haver algum motivo. cuspindo em seguida. sob um prosaico quadro negro. — O que é isso? — Will perguntou.. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro.. — Will tentou abrir a porta outra vez. — Não desanime! — O detetive o encorajou. Vamos. — ela os chamou.. — Pode apostar que sim. — É bom irmos mais rápido. — Mitch consultou o relógio de pulso. admirado. Stone. me dê o canivete. Eu. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles. destinado à fabricação de drogas proibidas. — Temos menos de meia hora. notando uma placa pregada à altura dos olhos. totalmente diversa das outras cinco.. — Absoluta. Primeiro. não? — Mitch observou. — Argh! Não sei. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos. por aqui — Will resmungou. . desapontado. já com o canivete nas mãos. em vez das máquinas vistas nas demais salas. — Interessante. curioso. Kelly fez algumas fotos. A um canto. Mitch. — Bem. — Ei Will. com uma careta de desagrado. — Não vai me dizer que arromba portas. e cheirou seu conteúdo.. — Will a fitou.. este cheio de um líquido verde escuro. por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. — Kelly murmurou.

— Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch. — Está bem. — Vamos. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. — Não é açúcar mesmo. — Que horas são. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. mas que promete lucros enormes para os traficantes. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida. falando ao telefone. que tratou de apagar as luzes do saguão. Engano seu. — o ex-policial balançou a cabeça. Jogou a chave para Mitch. após um instante de confusão encontrou o que procurava. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive. corria um boato sobre uma nova droga. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. alarmado. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. — É bem provável. — Quando eu ainda estava na polícia. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos. Não cheguei a saber muito a respeito. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas.. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. um par de faróis se tornou visível na distância. em voz baixa. chamando a atenção do guarda com um toque curto . mas tome cuidado. O guarda estava de costas para eles. quando Will já estava dando a partida no motor. pois não estou vendo o produto final por aqui. o que acaba fazendo a droga custar muito. muito dinheiro. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. Com cuidado para não demonstrar pressa. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo. Uma droga de produção complicada. — O líquido verde. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. — E então. — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito.. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. que é colocado em cápsulas. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão.. se não quisermos nos meter numa bela enrascada. — E acho bom andarmos rápido. — Não entrem em pânico — disse Will. Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais.. doía fundo em seu peito.— Não. há cerca de um ano ou um ano e meio. apesar de ela saber que seria melhor assim. provavelmente com sucesso. E não estou gostando nada do que temos aqui. trancar a porta e embarcar no furgão. Ainda dirigindo devagar. — Chave? — Will revirou os bolsos e. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias. enquanto Kelly fazia as últimas fotos. — Mitch tornou a consultar o relógio.. Mitch? — Acho melhor nem dizer. hoje. Will praguejou. garota. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas..

Como se o tempo tivesse andado para trás. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema. E agora Will. meu velho. sarcástico. terrível e sufocante. Will sorriu. da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente.. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir. O medo. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott. Um sorriso sempre tão raro e . quase trinta anos depois. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme.. — Servicinho rápido. Foi então que ela espirrou duas. ouvira-o se mexer.. — Mitch riu baixinho. Com frieza inacreditável. você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei..... A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. Mitch riu alto. a deixou paralisada. como que num pesadelo. vamos lá.. por que a estava forçando a se afastar.. Fora sem se despedir. — Will. dois. já na estrada. deixando para trás uma criança que. O idiota tem cinco segundos para abrir isso. — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney.. apenas tocou o furgão adiante. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela. Segundos depois. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave. profundo. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele. mas fitando o véu da chuva fina que caía. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. Sabia que Will estava acordado. — Mitch murmurou. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. — Eu sinto muito — murmurou.na buzina. mas pelo visto descobriremos isso logo. senão eu avanço! Quatro.. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos. Pela segunda vez. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. o que era pior. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly. — Idiota! — Kelly resmungou baixinho. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. Ela falhara para com Will. três. não? — O guarda observou. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. cruzavam com o furgão da MacMathson. um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos. não para olhar a lua. aliviado. — Vamos lá.ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida. três vezes em seguida e. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela.. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse.

— Will disse. — Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. até que se tenha prova em contrário. a fitá-la sem trégua para então. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. áspero... Mas faça o favor de ficar quieta. para não ter que se decepcionar depois. Kelly se calou. — Mitch despediu-se com um aperto de mão. melhor. naquela noite. — Infelizmente a vida não funciona assim. preocupado. eu estava acordado. esperando. Bem — o detetive deu de ombros. magoada.. esteja à vontade. mas acho melhor acreditarmos no melhor. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. até a volta! — Até a volta. Na noite lá fora. Não costumava apostar no melhor. que fizesse amor com ela. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. agora mais fortes. porém. — Para falar a verdade não sei.. de repente. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou.maravilhoso. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. ao entrar. sem realmente concordar. — Fique tranqüilo. sem sono. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela. Queria tê-lo perto de si. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens. Mitch. — Mitch se remexeu. sem jeito —. está bem? — Claro. ansioso. para que eu possa reembolsá-lo depois. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. — É. Ah. sim? — ele a repreendeu. queria que a beijasse.. o que não é pouco. Se pedir perdão resolvesse. Já se levantava para verificar. — Ligo assim que tiver notícias. quando as ouviu outra vez. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. — Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. — Eu já vou. ficaremos aqui. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. de verdade — ela repetiu.. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele. E muito obrigado por tudo! . Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. Kelly se estendeu na cama mas. — Não tem problema. tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. — Que horas são? — Três da madrugada. moça.

