Duas vidas sem destino (Snap Judgement

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Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

porém. Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava. ligou a televisão. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter. De qualquer modo. Calças jeans. aliás. Edward Andriotti.. Como sempre.. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. calças de brim caqui. por exemplo. Na manhã seguinte. na tarde de hoje. O pai da noiva. Rodrigo Echeverria. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. também ele um jornalista de renome. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos. mas vencer era algo natural para ela. horas antes. Kelly . Não. Sim. sem se dar conta. Não que fosse pretensiosa. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo". Não que gostasse das pessoas o tempo todo. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos.. Uma revista. Para ser mais exata. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. desprovidos de barreiras. céus. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco. como odiava arrumar malas! Por outro lado. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas.. seres humanos a fascinavam. que já era tido como o casamento do ano. Ao ouvir aquela notícia. Oh. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. Riquíssimo e muito influente. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade... um par de tênis. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. e Emmanuel Echeverria. Ela própria. era muito mais que um empresário de sucesso. Como sempre. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. quem a educara assim. deixavam transparecer a própria alma. medíocres. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. E quanto ao pai do noivo. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. talvez até outro Pulitzer. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio.. bem cedo. na verdade. local especializada em fofocas e colunas sociais. Sabia. Aquele trabalho. estava longe de ser um político qualquer. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais. bem no fundo de seu coração. onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. Instantes em que. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. uma. queria ser o próximo presidente do México. Kelly pensou. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. O que tentava. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. Ao chegar à mansão dos Andriotti. — Casaram-se. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. tinha sido seu pai. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade.. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. De lá seguiria para a África. Suzanne. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. Para tentar se distrair um pouco. adorava viajar.

usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. Naquela manhã. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. Encontrara um homem. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. Sem se deixar abater. fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. foi testemunha-chave da acusação. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. contudo. escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. com um buraco de bala no peito. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. além de vários convidados. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. alguns mais importantes e outros nem tanto. No instante em que ele se voltou e a viu. meio que às escondidas. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. Por coincidência. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. O telejornal prosseguiu. com um simples gesto ela havia selado o . algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. Com uma das mãos suja de sangue. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. O Homem de Pedra. em Folsom. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. Havia alguma coisa indecifrável. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. este caído e coberto de sangue. no entanto. apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. De repente. porém. Sentando-se na beirada da cama. Kelly acordara cedo. Assim. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento. Conforme costumava acontecer a cada ano. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. no entanto. que mais tarde soubera ser Will Stone. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. ajoelhado ao lado de outro homem. próprias da estação. Uma moradora desta cidade. três vezes. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão. duas. de uma modo ou de outro. já não vivia. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto.

paradeiro desconhecido até o momento. porém. nos raros momentos em que estava em casa. Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. Era a polícia informando que. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio. Durante o julgamento. quando o telefone tocou. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir.. e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria. em voz alta.. De volta ao seu apartamento. elemento de alta periculosidade. — Há suspeitas de que esteja armado. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança. mais profundo. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. de lá do céu. pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço. pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder. Para piorar. à casa da mulher que testemunhara contra ele. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto. de frente e de perfil. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz. E aquele homem agora estava solto. ainda mais intenso. Além do mais. Virava-se de um lado para outro na cama.. tomou um banho e preparou-se para deitar. Kelly Cooper. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. ela trancou a porta. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque. A morte da mãe.. conciliar o sono. partindo para bem longe dali. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem. minha filha — seu pai costumava dizer. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado. durante aquela noite. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. a ausência e a rigidez do pai. Não.. ou seja. Decidida. Kelly Cooper. endereçado à editora da revista. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma. — Ora.. para dar lugar a um vazio cada vez maior. a falta de carinho.. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. — Sua mãe está observando tudo. ela sabia ter selado seu próprio destino também. Não conseguia. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem. Um vazio que ela achava assustador. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância.destino do Homem de Pedra. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu.. Sentindo-se um pouco melhor. sem encontrar uma posição confortável. Mas Kelly Cooper não podia . fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. sem dizer uma só palavra para defender-se.

a não ser quando o assunto era relacionamento humano. — Não. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. num grunhido. Um esforço inútil. E então começou o pesadelo. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. algo que a magoara bastante. Sim. Onde estaria Will Stone. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento. Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia. fazia pouco mais de um ano. meses atrás. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou. seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões. Resmungando e tornando a virar-se na cama. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão... e agora ela o ouvia. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área. porém. Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia. tentando libertar-se. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. Era um som grave. costumara imaginar que som teria sua voz. Quando conseguiu. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. De qualquer modo.. a melhor entre todos os melhores. Kelly parou imediatamente de se mover. E isto ela vinha conseguindo. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. quando Kelly lhe pedira o divórcio.. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. desde os anos de colégio e faculdade até agora.ser apenas especial. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira. . ela era um completo desastre. em especial. Nisso. sombrio. Na verdade. Gary. fascinantes e assustadores. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. já que era muito menor e mais fraca que ele. Precisava ser o máximo.

ela balançou a cabeça devagar. Kelly não sabia ao certo o que pensar. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um. — Acertar as contas. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim. a mão que lhe cobria a boca se afastou.. Will notou não só o olhar de Kelly. E de repente ela estava fitando um rosto familiar. mas não fui eu quem o colocou na prisão. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta.. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. — Compensação? — Sim. — Sinto muito. Tão perto que o seu corpo. — Não — ela retrucou. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou. E havia sangue em suas mãos.. como também a direção que tomavam os seus pensamentos.— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva. entendeu? Kelly nada respondeu. — Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. ficara apavorada. por mais que tivesse tentado. altiva. Agora. com roupas modestas. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui. só que mais velho e cansado. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi. por um instante. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. moça. — Eu vou tirar a mão de sua boca. sim. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal. se é isso o que você está pensando. não é? — Will a fitou em silêncio. vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. mas terrivelmente hostis. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. — Ah. Will Stone parecia o mesmo. como na primeira vez em que ela o vira. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly.. acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo. Ele estava muito perto. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. impassível. de fato. Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. porém limpas e decentes. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. Preferia morrer a admitir diante dele que. — Ah. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. portanto não venha me culpar! .. forte e musculoso. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença.. aliás. Também devagar. — Diga. mas não quero ouvir nem um pio.. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita.. Kelly respirou fundo. E que ainda estava. no entanto. a imprensa. E você.

— Cale a boca e durma! — Will ordenou. era muito arriscado. Depois de escapar da cama. espere aí. a seu lado. porém. Naquele instante. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não. como catástrofes naturais ou bombardeios.Will resmungou baixinho. com todo o cuidado. eu lhe devo? — Kelly perguntou. esperou e. principalmente depois do que já passei. talvez fosse melhor fugir para fora da casa e. pois eu vou perceber. Até então ele não a tinha ferido. segurando . moça... no entanto.. — Bem.... pousou o pé no chão. Will Stone. o que já era algum alívio. Sim. também era arriscado demais. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida. consultou o despertador sobre o criado-mudo. Sim. Assim. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. A menos que. curvando-se para desamarrar as botinas. no entanto. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. Quarenta e cinco minutos depois. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura. quase entrou em pânico diante daquela constatação. apagado como uma lâmpada. com um braço em redor da cintura de Kelly. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não. a coragem de Kelly renasceu. moça. Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar... hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama. sobre a cintura. E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo. Sim. Além do mais.. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele... tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava. ele não havia movido um só músculo. Você me deve uma e estou aqui para cobrar. Seria estupidez confiar tanto na sorte. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. ela fez o mesmo com o outro pé. — E não tente se levantar. seria sair debaixo do braço que lhe pesava. — ainda tentou protestar. Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio... O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama.. parou. Devagar. quando o homem a seu lado não se moveu. — E o quê. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta.. afinal de contas. bem devagar. na cama. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão. ele estava fora do ar. desde o momento em que se deitara. corpo contra corpo. Girando devagar a cabeça. ou ser ameaçada outra vez. Ele se remexeu. Kelly resolveu obedecer sem discutir. inerte. Quase quatro horas da manhã. — Ei. isso mesmo! Desceria direto para a garagem.. Kelly parou onde estava. não quero saber de conversa. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. O verdadeiro problema. não parecia ter intenção de feri-la. Com a maior leveza possível. sem paciência para argumentar. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava. Will gemeu. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra.

acabava de invadir sua vida. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. a teria feito suspirar. já estava sendo puxada com violência de volta à cama. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo. Antes que ela tivesse chance de reagir.. Sabia que era necessário um pedido de desculpas.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. Sim. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. Contou um minuto. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. — S-sim. era se erguer com muito cuidado. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. moça — disse. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante. demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. Kelly conseguia manter sua dignidade. em outra situação. E agora. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando. moça. Centímetro por centímetro o pulso. porém não menos alerta.. — ela murmurou. Melhor assim. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. Como vinham se recusando havia muito tempo. A despeito do medo. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. A revolta. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor. Num tom de voz educado. De fato. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer. — Entendeu bem? Muda. ela se permitiu respirar fundo. Observou o rosto de Will. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. e olhando nos olhos de Will. Kelly se limitou a fitar aquele homem que. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. Aliviada. Nada. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. agora. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. Kelly fechou os olhos e esperou. aquela vitória tinha um gosto amargo. Longos. Não tinha outra escolha. por estranho que pudesse parecer. sem a menor cerimônia.. — Prepare-se para partir. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos. — Faça isso de novo. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso. direta. calçando as botas e amarrando os cadarços das . Fácil. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. ágil como uma cobra dando o bote. muito mais fácil do que. quase calmo. em sua independência. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados.. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado. depois outro e ainda mais um.

Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. moça. moça. se é que você me entende. — Escute. massageando o pulso dolorido. E é bom não tentar nenhuma gracinha. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou.mesmas com gestos bruscos. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. com a mesma violência que usara para fechar a porta... tornou a abri-la menos de dez minutos depois. — Olhe aqui. Furiosa. moça. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. O barulho chamou a atenção de Will. saio do banheiro do jeito que estiver. — Oh. não sei em que está pensando. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu. — Vamos fazer uma viagem. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui. — O tom de Will era ríspido e insensível. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. — Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. — Falar? — Sim. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. — Estou saindo de uma . — Sinto muito. e só pare quando eu mandar. — Tenho compromissos marcados! — Bem. moça. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. — Também preciso usar o banheiro. — Não vai se sair bem desta. Esqueça o avião. — Sabe. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. isso é mesmo uma pena. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. desconfiada. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. — Você escolhe. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. — Céus. Apressada pela raiva. Você sabe disso! — ela resmungou. Will Stone. mas parece que você prefere acordar cedo. moça. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. — Aliás devo ir logo para o aeroporto. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. que até então estivera junto à janela. Kelly também se sentou. portanto comece a falar — disse ele —. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças.

se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo. bem perto da porta. se voltando outra vez para Kelly. seguido pela água correndo na torneira da pia. A rua estava totalmente deserta.. embarcar no carro. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo. — É isso aí. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria. não tinha a menor vontade de fazer. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. — Sua voz morreu na garganta.. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que. A cidade. Algo que ela. não por um alegre casal em viagem de férias. — Isto é.. Eles com certeza irão levar isso em consideração. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia.. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora... mas no país inteiro. — Arrume suas coisas — Will ordenou. — Como assim? — ela o fitou. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história. . de dentro do banheiro. — Não estou ouvindo você — Will avisou. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga. Prosseguiu. — ele confirmou. aonde imagina que vá conseguir chegar. como em algum filme de aventura. intrigada. Daí a ter tempo de abrir o portão. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. Embora o plano fosse bastante inteligente... chegasse à garagem. Além do mais. aliás. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri. você tem consciência de que vai acabar se dando mal. brusco. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. Will entrou no banheiro e fechou a porta. áspera. ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. e longe do telefone! Com isto.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que... — Estou aqui — Kelly se apressou em responder. E trate de ficar aqui.. muito diferente! Calculando friamente. — Escute. Quanta tolice! Ainda assim. contudo. O pulso ainda lhe doía. caso resolva se entregar. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. — ela ouviu o ruído da descarga. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la. havia uma grande distância.penitenciária. — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. — Eu não entendi. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada. em tentar correr para fora dali. Não que se estivesse acovardando. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu.. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez. dar a partida e fugir. dizer que não me fez mal nenhum. moça. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra.. — Aliás. — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição.. parecia quieta e sonolenta. com alguma sorte. não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre.

. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação. Como parecia ser de seu costume. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. moça — ele a preveniu. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —.. e concluiu que os dois veículos. se você pretendesse me matar. mal conservado e de um tom pálido de azul. muito mais importantes. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular. — É que eu percebi que. no entanto. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara. já o teria feito a estas alturas. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. tão diferentes entre si. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. — É. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. — Ele apanhou a mala de Kelly. — E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia.. Kelly o fitou com um ar de completo espanto. eu sei — disse Will. ignorando seu pedido como das outras vezes. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele..— Então vamos embora. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. Aliás. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo. uma tolice. — O dia mal começou. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque.. teve um mau pressentimento. emergiu na memória de ambos. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data. — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. Um setor sem flores ou belas . — Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly. antes. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida. Lembrou-se de seu próprio carro. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer. eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. a um canto do quarto. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. que Will sequer notou. cerca de um ano antes. Kelly lançou-lhe um olhar furioso. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e.. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar. moça? Ela se voltou para fitá-lo. desaparecesse na distância. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem.

Algo como puro medo. tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. Na verdade. Quanto a isso. Nenhum nome ou data. Tudo ótimo! — insistira Stephen.. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. E se você vier para cá irmãozinho. frio e sem qualquer sentido. Ela se limitou a segui-lo. Haviam nascido num gueto de Chicago. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. minha situação não poderia ser melhor. afinal era a única família que lhe restava. custasse o que custasse. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo. — Vamos. de fato acabara por fazer. Transcorridos vários minutos. Meu emprego é excelente. Nada. claro. de um certo modo que não deixava de ser irônico. Will enfim encontrou o que estivera procurando. — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. obediente.. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a . sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito. venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. um dia. nenhuma frase inspirada ou consoladora. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. em si. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos. Algo que. — Ele abriu a porta e desembarcou. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam. dois anos mais velho. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. Ficou parado por um longo instante. a não ser um estúpido número. — Sim. cara. O curioso é que Stephen. Num gesto cheio de reverência. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria. Não pelo chamado. mandaria colocar ali uma lápide apropriada. num lar mal estruturado e muito pobre.estátuas adornando as lápides simples. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave. — Ei. — Para falar a verdade.

porém. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. vamos. apavorado e delirando. contudo... ao recordá-las. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. não fosse a reação causada pelo anestésico. Não houve como não ver o revólver. E se até então tivera fortes suspeitas. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa. como cigarros e bebidas alcoólicas. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar. — É fácil notar que você está com medo. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. gritando que havia monstros a persegui-lo. Zonzo. com notas quase abaixo da média. que está fazendo? Me espionando? — Não. — Ei. por aqui. com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta. Algo importante. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos. ele por pura falta de esforço. Quando criança. Coisa de cidade grande. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento. quanto o haviam ferido havia um ano. logo ele que jamais os utilizava. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco. Sim.. questionar o irmão quanto a isso. está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele. De nada adiantara. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. Mais do que qualquer desses indícios. — Ora.. algo que deveria ter sido até bastante simples. no entanto. Dois dias após sua chegada. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. como um animal enjaulado. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . E aquelas palavras o feriam tanto agora. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. Stephen respondera de modo evasivo.. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. — O que significa isto? — perguntara. Will deixara as perguntas de lado. irmãozinho. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. quando entrei no quarto. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. Stephen.. O mais velho por falta de capacidade. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. para que estivesse ganhando tanto dinheiro. Além disso.tumba. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. sabe como é. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. Como resultado.

mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. agindo por puro instinto. O modo como Will se ajoelhara. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. Stephen. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado. porém. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão. incapaz de conter a curiosidade. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito. .. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. Will ergueu a cabeça para fitá-la. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. por ali. E exatamente enquanto fazia isso. Certas pessoas.. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito. como abutres. Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. perto do cadáver. Sem pensar duas vezes. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha. e levara o revólver consigo. Desta vez. do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial. à altura do coração. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. uma mulher de cabelos ruivos aparecera. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta.... demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone. tratava-se de um homem condenado por assassinato. Era a arma de Stephen. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa.. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem. Will encontrara o apartamento deserto. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela. Ah. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores. Além do mais. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. ao se levantar. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho.

Mas ele não viera. Mas precisava ser encontrado. no entanto. Will não era estúpido o bastante para ceder. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo. de uma overdose de drogas. pelas drogas encontradas em poder do homem morto. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. — Não é da sua conta — respondeu com frieza. Kelly o seguiu de perto.. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte. pois apesar de tudo e contra a própria razão. fosse quem fosse. pedindo resposta. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão. Não podia confiar nessa mulher. A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. . apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. obediente. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. De fato. talvez. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. sumido da face da Terra. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. por arrombamento e invasão. para ali se abrigar do frio e da chuva. anos antes. Além do mais. O corpo de seu único irmão. aliás.. depois de algum tempo. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil.do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. Sim. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos.. De fato. mas com resultados não menos catastróficos. das ilusões de poder e riqueza. o olhar mais uma vez hostil. continuava a amá-lo. Teoria reforçada. desaparecendo da cidade logo após o crime. Queria dizer que. Sem intenção. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar. Descobriram até que fora fichado na polícia. Tudo isso e muito mais. permitindo que a culpa recaísse sobre ele. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro.. ela já o havia prejudicado antes.

