Duas vidas sem destino (Snap Judgement

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Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

Não que fosse pretensiosa.. na tarde de hoje. na verdade. De qualquer modo. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade. talvez até outro Pulitzer. aliás... Suzanne. adorava viajar. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter.. ligou a televisão. Calças jeans. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. sem se dar conta.. também ele um jornalista de renome. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. era muito mais que um empresário de sucesso. Rodrigo Echeverria. porém. E quanto ao pai do noivo. bem no fundo de seu coração. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. seres humanos a fascinavam. deixavam transparecer a própria alma. queria ser o próximo presidente do México. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Sabia. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. Para tentar se distrair um pouco. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos.. por exemplo. Edward Andriotti. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. Ao chegar à mansão dos Andriotti. Aquele trabalho. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. Para ser mais exata. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. desprovidos de barreiras. local especializada em fofocas e colunas sociais. Não. céus. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade. Oh. Uma revista. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio. medíocres. um par de tênis.. quem a educara assim. Na manhã seguinte. calças de brim caqui. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Não que gostasse das pessoas o tempo todo. Ela própria. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. Kelly pensou. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. Ao ouvir aquela notícia. Kelly . Sim. De lá seguiria para a África. e Emmanuel Echeverria. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo". Instantes em que. horas antes. tinha sido seu pai. O que tentava. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. Como sempre. bem cedo. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas. onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. como odiava arrumar malas! Por outro lado. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti.. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. uma. que já era tido como o casamento do ano. Riquíssimo e muito influente. — Casaram-se. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. mas vencer era algo natural para ela. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. Como sempre. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços. estava longe de ser um político qualquer. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. O pai da noiva.

que mais tarde soubera ser Will Stone. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais. no entanto. Naquela manhã. três vezes. usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. já não vivia. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. O Homem de Pedra. Havia alguma coisa indecifrável. próprias da estação. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. No instante em que ele se voltou e a viu. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. Sem se deixar abater. Conforme costumava acontecer a cada ano. com um buraco de bala no peito. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. meio que às escondidas. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. em Folsom. Encontrara um homem. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. Com uma das mãos suja de sangue. Assim. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. O telejornal prosseguiu. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. com um simples gesto ela havia selado o . de uma modo ou de outro. ajoelhado ao lado de outro homem. De repente. Sentando-se na beirada da cama. este caído e coberto de sangue. no entanto. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. Uma moradora desta cidade. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte. fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. foi testemunha-chave da acusação. porém. apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. alguns mais importantes e outros nem tanto. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. Kelly acordara cedo. Por coincidência. além de vários convidados. duas. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. contudo. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma.

. fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã. ou seja. porém. conciliar o sono. pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida.. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço.. Para piorar. tomou um banho e preparou-se para deitar. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem.destino do Homem de Pedra. De volta ao seu apartamento. e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria. Além do mais. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. a ausência e a rigidez do pai. A morte da mãe. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio.. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão. paradeiro desconhecido até o momento. E aquele homem agora estava solto. Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. minha filha — seu pai costumava dizer. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado. partindo para bem longe dali. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. — Sua mãe está observando tudo. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. em voz alta. ela trancou a porta. para dar lugar a um vazio cada vez maior. de frente e de perfil. Não. Kelly Cooper.. Sentindo-se um pouco melhor. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu. a falta de carinho. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz.. endereçado à editora da revista. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você. — Ora. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. nos raros momentos em que estava em casa. Um vazio que ela achava assustador. ainda mais intenso. Era a polícia informando que. — Há suspeitas de que esteja armado. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto. Decidida. sem encontrar uma posição confortável. pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder. Mas Kelly Cooper não podia .. ela sabia ter selado seu próprio destino também. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir. à casa da mulher que testemunhara contra ele. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança. de lá do céu. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto. Kelly Cooper. Não conseguia. elemento de alta periculosidade. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem. durante aquela noite. sem dizer uma só palavra para defender-se. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. quando o telefone tocou. Durante o julgamento. mais profundo.. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. Virava-se de um lado para outro na cama. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela.

Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone. Onde estaria Will Stone. tentando libertar-se. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão. quando Kelly lhe pedira o divórcio. a melhor entre todos os melhores. E isto ela vinha conseguindo. Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. a não ser quando o assunto era relacionamento humano. porém. fascinantes e assustadores. sombrio.ser apenas especial. e agora ela o ouvia. De qualquer modo. costumara imaginar que som teria sua voz. Nisso. . Um esforço inútil. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la.. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira.. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. Kelly parou imediatamente de se mover. meses atrás. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. num grunhido. fazia pouco mais de um ano. E então começou o pesadelo. Sim. — Não. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. desde os anos de colégio e faculdade até agora. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento. Na verdade. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia. Gary. já que era muito menor e mais fraca que ele. Era um som grave. algo que a magoara bastante. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia... Quando conseguiu. Resmungando e tornando a virar-se na cama. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou. Precisava ser o máximo. ela era um completo desastre. em especial. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área.

mas terrivelmente hostis. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. Agora. ficara apavorada. portanto não venha me culpar! . entendeu? Kelly nada respondeu. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi. — Eu vou tirar a mão de sua boca. não é? — Will a fitou em silêncio. impassível. de fato. a mão que lhe cobria a boca se afastou. — Ah. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. mas não fui eu quem o colocou na prisão. — Acertar as contas. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo. por mais que tivesse tentado. com roupas modestas. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita. Kelly respirou fundo. mas não quero ouvir nem um pio. Will notou não só o olhar de Kelly. Tão perto que o seu corpo. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. sim. se é isso o que você está pensando... vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. ela balançou a cabeça devagar. E de repente ela estava fitando um rosto familiar. Kelly não sabia ao certo o que pensar. — Compensação? — Sim. Ele estava muito perto. — Não — ela retrucou. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. — Sinto muito. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso.. E você. só que mais velho e cansado. forte e musculoso. — Diga. — Ah. moça. Também devagar.. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença. — Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. como também a direção que tomavam os seus pensamentos. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. Preferia morrer a admitir diante dele que. Will Stone parecia o mesmo. Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva. porém limpas e decentes. E que ainda estava.. altiva. no entanto. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. E havia sangue em suas mãos.. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim.. a imprensa. aliás. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. por um instante. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal. como na primeira vez em que ela o vira.— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui..

. com um braço em redor da cintura de Kelly. seria sair debaixo do braço que lhe pesava.. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra. — ainda tentou protestar... E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava. Kelly parou onde estava. desde o momento em que se deitara. apagado como uma lâmpada. Sim. sobre a cintura. Girando devagar a cabeça. — E não tente se levantar. Naquele instante. curvando-se para desamarrar as botinas. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não. porém.. ele estava fora do ar. tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava.. O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não.. não quero saber de conversa. Você me deve uma e estou aqui para cobrar. principalmente depois do que já passei. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida. ela fez o mesmo com o outro pé.. parou. o que já era algum alívio. no entanto. a coragem de Kelly renasceu. — Bem. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta. hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. Quase quatro horas da manhã. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio..Will resmungou baixinho. Quarenta e cinco minutos depois. pousou o pé no chão. Sim. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura. quase entrou em pânico diante daquela constatação. Até então ele não a tinha ferido. Sim. Kelly resolveu obedecer sem discutir. afinal de contas. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado. Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar. moça. Seria estupidez confiar tanto na sorte. Com a maior leveza possível. era muito arriscado. Will Stone. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele. também era arriscado demais. segurando . Além do mais. Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will. corpo contra corpo.. — Cale a boca e durma! — Will ordenou. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. ou ser ameaçada outra vez. sem paciência para argumentar. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. isso mesmo! Desceria direto para a garagem.. bem devagar. espere aí. — Ei. não parecia ter intenção de feri-la. esperou e. consultou o despertador sobre o criado-mudo. eu lhe devo? — Kelly perguntou. no entanto. O verdadeiro problema. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. Will gemeu.. Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali.. pois eu vou perceber. a seu lado. Depois de escapar da cama. Devagar. quando o homem a seu lado não se moveu.. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama.. inerte. moça. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. na cama. Assim. Ele se remexeu. ele não havia movido um só músculo. talvez fosse melhor fugir para fora da casa e. A menos que. — E o quê. com todo o cuidado. como catástrofes naturais ou bombardeios..

ágil como uma cobra dando o bote. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. acabava de invadir sua vida. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas.. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. em sua independência. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. Kelly conseguia manter sua dignidade. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso. calçando as botas e amarrando os cadarços das . A revolta. moça. e olhando nos olhos de Will. — ela murmurou. moça — disse. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor.. Kelly se limitou a fitar aquele homem que. já estava sendo puxada com violência de volta à cama. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama.. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos.. Antes que ela tivesse chance de reagir. porém não menos alerta. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo. aquela vitória tinha um gosto amargo. Sabia que era necessário um pedido de desculpas. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. em outra situação. Aliviada. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. — S-sim. por estranho que pudesse parecer. — Faça isso de novo. Como vinham se recusando havia muito tempo. — Prepare-se para partir. — Entendeu bem? Muda. E agora. direta. Kelly fechou os olhos e esperou.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. Melhor assim. quase calmo. ela se permitiu respirar fundo. era se erguer com muito cuidado. muito mais fácil do que. De fato. Num tom de voz educado. Contou um minuto. a teria feito suspirar. Observou o rosto de Will. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. Sim. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. sem a menor cerimônia. Fácil. Centímetro por centímetro o pulso. agora. demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. Não tinha outra escolha. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer. Longos. depois outro e ainda mais um. O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. Nada. A despeito do medo. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado.

entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. Você sabe disso! — ela resmungou. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. — Tenho compromissos marcados! — Bem. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. — Falar? — Sim.. — Você escolhe. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. — Sabe. — Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. tornou a abri-la menos de dez minutos depois. — Estou saindo de uma . mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa.. — Também preciso usar o banheiro. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. isso é mesmo uma pena. saio do banheiro do jeito que estiver. moça. — Vamos fazer uma viagem. — Escute. — Olhe aqui. desconfiada. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu. — Sinto muito.mesmas com gestos bruscos. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. — Céus. Will Stone. Furiosa. portanto comece a falar — disse ele —. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. moça. e só pare quando eu mandar. se é que você me entende. — Não vai se sair bem desta. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. moça. — Oh. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. com a mesma violência que usara para fechar a porta. — Aliás devo ir logo para o aeroporto. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. E é bom não tentar nenhuma gracinha. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. O barulho chamou a atenção de Will. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. massageando o pulso dolorido. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. Esqueça o avião. moça. mas parece que você prefere acordar cedo. Kelly também se sentou. não sei em que está pensando. que até então estivera junto à janela. — O tom de Will era ríspido e insensível. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. moça. Apressada pela raiva. mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui.

não tinha a menor vontade de fazer. muito diferente! Calculando friamente. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu. — Aliás. — É isso aí. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. O pulso ainda lhe doía. bem perto da porta.. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria.. — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. .. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia. portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo. — Arrume suas coisas — Will ordenou. embarcar no carro. mas no país inteiro. — Escute. Embora o plano fosse bastante inteligente.. Não que se estivesse acovardando. seguido pela água correndo na torneira da pia. não por um alegre casal em viagem de férias.. aonde imagina que vá conseguir chegar. de dentro do banheiro. — Sua voz morreu na garganta. Algo que ela. A cidade. — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga. você tem consciência de que vai acabar se dando mal.. — Eu não entendi.penitenciária. como em algum filme de aventura.. Quanta tolice! Ainda assim. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la.. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo. Eles com certeza irão levar isso em consideração. Daí a ter tempo de abrir o portão.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que. — Isto é.. — ela ouviu o ruído da descarga. aliás. e longe do telefone! Com isto. dar a partida e fugir. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora. se voltando outra vez para Kelly. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. dizer que não me fez mal nenhum. áspera. A rua estava totalmente deserta. ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. Will entrou no banheiro e fechou a porta. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri. caso resolva se entregar. — ele confirmou. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez. — Como assim? — ela o fitou. — Estou aqui — Kelly se apressou em responder. em tentar correr para fora dali. Prosseguiu. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. E trate de ficar aqui. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada. parecia quieta e sonolenta. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. brusco. contudo.. intrigada. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história.. não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre. — Não estou ouvindo você — Will avisou.. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra. Além do mais. havia uma grande distância. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. chegasse à garagem.. com alguma sorte.. moça.

Aliás. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia. — Ele apanhou a mala de Kelly. e concluiu que os dois veículos. moça — ele a preveniu.— Então vamos embora. — E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. que Will sequer notou. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo.. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda. Como parecia ser de seu costume.. cerca de um ano antes. eu sei — disse Will. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. Lembrou-se de seu próprio carro. antes. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer. — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly. — Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou.. Kelly o fitou com um ar de completo espanto. moça? Ela se voltou para fitá-lo. emergiu na memória de ambos. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. — O dia mal começou. teve um mau pressentimento. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e. Kelly lançou-lhe um olhar furioso.. a um canto do quarto. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara. — É que eu percebi que. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele.. Um setor sem flores ou belas . desaparecesse na distância. tão diferentes entre si. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque. muito mais importantes. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel.. no entanto. eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida. se você pretendesse me matar. — É. uma tolice. ignorando seu pedido como das outras vezes. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. mal conservado e de um tom pálido de azul. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem. já o teria feito a estas alturas.

tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. Nada. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria. afinal era a única família que lhe restava. E se você vier para cá irmãozinho. — Ei. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. mandaria colocar ali uma lápide apropriada. num lar mal estruturado e muito pobre. venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. Na verdade. em si. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. Meu emprego é excelente. Will enfim encontrou o que estivera procurando. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. Quanto a isso. Haviam nascido num gueto de Chicago. Algo que. de fato acabara por fazer. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. dois anos mais velho. custasse o que custasse. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a . — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. Algo como puro medo. de um certo modo que não deixava de ser irônico. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam.. — Ele abriu a porta e desembarcou. — Para falar a verdade. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. — Vamos. sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. claro. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. Tudo ótimo! — insistira Stephen. Num gesto cheio de reverência. a não ser um estúpido número. Não pelo chamado. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos.estátuas adornando as lápides simples. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. Nenhum nome ou data. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo. — Sim. Ela se limitou a segui-lo. nenhuma frase inspirada ou consoladora. um dia.. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez. Ficou parado por um longo instante. O curioso é que Stephen. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo. No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. obediente. Transcorridos vários minutos. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave. minha situação não poderia ser melhor. cara. frio e sem qualquer sentido. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito.

que está fazendo? Me espionando? — Não. — O que significa isto? — perguntara.. vamos. Stephen. porém. não fosse a reação causada pelo anestésico. ao recordá-las. Além disso. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão. prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta. como cigarros e bebidas alcoólicas. Como resultado. — Ei. por aqui. De nada adiantara.. Quando criança. como um animal enjaulado. Will deixara as perguntas de lado. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas. O mais velho por falta de capacidade.tumba. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. ele por pura falta de esforço. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. Dois dias após sua chegada. Stephen respondera de modo evasivo. — Ora. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco. E aquelas palavras o feriam tanto agora. sabe como é. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos.. questionar o irmão quanto a isso. Sim. Mais do que qualquer desses indícios. E se até então tivera fortes suspeitas. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas. Não houve como não ver o revólver. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. Coisa de cidade grande. algo que deveria ter sido até bastante simples. quando entrei no quarto.... está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. no entanto. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. logo ele que jamais os utilizava. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. com notas quase abaixo da média. para que estivesse ganhando tanto dinheiro. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa. Zonzo. gritando que havia monstros a persegui-lo. irmãozinho. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. contudo. apavorado e delirando. Algo importante. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott. quanto o haviam ferido havia um ano. — É fácil notar que você está com medo.

Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. E exatamente enquanto fazia isso. porém. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem. demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. Certas pessoas. e levara o revólver consigo. uma mulher de cabelos ruivos aparecera. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas. . perto do cadáver. Will ergueu a cabeça para fitá-la. à altura do coração. Era a arma de Stephen. Ah. Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão. agindo por puro instinto. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo. Will encontrara o apartamento deserto. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha. Stephen. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. tratava-se de um homem condenado por assassinato. ao se levantar. incapaz de conter a curiosidade.. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão.. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. Desta vez. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. como abutres. E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. Sem pensar duas vezes.. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa.. O modo como Will se ajoelhara. do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela.. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito.. Além do mais. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado. por ali. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano.

Sim. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper. desaparecendo da cidade logo após o crime. depois de algum tempo.. Descobriram até que fora fichado na polícia. Tudo isso e muito mais. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro. o olhar mais uma vez hostil. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. para ali se abrigar do frio e da chuva. pois apesar de tudo e contra a própria razão. Queria dizer que. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. fosse quem fosse. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio. apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. sumido da face da Terra. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. de uma overdose de drogas. Mas ele não viera. obediente. mas com resultados não menos catastróficos. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos. De fato. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte. anos antes. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. pedindo resposta. — Não é da sua conta — respondeu com frieza. aliás. Kelly o seguiu de perto. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento. Não podia confiar nessa mulher. O corpo de seu único irmão. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. Will não era estúpido o bastante para ceder. Além do mais. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. pelas drogas encontradas em poder do homem morto. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava. continuava a amá-lo. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão.. Mas precisava ser encontrado.. por arrombamento e invasão.. das ilusões de poder e riqueza. Teoria reforçada. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. De fato. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. . talvez.do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. no entanto. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. ela já o havia prejudicado antes. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. Sem intenção. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. permitindo que a culpa recaísse sobre ele. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar.