. Estendendo um único dedo. sair daquele quarto. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e. Hesitou ainda por um segundo. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos. ou melhor. sem um bilhete ao menos. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem.Os dois homens se olharam nos olhos. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. Eram sedosos e macios. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. perdido. Ele parou e se voltou para fitá-la. Mais longo que os outros. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes. nem mesmo tentou chamá-lo.. Afinal. mas disse a si mesmo que não o fizesse. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave. E mesmo enquanto partia. Capítulo XIV . O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido. e por assassinato. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. Kelly acordou assustada. chamou sua atenção. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. se afastar dela.. ao longo da noite. embora odiasse tal dependência econômica. recusava-se a chamá-la pelo nome. disse a si mesmo. Sim. antes de se levantar dali. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim. então por que estava andando em direção a ela. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. Afinal. ali. Mesmo agora.. Mesmo que fosse apenas em pensamento. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca. Estava maravilhado. agora mais do que nunca. Estava sozinha agora. Vestiu-se em silêncio. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. Fazia muito tempo. Não podia acordar aquela mulher. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano... desejou afastar aquele cacho. Um deles.. Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. Poucos minutos antes das oito horas da manhã. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. Como tantas outras vezes. tocou de leve os caracóis cor de fogo. Sabia que estava sozinha. Estivera sozinha então. em especial. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will. na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. já estivera atrás das grades antes.. Sem despedida. decidiu que isso não tinha a menor importância.

afinal não perderia aquelas informações por nada. mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer.. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã. quanta consideração. moça. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. — Fora — ele respondeu. o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. porém o carro do detetive também não estava ali. Raios. — Não se preocupe.Cerca de uma hora mais tarde. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. lacônico. fora? — Kelly repetiu.. aquilo não fazia sentido. pouco antes de sair. ou melhor. com as duas mãos na cintura. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela. Kelly se ergueu da poltrona. mas não saberia dizer por quê. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. — Ah. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. Will Stone que fosse para o diabo. o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. pensou. pois iriam em dois carros e voltariam num só.. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo. mas sim com sua partida inesperada. — Apanhei alguns cheques. aí está o troco. Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. — Oh.. Ele havia saído com o furgão e apanhara. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar. Pare com isso. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento. Kelly ordenou a si mesma. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. — Podia ter me acordado! — Ora. indignada. O que significava que Will voltaria. . você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. E se não gostou. eu pagarei cada centavo. A não ser que. E embora o seu tom de voz parecesse normal. Que foi o que acabou acontecendo. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. — Ah. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques. Mas se fosse só isso já teriam retornado.

você é livre para ir embora. — Sim. Raios. — Will respondeu. A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido. . moça. — Kelly deixou claro. mais uma vez medindo forças. certo. porém isso logo se transformou em raiva... e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos. sua reportagem premiada. e não o contrário! — Está maluco. se pensa que permiti que me seqüestrasse. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. estavam a ponto de gritar. — Grande! — Kelly exultou.. — Escute.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. então é isso — Will murmurou. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. Kelly. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. está bem? — Eu não vou embora. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo. pior que qualquer tortura. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. Os dois correram para atender. que por algum tempo estivera entalhando. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados. Will. que estivera andando de um lado para outro. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e. Aquele momento foi. ansiosa. lhe fez sinal de que estava tudo certo. indiferente. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou. agarrou-lhe um braço e apertou com força. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda. no final da tarde. A princípio ficou magoada. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora.. E então o telefone tocou.. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. para ambos. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. sarcástico. se esforçando por manter a dignidade. — Eu vou ficar! — À vontade.. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. Céus. Estão mesmo produzindo drogas. — Não quer perder sua história.

homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. Mitch? — disse Will. — Will sentia o coração bater mais rápido. porque você não vai acreditar. Emmanuel.. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. — Escute bem esta. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott. — Desculpe. hoje cedo? — Fale de uma vez.. Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu. — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. Will havia mentido para ela.. E aposto como não passam. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e.. esqueci que você não é de San Francisco... mesmo! Gente respeitada. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu. Estamos falando em muito. — Sabe para onde viajou Andriotti. — O quê? — Kelly insistiu. — Você não vai acreditar. — Eu sei quem é esse homem. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas. — Mais sério que nunca. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will. ansiosa. através da secretária de uma seguradora.. motoristas.. Ele também havia mentido para Mitch. — Calma. Mostrou-lhe então o homem na limusine. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. mas muito dinheiro.. Eram um só.. Oh. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. todos. — Mitch fez suspense. — Oh. para então dar atenção a Kelly. — E Rodrigo Echeverria. Will. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante. que a Santico. — Faz sentido. — O que ele disse? — Kelly perguntou. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. você ainda não ouviu o melhor de tudo. Mitch — Will voltou a falar ao telefone. mas não recebeu resposta. — Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo. — Espere um minuto. a filha de Andriotti. impaciente. casou-se recentemente com Suzanne. Kelly se deu conta disso uma hora depois. não restava a menor dúvida. mas . um importante político mexicano. O filho dele. pois não significava nada para ele. chocada. para encurtar a história eu descobri. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei.. vigias.. diante de um espantado Will Stone. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais. — O que ele disse? — Kelly perguntou. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly. — Edward Andriotti. aflita... sim.