— O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. em uma expressão de profunda irritação. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone. sim. — Bom dia. estou com muita febre. está bem? — Exasperado. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada.. Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone. Ah. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF. Will a fitou com os olhos semicerrados. Kelly. Escute. sem maior autenticidade que da primeira vez. Oh. ignorando o sarcasmo de Kelly. não há necessidade — Kelly prosseguiu. — Apenas faça o que estou mandando. E enquanto o telefone chamava.. claro. Sim. claro. repetindo o aviso. vou tomar cuidado. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. Rachel. Está bem. mas que idéia original — ela provocou. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. quando uma voz masculina atendeu o telefone. Um santo homem. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. quando sua editora atendeu. — Eu já ouvi.. Sim. — Sem nenhuma gracinha. ameaçadores. — Como? Ah. sim? Diga que fará contato de novo. não fique preocupada. está bem. para que eu não precisasse sair.. Kelly tossiu. . estou doente. sou eu. obrigada... Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. um resfriado. — disse Kelly.. — Até logo. por sinal ele está aqui em casa. não preciso de nada. esse médico! — Ela tornou a olhar para Will.. por favor.. Ah. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar. não. sem emitir um som. Péssima! — Tornou a tossir. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. Stone! Não sou surda. quando estiver melhor. — Eu gostaria de falar com Rachel. moça! — Will sussurrou a seu lado. ela tornou a tossir.. um som nitidamente falso. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse. mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo. E quando voltou a falar.. mas sem que Will percebesse. olá. A expressão de Will se endureceu e. Não. — Como arremate final. sim? Voarei para Zurique assim que puder. — E ande logo! Com mãos trêmulas.. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele.. Sim.. nervoso. — Parece que é uma gripe daquelas. — Invente uma gripe. — Oh. sim. Sob o olhar atento de seu captor.Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado. neste exato momento.

— Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. de fato. Ela. — Como assim. Kelly não notou. Começava a crer que. ao extrair da carteira a quantia pedida. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro. era tarde demais. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. Escondeu um sorriso. dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. — Aí está — disse ela —. moça — ele a preveniu. um. Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível.— Moça. um vagabundo. — Oh. nem seria tão difícil de lidar. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. altiva.. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato. não tinha outra saída. para dentro do carro. Além de ser tomada como refém. e estendeu a mão. Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. severo. com o olhar faiscando de raiva. Agora. contudo. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada. — Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. — O que vai querer? — Nada. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. — Bem. Desta vez. Will respirou fundo. — Você precisa comer. ela não esboçou qualquer reação. pensou. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres.. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. Kelly deu-lhe as costas e retomou. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo. entretanto. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor. manteve o olhar fixo à frente. se queria uma boa atriz. — Cuidado com o que diz e faz.. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. Aquele homem era mesmo estranho. porém. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. no entanto. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. Agora. Lembre-se disso! — Oh. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. arranhando as marchas ao entrar em movimento.. Cinco dólares serão suficientes. Um pouco mais calmo. moça? — Will a interrompeu. . mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador.

cerca de uma hora depois. era seu inimigo. grave. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava. — Desça do carro — ele ordenou. — Trate de se comportar.. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. por obséquio.. — Pare com isso. Ninguém. duas camisetas. pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. Não importava quem ou o quê era Will Stone. que mais você vai querer? — ela reclamou. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa. Será melhor para você. Cinco minutos depois. Sem tornar a perguntar o que ela queria. moça — ele avisou quando entraram. quando eu saísse do provador. Ninguém a não ser o homem a seu lado. com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. Ainda era muito cedo. duas cuecas. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. — Talvez não tão longe assim. na tentativa de indicar que algo estava errado. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando. como já começava a se tornar um hábito. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh. quando já terminava sua refeição. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. no entanto. Depois de pagar e receber as embalagens. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. Em vez disso. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto.— Não estou com fome — ela teimou. ao desembarcar do automóvel. mostrou o menor interesse. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino.. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou. Tal ato revelava um considerável autocontrole. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo. ficaram medindo forças através de olhares. — Céus. presente e atento. E não vai nem ao menos experimentar essa calça. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. afinal. moça. sem dizer palavra.. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira. Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. — Você estaria longe daqui. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. pois sabia que era perda de tempo. se pôs a comer. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. Ele a tomara como refém. — Coma! — Will mandou. estacionou o carro em uma vaga próxima e. acredite! . Rumaram para o norte.. Ele venceu. já havia escolhido para si uma calça jeans.. Will se voltou para fitá-la e.

sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. que o achassem perigoso. No fundo eram ambos prisioneiros. ele parecia estar se saindo bem demais. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. Por mais que ela tentasse disfarçar. que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . — Isto é. Que continuassem a culpá-lo à vontade. Condenado. Significava.. tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo. que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou. depois de ter passado seis meses atrás das grades. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e.. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta.. doze cidadãos supostamente justos e normais. isto sim. Mesmo agora.. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone. ora. Sem alternativa. — Ora! — Kelly balançou a cabeça. — Supondo eu falasse.. marginal. Will Stone. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento.. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. E no entanto era essa a sua condição. Infelizmente. Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação.Quando enfim chegaram ao caixa. pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. por favor entre em contato com.. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele. — Eu não tinha nada a dizer. entretanto. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. perante um juiz. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito. porém. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo.. só que ele havia conseguido escapar. como se não houvesse escutado nada. durante o julgamento.. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime.. em um caminhão de entregas. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. Por ironia. incrédula. um condenado cumprindo pena por assassinato. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. E fora isso o que houvera com ele. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam. Doze pessoas. Você sabe disso! Por ora. no entanto.. As autoridades recomendam extrema cautela. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. para decepção de Kelly. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. Voltou-se para Kelly. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado. Claro. Na verdade.. somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel. Culpado. destrutivo. o policial já tinha deixado a loja. — Você estava sendo acusado de assassinato.

insistiam em olhar nos dele. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. — Bem. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final. moça? — ele ralhou.. em fitar o rosto anguloso e os lábios que. Desembarcou e esticou os músculos doloridos. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi. é bom me obedecer! — Está bem. — Escute aqui.. nos meus dias de folga. querer eu não quero. se estendendo por vários segundos. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. com um brilho impertinente nos olhos. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. — Então estamos empatados. não! — ela o desafiou. — Kelly deu de ombros. aliás. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro. embora dissessem palavras duras agora. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. Céus. perguntou: — Afinal. — Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. como antes. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível. — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. mas se calou. Olhos que. que estava enchendo o tanque do carro. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados. Stone. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar. Faziam três horas que estavam viajando. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly. Bem antes que os outros. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma. fazendo com que parecessem feitos de fogo. no entanto. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna. — Afinal de contas. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo.. sarcástica. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse.— Eu não estava.. O que significava isso. moça. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. sim? — Por que não? — ela perguntou. Não tem a menor graça. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa. — E agora.. Ainda assim. — Quer fazer o favor de falar baixo. o que vamos fazer? Ah. com visível satisfação. — Estava sim.. Kelly chegou a abrir a boca para negar. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. Kelly percebeu que. num impulso.. moça. contudo. para falar a verdade. Sinto muito. quase contra sua vontade. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira.. Não pôde.

jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. forçou um sorriso. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. Após uma inspeção apressada. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. Em menos de um minuto. — Olá! — Um homem gordo e calvo. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. provavelmente o próprio Bo.. dona. os cumprimentou com um largo sorriso. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. — Viemos pagar pela gasolina. eu espero por aqui — disse ela. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão. — Além do mais. claro — o homem tornou a sorrir. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. — Nada disso. Sem dizer uma só palavra. Céus. impaciente. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. . — Nem pense nisso — ele a preveniu. assim que entraram. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito. — Diga-me. deve ser isso mesmo. sujas e rasgadas. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico.— Com todos os diabos. Pelo jeito... devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe. — Bem.. também sorrindo. Will resmungou algo ininteligível e. moça. não é? — Eu mesmo. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É.. devolveu o cartão ao cliente. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável. dona — ele respondeu. destacou a segunda via para guardá-la consigo. tentando resistir. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. Além do mais.. O sorriso murchou nos lábios de Kelly. moça. Se tinha a intenção de irritar Will. — Vou estar bem a seu lado. — Você é Bo. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. — Ele a puxou com mais força. estava conseguindo. Bo. Mais calmo então. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. Vocês dois me parecem gente honesta. — Oh. Stone — ela resmungou. mas as roupas de Will. lendo tudo o que você escrever naquele comprovante. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. — Pode deixar.

já dentro do toalete ao lado. Era tão estreita que por um instante ela .. ainda não se havia dado por vencida. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo. o vaso. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios. Kelly bateu ainda uma vez na porta. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. — Aposto como a chave é aquela ali. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta. espere um pouco. para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. é. porém nada encontrou. os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu.. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. como se acabasse de se lembrar de algo importante.. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. Não. Estava com raiva. Não pode fazer isto comigo! E terrível. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa.. Tentou abrir a porta. conseguiu por fim abrir a janela. dona. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer. é. — Ele sorriu e deu de ombros. um batom. não é? — É sim. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo. foi mais rápido e a tomou para si.. depois de uma breve luta com um fecho... — Já que estamos aqui. Pensou em escrever com as unhas. — Se eu não mantiver tudo trancado.. Do jeito que suas unhas eram fracas. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. havia uma janela. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro. Kelly parou de repente.. é desumano. porém.. isso sim! E como poderia estar. descascando a tinta da porta.. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. mas desistiu logo na primeira tentativa. se tivesse com quê escrevê-la. observando com toda a atenção as paredes. na pior das hipóteses. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. fosse um grampo de cabelos.. a janela. Will — disse. Will. — Oh. Tornou a olhar em redor. estava furiosa. — Ei.Ela. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly. Janela? Sim. Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer. no alto da parede. pendurada na parede. bem acima do vaso sanitário. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro. esmurrando a porta. a pia.. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino.. com raiva não. — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will. Kelly subiu no tampo do vaso e. acho que vou aproveitar para ir ao toalete. no entanto. Mais uma vez. — Pois é. Stone! — gritou.

perfeitamente controlada. severo e acusador. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. Paralisada pela dor e pelo susto. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor. Ótimo. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que. como ela estava? Furiosa também? Não.. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar. apoiada sobre o próprio peito. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas. não era? . Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. Uma vida que.. Sucesso. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando. Seu olhar encontrou-se com o de Will.. Bem... mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. E nesse momento. Aflita. não agora quando. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. já colocava a cabeça e os ombros para fora. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela. no topo disso tudo. ofegante. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço.. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco. Sim. com isso. tremendo e de olhos fechados. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima. satisfeita. ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz. E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. mas nada poderia fazê-la desistir. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. Ela o havia deixado furioso.chegou a desanimar. Encolhida no assento do passageiro. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho. pensou. além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão... Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. não conhecera outra coisa que não o fracasso. Só mais um pouquinho e estaria fora. exceto por um casamento desfeito. era algo mais forte que isso. caso conseguisse passar por ali. Talvez fosse isso o que a incomodava mais. Desde a chegada de Will. Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular.. Kelly ficou caída junto à parede. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar.. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé. duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar. Afinal de contas. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. Mais especificamente a um certo demônio. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada. notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor. que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. um rosto que a fitava. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. sua vida ordeira. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. Quando teve a coragem de tornar a abri-los. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. chamado Will Stone. causar-lhe um novo acesso de fúria. Fracasso. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e.

. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. Tinha medo da própria reação. para lançá-la num morno torpor. lisa e clara. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não. até agora. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante. Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. Para ser mais exato. A pele. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita. Sim. por exemplo. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido.. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. Will respirou fundo. Ele estava furioso. continuava sendo uma . Ora.. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. até então. Ao menos perante si mesmo. o que lhe emprestava um ar adolescente. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente. pensou Will. por menor que fosse. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. melancólico. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. e era isso o que deixava o papai orgulhoso. E embora tal pensamento o surpreendesse. você acaba por acreditar. percebeu que Kelly havia adormecido. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior. ela era especial. tão. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade. tão especial que jamais cometia um erro. tão mal dormida.. ela parecia tão doce e vulnerável. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa. Mesmo agora que estava fora da prisão. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço. Fazia muito tempo que não pensava em rendas. arriscando um olhar para o lado direito. Alternando a atenção entre ela e o tráfego.Especial. Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência.. de fato você nunca será mais que isso. a não ser no que tocava a si mesmo. Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise. durante quinze longos anos.... De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros. pensou. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem.. tão especial que chegava a ser perfeita. a curva pronunciada de sua cintura. não é? Por outro lado. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres. Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. O olhar de Will desceu um pouco mais. Os cabelos espelhavam sua personalidade. mas que diabos. Sim. naquela manhã. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total..

Alguém buzinou. numa tentativa de ajeitá-los. com a visão turva e a boca seca. portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas. e olhou em redor. ele olhou em redor. ao desembarcar do automóvel. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. — Escute aqui. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. Forçado a parar em um sinal vermelho. E isso se não o matassem antes! Além do mais. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar. Se pretendia mesmo escapar. moça. E era óbvio que ela iria tentar de novo. Violão em estado de novo. O sinal passou de vermelho para verde. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. Era só o que se via em termos de comércio. Mas ora. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia. apenas talvez. no entanto. se não precisasse de você para o disfarce. de modo que não podia permitir que lhe escapasse. pingente em ouro com diamante de um quilate.. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente.. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. Agora nós vamos entrar . Assim. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. Duas lanchonetes. Talvez.. uma loja de roupas. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento.. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos. — Uma loja de coisas usadas? Céus. Em vez de seguir adiante. ralhou consigo mesma por ter adormecido. resignada. as coisas estivessem começando a melhorar. um supermercado e uma loja de ferramentas. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. aspirador de pó funcionando bem. Irritado. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro.. com fome e sob uma pressão muito grande. Ela suspirou e obedeceu.futilidade pensar nisso. Não que aprovasse. legítimas algemas policiais. Era um lugarejo comum. que diabos. a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda. por ali. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. Curioso.. — Will deu de ombros. e escute direito: estou cansado.

Assim que se viu a sós com Will. logo atrás do balcão. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio. sim? Vou buscar a chave delas. — Oh. Puxou-a para si até que estivessem face a face. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua. idiota! Ele se voltou e. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos. — E agora. se preciso... — ela o provocou. — Só um instante. Contrariado.. O rapaz. mas ninguém mesmo. uma só palavra de você. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja.. quatro. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. a fez lembrar que deveria ficar calada. — Sim. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. — ela Kelly prosseguiu. Em uma vitrina trancada. lá no escritório. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. pois estas coisas venderam como água.. — Dois. um. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas. mas nada adiantara. Sabia estar agindo de modo infantil. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos. Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências.. que nada vira da discussão. — Cinco. agora percebia que jamais o tivera. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. Stone. lá fora — Will respondeu. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro. Era . Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo. Kelly explodiu. senhor.. Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão.. nojento. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa.nessa loja e não quero ouvir um pio. lançando um olhar maroto a Will. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly. Ninguém. com um brilho de desafio nos olhos verdes. furiosa. E era tudo culpa sua. fizera ameaças. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista. três. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão. ao voltar do escritório. Dito isto. — Seu verme.. não sei por quê. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação.. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. pois prosseguiu: — Como se atreve a. mas não se importava. moça. — Eu me atrevo ao que for necessário. moça. o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. aqui está a chave! — disse o balconista. com um olhar glacial.. Will a fez calar bruscamente. avisara. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta. Pedira. — Tem cinco segundos para ficar quieta. não é preciso..

muito menos da esposa. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo.. Sabe como é. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. se entende o que eu quero dizer. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia.. ela não podia fazer o mesmo. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou. — Sabe.tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários. Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. Apontou algo na vitrina. — Não! — Kelly respondeu. foi adiante. parecendo tão surpreso quanto Kelly. tinha? Não. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. com todos os diabos. A farsa sugerida por Will era assustadora. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz.. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo. calada. haviam entrado em sua loja. junto ao par de algemas. — Bem. acho que estes vão servir. afinal. para espanto desta.. Para alegria do rapaz e desespero de Will.. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente.. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly. como que imaginando que tipo de clientes. com um sorriso definitivamente malicioso.. ah. o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento. Por que. — Não. não um homem acompanhado de uma mulher. Em silêncio. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. perplexa. Na verdade. O balconista ficou a fitá-los. — E além do mais. carregadas de ameaças. Aquelas palavras pairaram no ar. Will o ignorou e permaneceu calado. Will só estava garantindo a própria segurança. isto é. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida... um pequeno e outro bem maior —. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio.. mas Kelly. podia? — Oh. — Não é mesmo.. claro que não. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. tia Millie é um pouco estranha.. Mesmo assim. Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. impulso do momento. bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente. por fim. por exemplo. Ela estava prestes a pôr tudo a . Lembranças. — Deixe-me ver aquilo ali. — Will hesitou por um instante.. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela. Céus. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar. Balançou a cabeça. A polícia procurava um homem sozinho.. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. Ela engoliu em seco. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo.

duas portas de carro foram fechadas com toda a força. Decorado em tons suaves de malva e cinza. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . Em seguida rumaram para um hotel próximo.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo. o sopro cálido da respiração contra sua pele. Era fácil notar que Will também estava exausto. Não lhe restava energia para tanto. — Tome — disse o diabo.. — Pronto. para ser mais exato. Sim. — Já sei. aquilo era o paraíso. Will parou numa lanchonete. Chegaram a Seattle no fim da tarde. Senhor e senhora Cooper. Estava faminta e cansada. — Trate de descer e ficar quieta. mas ela não se importava com isso.. sem a menor delicadeza. fechou os olhos e suspirou. ela se deixou cair numa poltrona. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. onde comprou sanduíches. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua. tudo embalado para viagem. batatas fritas e refrigerantes. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo. a leve aspereza da barba por fazer. E agora. enfiou-lhe a aliança no dedo anular. certo? — Kelly arriscou. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. você vai. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. Largando a câmera e a valise no chão. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. trate de. Minutos depois. Por um longo instante em seguida ao beijo. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. moça. entregando o cartão de crédito ao balconista. — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. — É isso aí. — Ah. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. quando o sol já se punha no horizonte. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. A idéia de comer algo.. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. vitorioso. mais próximo que nunca. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. ma no fundo não se importava. a raiva. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. sim! — Will retrucou. fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. tampouco. assim que o motor deu o primeiro ronco. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã.. quando ele já estacionava o carro diante da recepção.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

Longe disso. mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. Ele mesmo o tinha rasgado. Calça. mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida. No entanto. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse. No fundo. iam passar a noite ali. Em momento algum. inclusive o amor-próprio e a dignidade. Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida.. pedira para ser libertada das algemas. Bem. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel. Sim. Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo. Jamais devia tê-la beijado.. senão a sua ao menos a dos outros. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café. o fazia lembrar de muitas outras coisas. Aquilo devia ser piada. Mitch fechou os olhos. E então.. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. apesar dos tremores e do suor frio. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher. num claro sinal de desconforto.. Ao longo da noite ela se havia debatido. Memórias que a distância tornava dolorosas.. deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro.lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. Também precisava de algumas horas de sono. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. revirado e gemido.. Com um suspiro. por sua vez. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . aliás. Algo que. A menos que estivesse enganado. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas.. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos. um fato que ele não podia deixar de admirar. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque. Parecia muito mal acomodada. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. onde um bolso rasgado sobressaía. afinal? Não sabia dizer. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado. amargo. porém. mas agora teria que ser diferente. Capítulo V Sentado na beira da cama. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava.. no entanto. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. Podia ter perdido tudo. qual fora a sua reação. ou seja.

Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio. Trocara de roupa. Observando-a. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. deixe-me ver. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. se aproximou e abriu as algemas.. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. — Bem. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. Apontou as algemas. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso. moça. apontando a porta do banheiro —. — Dizem que a esperança é a última que morre. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava. mas não demore demais. De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora.. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram. aonde você vai? Will não respondeu. Stone. ela fez questão de recusar o auxílio. Will precisou respirar fundo e desviar o olhar. Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. Eu sou bem real. — Kelly. — Quer que eu a solte? — Oh.. Ele não insistiu. — Stone. Em silêncio. Will não fez conta das ironias de Kelly. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo. moça. como se estivesse diante de uma questão muito difícil.. tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar. Calado como sempre. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei. depois de uma noite inteira de repouso. mas desta vez não vai adiantar. Quanto a isso. céus. ele ignorou a observação. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. vamos logo! — Will chamou. acho que não. embaraçado.. Ao perceber que ele ia realmente sair. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava.. apenas pousou a mão na maçaneta. para então caminhar em direção à porta. A noite mal dormida na dureza daquele chão. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina. — Ei.culpado. porém.. É emocionante. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim. — ela murmurou. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. penteara os cabelos e . que no dia anterior. — Ei. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e. se pôs em pé. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. dez minutos depois. Meu nome é Kelly! Como sempre. — ela resmungou. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua. Will também parecia estar em péssima forma. você devia tentar! Além do mais. contudo..

minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível. Stone? Que vamos fazer. a qual constatou estar mesmo vazia. sem pedir licença ou desculpas. — Kelly tentou corrigir. Will olhou-a nos olhos. — Isto é. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma. apressada.. Começou a busca pela carteira. Estou anotando cada centavo e saiba que. sério. Recolheu os cheques espalhados na cama. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou. Nada.parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera.. — Tome. Apressada demais. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. — Ei. — Devia saber.. nada a não ser meu passaporte. Ele sequer ergueu o olhar. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço. Eu vou sair e comprar algo para comermos. pensou? — Bem.. Calado. com um sorriso triunfante. ao entregar os cheques assinados . — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. não é. Ela obedeceu sem discutir mas. — Que pena. assine estes. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. — Pronto — disse. Ao fechar . para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama. meus documentos e minhas credenciais de imprensa.. ácida. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali. se for necessário. — Esteja à vontade. — Muito engraçado — ele resmungou. — mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar... que ele tratou de guardar no bolso. como sempre. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. agora? Ele se limitou a fitá-la.. apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. moça. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa. — Kelly argumentou. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. certo? — É isso aí. mas que medo — ele ironizou. moça. causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem. Acertou em cheio. o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia. fez questão. ríspido. esse é o primeiro mandamento do manual do refém. de ter a última palavra no caso. E agora que já dei o dinheiro. Colocou de lado o estojo de pó compacto. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. na verdade. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele. que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima. — Ela deu de ombros. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. Mais uma vez Will a ignorou. colocou dois deles diante de Kelly.

Mais à frente. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. cortando o centro em direção aos subúrbios. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto. Junto ao portão de grades de ferro. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. Havia algo de muito estranho ali. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. Ao ler aquele nome. se olhares matassem. antes. com os olhos postos na estrada .. Tinha certeza de que aquela companhia era. pois não lhe restava muito tempo. Bem mais adiante.. A lei estava era seu encalço. ainda ao longe. em San Francisco. não era o momento. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. de algum modo. Manobrou devagar o carro e. — É. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. Para manter a própria sanidade. Assim. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento. pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas. que era operado por controles elétricos. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. Uma chuva fina começou a cair. Ele respirou fundo. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco. em letras negras. cercado por um muro de pedra. aliás. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. prosseguia pela cidade. sentindo um nó na garganta.. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. E tinha mesmo que ser logo. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. Reduzindo a velocidade vez por outra. inclusive.. No alto do prédio. Sem descer do carro. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. Vinte minutos depois de sair do hotel. Agora. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão.. outros problemas. pensou ele. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. e que havia uma filial em Seattle. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra.porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros. havia uma guarita. Muito além. Desse modo. passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si. pensou Mitch Brody. contudo. olhando em redor. Aquele era um esconderijo perfeito. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde.. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra. Filial de atuação bastante modesta. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz. ele cuidaria pessoalmente disso. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum. A hora certa não demoraria a chegar. sem pressa.

Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia.. Sim.. se o seu automóvel ou sua vida. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. . Will Stone era inocente. seguiu um pouco adiante para ver o quê. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. Kelly obedeceu. impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda. ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha. E por falar em teia. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista. afinal. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. teria feito o mesmo. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. porém. era difícil saber o que estava pior. Seu instinto lhe dizia. jamais o abandonara nos momentos difíceis. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz. observando e pensando. mas não estava com fome. outra vez a caminho da cidade. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. usando o seu canivete suíço para. Porco agridoce à moda chinesa. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder.. Mitch.. nada mau. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. Deu mais alguns passos Pelo quarto. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos.. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. no meio de um arvoredo. Olhou em redor. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle. já teria alertado as autoridades competentes! De repente. mas preciso ter cuidado.alguns metros à frente. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. havia por ali que pudesse interessar a Stone.. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. por exemplo. Com o passar das horas. disso tinha plena certeza. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma. n0 lugar dele. — Sente-se — ele insistiu. Por algum tempo ficou à espera. Não ficou surpreso simplesmente porque. Tensa. De fato. moça? — E se eu não parar. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela. Dando a partida em seu velho automóvel.

Parecia ter se enganado. mas os seus olhos. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem. Will não conseguia esquecer aquele olhar. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se. Will a fitou e disse: — Vamos esperar. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos. Não. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. Um lado desconcertante. ao ver a maneira .. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. achou que seria um bom modo de começar uma conversa. pensou ela. no entanto. Será que conhecia alguém ali. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum.. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera. lacônico. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. pensou Kelly. a noite. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho. Pequenas tiras de madeira... O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. exatamente. e dessa vez a levara consigo no carro.. Sua força. — Sim. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. — E então. esperando sentir por ele uma raiva imensa. o semblante sério. Delicadeza? Era estranho que logo ele. ao lado de sua valise. prepotência e amargura. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder. sua delicadeza. para seu espanto. — E então. encaracoladas como os cabelos de Kelly. Kelly Cooper não conhecia o medo. Will estaria planejando para aquela noite. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. moça! Aborrecido. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. que até então soubera mostrar apenas rispidez. no entanto. Ainda assim. O que sentiu. pela manhã.. nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou. — A noite — ele respondeu. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. Não. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor.. em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã.num gesto nervoso. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu. E não me pergunte mais nada. com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas. o que vamos fazer. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade. isso era impossível. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. — Bem..

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah. como se aparecesse do nada. porém. em última análise. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica. mesmo que Stone a libertasse agora. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões. Um muro alto. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher. e a convicção de que.. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor. — Ora..Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso.. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão. moça. — E ouviu mesmo. naquele instante. Seu espírito jornalístico não permitiria. Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos. Algumas dezenas de metros à direita. moça! — resmungou. não acha? — Kelly murmurou. O cão de guarda latiu.. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons. — Fique quieta. era a certeza de que ali existia uma história.. — Horário estranho para uma entrega de flores. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. quando ela. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta. — Quieto! — ela sussurrou.. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott. com um gritinho abafado. Tudo o que havia em sua mente. parando bem diante da guarita.. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. Ela... já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. mas não pensava nisso. O veículo. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição.. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. ela não iria a parte alguma. . mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão. se jogou ao chão e o arrastou consigo. mas Will não podia correr risco algum. um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. De repente. Algo que ela pareceu notar. Stone. incomodando-a e tolhendo seus movimentos. material para uma grande reportagem. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. ainda segurando sua mão. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. — Ainda não viu esse cachorro. Antes que ele pudesse entender o que se passava. — Sim — Will concordou —. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. — Além do sujeito na guarita junto ao portão. muito estranho. tentando assim mantê-lo perto. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. ora.

só o que Will podia ver eram as costas dela. mas.. como se realmente se importasse com ele. — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. espere aí. agora. — Venha cá — ele sussurrou. numa tentativa de recuperar o equilíbrio. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. pousou as mãos no peito dele. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. Talvez estejam. Aborrecido. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. Assim. irritado com ela sem nenhum motivo lógico. Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara.. mas dessa vez lhe deu as costas. — O que está vendo? — Will rosnou. de maneira tão feminina e suave. Kelly já imaginava o que Stone queria. Enquanto isso. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. por mais que ele tentasse resistir. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro. Ao longo de toda a sua vida. — Porque talvez não estejam entregando nada. — Carga de quê? Ele se calou. — Kelly principiou. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. Até então usara apenas seu sobrenome. Uma vez lá ele se pôs em pé.. — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu.. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. Mas não era só isso. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. Oh. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. Como o contrário seria impossível. como se. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante. — A voz de Will soou grave e rouca. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo. Ele continuou em silêncio. — Não consigo ver. apanhando uma carga. . Difícil saber ao certo. Um de seus pés derrapou na terra molhada e.. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. afastando-se do muro e de Will Stone.. isto sim. embaraçada. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher.. depois de cruzar os portões. Will a tomou pela cintura e a ergueu. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro.. ele a colocou no chão. engatinhando para junto dele. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly. ao ver que não obtinha uma resposta. Kelly ficou estática por um instante até que. — Ei. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. disse a si mesmo que tal reação era normal.

vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. de nós dois. ninguém o notou. Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. mas entorpecentes e drogas proibidas. — Bem. — Pode ser. o criminoso sou eu! — Bem. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca. Afinal de contas. segurou-o por um braço. um carro vermelho é algo difícil de não se ver. — Ah.. Encharcados e tremendo de frio. mas Por certo não fora aquela. sim — insistiu. — Você tem alguma prova? — Não. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto. num sussurro. Correndo atrás dele. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois. — Escute. — Com todos os diabos. — Pois eu aposto que foi notado. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. mas é o que pretendo conseguir. mas o problema não foi só o carro. por fim. obrigado. sim. Stone. — Então vai precisar de uma parceira.. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo. como que . você foi pego. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que.. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. moça. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. seu voto de confiança me emociona. Stone. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez.... ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. no parque? Muito obrigado. preciso. diante do forte aparato de segurança.— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. bem à vista! — Dez a um para mim. — Você precisa da minha ajuda. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão. que não estivera esperando tal reação. — Sim. precisa! — Por que acha isso? — Ora. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. se tentar fazer isto por conta própria. — Não simples remédios. fítaram-se demoradamente um ao outro. orgulhosa. tivera a mesma desconfiança. sim! — Kelly se empertigou. mas resolvi assumir esse risco. é? — Sim. Stone. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia.

A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. bastavam para atormentá-lo. Por um instante chegou a ficar preocupado. nada a impedia de satisfazer sua . avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will. onde brilhavam pequenas gotas de água. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. Deitados na terra molhada. o túmulo que ele fizera questão de visitar. Kelly suspirou. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. depois da visita à Anscott. Pensando melhor. Mas por outro lado. a caminho do banheiro. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante. enquanto se esgueiravam de volta ao carro. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa.. os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. Ao lado da mesma. Caso fosse verdade. mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo. exatamente. no entanto. o quê. Afinal. e outra vez sem avisar. afinal. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. Senão. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. decidiu que tinha todo o direito do mundo. para só então voltarem a se erguer. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão. um ser humano em seu estado original. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. contudo. apanhara no armário e jogara em sua direção. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre.medindo forças.. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will. cheia de folhas e galhos. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro. Ao chegar ao hotel. apenas entrou no carro. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. aliás. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. Não. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. porém. para quê tanto interesse? Além do mais. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. A polícia e aquela mulher. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial.

a minha vida? Já me roubou e me feriu. Bem pouco. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez. Pensando assim. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira.. mas pelo visto era pouco. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim. Nada de couro legítimo. já com alguma impaciência. para sua surpresa. mas não podia evitar a pergunta. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. ao verificar um último compartimento. apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira. — Ah. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. O que impressionou Kelly. Era uma peça comum. . num gesto brusco. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. moça.. Incapaz de resistir. — Coloque de volta — ele repetiu. abriu-a para examinar seu conteúdo. foi a falta de volume daquela carteira.. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. se é que existia algum. fazendo Kelly estremecer. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira. todavia. para não dizer ordinária. sentindo-se subitamente culpada. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. Nesse ponto. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. as fotos ainda em suas mãos.curiosidade. — Não é da sua conta.. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. — Eu. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. o outro de um rapaz moreno e sorridente. num sobressalto. seus dedos tocaram em algo. dois pequenos retratos em branco e preto. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. Curiosa. Kelly apenas o fitou. na vida. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. muda. — Coloque-os de volta. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor. algo que o tornava ainda mais assustador. Por um longo instante. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. Guardados os retratos. — Quem são eles? — Kelly perguntou. e depois de tudo isso. para ficar revirando as minhas coisas. pode tratar de fazê-lo sozinho. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor.

Stone! Como já era de se esperar. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono. Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. aquela noite fora bastante agitada. Por algum estranho motivo. cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor. Para piorar. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. No silêncio que se seguiu. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado. — Oh. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. para alívio de Will. Will ficara ouvindo cada movimento.. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. seu. Na verdade. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo. Uma vez só. seu. Mais uma vez. nos lábios dela.— Ora. Kelly tornou a gemer. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado.. a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. Will virou-se na cama e lhe deu as costas.. ainda desejava isso.. Sim.. Sem que estivesse esperando. Mas. ele atravessou o quarto e apagou as luzes. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott. quanta delicadeza. Além do mais. na esperança de poder ignorá-la. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo. por quê? Por que o seu nome. Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis.. Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu. atingindo-a no alto da cabeça. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta. Uma hora e meia depois. escolheria mil vezes o chão. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre. dessa vez bem mais alto. no entanto. sem que pudesse evitar. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor. mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso. Will nada respondeu.. Céus.. Kelly ainda estava acordada. — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante. Bem. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso. Muito grata. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração.. mas de nada adiantou. Com toda a calma. um travesseiro voou como que do nada. mas não obteve qualquer efeito... Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. pareciam ter se . Seus pensamentos. veio-lhe a imagem daquele homem nu.. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. Não conseguia deixar de sentir por Kelly.

não? Afinal. as mãos pousadas em seu peito. incapaz de raciocinar com clareza. o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. . jamais a teria seqüestrado. a trouxeram para junto de um peito nu. na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. Não. tivera suas próprias razões para fazer o que fizera. admitiu que acabava de ser derrotado.. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho.. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. Mas se era assim. no qual tudo parecia gelado e hostil. Sim. Ela voltou a gemer. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel.no entanto. Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor. Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama.. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade. Era um sonho estranho. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho. ele não a tratara com gentileza. se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber. Confusa e ainda não de todo desperta.. Tinha o pulso machucado. — Fique quieta. algemá-la na cabeceira. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e. logo agora. Will praguejou baixinho e.. sentira que faziam parte um do outro. de certo modo. Aliás. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole.. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz. pois fora a maior responsável por sua condenação. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos. Kelly não estaria agora deitada no chão frio. Raios. Kelly Cooper estava em débito com ele. ainda que a contragosto. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de. O peito de Will! — O que você.. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e.. Não fora? Kelly gemeu.. Se ele fosse tão decente quanto queria crer. Por um breve instante. Agora que pensava melhor.tornado inseparáveis. Em meio a tudo aquilo. não a tratara sequer com humanidade pois. as costas contra um muro de concreto.. num único movimento. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação. logo após o banho. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. amordaçá-la e sair. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. E então notara as fotos nas mãos dela. — Não me deixe presa de novo. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater.

