Duas vidas sem destino (Snap Judgement

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Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

queria ser o próximo presidente do México. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco. céus. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo". uma. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. sem se dar conta. Para ser mais exata. bem no fundo de seu coração. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. como odiava arrumar malas! Por outro lado. estava longe de ser um político qualquer. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti. adorava viajar. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais.. Sabia. Como sempre. Aquele trabalho. ligou a televisão. Para tentar se distrair um pouco. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade.. na verdade. desprovidos de barreiras. quem a educara assim. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. Não que fosse pretensiosa. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. também ele um jornalista de renome. Kelly . Instantes em que. Kelly pensou. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos. que já era tido como o casamento do ano.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. Rodrigo Echeverria. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. Ao chegar à mansão dos Andriotti. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas. De lá seguiria para a África. E quanto ao pai do noivo.. na tarde de hoje. e Emmanuel Echeverria. seres humanos a fascinavam. Não que gostasse das pessoas o tempo todo. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços. um par de tênis.. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. Riquíssimo e muito influente. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso.. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. bem cedo. Suzanne. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias. horas antes. Oh. tinha sido seu pai. Uma revista. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade. Na manhã seguinte.. Sim. Ao ouvir aquela notícia. calças de brim caqui. medíocres. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava. talvez até outro Pulitzer. De qualquer modo. local especializada em fofocas e colunas sociais. deixavam transparecer a própria alma. Ela própria. Como sempre. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. Edward Andriotti. Calças jeans. O que tentava. — Casaram-se.. mas vencer era algo natural para ela. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. por exemplo. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio. O pai da noiva.. era muito mais que um empresário de sucesso. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. Não. aliás. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas. porém.

Uma moradora desta cidade. No instante em que ele se voltou e a viu. Assim. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento. repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. meio que às escondidas. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. de uma modo ou de outro.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. com um buraco de bala no peito. em Folsom. este caído e coberto de sangue. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. além de vários convidados. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. contudo. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. Sem se deixar abater. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto. fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. ajoelhado ao lado de outro homem. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. próprias da estação. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. com um simples gesto ela havia selado o . apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. que mais tarde soubera ser Will Stone. Por coincidência. Com uma das mãos suja de sangue. escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma. usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. no entanto. De repente. três vezes. algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. duas. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. Havia alguma coisa indecifrável. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. porém. O telejornal prosseguiu. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. já não vivia. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. alguns mais importantes e outros nem tanto. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. Naquela manhã. Encontrara um homem. Sentando-se na beirada da cama. foi testemunha-chave da acusação. Conforme costumava acontecer a cada ano. Kelly acordara cedo. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. O Homem de Pedra. no entanto.

pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir. fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã. à casa da mulher que testemunhara contra ele.. minha filha — seu pai costumava dizer. e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria. paradeiro desconhecido até o momento. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem. Para piorar. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. Durante o julgamento. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança. a falta de carinho. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você. de lá do céu. endereçado à editora da revista. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço. porém. para dar lugar a um vazio cada vez maior.. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto. tomou um banho e preparou-se para deitar. partindo para bem longe dali. mais profundo. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. ou seja.. de frente e de perfil. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. Além do mais. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque. — Ora. Sentindo-se um pouco melhor. — Sua mãe está observando tudo. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância. elemento de alta periculosidade.. em voz alta. pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder... Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. ainda mais intenso. — Há suspeitas de que esteja armado. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado. ela sabia ter selado seu próprio destino também. Decidida. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma. De volta ao seu apartamento. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela. A morte da mãe. sem encontrar uma posição confortável. conciliar o sono. Mas Kelly Cooper não podia . ela trancou a porta. Não conseguia. sem dizer uma só palavra para defender-se. Um vazio que ela achava assustador. Não.. Kelly Cooper. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão.. E aquele homem agora estava solto. a ausência e a rigidez do pai. nos raros momentos em que estava em casa. durante aquela noite. Kelly Cooper.destino do Homem de Pedra. Era a polícia informando que. Virava-se de um lado para outro na cama. quando o telefone tocou. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto.

costumara imaginar que som teria sua voz. meses atrás. já que era muito menor e mais fraca que ele. Precisava ser o máximo. quando Kelly lhe pedira o divórcio. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia.. porém. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. fascinantes e assustadores. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento. num grunhido. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. a melhor entre todos os melhores. Quando conseguiu. algo que a magoara bastante. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou. Nisso. fazia pouco mais de um ano. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. Um esforço inútil.. Resmungando e tornando a virar-se na cama. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. — Não. seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões. Onde estaria Will Stone. Na verdade. Era um som grave. Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. sombrio. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão. Kelly parou imediatamente de se mover. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. E isto ela vinha conseguindo. E então começou o pesadelo. tentando libertar-se. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. ela era um completo desastre. . Gary. em especial. Sim. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. a não ser quando o assunto era relacionamento humano.ser apenas especial. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. desde os anos de colégio e faculdade até agora. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. e agora ela o ouvia... De qualquer modo. Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone.

E havia sangue em suas mãos. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. Kelly respirou fundo. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. mas não fui eu quem o colocou na prisão. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui. se é isso o que você está pensando.. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso. no entanto. aliás.. Ele estava muito perto. a mão que lhe cobria a boca se afastou. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. — Ah. — Ah. — Não — ela retrucou. como na primeira vez em que ela o vira.. Will notou não só o olhar de Kelly.. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou.. vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. só que mais velho e cansado. portanto não venha me culpar! .— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal... Preferia morrer a admitir diante dele que. altiva. Will Stone parecia o mesmo. E que ainda estava. Também devagar. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. — Acertar as contas. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly. E você. por um instante. como também a direção que tomavam os seus pensamentos. a imprensa. — Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. — Compensação? — Sim. com roupas modestas. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita. ficara apavorada.. — Diga. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo. Tão perto que o seu corpo. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi. entendeu? Kelly nada respondeu. sim. — Eu vou tirar a mão de sua boca. de fato. mas não quero ouvir nem um pio. Agora. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. Kelly não sabia ao certo o que pensar. impassível. por mais que tivesse tentado. ela balançou a cabeça devagar. moça. E de repente ela estava fitando um rosto familiar. porém limpas e decentes. não é? — Will a fitou em silêncio. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença. forte e musculoso. — Sinto muito. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um. mas terrivelmente hostis.

ela fez o mesmo com o outro pé. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama.. moça. desde o momento em que se deitara. esperou e. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. O verdadeiro problema. era muito arriscado. Girando devagar a cabeça. não parecia ter intenção de feri-la. Com a maior leveza possível. no entanto. O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama. Will gemeu.. — Bem. isso mesmo! Desceria direto para a garagem. — Ei. Depois de escapar da cama. Até então ele não a tinha ferido. A menos que.. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão. pousou o pé no chão. Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. Devagar. espere aí. eu lhe devo? — Kelly perguntou... com um braço em redor da cintura de Kelly. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. Seria estupidez confiar tanto na sorte. tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava. consultou o despertador sobre o criado-mudo. sem paciência para argumentar. segurando .. não quero saber de conversa. Além do mais. E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele. Sim.. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. Quase quatro horas da manhã. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta.Will resmungou baixinho. Kelly resolveu obedecer sem discutir. como catástrofes naturais ou bombardeios... Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar.. porém. — E não tente se levantar. — Cale a boca e durma! — Will ordenou. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não. principalmente depois do que já passei. Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali. talvez fosse melhor fugir para fora da casa e. afinal de contas. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio.. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não. Você me deve uma e estou aqui para cobrar.. Kelly parou onde estava.. quando o homem a seu lado não se moveu.. Will Stone. no entanto. a seu lado. pois eu vou perceber. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. Naquele instante. seria sair debaixo do braço que lhe pesava. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida.. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava. Assim. ele não havia movido um só músculo. Sim. parou. corpo contra corpo.. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. ou ser ameaçada outra vez. hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. também era arriscado demais. o que já era algum alívio. ele estava fora do ar. quase entrou em pânico diante daquela constatação. na cama. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra. — E o quê. curvando-se para desamarrar as botinas. — ainda tentou protestar. sobre a cintura. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir. com todo o cuidado. bem devagar. Quarenta e cinco minutos depois. moça. apagado como uma lâmpada. Ele se remexeu. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will. Sim. inerte. a coragem de Kelly renasceu. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura.

Kelly se limitou a fitar aquele homem que. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado. ela se permitiu respirar fundo. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. — ela murmurou. E agora. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. em outra situação. Kelly fechou os olhos e esperou. Longos. demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas. ágil como uma cobra dando o bote. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras. Como vinham se recusando havia muito tempo. em sua independência. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. calçando as botas e amarrando os cadarços das . Não tinha outra escolha. Aliviada. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama. — Faça isso de novo. moça — disse. porém não menos alerta. a teria feito suspirar. era se erguer com muito cuidado. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo.. Nada. Fácil. Observou o rosto de Will. acabava de invadir sua vida. A revolta. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. Kelly conseguia manter sua dignidade. Sim. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. Num tom de voz educado. — Entendeu bem? Muda. depois outro e ainda mais um. quase calmo. Sabia que era necessário um pedido de desculpas. — S-sim. moça. Centímetro por centímetro o pulso. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. Antes que ela tivesse chance de reagir. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer. agora. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. aquela vitória tinha um gosto amargo. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando. e olhando nos olhos de Will.. por estranho que pudesse parecer. Contou um minuto. Melhor assim. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. — Prepare-se para partir. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor. muito mais fácil do que. já estava sendo puxada com violência de volta à cama.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. A despeito do medo. direta. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados. De fato.. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante.. sem a menor cerimônia.

— Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. — Olhe aqui. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. E é bom não tentar nenhuma gracinha. — Escute. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. desconfiada. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. Esqueça o avião. Apressada pela raiva. moça. moça.mesmas com gestos bruscos. massageando o pulso dolorido. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. — Você escolhe. mas parece que você prefere acordar cedo. que até então estivera junto à janela. Kelly também se sentou. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. — Tenho compromissos marcados! — Bem. Você sabe disso! — ela resmungou. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças. mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa. — Sinto muito. — Aliás devo ir logo para o aeroporto. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu. saio do banheiro do jeito que estiver. moça. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Céus. se é que você me entende. entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força.. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. Furiosa. — Também preciso usar o banheiro. — Vamos fazer uma viagem. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. isso é mesmo uma pena.. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. — Oh. — Estou saindo de uma . — Falar? — Sim. não sei em que está pensando. Will Stone. com a mesma violência que usara para fechar a porta. O barulho chamou a atenção de Will. — O tom de Will era ríspido e insensível. — Não vai se sair bem desta. moça. moça. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. portanto comece a falar — disse ele —. e só pare quando eu mandar. — Sabe. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui. tornou a abri-la menos de dez minutos depois.

— Não estou ouvindo você — Will avisou. muito diferente! Calculando friamente. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que. — Eu não entendi. brusco. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. O pulso ainda lhe doía. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo.. — Aliás. aonde imagina que vá conseguir chegar. A cidade.. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez... portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo. em tentar correr para fora dali... Prosseguiu.. Algo que ela.penitenciária. Não que se estivesse acovardando. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. havia uma grande distância. — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. Quanta tolice! Ainda assim. e longe do telefone! Com isto. A rua estava totalmente deserta. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu. moça. — ela ouviu o ruído da descarga. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora. não por um alegre casal em viagem de férias. como em algum filme de aventura. — Arrume suas coisas — Will ordenou. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que. . não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre. — É isso aí. — Escute.. contudo. com alguma sorte. dar a partida e fugir. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia. — ele confirmou. Embora o plano fosse bastante inteligente. Eles com certeza irão levar isso em consideração. bem perto da porta. — Estou aqui — Kelly se apressou em responder.. — Isto é.. E trate de ficar aqui. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. — Sua voz morreu na garganta. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la. mas no país inteiro. não tinha a menor vontade de fazer. ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. Daí a ter tempo de abrir o portão. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra. embarcar no carro. de dentro do banheiro. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. Além do mais. áspera. caso resolva se entregar... se voltando outra vez para Kelly.. você tem consciência de que vai acabar se dando mal. seguido pela água correndo na torneira da pia. se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. Will entrou no banheiro e fechou a porta. parecia quieta e sonolenta. chegasse à garagem. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada.. dizer que não me fez mal nenhum. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri. — Como assim? — ela o fitou. intrigada. aliás.

— Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou. desaparecesse na distância. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação. e concluiu que os dois veículos. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda.. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque. teve um mau pressentimento. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele. antes. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida. — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. — É. — O dia mal começou. eu sei — disse Will. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel.. cerca de um ano antes. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem. tão diferentes entre si. — Ele apanhou a mala de Kelly. emergiu na memória de ambos. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. — E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. mal conservado e de um tom pálido de azul. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. já o teria feito a estas alturas. se você pretendesse me matar.. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer. moça? Ela se voltou para fitá-lo. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e.— Então vamos embora. moça — ele a preveniu. a um canto do quarto. Como parecia ser de seu costume. Lembrou-se de seu próprio carro... muito mais importantes. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar. Kelly lançou-lhe um olhar furioso. Um setor sem flores ou belas . eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. Aliás. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. que Will sequer notou. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo.. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —. ignorando seu pedido como das outras vezes. uma tolice. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. Kelly o fitou com um ar de completo espanto. — É que eu percebi que. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. no entanto.

venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. Quanto a isso. Nada.. frio e sem qualquer sentido. — Ei. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. — Sim. cara. custasse o que custasse. Ela se limitou a segui-lo. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. Meu emprego é excelente. mandaria colocar ali uma lápide apropriada. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. Algo que. obediente. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave. Algo como puro medo. afinal era a única família que lhe restava. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos. Num gesto cheio de reverência. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. Transcorridos vários minutos.. sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. Não pelo chamado. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez. Tudo ótimo! — insistira Stephen.estátuas adornando as lápides simples. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. O curioso é que Stephen. Nenhum nome ou data. de fato acabara por fazer. a não ser um estúpido número. E se você vier para cá irmãozinho. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo. Will enfim encontrou o que estivera procurando. — Ele abriu a porta e desembarcou. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. claro. em si. — Para falar a verdade. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. de um certo modo que não deixava de ser irônico. nenhuma frase inspirada ou consoladora. No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. Haviam nascido num gueto de Chicago. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. minha situação não poderia ser melhor. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. Ficou parado por um longo instante. Na verdade. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. um dia. — Vamos. num lar mal estruturado e muito pobre. dois anos mais velho. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a .

gritando que havia monstros a persegui-lo. como um animal enjaulado. contudo. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. Dois dias após sua chegada. no entanto. prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta.. Sim. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . Stephen. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott. com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. E se até então tivera fortes suspeitas. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa. — É fácil notar que você está com medo. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. logo ele que jamais os utilizava. Quando criança. vamos. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão. — Ora. O mais velho por falta de capacidade. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. Stephen respondera de modo evasivo. sabe como é. E aquelas palavras o feriam tanto agora. como cigarros e bebidas alcoólicas.. para que estivesse ganhando tanto dinheiro. está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele. Além disso. questionar o irmão quanto a isso. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. algo que deveria ter sido até bastante simples. com notas quase abaixo da média. quanto o haviam ferido havia um ano. não fosse a reação causada pelo anestésico. O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. quando entrei no quarto. ele por pura falta de esforço. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. Não houve como não ver o revólver. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. Will deixara as perguntas de lado. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. De nada adiantara. — O que significa isto? — perguntara. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco. ao recordá-las.. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento.. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas. Zonzo. que está fazendo? Me espionando? — Não.. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. Como resultado. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. Algo importante. Coisa de cidade grande. Mais do que qualquer desses indícios. irmãozinho. por aqui.tumba. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar. apavorado e delirando. — Ei.. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. porém.

mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. perto do cadáver. Além do mais.. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. uma mulher de cabelos ruivos aparecera. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. Desta vez. Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil. como abutres. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem. Certas pessoas. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma.. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito. porém. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela.. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. ao se levantar. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo.. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. por ali. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. incapaz de conter a curiosidade. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas. Era a arma de Stephen. Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão. Will ergueu a cabeça para fitá-la. do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra. Stephen.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão. tratava-se de um homem condenado por assassinato. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. O modo como Will se ajoelhara. Will encontrara o apartamento deserto. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito. demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. E exatamente enquanto fazia isso. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo. e levara o revólver consigo. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. Ah. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone. E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa. agindo por puro instinto. mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão.. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho. . Sem pensar duas vezes. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado.. à altura do coração.

fosse quem fosse. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava.. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. O corpo de seu único irmão. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. ela já o havia prejudicado antes. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. das ilusões de poder e riqueza. obediente. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. no entanto. . A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio. apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento. Sem intenção.do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. pedindo resposta. Não podia confiar nessa mulher. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos. Teoria reforçada. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil. anos antes. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. Sim. por arrombamento e invasão. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. — Não é da sua conta — respondeu com frieza.. permitindo que a culpa recaísse sobre ele. pois apesar de tudo e contra a própria razão.. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. de uma overdose de drogas. sumido da face da Terra. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. Queria dizer que. Will não era estúpido o bastante para ceder. pelas drogas encontradas em poder do homem morto. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. Descobriram até que fora fichado na polícia. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo. continuava a amá-lo. para ali se abrigar do frio e da chuva. Mas ele não viera. De fato. talvez. Kelly o seguiu de perto. aliás. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. Tudo isso e muito mais. Mas precisava ser encontrado. desaparecendo da cidade logo após o crime. depois de algum tempo. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. De fato. mas com resultados não menos catastróficos. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar. o olhar mais uma vez hostil.. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. Além do mais.