Oh. Ah. um resfriado. com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse. — E ande logo! Com mãos trêmulas. olá. mas que idéia original — ela provocou. sem emitir um som.. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar. — Como arremate final. claro... Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone. Kelly tossiu. Will a fitou com os olhos semicerrados.. ela tornou a tossir. Péssima! — Tornou a tossir. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. está bem. Kelly. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. — Até logo. — Parece que é uma gripe daquelas. neste exato momento. — Eu gostaria de falar com Rachel. ameaçadores. Ah.. — Invente uma gripe. estou doente.. Não.. — Eu já ouvi. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone. — Como? Ah. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada.. não há necessidade — Kelly prosseguiu. repetindo o aviso.. E enquanto o telefone chamava. claro. por favor. . quando uma voz masculina atendeu o telefone. Sim. esse médico! — Ela tornou a olhar para Will. estou com muita febre. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado. — disse Kelly. sem maior autenticidade que da primeira vez. Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. Sob o olhar atento de seu captor. — Sem nenhuma gracinha. A expressão de Will se endureceu e. — Bom dia. quando estiver melhor. um som nitidamente falso. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo.. em uma expressão de profunda irritação. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF.Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. não preciso de nada. Rachel. — Oh. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele. mas sem que Will percebesse. sim? Voarei para Zurique assim que puder. sim. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. E quando voltou a falar. mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. — O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. — Apenas faça o que estou mandando. Stone! Não sou surda. para que eu não precisasse sair. Escute. quando sua editora atendeu. obrigada. moça! — Will sussurrou a seu lado.. por sinal ele está aqui em casa.. está bem? — Exasperado.. nervoso. vou tomar cuidado. Sim. não fique preocupada. Um santo homem. sim? Diga que fará contato de novo. não. Sim. sim. Está bem. ignorando o sarcasmo de Kelly.. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. sou eu.

— Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel.. com o olhar faiscando de raiva. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will.. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. manteve o olhar fixo à frente. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. moça? — Will a interrompeu. Escondeu um sorriso. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. altiva. Aquele homem era mesmo estranho. e estendeu a mão. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo. — Como assim. ao extrair da carteira a quantia pedida. contudo. um. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos. de fato. para dentro do carro.— Moça. — Aí está — disse ela —. Começava a crer que. severo. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada. — Oh. Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. no entanto. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. — Você precisa comer. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. um vagabundo. — Bem. Desta vez. não tinha outra saída. pensou. — Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. Kelly não notou. Um pouco mais calmo. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador. Kelly deu-lhe as costas e retomou. moça — ele a preveniu. — O que vai querer? — Nada. dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. porém. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. Will respirou fundo. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. — Cuidado com o que diz e faz. Além de ser tomada como refém. entretanto. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. ela não esboçou qualquer reação. Agora.. nem seria tão difícil de lidar. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. arranhando as marchas ao entrar em movimento. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. se queria uma boa atriz. Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível. Agora. . teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém. Lembre-se disso! — Oh. Cinco dólares serão suficientes.. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. era tarde demais. Ela. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato.

mostrou o menor interesse. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. por obséquio. — Pare com isso. Em vez disso. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto. estacionou o carro em uma vaga próxima e. afinal. Sem tornar a perguntar o que ela queria. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine. moça — ele avisou quando entraram. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. acredite! . pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja. no entanto. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. Será melhor para você. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino. Ainda era muito cedo. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando. — Talvez não tão longe assim. — Céus. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça. E não vai nem ao menos experimentar essa calça..— Não estou com fome — ela teimou.. ao desembarcar do automóvel. Cinco minutos depois. Will se voltou para fitá-la e. quando eu saísse do provador. — Coma! — Will mandou. cerca de uma hora depois. — Você estaria longe daqui. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava.. — Desça do carro — ele ordenou. grave. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo. era seu inimigo. duas camisetas. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. Ninguém. duas cuecas. Depois de pagar e receber as embalagens. pois sabia que era perda de tempo. que mais você vai querer? — ela reclamou... já havia escolhido para si uma calça jeans. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. como já começava a se tornar um hábito. na tentativa de indicar que algo estava errado. moça. se pôs a comer. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh. quando já terminava sua refeição. Ele a tomara como refém. Ele venceu. Tal ato revelava um considerável autocontrole. Rumaram para o norte. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa. Ninguém a não ser o homem a seu lado.. presente e atento. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. Não importava quem ou o quê era Will Stone. Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. — Trate de se comportar. com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. sem dizer palavra. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. ficaram medindo forças através de olhares.

Will Stone. pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado. ora. — Você estava sendo acusado de assassinato. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime. Condenado. depois de ter passado seis meses atrás das grades. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento. As autoridades recomendam extrema cautela. que o achassem perigoso. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. Doze pessoas. somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. Claro. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. Culpado. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone. isto sim. Voltou-se para Kelly. No fundo eram ambos prisioneiros. Por mais que ela tentasse disfarçar. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo. — Supondo eu falasse... Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito. só que ele havia conseguido escapar. doze cidadãos supostamente justos e normais. E fora isso o que houvera com ele. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. destrutivo. que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. — Ora! — Kelly balançou a cabeça. porém. Sem alternativa. incrédula... para decepção de Kelly. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar. ele parecia estar se saindo bem demais. Você sabe disso! Por ora. Na verdade. um condenado cumprindo pena por assassinato. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele.. — Eu não tinha nada a dizer. Mesmo agora. o policial já tinha deixado a loja. Por ironia. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo.Quando enfim chegaram ao caixa. por favor entre em contato com. no entanto. — Isto é.. Significava. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. Que continuassem a culpá-lo à vontade.. durante o julgamento. marginal. Infelizmente. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam. E no entanto era essa a sua condição. em um caminhão de entregas..... que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou.. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta. entretanto. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. como se não houvesse escutado nada. perante um juiz.

— Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly. Kelly percebeu que. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa. mas se calou. — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. contudo. querer eu não quero. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final.. é bom me obedecer! — Está bem. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna. Não tem a menor graça. Bem antes que os outros. num impulso. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. Desembarcou e esticou os músculos doloridos.. nos meus dias de folga. Kelly chegou a abrir a boca para negar. se estendendo por vários segundos. como antes. — E agora. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. para falar a verdade. Céus. sim? — Por que não? — ela perguntou. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma. não! — ela o desafiou. — Kelly deu de ombros. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira. Não pôde. Olhos que. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro. quase contra sua vontade. no entanto. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou.. moça. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível. fazendo com que parecessem feitos de fogo. com um brilho impertinente nos olhos. embora dissessem palavras duras agora. Ainda assim. em fitar o rosto anguloso e os lábios que. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. que estava enchendo o tanque do carro.. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse. sarcástica. — Quer fazer o favor de falar baixo. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. com visível satisfação. — Escute aqui. O que significava isso. — Bem. Sinto muito. insistiam em olhar nos dele.. perguntou: — Afinal. desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. moça? — ele ralhou.— Eu não estava. — Estava sim. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse. — Então estamos empatados. — Afinal de contas. moça.. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados.. o que vamos fazer? Ah. Stone. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi. Faziam três horas que estavam viajando. aliás. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro..

eu espero por aqui — disse ela. Em menos de um minuto. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável. — Você é Bo. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. moça.. destacou a segunda via para guardá-la consigo. estava conseguindo. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. Vocês dois me parecem gente honesta. — Nem pense nisso — ele a preveniu. Pelo jeito. tentando resistir. — Ele a puxou com mais força. impaciente. devolveu o cartão ao cliente. Céus. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. não é? — Eu mesmo. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito. Mais calmo então. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico. assim que entraram. forçou um sorriso. — Vou estar bem a seu lado. moça. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço.. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É. — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. Bo. Além do mais. lendo tudo o que você escrever naquele comprovante.. — Pode deixar. Will resmungou algo ininteligível e. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. Se tinha a intenção de irritar Will. jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. Stone — ela resmungou. — Além do mais. — Olá! — Um homem gordo e calvo.— Com todos os diabos. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. sujas e rasgadas. provavelmente o próprio Bo. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito. — Viemos pagar pela gasolina. — Oh. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. claro — o homem tornou a sorrir. Sem dizer uma só palavra. — Nada disso. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão.. também sorrindo.. . os cumprimentou com um largo sorriso. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. O sorriso murchou nos lábios de Kelly.. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. deve ser isso mesmo. dona. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. — Diga-me. mas as roupas de Will. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. — Bem. Após uma inspeção apressada. dona — ele respondeu. devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora.

.. porém... — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will.. esmurrando a porta.. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu. — Oh. Will. — Se eu não mantiver tudo trancado. — Já que estamos aqui. Mais uma vez. é desumano. Do jeito que suas unhas eram fracas. Stone! — gritou. um batom. no alto da parede. estava furiosa. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta. Não pode fazer isto comigo! E terrível. Kelly parou de repente. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly. se tivesse com quê escrevê-la. dona. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo.. — Ele sorriu e deu de ombros.. como se acabasse de se lembrar de algo importante. no entanto. depois de uma breve luta com um fecho. observando com toda a atenção as paredes. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino. Pensou em escrever com as unhas. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. porém nada encontrou.. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. — Pois é. a pia. havia uma janela.. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa.Ela. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. mas desistiu logo na primeira tentativa. não é? — É sim.. — Aposto como a chave é aquela ali. Não. Tornou a olhar em redor. na pior das hipóteses. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. espere um pouco. já dentro do toalete ao lado. conseguiu por fim abrir a janela. é. pendurada na parede. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. a janela.. Era tão estreita que por um instante ela . fosse um grampo de cabelos. Janela? Sim. — Ei. com raiva não.. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo. Will — disse. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. é. acho que vou aproveitar para ir ao toalete. isso sim! E como poderia estar. para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. descascando a tinta da porta. foi mais rápido e a tomou para si. o vaso. bem acima do vaso sanitário. os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos. Tentou abrir a porta. Kelly subiu no tampo do vaso e. Kelly bateu ainda uma vez na porta. ainda não se havia dado por vencida. Estava com raiva. Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer..

caso conseguisse passar por ali. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. já colocava a cabeça e os ombros para fora. pensou.. Sim. satisfeita. sua vida ordeira. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. Kelly ficou caída junto à parede. Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. era algo mais forte que isso. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor. duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé.. Paralisada pela dor e pelo susto. Bem. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. Ela o havia deixado furioso. apoiada sobre o próprio peito. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor.. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima... Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular. notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. Fracasso. ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz.. Talvez fosse isso o que a incomodava mais. além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão.. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho. mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. Aflita. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar. Afinal de contas. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e. E nesse momento. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que. não conhecera outra coisa que não o fracasso. no topo disso tudo. Mais especificamente a um certo demônio. tremendo e de olhos fechados. E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. Desde a chegada de Will.. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela. ofegante. não agora quando. causar-lhe um novo acesso de fúria. Uma vida que. mas nada poderia fazê-la desistir. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor. Seu olhar encontrou-se com o de Will. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. como ela estava? Furiosa também? Não. com isso. severo e acusador. Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. chamado Will Stone. Sucesso..chegou a desanimar. Ótimo. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar.. um rosto que a fitava. Encolhida no assento do passageiro. não era? . Quando teve a coragem de tornar a abri-los. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas. perfeitamente controlada. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. exceto por um casamento desfeito. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada. Só mais um pouquinho e estaria fora. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon.

Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que.. Alternando a atenção entre ela e o tráfego. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido. O olhar de Will desceu um pouco mais. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço. pensou. Ao menos perante si mesmo. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. até então. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. pensou Will. tão. a não ser no que tocava a si mesmo. você acaba por acreditar. tão mal dormida.. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. por menor que fosse. percebeu que Kelly havia adormecido.Especial. Os cabelos espelhavam sua personalidade. a curva pronunciada de sua cintura. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não.. naquela manhã.. A pele. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. Para ser mais exato. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. Ora. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha. Mesmo agora que estava fora da prisão.. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. o que lhe emprestava um ar adolescente. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros.. Tinha medo da própria reação. melancólico. E embora tal pensamento o surpreendesse. Fazia muito tempo que não pensava em rendas.. para lançá-la num morno torpor.. não é? Por outro lado. Sim. lisa e clara. arriscando um olhar para o lado direito. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total. Ele estava furioso. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. tão especial que chegava a ser perfeita. ela parecia tão doce e vulnerável. durante quinze longos anos. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade. Sim. Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise. tão especial que jamais cometia um erro. até agora. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. de fato você nunca será mais que isso. continuava sendo uma . e era isso o que deixava o papai orgulhoso. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior.. por exemplo. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência. Will respirou fundo. Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente. Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência.. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa. ela era especial. mas que diabos.

E era óbvio que ela iria tentar de novo. a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. Irritado. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas. Era só o que se via em termos de comércio. um supermercado e uma loja de ferramentas. resignada. Duas lanchonetes. de modo que não podia permitir que lhe escapasse. com a visão turva e a boca seca.. que diabos. ralhou consigo mesma por ter adormecido. por ali.. se não precisasse de você para o disfarce. Assim. — Will deu de ombros. ele olhou em redor. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. Se pretendia mesmo escapar. portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. aspirador de pó funcionando bem. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente.. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. Talvez. legítimas algemas policiais. as coisas estivessem começando a melhorar. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda. uma loja de roupas. Forçado a parar em um sinal vermelho. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia. Não que aprovasse. Agora nós vamos entrar . no entanto. Curioso. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. Ela suspirou e obedeceu. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro. Em vez de seguir adiante. Era um lugarejo comum.. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor.. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. E isso se não o matassem antes! Além do mais. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. — Escute aqui. ao desembarcar do automóvel. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. Mas ora. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades.. moça. Alguém buzinou. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar. pingente em ouro com diamante de um quilate. Violão em estado de novo. e olhou em redor. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento. apenas talvez. — Uma loja de coisas usadas? Céus. com fome e sob uma pressão muito grande. e escute direito: estou cansado. O sinal passou de vermelho para verde. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. numa tentativa de ajeitá-los.futilidade pensar nisso.

Dito isto. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. lançando um olhar maroto a Will. — E agora.. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação... Contrariado. o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. — Oh. Era . Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências. lá fora — Will respondeu. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. quatro. furiosa. aqui está a chave! — disse o balconista...nessa loja e não quero ouvir um pio. Assim que se viu a sós com Will. um. mas não se importava. moça. três. idiota! Ele se voltou e. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. senhor. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena. O rapaz. fizera ameaças. — Dois. Sabia estar agindo de modo infantil.. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly. Stone. Puxou-a para si até que estivessem face a face. com um olhar glacial. — Sim. a fez lembrar que deveria ficar calada. Em uma vitrina trancada. — Seu verme. com um brilho de desafio nos olhos verdes. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. que nada vira da discussão. Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou.. — ela Kelly prosseguiu. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos. — Tem cinco segundos para ficar quieta. — ela o provocou. nojento. mas nada adiantara. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos. agora percebia que jamais o tivera. pois prosseguiu: — Como se atreve a. sim? Vou buscar a chave delas. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa.. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão. mas ninguém mesmo. logo atrás do balcão. ao voltar do escritório. Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua. não é preciso. moça. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro. lá no escritório.. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas. — Cinco. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone. Pedira.. avisara. uma só palavra de você. — Eu me atrevo ao que for necessário. Ninguém. — Só um instante. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta.. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista. E era tudo culpa sua. não sei por quê. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja. Will a fez calar bruscamente.. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. se preciso. Kelly explodiu. pois estas coisas venderam como água. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão.

Will o ignorou e permaneceu calado. como que imaginando que tipo de clientes.. A farsa sugerida por Will era assustadora. perplexa. não um homem acompanhado de uma mulher. Na verdade. — Bem.. Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo. Lembranças.. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir... o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento. O balconista ficou a fitá-los. um pequeno e outro bem maior —. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente. isto é.. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo. para espanto desta. carregadas de ameaças. A polícia procurava um homem sozinho... Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly. com todos os diabos. — Não! — Kelly respondeu. Céus. Ela engoliu em seco. muito menos da esposa. calada. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio. Mesmo assim. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. — Não. Em silêncio. podia? — Oh. se entende o que eu quero dizer. impulso do momento. Balançou a cabeça. Ela estava prestes a pôr tudo a . Para alegria do rapaz e desespero de Will. mas Kelly. por exemplo. claro que não. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. — Deixe-me ver aquilo ali. Por que. Aquelas palavras pairaram no ar. tia Millie é um pouco estranha. parecendo tão surpreso quanto Kelly. — Sabe. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela. com um sorriso definitivamente malicioso. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo.. ah. tinha? Não. Will só estava garantindo a própria segurança. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia.. acho que estes vão servir..tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários. Apontou algo na vitrina. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. haviam entrado em sua loja. afinal. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida. — Will hesitou por um instante. junto ao par de algemas. bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente. — Não é mesmo.. por fim. Sabe como é.. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. ela não podia fazer o mesmo. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento. — E além do mais. foi adiante.. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar.