— Não vou algemar você e não vou sair. . mas acreditava nele. — Pare com isso! — ele ordenou. com certeza. Fiel à palavra dada. está bem? Kelly não saberia dizer por que. Ergueu os lençóis para Kelly. — Pare de se debater que eu a solto. a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo.. obrigou-se a se afastar dela.. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. a voz outra vez seca e direta. — Por favor. ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si.— Eu vou com você aonde quiser. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração. mas por favor. lutando e se debatendo como podia.. o que não era muito mas. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. antes que pudesse protestar. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem. aquecidas contra o peito de Will. juntou-se a ela. era melhor que nada. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. agarrando-lhe os pulsos. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. de tomá-la em seus braços e protegê-la. Era como se. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante. — Não! — ela implorou de novo. sem a menor cerimônia. Não conseguiu. naquele breve lapso de tempo. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e.. Ou talvez porque. ele de fato lhe soltou os pulsos. Perturbado. deite-se. Ela suspirou. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela. no fundo. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. eles se tivessem fundido num só. renovando suas forças. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. — Durma — ele ordenou. no entanto. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. caso ele a quisesse algemar outra vez. não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. — Vamos. as curvas. Como se as formas. rude. segundo que Will não estava nu como imaginara. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel.

O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. Não era. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão. hoje. A despeito do frio que fazia naquele quarto. um pouco antes de adormecer. mas muito mal. ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo.. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. de costas para ela. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher. Sim. estava atraída por Will Stone. macio e. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes. a julgar pelo péssimo humor. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença. Alguma coisa.. agora. no entanto. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga.. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez. O quarto está gelado. Onde estava? Com certeza não era o chão. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. estava em guerra com o mundo todo. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. Kelly acordou assustada. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista. recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. Sim. Will se voltou. Afinal. Com um sobressalto. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. ela o queria. era um lugar quente. um presidiário fugitivo. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga. Como ele.. Ao contrário dele. no entanto. Lá estava Will. tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada... — Ah. e no sentido mais verdadeiro da palavra. — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone.. ponderou Kelly. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . Aos poucos.. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. continuar correndo.. aquela seria uma relação impossível. Afinal também era uma fugitiva. Não. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. o avisou de que ela havia despertado. mas. Pensando bem.O que apenas o tornava mais perigoso. Ele a seqüestrara e. percebeu que Will havia falado com ela.. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. mas. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem. devagar. — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele. Vou mudar de hotel. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. pensou ela. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso.

Ela concordou. Após alguns minutos.. A tática funcionou. — Tenho um ferro de passar. ele criava outras duas. permaneceu sério como sempre.. eu faço isso — disse Kelly. certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. Ou melhor. por mais que os anos se . em minha mala. mas estavam sempre limpas e bem passadas. Já passei muitas calças. — Will murmurou. — O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos. passados alguns minutos. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. saindo da cama. na vida! — Calças molhadas. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. mas não ousou tocar nesse assunto. — Sou uma mulher de muitos talentos. — Lembranças são sempre maravilhosas. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido. pensativo.. como também é mestre em secar a ferro calças molhadas. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor.. — É verdade. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém. apenas sacou o canivete. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. — As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper. — ele comentou. Para cada ruga que conseguia eliminar. Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. sentindo-se ludibriada. — Pode deixar. — Acho que está bem no fundo. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira. — Não é necessário. — Posso? Kelly o fitou por um instante. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. eu e uma série de babás. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. ainda deitada. Kelly continuou calada.. do lado direito.mesmo lugar. — Sim. preferiu fazer um comentário menos direto. Em vez disso. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. claro — ela respondeu. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las. porém. Will nada disse. em silêncio. mas escondeu a surpresa que sentia. — É isso aí — ela respondeu. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca. É um modelo de viagem. Will..

— Quantos prêmios você já ganhou. nada importante — ela respondeu. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. sem erguer o olhar. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. intrigada. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. . mas simplesmente porque detestava falar a respeito. Transcorridos alguns minutos. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. — Pronto. contudo.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. — ele riu sem vontade. Com extrema delicadeza. diante dela. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. evasiva. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly.. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. ela secando a calça aos poucos.. ambos permaneceram mais algum tempo calados. Não por falsa modéstia. — Eu sei. aqui está. Eu li a seu respeito — ele confessou. Will deslizou um dedo sobre o hematoma. visivelmente perturbado. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele. Quando ela fez menção de se afastar. Embaraçado como um adolescente. mas naquele momento. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto. às vezes. Mais que essa constatação.. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. no entanto. — Jamais tive a intenção de machucá-la. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will. na prisão. Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. ele dedicado a seu entalhe. mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou.. não pudera e nem quisera se conter. Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta. Como que por um entendimento mútuo.. Kelly o fitou. Alto demais. além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos.. surpresa. Will a segurou por um braço e a impediu.. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone.. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. — Afinal. — Meu pai também viajava. foi Kelly quem quebrou o silêncio.. — E então. — Sinto muito — ele se desculpou. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio. — Diga. — Kelly murmurou. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza. Podia ver isso em seus olhos. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. — É.. Aliás. o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. mas não se iluda com as aparências.

A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista.Confusa. mas. Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. — Kelly deu de ombros. para então espirrar. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la.. capturado a verdade.. Mais que inquieta. diga-me como devo fazer. Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. ela passara a sentir-se inquieta. servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. acha? — Talvez. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser. Will os registrara como marido e mulher. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. necessariamente. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. Dito isto. moça. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu. — Ah. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio. Por razões que Will não saberia explicar. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. Na verdade. é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. será que não estava enganada? Afinal. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem. Não tinha mais nada a dizer. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. devo dizer. — E graças a você. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. Faz um julgamento daquele instante. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will. na verdade: ficara assustada. ela se limitou a fitá-lo por um instante. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. Mas. como fizera no outro hotel... não é? Depois da conversa daquela manhã. O que não significa que tenha. Sim pois. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. O problema . — Afinal. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. mirando o fundo daqueles olhos verdes. Quanto à pergunta de Will. — Sinto muito.

então? — Como já lhe disse. de nós dois o criminoso é você.. a jogara pela janela. se não pretende provar sua inocência.. é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo.. Pronto. você está certo.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. — Não preciso saber de mais nada. O quê. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças. A seu lado. — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. Então. Não.. culpando a Anscott? — Moça. Kelly o fitou. Kelly se calou e o fitou. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. porém.. — Você tem esperanças de provar a sua inocência. Quem venceu foi esta última.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. De fato. ou melhor. sim! — Ah. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera. a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. ela não sabia ao certo. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas. E mesmo assim. — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão. como uma imagem fora de foco que de . Não mesmo! Aliás. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. sim? — ele retorquiu.. — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. moça.. — Preciso. — Kelly deu de ombros. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe. — Não. E pode ficar tranqüilo. eu... séria. moça! — Dito isto. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu.. — Poupe-me de seus conselhos. — Ninguém acreditaria. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado. — Seu irmão? — Sim. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é. para quê tudo isto. Afinal. Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. — É. sarcástico.

para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira. — Tem duas opções. pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços. aliás. Não queria ser notado. um imenso vazio denunciava a emoção contida. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho. por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. Ótimo. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. Em seus olhos. enfim —. Não tinha dinheiro para quase nada. casa e emprego. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. pensou Mitch. observando dali o movimento na portaria da empresa. Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. do lado de fora dos portões da Anscott. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. caso fosse pego. ao menos por ora. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. mas sua vontade valia pouco naquele caso. Seu novo trabalho. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar. Ele perdeu o equilíbrio e foi . As palavras de seu superior. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. Suas dívidas se acumulavam. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance. dormindo sentado. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. não pensou em nosso filho? — Papai. Dessa vez. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. Pare de sentir pena de si mesmo. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. pois não tinha idéia do que dizer.repente ganhasse definição. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. ele ordenou. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. Em tempo algum olharam em redor. era quase o mesmo que não ter trabalho algum.

— E o que mais acha que eu poderia pensar? — É. como se tivesse algo de felino. duas.. — Oh. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. Will fitou o detetive por um momento. que conferiam a Stone um ar agressivo. no entanto.. Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer. — Você joga duro. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. Um leopardo ferido que. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. a despeito da dor. me desculpe. continuava a lutar. isto não é um jogo — Will respondeu. Sim. se é o que está pensando. antes de concordar. A despeito da escuridão que reinava no estacionamento. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. era tão alto quanto este. a porta do quarto se abriu. acho que vou morrer de pneumonia. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. ainda massageando o braço. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! . — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome.. foram seu olhar sombrio e desconfiado. O que mais lhe chamou a atenção. — Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades. — Mitch deu de ombros. pela décima vez. Ao entrar no quarto o desconhecido. aquele homem parecia um enorme leopardo. Isso por certo significava alguma coisa. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois. seco. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor. Este obedeceu e imaginou. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma. não? — Não. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação. Zonzo de surpresa e dor. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa. três vezes em seguida. talvez devesse ter pensado duas vezes.. não só a Will.lançado com violência contra a lataria. se não estaria cometendo um erro. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão. Sim. Lado a lado com Will. você está certo. um homem louro de meia-idade. quase que no mesmo instante. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel. embora de porte físico menos maciço. Com um gesto.. — Olá — ele a cumprimentou. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. Da janela. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. antes de se envolver naquilo. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado.. Tudo nele inspirava leveza e agilidade. por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. — Escute.

Pela expressão em seu rosto. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom. alguém se apoderou desse dinheiro. Stone. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos. Brody! — Talvez não. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. Prossiga. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. num tom neutro. — Tente outra história. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado.. E agora o Sr.. — Continue — disse Will. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. Não sei se tem visto os noticiários. tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso. — Ele se voltou paira Will.. — Você mesmo me disse que. — Detetive particular? Ora... nessa briga? — Porque. — Ele tornou a olhar para Will. um fato. Bem. sem muitas pretensões de convencer alguém.. — Vou abrir o jogo. Stone. que você não mencionou. — Mitch arriscou. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro. Alguém que o usou para deixar a cidade. também não foi encontrado com Stone. aliás. — Bem.. Como antes. Dinheiro que. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. aliás. antes de desaparecer.Will preferiu ignorar o comentário. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott.. voltou a atenção para Mitch. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe. Espirrou mais algumas vezes. Não é uma proeza pequena. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma. porém. . Brody. — Sente-se — ordenou ao visitante. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato. E bem depressa. — Obrigado. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas. — O detetive respirou fundo e deu de ombros. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. Kelly o fitou por um instante. mas eu não preciso de um fã-clube. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira.. Tomara um havia menos de uma hora. está certo. — Está certo.. Em vez disso. — Por que estaria interessado em ficar do meu lado. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso. para variar. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante. Sr.. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história. Se querem saber o que penso. — O que acha? — Por enquanto não acho nada. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão. mas há muita gente atrás de você. — Bem. ela não teve tempo de pensar a respeito.. tecnicamente. então.

acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda. decerto não notaram a relevância desse detalhe. certo? — Kelly argumentou. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma. Foi enterrado como indigente em San Francisco. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa.. O remédio para gripe já estava fazendo efeito.. deixando-a sonolenta. Sr. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. — Ora.. Aliás. — Mitch olhou para Will. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. — Sim — Will replicou. ou preferiram não notar. pois para eles isso pouco importa.. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. Aos olhos da acusação. — O que aconteceu com o irmão de Will. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber. também. — Exato. Pelo modo como Will franziu a testa. intrigada. talvez não.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime. Em caso positivo. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. A angústia era transparente em sua voz. Brody? — Pode me chamar de Mitch. — Se ele fugiu para Los Angeles.. E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. Ao que soubessem. — Will hesitou. indo direto ao ponto. Não sabiam sequer que tinha um irmão. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu.. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele. . Mitch apenas confirmou com um gesto. — Kelly balançou a cabeça. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros. — Não entendo. muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio. calado. — Bem.. De fato. — É isso o que você pensa. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. como se lhe custasse muito dizer aquilo. — Ele pode ter sido. brusco. — Quando consegui localizá-lo. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. tenso.. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se.. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou.. mas nunca foi um viciado. — Ele abriu um breve sorriso. — Quero dizer. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam.

— Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. ao longo da conversa. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar. e quero tomar parte nisso. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos. Stone. olhando pela janela. — Eu as quero. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. Seu irmão tentara fazer a coisa certa. — No meu escritório. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou. .. Na verdade. — Bem. Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. para saber o que fora feito do corpo. dizendo que precisava falar a respeito do caso. Por fim. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão.. Will. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta... Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável. tudo isto é fascinante. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários. por ora. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. — Antes que o outro pudesse protestar. — Exato. se voltou de repente. que até então estivera de costas. Marcou um encontro com seu irmão. ainda encarando o detetive. — Brody. Como ele não compareceu. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos. em respeito aos sentimentos de seu cliente. — Bem lembrado — Will interveio.. Guardei para você. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado. você nunca me contou isso! — ele acusou. — Kelly espirrou. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott. Mitch. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote.. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly. que me contou a respeito do encontro. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. com a voz trêmula de emoção.. Vamos deixar nesses termos. — Se querem mesmo saber.— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. Kelly percebeu que. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás. Ele telefonou para o seu advogado.. então liguei para ele. — Mas não explica por que vinha nos seguindo. — Eu sei. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles. — É uma descoberta recente. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. Apreciava tal demonstração de sensibilidade.

— Mas ele está certo. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas. — Acho que vou. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez. parecia mais desperto e atento que nunca... já o teria feito desde o início. se fosse o caso.. — Bem. tonta. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. vá se deitar — resmungou. — Você sabe que isso é ilegal. a mágoa que tal covardia lhe causara.. — Como eu disse. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la.. ao contrário.. Esse era um sentimento que o perturbava. pensava um monte de coisas. — É. Coisas demais. e perdi. sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa. seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. mesmo.. um só gole de bebida. sério. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça.. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite. na verdade. que acabara de trancar a porta do quarto. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos. Will. a fuga de Stephen. — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia. o fez com mais rispidez do que pretendia. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial.. para o desconforto do banco de seu carro. você sabe. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante. não sabe? — perguntou Will. — Ande. Brody. tenho as minhas conexões. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto... — Hmm. antes. Não. Will.. — Muito justo. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will.... — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não. Já teria avisado a polícia. de modo que quando se dirigiu a Kelly. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. — O que você acha disso tudo? — ela murmurou.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado. mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas. — ela concordou. Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. — Kelly gemeu. — Como? — ela perguntou. você pode apostar que sei. Kelly deu de ombros. — Estou impressionada — Kelly resmungou. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás. Além do mais. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É. Queria demais aquelas plantas da Anscott. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados.. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. E para a terrível necessidade por um gole.. Stone.. cruzando a passos incertos os poucos metros . Mas já joguei limpo e de acordo com as regras. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu.

num gesto terno.. Sim. Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper. — Você não vai fazer nenhuma besteira. imaginando se não seria melhor algemá-la. Além do mais. quero dizer. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia.. — Olá. pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. E Kelly ficara. se deu conta de que era uma idéia ridícula. Ela se mexeu. num tom muito mais brando. não é? Na Anscott. A meio caminho do banheiro.que a separavam da cama. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair. Abriu devagar os olhos. Assim adormecida ela mais parecia um anjo. Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil. que lhe tocava o coração. Will parou e olhou para trás. — Volte a dormir — ele repetiu. sem que pudesse evitar. porém. Com toda a certeza. Quando fez menção de se levantar. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo.. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. — ela olhou nos . ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. Embora de forma indireta. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. Minutos mais tarde. Essas coisas. ficou imerso em uma agradável penumbra e... Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will. por algum motivo. Gemeu baixinho. Não só ela estava sem condições de sair dali. ele a deixara sozinha no quarto.. eu. contudo. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. mas nem por isso menos adorável. mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. Vendo-a estendida na cama.. porém. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração. Respirou fundo e desviou o olhar. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. como tivera a chance de fugir e não o fizera. as pálpebras pesadas de sono. — confusa e sonolenta. Will engoliu em seco. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia. Kelly o segurou por um braço. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava.. e com um futuro ainda mais incerto. O quarto. No entanto. Céus. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física. que dormia a sono solto. porém. — Eu. ela já havia dado provas de que pensava assim. No mesmo instante. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim. seu olhar pousou em Kelly. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. depois de um banho rápido. Sim. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco. Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. — ela sussurrou.

Will respirou fundo. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava. ao menos uma vez.. odiando a si mesmo pela mentira.. Mitch usou a outra para abrir a janela.. do lado de fora do carro. — Então você vai ficar livre. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito. ter sua participação aceita. Nada jamais terminava bem. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will.. Acreditara que talvez. E por mais que tentasse. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. ao deitar-se na dureza do chão.. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos.. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. E naquele instante. dessa vez ele pudesse vencer. apenas talvez. Por outro lado. sem saber que decisão o outro havia tomado. — Não vai entrar lá com. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente. eu terei minha reportagem. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la. Sim porque. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. mas com uma condição.olhos de Will. não só queria que a justiça prevalecesse. Tolo por acreditar em milagres. — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está. Tolo. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça.. — Oh. . mas é claro! — Will murmurou. para ele.. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu. Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo. enquanto ouvia Kelly falar. mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza. e tudo vai terminar bem. Naquele instante... Alguém iria pagar pela morte de Stephen. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. gritou para si mesmo.. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro. em silêncio. certo? Certo? — Certo — disse Will. Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão. pensou. sem rodeios. — Você não está mentindo para mim.. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. sério e calado.

então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. além de um sujeito no setor de carga e descarga. há uma porta principal que separa esta ala do restante . — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. . Will e Kelly. apanhar as provas e sair. — É. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. verificavam as entradas. O furgão da floricultura entrou aqui. estudava o sistema de alarmes do prédio. — Este canto é ocupado por escritórios. — Bem. — Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos. Tudo está claro e bem explicado demais. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. haviam seis salas. — Vejam. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. Diante do comentário de Mitch. no entanto. Ela. certo? — disse Kelly. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição.. o mesmo se aplica a todos estes papéis. Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum. com um ar mais grave que nunca. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. — Eu dou as ordens. salas e corredores da construção. Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. Mitch. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada.. pelos fundos. Era um grande corredor no qual. — Will apontou as divisões expostas no projeto. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. — Não que eu seja um especialista no assunto. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga.— Pode dizer. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência.. vejam. de acordo com a planta. o desespero com que ele desejara beijá-la. entrar. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. lado a lado. Mitch sorriu e deu de ombros. — Faz sentido — Kelly concordou. Horas mais tarde. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch. acho que posso suportar isso. Apontou a área onde ficava a produção. e neste fica a produção. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou. todas muito bem pagas. ajoelhado aos pés da cama. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. com isto aqui. perturbando-lhe a concentração. — Sim.. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will.