naquela manhã. — disse um deles. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. o momento de derramar sangue em troca de sangue. Raios.isso não amenizava a dor daquela traição. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê.... Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. O prédio todo. si. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão.. Pronto. Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados. ou quando as pessoas não . Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. Vazio. Pouco adiante estava o furgão. Não fosse pelo que aprendera com Kelly. — Vamos cair fora logo. Precisava lembrar de agradecê-la. parecia estar aceso. era o que perguntava a si mesma. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia. Escondido em meio às sombras. Como pudera ser tão idiota. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação. Afinal de contas ele comprara algo. Céus. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. A tentação venceu e. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. Chegara a hora do ajuste de contas. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou. depois. Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. Isto se saísse inteiro dali. que sumira com o furgão. Algo que custara cerca de duzentos dólares.. Talvez ele tivesse uma arma. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez. Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele. Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto. pois não haviam sequer almoçado. Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle.. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. garoto — ele murmurou para o dobermann. hombre. fazendo gelar o sangue em suas veias. aliás. Apressada. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott. Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar. claro. com forte sotaque mexicano. estacionado mais adiante. exatamente. Mas Will mentira. — Si. a essas horas já teria virado comida de cachorro. a refeição não fora mais que um pretexto. ela cortava caminho por entre as árvores. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. Iria vingar a morte de Stephen. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida. Aproveitando o momento. mais baixo. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo.. Will corria para saltar o segundo muro.. — O chefe está pior que uma cascavel.

Will se aproximava aos poucos das vozes. não sozinho de todo.. relaxe. com toda essa arrogância. eles eram educados demais para isso! — Está bem. — Vamos. Mais uma vez. Não. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. Por incrível que pudesse parecer. Se o chefe estava de mau humor. — O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós. você venceu esta. — Saber eu não sei. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! .. rindo. mais calma e com um carregado sotaque mexicano. que pareciam vir da sala de onde ele. portas abertas. a inocência de Duggan nos foi muito útil. Will estava sozinho por ali. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. Rodrigo. Uma delas se erguia. encolerizada. Mas não. — Se quer saber o que está me preocupando. Tem um grande dom para fazer dramas. podemos? Silencioso como um gato.. acalorada. — Pode ser mas você. estavam falando dele. Como não ser apanhado pela polícia. Edward.. já lhe disse! — gritou a voz irada.. — Vocês. afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. claro. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora. Rodrigo. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois. Bem. pior para ele. o que significava visitas importantes.. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan.fazem o que ele quer. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. hombre. por exemplo. — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro.. inclusive uma mulher. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator. acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta. Will Stone sentiu o estômago se apertar. o guarda disse que eram três pessoas. Sabe como é.. ele ouviu outras vozes. enquanto outra argumentava. pensou Will.. não? —É verdade.. é esse maldito arrombamento. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto. americanos. do lado de fora. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos. — Ora... esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar.. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e... a julgar pelo silêncio que o cercou. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia. também. Echeverria prosseguiu.. — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. Mitch e Kelly haviam pego as amostras. Não foi? — Pode ser. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais. — Ah. Edward — disse o mexicano. Sim. enquanto durou. Nada me tira da cabeça que foi ele. e pelo rumo da conversa daqueles dois. lá vem você com suas tragédias outra vez. Edward.

Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. — Rodrigo. — Pois você está muito enganado. — Quer se acalmar.. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. não se deixaria derrubar sem luta. e por que não? — Echeverria sorriu. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou.. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida. sua lealdade. — Cale essa boca. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior.. aquele covarde. com boas porcentagens do lucro. meu caro. — Como em olho por olho. isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch.. — Pode apostar que sim. o quadro negro.. O mexicano era um páreo duro. Pode apostar que sim. — Parece que lhe devo desculpas. — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. hombre. passando um lenço pela testa suada. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave.. — Echeverria sorriu. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras. o julgamento teve suas graças. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. — disse Echeverria. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. Não é como o irmão. então já sabe de tudo! — Sim. — Will abriu um sorriso frio. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. rolando um charuto entre dois dedos. — Sim. não foi? Mas admito que admirei seu silêncio.. não acha? Aliás. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann. os tubos de ensaio e demais vidrarias. fui eu o responsável. que sabe negociar. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. Mesmo naquele momento. E vai pagar caro por isso! — Ora. substituído por um olhar cruel. em tão pouco tempo. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora. E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica. dente por dente.. — Deve ter gostado de assistir a meu julgamento. não? — Will se dirigia ao mexicano. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . — Não seja tolo. mas se não é o Homem de Pedra. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho. Andriotti empalideceu. não me diga! — Will fingiu espanto. Se o Homem de Pedra chegou até aqui. determinado. é claro. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano... ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria. Stephen deixou você na pior. Rodrigo! — Andriotti sussurrou.. Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor..