Ah. nervoso. A expressão de Will se endureceu e. . — Eu gostaria de falar com Rachel. Kelly. um som nitidamente falso. não. ela tornou a tossir. estou doente. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada.Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —. quando sua editora atendeu. não há necessidade — Kelly prosseguiu. para que eu não precisasse sair. mas que idéia original — ela provocou. sou eu. Stone! Não sou surda. não fique preocupada. mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. Não. não preciso de nada. quando uma voz masculina atendeu o telefone. moça! — Will sussurrou a seu lado.. Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. Will a fitou com os olhos semicerrados. — Oh. Péssima! — Tornou a tossir. — E ande logo! Com mãos trêmulas. — Como arremate final. — Bom dia. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. está bem? — Exasperado. — Parece que é uma gripe daquelas. sim. Oh. sim? Diga que fará contato de novo.. mas sem que Will percebesse. — Invente uma gripe. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar. E enquanto o telefone chamava. Sob o olhar atento de seu captor. Sim.. Rachel. — Eu já ouvi. — Até logo. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone.. sim. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. sim? Voarei para Zurique assim que puder. um resfriado.. vou tomar cuidado. por favor. — Sem nenhuma gracinha. repetindo o aviso. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. Sim. — Como? Ah. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo. Escute. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele. Ah. — disse Kelly. claro. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. estou com muita febre.. — Apenas faça o que estou mandando.... claro. olá. em uma expressão de profunda irritação. Está bem. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado. Sim. quando estiver melhor. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. por sinal ele está aqui em casa... ignorando o sarcasmo de Kelly. ameaçadores. Kelly tossiu. está bem. neste exato momento... esse médico! — Ela tornou a olhar para Will. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF. obrigada. E quando voltou a falar. Um santo homem. sem maior autenticidade que da primeira vez. — O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse. Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone.. sem emitir um som.

Agora. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico. Ela. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. no entanto. Um pouco mais calmo. moça? — Will a interrompeu. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will. Começava a crer que. — Cuidado com o que diz e faz. severo. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença. ela não esboçou qualquer reação. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada. — Aí está — disse ela —. para dentro do carro. Kelly deu-lhe as costas e retomou. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato. porém.— Moça. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro.. se queria uma boa atriz. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo. moça — ele a preveniu. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. Aquele homem era mesmo estranho. um vagabundo. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. — O que vai querer? — Nada. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. Will respirou fundo. entretanto. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. nem seria tão difícil de lidar. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. de fato. um. Desta vez. Escondeu um sorriso. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. Agora. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. manteve o olhar fixo à frente. — Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. pensou. — Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel. ao extrair da carteira a quantia pedida. .. — Bem.. teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém. arranhando as marchas ao entrar em movimento. altiva. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. não tinha outra saída. mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador. dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. Lembre-se disso! — Oh. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. era tarde demais. Kelly não notou. Além de ser tomada como refém. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres. Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. e estendeu a mão. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor. — Como assim. contudo.. com o olhar faiscando de raiva. Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. Cinco dólares serão suficientes. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. — Você precisa comer. — Oh. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos.

— Pare com isso. na tentativa de indicar que algo estava errado. afinal. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. no entanto. como já começava a se tornar um hábito. Cinco minutos depois. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. — Trate de se comportar. presente e atento. Será melhor para você. com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. duas camisetas. por obséquio. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou. Ninguém a não ser o homem a seu lado. E não vai nem ao menos experimentar essa calça.. Depois de pagar e receber as embalagens. Rumaram para o norte. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira.. era seu inimigo. — Céus. Ainda era muito cedo. Ele venceu. — Coma! — Will mandou. — Desça do carro — ele ordenou. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. Tal ato revelava um considerável autocontrole. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. se pôs a comer. Ele a tomara como refém. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. estacionou o carro em uma vaga próxima e. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. já havia escolhido para si uma calça jeans. cerca de uma hora depois. duas cuecas. moça — ele avisou quando entraram. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh.— Não estou com fome — ela teimou. Não importava quem ou o quê era Will Stone. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto. Ninguém. Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. ficaram medindo forças através de olhares. pois sabia que era perda de tempo. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino.. que mais você vai querer? — ela reclamou. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine.. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. quando eu saísse do provador. moça.. Sem tornar a perguntar o que ela queria. ao desembarcar do automóvel. acredite! . Will se voltou para fitá-la e. — Você estaria longe daqui. — Talvez não tão longe assim. Em vez disso. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava. quando já terminava sua refeição. grave. pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça. sem dizer palavra.. mostrou o menor interesse.

As autoridades recomendam extrema cautela. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. Significava. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. Mesmo agora. Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. porém. Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel. — Eu não tinha nada a dizer. No fundo eram ambos prisioneiros. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento. destrutivo. que o achassem perigoso. o policial já tinha deixado a loja.. Claro.. durante o julgamento. incrédula. — Isto é. — Ora! — Kelly balançou a cabeça. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. só que ele havia conseguido escapar.. que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar. que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou. ora. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta. para decepção de Kelly... somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam. Infelizmente. ele parecia estar se saindo bem demais.. Condenado. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime. Por ironia. Na verdade. Will Stone. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo. Que continuassem a culpá-lo à vontade. entretanto. um condenado cumprindo pena por assassinato. — Supondo eu falasse. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. marginal. — Você estava sendo acusado de assassinato. Por mais que ela tentasse disfarçar.Quando enfim chegaram ao caixa. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo... Voltou-se para Kelly. Culpado. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele. depois de ter passado seis meses atrás das grades. Doze pessoas. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. em um caminhão de entregas. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. E no entanto era essa a sua condição. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. por favor entre em contato com. E fora isso o que houvera com ele.. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone. Sem alternativa.. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e.. no entanto. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. como se não houvesse escutado nada. isto sim. doze cidadãos supostamente justos e normais. perante um juiz. Você sabe disso! Por ora. pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado.. sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento.

— Afinal de contas. — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro. Céus. — Escute aqui. Olhos que. mas se calou. desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo. se estendendo por vários segundos. sim? — Por que não? — ela perguntou. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. Stone. Não tem a menor graça. — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse. moça? — ele ralhou. para falar a verdade. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. com um brilho impertinente nos olhos. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. — Estava sim. — Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. Kelly percebeu que.. como antes. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . em fitar o rosto anguloso e os lábios que. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. que estava enchendo o tanque do carro. contudo. Desembarcou e esticou os músculos doloridos. com visível satisfação. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados. no entanto. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. Bem antes que os outros. — E agora. Não pôde. embora dissessem palavras duras agora.. Sinto muito. o que vamos fazer? Ah. insistiam em olhar nos dele. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma.. O que significava isso.. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro. — Kelly deu de ombros. Faziam três horas que estavam viajando.. nos meus dias de folga. Ainda assim.— Eu não estava. fazendo com que parecessem feitos de fogo. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final. — Então estamos empatados. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. num impulso. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador. Kelly chegou a abrir a boca para negar. não! — ela o desafiou. aliás.. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados. moça. — Quer fazer o favor de falar baixo. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly. sarcástica. perguntou: — Afinal. querer eu não quero. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira. — Bem... moça. é bom me obedecer! — Está bem. quase contra sua vontade. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse.

Céus. Bo. dona — ele respondeu. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. — Além do mais. Após uma inspeção apressada. Se tinha a intenção de irritar Will. destacou a segunda via para guardá-la consigo. — Vou estar bem a seu lado. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe. — Ele a puxou com mais força. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço. — Viemos pagar pela gasolina. deve ser isso mesmo. — Nem pense nisso — ele a preveniu. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão. jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. forçou um sorriso. — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. estava conseguindo. Pelo jeito. — Diga-me. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura. devolveu o cartão ao cliente. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. — Oh. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito... lendo tudo o que você escrever naquele comprovante. Em menos de um minuto. Além do mais. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. — Pode deixar. eu espero por aqui — disse ela. sujas e rasgadas. Vocês dois me parecem gente honesta. Will resmungou algo ininteligível e. Mais calmo então. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico.. dona. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável. — Bem. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. O sorriso murchou nos lábios de Kelly. os cumprimentou com um largo sorriso. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. — Você é Bo. assim que entraram. impaciente. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. — Olá! — Um homem gordo e calvo. moça. também sorrindo. não é? — Eu mesmo. . Sem dizer uma só palavra.. claro — o homem tornou a sorrir.— Com todos os diabos. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. tentando resistir. devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora... moça. provavelmente o próprio Bo. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É. Stone — ela resmungou. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. — Nada disso. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. mas as roupas de Will.

para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will.. é. estava furiosa. descascando a tinta da porta.. os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos. Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer. Não pode fazer isto comigo! E terrível.. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. — Já que estamos aqui. — Aposto como a chave é aquela ali.. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. havia uma janela. com raiva não. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu. Estava com raiva. Tentou abrir a porta.. porém. na pior das hipóteses. acho que vou aproveitar para ir ao toalete. no entanto. é desumano.. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios.. Mais uma vez. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. — Ei. observando com toda a atenção as paredes. dona. isso sim! E como poderia estar. ainda não se havia dado por vencida. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta. Não. — Ele sorriu e deu de ombros. — Se eu não mantiver tudo trancado.. um batom. porém nada encontrou.. como se acabasse de se lembrar de algo importante. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. fosse um grampo de cabelos. se tivesse com quê escrevê-la. já dentro do toalete ao lado.Ela. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino. Kelly subiu no tampo do vaso e. depois de uma breve luta com um fecho. foi mais rápido e a tomou para si. conseguiu por fim abrir a janela.... Stone! — gritou. — Oh. o vaso. é. mas desistiu logo na primeira tentativa. Will — disse. a pia. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo. — Pois é. Tornou a olhar em redor. pendurada na parede. Era tão estreita que por um instante ela . Kelly parou de repente. espere um pouco. Pensou em escrever com as unhas. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro. Janela? Sim. não é? — É sim. bem acima do vaso sanitário. no alto da parede. Do jeito que suas unhas eram fracas. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. Kelly bateu ainda uma vez na porta.. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer.. Will. a janela. esmurrando a porta. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções.

exceto por um casamento desfeito. E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. ofegante. sua vida ordeira. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. não era? . além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão. causar-lhe um novo acesso de fúria. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando.... Fracasso. Talvez fosse isso o que a incomodava mais. mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar. Sim. era algo mais forte que isso. Sucesso. Aflita. Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. já colocava a cabeça e os ombros para fora. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. Ela o havia deixado furioso.. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. satisfeita. chamado Will Stone. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada.chegou a desanimar. E nesse momento. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor. perfeitamente controlada. Só mais um pouquinho e estaria fora. severo e acusador. Mais especificamente a um certo demônio. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso.. Afinal de contas. Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. como ela estava? Furiosa também? Não. apoiada sobre o próprio peito. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar. Bem. Kelly ficou caída junto à parede. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela.. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. Seu olhar encontrou-se com o de Will. tremendo e de olhos fechados. que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz. Quando teve a coragem de tornar a abri-los. Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular. Desde a chegada de Will. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. não conhecera outra coisa que não o fracasso. Paralisada pela dor e pelo susto. mas nada poderia fazê-la desistir. Uma vida que. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor. um rosto que a fitava. caso conseguisse passar por ali. Encolhida no assento do passageiro. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. com isso. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho.. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco.. no topo disso tudo. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas.. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. pensou. Ótimo. duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar. não agora quando.. notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo.

Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência. pensou Will. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. de fato você nunca será mais que isso. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. Tinha medo da própria reação. a curva pronunciada de sua cintura. por exemplo. Sim. Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise.. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente. naquela manhã. para lançá-la num morno torpor. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. até então. ela era especial. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente. melancólico. Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. você acaba por acreditar. o que lhe emprestava um ar adolescente. percebeu que Kelly havia adormecido. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. continuava sendo uma . lisa e clara. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem. tão especial que chegava a ser perfeita. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. O olhar de Will desceu um pouco mais. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez.. Para ser mais exato. pensou. A pele. Will respirou fundo. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha. não é? Por outro lado. tão mal dormida. Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. Ora. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. Fazia muito tempo que não pensava em rendas. Alternando a atenção entre ela e o tráfego. durante quinze longos anos. arriscando um olhar para o lado direito. tão especial que jamais cometia um erro.. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres. a não ser no que tocava a si mesmo.. Ao menos perante si mesmo.. por menor que fosse. e era isso o que deixava o papai orgulhoso. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não.. ela parecia tão doce e vulnerável. De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros. tão. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita.. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa.Especial.. E embora tal pensamento o surpreendesse. Ele estava furioso.. até agora. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior. mas que diabos.. Sim. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes. Mesmo agora que estava fora da prisão. Os cabelos espelhavam sua personalidade. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante.

uma loja de roupas. — Escute aqui. por ali. aspirador de pó funcionando bem. O sinal passou de vermelho para verde.. Se pretendia mesmo escapar. Duas lanchonetes. resignada. Curioso. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra. Alguém buzinou. E era óbvio que ela iria tentar de novo. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. ele olhou em redor.. ralhou consigo mesma por ter adormecido. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia. — Uma loja de coisas usadas? Céus. legítimas algemas policiais. E isso se não o matassem antes! Além do mais. com fome e sob uma pressão muito grande. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda. se não precisasse de você para o disfarce. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. — Will deu de ombros. no entanto. Ela suspirou e obedeceu. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos.. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar.futilidade pensar nisso.. Em vez de seguir adiante. e olhou em redor.. Irritado. Talvez. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. de modo que não podia permitir que lhe escapasse.. ao desembarcar do automóvel. a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. pingente em ouro com diamante de um quilate. um supermercado e uma loja de ferramentas. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades. apenas talvez. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. Mas ora. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. Agora nós vamos entrar . portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. Violão em estado de novo. e escute direito: estou cansado. as coisas estivessem começando a melhorar. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente. numa tentativa de ajeitá-los. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas. Não que aprovasse. com a visão turva e a boca seca. que diabos. moça. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. Forçado a parar em um sinal vermelho. Era só o que se via em termos de comércio. Era um lugarejo comum. Assim.

Assim que se viu a sós com Will. nojento. lá no escritório. Em uma vitrina trancada. a fez lembrar que deveria ficar calada. — Eu me atrevo ao que for necessário. ao voltar do escritório. logo atrás do balcão. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. Kelly explodiu. se preciso. Dito isto. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio.nessa loja e não quero ouvir um pio.. Ninguém. o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou.. — E agora. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. um. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta.. sim? Vou buscar a chave delas. — Dois. — ela o provocou. com um olhar glacial. mas nada adiantara.. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. Pedira. — Cinco. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. quatro.. senhor. três. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos. que nada vira da discussão. Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. uma só palavra de você.. Contrariado. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly. mas ninguém mesmo. Puxou-a para si até que estivessem face a face. pois estas coisas venderam como água. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa. — Sim. Stone. — Tem cinco segundos para ficar quieta.. — ela Kelly prosseguiu. lá fora — Will respondeu. Sabia estar agindo de modo infantil. com um brilho de desafio nos olhos verdes. — Seu verme. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas. não sei por quê. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja. Will a fez calar bruscamente. não é preciso.. — Só um instante. Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências. aqui está a chave! — disse o balconista. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação.. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro.. moça. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. idiota! Ele se voltou e. agora percebia que jamais o tivera. O rapaz. mas não se importava. E era tudo culpa sua. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua. moça. — Oh. fizera ameaças. Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone.. lançando um olhar maroto a Will. avisara. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona.. furiosa. Era . pois prosseguiu: — Como se atreve a.

Ela estava prestes a pôr tudo a . Lembranças. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo. — Will hesitou por um instante. calada. impulso do momento.... tinha? Não. parecendo tão surpreso quanto Kelly.. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar. claro que não. acho que estes vão servir.. Aquelas palavras pairaram no ar. — Deixe-me ver aquilo ali. ela não podia fazer o mesmo. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. muito menos da esposa. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida.. — Bem.. para espanto desta. Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. junto ao par de algemas. Ela engoliu em seco.. Por que. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa. um pequeno e outro bem maior —. Em silêncio. — E além do mais.. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo. Apontou algo na vitrina. Sabe como é. não um homem acompanhado de uma mulher. com um sorriso definitivamente malicioso. Na verdade. — Sabe. A farsa sugerida por Will era assustadora. Para alegria do rapaz e desespero de Will. podia? — Oh.tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz. Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. Will o ignorou e permaneceu calado. Mesmo assim.. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. foi adiante. A polícia procurava um homem sozinho. mas Kelly. Céus. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo.. por exemplo. perplexa. Will só estava garantindo a própria segurança. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. carregadas de ameaças.. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento. se entende o que eu quero dizer. isto é. ah. bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente.. Balançou a cabeça. — Não! — Kelly respondeu. — Não é mesmo. como que imaginando que tipo de clientes.. — Não. com todos os diabos. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. haviam entrado em sua loja. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir. por fim. O balconista ficou a fitá-los. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia. afinal. tia Millie é um pouco estranha. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela.

enfiou-lhe a aliança no dedo anular. moça. para ser mais exato.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo.. o sopro cálido da respiração contra sua pele. quando o sol já se punha no horizonte. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. vitorioso. Largando a câmera e a valise no chão. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. — Ah. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. fechou os olhos e suspirou. mas ela não se importava com isso. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua. Senhor e senhora Cooper. a leve aspereza da barba por fazer. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. sim! — Will retrucou. — Tome — disse o diabo. A idéia de comer algo. mais próximo que nunca. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. a raiva. ma no fundo não se importava. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. aquilo era o paraíso. entregando o cartão de crédito ao balconista. você vai. — Pronto... fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. — Trate de descer e ficar quieta. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. Sim. Estava faminta e cansada. Em seguida rumaram para um hotel próximo. — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. E agora. Minutos depois. onde comprou sanduíches. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. tampouco. — É isso aí. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. Não lhe restava energia para tanto. ela se deixou cair numa poltrona. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. certo? — Kelly arriscou. tudo embalado para viagem. batatas fritas e refrigerantes. Chegaram a Seattle no fim da tarde.. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. Era fácil notar que Will também estava exausto. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele. sem a menor delicadeza. duas portas de carro foram fechadas com toda a força. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. assim que o motor deu o primeiro ronco. trate de. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . quando ele já estacionava o carro diante da recepção. Will parou numa lanchonete. Por um longo instante em seguida ao beijo. Decorado em tons suaves de malva e cinza. — Já sei.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. Mitch fechou os olhos. Com um suspiro. mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. ou seja. aliás. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado. Algo que. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. Memórias que a distância tornava dolorosas. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. Ao longo da noite ela se havia debatido.. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher. no entanto. pedira para ser libertada das algemas. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado. Podia ter perdido tudo. um fato que ele não podia deixar de admirar. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse. qual fora a sua reação. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. Parecia muito mal acomodada. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo. onde um bolso rasgado sobressaía.. inclusive o amor-próprio e a dignidade. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel.. mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. No entanto. afinal? Não sabia dizer. Sim. Ele mesmo o tinha rasgado. apesar dos tremores e do suor frio. amargo. No fundo. Calça. o fazia lembrar de muitas outras coisas. num claro sinal de desconforto. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. porém. Bem. A menos que estivesse enganado.. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava.. revirado e gemido. Em momento algum. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café. por sua vez.. mas agora teria que ser diferente. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos. iam passar a noite ali. Capítulo V Sentado na beira da cama. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. Jamais devia tê-la beijado. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças. Também precisava de algumas horas de sono. senão a sua ao menos a dos outros.. Longe disso. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher..lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho. E então. Aquilo devia ser piada. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina. deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro.