. guardas e cães. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will. mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. Ele tem urna carreira nesse setor. quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável.do prédio. pode ser qualquer um: cartão magnético. bem sucedido. deviam ser. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica. — O dono. então. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. — Estou pensando. E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. sempre atenta. E aqueles lábios. — Em primeiro lugar. depois de passar por muros. Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. temos que encontrar um modo de entrar no prédio. — Alguma idéia? — Will perguntou. Kelly começou a espirrar de novo. Constrangida. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio. continuaremos sem o cartão. — Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. os três estavam sentados no chão do quarto. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. — Quanto ao atual administrador. mas o que havia em redor deles. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo. vencida pelo sono. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais.. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. Não há indicação específica na planta. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . nele pareciam apenas realçá-la. Talvez não tenham percebido. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. O cabelo despenteado. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu. Lá pelo final da tarde. — E quanto ao tipo de sistema. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. Kelly olhava não em seus olhos castanhos. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. — Eu discordo. — Estou pensando — disse ela. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça. impaciente. ou donos. — Bem lembrado — Mitch concordou. mas não para ele mesmo — Will insistiu. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will.. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. — Está bem — interveio o detetive —. teclado com senha numérica. devorando uma pizza de queijo. a barba por fazer. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. claro. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. — Talvez. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. hoje em dia. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou.. Kelly. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens.

— É.. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e. mas. — Quer vir junto. — Vou vigiar os portões da Anscott. Hesitante e embaraçado. fitando um ao outro. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças. Consultoria Califórnia. — Obrigado. Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior... Kelly e Will se entreolharam. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. — Esse laboratório parece não ter um dono. sim. por exemplo.. Durante vários segundos silenciosos. mesmo. Diamond e Santico. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada.. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. como Quantex. Mitch abriu um sorriso largo. intrigado. — Alugue um quarto. certo? — B-bem... Mitch recusou: — Eu. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou.. no limite da exaustão. O que foi impossível descobrir. Brody? — Ora. Mitch se levantou.. — Acho que estou. hã.. caminhou até a janela e olhou para fora. — Will olhou nos olhos do outro.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça. — Ah. — Ainda está trabalhando para mim. sem jeito. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. — Então trate de alugar um quarto e descansar. Will continuou. esta madrugada — disse Will. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado. pigarreou e prosseguiu. De repente. depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido. Parecia cansado. parece ter um número infindável deles. não está? — Sim. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. ou melhor.. — A quem. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. mas. afinal. eu não preciso. — Mitch sorriu. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem. homem! — Will insistiu. por fim. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade. — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono.. . — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez. — Se bem me lembro. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch. mas ninguém tem o controle acionário.

como sempre. — Desculpem! — ela sussurrou. Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. até parar diante do portão. desta vez acompanhada de sua câmera. — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite. mas dessa vez não a feriu. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. — Vamos ver quem é o dono. hein. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. De repente. Enquanto isso. se puder — disse Mitch. teriam que fazê-lo o quanto antes. Will. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. caindo ao chão e espiando em redor. — Abaixem-se — Kelly alertou. — Está bem. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. Nunca. — Boa idéia. Com isto o detetive se retirou. a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. A uma certa distância dali. também — observou Mitch. mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. sem perder tempo. Mais perto agora que da outra vez. Uma . Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. algo de que Will parecia compartilhar. oferecer o quarto a ele. — A que horas apareceu o furgão. Kelly espirrou. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. O tom da voz dele soou áspero. ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo.— Você sabe jogar duro. Como um manto negro. Mitch e Kelly. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. nem que vivesse até os cem anos de idade. Tenso. — Não sei. o cão de guarda começou a latir. — Pois é. Kelly sentia o tempo correr contra eles. este a estava observando. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. na primeira noite? — Mitch perguntou. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. — Faça uma foto. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. — Acho que posso investigá-la. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. Era o único ruído por ali. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele. não se esqueça disso! — disse Will. porém. — Foi muito gentil de sua parte.

— Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. Agora.. ou talvez ao longo de toda a sua vida. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. Pensou em Will. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite. — Interessante — Mitch considerou. no entanto. também. — É verdade. Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. no entanto. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. — Grande garota! — Mitch elogiou. — Dessa vez foi Will que respondeu. outra vez. Will. Mitch. como ela própria. — Kelly fez mais uma foto do guarda.. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade. deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa. embora dissesse ser inocente? Céus. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. Will procurava não pensar em nada. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. em plena noite de domingo! — Realmente estranho. — Faz sentido — Will ponderou. àquela hora. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. duas.. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. — Consegui — sussurrou Kelly. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. está indo para os fundos do prédio. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. dali a alguns minutos. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou. — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial. estaria achando tudo muito estranho. afinal se estava doente não deveria sair de casa. que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. — Vamos ficar mais um pouco. parecendo calmo e indiferente. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. Menos de vinte minutos depois. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas. — Bem.foto. e agora? — perguntou Mitch. Em parte por saber o que tinha à sua espera. sem ninguém? Ou será que. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um .. Ao passar pela guarita. fora forçado a trilhar aquele caminho? . três e o furgão saiu de seu alcance. chamou os companheiros e apontou: — Vejam. faltou ontem e tornou a aparecer hoje. não acha? — Will comentou. Sim. sentado no chão úmido. . Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. nenhum deles falou muito. — Claro. imaginou o que seu filho estaria fazendo. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos. domingo. que contava com uma boa visão da frente do prédio.

... — Kelly murmurou. pegue o sujeito! — Will sussurrou. mais para si mesma que para os dois homens. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. — Não. — Psiu. Brody. — Quero dizer. No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. A coruja tornou a piar e então se calou. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou. o silêncio que pairou entre eles foi total. por exemplo. Já tomei remédio. Com justiça e honra. Isso. enquanto a limusine atravessava os . eu sei. porém. não o faria mudar um só detalhe de seu plano. Mitch resmungou um saúde. — Mitch deu de ombros. Só que você não respondeu. Além do mais. por que está fazendo isto? — Will perguntou. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. Em questão de segundos. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele. como que esperando também pela resposta de Mitch. Ao ouvir a palavra bêbada.. obrigada.. Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. — Bem que uma das janelas podia estar aberta. ansioso. — É.. e me senti bêbada. E naquele momento. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. — Kelly anunciou. inquieto. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. curioso. com esses vidros.metro de distância dele. — Bem. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper. como se suas preces tivessem sido atendidas. Durante dez minutos. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. em direção ao arvoredo. no entanto. — Diga. ontem. só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. o homem se voltou em sua direção. Com um gesto rápido.. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida. — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch. por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. Por causa da distância e da pouca luz. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. com a maior velocidade possível. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. Então. Stone. — Oh. Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais. rosnando e latindo como louco. desça mais! — Olhe lá. — Raios! — Will resmungou baixinho.. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. Mitch se remexeu. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás. já que se pôs a correr rente à cerca. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou. vamos lá. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. — Difícil saber. um dos vidros começou a baixar lentamente.

— Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. intrigado.. já tinha muito com que se preocupar. — Estava escuro. já de saída para seu quarto. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores.. Sim. pode ser — o detetive resmungou.. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. — Ou teria sido número oito e letra C? Céus. a ansiedade explodira entre eles. — A que horas abre? — Kelly perguntou. Will concordou. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. — Ótimo. Não pude ver. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. Mas o fato era que ela estava. no desespero da fuga. melhor. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta.. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional.portões. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer. às pressas e sem muito êxito. — Nove da manhã. porque o detetive também estava fugindo. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse. E como seria se. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora. estavam os três novamente no quarto do hotel. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo. Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. era algo que teriam que esperar para ver. Quanto mais cedo. saindo e fechando a porta atrás de si. agora não tenho bem certeza. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo.. encontrei um — disse Will... Brody. Era um sentimento que não desejava a ninguém. Se conseguira ou não. . mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la. na verdade. de algo que Will ainda não sabia o que era. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno. — O que é que você achou? — ele perguntou. — Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. com um gesto. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo. — É. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. — Aqui. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que.. — Não sei — disse Will —. retirando o filme de dentro da câmera. Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper.

algo naquele homem me pareceu familiar.. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. seja apenas um pouco menos. mas. pensativa. o que ia dizer? — Will quis saber.. — Vá logo dormir — ele explodiu. mas então deu de ombros. mas.. — Ela balançou a cabeça. ele fitava a noite em completo silêncio. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. pode parecer esquisito. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. formas e . convencido de que ela não iria fugir. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama. e daí? — Ela se empertigou. moça. Sim. Engraçado. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes. E que Will estava presente. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. Na noite anterior. como você é teimosa! — Sou mesmo. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. quando ela acordou assustada. — Bem. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico. colado ao seu. — Como assim? — Não sei. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou. mas quase que no mesmo instante ela constatou. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante. — Por um instante Kelly franziu a testa. — Não precisa ser santo. Corpo que já tivera bem junto de si. orgulhosa. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. E perdera de fato. — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão.. sem compreender. — Bem. porém. que não havia algema alguma. aliviada. com as mãos na cintura. saindo da cama em direção ao banheiro.— O que achei? — Ela o fitou. Poucos minutos se haviam passado. — Oh.. Esqueça! — Não. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will. Will fora dormir no chão. — Ah.. — Diabos. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. como se tivesse perdido por completo a paciência. Será que faria o mesmo. conferindo-lhe um tom prateado. Seja como for. nada. sombras. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. Parado diante da janela. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. na Anscott — ele se explicou. Kelly finalmente adormeceu. com Kelly e consigo mesmo.

Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. vingança? — Kelly perguntou. — Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.. À luz difusa do luar. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora.. tocar a escuridão. — O que está tentando provar.. calada. em meio à solidão da noite. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo.tons.. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada. — Coisas como. A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly. — Eu estou fugindo da polícia. Havia algo de intangível. . jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama. mas havia mais que isso naquela cena. por aqui. Ver a lua e as estrelas. Se a pergunta o pegou de surpresa. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. Will voltou a cabeça para fitá-la. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. após um longo e angustiante silêncio. a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão. orgulhosa. Na melhor das hipóteses. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo. que não ganhe uma dúzia de prêmios. Pode partir quando quiser. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa. — A lua — ele respondeu. ora! — disse Kelly. — Ora. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo. mas não conseguiu. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo. num tom suave. grata pela escuridão quase total do quarto. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera. Se quer saber.. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa. na prisão. sim? — ele pediu.. — Will... — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe. não me venha com essa. evasivo. Will não o demonstrou.. moça. seus olhares se encontraram. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora.. está morrendo de medo de falhar. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu. ouvir os sons da noite. — Não entendi — ela resistiu. tudo bem. era disso que eu mais sentia falta. Por fim. sem se voltar. sem obter resposta.

Minha mãe morreu. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. — E ele tem razão. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar. agora. E no entanto lá estava ele. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém. também! — Não há nada para falar a meu respeito. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. vamos.. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida. Nada! — Então me conte. que precisasse de outra pessoa em sua vida. Fale-me de você. — Will mal podia crer no que estava fazendo.. Will estava sendo ainda pior. — Kelly balançou a cabeça. já disse.. então — ele insistiu. — Escute aqui. — Ora. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. Stone? Vamos conversar a seu respeito. embora estranhamente acreditasse nele.. com um sorriso triste nos lábios. — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. — Pode ser. — E quanto a você. meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. Nem todas vão embora — disse Will. — Não seja ridículo — Kelly respondeu. Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si. antes. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras.. quando diz isso? — É. talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável. — Não sabe nada a meu respeito.. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos. está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. apenas talvez. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. cínico. Precisava se proteger. — Faça de conta que acredito. Como em outras ocasiões. claro. Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher.. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa.. — Eu não tenho medo. Talvez. — Oh.A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly.. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . que quisesse. — Todo mundo. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente.. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. Ela se calou de repente e baixou a cabeça. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. — Ela deu de ombros e suspirou.

os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha.. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. lembra? Will engoliu em seco. você parece bem real. carnudos e tão tentadores. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também.. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou. pensou que seu coração fosse parar de vez. Foi você quem começou com isto! — Olhe. — Não se pode falar do que não existe. a voz mais rouca que nunca. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui.. e que desejava beijar de novo. porém. como eu já lhe disse.dos outros através da perfeição.. Tomou a olhar pela janela imaginando que. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça. deixando-a tontas enfraquecida. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que .. — Volte a dormir — ele resmungou.. caso aquilo fosse um espelho. não dissera nada quanto a chamar atenção. para mim. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. Lábios que ele beijara uma vez. — Isso é impossível — ela murmurou. porém. a pele branca banhada pelo luar. mas através de seus defeitos. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo. — Você não existe. — Não. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar. ousada. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. vou acabar beijando você. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. Como um vampiro. — Por quê? — Kelly perguntou. — Volte para a cama — disse ele. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade. ainda fitando a lua. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. E quando a viu tão próxima. num. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo. Sabia que ela o estava provocando. Mais que tudo. Diante daquela confissão. Macios. — Com o devido respeito à opinião de seu pai. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações. A partir desse instante. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. Os cabelos cor de fogo. que também não deixava de ser um desafio. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la. não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou.tom ríspido e cansado. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will.

O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. evitava olhar na direção dela. esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte. vá dormir! E vá logo. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. ou estou vendo filmes demais na . pela manhã. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. enquanto tomavam o desjejum. No momento em que o vira. em direção ao Canadá.. Seus lábios. teve toda a madrugada para pensar se teria. — Ande. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento.os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. como você — Kelly perguntou. entregaram o filme no laboratório fotográfico. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda. — Vá dormir! — Will ordenou. Mitch e Kelly. Will. em toda a sua vida. Tinha. Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. Kelly voltou para a cama. da maneira mais eloqüente. — Sim. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. Deitada sozinha. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono. Com um murmúrio abafado. tentando levantar um assunto mais leve —. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse. mas não conseguiu dormir. ou então para o norte. O consenso geral é que você está fugindo para o sul. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. Ele a queria. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado. Lábios que se abriam devagar sob os seus. se arrependido se houvessem feito amor.permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura. que Will Stone existia. abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. Dominado pela paixão.. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. de fato. ofegante. num doce convite. contudo. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. molhados e vermelhos. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. — Isso é bom — Kelly comentou. rumo à fronteira com o México. fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços.

. ao ver cenas de uma festa. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior. Seus olhares se encontraram e então. as quatro fotos da festa. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. — Parceiros? — Kelly o fitou. — Não foi culpa de ninguém. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. aliás. — Nada. começou a olhar as fotos. iria mesmo responder. Quinze minutos depois. Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos. — Eu devia ter feito melhor. Cinco delas. mas não respondeu de imediato. Mais tarde. no final do monte. Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte. intrigada. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro. Não agora. Ansiosos. também. intrigado.. ao ver a foto seguinte. como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. mas não há como ler o número da placa — Will observou. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo.. — Tudo bem — ele murmurou. a voz de repente tornada mais rouca. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível. estava escuro como o diabo! — disse Will. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. cabelos negros e um enorme bigode. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly. aqui está. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. voltou-se para fitá-lo. — Kelly colocou para trás. porém. mas não contra as condições precárias em que fotografara. — Não. No caminho de volta para o hotel. E quando Kelly já pensava que não. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. quem sabe. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. eu costumava trabalhar com esse policial. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. como na sexta-feira. Kelly abriu o envelope e. — Raios! — Will praguejou. — Ótimo — Mitch exclamou. num gesto terno e reconfortante. mas.. E havia mesmo. Assim que chegaram ao carro. — Eu e ele éramos parceiros. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives... e sim contra a própria incompetência. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos . tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho. Kelly resmungou uma imprecação. — O que é isso? — Mitch perguntou. não está nada bem! — ela discordou..televisão? Mitch a fitou.. ansioso. — A culpa foi minha. — Calma.. — Ah. — Ontem à noite. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não.. — Nesta aqui há. é o furgão. Sem palavras. — Um curto silêncio se seguiu. Will e Kelly compreenderam a deixa. — É.

escuros que chegara na limusine. — Saúde — Mitch sussurrou. — Engraçado. — Ela balançou a cabeça. também. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly. — Santico? — Kelly repetiu. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. — ele comentou.. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho. — Sinto muito. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista. Deixando de lado essa foto em especial. — A Santico.. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número.. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. Quando dei o número da placa. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. — Ah. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim. — E quem é — perguntou Will. . — Não me pareceu. apanhou as quatro que colocara para o final.. com um ar misterioso. se aprende logo a confiar no instinto.. — Mitch sorriu. porém. eu acho que não. — Não. — Deixe-me ver — pediu Mitch. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato. de modo que as deixou de lado. — Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. Onde? Não fazia idéia. Nesse instante Mitch. E quando se é um policial. as peças começavam a se encaixar. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem..

