Sandra Canfield - Duas Vidas Sem Destino CLR 11

Duas vidas sem destino (Snap Judgement

)

Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

De lá seguiria para a África. Oh. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. mas vencer era algo natural para ela. Instantes em que. que já era tido como o casamento do ano. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. Para tentar se distrair um pouco.. De qualquer modo.. Na manhã seguinte. aliás. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais.. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco. Edward Andriotti. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos. queria ser o próximo presidente do México. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. calças de brim caqui. Como sempre. sem se dar conta. também ele um jornalista de renome.. Não. Como sempre. Ao chegar à mansão dos Andriotti. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Para ser mais exata. Kelly . Calças jeans. Aquele trabalho. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. deixavam transparecer a própria alma. um par de tênis. e Emmanuel Echeverria. Sabia. onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. desprovidos de barreiras. Riquíssimo e muito influente. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos. por exemplo. bem no fundo de seu coração. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. medíocres. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias.. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo".. seres humanos a fascinavam. horas antes.. — Casaram-se. tinha sido seu pai. O que tentava. céus. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. ligou a televisão. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. adorava viajar. era muito mais que um empresário de sucesso. porém. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. talvez até outro Pulitzer. Não que fosse pretensiosa. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. E quanto ao pai do noivo. estava longe de ser um político qualquer. uma. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. bem cedo. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. quem a educara assim. Sim. Kelly pensou. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava.. Uma revista. local especializada em fofocas e colunas sociais. Ela própria. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. Ao ouvir aquela notícia. na verdade. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas. Suzanne. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. como odiava arrumar malas! Por outro lado. O pai da noiva. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti. Rodrigo Echeverria. na tarde de hoje. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Não que gostasse das pessoas o tempo todo.

no entanto. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. ajoelhado ao lado de outro homem. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. Assim. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. meio que às escondidas. Com uma das mãos suja de sangue. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte. Por coincidência. usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. No instante em que ele se voltou e a viu. O telejornal prosseguiu. contudo. com um buraco de bala no peito. Uma moradora desta cidade. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. próprias da estação. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. duas. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. De repente. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. com um simples gesto ela havia selado o . repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. Conforme costumava acontecer a cada ano. que mais tarde soubera ser Will Stone.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. no entanto. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto. porém. Havia alguma coisa indecifrável. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. Sentando-se na beirada da cama. alguns mais importantes e outros nem tanto. escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. este caído e coberto de sangue. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. Kelly acordara cedo. em Folsom. apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. de uma modo ou de outro. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. foi testemunha-chave da acusação. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. O Homem de Pedra. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. Sem se deixar abater. três vezes. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais. Encontrara um homem. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. além de vários convidados. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão. Naquela manhã. já não vivia.

e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria. sem dizer uma só palavra para defender-se. ela sabia ter selado seu próprio destino também. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. E aquele homem agora estava solto. porém. Para piorar. sem encontrar uma posição confortável. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma.. — Ora.. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem. Não conseguia. durante aquela noite. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto. Além do mais. De volta ao seu apartamento. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão.. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque. tomou um banho e preparou-se para deitar. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. ela trancou a porta. elemento de alta periculosidade. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz. pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida. nos raros momentos em que estava em casa.. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança.. quando o telefone tocou. A morte da mãe. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. Não.destino do Homem de Pedra. conciliar o sono. em voz alta. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. minha filha — seu pai costumava dizer. endereçado à editora da revista. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem.. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio. de lá do céu.. Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. para dar lugar a um vazio cada vez maior. mais profundo. ou seja. partindo para bem longe dali.. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância. a ausência e a rigidez do pai. Durante o julgamento. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir. de frente e de perfil. Um vazio que ela achava assustador. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela. Kelly Cooper. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado. — Sua mãe está observando tudo. — Há suspeitas de que esteja armado. a falta de carinho. paradeiro desconhecido até o momento. à casa da mulher que testemunhara contra ele. Decidida. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. Sentindo-se um pouco melhor. ainda mais intenso. Virava-se de um lado para outro na cama. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. Mas Kelly Cooper não podia . pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder. Era a polícia informando que. Kelly Cooper. fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã.

seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões. fazia pouco mais de um ano. costumara imaginar que som teria sua voz. porém.. algo que a magoara bastante. num grunhido. Quando conseguiu. e agora ela o ouvia. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. tentando libertar-se. Resmungando e tornando a virar-se na cama. desde os anos de colégio e faculdade até agora. Kelly parou imediatamente de se mover. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava.. sombrio. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. ela era um completo desastre. Na verdade. — Não. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento.. E isto ela vinha conseguindo. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia. Sim. quando Kelly lhe pedira o divórcio. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor. em especial. E então começou o pesadelo.. fascinantes e assustadores. Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. meses atrás. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. Precisava ser o máximo.ser apenas especial. Um esforço inútil. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão. Nisso. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. a melhor entre todos os melhores. De qualquer modo. Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone. a não ser quando o assunto era relacionamento humano. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área. já que era muito menor e mais fraca que ele. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira. Era um som grave. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou. Onde estaria Will Stone. Gary. .

— Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. portanto não venha me culpar! . E havia sangue em suas mãos. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. — Ah. entendeu? Kelly nada respondeu. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. ela balançou a cabeça devagar. — Eu vou tirar a mão de sua boca.. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal.. impassível. se é isso o que você está pensando. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. por mais que tivesse tentado. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. — Compensação? — Sim. Will notou não só o olhar de Kelly. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. E que ainda estava. E você.. vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. — Ah. Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento.. mas não quero ouvir nem um pio. Kelly não sabia ao certo o que pensar. aliás. de fato. Preferia morrer a admitir diante dele que. mas terrivelmente hostis.. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. porém limpas e decentes. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. por um instante. no entanto. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença. acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo. E de repente ela estava fitando um rosto familiar. só que mais velho e cansado. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um.— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. ficara apavorada. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva. moça. Também devagar. — Não — ela retrucou. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou. a imprensa. como na primeira vez em que ela o vira. com roupas modestas. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita. mas não fui eu quem o colocou na prisão. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim. não é? — Will a fitou em silêncio. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly. a mão que lhe cobria a boca se afastou. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. altiva. Will Stone parecia o mesmo. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. Agora. Ele estava muito perto.. sim. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. Kelly respirou fundo. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. forte e musculoso. — Acertar as contas. — Sinto muito.. Tão perto que o seu corpo. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta. — Diga.. se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. como também a direção que tomavam os seus pensamentos.

moça. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio. Quarenta e cinco minutos depois. Assim. talvez fosse melhor fugir para fora da casa e. Com a maior leveza possível.. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não. ele não havia movido um só músculo. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. A menos que.. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão.. — Ei. Sim. Naquele instante.. Até então ele não a tinha ferido.. — Bem. Devagar.. bem devagar. — E o quê. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. principalmente depois do que já passei. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele. moça. O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama.. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir. porém. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado... não parecia ter intenção de feri-la. com um braço em redor da cintura de Kelly. tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava. — E não tente se levantar. curvando-se para desamarrar as botinas. consultou o despertador sobre o criado-mudo. Além do mais. na cama. a seu lado. segurando . Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. ela fez o mesmo com o outro pé. a coragem de Kelly renasceu. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava. como catástrofes naturais ou bombardeios. quase entrou em pânico diante daquela constatação. Kelly resolveu obedecer sem discutir. — Cale a boca e durma! — Will ordenou. no entanto. esperou e. afinal de contas. Girando devagar a cabeça. pousou o pé no chão.Will resmungou baixinho. inerte. E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. pois eu vou perceber.. quando o homem a seu lado não se moveu. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. sobre a cintura. o que já era algum alívio. no entanto. Will Stone.. era muito arriscado. Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta.. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida.. hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama. Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra. Sim. Kelly parou onde estava. — ainda tentou protestar.. também era arriscado demais. eu lhe devo? — Kelly perguntou. isso mesmo! Desceria direto para a garagem. Depois de escapar da cama. desde o momento em que se deitara. Will gemeu. Ele se remexeu. parou. O verdadeiro problema.. ou ser ameaçada outra vez. Seria estupidez confiar tanto na sorte. apagado como uma lâmpada. Quase quatro horas da manhã. seria sair debaixo do braço que lhe pesava. Você me deve uma e estou aqui para cobrar. corpo contra corpo. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. ele estava fora do ar. com todo o cuidado. Sim. espere aí. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will.. sem paciência para argumentar. não quero saber de conversa.

demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. ágil como uma cobra dando o bote.. Melhor assim. Antes que ela tivesse chance de reagir. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. Centímetro por centímetro o pulso. depois outro e ainda mais um. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. A despeito do medo. — Faça isso de novo. direta. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. Sabia que era necessário um pedido de desculpas. aquela vitória tinha um gosto amargo. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo. Como vinham se recusando havia muito tempo. De fato. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. sem a menor cerimônia. acabava de invadir sua vida... Aliviada. e olhando nos olhos de Will. em outra situação. já estava sendo puxada com violência de volta à cama. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama. Kelly fechou os olhos e esperou. Fácil. ela se permitiu respirar fundo. — Entendeu bem? Muda. Kelly conseguia manter sua dignidade. porém não menos alerta. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso. — S-sim. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. — Prepare-se para partir. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. por estranho que pudesse parecer.. A revolta. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos. quase calmo. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. a teria feito suspirar. muito mais fácil do que. moça. agora. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. — ela murmurou. moça — disse. calçando as botas e amarrando os cadarços das . O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. era se erguer com muito cuidado. Sim. E agora. Nada. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados. em sua independência. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. Não tinha outra escolha. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante. Observou o rosto de Will. Contou um minuto. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. Longos. Num tom de voz educado. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras. Kelly se limitou a fitar aquele homem que.

mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. moça. moça. moça.. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. Apressada pela raiva. — Escute. moça.. — Não vai se sair bem desta. e só pare quando eu mandar. isso é mesmo uma pena. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Também preciso usar o banheiro. — O tom de Will era ríspido e insensível. — Oh. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. — Sinto muito. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. Will Stone. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu. E é bom não tentar nenhuma gracinha. — Estou saindo de uma . se é que você me entende. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. não sei em que está pensando. — Olhe aqui. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças. Kelly também se sentou. — Céus. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa. que até então estivera junto à janela. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. moça. entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Tenho compromissos marcados! — Bem. — Vamos fazer uma viagem. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. Furiosa. — Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. O barulho chamou a atenção de Will. massageando o pulso dolorido. tornou a abri-la menos de dez minutos depois. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. — Falar? — Sim.mesmas com gestos bruscos. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. portanto comece a falar — disse ele —. Você sabe disso! — ela resmungou. — Sabe. desconfiada. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. mas parece que você prefere acordar cedo. saio do banheiro do jeito que estiver. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. com a mesma violência que usara para fechar a porta. Esqueça o avião. — Você escolhe. — Aliás devo ir logo para o aeroporto.

como em algum filme de aventura. parecia quieta e sonolenta. em tentar correr para fora dali. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora. havia uma grande distância. contudo. Além do mais. E trate de ficar aqui. não tinha a menor vontade de fazer.. mas no país inteiro.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo.. Embora o plano fosse bastante inteligente. — Eu não entendi. caso resolva se entregar.. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. dar a partida e fugir. moça.. — ela ouviu o ruído da descarga. você tem consciência de que vai acabar se dando mal. A rua estava totalmente deserta.. A cidade. — Como assim? — ela o fitou. — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição. e longe do telefone! Com isto. bem perto da porta. intrigada.. Daí a ter tempo de abrir o portão. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim... Will entrou no banheiro e fechou a porta. Prosseguiu. ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez. — Aliás. brusco. de dentro do banheiro. Algo que ela. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história. chegasse à garagem. aonde imagina que vá conseguir chegar.. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra.. — Não estou ouvindo você — Will avisou. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada. — Arrume suas coisas — Will ordenou. Quanta tolice! Ainda assim. se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. . — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. aliás. — Isto é. — Escute. portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que. embarcar no carro. O pulso ainda lhe doía. Não que se estivesse acovardando. dizer que não me fez mal nenhum. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu. — É isso aí..penitenciária. — Sua voz morreu na garganta. áspera.. se voltando outra vez para Kelly. — Estou aqui — Kelly se apressou em responder. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. muito diferente! Calculando friamente.. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia. seguido pela água correndo na torneira da pia. com alguma sorte. não por um alegre casal em viagem de férias. Eles com certeza irão levar isso em consideração.. — ele confirmou.

. Um setor sem flores ou belas . que Will sequer notou. — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda. eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. no entanto. a um canto do quarto. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo.— Então vamos embora. teve um mau pressentimento.. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. moça — ele a preveniu. Lembrou-se de seu próprio carro. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer.. uma tolice. ignorando seu pedido como das outras vezes. — Ele apanhou a mala de Kelly. tão diferentes entre si. Como parecia ser de seu costume. emergiu na memória de ambos. — O dia mal começou. muito mais importantes. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. — Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou. antes. Aliás. mal conservado e de um tom pálido de azul. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar.. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. e concluiu que os dois veículos. desaparecesse na distância. — É. eu sei — disse Will. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. — É que eu percebi que. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. se você pretendesse me matar. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara.. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa. cerca de um ano antes. — E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. Kelly o fitou com um ar de completo espanto. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. já o teria feito a estas alturas. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly.. Kelly lançou-lhe um olhar furioso. moça? Ela se voltou para fitá-lo. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação.

tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito. — Sim. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo.. Will enfim encontrou o que estivera procurando. de um certo modo que não deixava de ser irônico. mandaria colocar ali uma lápide apropriada. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. Tudo ótimo! — insistira Stephen. Não pelo chamado. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam. Haviam nascido num gueto de Chicago. Quanto a isso. Ficou parado por um longo instante. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. de fato acabara por fazer. Nenhum nome ou data. — Para falar a verdade. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. Algo como puro medo. em si. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. custasse o que custasse. Transcorridos vários minutos. Algo que. — Ei. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. num lar mal estruturado e muito pobre. O curioso é que Stephen. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez. a não ser um estúpido número. obediente. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. E se você vier para cá irmãozinho. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a . sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. frio e sem qualquer sentido. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos.. — Ele abriu a porta e desembarcou. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. um dia. sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. Ela se limitou a segui-lo. Meu emprego é excelente. dois anos mais velho. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo.estátuas adornando as lápides simples. Num gesto cheio de reverência. Na verdade. claro. afinal era a única família que lhe restava. venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. cara. minha situação não poderia ser melhor. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. nenhuma frase inspirada ou consoladora. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave. Nada. No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. — Vamos.

— Ora. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar.. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott.. O mais velho por falta de capacidade. Coisa de cidade grande. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. questionar o irmão quanto a isso. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. Como resultado. com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. E se até então tivera fortes suspeitas. ao recordá-las. quanto o haviam ferido havia um ano. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . Quando criança.tumba. que está fazendo? Me espionando? — Não. irmãozinho. ele por pura falta de esforço. está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. — É fácil notar que você está com medo.. Não houve como não ver o revólver. E aquelas palavras o feriam tanto agora. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento. contudo. apavorado e delirando. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas. logo ele que jamais os utilizava. porém. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. Algo importante. Além disso.. Stephen.. com notas quase abaixo da média. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. Zonzo. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos. Mais do que qualquer desses indícios. Will deixara as perguntas de lado. algo que deveria ter sido até bastante simples. sabe como é. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. Sim. quando entrei no quarto. como um animal enjaulado. O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. Stephen respondera de modo evasivo. como cigarros e bebidas alcoólicas. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão. vamos. — O que significa isto? — perguntara.. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. Dois dias após sua chegada. para que estivesse ganhando tanto dinheiro. por aqui. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. gritando que havia monstros a persegui-lo. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. no entanto. prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta. De nada adiantara. não fosse a reação causada pelo anestésico. — Ei. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa.

ao se levantar. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo. mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito.. Além do mais. . Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão. Ah. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. incapaz de conter a curiosidade. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. porém. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil. à altura do coração. uma mulher de cabelos ruivos aparecera. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma. Will encontrara o apartamento deserto. Certas pessoas. E exatamente enquanto fazia isso. tratava-se de um homem condenado por assassinato. mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores.. E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial.. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. Stephen. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. Desta vez. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha.. perto do cadáver. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito. Era a arma de Stephen. agindo por puro instinto. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. Will ergueu a cabeça para fitá-la. Sem pensar duas vezes. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. O modo como Will se ajoelhara. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado. e levara o revólver consigo. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. por ali... do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. como abutres. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo.

Não podia confiar nessa mulher. aliás. para ali se abrigar do frio e da chuva. mas com resultados não menos catastróficos. A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio..do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte. — Não é da sua conta — respondeu com frieza. obediente. das ilusões de poder e riqueza. De fato. .. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. por arrombamento e invasão. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. Sem intenção. ela já o havia prejudicado antes. Mas precisava ser encontrado. Descobriram até que fora fichado na polícia. de uma overdose de drogas. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. Teoria reforçada. no entanto. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. Kelly o seguiu de perto. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. O corpo de seu único irmão. De fato. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. continuava a amá-lo. anos antes. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento. Além do mais. pedindo resposta. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. pelas drogas encontradas em poder do homem morto. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper. Tudo isso e muito mais. Will não era estúpido o bastante para ceder. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. o olhar mais uma vez hostil. Queria dizer que. desaparecendo da cidade logo após o crime. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. permitindo que a culpa recaísse sobre ele. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. talvez. fosse quem fosse. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. depois de algum tempo.. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. Sim. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. sumido da face da Terra. pois apesar de tudo e contra a própria razão. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. Mas ele não viera.. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo.