Senhor e senhora Cooper. mais próximo que nunca. enfiou-lhe a aliança no dedo anular. fechou os olhos e suspirou. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. quando o sol já se punha no horizonte. Era fácil notar que Will também estava exausto.. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. Em seguida rumaram para um hotel próximo. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. ma no fundo não se importava. a raiva. moça. trate de.. certo? — Kelly arriscou.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo.. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. onde comprou sanduíches. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. sim! — Will retrucou. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele. o sopro cálido da respiração contra sua pele. E agora. — Trate de descer e ficar quieta. a leve aspereza da barba por fazer. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. Estava faminta e cansada. Will parou numa lanchonete.. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. — Tome — disse o diabo. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. batatas fritas e refrigerantes. aquilo era o paraíso. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . — É isso aí. entregando o cartão de crédito ao balconista. — Ah. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua. — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. para ser mais exato. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. — Pronto. vitorioso. Não lhe restava energia para tanto. tampouco. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. assim que o motor deu o primeiro ronco. sem a menor delicadeza. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. tudo embalado para viagem. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. Por um longo instante em seguida ao beijo. você vai. Minutos depois. fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. Sim. duas portas de carro foram fechadas com toda a força. Decorado em tons suaves de malva e cinza. mas ela não se importava com isso. Largando a câmera e a valise no chão. quando ele já estacionava o carro diante da recepção. A idéia de comer algo. — Já sei. Chegaram a Seattle no fim da tarde. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. ela se deixou cair numa poltrona.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher. aliás. Jamais devia tê-la beijado.. num claro sinal de desconforto. Também precisava de algumas horas de sono. pedira para ser libertada das algemas. onde um bolso rasgado sobressaía.. Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida.lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho. no entanto. apesar dos tremores e do suor frio. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo. Calça. Memórias que a distância tornava dolorosas. iam passar a noite ali. mas agora teria que ser diferente.. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava. Mitch fechou os olhos. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina. Podia ter perdido tudo. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. um fato que ele não podia deixar de admirar. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas.. qual fora a sua reação. revirado e gemido. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. E então.. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos. Sim. por sua vez.. senão a sua ao menos a dos outros. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . o fazia lembrar de muitas outras coisas. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque. No fundo. Em momento algum. Aquilo devia ser piada. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado. Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café. mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. amargo. Bem. porém. Algo que. Ele mesmo o tinha rasgado. No entanto. deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro.. Parecia muito mal acomodada. Ao longo da noite ela se havia debatido. afinal? Não sabia dizer. inclusive o amor-próprio e a dignidade. ou seja. A menos que estivesse enganado. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. Longe disso. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse. Com um suspiro. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. Capítulo V Sentado na beira da cama. mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida.

mas não demore demais. apenas pousou a mão na maçaneta. acho que não.. Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. É emocionante. Em silêncio. — Kelly.. se aproximou e abriu as algemas.. — Stone. penteara os cabelos e . apontando a porta do banheiro —. Ao perceber que ele ia realmente sair. aonde você vai? Will não respondeu.. A noite mal dormida na dureza daquele chão. De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. Observando-a. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. porém. — Bem. mas desta vez não vai adiantar. Apontou as algemas. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e. para então caminhar em direção à porta. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. — ela resmungou. Quanto a isso. dez minutos depois. contudo. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. Ele não insistiu. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. Stone. moça. deixe-me ver. se pôs em pé. — Quer que eu a solte? — Oh. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais.. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei.. céus. Trocara de roupa. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso. Calado como sempre. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. Eu sou bem real. depois de uma noite inteira de repouso. Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio.. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. Will também parecia estar em péssima forma. você devia tentar! Além do mais. — Ei. — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim. Will não fez conta das ironias de Kelly. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina. ele ignorou a observação.culpado. Meu nome é Kelly! Como sempre. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava.. vamos logo! — Will chamou. — ela murmurou. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava. embaraçado. Will precisou respirar fundo e desviar o olhar. como se estivesse diante de uma questão muito difícil. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. que no dia anterior. tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos. moça. — Dizem que a esperança é a última que morre. — Ei. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério. ela fez questão de recusar o auxílio. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram.

que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima.. — Ei. ríspido. Mais uma vez Will a ignorou. ácida. pensou? — Bem. Calado. para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa. mas que medo — ele ironizou. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. a qual constatou estar mesmo vazia. — Esteja à vontade. de ter a última palavra no caso. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. Estou anotando cada centavo e saiba que. sério. certo? — É isso aí. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. — Kelly tentou corrigir. moça. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira. nada a não ser meu passaporte. Colocou de lado o estojo de pó compacto. — Isto é. — Que pena. Recolheu os cheques espalhados na cama. na verdade. Começou a busca pela carteira. — Muito engraçado — ele resmungou. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço. Ele sequer ergueu o olhar. — Devia saber. Ela obedeceu sem discutir mas. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. se for necessário. ao entregar os cheques assinados . com um sorriso triunfante. não é. sem pedir licença ou desculpas. apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. colocou dois deles diante de Kelly. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. — mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. Acertou em cheio.. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou. esse é o primeiro mandamento do manual do refém.parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera. meus documentos e minhas credenciais de imprensa. causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem.. agora? Ele se limitou a fitá-la. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. Will olhou-a nos olhos. que ele tratou de guardar no bolso. assine estes. — Pronto — disse. fez questão. E agora que já dei o dinheiro.. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali.. — Ela deu de ombros. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma.. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. Apressada demais. — Kelly argumentou. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar.. apressada. Eu vou sair e comprar algo para comermos. minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível.. Stone? Que vamos fazer. — Tome. Ao fechar . como sempre. — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico. moça. o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia. Nada. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele.

porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. cortando o centro em direção aos subúrbios.. antes. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. cercado por um muro de pedra. Desse modo. sentindo um nó na garganta.. Uma chuva fina começou a cair. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. havia uma guarita. Vinte minutos depois de sair do hotel... Assim. Reduzindo a velocidade vez por outra. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra. Agora.. Para manter a própria sanidade. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento. ele cuidaria pessoalmente disso.. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz. Havia algo de muito estranho ali. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. e que havia uma filial em Seattle. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra. Ao ler aquele nome. de algum modo. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum. pensou Mitch Brody. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde. aliás. pensou ele. não era o momento. se olhares matassem. em letras negras. Manobrou devagar o carro e. Tinha certeza de que aquela companhia era. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. Ele respirou fundo. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão. Aquele era um esconderijo perfeito. contudo. prosseguia pela cidade. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. Mais à frente. Bem mais adiante. Junto ao portão de grades de ferro. em San Francisco. guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco. com os olhos postos na estrada . pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas. E tinha mesmo que ser logo. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. pois não lhe restava muito tempo. olhando em redor. A lei estava era seu encalço. sem pressa. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros. outros problemas. Muito além. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. ainda ao longe. — É. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. Sem descer do carro. inclusive. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. que era operado por controles elétricos. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. A hora certa não demoraria a chegar. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. Filial de atuação bastante modesta. No alto do prédio. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios.

Com o passar das horas. usando o seu canivete suíço para. teria feito o mesmo. no meio de um arvoredo. . estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. nada mau. outra vez a caminho da cidade. Não ficou surpreso simplesmente porque. Seu instinto lhe dizia. Olhou em redor. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle.. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz.. jamais o abandonara nos momentos difíceis. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela. Porco agridoce à moda chinesa. mas não estava com fome. Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia. impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. era difícil saber o que estava pior. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. havia por ali que pudesse interessar a Stone. Mitch. já teria alertado as autoridades competentes! De repente. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés.alguns metros à frente. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que. Por algum tempo ficou à espera. n0 lugar dele... Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos. De fato. moça? — E se eu não parar. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete. observando e pensando. — Sente-se — ele insistiu. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto.. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma. seguiu um pouco adiante para ver o quê. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. Deu mais alguns passos Pelo quarto. por exemplo. Kelly obedeceu. ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha. Will Stone era inocente. E por falar em teia. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. Sim.. O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder. disso tinha plena certeza. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. se o seu automóvel ou sua vida. afinal. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. Dando a partida em seu velho automóvel. Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. porém. mas preciso ter cuidado. Tensa.

ao lado de sua valise. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se. que até então soubera mostrar apenas rispidez.. E não me pergunte mais nada. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. a noite. no entanto. para seu espanto. moça! Aborrecido. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela. e dessa vez a levara consigo no carro. esperando sentir por ele uma raiva imensa. mas os seus olhos. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido.. ao ver a maneira . em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã. Sua força. Será que conhecia alguém ali. achou que seria um bom modo de começar uma conversa. pensou ela. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem. exatamente. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê.. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos. Kelly Cooper não conhecia o medo. — Bem. nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder. — E então. — A noite — ele respondeu. Parecia ter se enganado. lacônico. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar. Não. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. isso era impossível.. Não. o que vamos fazer... prepotência e amargura. O que sentiu. pela manhã. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. sua delicadeza. encaracoladas como os cabelos de Kelly. pensou Kelly. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. — E então. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera. o semblante sério.. Will não conseguia esquecer aquele olhar. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. Will estaria planejando para aquela noite. no entanto.. O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. — Sim. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. Delicadeza? Era estranho que logo ele. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum. Um lado desconcertante. Will a fitou e disse: — Vamos esperar.num gesto nervoso. Ainda assim. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor. Pequenas tiras de madeira. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém.

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

Stone. ainda segurando sua mão. parando bem diante da guarita. Seu espírito jornalístico não permitiria. com um gritinho abafado. — Além do sujeito na guarita junto ao portão. incomodando-a e tolhendo seus movimentos. naquele instante.. . — Ainda não viu esse cachorro. — Horário estranho para uma entrega de flores.. Algumas dezenas de metros à direita. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott. Um muro alto. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor. — Sim — Will concordou —.. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis. não acha? — Kelly murmurou. Ela. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica. Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons.. um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. porém. como se aparecesse do nada.. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição. quando ela. tentando assim mantê-lo perto. ela não iria a parte alguma. Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. O cão de guarda latiu. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. Antes que ele pudesse entender o que se passava. moça. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado.. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. mas não pensava nisso. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. Algo que ela pareceu notar.. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos. mesmo que Stone a libertasse agora. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. — Ora. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. mas Will não podia correr risco algum. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. — E ouviu mesmo. muito estranho. era a certeza de que ali existia uma história. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. material para uma grande reportagem. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol. se jogou ao chão e o arrastou consigo. Tudo o que havia em sua mente. De repente. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. e a convicção de que. — Quieto! — ela sussurrou. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. — Fique quieta. mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão. O veículo. moça! — resmungou.. É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah.. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. ora. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão. em última análise.Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso.. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher.

Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara. — Ei. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. Kelly já imaginava o que Stone queria. — Não consigo ver. Kelly ficou estática por um instante até que. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. de maneira tão feminina e suave.. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly. respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. Talvez estejam.. — A voz de Will soou grave e rouca. Difícil saber ao certo. disse a si mesmo que tal reação era normal. agora. ele a colocou no chão. por mais que ele tentasse resistir. ao ver que não obtinha uma resposta.. — Carga de quê? Ele se calou. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras. como se. mas dessa vez lhe deu as costas.. Uma vez lá ele se pôs em pé. Aborrecido. depois de cruzar os portões. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante. como se realmente se importasse com ele. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. Um de seus pés derrapou na terra molhada e. Ao longo de toda a sua vida. pousou as mãos no peito dele. engatinhando para junto dele. embaraçada. mas. Oh. — O que está vendo? — Will rosnou. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. . — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome.. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. só o que Will podia ver eram as costas dela.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro. isto sim.. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. — Kelly principiou. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo. — Venha cá — ele sussurrou. — Porque talvez não estejam entregando nada. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. irritado com ela sem nenhum motivo lógico. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu. Até então usara apenas seu sobrenome. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou.. apanhando uma carga. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. afastando-se do muro e de Will Stone. Will a tomou pela cintura e a ergueu. espere aí. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso. Assim. Como o contrário seria impossível. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. numa tentativa de recuperar o equilíbrio. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. Ele continuou em silêncio.. Enquanto isso. Mas não era só isso.

bem à vista! — Dez a um para mim. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. mas entorpecentes e drogas proibidas. Correndo atrás dele. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que. seu voto de confiança me emociona. o criminoso sou eu! — Bem. você foi pego. sim! — Kelly se empertigou. obrigado. orgulhosa. preciso. precisa! — Por que acha isso? — Ora. um carro vermelho é algo difícil de não se ver. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. segurou-o por um braço. mas o problema não foi só o carro. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia. Stone. Stone. moça. é? — Sim. que não estivera esperando tal reação..— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu.. no parque? Muito obrigado. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez. mas resolvi assumir esse risco. mas é o que pretendo conseguir. ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. — Você tem alguma prova? — Não. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois. — Não simples remédios. de nós dois. fítaram-se demoradamente um ao outro. ninguém o notou. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto. mas Por certo não fora aquela. Stone. por fim. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. num sussurro. se tentar fazer isto por conta própria. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. — Você precisa da minha ajuda. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão. Encharcados e tremendo de frio.. sim — insistiu. — Bem. Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. Afinal de contas.. vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo. — Então vai precisar de uma parceira. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca. como que . — Pois eu aposto que foi notado. — Ah.. sim. tivera a mesma desconfiança.. — Escute. — Sim. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. — Pode ser. — Com todos os diabos. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. diante do forte aparato de segurança.

medindo forças. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. o quê. Afinal. afinal. e outra vez sem avisar. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre. Por um instante chegou a ficar preocupado. porém. aliás. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa. enquanto se esgueiravam de volta ao carro. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. no entanto. — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. Senão. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. exatamente. mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. nada a impedia de satisfazer sua . A polícia e aquela mulher. apanhara no armário e jogara em sua direção. A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. Ao lado da mesma. um ser humano em seu estado original. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. onde brilhavam pequenas gotas de água. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão.. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante.. Caso fosse verdade. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada. para só então voltarem a se erguer. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. para quê tanto interesse? Além do mais. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar. Pensando melhor. decidiu que tinha todo o direito do mundo. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. Kelly suspirou. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. depois da visita à Anscott. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. bastavam para atormentá-lo. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro. Deitados na terra molhada. contudo. Mas por outro lado. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. a caminho do banheiro. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. o túmulo que ele fizera questão de visitar. apenas entrou no carro. Não. cheia de folhas e galhos. Ao chegar ao hotel.

para sua surpresa. Por um longo instante. foi a falta de volume daquela carteira. O que impressionou Kelly. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira. — Não é da sua conta. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim.. Bem pouco. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. e depois de tudo isso. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor. se é que existia algum. Nesse ponto. sentindo-se subitamente culpada. fazendo Kelly estremecer. Kelly apenas o fitou. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor. todavia. . num sobressalto. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. ao verificar um último compartimento. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. Nada de couro legítimo. Pensando assim. — Eu. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. algo que o tornava ainda mais assustador. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. pode tratar de fazê-lo sozinho. as fotos ainda em suas mãos. o outro de um rapaz moreno e sorridente. Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. Incapaz de resistir. num gesto brusco. para ficar revirando as minhas coisas. já com alguma impaciência. na vida. dois pequenos retratos em branco e preto. mas não podia evitar a pergunta. — Ah. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. — Quem são eles? — Kelly perguntou... seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. moça. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. para não dizer ordinária. Curiosa. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. Guardados os retratos. apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. — Coloque-os de volta. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. mas pelo visto era pouco. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. Era uma peça comum.. muda. abriu-a para examinar seu conteúdo. por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez.curiosidade. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. seus dedos tocaram em algo. a minha vida? Já me roubou e me feriu. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira. — Coloque de volta — ele repetiu.

mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional.. Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis. Will nada respondeu. Muito grata. ainda desejava isso. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso.. Mais uma vez. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. No silêncio que se seguiu... Além do mais. escolheria mil vezes o chão. — Oh. Sem que estivesse esperando. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott. Kelly tornou a gemer. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. Uma vez só. nos lábios dela. dessa vez bem mais alto. sem que pudesse evitar. mas não obteve qualquer efeito. seu. no entanto. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo.. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. Por algum estranho motivo. Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. Will virou-se na cama e lhe deu as costas. pareciam ter se . Stone! Como já era de se esperar. Uma hora e meia depois. um travesseiro voou como que do nada. veio-lhe a imagem daquele homem nu. Mas. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos. Sim. quanta delicadeza. ele atravessou o quarto e apagou as luzes. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor.. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração.. Céus. Seus pensamentos. Não conseguia deixar de sentir por Kelly. seu. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo... Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. Para piorar. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu. na esperança de poder ignorá-la.. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre.. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença.— Ora. Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. Com toda a calma. para alívio de Will. — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. por quê? Por que o seu nome. atingindo-a no alto da cabeça. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono.. Will ficara ouvindo cada movimento. cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor. Na verdade. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. aquela noite fora bastante agitada. Bem. mas de nada adiantou. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado. Kelly ainda estava acordada.

— Não me deixe presa de novo. admitiu que acabava de ser derrotado. Confusa e ainda não de todo desperta. não? Afinal. Tinha o pulso machucado. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. Não. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. Sim. a trouxeram para junto de um peito nu.. Não fora? Kelly gemeu.. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer. pois fora a maior responsável por sua condenação. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole. não a tratara sequer com humanidade pois. as costas contra um muro de concreto.. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will.. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho. na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. O peito de Will! — O que você. Em meio a tudo aquilo.. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos. Era um sonho estranho. Will praguejou baixinho e. ainda que a contragosto. as mãos pousadas em seu peito.tornado inseparáveis. se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber. E então notara as fotos nas mãos dela. Ela voltou a gemer. logo após o banho. Mas se era assim.. o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. sentira que faziam parte um do outro. num único movimento. Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama. Kelly não estaria agora deitada no chão frio. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz.no entanto. Aliás. ele não a tratara com gentileza. Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor. Se ele fosse tão decente quanto queria crer. algemá-la na cabeceira. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. Kelly Cooper estava em débito com ele. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação. . tivera suas próprias razões para fazer o que fizera.. Agora que pensava melhor. Raios. jamais a teria seqüestrado.. de certo modo. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho. — Fique quieta. incapaz de raciocinar com clareza. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo. logo agora. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e.. no qual tudo parecia gelado e hostil. amordaçá-la e sair. Por um breve instante..

mas por favor. ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si. — Não vou algemar você e não vou sair. caso ele a quisesse algemar outra vez. naquele breve lapso de tempo. — Pare com isso! — ele ordenou. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. Como se as formas. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. — Durma — ele ordenou. está bem? Kelly não saberia dizer por que. segundo que Will não estava nu como imaginara. agarrando-lhe os pulsos. — Vamos. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. no fundo. Ou talvez porque. sem a menor cerimônia. — Por favor. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. no entanto. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante. . Ergueu os lençóis para Kelly.. Era como se. — Pare de se debater que eu a solto. as curvas. renovando suas forças. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela.. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel.— Eu vou com você aonde quiser. deite-se. de tomá-la em seus braços e protegê-la. com certeza. mas acreditava nele. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. juntou-se a ela.. não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. Perturbado. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e. rude. ele de fato lhe soltou os pulsos. lutando e se debatendo como podia. aquecidas contra o peito de Will. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem. — Não! — ela implorou de novo. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. obrigou-se a se afastar dela.. Ela suspirou. enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. a voz outra vez seca e direta. a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo. o que não era muito mas. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. eles se tivessem fundido num só. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. era melhor que nada. Não conseguiu. Fiel à palavra dada. antes que pudesse protestar.

.. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher. no entanto. Vou mudar de hotel. estava atraída por Will Stone. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga. estava em guerra com o mundo todo. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. era um lugar quente. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. Ele a seqüestrara e.. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso.. Não. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. continuar correndo. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença. — Ah. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. Ao contrário dele. Com um sobressalto.. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. macio e... — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes. um presidiário fugitivo.O que apenas o tornava mais perigoso. Will se voltou. ela o queria. Sim. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem. aquela seria uma relação impossível. agora. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. Lá estava Will. tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada. O quarto está gelado. O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. a julgar pelo péssimo humor. mas.. ponderou Kelly. e no sentido mais verdadeiro da palavra. hoje. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. Kelly acordou assustada.. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional. Não era. Aos poucos. devagar. o avisou de que ela havia despertado. um pouco antes de adormecer. Como ele. percebeu que Will havia falado com ela. Afinal também era uma fugitiva. mas muito mal. ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. mas. no entanto. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão. Sim. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. pensou ela. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. Alguma coisa. A despeito do frio que fazia naquele quarto. Afinal. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. de costas para ela. Onde estava? Com certeza não era o chão. Pensando bem.. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista.

— As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas. Já passei muitas calças. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido.. permaneceu sério como sempre.. Para cada ruga que conseguia eliminar. Em vez disso. É um modelo de viagem. mas estavam sempre limpas e bem passadas. ele criava outras duas. — Posso? Kelly o fitou por um instante.. — Acho que está bem no fundo. mas escondeu a surpresa que sentia. — Tenho um ferro de passar. — Sou uma mulher de muitos talentos. A tática funcionou. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las. — Lembranças são sempre maravilhosas. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. eu faço isso — disse Kelly. — É isso aí — ela respondeu. passados alguns minutos.mesmo lugar. — Pode deixar. como também é mestre em secar a ferro calças molhadas. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira. — Will murmurou. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper. em silêncio. porém. certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. Kelly continuou calada. — É verdade. em minha mala. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. sentindo-se ludibriada. por mais que os anos se . saindo da cama. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro. Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. — Sim. ainda deitada. mas não ousou tocar nesse assunto. eu e uma série de babás. do lado direito. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos. — Não é necessário. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca.. Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém. — O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. apenas sacou o canivete. — ele comentou. Ela concordou. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. preferiu fazer um comentário menos direto. pensativo. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor. claro — ela respondeu... na vida! — Calças molhadas. Ou melhor. Will nada disse. Após alguns minutos. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. Will.

— Kelly murmurou. surpresa. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara. Alto demais.. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. — É. Quando ela fez menção de se afastar. . Podia ver isso em seus olhos. — Afinal. — Sinto muito — ele se desculpou. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio. Eu li a seu respeito — ele confessou. visivelmente perturbado. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. foi Kelly quem quebrou o silêncio. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele.. Kelly o fitou. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto. Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone. sem erguer o olhar. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. na prisão.. — Pronto. Will a segurou por um braço e a impediu. intrigada. ele dedicado a seu entalhe. Embaraçado como um adolescente. Com extrema delicadeza. aqui está. ela secando a calça aos poucos. Aliás.. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone. Não por falsa modéstia. nada importante — ela respondeu. — Jamais tive a intenção de machucá-la. mas não se iluda com as aparências.. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta. Como que por um entendimento mútuo. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. — Meu pai também viajava... o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will. mas naquele momento.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. não pudera e nem quisera se conter. ambos permaneceram mais algum tempo calados. Transcorridos alguns minutos. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. — Diga. evasiva. às vezes. diante dela. — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos.. Mais que essa constatação. Will deslizou um dedo sobre o hematoma.. — Eu sei. — E então. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly. — ele riu sem vontade. mas simplesmente porque detestava falar a respeito.. no entanto. — Quantos prêmios você já ganhou. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. contudo. além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar.

ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser.. Dito isto. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. Na verdade. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio. — Kelly deu de ombros. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes.. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. — Sinto muito. mirando o fundo daqueles olhos verdes. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro. para então espirrar. acha? — Talvez. A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. capturado a verdade. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu. O que não significa que tenha. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. — E graças a você. Faz um julgamento daquele instante. devo dizer. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. O problema . não é? Depois da conversa daquela manhã. moça. Quanto à pergunta de Will. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu. Por razões que Will não saberia explicar. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou. ela passara a sentir-se inquieta. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. — Ah.Confusa. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. Mais que inquieta. Will os registrara como marido e mulher. ela se limitou a fitá-lo por um instante. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. será que não estava enganada? Afinal. necessariamente. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. Sim pois. diga-me como devo fazer. servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la.. Não tinha mais nada a dizer. é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott. Mas.. mas. na verdade: ficara assustada. — Afinal. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. como fizera no outro hotel.

Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. ela não sabia ao certo. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu.. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado. moça. — Não preciso saber de mais nada.. Pronto. sarcástico. Então. — Você tem esperanças de provar a sua inocência. — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas... é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo. Kelly se calou e o fitou. Quem venceu foi esta última. a jogara pela janela. Não mesmo! Aliás. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. porém. Afinal. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda.. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. — É. se não pretende provar sua inocência... havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera.. como uma imagem fora de foco que de . — Não. sim? — ele retorquiu. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. Kelly o fitou. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido.. a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. — Poupe-me de seus conselhos. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. séria. O quê. — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. — Preciso. sim! — Ah. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado. — Kelly deu de ombros.. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças. — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. você está certo. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão. E pode ficar tranqüilo. de nós dois o criminoso é você. E mesmo assim. Não. moça! — Dito isto. eu. — Seu irmão? — Sim. para quê tudo isto. De fato. então? — Como já lhe disse.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. culpando a Anscott? — Moça. ou melhor. — Ninguém acreditaria. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda. A seu lado.

Em tempo algum olharam em redor. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. aliás. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. Dessa vez. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira. Não queria ser notado. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. enfim —. para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. ao menos por ora. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. — Tem duas opções. por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho. era quase o mesmo que não ter trabalho algum. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. um imenso vazio denunciava a emoção contida. Ótimo. Em seus olhos. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. dormindo sentado. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. mas sua vontade valia pouco naquele caso. Pare de sentir pena de si mesmo. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. do lado de fora dos portões da Anscott. Suas dívidas se acumulavam. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. pois não tinha idéia do que dizer. casa e emprego. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. Seu novo trabalho. Não tinha dinheiro para quase nada. Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. Ele perdeu o equilíbrio e foi . Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. não pensou em nosso filho? — Papai.repente ganhasse definição. caso fosse pego. observando dali o movimento na portaria da empresa. pensou Mitch. As palavras de seu superior. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar. ele ordenou. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance.

Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer. não? — Não. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. Tudo nele inspirava leveza e agilidade. antes de concordar. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. Zonzo de surpresa e dor. isto não é um jogo — Will respondeu. Lado a lado com Will. Isso por certo significava alguma coisa. aquele homem parecia um enorme leopardo. quase que no mesmo instante. Ao entrar no quarto o desconhecido. — Mitch deu de ombros. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. O que mais lhe chamou a atenção. Sim. seco. Da janela. me desculpe. — E o que mais acha que eu poderia pensar? — É. Este obedeceu e imaginou. talvez devesse ter pensado duas vezes. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel.. a porta do quarto se abriu. continuava a lutar. ainda massageando o braço. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele. — Você joga duro. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. três vezes em seguida. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. que conferiam a Stone um ar agressivo.. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! . era tão alto quanto este. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. A despeito da escuridão que reinava no estacionamento.lançado com violência contra a lataria. antes de se envolver naquilo. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo. embora de porte físico menos maciço. se é o que está pensando. Will fitou o detetive por um momento. duas. acho que vou morrer de pneumonia. — Escute. no entanto. não só a Will. se não estaria cometendo um erro. — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome. — Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades. você está certo. foram seu olhar sombrio e desconfiado. pela décima vez. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. um homem louro de meia-idade. como se tivesse algo de felino. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado. Um leopardo ferido que. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor.. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. Com um gesto. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois... a despeito da dor. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa.. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação. Sim. — Olá — ele a cumprimentou. — Oh.

Stone. — Bem. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou. Espirrou mais algumas vezes. — Bem. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. antes de desaparecer. Bem. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira. ela não teve tempo de pensar a respeito. Brody. aliás. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe. Se querem saber o que penso. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos. está certo. para variar. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história. — Ele tornou a olhar para Will. tecnicamente. então. — Você mesmo me disse que.. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. Tomara um havia menos de uma hora. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante. aliás. voltou a atenção para Mitch. Stone. porém. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas.. — Tente outra história.. mas há muita gente atrás de você. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. um fato. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. num tom neutro. . — O que acha? — Por enquanto não acho nada.Will preferiu ignorar o comentário. que você não mencionou. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. nessa briga? — Porque. Brody! — Talvez não. Alguém que o usou para deixar a cidade. Sr. Não é uma proeza pequena. — Ele se voltou paira Will. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão.. — Detetive particular? Ora. — Está certo.. sem muitas pretensões de convencer alguém. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. Não sei se tem visto os noticiários. alguém se apoderou desse dinheiro.. também não foi encontrado com Stone.. E bem depressa. E agora o Sr. — O detetive respirou fundo e deu de ombros. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento.. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma.. Pela expressão em seu rosto.. — Vou abrir o jogo. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso. — Mitch arriscou.. — Obrigado. mas eu não preciso de um fã-clube. Em vez disso. — Sente-se — ordenou ao visitante. Prossiga. — Continue — disse Will. tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso. — Por que estaria interessado em ficar do meu lado.. Como antes. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom. Kelly o fitou por um instante. Dinheiro que. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas.

Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. — Ele pode ter sido. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. . Aliás. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele.. — Ora. — Não entendo. — Bem. ou preferiram não notar.. — Kelly balançou a cabeça. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. O remédio para gripe já estava fazendo efeito. Pelo modo como Will franziu a testa. — Se ele fugiu para Los Angeles. acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda. — Mitch olhou para Will. talvez não. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam. também. Foi enterrado como indigente em San Francisco. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína. — Quero dizer. calado. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou.. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. decerto não notaram a relevância desse detalhe. — O que aconteceu com o irmão de Will. muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. Não sabiam sequer que tinha um irmão. — Quando consegui localizá-lo. — É isso o que você pensa. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. mas nunca foi um viciado.. como se lhe custasse muito dizer aquilo. tenso.. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim. Brody? — Pode me chamar de Mitch. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se. certo? — Kelly argumentou. — Sim — Will replicou. — Exato.. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive.. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros. pois para eles isso pouco importa.. deixando-a sonolenta. — Ele abriu um breve sorriso. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma. E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. indo direto ao ponto. A angústia era transparente em sua voz. — Will hesitou. Aos olhos da acusação. Mitch apenas confirmou com um gesto. intrigada. brusco.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime.. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu. Ao que soubessem. Em caso positivo. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel.. De fato. Sr. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso.

olhando pela janela. — Bem lembrado — Will interveio. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues.. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. tudo isto é fascinante. Na verdade. que até então estivera de costas. Por fim. ainda encarando o detetive. Apreciava tal demonstração de sensibilidade. Stone. Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. — Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. Kelly percebeu que. Seu irmão tentara fazer a coisa certa. — Exato. Como ele não compareceu. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou. — Mas não explica por que vinha nos seguindo. Ele telefonou para o seu advogado. Vamos deixar nesses termos. — Eu as quero. e quero tomar parte nisso. Mitch. — Brody. dizendo que precisava falar a respeito do caso. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. — Kelly espirrou. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás. — Se querem mesmo saber.. ao longo da conversa. — Eu sei. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles.. se voltou de repente. para saber o que fora feito do corpo. com a voz trêmula de emoção. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos.— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro. — No meu escritório. Marcou um encontro com seu irmão. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly. — Bem. então liguei para ele. por ora.. — É uma descoberta recente. que me contou a respeito do encontro. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote. Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. você nunca me contou isso! — ele acusou.. em respeito aos sentimentos de seu cliente. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar.. — Antes que o outro pudesse protestar.. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta.. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro. Guardei para você. . Will. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários.

antes. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça.. o fez com mais rispidez do que pretendia. — Você sabe que isso é ilegal.. para o desconforto do banco de seu carro. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. Stone. — É. tonta. você pode apostar que sei. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. já o teria feito desde o início. mesmo. Will. Queria demais aquelas plantas da Anscott. Mas já joguei limpo e de acordo com as regras. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez... — O que você acha disso tudo? — ela murmurou. — Kelly gemeu. pensava um monte de coisas. — Bem. — Estou impressionada — Kelly resmungou.. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas. que acabara de trancar a porta do quarto.. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque.. — Muito justo.. sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa... um só gole de bebida. — Mas ele está certo. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados. você sabe.. — Hmm. a fuga de Stephen. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás. seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. — Acho que vou. — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia. Kelly deu de ombros. para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas. a mágoa que tal covardia lhe causara. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco. vá se deitar — resmungou. — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will. ao contrário.. e perdi. Coisas demais. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu. Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante. Além do mais. na verdade. se fosse o caso. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto. — ela concordou.. — Como? — ela perguntou.. Will. — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não. sério. — Como eu disse.. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. tenho as minhas conexões. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos.. — Ande. parecia mais desperto e atento que nunca. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial.. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la. Não. E para a terrível necessidade por um gole. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. não sabe? — perguntou Will. Brody. cruzando a passos incertos os poucos metros . Esse era um sentimento que o perturbava.. de modo que quando se dirigiu a Kelly. Já teria avisado a polícia. mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara.

ele a deixara sozinha no quarto. como tivera a chance de fugir e não o fizera. ela já havia dado provas de que pensava assim. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava. Céus. quero dizer. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse.. Com toda a certeza. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e. Will parou e olhou para trás. ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia. Gemeu baixinho. Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. — Olá.. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. Abriu devagar os olhos. No mesmo instante. eu. Embora de forma indireta.. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil. Essas coisas. contudo. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair. E Kelly ficara. Sim. Respirou fundo e desviou o olhar. — ela olhou nos . pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco. num gesto terno. O quarto. — ela sussurrou. sem que pudesse evitar. Kelly o segurou por um braço. ficou imerso em uma agradável penumbra e. Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las. se deu conta de que era uma idéia ridícula. e com um futuro ainda mais incerto. — Volte a dormir — ele repetiu. No entanto. não é? Na Anscott.. que dormia a sono solto. que lhe tocava o coração. por algum motivo. Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. mas nem por isso menos adorável. mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. Além do mais. Quando fez menção de se levantar. Assim adormecida ela mais parecia um anjo. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele.. A meio caminho do banheiro. num tom muito mais brando. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física.que a separavam da cama. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will. porém. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo. seu olhar pousou em Kelly. Sim. Não só ela estava sem condições de sair dali.. Ela se mexeu. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia. — confusa e sonolenta. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. depois de um banho rápido. porém. — Eu. imaginando se não seria melhor algemá-la. Will engoliu em seco. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. porém. as pálpebras pesadas de sono.. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. — Você não vai fazer nenhuma besteira.. Minutos mais tarde. Vendo-a estendida na cama.

mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. Will respirou fundo. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. E por mais que tentasse. apenas talvez. vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça. — Então você vai ficar livre. Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história.. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. mas é claro! — Will murmurou. em silêncio. odiando a si mesmo pela mentira. enquanto ouvia Kelly falar. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will. certo? Certo? — Certo — disse Will. Nada jamais terminava bem. para ele. dessa vez ele pudesse vencer. Mitch usou a outra para abrir a janela.. ao menos uma vez. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. e tudo vai terminar bem. .. E naquele instante. — Não vai entrar lá com. Sim porque.. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. não só queria que a justiça prevalecesse. — Você não está mentindo para mim. ter sua participação aceita.. sem rodeios.. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente.. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão.. sério e calado. Por outro lado. Acreditara que talvez. Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo.olhos de Will. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito. pensou. do lado de fora do carro. Tolo por acreditar em milagres. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott. — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido. mas com uma condição. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais.. eu terei minha reportagem... Naquele instante. Tolo. sem saber que decisão o outro havia tomado. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro. Alguém iria pagar pela morte de Stephen. gritou para si mesmo. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu.. — Oh. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava. ao deitar-se na dureza do chão.