— ela murmurou.. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. Ao perceber que ele ia realmente sair. Will precisou respirar fundo e desviar o olhar. É emocionante. moça. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. se aproximou e abriu as algemas. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei. Trocara de roupa. apontando a porta do banheiro —. porém. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava. — Kelly. se pôs em pé. céus.culpado. Will não fez conta das ironias de Kelly. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram. — Stone. — Quer que eu a solte? — Oh.. Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava.. mas desta vez não vai adiantar. vamos logo! — Will chamou. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo. — Dizem que a esperança é a última que morre. como se estivesse diante de uma questão muito difícil. embaraçado. Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio. Em silêncio. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina. dez minutos depois. penteara os cabelos e . De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora. Meu nome é Kelly! Como sempre. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais.. Observando-a. depois de uma noite inteira de repouso. você devia tentar! Além do mais. que no dia anterior. contudo. A noite mal dormida na dureza daquele chão. Calado como sempre. acho que não. para então caminhar em direção à porta. Quanto a isso. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. ele ignorou a observação... tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos. apenas pousou a mão na maçaneta. ela fez questão de recusar o auxílio. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. — Ei. — Bem. mas não demore demais.. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério.. deixe-me ver. Ele não insistiu. — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim. — ela resmungou. moça. Eu sou bem real. — Ei. aonde você vai? Will não respondeu. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. Stone. Apontou as algemas. Will também parecia estar em péssima forma. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar.

— mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. Colocou de lado o estojo de pó compacto. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço. que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima. — Tome. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa. se for necessário. — Kelly tentou corrigir. — Que pena. — Pronto — disse. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. como sempre. mas que medo — ele ironizou. — Ei. minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali.parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera. com um sorriso triunfante. Ao fechar . — Isto é. — Ela deu de ombros. Apressada demais. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. meus documentos e minhas credenciais de imprensa. assine estes... — Devia saber. Calado. ácida. Ele sequer ergueu o olhar. — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico. Ela obedeceu sem discutir mas.. nada a não ser meu passaporte. o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia... apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. ao entregar os cheques assinados . causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem. Acertou em cheio. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. Nada. para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama.. — Kelly argumentou. Stone? Que vamos fazer. Recolheu os cheques espalhados na cama. colocou dois deles diante de Kelly. pensou? — Bem. certo? — É isso aí. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar. na verdade. que ele tratou de guardar no bolso. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. fez questão. sem pedir licença ou desculpas. de ter a última palavra no caso. a qual constatou estar mesmo vazia.. Estou anotando cada centavo e saiba que. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. moça. Mais uma vez Will a ignorou. — Esteja à vontade. apressada.. não é. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. Começou a busca pela carteira. Will olhou-a nos olhos. ríspido. agora? Ele se limitou a fitá-la. esse é o primeiro mandamento do manual do refém. moça. sério. Eu vou sair e comprar algo para comermos. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. E agora que já dei o dinheiro. — Muito engraçado — ele resmungou. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele.

havia uma guarita. E tinha mesmo que ser logo. Tinha certeza de que aquela companhia era. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la. de algum modo. Ao ler aquele nome. sem pressa. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. não era o momento. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão.. se olhares matassem. pensou ele. pois não lhe restava muito tempo. A lei estava era seu encalço. ele cuidaria pessoalmente disso. Reduzindo a velocidade vez por outra. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. em letras negras. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. Havia algo de muito estranho ali. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra. e que havia uma filial em Seattle.. outros problemas. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. Vinte minutos depois de sair do hotel. Muito além. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. ainda ao longe. Bem mais adiante. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. pensou Mitch Brody. A hora certa não demoraria a chegar. em San Francisco. guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco.porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. Assim. passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita. Ele respirou fundo. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. Sem descer do carro. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas.. — É. Uma chuva fina começou a cair. cortando o centro em direção aos subúrbios. Desse modo. inclusive.. Filial de atuação bastante modesta. Manobrou devagar o carro e. olhando em redor. aliás. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto. Aquele era um esconderijo perfeito. Mais à frente. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde. prosseguia pela cidade. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz. contudo. cercado por um muro de pedra. Para manter a própria sanidade.. No alto do prédio. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. Junto ao portão de grades de ferro. que era operado por controles elétricos.. com os olhos postos na estrada . Agora. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. antes. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco. sentindo um nó na garganta. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento.

por exemplo. Não ficou surpreso simplesmente porque. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. usando o seu canivete suíço para. Sim. — Sente-se — ele insistiu. Dando a partida em seu velho automóvel. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. já teria alertado as autoridades competentes! De repente.. nada mau.. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. Por algum tempo ficou à espera. porém. Olhou em redor. estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia. Com o passar das horas.alguns metros à frente.. mas preciso ter cuidado. . jamais o abandonara nos momentos difíceis. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. outra vez a caminho da cidade. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. n0 lugar dele. Porco agridoce à moda chinesa. E por falar em teia. Seu instinto lhe dizia. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz. disso tinha plena certeza. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia.. ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. Deu mais alguns passos Pelo quarto. no meio de um arvoredo. De fato. mas não estava com fome.. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma. observando e pensando. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. Will Stone era inocente. se o seu automóvel ou sua vida. moça? — E se eu não parar. era difícil saber o que estava pior. O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. Tensa. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. teria feito o mesmo. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. Mitch. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos. havia por ali que pudesse interessar a Stone. impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle. afinal.. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. Kelly obedeceu. Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela. seguiu um pouco adiante para ver o quê.

Will não conseguia esquecer aquele olhar.. Ainda assim. sua delicadeza. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. Não. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. — E então. ao ver a maneira . exatamente. Parecia ter se enganado. em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor. — Sim. Pequenas tiras de madeira. O que sentiu. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se. ao lado de sua valise. Will estaria planejando para aquela noite. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. achou que seria um bom modo de começar uma conversa. o semblante sério. E não me pergunte mais nada. a noite. no entanto. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. — E então. pensou Kelly. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. moça! Aborrecido. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. encaracoladas como os cabelos de Kelly. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera.. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade.. pensou ela. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. pela manhã. no entanto. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez.. e dessa vez a levara consigo no carro. com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas.. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. — Bem.. Delicadeza? Era estranho que logo ele. que até então soubera mostrar apenas rispidez. Um lado desconcertante. — A noite — ele respondeu. esperando sentir por ele uma raiva imensa. mas os seus olhos. Não. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela.num gesto nervoso. lacônico. para seu espanto. Sua força. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido. Kelly Cooper não conhecia o medo. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder. Será que conhecia alguém ali. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. o que vamos fazer. nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem. Will a fitou e disse: — Vamos esperar. isso era impossível. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho.. prepotência e amargura. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu..

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

— Ainda não viu esse cachorro. Algumas dezenas de metros à direita. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons. De repente. Seu espírito jornalístico não permitiria. porém. mas Will não podia correr risco algum. mesmo que Stone a libertasse agora. — Sim — Will concordou —. Stone. incomodando-a e tolhendo seus movimentos.. mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão. . Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. — Horário estranho para uma entrega de flores. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. Um muro alto. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol. — E ouviu mesmo. quando ela. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher. ainda segurando sua mão. Tudo o que havia em sua mente... — Além do sujeito na guarita junto ao portão. O cão de guarda latiu. O veículo. moça. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição. Algo que ela pareceu notar. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica... era a certeza de que ali existia uma história. Ela. com um gritinho abafado. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões.. já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. mas não pensava nisso. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. naquele instante. É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos.. Antes que ele pudesse entender o que se passava.. ela não iria a parte alguma. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott. material para uma grande reportagem. moça! — resmungou. parando bem diante da guarita.Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso. ora. — Ora. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. em última análise. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. — Fique quieta.. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. e a convicção de que. tentando assim mantê-lo perto. se jogou ao chão e o arrastou consigo. não acha? — Kelly murmurou. como se aparecesse do nada.. — Quieto! — ela sussurrou. muito estranho. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado.

depois de cruzar os portões. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras.. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. — Não consigo ver. Difícil saber ao certo. isto sim. — A voz de Will soou grave e rouca. Kelly já imaginava o que Stone queria. — Carga de quê? Ele se calou. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. Mas não era só isso. agora.. — Porque talvez não estejam entregando nada. Ao longo de toda a sua vida. — Venha cá — ele sussurrou. . afastando-se do muro e de Will Stone. só o que Will podia ver eram as costas dela. ele a colocou no chão. Aborrecido. Will a tomou pela cintura e a ergueu. Talvez estejam. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. Uma vez lá ele se pôs em pé. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. Até então usara apenas seu sobrenome. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher.. de maneira tão feminina e suave. ao ver que não obtinha uma resposta. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. Como o contrário seria impossível. irritado com ela sem nenhum motivo lógico. respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso. Assim. — Kelly principiou. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. como se realmente se importasse com ele.. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. pousou as mãos no peito dele.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro. Ele continuou em silêncio. Um de seus pés derrapou na terra molhada e. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. por mais que ele tentasse resistir.. como se.. Oh. — O que está vendo? — Will rosnou. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. — Ei. espere aí. Enquanto isso.. Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara. mas dessa vez lhe deu as costas. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro. embaraçada. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. numa tentativa de recuperar o equilíbrio.. engatinhando para junto dele. disse a si mesmo que tal reação era normal. apanhando uma carga. Kelly ficou estática por um instante até que. mas.

bem à vista! — Dez a um para mim. vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. tivera a mesma desconfiança. mas resolvi assumir esse risco. Correndo atrás dele. moça. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. o criminoso sou eu! — Bem. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que. mas o problema não foi só o carro. — Não simples remédios. que não estivera esperando tal reação. — Pois eu aposto que foi notado. mas é o que pretendo conseguir. Stone. de nós dois. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto. — Sim. obrigado. — Bem. — Pode ser. seu voto de confiança me emociona. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. Afinal de contas. sim — insistiu. mas Por certo não fora aquela. — Ah. no parque? Muito obrigado. por fim. Encharcados e tremendo de frio. — Você precisa da minha ajuda. orgulhosa.. Stone.. como que . é? — Sim. Stone.. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo.. num sussurro. fítaram-se demoradamente um ao outro. sim! — Kelly se empertigou. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois.— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu. — Com todos os diabos. — Escute. precisa! — Por que acha isso? — Ora. Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. — Você tem alguma prova? — Não. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão. diante do forte aparato de segurança. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. segurou-o por um braço. ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. ninguém o notou.. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca.. preciso. — Então vai precisar de uma parceira. sim. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia. um carro vermelho é algo difícil de não se ver. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. você foi pego. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez. se tentar fazer isto por conta própria. mas entorpecentes e drogas proibidas.

enquanto se esgueiravam de volta ao carro. os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. e outra vez sem avisar. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. o túmulo que ele fizera questão de visitar. onde brilhavam pequenas gotas de água. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo.medindo forças. para só então voltarem a se erguer. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro. aliás. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. apenas entrou no carro. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. A polícia e aquela mulher. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will. no entanto. um ser humano em seu estado original. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. cheia de folhas e galhos. a caminho do banheiro. contudo. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão. Senão. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. Caso fosse verdade. Por um instante chegou a ficar preocupado. A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. bastavam para atormentá-lo. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar.. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will. porém. para quê tanto interesse? Além do mais. decidiu que tinha todo o direito do mundo. apanhara no armário e jogara em sua direção. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. depois da visita à Anscott. nada a impedia de satisfazer sua .. mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. Afinal. Ao lado da mesma. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. Kelly suspirou. Não. Pensando melhor. exatamente. afinal. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa. Deitados na terra molhada. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. Mas por outro lado. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. Ao chegar ao hotel. o quê.

se é que existia algum. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. mas não podia evitar a pergunta. pode tratar de fazê-lo sozinho. — Ah. num gesto brusco. — Não é da sua conta. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. Nesse ponto. . Por um longo instante. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone.curiosidade. Era uma peça comum. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. Curiosa. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim. todavia. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. foi a falta de volume daquela carteira. para sua surpresa. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. — Coloque de volta — ele repetiu. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. Pensando assim. sentindo-se subitamente culpada. para não dizer ordinária. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. mas pelo visto era pouco. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira.. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. para ficar revirando as minhas coisas.. Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. ao verificar um último compartimento. por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. na vida. algo que o tornava ainda mais assustador. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. Bem pouco. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. O que impressionou Kelly. Guardados os retratos. Nada de couro legítimo. a minha vida? Já me roubou e me feriu.. Kelly apenas o fitou. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. Incapaz de resistir. moça. já com alguma impaciência. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. — Eu. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor.. — Quem são eles? — Kelly perguntou. dois pequenos retratos em branco e preto. abriu-a para examinar seu conteúdo. muda. o outro de um rapaz moreno e sorridente. num sobressalto. fazendo Kelly estremecer. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. — Coloque-os de volta. as fotos ainda em suas mãos. e depois de tudo isso. seus dedos tocaram em algo.

Mais uma vez.— Ora. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. Uma vez só... cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott. seu. um travesseiro voou como que do nada. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor.. pareciam ter se . a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional. dessa vez bem mais alto. mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso. Na verdade. Mas. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo. Uma hora e meia depois. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado.. Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre.. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração. sem que pudesse evitar. no entanto. Will nada respondeu. — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante. seu. ainda desejava isso. mas não obteve qualquer efeito. Stone! Como já era de se esperar. Kelly ainda estava acordada. No silêncio que se seguiu. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado.. Por algum estranho motivo. para alívio de Will.. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado. Will virou-se na cama e lhe deu as costas. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta. quanta delicadeza.. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso.. ele atravessou o quarto e apagou as luzes. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu. Kelly tornou a gemer. Sim. por quê? Por que o seu nome. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. Não conseguia deixar de sentir por Kelly. Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. aquela noite fora bastante agitada. escolheria mil vezes o chão. veio-lhe a imagem daquele homem nu.. Muito grata.. Will ficara ouvindo cada movimento. Para piorar. atingindo-a no alto da cabeça. mas de nada adiantou. Com toda a calma. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. — Oh. na esperança de poder ignorá-la. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. Bem. Céus. Sem que estivesse esperando. Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis. nos lábios dela.. Além do mais. Seus pensamentos. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença.

as costas contra um muro de concreto. Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor.. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will. Confusa e ainda não de todo desperta. admitiu que acabava de ser derrotado. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole. não? Afinal. Em meio a tudo aquilo. amordaçá-la e sair. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de. Não.no entanto. ele não a tratara com gentileza. Agora que pensava melhor. ainda que a contragosto.. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade. num único movimento. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e. Por um breve instante.. de certo modo. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e. Raios. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo. Sim. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer. Mas se era assim. Se ele fosse tão decente quanto queria crer. E então notara as fotos nas mãos dela. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz.. na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. Era um sonho estranho. Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. no qual tudo parecia gelado e hostil. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro.. .. sentira que faziam parte um do outro. jamais a teria seqüestrado. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho. pois fora a maior responsável por sua condenação. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater. o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. incapaz de raciocinar com clareza.tornado inseparáveis. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação. tivera suas próprias razões para fazer o que fizera. algemá-la na cabeceira. a trouxeram para junto de um peito nu. as mãos pousadas em seu peito. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho. logo agora. Aliás.. O peito de Will! — O que você.. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição. Kelly Cooper estava em débito com ele. logo após o banho. Não fora? Kelly gemeu. Tinha o pulso machucado.. Ela voltou a gemer. se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber. não a tratara sequer com humanidade pois. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel.. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos. Kelly não estaria agora deitada no chão frio. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. — Fique quieta. Will praguejou baixinho e. — Não me deixe presa de novo.

ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. — Durma — ele ordenou. deite-se. lutando e se debatendo como podia. Ela suspirou. Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. Não conseguiu.. naquele breve lapso de tempo. segundo que Will não estava nu como imaginara. Perturbado. — Pare com isso! — ele ordenou. mas por favor. — Pare de se debater que eu a solto. eles se tivessem fundido num só. não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. obrigou-se a se afastar dela. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. ele de fato lhe soltou os pulsos. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. antes que pudesse protestar. — Não vou algemar você e não vou sair. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e. era melhor que nada. Era como se. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. Ou talvez porque. no fundo. enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. mas acreditava nele. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. a voz outra vez seca e direta. o que não era muito mas. agarrando-lhe os pulsos. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração.. de tomá-la em seus braços e protegê-la. rude. no entanto. — Vamos. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. renovando suas forças. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. está bem? Kelly não saberia dizer por que. as curvas. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela. — Por favor. Como se as formas. . juntou-se a ela. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante.— Eu vou com você aonde quiser. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. sem a menor cerimônia. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. caso ele a quisesse algemar outra vez.. Fiel à palavra dada. — Não! — ela implorou de novo. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem. Ergueu os lençóis para Kelly. com certeza. a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo.. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel. aquecidas contra o peito de Will.

. Ele a seqüestrara e. — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele.O que apenas o tornava mais perigoso. estava em guerra com o mundo todo. Sim. recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. macio e. a julgar pelo péssimo humor. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista. mas. — Ah. no entanto. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem. ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. Sim.. pensou ela. O quarto está gelado. A despeito do frio que fazia naquele quarto. aquela seria uma relação impossível. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. mas. era um lugar quente. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso. Afinal. Como ele. O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. Alguma coisa. estava atraída por Will Stone. Não era.. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença. Pensando bem. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone. continuar correndo. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram.. Onde estava? Com certeza não era o chão. Vou mudar de hotel.. percebeu que Will havia falado com ela. devagar. ela o queria. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez. agora. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . Kelly acordou assustada.. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. ponderou Kelly. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo. um presidiário fugitivo. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. e no sentido mais verdadeiro da palavra. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher.. Com um sobressalto.. Aos poucos. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. hoje. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. Lá estava Will. Não. tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada. — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional. de costas para ela. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. mas muito mal. o avisou de que ela havia despertado. no entanto. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga. Will se voltou. Ao contrário dele.. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes.. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. um pouco antes de adormecer. Afinal também era uma fugitiva.

na vida! — Calças molhadas. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper. do lado direito. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz.. por mais que os anos se .. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. — É verdade. preferiu fazer um comentário menos direto. pensativo. Após alguns minutos. Ou melhor. mas escondeu a surpresa que sentia. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. Will. — As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos. claro — ela respondeu. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las.. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. — Posso? Kelly o fitou por um instante. mas estavam sempre limpas e bem passadas. Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. sentindo-se ludibriada.mesmo lugar. ainda deitada. passados alguns minutos. — É isso aí — ela respondeu. — Lembranças são sempre maravilhosas. porém. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. — Pode deixar. certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. em silêncio. Kelly continuou calada. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. permaneceu sério como sempre. Ela concordou. — Tenho um ferro de passar. — Sou uma mulher de muitos talentos. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca. em minha mala. — ele comentou. — Não é necessário. ele criava outras duas. É um modelo de viagem. — Sim. Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. A tática funcionou. mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém. Já passei muitas calças. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido. Para cada ruga que conseguia eliminar. apenas sacou o canivete. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. mas não ousou tocar nesse assunto. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. Em vez disso. Will nada disse. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro.. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. eu e uma série de babás. saindo da cama. — Acho que está bem no fundo. — Will murmurou. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. eu faço isso — disse Kelly. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor. — O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe... como também é mestre em secar a ferro calças molhadas.

além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar. Podia ver isso em seus olhos. Kelly o fitou. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. Will deslizou um dedo sobre o hematoma. — Sinto muito — ele se desculpou. na prisão. diante dela. Aliás. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza. no entanto.... Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. Transcorridos alguns minutos. — Pronto. às vezes.. ele dedicado a seu entalhe. ambos permaneceram mais algum tempo calados. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara. — Quantos prêmios você já ganhou. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. . — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos. — Diga. Embaraçado como um adolescente. mas naquele momento. Não por falsa modéstia. — Jamais tive a intenção de machucá-la. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. Quando ela fez menção de se afastar. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly. aqui está. foi Kelly quem quebrou o silêncio. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. Eu li a seu respeito — ele confessou. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. Com extrema delicadeza. mas não se iluda com as aparências. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto. o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. — Kelly murmurou. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. visivelmente perturbado. — É. contudo. nada importante — ela respondeu. evasiva. — Eu sei. ela secando a calça aos poucos. intrigada. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. Will a segurou por um braço e a impediu. sem erguer o olhar. mas simplesmente porque detestava falar a respeito. — E então. Mais que essa constatação. Como que por um entendimento mútuo. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. surpresa. não pudera e nem quisera se conter. — Meu pai também viajava.. Alto demais. — ele riu sem vontade. — Afinal.. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele.... mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou..

Mas. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. Na verdade.Confusa. ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. — E graças a você. Faz um julgamento daquele instante. moça. Por razões que Will não saberia explicar. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem. mas. O problema . Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. devo dizer. necessariamente.. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. Quanto à pergunta de Will. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. Mais que inquieta. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. ela passara a sentir-se inquieta. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. Dito isto. será que não estava enganada? Afinal. capturado a verdade. Will os registrara como marido e mulher. A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista. é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott.. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu. ela se limitou a fitá-lo por um instante. diga-me como devo fazer. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou. — Afinal. não é? Depois da conversa daquela manhã.. — Kelly deu de ombros. — Ah. O que não significa que tenha. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. na verdade: ficara assustada. Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro. mirando o fundo daqueles olhos verdes. Não tinha mais nada a dizer. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. como fizera no outro hotel.. para então espirrar. Sim pois. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. — Sinto muito. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser. acha? — Talvez.

para quê tudo isto. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas. — Poupe-me de seus conselhos. moça! — Dito isto. Kelly o fitou. sim! — Ah. séria. — É. eu. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é. havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera. — Kelly deu de ombros. você está certo.. — Não preciso saber de mais nada. Então. sim? — ele retorquiu. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe. culpando a Anscott? — Moça. Kelly se calou e o fitou. a jogara pela janela.. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda.. — Preciso. Afinal. E pode ficar tranqüilo. Quem venceu foi esta última.. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda. sarcástico. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. moça... E mesmo assim.. como uma imagem fora de foco que de . — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. Não. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. ela não sabia ao certo. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado. ou melhor. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. se não pretende provar sua inocência. — Seu irmão? — Sim. O quê. porém. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. Pronto. A seu lado. então? — Como já lhe disse.. Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. Não mesmo! Aliás. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado. de nós dois o criminoso é você. — Você tem esperanças de provar a sua inocência.. De fato.. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças. — Não. — Ninguém acreditaria.

por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. pensou Mitch. dormindo sentado. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. Ótimo. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira.repente ganhasse definição. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance. Dessa vez. Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. Pare de sentir pena de si mesmo. casa e emprego. observando dali o movimento na portaria da empresa. ao menos por ora. pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços. Não tinha dinheiro para quase nada. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho. Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. Seu novo trabalho. aliás. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. era quase o mesmo que não ter trabalho algum. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. Não queria ser notado. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. ele ordenou. um imenso vazio denunciava a emoção contida. mas sua vontade valia pouco naquele caso. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. Suas dívidas se acumulavam. caso fosse pego. Em tempo algum olharam em redor. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. não pensou em nosso filho? — Papai. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. Ele perdeu o equilíbrio e foi . do lado de fora dos portões da Anscott. As palavras de seu superior. — Tem duas opções. Em seus olhos. pois não tinha idéia do que dizer. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. enfim —. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar.

— Mitch deu de ombros. um homem louro de meia-idade.. era tão alto quanto este. se não estaria cometendo um erro. você está certo. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. Da janela. — Escute. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! . A despeito da escuridão que reinava no estacionamento. não só a Will. se é o que está pensando. por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. Sim. Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. Lado a lado com Will. Sim. — Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades.. isto não é um jogo — Will respondeu. embora de porte físico menos maciço. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão. Isso por certo significava alguma coisa. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor.lançado com violência contra a lataria. Um leopardo ferido que. no entanto. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. Zonzo de surpresa e dor. ainda massageando o braço. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado. foram seu olhar sombrio e desconfiado. Este obedeceu e imaginou. quase que no mesmo instante. Ao entrar no quarto o desconhecido. seco. O que mais lhe chamou a atenção. antes de se envolver naquilo. continuava a lutar. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo. que conferiam a Stone um ar agressivo. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. — Olá — ele a cumprimentou. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele. Tudo nele inspirava leveza e agilidade. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. Com um gesto.. — Você joga duro.. aquele homem parecia um enorme leopardo. como se tivesse algo de felino. talvez devesse ter pensado duas vezes. duas. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa.. — Oh. — E o que mais acha que eu poderia pensar? — É. Will fitou o detetive por um momento. três vezes em seguida. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel. a despeito da dor. não? — Não. me desculpe.. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. acho que vou morrer de pneumonia. — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. a porta do quarto se abriu. pela décima vez. antes de concordar. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde.

— Tente outra história. . para variar. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott.. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas. E bem depressa. Tomara um havia menos de uma hora. E agora o Sr. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe.. então.. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira. — Obrigado. que você não mencionou. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado. Prossiga. — Por que estaria interessado em ficar do meu lado. também não foi encontrado com Stone. Stone... — Está certo. Kelly o fitou por um instante. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante.. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. Não é uma proeza pequena. Espirrou mais algumas vezes. — Ele se voltou paira Will.. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. mas eu não preciso de um fã-clube. — O que acha? — Por enquanto não acho nada. Como antes. — Sente-se — ordenou ao visitante. aliás. Em vez disso. — Ele tornou a olhar para Will.. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento. num tom neutro. um fato. Stone. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. — Mitch arriscou. tecnicamente. sem muitas pretensões de convencer alguém. — Bem. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom.. alguém se apoderou desse dinheiro. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. nessa briga? — Porque. Sr. — Continue — disse Will. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou. está certo. voltou a atenção para Mitch. ela não teve tempo de pensar a respeito. Não sei se tem visto os noticiários. Brody. — Detetive particular? Ora. — O detetive respirou fundo e deu de ombros. Pela expressão em seu rosto. mas há muita gente atrás de você. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas.Will preferiu ignorar o comentário. tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso. aliás.. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma. Se querem saber o que penso. Bem. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso. Brody! — Talvez não. porém. Dinheiro que.. antes de desaparecer. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro.. — Vou abrir o jogo. — Você mesmo me disse que. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. Alguém que o usou para deixar a cidade. — Bem. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei.

muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio.. ou preferiram não notar. — Ele pode ter sido.. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. . E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime. — Kelly balançou a cabeça. calado. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso. certo? — Kelly argumentou. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína.. Sr. intrigada. Aos olhos da acusação. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim.. — É isso o que você pensa. decerto não notaram a relevância desse detalhe. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel. também. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam... Ao que soubessem. — Sim — Will replicou. pois para eles isso pouco importa. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma. Brody? — Pode me chamar de Mitch. indo direto ao ponto. talvez não. — Ele abriu um breve sorriso. Em caso positivo.. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou. Aliás. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. A angústia era transparente em sua voz. — Will hesitou. acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda. — Não entendo. Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. tenso. — Exato. Mitch apenas confirmou com um gesto. — Bem. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive. — Quando consegui localizá-lo. — O que aconteceu com o irmão de Will. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros. — Se ele fugiu para Los Angeles.. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu. Foi enterrado como indigente em San Francisco. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber.. mas nunca foi um viciado. — Ora. brusco. como se lhe custasse muito dizer aquilo. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa. Pelo modo como Will franziu a testa. De fato. — Mitch olhou para Will. — Quero dizer. O remédio para gripe já estava fazendo efeito.. Não sabiam sequer que tinha um irmão. deixando-a sonolenta.

Mitch. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote. Na verdade. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar. Stone. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro. — Mas não explica por que vinha nos seguindo. Como ele não compareceu. Por fim. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos..— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro.. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos. — Eu sei. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários. — Se querem mesmo saber. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta. — Bem lembrado — Will interveio. — Antes que o outro pudesse protestar. para saber o que fora feito do corpo. em respeito aos sentimentos de seu cliente. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou.. Ele telefonou para o seu advogado. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás.. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. com a voz trêmula de emoção. Kelly percebeu que. por ora.. Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável. então liguei para ele... — Eu as quero. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly.. ainda encarando o detetive. — Exato. ao longo da conversa. Marcou um encontro com seu irmão. — Bem. e quero tomar parte nisso. . Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. olhando pela janela. — Brody. Vamos deixar nesses termos. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado. — No meu escritório. que me contou a respeito do encontro. você nunca me contou isso! — ele acusou. tudo isto é fascinante. — Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. Seu irmão tentara fazer a coisa certa. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão. Guardei para você. Will. se voltou de repente. — Kelly espirrou. que até então estivera de costas. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues. — É uma descoberta recente. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. dizendo que precisava falar a respeito do caso. Apreciava tal demonstração de sensibilidade.

. Não. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco. não sabe? — perguntou Will. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. — Ande. de modo que quando se dirigiu a Kelly. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante. — Hmm. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. Brody. — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque. Mas já joguei limpo e de acordo com as regras.. — Kelly gemeu. E para a terrível necessidade por um gole. sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa. a fuga de Stephen. — Como eu disse. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial.... seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu. Kelly deu de ombros. e perdi. Queria demais aquelas plantas da Anscott.. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas. na verdade. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara. mesmo. — Mas ele está certo.. parecia mais desperto e atento que nunca. Coisas demais. — O que você acha disso tudo? — ela murmurou. Esse era um sentimento que o perturbava. — Muito justo. Will.. — Estou impressionada — Kelly resmungou.. você sabe.. Stone.. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la. antes. Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia. ao contrário. já o teria feito desde o início. Já teria avisado a polícia. Will. você pode apostar que sei. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça. tenho as minhas conexões. — ela concordou. — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos. — Você sabe que isso é ilegal.. — É. sério. mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É. se fosse o caso. a mágoa que tal covardia lhe causara. para o desconforto do banco de seu carro. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados. — Como? — ela perguntou... um só gole de bebida. que acabara de trancar a porta do quarto.. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. o fez com mais rispidez do que pretendia... cruzando a passos incertos os poucos metros . vá se deitar — resmungou.. — Acho que vou. tonta. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. Além do mais.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado. para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez. — Bem. pensava um monte de coisas.

Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. — confusa e sonolenta. ela já havia dado provas de que pensava assim.. ele a deixara sozinha no quarto... contudo. pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. imaginando se não seria melhor algemá-la. — Volte a dormir — ele repetiu. — Eu... Kelly o segurou por um braço. num tom muito mais brando. depois de um banho rápido. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper. Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. Sim. Com toda a certeza. Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele. Essas coisas. que lhe tocava o coração. — ela olhou nos . mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las. se deu conta de que era uma idéia ridícula. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física. quero dizer. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia. Assim adormecida ela mais parecia um anjo. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. Não só ela estava sem condições de sair dali. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo. Will parou e olhou para trás. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse. O quarto. Embora de forma indireta. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will.. A meio caminho do banheiro. como tivera a chance de fugir e não o fizera. não é? Na Anscott. porém. Gemeu baixinho. num gesto terno. Além do mais. Respirou fundo e desviou o olhar. as pálpebras pesadas de sono.que a separavam da cama. Sim. seu olhar pousou em Kelly. ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. sem que pudesse evitar. Will engoliu em seco.. e com um futuro ainda mais incerto. — Olá. eu. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. Ela se mexeu. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. porém. Céus. ficou imerso em uma agradável penumbra e. Minutos mais tarde. porém. E Kelly ficara.. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim. Quando fez menção de se levantar. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e. mas nem por isso menos adorável. Abriu devagar os olhos. No entanto. por algum motivo. — Você não vai fazer nenhuma besteira. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. No mesmo instante. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração. Vendo-a estendida na cama. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. — ela sussurrou. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. que dormia a sono solto.

enquanto ouvia Kelly falar. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. Sim porque. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will. — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está. — Não vai entrar lá com.. dessa vez ele pudesse vencer. ao deitar-se na dureza do chão. mas com uma condição. Mitch usou a outra para abrir a janela. vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante. mas é claro! — Will murmurou. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito.olhos de Will. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido. sério e calado. gritou para si mesmo. Tolo.... sem rodeios. Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo. Will respirou fundo. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott.. certo? Certo? — Certo — disse Will. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. E naquele instante. Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história.. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. Tolo por acreditar em milagres. pensou. sem saber que decisão o outro havia tomado. em silêncio. não só queria que a justiça prevalecesse. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. Naquele instante. mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro. Por outro lado.. E por mais que tentasse.. — Então você vai ficar livre. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente.. para ele. Alguém iria pagar pela morte de Stephen. ter sua participação aceita. — Você não está mentindo para mim. odiando a si mesmo pela mentira.. eu terei minha reportagem.. . ao menos uma vez. do lado de fora do carro. Acreditara que talvez. Nada jamais terminava bem. — Oh. e tudo vai terminar bem.. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão. apenas talvez. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava.