— O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. não há necessidade — Kelly prosseguiu. Rachel.. em uma expressão de profunda irritação. Kelly. Ah. — Parece que é uma gripe daquelas. Stone! Não sou surda. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado.. Sim. não preciso de nada... com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse. por favor. está bem. mas sem que Will percebesse. — Bom dia. quando estiver melhor.. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF.. Will a fitou com os olhos semicerrados. sem emitir um som. Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone. Um santo homem.. — Eu já ouvi. sim? Diga que fará contato de novo. moça! — Will sussurrou a seu lado. ela tornou a tossir. por sinal ele está aqui em casa. sem maior autenticidade que da primeira vez. não fique preocupada. quando sua editora atendeu. obrigada. — Sem nenhuma gracinha. Não. claro. um resfriado. — Até logo. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar. vou tomar cuidado.. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. está bem? — Exasperado. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. A expressão de Will se endureceu e. mas que idéia original — ela provocou. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. — Como arremate final. olá. sim. Kelly tossiu. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada.. Escute. ameaçadores. para que eu não precisasse sair. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. Sim. esse médico! — Ela tornou a olhar para Will. Ah. Péssima! — Tornou a tossir. neste exato momento. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone..Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —. Sim. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. repetindo o aviso. — Oh.. ignorando o sarcasmo de Kelly. E quando voltou a falar. sim.. — Como? Ah. E enquanto o telefone chamava. Sob o olhar atento de seu captor. estou doente. claro. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele. — Apenas faça o que estou mandando. — Invente uma gripe. quando uma voz masculina atendeu o telefone. estou com muita febre. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. — E ande logo! Com mãos trêmulas. Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. sim? Voarei para Zurique assim que puder. um som nitidamente falso. — disse Kelly. nervoso... mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. sou eu. . não. — Eu gostaria de falar com Rachel. Oh. Está bem. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo.

Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. Agora. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos. — Aí está — disse ela —. altiva. contudo. moça? — Will a interrompeu. — Como assim. e estendeu a mão. dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. Desta vez. — O que vai querer? — Nada. . moça — ele a preveniu. Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. um vagabundo. arranhando as marchas ao entrar em movimento. Ela. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. Começava a crer que. com o olhar faiscando de raiva. Kelly não notou.. Cinco dólares serão suficientes. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro. não tinha outra saída. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador. — Você precisa comer. entretanto. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. — Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. — Bem. um.— Moça. Lembre-se disso! — Oh. — Cuidado com o que diz e faz. Agora. de fato. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. Um pouco mais calmo. nem seria tão difícil de lidar. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres. era tarde demais. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença.. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. manteve o olhar fixo à frente. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. pensou. Aquele homem era mesmo estranho. ao extrair da carteira a quantia pedida. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato. — Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel. Escondeu um sorriso. se queria uma boa atriz. Will respirou fundo. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo.. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. no entanto. severo. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. porém. ela não esboçou qualquer reação. Kelly deu-lhe as costas e retomou. — Oh. teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém.. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. Além de ser tomada como refém. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. para dentro do carro. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor.

cerca de uma hora depois. — Talvez não tão longe assim. era seu inimigo. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh. Ele venceu. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto. Não importava quem ou o quê era Will Stone. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça. — Coma! — Will mandou. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou. Depois de pagar e receber as embalagens. — Céus. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. presente e atento. Ninguém a não ser o homem a seu lado. pois sabia que era perda de tempo. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. como já começava a se tornar um hábito. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo. quando já terminava sua refeição. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. se pôs a comer. Em vez disso. ao desembarcar do automóvel. moça — ele avisou quando entraram. — Pare com isso. no entanto. Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. Ele a tomara como refém. Ninguém. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. Sem tornar a perguntar o que ela queria. ficaram medindo forças através de olhares. já havia escolhido para si uma calça jeans.. que mais você vai querer? — ela reclamou. quando eu saísse do provador.. duas cuecas.. Tal ato revelava um considerável autocontrole. Rumaram para o norte. por obséquio. E não vai nem ao menos experimentar essa calça.— Não estou com fome — ela teimou. Será melhor para você. — Desça do carro — ele ordenou. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino. mostrou o menor interesse. afinal. acredite! . — Você estaria longe daqui. Ainda era muito cedo. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. Cinco minutos depois. com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava. sem dizer palavra. — Trate de se comportar. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa. na tentativa de indicar que algo estava errado.. Will se voltou para fitá-la e. grave. estacionou o carro em uma vaga próxima e. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando.. duas camisetas. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja.. moça.

No fundo eram ambos prisioneiros. Doze pessoas. Culpado.. no entanto. depois de ter passado seis meses atrás das grades. Por mais que ela tentasse disfarçar. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. destrutivo.. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento. porém. Will Stone. incrédula. Condenado. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. para decepção de Kelly. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. Mesmo agora. por favor entre em contato com. como se não houvesse escutado nada. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou. tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar. — Você estava sendo acusado de assassinato. um condenado cumprindo pena por assassinato.. Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. entretanto. E fora isso o que houvera com ele. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito.. Infelizmente. o policial já tinha deixado a loja. isto sim. doze cidadãos supostamente justos e normais. em um caminhão de entregas. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo. — Isto é. ora. Claro. Na verdade. — Supondo eu falasse.. As autoridades recomendam extrema cautela. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime. Significava. — Ora! — Kelly balançou a cabeça... perante um juiz. E no entanto era essa a sua condição. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta. ele parecia estar se saindo bem demais. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele. — Eu não tinha nada a dizer. Voltou-se para Kelly... Você sabe disso! Por ora.. Que continuassem a culpá-lo à vontade. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. só que ele havia conseguido escapar. durante o julgamento. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento.Quando enfim chegaram ao caixa. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. que o achassem perigoso. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado... que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . Por ironia. Sem alternativa. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado. Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. marginal.

. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. Bem antes que os outros. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro. com um brilho impertinente nos olhos. mas se calou. Olhos que. — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa. O que significava isso. aliás. Desembarcou e esticou os músculos doloridos. sarcástica. moça.— Eu não estava. quase contra sua vontade. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. Kelly percebeu que. — Então estamos empatados. Stone. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma. Não tem a menor graça. perguntou: — Afinal. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . — Quer fazer o favor de falar baixo. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna... — E agora. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível. Ainda assim. fazendo com que parecessem feitos de fogo.. Sinto muito. — Bem. que estava enchendo o tanque do carro.. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse. — Escute aqui. — Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. embora dissessem palavras duras agora. com visível satisfação. contudo. é bom me obedecer! — Está bem. — Afinal de contas. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. o que vamos fazer? Ah. querer eu não quero. para falar a verdade. moça.. num impulso. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly.. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. Faziam três horas que estavam viajando. como antes. não! — ela o desafiou. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo. — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados. nos meus dias de folga. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. moça? — ele ralhou. em fitar o rosto anguloso e os lábios que. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira. Céus. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi. sim? — Por que não? — ela perguntou. Não pôde. insistiam em olhar nos dele. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador.. Kelly chegou a abrir a boca para negar. — Estava sim. se estendendo por vários segundos. no entanto. — Kelly deu de ombros.

— Diga-me. lendo tudo o que você escrever naquele comprovante. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. Stone — ela resmungou. os cumprimentou com um largo sorriso. não é? — Eu mesmo. estava conseguindo. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. destacou a segunda via para guardá-la consigo. Mais calmo então. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável. Após uma inspeção apressada. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É. Will resmungou algo ininteligível e. O sorriso murchou nos lábios de Kelly. também sorrindo. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. sujas e rasgadas. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura. . mas as roupas de Will.. devolveu o cartão ao cliente. — Nem pense nisso — ele a preveniu. Pelo jeito.. Céus. Além do mais. Bo.. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe. eu espero por aqui — disse ela. — Viemos pagar pela gasolina.. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. Vocês dois me parecem gente honesta. — Além do mais. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. deve ser isso mesmo. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço. — Olá! — Um homem gordo e calvo. forçou um sorriso. devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora. Se tinha a intenção de irritar Will. — Nada disso. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito.. — Ele a puxou com mais força. assim que entraram. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. — Vou estar bem a seu lado. impaciente. provavelmente o próprio Bo. dona — ele respondeu. — Pode deixar. — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. — Oh. — Você é Bo. dona. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. Em menos de um minuto.. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. tentando resistir. — Bem. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico. moça. moça.— Com todos os diabos. Sem dizer uma só palavra. claro — o homem tornou a sorrir.

no alto da parede.. não é? — É sim.. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções. acho que vou aproveitar para ir ao toalete.. depois de uma breve luta com um fecho. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly.. havia uma janela. estava furiosa. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro. Tornou a olhar em redor. fosse um grampo de cabelos.. mas desistiu logo na primeira tentativa. — Se eu não mantiver tudo trancado. com raiva não. Tentou abrir a porta. um batom. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. se tivesse com quê escrevê-la. é. Não pode fazer isto comigo! E terrível. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo.. Mais uma vez. a pia. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. pendurada na parede. — Ele sorriu e deu de ombros. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. — Oh. Do jeito que suas unhas eram fracas. na pior das hipóteses. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa. o vaso. bem acima do vaso sanitário. conseguiu por fim abrir a janela. descascando a tinta da porta. isso sim! E como poderia estar.. esmurrando a porta. espere um pouco. — Ei. Estava com raiva. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios.. Não. Will.. Will — disse. para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. Kelly bateu ainda uma vez na porta. Janela? Sim..Ela. a janela. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. porém nada encontrou. — Já que estamos aqui. é desumano. dona. — Pois é. é. Kelly parou de repente. — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo. como se acabasse de se lembrar de algo importante. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta.. no entanto.. Pensou em escrever com as unhas. Stone! — gritou. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos.. Era tão estreita que por um instante ela . Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer.. porém. foi mais rápido e a tomou para si. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. Kelly subiu no tampo do vaso e. já dentro do toalete ao lado. ainda não se havia dado por vencida. observando com toda a atenção as paredes. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. — Aposto como a chave é aquela ali.

ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar... tremendo e de olhos fechados. chamado Will Stone. não era? . além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão. mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso. no topo disso tudo. não agora quando. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela. Ela o havia deixado furioso. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando.. Sim. notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. um rosto que a fitava. Mais especificamente a um certo demônio. caso conseguisse passar por ali. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor. Quando teve a coragem de tornar a abri-los. Fracasso. E nesse momento. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar. Afinal de contas. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e. Uma vida que. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. Seu olhar encontrou-se com o de Will. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon.. Ótimo. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. Kelly ficou caída junto à parede. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. como ela estava? Furiosa também? Não. pensou. causar-lhe um novo acesso de fúria. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas. Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular. Talvez fosse isso o que a incomodava mais. que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. severo e acusador. Sucesso. já colocava a cabeça e os ombros para fora. Bem.. Paralisada pela dor e pelo susto. apoiada sobre o próprio peito. com isso. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor.chegou a desanimar. era algo mais forte que isso. Só mais um pouquinho e estaria fora. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. satisfeita. mas nada poderia fazê-la desistir.. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. Encolhida no assento do passageiro. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima. Desde a chegada de Will. sua vida ordeira. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. ofegante. não conhecera outra coisa que não o fracasso. exceto por um casamento desfeito. Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. Aflita... perfeitamente controlada.. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que..

. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço. para lançá-la num morno torpor... Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise. até então. Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente... Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. ela parecia tão doce e vulnerável. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. O olhar de Will desceu um pouco mais. arriscando um olhar para o lado direito. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior. Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade. ela era especial. Ora. percebeu que Kelly havia adormecido. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa. até agora. Fazia muito tempo que não pensava em rendas. Sim.Especial. de fato você nunca será mais que isso. a não ser no que tocava a si mesmo. pensou Will. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente. Os cabelos espelhavam sua personalidade. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes. tão especial que jamais cometia um erro. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não.. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. por exemplo. lisa e clara. por menor que fosse. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres.. Alternando a atenção entre ela e o tráfego. Sim. melancólico. durante quinze longos anos. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência. tão. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. você acaba por acreditar. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez. Will respirou fundo. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total. Para ser mais exato... A pele. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. e era isso o que deixava o papai orgulhoso. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita. De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. o que lhe emprestava um ar adolescente. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido. Ao menos perante si mesmo. mas que diabos. naquela manhã. a curva pronunciada de sua cintura. Mesmo agora que estava fora da prisão. tão especial que chegava a ser perfeita. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. Ele estava furioso. pensou. E embora tal pensamento o surpreendesse. Tinha medo da própria reação.. não é? Por outro lado. continuava sendo uma . tão mal dormida.

E era óbvio que ela iria tentar de novo. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar. resignada.. E isso se não o matassem antes! Além do mais. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. e escute direito: estou cansado. Alguém buzinou. Forçado a parar em um sinal vermelho. se não precisasse de você para o disfarce. Ela suspirou e obedeceu. Em vez de seguir adiante.. com fome e sob uma pressão muito grande. ele olhou em redor. e olhou em redor. aspirador de pó funcionando bem. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. moça. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. Violão em estado de novo. Não que aprovasse. Talvez. Assim. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. legítimas algemas policiais.. — Will deu de ombros. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas.futilidade pensar nisso. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda.. Agora nós vamos entrar . Duas lanchonetes. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. Se pretendia mesmo escapar. — Uma loja de coisas usadas? Céus. um supermercado e uma loja de ferramentas. no entanto. — Escute aqui. com a visão turva e a boca seca.. por ali. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades. Era um lugarejo comum. a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. ralhou consigo mesma por ter adormecido. as coisas estivessem começando a melhorar. Irritado.. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. pingente em ouro com diamante de um quilate. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. de modo que não podia permitir que lhe escapasse. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. Era só o que se via em termos de comércio. uma loja de roupas. Curioso. ao desembarcar do automóvel. O sinal passou de vermelho para verde. apenas talvez. Mas ora. portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. que diabos. numa tentativa de ajeitá-los. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia.

E era tudo culpa sua. sim? Vou buscar a chave delas.. com um brilho de desafio nos olhos verdes.. uma só palavra de você. — Seu verme. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos. que nada vira da discussão. não é preciso.. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua. Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. furiosa. — Oh. mas ninguém mesmo. Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão.. nojento. Will a fez calar bruscamente. Era . logo atrás do balcão. não sei por quê. o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. Assim que se viu a sós com Will. se preciso. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta. Kelly explodiu. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. pois estas coisas venderam como água. mas nada adiantara. — Só um instante. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos. Puxou-a para si até que estivessem face a face. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona. lá fora — Will respondeu. ao voltar do escritório. moça. lá no escritório.. um.. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas. — Sim.. quatro. — Cinco. avisara. — Eu me atrevo ao que for necessário.. Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena. Stone. Pedira.. Em uma vitrina trancada. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação. três. lançando um olhar maroto a Will. O rapaz.. — Dois. idiota! Ele se voltou e.. senhor. pois prosseguiu: — Como se atreve a. — E agora. com um olhar glacial. aqui está a chave! — disse o balconista. Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo.. Contrariado. agora percebia que jamais o tivera. Dito isto. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone. a fez lembrar que deveria ficar calada. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio. moça. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. — Tem cinco segundos para ficar quieta. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly.nessa loja e não quero ouvir um pio. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro. — ela o provocou. mas não se importava. fizera ameaças. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista. — ela Kelly prosseguiu. Ninguém. Sabia estar agindo de modo infantil.

Balançou a cabeça. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo. Por que. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. perplexa. ela não podia fazer o mesmo.. impulso do momento.. Will só estava garantindo a própria segurança.. Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. isto é. parecendo tão surpreso quanto Kelly. junto ao par de algemas. Em silêncio... Para alegria do rapaz e desespero de Will. muito menos da esposa. A farsa sugerida por Will era assustadora. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela. calada. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente. por fim. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz.tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários.. o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento... — Will hesitou por um instante.. Apontou algo na vitrina. Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. se entende o que eu quero dizer. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente. Na verdade. haviam entrado em sua loja.. com todos os diabos. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida. acho que estes vão servir. Mesmo assim. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. — Deixe-me ver aquilo ali. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly. Aquelas palavras pairaram no ar. Ela estava prestes a pôr tudo a . como que imaginando que tipo de clientes. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. podia? — Oh. afinal. não um homem acompanhado de uma mulher.. A polícia procurava um homem sozinho.. claro que não. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa.. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. Lembranças. foi adiante. por exemplo. ah. — Não. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou. — Não é mesmo. Ela engoliu em seco. com um sorriso definitivamente malicioso. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo. mas Kelly. Will o ignorou e permaneceu calado. tia Millie é um pouco estranha. — E além do mais. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo. — Bem. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir. carregadas de ameaças. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar. Céus. O balconista ficou a fitá-los.. Sabe como é. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. — Não! — Kelly respondeu. um pequeno e outro bem maior —. tinha? Não. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis. para espanto desta. — Sabe. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento.

mas ela não se importava com isso. entregando o cartão de crédito ao balconista. Largando a câmera e a valise no chão. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele. sem a menor delicadeza.. fechou os olhos e suspirou. certo? — Kelly arriscou. quando ele já estacionava o carro diante da recepção. E agora. a leve aspereza da barba por fazer.. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. Decorado em tons suaves de malva e cinza. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo. você vai. — Pronto. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. Não lhe restava energia para tanto. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. vitorioso. Sim. sim! — Will retrucou. para ser mais exato. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã. — Trate de descer e ficar quieta. Em seguida rumaram para um hotel próximo. duas portas de carro foram fechadas com toda a força. ma no fundo não se importava. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. — Tome — disse o diabo. o sopro cálido da respiração contra sua pele. trate de. Will parou numa lanchonete. Minutos depois. Chegaram a Seattle no fim da tarde. A idéia de comer algo. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. moça. Era fácil notar que Will também estava exausto. tudo embalado para viagem. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. Senhor e senhora Cooper. quando o sol já se punha no horizonte. — Já sei. aquilo era o paraíso. mais próximo que nunca. assim que o motor deu o primeiro ronco.. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. ela se deixou cair numa poltrona. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. batatas fritas e refrigerantes. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. — Ah. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. Estava faminta e cansada. — É isso aí. a raiva.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. onde comprou sanduíches.. tampouco. Por um longo instante em seguida ao beijo. enfiou-lhe a aliança no dedo anular.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel. Memórias que a distância tornava dolorosas. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado.. A menos que estivesse enganado. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. Com um suspiro. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. iam passar a noite ali. por sua vez. Aquilo devia ser piada. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher.. Jamais devia tê-la beijado. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos.. E então. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina. o fazia lembrar de muitas outras coisas. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. revirado e gemido. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque.. apesar dos tremores e do suor frio. amargo. ou seja. porém. mas agora teria que ser diferente. Algo que. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo. um fato que ele não podia deixar de admirar. no entanto. afinal? Não sabia dizer. num claro sinal de desconforto.. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. Parecia muito mal acomodada. Sim. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado. Em momento algum. Ao longo da noite ela se havia debatido. pedira para ser libertada das algemas.. Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. Podia ter perdido tudo. Calça. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . aliás. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. Ele mesmo o tinha rasgado. No entanto. mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças. Mitch fechou os olhos. senão a sua ao menos a dos outros..lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida. Longe disso. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. qual fora a sua reação. inclusive o amor-próprio e a dignidade. Bem.. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. No fundo. Capítulo V Sentado na beira da cama. onde um bolso rasgado sobressaía. Também precisava de algumas horas de sono. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café.

— ela resmungou. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina.. Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. Ele não insistiu. Quanto a isso. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei. aonde você vai? Will não respondeu. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. que no dia anterior. — Ei. apontando a porta do banheiro —. depois de uma noite inteira de repouso. você devia tentar! Além do mais. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e. Will precisou respirar fundo e desviar o olhar. De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. apenas pousou a mão na maçaneta. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava. moça. Ao perceber que ele ia realmente sair. — Bem. — Kelly. Em silêncio. céus. Will também parecia estar em péssima forma. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso.culpado. acho que não. se aproximou e abriu as algemas.. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo.. — Ei. Will não fez conta das ironias de Kelly. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério. — Stone. embaraçado. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. — Dizem que a esperança é a última que morre.. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos.. contudo. mas não demore demais. para então caminhar em direção à porta. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. É emocionante. dez minutos depois. Eu sou bem real. Trocara de roupa. Calado como sempre.. mas desta vez não vai adiantar. moça. porém. Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio. se pôs em pé. Meu nome é Kelly! Como sempre. como se estivesse diante de uma questão muito difícil. ela fez questão de recusar o auxílio. — Quer que eu a solte? — Oh. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua. Apontou as algemas. A noite mal dormida na dureza daquele chão. penteara os cabelos e . — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim.. ele ignorou a observação. deixe-me ver. Observando-a. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. — ela murmurou.. Stone. vamos logo! — Will chamou.

sem pedir licença ou desculpas. — Muito engraçado — ele resmungou. Colocou de lado o estojo de pó compacto. Stone? Que vamos fazer.. Estou anotando cada centavo e saiba que. — Tome..parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera. — Que pena. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e. Mais uma vez Will a ignorou. — Pronto — disse. fez questão. Eu vou sair e comprar algo para comermos. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico. apressada. — Kelly tentou corrigir. Will olhou-a nos olhos. Recolheu os cheques espalhados na cama. — Ela deu de ombros. — Kelly argumentou. esse é o primeiro mandamento do manual do refém. para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. se for necessário. ríspido. moça. pensou? — Bem. ao entregar os cheques assinados . — Ei. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. mas que medo — ele ironizou. o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou.. nada a não ser meu passaporte.. que ele tratou de guardar no bolso. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. meus documentos e minhas credenciais de imprensa. Ela obedeceu sem discutir mas. Começou a busca pela carteira. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma. como sempre. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. Apressada demais.. minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível.. apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. — Devia saber. causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem. — Esteja à vontade. não é. que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima.. Ao fechar . Acertou em cheio. Nada. — mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. sério. Calado. agora? Ele se limitou a fitá-la. moça. de ter a última palavra no caso. Ele sequer ergueu o olhar. ácida. certo? — É isso aí. na verdade. a qual constatou estar mesmo vazia. com um sorriso triunfante.. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar. E agora que já dei o dinheiro. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele. colocou dois deles diante de Kelly. — Isto é. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. assine estes. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira.

Agora. sentindo um nó na garganta.. em San Francisco. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. Assim. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. cercado por um muro de pedra. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. No alto do prédio. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra. Sem descer do carro.. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto. Ao ler aquele nome. Desse modo. — É. Tinha certeza de que aquela companhia era. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum. ele cuidaria pessoalmente disso. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita.. Uma chuva fina começou a cair. Bem mais adiante. sem pressa. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros.. Muito além. A hora certa não demoraria a chegar. pois não lhe restava muito tempo... Mais à frente. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. pensou Mitch Brody. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la. Filial de atuação bastante modesta. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. prosseguia pela cidade. não era o momento. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. e que havia uma filial em Seattle. havia uma guarita. Junto ao portão de grades de ferro. aliás. se olhares matassem. contudo. Para manter a própria sanidade. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento. que era operado por controles elétricos. com os olhos postos na estrada . passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si. Ele respirou fundo. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. olhando em redor. Aquele era um esconderijo perfeito. A lei estava era seu encalço. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra. cortando o centro em direção aos subúrbios. Vinte minutos depois de sair do hotel. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. pensou ele. E tinha mesmo que ser logo. Havia algo de muito estranho ali. Reduzindo a velocidade vez por outra. Manobrou devagar o carro e. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. outros problemas. ainda ao longe. de algum modo. antes.porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. inclusive. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios. em letras negras. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco.

. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha.. mas preciso ter cuidado. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés. afinal. Com o passar das horas. Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. Mitch. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle. Olhou em redor. Não ficou surpreso simplesmente porque. se o seu automóvel ou sua vida. Porco agridoce à moda chinesa. impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda. Tensa. Seu instinto lhe dizia. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. observando e pensando. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. n0 lugar dele. havia por ali que pudesse interessar a Stone. Dando a partida em seu velho automóvel. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. Kelly obedeceu. E por falar em teia. nada mau. já teria alertado as autoridades competentes! De repente. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela.. Por algum tempo ficou à espera. porém. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. era difícil saber o que estava pior. teria feito o mesmo. por exemplo. seguiu um pouco adiante para ver o quê. mas não estava com fome.alguns metros à frente... Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. outra vez a caminho da cidade. De fato. moça? — E se eu não parar. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz. jamais o abandonara nos momentos difíceis. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. Will Stone era inocente. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma.. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder. no meio de um arvoredo. . usando o seu canivete suíço para. estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. Sim. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. disso tinha plena certeza. Deu mais alguns passos Pelo quarto. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos. — Sente-se — ele insistiu. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista.

em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. ao lado de sua valise. O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. Um lado desconcertante. pensou ela. Will a fitou e disse: — Vamos esperar. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. o que vamos fazer. Sua força.. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor.. pensou Kelly. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. moça! Aborrecido. no entanto. prepotência e amargura. pela manhã. lacônico. Não. — Bem. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera. — E então. Will não conseguia esquecer aquele olhar. Ainda assim. Não.. nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou. Será que conhecia alguém ali. Will estaria planejando para aquela noite. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder. Pequenas tiras de madeira. Parecia ter se enganado. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. a noite. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. no entanto. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê. achou que seria um bom modo de começar uma conversa. Delicadeza? Era estranho que logo ele.num gesto nervoso... — E então. encaracoladas como os cabelos de Kelly. sua delicadeza.. ao ver a maneira . O que sentiu. E não me pergunte mais nada. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos. e dessa vez a levara consigo no carro. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se. isso era impossível. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade. — Sim. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. o semblante sério. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém.. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum. com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas. mas os seus olhos. esperando sentir por ele uma raiva imensa.. exatamente. para seu espanto. que até então soubera mostrar apenas rispidez. — A noite — ele respondeu. Kelly Cooper não conhecia o medo.

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

mas não pensava nisso. Antes que ele pudesse entender o que se passava. Algo que ela pareceu notar. um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. — Sim — Will concordou —. Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. — Além do sujeito na guarita junto ao portão... Stone.. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado. muito estranho. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões.. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol.. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. era a certeza de que ali existia uma história. Tudo o que havia em sua mente. — E ouviu mesmo. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. naquele instante.. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor.. não acha? — Kelly murmurou. tentando assim mantê-lo perto. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott.. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. Ela. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. ela não iria a parte alguma. mesmo que Stone a libertasse agora. É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah. incomodando-a e tolhendo seus movimentos.Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso. quando ela. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. material para uma grande reportagem. — Horário estranho para uma entrega de flores. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos. — Ora. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. Um muro alto. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição. já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. se jogou ao chão e o arrastou consigo. e a convicção de que. mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons... parando bem diante da guarita. moça. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis. com um gritinho abafado. ora. O veículo. como se aparecesse do nada. — Quieto! — ela sussurrou. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. De repente. — Fique quieta. — Ainda não viu esse cachorro. mas Will não podia correr risco algum. Seu espírito jornalístico não permitiria. Algumas dezenas de metros à direita. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. porém. ainda segurando sua mão. moça! — resmungou. . Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. em última análise. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta. O cão de guarda latiu.

. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. Kelly ficou estática por um instante até que. — Venha cá — ele sussurrou.. mas.. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. Kelly já imaginava o que Stone queria. Mas não era só isso. isto sim. — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu. — Ei. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração. numa tentativa de recuperar o equilíbrio. Ele continuou em silêncio. ele a colocou no chão. respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. Talvez estejam. — A voz de Will soou grave e rouca. — Não consigo ver. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. — Porque talvez não estejam entregando nada. — O que está vendo? — Will rosnou. ao ver que não obtinha uma resposta. só o que Will podia ver eram as costas dela. Ao longo de toda a sua vida. por mais que ele tentasse resistir. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher. como se realmente se importasse com ele. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou. Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara. embaraçada. de maneira tão feminina e suave.. Até então usara apenas seu sobrenome. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly.. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro. depois de cruzar os portões. Difícil saber ao certo. agora. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso. Um de seus pés derrapou na terra molhada e.. engatinhando para junto dele.. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. Assim.. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. Enquanto isso. Oh. como se. disse a si mesmo que tal reação era normal. Como o contrário seria impossível. apanhando uma carga. — Carga de quê? Ele se calou. Aborrecido. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. . espere aí. Uma vez lá ele se pôs em pé. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. — Kelly principiou. pousou as mãos no peito dele. — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. irritado com ela sem nenhum motivo lógico. afastando-se do muro e de Will Stone. Will a tomou pela cintura e a ergueu. mas dessa vez lhe deu as costas.

Stone. — Você tem alguma prova? — Não. fítaram-se demoradamente um ao outro. por fim. Afinal de contas. um carro vermelho é algo difícil de não se ver.. mas resolvi assumir esse risco.. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. sim. mas entorpecentes e drogas proibidas. mas o problema não foi só o carro. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois. Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. mas Por certo não fora aquela. — Bem.. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia. num sussurro. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez. bem à vista! — Dez a um para mim. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. sim! — Kelly se empertigou. — Sim. — Pois eu aposto que foi notado. sim — insistiu. mas é o que pretendo conseguir. diante do forte aparato de segurança. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo. o criminoso sou eu! — Bem.. no parque? Muito obrigado. vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. como que . — Ah. segurou-o por um braço. é? — Sim. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que. — Escute. — Pode ser. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. Stone. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão.. — Com todos os diabos. Encharcados e tremendo de frio. de nós dois. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. orgulhosa. precisa! — Por que acha isso? — Ora. se tentar fazer isto por conta própria.. seu voto de confiança me emociona. moça. ninguém o notou. Stone. que não estivera esperando tal reação. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca. preciso.— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu. — Você precisa da minha ajuda. obrigado. ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. você foi pego. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto. — Não simples remédios. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. tivera a mesma desconfiança. — Então vai precisar de uma parceira. Correndo atrás dele.

mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. Ao chegar ao hotel. afinal. A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. onde brilhavam pequenas gotas de água. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão. o quê. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. e outra vez sem avisar. Por um instante chegou a ficar preocupado. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. contudo. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will. apanhara no armário e jogara em sua direção. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. Ao lado da mesma. Mas por outro lado. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will. no entanto. os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. Kelly suspirou. A polícia e aquela mulher. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. decidiu que tinha todo o direito do mundo. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada.. o túmulo que ele fizera questão de visitar. porém. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. Afinal. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro.medindo forças. cheia de folhas e galhos. depois da visita à Anscott. exatamente. nada a impedia de satisfazer sua . bastavam para atormentá-lo. um ser humano em seu estado original. para quê tanto interesse? Além do mais. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. enquanto se esgueiravam de volta ao carro. Pensando melhor.. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa. para só então voltarem a se erguer. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial. apenas entrou no carro. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. Deitados na terra molhada. Caso fosse verdade. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar. aliás. Senão. — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. a caminho do banheiro. Não.

Nada de couro legítimo. num sobressalto. pode tratar de fazê-lo sozinho.. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira. — Quem são eles? — Kelly perguntou. na vida. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim. muda. seus dedos tocaram em algo. Incapaz de resistir. fazendo Kelly estremecer.. Curiosa. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. Era uma peça comum. por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez. para sua surpresa. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. foi a falta de volume daquela carteira. seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone. mas não podia evitar a pergunta..curiosidade. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira.. moça. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. as fotos ainda em suas mãos. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. já com alguma impaciência. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. Pensando assim. Bem pouco. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. Kelly apenas o fitou. para ficar revirando as minhas coisas. abriu-a para examinar seu conteúdo. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. o outro de um rapaz moreno e sorridente. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. — Eu. — Coloque de volta — ele repetiu. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. Nesse ponto. se é que existia algum. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. mas pelo visto era pouco. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. num gesto brusco. algo que o tornava ainda mais assustador. — Não é da sua conta. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. sentindo-se subitamente culpada. — Coloque-os de volta. Guardados os retratos. ao verificar um último compartimento. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. Por um longo instante. apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. todavia. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. dois pequenos retratos em branco e preto. e depois de tudo isso. a minha vida? Já me roubou e me feriu. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. — Ah. Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. O que impressionou Kelly. para não dizer ordinária. .

a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional. mas de nada adiantou. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso. Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. Will virou-se na cama e lhe deu as costas. atingindo-a no alto da cabeça. Com toda a calma. Céus. na esperança de poder ignorá-la. dessa vez bem mais alto. veio-lhe a imagem daquele homem nu. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado. Uma hora e meia depois. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta. aquela noite fora bastante agitada. Seus pensamentos. Kelly tornou a gemer.. Kelly ainda estava acordada. mas não obteve qualquer efeito. ainda desejava isso. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott.. Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. — Oh.. Will ficara ouvindo cada movimento. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos.. Para piorar. para alívio de Will. seu. ele atravessou o quarto e apagou as luzes... — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante. um travesseiro voou como que do nada. Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis. Por algum estranho motivo. nos lábios dela. Stone! Como já era de se esperar. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor. No silêncio que se seguiu. Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. Não conseguia deixar de sentir por Kelly. seu. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu. Além do mais. Muito grata. Na verdade. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso.. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. no entanto. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença. pareciam ter se . Bem. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre. Will nada respondeu. quanta delicadeza. Mais uma vez. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. Uma vez só.. Sem que estivesse esperando. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado. Sim. sem que pudesse evitar. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono.— Ora. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor.. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo. escolheria mil vezes o chão... Mas. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. por quê? Por que o seu nome..

as mãos pousadas em seu peito. Kelly não estaria agora deitada no chão frio. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho. Se ele fosse tão decente quanto queria crer.. de certo modo. Não. Mas se era assim. Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de. Sim.. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz. — Não me deixe presa de novo. no qual tudo parecia gelado e hostil. logo agora. Will praguejou baixinho e. Por um breve instante. Em meio a tudo aquilo. Era um sonho estranho. Não fora? Kelly gemeu. Kelly Cooper estava em débito com ele.. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. E então notara as fotos nas mãos dela. amordaçá-la e sair. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer.. Tinha o pulso machucado. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho.. incapaz de raciocinar com clareza. a trouxeram para junto de um peito nu. logo após o banho. admitiu que acabava de ser derrotado.tornado inseparáveis. algemá-la na cabeceira.. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater. Ela voltou a gemer. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e.. sentira que faziam parte um do outro.. ainda que a contragosto. pois fora a maior responsável por sua condenação. ele não a tratara com gentileza. tivera suas próprias razões para fazer o que fizera.. — Fique quieta.. as costas contra um muro de concreto. não a tratara sequer com humanidade pois.no entanto. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will. se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber. Raios. Aliás. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo. . Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor. O peito de Will! — O que você. Agora que pensava melhor. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. não? Afinal. num único movimento. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole. o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. Confusa e ainda não de todo desperta. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e. jamais a teria seqüestrado. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos.