O furgão da floricultura entrou aqui. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. — Este canto é ocupado por escritórios.. — É. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will. Mitch sorriu e deu de ombros. todas muito bem pagas. perturbando-lhe a concentração. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. — Vejam. entrar. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. — Faz sentido — Kelly concordou. o desespero com que ele desejara beijá-la. Era um grande corredor no qual. salas e corredores da construção.. haviam seis salas. — Sim. estudava o sistema de alarmes do prédio. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição. — Não que eu seja um especialista no assunto. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. apanhar as provas e sair. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum. há uma porta principal que separa esta ala do restante . certo? — disse Kelly. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. com um ar mais grave que nunca.. Will e Kelly. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. vejam. pelos fundos. . — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. verificavam as entradas. Mitch. no entanto.. ajoelhado aos pés da cama. de acordo com a planta. o mesmo se aplica a todos estes papéis. Tudo está claro e bem explicado demais. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou. além de um sujeito no setor de carga e descarga. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada. — Will apontou as divisões expostas no projeto. e neste fica a produção. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui. com isto aqui. — Eu dou as ordens. lado a lado. Diante do comentário de Mitch. — Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel.— Pode dizer. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência. Horas mais tarde. Ela. então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali. acho que posso suportar isso. — Bem. Apontou a área onde ficava a produção.

quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. claro. pode ser qualquer um: cartão magnético. Talvez não tenham percebido. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. — Bem lembrado — Mitch concordou. — Eu discordo.. — O dono. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo.. nele pareciam apenas realçá-la. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. então. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. a barba por fazer. — Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. — Alguma idéia? — Will perguntou. Kelly olhava não em seus olhos castanhos.. bem sucedido. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. continuaremos sem o cartão. hoje em dia. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will. temos que encontrar um modo de entrar no prédio. os três estavam sentados no chão do quarto.. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. Kelly começou a espirrar de novo. — Está bem — interveio o detetive —. Ele tem urna carreira nesse setor. mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. O cabelo despenteado. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. impaciente. Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. — Estou pensando. o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica. — Quanto ao atual administrador. Lá pelo final da tarde. — Talvez. sempre atenta. teclado com senha numérica. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens. ou donos. deviam ser. depois de passar por muros. — E quanto ao tipo de sistema. Não há indicação específica na planta. devorando uma pizza de queijo. mas o que havia em redor deles. mas não para ele mesmo — Will insistiu. vencida pelo sono. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. Constrangida. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. E aqueles lábios. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça.do prédio. — Em primeiro lugar. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais. guardas e cães. — Estou pensando — disse ela. Kelly.

Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior. intrigado.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça. — Obrigado. esta madrugada — disse Will. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. — Ainda está trabalhando para mim... depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. homem! — Will insistiu. Hesitante e embaraçado. — Acho que estou. — Mitch sorriu. — É. — Então trate de alugar um quarto e descansar. — Ah. não está? — Sim. sem jeito. — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez.. O que foi impossível descobrir. ou melhor. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores. sim. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. certo? — B-bem. hã... mas. — Quer vir junto. De repente.. mas ninguém tem o controle acionário. Durante vários segundos silenciosos.. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças.. fitando um ao outro. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada. no limite da exaustão. por fim. Diamond e Santico.. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. Mitch abriu um sorriso largo. pigarreou e prosseguiu. parece ter um número infindável deles. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott. afinal. — Will olhou nos olhos do outro. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e. mas. — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta. — Esse laboratório parece não ter um dono.. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado.. — Se bem me lembro. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la. por exemplo. Brody? — Ora. Mitch se levantou. eu não preciso. caminhou até a janela e olhou para fora. como Quantex. . Consultoria Califórnia. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch. — Alugue um quarto. Kelly e Will se entreolharam. — A quem. Will continuou. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido. mesmo. — Vou vigiar os portões da Anscott.. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. Parecia cansado. Mitch recusou: — Eu.

mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. se puder — disse Mitch. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. — Faça uma foto. porém. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. — Está bem. Uma . — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite. A uma certa distância dali. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. Will. nem que vivesse até os cem anos de idade. teriam que fazê-lo o quanto antes. como sempre. o cão de guarda começou a latir. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. — Pois é. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo. — Não sei. Mais perto agora que da outra vez. Nunca. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. Como um manto negro. algo de que Will parecia compartilhar. Enquanto isso. mas dessa vez não a feriu. — Vamos ver quem é o dono. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. hein. ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. — Abaixem-se — Kelly alertou.— Você sabe jogar duro. caindo ao chão e espiando em redor. este a estava observando. também — observou Mitch. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. Era o único ruído por ali. até parar diante do portão. sem perder tempo. — Foi muito gentil de sua parte. — Boa idéia. Mitch e Kelly. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. Tenso. — Acho que posso investigá-la. oferecer o quarto a ele. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. na primeira noite? — Mitch perguntou. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. De repente. Kelly espirrou. não se esqueça disso! — disse Will. Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. — Desculpem! — ela sussurrou. a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. Kelly sentia o tempo correr contra eles. desta vez acompanhada de sua câmera. O tom da voz dele soou áspero. — A que horas apareceu o furgão. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. Com isto o detetive se retirou.

está indo para os fundos do prédio. faltou ontem e tornou a aparecer hoje.. — Grande garota! — Mitch elogiou. — Claro. Menos de vinte minutos depois. no entanto. — Consegui — sussurrou Kelly. Pensou em Will. afinal se estava doente não deveria sair de casa. Em parte por saber o que tinha à sua espera. — Interessante — Mitch considerou. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade. Ao passar pela guarita. chamou os companheiros e apontou: — Vejam. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou. e agora? — perguntou Mitch. Sim. também. estaria achando tudo muito estranho. — É verdade. àquela hora.. — Bem. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. — Dessa vez foi Will que respondeu. não acha? — Will comentou. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial. — Kelly fez mais uma foto do guarda. em plena noite de domingo! — Realmente estranho. que contava com uma boa visão da frente do prédio. — Vamos ficar mais um pouco. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um . domingo. imaginou o que seu filho estaria fazendo. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. embora dissesse ser inocente? Céus. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. Mitch. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. Agora. sem ninguém? Ou será que. ou talvez ao longo de toda a sua vida. três e o furgão saiu de seu alcance. Will procurava não pensar em nada. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. outra vez. que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos.. nenhum deles falou muito. fora forçado a trilhar aquele caminho? . deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. — Faz sentido — Will ponderou. no entanto. sentado no chão úmido. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas.foto. Will. dali a alguns minutos. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. como ela própria. Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite. duas. — Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. parecendo calmo e indiferente.. .

— Psiu. — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos. porém. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. como que esperando também pela resposta de Mitch. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. Isso. Com justiça e honra. Além do mais.metro de distância dele. — Raios! — Will resmungou baixinho. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. curioso. ansioso. — Bem. — Oh. no entanto. eu sei. por que está fazendo isto? — Will perguntou. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás. só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. por exemplo. Já tomei remédio.. pegue o sujeito! — Will sussurrou. mais para si mesma que para os dois homens. desça mais! — Olhe lá. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. — É. vamos lá. inquieto. o silêncio que pairou entre eles foi total. — Diga. A coruja tornou a piar e então se calou. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. — Quero dizer. Ao ouvir a palavra bêbada. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper. Só que você não respondeu. E naquele momento. Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais. — Não. Durante dez minutos.. já que se pôs a correr rente à cerca. com esses vidros. — Bem que uma das janelas podia estar aberta.. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. Stone. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou.. — Kelly murmurou. em direção ao arvoredo. como se suas preces tivessem sido atendidas. um dos vidros começou a baixar lentamente. com a maior velocidade possível. o homem se voltou em sua direção. Por causa da distância e da pouca luz. não o faria mudar um só detalhe de seu plano. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou.. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele.. rosnando e latindo como louco. obrigada. No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros. Brody. Então. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou. — Mitch deu de ombros. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. ontem.. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. — Kelly anunciou. Com um gesto rápido. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. enquanto a limusine atravessava os . Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. Mitch resmungou um saúde. e me senti bêbada. — Difícil saber.. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. Mitch se remexeu. Em questão de segundos.

— Nove da manhã.. Se conseguira ou não. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. — Estava escuro.. saindo e fechando a porta atrás de si. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. estavam os três novamente no quarto do hotel.. — Aqui. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços. — É. . Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas. E como seria se.. mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper. Sim.. — Ou teria sido número oito e letra C? Céus. Quanto mais cedo. agora não tenho bem certeza. intrigado. — Não sei — disse Will —. de algo que Will ainda não sabia o que era. retirando o filme de dentro da câmera. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. — Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno. Não pude ver. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta. — A que horas abre? — Kelly perguntou. Era um sentimento que não desejava a ninguém. era algo que teriam que esperar para ver. — Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. Mas o fato era que ela estava. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores. Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que. melhor. no desespero da fuga. porque o detetive também estava fugindo. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. já de saída para seu quarto. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer. Brody.... com um gesto. pode ser — o detetive resmungou. já tinha muito com que se preocupar. na verdade. encontrei um — disse Will. Will concordou. — O que é que você achou? — ele perguntou. — Ótimo. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora. a ansiedade explodira entre eles. às pressas e sem muito êxito. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo.portões. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la.

— Oh. quando ela acordou assustada. Corpo que já tivera bem junto de si. mas então deu de ombros. moça. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. pode parecer esquisito. seja apenas um pouco menos. — Bem. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. Seja como for. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. formas e . mas.. aliviada. colado ao seu. — Não precisa ser santo. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou. sem compreender. o que ia dizer? — Will quis saber. — Ah.. sombras. que não havia algema alguma. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. como você é teimosa! — Sou mesmo. Sim. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. como se tivesse perdido por completo a paciência.. — Diabos. — Ela balançou a cabeça. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão. pensativa. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico. Parado diante da janela. convencido de que ela não iria fugir. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. mas. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. orgulhosa. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama. Kelly finalmente adormeceu. com Kelly e consigo mesmo. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. — Por um instante Kelly franziu a testa. mas quase que no mesmo instante ela constatou. com as mãos na cintura. — Vá logo dormir — ele explodiu. conferindo-lhe um tom prateado. e daí? — Ela se empertigou. Will fora dormir no chão. Poucos minutos se haviam passado.. E perdera de fato. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. Esqueça! — Não. algo naquele homem me pareceu familiar. Será que faria o mesmo. — Bem. saindo da cama em direção ao banheiro. — Como assim? — Não sei. porém. ele fitava a noite em completo silêncio. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes. nada. E que Will estava presente.— O que achei? — Ela o fitou.. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante. Na noite anterior.. — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. Engraçado. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will. na Anscott — ele se explicou.

— Ora. tudo bem. ora! — disse Kelly. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.. sem se voltar. vingança? — Kelly perguntou.tons. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito.. Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. não me venha com essa. Se quer saber. Por fim. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo. — O que está tentando provar. ouvir os sons da noite. num tom suave. — Coisas como. após um longo e angustiante silêncio. orgulhosa. Na melhor das hipóteses. a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora. — Eu estou fugindo da polícia. está morrendo de medo de falhar. A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly.. — A lua — ele respondeu. — Não entendi — ela resistiu. — Will. grata pela escuridão quase total do quarto.. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo. sem obter resposta. que não ganhe uma dúzia de prêmios. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada. Will voltou a cabeça para fitá-la.. Will não o demonstrou. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu. Se a pergunta o pegou de surpresa. seus olhares se encontraram. moça. — Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela. por aqui. À luz difusa do luar. tocar a escuridão. Pode partir quando quiser. evasivo. mas havia mais que isso naquela cena. em meio à solidão da noite. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. era disso que eu mais sentia falta. Havia algo de intangível.. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora. — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe.. mas não conseguiu. na prisão. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa. Ver a lua e as estrelas. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo.. . calada. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera.. sim? — ele pediu.. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo.

Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém. — Kelly balançou a cabeça. Nem todas vão embora — disse Will. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente.. Talvez. — Eu não tenho medo. vamos. — Pode ser. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. — Oh. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. então — ele insistiu. E no entanto lá estava ele.A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly. meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. — Ora. — Escute aqui. claro. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. Minha mãe morreu. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. — Não sabe nada a meu respeito. que precisasse de outra pessoa em sua vida.. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou. que quisesse.. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa. Stone? Vamos conversar a seu respeito. quando diz isso? — É. Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si. com um sorriso triste nos lábios. cínico. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos. também! — Não há nada para falar a meu respeito. Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher... Nada! — Então me conte. Fale-me de você. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável. — E quanto a você. antes. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. — Ela deu de ombros e suspirou. — E ele tem razão. Como em outras ocasiões. Ela se calou de repente e baixou a cabeça. — Will mal podia crer no que estava fazendo. — Não seja ridículo — Kelly respondeu.. Precisava se proteger.. está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. agora. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. apenas talvez. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras.. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . — Todo mundo.. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar.. já disse. Will estava sendo ainda pior. — Faça de conta que acredito. embora estranhamente acreditasse nele.

pensou que seu coração fosse parar de vez. os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura.. — Com o devido respeito à opinião de seu pai. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. — Não se pode falar do que não existe. Mais que tudo. Macios. porém. você parece bem real. Sabia que ela o estava provocando. lembra? Will engoliu em seco. — Não. — Volte para a cama — disse ele. Tomou a olhar pela janela imaginando que. — Por quê? — Kelly perguntou. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que . e que desejava beijar de novo. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto.tom ríspido e cansado. — Você não existe.. Diante daquela confissão. A partir desse instante. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. Como um vampiro. Lábios que ele beijara uma vez. Os cabelos cor de fogo. não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou. porém. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. — Isso é impossível — ela murmurou. ainda fitando a lua. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também. vou acabar beijando você. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. não dissera nada quanto a chamar atenção. — Volte a dormir — ele resmungou.dos outros através da perfeição. como eu já lhe disse. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou. que também não deixava de ser um desafio. num... ousada. sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade. carnudos e tão tentadores. para mim. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar.. mas através de seus defeitos. caso aquilo fosse um espelho. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha. Foi você quem começou com isto! — Olhe. a voz mais rouca que nunca. E quando a viu tão próxima. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. a pele branca banhada pelo luar. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will. deixando-a tontas enfraquecida.. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações.

pela manhã. Com um murmúrio abafado. Dominado pela paixão. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora. ou estou vendo filmes demais na . molhados e vermelhos. Lábios que se abriam devagar sob os seus. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. — Vá dormir! — Will ordenou. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. Mitch e Kelly. de fato. — Ande. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa. — Sim. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento. esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte. rumo à fronteira com o México. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse.os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. teve toda a madrugada para pensar se teria.. Seus lábios. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono. ofegante. Tinha. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. num doce convite. vá dormir! E vá logo. enquanto tomavam o desjejum. ou então para o norte. abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos.permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. Kelly voltou para a cama. tentando levantar um assunto mais leve —. Will. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. — Isso é bom — Kelly comentou. como você — Kelly perguntou. que Will Stone existia. evitava olhar na direção dela. se arrependido se houvessem feito amor. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. O consenso geral é que você está fugindo para o sul. em direção ao Canadá. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. contudo. da maneira mais eloqüente. Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. Deitada sozinha. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. em toda a sua vida. mas não conseguiu dormir. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia. No momento em que o vira. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura.. Ele a queria. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. entregaram o filme no laboratório fotográfico. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado.

Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho. Não agora. a voz de repente tornada mais rouca. — Raios! — Will praguejou. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. Seus olhares se encontraram e então. ao ver a foto seguinte. iria mesmo responder. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte.. é o furgão. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. as quatro fotos da festa. Quinze minutos depois.. aliás. — É. — Um curto silêncio se seguiu. — Tudo bem — ele murmurou. Ansiosos. — A culpa foi minha. ao ver cenas de uma festa. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou.. — Não. — Ótimo — Mitch exclamou. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro. porém. mas. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo. eu costumava trabalhar com esse policial. mas não contra as condições precárias em que fotografara. Cinco delas. e sim contra a própria incompetência. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior. não está nada bem! — ela discordou. E quando Kelly já pensava que não. Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta. Mais tarde.. — Kelly colocou para trás. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. — Parceiros? — Kelly o fitou. quem sabe. — Nesta aqui há. num gesto terno e reconfortante. — Calma. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. ansioso. aqui está. como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. Will e Kelly compreenderam a deixa. Sem palavras. — Eu devia ter feito melhor.. Kelly resmungou uma imprecação. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly. intrigado. mas não respondeu de imediato. cabelos negros e um enorme bigode.. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. — Eu e ele éramos parceiros. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos . — Ontem à noite. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não. Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos. intrigada. eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. — O que é isso? — Mitch perguntou. estava escuro como o diabo! — disse Will. começou a olhar as fotos. Kelly abriu o envelope e. no final do monte. No caminho de volta para o hotel.. — Ah.. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível.televisão? Mitch a fitou. também. mas não há como ler o número da placa — Will observou. como na sexta-feira.. — Não foi culpa de ninguém. Assim que chegaram ao carro. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. voltou-se para fitá-lo.. — Nada. E havia mesmo.

. — Santico? — Kelly repetiu.. com um ar misterioso. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato. — E quem é — perguntou Will. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim. — ele comentou. — Não me pareceu. as peças começavam a se encaixar. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé. se aprende logo a confiar no instinto. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim. eu acho que não. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar.. — A Santico. Quando dei o número da placa.. — Ela balançou a cabeça. Onde? Não fazia idéia. — Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. apanhou as quatro que colocara para o final. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. — Ah. — Saúde — Mitch sussurrou. de modo que as deixou de lado. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número. — Engraçado. — Deixe-me ver — pediu Mitch.escuros que chegara na limusine. Nesse instante Mitch. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly. porém. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone... — Não. E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. — Mitch sorriu.. Deixando de lado essa foto em especial. E quando se é um policial. — Sinto muito. também. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista.