— Só esperando para ver — disse Mitch. — Will resmungou. assim que a pousou de volta no chão. como o da floricultura? — Will arriscou. rapazes. sério.. Na verdade. nenhum dos dois . depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder. ou melhor. fora terrível e demorara uma eternidade para passar. você e Mitch! Will a fitou. Nem todas vão embora. A noite anterior não fora das melhores. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. ao lembrar daquele beijo. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos. a boca tão úmida e macia. inquieto. Também no furgão.. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados. — Outro disfarce. As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. Mesmo na escuridão quase total podia ver. a língua tocando e acariciando a sua. sorrindo. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras.. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio.. — Na verdade. Dentro havia um aspirador de pó. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. sentir os lábios dela. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. — Bem. — São dois homens uniformizados. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor. Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. você pode eliminar mais três — Kelly observou. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa.. Muito mais. Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e. — E então? — Will perguntou. — Kelly sorriu. Kelly percebeu Will se remexer. vários punhados de carne moída. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. — Aí é que você se engana. deixando claro que desejava mais dele.. — Menos dois na sua lista. — Eu. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei. No mesmo instante. dentro de uma caixa de isopor com gelo. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott.— É. E por falar em gelo. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. ela prosseguiu.

em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. Eu ainda não sei como.. — Esqueça. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. estava de costas para a porta e falando ao telefone. com os olhos verdes a faiscar de ódio. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. Com tantas mulheres bonita no mundo. — Não se preocupe. Sim. que havia chegado ali uns dez minutos antes. Surpreso. — Seja original — ele continuara provocando. — Já cansei de ouvi-la falar em processo. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch. Will já desceu do carro resmungando. no estacionamento do hotel. Will não lhe contou? — dissera. mas a acusação estava ali. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. até o dia amanhecer.. Ele nada disse. — Oh. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens. — Ah. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. . — Não se esqueça. Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia. moça. Rachel. Kelly na cama e Will no chão. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. obrigada. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. um detalhe que não havia notado antes.. Ela se voltou.. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. assustada. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will. O resultado não poderia ser 0utro . por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. furioso. moça. mas manterei contato. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. Stone. Kelly. dois ânimos exaltados. como que vindo do nada.. tão clara como se Will a tivesse gritado. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza. não é? — ele pousou as mãos na cintura. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele. — Avise-os. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. por favor — disse ela. moça! — Will gritara. — Estou aqui com ele. Chamava-se traição.. Incapazes de conciliar o sono. em seus olhos.conseguira descansar. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando.

você está me machucando. Só o que tem feito é gritar. num movimento rápido. . fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado..— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço. o que eu acho que já estava um pouco. — Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior. — Amigos — ela repetiu. — Está bem. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. Com toda a força. Podia notar. mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se. mais calma. Will pareceu surpreso.. aqui em Seattle. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma. que ele também estava sofrendo. mas não se deixou intimidar. Bem. aí está.— Não — Kelly insistiu. inesperado.. como se não tivesse percebido que a estava segurando. na Europa. — Como pôde acreditar que eu faria isso com você.. desde hoje de manhã. — Ela abriu os braços. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou. eu não estivesse lá para atender.. Will Stone! Ele permaneceu calado. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. Ela ficou em silêncio. No mesmo instante e sem a menor timidez. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela.. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo. — Se quer saber. — Então por que não me conta o que é.. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer. num gesto dramático. porém ainda me recuperando. talvez devesse ter acontecido. e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! . — a lembrança daquele beijo passou por sua mente.. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. Soltou-a no mesmo instante. melhor. porém. — O que você esperava que eu fizesse. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. ao menos no coração de Kelly. mas a dor não cessou. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir.. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento.. — Seu idiota! — ela gritou.. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem.. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias. apesar de doente. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. — Foi essa a minha grande traição. — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação.

tudo em você me deixa louco. Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas. sobre os mamilos que. Naquele momento.. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. — Também te quero. — Promete? — ela o provocou. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo.. buscando mais uma vez os lábios de Will. separados apenas pela barreira das roupas. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole. com os olhos ainda fixos nos dele. pele contra pele. Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. Will. e no entanto o silêncio pouco importava.. macia e sensível.. se contraíam a seu toque... por exemplo. Respirando fundo. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. quente. Will não tentava esconder a própria excitação. já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans. — Eu te quero — ele confessou. — Seus lábios me deixam louco. sensuais. só um pouco mais para cima.Will mal podia crer que a tinha nos braços. descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. Will permanecia calado. num murmúrio rouco.. sensíveis. Assim encorajado. Disso não lhe restava dúvida. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas. Ela estremeceu e suspirou. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela. E quando voltaram a se abraçar. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo.. porém ele a impediu. Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido. Tomando-lhe o rosto entre . o seu jeito. os pêlos encaracolados que o recobriam. Quando chegou ao último botão. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco. E também os seus cabelos. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo.. Que ironia. como se hesitassem em subir um pouco mais. deliciada. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou.. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. passando a lhe abrir bem devagar a camisa. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. sabia? — Fala sério? — Sim. — Eu te quero! — ele repetiu. agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. deliciando-se com o atrito. neste instante! — Will sussurrou. Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza.

um. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris. — ela murmurou. à exceção da calcinha. em investidas cada vez mais poderosas e rápidas.. musculosos. pensou Kelly...Não. eu não tenho o direito — ele murmurou.as mãos.. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. prometo.De fato faziam uma dupla bem estranha. Mais . eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo. mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. — Eu sei. os ombros largos. Por um instante ficaram ali parados. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir. Kelly sentia-se queimar em desejo. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos. Uma onda de excitação se irradiou. Céus. Você não é um perdedor... Sem poder esperar mais um minuto. Um fugitivo e uma refém. de tornar culpados mesmo os mais inocentes. enquanto ela fazia o mesmo com as dele.. Will chegara aos limites de seu autocontrole. no ventre. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele.. Will abriu o zíper das calças de Kelly. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor. sequer. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado. ele não pode conter um murmúrio de encantamento. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer.. olhou-a nos olhos.. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu. — Não vou me arrepender nunca. lento e profundo que a fez gemer de prazer. enquanto ele a beijava na boca. longo. quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas.. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas... nos seios. muito devagar. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento. — Um ano é tempo demais — ele repetiu. por favor! — Sim. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam. apenas a se fitar. suas coxas e abaixo. O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos.. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali. — Nunca mais diga isso. — Eu. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza.. das curvas sedutoras de seus seios e ancas. — Como eu poderia me arrepender por. — Não. Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então. induzida apenas pelo modo como Will a fitou. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. ardente. pelo corpo de Kelly. num fio de voz. E mesmo que não tivesse estado preso. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba. seus corpos a ondular num ritmo crescente. eu.. — Will.

— Ele é um bom homem. A resposta. — Não. talvez. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão.. E à mesma pessoa. — ela admitiu. — Desculpe a pergunta. no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante... — Nunca mais estive com um homem. — Fazia muito tempo para mim. que pedia desculpas por algo.. Algo que mudaria suas vidas para sempre. Uma doce terna ameaça.. um ano é tempo demais. — Kelly sorriu. mas nem por isso menos perigosa. apenas trocando um pensamento perturbador por outro. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis. veio num tom sem expressão.. também? — Não. depois de me divorciar. Afinal já era a segunda vez. — O que ele faz para viver? É fotógrafo. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer. É doutor em Física e leciona em Berkeley.ainda banhados em suor. no aconchego dos braços um do outro.. como você disse. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça. Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento. mas a verdade era que estava curioso. — Me desculpe — disse Will. Tem senso de humor.. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. corpos . Estavam ambos perdidos. mais rápidas do que quisera. O clímax não demorou a chegar para ambos e. no mínimo lacônica. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou. . se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. e ainda assim impossíveis de se refrear. — Não odeia crianças nem chuta cachorros.rápidas do que Will pretendera. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim. sentindo-se mais uma vez inferiorizado. — É. Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. também — ela confessou. pensou Will.. tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes.. Ambos sabiam que algo incomum se passara. mas. — Acho que fui rápido demais.. de maneira irreversível.. sem abrir os olhos. se entende o que quero dizer. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido. em uma semana. Em outras palavras um homem muito bem sucedido. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta.. — Humm.

De algum modo.— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente.. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly. embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. como se tivesse lido os seus pensamentos. — É.. Stone. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. talvez você tenha razão — ela concordou. Mas isso também não adiantou. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela. E isso porque.. — Ora. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele. — O que foi? Não é bom? — É. por mais que tentassem evitar. Mas não. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. Com a respiração entrecortada. — Por que diz isso? — ele perguntou. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer. sim. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve. Assim que entrou naquele quarto. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre. — disse Kelly. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. Sentimentos. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então.. — Sei que você vai achar absurdo. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. apesar do que haviam acabado de compartilhar.. não queria pensar nisso. não existe algo bom em excesso. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava. serviam apenas para confirmar as .. de modo tão súbito quanto aparecera. na tarde seguinte. O estranho era que.. com Will. Algo especial.. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. Ironicamente. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio. O que sabia sobre o assunto. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro. algo diferente acontecera. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora.. agora. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar.. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. só que em excesso! — Ele murmurou. num tom preguiçoso. fazendo de conta que era feliz. depois de uma breve carícia. E no entanto. O sorriso se fora de seu rosto. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque.

. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. — Ora. arrebentar aquela parede. E por falar nisso. muito gentil aliás. — Eu disse que tinha conexões úteis. E não é necessário. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança. Por isso.. Na minha opinião. — Vejam — Ele apontou. — Não. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. — Kelly sorriu. Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se .suspeitas do detetive. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. de fato. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso. pós. — Deixe-me ver se entendi — disse ela. procurar as drogas. — Podemos entrar por um deles. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é. mas eu seria capaz de apostar que não. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto. coletar amostrar e então sair do prédio. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. — São comprimidos. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém.. sem atrapalhar ninguém. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. inconformado. Tudo parecia estar caminhando bem. certo? Na verdade. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. — Acho que nesse caso teremos que arriscar. ervas. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. mas isso é ótimo! — Will elogiou. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. A garota. A partir daí. — Olhem. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção. e rezar para que dê tudo certo. hoje à noite? — Kelly perguntou.. Claro. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. Mitch conteve a vontade de rir. — É uma porta de segurança. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. — E que aparência tem o que vamos procurar. os planos para aquela noite.

o que nos dá uma hora para a operação toda. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros. ainda é tempo — disse Will. ao chegar.contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta. Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém.. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu. — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores. Kelly e Will se entreolharam. tanto física como emocionalmente. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda. — Eu também — disse Mitch. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior.. nervosa. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão.. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch. Kelly espirrou. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função.. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. Não podia condená-lo. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. Do assento ao lado. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou. — Isso! — Kelly apoiou. — E quanto ao cão. O homem . Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza.. — Nós devemos estar entrando às oito. de seu posto na parte de trás do furgão. desde que haviam feito amor. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante.. — Eu continuo — ela respondeu. Sabiam agora que teriam de se apressar. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista.. — Céus. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. — Kelly informou. — Mitch insistiu. e nada garante que nos saiamos bem. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita. Kelly o fitou. — Não se preocupe com as chaves. Stone. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou. por exemplo. mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura. porém.. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. Ele a vinha afastando de si. quando este saiu de seu cubículo. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. procurando detalhes que tivessem sido esquecidos. — Se algum de vocês quiser desistir. visivelmente tenso. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. — E para entrarmos no prédio. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar.

O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. — Agora vamos com isso. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. cético. Aliás. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas. Em vez disso. com o coração batendo tão rápido. que o enfrentou com um olhar. — Os dois de uma vez? — É. — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório. Assim que estacionou. Segurando apertado a chave em sua mão. meu caro — Will resmungou. Quanto a Mitch. cara.. Ele não disse nada. no entanto. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. cara. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. assim que começaram a descarregar o equipamento —. — É novo na frota. ainda esta noite. antes que Will pudesse dizer algo. O tempo está passando! . Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado. incapaz de continuar calada.. Olhe. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa. ainda assim. — Kelly interveio. o cão latiu algumas vezes. — Ah. — Duvido que consiga esquecer. — Ficaram doentes e estão de licença. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou. porém. — Funcionou. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar. — Olhe. cara. certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele.. cara. como que para confirmar. com uma risada tensa. — É. — Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. — Só uma coisa — Mitch perguntou. permanecia indeciso. voltou-se para Kelly... parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. não funcionou? — ela se defendeu. — Está bem. — Somos a turma da limpeza. podem ir — o vigia ordenou. vamos. e agora sobrou para nós.. — Mas ligue logo. — Seu furgão não tem o logotipo. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio.. Além disso temos dois outros escritórios para limpar.. não sabia se teria voz para tanto.

fotografando o corredor e o início da perfuração da parede. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. de fato. com uma lanterna em cada mão. no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. assim que acendeu as luzes. — Se não alteraram o projeto original. que por sinal estava destrancada. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. ainda que remotamente. Por algum motivo. — Parte do plano vai ser alterada. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. o fabrico de alguma droga ilegal. A primeira vista. assim que entraram no prédio. — Ora. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. Eram. Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. ela não se convenceu. estas duas paredes levam a salas. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. Mitch veio por último. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. — Sai de baixo! — ela brincou. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. seis salas no total. Conforme o esperado. no entanto. — Como podem ver. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo. passando a serra elétrica a Will. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. — Certo — Will respondeu. — Céus. aqui — disse Will. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. como o tempo passa depressa. . em posição oposta à da recepção. Uma rápida inspeção revelou que. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. — Pela planta. Will foi o primeiro a entrar. Estavam no corredor. — Vamos. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. além daquela por onde tinham entrado. — Já são oito e quinze. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura.

Apanhou um béquer.. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu. admirado. . — Will tentou abrir a porta outra vez. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro. acho que não estou vendo droga alguma. Mitch iluminou a sala. Primeiro. então deve haver algum motivo. este cheio de um líquido verde escuro. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua.. — É bom irmos mais rápido. totalmente diversa das outras cinco. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. Kelly fez algumas fotos. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio. ei.. cuspindo em seguida. Segundo. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. — Will a fitou. por aqui — Will resmungou. — Pode apostar que sim. — Ora. — Interessante. — ela os chamou.. — O que é isso? — Will perguntou... por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. transparente. Sou esperta demais para que me peguem. com uma careta de desagrado. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. mas. mas estava de fato trancada.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos. — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança. mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco. — Temos menos de meia hora. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado. não? — Mitch observou. — Kelly murmurou. — Bem. A um canto. destinado à fabricação de drogas proibidas.. notando uma placa pregada à altura dos olhos. — Aposto como não é açúcar. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo.. em vez das máquinas vistas nas demais salas. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos. e cheirou seu conteúdo. Eu... me dê o canivete. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. — Absoluta. — Não desanime! — O detetive o encorajou. Stone. desapontado. incrédulo. sim? — Kelly pediu. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos. sob um prosaico quadro negro. Parte deles continha um líquido vermelho. Mitch. já com o canivete nas mãos. — Não vai me dizer que arromba portas. curioso.. — Mitch consultou o relógio de pulso. Vamos.. — Argh! Não sei. embora também não estivesse vendo nada suspeito. — Ei Will.

— Que horas são.. apesar de ela saber que seria melhor assim. se não quisermos nos meter numa bela enrascada.. o que acaba fazendo a droga custar muito. — Não entrem em pânico — disse Will. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. garota. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas. Engano seu. Uma droga de produção complicada. mas que promete lucros enormes para os traficantes. que é colocado em cápsulas. — Quando eu ainda estava na polícia. após um instante de confusão encontrou o que procurava. em voz baixa.. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. corria um boato sobre uma nova droga. O guarda estava de costas para eles. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo. enquanto Kelly fazia as últimas fotos. — E acho bom andarmos rápido.— Não. — O líquido verde. Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida. quando Will já estava dando a partida no motor. — Chave? — Will revirou os bolsos e. Mitch? — Acho melhor nem dizer. pois não estou vendo o produto final por aqui. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive. falando ao telefone. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. doía fundo em seu peito. — E então. — É bem provável. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente.. — Vamos. um par de faróis se tornou visível na distância. provavelmente com sucesso.. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. Ainda dirigindo devagar. alarmado. Jogou a chave para Mitch. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos.. — o ex-policial balançou a cabeça. mas tome cuidado. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão. — Está bem. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. Com cuidado para não demonstrar pressa. — Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch. chamando a atenção do guarda com um toque curto . Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado. hoje. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais. — Não é açúcar mesmo. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito. Will praguejou. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. que tratou de apagar as luzes do saguão. Não cheguei a saber muito a respeito. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. trancar a porta e embarcar no furgão. muito dinheiro. E não estou gostando nada do que temos aqui. — Mitch tornou a consultar o relógio. há cerca de um ano ou um ano e meio.