das dificuldades.. — Vamos. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou. Segurou com mais força o revólver. — Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo. e não era pouco. E isso não podíamos tolerar. nesta vida! — O dedo de . cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções. você não é melhor que nós. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. se resolver ficar do nosso lado. você não tem tutano para isso. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. — Não. Edward. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou. Você não é capaz. E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado. Echeverria.. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor.. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não. antes de dizer: — Errado. no parque. Stone. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. — Então. Stone... acusando-o de ser um zero. Sabe como é.. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. Certo. você é um perdedor. — Talvez não seja mesmo.. você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano.. para prender a ele e não a nós. profunda. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente. — Não seja ridículo. isto aqui já estaria fervilhando de policiais. você é um perdedor. Tão falante e seguro. mas agora tanto faz. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. Lembranças de seu pai.enxugar a testa. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo. Echeverria. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. tão presunçoso. isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando.. um perdedor nato.. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição... sempre bêbado. — O mexicano deu de ombros. que já passara do medo ao puro pavor. já estava enterrado na coisa até as orelhas. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação.. também! Tem nojo de vender drogas. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. — Rodrigo. um nada. Stone. mas Stephen era ganancioso demais. meu caro. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. Para falar a verdade. mas não hesita em matar dois homens desarmados. Se fosse assim. quando se deu conta. — Seu irmão era burro demais. então começou a desviar mercadoria e a nos roubar. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. Cansei de ser um perdedor. a sangue frio! Como vê. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir. Lembranças das rejeições e humilhações constantes.. — E é seletivo. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. Depois.

Todos os ressentimentos e angústias.. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly. — Você é um zero à esquerda. com as mãos cruzadas sob da cabeça. Tão desnorteada quanto ele se sentia.. agora. porém.. Tudo o que podia ver e ouvir... Ela lhe parecera desnorteada. Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado. Devagar. devagar.. por favor.. estava repentinamente inundado de sentimentos. tão. tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. — Não! — Will gritou como um animal ferido. num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. Isso se passara havia três dias. só o fazia por saber que era necessário.. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. Dois. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara. depois quando assistira a polícia levá-lo embora. como a criatura atormentada que sempre fora. Kelly. — Não! — ela sussurrou.. segurando um lenço encharcado de suor. Por incrível que pudesse parecer. Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros.. . no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos. Acima de tudo. Ela havia chegado tarde. Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada. Devagar.. tão suave. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço.. Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele. algemado.Will começou a pressionar o gatilho. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio.. Will. Capítulo XV De seu catre. um perdedor. — A voz de Kelly.. rapaz! — dizia seu pai. a mão pateticamente estendida em sua direção.. um perdedor. não! — Andriotti implorava. primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott. — Você é um perdedor.. agora. — Não. sentimentos de medo e confusão. Pelo amor de Deus. Não podia sentir a chuva fria no rosto. Um.. Tarde demais para tentar evitar o inevitável. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão. Tarde demais para salvar Will de si mesmo. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho.. Devagar. Três longos e sofridos dias.

. Enquanto a liberdade não chegava. afinal era um homem condenado por assassinato. talvez o advogado. Um homem livre. sorridente. girou-a com uma mesura e abriu a porta. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda. Stone. Fora ela quem. pois tratava a todos com a mesma consideração. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. Gostava daquele guarda em especial. um para cada homem. Um final feliz. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. Logo agora. rapaz! Os bandidos foram presos. — Saia daí. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. — Boa sorte. — Ei. Stone — disse o guarda. . não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros. O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. o mocinho está livre. Igualmente algemados. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. e a mais ninguém. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor. você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. No dia seguinte à prisão. Fora um momento ímpar em sua vida. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela. mas ainda assim nada mais que um momento. Muito disso se devia a Kelly. Will não queria que fosse Kelly. muito obrigado. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. Aliás. depois de olhar em redor pela última vez. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia. quando se sentia mais cativo que nunca. sem saber. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso.. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. como ele. Talvez fosse engano. mas por certo não era ela. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se.. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. porém esperneando e fazendo ameaças. saiu de sua cela. na penitenciária de Folsom. Mas pensando bem. e já passava da hora de parar. que tal? Will se levantou devagar e. pronto a tirar-lhes a vida. estendendo a mão.. ainda que tímido. — Ah. não como a algum tipo de lixo humano. levados pela polícia. E para todas elas. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. decidir o que seria feito do resto de sua vida. Por que não matara Echeverria e Andriotti. Muito diferentes do guarda Sapo. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. então.— Ei. tem alguém esperando por você.