— Durma — ele ordenou. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. antes que pudesse protestar. — Vamos. Era como se. Fiel à palavra dada. a voz outra vez seca e direta. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante. renovando suas forças.. com certeza. Ela suspirou. caso ele a quisesse algemar outra vez. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. mas por favor. enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. no entanto. lutando e se debatendo como podia. — Pare de se debater que eu a solto. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. — Pare com isso! — ele ordenou. — Não! — ela implorou de novo. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração. aquecidas contra o peito de Will.— Eu vou com você aonde quiser. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. mas acreditava nele. está bem? Kelly não saberia dizer por que. o que não era muito mas. — Por favor. Ou talvez porque. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e. juntou-se a ela. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel. Perturbado. de tomá-la em seus braços e protegê-la. deite-se. — Não vou algemar você e não vou sair. Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. sem a menor cerimônia. Como se as formas. agarrando-lhe os pulsos... ele de fato lhe soltou os pulsos. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. as curvas. Não conseguiu. eles se tivessem fundido num só.. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. segundo que Will não estava nu como imaginara. era melhor que nada. naquele breve lapso de tempo. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. rude. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. Ergueu os lençóis para Kelly. no fundo. . obrigou-se a se afastar dela. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem.

a julgar pelo péssimo humor. Sim. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão.. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. Alguma coisa. Sim. Aos poucos. pensou ela. Afinal. um presidiário fugitivo. Como ele. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. Lá estava Will. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional. O quarto está gelado.O que apenas o tornava mais perigoso. aquela seria uma relação impossível. continuar correndo. ela o queria.. mas. — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele. macio e. o avisou de que ela havia despertado. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso. Não era. Ao contrário dele. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. Afinal também era uma fugitiva.. e no sentido mais verdadeiro da palavra. Com um sobressalto. tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada. mas muito mal. ponderou Kelly.. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. estava em guerra com o mundo todo. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. no entanto. mas.. agora.. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. hoje. Ele a seqüestrara e. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes. Onde estava? Com certeza não era o chão. no entanto. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. Pensando bem. percebeu que Will havia falado com ela. um pouco antes de adormecer. era um lugar quente. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga... Vou mudar de hotel. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone. O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. de costas para ela. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. Kelly acordou assustada.. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez. devagar. estava atraída por Will Stone. Will se voltou. A despeito do frio que fazia naquele quarto. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista.. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher. Não. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram. — Ah.

mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém. — Pode deixar. em silêncio. mas estavam sempre limpas e bem passadas. apenas sacou o canivete. por mais que os anos se .. em minha mala. mas não ousou tocar nesse assunto. — Lembranças são sempre maravilhosas. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las. Em vez disso. — Não é necessário. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz. porém. Ela concordou.. Will nada disse. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. pensativo. Após alguns minutos. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. — É verdade. do lado direito. eu faço isso — disse Kelly. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. mas escondeu a surpresa que sentia. certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. — Posso? Kelly o fitou por um instante. Kelly continuou calada.. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. — ele comentou. Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. — Sou uma mulher de muitos talentos. A tática funcionou. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. como também é mestre em secar a ferro calças molhadas. Will. preferiu fazer um comentário menos direto. passados alguns minutos. — Sim. claro — ela respondeu. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor. É um modelo de viagem. — É isso aí — ela respondeu. na vida! — Calças molhadas. Ou melhor. ele criava outras duas. — Acho que está bem no fundo. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. — Will murmurou. — O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe. eu e uma série de babás. Para cada ruga que conseguia eliminar. saindo da cama. — Tenho um ferro de passar. Já passei muitas calças. — As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas. sentindo-se ludibriada. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper.mesmo lugar. ainda deitada. Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos.. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira... permaneceu sério como sempre.

diante dela. evasiva. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. — Pronto. — Afinal.. Will a segurou por um braço e a impediu. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza.. contudo. na prisão. — ele riu sem vontade. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will. Aliás. aqui está. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. no entanto. Eu li a seu respeito — ele confessou.. às vezes. — Sinto muito — ele se desculpou. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. mas simplesmente porque detestava falar a respeito. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. ambos permaneceram mais algum tempo calados.. — Jamais tive a intenção de machucá-la. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto. foi Kelly quem quebrou o silêncio. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. visivelmente perturbado. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta. surpresa.. além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar. Mais que essa constatação. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele. não pudera e nem quisera se conter.. Transcorridos alguns minutos. ela secando a calça aos poucos. — E então. Kelly o fitou. o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. mas não se iluda com as aparências. Quando ela fez menção de se afastar. Podia ver isso em seus olhos. Will deslizou um dedo sobre o hematoma. — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio. Como que por um entendimento mútuo... ele dedicado a seu entalhe. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. — É. — Quantos prêmios você já ganhou. mas naquele momento. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. Com extrema delicadeza. mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou. . — Eu sei. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. — Kelly murmurou. nada importante — ela respondeu. intrigada. sem erguer o olhar. — Meu pai também viajava. Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. Embaraçado como um adolescente. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém.. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara. Alto demais.. Não por falsa modéstia. — Diga. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone.

é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott. Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes. capturado a verdade. diga-me como devo fazer. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. Na verdade. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will.. Não tinha mais nada a dizer. como fizera no outro hotel. ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. não é? Depois da conversa daquela manhã. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. Mas. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. acha? — Talvez. O problema . servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. para então espirrar. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. Mais que inquieta. necessariamente. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. — Sinto muito. — Kelly deu de ombros. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu.. Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro. mas. devo dizer. ela passara a sentir-se inquieta. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la. — Afinal.. — E graças a você. Sim pois. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Faz um julgamento daquele instante. na verdade: ficara assustada. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu. Quanto à pergunta de Will. Dito isto. ela se limitou a fitá-lo por um instante. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. Por razões que Will não saberia explicar. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. Will os registrara como marido e mulher. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio.Confusa. A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. mirando o fundo daqueles olhos verdes. O que não significa que tenha. moça. será que não estava enganada? Afinal. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou.. — Ah.

Não mesmo! Aliás. séria. De fato. havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe.. E mesmo assim. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. ela não sabia ao certo.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. a jogara pela janela. — Ninguém acreditaria. você está certo. moça! — Dito isto. — Preciso. Afinal. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu. de nós dois o criminoso é você. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. sarcástico.. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. para quê tudo isto... — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. ou melhor. Então. Não. porém. A seu lado. E pode ficar tranqüilo. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. se não pretende provar sua inocência. — Não.. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão. — Kelly deu de ombros.. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda. então? — Como já lhe disse.. culpando a Anscott? — Moça.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. — Você tem esperanças de provar a sua inocência.. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado. Pronto. Quem venceu foi esta última. — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. Kelly o fitou. — Poupe-me de seus conselhos.. é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo. moça. Kelly se calou e o fitou. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é. — Não preciso saber de mais nada. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda. sim! — Ah.. O quê. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe. como uma imagem fora de foco que de . você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. eu. sim? — ele retorquiu. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. — Seu irmão? — Sim. — É.

pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços. por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. era quase o mesmo que não ter trabalho algum. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. Ele perdeu o equilíbrio e foi . ao menos por ora. pois não tinha idéia do que dizer. Não queria ser notado. um imenso vazio denunciava a emoção contida. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. aliás. observando dali o movimento na portaria da empresa. do lado de fora dos portões da Anscott. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. Suas dívidas se acumulavam. pensou Mitch. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. mas sua vontade valia pouco naquele caso.repente ganhasse definição. Ótimo. Não tinha dinheiro para quase nada. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. enfim —. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. caso fosse pego. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. Em tempo algum olharam em redor. Pare de sentir pena de si mesmo. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. casa e emprego. As palavras de seu superior. não pensou em nosso filho? — Papai. dormindo sentado. Dessa vez. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance. Em seus olhos. Seu novo trabalho. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho. Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. — Tem duas opções. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. ele ordenou.

a despeito da dor. por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! .lançado com violência contra a lataria. pela décima vez. não só a Will. Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer. me desculpe. se é o que está pensando. três vezes em seguida. continuava a lutar. não? — Não. Com um gesto. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. aquele homem parecia um enorme leopardo. — Você joga duro. O que mais lhe chamou a atenção. Tudo nele inspirava leveza e agilidade. isto não é um jogo — Will respondeu. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo.. duas. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. A despeito da escuridão que reinava no estacionamento. você está certo. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor. Da janela. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado. Sim. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação. acho que vou morrer de pneumonia. — Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades.. Ao entrar no quarto o desconhecido. Will fitou o detetive por um momento. Sim.. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa. Lado a lado com Will. se não estaria cometendo um erro. que conferiam a Stone um ar agressivo. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. — Mitch deu de ombros. seco. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome. era tão alto quanto este. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. Zonzo de surpresa e dor. Isso por certo significava alguma coisa. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde. — Oh. a porta do quarto se abriu. — Olá — ele a cumprimentou. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele. antes de concordar. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. — E o que mais acha que eu poderia pensar? — É.. talvez devesse ter pensado duas vezes. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel. quase que no mesmo instante. no entanto. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão. ainda massageando o braço. Um leopardo ferido que. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. embora de porte físico menos maciço. — Escute. foram seu olhar sombrio e desconfiado. Este obedeceu e imaginou.. como se tivesse algo de felino.. antes de se envolver naquilo. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. um homem louro de meia-idade.

— Está certo. — Você mesmo me disse que. para variar.. então. Não é uma proeza pequena. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott. Espirrou mais algumas vezes.. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história. que você não mencionou. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos... — Por que estaria interessado em ficar do meu lado. E agora o Sr. — Bem. — Continue — disse Will.. — Detetive particular? Ora. — Ele se voltou paira Will. Não sei se tem visto os noticiários. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão. Tomara um havia menos de uma hora. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento. está certo. — O que acha? — Por enquanto não acho nada. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei. — Tente outra história.. nessa briga? — Porque. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. Bem. — Vou abrir o jogo. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante. também não foi encontrado com Stone. alguém se apoderou desse dinheiro. num tom neutro. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso. Como antes. um fato.. antes de desaparecer... Prossiga. — Bem. . Stone. Dinheiro que.. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. Em vez disso. Se querem saber o que penso. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe. tecnicamente. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira. porém. — Mitch arriscou. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas. — Obrigado. mas há muita gente atrás de você. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro. Sr. Alguém que o usou para deixar a cidade. E bem depressa. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato. Kelly o fitou por um instante.. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. — Ele tornou a olhar para Will. — Sente-se — ordenou ao visitante. aliás. sem muitas pretensões de convencer alguém. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma. Pela expressão em seu rosto. ela não teve tempo de pensar a respeito. — O detetive respirou fundo e deu de ombros. aliás.. Brody. Stone.Will preferiu ignorar o comentário. Brody! — Talvez não. tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas. voltou a atenção para Mitch. mas eu não preciso de um fã-clube.

. Mitch apenas confirmou com um gesto. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu.. talvez não. intrigada. Aos olhos da acusação. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam. — Sim — Will replicou. — Bem. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim.. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso. Aliás. muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio. — Não entendo. calado. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime.. — Ele abriu um breve sorriso. — Quero dizer. — Mitch olhou para Will. Pelo modo como Will franziu a testa. — Will hesitou. Ao que soubessem.. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia. acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda. Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. — Kelly balançou a cabeça. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. tenso. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. deixando-a sonolenta.. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou. — Exato. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. Sr... pois para eles isso pouco importa. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma.. como se lhe custasse muito dizer aquilo. — É isso o que você pensa. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa. certo? — Kelly argumentou. De fato. indo direto ao ponto. — O que aconteceu com o irmão de Will. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína. — Ora. Brody? — Pode me chamar de Mitch. também. O remédio para gripe já estava fazendo efeito. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber. — Se ele fugiu para Los Angeles. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. — Ele pode ter sido.. E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive. Foi enterrado como indigente em San Francisco. Em caso positivo. brusco. mas nunca foi um viciado. decerto não notaram a relevância desse detalhe. ou preferiram não notar. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele. . Não sabiam sequer que tinha um irmão. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. — Quando consegui localizá-lo. A angústia era transparente em sua voz.

. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. Apreciava tal demonstração de sensibilidade. olhando pela janela. dizendo que precisava falar a respeito do caso. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório. Guardei para você. Na verdade.— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. — Brody. então liguei para ele. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly. — Antes que o outro pudesse protestar. — Exato. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. Vamos deixar nesses termos.. Will. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão.. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos. ainda encarando o detetive. — Eu sei. — É uma descoberta recente. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta. — Se querem mesmo saber. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. Stone.. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. para saber o que fora feito do corpo. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. Kelly percebeu que. — Bem. você nunca me contou isso! — ele acusou. Por fim. — No meu escritório. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott.. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote. tudo isto é fascinante. Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro. — Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. Como ele não compareceu. — Mas não explica por que vinha nos seguindo. — Bem lembrado — Will interveio. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos. — Kelly espirrou. Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. — Eu as quero. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. por ora.. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás. Ele telefonou para o seu advogado. . que me contou a respeito do encontro. em respeito aos sentimentos de seu cliente. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott. Marcou um encontro com seu irmão. se voltou de repente. que até então estivera de costas. Seu irmão tentara fazer a coisa certa.. e quero tomar parte nisso. ao longo da conversa.. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar. com a voz trêmula de emoção. Mitch. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues.

— ela concordou. sério. parecia mais desperto e atento que nunca. — Mas ele está certo. Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. a mágoa que tal covardia lhe causara. — Ande.. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco.. se fosse o caso. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante.. Will. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite. — Acho que vou. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás.. o fez com mais rispidez do que pretendia. um só gole de bebida. Mas já joguei limpo e de acordo com as regras.. E para a terrível necessidade por um gole. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu. tenho as minhas conexões. — Hmm.. você pode apostar que sei. Will. você sabe. seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa. ao contrário. para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas. vá se deitar — resmungou.. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la. — O que você acha disso tudo? — ela murmurou. Esse era um sentimento que o perturbava. Brody. — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não.. Não. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos. e perdi. pensava um monte de coisas. Coisas demais... — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia. Stone. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça. — Estou impressionada — Kelly resmungou. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. na verdade. tonta. — É. cruzando a passos incertos os poucos metros . Kelly deu de ombros. antes.. mesmo. — Como? — ela perguntou. que acabara de trancar a porta do quarto. Queria demais aquelas plantas da Anscott.... — Kelly gemeu. Já teria avisado a polícia. a fuga de Stephen. — Bem. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara. de modo que quando se dirigiu a Kelly. mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. Além do mais.. não sabe? — perguntou Will. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial.. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto. — Você sabe que isso é ilegal. — Muito justo. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É... — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will. — Como eu disse. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. para o desconforto do banco de seu carro. já o teria feito desde o início.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas.

Assim adormecida ela mais parecia um anjo. Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração. e com um futuro ainda mais incerto. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo.. por algum motivo. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. Kelly o segurou por um braço. — Eu. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. porém. mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. — confusa e sonolenta. E Kelly ficara. pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. porém. as pálpebras pesadas de sono. — Olá. Essas coisas. num tom muito mais brando. se deu conta de que era uma idéia ridícula. Ela se mexeu. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. Vendo-a estendida na cama. mas nem por isso menos adorável. ele a deixara sozinha no quarto... — Volte a dormir — ele repetiu. Além do mais. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco.. que lhe tocava o coração. eu. Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. porém. Minutos mais tarde. Não só ela estava sem condições de sair dali. — Você não vai fazer nenhuma besteira. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim.. seu olhar pousou em Kelly. Gemeu baixinho. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil.. No entanto. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. No mesmo instante. Sim. Quando fez menção de se levantar. num gesto terno. Abriu devagar os olhos. não é? Na Anscott. Céus. ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. Will parou e olhou para trás. ficou imerso em uma agradável penumbra e. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. Embora de forma indireta. Will engoliu em seco. A meio caminho do banheiro. que dormia a sono solto. — ela sussurrou. Respirou fundo e desviou o olhar. Sim. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will... Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia. O quarto. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia. depois de um banho rápido. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e. imaginando se não seria melhor algemá-la. Com toda a certeza. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las.que a separavam da cama. — ela olhou nos . Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele. como tivera a chance de fugir e não o fizera. quero dizer. ela já havia dado provas de que pensava assim. sem que pudesse evitar. contudo. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair.

para ele. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. ao deitar-se na dureza do chão. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro. certo? Certo? — Certo — disse Will. sem saber que decisão o outro havia tomado. mas é claro! — Will murmurou. Por outro lado. — Então você vai ficar livre. — Oh. — Você não está mentindo para mim. sério e calado. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos. do lado de fora do carro. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will. apenas talvez. e tudo vai terminar bem. Naquele instante. . gritou para si mesmo. Tolo por acreditar em milagres. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido. Alguém iria pagar pela morte de Stephen. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott. dessa vez ele pudesse vencer. pensou. mas com uma condição. Will respirou fundo.olhos de Will. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava. odiando a si mesmo pela mentira. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante.. Sim porque. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. E por mais que tentasse.... Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão.. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. não só queria que a justiça prevalecesse. enquanto ouvia Kelly falar. Nada jamais terminava bem. ao menos uma vez. Acreditara que talvez. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente.. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. E naquele instante. Mitch usou a outra para abrir a janela.. sem rodeios. em silêncio. Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo.. Tolo. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. eu terei minha reportagem. — Não vai entrar lá com. ter sua participação aceita. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito... — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está.. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la.. mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu. vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza.