— Idiota! — Kelly resmungou baixinho. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. Pela segunda vez. três vezes em seguida e. meu velho. — Mitch murmurou. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. mas fitando o véu da chuva fina que caía. O idiota tem cinco segundos para abrir isso. dois. — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos. Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela. Mitch riu alto. vamos lá. por que a estava forçando a se afastar.na buzina. — Will. você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly.. — Mitch riu baixinho. deixando para trás uma criança que. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. senão eu avanço! Quatro.. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. três.. quase trinta anos depois. — Servicinho rápido.. ouvira-o se mexer.. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott. mas pelo visto descobriremos isso logo. A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. a deixou paralisada. Um sorriso sempre tão raro e . como que num pesadelo. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. terrível e sufocante. profundo. Com frieza inacreditável. sarcástico. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme.. aliviado. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir.. Fora sem se despedir. Ela falhara para com Will. — Vamos lá. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse. Sabia que Will estava acordado. já na estrada.ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida.. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema. Will sorriu. apenas tocou o furgão adiante. um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos. Foi então que ela espirrou duas.. cruzavam com o furgão da MacMathson. não? — O guarda observou. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela.. O medo. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave. E agora Will. o que era pior. — Eu sinto muito — murmurou. Segundos depois. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. não para olhar a lua. da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente. Como se o tempo tivesse andado para trás. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel...

ao entrar. porém. Na noite lá fora. sem jeito —. áspero. moça. que fizesse amor com ela. quando as ouviu outra vez. Kelly se estendeu na cama mas. melhor. para que eu possa reembolsá-lo depois. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. Mas faça o favor de ficar quieta. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens. — Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. sem sono. — Will disse. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele. — Para falar a verdade não sei.... mas acho melhor acreditarmos no melhor. Já se levantava para verificar. até a volta! — Até a volta. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. de repente. — Eu já vou. — Que horas são? — Três da madrugada. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. sim? — ele a repreendeu. magoada. — Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. E muito obrigado por tudo! . tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim. Não costumava apostar no melhor. Mitch. — Fique tranqüilo. — Ligo assim que tiver notícias. a fitá-la sem trégua para então. — Mitch se remexeu. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. Se pedir perdão resolvesse. ansioso. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. queria que a beijasse. esteja à vontade. até que se tenha prova em contrário. — Mitch despediu-se com um aperto de mão. eu estava acordado.maravilhoso. — Não tem problema. Queria tê-lo perto de si. está bem? — Claro. — Infelizmente a vida não funciona assim. para não ter que se decepcionar depois. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. Ah. naquela noite. esperando. — É. preocupado. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. agora mais fortes.. Bem — o detetive deu de ombros. ficaremos aqui. de verdade — ela repetiu. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela.. o que não é pouco. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. Kelly se calou.. sem realmente concordar.

embora odiasse tal dependência econômica.Os dois homens se olharam nos olhos. disse a si mesmo. em especial. Afinal. ao longo da noite. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca.. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato. Sem despedida. decidiu que isso não tinha a menor importância. Estava sozinha agora. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. e por assassinato. na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido. tocou de leve os caracóis cor de fogo. Afinal. Estendendo um único dedo. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. Capítulo XIV . Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. Sabia que estava sozinha. Ele parou e se voltou para fitá-la. Vestiu-se em silêncio. E mesmo enquanto partia. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano... Poucos minutos antes das oito horas da manhã. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. Mesmo agora. se afastar dela.. ali. Hesitou ainda por um segundo. chamou sua atenção. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave... sair daquele quarto. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles. Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias. recusava-se a chamá-la pelo nome. Não podia acordar aquela mulher. Sim. Mesmo que fosse apenas em pensamento. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e. mas disse a si mesmo que não o fizesse. sem um bilhete ao menos. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes.. Fazia muito tempo.. Kelly acordou assustada. Um deles. agora mais do que nunca. Estava maravilhado. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. Como tantas outras vezes. desejou afastar aquele cacho. O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso. então por que estava andando em direção a ela. ou melhor. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. antes de se levantar dali. Estivera sozinha então. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem. já estivera atrás das grades antes. Eram sedosos e macios. nem mesmo tentou chamá-lo. perdido. Mais longo que os outros. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will.

— Podia ter me acordado! — Ora. — Apanhei alguns cheques. aquilo não fazia sentido. Raios. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo.Cerca de uma hora mais tarde. Kelly se ergueu da poltrona. fora? — Kelly repetiu. Ele havia saído com o furgão e apanhara. quanta consideração. o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. moça. eu pagarei cada centavo. Mas se fosse só isso já teriam retornado. Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. indignada. pensou. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã. E se não gostou. mas sim com sua partida inesperada. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. — Ah. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. — Oh. E embora o seu tom de voz parecesse normal. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. Que foi o que acabou acontecendo. . ou melhor. porém o carro do detetive também não estava ali. O que significava que Will voltaria... Pare com isso.. A não ser que. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento. — Fora — ele respondeu. você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. — Não se preocupe. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques. Kelly ordenou a si mesma. lacônico. com as duas mãos na cintura. — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. Will Stone que fosse para o diabo. mas não saberia dizer por quê. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. — Ah. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. aí está o troco. pouco antes de sair.. pois iriam em dois carros e voltariam num só. afinal não perderia aquelas informações por nada. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar.

moça. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. estavam a ponto de gritar. e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido.. E então o telefone tocou. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados. pior que qualquer tortura. Raios. e não o contrário! — Está maluco.. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora. que estivera andando de um lado para outro.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. Aquele momento foi. indiferente. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e.. sua reportagem premiada. lhe fez sinal de que estava tudo certo. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo. agarrou-lhe um braço e apertou com força.. Céus. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou.. A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa. então é isso — Will murmurou. se esforçando por manter a dignidade. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. ansiosa. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. está bem? — Eu não vou embora. — Escute.. Os dois correram para atender. no final da tarde. Will. Kelly. A princípio ficou magoada. . A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que. Estão mesmo produzindo drogas. você é livre para ir embora. — Kelly deixou claro. certo. que por algum tempo estivera entalhando. porém isso logo se transformou em raiva. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. — Grande! — Kelly exultou. — Não quer perder sua história. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. se pensa que permiti que me seqüestrasse. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. sarcástico. — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda. — Will respondeu. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo. para ambos. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. mais uma vez medindo forças. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. — Sim. — Eu vou ficar! — À vontade.

Ele também havia mentido para Mitch. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott.. você ainda não ouviu o melhor de tudo. — Você não vai acreditar. para encurtar a história eu descobri. não restava a menor dúvida.. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas. O filho dele. — Faz sentido... — Sabe para onde viajou Andriotti.. — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante. mas . — Will sentia o coração bater mais rápido. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will. Kelly se deu conta disso uma hora depois. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei. casou-se recentemente com Suzanne.. Mostrou-lhe então o homem na limusine. Will.. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou. um importante político mexicano. Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu. chocada. Oh. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. que a Santico.. através da secretária de uma seguradora. homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e. mas não recebeu resposta.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu. Mitch — Will voltou a falar ao telefone.. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo. todos.. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais. Eram um só. ansiosa. — O quê? — Kelly insistiu. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia.. Emmanuel. Will havia mentido para ela. — Edward Andriotti. impaciente. pois não significava nada para ele. porque você não vai acreditar. E aposto como não passam. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. — E Rodrigo Echeverria. — Escute bem esta. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. motoristas. Estamos falando em muito.. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. — Eu sei quem é esse homem. — Mitch fez suspense. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. vigias.. mesmo! Gente respeitada. — Calma. — O que ele disse? — Kelly perguntou. — Mais sério que nunca. para então dar atenção a Kelly. — O que ele disse? — Kelly perguntou. diante de um espantado Will Stone. — Oh. — Espere um minuto. a filha de Andriotti. Mitch? — disse Will. esqueci que você não é de San Francisco. mas muito dinheiro. hoje cedo? — Fale de uma vez. — Desculpe.. aflita. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly. — Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou. sim.

. Mas Will mentira. ou quando as pessoas não . Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele.. hombre. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. A tentação venceu e. ela cortava caminho por entre as árvores. Afinal de contas ele comprara algo.. parecia estar aceso. aliás. o momento de derramar sangue em troca de sangue. Aproveitando o momento. Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto. Will corria para saltar o segundo muro. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia.. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida.. Escondido em meio às sombras. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. Pouco adiante estava o furgão. — Vamos cair fora logo. Raios. Como pudera ser tão idiota. Céus. Vazio. Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados. Chegara a hora do ajuste de contas. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott. Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. O prédio todo. exatamente. com forte sotaque mexicano. pois não haviam sequer almoçado. depois.. garoto — ele murmurou para o dobermann. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura.. fazendo gelar o sangue em suas veias. Pronto. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação. si. claro. Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou. Não fosse pelo que aprendera com Kelly. Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly. que sumira com o furgão. — O chefe está pior que uma cascavel. Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. — Si. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez. a essas horas já teria virado comida de cachorro. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê. Talvez ele tivesse uma arma. Isto se saísse inteiro dali. Algo que custara cerca de duzentos dólares. a refeição não fora mais que um pretexto. — disse um deles. Iria vingar a morte de Stephen.. naquela manhã. estacionado mais adiante. Precisava lembrar de agradecê-la.isso não amenizava a dor daquela traição. era o que perguntava a si mesma. Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. mais baixo. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão. Apressada.

— O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós.. mais calma e com um carregado sotaque mexicano. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. — Se quer saber o que está me preocupando. Sabe como é. Se o chefe estava de mau humor. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos. Como não ser apanhado pela polícia. não? —É verdade.. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia.. americanos. afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio. estavam falando dele. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais. claro. Mas não. Não foi? — Pode ser. o guarda disse que eram três pessoas. inclusive uma mulher. com toda essa arrogância. Por incrível que pudesse parecer. Edward.. Uma delas se erguia. acalorada. Will se aproximava aos poucos das vozes. Edward — disse o mexicano.. por exemplo. pensou Will. Will estava sozinho por ali. Sim. Mitch e Kelly haviam pego as amostras. Bem. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. Mais uma vez. Nada me tira da cabeça que foi ele.. encolerizada. ele ouviu outras vozes.fazem o que ele quer.. a inocência de Duggan nos foi muito útil.. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator. do lado de fora. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois. e pelo rumo da conversa daqueles dois.. pior para ele. — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. também. esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar. é esse maldito arrombamento.. — Vamos. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! . — Pode ser mas você. Tem um grande dom para fazer dramas. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e.. Echeverria prosseguiu. relaxe. eles eram educados demais para isso! — Está bem. você venceu esta. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. o que significava visitas importantes. enquanto outra argumentava. não sozinho de todo. a julgar pelo silêncio que o cercou. — Saber eu não sei. — Vocês. Rodrigo.. lá vem você com suas tragédias outra vez. rindo.. acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens. — Ah.. portas abertas. hombre. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora.. Não. que pareciam vir da sala de onde ele. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta. enquanto durou. Edward. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto.. — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. Will Stone sentiu o estômago se apertar. podemos? Silencioso como um gato. Rodrigo. já lhe disse! — gritou a voz irada. — Ora.

rolando um charuto entre dois dedos. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma.. Mesmo naquele momento.. é claro. — Echeverria sorriu. o quadro negro.. substituído por um olhar cruel. não se deixaria derrubar sem luta. passando um lenço pela testa suada. — Cale essa boca. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . Se o Homem de Pedra chegou até aqui. hombre. em tão pouco tempo. então já sabe de tudo! — Sim. — Como em olho por olho. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. — Não seja tolo. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho.. — Parece que lhe devo desculpas. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. determinado. Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. aquele covarde. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior.. O mexicano era um páreo duro. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida. — disse Echeverria. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann. fui eu o responsável. e por que não? — Echeverria sorriu. o julgamento teve suas graças. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. não foi? Mas admito que admirei seu silêncio. ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria.... não? — Will se dirigia ao mexicano. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave. não acha? Aliás. — Quer se acalmar. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa. — Pois você está muito enganado. E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica. Andriotti empalideceu. Rodrigo! — Andriotti sussurrou. Não é como o irmão. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou. Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu. meu caro. Stephen deixou você na pior. sua lealdade. que sabe negociar.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano. — Sim. com boas porcentagens do lucro. os tubos de ensaio e demais vidrarias. — Rodrigo. E vai pagar caro por isso! — Ora. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização.. mas se não é o Homem de Pedra. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. não me diga! — Will fingiu espanto. — Will abriu um sorriso frio. Pode apostar que sim. — Deve ter gostado de assistir a meu julgamento. — Pode apostar que sim. dente por dente.. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora...

Stone. você é um perdedor. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. — Não seja ridículo.. antes de dizer: — Errado. que já passara do medo ao puro pavor. Edward.. também! Tem nojo de vender drogas. você não é melhor que nós... quando se deu conta. E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado. Certo. sempre bêbado. nesta vida! — O dedo de . — Então. E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. Echeverria. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem.. tão presunçoso.. das dificuldades. — Rodrigo. — Vamos.enxugar a testa. Para falar a verdade. cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo. Se fosse assim. você é um perdedor. Stone. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. então começou a desviar mercadoria e a nos roubar.. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. isto aqui já estaria fervilhando de policiais. profunda. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. E isso não podíamos tolerar. Echeverria.. mas Stephen era ganancioso demais. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação. Você não é capaz. você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano. meu caro. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. Lembranças das rejeições e humilhações constantes. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções. Cansei de ser um perdedor. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. — Talvez não seja mesmo. isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir.. — Não. mas agora tanto faz. Tão falante e seguro. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor. — O mexicano deu de ombros. um perdedor nato. e não era pouco. Depois. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo.. Stone. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não. Segurou com mais força o revólver. um nada.. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou. para prender a ele e não a nós. mas não hesita em matar dois homens desarmados. — Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. já estava enterrado na coisa até as orelhas. no parque. — E é seletivo. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. a sangue frio! Como vê.. — Seu irmão era burro demais. você não tem tutano para isso.. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. Sabe como é. se resolver ficar do nosso lado. acusando-o de ser um zero. Lembranças de seu pai..

. tão. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado. Tudo o que podia ver e ouvir. Capítulo XV De seu catre. Tarde demais para tentar evitar o inevitável. segurando um lenço encharcado de suor. por favor.. Três longos e sofridos dias. — Não! — Will gritou como um animal ferido.. rapaz! — dizia seu pai. não! — Andriotti implorava. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço.... Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada. Dois. só o fazia por saber que era necessário. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome... algemado. Will. — Você é um perdedor. Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado. Ela lhe parecera desnorteada. Devagar. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly.. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros. a mão pateticamente estendida em sua direção. porém. um perdedor. estava repentinamente inundado de sentimentos. como a criatura atormentada que sempre fora.Will começou a pressionar o gatilho.. Devagar. Todos os ressentimentos e angústias. .. com as mãos cruzadas sob da cabeça.. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos. um perdedor.. agora. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. Isso se passara havia três dias. depois quando assistira a polícia levá-lo embora. — Você é um zero à esquerda. Acima de tudo. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho. Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele.. Não podia sentir a chuva fria no rosto. Devagar.. Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero. Pelo amor de Deus. devagar. Ela havia chegado tarde. sentimentos de medo e confusão. tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. — Não! — ela sussurrou. Um.. tão suave. agora. — Não. Tarde demais para salvar Will de si mesmo. Kelly. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will. num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. Por incrível que pudesse parecer.. Tão desnorteada quanto ele se sentia.. — A voz de Kelly. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio. primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott.

Mas pensando bem. — Boa sorte. sorridente.. Por que não matara Echeverria e Andriotti.. porém esperneando e fazendo ameaças. você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. Stone. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. mas ainda assim nada mais que um momento. muito obrigado. Um homem livre. Aliás. Gostava daquele guarda em especial. não como a algum tipo de lixo humano. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. pronto a tirar-lhes a vida.. Fora um momento ímpar em sua vida. Logo agora. Muito disso se devia a Kelly. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. depois de olhar em redor pela última vez. que tal? Will se levantou devagar e. levados pela polícia. E para todas elas.— Ei. . Enquanto a liberdade não chegava. — Saia daí. talvez o advogado. o mocinho está livre. girou-a com uma mesura e abriu a porta. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. Stone — disse o guarda. tem alguém esperando por você. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. afinal era um homem condenado por assassinato. rapaz! Os bandidos foram presos. ainda que tímido. Um final feliz. mas por certo não era ela. — Ei. — Ah. Will não queria que fosse Kelly. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. Fora ela quem. quando se sentia mais cativo que nunca. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia. Igualmente algemados. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. então. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho. decidir o que seria feito do resto de sua vida. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou. pois tratava a todos com a mesma consideração. estendendo a mão. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso.. como ele. Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda. Muito diferentes do guarda Sapo. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. e a mais ninguém. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. e já passava da hora de parar. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. sem saber. um para cada homem. Talvez fosse engano. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. na penitenciária de Folsom. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. saiu de sua cela. No dia seguinte à prisão.

Não havia futuro possível para eles. dentro e fora do país. Mitch Brody levantou um outro assunto. Will. mas era habitável e arejado. O nome dele é Scott e vive com a mãe. com um largo sorriso nos lábios. — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente. Seu apartamento. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu. Mitch Brody se pôs em pé e. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. pelo qual Will fizera questão de pagar. É só até eu conseguir me ajeitar. O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. Ao final do almoço. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita. Will pensou em recusar. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. Will apareceu na sala de espera da prisão. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali.. E colocada a questão nesses termos.. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel. mas. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. — Disse que estava a caminho da Europa. caminhou em direção a ele. — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas. a serviço. Além do mais. pensou Will. ab menos daquela vez. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. — Enquanto não encontra um lugar. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria. Segundo o detetive. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. mas preferia não pensar nisso agora. gostei da cidade. mas tem um sofá cama razoável na sala. Stone.. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. à sua espera. de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. — Sim. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. mas não quis magoar Mitch. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. não oferecia qualquer luxo. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. — É seu filho? — Will perguntou. Por serem ambos homens públicos. já que fora ele o principal motivo do . — Bem. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. claro. — ele pigarreou. Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia. a cada vez que precisar depor. E embora estivesse feliz por ver o amigo. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. — Obrigado.Em poucos minutos.. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. não menos delicado: — E então. ela não deixou nenhum recado para você. aquele já era considerado um caso perdido. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. depois de já ter feito a pergunta.. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. De qualquer modo. desde que eu e ela nos separamos.. Mitch Brody não mentira. Fora uma tolice. Mitch. naquela manhã.

. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. Lembranças dos beijos de Will... Sim. acabara por fazer o que sempre fazia. Fugira do país. Riu. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono. qualquer coisa. Ainda que momentâneo. Na verdade. E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca. pois não havia durado muito mais que algumas horas.adiamento. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott. aliás.. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário. desde que ouvira aqueles dois tiros. se bem que pálidos de medo. Mais breve impossível. do calor do corpo dele junto ao seu.. ele não estava surpreso. Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório. mais nada. Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. que parecia brotar de dentro dela. Estava magoado. Sim. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. de Will e de si mesma. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir.. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. Kelly Cooper. Bem. a estava acompanhando já havia alguns dias. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois. sem vontade. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. agora a fugitiva era ela. um cartão de boa sorte. embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. enfim! — Sinto muito — disse Mitch. era como se jamais tivesse estado viva. e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago. Quanto a Will. enquanto via a polícia levar Will embora.. sobre o seu. Para ser mais exata. antes. — Não se preocupe com isso. diante de situações que não conseguia resolver: fugira. mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. algo com que ia acabar se acostumando. Will Stone era perigoso de fato. Ou melhor. naquele momento. O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. E agora aquele frio em seu corpo.. Medo do que poderia acontecer. Não. Aquele frio terrível. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos.. para si próprio e para ela. caso continuasse perto daquele homem. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. como se fosse um criminoso de alta periculosidade.. o calor da bebida serviu para reconfortá-la. dois estampidos secos e sinistros. Assim. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. uma reportagem digna de premiação. tentando fazer-se de indiferente. Mesmo agora podia escutá-los. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada... de jeito nenhum.... E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . Aquele frio era resultado do medo.. Aquela idéia o magoou também. mesmo! Não que tivesse esse direito. Algemado e acorrentado. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera. É bobagem minha — Will deu de ombros. mas apenas para si próprio.

Emoções. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. imutáveis. Kelly. E era aquele o ponto central de toda a questão. Aconchegando-se melhor sob o cobertor. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. imaginou se Will já teria sido libertado.. Onde estaria ela. contudo.. problemáticos. fiéis. no sentido mais verdadeiro da palavra. mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que.enchia de medo. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes. Ela era péssima. . Tudo isso. Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. Agora. Em caso positivo. por mais simples que fossem. cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. cada vez mais. Uma coisa. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. dia após dia. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário. afinal. se havia algo de curioso a respeito do futuro. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. era sua capacidade de construir-se a si próprio. Apesar da convivência. Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. agora? Será que pensava nele. o que ele iria fazer. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido. Estavam lá. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. Duas noites por semana. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly. implorando que alguém os notasse de forma positiva. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida. além do seu emprego. da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum. constantes. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. quando o assunto era relacionamentos. no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. a cada vez que as procurava. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. De fato... rebeldes. Além do mais. porém. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo.

. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. E de uma forma que.A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. guardadas no fundo de sua mala. o que tornara mais fácil suportar a solidão. estava amando Will Stone. Era demais para qualquer ser humano. Naquela mesma noite. ansiara tanto por um grande gole de uísque. olhando pela janela do hotel como costumava fazer. Will Stone tocara muito mais que sua pele. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie.. Foi a gota d'água. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. Aquele estava sendo o pior dia de sua vida. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. desde aquela semana que passara com Will e Kelly. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. homem algum soubera.. quase sempre sem que ele notasse. Por menos que quisesse admitir. a aspereza da barba de encontro à sua pele. Com um embrulho nas mãos. numa tarde fria e chuvosa. Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo.. momentos capturados para sempre em filme e papel. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro. mas não havia uma só palavra de Will ali. Speedy Talbot. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. ansiosa por saber notícias de Will. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela. que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar. mas de nada adiantou. O detetive falava ainda do emprego de Will. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. Estava encharcado até os ossos e jamais. até então. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial. que piorava à medida que avançavam as investigações. Nem ao menos um recado. Agora estava sozinho de . para piorar tudo. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. em toda a sua vida.. Tocara seu coração. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. do trabalho com as crianças carentes. Tudo ótimo. em Seattle. Kelly correu os dedos sobre o papel. mas que haviam acabado ali. sentiu o coração bater mais forte. Em outra. o maldito carro parava de funcionar.. para que eles três pudessem se reunir de novo. Eram de Will. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço. um retrato em close que o apanhara de surpresa. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. No último dia de outubro. e da pior forma possível. Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário. E agora. Imagens roubadas. mais uma vez incapaz de dormir. Por menos que quisesse admitir. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. Na primeira foto Will estava de costas. do apartamento onde o amigo estava morando. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. tudo muito bem. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos. Não punha uma só gota de álcool na boca. seu corpo.

. mas acabei de chegar em San Francisco. — Estou aqui no apartamento de Mitch. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então.. de si mesmo? Engraçado. onde havia um telefone comunitário. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela. era diferente. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas. — Pronto. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios.. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou. Profunda e totalmente vivo. vinda do corredor do prédio. Queria um gole de uísque e o teria. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios. — ela pigarreou. Agora. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo. mas agora não sentia nenhuma dessas emoções. Nada mais importava.novo e não via motivos para continuar lutando. hoje à tarde. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando. de modo a ir descontando de sua enorme dívida. Pode falar. Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino. um dia.. Em questão de minutos restava pouco daquele homem.. . Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. já não pensava. Assim. que marcava quase nove horas da noite. embora duvidasse que isso pudesse. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade.. Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch. A partir da quarta dose dispensou o copo. Levaria algum tempo. nos últimos tempos. Sentia-se apenas vivo. Will estranhou.. — Ei. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. — Olhe. — Will? — ela repetiu. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. Conhecia poucas pessoas na cidade. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. Sim. portanto era raro que recebesse chamadas. do verdadeiro Mitch Brody. porém. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. sequer. a qual tratou de entornar num único gole. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen. Com mãos trêmulas de ansiedade. eu.. e. estou aqui. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. Estava cansado de tudo. sensuais. Consultou o relógio da parede. vir a acontecer. Não que fosse muito. ainda. Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. — Sim. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. ele já não distinguia mais nada. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. até de viver. — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África...

Ele estava mudado.. — Não. — Você entendeu? — Oh.. — Cuidado com eles. — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café. Por um segundo. tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will. Tentei ajudá-lo. mas foi só por um momento. fez uma careta e abriu um olho só. — Por algum motivo.. Deu alguns tapinhas no rosto dele. — Venha rápido.— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou. a voz pastosa. ignorando o comentário. daqueles bem fortes. não é? — Estou a caminho.. porém. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . mais aliviada. — Sim. sim. Pronto o café. ela não ouviu sequer os passos na escada e. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. sim? Enquanto eu não chego. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. pensou Kelly. Ele vai ficar bem. como a porta estava destrancada. — Mitch está bêbado. pensou Kelly. cuidad. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos.. — Kelly? — murmurou. beba isto. só mesmo o hálito de bebida. ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara. mas outra parte continuava a desejar. — disse ela. claro. me reconheceu e apagou de novo. Ela estava cansada. Não era o tipo de cansaço.. num gesto que era para ele dolorosamente familiar. sou eu! — Ela respirou. Kelly se pôs em pé. Por causa do barulho da chuva. — O que houve? Você parece preocupada. mas por algo mais profundo e impalpável. do modo mais egoísta. — Mitch acordou. — Céus. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis. ele insistiu. Com mais aquela palavra. Will notou. está apagado como uma lâmpada! — Calma.. mas me faz um favor. — Estou a caminho... a fitá-la. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. que uma boa noite de sono pudesse aplacar.. — Está bem. quando Will chegou. que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela.. aquilo não soava como surpresa para Will. vá preparando um café. Mitch. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch.. não entre em pânico. mesmo. Quero dizer inconsciente. Afastando os cabelos ruivos da própria testa. ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento.. Parecia emocionalmente exausta. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. Parte dele queria reconfortá-la. Acho que desmaiou no sofá. mas não consegui. — Mitch? Ei.. — Quando Kelly não respondeu.. Ele resmungou algo ininteligível.. — Tome. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave.. Mas você vem..

ainda um pouco assustada... Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro. um pouco mais claramente. mais alto. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou. um ano e meio. — Ei.. E dentro de seu . para aquecêlas. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. — Mitch fez uma careta. Mitch. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si. acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou. — Will lhe deu mais café.Kelly. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado. — De nada. tornando a bater-lhe de leve no rosto. Até a esposa o deixou. depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir. — Não muito bem. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will.. — O que foi? No que está vendo tanta graça. ou sob o meu. — o detetive olhou nos olhos de Will. imagine. — Traga um café. Será que esse policial era Mitch? — Talvez. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura.. o café fora um pretexto.... Ei.. sim? Ela saiu para a cozinha e. Diabos. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno. Ponto final. a cada gole um gemido de protesto do amigo... amigão. vamos! — Nãão.... nisso eu aposto meu pescoço. Um policial foi acusado de corrupção. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano. Will retornou à sala onde Kelly o esperava. — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro.. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar. enquanto servia um pouco de café para si e para Will. Falta de provas ou coisa assim. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa.. nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu. — Eu sei.. — Também penso assim. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada. quando se revolta com alguma coisa. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia. — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz. — os dele responderam. está melhor? — Não. — Will deu de ombros.. Meia hora mais tarde. — Mas que mulherzinha. em silêncio. — Mitch. voltava com uma xícara fumegante. — Eu não peguei aquele dinheiro. Will Stone? — Em você.. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo. então nunca aceitou. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo. eu sei.. — Quero meu filho! — Mitch resmungou... Mitch não é um corrupto... Mitch. — Mas não sei como foram desconfiar dele. claro! — Bom! Que bom. — Nem dos seus beijos. em questão de segundos.

Kelly sentiu-se um tanto sufocada. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas. seus olhos buscaram os dele. ele insistiu. descontei do que lhe devia! — Ora. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo.. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional. precisava sim. talvez até uma pitada de medo. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso. — Will abriu um sorriso. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou. Talvez ele tivesse razão. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. — Sim.próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo. de ser o que ninguém era. Kelly? — Não. de preferência não muito inteligente.. juntos. — Bom. — Então estamos quites.. não veja nisso nada além do que realmente há. — Mas não precisava. — Um pouco de obediência.. — Você mandou a história. — Ah. Mas a verdade era que. — ela respondeu. o casaco e caminhou em direção à porta. Não era o melhor dos assuntos. Stone. — Ela baixou o olhar. Suficientes. agora que Mitch já está melhor. calada. Eu também as cobrei de você.. ao menos no que se refere a essas taxas.. muito diferente do seu. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior. naquele exato momento ela se sentia apavorada. — Por quê? — ele perguntou. — Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso... acho que vou embora.. Kelly o fitou. — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? . — Gostaria mesmo? — Will ficou sério. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha. Não seria correto. Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes.. de repente. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. Seriam capazes de.. — Olhe. De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo... — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse.. — Eu preciso saber uma coisa. A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa.. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem. — ele murmurou. Por instinto. evitando o olhar de Will. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes. — Ah. — Bem. agora andando mais rápido. sério e surpreso. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita.. Mais uma vez ela se voltou para a porta.

. — É. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso. — disse o detetive... Mas. e suspirou. tão.. e que lutava contra isso.. Will Stone. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo. Ele e Mitch estavam jantando juntos. quando voltava com o amigo para casa. Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer.. Nada no mundo poderia ser tão doce. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem. — Como são em sua memória? — Macios. Kelly murmurou: — Você me assusta. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will. tão terno. direta e sem rodeios.. Quase duas. — Ele respirou fundo.. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. também não deve . sem fôlego. moça. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. eu não sei — ela sussurrou.. ser também um alcoólico.. Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. desde que vira Kelly pela última vez. bem devagar. Seria possível que ele. Depois de ter visto Kelly de novo. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão.. Will Stone! — Bem. Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele. estava mais perplexo e infeliz que nunca. Tão macios que me deixavam louco. — E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA.. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. tê-la beijado outra vez. — São mesmo como eu lembrava. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos. pegou Will de surpresa.— E-eu. Viver um dia de cada vez. tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. Ficou imóvel. o que pensar.

— Esqueça — Will balançou a cabeça.. meu caro. mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. Will fez menção de dizer algo. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco.. mas acho melhor esquecer esse assunto. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. Mas agora já não importa. Eu vim do lado errado da vida.. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo. — É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida. A moça está apaixonada por você. também sem nenhum rodeio. Afinal.. Podia não ser o melhor homem na face da terra. Um tipo como ele. nascemos em mundos diferentes. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível. tinha dinheiro para gastar. sim. imagine! Seja quem for que fez isso. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper.. — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. e o homem que era agora. revoltado. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite. eu posso até estar errado... Continuou a caminhar.. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. Mas que diabos. — Suspeita de alguém? — Will insistiu.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. jamais fora grande coisa. — Verdade? — Verdade. O que diria a ela? E como diria? Ou será . Quando começou a ouvir o toque de chamada. Como um refrão interminável. mas nada disso importava. E se isso não significava alguma coisa. porém ele o impediu com um gesto. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. Mitch. — Não sou homem para ela. Quem preparou a armadilha não foi um amador. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. já esqueceu? — Pode ser. — Olhe. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. — Eu e Kelly somos muito diferentes. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente. — Will tomou um gole de café. ladeira acima e abaixo. e conseguiu. Viera do lado errado da vida. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. afinal.

mas não conseguiríamos. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. aquela se parecia mais com a mulher teimosa. mas não quero ouvir nem um pio. também. — Sim. poderíamos. — Não. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. Ao menos não naquele momento. Ah. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. e muito.. Mais um toque. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. Sim. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça.. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. Para Will aquela voz soou rouca e suave. que se abriu com um clique suave. Bateu o telefone. interrompendo pela metade uma imprecação assustada. como de outras vezes. mas. pois ela não estava em casa. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. deixe apagado. depois de tudo o que haviam passado juntos. Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga. entendeu? Will ocultou um sorriso. . talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela. — Entendeu? — ela insistiu. o que você quer? — Conversar. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez. — Eu vou tirar a mão de sua boca. ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. entendeu? Ele não respondeu.. Bem. O tempo e o silêncio eram fatores importantes. Kelly retirou a mão com que o estivera calando. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou.. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. admitir que a amava. ali. independente e agressiva que seqüestrara. não podia ser assim. bem devagar. — Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will. fazendo com que a corrente tilintasse. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano.. então? Convidá-la para sair? Não. pé ante pé. Não. E sensual. O telefone tornou a chamar. Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. Mas o quê fazer. — Esta bem. seria banal demais.. Devagar.

.. Ela havia cruzado um limite. Ela ergueu o rosto e. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária.estou cansada de tentar agir como se fosse. — Estou cansada de fugir. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso.— Muito bem... se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater. eu sei.. Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. Pobre Gary... Kelly. combinado com tudo o que ela acabara de dizer.. arrastando junto a de Will. E isso. mas você está falando! — Desculpe. com a voz embargada pela emoção —. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe. — Você nunca me chamou assim. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual. — Certo. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era. mas. desesperada por um pouco de atenção. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. lá estava eu cuidando de minha própria vida. e agora já não havia como voltar. lá vou eu! — disse ela.. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente. se fosse mesmo esse o caso. antes. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. para ser sincera. — Ora.. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou. E então apareceu Gary. Ora. Naquela noite você invadiu minha vida e. Kelly — ele murmurou. Will. sei que não sou perfeita e. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. — E eu quero. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. — É. Stone. — Bem.. ou queria. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. olhou nos olhos de Will. — Então pare de fugir. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração. . agora. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe. ameaçava esmagá-lo de uma vez.. — Não. — E se quer saber do pior. num tom estranho... uma semana depois. — Quero minha vida de volta. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar.. Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo. Você não faria isso — disse ele. — De qualquer modo — ela prosseguiu —. você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então. Will. estou escutando — disse Will..

Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. Kelly. — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu. sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will.. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. com os olhos cheios de lágrimas. — É. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos.. Cheio de ternura.. onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada... Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela. e nunca. — Will. — Will. — Bem. — Eu te amo.. se ele fosse. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar.. Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu.... — Não está? — Sim — ela sussurrou. apesar da restrição imposta pelas algemas. mas algo impediu seu movimento. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus. Will Stone. mas nunca mesmo. Will Stone. Se fosse assim. num fio de voz. tocou os cabelos cor de fogo.. mas eu te amo mais do que à minha própria vida. Era o que ela mais queria.. Will interrompeu o beijo. Kelly. — E eu. — Eu te amo — ela disse.Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. mas como o novo homem que era agora... — Quero ouvi-la dizer. — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor... mais segura e decidida que nunca. — Escute bem. de repente. eu sei disso! — Kelly suspirou. Eu jamais vou te deixar. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora. naquele momento. Muito melhor. para em seguida repetir. Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. — Trato feito — Kelly sussurrou. . — ele pediu. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus. envolta num profundo silêncio. sempre que você precisar de mim. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. — Não acredito! — ele também se pôs a rir. eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro. — Kelly riu. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. permitirei que você me faça ir embora. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou. — Kelly hesitou.

Agora.divorciada e mãe de uma criança seqüestrada. Condição atual: exílio voluntário. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro.***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield. por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas.agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. em Shreveport. Sandra mora com seu marido. 13 .ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . Tempos atrás.. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano. Charles. PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 . E lado a lado. A beira de um grave ataque de nervos. Rachel Dryden . em sua difícil busca. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver.CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost .. no Estado de Louisiana. Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer. que será publicada dentro de alguns meses.

surge Mark Fletcher..A medida que seu carro se afasta de Nova York. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho. onde reside a segurança. Lisa Morley respira mais aliviada. Contudo. incendiando-lhe o sangue nas veias. o perigo a segue de perto. saído das más lembranças de seu passado. os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. e onde está o perigo? . Mas.. afinal. Em meio às trevas do pavor. congelando a alma de Lisa! De repente. Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. A ameaça aproximase. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa.