Duas vidas sem destino (Snap Judgement

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Sandra Canfield Clássicos Românticos 11
Dois corações na hora da verdade! Kelly Cooper - repórter fotográfica que, com sua câmera, flagra um crime de morte dentro de um parque público. Will Stone - condenado por assassinato, foge da Penitenciária Estadual da Califórnia. Um homem desesperado, com uma idéia fixa em mente: encontrar Kelly Cooper, que com seu depoimento no tribunal o jogou na prisão. No meio da noite, em sua cama, Kelly recebe uma visita inesperada. Seqüestro! O acerto de contas entre um homem e uma mulher cujas vidas estão nas mãos uma da outra. Logo Kelly percebe que a mais perigosa das ameaças de Will é o magnetismo de seus olhos castanhos, sua perturbadora masculinidade...

"Eu não posso ir com você." Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu: — Tenho compromissos marcados! — Bem, isso é mesmo uma pena. — O tom de Will era ríspido e demonstrava insensibilidade. — Sabe, moça, o primeiro mandamento do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. — Oh, então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é, moça. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. — Olhe aqui, tenho um contrato a cumprir e, se eu não aparecer, muitas pessoas vão ficar preocupadas, imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. — Você escolhe, moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei fazer isso. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Furiosa, entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força. — Não vai se sair bem desta, Will Stone. Você sabe disso! — ela resmungou...

Copyright © 1993 by Sandra Canfield Originalmente publicado em 1993 pela Silhouette Books Título original: SNAP JUDGEMENT Copyright para a língua portuguesa: 1993

Digitalização e revisão: Márcia Goto

Capítulo I

O sucesso do plano de fuga dependia apenas de sua capacidade de manter a cabeça fria e os nervos sob controle, pensou Will Stone observando o movimento a seu redor. No salão de trabalho da Penitenciária Estadual da Califórnia, em Folsom, tudo parecia igual, inalterado. Presidiários como ele, usando as calças e camisas azuis do uniforme, se dedicavam a confeccionar placas para automóveis, muitas das quais agora secavam dependuradas nos varais estendidos de uma parede a outra. Placas acabadas, encaixotadas e prontas para o transporte estavam sendo carregadas, como sempre, por homens e empilhadeiras até a carroceria de um caminhão de entregas. Assim que Will pousou o olhar no veículo, que na verdade era seu passaporte para fora dali, sentiu o coração bater mais rápido dentro do peito. — Ei, Stone! Vai ficar parado aí como um idiota ou vai me trazer essa listagem de embarque? Ande logo! Diante da repreensão do guarda, um sujeito alto, magro e de rosto comprido que os prisioneiros chamavam de Sapo devido à voz muito rouca, Will respirou fundo e procurou se acalmar. Sem pronunciar uma palavra, como aliás era de seu costume, se aproximou e entregou a listagem pedida. O guarda Sapo, detestado em todo o presídio por abusar dos poderes que lhe eram conferidos pela instituição penal, observou-o de alto a baixo com um ar de desdém. Will encarou o desafio sem pestanejar e, após um combate de olhares, o guarda foi o primeiro a baixar a cabeça. Com um gesto brusco apanhou a prancheta das mãos do presidiário e, após ler e rubricar o documento, devolveu-o com a mesma indelicadeza. — Trate de anotar direito o embarque de cada caixote, depois leve esses papéis para o setor de administração. Will continuou calado. Apenas se voltou e deu um passo em direção ao veículo para cumprir sua tarefa. Seu silêncio, no entanto, pareceu apenas provocar ainda mais o guarda. — Ei, Homem de Pedra... ainda não tem nada a dizer, não é? Homem de Pedra era o apelido que a imprensa de San Francisco dera a Will seis meses antes, durante o julgamento que acabara por sentenciá-lo a uma pena de quinze anos por assassinato. Um apelido apropriado, já que ele não havia proferido uma sílaba sequer ao longo de todo o processo. Nem uma palavra reconhecendo a culpa ou alegando inocência. Will tivera seus motivos para manter-se calado, mas era provável que tivesse agido da mesma forma se não houvesse qualquer razão em especial. Afinal, quem se arriscaria a dar algum crédito a um sujeito imprestável como ele? Ninguém! William Randolph Stone... Nome pomposo para um joão-ninguém, um perdedor seria a menor utilidade para si mesmo ou para quem quer que fosse. — Não — Will respondeu sem se voltar, e a seus próprios ouvidos sua voz pareceu espelhar o vazio que sentia no coração. De um jeito ou de outro, Will sempre sentira aquele mesmo vazio em seu peito. A sensação, porém, se tornara ainda mais intensa e profunda durante aquelas duas últimas semanas... Para ser mais exato, desde o instante em que o detetive particular contratado por ele informara que seu irmão fora finalmente encontrado. Morto. Havia sido essa notícia que o fizera arquitetar um plano de fuga. Antes disso tentara ser um presidiário exemplar, de acordo com a orientação de seu advogado, que pretendia usar o seu bom comportamento como argumento para pedir a antecipação da liberdade condicional. Diante da morte, ou melhor, do

assassinato de seu irmão, contudo, Will deixara de se importar com as aparências. — Não foi assim que lhe ensinei, Stone — o guarda o provocou. Recusando-se, porém, a aceitar a provocação, Will se voltou, abriu um meio sorriso sarcástico e tornou a responder: — Não... senhor. O silêncio que se estabeleceu entre os dois homens era apenas perturbado pelos ruídos das máquinas e pelo ronco dos motores das empilhadeiras. — Ao trabalho — o guarda ordenou, por fim. Sem nada dizer, Will deu meia-volta e andou até o caminhão de tipo baú, cuidando para que seus passos não parecessem apressados ou ansiosos. Uma vez dentro do compartimento de carga, que já tinha um quarto da capacidade preenchida, começou a comparar os códigos anotados na listagem com aqueles impressos nas tampas e laterais dos caixotes. Discretamente, procurava por uma determinada combinação de números que sabia não constar da listagem. Mas a caixa especial não estava ali. Pela primeira vez Will imaginou que sua tentativa de fuga talvez fosse falhar. Não podia ir adiante com o plano se aquela caixa não se encontrasse no caminhão, pois precisava do cortador de metal que estaria dentro dela. Recusando-se a desistir tão cedo, tratou de ajeitar melhor os caixotes já embarcados, de modo a reservar para si um pequeno espaço num canto mais escondido. Quinze minutos mais tarde o veículo já estava quase cheio... e nada do caixote esperado. Will começou a entrar em uma espécie de pânico calado, um terror paralisante que lhe gelava a alma. — Vamos lá, acabem logo de carregar essa coisa! — O guarda deu um tapa na lateral do caminhão. — Não temos o dia todo. — Você não tem o dia todo, Sapo — brincou um dos internos. — Nós temos os próximos vinte anos! Uma sonora gargalhada explodiu entre os demais presidiários. — Muito engraçado, Winters — o guarda resmungou — mas deixe as piadinhas para os seus colegas. Vamos lá, Stone, saia logo daí para que os rapazes possam completar a carga! Com uma agilidade surpreendente para seus quase dois metros de altura, Will saltou da carroceria do caminhão. Com certa dificuldade, obrigou-se a não olhar para trás, para aquele pequeno espaço vago que reservara no fundo do compartimento. Continuou a checar os números nas tampas dos caixotes, um após o outro, como se cumprir a tarefa fosse a única coisa que tivesse em mente. Onde, com todos os diabos, estaria Glover com o maldito cortador que lhe prometera? E mesmo que Glover aparecesse agora, como poderia colocar a caixa dentro do caminhão sem ser visto? Pior: como poderia ele mesmo embarcar, se o Sapo parecia ter resolvido acompanhar de perto a operação? Tomado por um desespero crescente, Will observava e tomava notas enquanto o compartimento de carga acabava aos poucos de ser preenchido. E então, de repente, ele avistou o que tanto procurava e uma onda de alívio o invadiu. A terceira caixa do último lote a ser embarcado pela empilhadeira trazia estampada a seqüência de números combinada. O alívio, no entanto, se desvaneceu em frações de segundo, sendo substituído por uma frustração que beirava o incontrolável. Não havia como pôr seu plano em prática, agora. Não com o Sapo a vigiá-lo de perto e metade dos presidiários de Folsom a servir de platéia! — Vamos logo, Stone! — O guarda fechou uma das portas do baú do caminhão e estendeu a

mão para alcançar a outra. — Está esperando o quê? Sua liberdade condicional? Com um gesto, o guarda Sapo comunicou o final da operação ao motorista, um rapaz de vinte e poucos anos obviamente pouco à vontade no interior da prisão de segurança máxima e louco para sair dali o quanto antes. Com um ar aliviado, o jovem sentou-se ao volante do caminhão e fechou a porta da cabine, enquanto o Sapo fechava a outra porta do compartimento de carga. Naquele exato instante, um estrondo soou no salão de trabalho, seguido pelo ruído de aço se amassando e por um vozerio. — Ora, que diabo... — Ei, você viu aquilo? — Minha nossa, é Glover! — Glover? — O guarda Sapo correu em direção à desordem que se formara bem no meio do salão, seguido por todo mundo, inclusive o agora curioso motorista. Ou melhor, todo mundo menos Will, que ficou parado junto ao caminhão. Sozinho. Billy Glover, um negro alto e forte, desembarcou da maciça empilhadeira que agora exibia um profundo amassado em sua parte lateral. Logo na primeira semana de Will no presídio, ele e Billy se haviam enfrentado e a briga servira para que surgisse entre eles um grande respeito mútuo. Não que fossem amigos, pois a verdadeira amizade era incompatível com o ambiente e o modo de vida em uma instituição penal, mas confiavam um no outro, ainda que de um modo reservado. Tanto que, quando Will pedira ajuda a Billy, este não lhe fizera perguntas. Trabalhava no setor de confecção das placas, onde as ferramentas eram diversas e numerosas, de modo que não lhe seria difícil atender o pedido e arranjar um cortador de metais. E agora, com aquele acidente, Billy lhe estava oferecendo um último presente. — Ei, Glover... está cego ou o quê? — perguntou o guarda, furioso. — Rapaz, se era você quem estava dirigindo o carro da fuga, não me admira que os seus sócios tenham sido pegos! — brincou um detento, sabendo que Glover e seus comparsas cumpriam pena por assalto a banco. O som dos risos foi a última coisa que chegou aos ouvidos de Will, antes que este embarcasse no compartimento de carga do caminhão e fechasse a porta atrás de si. Tateou ao redor. No frio interior do baú de alumínio repleto de caixotes, tudo era escuridão e silêncio. Um silêncio rompido apenas pelo pulsar acelerado de seu coração. Calma, ele pensou. Tudo o que precisava era ter muita, muita calma... Apenas por precaução, para o caso de alguém ainda resolver dar uma última olhada dentro do caminhão, Will agachou-se e se acomodou no pequeno espaço que reservara para si. Assim escondido, respirou fundo e esperou durante o que lhe pareceram longas horas, embora soubesse não passarem de uns poucos minutos. Alívio e ansiedade se misturaram em seu coração quando, por fim, ouviu o motorista embarcar outra vez na cabine e bater a porta com força. Então o rapaz ligou o motor e começou a manobrar o veículo para finalmente sair dali. A sorte estava lançada e a partir daquele momento já não havia como voltar. Se a sorte não lhe sorrisse e fosse apanhado, teria de arcar com as conseqüências de seus atos. Só que ele não seria pego, simplesmente porque não podia. Ao menos não até que tivesse feito o que havia por fazer. E depois disso, não se importava muito com o que lhe pudesse acontecer. Will esperou até ter certeza de que o caminhão já havia cruzado os portões da penitenciária, e só então ousou caminhar de volta aos fundos do compartimento de carga, cujas portas agora estavam trancadas por fora. O balanço do veículo o desequilibrava e

ameaçava jogá-lo ao chão, mas ele não podia esperar ou desistir. Tempo era,um fator crítico em seu plano e ele precisava encontrar a caixa com o cortador. Quem dera tivesse prestado mais atenção à localização da caixa dentro do caminhão! Estaria na pilha à sua direita ou à sua esquerda? Era a terceira caixa... mas de cima para baixo ou de baixo para cima? Escolheu uma caixa ao acaso e a abriu. Placas de carro. Will praguejou baixinho. Abriu outra caixa com alguma dificuldade, sentindo falta do canivete suíço com o qual sempre costumara andar. A ausência de um instrumento tão útil era apenas mais uma indignidade da prisão, mais uma invasão de sua privacidade. Revirando o conteúdo da caixa, ele já estava quase perdendo a esperança quando seus dedos se fecharam em torno do cabo de uma ferramenta. Obrigado, Glover, ele pensou. Sem mais demora, Will arrumou algumas caixas no corredor central que fora deixado entre elas e as usou como escada para alcançar o teto e começar a cortar centímetro por centímetro, no decorrer de preciosos minutos. Precisava ter um buraco de tamanho razoável cortado naquele teto, na hora em que o caminhão chegasse a um ponto deserto da estrada, uma certa curva em aclive onde o motorista seria obrigado a reduzir a velocidade. Ao puxar e dobrar para trás o recorte triangular que fizera no metal, Will machucou as mãos. O sangue escorria dos cortes em seus dedos, mas ele sequer parecia sentir. Enfiou a cabeça pelo recorte e espiou para fora. E qual não foi o seu susto ao perceber que a tal curva estava pouco adiante, muito mais perto do que ele havia imaginado. Sem tempo a perder, pousou as duas mãos por fora do teto e se içou para cima, tentando não se esfolar nas bordas cortantes da abertura. Já do lado de fora, teve de se ajoelhar e dobrar o corpo para diante, para evitar que o vento forte e o balanço constante o derrubassem dali. Agora era só esperar. Em menos de um minuto alcançaram a curva e a subida. Era agora ou nunca. Sem se permitir pensar a respeito do que estava fazendo, Will se atirou do caminhão em movimento. Atingiu o solo com toda a força e rolou para um lado, sem conseguir respirar. Estava velho demais para aquele tipo de coisa, pensou. Um corpo de quarenta e um anos de idade já não podia suportar esse tipo de tratamento! Por outro lado, que escolha lhe restava? Muito embora estivesse deitado pouco além do acostamento, protegido apenas por uma valeta cheia de capim alto, Will não se apressou em procurar abrigo. Recuperando aos poucos o fôlego perdido no choque com o solo, começou a mover um braço, depois outro e por fim as pernas. Felizmente não havia quebrado nem torcido nada. Estava bem. Mais importante do que isso: estava livre. Livre. Respirou fundo, saboreando o ar perfumado e limpo do outono californiano. Se a sorte não o abandonasse, ainda levaria algum tempo para que dessem por sua falta na prisão. Mesmo assim, sabia que era melhor se apressar. Tinha um destino muito bem definido em mente e era preciso alcançá-lo naquela mesma noite, já que pela manhã todos os policiais do Estado da Califórnia estariam à sua procura. Oh, sim... sabia muito bem para onde estava indo, pensou Will, desfazendo-se da camisa de presidiário e ficando apenas com uma camiseta comum de malha branca. O seu destino logo após a fuga era algo que planejara com um cuidado todo particular. Uma certa pessoa lhe devia um favor, aliás um imenso, um gigantesco favor. E ele pretendia fazer com que essa pessoa pagasse o que lhe devia.

Kelly Cooper via o mundo através de uma curta e desordenada massa de cabelos ruivos e

onde registraria os rostos magros e sem esperança das crianças famintas. Era o eminente representante de uma dinastia social cuja história remontava à época da fundação daquela cidade. que já era tido como o casamento do ano. mas vencer era algo natural para ela. De qualquer modo.. fitando na mesa de cabeceira o retrato do homem a quem tanto amara e que mal chegara a conhecer. Não que gostasse das pessoas o tempo todo. Esse era um dos pontos que mais a fascinava em sua profissão de fotorepórter. filho do político mexicano Rodrigo Echeverria. — Casaram-se. Kelly sabia que aquele trabalho tinha boas chances de lhe render um prêmio. também ele um jornalista de renome. Para ser mais exata. Ao menos poderia ouvir as notícias do telejornal. As pessoas podiam também ser completamente ilógicas. havia contratado seus serviços para a cobertura do evento. desprovidos de barreiras. Edward Andriotti.encaracolados que lhe caíam sobre a testa. enquanto tentava mais uma vez fazer as malas.. e Emmanuel Echeverria. Oh. Kelly pensou. Mesmo estando morto havia mais de cinco anos. Crianças da cidade e do campo e até mesmo o batismo de um pequenino herdeiro de uma das casas reais mais importantes daquele continente. um verdadeiro castelo encravado entre jardins cinematográficos. Kelly pensou a respeito do trabalho que a esperava. De lá seguiria para a África. estava longe de ser um político qualquer. deixavam transparecer a própria alma. que morrera quando Kelly era uma impressionável garotinha de doze anos de idade. Kelly . local especializada em fofocas e colunas sociais. Kelly parou o que estava fazendo e voltou o olhar para a televisão. Como sempre. que só continuava a cultivar aquele perfeccionismo exagerado por causa do pai. queria ser o próximo presidente do México. medíocres. Uma revista. Não que fosse pretensiosa. O pai da noiva. Instantes em que.. era tornar-se tão especial que ele não seria capaz de ignorá-la. um projeto da UNICEF para o qual ela estaria doando seus serviços. O que tentava. Kelly enxotou aquelas lembranças amargas de sua mente. Como sempre. na tarde de hoje. Pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. Para tentar se distrair um pouco.. Naquele momento ela estava olhando para a mala vazia e aberta sobre a cama de seu apartamento em San Francisco. calças de brim caqui.. porém. a instigavam a capturar em filme os momentos em que estavam distraídos. ao menos segundo os rumores que corriam no meio jornalístico da região. Suzanne. Ela própria. que jamais fora capaz de tolerar fracassos ou mesmo sucessos. adorava viajar. bem cedo. Não. pensar em seu pai a fazia pensar na mãe. era muito mais que um empresário de sucesso. Ao chegar à mansão dos Andriotti. que exibia cenas da linda cerimônia de casamento à qual ela estivera presente. filha do bem-sucedido empresário Edward Andriotti. bem no fundo de seu coração. um par de tênis. céus. horas antes.. estaria partindo com destino à Europa a fim de fotografar crianças. Sabia. Sim. Riquíssimo e muito influente. As pessoas podiam ser egoístas e mesquinhas sem que ao menos tivessem consciência disso. talvez até outro Pulitzer. tinha sido seu pai.. Todas essas imagens fariam parte de uma campanha intitulada "Crianças do Mundo Todo". E quanto ao pai do noivo. Na manhã seguinte. como odiava arrumar malas! Por outro lado. seres humanos a fascinavam. Isso e o imenso número de pessoas que conhecia e fotografava todos os dias. Aquele trabalho. aquela linha de pensamentos acabava por trazer-lhe dolorosas recordações de seu breve e fracassado casamento. Ao ouvir aquela notícia. quem a educara assim. ligou a televisão. sem se dar conta. se mostrara muito mais difícil do que ela imaginara. Passando uma das mãos pelos cabelos num gesto nervoso. Calças jeans. Desde muito cedo se havia programado para não falhar jamais. por exemplo.. aliás. uma. Rodrigo Echeverria. na verdade.

Havia alguma coisa indecifrável. conhecida fotógrafa de jornais e revistas. Do segundo rolo não usara mais que seis ou sete poses que. em parte por ser seu costume e em parte para executar um trabalho: fotografar uma borboleta típica da região para uma revista sobre ecologia. próprias da estação. no entanto. Assim. Tivera plena certeza de que aquele homem iria matá-la também. Seu instinto de fotógrafa fez com que erguesse a câmera e disparasse o obturador uma. além de vários convidados. contudo. ajoelhado ao lado de outro homem. Como correspondente de guerra vira muitas cenas como aquela. tratando de misturar-se rapidamente aos demais convidados para executar seu trabalho do modo mais discreto possível. que mais tarde soubera ser Will Stone. algo como um fascínio pelo olhar daquele homem. mas todos ansiosos por serem vistos nas colunas sociais em companhia tão expressiva como a dos Echeverria e dos Andriotti. dando maiores detalhes sobre a fotógrafa que desempenhara tão importante papel naquele processo. duas. Mas quando alguns segundos se passaram e ele não fez um só movimento em sua direção. conseguira boas fotos dos noivos e dos pais. de uma modo ou de outro. O Homem de Pedra. Sem se deixar abater. fora Will Stone que lhe havia capturado a atenção. No instante em que ele se voltou e a viu. ela se lembrou de um certo dia de outono do ano anterior. ela havia observado uma boa concentração de tais borboletas em um parque próximo à sua casa. já não vivia. foi condenado por assassinato relacionado a tráfico de drogas e sentenciado a quinze anos de prisão. Por coincidência. Conforme costumava acontecer a cada ano. O telejornal prosseguiu. Com uma das mãos suja de sangue. três vezes. foi testemunha-chave da acusação. no entanto. para selecionar as melhores e enviá-las à revista. Kelly acordara cedo. este caído e coberto de sangue. Por pior que fosse a visão daquele corpo caído. mais exatamente ao redor de um determinado canteiro de amores-perfeitos. em Folsom.ficara sabendo que apenas alguns poucos jornalistas tinham sido credenciados e autorizados a entrar. Kelly sentiu o medo gelar seu coração. o suficiente para saber identificar de longe a face da morte. com um buraco de bala no peito. mas Kelly já não estava ouvindo nada além do palpitar apressado de seu próprio coração. De repente. Kelly apanhou as fotografias já prontas e se pôs a selecionar as melhores. o dia amanhecera repleto das cores vibrantes. com um simples gesto ela havia selado o . escalara um muro e saltara para dentro da propriedade. usava um lenço para limpar as impressões digitais de um revólver. Kelly tratara de revelar e ampliar todas as fotos do primeiro rolo de filme. Sabendo que estaria partindo no dia seguinte. meio que às escondidas. Naquela manhã. repetiam aquelas já feitas no primeiro filme. misteriosa nos olhos castanhos de Will Stone. encontrara muito mais que algumas inocentes borboletas. Uma moradora desta cidade. Sentando-se na beirada da cama. havia contornado a propriedade à procura de um ponto mais deserto. Kelly percebeu no mesmo instante que o outro homem. Encontrara um homem. Disposta a fazer qualquer coisa para não ter de arrumar as malas agora. porém. apenas não pudera resistir ao impulso de fotografar aqueles olhos! Intenções à parte. Não fora sua intenção registrar a culpa daquele homem. alguns mais importantes e outros nem tanto. outra notícia lhe chamou a atenção de volta à TV: — O Departamento de Polícia acaba de informar que William Stone fugiu da Penitenciária Estadual da Califórnia. Kelly sentiu que o medo dava lugar a uma intensa curiosidade. assim chamado por ter permanecido em total silêncio durante seu julgamento.