E por falar em gelo. — Menos dois na sua lista. rapazes. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. — Só esperando para ver — disse Mitch. — Na verdade. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson. ela prosseguiu. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. você e Mitch! Will a fitou.. Nem todas vão embora. sorrindo. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. A noite anterior não fora das melhores. Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e. No mesmo instante. vários punhados de carne moída. inquieto. a língua tocando e acariciando a sua. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. ao lembrar daquele beijo. sentir os lábios dela.— É. Kelly percebeu Will se remexer. — Outro disfarce. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados.. As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. Dentro havia um aspirador de pó. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch. dentro de uma caixa de isopor com gelo. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos. ou melhor. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano. Também no furgão. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott. depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado.. fora terrível e demorara uma eternidade para passar. você pode eliminar mais três — Kelly observou. nenhum dos dois .. Mesmo na escuridão quase total podia ver. — Kelly sorriu. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa. — E então? — Will perguntou... — Will resmungou. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. — Eu. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei. a boca tão úmida e macia. assim que a pousou de volta no chão. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. como o da floricultura? — Will arriscou. Muito mais. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. — Aí é que você se engana. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor. — Bem. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. sério. deixando claro que desejava mais dele. Na verdade. — São dois homens uniformizados.

como que vindo do nada. não é? — ele pousou as mãos na cintura. Will já desceu do carro resmungando. por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele.. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch. mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto. com os olhos verdes a faiscar de ódio. Ela se voltou. — Não se preocupe.. dois ânimos exaltados. moça! — Will gritara. — Avise-os. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. Eu ainda não sei como. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. Sim. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando. mas manterei contato. assustada. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. Surpreso. — Estou aqui com ele. Will não lhe contou? — dissera.. tão clara como se Will a tivesse gritado. Kelly na cama e Will no chão. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. — Já cansei de ouvi-la falar em processo. — Seja original — ele continuara provocando. Ele nada disse. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens. Stone. moça. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. . um detalhe que não havia notado antes. moça. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante. no estacionamento do hotel. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. — Ah. furioso. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will. — Esqueça. O resultado não poderia ser 0utro . Rachel.. estava de costas para a porta e falando ao telefone.conseguira descansar. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. que havia chegado ali uns dez minutos antes. Incapazes de conciliar o sono. Com tantas mulheres bonita no mundo. — Oh. ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. mas a acusação estava ali. — Não se esqueça. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não. em seus olhos.. por favor — disse ela. obrigada. até o dia amanhecer. depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. Chamava-se traição. Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia. Kelly..

. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. desde hoje de manhã. Will pareceu surpreso. aí está. mas não se deixou intimidar. Podia notar. — Foi essa a minha grande traição. como se não tivesse percebido que a estava segurando.— Não — Kelly insistiu.. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer. num movimento rápido. o que eu acho que já estava um pouco. num gesto dramático. — Se quer saber. Com toda a força. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela. você está me machucando. Ela ficou em silêncio. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias.. eu não estivesse lá para atender.. mas a dor não cessou. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso. apesar de doente. porém ainda me recuperando. — Então por que não me conta o que é. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar. — a lembrança daquele beijo passou por sua mente. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado. e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! ... — Como pôde acreditar que eu faria isso com você. porém. mais calma. talvez devesse ter acontecido. mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se.. — Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. — Está bem. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável. No mesmo instante e sem a menor timidez. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. .. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. — Seu idiota! — ela gritou. inesperado.. aqui em Seattle. que ele também estava sofrendo. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir.— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo.. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. — O que você esperava que eu fizesse... Soltou-a no mesmo instante. Bem. Will Stone! Ele permaneceu calado. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. ao menos no coração de Kelly. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. — Ela abriu os braços. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo. — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação. — Amigos — ela repetiu. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. na Europa. fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. Só o que tem feito é gritar. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. melhor.

se contraíam a seu toque. passando a lhe abrir bem devagar a camisa. porém ele a impediu... — Eu te quero — ele confessou. Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza. Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. quente.. neste instante! — Will sussurrou. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly. já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. E quando voltaram a se abraçar. Tomando-lhe o rosto entre . agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. Respirando fundo. Will. Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão. Ela estremeceu e suspirou.. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas. Will permanecia calado. deliciada.. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. o seu jeito. Will não tentava esconder a própria excitação. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. Assim encorajado. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. os pêlos encaracolados que o recobriam. Que ironia. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. — Promete? — ela o provocou. só um pouco mais para cima. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela.Will mal podia crer que a tinha nos braços. sabia? — Fala sério? — Sim. Quando chegou ao último botão. sensuais. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez. como se hesitassem em subir um pouco mais. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo.. e no entanto o silêncio pouco importava. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior. E também os seus cabelos. buscando mais uma vez os lábios de Will.. pele contra pele. num murmúrio rouco. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. deliciando-se com o atrito. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. — Eu te quero! — ele repetiu. Naquele momento. com os olhos ainda fixos nos dele.. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole. tudo em você me deixa louco.. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo. Disso não lhe restava dúvida.. ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço. sensíveis. por exemplo. — Seus lábios me deixam louco. separados apenas pela barreira das roupas. descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou. sobre os mamilos que. moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans. — Também te quero. Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas. macia e sensível.

nos seios. — ela murmurou. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo. ardente. mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris. — Nunca mais diga isso. num fio de voz. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. — Como eu poderia me arrepender por. de tornar culpados mesmo os mais inocentes. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento. longo. um. Uma onda de excitação se irradiou. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali. muito devagar. olhou-a nos olhos. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor. pelo corpo de Kelly.. eu. — Will. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir.. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas.... Um fugitivo e uma refém. Sem poder esperar mais um minuto. Você não é um perdedor.. os ombros largos. à exceção da calcinha. — Não vou me arrepender nunca. em investidas cada vez mais poderosas e rápidas. Mais . no ventre. por favor! — Sim. enquanto ela fazia o mesmo com as dele.. — Eu sei. E mesmo que não tivesse estado preso. das curvas sedutoras de seus seios e ancas. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu. Por um instante ficaram ali parados.. suas coxas e abaixo. quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la... pensou Kelly.. Céus. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado.as mãos.. musculosos.. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas. Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então. prometo. O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos. apenas a se fitar. seus corpos a ondular num ritmo crescente. Kelly sentia-se queimar em desejo. — Um ano é tempo demais — ele repetiu. eu não tenho o direito — ele murmurou.Não. induzida apenas pelo modo como Will a fitou. Will chegara aos limites de seu autocontrole. eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também. ele não pode conter um murmúrio de encantamento. enquanto ele a beijava na boca. sequer. — Não.De fato faziam uma dupla bem estranha. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza. lento e profundo que a fez gemer de prazer.. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer. Will abriu o zíper das calças de Kelly. — Eu.. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável..

corpos . Tem senso de humor. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim.. E à mesma pessoa.ainda banhados em suor. veio num tom sem expressão. — Acho que fui rápido demais.. também? — Não. mas a verdade era que estava curioso. Ambos sabiam que algo incomum se passara. e ainda assim impossíveis de se refrear. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido. que pedia desculpas por algo.. mais rápidas do que quisera. apenas trocando um pensamento perturbador por outro. . mas.. — Nunca mais estive com um homem. também — ela confessou.. mas nem por isso menos perigosa. — ela admitiu. depois de me divorciar. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta.. — É.. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis.. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. talvez. como você disse. Estavam ambos perdidos. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça. — Não odeia crianças nem chuta cachorros.. A resposta. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou.rápidas do que Will pretendera. sentindo-se mais uma vez inferiorizado. pensou Will. — O que ele faz para viver? É fotógrafo. — Humm. tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes. no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador.. de maneira irreversível. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão. um ano é tempo demais.. sem abrir os olhos. O clímax não demorou a chegar para ambos e. — Me desculpe — disse Will. Algo que mudaria suas vidas para sempre. É doutor em Física e leciona em Berkeley... Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. no mínimo lacônica. — Ele é um bom homem. Em outras palavras um homem muito bem sucedido. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer. Afinal já era a segunda vez. Uma doce terna ameaça. se entende o que quero dizer. no aconchego dos braços um do outro. — Kelly sorriu. — Fazia muito tempo para mim. em uma semana. — Desculpe a pergunta. — Não. Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento.

— disse Kelly. — O que foi? Não é bom? — É. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. Mas não. sim. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. — É. agora. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela.. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras. E no entanto. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. apesar do que haviam acabado de compartilhar..— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo.. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. — Ora. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava.. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. não queria pensar nisso. O estranho era que. — Por que diz isso? — ele perguntou.. De algum modo. serviam apenas para confirmar as . O sorriso se fora de seu rosto. Stone. Algo especial. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. talvez você tenha razão — ela concordou. fazendo de conta que era feliz. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. depois de uma breve carícia. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa. embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. só que em excesso! — Ele murmurou. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava.. como se tivesse lido os seus pensamentos. algo diferente acontecera. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre.. por mais que tentassem evitar. O que sabia sobre o assunto. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly. na tarde seguinte.. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro.. de modo tão súbito quanto aparecera. Ironicamente. Sentimentos.. não existe algo bom em excesso. Assim que entrou naquele quarto. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. com Will. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. — Sei que você vai achar absurdo. num tom preguiçoso. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora. E isso porque. Com a respiração entrecortada. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo. Mas isso também não adiantou.

Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se . procurar as drogas.suspeitas do detetive. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. mas eu seria capaz de apostar que não. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto. — Não. Por isso. E por falar nisso. — Kelly sorriu. arrebentar aquela parede. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança. — Vejam — Ele apontou. pós. — Podemos entrar por um deles. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. e rezar para que dê tudo certo. — Olhem. Claro... ervas. — Acho que nesse caso teremos que arriscar. sem atrapalhar ninguém.. — São comprimidos. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. Tudo parecia estar caminhando bem. hoje à noite? — Kelly perguntou. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia. — Ora. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. — Deixe-me ver se entendi — disse ela. certo? Na verdade. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. — E que aparência tem o que vamos procurar. E não é necessário. A garota. Mitch conteve a vontade de rir. coletar amostrar e então sair do prédio. A partir daí. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso.. inconformado. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu. os planos para aquela noite. de fato. — Eu disse que tinha conexões úteis. muito gentil aliás. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. Na minha opinião. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. — É uma porta de segurança. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. mas isso é ótimo! — Will elogiou. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga.

procurando detalhes que tivessem sido esquecidos. — Mitch insistiu. visivelmente tenso. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita. nervosa. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante. e nada garante que nos saiamos bem. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou.. de seu posto na parte de trás do furgão. — Nós devemos estar entrando às oito. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar. desde que haviam feito amor.contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta.. — E quanto ao cão.. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. Kelly espirrou. por exemplo. — Eu também — disse Mitch. Sabiam agora que teriam de se apressar. porém. — Kelly informou. ao chegar. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior. Stone. Do assento ao lado. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. O homem .. o que nos dá uma hora para a operação toda. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. Kelly o fitou. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. — Céus. Não podia condená-lo. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros. ainda é tempo — disse Will. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora. — Se algum de vocês quiser desistir. Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza. Ele a vinha afastando de si. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. quando este saiu de seu cubículo. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda. — Não se preocupe com as chaves. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou.. mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura.. — Isso! — Kelly apoiou. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista. — Eu continuo — ela respondeu. Kelly e Will se entreolharam. — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores.. Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch. — E para entrarmos no prédio.. tanto física como emocionalmente. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado.

— Duvido que consiga esquecer. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. — Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita. antes que Will pudesse dizer algo.. o cão latiu algumas vezes. — Kelly interveio. não sabia se teria voz para tanto. ainda assim. Segurando apertado a chave em sua mão. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade. como que para confirmar. Ele não disse nada. cara.. — É. O tempo está passando! . permanecia indeciso. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório. — Mas ligue logo. não funcionou? — ela se defendeu.. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la. com o coração batendo tão rápido. meu caro — Will resmungou. — Está bem. parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. — É novo na frota. Quanto a Mitch. — Ficaram doentes e estão de licença. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas. no entanto. O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado.. voltou-se para Kelly. e agora sobrou para nós. — Somos a turma da limpeza. cético.. Assim que estacionou. cara. que o enfrentou com um olhar. ainda esta noite. cara. Em vez disso.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura. — Só uma coisa — Mitch perguntou. podem ir — o vigia ordenou. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. Além disso temos dois outros escritórios para limpar. Aliás. certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que. — Ah. Olhe. com uma risada tensa. — Agora vamos com isso. vamos.. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio. — Funcionou.. cara. porém. — Os dois de uma vez? — É. assim que começaram a descarregar o equipamento —. incapaz de continuar calada. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa. — Seu furgão não tem o logotipo.. Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido. — Olhe. — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho.

— Céus. — Como podem ver. estas duas paredes levam a salas. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. além daquela por onde tinham entrado. — Já são oito e quinze. . que por sinal estava destrancada. — Se não alteraram o projeto original. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. — Certo — Will respondeu. Conforme o esperado. A primeira vista. em posição oposta à da recepção. Mitch veio por último. assim que entraram no prédio. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. — Sai de baixo! — ela brincou. Eram. fotografando o corredor e o início da perfuração da parede. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. assim que acendeu as luzes. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. passando a serra elétrica a Will.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. aqui — disse Will. de fato. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. — Ora. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo. ainda que remotamente. Will foi o primeiro a entrar. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. — Vamos. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. — Parte do plano vai ser alterada. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. como o tempo passa depressa. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. Por algum motivo. Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. — Pela planta. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. Uma rápida inspeção revelou que. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. o fabrico de alguma droga ilegal. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. Estavam no corredor. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. no entanto. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. com uma lanterna em cada mão. ela não se convenceu. seis salas no total.

Eu. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança. mas. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado.. — Interessante. cuspindo em seguida. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu. totalmente diversa das outras cinco. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will. ei. admirado. Segundo. então deve haver algum motivo. embora também não estivesse vendo nada suspeito. destinado à fabricação de drogas proibidas. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua. já com o canivete nas mãos. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles. Mitch iluminou a sala.. desapontado. por aqui — Will resmungou.. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. — Bem. este cheio de um líquido verde escuro. — Pode apostar que sim. não? — Mitch observou. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio. Primeiro. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo. — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada.. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos. — Não vai me dizer que arromba portas. — ela os chamou. em vez das máquinas vistas nas demais salas.. — Ora. mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. acho que não estou vendo droga alguma. — Will tentou abrir a porta outra vez.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada. — Argh! Não sei. Apanhou um béquer. Parte deles continha um líquido vermelho. sim? — Kelly pediu. — Will a fitou. e cheirou seu conteúdo. — Aposto como não é açúcar. Mitch. — Ei Will. curioso.. — Mitch consultou o relógio de pulso. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos. sob um prosaico quadro negro. — Kelly murmurou. — O que é isso? — Will perguntou. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. Kelly fez algumas fotos.. incrédulo.. mas estava de fato trancada. me dê o canivete. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro. — Não desanime! — O detetive o encorajou. Sou esperta demais para que me peguem. A um canto. por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. — É bom irmos mais rápido. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos... . transparente. notando uma placa pregada à altura dos olhos.. Vamos. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. com uma careta de desagrado. — Temos menos de meia hora.. — Absoluta. Stone.

Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida. há cerca de um ano ou um ano e meio. trancar a porta e embarcar no furgão. que tratou de apagar as luzes do saguão.. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. se não quisermos nos meter numa bela enrascada. quando Will já estava dando a partida no motor. — Chave? — Will revirou os bolsos e. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas. chamando a atenção do guarda com um toque curto . E não estou gostando nada do que temos aqui. corria um boato sobre uma nova droga. — O líquido verde. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. o que acaba fazendo a droga custar muito. Engano seu. — Que horas são. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais. — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito. provavelmente com sucesso. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. Não cheguei a saber muito a respeito. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo. mas tome cuidado. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. — Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch. doía fundo em seu peito. — Vamos. após um instante de confusão encontrou o que procurava.. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. O guarda estava de costas para eles. — Não é açúcar mesmo.— Não. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. Will praguejou. — E então. Ainda dirigindo devagar. — Mitch tornou a consultar o relógio. que é colocado em cápsulas. apesar de ela saber que seria melhor assim. Uma droga de produção complicada. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado. — o ex-policial balançou a cabeça. alarmado. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos.. mas que promete lucros enormes para os traficantes. falando ao telefone. — É bem provável. em voz baixa... hoje. Mitch? — Acho melhor nem dizer. — Não entrem em pânico — disse Will. — E acho bom andarmos rápido. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. — Está bem. pois não estou vendo o produto final por aqui. — Quando eu ainda estava na polícia. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. Com cuidado para não demonstrar pressa. garota.. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. um par de faróis se tornou visível na distância. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive. Jogou a chave para Mitch. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente. muito dinheiro. enquanto Kelly fazia as últimas fotos.

mas fitando o véu da chuva fina que caía. apenas tocou o furgão adiante. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente. Um sorriso sempre tão raro e . ouvira-o se mexer.. Segundos depois.. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos. — Mitch riu baixinho. por que a estava forçando a se afastar. meu velho. E agora Will.. dois. sarcástico.. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly. A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. Will sorriu. aliviado. Como se o tempo tivesse andado para trás. não para olhar a lua.ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida. profundo... Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela. vamos lá. — Will. — Vamos lá. Ela falhara para com Will. três vezes em seguida e. mas pelo visto descobriremos isso logo. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir. você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme. Foi então que ela espirrou duas. como que num pesadelo. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. Com frieza inacreditável.na buzina. — Servicinho rápido. terrível e sufocante. cruzavam com o furgão da MacMathson. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave. três... deixando para trás uma criança que. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. Sabia que Will estava acordado. O idiota tem cinco segundos para abrir isso. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele.. já na estrada... quase trinta anos depois. — Eu sinto muito — murmurou. O medo. o que era pior. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott. senão eu avanço! Quatro. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos.. — Mitch murmurou. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema. não? — O guarda observou. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel. Fora sem se despedir. Mitch riu alto. — Idiota! — Kelly resmungou baixinho. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. Pela segunda vez. a deixou paralisada.