Não havia futuro possível para eles. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. depois de já ter feito a pergunta. não oferecia qualquer luxo. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. O nome dele é Scott e vive com a mãe. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel. de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. caminhou em direção a ele. — É seu filho? — Will perguntou. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu.. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. mas era habitável e arejado. a serviço. Mitch. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas. E colocada a questão nesses termos. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita. Por serem ambos homens públicos. Will. aquele já era considerado um caso perdido. Will pensou em recusar. desde que eu e ela nos separamos. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria. Will apareceu na sala de espera da prisão. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. Mitch Brody levantou um outro assunto. E embora estivesse feliz por ver o amigo. pelo qual Will fizera questão de pagar. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. mas tem um sofá cama razoável na sala.. com um largo sorriso nos lábios. à sua espera. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. Segundo o detetive. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. mas não quis magoar Mitch..Em poucos minutos. Fora uma tolice. Ao final do almoço. pensou Will. Mitch Brody não mentira. naquela manhã. — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. — Obrigado.. mas preferia não pensar nisso agora. — Enquanto não encontra um lugar. gostei da cidade. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali. Além do mais. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. — Bem. — ele pigarreou. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. ela não deixou nenhum recado para você. a cada vez que precisar depor. claro. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. Stone. ab menos daquela vez.. já que fora ele o principal motivo do . Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia. — Sim. mas. — Disse que estava a caminho da Europa. O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. Seu apartamento. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. não menos delicado: — E então. De qualquer modo. É só até eu conseguir me ajeitar. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. Mitch Brody se pôs em pé e. dentro e fora do país..

diante de situações que não conseguia resolver: fugira. pois não havia durado muito mais que algumas horas.. do calor do corpo dele junto ao seu. uma reportagem digna de premiação. Quanto a Will. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. se bem que pálidos de medo. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono. Algemado e acorrentado. desde que ouvira aqueles dois tiros. Aquele frio terrível. É bobagem minha — Will deu de ombros.. Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. sobre o seu.. dois estampidos secos e sinistros. agora a fugitiva era ela. embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. Kelly Cooper. Assim. para si próprio e para ela... e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago. Aquela idéia o magoou também. mais nada. Sim.. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos. antes. Riu. Ainda que momentâneo... mas apenas para si próprio. Bem. sem vontade. a estava acompanhando já havia alguns dias.. enfim! — Sinto muito — disse Mitch. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. acabara por fazer o que sempre fazia.. era como se jamais tivesse estado viva. Lembranças dos beijos de Will. Ou melhor. ele não estava surpreso. E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . o calor da bebida serviu para reconfortá-la. um cartão de boa sorte. qualquer coisa. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott.. que parecia brotar de dentro dela. E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir. caso continuasse perto daquele homem.adiamento. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada. mesmo! Não que tivesse esse direito. Na verdade. Will Stone era perigoso de fato. como se fosse um criminoso de alta periculosidade. Sim. Para ser mais exata. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. Mais breve impossível. Estava magoado. de jeito nenhum.. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera.. O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois. — Não se preocupe com isso. tentando fazer-se de indiferente. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. naquele momento. enquanto via a polícia levar Will embora. Mesmo agora podia escutá-los. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. Fugira do país. Não. de Will e de si mesma.. E agora aquele frio em seu corpo. Aquele frio era resultado do medo.. Medo do que poderia acontecer. aliás. algo com que ia acabar se acostumando.. Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório.

Uma coisa. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido. a cada vez que as procurava. Estavam lá. porém. Em caso positivo. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. por mais simples que fossem. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. se havia algo de curioso a respeito do futuro. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo. mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. quando o assunto era relacionamentos. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. além do seu emprego. cada vez mais. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes. Além do mais. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. Emoções. no sentido mais verdadeiro da palavra. era sua capacidade de construir-se a si próprio. agora? Será que pensava nele. no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. Kelly. constantes. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. E era aquele o ponto central de toda a questão. Onde estaria ela... da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário.enchia de medo. Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. imaginou se Will já teria sido libertado. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum. Apesar da convivência. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens. Agora. implorando que alguém os notasse de forma positiva. fiéis. afinal. Aconchegando-se melhor sob o cobertor. Ela era péssima. Tudo isso. problemáticos. dia após dia. Duas noites por semana. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. . rebeldes. imutáveis. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will. De fato. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que. o que ele iria fazer. contudo. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly.. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida..