— Will apontou as divisões expostas no projeto. Horas mais tarde. . Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. O furgão da floricultura entrou aqui. Will e Kelly. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch.. — Faz sentido — Kelly concordou. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel. — Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos.. — Vejam. — Eu dou as ordens. além de um sujeito no setor de carga e descarga. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. salas e corredores da construção. no entanto. — Este canto é ocupado por escritórios. certo? — disse Kelly. estudava o sistema de alarmes do prédio. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali. Apontou a área onde ficava a produção. há uma porta principal que separa esta ala do restante . o mesmo se aplica a todos estes papéis. Diante do comentário de Mitch. o desespero com que ele desejara beijá-la. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. — Bem. lado a lado. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. — Sim. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição. todas muito bem pagas. verificavam as entradas. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum. vejam. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada.— Pode dizer. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. Mitch sorriu e deu de ombros. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. e neste fica a produção. — É. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. haviam seis salas. perturbando-lhe a concentração. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga. Era um grande corredor no qual. — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. Tudo está claro e bem explicado demais. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. pelos fundos. com um ar mais grave que nunca. com isto aqui. Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou. Ela. Mitch. entrar. apanhar as provas e sair. de acordo com a planta. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão. — Não que eu seja um especialista no assunto. ajoelhado aos pés da cama.. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui.. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. acho que posso suportar isso.

impaciente. — Quanto ao atual administrador. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. ou donos. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. O cabelo despenteado. Lá pelo final da tarde. pode ser qualquer um: cartão magnético. bem sucedido. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. — Está bem — interveio o detetive —. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. vencida pelo sono. deviam ser. mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. hoje em dia. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu. depois de passar por muros. — Talvez. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. Constrangida. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. guardas e cães. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will. Talvez não tenham percebido. sempre atenta. — Em primeiro lugar.. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. teclado com senha numérica. Kelly olhava não em seus olhos castanhos. — Alguma idéia? — Will perguntou. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. — Bem lembrado — Mitch concordou. claro. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. os três estavam sentados no chão do quarto. quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável. Kelly começou a espirrar de novo. o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica.. Não há indicação específica na planta.do prédio. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. temos que encontrar um modo de entrar no prédio.. — Estou pensando. — Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. mas não para ele mesmo — Will insistiu. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais. Ele tem urna carreira nesse setor. nele pareciam apenas realçá-la. — E quanto ao tipo de sistema. — Estou pensando — disse ela. continuaremos sem o cartão. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. — O dono. Kelly. a barba por fazer. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio.. mas o que havia em redor deles. devorando uma pizza de queijo. — Eu discordo. E aqueles lábios. então.

Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado. — É. Mitch recusou: — Eu.. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. Hesitante e embaraçado. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta.. sem jeito.. Kelly e Will se entreolharam. Parecia cansado. Mitch abriu um sorriso largo. — Então trate de alugar um quarto e descansar. De repente. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou. mesmo. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. — Alugue um quarto. pigarreou e prosseguiu.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça. Will continuou. fitando um ao outro. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott... eu não preciso. — A quem. — Will olhou nos olhos do outro. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e. parece ter um número infindável deles. Diamond e Santico. no limite da exaustão.. esta madrugada — disse Will. ou melhor. Mitch se levantou. hã. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. Durante vários segundos silenciosos. caminhou até a janela e olhou para fora. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la... — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono.. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. por fim. — Esse laboratório parece não ter um dono. — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido. mas. não está? — Sim. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada. por exemplo. homem! — Will insistiu. — Quer vir junto.. como Quantex. sim. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem. mas. . — Vou vigiar os portões da Anscott. mas ninguém tem o controle acionário. O que foi impossível descobrir. afinal. Brody? — Ora.. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade. certo? — B-bem. — Se bem me lembro. Consultoria Califórnia. — Ah. intrigado. — Mitch sorriu. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças. — Ainda está trabalhando para mim. — Acho que estou. — Obrigado..

Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. algo de que Will parecia compartilhar. Kelly sentia o tempo correr contra eles. — Abaixem-se — Kelly alertou. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. — Foi muito gentil de sua parte. — Faça uma foto. na primeira noite? — Mitch perguntou. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. Com isto o detetive se retirou. Era o único ruído por ali. Uma . Mais perto agora que da outra vez. — Está bem. — Vamos ver quem é o dono. nem que vivesse até os cem anos de idade. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. — Desculpem! — ela sussurrou. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. sem perder tempo. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. O tom da voz dele soou áspero. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. se puder — disse Mitch. Kelly espirrou. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. porém. caindo ao chão e espiando em redor. desta vez acompanhada de sua câmera. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele. — Pois é. De repente.— Você sabe jogar duro. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. mas dessa vez não a feriu. este a estava observando. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. hein. — Não sei. A uma certa distância dali. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. Como um manto negro. Tenso. o cão de guarda começou a latir. — Boa idéia. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. — Acho que posso investigá-la. — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite. teriam que fazê-lo o quanto antes. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol. também — observou Mitch. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. como sempre. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. até parar diante do portão. mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo. Will. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. Mitch e Kelly. a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. Nunca. oferecer o quarto a ele. não se esqueça disso! — disse Will. Enquanto isso. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. — A que horas apareceu o furgão.

três e o furgão saiu de seu alcance. — Interessante — Mitch considerou. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. — Dessa vez foi Will que respondeu... outra vez. àquela hora. Mitch. — Claro. Menos de vinte minutos depois. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. — É verdade. — Vamos ficar mais um pouco. Sim. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. sentado no chão úmido. deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade.foto. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou. Agora. como ela própria. Will. Em parte por saber o que tinha à sua espera.. que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. fora forçado a trilhar aquele caminho? . e agora? — perguntou Mitch. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas. no entanto. sem ninguém? Ou será que. afinal se estava doente não deveria sair de casa. no entanto. domingo. estaria achando tudo muito estranho.. — Kelly fez mais uma foto do guarda. Will procurava não pensar em nada. — Faz sentido — Will ponderou. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. — Grande garota! — Mitch elogiou. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um . — Consegui — sussurrou Kelly. Pensou em Will. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. chamou os companheiros e apontou: — Vejam. que contava com uma boa visão da frente do prédio. embora dissesse ser inocente? Céus. em plena noite de domingo! — Realmente estranho. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite. — Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. Ao passar pela guarita. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. imaginou o que seu filho estaria fazendo. dali a alguns minutos. . nenhum deles falou muito. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos. também. faltou ontem e tornou a aparecer hoje. parecendo calmo e indiferente. — Bem. ou talvez ao longo de toda a sua vida. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. duas. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. está indo para os fundos do prédio. não acha? — Will comentou. — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial.

por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. ontem. — Psiu. — Kelly anunciou.. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou. Então. Por causa da distância e da pouca luz. um dos vidros começou a baixar lentamente. com a maior velocidade possível. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch. — É.. rosnando e latindo como louco. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. ansioso.. com esses vidros. — Diga. — Bem que uma das janelas podia estar aberta.. — Não. — Quero dizer. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos.. — Kelly murmurou. em direção ao arvoredo. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. por que está fazendo isto? — Will perguntou. desça mais! — Olhe lá. A coruja tornou a piar e então se calou. Só que você não respondeu. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás. e me senti bêbada. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. Brody. curioso. o homem se voltou em sua direção. o silêncio que pairou entre eles foi total.. Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. inquieto. E naquele momento. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. — Oh. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. Em questão de segundos. obrigada. enquanto a limusine atravessava os . só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. Durante dez minutos. — Bem. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou.. mais para si mesma que para os dois homens. Com um gesto rápido. Com justiça e honra. vamos lá. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele. Mitch resmungou um saúde. — Mitch deu de ombros. já que se pôs a correr rente à cerca. como se suas preces tivessem sido atendidas. por exemplo. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. — Raios! — Will resmungou baixinho. não o faria mudar um só detalhe de seu plano.. Ao ouvir a palavra bêbada. Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais. Isso. Stone. — Difícil saber. Já tomei remédio. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. no entanto. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. porém. pegue o sujeito! — Will sussurrou. Mitch se remexeu. eu sei. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper. como que esperando também pela resposta de Mitch. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros.metro de distância dele. Além do mais.

— Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez.. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. às pressas e sem muito êxito... Não pude ver. já de saída para seu quarto. — A que horas abre? — Kelly perguntou. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora. Se conseguira ou não.. — Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores... Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo. — Aqui.. — Não sei — disse Will —. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta. melhor. mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. intrigado. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno. saindo e fechando a porta atrás de si. estavam os três novamente no quarto do hotel. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo. no desespero da fuga. pode ser — o detetive resmungou. de algo que Will ainda não sabia o que era. — É. na verdade. — O que é que você achou? — ele perguntou. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que. Will concordou. era algo que teriam que esperar para ver. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper. agora não tenho bem certeza.. E como seria se. — Ou teria sido número oito e letra C? Céus. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la. retirando o filme de dentro da câmera. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse. com um gesto. encontrei um — disse Will. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo. . Sim. Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas. já tinha muito com que se preocupar. porque o detetive também estava fugindo. Era um sentimento que não desejava a ninguém. Mas o fato era que ela estava. Quanto mais cedo. — Estava escuro. — Nove da manhã. a ansiedade explodira entre eles. Brody. — Ótimo. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer.portões.

Engraçado. — Ela balançou a cabeça. mas quase que no mesmo instante ela constatou. — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. algo naquele homem me pareceu familiar.. conferindo-lhe um tom prateado. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou... porém.. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. convencido de que ela não iria fugir. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico. Poucos minutos se haviam passado. — Diabos. ele fitava a noite em completo silêncio. E que Will estava presente.. nada. — Por um instante Kelly franziu a testa. pensativa. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. — Não precisa ser santo. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. Corpo que já tivera bem junto de si. mas. pode parecer esquisito. orgulhosa. que não havia algema alguma. mas. — Oh. Sim. aliviada. colado ao seu. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. como você é teimosa! — Sou mesmo. — Como assim? — Não sei. Will fora dormir no chão. Esqueça! — Não. formas e . com as mãos na cintura. com Kelly e consigo mesmo. — Vá logo dormir — ele explodiu. Kelly finalmente adormeceu. Parado diante da janela. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama.— O que achei? — Ela o fitou. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. Será que faria o mesmo. seja apenas um pouco menos. e daí? — Ela se empertigou. moça. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama. sem compreender. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. mas então deu de ombros. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. Na noite anterior. quando ela acordou assustada. — Bem. sombras. — Ah. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante.. E perdera de fato. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. saindo da cama em direção ao banheiro. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou. o que ia dizer? — Will quis saber. na Anscott — ele se explicou. como se tivesse perdido por completo a paciência. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will. — Bem. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. Seja como for.

Por fim. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora. após um longo e angustiante silêncio. evasivo. na prisão. — O que está tentando provar. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. Se a pergunta o pegou de surpresa. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo.. moça. Ver a lua e as estrelas. A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly. — A lua — ele respondeu. que não ganhe uma dúzia de prêmios. — Coisas como.. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa. — Ora. — Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas.. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.. sem obter resposta. a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão. em meio à solidão da noite. grata pela escuridão quase total do quarto. Se quer saber. seus olhares se encontraram... — Não entendi — ela resistiu. ora! — disse Kelly. tocar a escuridão. tudo bem. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. num tom suave. Havia algo de intangível. — Will. era disso que eu mais sentia falta. está morrendo de medo de falhar. Will voltou a cabeça para fitá-la. sem se voltar. À luz difusa do luar. jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama. mas não conseguiu. Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. vingança? — Kelly perguntou. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo. .. — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora.. por aqui. sim? — ele pediu. calada. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. ouvir os sons da noite.tons. Pode partir quando quiser.. não me venha com essa. orgulhosa. — Eu estou fugindo da polícia. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera. mas havia mais que isso naquela cena. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo.. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. Na melhor das hipóteses. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. Will não o demonstrou.

então — ele insistiu. — Ela deu de ombros e suspirou.. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. claro. Ela se calou de repente e baixou a cabeça. Como em outras ocasiões.. Nem todas vão embora — disse Will.A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly. — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou. cínico. — E ele tem razão. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. — Não seja ridículo — Kelly respondeu.. Minha mãe morreu. Precisava se proteger. Nada! — Então me conte. talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. também! — Não há nada para falar a meu respeito. apenas talvez. — Ora. já disse. quando diz isso? — É. — Oh. — Escute aqui. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém. vamos. Fale-me de você. Will estava sendo ainda pior. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher. que quisesse. com um sorriso triste nos lábios. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. agora.. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. — Não sabe nada a meu respeito. — Eu não tenho medo... está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. antes. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa.. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. — Kelly balançou a cabeça. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. — Faça de conta que acredito. Talvez. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. — Todo mundo.. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar. Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si. embora estranhamente acreditasse nele. — Will mal podia crer no que estava fazendo. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável.. — Pode ser.. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. E no entanto lá estava ele. que precisasse de outra pessoa em sua vida. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente. Stone? Vamos conversar a seu respeito. — E quanto a você.

num. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo. você parece bem real. Diante daquela confissão. — Volte para a cama — disse ele. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. E quando a viu tão próxima.. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou.. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou. para mim. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. e que desejava beijar de novo. mas através de seus defeitos. vou acabar beijando você... sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade.. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha. que também não deixava de ser um desafio. lembra? Will engoliu em seco. — Por quê? — Kelly perguntou. deixando-a tontas enfraquecida. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações. — Você não existe.dos outros através da perfeição. caso aquilo fosse um espelho. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo. — Com o devido respeito à opinião de seu pai. Lábios que ele beijara uma vez. Foi você quem começou com isto! — Olhe. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui. os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura.tom ríspido e cansado. pensou que seu coração fosse parar de vez. a voz mais rouca que nunca. Tomou a olhar pela janela imaginando que. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. a pele branca banhada pelo luar. ousada. A partir desse instante. Mais que tudo. ainda fitando a lua. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la.. Macios. não dissera nada quanto a chamar atenção. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça. carnudos e tão tentadores. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que . porém. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também. como eu já lhe disse. — Não. Como um vampiro. — Isso é impossível — ela murmurou. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar. — Volte a dormir — ele resmungou. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. — Não se pode falar do que não existe. porém. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. Sabia que ela o estava provocando. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. Os cabelos cor de fogo.

fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços. enquanto tomavam o desjejum. Tinha. molhados e vermelhos. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. Mitch e Kelly. O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. Kelly voltou para a cama. O consenso geral é que você está fugindo para o sul.. evitava olhar na direção dela.os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. Deitada sozinha. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. ou estou vendo filmes demais na . — Isso é bom — Kelly comentou. entregaram o filme no laboratório fotográfico. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado. Will. pela manhã. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. tentando levantar um assunto mais leve —. mas não conseguiu dormir. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. que Will Stone existia. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. Lábios que se abriam devagar sob os seus.permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte. num doce convite. ou então para o norte. — Vá dormir! — Will ordenou. Com um murmúrio abafado. — Sim. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. da maneira mais eloqüente. vá dormir! E vá logo. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. — Ande. rumo à fronteira com o México. se arrependido se houvessem feito amor. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura. Seus lábios.. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. como você — Kelly perguntou. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos. No momento em que o vira. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. teve toda a madrugada para pensar se teria. Dominado pela paixão. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono. em toda a sua vida. contudo. de fato. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não. em direção ao Canadá. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. Ele a queria. Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. ofegante.

E havia mesmo. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior. — Tudo bem — ele murmurou. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro. as quatro fotos da festa. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. Will e Kelly compreenderam a deixa. — Ah... Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos. como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. estava escuro como o diabo! — disse Will.. mas não respondeu de imediato. Mais tarde. — Um curto silêncio se seguiu. — Nesta aqui há. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo. — É. Ansiosos.. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. mas. é o furgão. Seus olhares se encontraram e então. No caminho de volta para o hotel. iria mesmo responder. tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou. — A culpa foi minha. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. Cinco delas.. cabelos negros e um enorme bigode. ao ver cenas de uma festa. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. — Kelly colocou para trás. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives. voltou-se para fitá-lo. a voz de repente tornada mais rouca.. Sem palavras.. aliás. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte. no final do monte. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. — Raios! — Will praguejou. E quando Kelly já pensava que não. — O que é isso? — Mitch perguntou. como na sexta-feira. aqui está. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível. eu costumava trabalhar com esse policial. quem sabe.. — Eu devia ter feito melhor. — Nada. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. Assim que chegaram ao carro. — Ontem à noite. Kelly resmungou uma imprecação.. ao ver a foto seguinte. também. — Não foi culpa de ninguém. intrigado. — Parceiros? — Kelly o fitou. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho. ansioso.televisão? Mitch a fitou. começou a olhar as fotos. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly. intrigada. Não agora. Quinze minutos depois. — Ótimo — Mitch exclamou. — Eu e ele éramos parceiros. num gesto terno e reconfortante. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e. — Não. Kelly abriu o envelope e. não está nada bem! — ela discordou. — Calma. porém. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. mas não há como ler o número da placa — Will observou. mas não contra as condições precárias em que fotografara. Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta. e sim contra a própria incompetência. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos ..

— Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. E quando se é um policial. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone. de modo que as deixou de lado. — Não. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. Onde? Não fazia idéia. — Ela balançou a cabeça. E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim. Nesse instante Mitch. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número.escuros que chegara na limusine. — Santico? — Kelly repetiu. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. — ele comentou.. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem. também.. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. — A Santico. — Sinto muito. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. . apanhou as quatro que colocara para o final. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. — Não me pareceu. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. — E quem é — perguntou Will. as peças começavam a se encaixar. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. porém. com um ar misterioso. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé. — Saúde — Mitch sussurrou. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim. Deixando de lado essa foto em especial. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly. — Mitch sorriu.. — Deixe-me ver — pediu Mitch. — Ah... Quando dei o número da placa. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista. se aprende logo a confiar no instinto. — Engraçado.. eu acho que não.