áspero. naquela noite. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. moça. mas acho melhor acreditarmos no melhor.. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. — Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. Kelly se estendeu na cama mas. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir.. o que não é pouco. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela. porém. de repente. esteja à vontade. Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. Na noite lá fora. esperando. Ah. ao entrar. até a volta! — Até a volta. — Que horas são? — Três da madrugada. está bem? — Claro. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. — É. melhor. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou. Bem — o detetive deu de ombros. — Para falar a verdade não sei. — Eu já vou.. — Não tem problema.. Mas faça o favor de ficar quieta.. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. Se pedir perdão resolvesse. sem jeito —. agora mais fortes. para não ter que se decepcionar depois.maravilhoso. — Mitch se remexeu. magoada. para que eu possa reembolsá-lo depois. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. queria que a beijasse. ansioso. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. preocupado. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. — Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. até que se tenha prova em contrário. — Ligo assim que tiver notícias.. — Mitch despediu-se com um aperto de mão. sem sono. sim? — ele a repreendeu. que fizesse amor com ela. ficaremos aqui. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens. de verdade — ela repetiu. tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim. sem realmente concordar. Kelly se calou. Não costumava apostar no melhor. — Fique tranqüilo. Queria tê-lo perto de si. Mitch. — Will disse. quando as ouviu outra vez. E muito obrigado por tudo! . — Infelizmente a vida não funciona assim. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório. a fitá-la sem trégua para então. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido. eu estava acordado. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. Já se levantava para verificar.

perdido. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim.. disse a si mesmo. E mesmo enquanto partia. Afinal.. Sim. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. Hesitou ainda por um segundo. ao longo da noite. então por que estava andando em direção a ela.. Estava maravilhado. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. mas disse a si mesmo que não o fizesse. agora mais do que nunca. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will. Sabia que estava sozinha. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. Mesmo que fosse apenas em pensamento. chamou sua atenção. em especial.. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido.. antes de se levantar dali. Como tantas outras vezes. sem um bilhete ao menos. desejou afastar aquele cacho. Capítulo XIV . Estivera sozinha então. Não podia acordar aquela mulher. já estivera atrás das grades antes. recusava-se a chamá-la pelo nome. embora odiasse tal dependência econômica. Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias.. decidiu que isso não tinha a menor importância. nem mesmo tentou chamá-lo. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato. Um deles. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles. na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. Estava sozinha agora. Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. Eram sedosos e macios.. O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso. e por assassinato. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro. tocou de leve os caracóis cor de fogo. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos. Vestiu-se em silêncio. Estendendo um único dedo. Afinal. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes. Mais longo que os outros.Os dois homens se olharam nos olhos. Poucos minutos antes das oito horas da manhã. Ele parou e se voltou para fitá-la. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. Fazia muito tempo. ou melhor. sair daquele quarto. se afastar dela. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave. Kelly acordou assustada.. Sem despedida. Mesmo agora. ali. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez.

Que foi o que acabou acontecendo. — Podia ter me acordado! — Ora. pensou. afinal não perderia aquelas informações por nada. A não ser que. Kelly ordenou a si mesma. E se não gostou. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques.. pouco antes de sair. — Fora — ele respondeu. — Não se preocupe. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer. você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã. aquilo não fazia sentido.Cerca de uma hora mais tarde. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. mas não saberia dizer por quê. com as duas mãos na cintura. — Apanhei alguns cheques. E embora o seu tom de voz parecesse normal. — Ah.. Ele havia saído com o furgão e apanhara. Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. quanta consideração. O que significava que Will voltaria. aí está o troco. porém o carro do detetive também não estava ali. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. . o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. — Ah. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. — Oh. Will Stone que fosse para o diabo. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. Pare com isso. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar. fora? — Kelly repetiu. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento.. ou melhor. mas sim com sua partida inesperada. pois iriam em dois carros e voltariam num só. Mas se fosse só isso já teriam retornado. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. Raios. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. indignada. lacônico.. moça. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. Kelly se ergueu da poltrona. eu pagarei cada centavo.

— Will respondeu.. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. sua reportagem premiada. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda. agarrou-lhe um braço e apertou com força. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e. para ambos.. — Escute. . porém isso logo se transformou em raiva. Céus. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido. indiferente. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo.. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora. se pensa que permiti que me seqüestrasse. que por algum tempo estivera entalhando. moça. ansiosa. E então o telefone tocou. A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo. Os dois correram para atender. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. pior que qualquer tortura. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados. sarcástico. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. estavam a ponto de gritar. — Eu vou ficar! — À vontade. certo. e não o contrário! — Está maluco. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou.. Estão mesmo produzindo drogas. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. Will. mais uma vez medindo forças. — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. lhe fez sinal de que estava tudo certo. Aquele momento foi. — Grande! — Kelly exultou. está bem? — Eu não vou embora. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. se esforçando por manter a dignidade. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou. e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos. — Não quer perder sua história.. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. Raios. então é isso — Will murmurou. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. — Kelly deixou claro. A princípio ficou magoada.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. no final da tarde.. — Sim. que estivera andando de um lado para outro. A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que. você é livre para ir embora. Kelly.

sim.. para encurtar a história eu descobri... — O que ele disse? — Kelly perguntou. um importante político mexicano. — Oh... — Edward Andriotti. pois não significava nada para ele.. — Escute bem esta. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia. ansiosa. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly. — Mais sério que nunca. diante de um espantado Will Stone. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais. através da secretária de uma seguradora.. O filho dele. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas.. hoje cedo? — Fale de uma vez. mas não recebeu resposta. Mostrou-lhe então o homem na limusine. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. — Will sentia o coração bater mais rápido. Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou.. mas muito dinheiro. Kelly se deu conta disso uma hora depois. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender. — Eu sei quem é esse homem. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. Ele também havia mentido para Mitch.. esqueci que você não é de San Francisco. Oh. chocada. a filha de Andriotti.. Will havia mentido para ela.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu. Eram um só. — Faz sentido. homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. — Mitch fez suspense.. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott. Mitch? — disse Will. aflita. impaciente. Emmanuel. mesmo! Gente respeitada. — Calma.. — Desculpe. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. todos. — Espere um minuto. vigias. Estamos falando em muito. para então dar atenção a Kelly. porque você não vai acreditar. não restava a menor dúvida. — E Rodrigo Echeverria. Will.. — O que ele disse? — Kelly perguntou. casou-se recentemente com Suzanne. motoristas. Mitch — Will voltou a falar ao telefone. — Você não vai acreditar. E aposto como não passam. — Sabe para onde viajou Andriotti. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei. — O quê? — Kelly insistiu. você ainda não ouviu o melhor de tudo. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. que a Santico. mas . — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. — Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou.

Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto. Algo que custara cerca de duzentos dólares. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott... Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. aliás. com forte sotaque mexicano. Pouco adiante estava o furgão. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo. exatamente. Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. ou quando as pessoas não .. naquela manhã. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê. Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele. — Si. Como pudera ser tão idiota.. Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. Will corria para saltar o segundo muro. Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação. Escondido em meio às sombras. Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. fazendo gelar o sangue em suas veias. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou. pois não haviam sequer almoçado. mais baixo. a refeição não fora mais que um pretexto. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura. hombre. Chegara a hora do ajuste de contas. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. estacionado mais adiante. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. Raios. — O chefe está pior que uma cascavel. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. a essas horas já teria virado comida de cachorro.. Apressada.. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida. Pronto.. Aproveitando o momento.. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly.isso não amenizava a dor daquela traição. depois. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez. si. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle. que sumira com o furgão. o momento de derramar sangue em troca de sangue. Isto se saísse inteiro dali. Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. garoto — ele murmurou para o dobermann. — disse um deles. Mas Will mentira. Talvez ele tivesse uma arma. O prédio todo. — Vamos cair fora logo. parecia estar aceso. era o que perguntava a si mesma. Afinal de contas ele comprara algo. Iria vingar a morte de Stephen. Precisava lembrar de agradecê-la. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão. Céus. claro. ela cortava caminho por entre as árvores. Vazio. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. A tentação venceu e. Não fosse pelo que aprendera com Kelly.

acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. — O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós.. hombre. Bem. estavam falando dele. não? —É verdade. americanos. Mitch e Kelly haviam pego as amostras. — Se quer saber o que está me preocupando. pior para ele. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois. claro. pensou Will. o que significava visitas importantes. podemos? Silencioso como um gato. Se o chefe estava de mau humor. Mas não... — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto. Uma delas se erguia.. já lhe disse! — gritou a voz irada. Edward. a julgar pelo silêncio que o cercou. portas abertas. Will Stone sentiu o estômago se apertar..fazem o que ele quer. Will se aproximava aos poucos das vozes. Sim. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. ele ouviu outras vozes. enquanto outra argumentava. com toda essa arrogância. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta... Não foi? — Pode ser. acalorada. rindo. o guarda disse que eram três pessoas. do lado de fora. você venceu esta. — Pode ser mas você. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. — Saber eu não sei. Rodrigo. Não. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. Mais uma vez. também. Will estava sozinho por ali.. e pelo rumo da conversa daqueles dois.... — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro. lá vem você com suas tragédias outra vez. enquanto durou. esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar. Tem um grande dom para fazer dramas. por exemplo. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos. Edward — disse o mexicano. Nada me tira da cabeça que foi ele. Echeverria prosseguiu. Edward.. Sabe como é. — Vamos. — Ora. relaxe. inclusive uma mulher. — Ah. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora. a inocência de Duggan nos foi muito útil. que pareciam vir da sala de onde ele. — Vocês. Como não ser apanhado pela polícia. Rodrigo.. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e.. afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio.. mais calma e com um carregado sotaque mexicano.. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia. encolerizada. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan. é esse maldito arrombamento. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais. Por incrível que pudesse parecer. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! . não sozinho de todo. eles eram educados demais para isso! — Está bem. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator.

não foi? Mas admito que admirei seu silêncio. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. dente por dente. Andriotti empalideceu. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou.. — Rodrigo. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização. então já sabe de tudo! — Sim. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras.. fui eu o responsável. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch.. Stephen deixou você na pior. Não é como o irmão. hombre. passando um lenço pela testa suada. mas se não é o Homem de Pedra. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. rolando um charuto entre dois dedos. não me diga! — Will fingiu espanto. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . com boas porcentagens do lucro. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica. não? — Will se dirigia ao mexicano. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho. é claro. — Deve ter gostado de assistir a meu julgamento. — disse Echeverria. e por que não? — Echeverria sorriu. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa. — Não seja tolo. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu. — Will abriu um sorriso frio. o quadro negro. — Pois você está muito enganado. meu caro. O mexicano era um páreo duro. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente. que sabe negociar. — Quer se acalmar.. — Cale essa boca. os tubos de ensaio e demais vidrarias. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora.. — Echeverria sorriu... isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. E vai pagar caro por isso! — Ora. — Sim. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave. Pode apostar que sim.. não acha? Aliás. Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. Mesmo naquele momento. — Como em olho por olho. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. Rodrigo! — Andriotti sussurrou. — Pode apostar que sim. em tão pouco tempo.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano. sua lealdade. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior. não se deixaria derrubar sem luta. determinado. ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida.. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma. substituído por um olhar cruel. o julgamento teve suas graças.. Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor. Se o Homem de Pedra chegou até aqui... — Parece que lhe devo desculpas. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann. aquele covarde.

— Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. que já passara do medo ao puro pavor. mas Stephen era ganancioso demais. — Não. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo. Stone. quando se deu conta. também! Tem nojo de vender drogas.. isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando. e não era pouco. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções.... E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição. Edward. para prender a ele e não a nós... — Rodrigo. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir. Sabe como é. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. Se fosse assim. você é um perdedor. meu caro. Você não é capaz. — Então. — Seu irmão era burro demais.enxugar a testa. nesta vida! — O dedo de . E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. se resolver ficar do nosso lado.. profunda. já estava enterrado na coisa até as orelhas. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou. das dificuldades. Stone. Segurou com mais força o revólver.. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. Tão falante e seguro. — E é seletivo. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. isto aqui já estaria fervilhando de policiais. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo. Lembranças de seu pai.. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou. Depois. Stone. você é um perdedor. — Talvez não seja mesmo. Echeverria.. tão presunçoso. sempre bêbado.. — Não seja ridículo. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. então começou a desviar mercadoria e a nos roubar. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem. um perdedor nato. Cansei de ser um perdedor.. E isso não podíamos tolerar. Echeverria. um nada. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. a sangue frio! Como vê. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. Lembranças das rejeições e humilhações constantes. você não tem tutano para isso. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano. Para falar a verdade. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. antes de dizer: — Errado. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor. — Vamos. — O mexicano deu de ombros.. no parque. Certo.. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. mas agora tanto faz. você não é melhor que nós. mas não hesita em matar dois homens desarmados. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente. acusando-o de ser um zero.

segurando um lenço encharcado de suor. Devagar. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos. Não podia sentir a chuva fria no rosto. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will.. Devagar. por favor.. — Você é um zero à esquerda. — A voz de Kelly. Um. algemado. não! — Andriotti implorava. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão. Ela havia chegado tarde. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio.. um perdedor. só o fazia por saber que era necessário. Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada. como a criatura atormentada que sempre fora. depois quando assistira a polícia levá-lo embora. . — Não. — Você é um perdedor. Tudo o que podia ver e ouvir. Will.. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara. Tarde demais para tentar evitar o inevitável.. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros. tão. — Não! — Will gritou como um animal ferido.. Kelly.. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome.. porém. a mão pateticamente estendida em sua direção. Pelo amor de Deus. agora. Isso se passara havia três dias. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço.. Ela lhe parecera desnorteada. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Dois. Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele.. Tão desnorteada quanto ele se sentia. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros.. tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. Capítulo XV De seu catre. com as mãos cruzadas sob da cabeça. devagar. Acima de tudo.Will começou a pressionar o gatilho. primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott.. no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado... num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. Devagar. Todos os ressentimentos e angústias. Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado. Tarde demais para salvar Will de si mesmo. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. Por incrível que pudesse parecer.. — Não! — ela sussurrou. Três longos e sofridos dias.. sentimentos de medo e confusão. estava repentinamente inundado de sentimentos. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho. tão suave... Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero. agora. rapaz! — dizia seu pai. um perdedor.

levados pela polícia.. e já passava da hora de parar. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou. sem saber. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. Will não queria que fosse Kelly. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. Igualmente algemados. E para todas elas. Aliás. Gostava daquele guarda em especial. e a mais ninguém. O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. ainda que tímido. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. — Saia daí. na penitenciária de Folsom. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. o mocinho está livre. sorridente. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. depois de olhar em redor pela última vez. estendendo a mão. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. tem alguém esperando por você. pois tratava a todos com a mesma consideração. então. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. como ele. girou-a com uma mesura e abriu a porta. mas por certo não era ela. — Boa sorte. muito obrigado. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. — Ei. Fora um momento ímpar em sua vida. Muito diferentes do guarda Sapo. Stone — disse o guarda. rapaz! Os bandidos foram presos. Logo agora. decidir o que seria feito do resto de sua vida. afinal era um homem condenado por assassinato. Talvez fosse engano. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. Stone. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco. quando se sentia mais cativo que nunca. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia. Um final feliz. — Ah. pronto a tirar-lhes a vida.. não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor. Por que não matara Echeverria e Andriotti. Fora ela quem. você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. Enquanto a liberdade não chegava. saiu de sua cela. um para cada homem. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se. No dia seguinte à prisão. mas ainda assim nada mais que um momento. não como a algum tipo de lixo humano.. que tal? Will se levantou devagar e. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso. talvez o advogado.. Um homem livre. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. porém esperneando e fazendo ameaças. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela.— Ei. . Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda. Mas pensando bem. Muito disso se devia a Kelly. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho.

mas tem um sofá cama razoável na sala. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. pelo qual Will fizera questão de pagar. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. — Obrigado. O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. naquela manhã. aquele já era considerado um caso perdido. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. — ele pigarreou. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. — É seu filho? — Will perguntou.. dentro e fora do país. Will apareceu na sala de espera da prisão.. — Sim. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. ab menos daquela vez. pensou Will. — Bem.. ela não deixou nenhum recado para você. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita. Mitch Brody não mentira. mas não quis magoar Mitch. já que fora ele o principal motivo do . — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. Mitch. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. mas. gostei da cidade. Mitch Brody se pôs em pé e. com um largo sorriso nos lábios.. Além do mais. Seu apartamento. Não havia futuro possível para eles.Em poucos minutos. Mitch Brody levantou um outro assunto. não oferecia qualquer luxo. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu. mas preferia não pensar nisso agora. caminhou em direção a ele. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. Segundo o detetive. É só até eu conseguir me ajeitar. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. Por serem ambos homens públicos. Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel. depois de já ter feito a pergunta. Will. — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente. à sua espera. — Disse que estava a caminho da Europa. desde que eu e ela nos separamos. Stone. claro. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas... de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. não menos delicado: — E então. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. Will pensou em recusar. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. mas era habitável e arejado. E embora estivesse feliz por ver o amigo. — Enquanto não encontra um lugar. Ao final do almoço. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali. a serviço. a cada vez que precisar depor. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. Fora uma tolice. O nome dele é Scott e vive com a mãe. E colocada a questão nesses termos. De qualquer modo.