ansiara tanto por um grande gole de uísque. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. Nem ao menos um recado. Tudo ótimo. Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti. homem algum soubera. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo. No último dia de outubro. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro. do apartamento onde o amigo estava morando. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. Will Stone tocara muito mais que sua pele. E agora. o que tornara mais fácil suportar a solidão. momentos capturados para sempre em filme e papel. do trabalho com as crianças carentes.. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar. olhando pela janela do hotel como costumava fazer. em toda a sua vida. Agora estava sozinho de . um retrato em close que o apanhara de surpresa. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. para que eles três pudessem se reunir de novo. ansiosa por saber notícias de Will. desde aquela semana que passara com Will e Kelly. Estava encharcado até os ossos e jamais. Na primeira foto Will estava de costas. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço.. Em outra. Com um embrulho nas mãos. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. Tocara seu coração. Speedy Talbot. Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. O detetive falava ainda do emprego de Will. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. Não punha uma só gota de álcool na boca. Naquela mesma noite.. sentiu o coração bater mais forte. Kelly correu os dedos sobre o papel. até então. que piorava à medida que avançavam as investigações.. Imagens roubadas. numa tarde fria e chuvosa. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos. o maldito carro parava de funcionar. quase sempre sem que ele notasse. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. e da pior forma possível. Foi a gota d'água. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. estava amando Will Stone. Era demais para qualquer ser humano.A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela.. mas que haviam acabado ali. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial. E de uma forma que. Aquele estava sendo o pior dia de sua vida. mas não havia uma só palavra de Will ali. mas de nada adiantou. seu corpo. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie. Por menos que quisesse admitir. que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. a aspereza da barba de encontro à sua pele. guardadas no fundo de sua mala. para piorar tudo. Por menos que quisesse admitir. mais uma vez incapaz de dormir. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. tudo muito bem.. em Seattle. Eram de Will.

mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas. Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. do verdadeiro Mitch Brody... hoje à tarde. Will estranhou. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. — Sim. Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África.. vir a acontecer. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios. Conhecia poucas pessoas na cidade. ainda. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. e. Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch. vinda do corredor do prédio. já não pensava. estou aqui.. — ela pigarreou. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. — Olhe. — Ei... que marcava quase nove horas da noite. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando. porém. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. sensuais. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então. Profunda e totalmente vivo. era diferente. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. Sentia-se apenas vivo. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo.novo e não via motivos para continuar lutando. Queria um gole de uísque e o teria. A partir da quarta dose dispensou o copo. Assim. Pode falar. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. a qual tratou de entornar num único gole. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen. sequer. Não que fosse muito. Sim. ele já não distinguia mais nada. Com mãos trêmulas de ansiedade. Levaria algum tempo. — Estou aqui no apartamento de Mitch. Agora. Estava cansado de tudo. Consultou o relógio da parede.. onde havia um telefone comunitário. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. . embora duvidasse que isso pudesse. Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino. mas agora não sentia nenhuma dessas emoções. eu. — Will? — ela repetiu. — Pronto. até de viver. nos últimos tempos. um dia. portanto era raro que recebesse chamadas. Nada mais importava. mas acabei de chegar em San Francisco. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo.. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios.. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. de si mesmo? Engraçado. Em questão de minutos restava pouco daquele homem. de modo a ir descontando de sua enorme dívida..

Deu alguns tapinhas no rosto dele. Não era o tipo de cansaço. não entre em pânico. — Por algum motivo. Ele estava mudado.. Will notou. — Kelly? — murmurou. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos. Parecia emocionalmente exausta.. — Mitch acordou. ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara. ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave. — Venha rápido. mas não consegui.. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. — Quando Kelly não respondeu. Pronto o café. vá preparando um café. Ela estava cansada..... Por um segundo. mesmo. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam. — O que houve? Você parece preocupada.. — Você entendeu? — Oh. quando Will chegou. só mesmo o hálito de bebida. — Mitch? Ei.— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou. Parte dele queria reconfortá-la. fez uma careta e abriu um olho só. Afastando os cabelos ruivos da própria testa. Acho que desmaiou no sofá. como a porta estava destrancada. tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will. — Sim. está apagado como uma lâmpada! — Calma. Kelly se pôs em pé. Quero dizer inconsciente. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis. — Estou a caminho. ela não ouviu sequer os passos na escada e. — Cuidado com eles. — Mitch está bêbado. que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela. não é? — Estou a caminho. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool. Ele vai ficar bem.. Mas você vem. aquilo não soava como surpresa para Will. num gesto que era para ele dolorosamente familiar.. sim? Enquanto eu não chego. — Céus.. mas por algo mais profundo e impalpável. Com mais aquela palavra. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. Ele resmungou algo ininteligível. — disse ela. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café.. porém.. ignorando o comentário. sim. Por causa do barulho da chuva. pensou Kelly. que uma boa noite de sono pudesse aplacar. Mitch. claro. cuidad.. beba isto.. daqueles bem fortes. mas outra parte continuava a desejar. Tentei ajudá-lo.. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. — Tome. mas me faz um favor. — Está bem. mais aliviada. do modo mais egoísta.. mas foi só por um momento. a voz pastosa. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. — Não.. ele insistiu. sou eu! — Ela respirou. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch. me reconheceu e apagou de novo. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes. pensou Kelly. a fitá-la.