As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. No mesmo instante. — E então? — Will perguntou. — Bem. Também no furgão. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder. — Kelly sorriu. a língua tocando e acariciando a sua. rapazes. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio. Dentro havia um aspirador de pó. depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. — Aí é que você se engana. ela prosseguiu. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott. sério. deixando claro que desejava mais dele. Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor. — Menos dois na sua lista. — Outro disfarce. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. como o da floricultura? — Will arriscou. A noite anterior não fora das melhores. assim que a pousou de volta no chão.. inquieto. Nem todas vão embora. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. a boca tão úmida e macia. ao lembrar daquele beijo. — Na verdade. — Eu.. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais. — Só esperando para ver — disse Mitch. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. fora terrível e demorara uma eternidade para passar. você pode eliminar mais três — Kelly observou.. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa. sentir os lábios dela.. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados. sorrindo. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado. — São dois homens uniformizados. ou melhor.. dentro de uma caixa de isopor com gelo. E por falar em gelo. — Will resmungou. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. vários punhados de carne moída. Na verdade. Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson.— É. Kelly percebeu Will se remexer.. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. nenhum dos dois . Muito mais. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. você e Mitch! Will a fitou. Mesmo na escuridão quase total podia ver. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos.

— Não se esqueça. Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia. Sim. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. — Esqueça. um detalhe que não havia notado antes. que havia chegado ali uns dez minutos antes. não é? — ele pousou as mãos na cintura. Incapazes de conciliar o sono. . — Estou aqui com ele. em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. com os olhos verdes a faiscar de ódio. estava de costas para a porta e falando ao telefone. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. furioso. Stone. tão clara como se Will a tivesse gritado. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando. mas a acusação estava ali. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele. no estacionamento do hotel. mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto.. Eu ainda não sei como. Chamava-se traição. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will. em seus olhos. — Não se preocupe. Will não lhe contou? — dissera. Ela se voltou..conseguira descansar. obrigada. dois ânimos exaltados. — Seja original — ele continuara provocando. moça! — Will gritara. Kelly.. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. mas manterei contato. Ele nada disse. — Avise-os.. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. Surpreso. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. O resultado não poderia ser 0utro . ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch.. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. — Ah. — Oh. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. como que vindo do nada. Kelly na cama e Will no chão. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não.. depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. Will já desceu do carro resmungando. assustada. Com tantas mulheres bonita no mundo. por favor — disse ela. até o dia amanhecer. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. moça. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. moça. Rachel. — Já cansei de ouvi-la falar em processo.

. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir. — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação. Com toda a força. — Amigos — ela repetiu. mas não se deixou intimidar. Soltou-a no mesmo instante. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso. aí está. . mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se. mais calma.— Não — Kelly insistiu. Bem. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. — Foi essa a minha grande traição. num movimento rápido. — Se quer saber. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. mas a dor não cessou. — Como pôde acreditar que eu faria isso com você. fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. — Está bem. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo.. — a lembrança daquele beijo passou por sua mente. aqui em Seattle. o que eu acho que já estava um pouco. melhor. eu não estivesse lá para atender. porém.. como se não tivesse percebido que a estava segurando. que ele também estava sofrendo. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. talvez devesse ter acontecido. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar.... Will pareceu surpreso. — Seu idiota! — ela gritou. — Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. Will Stone! Ele permaneceu calado. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. — Ela abriu os braços. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma. desde hoje de manhã. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior. num gesto dramático.— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço. porém ainda me recuperando. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo.. Ela ficou em silêncio... e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! . na Europa. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela. inesperado.. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias.. Podia notar. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. ao menos no coração de Kelly. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento. — O que você esperava que eu fizesse. você está me machucando. No mesmo instante e sem a menor timidez.. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou. apesar de doente. — Então por que não me conta o que é. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. Só o que tem feito é gritar. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável.

moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans.Will mal podia crer que a tinha nos braços. Quando chegou ao último botão. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior. Will não tentava esconder a própria excitação. — Seus lábios me deixam louco. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. como se hesitassem em subir um pouco mais. se contraíam a seu toque. Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou... os pêlos encaracolados que o recobriam. por exemplo. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole. deliciada. com os olhos ainda fixos nos dele.. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. e no entanto o silêncio pouco importava. buscando mais uma vez os lábios de Will. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela. — Eu te quero — ele confessou. Assim encorajado. passando a lhe abrir bem devagar a camisa.. separados apenas pela barreira das roupas. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo. Disso não lhe restava dúvida. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. macia e sensível. descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. — Eu te quero! — ele repetiu. num murmúrio rouco. agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. sabia? — Fala sério? — Sim. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco. Tomando-lhe o rosto entre . Will. Ela estremeceu e suspirou. Respirando fundo. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. E quando voltaram a se abraçar. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas. Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas. ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço... Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. Will permanecia calado. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. — Promete? — ela o provocou. Que ironia. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. sobre os mamilos que. neste instante! — Will sussurrou. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez.. E também os seus cabelos... Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza. já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. deliciando-se com o atrito. sensíveis. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo.. — Também te quero. quente. tudo em você me deixa louco. porém ele a impediu. pele contra pele. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. só um pouco mais para cima. sensuais. Naquele momento. o seu jeito.

mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. Will abriu o zíper das calças de Kelly.. ele não pode conter um murmúrio de encantamento. — Eu sei. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali. E mesmo que não tivesse estado preso. Will chegara aos limites de seu autocontrole. Sem poder esperar mais um minuto. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele. quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la. Céus. Kelly sentia-se queimar em desejo. sequer. Um fugitivo e uma refém.. O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos. muito devagar. ardente. — Eu. seus corpos a ondular num ritmo crescente. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu.. longo. — Nunca mais diga isso. no ventre. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer. — Não vou me arrepender nunca. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável. — Um ano é tempo demais — ele repetiu.. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo. apenas a se fitar. prometo.as mãos.. das curvas sedutoras de seus seios e ancas. os ombros largos. Você não é um perdedor. — Como eu poderia me arrepender por. musculosos. por favor! — Sim.. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza.. — ela murmurou. Mais . enquanto ela fazia o mesmo com as dele. induzida apenas pelo modo como Will a fitou.. de tornar culpados mesmo os mais inocentes.. um. nos seios. — Will.De fato faziam uma dupla bem estranha. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos. eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo.Não.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. num fio de voz. lento e profundo que a fez gemer de prazer. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. em investidas cada vez mais poderosas e rápidas. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris.. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado.. — Não. Por um instante ficaram ali parados. olhou-a nos olhos. Uma onda de excitação se irradiou. pensou Kelly.. eu não tenho o direito — ele murmurou. eu. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas. enquanto ele a beijava na boca.. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir.. à exceção da calcinha. Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas. suas coxas e abaixo. pelo corpo de Kelly...

mas. mais rápidas do que quisera. — O que ele faz para viver? É fotógrafo. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis.. mas nem por isso menos perigosa... É doutor em Física e leciona em Berkeley.. depois de me divorciar. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido. se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante.. — Me desculpe — disse Will. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer.. Ambos sabiam que algo incomum se passara. talvez. Afinal já era a segunda vez. O clímax não demorou a chegar para ambos e.. — Acho que fui rápido demais. E à mesma pessoa. — Fazia muito tempo para mim. pensou Will. apenas trocando um pensamento perturbador por outro. no mínimo lacônica. e ainda assim impossíveis de se refrear. — Kelly sorriu. . A resposta. que pedia desculpas por algo... no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador. Uma doce terna ameaça. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão. mas a verdade era que estava curioso.. tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes. — Ele é um bom homem.rápidas do que Will pretendera. — ela admitiu. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou. também — ela confessou. Algo que mudaria suas vidas para sempre. Estavam ambos perdidos. — É. de maneira irreversível. Em outras palavras um homem muito bem sucedido. também? — Não. sentindo-se mais uma vez inferiorizado. como você disse.. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça. — Não odeia crianças nem chuta cachorros.ainda banhados em suor. sem abrir os olhos. — Não. Tem senso de humor. se entende o que quero dizer. — Nunca mais estive com um homem. no aconchego dos braços um do outro. — Humm. corpos . Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento. Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. veio num tom sem expressão. um ano é tempo demais. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta.. — Desculpe a pergunta.. em uma semana.

Ironicamente.. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. na tarde seguinte. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. como se tivesse lido os seus pensamentos. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava. Assim que entrou naquele quarto. O estranho era que. só que em excesso! — Ele murmurou. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly.. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela. — É. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve.. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. E no entanto. não queria pensar nisso. de modo tão súbito quanto aparecera. Sentimentos. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro.. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. algo diferente acontecera. por mais que tentassem evitar.— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio. — disse Kelly. embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. fazendo de conta que era feliz. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly.. depois de uma breve carícia. — Sei que você vai achar absurdo. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora. não existe algo bom em excesso. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo. Com a respiração entrecortada. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então.. sim.. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. O que sabia sobre o assunto. talvez você tenha razão — ela concordou. Stone. — O que foi? Não é bom? — É. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo.. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele. O sorriso se fora de seu rosto. apesar do que haviam acabado de compartilhar. serviam apenas para confirmar as . Mas não. Mas isso também não adiantou. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro.. Algo especial. num tom preguiçoso. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa. — Ora. E isso porque. De algum modo.. com Will. agora. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre. — Por que diz isso? — ele perguntou.

Mitch conteve a vontade de rir. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. — É uma porta de segurança. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. arrebentar aquela parede. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém. — E que aparência tem o que vamos procurar. procurar as drogas. Por isso. Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se . inconformado. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. pós. A garota. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia. — Acho que nesse caso teremos que arriscar. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. hoje à noite? — Kelly perguntou. E não é necessário. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto.suspeitas do detetive. de fato. — Olhem. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. — Ora. muito gentil aliás.. ervas. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. Na minha opinião. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. coletar amostrar e então sair do prédio. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção. os planos para aquela noite. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. — Podemos entrar por um deles. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso. — Vejam — Ele apontou. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. — Kelly sorriu. mas isso é ótimo! — Will elogiou. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. — Deixe-me ver se entendi — disse ela.. sem atrapalhar ninguém. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. Tudo parecia estar caminhando bem. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é. Claro. — São comprimidos. mas eu seria capaz de apostar que não. e rezar para que dê tudo certo. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. — Não. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. A partir daí. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto.. E por falar nisso.. certo? Na verdade. — Eu disse que tinha conexões úteis.

Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou. Sabiam agora que teriam de se apressar. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista. — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores.. O homem . — Eu continuo — ela respondeu. Kelly espirrou. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu... procurando detalhes que tivessem sido esquecidos. tanto física como emocionalmente. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. ao chegar. mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura. visivelmente tenso.. — Eu também — disse Mitch. Do assento ao lado. — Nós devemos estar entrando às oito. ainda é tempo — disse Will. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar.contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou. nervosa. Kelly o fitou. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. — Se algum de vocês quiser desistir. — Não se preocupe com as chaves. porém. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda. Kelly e Will se entreolharam. — Isso! — Kelly apoiou. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão.. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora. — Céus. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. — Mitch insistiu. Ele a vinha afastando de si. — Kelly informou. desde que haviam feito amor. Stone... de seu posto na parte de trás do furgão. Não podia condená-lo. e nada garante que nos saiamos bem. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior. Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza. — E para entrarmos no prédio. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. — E quanto ao cão. quando este saiu de seu cubículo. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita. por exemplo.. o que nos dá uma hora para a operação toda. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros.

— Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado. Olhe. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar. Aliás. meu caro — Will resmungou... — Duvido que consiga esquecer.. no entanto. com o coração batendo tão rápido. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório. e agora sobrou para nós. permanecia indeciso. antes que Will pudesse dizer algo. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita. ainda esta noite. — Olhe. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. cara. — Ah. — Mas ligue logo. Assim que estacionou. certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que.. cético. como que para confirmar. O tempo está passando! . não funcionou? — ela se defendeu. cara. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido. Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura. cara. incapaz de continuar calada.. que o enfrentou com um olhar. voltou-se para Kelly. cara. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade. não sabia se teria voz para tanto. podem ir — o vigia ordenou. Ele não disse nada. — Agora vamos com isso. Segurando apertado a chave em sua mão. — Só uma coisa — Mitch perguntou. O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. Além disso temos dois outros escritórios para limpar. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho.. — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. assim que começaram a descarregar o equipamento —. — É. — Somos a turma da limpeza. — Funcionou. — É novo na frota. ainda assim. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. — Os dois de uma vez? — É. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa. — Seu furgão não tem o logotipo. — Está bem.. vamos. parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. o cão latiu algumas vezes. — Kelly interveio. — Ficaram doentes e estão de licença. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas.. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio. Quanto a Mitch. porém. Em vez disso. com uma risada tensa.

Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. Uma rápida inspeção revelou que. — Como podem ver. ela não se convenceu. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura. — Céus. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. — Sai de baixo! — ela brincou. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. Estavam no corredor. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo. fotografando o corredor e o início da perfuração da parede. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. — Já são oito e quinze. — Se não alteraram o projeto original. — Vamos. — Parte do plano vai ser alterada. como o tempo passa depressa. no entanto. o fabrico de alguma droga ilegal. assim que acendeu as luzes. além daquela por onde tinham entrado. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. Conforme o esperado. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. assim que entraram no prédio. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. ainda que remotamente.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. — Certo — Will respondeu. passando a serra elétrica a Will. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. seis salas no total. Eram. estas duas paredes levam a salas. com uma lanterna em cada mão. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. em posição oposta à da recepção. de fato. aqui — disse Will. A primeira vista. Mitch veio por último. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. Will foi o primeiro a entrar. Por algum motivo. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. — Pela planta. . no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala. — Ora. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. que por sinal estava destrancada.

— Will tentou abrir a porta outra vez. destinado à fabricação de drogas proibidas.. totalmente diversa das outras cinco. em vez das máquinas vistas nas demais salas. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado. Mitch iluminou a sala. não? — Mitch observou. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos. — Mitch consultou o relógio de pulso. Sou esperta demais para que me peguem.. notando uma placa pregada à altura dos olhos. embora também não estivesse vendo nada suspeito. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles. — Aposto como não é açúcar.. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will. mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco. — Interessante.. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos. — Pode apostar que sim. — Temos menos de meia hora. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. acho que não estou vendo droga alguma. Apanhou um béquer. curioso.. — ela os chamou. — Não vai me dizer que arromba portas.. com uma careta de desagrado. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. — O que é isso? — Will perguntou. — Não desanime! — O detetive o encorajou. então deve haver algum motivo. — Will a fitou.. transparente. Vamos. Eu. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada. Parte deles continha um líquido vermelho. me dê o canivete. — É bom irmos mais rápido. por aqui — Will resmungou. Mitch. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua. admirado. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu. Stone.. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. — Absoluta. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança. incrédulo.. mas. ei. . Primeiro. cuspindo em seguida. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo. — Kelly murmurou. e cheirou seu conteúdo. — Argh! Não sei. sim? — Kelly pediu. Kelly fez algumas fotos. — Ora. — Bem. Segundo. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro.. A um canto. — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada.. sob um prosaico quadro negro. mas estava de fato trancada. este cheio de um líquido verde escuro. já com o canivete nas mãos. — Ei Will.. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. desapontado.

— E então..— Não. — Chave? — Will revirou os bolsos e. Não cheguei a saber muito a respeito. trancar a porta e embarcar no furgão. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos. que tratou de apagar as luzes do saguão. após um instante de confusão encontrou o que procurava. — O líquido verde. quando Will já estava dando a partida no motor. — Mitch tornou a consultar o relógio. Ainda dirigindo devagar. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. muito dinheiro. — Vamos. garota. — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito. — É bem provável. alarmado. que é colocado em cápsulas. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. Will praguejou. se não quisermos nos meter numa bela enrascada. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. chamando a atenção do guarda com um toque curto .. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive. falando ao telefone. Mitch? — Acho melhor nem dizer. corria um boato sobre uma nova droga. Engano seu.. apesar de ela saber que seria melhor assim. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas. hoje. um par de faróis se tornou visível na distância. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. doía fundo em seu peito. Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão. — Não é açúcar mesmo. — Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch.. há cerca de um ano ou um ano e meio. O guarda estava de costas para eles. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. Uma droga de produção complicada. provavelmente com sucesso. — o ex-policial balançou a cabeça.. Jogou a chave para Mitch. o que acaba fazendo a droga custar muito. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas. — Está bem.. Com cuidado para não demonstrar pressa. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias. — Não entrem em pânico — disse Will. pois não estou vendo o produto final por aqui. E não estou gostando nada do que temos aqui. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. mas tome cuidado. enquanto Kelly fazia as últimas fotos. em voz baixa. — Quando eu ainda estava na polícia. Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida. — E acho bom andarmos rápido. mas que promete lucros enormes para os traficantes. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. — Que horas são. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente.

. Foi então que ela espirrou duas. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse. mas pelo visto descobriremos isso logo. não? — O guarda observou. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. — Mitch riu baixinho. não para olhar a lua.. três.. por que a estava forçando a se afastar. já na estrada. O idiota tem cinco segundos para abrir isso. ouvira-o se mexer. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele.ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave. O medo. meu velho. três vezes em seguida e. Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela. Pela segunda vez. um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos. Fora sem se despedir. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly. dois. deixando para trás uma criança que. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. aliviado... quase trinta anos depois. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. a deixou paralisada... você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei. vamos lá. — Will. Como se o tempo tivesse andado para trás. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. terrível e sufocante. profundo. Ela falhara para com Will. Will sorriu. Sabia que Will estava acordado. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott.. da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente. apenas tocou o furgão adiante. — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney. mas fitando o véu da chuva fina que caía. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. como que num pesadelo.. — Servicinho rápido. — Vamos lá. E agora Will... cruzavam com o furgão da MacMathson. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir.. o que era pior. Um sorriso sempre tão raro e . — Mitch murmurou. A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. Com frieza inacreditável.na buzina. — Eu sinto muito — murmurou. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela. Segundos depois. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel. senão eu avanço! Quatro. sarcástico. Mitch riu alto. — Idiota! — Kelly resmungou baixinho. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema.

— Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. agora mais fortes. melhor. o que não é pouco. que fizesse amor com ela. Não costumava apostar no melhor. está bem? — Claro. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. de repente. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir. moça. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. até a volta! — Até a volta. para que eu possa reembolsá-lo depois. Kelly se estendeu na cama mas. ansioso. a fitá-la sem trégua para então. para não ter que se decepcionar depois. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório. Mas faça o favor de ficar quieta.. Na noite lá fora. Bem — o detetive deu de ombros. preocupado. — Ligo assim que tiver notícias. até que se tenha prova em contrário. sim? — ele a repreendeu. magoada. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. esteja à vontade. — Will disse. sem sono. Queria tê-lo perto de si. áspero. — Que horas são? — Três da madrugada. — É. — Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. — Infelizmente a vida não funciona assim. Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. — Eu já vou. eu estava acordado. esperando.maravilhoso. de verdade — ela repetiu. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. Ah. Se pedir perdão resolvesse. Já se levantava para verificar. — Mitch se remexeu. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido. ao entrar.. Mitch. sem jeito —. — Fique tranqüilo. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou. E muito obrigado por tudo! . quando as ouviu outra vez. ficaremos aqui. queria que a beijasse.. mas acho melhor acreditarmos no melhor. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens. — Para falar a verdade não sei. porém. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele. tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim.. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. — Não tem problema.. sem realmente concordar. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. naquela noite. Kelly se calou.. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. — Mitch despediu-se com um aperto de mão.

na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim.. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. E mesmo enquanto partia. Não podia acordar aquela mulher. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. sair daquele quarto.. antes de se levantar dali. decidiu que isso não tinha a menor importância. já estivera atrás das grades antes. Estava maravilhado. Poucos minutos antes das oito horas da manhã. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. Eram sedosos e macios. se afastar dela. e por assassinato. Mesmo agora. tocou de leve os caracóis cor de fogo. mas disse a si mesmo que não o fizesse. ou melhor. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos.... Um deles. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes. chamou sua atenção. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. Mesmo que fosse apenas em pensamento.. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato.. nem mesmo tentou chamá-lo. O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso. Ele parou e se voltou para fitá-la. disse a si mesmo. Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles. então por que estava andando em direção a ela. Afinal. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem. Fazia muito tempo. sem um bilhete ao menos. Sabia que estava sozinha. Estendendo um único dedo. em especial. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. ali. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e.Os dois homens se olharam nos olhos. Afinal.. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave. Estava sozinha agora. Hesitou ainda por um segundo. recusava-se a chamá-la pelo nome. Vestiu-se em silêncio. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. Estivera sozinha então. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido. Capítulo XIV . Sem despedida. perdido. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. Como tantas outras vezes. agora mais do que nunca. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro. Mais longo que os outros. desejou afastar aquele cacho. Kelly acordou assustada. embora odiasse tal dependência econômica. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez. ao longo da noite. Sim. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano.

mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer. Que foi o que acabou acontecendo. ou melhor. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo.Cerca de uma hora mais tarde. pouco antes de sair. Ele havia saído com o furgão e apanhara. . Kelly se ergueu da poltrona. moça. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. Pare com isso. — Fora — ele respondeu. fora? — Kelly repetiu. lacônico. mas não saberia dizer por quê. afinal não perderia aquelas informações por nada. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento. o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. — Podia ter me acordado! — Ora. Raios. quanta consideração. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. — Oh. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. Will Stone que fosse para o diabo. Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. mas sim com sua partida inesperada.. aquilo não fazia sentido.. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. E embora o seu tom de voz parecesse normal. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. indignada. pensou. o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. Kelly ordenou a si mesma. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques. A não ser que. porém o carro do detetive também não estava ali. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. — Não se preocupe. — Ah. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã.. Mas se fosse só isso já teriam retornado. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar.. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. com as duas mãos na cintura. — Apanhei alguns cheques. aí está o troco. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. — Ah. O que significava que Will voltaria. E se não gostou. pois iriam em dois carros e voltariam num só. eu pagarei cada centavo. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela.

— Eu vou ficar! — À vontade.. sua reportagem premiada. porém isso logo se transformou em raiva. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. — Escute. pior que qualquer tortura. que por algum tempo estivera entalhando. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo.. e não o contrário! — Está maluco. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. mais uma vez medindo forças. você é livre para ir embora. certo. agarrou-lhe um braço e apertou com força. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda.. se esforçando por manter a dignidade. se pensa que permiti que me seqüestrasse.. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. lhe fez sinal de que estava tudo certo. Kelly. Os dois correram para atender. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. sarcástico. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou. Will. — Grande! — Kelly exultou. Céus. ansiosa. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. Estão mesmo produzindo drogas. e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos. Aquele momento foi. A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. — Sim. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados.. para ambos. A princípio ficou magoada. estavam a ponto de gritar. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. moça. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e. . A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. — Não quer perder sua história. no final da tarde. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora. está bem? — Eu não vou embora. — Kelly deixou claro. indiferente. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. então é isso — Will murmurou. E então o telefone tocou. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo. que estivera andando de um lado para outro. Raios. — Will respondeu..

sim... — Edward Andriotti. casou-se recentemente com Suzanne. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. E aposto como não passam.. — Escute bem esta. — Eu sei quem é esse homem.. Oh. Will.. Will havia mentido para ela. a filha de Andriotti. vigias.. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo. — O que ele disse? — Kelly perguntou. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will. O filho dele. chocada. — Desculpe. para encurtar a história eu descobri... para então dar atenção a Kelly. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. Emmanuel. — Faz sentido. — Mitch fez suspense. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott. — Mais sério que nunca. mas muito dinheiro. — Will sentia o coração bater mais rápido. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. porque você não vai acreditar. que a Santico. — O quê? — Kelly insistiu. todos. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. Eram um só. aflita. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. hoje cedo? — Fale de uma vez. você ainda não ouviu o melhor de tudo. ansiosa.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu... homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e. pois não significava nada para ele. mas não recebeu resposta. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly. — Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou. — Sabe para onde viajou Andriotti. — O que ele disse? — Kelly perguntou. Mostrou-lhe então o homem na limusine. Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu. — E Rodrigo Echeverria. diante de um espantado Will Stone. um importante político mexicano. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. através da secretária de uma seguradora. motoristas.. Estamos falando em muito. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais. — Você não vai acreditar. não restava a menor dúvida. impaciente. mas . mesmo! Gente respeitada. — Espere um minuto. Mitch — Will voltou a falar ao telefone. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas.. — Calma.. Ele também havia mentido para Mitch. — Oh.. Kelly se deu conta disso uma hora depois. esqueci que você não é de San Francisco. — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. Mitch? — disse Will.

mais baixo. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar. Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão. pois não haviam sequer almoçado. naquela manhã. parecia estar aceso. exatamente. Como pudera ser tão idiota.. Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto.. O prédio todo. Precisava lembrar de agradecê-la. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. Não fosse pelo que aprendera com Kelly. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê. Pouco adiante estava o furgão. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida. ou quando as pessoas não . Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele... com forte sotaque mexicano. depois. estacionado mais adiante. Pronto. Mas Will mentira. — Vamos cair fora logo. Isto se saísse inteiro dali. Céus. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez.. Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo. Afinal de contas ele comprara algo.. — O chefe está pior que uma cascavel. Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo.. si. a essas horas já teria virado comida de cachorro. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle. hombre. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou. que sumira com o furgão. Vazio. Aproveitando o momento. claro. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. garoto — ele murmurou para o dobermann. aliás. Will corria para saltar o segundo muro. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura. a refeição não fora mais que um pretexto. Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. o momento de derramar sangue em troca de sangue. — Si. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia. fazendo gelar o sangue em suas veias. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação. Apressada. Chegara a hora do ajuste de contas. era o que perguntava a si mesma. Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. ela cortava caminho por entre as árvores. — disse um deles. Iria vingar a morte de Stephen.isso não amenizava a dor daquela traição.. Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. Raios. Escondido em meio às sombras. Talvez ele tivesse uma arma. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados. A tentação venceu e. Algo que custara cerca de duzentos dólares.

— O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia.. esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar. com toda essa arrogância. você venceu esta. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais.. enquanto durou. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio. a julgar pelo silêncio que o cercou. Se o chefe estava de mau humor. Nada me tira da cabeça que foi ele. lá vem você com suas tragédias outra vez. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! . — Pode ser mas você.. eles eram educados demais para isso! — Está bem.. — Saber eu não sei. a inocência de Duggan nos foi muito útil. Will estava sozinho por ali. que pareciam vir da sala de onde ele. não? —É verdade... ele ouviu outras vozes. acalorada. rindo. americanos. portas abertas. também. — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. — Vocês.. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e. Mas não. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. Sabe como é. e pelo rumo da conversa daqueles dois.. — Ora. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora. Não. Rodrigo. Edward — disse o mexicano. do lado de fora. Uma delas se erguia. hombre.. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator.fazem o que ele quer.. Sim. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois.. claro. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. Por incrível que pudesse parecer.. Rodrigo. encolerizada.. já lhe disse! — gritou a voz irada. Mais uma vez. relaxe. — Se quer saber o que está me preocupando. pensou Will.. Tem um grande dom para fazer dramas. Edward.. inclusive uma mulher. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta. Como não ser apanhado pela polícia. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto. Will se aproximava aos poucos das vozes. podemos? Silencioso como um gato. Edward. estavam falando dele. é esse maldito arrombamento. o que significava visitas importantes. Mitch e Kelly haviam pego as amostras. — Vamos. por exemplo. Bem.. — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro. enquanto outra argumentava. não sozinho de todo. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos. o guarda disse que eram três pessoas. pior para ele. Não foi? — Pode ser. mais calma e com um carregado sotaque mexicano. Will Stone sentiu o estômago se apertar. — Ah. Echeverria prosseguiu. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens.

Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor. — Parece que lhe devo desculpas. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . e por que não? — Echeverria sorriu. Não é como o irmão. com boas porcentagens do lucro. aquele covarde. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. rolando um charuto entre dois dedos. meu caro. — Como em olho por olho. Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. Pode apostar que sim. em tão pouco tempo. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma. fui eu o responsável. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho. — Pois você está muito enganado. Mesmo naquele momento.. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa.. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch. não se deixaria derrubar sem luta. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu.... E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica. — Echeverria sorriu. — disse Echeverria. — Deve ter gostado de assistir a meu julgamento.. Stephen deixou você na pior. — Não seja tolo. determinado.. sua lealdade. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior. mas se não é o Homem de Pedra. não me diga! — Will fingiu espanto. substituído por um olhar cruel. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou. — Sim. não? — Will se dirigia ao mexicano.. — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. não foi? Mas admito que admirei seu silêncio.. o julgamento teve suas graças. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave. os tubos de ensaio e demais vidrarias. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. O mexicano era um páreo duro. — Cale essa boca. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria. E vai pagar caro por isso! — Ora. é claro. isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. Rodrigo! — Andriotti sussurrou. — Rodrigo. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização. o quadro negro. não acha? Aliás. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano. — Quer se acalmar.. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann. Andriotti empalideceu. então já sabe de tudo! — Sim. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente. — Will abriu um sorriso frio. — Pode apostar que sim. dente por dente. Se o Homem de Pedra chegou até aqui. que sabe negociar... hombre. passando um lenço pela testa suada. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora.

E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. para prender a ele e não a nós. isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação.. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição. Stone.. — Talvez não seja mesmo. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir. mas agora tanto faz. Edward. antes de dizer: — Errado. mas não hesita em matar dois homens desarmados. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente.. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não... você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano.. e não era pouco. você é um perdedor. Certo. Echeverria. — Então. das dificuldades.. mas Stephen era ganancioso demais. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo.. também! Tem nojo de vender drogas. meu caro. Cansei de ser um perdedor... um nada. Para falar a verdade. um perdedor nato. — Seu irmão era burro demais. que já passara do medo ao puro pavor. Segurou com mais força o revólver. no parque. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. E isso não podíamos tolerar. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. Stone. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. Você não é capaz. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. se resolver ficar do nosso lado. profunda. — Não seja ridículo. Lembranças de seu pai. cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. quando se deu conta. nesta vida! — O dedo de . isto aqui já estaria fervilhando de policiais.. Se fosse assim. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. Tão falante e seguro. — O mexicano deu de ombros. Stone. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. você é um perdedor. E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado. tão presunçoso.. — Vamos. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem. — Rodrigo. — E é seletivo. então começou a desviar mercadoria e a nos roubar. Lembranças das rejeições e humilhações constantes. acusando-o de ser um zero.. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo. Echeverria. — Não. você não tem tutano para isso. — Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou. Sabe como é. já estava enterrado na coisa até as orelhas. Depois. a sangue frio! Como vê. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções. sempre bêbado. você não é melhor que nós. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou..enxugar a testa.

Pelo amor de Deus.. — Não. Devagar. um perdedor. tão. Devagar. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos... devagar. Tão desnorteada quanto ele se sentia. Ela lhe parecera desnorteada. algemado. um perdedor. Tudo o que podia ver e ouvir. como a criatura atormentada que sempre fora. Dois. porém. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão. — Você é um zero à esquerda.. estava repentinamente inundado de sentimentos. rapaz! — dizia seu pai. segurando um lenço encharcado de suor. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will... Capítulo XV De seu catre. Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada. não! — Andriotti implorava.. agora. Ela havia chegado tarde. Will. num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. Um. Isso se passara havia três dias... tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. depois quando assistira a polícia levá-lo embora.. no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho. tão suave. — A voz de Kelly. primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly. Por incrível que pudesse parecer. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. — Não! — ela sussurrou. a mão pateticamente estendida em sua direção. Kelly.. Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero.. Tarde demais para salvar Will de si mesmo. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço. — Você é um perdedor. Acima de tudo. agora. Tarde demais para tentar evitar o inevitável... Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele. Devagar. com as mãos cruzadas sob da cabeça.. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros. . Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado. sentimentos de medo e confusão. por favor. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara.. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Três longos e sofridos dias. só o fazia por saber que era necessário. Não podia sentir a chuva fria no rosto..Will começou a pressionar o gatilho. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros.. Todos os ressentimentos e angústias. — Não! — Will gritou como um animal ferido.

. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda. mas ainda assim nada mais que um momento. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. ainda que tímido. muito obrigado. na penitenciária de Folsom. como ele. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor.. — Ei. Stone — disse o guarda.. um para cada homem. E para todas elas. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. o mocinho está livre. — Boa sorte. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho. Aliás. sorridente. Fora um momento ímpar em sua vida. — Ah. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. Muito diferentes do guarda Sapo. não como a algum tipo de lixo humano. Igualmente algemados. saiu de sua cela. Um homem livre. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou. não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros. Logo agora. pois tratava a todos com a mesma consideração. Gostava daquele guarda em especial. levados pela polícia. — Saia daí. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se. rapaz! Os bandidos foram presos.— Ei. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso. estendendo a mão. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. quando se sentia mais cativo que nunca. e a mais ninguém. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. e já passava da hora de parar. Um final feliz. então.. Muito disso se devia a Kelly. Will não queria que fosse Kelly. . decidir o que seria feito do resto de sua vida. Mas pensando bem. O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. Por que não matara Echeverria e Andriotti. você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. porém esperneando e fazendo ameaças. sem saber. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco. Stone. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. afinal era um homem condenado por assassinato. talvez o advogado. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. depois de olhar em redor pela última vez. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. Talvez fosse engano. tem alguém esperando por você. pronto a tirar-lhes a vida. mas por certo não era ela. que tal? Will se levantou devagar e. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. girou-a com uma mesura e abriu a porta. Fora ela quem. No dia seguinte à prisão. Enquanto a liberdade não chegava. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia.

mas.. — Bem.. pensou Will. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali.Em poucos minutos. Mitch Brody não mentira. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. Fora uma tolice. — Sim. mas não quis magoar Mitch. Mitch Brody levantou um outro assunto. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. gostei da cidade. ab menos daquela vez. claro. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. E colocada a questão nesses termos. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. dentro e fora do país. à sua espera. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. Mitch. Segundo o detetive. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. De qualquer modo. — Enquanto não encontra um lugar. Por serem ambos homens públicos. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. Will apareceu na sala de espera da prisão. Mitch Brody se pôs em pé e. Will pensou em recusar. com um largo sorriso nos lábios. — É seu filho? — Will perguntou. aquele já era considerado um caso perdido. Ao final do almoço. — Obrigado. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. mas tem um sofá cama razoável na sala. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel. ela não deixou nenhum recado para você. Stone. mas era habitável e arejado. Não havia futuro possível para eles. — Disse que estava a caminho da Europa. — ele pigarreou. depois de já ter feito a pergunta. mas preferia não pensar nisso agora.. desde que eu e ela nos separamos. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. Além do mais. de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. O nome dele é Scott e vive com a mãe. E embora estivesse feliz por ver o amigo. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita. caminhou em direção a ele. pelo qual Will fizera questão de pagar.. Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. naquela manhã. não menos delicado: — E então. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. Seu apartamento. a cada vez que precisar depor. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria. Will. a serviço... O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. É só até eu conseguir me ajeitar. não oferecia qualquer luxo. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. já que fora ele o principal motivo do . — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente.