Não. Um calafrio percorreu a espinha de Kelly diante do olhar vago daquela imagem e se repetiu. Era a polícia informando que. de lá do céu. pois aquelas imagens iriam assombrá-la e persegui-la pelo resto de sua vida. Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico sem qualquer motivo concreto. mais profundo. quando um pensamento inquietante lhe ocorreu. para dar lugar a um vazio cada vez maior. que já sobrevivera a uma erupção vulcânica no Japão. em voz alta. Estava vestindo a velha camiseta de malha com a qual costumava dormir. Por certo estaria muito mais preocupado em fugir do que em dirigir-se ao local mais óbvio para ser recapturado.. na manhã seguinte ela estaria no aeroporto. Will Stone não perderia seu tempo pensando em vingança com toda a polícia do Estado da Califórnia em seu encalço. — Ora.. e então foi até a caixa de correio do outro lado da rua para depositar ali o envelope selado com as fotografias do casamento Andriotti & Echeverria.. conciliar o sono. Kelly Cooper. Kelly ouvia apenas trechos do que dizia o apresentador do telejornal. — Eu e sua mãe temos muito orgulho de você. E aquele homem agora estava solto. sua mente parecia disposta a trazer de volta as lembranças mais terríveis e dolorosas de sua infância. ou seja. Suas fotografias tinham sido anexadas ao processo a título de provas e dia após dia Kelly vira Will sentar-se em silêncio diante do juiz. tomou um banho e preparou-se para deitar. um dos carros-patrulha designados para aquele bairro passaria várias vezes diante de seu prédio. nos raros momentos em que estava em casa. e dia após dia vira os mistérios desaparecerem do olhar daquele homem... pois dizia claramente que ele não tinha nada a perder. a dois golpes de estado na América Central e a outras tantas reportagens perigosas. Um vazio que ela achava assustador. Dia após dia Kelly perguntara a si mesma por que ele teria escolhido tal caminho. Virava-se de um lado para outro na cama. endereçado à editora da revista. ela sabia ter selado seu próprio destino também. Durante o julgamento. sem encontrar uma posição confortável. porém. à casa da mulher que testemunhara contra ele. quando o telefone tocou. ajustou o despertador e deitou-se sob as cobertas. — Sua mãe está observando tudo. minha filha — seu pai costumava dizer. enquanto o rosto de Will Stone aparecia na tela. a falta de carinho. a ausência e a rigidez do pai. ainda mais intenso. partindo para bem longe dali. não seja ridícula! — ela ralhou consigo mesma. não iria entrar em pânico agora só por causa de um assassino fugitivo de olhar vazio. sem dizer uma só palavra para defender-se. embora não tivessem nenhum motivo concreto para suspeitar de que a fuga de Will Stone significasse alguma ameaça concreta à sua segurança. Sentindo-se um pouco melhor. elemento de alta periculosidade.destino do Homem de Pedra. ela trancou a porta.. paradeiro desconhecido até o momento. fora chamada a depor sobre o que havia visto naquela manhã. Mas Kelly Cooper não podia .. Para piorar. Além do mais.. — Há suspeitas de que esteja armado. Kelly acabou de arrumar a mala e o equipamento fotográfico. dizendo a todos os anjos como é especial a sua garotinha! Essa e outras observações semelhantes praticamente a tinham forçado a viver sempre tentando ser tão especial quanto seus pais acreditavam que fosse. e logo tinha os lençóis enroscados em torno de si em completa desordem. A morte da mãe. Não conseguia. De volta ao seu apartamento. durante aquela noite. de frente e de perfil. Decidida. E mesmo enquanto fugia correndo daquele parque. Kelly Cooper.

. tornando-se uma das profissionais mais conceituadas da área. Durante todo o julgamento e ainda por muito tempo depois. — Fique quieta! — a voz lhe ordenou.. ele tampouco lhe negara o divórcio ou pedira para reconsiderar a idéia. vencendo prêmios internacionais e ganhando um bom dinheiro com isso. Kelly parou imediatamente de se mover. —Faça o que eu mandar e não sairá ferida — uma voz masculina murmurou junto a seu ouvido. e agora ela o ouvia. Era um som grave. a melhor entre todos os melhores. e foi só então que ela se deu conta de que se debatia nos braços de seu captor. já que era muito menor e mais fraca que ele. O que você acha? — Que você fez o possível e o impossível para que o nosso casamento não funcionasse. Um esforço inútil.ser apenas especial.. fazia pouco mais de um ano. tentando libertar-se. que deste vez você resolveu tomar a iniciativa e me deixar antes que eu a deixe! Kelly não tinha como contradizer aquele argumento. — Sabe o que eu acho? — dissera seu marido. algo que a magoara bastante. Resmungando e tornando a virar-se na cama. — Não. seu ex-marido tinha sido rápido demais em fazer as malas e sair de sua vida sem maiores discussões. Sim. porém. ela era um completo desastre. E isto ela vinha conseguindo. Um pesadelo que não terminou quando Kelly foi acordada pela mão áspera e rude que pousou com firmeza sobre sua boca. sombrio. Capítulo II Mais por intuição que por qualquer dedução racional. Lembranças já cobertas pela névoa do sono que se aproximava e a envolvia. Gary. era quase perfeita em tudo o que fazia e conseguia tudo o que desejava. Nisso. em especial. meses atrás. Tão grave e sombrio quanto lhe parecera o próprio olhar de Will Stone.. ela tentou tirar do pensamento aquelas lembranças que só faziam torturá-la. E então começou o pesadelo. a não ser quando o assunto era relacionamento humano. num grunhido. Ciente de que esse tipo de reação só poderia tornar maiores os riscos. desde os anos de colégio e faculdade até agora. pois no fundo achava que Gary tinha mesmo razão. voltaram as recordações de um par de olhos misteriosos. quando Kelly lhe pedira o divórcio. agora? Haveria alguma mulher a esperá-lo? Por que se mantivera tão irredutivelmente calado durante o julgamento? Eram perguntas que só encontravam resposta no persistente tiquetaquear do relógio sobre a mesa de cabeceira. Kelly reconheceu que enfim estava ouvindo o Homem de Pedra falar. fascinantes e assustadores. Precisava ser o máximo. Na verdade. costumara imaginar que som teria sua voz. . Quando conseguiu. De qualquer modo. Parece ter tanta convicção de que todas as pessoas acabam por abandoná-la. Onde estaria Will Stone.

E que ainda estava. — Ah. Com medo de fazer qualquer movimento brusco. As pessoas do júri decidiram considerá-lo culpado e o juiz determinou sua sentença. você ficou assustada quando ouviu dizer que eu havia escapado? Ficou com medo que eu aparecesse por aqui para um. Will Stone parecia o mesmo. — Você não parece surpresa por me ver — ele comentou. por um instante. — Eu vou tirar a mão de sua boca. — Compensação? — Sim. Will notou não só o olhar de Kelly. vestia uma camiseta branca toda suja de terra e calças azuis que exibiam um grande rasgo num dos joelhos. ficara apavorada. sim. mas ergueu a cabeça e percebeu que o olhar antes perdido e vazio agora se mostrava cheio de revolta. — Diga. não? — Os olhos dele faiscaram de raiva.. — Eu não matei ninguém para chegar até aqui. Agora. — Eu apenas prestei um depoimento e contei exatamente o que vi.. — Sinto muito. se é isso o que você está pensando. como também a direção que tomavam os seus pensamentos. mas terrivelmente hostis. Também devagar.. moça. como se aqueles últimos seis meses lhe tivessem sido não apenas duros. Tão perto que o seu corpo.. pressionava-se contra o dela e a fazia afundar na maciez do colchão. entendeu? Kelly nada respondeu. aliás. não é? — Will a fitou em silêncio. porém limpas e decentes. Preferia morrer a admitir diante dele que. — O que você veio fazer aqui? — ela questionou. E de repente ela estava fitando um rosto familiar. Kelly não sabia ao certo o que pensar. — Acertar as contas. com roupas modestas. E você. a mão que lhe cobria a boca se afastou. como na primeira vez em que ela o vira. mas não fui eu quem o colocou na prisão. ela balançou a cabeça devagar. A barba por fazer e os cabelos compridos e despenteados a lhe cair sobre a testa tornavam ainda pior sua aparência. Kelly respirou fundo. sem se dar ao trabalho de responder à pergunta que lhe fora feita.— Isso mesmo — o sussurro cortou a escuridão e o silêncio da madrugada. se ergueu apoiada num cotovelo e piscou. altiva.. Fui intimada como testemunha e não tive escolha quanto a isso. ofuscada pela súbita claridade quando o homem a seu lado acendeu o abajur. — Não — ela retrucou.. embora eu esteja pretendendo uma compensação muito menos violenta do que você possa estar imaginando. só que mais velho e cansado. Tanto no parque como no julgamento ele estivera sempre apresentável. — Sua fuga já foi noticiada pelo telejornal. — Fique calma e bem quieta! A mão áspera e rude continuava a pesar sobre os lábios de Kelly. Compensação pelos seis meses que passei naquele lugar fedorento. por mais que tivesse tentado.. a imprensa. sempre a postos! Acho que os jornalistas gostam mesmo de mim. — Entendeu? — ele rosnou junto a seu ouvido. — Ah. portanto não venha me culpar! . acerto de contas? Kelly desviou o olhar e ergueu o queixo. no entanto. de fato. forte e musculoso. Um meio-sorriso sarcástico curvou-lhe os lábios. mas não quero ouvir nem um pio.. não fez o menor esforço para mudar isso! Não foi capaz de dizer uma só palavra em sua própria defesa. E um par de olhos que não fora capaz de esquecer. Ele estava muito perto. E havia sangue em suas mãos. impassível.

principalmente depois do que já passei. Depois de escapar da cama. Até então ele não a tinha ferido. E aposto como você não vai gostar de me ver acordando assustado. — E não tente se levantar. O verdadeiro problema. E mesmo sendo uma profissional treinada para manter a calma mesmo sob situações de extremo perigo.. tão próximo que quase podia tocá-lo de onde estava.. corpo contra corpo. sem saber ao certo se queria mesmo ouvir a resposta. era muito arriscado. Sim. Na prisão se aprende a dormir com um olho aberto. mas era óbvio que não hesitaria em fazê-lo caso fosse desafiado. — Cale a boca e durma! — Will ordenou. pousou o pé no chão. Kelly colocou uma perna para fora das cobertas. parou. no entanto.. Quase quatro horas da manhã. Kelly resolveu obedecer sem discutir. Além do mais... Kelly se deu conta de que aquele homem não só estava exausto como também pretendia deitar-se ali. seria sair debaixo do braço que lhe pesava. deslizando pouco a pouco em direção à borda do colchão. a seu lado. como catástrofes naturais ou bombardeios. a coragem de Kelly renasceu.. consultou o despertador sobre o criado-mudo. não quero saber de conversa. moça. Will gemeu.. Sim. resmungou algo incompreensível e se acomodou melhor na cama. percebeu que Will Stone estava dormindo um sono de pedra.Will resmungou baixinho. quando o homem a seu lado não se moveu. Quarenta e cinco minutos depois. — Pela manhã discutiremos o resto de sua dívida. — ainda tentou protestar. Assim. apanharia o carro e só quando estivesse longe dali pararia em um telefone público para avisar a polícia. Seria estupidez confiar tanto na sorte. hoje! Kelly não saberia dizer o que a incomodava mais: tê-lo tão perto de si. Ele se remexeu. Alimentada por essa certeza e pela informação de que um carro da polícia estaria patrulhando a rua. com um braço em redor da cintura de Kelly. ele não havia movido um só músculo. inerte. Naquele instante. espere aí. Girando devagar a cabeça.. apagado como uma lâmpada. sobre a cintura.. Felizmente seu captor parecia não ter o sono tão leve quanto pensava.. Você me deve uma e estou aqui para cobrar. isso mesmo! Desceria direto para a garagem. quase entrou em pânico diante daquela constatação. segurando . moça. afinal de contas. levar o telefone para dentro do banheiro e chamar a polícia? Não. curvando-se para desamarrar as botinas. pois eu vou perceber. — Ei. Kelly parou onde estava. na cama. bem devagar. com todo o cuidado. eu lhe devo? — Kelly perguntou. — Por enquanto você me deve algumas horas de sono — disse ele. no entanto. E se tentasse pedir ajuda a algum vizinho? Não. Essa impressão era reforçada pela respiração profunda e regular e pelo peso morto do braço jogado em redor de sua cintura. Will Stone. ele estava fora do ar.. sem paciência para argumentar. Sim.. A menos que. desde o momento em que se deitara.. Seu olhar pousou sobre o telefone sem-fio. apagando a luz e se deitando de lado sobre as cobertas. — Bem. também era arriscado demais. ou ser ameaçada outra vez. Não estava disposta a tolerar aquela situação sem reagir.. Com a maior leveza possível. talvez fosse melhor fugir para fora da casa e.. — E o quê. porém. E o quê? Fazer sinal para o primeiro carro que passasse na rua? Torcer para que um policial estivesse por perto? Não. Aquilo ensinaria Will Stone a não mexer com ela! Devagar. Devagar. esperou e. não parecia ter intenção de feri-la. O que devia fazer? Esgueirar-se para fora da cama. ela fez o mesmo com o outro pé. Com incrível lentidão começou a se afastar de Will. o que já era algum alívio..

e olhando nos olhos de Will. De fato. Kelly se limitou a fitar aquele homem que. aquela vitória tinha um gosto amargo. Sabia que era necessário um pedido de desculpas. Sim. — S-sim. Centímetro por centímetro o pulso. com um brilho ameaçador nos olhos escuros. intermináveis minutos que pareciam horas e ao fim dos quais Will Stone já estava outra vez mergulhado num sono profundo. a teria feito suspirar. ela se permitiu respirar fundo. muito mais fácil do que.Kelly com mais firmeza e tornando a colar seu corpo ao dela de um modo que. calçando as botas e amarrando os cadarços das . E agora. sem a menor cerimônia. quase calmo. Nada. Permaneceu ajoelhada no carpete por um instante. moça — disse. ousaria tentar de novo? A resposta era clara. em sua independência. ágil como uma cobra dando o bote. Como vinham se recusando havia muito tempo. Longos. As primeiras luzes da manhã iluminavam um rosto marcado pelo cansaço. Esse medo não passou despercebido aos olhos de Will mas. atirada sobre o colchão e presa sob o corpo maciço de Will Stone. Mais uma vez começou a se esgueirar por sob o braço pesado e musculoso que a envolvia. apanhar a bolsa e cair fora daquela casa o quanto antes. Antes que ela tivesse chance de reagir. Com o coração aos saltos e a respiração presa na garganta. A revolta. pois a intuição lhe dizia que parte do charme daquela mulher residia exatamente em seu espírito livre e indomável. sua única companheira leal de tantos e tantos anos. era se erguer com muito cuidado. e juro que vai se arrepender por ter nascido! — ele rosnou por entre os dentes cerrados. tentando recuperar o fôlego e acalmar o coração que batia apressado. Contou um minuto. ela disse: — Quer fazer o favor de soltar o meu braço? Você está me machucando. Aliviada. — Entendeu bem? — Will apertou-lhe o pulso com mais força e o rosto dela se franziu numa expressão de dor. Kelly conseguia manter sua dignidade. surpreso com as marcas vermelhas deixadas por seus dedos. Fácil. Ele fitou o pulso em redor do qual sua mão se apertava e após um instante o soltou. moça. Melhor assim. tornou a invadi-lo e sufocou o remorso. direta. já estava sendo puxada com violência de volta à cama. — ela murmurou. Num tom de voz educado. agora. mas seus lábios se recusavam a pronunciar tais palavras.. — Prepare-se para partir. e a mão antes imóvel agarrou o pulso de Kelly sem se importar com a dor que lhe pudesse estar causando. — Faça isso de novo.. a palma e por fim os dedos cobertos de sangue seco escorregaram por sua cintura e foram repousar sobre o colchão. por estranho que pudesse parecer. porém não menos alerta. Ela havia conseguido! Tudo o que tinha a fazer. em busca de algum sinal de que o tivesse despertado. acabava de invadir sua vida. A despeito do medo. Chegara a essa conclusão ainda durante seu julgamento e as atitudes que ela tomava agora vinham apenas reforçar a impressão. Não tinha outra escolha. desde quando era ainda um garoto e desistira de pedir desculpas a seu pai e à sociedade por não ser o que esperavam que fosse. O braço que até então repousara inerte sobre o lençol se ergueu de repente. em outra situação. depois outro e ainda mais um. Will rolou para um lado e foi sentar-se na beirada da cama.. enquanto Kelly finalmente deslizava para o chão em completo silêncio. Kelly fechou os olhos e esperou. demonstrando por fim o medo que vinha tentando esconder. Observou o rosto de Will. — Entendeu bem? Muda..

portanto comece a falar — disse ele —. com a mesma violência que usara para fechar a porta. entrou no banheiro e bateu a porta com toda a força.mesmas com gestos bruscos. pois no momento em que eu desconfiar de alguma coisa. moça.. — Aliás devo ir logo para o aeroporto. Ao menos essa parte você entendeu! — Quer fazer o favor de parar de me chamar de moça! — Kelly gritou. então é isso o que eu sou? Uma refém? — Pois é. Apressada pela raiva. tornou a abri-la menos de dez minutos depois. Agora cale a boca e trate de se vestir! — Will apontou a camiseta que ela usava para dormir. Mediu-a de alto a baixo num só olhar. — Uma viagem? Eu e você? — Foi o que eu disse. moça. Você sabe disso! — ela resmungou. como você é grosseiro! — O que esperava? — Ele abriu um sorriso sarcástico. isso é mesmo uma pena. lavou-se e vestiu-se em tempo recorde e. Esqueça o avião. E não entre em pânico pensando bobagens pois tudo o que eu quero de você é seu carro e sua companhia. moça: ou se veste sozinha ou eu mesmo irei vesti-la. — Também preciso usar o banheiro. ou quanto à variedade de frascos e potes de produtos de toalete que ela começava a enfiar em um dos compartimentos da mala. apanhou a calça de brim e o suéter leve que havia separado para a viagem. — Você escolhe. moça. e só pare quando eu mandar. desconfiada. E é bom não tentar nenhuma gracinha. — Tenho compromissos marcados! — Bem. — O tom de Will era ríspido e insensível.. moça. que até então estivera junto à janela. senão acabo perdendo o avião! Will a fitou e balançou a cabeça. Vou fazer uma viagem e você vem comigo de qualquer jeito. — Falar? — Sim. — Sinto muito. — Oh. — Escute. porém eu não posso levá-lo comigo para fora do país — Kelly argumentou. moça. — Eu bem que gostaria de ter podido dormir mais um pouco. não sei em que está pensando. — Sabe. — O que você quer dizer com isso? — perguntou. tenho um contrato a cumprir e se eu não aparecer muitas pessoas vão ficar preocupadas. — Estou saindo de uma . — Céus. se é que você me entende. Kelly não tinha a menor dúvida de que ele seria capaz de cumprir a ameaça. Will Stone. — Vamos fazer uma viagem. saio do banheiro do jeito que estiver. massageando o pulso dolorido. mas parece que você prefere acordar cedo. para ter certeza de que você continua aqui no quarto e não está chamando socorro por telefone. — Não vai se sair bem desta. mas eu acho que não entendeu muito bem o que está acontecendo por aqui. — Olhe aqui. O barulho chamou a atenção de Will. mas não fez qualquer comentário a respeito dos cabelos ruivos a lhe cair em cachos desordenados sobre a testa. Kelly também se sentou. — Eu não posso ir com você! — Kelly colocou as mãos na cintura e prosseguiu. — Ele se pôs em pé e enfiou a camiseta para dentro das calças. o primeiro mandamento do manual do seqüestrador diz que o refém deve cancelar todos os seus compromissos anteriores. observando a rua por uma fresta entre as cortinas. imaginando onde estou! — Lidaremos com esse problema mais tarde. Furiosa.

— Estou aqui — Kelly se apressou em responder. e longe do telefone! Com isto. — Escute. dizer que não me fez mal nenhum.. — Aliás. seguido pela água correndo na torneira da pia. pois sabe que fugir de uma penitenciária é considerado infração às leis federais. não tinha a menor vontade de fazer... se voltando outra vez para Kelly..penitenciária. áspera. — É isso aí. Por um instante Kelly chegou a pensar em fugir. — Sua voz morreu na garganta. A cidade. mas correr riscos era uma coisa e ser burra era outra. Algo que ela.. E trate de ficar aqui. Will entrou no banheiro e fechou a porta. porém logo chegou à conclusão de que não seria capaz de se mover com tanta rapidez assim. Não que se estivesse acovardando. de dentro do banheiro. no instante em que se deu conta dos verdadeiros motivos que haviam levado o fugitivo a envolvêla naquela história. não pense que vai se sair bem disso! — Não preciso me sair bem para sempre. parecia quieta e sonolenta. portanto não tenha esperanças de que torne a passar tão cedo.era provável que conseguisse descer os degraus até a sala ou mesmo que. com alguma sorte... — Todos estarão à procura de um homem com a minha descrição. Quanta tolice! Ainda assim. Em pouco tempo todas as polícias estaduais e o FBI estarão à procura de um homem com a sua descri. aonde imagina que vá conseguir chegar. — Minhas coisas já estão arrumadas — respondeu. a polícia desconfiasse de algo e viesse resgatá-la.. Embora o plano fosse bastante inteligente. se recusava a dar a Will Stone o prazer de vê-la decepcionada. moça. — ela ouviu o ruído da descarga. em tentar correr para fora dali. Prosseguiu. talvez lhe interesse saber que o carro da polícia esteve aí em frente faz pouco tempo. — E não tem mesmo que entender — ele a interrompeu. Eles com certeza irão levar isso em consideração.. E no final teria conseguido apenas piorar a situação e enfurecer Will Stone outra vez. Ela sentiu um aperto na boca do estômago ao se dar conta de que estivera de fato esperando que.. a não ser por um gato solitário a caminhar sem pressa pela calçada. dar a partida e fugir. não por um alegre casal em viagem de férias. você tem consciência de que vai acabar se dando mal. — Como assim? — ela o fitou. A rua estava totalmente deserta. embarcar no carro. intrigada. Daí a ter tempo de abrir o portão. — Isto é. vai causar uma impressão favorável em certas autoridades. muito diferente! Calculando friamente.. A porta do banheiro se abriu e o olhar de Will encontrou-se com o dela. não tem? Então por que não se entrega e torna as coisas mais fáceis para si mesmo e para todos? Posso testemunhar a seu favor. em conseqüência de sua última e frustrada tentativa de fuga. Kelly foi incapaz de resistir ao impulso de contradizê-lo: — Mesmo assim. aliás. . caso resolva se entregar. — ele confirmou. chegasse à garagem. — Eu não entendi. O pulso ainda lhe doía. bem perto da porta.. como em algum filme de aventura.. tendo a polícia toda atrás de você? Não só aqui em San Francisco ou no Estado da Califórnia. brusco. contudo. ainda imersa na meialuz cinzenta do princípio da manhã. havia uma grande distância. A passos tensos se aproximou da janela e olhou para fora. — Arrume suas coisas — Will ordenou. — Não estou ouvindo você — Will avisou. mas no país inteiro. Além do mais. não de uma escola de boas maneiras! Agora comece a falar. — Will murmurou mais para si mesmo que para ela e por um instante seu rosto adquiriu uma expressão ainda mais sombria..