. dois estampidos secos e sinistros... Estava magoado. antes. que parecia brotar de dentro dela. ele não estava surpreso. para si próprio e para ela. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. do calor do corpo dele junto ao seu. Sim. era como se jamais tivesse estado viva.. tentando fazer-se de indiferente.. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos. Bem. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera. de jeito nenhum. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois.adiamento... mais nada. o calor da bebida serviu para reconfortá-la. e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. desde que ouvira aqueles dois tiros. a estava acompanhando já havia alguns dias. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono. Aquele frio terrível. aliás. diante de situações que não conseguia resolver: fugira. qualquer coisa. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. mesmo! Não que tivesse esse direito. E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca. É bobagem minha — Will deu de ombros. naquele momento. mas apenas para si próprio. caso continuasse perto daquele homem. Na verdade. Quanto a Will. como se fosse um criminoso de alta periculosidade. se bem que pálidos de medo.. um cartão de boa sorte. Ou melhor. Algemado e acorrentado. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. Mesmo agora podia escutá-los. Não. Will Stone era perigoso de fato. Mais breve impossível. agora a fugitiva era ela. pois não havia durado muito mais que algumas horas. Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. Assim.. enfim! — Sinto muito — disse Mitch. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. Aquele frio era resultado do medo. Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório. embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. algo com que ia acabar se acostumando. sem vontade. enquanto via a polícia levar Will embora. acabara por fazer o que sempre fazia. Ainda que momentâneo. Aquela idéia o magoou também. Lembranças dos beijos de Will.. de Will e de si mesma. Kelly Cooper. E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . Medo do que poderia acontecer.. Para ser mais exata. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada... mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. Riu. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. E agora aquele frio em seu corpo. Sim.. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. — Não se preocupe com isso.. sobre o seu. Fugira do país. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott.. uma reportagem digna de premiação.

Uma coisa. Agora. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. porém. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum.enchia de medo. Ela era péssima. por mais simples que fossem. Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido. constantes. a cada vez que as procurava. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. no sentido mais verdadeiro da palavra. contudo. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida. fiéis. da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. De fato. Estavam lá. era sua capacidade de construir-se a si próprio. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. o que ele iria fazer. implorando que alguém os notasse de forma positiva. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly. Onde estaria ela. Em caso positivo. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. quando o assunto era relacionamentos. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will. afinal. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. Além do mais. E era aquele o ponto central de toda a questão. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens. Apesar da convivência. imutáveis.. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. Tudo isso. Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. agora? Será que pensava nele. rebeldes. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava. cada vez mais.. problemáticos. além do seu emprego. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes.. mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. . no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. Duas noites por semana. Emoções. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. imaginou se Will já teria sido libertado. dia após dia. se havia algo de curioso a respeito do futuro. Kelly. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário.. Aconchegando-se melhor sob o cobertor.

olhando pela janela do hotel como costumava fazer. Com um embrulho nas mãos. do trabalho com as crianças carentes. o que tornara mais fácil suportar a solidão. Estava encharcado até os ossos e jamais. que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. Por menos que quisesse admitir. estava amando Will Stone. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. Foi a gota d'água. mas não havia uma só palavra de Will ali. mas de nada adiantou. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. até então. mas que haviam acabado ali. seu corpo. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos. Will Stone tocara muito mais que sua pele. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. Speedy Talbot. desde aquela semana que passara com Will e Kelly. E de uma forma que. tudo muito bem. guardadas no fundo de sua mala. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro. homem algum soubera. Kelly correu os dedos sobre o papel. Na primeira foto Will estava de costas. No último dia de outubro. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. sentiu o coração bater mais forte. Agora estava sozinho de . Aquele estava sendo o pior dia de sua vida. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar.. para piorar tudo. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie. Era demais para qualquer ser humano. quase sempre sem que ele notasse. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. ansiosa por saber notícias de Will.. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço. Em outra.. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela.. ansiara tanto por um grande gole de uísque. e da pior forma possível. para que eles três pudessem se reunir de novo. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. do apartamento onde o amigo estava morando.. numa tarde fria e chuvosa. Não punha uma só gota de álcool na boca. que piorava à medida que avançavam as investigações. em toda a sua vida. Naquela mesma noite. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial. mais uma vez incapaz de dormir. Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti. Por menos que quisesse admitir. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. Tudo ótimo. Imagens roubadas. momentos capturados para sempre em filme e papel..A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. um retrato em close que o apanhara de surpresa. Tocara seu coração. Nem ao menos um recado. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. o maldito carro parava de funcionar. a aspereza da barba de encontro à sua pele. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. O detetive falava ainda do emprego de Will. E agora. em Seattle. Eram de Will. Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário.

mas agora não sentia nenhuma dessas emoções. vinda do corredor do prédio. era diferente. eu. mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas. Não que fosse muito.. Consultou o relógio da parede. um dia. Sim. que marcava quase nove horas da noite. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então. nos últimos tempos. A partir da quarta dose dispensou o copo. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch. Will estranhou. — Olhe. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. portanto era raro que recebesse chamadas. estou aqui. ainda.. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios.. Sentia-se apenas vivo. sensuais. Pode falar. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios... Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou. — Sim. Em questão de minutos restava pouco daquele homem. a qual tratou de entornar num único gole.. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes. Agora.. porém. embora duvidasse que isso pudesse. Conhecia poucas pessoas na cidade. — Ei. Assim. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo. Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino. vir a acontecer.. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela.novo e não via motivos para continuar lutando. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. Nada mais importava. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. de si mesmo? Engraçado.. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. Levaria algum tempo. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. — Pronto. mas acabei de chegar em San Francisco. hoje à tarde. do verdadeiro Mitch Brody. Queria um gole de uísque e o teria. Estava cansado de tudo. — Estou aqui no apartamento de Mitch.. sequer. ele já não distinguia mais nada. Profunda e totalmente vivo. Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade. de modo a ir descontando de sua enorme dívida. Com mãos trêmulas de ansiedade. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo. — ela pigarreou. onde havia um telefone comunitário. . — Will? — ela repetiu. já não pensava. — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. até de viver. e.

vá preparando um café. — Estou a caminho. sou eu! — Ela respirou. mas me faz um favor. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos. ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento. claro. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. a fitá-la. fez uma careta e abriu um olho só.. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool. mais aliviada. ele insistiu. — Quando Kelly não respondeu... a voz pastosa. num gesto que era para ele dolorosamente familiar.. mas por algo mais profundo e impalpável. Mitch. está apagado como uma lâmpada! — Calma.. Parecia emocionalmente exausta. não entre em pânico.. beba isto.. — O que houve? Você parece preocupada. pensou Kelly. Mas você vem. aquilo não soava como surpresa para Will. — Não. — Venha rápido. — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café.. — Tome. — Sim. como a porta estava destrancada. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam. que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela. só mesmo o hálito de bebida. Quero dizer inconsciente. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. não é? — Estou a caminho. do modo mais egoísta. ela não ouviu sequer os passos na escada e. Por um segundo. — Céus. quando Will chegou. Acho que desmaiou no sofá. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes. Parte dele queria reconfortá-la. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . Deu alguns tapinhas no rosto dele.. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. Ela estava cansada. — Está bem.. — disse ela. mas outra parte continuava a desejar. ignorando o comentário. mas não consegui. — Mitch? Ei. — Por algum motivo. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave. Pronto o café.. Ele estava mudado.. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. porém. — Mitch acordou. — Kelly? — murmurou. — Você entendeu? — Oh.. ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara. cuidad.. Will notou. Por causa do barulho da chuva.. que uma boa noite de sono pudesse aplacar. sim. Tentei ajudá-lo. Não era o tipo de cansaço. — Cuidado com eles. — Mitch está bêbado. Ele resmungou algo ininteligível. sim? Enquanto eu não chego. pensou Kelly. tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will. Ele vai ficar bem. mesmo.. Kelly se pôs em pé. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch. mas foi só por um momento. me reconheceu e apagou de novo.— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis.. Com mais aquela palavra.. daqueles bem fortes. Afastando os cabelos ruivos da própria testa.

Diabos. Ei. imagine.. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada. — Will deu de ombros.. Até a esposa o deixou.. — De nada... Mitch não é um corrupto. — os dele responderam. um pouco mais claramente. E dentro de seu . — Mitch. está melhor? — Não. Um policial foi acusado de corrupção..Kelly. — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim. — Também penso assim. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch.. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si. — Ei. — Nem dos seus beijos. o café fora um pretexto. tornando a bater-lhe de leve no rosto.. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa. Will Stone? — Em você. Mitch. — Quero meu filho! — Mitch resmungou. em questão de segundos. a cada gole um gemido de protesto do amigo. — Traga um café.. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. Will retornou à sala onde Kelly o esperava. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo. então nunca aceitou. quando se revolta com alguma coisa. para aquecêlas. mais alto.. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca. Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro. Será que esse policial era Mitch? — Talvez.. claro! — Bom! Que bom.. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano. eu sei. voltava com uma xícara fumegante. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia. — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado..... depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will. Mitch. Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura.. Ponto final. vamos! — Nãão. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. amigão... nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu. — Não muito bem. um ano e meio. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar. — Mas não sei como foram desconfiar dele. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. em silêncio.. — o detetive olhou nos olhos de Will. Falta de provas ou coisa assim. — Mitch fez uma careta. — Eu não peguei aquele dinheiro. — Eu sei.. sim? Ela saiu para a cozinha e. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo.. — Mas que mulherzinha. — Will lhe deu mais café. Meia hora mais tarde. — O que foi? No que está vendo tanta graça.. ainda um pouco assustada. acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou. nisso eu aposto meu pescoço. enquanto servia um pouco de café para si e para Will.. ou sob o meu. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno.

— Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso. juntos. — Bem. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas. ao menos no que se refere a essas taxas. — Eu preciso saber uma coisa. Por instinto.. de ser o que ninguém era. — Então estamos quites. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo. evitando o olhar de Will. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita.. Kelly o fitou. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes. agora que Mitch já está melhor.. seus olhos buscaram os dele.. Mas a verdade era que. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem. — Will abriu um sorriso.. — Olhe. Suficientes. Não era o melhor dos assuntos. — Ah. sério e surpreso. o casaco e caminhou em direção à porta. — Mas não precisava. muito diferente do seu. — Você mandou a história. Eu também as cobrei de você. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. de preferência não muito inteligente. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou. precisava sim. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém. — Sim. — ela respondeu. descontei do que lhe devia! — Ora. — Gostaria mesmo? — Will ficou sério.. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. calada. Seriam capazes de. não veja nisso nada além do que realmente há. Não seria correto.. agora andando mais rápido. A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa... — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? . De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo.. — Ah. — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse. talvez até uma pitada de medo.. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso.. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha. Mais uma vez ela se voltou para a porta. Kelly? — Não.. naquele exato momento ela se sentia apavorada. acho que vou embora. Stone. — ele murmurou. ele insistiu.. Kelly sentiu-se um tanto sufocada. de repente. — Bom. — Ela baixou o olhar. Talvez ele tivesse razão. Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes. — Por quê? — ele perguntou. — Um pouco de obediência.. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe..próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo.

Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer. Mas. bem devagar. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. Seria possível que ele. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele. desde que vira Kelly pela última vez.. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem. quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA.. Will Stone! — Bem. — disse o detetive. — E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. sem fôlego. talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos. tão. Tão macios que me deixavam louco. Kelly murmurou: — Você me assusta. — São mesmo como eu lembrava. direta e sem rodeios. Ficou imóvel.. Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele. estava mais perplexo e infeliz que nunca.. Ele e Mitch estavam jantando juntos.. Viver um dia de cada vez. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. Will Stone. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta. Quase duas. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso.. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will. Depois de ter visto Kelly de novo. tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela. o que pensar.. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. tão terno... e que lutava contra isso.. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. — Ele respirou fundo. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão. Nada no mundo poderia ser tão doce. moça. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. também não deve . — É. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. e suspirou. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando. Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce.— E-eu.. eu não sei — ela sussurrou. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA. quando voltava com o amigo para casa.. ser também um alcoólico. — Como são em sua memória? — Macios. pegou Will de surpresa. tê-la beijado outra vez.

— Will tomou um gole de café. mas nada disso importava. — Eu e Kelly somos muito diferentes. já esqueceu? — Pode ser. Continuou a caminhar. jamais fora grande coisa. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez. revoltado. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo. Afinal. — Esqueça — Will balançou a cabeça. Mas que diabos. mas acho melhor esquecer esse assunto. E se isso não significava alguma coisa.. — Suspeita de alguém? — Will insistiu. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. — Não sou homem para ela. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. Podia não ser o melhor homem na face da terra. A moça está apaixonada por você. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco. Quando começou a ouvir o toque de chamada. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível.. afinal.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will. porém ele o impediu com um gesto.. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada. mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. Como um refrão interminável. Eu vim do lado errado da vida. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. e conseguiu. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito.. eu posso até estar errado. ladeira acima e abaixo. Um tipo como ele.. — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. meu caro.. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. — É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida. — Verdade? — Verdade. O que diria a ela? E como diria? Ou será . Viera do lado errado da vida. Mitch. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você. Quem preparou a armadilha não foi um amador. tinha dinheiro para gastar. sim. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper.. Will fez menção de dizer algo. imagine! Seja quem for que fez isso. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco. — Olhe.. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. nascemos em mundos diferentes. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. também sem nenhum rodeio. e o homem que era agora. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse. Mas agora já não importa.

— Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. Bateu o telefone. E sensual. Devagar. interrompendo pela metade uma imprecação assustada. — Entendeu? — ela insistiu. Mais um toque. ali. Mas o quê fazer. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. admitir que a amava... Kelly retirou a mão com que o estivera calando. entendeu? Will ocultou um sorriso. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will. também. o que você quer? — Conversar. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano. . independente e agressiva que seqüestrara. — Sim. aquela se parecia mais com a mulher teimosa.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez. entendeu? Ele não respondeu. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas. — Eu vou tirar a mão de sua boca. pois ela não estava em casa. Não. pé ante pé. não podia ser assim.. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. — Não. Sim. deixe apagado. O telefone tornou a chamar. ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. Bem. e muito. Para Will aquela voz soou rouca e suave. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. depois de tudo o que haviam passado juntos. — Esta bem. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir. mas não conseguiríamos. Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama.. seria banal demais. como de outras vezes. fazendo com que a corrente tilintasse. poderíamos. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça. então? Convidá-la para sair? Não. O tempo e o silêncio eram fatores importantes.. que se abriu com um clique suave. Ao menos não naquele momento. bem devagar. mas não quero ouvir nem um pio. mas.. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. Ah. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito.

Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. com a voz embargada pela emoção —. lá vou eu! — disse ela. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. arrastando junto a de Will. — E eu quero. se fosse mesmo esse o caso. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. estou escutando — disse Will. Ela ergueu o rosto e. Will. — Certo. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros. mas. Ora. olhou nos olhos de Will.. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe. — Estou cansada de fugir. lá estava eu cuidando de minha própria vida. combinado com tudo o que ela acabara de dizer. Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era. Kelly.estou cansada de tentar agir como se fosse. num tom estranho. ou queria. Kelly — ele murmurou. E então apareceu Gary.. — E se quer saber do pior. Stone.. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então. — Ora. Ela havia cruzado um limite. — De qualquer modo — ela prosseguiu —. — Quero minha vida de volta. — É. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. — Bem. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente.. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou. ameaçava esmagá-lo de uma vez. e agora já não havia como voltar. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. . mas você está falando! — Desculpe. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar.. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso.. Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor.. se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater.. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual.. Pobre Gary. E isso.. — Não. — Você nunca me chamou assim. Naquela noite você invadiu minha vida e. sei que não sou perfeita e...— Muito bem. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração. desesperada por um pouco de atenção. Você não faria isso — disse ele. eu sei. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços. para ser sincera. agora. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe. antes. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado... uma semana depois.. — Então pare de fugir.. Will.

. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. — Will. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. — Bem. Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu. mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. Cheio de ternura. sempre que você precisar de mim. — Escute bem. com os olhos cheios de lágrimas. permitirei que você me faça ir embora. — É.. Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will. Will Stone. tocou os cabelos cor de fogo. naquele momento. — ele pediu. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar. apesar da restrição imposta pelas algemas. Will Stone... e nunca.. Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. Se fosse assim. Eu jamais vou te deixar. num fio de voz.. — Kelly riu.. . — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. Kelly. Muito melhor. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. Era o que ela mais queria. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus.. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. — Eu te amo. sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. para em seguida repetir. — Will... — Quero ouvi-la dizer. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus. mas como o novo homem que era agora. Will interrompeu o beijo. — Não está? — Sim — ela sussurrou. Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela. — Eu te amo — ela disse. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada.. — E eu. Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser.. envolta num profundo silêncio. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor. eu sei disso! — Kelly suspirou. eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou. — Não acredito! — ele também se pôs a rir.. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro. mas eu te amo mais do que à minha própria vida. de repente.. mais segura e decidida que nunca.. onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa.Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. mas nunca mesmo. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar. mas algo impediu seu movimento. Kelly. — Kelly hesitou. se ele fosse. — Trato feito — Kelly sussurrou.. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora.

***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield. Tempos atrás. Sandra mora com seu marido. 13 .. Condição atual: exílio voluntário. Agora. PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 .divorciada e mãe de uma criança seqüestrada. Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro. E lado a lado.CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost . que será publicada dentro de alguns meses. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação..ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver. em Shreveport. no Estado de Louisiana. A beira de um grave ataque de nervos. por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas. em sua difícil busca. Charles.agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. Rachel Dryden .

Lisa Morley respira mais aliviada. A ameaça aproximase. e onde está o perigo? .. surge Mark Fletcher. saído das más lembranças de seu passado.A medida que seu carro se afasta de Nova York. congelando a alma de Lisa! De repente. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa. Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. o perigo a segue de perto.. Contudo. Mas. onde reside a segurança. afinal. incendiando-lhe o sangue nas veias. Em meio às trevas do pavor. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho.

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