E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca. Kelly Cooper. de Will e de si mesma.. Assim... Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. para si próprio e para ela. naquele momento. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. ele não estava surpreso. Mais breve impossível. Sim. Bem. dois estampidos secos e sinistros. enquanto via a polícia levar Will embora. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. mas apenas para si próprio. Aquele frio era resultado do medo. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. — Não se preocupe com isso.. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera. Fugira do país. aliás..adiamento. o calor da bebida serviu para reconfortá-la. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois. qualquer coisa. se bem que pálidos de medo. de jeito nenhum.. Estava magoado. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir. E agora aquele frio em seu corpo. embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . algo com que ia acabar se acostumando. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono. que parecia brotar de dentro dela. Aquele frio terrível. Will Stone era perigoso de fato. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. Riu. É bobagem minha — Will deu de ombros. desde que ouvira aqueles dois tiros. Mesmo agora podia escutá-los.. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott. era como se jamais tivesse estado viva. mesmo! Não que tivesse esse direito.. sobre o seu. Lembranças dos beijos de Will. um cartão de boa sorte. sem vontade. mais nada. agora a fugitiva era ela. tentando fazer-se de indiferente. Para ser mais exata. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário.. enfim! — Sinto muito — disse Mitch.. acabara por fazer o que sempre fazia. caso continuasse perto daquele homem. e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. Aquela idéia o magoou também. Não. uma reportagem digna de premiação. Algemado e acorrentado. Medo do que poderia acontecer. como se fosse um criminoso de alta periculosidade... O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. Ou melhor. pois não havia durado muito mais que algumas horas. diante de situações que não conseguia resolver: fugira. Sim. Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório. do calor do corpo dele junto ao seu. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos. Ainda que momentâneo. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. Na verdade.. antes... a estava acompanhando já havia alguns dias. Quanto a Will..

Tudo isso. Onde estaria ela. Estavam lá. além do seu emprego. De fato. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. Ela era péssima. Em caso positivo. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. o que ele iria fazer. Apesar da convivência. no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. . cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum. Duas noites por semana. constantes. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. contudo.. cada vez mais. Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. Emoções. era sua capacidade de construir-se a si próprio. Além do mais. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. problemáticos. afinal. porém. imutáveis. agora? Será que pensava nele. Uma coisa. no sentido mais verdadeiro da palavra. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo.. fiéis. se havia algo de curioso a respeito do futuro. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. quando o assunto era relacionamentos. Kelly. dia após dia. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. implorando que alguém os notasse de forma positiva. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. imaginou se Will já teria sido libertado. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes. rebeldes. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido. Aconchegando-se melhor sob o cobertor. a cada vez que as procurava.. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will.. E era aquele o ponto central de toda a questão.enchia de medo. por mais simples que fossem. Agora. Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens.

Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário. em Seattle. um retrato em close que o apanhara de surpresa. Kelly correu os dedos sobre o papel. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. do apartamento onde o amigo estava morando. ansiara tanto por um grande gole de uísque. guardadas no fundo de sua mala. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. estava amando Will Stone. para piorar tudo. homem algum soubera. Eram de Will. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. em toda a sua vida. Não punha uma só gota de álcool na boca. até então. Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti. do trabalho com as crianças carentes. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. mas não havia uma só palavra de Will ali. ansiosa por saber notícias de Will. Em outra. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial.. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. e da pior forma possível. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. Na primeira foto Will estava de costas. Por menos que quisesse admitir. o que tornara mais fácil suportar a solidão.. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar. E agora. desde aquela semana que passara com Will e Kelly. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. olhando pela janela do hotel como costumava fazer.. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo. Por menos que quisesse admitir. Speedy Talbot. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela. momentos capturados para sempre em filme e papel. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos. mas de nada adiantou. tudo muito bem. Com um embrulho nas mãos. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço. o maldito carro parava de funcionar. Will Stone tocara muito mais que sua pele. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie.. quase sempre sem que ele notasse. E de uma forma que. No último dia de outubro. seu corpo. mas que haviam acabado ali. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. Tudo ótimo. a aspereza da barba de encontro à sua pele.. Era demais para qualquer ser humano. numa tarde fria e chuvosa. Imagens roubadas. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro. sentiu o coração bater mais forte. Estava encharcado até os ossos e jamais.. para que eles três pudessem se reunir de novo. Naquela mesma noite. Foi a gota d'água. Agora estava sozinho de . mais uma vez incapaz de dormir. O detetive falava ainda do emprego de Will. Nem ao menos um recado. que piorava à medida que avançavam as investigações.A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. Tocara seu coração. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. Aquele estava sendo o pior dia de sua vida.

e. Levaria algum tempo. Nada mais importava. vinda do corredor do prédio. — Will? — ela repetiu. Assim. era diferente. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. mas acabei de chegar em San Francisco. Pode falar. do verdadeiro Mitch Brody. sequer. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. Conhecia poucas pessoas na cidade. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen. — Estou aqui no apartamento de Mitch.. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela... um dia. Will estranhou. Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. vir a acontecer. a qual tratou de entornar num único gole. Sim. embora duvidasse que isso pudesse. Com mãos trêmulas de ansiedade. Sentia-se apenas vivo. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. Estava cansado de tudo. Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch. Não que fosse muito. Queria um gole de uísque e o teria. porém. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. — ela pigarreou. hoje à tarde. onde havia um telefone comunitário.. — Olhe. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes.. Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino.. estou aqui. nos últimos tempos. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. A partir da quarta dose dispensou o copo. sensuais. já não pensava. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo. de si mesmo? Engraçado.. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando. . — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África.novo e não via motivos para continuar lutando. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. eu. Profunda e totalmente vivo. — Ei. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. até de viver. — Pronto. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou.. Em questão de minutos restava pouco daquele homem. mas agora não sentia nenhuma dessas emoções. Agora. Consultou o relógio da parede.. — Sim. ele já não distinguia mais nada.. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. portanto era raro que recebesse chamadas. de modo a ir descontando de sua enorme dívida. ainda. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então. que marcava quase nove horas da noite. Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas.

Deu alguns tapinhas no rosto dele. não entre em pânico.. — Venha rápido. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . Ele estava mudado. pensou Kelly. — Quando Kelly não respondeu. — Mitch acordou. beba isto. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool. mas outra parte continuava a desejar. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave. ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. claro.. Ele vai ficar bem. Por um segundo. Afastando os cabelos ruivos da própria testa. mas me faz um favor.. Parecia emocionalmente exausta. Ele resmungou algo ininteligível. Por causa do barulho da chuva. ela não ouviu sequer os passos na escada e. Não era o tipo de cansaço. do modo mais egoísta. Acho que desmaiou no sofá. me reconheceu e apagou de novo. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes. — Céus. Mitch. sim? Enquanto eu não chego. Ela estava cansada. que uma boa noite de sono pudesse aplacar. porém. Will notou. que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela. — disse ela. mesmo... ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. quando Will chegou. — Não... — Tome.. vá preparando um café. — Você entendeu? — Oh. Pronto o café. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis. como a porta estava destrancada. só mesmo o hálito de bebida. — Por algum motivo.. — O que houve? Você parece preocupada. daqueles bem fortes. a voz pastosa.. não é? — Estou a caminho.. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos. Quero dizer inconsciente. tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will.. Parte dele queria reconfortá-la. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. ignorando o comentário. — Mitch está bêbado. aquilo não soava como surpresa para Will. — Cuidado com eles. mas foi só por um momento. ele insistiu. mas por algo mais profundo e impalpável. pensou Kelly. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. — Está bem. sou eu! — Ela respirou. sim. mas não consegui. — Mitch? Ei... fez uma careta e abriu um olho só. Kelly se pôs em pé. está apagado como uma lâmpada! — Calma. cuidad. Com mais aquela palavra. mais aliviada.— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou. Tentei ajudá-lo. num gesto que era para ele dolorosamente familiar. — Kelly? — murmurou. — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch. — Estou a caminho. a fitá-la.. Mas você vem.... — Sim.

— Will deu de ombros. — o detetive olhou nos olhos de Will.. Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura. — Eu não peguei aquele dinheiro.. amigão. em silêncio. Ei. Falta de provas ou coisa assim. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch. nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu. — Quero meu filho! — Mitch resmungou. — Mas não sei como foram desconfiar dele. — Eu sei. Will retornou à sala onde Kelly o esperava. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz.. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar.. — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim.. um ano e meio. Será que esse policial era Mitch? — Talvez... vamos! — Nãão. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will. — O que foi? No que está vendo tanta graça.. está melhor? — Não.. Mitch não é um corrupto. — De nada. Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro.. — Nem dos seus beijos. eu sei. — Ei. — Traga um café.. a cada gole um gemido de protesto do amigo.Kelly. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa.. Mitch. — Mas que mulherzinha. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo. — Will lhe deu mais café.. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca. — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro. Mitch. imagine. — os dele responderam. — Não muito bem. um pouco mais claramente. para aquecêlas. enquanto servia um pouco de café para si e para Will. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo.. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou.. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada. nisso eu aposto meu pescoço. claro! — Bom! Que bom. então nunca aceitou. E dentro de seu . acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou.. o café fora um pretexto. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. Will Stone? — Em você... — Mitch fez uma careta. tornando a bater-lhe de leve no rosto.. sim? Ela saiu para a cozinha e. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia. ainda um pouco assustada. quando se revolta com alguma coisa. — Também penso assim.. Diabos. Um policial foi acusado de corrupção. voltava com uma xícara fumegante.. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano. depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir.. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. — Mitch. Até a esposa o deixou. Meia hora mais tarde. em questão de segundos. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. Ponto final. ou sob o meu.. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si. mais alto..

— Você mandou a história. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes. Stone. descontei do que lhe devia! — Ora. muito diferente do seu. agora andando mais rápido. Suficientes.. Kelly? — Não. — Will abriu um sorriso. Mais uma vez ela se voltou para a porta.. seus olhos buscaram os dele. — Ah. sério e surpreso. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior. evitando o olhar de Will. — Eu preciso saber uma coisa. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe. Mas a verdade era que. de preferência não muito inteligente. não veja nisso nada além do que realmente há.. — Então estamos quites. acho que vou embora. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo. — ele murmurou. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas... Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes. — ela respondeu. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém. ao menos no que se refere a essas taxas. Kelly sentiu-se um tanto sufocada. — Bom.. — Gostaria mesmo? — Will ficou sério. — Ah. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita. — Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso.. de repente. Eu também as cobrei de você. ele insistiu. agora que Mitch já está melhor. A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa. — Por quê? — ele perguntou. — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? . Não era o melhor dos assuntos. — Sim. calada. de ser o que ninguém era. — Bem. Não seria correto.. — Mas não precisava. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem.. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha.. o casaco e caminhou em direção à porta. talvez até uma pitada de medo. juntos. Seriam capazes de. — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse. Kelly o fitou. precisava sim.. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo.. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou.. Por instinto. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional.. — Ela baixou o olhar.. — Um pouco de obediência. Talvez ele tivesse razão.próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo.. — Olhe. naquele exato momento ela se sentia apavorada. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso.

Will Stone! — Bem. Viver um dia de cada vez. Nada no mundo poderia ser tão doce.. quando voltava com o amigo para casa.. Depois de ter visto Kelly de novo. também não deve . talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos. Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando.. sem fôlego.. tão terno. — disse o detetive. bem devagar. moça. tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela. Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce. Seria possível que ele. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem. tê-la beijado outra vez. Will Stone. e suspirou. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA. quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA. Mas. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão. o que pensar. — São mesmo como eu lembrava. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. estava mais perplexo e infeliz que nunca. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta. Ele e Mitch estavam jantando juntos. e que lutava contra isso. Kelly murmurou: — Você me assusta. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. — É.. pegou Will de surpresa. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. eu não sei — ela sussurrou. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele... Tão macios que me deixavam louco.. — Como são em sua memória? — Macios. — E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. desde que vira Kelly pela última vez. direta e sem rodeios. Quase duas... — Ele respirou fundo.— E-eu.. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. Ficou imóvel. tão. ser também um alcoólico..

— É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. Afinal.. também sem nenhum rodeio. já esqueceu? — Pode ser. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. Mas que diabos. Quem preparou a armadilha não foi um amador. — Eu e Kelly somos muito diferentes. Mas agora já não importa.. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável. e o homem que era agora. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco. — Esqueça — Will balançou a cabeça. sim.. — Olhe. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. revoltado. Will fez menção de dizer algo. porém ele o impediu com um gesto. mas nada disso importava. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. Eu vim do lado errado da vida. tinha dinheiro para gastar. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. imagine! Seja quem for que fez isso. E se isso não significava alguma coisa. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez. Viera do lado errado da vida. Mitch. afinal.. Continuou a caminhar. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você.. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo.. Um tipo como ele. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. Como um refrão interminável. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida.. nascemos em mundos diferentes. — Não sou homem para ela. — Suspeita de alguém? — Will insistiu. eu posso até estar errado. A moça está apaixonada por você. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse. jamais fora grande coisa. mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos. Quando começou a ouvir o toque de chamada. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will. e conseguiu. — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. Podia não ser o melhor homem na face da terra. — Will tomou um gole de café. — Verdade? — Verdade. mas acho melhor esquecer esse assunto. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. ladeira acima e abaixo. meu caro. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente. O que diria a ela? E como diria? Ou será .. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite.

e muito. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas.. Para Will aquela voz soou rouca e suave. bem devagar. também. . Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama. seria banal demais. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. mas não quero ouvir nem um pio. O tempo e o silêncio eram fatores importantes. Mas o quê fazer. mas não conseguiríamos. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. que se abriu com um clique suave. Bateu o telefone. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito.. o que você quer? — Conversar. — Eu vou tirar a mão de sua boca. O telefone tornou a chamar. ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou. independente e agressiva que seqüestrara. entendeu? Will ocultou um sorriso. Devagar. — Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will.. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça. não podia ser assim.. E sensual. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. Sim. Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga. Ao menos não naquele momento. então? Convidá-la para sair? Não. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano. pé ante pé. Bem. — Não. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. Kelly retirou a mão com que o estivera calando. — Esta bem. Mais um toque. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. — Sim.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez. — Entendeu? — ela insistiu.. fazendo com que a corrente tilintasse. interrompendo pela metade uma imprecação assustada. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. admitir que a amava. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. Ah. ali. Não. depois de tudo o que haviam passado juntos.. como de outras vezes. mas. aquela se parecia mais com a mulher teimosa. poderíamos. entendeu? Ele não respondeu. deixe apagado. pois ela não estava em casa. talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela.

— Quero minha vida de volta. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. E então apareceu Gary. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. Você não faria isso — disse ele. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. . Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era. sei que não sou perfeita e. — E se quer saber do pior. Pobre Gary. Ora. Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe. — Não. eu sei. Stone.. num tom estranho. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. Kelly — ele murmurou. e agora já não havia como voltar. Ela havia cruzado um limite.... olhou nos olhos de Will. combinado com tudo o que ela acabara de dizer. Naquela noite você invadiu minha vida e. ou queria. ameaçava esmagá-lo de uma vez.. uma semana depois. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços. mas você está falando! — Desculpe. Will.. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar.estou cansada de tentar agir como se fosse. arrastando junto a de Will... lá vou eu! — disse ela. antes. Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo. Kelly. — Bem. agora. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou.. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros.. para ser sincera. se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater. E isso. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso. você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então. — E eu quero.. com a voz embargada pela emoção —. — De qualquer modo — ela prosseguiu —. — Você nunca me chamou assim. estou escutando — disse Will. Will. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária.. — Ora. — Certo. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor. desesperada por um pouco de atenção. Ela ergueu o rosto e. — É. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe. — Então pare de fugir... — Estou cansada de fugir. mas.. se fosse mesmo esse o caso.— Muito bem. lá estava eu cuidando de minha própria vida.. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração.

Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu. — Quero ouvi-la dizer. — Will... para em seguida repetir. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. — É. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou. mas algo impediu seu movimento..Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. mais segura e decidida que nunca. tocou os cabelos cor de fogo. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. mas como o novo homem que era agora. — Não acredito! — ele também se pôs a rir. — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. num fio de voz. e nunca. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. — Bem. permitirei que você me faça ir embora. — Escute bem. Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will. — E eu. Eu jamais vou te deixar. — Eu te amo — ela disse.. — Kelly hesitou. — Eu te amo. com os olhos cheios de lágrimas.. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição... sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. — Não está? — Sim — ela sussurrou. onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa. — Trato feito — Kelly sussurrou... Will interrompeu o beijo. eu sei disso! — Kelly suspirou. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor. — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu. — Kelly riu. — ele pediu. mas eu te amo mais do que à minha própria vida.. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus. Muito melhor. naquele momento. sempre que você precisar de mim. Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. apesar da restrição imposta pelas algemas.. se ele fosse.. . Kelly. Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser. mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela... Kelly. mas nunca mesmo.. eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não. de repente. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada.. Will Stone. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar. Cheio de ternura. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro. envolta num profundo silêncio. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus. Era o que ela mais queria. — Will. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora. Will Stone. Se fosse assim.

em Shreveport. A beira de um grave ataque de nervos. E lado a lado. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro.CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost . Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer. Sandra mora com seu marido. uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver.ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . Tempos atrás. que será publicada dentro de alguns meses. Agora. Rachel Dryden ... no Estado de Louisiana.***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield.agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. 13 . Condição atual: exílio voluntário.divorciada e mãe de uma criança seqüestrada. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação. em sua difícil busca. por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas. PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 . Charles.

onde reside a segurança.A medida que seu carro se afasta de Nova York. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa... A ameaça aproximase. afinal. Mas. os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. incendiando-lhe o sangue nas veias. Lisa Morley respira mais aliviada. Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. Em meio às trevas do pavor. Contudo. o perigo a segue de perto. saído das más lembranças de seu passado. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho. congelando a alma de Lisa! De repente. e onde está o perigo? . surge Mark Fletcher.

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