— De nada. em silêncio.. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo. mais alto. — Eu não peguei aquele dinheiro. imagine..... Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si.. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. Um policial foi acusado de corrupção. — Não muito bem. Mitch não é um corrupto. acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou.. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch.. — Ei. quando se revolta com alguma coisa. Will retornou à sala onde Kelly o esperava.. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada.. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo.. para aquecêlas. nisso eu aposto meu pescoço. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa. o café fora um pretexto.. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz.. — Mas não sei como foram desconfiar dele. — Quero meu filho! — Mitch resmungou. está melhor? — Não. tornando a bater-lhe de leve no rosto. — Nem dos seus beijos. eu sei. — Eu sei. Will Stone? — Em você. — Mitch fez uma careta. ou sob o meu. — Will deu de ombros. depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia. Até a esposa o deixou. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. voltava com uma xícara fumegante. — o detetive olhou nos olhos de Will.... — Will lhe deu mais café. Mitch. — O que foi? No que está vendo tanta graça. então nunca aceitou. amigão. claro! — Bom! Que bom. Meia hora mais tarde. um pouco mais claramente. nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu.. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. Será que esse policial era Mitch? — Talvez. — os dele responderam.. — Traga um café. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou. enquanto servia um pouco de café para si e para Will. Ponto final. — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro. — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim. — Mitch. — Mas que mulherzinha. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado... ainda um pouco assustada.. em questão de segundos. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will. vamos! — Nãão.. Ei. a cada gole um gemido de protesto do amigo.Kelly. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca. Falta de provas ou coisa assim.. — Também penso assim. Diabos. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno. um ano e meio. Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro. Mitch. sim? Ela saiu para a cozinha e.. E dentro de seu .

.. — Bom. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. — Gostaria mesmo? — Will ficou sério. — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe. — Por quê? — ele perguntou. Seriam capazes de.. — Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso. de preferência não muito inteligente. — Mas não precisava. Não era o melhor dos assuntos.próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo. precisava sim. acho que vou embora. seus olhos buscaram os dele. juntos. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. agora andando mais rápido. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior... A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa. — Ah. evitando o olhar de Will.. de ser o que ninguém era. o casaco e caminhou em direção à porta. — Você mandou a história. muito diferente do seu. Kelly o fitou. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita. — Bem. Kelly? — Não. ele insistiu. — Ah.. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou. sério e surpreso. — Ela baixou o olhar.. de repente... — Sim. agora que Mitch já está melhor. descontei do que lhe devia! — Ora. — Então estamos quites. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas. De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo... não veja nisso nada além do que realmente há. — ela respondeu. Eu também as cobrei de você. Talvez ele tivesse razão. — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? . Mas a verdade era que.. Kelly sentiu-se um tanto sufocada. Suficientes. — Olhe. ao menos no que se refere a essas taxas. — Will abriu um sorriso. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes.. — Eu preciso saber uma coisa.. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. — Um pouco de obediência. Mais uma vez ela se voltou para a porta. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo. calada. Stone. Por instinto. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso. naquele exato momento ela se sentia apavorada. Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes. Não seria correto.. — ele murmurou. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha. talvez até uma pitada de medo.

estava mais perplexo e infeliz que nunca. tão.. o que pensar. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão. quando voltava com o amigo para casa. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will.. Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem.. — disse o detetive. tão terno. direta e sem rodeios. Will Stone. Mas. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. Quase duas. Tão macios que me deixavam louco. e suspirou. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos. bem devagar. — E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele. ser também um alcoólico. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta. Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele.. — São mesmo como eu lembrava. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. pegou Will de surpresa. desde que vira Kelly pela última vez.. — Ele respirou fundo. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos.. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA.. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando. também não deve . quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA. Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce. Ele e Mitch estavam jantando juntos... Ficou imóvel.. tê-la beijado outra vez. Will Stone! — Bem. — É. Seria possível que ele.. e que lutava contra isso.— E-eu. Depois de ter visto Kelly de novo. eu não sei — ela sussurrou. Viver um dia de cada vez. sem fôlego. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. Kelly murmurou: — Você me assusta. — Como são em sua memória? — Macios. Nada no mundo poderia ser tão doce. moça.. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo.

Quando começou a ouvir o toque de chamada. afinal. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. Mas que diabos. A moça está apaixonada por você. já esqueceu? — Pode ser. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. Um tipo como ele. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada. — Suspeita de alguém? — Will insistiu. ladeira acima e abaixo.. mas nada disso importava. Como um refrão interminável. imagine! Seja quem for que fez isso. Mas agora já não importa. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. Afinal.. mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos.. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. — Esqueça — Will balançou a cabeça.. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. e conseguiu. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper. E se isso não significava alguma coisa. eu posso até estar errado. jamais fora grande coisa. — Não sou homem para ela. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. Quem preparou a armadilha não foi um amador. — Verdade? — Verdade. sim. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida. — Eu e Kelly somos muito diferentes. tinha dinheiro para gastar. O que diria a ela? E como diria? Ou será . — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. meu caro. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. Eu vim do lado errado da vida. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. Will fez menção de dizer algo. — É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando. porém ele o impediu com um gesto. Podia não ser o melhor homem na face da terra. revoltado. Viera do lado errado da vida.. — Will tomou um gole de café. Mitch. também sem nenhum rodeio. mas acho melhor esquecer esse assunto. — Olhe. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco.. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. e o homem que era agora.. Continuou a caminhar. nascemos em mundos diferentes.. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente.

ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. como de outras vezes. Mas o quê fazer.. deixe apagado. Kelly retirou a mão com que o estivera calando.. — Não. mas não conseguiríamos. entendeu? Will ocultou um sorriso. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela. — Entendeu? — ela insistiu. O telefone tornou a chamar. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. Não. poderíamos. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. interrompendo pela metade uma imprecação assustada. E sensual. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito.. — Eu vou tirar a mão de sua boca.. Ao menos não naquele momento. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. o que você quer? — Conversar.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez. não podia ser assim. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. independente e agressiva que seqüestrara. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou. . e muito. Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. aquela se parecia mais com a mulher teimosa. — Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. mas. Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas. mas não quero ouvir nem um pio. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça. bem devagar. ali. depois de tudo o que haviam passado juntos.. — Esta bem. então? Convidá-la para sair? Não. pois ela não estava em casa. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. Mais um toque. Bateu o telefone. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. Ah. fazendo com que a corrente tilintasse. O tempo e o silêncio eram fatores importantes. — Sim. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. Para Will aquela voz soou rouca e suave. entendeu? Ele não respondeu. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano. Sim. admitir que a amava.. pé ante pé. seria banal demais. que se abriu com um clique suave. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. Devagar. também. Bem.

se fosse mesmo esse o caso.. Pobre Gary. E então apareceu Gary. olhou nos olhos de Will. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor. mas.. num tom estranho. Ela ergueu o rosto e. lá vou eu! — disse ela. você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então. desesperada por um pouco de atenção. Kelly — ele murmurou. — E se quer saber do pior.. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente. ameaçava esmagá-lo de uma vez... Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo. lá estava eu cuidando de minha própria vida... — Você nunca me chamou assim. — Então pare de fugir. Você não faria isso — disse ele.. eu sei. Will. antes. Will. com a voz embargada pela emoção —.. . e agora já não havia como voltar. Ela havia cruzado um limite. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou. — Quero minha vida de volta. Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era.. — É. mas você está falando! — Desculpe.. Stone. — De qualquer modo — ela prosseguiu —. — Estou cansada de fugir. — Certo.— Muito bem. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros. arrastando junto a de Will. agora. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. E isso. Kelly. para ser sincera. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual. combinado com tudo o que ela acabara de dizer. sei que não sou perfeita e. uma semana depois.. estou escutando — disse Will. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar..estou cansada de tentar agir como se fosse. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária. — E eu quero. — Bem.. Naquela noite você invadiu minha vida e. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. ou queria. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe.. Ora. — Não. — Ora.. se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços.

Will interrompeu o beijo. mas eu te amo mais do que à minha própria vida.. Era o que ela mais queria. naquele momento.. — Não está? — Sim — ela sussurrou.. sempre que você precisar de mim. Se fosse assim. — Eu te amo. — Quero ouvi-la dizer. — Will. apesar da restrição imposta pelas algemas. — Will. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar.. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou.. — Não acredito! — ele também se pôs a rir. envolta num profundo silêncio. de repente. Kelly. Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. — Eu te amo — ela disse. Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu.. mas nunca mesmo.. Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela. — Kelly hesitou.. . eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não. Will Stone.. e nunca. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus. permitirei que você me faça ir embora. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar. Will Stone. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. com os olhos cheios de lágrimas. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. — Kelly riu. — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu.. tocou os cabelos cor de fogo. — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa.Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. eu sei disso! — Kelly suspirou... Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser. — Escute bem. para em seguida repetir. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus. Muito melhor. — Trato feito — Kelly sussurrou. se ele fosse. mas como o novo homem que era agora. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. — ele pediu. Eu jamais vou te deixar. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada.. Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will... mas algo impediu seu movimento. — É.. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora. Cheio de ternura. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos. Kelly. — E eu. sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. num fio de voz. mais segura e decidida que nunca. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição. — Bem.

Sandra mora com seu marido. em Shreveport. Rachel Dryden . PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 .. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. 13 . por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios. uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver.***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield. Charles. A beira de um grave ataque de nervos. em sua difícil busca. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro.CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost .agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. que será publicada dentro de alguns meses.divorciada e mãe de uma criança seqüestrada. Condição atual: exílio voluntário. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano.ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . no Estado de Louisiana. E lado a lado.. Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer. Agora. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação. Tempos atrás.

Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. saído das más lembranças de seu passado. os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. afinal. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho. Lisa Morley respira mais aliviada. Mas. onde reside a segurança. e onde está o perigo? .A medida que seu carro se afasta de Nova York. congelando a alma de Lisa! De repente. surge Mark Fletcher. A ameaça aproximase.. o perigo a segue de perto. Em meio às trevas do pavor. Contudo.. incendiando-lhe o sangue nas veias.