— Este canto é ocupado por escritórios. — Eu dou as ordens. pelos fundos. verificavam as entradas. lado a lado. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will. o desespero com que ele desejara beijá-la. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. Mitch. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. haviam seis salas. salas e corredores da construção. ajoelhado aos pés da cama. — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. vejam. — Will apontou as divisões expostas no projeto. certo? — disse Kelly. o mesmo se aplica a todos estes papéis. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou. todas muito bem pagas. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch. no entanto. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. com um ar mais grave que nunca... Will e Kelly. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. além de um sujeito no setor de carga e descarga. Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel. Apontou a área onde ficava a produção. — Bem. então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum. Ela. estudava o sistema de alarmes do prédio. Era um grande corredor no qual.. apanhar as provas e sair. com isto aqui. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. — Vejam. Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. entrar. — Faz sentido — Kelly concordou. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição. Diante do comentário de Mitch. de acordo com a planta. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada. — É. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. O furgão da floricultura entrou aqui. acho que posso suportar isso. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali.. perturbando-lhe a concentração. Mitch sorriu e deu de ombros. há uma porta principal que separa esta ala do restante . — Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos. . Horas mais tarde. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. Tudo está claro e bem explicado demais. — Não que eu seja um especialista no assunto.— Pode dizer. e neste fica a produção. — Sim. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão.

— Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. Não há indicação específica na planta. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça. a barba por fazer. mas o que havia em redor deles. — Quanto ao atual administrador. nele pareciam apenas realçá-la. — Bem lembrado — Mitch concordou. temos que encontrar um modo de entrar no prédio. O cabelo despenteado. bem sucedido. teclado com senha numérica. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. — Alguma idéia? — Will perguntou. mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável. sempre atenta. E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. — E quanto ao tipo de sistema.. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. impaciente. devorando uma pizza de queijo.. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio. — Estou pensando. o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica. E aqueles lábios. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. guardas e cães. — Eu discordo. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. hoje em dia. Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. Constrangida. pode ser qualquer um: cartão magnético. — Estou pensando — disse ela. mas não para ele mesmo — Will insistiu.. — Está bem — interveio o detetive —. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . vencida pelo sono. Kelly. — Em primeiro lugar.. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou. deviam ser. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. Kelly olhava não em seus olhos castanhos. Kelly começou a espirrar de novo. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu. depois de passar por muros. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. claro. Ele tem urna carreira nesse setor. Lá pelo final da tarde. — Talvez. os três estavam sentados no chão do quarto. ou donos. — O dono. continuaremos sem o cartão. Talvez não tenham percebido. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. então.do prédio. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais.

Will continuou. Mitch recusou: — Eu.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça.. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono. no limite da exaustão.. por fim. De repente. Mitch se levantou. eu não preciso. intrigado. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch. — Se bem me lembro. parece ter um número infindável deles. Brody? — Ora. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta. pigarreou e prosseguiu. — Ah. — Então trate de alugar um quarto e descansar. hã.. — A quem. mas. — Acho que estou. sem jeito. — Vou vigiar os portões da Anscott. não está? — Sim. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. como Quantex. Parecia cansado. — Will olhou nos olhos do outro. mas ninguém tem o controle acionário. fitando um ao outro. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott.. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou.. certo? — B-bem. Consultoria Califórnia.. — Quer vir junto. esta madrugada — disse Will. — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez. — Mitch sorriu.. Hesitante e embaraçado. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem.. mas. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. Kelly e Will se entreolharam. homem! — Will insistiu. sim. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada.. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores.. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade. Diamond e Santico. caminhou até a janela e olhou para fora. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. — É. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e. — Obrigado. afinal.. Durante vários segundos silenciosos.. depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. — Ainda está trabalhando para mim. — Alugue um quarto. O que foi impossível descobrir. por exemplo. . mesmo. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado. — Esse laboratório parece não ter um dono. Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior. ou melhor. Mitch abriu um sorriso largo. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la.

ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. mas dessa vez não a feriu. Como um manto negro. — Abaixem-se — Kelly alertou. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. De repente. — Vamos ver quem é o dono. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. hein. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. oferecer o quarto a ele. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. o cão de guarda começou a latir. — Acho que posso investigá-la. Enquanto isso. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. na primeira noite? — Mitch perguntou. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. caindo ao chão e espiando em redor. O tom da voz dele soou áspero. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. este a estava observando. nem que vivesse até os cem anos de idade. — Não sei. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele.— Você sabe jogar duro. teriam que fazê-lo o quanto antes. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. — Boa idéia. sem perder tempo. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. Com isto o detetive se retirou. não se esqueça disso! — disse Will. desta vez acompanhada de sua câmera. a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. Kelly espirrou. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol. — Pois é. — Está bem. — Foi muito gentil de sua parte. — A que horas apareceu o furgão. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. Tenso. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. — Desculpem! — ela sussurrou. também — observou Mitch. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. Mais perto agora que da outra vez. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. até parar diante do portão. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. — Faça uma foto. A uma certa distância dali. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. Will. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. algo de que Will parecia compartilhar. Kelly sentia o tempo correr contra eles. porém. como sempre. Mitch e Kelly. Nunca. Uma . se puder — disse Mitch. Era o único ruído por ali. — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite.

afinal se estava doente não deveria sair de casa. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. — Grande garota! — Mitch elogiou. em plena noite de domingo! — Realmente estranho. — Claro. está indo para os fundos do prédio.. — Vamos ficar mais um pouco. Ao passar pela guarita. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. que contava com uma boa visão da frente do prédio. estaria achando tudo muito estranho.foto. — Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. no entanto. sem ninguém? Ou será que. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. Will. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade. outra vez. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou. três e o furgão saiu de seu alcance.. Will procurava não pensar em nada. — É verdade. Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. Menos de vinte minutos depois. não acha? — Will comentou. Mitch. . — Kelly fez mais uma foto do guarda. Pensou em Will. Agora. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um . que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos. parecendo calmo e indiferente.. domingo. — Interessante — Mitch considerou. — Bem. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. no entanto. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. imaginou o que seu filho estaria fazendo. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. — Consegui — sussurrou Kelly. — Faz sentido — Will ponderou. e agora? — perguntou Mitch. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas. como ela própria. Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. — Dessa vez foi Will que respondeu. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. ou talvez ao longo de toda a sua vida. Em parte por saber o que tinha à sua espera. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. sentado no chão úmido. duas. — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial. também. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. dali a alguns minutos. chamou os companheiros e apontou: — Vejam. àquela hora. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite. nenhum deles falou muito. embora dissesse ser inocente? Céus. deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa.. faltou ontem e tornou a aparecer hoje. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. Sim. fora forçado a trilhar aquele caminho? .

não o faria mudar um só detalhe de seu plano. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. como que esperando também pela resposta de Mitch. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos. por exemplo. E naquele momento. com a maior velocidade possível. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. — Raios! — Will resmungou baixinho. Brody. ontem. — Não. curioso. — Difícil saber. No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros. Por causa da distância e da pouca luz. ansioso. Em questão de segundos. mais para si mesma que para os dois homens. vamos lá. já que se pôs a correr rente à cerca.. — Bem que uma das janelas podia estar aberta.. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. Já tomei remédio. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida. Então. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou. em direção ao arvoredo. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás. Mitch resmungou um saúde..metro de distância dele. Mitch se remexeu. só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. — Oh. — Kelly murmurou. Durante dez minutos. e me senti bêbada. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. — Psiu. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. Com um gesto rápido. Só que você não respondeu. no entanto. Stone. um dos vidros começou a baixar lentamente. o silêncio que pairou entre eles foi total. — Bem. enquanto a limusine atravessava os . Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais.. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. Isso. Ao ouvir a palavra bêbada. — É. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. porém. Com justiça e honra. como se suas preces tivessem sido atendidas. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. desça mais! — Olhe lá.. — Kelly anunciou. rosnando e latindo como louco. eu sei. — Quero dizer.. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele. A coruja tornou a piar e então se calou.. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou. — Mitch deu de ombros. por que está fazendo isto? — Will perguntou. — Diga. obrigada. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. Além do mais. com esses vidros. pegue o sujeito! — Will sussurrou. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper.. o homem se voltou em sua direção. inquieto. — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch.

— Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. na verdade. saindo e fechando a porta atrás de si.. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. já tinha muito com que se preocupar.. Brody.. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. — Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez. com um gesto. — Nove da manhã. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços. Will concordou.. mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. — Não sei — disse Will —.. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper. estavam os três novamente no quarto do hotel. Se conseguira ou não. — A que horas abre? — Kelly perguntou. Era um sentimento que não desejava a ninguém. no desespero da fuga. pode ser — o detetive resmungou. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo. a ansiedade explodira entre eles. — Aqui. Sim. Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno.. encontrei um — disse Will. Quanto mais cedo. . às pressas e sem muito êxito. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. agora não tenho bem certeza. Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas. — Ótimo.. era algo que teriam que esperar para ver. de algo que Will ainda não sabia o que era. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional.. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores. Mas o fato era que ela estava. — Ou teria sido número oito e letra C? Céus. — É. Não pude ver. porque o detetive também estava fugindo. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. melhor. já de saída para seu quarto. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que.portões. E como seria se. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta. — O que é que você achou? — ele perguntou. — Estava escuro. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. retirando o filme de dentro da câmera. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora. intrigado. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo.

Kelly finalmente adormeceu. pensativa. mas. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. Esqueça! — Não. Will fora dormir no chão. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante. colado ao seu. sem compreender. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico. — Vá logo dormir — ele explodiu.. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. saindo da cama em direção ao banheiro. mas. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. — Não precisa ser santo.— O que achei? — Ela o fitou. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama. que não havia algema alguma. quando ela acordou assustada. — Ela balançou a cabeça. E que Will estava presente. Seja como for.. Será que faria o mesmo. orgulhosa. algo naquele homem me pareceu familiar. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou.. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will. Corpo que já tivera bem junto de si. moça. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. e daí? — Ela se empertigou. Poucos minutos se haviam passado. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. — Como assim? — Não sei. Engraçado. aliviada. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes. com Kelly e consigo mesmo. mas quase que no mesmo instante ela constatou. Na noite anterior. com as mãos na cintura. — Bem.. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. convencido de que ela não iria fugir. na Anscott — ele se explicou. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão. Parado diante da janela. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. mas então deu de ombros. conferindo-lhe um tom prateado. o que ia dizer? — Will quis saber. sombras. nada. — Oh. E perdera de fato. ele fitava a noite em completo silêncio. pode parecer esquisito. seja apenas um pouco menos. — Bem. como você é teimosa! — Sou mesmo. — Diabos. — Ah. Sim.. como se tivesse perdido por completo a paciência. formas e . — Por um instante Kelly franziu a testa. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou.. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. porém. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama.

vingança? — Kelly perguntou. em meio à solidão da noite. Pode partir quando quiser. mas não conseguiu. — Não entendi — ela resistiu. — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa. a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão. — Will. sem obter resposta. — Coisas como.. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo.. após um longo e angustiante silêncio. ouvir os sons da noite. não me venha com essa. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito. moça. sem se voltar. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada.. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. grata pela escuridão quase total do quarto. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo.. tudo bem. Will não o demonstrou. na prisão. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo. calada. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa. — O que está tentando provar. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. está morrendo de medo de falhar. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora.. ora! — disse Kelly. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo. À luz difusa do luar. Ver a lua e as estrelas. por aqui. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. orgulhosa. mas havia mais que isso naquela cena.. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas. — A lua — ele respondeu. Havia algo de intangível.. sim? — ele pediu. num tom suave.tons. jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama. — Eu estou fugindo da polícia. — Ora. Por fim. seus olhares se encontraram. A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly. Will voltou a cabeça para fitá-la. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. Na melhor das hipóteses. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. Se quer saber.. Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. evasivo. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa.. era disso que eu mais sentia falta. tocar a escuridão. — Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela.. . que não ganhe uma dúzia de prêmios. Se a pergunta o pegou de surpresa. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu.

— E quanto a você. — Kelly balançou a cabeça.. Ela se calou de repente e baixou a cabeça. antes. embora estranhamente acreditasse nele. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. — Ela deu de ombros e suspirou.. Minha mãe morreu. Talvez. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . — Ora. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. Como em outras ocasiões. Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si. também! — Não há nada para falar a meu respeito. que precisasse de outra pessoa em sua vida. está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. — Will mal podia crer no que estava fazendo. Will estava sendo ainda pior... que quisesse. Fale-me de você. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar. com um sorriso triste nos lábios.. — Escute aqui.. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. — Não sabe nada a meu respeito. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. — Não seja ridículo — Kelly respondeu. — Pode ser... — Todo mundo.. meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. E no entanto lá estava ele. Nada! — Então me conte. Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher. — Oh. Precisava se proteger. cínico. já disse. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa. quando diz isso? — É.A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly. — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. apenas talvez.. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. — Eu não tenho medo. Nem todas vão embora — disse Will. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. — E ele tem razão. Stone? Vamos conversar a seu respeito. talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. então — ele insistiu. agora. claro. vamos. — Faça de conta que acredito. Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém.

num. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. porém. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will. lembra? Will engoliu em seco. você parece bem real. Foi você quem começou com isto! — Olhe.dos outros através da perfeição. A partir desse instante. Tomou a olhar pela janela imaginando que. — Volte a dormir — ele resmungou.tom ríspido e cansado. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la. Os cabelos cor de fogo. — Não. para mim.. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. — Isso é impossível — ela murmurou. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. — Volte para a cama — disse ele. e que desejava beijar de novo. Mais que tudo. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. Macios. porém. Lábios que ele beijara uma vez. E quando a viu tão próxima. como eu já lhe disse.. os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações.. vou acabar beijando você. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. — Por quê? — Kelly perguntou. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. caso aquilo fosse um espelho. Como um vampiro. — Você não existe. a pele branca banhada pelo luar. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que . ainda fitando a lua. Diante daquela confissão. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo.. carnudos e tão tentadores. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui. não dissera nada quanto a chamar atenção.. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também. a voz mais rouca que nunca. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha. que também não deixava de ser um desafio. — Não se pode falar do que não existe. ousada. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo. pensou que seu coração fosse parar de vez. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto. deixando-a tontas enfraquecida.. Sabia que ela o estava provocando. mas através de seus defeitos. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar. sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. — Com o devido respeito à opinião de seu pai.

Mitch e Kelly.. em direção ao Canadá. ou estou vendo filmes demais na . esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte. Lábios que se abriam devagar sob os seus.permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. O consenso geral é que você está fugindo para o sul. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. evitava olhar na direção dela. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora. num doce convite. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento. mas não conseguiu dormir. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não. se arrependido se houvessem feito amor. — Isso é bom — Kelly comentou. enquanto tomavam o desjejum. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. pela manhã. Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. Dominado pela paixão.os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. Tinha. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. ou então para o norte. tentando levantar um assunto mais leve —. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. molhados e vermelhos. Deitada sozinha. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. que Will Stone existia. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. ofegante. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia. — Sim. de fato. rumo à fronteira com o México. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse. entregaram o filme no laboratório fotográfico. Ele a queria. O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. teve toda a madrugada para pensar se teria. — Vá dormir! — Will ordenou. Kelly voltou para a cama. Will. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. contudo. em toda a sua vida. Seus lábios. — Ande. da maneira mais eloqüente. vá dormir! E vá logo. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura. abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos. Com um murmúrio abafado. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços. como você — Kelly perguntou. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa.. No momento em que o vira. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda.

como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos . Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho.televisão? Mitch a fitou.. mas não respondeu de imediato. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. intrigada. Cinco delas. iria mesmo responder. — Calma. a voz de repente tornada mais rouca. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives. Assim que chegaram ao carro. — É. tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou. num gesto terno e reconfortante. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. — Ah.. ansioso. porém. — Um curto silêncio se seguiu. voltou-se para fitá-lo. começou a olhar as fotos. — Ontem à noite. Sem palavras. E havia mesmo. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. — Eu e ele éramos parceiros. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior. quem sabe. eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos. Seus olhares se encontraram e então.. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte. Kelly resmungou uma imprecação. também. — Tudo bem — ele murmurou. as quatro fotos da festa. — Não. ao ver cenas de uma festa. Ansiosos... No caminho de volta para o hotel. intrigado. como na sexta-feira. aliás. E quando Kelly já pensava que não. é o furgão. — Kelly colocou para trás. — Parceiros? — Kelly o fitou. Não agora. no final do monte. eu costumava trabalhar com esse policial. — A culpa foi minha. Quinze minutos depois. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e. — Nada. Mais tarde... ao ver a foto seguinte. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. estava escuro como o diabo! — disse Will. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível. cabelos negros e um enorme bigode. não está nada bem! — ela discordou. — O que é isso? — Mitch perguntou. mas não há como ler o número da placa — Will observou. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. e sim contra a própria incompetência.. — Nesta aqui há. aqui está.. — Não foi culpa de ninguém. — Raios! — Will praguejou. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não. mas não contra as condições precárias em que fotografara. Kelly abriu o envelope e. Will e Kelly compreenderam a deixa. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly. — Eu devia ter feito melhor. — Ótimo — Mitch exclamou. mas. Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta..

— Engraçado. porém. Quando dei o número da placa. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. com um ar misterioso. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé. — Ela balançou a cabeça. . apanhou as quatro que colocara para o final. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim.. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho.. E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. — ele comentou. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número. eu acho que não. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. — Saúde — Mitch sussurrou. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. — Ah.escuros que chegara na limusine. Nesse instante Mitch. — Deixe-me ver — pediu Mitch. — Mitch sorriu. — E quem é — perguntou Will. — Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. — Não. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone. — A Santico. E quando se é um policial. se aprende logo a confiar no instinto. também. as peças começavam a se encaixar. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem. Deixando de lado essa foto em especial. — Santico? — Kelly repetiu. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar.. — Não me pareceu.. de modo que as deixou de lado. Onde? Não fazia idéia... — Sinto muito. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim.

A noite anterior não fora das melhores. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. Na verdade. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch.. No mesmo instante. rapazes. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado. E por falar em gelo.. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei.. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson. nenhum dos dois . Dentro havia um aspirador de pó. fora terrível e demorara uma eternidade para passar. como o da floricultura? — Will arriscou.. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. ao lembrar daquele beijo. Nem todas vão embora. Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. — Will resmungou. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos. — Na verdade. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor..— É.. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott. ou melhor. Kelly percebeu Will se remexer. sério. a boca tão úmida e macia. sorrindo. inquieto. você e Mitch! Will a fitou. Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. — Bem. sentir os lábios dela. — Eu. a língua tocando e acariciando a sua. Mesmo na escuridão quase total podia ver. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. Também no furgão. ela prosseguiu. — Só esperando para ver — disse Mitch. Muito mais. depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder. deixando claro que desejava mais dele. assim que a pousou de volta no chão. você pode eliminar mais três — Kelly observou. — Outro disfarce. — Kelly sorriu. vários punhados de carne moída. dentro de uma caixa de isopor com gelo. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. — Menos dois na sua lista. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados. — São dois homens uniformizados. — Aí é que você se engana. — E então? — Will perguntou.

. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. obrigada. mas manterei contato. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. .. moça. Kelly na cama e Will no chão. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. — Já cansei de ouvi-la falar em processo. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. furioso. por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto. um detalhe que não havia notado antes. — Estou aqui com ele. — Oh. Surpreso. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. Will já desceu do carro resmungando. Will não lhe contou? — dissera. — Não se preocupe. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. até o dia amanhecer.. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. não é? — ele pousou as mãos na cintura. — Esqueça. Chamava-se traição. como que vindo do nada. moça! — Will gritara. em seus olhos.. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. — Seja original — ele continuara provocando. O resultado não poderia ser 0utro . — Ah. dois ânimos exaltados. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante. Incapazes de conciliar o sono. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. Com tantas mulheres bonita no mundo. estava de costas para a porta e falando ao telefone. assustada. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele. Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia. ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. Kelly.conseguira descansar. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. moça. — Não se esqueça. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens. mas a acusação estava ali. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will.. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. tão clara como se Will a tivesse gritado. que havia chegado ali uns dez minutos antes. com os olhos verdes a faiscar de ódio. Sim. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza.. Rachel. Ela se voltou. Ele nada disse. por favor — disse ela. — Avise-os. em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. Eu ainda não sei como. Stone. no estacionamento do hotel.

— Então por que não me conta o que é. mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se. — Como pôde acreditar que eu faria isso com você.. desde hoje de manhã. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma. . — Amigos — ela repetiu. na Europa. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso.. — Ela abriu os braços. num movimento rápido. Soltou-a no mesmo instante. — O que você esperava que eu fizesse. Só o que tem feito é gritar. — Se quer saber.. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. Podia notar. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. num gesto dramático. mas não se deixou intimidar. aqui em Seattle. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. você está me machucando. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. melhor.. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. mas a dor não cessou. mais calma. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela. — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação.. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou. Ela ficou em silêncio. apesar de doente... Will pareceu surpreso.— Não — Kelly insistiu. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias.. talvez devesse ter acontecido. que ele também estava sofrendo.. Com toda a força. Bem. inesperado. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer.— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior. — Seu idiota! — ela gritou. — Foi essa a minha grande traição. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar. aí está. e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! .... — Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. porém ainda me recuperando. — Está bem. eu não estivesse lá para atender. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo. — a lembrança daquele beijo passou por sua mente. o que eu acho que já estava um pouco. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável. fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. como se não tivesse percebido que a estava segurando. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. Will Stone! Ele permaneceu calado. ao menos no coração de Kelly. porém. No mesmo instante e sem a menor timidez.

Will. — Também te quero. Quando chegou ao último botão. sensuais. — Eu te quero — ele confessou. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. Naquele momento. Will não tentava esconder a própria excitação. Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas.. porém ele a impediu. só um pouco mais para cima. descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido. neste instante! — Will sussurrou. moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. macia e sensível. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. deliciando-se com o atrito. sensíveis. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. como se hesitassem em subir um pouco mais. Tomando-lhe o rosto entre . Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou. os pêlos encaracolados que o recobriam. pele contra pele. Assim encorajado. sabia? — Fala sério? — Sim. Que ironia. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas.Will mal podia crer que a tinha nos braços... deliciada. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior. Disso não lhe restava dúvida. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez. ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco. e no entanto o silêncio pouco importava.. Respirando fundo. — Eu te quero! — ele repetiu. agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. — Seus lábios me deixam louco. sobre os mamilos que. separados apenas pela barreira das roupas. num murmúrio rouco. quente. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo. passando a lhe abrir bem devagar a camisa.. Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza. por exemplo.. o seu jeito. — Promete? — ela o provocou. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly.. buscando mais uma vez os lábios de Will. E quando voltaram a se abraçar. tudo em você me deixa louco. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. Will permanecia calado. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. se contraíam a seu toque.. Ela estremeceu e suspirou.. E também os seus cabelos. Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. com os olhos ainda fixos nos dele..

quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la. sequer. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento... à exceção da calcinha. Kelly sentia-se queimar em desejo. — Um ano é tempo demais — ele repetiu. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor. um. os ombros largos. Céus. mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. — Não. E mesmo que não tivesse estado preso.. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir. num fio de voz. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado. no ventre. Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então.as mãos. apenas a se fitar. prometo. — Não vou me arrepender nunca. suas coxas e abaixo. induzida apenas pelo modo como Will a fitou.. enquanto ela fazia o mesmo com as dele. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali. pensou Kelly. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo.. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris. — ela murmurou. O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer.. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba... das curvas sedutoras de seus seios e ancas.. — Nunca mais diga isso. olhou-a nos olhos. de tornar culpados mesmo os mais inocentes. — Will.. eu. — Como eu poderia me arrepender por. Uma onda de excitação se irradiou. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas.. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza.. Por um instante ficaram ali parados. Um fugitivo e uma refém. Will chegara aos limites de seu autocontrole. Will abriu o zíper das calças de Kelly. seus corpos a ondular num ritmo crescente. eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo. longo.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. — Eu sei.Não... musculosos. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. Mais . lento e profundo que a fez gemer de prazer. ele não pode conter um murmúrio de encantamento. pelo corpo de Kelly. Você não é um perdedor. Sem poder esperar mais um minuto. por favor! — Sim. muito devagar. nos seios. em investidas cada vez mais poderosas e rápidas. enquanto ele a beijava na boca. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também.. ardente. eu não tenho o direito — ele murmurou. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável.. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas.De fato faziam uma dupla bem estranha. — Eu.

como você disse. — Humm.. Uma doce terna ameaça.rápidas do que Will pretendera.. A resposta. — Kelly sorriu.ainda banhados em suor. sem abrir os olhos. se entende o que quero dizer. veio num tom sem expressão. — É.. apenas trocando um pensamento perturbador por outro. É doutor em Física e leciona em Berkeley.. um ano é tempo demais. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão. Afinal já era a segunda vez. — Não. e ainda assim impossíveis de se refrear. mas a verdade era que estava curioso. E à mesma pessoa. — ela admitiu. — Acho que fui rápido demais. Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento. — Fazia muito tempo para mim. mas nem por isso menos perigosa... Tem senso de humor. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante.. — O que ele faz para viver? É fotógrafo.. mais rápidas do que quisera. sentindo-se mais uma vez inferiorizado... Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. — Ele é um bom homem.. — Não odeia crianças nem chuta cachorros. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis. Em outras palavras um homem muito bem sucedido. em uma semana. pensou Will. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer. que pedia desculpas por algo. — Me desculpe — disse Will. . O clímax não demorou a chegar para ambos e. talvez. depois de me divorciar. corpos . Algo que mudaria suas vidas para sempre. Estavam ambos perdidos. no mínimo lacônica. tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim. Ambos sabiam que algo incomum se passara. se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. também — ela confessou. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta. no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça.. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. no aconchego dos braços um do outro. de maneira irreversível. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido. — Desculpe a pergunta.. também? — Não. — Nunca mais estive com um homem. mas.

embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. — Ora. O estranho era que. algo diferente acontecera. — Por que diz isso? — ele perguntou.. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio... de modo tão súbito quanto aparecera. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. serviam apenas para confirmar as . com Will. num tom preguiçoso. como se tivesse lido os seus pensamentos. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer. Ironicamente. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora. fazendo de conta que era feliz. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar. De algum modo.. — disse Kelly. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. E no entanto. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo. O que sabia sobre o assunto.. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele. não queria pensar nisso. agora.. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. E isso porque. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve. talvez você tenha razão — ela concordou. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela. por mais que tentassem evitar.. Sentimentos. sim. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. — Sei que você vai achar absurdo. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora. não existe algo bom em excesso. só que em excesso! — Ele murmurou. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque. Algo especial. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo. Com a respiração entrecortada. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre.. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. O sorriso se fora de seu rosto. — É. Assim que entrou naquele quarto. apesar do que haviam acabado de compartilhar. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava. Stone. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro. — O que foi? Não é bom? — É. Mas não.. Mas isso também não adiantou. na tarde seguinte..— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro. depois de uma breve carícia.

muito gentil aliás. — Ora. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. os planos para aquela noite. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. — Vejam — Ele apontou. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém. certo? Na verdade. Claro. Por isso.suspeitas do detetive. — É uma porta de segurança. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. arrebentar aquela parede. mas eu seria capaz de apostar que não. A partir daí. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. coletar amostrar e então sair do prédio. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —.. — E que aparência tem o que vamos procurar.. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. procurar as drogas. inconformado. sem atrapalhar ninguém. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso. — Kelly sorriu. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. — Podemos entrar por um deles. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança. Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se . de fato. E por falar nisso. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção. — Não. A garota. — Acho que nesse caso teremos que arriscar. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia.. ervas. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto.. Mitch conteve a vontade de rir. hoje à noite? — Kelly perguntou. mas isso é ótimo! — Will elogiou. Tudo parecia estar caminhando bem. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. pós. — Deixe-me ver se entendi — disse ela. e rezar para que dê tudo certo. E não é necessário. — Olhem. — São comprimidos. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. Na minha opinião. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. — Eu disse que tinha conexões úteis. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu.

mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura. Sabiam agora que teriam de se apressar.. — Mitch insistiu. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. Kelly e Will se entreolharam. Não podia condená-lo. — E para entrarmos no prédio. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. porém. Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém. — Eu também — disse Mitch.. ainda é tempo — disse Will. procurando detalhes que tivessem sido esquecidos.. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch. — E quanto ao cão. Do assento ao lado. de seu posto na parte de trás do furgão. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros.. o que nos dá uma hora para a operação toda. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita.. O homem . por exemplo.contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta. — Não se preocupe com as chaves. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda. nervosa. — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função. Stone. — Se algum de vocês quiser desistir. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. e nada garante que nos saiamos bem. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. — Kelly informou. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado. quando este saiu de seu cubículo.. Kelly espirrou. visivelmente tenso. — Isso! — Kelly apoiou. Kelly o fitou. Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior. tanto física como emocionalmente. — Eu continuo — ela respondeu. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar.. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante. — Céus.. desde que haviam feito amor. ao chegar. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora. — Nós devemos estar entrando às oito. Ele a vinha afastando de si.

. — É. cético. — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. cara. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho. — Está bem. como que para confirmar. vamos. ainda esta noite.. Olhe. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio. o cão latiu algumas vezes. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade. cara.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura. cara. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. voltou-se para Kelly. — Kelly interveio. — Ficaram doentes e estão de licença. Assim que estacionou. com uma risada tensa. O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. não sabia se teria voz para tanto.. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita. permanecia indeciso. meu caro — Will resmungou.. — Mas ligue logo.. incapaz de continuar calada. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. — É novo na frota. no entanto. Em vez disso. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa.. — Olhe. antes que Will pudesse dizer algo. Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado. porém. — Duvido que consiga esquecer. O tempo está passando! . parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. — Agora vamos com isso. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la. certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele. Além disso temos dois outros escritórios para limpar. — Somos a turma da limpeza. Ele não disse nada. com o coração batendo tão rápido. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas. ainda assim. não funcionou? — ela se defendeu. — Seu furgão não tem o logotipo. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido. Segurando apertado a chave em sua mão. — Só uma coisa — Mitch perguntou. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório. cara. e agora sobrou para nós. assim que começaram a descarregar o equipamento —. — Ah. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda. que o enfrentou com um olhar. — Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. Quanto a Mitch. podem ir — o vigia ordenou.. Aliás.. — Funcionou. — Os dois de uma vez? — É. Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou.

ainda que remotamente. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. — Céus. de fato. em posição oposta à da recepção. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. . Conforme o esperado.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. — Já são oito e quinze. — Pela planta. assim que entraram no prédio. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. ela não se convenceu. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala. como o tempo passa depressa. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. com uma lanterna em cada mão. assim que acendeu as luzes. — Como podem ver. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. — Sai de baixo! — ela brincou. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. A primeira vista. o fabrico de alguma droga ilegal. seis salas no total. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. Por algum motivo. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura. Mitch veio por último. que por sinal estava destrancada. Will foi o primeiro a entrar. aqui — disse Will. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. — Ora. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. — Parte do plano vai ser alterada. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. — Se não alteraram o projeto original. fotografando o corredor e o início da perfuração da parede. além daquela por onde tinham entrado. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. Uma rápida inspeção revelou que. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. Estavam no corredor. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. no entanto. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. — Vamos. estas duas paredes levam a salas. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. Eram. — Certo — Will respondeu. passando a serra elétrica a Will. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo.

mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco. Apanhou um béquer. mas. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. — Não desanime! — O detetive o encorajou.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada. — Argh! Não sei. admirado. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu.. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will. este cheio de um líquido verde escuro. Sou esperta demais para que me peguem. sim? — Kelly pediu. — ela os chamou. não? — Mitch observou. já com o canivete nas mãos. desapontado. Parte deles continha um líquido vermelho.. — É bom irmos mais rápido. Eu. Mitch iluminou a sala. . — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada. embora também não estivesse vendo nada suspeito. Primeiro.. Vamos. Mitch.. — Kelly murmurou. acho que não estou vendo droga alguma. transparente.. com uma careta de desagrado. incrédulo. — O que é isso? — Will perguntou. — Absoluta. — Will a fitou.. Stone. ei. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos. cuspindo em seguida. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. — Interessante. — Ei Will. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua. — Temos menos de meia hora.. — Mitch consultou o relógio de pulso. por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles.. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio. — Bem. — Aposto como não é açúcar.. — Ora. e cheirou seu conteúdo. destinado à fabricação de drogas proibidas... então deve haver algum motivo. curioso. sob um prosaico quadro negro. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos. A um canto. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos. me dê o canivete. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado. em vez das máquinas vistas nas demais salas. Segundo. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. — Pode apostar que sim. Kelly fez algumas fotos. — Não vai me dizer que arromba portas. totalmente diversa das outras cinco. por aqui — Will resmungou. notando uma placa pregada à altura dos olhos.. — Will tentou abrir a porta outra vez. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro. mas estava de fato trancada.

. Uma droga de produção complicada. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive.. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. Ainda dirigindo devagar. — Chave? — Will revirou os bolsos e. pois não estou vendo o produto final por aqui. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. Com cuidado para não demonstrar pressa. — É bem provável. Jogou a chave para Mitch. apesar de ela saber que seria melhor assim. — Vamos. garota. enquanto Kelly fazia as últimas fotos.. doía fundo em seu peito. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas. provavelmente com sucesso. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. — E acho bom andarmos rápido. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias.. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. há cerca de um ano ou um ano e meio.. Mitch? — Acho melhor nem dizer. — Que horas são. — Está bem. alarmado. após um instante de confusão encontrou o que procurava. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. Não cheguei a saber muito a respeito. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos. — Mitch tornou a consultar o relógio. Engano seu. corria um boato sobre uma nova droga. E não estou gostando nada do que temos aqui. — E então. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas. o que acaba fazendo a droga custar muito. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente. — O líquido verde. mas tome cuidado. — Não é açúcar mesmo. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. que é colocado em cápsulas. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão. — Quando eu ainda estava na polícia.. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo. se não quisermos nos meter numa bela enrascada. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. Will praguejou. trancar a porta e embarcar no furgão. muito dinheiro. hoje. — Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch. mas que promete lucros enormes para os traficantes. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida.— Não. O guarda estava de costas para eles. chamando a atenção do guarda com um toque curto . — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito. em voz baixa. que tratou de apagar as luzes do saguão. um par de faróis se tornou visível na distância. — Não entrem em pânico — disse Will. quando Will já estava dando a partida no motor. — o ex-policial balançou a cabeça. falando ao telefone. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado.

O idiota tem cinco segundos para abrir isso. meu velho. dois. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave.. sarcástico.. Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela. quase trinta anos depois. da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente. três vezes em seguida e. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. — Eu sinto muito — murmurou. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse. como que num pesadelo. ouvira-o se mexer. cruzavam com o furgão da MacMathson.ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel. terrível e sufocante. deixando para trás uma criança que. — Servicinho rápido.. não? — O guarda observou. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema. — Mitch riu baixinho. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly. mas pelo visto descobriremos isso logo. por que a estava forçando a se afastar. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. Ela falhara para com Will. A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme. três. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. Como se o tempo tivesse andado para trás. E agora Will. você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei... senão eu avanço! Quatro. — Will. Will sorriu. — Idiota! — Kelly resmungou baixinho. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. Sabia que Will estava acordado. Foi então que ela espirrou duas. Com frieza inacreditável. Mitch riu alto. Um sorriso sempre tão raro e . apenas tocou o furgão adiante.... — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney. O medo. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos. aliviado. — Mitch murmurou.. Fora sem se despedir.na buzina. já na estrada. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. Segundos depois... mas fitando o véu da chuva fina que caía. o que era pior. profundo. um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos. não para olhar a lua. Pela segunda vez. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele.. a deixou paralisada. vamos lá. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott. — Vamos lá.

— Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório.maravilhoso. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. naquela noite. — Mitch despediu-se com um aperto de mão. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou. esteja à vontade. o que não é pouco. — É. Kelly se estendeu na cama mas. sim? — ele a repreendeu. sem realmente concordar. tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim. quando as ouviu outra vez. — Para falar a verdade não sei. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele. Já se levantava para verificar. ansioso. está bem? — Claro. E muito obrigado por tudo! . — Eu já vou. que fizesse amor com ela. Mas faça o favor de ficar quieta. moça. esperando. Ah. ficaremos aqui. — Will disse. preocupado. eu estava acordado. sem jeito —. Na noite lá fora. Mitch. até que se tenha prova em contrário. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir.. sem sono. — Mitch se remexeu. Queria tê-lo perto de si. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela. para não ter que se decepcionar depois. — Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. Se pedir perdão resolvesse. — Fique tranqüilo. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. agora mais fortes. magoada.. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido. porém. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. até a volta! — Até a volta.. de repente.. a fitá-la sem trégua para então. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. melhor. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. mas acho melhor acreditarmos no melhor. Não costumava apostar no melhor. de verdade — ela repetiu. Kelly se calou. — Que horas são? — Três da madrugada. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens.. — Ligo assim que tiver notícias. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. queria que a beijasse. — Infelizmente a vida não funciona assim. Bem — o detetive deu de ombros. — Não tem problema.. para que eu possa reembolsá-lo depois. ao entrar. Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. áspero.

Kelly acordou assustada. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim. tocou de leve os caracóis cor de fogo. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles.. na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. mas disse a si mesmo que não o fizesse. Estivera sozinha então. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e. Hesitou ainda por um segundo. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro.. Sim. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. Vestiu-se em silêncio. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. disse a si mesmo. Estava maravilhado.. antes de se levantar dali. desejou afastar aquele cacho. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca. já estivera atrás das grades antes. recusava-se a chamá-la pelo nome. Capítulo XIV . Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias.. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. Sabia que estava sozinha. perdido. sair daquele quarto. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido. E mesmo enquanto partia. Estendendo um único dedo. Mesmo agora. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. nem mesmo tentou chamá-lo. Como tantas outras vezes. Fazia muito tempo. Ele parou e se voltou para fitá-la.. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes. ao longo da noite. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. Mesmo que fosse apenas em pensamento. Afinal.. em especial. então por que estava andando em direção a ela. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano. se afastar dela. ou melhor. agora mais do que nunca. Não podia acordar aquela mulher. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato. Eram sedosos e macios. embora odiasse tal dependência econômica. O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso.Os dois homens se olharam nos olhos. Mais longo que os outros. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. Um deles. Afinal. Estava sozinha agora.. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. decidiu que isso não tinha a menor importância. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. sem um bilhete ao menos.. ali. chamou sua atenção. Poucos minutos antes das oito horas da manhã. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem. e por assassinato. Sem despedida.

o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento. Kelly ordenou a si mesma. fora? — Kelly repetiu. A não ser que. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques. moça. mas sim com sua partida inesperada. afinal não perderia aquelas informações por nada. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. Raios. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. Ele havia saído com o furgão e apanhara. — Fora — ele respondeu.. — Podia ter me acordado! — Ora. Pare com isso. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã. E embora o seu tom de voz parecesse normal.. — Ah. mas não saberia dizer por quê. o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. — Não se preocupe. eu pagarei cada centavo. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. Que foi o que acabou acontecendo. aquilo não fazia sentido. ou melhor.Cerca de uma hora mais tarde. . — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. lacônico. com as duas mãos na cintura. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. indignada. Kelly se ergueu da poltrona.. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. pensou. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. Will Stone que fosse para o diabo. O que significava que Will voltaria. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. — Oh. pouco antes de sair. mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer. Mas se fosse só isso já teriam retornado.. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. quanta consideração. você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. aí está o troco. porém o carro do detetive também não estava ali. — Apanhei alguns cheques. pois iriam em dois carros e voltariam num só. — Ah. E se não gostou. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela.

ansiosa.. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. . A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa.. sarcástico.. agarrou-lhe um braço e apertou com força. se pensa que permiti que me seqüestrasse. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. lhe fez sinal de que estava tudo certo. indiferente. que por algum tempo estivera entalhando. — Kelly deixou claro. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. estavam a ponto de gritar. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. — Will respondeu. E então o telefone tocou. Os dois correram para atender. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. Estão mesmo produzindo drogas. Aquele momento foi. Céus. você é livre para ir embora. — Eu vou ficar! — À vontade. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora. A princípio ficou magoada. — Escute.. se esforçando por manter a dignidade. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou.. moça. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. porém isso logo se transformou em raiva. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo. no final da tarde. sua reportagem premiada. Raios. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo. que estivera andando de um lado para outro. mais uma vez medindo forças. Will. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda.. está bem? — Eu não vou embora. — Não quer perder sua história. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que. e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e. para ambos. pior que qualquer tortura. e não o contrário! — Está maluco. — Sim. — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. certo. — Grande! — Kelly exultou. então é isso — Will murmurou.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados. Kelly.

— Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will. Estamos falando em muito. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas. — O quê? — Kelly insistiu. todos. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. porque você não vai acreditar. motoristas. — Desculpe. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo.. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. — Você não vai acreditar. — Eu sei quem é esse homem. Oh. — Espere um minuto.. que a Santico. impaciente. — Edward Andriotti. ansiosa. hoje cedo? — Fale de uma vez. sim. pois não significava nada para ele. Kelly se deu conta disso uma hora depois. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou.. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly.. para encurtar a história eu descobri. chocada.. mas . vigias. — O que ele disse? — Kelly perguntou. — Mais sério que nunca. Mostrou-lhe então o homem na limusine.. mesmo! Gente respeitada. — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. — Will sentia o coração bater mais rápido.. para então dar atenção a Kelly. você ainda não ouviu o melhor de tudo. não restava a menor dúvida. através da secretária de uma seguradora. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott. Ele também havia mentido para Mitch. O filho dele. Will havia mentido para ela.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e. mas não recebeu resposta.. — O que ele disse? — Kelly perguntou. Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. — Mitch fez suspense. Will. — Sabe para onde viajou Andriotti. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. Eram um só. — Oh. — Escute bem esta. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei. Mitch? — disse Will. E aposto como não passam. aflita.. a filha de Andriotti.. homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender. — Faz sentido.. esqueci que você não é de San Francisco. diante de um espantado Will Stone. — Calma. um importante político mexicano. Mitch — Will voltou a falar ao telefone. mas muito dinheiro. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante.. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais... Emmanuel. — E Rodrigo Echeverria. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. casou-se recentemente com Suzanne.

Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. Talvez ele tivesse uma arma. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura. aliás. A tentação venceu e. Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto. Apressada. parecia estar aceso. Afinal de contas ele comprara algo. — O chefe está pior que uma cascavel. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê.isso não amenizava a dor daquela traição. Pouco adiante estava o furgão. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. naquela manhã. exatamente. Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. que sumira com o furgão. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. — Vamos cair fora logo. Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. Pronto. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão. Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar. Aproveitando o momento.. ou quando as pessoas não . Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. o momento de derramar sangue em troca de sangue. Chegara a hora do ajuste de contas. era o que perguntava a si mesma.. O prédio todo. Will corria para saltar o segundo muro. estacionado mais adiante. — Si. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida. Céus. a essas horas já teria virado comida de cachorro. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia. Não fosse pelo que aprendera com Kelly. claro. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou.. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. com forte sotaque mexicano. hombre. si. Precisava lembrar de agradecê-la. Iria vingar a morte de Stephen. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados.. Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele. pois não haviam sequer almoçado. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott. garoto — ele murmurou para o dobermann. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. Como pudera ser tão idiota. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. Algo que custara cerca de duzentos dólares. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly.. ela cortava caminho por entre as árvores. Vazio. mais baixo. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação.. Isto se saísse inteiro dali. depois. — disse um deles. Escondido em meio às sombras. Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. Raios. Mas Will mentira.. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle. a refeição não fora mais que um pretexto. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo.. fazendo gelar o sangue em suas veias.

— Pode ser mas você. o guarda disse que eram três pessoas. Edward — disse o mexicano. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. Uma delas se erguia. inclusive uma mulher. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia. acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens. já lhe disse! — gritou a voz irada. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. Como não ser apanhado pela polícia... estavam falando dele. Nada me tira da cabeça que foi ele. hombre. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. acalorada. Rodrigo. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. também. Echeverria prosseguiu. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator. — Ora. Mitch e Kelly haviam pego as amostras.. Bem. mais calma e com um carregado sotaque mexicano. rindo..fazem o que ele quer. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais.. — Saber eu não sei. Mais uma vez. — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro.. Se o chefe estava de mau humor. por exemplo. Edward. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e.. você venceu esta. não sozinho de todo. pensou Will. lá vem você com suas tragédias outra vez. Sabe como é. Não foi? — Pode ser. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! . afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio. Will estava sozinho por ali.. com toda essa arrogância.. eles eram educados demais para isso! — Está bem.. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois. relaxe. Mas não.. e pelo rumo da conversa daqueles dois. — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar. — Vamos. Rodrigo.. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta. a julgar pelo silêncio que o cercou. enquanto durou. americanos.. enquanto outra argumentava. não? —É verdade. que pareciam vir da sala de onde ele. o que significava visitas importantes. a inocência de Duggan nos foi muito útil.. é esse maldito arrombamento. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos.. pior para ele. ele ouviu outras vozes. Não. Por incrível que pudesse parecer. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan. do lado de fora. Sim. Tem um grande dom para fazer dramas. claro. podemos? Silencioso como um gato. portas abertas. — Se quer saber o que está me preocupando. Edward.. — Ah. Will se aproximava aos poucos das vozes. — Vocês. Will Stone sentiu o estômago se apertar. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora. — O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós. encolerizada.

.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano. — Cale essa boca.. isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. Andriotti empalideceu. o quadro negro.. hombre. O mexicano era um páreo duro. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma. com boas porcentagens do lucro. — Rodrigo. — Parece que lhe devo desculpas. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch.. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann. mas se não é o Homem de Pedra. Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor. — Echeverria sorriu. — Deve ter gostado de assistir a meu julgamento. rolando um charuto entre dois dedos. — Sim. — Como em olho por olho. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras. passando um lenço pela testa suada.. — Pode apostar que sim. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho.. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu. Não é como o irmão. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave. determinado. E vai pagar caro por isso! — Ora. Stephen deixou você na pior. — Will abriu um sorriso frio. — disse Echeverria. que sabe negociar. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior. — Não seja tolo. não se deixaria derrubar sem luta. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . não foi? Mas admito que admirei seu silêncio. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. sua lealdade... — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. aquele covarde. Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização. Pode apostar que sim. Rodrigo! — Andriotti sussurrou. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. é claro. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente.. ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria. — Quer se acalmar. não? — Will se dirigia ao mexicano. substituído por um olhar cruel. E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. dente por dente. então já sabe de tudo! — Sim.. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou. meu caro. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida. Mesmo naquele momento. — Pois você está muito enganado.. e por que não? — Echeverria sorriu.. não acha? Aliás. Se o Homem de Pedra chegou até aqui. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa. fui eu o responsável. em tão pouco tempo. não me diga! — Will fingiu espanto. os tubos de ensaio e demais vidrarias. o julgamento teve suas graças. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora.

Stone. você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano. e não era pouco. E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. Echeverria. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou. E isso não podíamos tolerar. mas não hesita em matar dois homens desarmados. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. — Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo. mas Stephen era ganancioso demais. quando se deu conta.. para prender a ele e não a nós.. antes de dizer: — Errado. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição. Edward.. se resolver ficar do nosso lado. Sabe como é. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. a sangue frio! Como vê. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. — E é seletivo. Certo.enxugar a testa. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. — O mexicano deu de ombros... isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando. cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. — Rodrigo. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. — Seu irmão era burro demais. acusando-o de ser um zero. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. você não tem tutano para isso.. — Talvez não seja mesmo. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo.. Lembranças das rejeições e humilhações constantes.. Tão falante e seguro. então começou a desviar mercadoria e a nos roubar. um perdedor nato. meu caro. — Vamos. sempre bêbado. nesta vida! — O dedo de . das dificuldades. — Não. Echeverria. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir. um nada. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. Stone. profunda. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou... tão presunçoso. você é um perdedor. — Não seja ridículo. no parque. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente. você é um perdedor. Stone. Você não é capaz. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. — Então. também! Tem nojo de vender drogas.. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. já estava enterrado na coisa até as orelhas. Depois. Segurou com mais força o revólver. que já passara do medo ao puro pavor. mas agora tanto faz. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não. Lembranças de seu pai. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem. Se fosse assim. Cansei de ser um perdedor. isto aqui já estaria fervilhando de policiais... Para falar a verdade.. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. você não é melhor que nós.

Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero. Tarde demais para salvar Will de si mesmo. — Você é um zero à esquerda. agora.... — Não! — Will gritou como um animal ferido. Will.. tão. Por incrível que pudesse parecer. Devagar. tão suave. Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado. agora. Um. no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado.. Capítulo XV De seu catre. Ela havia chegado tarde. só o fazia por saber que era necessário... — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Tarde demais para tentar evitar o inevitável.. — Você é um perdedor. sentimentos de medo e confusão.. Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele. num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will. depois quando assistira a polícia levá-lo embora.Will começou a pressionar o gatilho.. um perdedor. não! — Andriotti implorava. um perdedor. segurando um lenço encharcado de suor. Acima de tudo. Pelo amor de Deus... primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott. Tudo o que podia ver e ouvir.. Isso se passara havia três dias. Não podia sentir a chuva fria no rosto. Todos os ressentimentos e angústias. como a criatura atormentada que sempre fora. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara. Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada. algemado.. Kelly. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos... Três longos e sofridos dias. — Não! — ela sussurrou. estava repentinamente inundado de sentimentos. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. rapaz! — dizia seu pai. devagar. Devagar. Dois. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros. por favor. — A voz de Kelly. a mão pateticamente estendida em sua direção. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço. Devagar. . com as mãos cruzadas sob da cabeça. Ela lhe parecera desnorteada. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho.. Tão desnorteada quanto ele se sentia. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros. porém. — Não.. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão.

você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. o mocinho está livre. muito obrigado.. mas por certo não era ela. e já passava da hora de parar. Por que não matara Echeverria e Andriotti. Mas pensando bem. estendendo a mão. Igualmente algemados. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. Stone — disse o guarda. que tal? Will se levantou devagar e. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. decidir o que seria feito do resto de sua vida. sorridente. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. — Saia daí.. saiu de sua cela. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor. — Ei. Enquanto a liberdade não chegava. Um homem livre. Will não queria que fosse Kelly. rapaz! Os bandidos foram presos. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. pois tratava a todos com a mesma consideração. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. e a mais ninguém. Muito disso se devia a Kelly. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. levados pela polícia. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. Talvez fosse engano.— Ei. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se. tem alguém esperando por você. Stone. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. ainda que tímido. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. Gostava daquele guarda em especial. Fora um momento ímpar em sua vida. Logo agora. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. quando se sentia mais cativo que nunca. na penitenciária de Folsom. girou-a com uma mesura e abriu a porta. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. afinal era um homem condenado por assassinato. — Ah. como ele. No dia seguinte à prisão. Aliás. porém esperneando e fazendo ameaças. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. E para todas elas. Um final feliz. pronto a tirar-lhes a vida. Muito diferentes do guarda Sapo. mas ainda assim nada mais que um momento. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco. não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros. depois de olhar em redor pela última vez. Fora ela quem. — Boa sorte. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela. talvez o advogado. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda.. então. não como a algum tipo de lixo humano. um para cada homem.. . O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. sem saber.

não oferecia qualquer luxo.. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. naquela manhã. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali. — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. gostei da cidade. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. O nome dele é Scott e vive com a mãe. Will apareceu na sala de espera da prisão. — Disse que estava a caminho da Europa. Ao final do almoço. Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia.. Seu apartamento. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. — Enquanto não encontra um lugar. — É seu filho? — Will perguntou. É só até eu conseguir me ajeitar. mas preferia não pensar nisso agora. pensou Will. Não havia futuro possível para eles. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. pelo qual Will fizera questão de pagar. — ele pigarreou. — Bem. já que fora ele o principal motivo do . desde que eu e ela nos separamos.. Fora uma tolice. à sua espera.. E colocada a questão nesses termos. caminhou em direção a ele. E embora estivesse feliz por ver o amigo. claro. dentro e fora do país. O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. — Obrigado. Mitch Brody se pôs em pé e. Mitch Brody levantou um outro assunto. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu. Segundo o detetive. Will. mas era habitável e arejado. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel. a cada vez que precisar depor. ab menos daquela vez. ela não deixou nenhum recado para você. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. — Sim. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria.. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. Mitch. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. não menos delicado: — E então. com um largo sorriso nos lábios. a serviço.Em poucos minutos. aquele já era considerado um caso perdido. Além do mais. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. mas. — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. mas não quis magoar Mitch.. Stone. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. Por serem ambos homens públicos. De qualquer modo. Will pensou em recusar. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. depois de já ter feito a pergunta. Mitch Brody não mentira. mas tem um sofá cama razoável na sala. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita.

Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório.. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott. Assim. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. mesmo! Não que tivesse esse direito. o calor da bebida serviu para reconfortá-la. Aquele frio era resultado do medo. mais nada. Aquela idéia o magoou também. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. a estava acompanhando já havia alguns dias. dois estampidos secos e sinistros... Mais breve impossível.. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada. Kelly Cooper.. se bem que pálidos de medo. Sim. Lembranças dos beijos de Will.. de Will e de si mesma. era como se jamais tivesse estado viva. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário. Estava magoado. qualquer coisa. tentando fazer-se de indiferente. Aquele frio terrível. de jeito nenhum. Riu. O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca. Mesmo agora podia escutá-los. Quanto a Will. sem vontade. Ou melhor. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. — Não se preocupe com isso. um cartão de boa sorte.. diante de situações que não conseguia resolver: fugira. enfim! — Sinto muito — disse Mitch. uma reportagem digna de premiação. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. pois não havia durado muito mais que algumas horas. Will Stone era perigoso de fato. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir. Não. antes. Bem. caso continuasse perto daquele homem. mas apenas para si próprio.adiamento. Fugira do país. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. sobre o seu.. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono. e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago. aliás. Para ser mais exata. Algemado e acorrentado.. ele não estava surpreso. mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. algo com que ia acabar se acostumando. Sim. Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. agora a fugitiva era ela. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos. Na verdade... para si próprio e para ela. como se fosse um criminoso de alta periculosidade. E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . acabara por fazer o que sempre fazia.. enquanto via a polícia levar Will embora. naquele momento. Medo do que poderia acontecer. Ainda que momentâneo. que parecia brotar de dentro dela.. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. É bobagem minha — Will deu de ombros... embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. desde que ouvira aqueles dois tiros. E agora aquele frio em seu corpo.. do calor do corpo dele junto ao seu.

enchia de medo. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum. . Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. no sentido mais verdadeiro da palavra. implorando que alguém os notasse de forma positiva. Kelly. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will. porém. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. quando o assunto era relacionamentos. Onde estaria ela. o que ele iria fazer. Duas noites por semana. cada vez mais. Emoções.. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava. da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. Estavam lá. além do seu emprego. Tudo isso. agora? Será que pensava nele. rebeldes. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo. Agora. dia após dia. afinal. por mais simples que fossem. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. Aconchegando-se melhor sob o cobertor.. a cada vez que as procurava. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. contudo. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário. cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. Apesar da convivência. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. Além do mais. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. Em caso positivo. imutáveis. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes. imaginou se Will já teria sido libertado. fiéis. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido. De fato. se havia algo de curioso a respeito do futuro. no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. era sua capacidade de construir-se a si próprio. Uma coisa. problemáticos. constantes. Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que. E era aquele o ponto central de toda a questão.. Ela era péssima. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens..

tudo muito bem. Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. Tocara seu coração. guardadas no fundo de sua mala. estava amando Will Stone. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. Tudo ótimo. numa tarde fria e chuvosa. Por menos que quisesse admitir. Kelly correu os dedos sobre o papel. para que eles três pudessem se reunir de novo. Imagens roubadas. E agora. ansiara tanto por um grande gole de uísque. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. mais uma vez incapaz de dormir. olhando pela janela do hotel como costumava fazer. Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti.. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. o maldito carro parava de funcionar. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela. ansiosa por saber notícias de Will. Speedy Talbot. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço. mas não havia uma só palavra de Will ali. No último dia de outubro. Eram de Will. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie. mas que haviam acabado ali. a aspereza da barba de encontro à sua pele. Naquela mesma noite. mas de nada adiantou.A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. E de uma forma que. Na primeira foto Will estava de costas. desde aquela semana que passara com Will e Kelly.. Era demais para qualquer ser humano. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. que piorava à medida que avançavam as investigações. sentiu o coração bater mais forte. do apartamento onde o amigo estava morando. Foi a gota d'água. Não punha uma só gota de álcool na boca. o que tornara mais fácil suportar a solidão. Por menos que quisesse admitir. Agora estava sozinho de .. do trabalho com as crianças carentes. em Seattle. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. para piorar tudo. O detetive falava ainda do emprego de Will. homem algum soubera. Com um embrulho nas mãos. quase sempre sem que ele notasse.. um retrato em close que o apanhara de surpresa.. que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. Will Stone tocara muito mais que sua pele. em toda a sua vida. até então. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. Nem ao menos um recado. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. seu corpo. momentos capturados para sempre em filme e papel. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. Estava encharcado até os ossos e jamais.. e da pior forma possível. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo. Em outra. Aquele estava sendo o pior dia de sua vida.

— Estou aqui no apartamento de Mitch. vinda do corredor do prédio. — Olhe. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela.. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo. Will estranhou. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando... e. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou. Profunda e totalmente vivo. onde havia um telefone comunitário. Em questão de minutos restava pouco daquele homem. estou aqui. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. Com mãos trêmulas de ansiedade. A partir da quarta dose dispensou o copo. que marcava quase nove horas da noite. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. embora duvidasse que isso pudesse. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. ele já não distinguia mais nada. — Pronto. portanto era raro que recebesse chamadas. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então. eu. Queria um gole de uísque e o teria. hoje à tarde. . Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino... — ela pigarreou. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. Nada mais importava. Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. Sentia-se apenas vivo.. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. sequer. mas acabei de chegar em San Francisco. vir a acontecer. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios. Agora. porém. Pode falar. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade. Assim. ainda. Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. Não que fosse muito. Consultou o relógio da parede. Conhecia poucas pessoas na cidade. de modo a ir descontando de sua enorme dívida. era diferente.. — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África. do verdadeiro Mitch Brody. Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch... mas agora não sentia nenhuma dessas emoções. um dia.novo e não via motivos para continuar lutando. mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas. — Will? — ela repetiu.. Levaria algum tempo. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. até de viver. Sim. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes. sensuais. — Sim. nos últimos tempos. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen. — Ei. a qual tratou de entornar num único gole. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. já não pensava. Estava cansado de tudo. de si mesmo? Engraçado.

Com mais aquela palavra. quando Will chegou. não entre em pânico. mas não consegui. cuidad.. Quero dizer inconsciente... pensou Kelly. mas por algo mais profundo e impalpável. Parte dele queria reconfortá-la. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. Mitch. — Você entendeu? — Oh.. como a porta estava destrancada. mesmo.. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. Mas você vem. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes.. Acho que desmaiou no sofá. ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento. Por causa do barulho da chuva. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam.. — Mitch está bêbado. que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela. Will notou. Ele estava mudado.. — Venha rápido. — O que houve? Você parece preocupada. — Não. Afastando os cabelos ruivos da própria testa. a fitá-la. Ela estava cansada. do modo mais egoísta..— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou. — Céus. mas foi só por um momento. só mesmo o hálito de bebida. — Está bem. ignorando o comentário.... num gesto que era para ele dolorosamente familiar. que uma boa noite de sono pudesse aplacar. mais aliviada. — Kelly? — murmurou. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch. — Estou a caminho. vá preparando um café.. — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café. mas me faz um favor.. Não era o tipo de cansaço. sim? Enquanto eu não chego.. ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara. Tentei ajudá-lo. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis. Kelly se pôs em pé. a voz pastosa. sim. — Sim. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave. está apagado como uma lâmpada! — Calma. daqueles bem fortes.. ele insistiu. sou eu! — Ela respirou. — Quando Kelly não respondeu. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos. Pronto o café. — Cuidado com eles. Ele vai ficar bem. mas outra parte continuava a desejar. Parecia emocionalmente exausta. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. Ele resmungou algo ininteligível. beba isto. — Por algum motivo. fez uma careta e abriu um olho só. porém. — Mitch? Ei. não é? — Estou a caminho. Deu alguns tapinhas no rosto dele. — Tome.. ela não ouviu sequer os passos na escada e. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool.. tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will. — Mitch acordou. Por um segundo. me reconheceu e apagou de novo. claro. aquilo não soava como surpresa para Will. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . — disse ela. pensou Kelly.

Meia hora mais tarde. vamos! — Nãão.. imagine.. um ano e meio.. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano. — Eu não peguei aquele dinheiro. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo. nisso eu aposto meu pescoço. acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou. — os dele responderam.. claro! — Bom! Que bom.. Will retornou à sala onde Kelly o esperava.. então nunca aceitou.. eu sei. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia.. Falta de provas ou coisa assim. — Traga um café. — Mitch fez uma careta. em silêncio.. sim? Ela saiu para a cozinha e. Será que esse policial era Mitch? — Talvez.. Mitch.. — Nem dos seus beijos. ainda um pouco assustada. o café fora um pretexto.. — Eu sei.Kelly. Um policial foi acusado de corrupção. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar. um pouco mais claramente. — Mas que mulherzinha. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. ou sob o meu. Ei. Mitch não é um corrupto. E dentro de seu . — Ei. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch. Diabos. Mitch. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz.. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca.... — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim.. Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura. depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir. — Quero meu filho! — Mitch resmungou. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo. — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro. Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro. — De nada... — Will lhe deu mais café. em questão de segundos. quando se revolta com alguma coisa. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will. enquanto servia um pouco de café para si e para Will.. a cada gole um gemido de protesto do amigo.. amigão. — Também penso assim. para aquecêlas. — Will deu de ombros. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. tornando a bater-lhe de leve no rosto. mais alto. nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu.. — Mas não sei como foram desconfiar dele. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. Ponto final. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si. — Mitch. Will Stone? — Em você. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada. Até a esposa o deixou. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa. — O que foi? No que está vendo tanta graça. voltava com uma xícara fumegante. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado.. está melhor? — Não. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno. — o detetive olhou nos olhos de Will.. — Não muito bem.

talvez até uma pitada de medo. — ela respondeu. de repente. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha. A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa. — Ah. — Will abriu um sorriso. sério e surpreso. calada. Não seria correto. — Gostaria mesmo? — Will ficou sério. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo. Suficientes. seus olhos buscaram os dele. Seriam capazes de. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso. — Por quê? — ele perguntou. precisava sim. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita. Kelly? — Não. — Um pouco de obediência. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem... não veja nisso nada além do que realmente há. — Então estamos quites. Por instinto. Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. — Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso.. — Mas não precisava.. Não era o melhor dos assuntos. de ser o que ninguém era... o casaco e caminhou em direção à porta. juntos. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe. — Eu preciso saber uma coisa.. evitando o olhar de Will.. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes. agora que Mitch já está melhor. descontei do que lhe devia! — Ora. ele insistiu. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou.. — Bom. Mais uma vez ela se voltou para a porta.. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. ao menos no que se refere a essas taxas..próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo. — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? . — Você mandou a história. — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse.. — Olhe. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas.. — Bem. Mas a verdade era que. Eu também as cobrei de você. muito diferente do seu. naquele exato momento ela se sentia apavorada. agora andando mais rápido. — Sim. Kelly sentiu-se um tanto sufocada. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior. — Ah. Kelly o fitou. Talvez ele tivesse razão. — ele murmurou.... de preferência não muito inteligente. — Ela baixou o olhar. acho que vou embora. Stone. De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém.

— E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. Nada no mundo poderia ser tão doce. — Ele respirou fundo. ser também um alcoólico.. pegou Will de surpresa.. e que lutava contra isso. sem fôlego.. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo. Ele e Mitch estavam jantando juntos. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will.. desde que vira Kelly pela última vez. Kelly murmurou: — Você me assusta. também não deve . talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos.. Viver um dia de cada vez. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA. Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce. — Como são em sua memória? — Macios.. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem. tê-la beijado outra vez. direta e sem rodeios. tão terno. Will Stone. — São mesmo como eu lembrava. quando voltava com o amigo para casa. Tão macios que me deixavam louco.. tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela. quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA. moça. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele.. Will Stone! — Bem. Quase duas.. eu não sei — ela sussurrou. Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer. estava mais perplexo e infeliz que nunca. bem devagar. o que pensar. — É. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando. — disse o detetive.— E-eu... Depois de ter visto Kelly de novo. Seria possível que ele. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta. e suspirou. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão. tão. Ficou imóvel. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. Mas..

mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos. ladeira acima e abaixo. Um tipo como ele.. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível. porém ele o impediu com um gesto. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. Mas agora já não importa. mas acho melhor esquecer esse assunto.. — Suspeita de alguém? — Will insistiu. jamais fora grande coisa. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo.. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will.. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite. nascemos em mundos diferentes. meu caro. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. eu posso até estar errado. Como um refrão interminável. e conseguiu. — Olhe. Quando começou a ouvir o toque de chamada. afinal. Quem preparou a armadilha não foi um amador. — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. Mitch. O que diria a ela? E como diria? Ou será . — Eu e Kelly somos muito diferentes. Afinal. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. E se isso não significava alguma coisa. também sem nenhum rodeio. Viera do lado errado da vida. — Esqueça — Will balançou a cabeça. — Não sou homem para ela. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável. — É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando.. — Will tomou um gole de café. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. Will fez menção de dizer algo.. mas nada disso importava. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. Continuou a caminhar. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. revoltado. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez.. tinha dinheiro para gastar. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. imagine! Seja quem for que fez isso. — Verdade? — Verdade. e o homem que era agora. sim. A moça está apaixonada por você. Podia não ser o melhor homem na face da terra. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. Eu vim do lado errado da vida. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse.. Mas que diabos. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada. já esqueceu? — Pode ser. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco.

Kelly retirou a mão com que o estivera calando. — Não. deixe apagado.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez. Não. fazendo com que a corrente tilintasse. talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. poderíamos. Mais um toque. Para Will aquela voz soou rouca e suave. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. Mas o quê fazer. depois de tudo o que haviam passado juntos. E sensual. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. Ao menos não naquele momento. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir.. O tempo e o silêncio eram fatores importantes. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. — Sim. Devagar. não podia ser assim. pois ela não estava em casa. — Esta bem. Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama. .. seria banal demais. Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga.. pé ante pé.. Bem. O telefone tornou a chamar. aquela se parecia mais com a mulher teimosa. independente e agressiva que seqüestrara. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça. Sim. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will. então? Convidá-la para sair? Não. — Eu vou tirar a mão de sua boca. entendeu? Ele não respondeu. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. Ah. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. também. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito. que se abriu com um clique suave.. bem devagar. — Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. admitir que a amava. ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. ali. — Entendeu? — ela insistiu. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. mas não quero ouvir nem um pio. Bateu o telefone. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano. mas não conseguiríamos. o que você quer? — Conversar. mas. interrompendo pela metade uma imprecação assustada.. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas. e muito. como de outras vezes. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. entendeu? Will ocultou um sorriso.

. Will. sei que não sou perfeita e. — Então pare de fugir. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. — Não. com a voz embargada pela emoção —. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços.. — De qualquer modo — ela prosseguiu —. Will. — Ora. Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo.. mas. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar. Kelly — ele murmurou. mas você está falando! — Desculpe. Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. — É. — E eu quero. se fosse mesmo esse o caso. ou queria. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros. para ser sincera... — Bem. E isso. E então apareceu Gary. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso. Ela ergueu o rosto e. Ora. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe.. combinado com tudo o que ela acabara de dizer. — Quero minha vida de volta. — Estou cansada de fugir. ameaçava esmagá-lo de uma vez. estou escutando — disse Will. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor. Ela havia cruzado um limite. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária. lá estava eu cuidando de minha própria vida. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado... se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater. Kelly. arrastando junto a de Will. Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente.. eu sei. Naquela noite você invadiu minha vida e. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. Você não faria isso — disse ele.. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. agora. — Você nunca me chamou assim. — E se quer saber do pior.. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou. e agora já não havia como voltar. Pobre Gary. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. Stone. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração. olhou nos olhos de Will. desesperada por um pouco de atenção.... uma semana depois. num tom estranho. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe.. — Certo... você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então.estou cansada de tentar agir como se fosse. antes. lá vou eu! — disse ela.— Muito bem.

Muito melhor. — Não está? — Sim — ela sussurrou. envolta num profundo silêncio... — E eu. e nunca... Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. tocou os cabelos cor de fogo. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. — Eu te amo.. — Kelly hesitou. — ele pediu.. mas como o novo homem que era agora. onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa.. — Bem. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição. Will Stone.. mais segura e decidida que nunca. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus. Will interrompeu o beijo. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. — Escute bem. eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não.. de repente.. mas algo impediu seu movimento. Kelly. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos.. — Não acredito! — ele também se pôs a rir. — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor. Kelly. — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. Will Stone. — Kelly riu. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. para em seguida repetir. — Trato feito — Kelly sussurrou.. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus. Cheio de ternura. sempre que você precisar de mim. com os olhos cheios de lágrimas. Se fosse assim.Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. — Quero ouvi-la dizer. naquele momento. apesar da restrição imposta pelas algemas.. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro.. Eu jamais vou te deixar.. Era o que ela mais queria. — Will. Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu. . mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou. mas nunca mesmo. — Eu te amo — ela disse.. permitirei que você me faça ir embora. — Will. Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. — É. Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser. mas eu te amo mais do que à minha própria vida. Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela. eu sei disso! — Kelly suspirou. se ele fosse. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar. num fio de voz.

Condição atual: exílio voluntário. Agora. PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 .. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. A beira de um grave ataque de nervos. em sua difícil busca.divorciada e mãe de uma criança seqüestrada. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios. Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro. Sandra mora com seu marido. Rachel Dryden . Charles. uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver. em Shreveport. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano.agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. no Estado de Louisiana. 13 .ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . E lado a lado. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação. que será publicada dentro de alguns meses..CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost . por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas. Tempos atrás.***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield.

Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. e onde está o perigo? . A ameaça aproximase. incendiando-lhe o sangue nas veias. Contudo.. surge Mark Fletcher. congelando a alma de Lisa! De repente.. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho. afinal. onde reside a segurança.A medida que seu carro se afasta de Nova York. Mas. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa. Em meio às trevas do pavor. Lisa Morley respira mais aliviada. o perigo a segue de perto. saído das más lembranças de seu passado.

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