Kelly o fitou com um ar de completo espanto. — Pois eu não vou a parte alguma sem isto! — ela retrucou. moça? Ela se voltou para fitá-lo. eu sei — disse Will. em seguida ao ruído de protesto emitido pelas engrenagens quando Will tentou mudar de marcha mas esqueceu de pisar na embreagem. teve um mau pressentimento. Disse a si mesmo que aquilo era exagero. Will passou a dirigir pelas ruas da cidade com a desenvoltura de um habitante de longa data.. mesmo não tendo enxergado nenhum ocupante em seu interior. — É. e concluiu que os dois veículos. — Não acha que está começando a se mostrar ousada demais para uma refém. ele não se incomodou em lhe dar a menor explicação. — E deixe essa coisa por aqui mesmo! Não vai precisar dela. Olhos castanhos carregados de ameaças silenciosas fixaram-se em olhos verdes desafiadores e uma cena ocorrida num parque. enquanto esta pegava a jaqueta de brim e a câmera fotográfica que estavam sobre uma cômoda. embora tivesse estado em San Francisco apenas uma vez. Kelly lançou-lhe um olhar furioso.. Ele tinha um destino certo e todo o trajeto em mente. ele avistou um carro estacionado junto ao meio-fio e. se você pretendesse me matar. orientando-se apenas pelos pontos de referência dos quais o detetive particular lhe falara. E não me chame de moça! — Não force a sua sorte. um velho modelo compacto precisando de consertos e que vendera para pagar os serviços de um detetive particular. jamais tivera a oportunidade de dirigir um automóvel luxuoso como aquele. muito mais importantes. Will avançou devagar por entre túmulos suntuosos e bem cuidados para enfim virar à esquerda depois de um mausoléu em granito rosado e chegar ao setor mais pobre daquele lugar. mas ao menos trate de manter essa coisa maldita longe de mim! Muito tempo já se havia passado. — Ele apontou para a câmera como se fosse uma inimiga mortal cuja presença não estava disposto a tolerar. Assim que saiu da garagem e guiou o automóvel pela rua onde Kelly Cooper morava. pensou Will ao tirar da garagem o belo conversível vermelho de Kelly. Os resultados das longas horas passadas na biblioteca da prisão estudando e decorando mapas começavam a aparecer. Um pouco mais tranqüilo por saber que não estavam sendo seguidos. Percorrendo alamedas estreitas e desertas com o automóvel.— Então vamos embora. uma tolice. Quando percebeu que estavam entrando em um cemitério. Como parecia ser de seu costume. já o teria feito a estas alturas. que Will sequer notou. Seus pensamentos estavam concentrados em outras coisas. — Ele apanhou a mala de Kelly.. portanto ficou atento ao retrovisor até que o outro veículo. antes. — Eu agradeceria se você tomasse um pouco de cuidado para não estragar a caixa de câmbio — ela recomendou. ignorando seu pedido como das outras vezes. num tom de voz desprovido de qualquer emoção —. mas sabia que não estava em posição de se arriscar à toa. no entanto. parecendo bem mais corajosa do que na verdade se sentia. Um setor sem flores ou belas . emergiu na memória de ambos. Aliás. — É que eu percebi que. — O dia mal começou. Lembrou-se de seu próprio carro. moça — ele a preveniu. cerca de um ano antes. a um canto do quarto. desde a última vez em que ele estivera ao volante de um carro. mal conservado e de um tom pálido de azul.. eram como que um reflexo da personalidade de seus proprietários. tão diferentes entre si... desaparecesse na distância. Uma cena dramática que havia alterado mais de uma vida.

cara. pois sentia que seu irmão estava precisando de ajuda. Quanto a isso. Lembrava-se daquelas palavras como se as tivesse acabado de escutar. Meu emprego é excelente. Ficou parado por um longo instante. então se acocorou junto à lápide simples e despojada na qual não se lia nada além de um número. estou morando em um apartamento bem maior e até comprei um carro novo. Algo que. Transcorridos vários minutos. sempre tivera uma atitude de submissão perante Will. Não pelo chamado. durante os quais parecia ter se esquecido da presença de Kelly. E se você vier para cá irmãozinho. No fundo de seu coração sabia que Stephen era de fato um fraco. Will enfim encontrou o que estivera procurando. Aquela impessoalidade o enfureceu e o fez prometer para si mesmo que um dia. a fitar aquele pedaço de chão com um olhar perdido. da mesma forma que se lembrava de ter desconfiado de que algo estivesse errado. Este não custara muito a notar que o pai dava preferência e proteção ao primogênito. obediente. E apesar de tudo isso Will Stone amara e protegera o seu irmão a tal ponto que teria sido capaz de dar a própria vida por ele. Num gesto cheio de reverência. Nenhum nome ou data. venha para San Francisco passar uns tempos comigo! Por aqui nós temos um bocado de sol e as garotas mais bonitas e animadas do país! Will ainda podia ouvir a voz do irmão ao telefone. Na verdade. Mais uma vez seu tom de voz não deixou margem para discussão. — Sim. frio e sem qualquer sentido. de um certo modo que não deixava de ser irônico. afinal era a única família que lhe restava. Diminuiu a velocidade e estacionou o carro junto ao meio-fio. de fato acabara por fazer. dos planos mirabolantes através dos quais imaginava ficar rico. ou que ao menos não o tratava com tanta rigidez nem pedia a ele os mesmos esforços que exigia do filho mais novo. Stu Stone sempre se justificara dizendo que não impunha metas a Stephen por saber que ele era incapaz de alcançá-las. Haviam nascido num gueto de Chicago. E com uma suavidade que não combinava com sua usual rispidez.. mandaria colocar ali uma lápide apropriada.estátuas adornando as lápides simples. — Está tudo bem com você? — Will chegara a perguntar. — Ele abriu a porta e desembarcou. Nada. Apesar de tudo Will não guardara ressentimentos.. passou a arrancar as ervas daninhas que cresciam sobre a . — Para falar a verdade. tudo vai ficar realmente perfeito! Will atendera ao pedido e fora para San Francisco tão rápido quanto pudera. — Ei. O curioso é que Stephen. sem árvores frondosas para quebrar a monotonia e a tristeza da paisagem. a não ser um estúpido número. num lar mal estruturado e muito pobre. dois anos mais velho. um túmulo decente cuja pedra exibiria o entalhe de um nome: Stephen Andrew Stone. em si. minha situação não poderia ser melhor. Jamais dera as costas a Stephen e jamais o faria. embora soasse baixo em sinal de respeito ao lugar em que se encontravam. custasse o que custasse. já que ao longo dos anos Stephen o convidara inúmeras vezes para essas visitas e sempre que possível ele comparecera. claro. Algo como puro medo. Ela se limitou a segui-lo. Tudo ótimo! — insistira Stephen. nenhuma frase inspirada ou consoladora. um dia. um homem sem fibra que sempre se deixava levar pelo brilho falso das ilusões. o que lhe soara estranho naquele telefonema fora um sutil tom de ansiedade que insistia em transparecer sob o aparente bom humor de seu irmão. e ainda pequenos tinham aprendido a se unir para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. tirando as chaves do contato e colocando-as no bolso como se lhe pertencessem. — Vamos. Um tom que revelava tensão e talvez algo muito mais grave.

quando entrei no quarto. — Ora. Dois dias após sua chegada. Stephen precisara ser submetido a uma operação nas amídalas. Stephen respondera de modo evasivo. Quando criança. Algo importante. A mão de Will hesitou por um instante em sua tarefa de remover ervas daninhas para então se erguer devagar e traçar . contudo. — O que significa isto? — perguntara. Além disso. ele por pura falta de esforço. onde não tardara a descobrir que suas suspeitas estavam mais do que corretas.. Mais do que qualquer desses indícios. passara uma noite inteira se debatendo na cama do hospital. eu estou farto! Pare de se meter nos meus assuntos. O mais velho por falta de capacidade. a partir daquele momento começara a se preocupar de fato. Will deixara as perguntas de lado. E se até então tivera fortes suspeitas.. E mesmo agora Will podia lembrar do profundo medo que naquele instante se estampara no rosto bronzeado e simpático de seu irmão. com alguma brincadeira sobre a ironia de estar trabalhando em uma indústria de remédios. A gaveta de sua mesa de cabeceira já estava aberta. Sim. não tem nada de mais nisso! Todo mundo tem uma arma em casa. Mas do quê? De quem? — De ninguém! E se quer saber de uma coisa. — É fácil notar que você está com medo. quanto o haviam ferido havia um ano. por aqui. encontrara um revólver com coronha de prata na mesa de cabeceira do irmão. Zonzo. atendera ao pedido do irmão e fora para San Francisco. Com mal disfarçado nervosismo ele ficara andando de um lado para outro no apartamento. erguendo a arma para que Stephen pudesse vê-la. Coisa de cidade grande. sabe como é. De nada adiantara. Não houve como não ver o revólver. para que estivesse ganhando tanto dinheiro.. no entanto. Will tentara imaginar que tipo de emprego seu irmão teria conseguido nas Indústrias Farmacêuticas Anscott. Como se estivesse à espera de alguém ou de algum acontecimento. A escolaridade de ambos jamais passara do segundo grau e mesmo este fora concluído a duras penas. algo que deveria ter sido até bastante simples. a espiar de dois em dois minutos pela janela nos momentos em que achava que o irmão mais novo não estava olhando. o que chamara a atenção de Will fora o fato de Stephen estar desfrutando um padrão de vida muito acima de suas posses. começara desde então a recusar sistematicamente todo e qualquer tipo de droga ou medicamento e tão grande era sua aversão que preferia suportar uma terrível dor de cabeça por horas a fio do que tomar uma simples aspirina. ao recordá-las. questionar o irmão quanto a isso. gritando que havia monstros a persegui-lo.. apavorado e delirando. mano — Stephen tentara sorrir e passara uma das mãos pelos cabelos negros. prosseguindo antes que o outro conseguisse articular uma resposta. irmãozinho.tumba. E aquelas palavras o feriam tanto agora. porém. como um animal enjaulado. como costumava fazer sempre que ficava nervoso —. Stephen.. vamos.. eu estava só procurando pelo jornal de hoje. Proteção pessoal! — Proteção contra quê? — Will insistira. Como resultado. O comportamento de Stephen se mostrara no mínimo estranho. a julgar por seu sobressalto a cada vez que ouvia o telefone tocar. — Ei. Diante da resistência de Stephen em falar a respeito de seu trabalho. como cigarros e bebidas alcoólicas. também rejeitava tudo aquilo que pudesse fazêlo sentir-se tonto. com notas quase abaixo da média. que está fazendo? Me espionando? — Não. não fosse a reação causada pelo anestésico. logo ele que jamais os utilizava. — Onde o encontrou? — Em sua mesa de cabeceira. está bem? Pela primeira vez na vida Stephen erguera a voz contra ele.

mas não havia palavra que pudesse descrever o que sentira ao reconhecer o revólver largado no chão.. Era a arma de Stephen. ao se levantar. Abrir o coração para mostrar os sentimentos a quem quer que fosse era o caminho mais curto para a dor e o sofrimento. estendido junto ao canteiro e com um ferimento a bala no peito. e isso era algo que ele aprendera a evitar havia muito tempo. perto do cadáver. apenas observando aquela espécie de ato de adoração. agindo por puro instinto. à altura do coração. como abutres. Ah. Will ergueu a cabeça para fitá-la. ao menos pela pessoa que agora jazia enterrada sob a impessoal identificação daqueles números. rabiscado em garranchos nervosos e quase ilegíveis. Além do mais. Seu irmão havia saído logo após o telefonema. Com um arrepio de maus pressentimentos a lhe percorrer a espinha. Will encontrara o apartamento deserto. — Quem está enterrado aí? Ainda ajoelhado junto ao túmulo.. Sem pensar duas vezes. Certas pessoas.. A ligação fora atendida no mesmo instante e um minuto depois. Ficara horrorizado ao se deparar com o corpo já sem vida de um homem. por ali. se alimentavam do sofrimento alheio e viviam à espera de um momento de vulnerabilidade que lhes permitisse atacar e destroçar suas presas.. Não tivera que procurar muito pelo canteiro de amores perfeitos.. assumindo posição idêntica à de uma cena ocorrida havia cerca de um ano. Stephen. porém.. e levara o revólver consigo. de modo que lhe parecia muito estranho o súbito e inexplicável desejo de responder à pergunta daquela mulher. Will aprendera tudo isso da maneira mais difícil. Desta vez. a mulher de cabelos ruivos o ameaçava não com o olhar impiedoso de uma câmera fotográfica. demonstravam que ali estava enterrado alguém de quem ele havia gostado muito. incapaz de conter a curiosidade. Parada a cerca de um metro de distância Kelly se mantinha quieta. a reverência com que tocara os números entalhados na pedra e mesmo o carinho com que removia o mato e as ervas daninhas que insistiam em brotar na campa. lia-se o nome de um parque próximo dali e logo abaixo as palavras amor perfeito. Uma pergunta que só poderia ser respondida caso desnudasse diante dela sua própria alma.com as pontas dos dedos os algarismos entalhados em pedra que por ora serviam de nome a seu irmão. O modo como Will se ajoelhara. do rapaz a quem protegera das surras e desmandos de um pai alcoólatra. A constatação de que aquele homem era capaz de tamanho afeto chegava a ser espantosa aos olhos dela. um sujeito desprovido de qualquer tipo de bom sentimento. Fora despertado mais cedo que de costume pelo toque de um telefone. mas com uma pergunta muito mais perigosa e comprometedora. No bloco de anotações que ficava junto ao aparelho. produzindo um ruído trêmulo e agudo que fez Will lembrar da manhã seguinte àquela em que encontrara o revólver. E exatamente enquanto fazia isso. por que não confiou em mim? Talvez eu pudesse ter evitado o que aconteceu! Um passarinho cantou ao longe. que até então só conhecera sua rispidez e sua frieza. Will pegara um lenço e começara a limpar o revólver para livrá-lo das impressões digitais de seu irmão. Queria lhe dizer que sob aquele humilhante número gravado em pedra repousava o corpo do menino que crescera a seu lado. sofrendo com os preconceitos e intolerâncias de uma sociedade que não conhecia o perdão. uma mulher de cabelos ruivos aparecera. mas para sua infelicidade encontrara algo além de flores. tratava-se de um homem condenado por assassinato. . E no entanto era óbvio que sentira algo de muito especial. — Quem era? — Kelly perguntou quase num sussurro. Will se vestira e correra para o parque em busca do irmão.

Mas precisava ser encontrado. portanto somaram isso ao fato de Will jamais ter passado muito tempo em um mesmo lugar. vivera sustentado pela crença de que esse mesmo irmão apareceria para assumir a responsabilidade por seus atos e desfazer aquele terrível engano. — Não é da sua conta — respondeu com frieza. anos antes. Da dor que experimentara ao saber que alguém havia tirado a vida de seu irmão. aliás. ela já o havia prejudicado antes. Da sua revolta ao perceber que Stephen fugira. E não havia dúvida de que sentia algo de muito especial pela pessoa enterrada ali. talvez. um desajustado que viajava de um lado para outro em busca de aventuras pouco recomendáveis. apenas reforçara algo que ela já sabia: Will Stone era um homem problemático. para concluir que ele havia se envolvido em algum mau negócio com traficantes logo ao chegar em San Francisco. Kelly o seguiu de perto. De fato. . permitindo que a culpa recaísse sobre ele. se voltando para embarcar no carro sem qualquer outra palavra. O corpo de seu único irmão. para ali se abrigar do frio e da chuva. das ilusões de poder e riqueza. o olhar mais uma vez hostil. mas com resultados não menos catastróficos. Teoria reforçada. Sabendo que não adiantaria nada tentar defender-se. Claro que nunca falara a ninguém sobre seu irmão. fora como se Stephen houvesse evaporado em pleno ar. Will sentia um enorme desejo de contar tudo isso a Kelly Cooper.. por arrombamento e invasão. Tudo isso e muito mais. De fato. pois apesar de tudo e contra a própria razão.. obediente. Conseguira coragem para suportar a perda de sua liberdade. Will sequer se incomodara em explicar as circunstâncias que o haviam obrigado a forçar a porta de uma garagem. fosse quem fosse. desaparecendo da cidade logo após o crime.. no entanto. sumido da face da Terra. um vagabundo sem raízes nem profissão definida. aprendera que ninguém estava realmente interessado no que ele sentia ou pensava.. depois de algum tempo. A promotoria o apresentara ao júri como um encrenqueiro. continuava a amá-lo. com sentimentos muito mais profundos do que estava preparado para admitir. Queria falar da raiva que sentira ao ver o irmão mais uma vez atraído pelo brilho falso do dinheiro fácil. Sim. Will não era estúpido o bastante para ceder. Por que com Kelly Cooper deveria ser diferente? Will se pôs em pé e a fitou. precisava assumir a responsabilidade pelo que havia feito! Para isso Will contratara um detetive particular que. de uma overdose de drogas. Não podia confiar nessa mulher. o veredicto de culpado não foi surpresa alguma para Will. desde o instante em que fora apontado como principal suspeito do crime e até o último minuto do julgamento. Queria dizer que. voltara com as piores notícias possíveis: Stephen havia morrido. dizendo a si mesmo que estava protegendo o irmão que parecia ter se tornado um traficante. pedindo resposta. Deduzira que Stephen tinha vendido as drogas ao homem e devido a algum desentendimento acabara por matá-lo.do homem no lugar do qual recebera uma condenação de quinze anos por assassinato. da mesma forma como não podia confiar em ninguém mais a não ser em si mesmo. Descobriram até que fora fichado na polícia. pelas drogas encontradas em poder do homem morto. — Quem era? Quem está enterrado aí? A pergunta ainda ressoava em seus ouvidos. certa noite numa cidadezinha da Carolina do Norte. Por maior que fosse a vontade de se abrir e contar tudo. Mas ele não viera. A luz das evidências colhidas contra ele e considerando seu próprio silêncio. Sem intenção. A rispidez da resposta que acabava de ouvir não fora uma surpresa. Além do mais.

. — Bom dia. mas não tente nenhuma gracinha! Logo depois de saírem do cemitério haviam parado diante de um telefone público. obrigada. — Eu já ouvi.. — disse Kelly. Um santo homem. um modo de fazer com que entendessem o que estava acontecendo. qualquer coisa! Mas seja direta e não fique alongando a conversa. Kelly revirou a bolsa em busca de algumas moedas e tirou o fone do gancho. não fique preocupada. Ah. Oh. com um ar que o desafiava a fazer com que se calasse. sim. Will tomou-lhe as moedas e as colocou ele mesmo na fenda do telefone. um som nitidamente falso. Rachel. não há necessidade — Kelly prosseguiu. Está bem.. olá. Acho que poderia fritar um ovo na minha testa! Se chamei um médico? Ah. mas tão alto e forte que chegou a lhe doer na garganta. mas voltarei ao trabalho assim que ele recobrar o bom-senso e perceber que não há como escapar para sempre às malhas da lei? — Diga que está doente — respondeu ele. ignorando o sarcasmo de Kelly. Sim.. — O doutor aqui está me dizendo que com alguns dias de repouso estarei como nova. Kelly. E quando voltou a falar. claro. Will a fitou com os olhos semicerrados.Capítulo III — Faça o telefonema — Will ordenou —.. sim. Sob o olhar atento de seu captor. — Apenas faça o que estou mandando. sim? Voarei para Zurique assim que puder. para que eu não precisasse sair.. por favor. ela tornou a tossir. mas que idéia original — ela provocou. — E ande logo! Com mãos trêmulas. forçou uma voz tão rouca e sepulcral que ficaria perfeita em um filme de terror. por sinal ele está aqui em casa. sim? Diga que fará contato de novo. estou com muita febre. Stone! Não sou surda. — Pareça doente! — ele tornou a murmurar.. — O que sugere que eu diga? Que fui tomada como refém por um presidiário fugitivo. — Invente uma gripe.. A expressão de Will se endureceu e. Kelly tossiu. quando estiver melhor. . sou eu. Rachel! — ela retornou a atenção ao telefone. Péssima! — Tornou a tossir.. Ela desviou o olhar e continuou conversando ao telefone: — Olá. em uma expressão de profunda irritação. repetindo o aviso. não. mas sem que Will percebesse. Sim. nervoso. vou tomar cuidado. quando sua editora atendeu. — Oh. — Até logo.. sem maior autenticidade que da primeira vez. neste exato momento. Sim. — Eu gostaria de falar com Rachel. Kelly aproximou o fone do ouvido e discou o número da agência internacional de notícias que organizara o projeto para a UNICEF.. — Parece que é uma gripe daquelas. Ah. claro. — Sem nenhuma gracinha. um resfriado.. o doutor foi pessoalmente até a farmácia e trouxe todos os remédios. Escute. Não. ela tentava imaginar algum tipo de mensagem cifrada. sem emitir um som. moça! — Will sussurrou a seu lado. — Como arremate final. está bem? — Exasperado. ameaçadores. — Como? Ah. está bem. quando uma voz masculina atendeu o telefone. ele moveu os lábios para dizer uma só palavra: cuidado. não preciso de nada. E enquanto o telefone chamava. estou doente.. esse médico! — Ela tornou a olhar para Will..

dando a si mesmo uma pausa para dominar a raiva. Agora. Cinco dólares serão suficientes. ótimo! — Kelly abriu a bolsa com um gesto irritado. Inclusive aquele telefonema e a gasolina que estava no tanque do carro — Pois faça isso mesmo. Lembre-se disso! — Oh. mas saiba que estou anotando cada centavo que você vem me obrigando a gastar. nem seria tão difícil de lidar. quando paravam diante de uma lanchonete na qual se podia fazer os pedidos sem sair do carro. Começava a crer que. Não podia se arriscar a deixar sua refém sozinha. — Quer fazer o favor de calar essa boca e passar logo o dinheiro. Will Stone a subestimara! — Dê-me algum dinheiro — disse ele vinte minutos depois. Desta vez. . um.. essa foi a pior atuação que já vi na minha vida! — Will esbravejou. Além de ser tomada como refém. ela não esboçou qualquer reação. por outro se acostumara a não gastar com supérfluos. pois esta ao menos não lhe daria tanto trabalho. o que quer dizer com isso? — Exatamente o que eu disse: dê-me algum dinheiro. se queria uma boa atriz. Will respirou fundo. Will imaginou se aquela mulher teria alguma idéia do quanto lhe doía depender de alguém ou ficar devendo qualquer tipo de favor. com o olhar faiscando de raiva. Kelly não notou. como se não houvesse ninguém sentado a seu lado. contudo. Se por um lado jamais tivera dinheiro de sobra. — Oh. severo. era tarde demais. Kelly colocou uma nota de cinco dólares nova em folha na palma da mão de Will. Teria que suportar as teimosias e provocações daquela ruiva atrevida que parecia não compreender sua real posição. sou obrigada a pagar as despesas para um aproveitador. de fato. Um pouco mais calmo. — Você precisa comer.. para dentro do carro. moça? — Will a interrompeu. Aquele homem era mesmo estranho. — Aí está — disse ela —. embora Kelly insistisse em ignorarlhe a presença. — Como assim. Agora. Estava muito ocupada imaginando se Rachel teria estranhado o fato de ela ter dito que voaria para Zurique assim que possível. pensou. não tinha outra saída.— Moça. Escondeu um sorriso. então o senhor me desculpe pelo mau juízo — disse ela num tom sarcástico.. — Cuidado com o que diz e faz. teria feito melhor negócio tomando alguma estrela de cinema como refém. ao extrair da carteira a quantia pedida. mas ficara um bocado ofendido ao ser chamado de aproveitador. no entanto. Will resmungou algo sobre reféns irritantes e deu a partida no carro. na qual guardava apenas um par de velhos retratos de valor puramente sentimental. arranhando as marchas ao entrar em movimento. de modo que sempre conseguira manter-se a si próprio sem incomodar ninguém. por que não seqüestrou Meryl Streep? — Dito isto. — ele avançou com o carro até o guichê de pedidos. porém. um vagabundo. — O que vai querer? — Nada. — Bem. — Não estou aqui para brincadeiras! Calada e imóvel. Ela. No bolsos das calças não trazia nada a não ser uma carteira surrada. quando deveria na verdade estar a caminho de Londres. manteve o olhar fixo à frente. Não dissera uma só palavra para defender-se de uma acusação de assassinato. e estendeu a mão. embarcou no automóvel e a fitou por um instante. — Um seqüestrador barato era mesmo tudo de que eu precisava! É azar demais. moça — ele a preveniu. — E fique sabendo que não sou nenhum aproveitador ou vagabundo. Kelly deu-lhe as costas e retomou. altiva.. entretanto.

Kelly procurava olhar nos olhos de todas as pessoas pelas quais passava. quando eu saísse do provador. E não vai nem ao menos experimentar essa calça. — Desça do carro — ele ordenou. com a mão pousada em suas costas como que para lembrá-la de que estava ali. ainda com a mão em suas costas a conduziu para a seção que desejava. O tom daquela voz pareceu trazê-la de volta à realidade da situação em que se encontrava. duas camisetas. imitou seu captor e permaneceu em completo silêncio até mesmo quando. mostrou o menor interesse. Cinco minutos depois. — Coma! — Will mandou. Depois de pagar e receber as embalagens. — Eu só precisaria dizer-lhe seu nome e pedir ajuda. ficaram medindo forças através de olhares. — Será que você não é capaz de dizer nada com um mínimo de delicadeza? Will a fitou e reformulou a ordem num tom sarcástico: — A senhorita poderia. portanto apenas uns poucos clientes se encontravam no magazine. — Talvez não tão longe assim.. Pela primeira vez desde que o Homem de Pedra invadira seu apartamento. Ninguém a não ser o homem a seu lado. ao desembarcar do automóvel. se pôs a comer. grave. afinal. com todo o prazer — ela respondeu num tom igualmente cáustico. estacionou o carro em uma vaga próxima e. Não importava quem ou o quê era Will Stone. — Nem pense em fazer isso! — Então não me dê nenhuma chance — ela o desafiou — pois eu tentarei escapar sempre que for possível! — Eu já lhe disse para não fazer nenhuma gracinha e acho bom que obedeça. sem dizer palavra. quando já terminava sua refeição. — Kelly retrucou e apontou com um gesto de cabeça o policial que acabara de entrar na loja. por obséquio. porém o ronco de seu estômago traiu a mentira. pediu dois hambúrgueres e dois refrigerantes. Sem tornar a perguntar o que ela queria.. no entanto. duas cuecas. moça — ele avisou quando entraram.— Não estou com fome — ela teimou.. — Trate de se comportar. Quase no mesmo instante Will se colocou ao lado dela. o que aliás era uma característica bastante inesperada em um assassino. Só então Kelly se deu conta do quanto estava faminto. Em vez disso. fitou-o de verdade e tentou imaginar quem e o quê ele seria. que mais você vai querer? — ela reclamou.. — Céus. como já começava a se tornar um hábito. — Você estaria longe daqui. Ainda era muito cedo. — Pare com isso. Tal ato revelava um considerável autocontrole. Rumaram para o norte. já havia escolhido para si uma calça jeans. pois sabia que era perda de tempo. Será melhor para você. Will se voltou para fitá-la e.. Kelly não se incomodou em perguntar para onde estavam indo. pararam no estacionamento de uma grande loja de departamentos. pois era com evidente esforço que se obrigava a comer devagar. dois pares de meias e uma boa jaqueta de veludo marrom. — Talvez uma bela casa num bairro chique ou uma viagem à Europa. moça. dar-me a honra de me acompanhar até a loja? — Oh. Ele venceu. Ele a tomara como refém. era seu inimigo. Ninguém. cerca de uma hora depois. na tentativa de indicar que algo estava errado. moça! — Will rosnou junto ao ouvido dela e. antes de fazer com que eu pague por ela? — Pensa mesmo que eu seria estúpido a esse ponto? — Ele a fitou.. presente e atento. acredite! .

só que ele havia conseguido escapar.. Doze pessoas. em um caminhão de entregas.Quando enfim chegaram ao caixa.. haviam decidido que o réu Will Stone era culpado pelo assassinato de um homem. da mesma forma que a perturbava o fato de estar sendo observada por ele. Por ironia. para olhar nos olhos verdes que agora o fitavam.. Condenado. durante o julgamento. não tinha nada a dizer? Will desviou o olhar da estrada apenas por um segundo. não dava a menor importância ao que as pessoas pudessem pensar a seu respeito. que o achassem perigoso. somando cinqüenta e cinco dólares à dívida que dizia pretender cobrar de Will. A palavra soava de modo estranho aos ouvidos de Will. As autoridades recomendam extrema cautela. — Ora! — Kelly balançou a cabeça.. E se o mau humor e a prepotência de Will a perturbavam. — Você estava sendo acusado de assassinato. E fora isso o que houvera com ele. Sem alternativa. sua mera presença era suficiente para fazer com que se lembrasse de duas coisas que gostaria de esquecer: que era uma mulher e que ainda não se havia recuperado por completo do fracasso de seu casamento. —A polícia ainda não tem nenhuma pista sobre o paradeiro de Will Stone. toda a sua vida estava em jogo naquele tribunal e. não apenas conseguira retornar em segurança ao carro. Que continuassem a culpá-lo à vontade.. tudo indicava que tão cedo não conseguiria se safar daquela situação. para decepção de Kelly. que diabos! Que fossem todos para o inferno com suas acusações! — Por que você não disse nada? — ela perguntou. como também fizera com que ela pagasse outra despesa. que escapou ontem da Penitenciária Estadual. no entanto. por favor entre em contato com. a condenação pouco ou nada tinha a ver com o fato de ser ou não culpado por um determinado crime. marginal. Se você vir alguém que corresponda à descrição do elemento. porém.. ele parecia estar se saindo bem demais. Claro. Infelizmente. doze cidadãos supostamente justos e normais. era fácil notar que o noticiário a tinha perturbado. No fundo eram ambos prisioneiros.. entretanto. incrédula. Kelly teve que se contentar em reclamar e anotar o valor da compra na lista que iniciara pouco antes numa página da agenda. E no entanto era essa a sua condição. Por mais que ela tentasse disfarçar. Na verdade. perante um juiz. que diferença poderia fazer? Todos já estavam convencidos de que eu era culpado! . Culpado. depois de ter passado seis meses atrás das grades. pois o fugitivo é perigoso e pode estar armado. tinha mais em comum com aquele homem do que ele mesmo poderia imaginar. ainda não conseguia ver-se a si mesmo como um condenado.. um condenado cumprindo pena por assassinato. Will Stone. Tentando afastar do pensamento essas lembranças dolorosas. tinham ouvido as argumentações do promotor e do advogado e. Mesmo agora. Significava.. Às vezes sentia vontade de subir em algum lugar bem alto e gritar diante de todos a sua inocência! Na maior parte do tempo. ora. Você sabe disso! Por ora. Voltou-se para Kelly.. — Eu não tinha nada a dizer. Will desligou o rádio e deixou que um abençoado silêncio se espalhasse pelo interior do automóvel.. isto sim. ter sido levado a julgamento e considerado culpado por um júri. o policial já tinha deixado a loja.. — Supondo eu falasse. — Isto é. Esta fazia questão de manter o olhar fixo na estrada à sua frente. destrutivo. como se não houvesse escutado nada. Kelly sentiu-se compelida a resmungar mais uma vez: — Não vai se sair bem desta.

.— Eu não estava. — Para quê estamos parando? — Kelly perguntou. — Afinal de contas. em fitar o rosto anguloso e os lábios que. que estava enchendo o tanque do carro. e ainda seguiam para o norte sem que ela soubesse qual seu destino final. deixar de notar o modo como o sol se espalhava pelos cabelos ruivos e encaracolados. contudo. sim? — Por que não? — ela perguntou. E quando os segundos se tornaram minutos sem que ele nada dissesse. O que significava isso. o que não daria por um bom banho quente! — O que foi. se estendendo por vários segundos. afinal? Será que tinha alguma dúvida a respeito? A resposta lhe pareceu óbvia quando. perguntou: — Afinal. Bem antes que os outros. Mais uma vez ele era o Homem de Pedra. Céus. — Então estamos empatados. Não pôde. — Estava sim. Will Stone não tinha qualquer intenção de negar ou confirmar a própria culpa.. sarcástica... — Será que está velho demais para fugas espetaculares? Will.. como antes. num impulso.. ao longo de todo o julgamento esperara ouvir dele algo que o inocentasse. Stone. Mais uma vez Will lançou um olhar na direção de Kelly. você matou aquele homem? Diante daquela questão o semblante de Will se tornou rígido e indecifrável como o de uma estátua de pedra e um silêncio profundo invadiu o interior do automóvel. desviou-se da tarefa por um instante para lançar um olhar irritado à sua prisioneira. — Bem. — E agora. ele talvez tivesse razão pois se não o achasse capaz de matar não teria temido por sua própria vida ao vê-lo empunhando uma arma. — Agora trate de ficar quieta e me dê algum dinheiro. — Mas devo dizer que você não é lá essas coisas como seqüestrador. com um brilho impertinente nos olhos. fazendo com que parecessem feitos de fogo. — Para quê se costuma parar num posto de gasolina? — Will retrucou. — Quer fazer o favor de falar baixo. insistiam em olhar nos dele. querer eu não quero. aliás. pois como refém você também deixa muito a desejar! — Ele recolocou a mangueira de combustível na fenda da bomba e fechou o tanque de gasolina do carro. Desembarcou e esticou os músculos doloridos. Teria mesmo se convencido da culpa de Will Stone desde o primeiro momento? Tudo acontecera tão depressa que não sabia o que dizer! Pensando bem. Ainda assim. Kelly percebeu que. — Kelly deu de ombros. eu mesma imprimo estas notas na garagem de casa. é bom me obedecer! — Está bem. esfregando a perna e o ombro que havia machucado ao saltar do caminhão no dia anterior. no entanto. não! — ela o desafiou. na verdade pareciam estar pedindo para serem tocados. moça. Faziam três horas que estavam viajando. Olhos que. — Escute aqui. Stone? — Kelly também desceu do automóvel e se espreguiçou. Não tem a menor graça. enquanto pegava a bolsa dentro do automóvel. brindando-o com um sorriso maldoso ao perceber que ele mancava de uma perna. para falar a verdade. moça. mas tudo o que tenho na carteira são estes dez dólares — Ela balançou a nota no ar... o que vamos fazer? Ah. nos meus dias de folga. é a nossa chance de brincar de Bonnie e Clyde! . desde o instante em que me viu ajoelhado junto àquele corpo. com visível satisfação. embora dissessem palavras duras agora. moça? — ele ralhou. estacionando o carro esporte diante de uma das bombas de combustível. já sei! Que tal assaltarmos esta espelunca? Vamos lá. quase contra sua vontade. Kelly chegou a abrir a boca para negar. Sinto muito. mas se calou.

lendo tudo o que você escrever naquele comprovante. O sorriso murchou nos lábios de Kelly. abriu a carteira e extraiu dali o cartão de crédito. — Olá! — Um homem gordo e calvo. — Nem pense nisso — ele a preveniu. você deve assinar o comprovante do cartão de crédito. Kelly lançou um olhar furtivo à recepção do posto e Will se deu conta do que lhe passava pela mente. não apenas aceitaria seus cartões de crédito como ainda o acharia um sujeito arrumado e de aparência honesta! Disfarçando a impaciência. — Diga-me. com uma caneta e o comprovante a ser assinado. dona — ele respondeu. Após uma inspeção apressada. . — E tem mais: meu nome é Kelly Cooper. Bo. — Nada disso. moça. — Pode deixar. deve ser isso mesmo. arrancou a bolsa das mãos de Kelly. apanhando o recibo e o cartão de crédito que Will pousara sobre o balcão antigo porém impecável. os cumprimentou com um largo sorriso. Em menos de um minuto.. como se a idéia tivesse aparecido escrita acima de sua cabeça num balão de história em quadrinhos. afinal já lhe disse mais de mil vezes para não me chamar de moça. — Bem.. devo anotar um número de telefone no comprovante? — Não é preciso. devolveu o papel ao dono do posto e pousou um braço nos ombros de Kelly para conduzi-la para fora. combinavam-se à barba por fazer e à mão cheia de cortes para causar uma péssima impressão. estava conseguindo. Mais calmo então. não é? — Eu mesmo. moça. — Vou estar bem a seu lado. assim que entraram.. Vocês dois me parecem gente honesta. se aquele homem atendesse Frankenstein em pessoa. mas as roupas de Will.. jogou a bolsa de volta sobre o banco do carro e segurou sua refém por um braço para levá-la consigo. A placa logo acima da porta da recepção dizia que estavam na cidade de Redding e que o proprietário do estabelecimento se chamava Bo Boggess. claro — o homem tornou a sorrir. e acho bom não encontrar nada além de seu nome! — Você é mesmo um estraga-prazeres. Stone — ela resmungou. eu espero por aqui — disse ela. dona. Pelo jeito. mas se queria silêncio devia ter seqüestrado uma surda-muda — ela abriu um sorriso cínico. ambos estavam de tal modo descabelados pelo vento da estrada que pareciam não saber para quê servia um pente. tentando resistir. provavelmente o próprio Bo. sujas e rasgadas. — Olá — Will respondeu e acenou com o recibo emitido pela bomba de auto-serviço. Além do mais. — Ele a puxou com mais força. impaciente. Will resmungou algo ininteligível e. ou aquele homem era cego ou era muito ingênuo! Ela até que estava vestida de modo apresentável. destacou a segunda via para guardá-la consigo. devolveu o cartão ao cliente.. Sem dizer uma só palavra. — Ela ergueu o olhar e sorriu para o homem atrás do balcão. — Viemos pagar pela gasolina. — Oh. Céus. — Além do mais. Será que é complicado demais para você ou será que sua cabeça não tem capacidade para guardar um nome tão longo? É. forçou um sorriso. Kelly se aproximou do balcão tão devagar quanto pôde e fez questão de escrever seu nome no comprovante com lentidão ainda maior. Se tinha a intenção de irritar Will. também sorrindo. — Você é Bo. após certificar-se de que ela não havia escrito ali nada além da assinatura.— Com todos os diabos.. Will tomou o comprovante assinado das mãos de Kelly e. fique calada ao menos por um minuto! — Desculpe.

— Pois é.Ela.. levaria dois dias para escrever uma única palavra! Vasculhou o chão em busca de algo que pudesse usar para riscar a porta. — Se eu não mantiver tudo trancado. — Cale a boca e faça logo o que tem que fazer — ele grunhiu. havia uma janela. isso sim! E como poderia estar. Uma pequena e linda janela basculante! Sem hesitar por um segundo sequer.. Stone! — gritou. apenas para descobrir o que já sabia: estava presa ali! — Ei. foi mais rápido e a tomou para si. olhou em redor e deduziu que não tinha grandes opções. a janela. Não. observando com toda a atenção as paredes. Will. acho que vou aproveitar para ir ao toalete. dona. é desumano. Ralhou consigo mesma por ter deixado a bolsa no carro. Era tão estreita que por um instante ela . — Oh.. para então tornar a fechar e trancar a porta pelo lado de fora. a pia. — Voltou-se para Bo com um sorriso nos lábios.. ainda não se havia dado por vencida. vendo-se trancada no minúsculo banheiro de um posto de beira de estrada? Era humilhante demais! Com um suspiro ansioso. porém. ora! — Então vá logo! — Ele abriu o toalete e praticamente jogou Kelly para dentro.. Will — disse.. Chamando-o de um nome nada lisonjeiro. depois de uma breve luta com um fecho. o que quer que eu faça? — Kelly fingiu inocência. Kelly parou de repente. estava furiosa.. — Tem gente que não sabe se portar com educação! O dono do posto apanhou a chave que pendia pouco acima da caixa registradora e a estendeu na direção de Kelly. Bo Boggess pareceu não ver nada de suspeito na atitude do outro homem e se limitou a dizer que aquela chave servia tanto no toalete masculino como no feminino. fosse um grampo de cabelos. mas desistiu logo na primeira tentativa. pendurada na parede. — Considere-se com sorte por eu não te matar agora mesmo! — Will esbravejou. Kelly subiu no tampo do vaso e. Kelly bateu ainda uma vez na porta. Mais uma vez. já dentro do toalete ao lado. descascando a tinta da porta. no entanto. — Os reféns também têm vontade de ir ao banheiro. Não pode fazer isto comigo! E terrível. como se acabasse de se lembrar de algo importante. um batom.. no alto da parede.. é. Tentou abrir a porta. — ela concordou e lançou um olhar sarcástico a Will. assim que conseguiu puxar Kelly para fora da sala de Bo. Pensou em escrever com as unhas. Tornou a olhar em redor. — Ei... os vagabundos acabam entrando lá e fazendo uma bagunça dos infernos. porém nada encontrou. Do jeito que suas unhas eram fracas. Não fosse por isso e poderia contar ao menos com uma caneta ou. com raiva não. na pior das hipóteses. Talvez pudesse deixar uma mensagem escrita na porta. esmurrando a porta. Trancar? Ela ouviu a chave girar na fechadura e mal pôde crer. bem acima do vaso sanitário. espere um pouco. é.. — Já que estamos aqui. Estava com raiva. Janela? Sim.. o vaso. — Aposto como a chave é aquela ali. um pedaço de metal ou qualquer outra coisa. se tivesse com quê escrevê-la. conseguiu por fim abrir a janela. — Ele sorriu e deu de ombros. O que poderia fazer? Gritar por ajuda só serviria para deixar Will ainda mais irritado e agressivo. não é? — É sim.. — Fique quieta ou terei que entrar aí com você! — Abra esta porta agora mesmo.

E ela não estava nem um pouco acostumada ao gosto amargo da derrota. que ficaria toda dolorida devido àquele tombo. Kelly segurou-se ao parapeito e começou a içar-se para cima. Encolhida no assento do passageiro. e em segundo que dessa vez era bem provável que tivesse levado Will Stone aos limites máximos da irritação. e acabaria se arrependendo por ter mexido com ela.. pensou. Afinal de contas. Aflita. mais acima uma camiseta branca toda suja de terra e. Pairava entre eles um silêncio completo e profundo. Naquele exato instante duas mãos pousaram com força sobre suas nádegas e. que por sua vez se manteve no mais completo silêncio. já colocava a cabeça e os ombros para fora. perfeitamente controlada. Na tentativa de resistir esfolou o peito e as mãos no parapeito. Desde a chegada de Will. caso conseguisse passar por ali.. notando que o confronto ocorrido no toalete do posto de gasolina fizera com que os dedos dele começassem a sangrar de novo. Mais especificamente a um certo demônio. Seu olhar encontrou-se com o de Will.. Fracasso. deparou-se com um par de botas gastas seguidas por calças azuis rasgadas no joelho. Kelly assumiu uma postura menos defensiva e prometeu a si mesma que ainda encontraria um jeito de levar a melhor sobre aquele homem. Cedo ou tarde ele perceberia com quem estava lidando. Bem. Uma vida que. não era uma qualquer! Era uma pessoa especial. ele estava furioso com F maiúsculo e ela estava. ela foi arrancada à janela com toda a força de que Will era capaz. cortado apenas pelo ronco poderoso do motor. chamado Will Stone. causar-lhe um novo acesso de fúria. Só mais um pouquinho e estaria fora.. Kelly tornou a lançar um olhar de soslaio ao captor. Usando uma minúscula saliência para apoiar a ponta de um pé.. não agora quando. pediu que seus quadris não ficassem entalados na estreita abertura e prometeu que. exceto por um casamento desfeito. apoiada sobre o próprio peito. um rosto que a fitava. Ótimo. sua vida ordeira. mesmo enquanto rezava para que fosse o seu anjo da guarda tentando ajudar. e desde então nenhuma palavra tinha sido pronunciada por ela ou por seu captor. ofegante.. Estava revoltada! Revoltada por Will Stone ter invadido seu bem-arrumado mundinho particular. como ela estava? Furiosa também? Não. Ela o havia deixado furioso.. além de bater um joelho contra o vaso sanitário antes de cair sentada no chão. mas nada poderia fazê-la desistir. Paralisada pela dor e pelo susto. E nesse momento.. Kelly ficou caída junto à parede. Talvez fosse isso o que a incomodava mais.chegou a desanimar. Suas mãos queimavam e seus braços doíam com o esforço. Kelly sabia que era muito mais provável que as mãos pertencessem a um demônio. duas coisas passaram pela cabeça de Kelly: em primeiro lugar. mas concluiu que era melhor arriscar-se a passar raspando que não tentar nada... não era? . severo e acusador. com isso. a humilhação de ter que admitir as próprias limitações. Era bem feito para ele! Sentindo o próprio ânimo melhorar um pouco. Um silêncio tão gélido e hostil quanto uma paisagem polar. Sucesso. satisfeita. Sim. Com um puxão que rasgou um dos bolsos de suas calças jeans. Kelly lançava olhares furtivos ao homem calado e taciturno sentado a seu lado. tinha seus alicerces apoiados no sólido terreno do sucesso. Quando teve a coragem de tornar a abri-los. Olhava de modo furtivo porque tinha medo de atrair-lhe a atenção e. Já fazia algum tempo que haviam entrado no Estado de Oregon. no topo disso tudo. não conhecera outra coisa que não o fracasso. era algo mais forte que isso. tremendo e de olhos fechados. Horas e quilômetros se haviam passado desde sua malograda tentativa de fuga. nunca mais abusaria dos bombons e guloseimas.

e era isso o que deixava o papai orgulhoso. Sim. bonita! Engraçado como aquilo lhe havia passado despercebido. Mas no fundo sabia que a verdade não era bem essa. Will respirou fundo. Ele estava furioso.. percebeu que Kelly havia adormecido. durante quinze longos anos... Alternando a atenção entre ela e o tráfego. Um suspiro suave interrompeu o silêncio e os pensamentos de Will que. Se vivem lhe repetindo que você jamais será nada na vida. pensou Will. Tinha medo da própria reação. Sim. a não ser no que tocava a si mesmo. Ao menos perante si mesmo. você acaba por acreditar. Aquela mulher simplesmente não sabia o momento de jogar a toalha.. Will mantinha a atenção concentrada na estrada à sua frente. não teria diante dos olhos outra coisa a não ser criminosos condenados e o confinado horizonte das barras de aço.. Kelly Cooper era uma mulher muito bonita. quando era hora de parar de resistir? A ele parecia óbvio que não.. lisa e clara. De olhos fechados e com a cabeça a pender sobre um dos ombros. O sol brilhava alto no céu e Kelly fechou os olhos dizendo a si mesma que era apenas para descansá-los um pouco. Para ser mais exato. mas que diabos. até agora. A pele. tão mal dormida. E talvez o motivo para tanta admiração fosse o fato de ele mesmo não possuir sequer um décimo dessa força interior. Mesmo agora que estava fora da prisão. para lançá-la num morno torpor. invadira sua casa no meio da noite e a tomara como refém! Por certo não estivera esperando obter cooperação total. Kelly Cooper tentara escapar por duas vezes. ela era especial. ela parecia tão doce e vulnerável. permitiu-se observá-la com cuidado pela primeira vez. naquela manhã. por menor que fosse. ela repetiu em silêncio enquanto o ruído monótono do motor se combinava ao sono atrasado da noite anterior. proibira-se de pensar pois seria algo inútil e doloroso para um homem que. arriscando um olhar para o lado direito. o que lhe emprestava um ar adolescente. E por quê? Já se havia feito essa mesma pergunta uma centena de vezes ao longo dos anos e sempre chegara a uma só resposta: se lhe dizem algo com uma determinada insistência.. será que ela não tinha juízo suficiente para saber quando estava em desvantagem. Aquela dona conseguira levá-lo aos limites de sua paciência. era marcada por pequenas sardas sobre o nariz pequeno e um tanto arrebitado. até então.Especial. Não era o tipo de sujeito que desistia com facilidade.. de fato você nunca será mais que isso. tão especial que chegava a ser perfeita. melancólico.. Os cabelos espelhavam sua personalidade. não é? Por outro lado. pensou. arriscando tudo sempre que se apresentasse uma oportunidade. tão especial que jamais cometia um erro. e sem dúvida iria tentar tantas vezes quantas pudesse. Ora. tão.. O olhar de Will desceu um pouco mais. peças íntimas ou quaisquer outras coisas que pudessem dizer respeito a mulheres. no caso de ela dizer ou fazer mais alguma coisa irritante. a curva pronunciada de sua cintura. E embora tal pensamento o surpreendesse. continuava sendo uma . Fazia muito tempo que não pensava em rendas. até o ponto onde a jaqueta de brim se abria para revelar o encantador volume formado pelos seios sob o suéter de lã amarelo-claro. Will não podia deixar de sentir um grande respeito pela determinação de Kelly. por exemplo. sem se atrever nem mesmo a olhar para a mulher sentada a seu lado. não fez qualquer esforço para afastá-lo da mente. não conhecia o significado da palavra desistir! Apesar de tudo. não só na cor de fogo como também na rebeldia dos cachos em perpétuo desalinho. Sob a roupa ela devia estar usando uma das minúsculas peças de renda que a vira colocar na valise.

com a visão turva e a boca seca.. Curioso.. e escute direito: estou cansado. resignada. Cedo ou tarde o apanhariam e tornariam a jogá-lo atrás das grades. não? Tinha uma missão a cumprir! Infelizmente. legítimas algemas policiais. aspirador de pó funcionando bem. Assim. Fazia uns dois minutos que tinham entrado em uma cidadezinha minúscula. mas já estava quase se acostumando com o jeito autoritário de seu captor. — Escute aqui. uma loja de roupas. pingente em ouro com diamante de um quilate. E apesar do sono que ainda lhe enevoava a mente. Capítulo IV — Onde estamos? A ausência de movimento e o súbito silêncio do motor fizeram Kelly despertar e se empertigar de repente no assento. melhor assim! Tinha coisas mais importantes em que pensar. o que pretende fazer aqui? Me trocar por uma refém mais obediente? — Fique quieta e desça do carro.. E isso se não o matassem antes! Além do mais. portanto precisava encontrar desde já um modo de impedi-la. ele deu uma olhada na placa que anunciava alguns dos artigos à venda. Will agarrou-lhe o pulso em pleno ar. O sinal passou de vermelho para verde. Era um lugarejo comum. Agora nós vamos entrar . a mulher sentada a seu lado jamais perderia o tempo de olhar duas vezes para um sujeito como ele. Era só o que se via em termos de comércio. idêntico a outros tantos pelos quais haviam passado ao longo da estrada. Duas lanchonetes. Em vez de seguir adiante. Talvez. numa tentativa de ajeitá-los. E era óbvio que ela iria tentar de novo. eu a teria largado na beira da estrada faz muito tempo. no entanto. — Will deu de ombros. Se pretendia mesmo escapar. ele olhou em redor.futilidade pensar nisso.. Violão em estado de novo. Ela suspirou e obedeceu. moça. por ali.. apenas talvez. Alguém buzinou. de modo que não podia permitir que lhe escapasse. da qual Will não se preocupara sequer em saber o nome. venda e troca de objetos usados e lhe chamou a atenção por não ser um estabelecimento usual em cidades tão pequenas. um supermercado e uma loja de ferramentas. Não que aprovasse. que diabos. portanto não abuse de minha paciência! Aliás. as coisas estivessem começando a melhorar. E havia também uma loja de penhores que também atendia para compra.. Mas ora. Will fez uma curva lenta e fechada para a direita. ao desembarcar do automóvel. era preciso permanecer alerta! — Não faço a menor idéia. com fome e sob uma pressão muito grande. — Então por que paramos? — Kelly passou uma das mãos pelos cabelos. e olhou em redor. — Apenas mais uma cidadezinha de beira de estrada. Forçado a parar em um sinal vermelho. necessitava da presença daquela mulher para alcançar seus objetivos. ralhou consigo mesma por ter adormecido. levou a mão à testa e o brindou com uma saudação militar. Irritado. — Uma loja de coisas usadas? Céus. se não precisasse de você para o disfarce.

Agora trate de calar a boca! — Pois tente me fazer calar! — Kelly retrucou. quatro. Jamais se faz uma ameaça a menos que se tenha certeza de poder cumpri-la. não sei por quê.. O rapaz. jóias e relógios de qualidade brilhavam lado a lado com imitações baratas. agora percebia que jamais o tivera. mas nada adiantara. Ele sabe tudo sobre algemas — disse Kelly. — Em que posso servi-los? — perguntou o balconista.nessa loja e não quero ouvir um pio. Seu plano todo estava prestes a implodir e não havia como fazer com que ela parasse de falar! Tentara de tudo. — Dois. avisara. Dito isto. moça. lá no escritório. furiosa. passando um braço em torno de sua cintura para ampará-la. apenas sorriu e disse: — Deixe-me mostrar como funciona. nojento. ele sentiu que estava perdendo o controle da situação. lá fora — Will respondeu.. — Só um instante. — Oh. entendeu? Entendeu? Como se aquela pergunta sequer merecesse resposta. mas ninguém mesmo. — Sim. Em uma vitrina trancada. idiota! Ele se voltou e. lançando um olhar maroto a Will. muito menos um idiota mal-humorado e grosseirão como Will Stone... E era tudo culpa sua. que nada vira da discussão. logo atrás do balcão. O interior da loja mais parecia um sótão atulhado dos mais diversos objetos. pois estas coisas venderam como água. não é preciso. aqui está a chave! — disse o balconista.. — Não sabe? Se antes Will sentira que estava perdendo o controle da situação. moça. Ninguém... Numa tentativa de disfarçar o que se passava e manter as aparências. a mandaria calar a boca! E ninguém colocaria algemas em seus pulsos. uma só palavra de você. — Cinco. Stone. Pedira. sim? Vou buscar a chave delas. — Tem cinco segundos para ficar quieta. Kelly explodiu. senhor. com um brilho de desafio nos olhos verdes. a fez lembrar que deveria ficar calada.. agarrando-a por um braço sem medir a força com que seus dedos pressionavam a pele macia. Mas ela parecia ter um grande prazer em desobedecê-lo. ainda tenho um par bem aqui! Sorte sua. — Seu verme. — Estou interessado em comprar as algemas que anunciou na placa.. pois prosseguiu: — Como se atreve a.. Puxou-a para si até que estivessem face a face. mas não se importava. Sabia estar agindo de modo infantil.. — ela o provocou. Will se voltou de repente em direção ao balcão e arrastou Kelly consigo de modo tão súbito que a fez perder o equilíbrio. notando que Kelly o fitava com um ar intrigado e rezando para que ela não resolvesse fazer uma cena.. um. com um olhar glacial. Will a fez calar bruscamente. Kelly permaneceu calada e puxou devagar o braço para longe da mão que o prendia. se preciso. o balconista desapareceu por um corredor rumo aos fundos da loja. ao voltar do escritório. — O rapaz pousou as algemas sobre o balcão. Assim que se viu a sós com Will. — ela Kelly prosseguiu. Era . o que vai fazer? Me bater? Me algemar e me jogar no chão? — Pronto. — E agora. Os instrumentos musicais eram maioria e variavam de uma velha bateria montada junto à porta até uma dúzia de guitarras em diferentes estados de conservação. — Eu me atrevo ao que for necessário. fizera ameaças. Por sorte conseguiu impedir que caísse no chão. três. tão próximos que cada qual pôde sentir no rosto a respiração do outro. Contrariado.

. tia Millie é um pouco estranha. empertigou-se e assumiu um ar que expressava toda a teimosia de que era capaz. querida? — Will sorria e usava um tom de voz macio. afinal... — Não é mesmo. Kelly deu um gritinho quando o braço em torno de sua cintura lhe aplicou um apertão que a deixou sem ar. — Não! — Kelly respondeu. como que imaginando que tipo de clientes. Para alegria do rapaz e desespero de Will. perplexa. Eu e esta moça aqui nos casamos ontem. muito menos da esposa... isto é. Lembranças. não podia evitar que ecoasse em seus ouvidos a doçura da voz dele ao chamá-la de querida. Sabe como é. se o senhor sabe manejá-las não vou tomar seu tempo — O balconista colocou a chave sobre o balcão. caso amarrasse e amordaçasse aquela mulher agora mesmo? Não. com uma expressão de mal disfarçada curiosidade. Em silêncio. como se de repente lhe tivesse ocorrido uma grande idéia. Aquelas palavras pairaram no ar. estava ficando louca? Não podia se deixar levar por esse tipo de pensamento! Decidida a resistir. Aquilo nada mais era que uma caixa forrada de veludo onde estavam expostas várias alianças de ouro. Ela estava prestes a pôr tudo a . bastaria obrigá-los a passar uns poucos minutos ao lado dela e tinha certeza que eles logo lhe dariam razão! — Quanto quer pelas algemas? — Will perguntou de repente. Ela engoliu em seco. Gosta de fingir que o tio Walter é um criminoso que foge da cadeia e a seqüestra. um pequeno e outro bem maior —. parecendo tão surpreso quanto Kelly. Por que. Céus. — E além do mais.. Will o ignorou e permaneceu calado. carregadas de ameaças. — Bem. o que estava acontecendo não tinha nada a ver com seu casamento. — Sim — Will sorriu e apanhou dois dos anéis.. junto ao par de algemas. Will Stone iria querer comprar alianças de ouro? — Isto? — o rapaz apanhou a caixa. por fim. Mesmo assim.tolice esperar dela algo além de obediência e silêncio apenas temporários. ao mesmo tempo em que sacava do bolso o cartão de crédito de Kelly. não um homem acompanhado de uma mulher. impulso do momento. pois trazia à tona velhas lembranças de mágoas e fracassos. A polícia procurava um homem sozinho. tinha? Não. se entende o que eu quero dizer. mas Kelly.. Balançou a cabeça. O balconista ficou a fitá-los. Estivera tão ocupada em tentar fugir que nem notara que ele não o havia devolvido! — Não há mais nada que deseje? — o balconista arriscou. ah. Apontou algo na vitrina. ela não podia fazer o mesmo.. Kelly olhou para o homem que a abraçava como se estivesse diante de um ser de outro planeta. podia? — Oh. acho que estes vão servir.. A farsa sugerida por Will era assustadora. e Will compreendeu muito bem o que significava aquilo: perigo. haviam entrado em sua loja. como se isso pudesse ajudá-la a clarear a mente. mas o olhar glacial desafiava Kelly a contradizê-lo. foi adiante. Will também imaginava algo: será que os jurados o condenariam de novo. Will só estava garantindo a própria segurança. Na verdade. — Não. por exemplo. com todos os diabos. claro que não. tia Millie vai adorar essas algemas! — disse ela.. com um sorriso definitivamente malicioso. do dia em que dissera ao ex-marido que desejava pôr um fim ao casamento. — Will hesitou por um instante. para espanto desta. Não houve nem tempo para alianças e coisas assim! Kelly se voltou para fitá-lo.. — Deixe-me ver aquilo ali. — Sabe... calada.

— É isso aí. quando ele já estacionava o carro diante da recepção. Em seguida rumaram para um hotel próximo. fazendo questão de repetir que aquela nota de dez dólares era tudo o que havia restado em sua carteira. Por um longo instante em seguida ao beijo. já sei — ela o interrompeu e imitou-lhe o tom de voz. — Eu não vou usar esse anel — disse Kelly. moça. ela se deixou cair numa poltrona. A idéia de comer algo. Sim. para ser mais exato. fechou os olhos e suspirou. E então o mundo foi subitamente reduzido a sensações e nada mais. E Will só conhecia um modo de fazê-la calar. Kelly não se deu conta do que estava por acontecer. Tudo o que viu foi o brilho hostil no olhar dele. — Não vou! — Vai! Aproveitando o último farol vermelho antes de sair da cidade e retornar à estrada ele agarrou a mão esquerda de Kelly e. — Trate de descer e ficar quieta. Dessa vez não foi preciso pedir o dinheiro a Kelly: ela o entregou por conta própria. entregando o cartão de crédito ao balconista. a raiva. ma no fundo não se importava.perder e era preciso impedi-la a qualquer custo. — Já sei. mais próximo que nunca. sem a menor delicadeza. E agora. Will ficou a fitá-la como se também ele estivesse surpreso com algo. — Tome — disse o diabo. trate de. Ele ainda ia se dar mal! Nenhum dos dois mencionou o beijo. Decorado em tons suaves de malva e cinza. tampouco. Estava faminta e cansada. duas portas de carro foram fechadas com toda a força. Kelly não sabia se a cidade era o seu destino final ou se ainda seguiriam viagem pela manhã. sim! — Will retrucou. Não lhe restava energia para tanto. — Imagino que ficarmos em quartos separados esteja fora de questão. O modo possessivo como a boca de Will se colava à sua.. mas ela não se importava com isso. Will parou numa lanchonete.. — Pronto.. Minutos depois. batatas fritas e refrigerantes. Senhor e senhora Cooper. Era fácil notar que Will também estava exausto. — Ah. Tudo terminou tão de repente quanto começou e a súbita ausência dos lábios dele a surpreendeu talvez mais do que o havia feito sua inesperada presença. o quarto parecia um verdadeiro paraíso aos olhos de Kelly. ainda que o diabo em pessoa estivesse presente ali. Ela que aprendesse a obedecê-lo! Kelly ferveu de raiva. vitorioso. a leve aspereza da barba por fazer. onde comprou sanduíches. quando o sol já se punha no horizonte.. — Vamos levar as alianças também — ele anunciou. Chegaram a Seattle no fim da tarde. Largando a câmera e a valise no chão. Ela abriu os olhos bem a tempo de apanhar o saco de papel que vinha voando em sua . tudo embalado para viagem. aquilo era o paraíso. enfiou-lhe a aliança no dedo anular. tomar um bom banho quente e deitar-se numa cama decente fez com que outros pensamentos sumissem da mente de Kelly. o sopro cálido da respiração contra sua pele. E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Will sorriu. Esta última se fazia sentir na força quase punitiva daquele beijo. certo? — Kelly arriscou. você vai. Tanto que nem resistiu quando Will a levou consigo para a recepção e os registrou como marido e mulher. assim que o motor deu o primeiro ronco.

direção. O aroma dos sanduíches se ergueu do pacote, fazendo roncar o estômago de Kelly. Não haviam ingerido mais nada, desde aquela manhã. Nem mesmo um café ou um refrigerante. — Trate de comer — ele ordenou. Era uma ordem desnecessária, já que ela estava faminta e os sanduíches pareciam deliciosos. Sentado na beirada da cama, Will os devorava com um apetite notável e de repente ocorreu a Kelly que ele havia passado muito tempo sem poder provar o sabor de um simples hambúrguer. — Como era a comida, na prisão? — perguntou, curiosa. Ele a fitou por um momento, antes de responder: — Horrorosa. Aliás, tudo o que diz respeito à prisão é horroroso. — Entendo. Bem, acho que a intenção é mesmo essa, não? Isto é, se a vida na prisão tivesse algo de bom, deixaria de ser um castigo. Will tornou a fitá-la, mas dessa vez nada disse. Em completo silêncio, tratou apenas de terminar sua refeição e jogar no lixo as embalagens vazias, para então despir o casaco e apanhar as algemas. — Preciso tomar um banho. A que você prefere ser algemada? — Que tal a um policial? — ela sugeriu. — Sente-se ali no chão, perto do aquecedor. O olhar de Kelly se desviou do sanduíche em suas mão para o conjunto de tubos metálicos num canto do quarto para Will. — Você não está realmente pretendendo me algemar, está? — A voz dela se reduziu a um murmúrio raivoso. — Não pode estar falando sério! — Estou falando mais sério que nunca — ele respondeu num tom frio e, juntando ação às palavras, puxou Kelly por um braço e a fez sentar-se no local indicado. Depois de lhe algemar o pulso esquerdo a um dos pés do aquecedor, que por sinal era preso ao chão por meio de parafusos, Will apanhou parte das roupas que havia comprado com seu cartão de crédito e foi para o banheiro. Antes de fechar a porta, um último aviso: — E nada de tentar chamar por socorro, moça. Se eu ouvir um só pio, saio do banho do jeito que estiver! — Você é mesmo um idiota, Stone! — ela gritou para uma porta que já se fechava. Num último relance Kelly o viu despindo a camiseta e expondo, ainda que por um breve instante, costas musculosas e bronzeadas que a fizeram lembrar dos filmes com cenas de trabalho forçado em presídios. Cenas que mostravam homens sem camisa e acorrentados uns aos outros, quebrando pedras a marretadas sob o olhar atento dos guardas e suando sob o sol escaldante. Embora a imagem fosse arcaica, Kelly podia facilmente imaginar Will como parte daquele cenário. Ele era o tipo de homem que continuaria sendo um solitário mesmo se acorrentado junto com uma dezena de outros. Aquele banho parecia estar durando uma eternidade. Kelly já havia terminado seus sanduíches e passara o resto do tempo tentando em vão soltar-se da algema, embora soubesse muito bem que isso era impossível. Sentira-se obrigada a tentar, mas conseguira apenas cansar-se ainda mais. Agora, fervendo de raiva e frustração, só conseguia pensar em acertar as contas com Will Stone. Minutos depois um súbito silêncio anunciou que ele havia desligado o chuveiro. Kelly apurou os ouvidos. Primeiro foi o ruído de uma porta de correr, depois um curto intervalo seguido de um som áspero, como o de um tecido grosso sendo sacudido. As calças jeans, talvez? E então a porta se abriu e lá estava Will, descalço e sem camisa, passando a toalha pelos cabelos

ainda molhados. Não era a primeira vez que via um homem sem camisa, mas algo em Will Stone capturava a sua atenção. Ele era a pessoa mais fotogênica em que já pousara o olhar! Essa qualidade a tinha intrigado um ano atrás, naquela trágica manhã no parque, e continuava a fasciná-la agora. As rugas pequenas e finas que já se faziam notar em redor dos olhos escuros, o jogo de luzes e sombras proporcionado pelo rosto anguloso e expressivo... Era como se tudo nele estivesse pedindo que ela erguesse a câmera e registrasse o que se escondia por trás daquele semblante talhado em pedra. Naquele momento, contudo, ela via muito mais que um rosto. Eram os detalhes, em sua aparente insignificância, que lhe importavam, agora. Detalhes como as pequenas gotas d'água a brilhar entre os pêlos densos e negros que cobriam o peito de Will. Como o jeans a delinear pernas fortes e musculosas, as calças fechadas apenas pelo zíper, o botão ainda aberto atraindo a atenção e dando um ar provocante ao ventre plano e aos quadris estreitos. Como a barba por fazer, emoldurando lábios sérios e sensuais. Sérios e sensuais! Um absurdo, sem dúvida, como o beijo raivoso com que ele a fizera calar, na loja... Como que do nada surgiu uma questão: seriam aqueles mesmos lábios capazes de beijar com suavidade, com amor e paixão? Kelly ficou chocada ao perceber o rumo que tomavam os seus pensamentos, mas antes que pudesse pensar no assunto percebeu que Will havia dito algo. — Falou comigo? — Eu perguntei se você quer tomar um banho, moça. — Não tem medo que eu fuja pelo ralo? — Kelly assumiu um tom agressivo, como se ele tivesse culpa pelos pensamentos que a incomodavam. — Quer tomar banho ou não? — Claro que sim! — ela respondeu, embora seu orgulho pedisse o contrário. Apanhando a chave das algemas, ele se ajoelhou a seu lado e a soltou. Passados os poucos segundos necessários para que ela massageasse o pulso dolorido, olhasse feio para Will e fechasse a porta do banheiro atrás de si, Kelly estava sob delicioso jorro de água quente que escorria por seu corpo e relaxava músculos cansados da tensão daquele dia, causando uma gostosa sonolência. Precisava fugir, mas talvez fosse melhor esperar pelo dia seguinte. Sim, depois de uma boa noite de sono ela estaria muito mais alerta e disposta, pronta para tirar vantagem de qualquer oportunidade que se apresentasse. Sim, sem dúvida seria melhor, pensou Kelly. Já podia imaginar-se estendida na maciez daquela cama...Quando ergueu a mão para apanhar o sabonete, a aliança em seu dedo lhe chamou a atenção. — Eu não vou usar esse anel. — Ah, você vai, sim! — Não vou! — Vai! E não ouse tirar isso até que eu tenha dito que já pode fazê-lo! Mais uma vez ela se revoltou com a prepotência de Will. Mais uma vez pensou em seu casamento fracassado, seu ex-marido. Gary e Will eram tão diferentes entre si quanto água e óleo. O primeiro era um respeitado professor de universidade, o outro um prisioneiro fugitivo, um homem condenado por matar outro ser humano. Gary jamais erguera a voz ao dirigir-se a ela, enquanto Will só sabia gritar e ameaçar. E ainda assim, este parecia ter uma vantagem sobre o educado e discreto ex-marido: jamais teria permitido que sua mulher o deixasse sem a menor discussão, sem exigir um motivo e sem lutar. Sem ao menos tentar

fazer com que ficasse! Meia hora depois, novamente vestida com as calças jeans e o suéter que usara durante o dia todo, Kelly tornou a abrir a porta do banheiro. Uma última reflexão lhe passou pela mente assim que entrou no quarto: enquanto Gary nunca fora capaz de enfurecê-la, Will não precisava fazer qualquer esforço especial para consegui-lo. Algo que ele demonstrou tão logo abriu a boca para falar. — Você tem duas escolhas, moça — Will anunciou quando a viu entrar. Estivera assistindo ao telejornal, mas desligara a TV ao notar que os noticiários de Seattle davam tão pouca importância à sua fuga que sequer a tinham noticiado. — Pode dormir comigo na cama ou ser algemada ao aquecedor de novo. Kelly se empertigou e disse a si mesma que era a extrema arrogância de Will, e não os seus próprios pensamentos, o que a fazia querer ficar tão longe daquele homem quanto fosse possível. — Prefiro as algemas — ela respondeu. Sem discutir Will se levantou e, puxando-a por um braço, a prendeu na mesma posição em que a deixara antes. Então lhe jogou um travesseiro, um cobertor e se deitou na cama para dormir, embora ainda faltassem alguns minutos para as sete horas da noite. Apagou as luzes. — Sabe, Stone — disse Kelly —, eu não gosto de você. — Então estamos quites, moça. Também não gosto de você.

O carro azul-pálido se esgueirou pelo estacionamento do hotel e escolheu uma vaga que oferecesse alguma privacidade e, ao mesmo tempo, uma visão clara e desimpedida do luxuoso carro esporte vermelho. Com um suspiro cansado, Mitch Brody passou as mãos pelos cabelos louros e desalinhados, pousou a cabeça no encosto e fechou os olhos azuis. Era a primeira vez que conseguia fazê-lo, desde aquela manhã. Seguir outro carro a distância, sem ser visto, era esforço demais para sua vista cansada e tensão demais para seus velhos nervos. Um descuido momentâneo e horas de trabalho podiam se perder numa curva da estrada, numa parada imprevista. No entanto a academia de polícia o treinara bem. Não perdera a trilha no posto de gasolina e tampouco na loja de penhores. Academia de polícia... Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido no dia anterior! Lembrava-se da formatura, da sua primeira batida como policial. Lembrava-se dos longos anos de serviço, durante os quais fora condecorado mais de uma vez por atos de bravura e conquistara o carinho e o respeito de seus colegas. Então, um dia, tudo se acabou. De repente ele já não era um policial condecorado ou respeitado, mas um renegado, um tira ao qual fora dada a chance de solicitar o próprio desligamento para evitar uma expulsão e um processo A humilhação, contudo, fora a mesma. De qualquer modo todos sabiam que estava sendo acusado de receber suborno. A amargura, presente como nunca, tornou a invadir o coração de Mitch. Com a demissão do Departamento de Polícia de San Francisco, perdera tudo: a carreira, a esposa, o filho e a auto-estima. Céus, Connie nem sequer lhe havia perguntado se as acusações eram verdadeiras, nem quisera conhecer sua versão da história! Ela mal pudera esperar para crer no pior e sair correndo de sua vida! Era como se tivesse estado apenas à espera de um motivo qualquer para abandoná-lo. Bem, de fato as coisas entre eles não tinham estado muito bem por algum tempo, mas Mitch inocentemente pensara que os altos e baixos eram coisa normal em qualquer casamento. Doce ilusão! E se perder Connie fora doloroso, muito pior fora ver o pequeno Scott ser levado para outro Estado sem nada poder fazer. No mesmo instante

Podia ter perdido tudo. Mergulhada num sono profundo Kelly murmurou algo. Aquilo devia ser piada.. desviando os pensamentos de Will daquele beijo. amargo.. um fato que ele não podia deixar de admirar.. mas agora teria que ser diferente.. no entanto. Calça. Capítulo V Sentado na beira da cama. O cobertor escorregara para um lado devido aos movimentos dela durante o sono e a deixara quase que toda exposta. Sim. Também precisava de algumas horas de sono. ou seja. Will observou Kelly adormecida junto ao aquecedor desligado. Deveria ter sido um ato simples e desprovido de qualquer significado.. o fazia lembrar de muitas outras coisas. Em momento algum. Algo que. Ele mesmo o tinha rasgado. de modo que apanhou a garrafa térmica sob o assento e se contentou em tomar mais um gole de café. revirado e gemido. Jamais devia tê-la beijado. senão a sua ao menos a dos outros. com destaque para o volume suave das nádegas sob o jeans das calças. inclusive o amor-próprio e a dignidade. das figurinhas de jogadores de beisebol que colecionavam juntos. Memórias que a distância tornava dolorosas.. Bem. aliás. Mitch fechou os olhos. Mitch abriu os olhos e riu de si mesmo. Não seria tolo a ponto de ameaçar a segurança alheia misturando álcool e automóvel num mesmo coquetel. Longe disso. Durante os últimos nove meses tivera como única amiga e companheira fiel uma garrafa de bebida. Fazia muito tempo que ele não tinha nem sua própria alma para vender! Tratara de afogá-la em litros e litros de álcool depois de ter perdido tudo na vida. No lugar de Will Stone ele faria exatamente o mesmo.. Então o quê? Era essa a resposta que lhe faltava. naquele momento fora o único modo de fazer com que se calasse. apesar dos tremores e do suor frio. por sua vez. não tinha certeza de nada a não ser de que ficara surpreso. pedira para ser libertada das algemas. E então. No fundo. No entanto. Tão dolorosas que naquele instante ele seria capaz de vender a própria alma por um bom gole de uísque. qual fora a sua reação. Fitou a porta pela qual Will e Kelly haviam entrado. arranjaria um lugar qualquer para deitar e dormir por algumas horas. claro que muito tempo se havia passado desde a última vez em que pudera beijar uma mulher. prometera a si mesmo que não tomaria outro gole até que tivesse descoberto que tipo de encrenca Will Stone estava querendo arranjar. afinal? Não sabia dizer. Parecia muito mal acomodada. ao impedi-la de fugir por uma janela do posto de gasolina.. onde um bolso rasgado sobressaía. aquele jeans rasgado era para ele uma recordação do que sentira ao tocá-la. A menos que estivesse enganado. Ao longo da noite ela se havia debatido. num claro sinal de desconforto. mas ainda lhe restava a responsabilidade e o respeito pela vida. porém. Da mesma forma que não podia deixar de sentir-se . mas não acontecera assim e agora ele não conseguia entender por quê. Com um suspiro.lhe vieram lembranças das histórias infantis que costumava contar ao filho. mas teria sido esse o único fator a influenciar sua reação? Aliás. iam passar a noite ali. deitada de bruços no chão duro e com a cabeça caindo para fora do travesseiro. das manhãs de domingo passadas jogando bola e brincando no quintal. portanto devia tomálo como um aviso de que era melhor não confiar demais naquela mulher.

. eu e este aquecedor nos demos tão bem durante a noite que resolvemos iniciar um relacionamento mais sério. Calado como sempre. apontando a porta do banheiro —. somada ao tombo que levara ao ser arrancada à janela no banheiro do posto de gasolina. Kelly se pôs em pé e fez uma careta ao esticar os músculos dolorido. ao ver Kelly umedecê-los com a ponta da língua. — Stone. — Bem. — Eu tinha esperanças de que você não passasse de um sonho ruim. para então caminhar em direção à porta. — Kelly. — Dizem que a esperança é a última que morre. — Então quer que eu a solte? Responda sem fazer gracinhas: sim ou não? — S-sim. embaraçado. penteara os cabelos e . dez minutos depois. como se estivesse diante de uma questão muito difícil. Apontou as algemas. Quanto a isso. tivera um péssimo efeito sobre seu corpo de trinta e seis anos.. espere aí! Ele girou a maçaneta devagar. Will também parecia estar em péssima forma. — Ei. Ainda mancava um pouco da perna que machucara ao saltar do caminhão. A noite mal dormida na dureza daquele chão. céus. aonde você vai? Will não respondeu. ela fez questão de recusar o auxílio. — ela resmungou. apenas pousou a mão na maçaneta. Em silêncio. — Faça o que tiver que fazer — disse Will. Kelly tornou a gemer e desta vez seus olhos sonolentos se entreabriram. Will não fez conta das ironias de Kelly. apanhou a jaqueta de veludo e a vestiu. Stone. lhe restava um consolo: pelo modo como mancava. De fato seus músculos pareciam estar mais tensos e doloridos agora. se pôs em pé. você não pode me deixar assim! Will olhou para trás por sobre o próprio ombro. — ela murmurou. moça. Will pôde perceber o instante exato em que se deu conta da realidade. Observando-a. mas desta vez não vai adiantar.culpado. se aproximou e abriu as algemas. Ele não insistiu. depois de uma noite inteira de repouso. Will precisou respirar fundo e desviar o olhar.. É emocionante... Will sabia o quanto aquela resposta estava custando a Kelly em termos de amor-próprio. Conhecia bem demais a sensação de ser obrigado a sacrificar o próprio orgulho para sobreviver. — Está dormindo aí dentro? No mesmo instante Kelly saiu do banheiro. — Ei. deixe-me ver. Não era hora de levar em conta vaidades pessoais... moça. Quando estendeu a mão para ajudála a se levantar. Por um instante ela ficou sem saber direito onde estava. Meu nome é Kelly! Como sempre. — Quer que eu a solte? — Oh. que no dia anterior. deixando que Kelly se agarrasse àquele resto de orgulho. Estou tão acostumada a não sentir minha mão esquerda que já começo a gostar disso. você devia tentar! Além do mais. mas não demore demais. A boca que pronunciou tais palavras parecia tão tentadora e macia quanto ele se lembrava e.. O segredo estava em saber o momento exato de fazê-lo. vamos logo! — Will chamou. — Ela pousou na testa a mão que lhe restava livre. ele ignorou a observação. acho que não. Eu sou bem real. Ao perceber que ele ia realmente sair. contudo. porém. surpresa e pânico se misturaram na voz de Kelly: — Ei. Trocara de roupa.

Eu vou sair e comprar algo para comermos. Mais uma vez Will a ignorou. — Ela deu de ombros. na verdade. ríspido. com um sorriso triunfante. que tal me dizer aonde nós vamos? Para ou cidade? Outro hotelzinho de quinta categoria? Para a central de polícia mais próxima. — mas não se esqueça de que isso significa mais quarenta dólares em sua conta. como sempre. Estou anotando cada centavo e saiba que. de ter a última palavra no caso. Ela obedeceu sem discutir mas. Acertou em cheio. Calado. causando uma verdadeira chuva de cheques de viagem. depois de amordaçá-la e colocar o telefone fora de seu alcance. — Pronto — disse.. — Tome. Dessa vez Will algemou Kelly à cabeceira da cama e.. nada a não ser meu passaporte. moça. não é. o pente e examinou a agenda para ver se não havia nenhuma nota guardada ali. para que você possa se entregar! — Nós não vamos a parte alguma. minha obrigação é tentar tornar sua vida tão difícil quanto me for possível. assine estes. — Kelly tentou corrigir. Ele sequer ergueu o olhar. meus documentos e minhas credenciais de imprensa. para então tomar-lhe a bolsa e esparramar seu conteúdo sobre a cama. — Ei. — Aí está! — Will abriu um sorriso sarcástico.. colocou dois deles diante de Kelly. se for necessário. imaginando que tornar sua vida difícil parecia ser o papel de todas as pessoas a quem conhecia. — Bom dia para você também — Kelly resmungou. Nada.. Começou a busca pela carteira. ácida. — Não pensou que eu ia acreditar que você viajaria para fora do país com alguns míseros dólares na carteira. — Não pode fazer um saque com seu cartão de crédito? — Meu cartão não oferece esse tipo de regalia fora da cidade onde moro — ela informou. — Devia saber. — Isto é. — Então deixe-me adivinhar: você não tem a menor intenção de agradecer por minha participação. mas que medo — ele ironizou. agora? Ele se limitou a fitá-la. a qual constatou estar mesmo vazia.parecia tão bem que ninguém poderia adivinhar a noite desconfortável que tivera. o que pensa que está fazendo? — Kelly protestou quando ele se pôs a revirar seus pertences sem a menor cerimônia.. pôs um aviso de não perturbe na maçaneta e se foi. esse é o primeiro mandamento do manual do refém. apanhou uma pequena pasta de couro preto fechada por zíper. Era irritante! Como ela podia parecer tão alerta e disposta quando ele se sentia como se um caminhão o tivesse atropelado? — Preciso de algum dinheiro — disse ele. — Eu avisei que só me restava aquela nota de dez dólares. pedir desculpas pelo mau jeito e em seguida me libertar.. — Kelly argumentou. Ao fechar . pensou? — Bem. Apressada demais. sem pedir licença ou desculpas. — Não tem nada aí dentro! — disse ela. Will olhou-a nos olhos. Colocou de lado o estojo de pó compacto. Recolheu os cheques espalhados na cama. mas calou-se ao vê-lo abrir o fecho e virar o conteúdo da pasta sobre a cama. — Esteja à vontade.. não hesitarei em levá-lo a um tribunal de pequenas causas para cobrar essa dívida! — Nossa. E agora que já dei o dinheiro. Stone? Que vamos fazer. fez questão. — Muito engraçado — ele resmungou. que ele tratou de guardar no bolso. ao entregar os cheques assinados . apressada. — Que pena. — Estou tremendo da cabeça aos pés! — Depois não diga que não lhe avisei. moça. certo? — É isso aí. sério.. Entre as coisas sobre a cama havia um canivete suíço.

sentindo um nó na garganta. pensou ele. Bem mais adiante. se pôs a voltar pelo caminho por onde viera. Uma chuva fina começou a cair. Era o mesmo que estar dentro de uma catedral verde.. Agora. Um enorme cão de guarda de aparência assassina passou diante do portão principal e logo sumiu para trás da guarita. com os olhos postos na estrada . Filial de atuação bastante modesta. pensou Mitch Brody.porta do quarto ainda viu de relance um par de olhos verde a fitá-lo e teve certeza de que. que era operado por controles elétricos. Ao ler aquele nome. pensou Will enquanto observava o contínuo vaivém do limpador de pára-brisas. sem pressa. a verdadeira responsável pela morte de seu irmão. conferia os nomes de algumas ruas nas placas para ter certeza de que não estava esquecendo nenhum detalhe dos mapas que estudara na prisão. em San Francisco. No alto do prédio. aliás. passou então a examinar do modo mais meticuloso possível a cena que tinha diante de si.. num ponto de onde pudesse ver sem ser visto.. Will deixou a estrada principal e tomou uma via secundária que cortava uma espessa floresta de pinheiros e abetos. Sem descer do carro. e que havia uma filial em Seattle. ele cuidaria pessoalmente disso. logo após ter recebido na prisão a notícia da morte de Stephen. ainda ao longe. Manobrou devagar o carro e. olhando em redor. Aquele era um esconderijo perfeito. Não mentira para Kelly ao dizer que estava saindo para comprar o desjejum. em letras negras. Ele respirou fundo. Mais à frente. As sirenes das balsa cortavam os ares e ressoavam pelos ancoradouros. Embora Will jamais tivesse estado em Seattle. antes. se olhares matassem. Desse modo. guiava o carro esporte de Kelly com a mesma eficiência que mostrara em San Francisco. não era o momento. Havia algo de muito estranho ali.. de algum modo. ao notar as várias fileiras de arame farpado estendidas acima do muro de pedra. começara a usar cada momento livre para pesquisar aquela fábrica de remédios. cercado por um muro de pedra. As precauções na divisão Seattle da Anscott iam muito além do que as demais companhias farmacêuticas costumavam fazer contra a espionagem industrial. E tinha mesmo que ser logo. Para manter a própria sanidade. outros problemas. Will podia ver os movimentos de um homem dentro do cubículo de concreto e vidro fume. A hora certa não demoraria a chegar. erguia-se um prédio em tijolos aparentes. atuação modesta mas segurança máxima! — Will murmurou para si mesmo. envoltos numa névoa fina que anunciava outro dia de chuva. — É. inclusive.. enquanto os edifícios mais altos se destacavam da paisagem mais próxima. àquela altura ele já estaria sob sete palmos de terra. pois não lhe restava muito tempo. Muito além. nem que fosse a última coisa que fizesse na vida: descobrir os verdadeiros motivos que estavam por trás da morte de seu irmão e fazer cora que os responsáveis pagassem por isso. cortando o centro em direção aos subúrbios. Junto ao portão de grades de ferro. havia uma guarita. avistou portões de ferro fechados e reduziu a velocidade até parar no acostamento. contudo. não demorara muito a saber que a matriz da empresa ficava em San Francisco. Tinha certeza de que aquela companhia era. prosseguia pela cidade. A lei estava era seu encalço. apenas deixara de mencionar que tinha uma coisa a fazer. Fizera uma promessa a si mesmo e pretendia cumpri-la.. Vinte minutos depois de sair do hotel. Reduzindo a velocidade vez por outra. Assim. Will precisou respirar fundo para conter a raiva. o nome da empresa: Indústrias Farmacêuticas Anscott. A sexta-feira mal amanhecera e Seattle já se agitava com os movimentos e ruídos da cidade grande. das medidas de segurança tomadas pela própria matriz.

Seu instinto lhe dizia. já teria alertado as autoridades competentes! De repente. disso tinha plena certeza. jamais o abandonara nos momentos difíceis. havia por ali que pudesse interessar a Stone. E por falar em teia. era difícil saber o que estava pior. De fato.. endireitou um quadro na parede e já estava voltando à janela quando Will lhe chamou a atenção: — Quer fazer o favor de parar de andar de um lado para outro e remexer as coisas. Will Stone era inocente. Caminhou até a cômoda e outra vez abriu e fechou a embalagem na qual Will lhe trouxera o jantar. Tensa.. mas no mesmo instante cruzou as pernas e se pôs a mexer um dos pés. Porco agridoce à moda chinesa. o que vai fazer? — Ela o desafiou com um olhar faiscante. observando e pensando. No fim da tarde a chuva caía forte e persistente sobre Seattle. ao contrário das pessoas e de tudo o mais em sua vida. o que fora apenas comprovado pelo fato de Will ter procurado Kelly Cooper depois de fugir. Sim. afinal. . impedida de sair da cama ou mesmo chamar por ajuda. n0 lugar dele. Ele e aquele fugitivo também se pareciam em outros aspectos. O que Will Stone estaria tramando? Aquela era uma pergunta que não saía de sua mente e que sempre vinha acompanhada de outra: por que ele. e não ficou nem um pouco surpreso ao avistar os portões da Anscott. — Vai me algemar e amordaçar de novo? O tom furioso na voz de Kelly destinava-se a mascarar o medo que no fundo sentia. moça? — E se eu não parar. o ato de aplicar a lâmina à madeira parecera acalmar os nervos de Will Stone. afinal ele já era perigoso o bastante sem arma alguma. As árvores o protegiam bem e a chuva fina ajudava. Kelly afastou um pouco a cortina e espiou pela janela do quarto de hotel. Deu mais alguns passos Pelo quarto. Com o passar das horas. seguiu um pouco adiante para ver o quê.. Kelly obedeceu.. porém. entalhar um pedaço de madeira! A princípio Kelly não soubera muito bem o que pensar ao ver Stone entrar no quarto com um galho de árvore nas mãos. Os dois tinham sido acusados e condenados por crimes dos quais eram inocentes. usando o seu canivete suíço para. Não ficou surpreso simplesmente porque. Naquelas circunstâncias o olhar de \ Stone devia estar mais aguçado que o de uma águia. Dando a partida em seu velho automóvel. Tampouco gostava da idéia de seu captor estar agora armado de um canivete.. no meio de um arvoredo. Se fora horrível passar a manhã presa naquele quarto. outra vez a caminho da cidade. ficara realmente assustada por ter sido deixada sozinha. mas preciso ter cuidado. Olhou em redor. E se havia uma coisa na qual Mitch confiava era em seu instinto que.alguns metros à frente. mas não estava com fome. Se ao menos ela pudesse acalmar-se também! Kelly largou a cortina e se afastou da janela. se o seu automóvel ou sua vida. Sentia-se como um inseto preso numa enorme teia. incapaz de fugir e prestes a ser devorado. Por algum tempo ficou à espera.. Mitch viu o conversível vermelho dar meia volta e passar pela estrada. estava se envolvendo em algo que não era de sua conta? Se possuísse um mínimo de bom senso. afinal já estava tão velho e amassado que não havia muito a perder. nada mau. Desde pequena sempre tivera verdadeiro pavor disso. Mitch. por exemplo. teria feito o mesmo. Minutos antes ele havia estacionado fora da pista. Ambos pensavam e agiam de forma muito parecida. a aranha retornara com o desjejum por volta das dez da manhã e agora estava sentada na cama. — Sente-se — ele insistiu. Não se preocupara com a possibilidade de riscar o carro em algum galho. e o movimento vagaroso e delicado da faca na madeira contrastou com a rispidez em sua voz.

com certeza para ser visto em sua companhia e não despertar suspeitas. de modo que tentou mudar o rumo de seus pensamentos. em Seattle? Será que pretendia retornar ao lugar onde estivera pela manhã.. — Esperar o quê? — Você faz perguntas demais. — Sim. E não me pergunte mais nada. Will estaria planejando para aquela noite. exatamente. pela manhã. isso era impossível. naquela manhã? Por certo não demorara tanto apenas para comprar o desjejum. nada era capaz de intimidá-la! Nem mesmo um seqüestro. ao lado de sua valise. Will não conseguia esquecer aquele olhar. esperando sentir por ele uma raiva imensa. O que poderia ser tão importante para fazer com que Stone se arriscasse assim? Não adiantaria de nada fazer-lhe uma pergunta direta. Ainda assim. como logo se notava pela forma como ela o vinha desafiando desde que a tomara como refém. Deu as costas à janela e se voltou para encarar seu captor. — E então. Obrigou-se então a esquecer o pavor que sentira e a concentrar-se na pergunta que ficara girando em sua mente ao longo de todo o dia: onde Will Stone estivera. pois Stone não deu nem sinal de estar disposto a responder.. pensou Kelly. no entanto. Kelly Cooper não conhecia o medo. Will a fitou e disse: — Vamos esperar. no entanto. Sua força. O que sentiu. Um lado desconcertante. ao voltar com os sanduíches: molhados de suor e despenteados. lacônico. O que só tornava ainda mais estranho o fato de ter demorado tanto ao sair sozinho. ao ver a maneira . nós vamos ficar aqui em Seattle? — ela arriscou.. E da mesma forma desejou ter nas mãos a câmera que estava no chão. pensou ela. afinal levara menos de quinze minutos para voltar com a comida chinesa do jantar. foi a mesma fascinação que experimentara ao vê-lo pela primeira vez. o que vamos fazer. Lembrou-se daqueles cabelos como os vira pela manhã. mas os seus olhos. sua delicadeza. Embora já tivesse percebido que não estavam ali de passagem.. Não. — A noite? — Aquela resposta só não era mais estranha que o simples fato de Stone ter lhe respondido. achou que seria um bom modo de começar uma conversa. — Bem.. pudesse ter outro lado tão diferente em sua personalidade. — A noite — ele respondeu. ele tocou para o chão as aparas que se acumulavam em seu colo e sobre a cama. encaracoladas como os cabelos de Kelly. Será que conhecia alguém ali. agora que estamos aqui? Kelly pensou que ele também iria se recusar a responder mais essa pergunta mas. Não. moça! Aborrecido.. 0 modo como se concentrava na tarefa de correr o canivete ao longo da madeira. — E então. Kelly se levantou e caminhou de volta à janela. A princípio imaginara que ela havia ficado suada de tanto tentar libertar-se..num gesto nervoso. Mais uma vez ficou a olhar a chuva pela janela e tentando imaginar o quê. a noite. Pequenas tiras de madeira. para seu espanto. Parecia ter se enganado. que até então soubera mostrar apenas rispidez. estamos esperando o quê? — Kelly insistiu. mas ele nada disse a respeito de sua agitação. fosse qual fosse? E será que iria deixá-la para trás de novo? Essa última hipótese a encheu de medo. Delicadeza? Era estranho que logo ele. o semblante sério.. e dessa vez a levara consigo no carro. Talvez não fosse possível captar em filme a essência daquele homem tão complexo. prepotência e amargura. podia jurar que vira um brilho de pavor nos olhos dela.

quase carinhosa com que ele corria os dedos pelos entalhes. Um outro pensamento lhe ocorreu: e se fosse esse o verdadeiro Will Stone? Tal idéia era muito mais que desconcertante, era profundamente perturbadora. Se um Will Stone mal-humorado já seria difícil de esquecer, uma versão mais gentil e humana seria impossível. — Onde você aprendeu a entalhar em galhos de árvore? — Kelly perguntou, tentando trocar o perigo daqueles pensamentos por um assunto mais seguro. — Lá vem você com mais perguntas... — disse ele, sem erguer o olhar. — Sim, mas esta pergunta é inofensiva. — Não sei onde aprendi a fazer isto. — Will deu de ombros. — E para falar a verdade, nem me lembro se houve um dia em que eu ainda não soubesse fazê-lo. — Você foi criado no campo? — De jeito nenhum. Nasci e cresci bem no centro de Chicago. — Ora! — ela cruzou os braços e sorriu. — Nunca pensei que crescessem árvores numa selva de pedra como Chicago! Por uma fração de segundo, ele pareceu prestes a sorrir e Kelly apanhou-se ansiando para que isso acontecesse. Como aqueles lábios ficariam, curvados e tornados mais suaves por um sorriso? Tal pergunta ficou sem resposta, pois o sorriso acabou por não aparecer. Em vez disso, o rosto de Stone se fechou numa expressão ainda mais grave. — As únicas árvores que cresciam, lá onde eu vivia, eram a desgraça e a falta de perspectivas. E ambas davam muitos frutos, o ano todo! Kelly percebeu que Will estava falando mais para si mesmo que para ela e que não desejava sua piedade. De fato, não poderia suportá-la. — Então como você começou a entalhar? — Eu apanhava cabos de vassouras e rodos velhos. Mas nem me lembro de quando foi a primeira vez em que fiz isso. — Will ergueu o olhar e a fitou. — Só sei que era bom, me acalmava. Se eu nem sempre podia ter algum controle sobre o que estava acontecendo à minha volta, podia ao menos dominar a madeira. — Sei como é isso... — disse Kelly, recordando as horas de solidão que vivera, durante as quais a fotografia fora sua única companhia e distração. — E quanto à sua família? — O que tem ela? — Você tinha uma família? — Ora, e todo mundo não tem? — Nem sempre... — ela murmurou e no mesmo instante percebeu que surpreendera Will com sua observação, além de deixá-lo pouco à vontade. Será que ele não queria falar a respeito de famílias em geral ou apenas não desejava saber sobre a dela? De quê tinha medo? Kelly se perguntou se Stone não estaria deliberadamente evitando saber qualquer coisa sobre ela. Talvez fosse esse o motivo de jamais chamá-la pelo nome. Se a mantivesse como um ser desconhecido, impessoal, um simples meio para atingir determinado fim, seria mais fácil de... — Sim, eu tinha uma família — ele respondeu a contragosto, interrompendo os sombrios pensamentos de Kelly. — Muitos irmãos e irmãs? — Alguém já lhe disse que você faz perguntas demais, moça? — Sim, você. Há alguns minutos, aliás. — Pois é, eu estava certo! — Pelo que estou vendo, faço perguntas às quais você não quer responder. — Agora parece que entendeu, moça. — Will calou-se, fechou o canivete e se levantou da

cama, passando por sua refém sem um olhar, sequer. Como se ela não existisse, pensou Kelly. Observando a chuva que tamborilava contra as vidraças, Will Stone ouviu os trovões. Soava como um bêbado tropeçando numa fileira de latas de lixo, no meio de um beco escuro. Um pai embriagado voltando para casa. Agora, como em sua infância, a noite chegava para envolvê-lo como um manto, para protegê-lo e ocultar suas lágrimas. Noite. Tempo de colocar seu plano em funcionamento, de começar a cobrar o que lhe deviam. — Eu preciso sair. — Ele passou as mãos pelos cabelos em desalinho, vestiu a jaqueta e se voltou para Kelly, já empunhando as algemas e o lenço que usara para amordaçá-la pela manhã. — Não! Aquela palavra soou como um murmúrio rouco, cheio de revolta e desafio. O brilho nos olhos de Kelly, porém, era o mesmo que Will havia presenciado quando voltara ao quarto, naquela manhã. E com certeza era um brilho de medo, que o incomodava por humanizar e dar personalidade àquela mulher, forçando-o assim a reconhecer que estava começando a admirála. Embora o medo de Kelly fosse genuíno e poderoso, via-se claramente que ela não tinha a menor intenção de implorar para não ser algemada e amordaçada outra vez. Estava com a razão pois, empertigada e de cabeça erguida, Kelly anunciou: — Eu vou com você e não adianta discutir.

Capítulo VI

Havia uma história ali, Kelly a pressentia com seu instinto de jornalista. O cheiro de notícia pairava no ar, tão denso quanto o aroma dos pinheiros que ladeavam a estrada estreita e cheia de curvas. Sim, havia uma história ali e ela pagaria uma fortuna para ter consigo â câmera que Will a proibira de trazer. Não discutira com ele, temendo que mudasse de idéia e mais uma vez a deixasse algemada no quarto, mas era como se parte de seu corpo tivesse ficado para trás. Ainda estava pensando na câmera quando Will desligou os faróis do carro e parou no acostamento. A uma certa distância dali, holofotes iluminavam um portão de grades de ferro e uma guarita onde se via um único guarda. Mais além, após um muro de pedras, um luxuoso edifício ostentava letras negras estrategicamente iluminadas. Indústrias Farmacêuticas Anscott. Aquela era uma das mais conhecidas companhias farmacêuticas da Costa Oeste, porém Kelly jamais soubera da existência de uma filial em Seattle. O Homem de Pedra, no entanto, sabia. E ela seria capaz de apostar que fora ali que Will estivera pela manhã. A Anscott era, com toda a certeza, o motivo de terem viajado para Seattle... e tudo o que tinha a fazer era descobrir por quê. Quando Will desligou o motor, o tamborilar da chuva sobre a capota de vinil fez com que o interior do carro parecesse um abrigo aconchegante contra a noite fria e inclemente. Kelly lançou um olhar a seu captor, que fitava a cena diante de si com tal atenção que parecia estar tentando memorizar cada um dos detalhes que via. — Pode me dizer o que há de tão interessante a respeito das Indústrias Farmacêuticas

Anscott? — Nada que lhe diga respeito — Will respondeu, sem desviar o olhar da semi-escuridão à sua frente. — Oh, céus, me desculpe! Primeiro você entra na minha casa, me toma como refém, me arrasta até Seattle, me algema e me amordaça! Depois traz meu carro até este fim de mundo e a esta hora da noite, apenas para ficarmos sentados aqui com uma chuva horrorosa lá fora... Pois é, cheguei a pensar que isso me dissesse respeito e que talvez eu tivesse o direito de saber o porquê de tudo isto estar acontecendo! Will a fitou e embora não conseguisse ver muito mais que os contornos de seu rosto, podia sentir seu tom de desafio. — Reféns não têm direito nenhum, moça, e quanto menos você souber, melhor. — Ele tornou a olhar para a frente. — Além do mais, foi você quem quis vir junto. Ela preferiu ignorar esse último argumento. — Diga-me, Stone... por acaso pretende cometer outro crime e ainda me envolver como cúmplice? — Como eu já disse, foi você quem pediu para vir, moça! Mais uma vez Kelly ignorou a resposta e tornou a perguntar: — Por acaso a Anscott tem algo a ver com o que houve naquele parque, ano passado? Will evitou fitá-la, uma atitude sobre a qual Kelly tirou suas próprias conclusões. — Tem ou não? — ela insistiu. Ele respirou fundo e lançou-lhe um olhar irritado. — Desde o ano passado, tudo em minha vida tem algo a ver com o que aconteceu naquele parque! — Quê? Isto é, o que a Anscott pode... Will abriu a porta de repente, o que iluminou o interior do carro. — Vamos — ele ordenou, desembarcando. — M-mas... está chovendo! — Acredite, moça, você não vai derreter. Agora trate de se mexer e sair daí! Kelly obedeceu, resmungando baixinho. Levantou a gola de sua jaqueta de brim, frágil demais para oferecer proteção contra o vento e a chuva, e seguiu Will Stone numa curta corrida até o outro lado da estrada. — Você é maluco! — ela murmurou, quando já caminhavam entre os arbustos que ladeavam a estrada. — Não passou por uma avaliação psiquiátrica, na prisão? — Não foi necessário. Eu não tinha que aturar você, portanto ainda era perfeitamente são! — Sua gentileza me impressiona, Stone... francamente! Depois disso ambos ficaram calados por algum tempo. Will por estar preocupado, Kelly por precisar de todo o seu fôlego para acompanhar os passos dele, largos e decididos apesar da escuridão quase total. Ocultos pelas sombras, caminhavam em direção à Anscott. A medida que se aproximavam dos portões, porém, penetravam mais e mais no arvoredo. — Quer fazer o favor de andar mais devagar? — Kelly reclamou a certo ponto. — Quer fazer o favor de calar a boca? — Will sussurrou. — Ninguém pode perceber que estamos aqui! — Então por que deixou o carro parado no acostamento, bem à vista de qualquer um que passe por lá? A pergunta era válida e Will irritou-se por não ter pensado nesse detalhe. Desculpou-se, contudo, dizendo a si mesmo que não estava acostumado a brincar de agente secreto.

não acha? — Kelly murmurou. — E ouviu mesmo. Algumas dezenas de metros à direita. O cão de guarda latiu. impressionada com as medidas de segurança incomuns para uma simples fábrica. moça.. já estava estirado de bruços sobre a terra encharcada. saiu da estrada e se dirigiu aos portões da Anscott.. — Quieto! — ela sussurrou.Era óbvio que Kelly teria muito mais a dizer sobre isso. — Fique quieta. Agarrou Kelly por uma das mãos e a puxou consigo. Teria ouvido alguma coisa? Era pouco provável. quando ela. — Ande mais devagar! — ela sussurrou. mas não pensava nisso. Stone. Arame farpado sempre lhe trazia a lembrança de zonas de guerra e. era a certeza de que ali existia uma história. um muro de concreto emergiu da escuridão para barrar-lhes o caminho. mesmo que Stone a libertasse agora. ora. material para uma grande reportagem. Pouco depois os portões se abriam para dar passagem ao furgão.. com Kelly deitada a seu lado na mesma posição. Will estava prestes a dizer que se havia alguém capaz de assustar um dobermann esse alguém era Kelly Cooper. Algo que ela pareceu notar. muito estranho.. porém. acima do qual se estendiam ameaçadoras fileiras de arame farpado. essa gente não está para brincadeiras! —Kelly murmurou. incomodando-a e tolhendo seus movimentos. e a convicção de que. — Sim — Will concordou —... ainda segurando sua mão. àquela distância e com o ruído da chuva envolvendo tudo. uma fração de segundo antes que um par de faróis cortasse o negrume da noite. mas logo tropeçou em um galho e caiu de joelhos no chão.. é minha raça favorita de cães de guarda! São tão dóceis. Ainda chovia pesado e o jeans encharcado se colava ao corpo de Kelly. ela não iria a parte alguma. — Bem que eu achei ter ouvido uns latidos. se jogou ao chão e o arrastou consigo. — Ora. Antes que ele pudesse entender o que se passava. em última análise... como se aparecesse do nada. É um dobermann enorme! — Um dobermann? Ah. Um muro alto.. O motorista e o guarda trocaram algumas palavras. o toque era por certo reconfortante naquela situação e Kelly apertou ainda mais sua mão em redor da dele. um furgão enfeitado com o colorido logotipo de uma floricultura. naquele instante. Ela. . — Ainda não viu esse cachorro. mas Will não podia correr risco algum. há um cão de guarda patrulhando a área — Will avisou. Seu espírito jornalístico não permitiria. De repente. Tudo o que havia em sua mente. Will sequer escutara o veículo se aproximando e mais uma vez apanhou-se admirando aquela mulher. sugeria uma atitude hostil de pessoas determinadas a manter longe qualquer tipo de curioso ou invasor. É o único jeito de fugir ou se esconder antes que cheguem tropas ou aviões. O veículo. — Horário estranho para uma entrega de flores. tentando assim mantê-lo perto. Embora a mão de Stone segurasse a sua de modo nada gentil. Deve comer gente como nós no café da manhã! — Ainda não me viu em ação. parando bem diante da guarita. Decerto estaria com uma bela gripe no dia seguinte. com um gritinho abafado. que chegaram ao local onde estavam Will e Kelly como pouco mais que uma mistura confusa de sons. pois foi logo explicando: — Quando se é correspondente de guerra por alguns anos se aprende a manter os ouvidos em alerta. poderia jurar que conseguira distinguir duas ou três palavras em espanhol. as luzes da guarita se projetavam sobre o asfalto da entrada. moça! — resmungou. — Além do sujeito na guarita junto ao portão.

Oh. Aborrecido. Até então usara apenas seu sobrenome.. Mas não era só isso. numa tentativa de recuperar o equilíbrio. afastando-se do muro e de Will Stone. — Não consigo ver. — Porque talvez não estejam entregando nada. imaginando o quanto poderia ou deveria confiar naquela mulher. — Kelly principiou. pousou as mãos no peito dele. — Carga de quê? Ele se calou. Tomando o cuidado de não deixar à mostra muito mais que a própria cabeça. disse a si mesmo que tal reação era normal. mas dessa vez lhe deu as costas. Kelly segurou-se no topo do muro e espiou para dentro da propriedade da Anscott. ele a colocou no chão. mas. como se. como se realmente se importasse com ele. de modo tão impessoal e distante quanto os carcereiros na penitenciária. — Venha cá — ele sussurrou. Um de seus pés derrapou na terra molhada e. apanhando uma carga. depois de cruzar os portões. A súbita rispidez em seu tom de voz não passou despercebida aos ouvidos de Kelly. Os músculos ali pareciam tão sólidos quanto o concreto às suas costas e ela pôde sentir o próprio corpo respondendo àquela proximidade com um ímpeto que jamais experimentara. mas nem mesmo se esticando ao máximo conseguia ver por sobre a barreira de concreto. Como o contrário seria impossível. atraindo sua atenção para as curvas sinuosas e tentadoras. As roupas encharcadas colavam-se ao corpo de Kelly. Uma vez lá ele se pôs em pé.Observou enquanto Will rastejava para junto do muro. que não tinha o menor significado e que estaria reagindo assim a qualquer outra mulher. Kelly já imaginava o que Stone queria.. — Quer me dar um minuto? — ela retrucou no mesmo tom. embaraçada. — O que está vendo? — Will rosnou. por mais que ele tentasse resistir.. — A voz de Will soou grave e rouca. espere! Lá está! — Para onde está indo? — Desapareceu nos fundos do prédio — Kelly sussurrou. ao ver que não obtinha uma resposta. . — Por que entregariam flores nos fundos do prédio? — ela repetiu. Will a tomou pela cintura e a ergueu. para então pôr em palavras a pergunta que sabia estar também na mente de Will. Will se voltou e a fitou através da chuva que caía com força ainda maior. Ele continuou em silêncio. quando Will a chamou ela atendeu no mesmo instante. Enquanto isso. — Ei. — O que você acha que está acontecendo na Anscott? — Kelly insistiu. de maneira tão feminina e suave. Difícil saber ao certo. que no entanto atribuiu a mudança à natureza instável daquele homem. — Will? Era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. Talvez estejam. Assim... respirou fundo e deu dois ou três passos para um lado. só o que Will podia ver eram as costas dela. espere aí. mas os olhos dele a fitavam com tal intensidade que lhe faziam disparar o coração. apenas para calar-se de repente ao se voltar e ver que se encontrava literalmente encurralada entre Will e o muro. Ao longo de toda a sua vida. — Por que eles entregariam flores nos fundos do prédio? — Sem qualquer aviso.. agora. Kelly ficou estática por um instante até que.. afinal também estava ansiosa por saber que rumo tomara o furgão. Disse a si mesma que sua reação era apenas normal e imaginou se Will teria sentido o mesmo. irritado com ela sem nenhum motivo lógico. ninguém jamais pronunciara seu nome como Kelly acabava de fazê-lo. engatinhando para junto dele.. isto sim.

Sua raiva fora uma surpresa para Kelly. que não estivera esperando tal reação. — Com todos os diabos. é? — Sim. — Como? — Kelly sorriu com um canto da boca. Stone. seu voto de confiança me emociona. por fim. ele lhe deu as costas e começou a caminhar pelo arvoredo em direção ao carro. mas o problema não foi só o carro. de nós dois. — Da mesma forma que sentiu haver uma história por trás do que houve aquele dia. sim! — Kelly se empertigou. você não tem a menor prática! Deixou o carro parado no acostamento. Encharcados e tremendo de frio. Stone. moça. — Ah... — Sim. mas não preciso da sua ajuda! Dito isto. no parque? Muito obrigado. mas é o que pretendo conseguir.. Nem ao menos ouviu o furgão chegando! — Eu teria ouvido se você não falasse o tempo inteiro! — Você não tem nem idéia de como passar pelo guarda ou pelo cão. não é mesmo? — ela o brindou com um sorriso superior. se tentar fazer isto por conta própria. um carro vermelho é algo difícil de não se ver. como que . mas resolvi assumir esse risco. tivera a mesma desconfiança.. — Por quê? — Porque sinto que há uma grande história por trás disso tudo. mas entorpecentes e drogas proibidas. Afinal de contas. sim — insistiu. — Você tem alguma prova? — Não. não saberia como burlar o esquema de segurança e entrar naquele prédio! — E por acaso você é alguma especialista no assunto? — Por acaso sou. você foi pego. mas Por certo não fora aquela. fítaram-se demoradamente um ao outro. Correndo atrás dele. bem à vista! — Dez a um para mim.. — Você precisa da minha ajuda. — Pode ser. Will não saberia dizer que resposta estivera esperando. — Pois eu aposto que foi notado. diante do forte aparato de segurança. sim. não de uma refém! — Pensei que você estivesse com medo de ser tornar cúmplice de um crime. ninguém o notou. — Então vai precisar de uma parceira.— Desconfio que a Anscott esteja envolvida na fabricação e distribuição de drogas — respondeu. — Escute. Teria mesmo pensado que Kelly Cooper tinha tanta fé em sua inocência que estava disposta a juntar suas forças às dele a despeito de todos os perigos e contra todas as probabilidades? Teria mesmo sido ingênuo a esse ponto? Resmungou baixinho contra a própria estupidez. — Invadindo a fábrica da Anscott? — Isso mesmo. no lugar deles eu pensaria que foi um simples caso de falta de gasolina. Stone.. qualquer um pode ver que você não sabe nada a respeito de arrombamentos e invasões de prédios! — Devo lembrá-la que. preciso. segurou-o por um braço. — Não simples remédios. num sussurro. orgulhosa. precisa! — Por que acha isso? — Ora. obrigado. — Bem. vai estragar tudo antes mesmo de começar! — Oh. Aquela resposta não surpreendeu Kelly pois. o criminoso sou eu! — Bem.

decidiu que tinha todo o direito do mundo. os fachos de luz de um par de faróis tornavam a cortar a noite. para só então voltarem a se erguer. Podia ouvir o chuveiro funcionando e suspeitava que Will não tinha pressa alguma em sair debaixo do reconfortante jato de água quente. vestira uma longa e fechada camisola de flanela e se enfiara debaixo do grosso cobertor que Will. o que a fazia voltar à pergunta anterior: Will matara ou não aquele sujeito? E se de fato o fizera. bastavam para atormentá-lo. sem saber se achava bom que ele sofresse ou se tinha compaixão.. depois da visita à Anscott. — Sem mim você vai se dar mal — Kelly sussurrou. cheia de folhas e galhos. contudo. embaçando o espelho e se erguendo ao redor do corpo nu de Will Stone em grossos rolos brancos que contrastavam com a pele bronzeada. Kelly agarrou a mão de Will e o puxou consigo para baixo. Ao lado da mesma. Estavam quase chegando à cidade quando avistou pelo retrovisor um automóvel azul-pálido. Caso fosse verdade. no entanto. apenas entrou no carro. aliás. Antes mesmo que o peito dele tivesse feito contato com o chão. enquanto se esgueiravam de volta ao carro. o túmulo que ele fizera questão de visitar. apanhara no armário e jogara em sua direção. exatamente.. — Vai ser pego no instante em que chegar perto daquele portão! Will nada respondeu. A primeira vista parecia pouco provável que uma empresa tão conceituada estivesse envolvida na produção e tráfico de drogas ilegais. Os mais diversos pensamentos disputavam espaço em sua cabeça. Afinal. Mas por outro lado. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que não tinha direito de invadir-lhe a privacidade. ao tomá-la como refém? Claro! E isso sem mencionar a total falta de escrúpulos que demonstrara ao revirar-lhe a bolsa atrás de dinheiro. e outra vez sem avisar. Senão. ligou o motor e se pôs a caminho do hotel. onde brilhavam pequenas gotas de água. Pensando melhor. para quê tanto interesse? Além do mais. Ele era o que era e não tentava ser o que os outros esperavam que fosse. Ainda estavam na mesma posição quando de repente. o quê. Kelly suspirou.medindo forças. mas logo em seguida o motorista que parecia segui-los fez uma conversão à direita e sumiu de vista. algo que ele agradeceu aos céus pois já tinha coisas demais com que se preocupar. Entre eles uma imagem mental do vapor a inundar o banheiro como uma névoa misteriosa. A polícia e aquela mulher. em San Francisco? Quantos outros mistérios ainda cercavam o Homem de Pedra? Eram tantas perguntas sem resposta! Kelly desligou o secador e se esticou para alcançar a escova que deixara sobre a mesa de cabeceira. um ser humano em seu estado original. sem armadilhas culturais ou o falso verniz da civilização. Kelly manejava um secador de cabelos com a mão que lhe restava livre. ele desembarcara do carro mancando mais que nunca e com os cortes na mão a sangrar outra vez. afinal. ele não havia invadido sua vida de modo muito mais profundo. De algum modo aquele homem parecia representar algo de primordial. fora a sangue frio ou em defesa da própria vida? E de quem seria. Fazia cerca de meia hora que saíra de um banho quase escaldante. Por um instante chegou a ficar preocupado. então era certo que a Anscott se achava ligada também aos fatos que haviam culminado com a condenação de Will por assassinato. avistou algo muito mais interessante: a carteira de Will. Sentada no chão e mais uma vez algemada ao aquecedor. Ao chegar ao hotel. ambos esperaram que o furgão passasse pelo portão e seguisse estrada adiante. nada a impedia de satisfazer sua . a caminho do banheiro. Não. porém. o homem que fora morto no parque portava drogas nos bolsos. era ele? Um assassino? Essa questão a fez pensar outra vez na Anscott. Deitados na terra molhada.

apenas uma imitação barata e bem gasta pelo tempo. seus dedos tocaram em algo. para sua surpresa. Era uma peça comum. disse apenas: — Não mexa mais nas minhas coisas. Bem pouco. esticou-se um pouco mais e apanhou a carteira. pode tratar de fazê-lo sozinho. Sabia que era arriscado desobedecê-lo. Nada de couro legítimo. algo que o tornava ainda mais assustador. já me deixou amordaçada e me algemou num maldito aquecedor. Kelly apenas o fitou. O que impressionou Kelly. num sobressalto. eu estava apenas olhando — ela tentou se explicar. — Deixe que eu lhe diga só mais uma coisinha. a minha vida? Já me roubou e me feriu. você ainda tem a pouca vergonha de vir gritar comigo porque mexi em sua carteira? Ora. sacou dali um cartão de seguro social em nome de William Randolph Stone e. senhor William Randolph Stone: se pretende mesmo invadir o prédio da Anscott. Por um longo instante. — Não é da sua conta. só pôde pensar no modo como estivera presa entre aquele homem e um muro de concreto e seu coração bateu ainda mais forte quando surgiu em sua mente a idéia de ver-se presa entre ele e uma cama. — Will avançou e tomou-lhe as fotos e a carteira. Não devido ao susto ou à expressão ameaçadora de seu captor. mas essa é boa! — Kelly respirou fundo e prosseguiu. para não dizer ordinária. seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Stone. Incapaz de resistir.. E já estava quase se convencendo de que não havia nada ali dentro quando. — E trate de ficar longe das minhas coisas! Não tem o direito de tocá-las. muda. Nesse ponto. — Eu. todavia. — Coloque de volta — ele repetiu. num gesto brusco. Ao erguer o olhar ela sentiu o coração bater como louco no peito. abriu-a para examinar seu conteúdo. Aquelas palavras tiveram sobre Kelly o efeito de uma chama em um estopim. cujo olhar vivo revelava ousadia e ambição. para ficar revirando as minhas coisas. mas pelo visto era pouco. — Coloque-os de volta. O primeiro era de uma mulher de cabelos grisalhos e semblante cansado. Não tinha idéia do que permitiam que um prisioneiro carregasse consigo. — A voz dele assumiu um tom neutro e seu rosto perdeu de todo a expressão. ao se dar conta de que os dois retratos eram as únicas coisas às quais Will parecia dar algum valor. as fotos ainda em suas mãos. Quem seriam aquelas pessoas? Parentes dele? Amigos? — O que está fazendo? A voz de Will ecoou pela sala como um trovão. e agora é bem capaz que eu esteja em vias de pegar uma pneumonia graças à chuva que tomei por sua causa. — Quem são eles? — Kelly perguntou. o outro de um rapaz moreno e sorridente. Seria muito bem feito! A essas alturas Kelly erguera a voz e já estava cuspindo fogo feito um dragão enfurecido. Guardados os retratos. moça. então eu não tenho o direito de tocar nas suas coisas? E que direito você pensa ter. dois pequenos retratos em branco e preto. — Ah. foi a falta de volume daquela carteira. Curiosa. como se não tivesse ouvido uma só palavra que ela lhe dirigira.. mas não podia evitar a pergunta. sentindo-se subitamente culpada. fazendo Kelly estremecer. . por sua própria conta e risco! Eu adoraria vê-lo ser pego e jogado atrás das grades outra vez. mas porque uma toalha em redor dos quadris era tudo o que o separava da nudez total. Pensando assim. se é que existia algum. imperativa: — Coloque isso de volta na minha carteira.. ao verificar um último compartimento. Will jogou a carteira de volta ao lugar onde estivera e. já com alguma impaciência. na vida..curiosidade. e depois de tudo isso.

Tinha consciência de que agira como um patife da pior espécie e não condenava Kelly por chamá-lo de nomes terríveis.— Ora. cada suspiro e cada tilintar das algemas contra o tubo do aquecedor.. estava morrendo de frio apesar da camisola longa e do cobertor. — Will? A lembrança daquele simples sussurro bastava para causar-lhe um aperto no coração. atingindo-a no alto da cabeça. mas ela preferiria morrer e ir para o inferno que pedir para ser solta. ele atravessou o quarto e apagou as luzes. no entanto. mas mesmo que quisesse não teria conseguido se portar de outro modo com ela. ainda desejava isso. Muito grata. se suas únicas opções eram o chão duro e a cama onde um Will Stone completamente nu se achava deitado. a naturalidade com que ela admitira estar fazendo aquilo por mero interesse profissional. ela o escutou despir a toalha que o cobria e jogá-la sobre algum móvel próximo. e com força redobrada! — Será que pode ao menos me dar um dos travesseiros? — disse Kelly. escolheria mil vezes o chão. Entre esses dois eventos muitas outras coisas o haviam abalado. Kelly tornou a gemer.. O chão parecia mais duro que nunca e as algemas começavam machucar-lhe o pulso. mas não obteve qualquer efeito. O mesmo homem que segundos antes ela desejara ver atrás das grades. dessa vez bem mais alto. Will virou-se na cama e lhe deu as costas. para alívio de Will. pareciam ter se ... Por algum estranho motivo. Uma hora e meia depois. parecia soar tão diferente do que soara em tantos outros lábios que já o haviam pronunciado? E por que o afetava de maneira tão profunda? Kelly gemeu de novo.. Como que para aumentar o remorso que ele já sentia. No silêncio que se seguiu. enquanto tentava ajeitar o cobertor com a mão que lhe restava livre.. Por fim o cansaço a venceu e ela acabou por mergulhar num sono agitado. Para piorar. Na verdade. — Kelly o chamou de meia dúzia de nomes capazes de fazer corar o marinheiro mais calejado. um travesseiro voou como que do nada. Uma vez só. aquela noite fora bastante agitada. na esperança de poder ignorá-la. quanta delicadeza. Bem. Sim. eram muito mais perturbadores que todos aqueles ruídos. Stone! Como já era de se esperar.. veio-lhe a imagem daquele homem nu. seu. já não era capaz de determinar onde acabava o sofrimento dela e onde começava o seu.. — Seria incômodo demais? O pulso algemado estava doendo bastante.. cheio de sonhos desconexos onde se misturavam cães dobermann e caminhões de flores. Mais uma vez. ainda bem que ela se acalmara! Desde o momento em que se haviam deitado. o tom suave e feminino de sua voz ao chamá-lo pelo nome. Não conseguia deixar de sentir por Kelly. Além do mais.... Com toda a calma. por quê? Por que o seu nome. Sem que estivesse esperando. seu. Os acontecimentos daquela noite o haviam deixado inquieto e ansioso. — Oh. começando pelo que vira na Anscott e terminando com a intromissão de Kelly ao apanhar as fotos de sua mãe e seu irmão. mas de nada adiantou. Deitado na cama porém igualmente incapaz de conciliar o sono. Kelly ainda estava acordada. Kelly só fizera revirar-se no chão de um lado para outro. Will nada respondeu. Will ficara ouvindo cada movimento. sem que pudesse evitar. Céus. nos lábios dela. Seus pensamentos. também: a oferta de Kelly para ajudá-lo a invadir o prédio da Anscott. de poder esquecer tudo e mergulhar em seu costumeiro estado de indiferença. Mas.

na tentativa de se libertar dos braços poderosos que a seguravam. Era um sonho estranho. mas o fato é que tinha visto a intromissão de Kelly como uma verdadeira violação.. as mãos pousadas em seu peito. Exatamente como fizera na manhã anterior! — Não! — ela pediu e começou a se debater. — Não me deixe presa de novo. sentira que faziam parte um do outro.tornado inseparáveis. amordaçá-la e sair. num único movimento. logo agora. Sim. Não fora? Kelly gemeu.no entanto. Sem pedir licença ela pegara coisas que não lhe pertenciam e.. Tão inseparáveis quanto no momento em que ela se voltara e olhara em seus olhos. um par de mãos a tocava com tanta ternura que não era possível que pertencessem àquele mesmo sonho. Mas se era assim. admitiu que acabava de ser derrotado. Não fora? Claro que sim! E ele não podia se deixar levar por um coração mole. Não. Tinha o pulso machucado. tivera suas próprias razões para fazer o que fizera. algemá-la na cabeceira... se tivesse por Kelly uma fração do respeito que ele próprio desejava receber. Confusa e ainda não de todo desperta. por que davam a impressão de serem tão reais? — Fique quieta — ordenou a voz. roubara dele algo muito mais valioso que aqueles dois retratos: a dignidade. enquanto aquelas mãos gentis removiam o que lhe estava ferindo o pulso. a trouxeram para junto de um peito nu. fazendo tilintar as algemas ao tentar mudar de posição.. incapaz de raciocinar com clareza. as costas contra um muro de concreto.. Em meio a tudo aquilo. não? Afinal. Will praguejou baixinho e. Kelly Cooper estava em débito com ele. não a tratara sequer com humanidade pois. ele não a tratara com gentileza. E ele havia experimentado esse mesmo sentimento de união ao entrar no quarto. O peito de Will! — O que você. Kelly não estaria agora deitada no chão frio. Mas por acaso ele a tinha tratado com gentileza e decência? Respeitara sua privacidade? Kelly gemeu como que expressando desconforto ou dor. ele já não saberia dizer por que ficara tão furioso diante daquilo.. Kelly acordou assustada quando dois braços fortes a ergueram do chão e. por favor! Não me deixe sozinha! — Quer fazer o favor de... Kelly se agarrou ao primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça: Will Stone pretendia colocá-la na cama. de certo modo. fechada sozinha com seus medos num quarto de hotel. sofrendo e com uma das mãos acorrentada a um aquecedor que não funcionava! Como que para confirmar tudo isso Kelly tornou a gemer. Agira como se ele fosse um ser tão desprezível e insignificante que não merecia um mínimo de privacidade. Raios. Se ele fosse tão decente quanto queria crer. Por um breve instante. . o corpo lhe doía da cabeça aos pés e uma voz áspera lhe dava ordens. numa eloqüente resposta às perguntas que atormentavam Will. Aliás. jamais a teria seqüestrado. pois fora a maior responsável por sua condenação. ainda que a contragosto. — Fique quieta. logo após o banho. no qual tudo parecia gelado e hostil. Não a teria envolvido em seu plano de vingança e muito menos a teria deixado algemada e amordaçada. Ela voltou a gemer. E então notara as fotos nas mãos dela. ao vê-la sentada no chão vestida por uma camisola aconchegante e com os cabelos ruivos em desalinho. ela lhe devia! Will respirou fundo e cobriu a própria cabeça com o travesseiro. Agora que pensava melhor..

de tomá-la em seus braços e protegê-la. lutando e se debatendo como podia. Talvez fosse pelo tom de sinceridade em sua voz ou porque soubesse que. — Pare de se debater que eu a solto. agarrando-lhe os pulsos... não faça isso de novo! As palavras de Kelly se fundiram num patético gemido de súplica quando Will a largou sobre a cama ainda se debatendo e. seus toques e gestos revelavam uma ternura que ele se esforçava por mascarar. — Durma — ele ordenou. — Não vou algemar você e não vou sair. o que não era muito mas. segundo que Will não estava nu como imaginara. não me deixe aqui! Por favor! — Moça. — Vamos. a voz outra vez seca e direta. Ou talvez porque. Ele ia prendê-la outra vez! Essa certeza assustadora se apoderou de Kelly. — Pare com isso! — ele ordenou. Não conseguiu.— Eu vou com você aonde quiser. Como se as formas. Perturbado. juntou-se a ela. A despeito da força com que a seguravam e da óbvia intenção de mantê-la imóvel. aquecidas contra o peito de Will. naquele breve lapso de tempo. no entanto. sem a menor cerimônia. Ergueu os lençóis para Kelly. libertar a si mesmo da sensação de tê-la junto de si. as curvas. renovando suas forças. deite-se. Ela suspirou. Ela obedeceu simplesmente porque não lhe restava outra opção e.. a doçura de Kelly Cooper se houvessem impregnado em seu corpo. já o teria feito apesar dos seus esforços para impedi-lo. prometo! — A voz de Will soou num murmúrio grave junto a seu ouvido. era melhor que nada. Vestia uma das cuecas que comprara na viagem. mas acreditava nele. Aquele homem era uma verdadeira contradição viva! Ao mesmo tempo em que sua voz soava em tons carregados de aspereza. Fiel à palavra dada. antes que pudesse protestar.. Era como se. — Entre embaixo das cobertas — disse Will. mas por favor. rude. eles se tivessem fundido num só. ao mesmo tempo em que passava um braço em redor da cintura de Kelly e a trazia mais para perto de si. ele de fato lhe soltou os pulsos. . enquanto se esforçava para compreender seus próprios sentimentos. sentindo a agradável onda de calor espalhar-se por seu corpo gelado a partir das costas. — Não! — ela implorou de novo. com certeza. obrigou-se a se afastar dela. ele já se deitava a seu lado e puxava os cobertores sobre ambos. no fundo. caso ele a quisesse algemar outra vez. soubesse que Will Stone não era um mentiroso. Capítulo VII O peso do corpo de Will sobre o seu parecia capaz de esmagá-la e dificultava sua respiração. criando uma enorme necessidade de continuar perto dela. aquelas mão continuavam a conter uma gentileza tão grande que a deixava confusa. Tão confusa que ela já não tinha tanta certeza de querer se libertar. está bem? Kelly não saberia dizer por que. De imediato a mente de Kelly registrou duas coisas: primeiro que a cama era macia e aconchegante. — Por favor.

hoje. O calor de seu corpo ainda aquecia os lençóis e o travesseiro ainda exibia a marca de sua cabeça. mas.. ponderou Kelly. Não. um pouco antes de adormecer.. — Não é seguro ficarmos muito tempo num . recordou o que houvera durante a noite e fitou o lugar onde Will estivera deitado. de costas para ela. a julgar pelo péssimo humor. Com um sobressalto. Aos poucos. Alguma coisa. segurando calças jeans encharcadas um pouco acima do aquecedor. e no sentido mais verdadeiro da palavra. ela o queria. continuar correndo. aquela seria uma relação impossível. — Ele colocou as calças diretamente sobre a grade metálica e um cheiro de tecido molhado invadiu o quarto. aceitando o fato de que estava atraído por aquela mulher. pronta para entregá-lo às garras da lei na primeira chance. Será que ele tinha alguma idéia do quanto ficava sensual com o peito à mostra e aquela barba por fazer? Kelly suspirou. Ao contrário dele. percebeu que Will havia falado com ela. a bem sucedida fotógrafa Kelly Cooper não era o tipo de mulher que se envolvesse com um perdedor como ele. Pensando bem. e muito difícil de esquecer! Pela segunda vez. Onde estava? Com certeza não era o chão. Será que ela sabia o quanto parecia sensual e provocante. Afinal. onde estava ele? Aquela pergunta mal se havia formado quando um pequeno ruído chamou-lhe a atenção. Continuar evitando qualquer envolvimento emocional. Kelly acordou assustada. Não era. Ele a seqüestrara e.. era um lugar quente. O que acontecia entre eles não era um relacionamento normal entre homem e mulher. devagar. não tinha nenhum objetivo mais concreto que apenas seguir adiante com sua fuga.. Kelly apoiou o rosto em uma das mãos e ficou a observá-lo. agora. Afinal também era uma fugitiva. Will se voltou... ao notar a súbita insegurança que seu comentário causara em Kelly. um Will Stone terno e gentil seria muito perigoso. — Eu quis dizer que nós vamos mudar de hotel — corrigiu ele. e o próprio tempo pareceu estancar quando seus olhares se encontraram. no entanto. Vou mudar de hotel. com os cabelos ruivos despenteados e aquele ar de garotinha no rosto sardento? Will respirou fundo. estava atraída por Will Stone. Sim. talvez o farfalhar dos lençóis ou mesmo a intuição. Sim. ele vestia apenas as calças sujas e rasgadas com que fugira da prisão. um presidiário fugitivo. — Eu disse que é melhor você ficar aí na cama. macio e. A despeito do frio que fazia naquele quarto.. Como ele. pensou ela. no entanto. continuava a fugir pois disso dependia sua própria vida. o avisou de que ela havia despertado. tolo o bastante para sequer imaginar que tal atração tivesse a menor chance de ser um dia revelada. mas muito mal. Lá estava Will. acabando por admitir algo que soubera desde o início: estava atraída por aquele homem.O que apenas o tornava mais perigoso. ela e Will não eram tão diferentes entre si quanto poderia parecer à primeira vista. Ele era um fugitivo condenado por assassinato e com toda a polícia em seu encalço. Abandonara o seu casamento com a mesma fúria desesperada que movia Stone.. O quarto está gelado. mas.. — Não pode pedir à recepção que mande alguém para consertar? — Não faz diferença.. Kelly era sua refém e portanto sua inimiga. — O aquecedor continua sem funcionar? — Está funcionando. estava em guerra com o mundo todo. — Ah. E mesmo que as circunstâncias fossem completamente diferentes.

— O cheiro de roupa sendo passada a ferro me faz lembrar de minha mãe. — Lembranças são sempre maravilhosas. — Acho que está bem no fundo. imaginando se Will teria percebido o tom de amargura e solidão em sua voz. — Tenho um ferro de passar. — Pode deixar. mas estavam sempre limpas e bem passadas. saindo da cama. por mais que os anos se . Ele cruzou o quarto até onde estava a bagagem de Kelly e já ia colocando as mãos dentro da mala quando parou e se voltou para olhar em seus olhos. Passava pouquíssimo tempo em casa — ela respondeu. Após alguns minutos. como também é mestre em secar a ferro calças molhadas. O olhar que Will lançou em sua direção antes de tornar a se concentrar no entalhe valeu por uma pergunta silenciosa. — Sou uma mulher de muitos talentos. mas não ousou tocar nesse assunto. ainda deitada. em silêncio. A tática funcionou. — Will murmurou. Kelly imaginou se a mãe e o irmão seriam as duas pessoas nos retratos. enquanto observava Will virar as calças sobre a grade do aquecedor na tentativa de secá-las. Já passei muitas calças. — É verdade. Will. pensativo. em minha mala. — ele comentou. — Não é necessário. Kelly assistia à luta de Will contra um par de calças e um ferro de passar. — Deixe-me adivinhar: você não só é especialista em domar cães de guarda e invadir indústrias. porém... preferiu fazer um comentário menos direto. Em vez disso. sentindo-se ludibriada. Aqueles sentimentos pareciam determinados a não abandoná-la nunca. E Will Stone era o tipo de homem para o qual desculpar-se não era um ato corriqueiro. na vida! — Calças molhadas.mesmo lugar. — Sim. também? Will ergueu o olhar para fitá-la. mas escondeu a surpresa que sentia. — Posso? Kelly o fitou por um instante. — Era muito nova quando ela morreu e ficamos apenas eu e meu pai. — Eu gostaria de ter mais recordações de minha mãe — disse Kelly. Ou melhor. É um modelo de viagem. — Ele era jornalista e viajava pelo mundo inteiro. — Ela fazia questão de que eu e meu irmão fôssemos para a escola bem arrumados — ele prosseguiu. Era tão raro Will falar de si mesmo que ela achou melhor não interromper. do lado direito. mesmo quando trazem em si uma certa amargura ou saudades de alguém. claro — ela respondeu. ele criava outras duas. apenas sacou o canivete. Ela concordou.. permaneceu sério como sempre. — É isso aí — ela respondeu. O simples fato de ele pedir licença para mexer em sua mala era quase um pedido de desculpas pelo que houvera na noite anterior. eu faço isso — disse Kelly. passados alguns minutos. Will nada disse. eu e uma série de babás. — As nossas roupas podiam ser desbotadas e puídas... certo? Kelly sorriu e mais uma vez teve a impressão de que ele iria fazer o mesmo. além de não obter qualquer resultado na secagem do tecido. Kelly continuou calada. apanhou o galho que estivera desbastando e sentou-se na cama para continuar a entalhar a madeira. Para cada ruga que conseguia eliminar.. mas esquenta o bastante para secar suas calças mais rápido que esse aquecedor.

no entanto. onde se via uma pequena mancha arroxeada que ela mesma não havia notado. mas simplesmente porque detestava falar a respeito. surpresa. Podia ver isso em seus olhos. mas logo notou que a atenção dele se dirigia para a face interna de seu pulso. — Sinto muito — ele se desculpou.. mas bastou fitá-la para que no mesmo instante se desse conta de que ela dizia a verdade. na prisão. Alto demais. — Will parou de entalhar e olhou em seus olhos. mas para ser sincero só tínhamos alguma paz quando demorava a voltar — ele confessou. às vezes. o que não chegou a ser uma surpresa para Kelly. Não costumava revelar detalhes de sua vida particular a ninguém. Não por falsa modéstia.. — É.. — Jamais tive a intenção de machucá-la. visivelmente perturbado. aqui está. — Kelly murmurou. intrigada. — Eu sei. — Meu pai também viajava. Will a segurou por um braço e a impediu. quantos prêmios mais? — Pouca coisa. — Pronto. — Afinal.. ambos permaneceram mais algum tempo calados. Kelly ficou pensando no que ele acabara de dizer e imaginou que esse comentário a respeito do pai talvez explicasse a existência de apenas dois retratos em sua carteira. percebendo agora que não tinha medo de Will Stone.. ele dedicado a seu entalhe. Pelo visto Will a conhecia melhor do que ela imaginara.. nada importante — ela respondeu. mas naquele momento. — ele riu sem vontade. Com extrema delicadeza. — Você sempre foi uma garotaprodígio? — Sim — Kelly respondeu sem titubear nem desviar seu olhar do dele. Will deslizou um dedo sobre o hematoma. Mais que essa constatação. — E então. Aliás. — Como sabe que recebi prêmios por meu trabalho? — Tempo livre é algo que não falta.. se havia um sentimento que ele conhecia bem demais era a dor de uma criança que sabe não poder contar com o próprio pai. O sucesso tem seu preço e costuma ser alto. Embaraçado como um adolescente.. Eu li a seu respeito — ele confessou. — Quantos prêmios você já ganhou. — Ela se aproximou e estendeu as calças já secas na direção de Will.. contudo. Só ela sabia o gosto amargo daquelas vitórias. além dos dois Pulitzer? — Ora! — Kelly ergueu o olhar.passassem! A tristeza nas palavras de Kelly não passara despercebida aos ouvidos de Will. Será que sabia mesmo? Will não tinha bem certeza. Quando ela fez menção de se afastar. jamais me permitiram ser menos que isso! — Engraçado. — Comigo aconteceu o contrário: jamais me permitiram ser mais que uma decepção! — Pode ser. Isto supondo que aqueles rostos pertencessem mesmo à mãe e ao irmão de Will Stone. diante dela. Kelly o fitou. Transcorridos alguns minutos. após desligar o ferro e colocá-lo de lado para esfriar. Ele se levantou e aceitou as calças sem ao menos agradecer. mas não se iluda com as aparências. Durante alguns minutos ambos permaneceram em silêncio. Como que por um entendimento mútuo. ela secando a calça aos poucos. soltou-lhe o pulso e deu um passo atrás. — Diga. foi Kelly quem quebrou o silêncio.. não pudera e nem quisera se conter. evasiva. . o que o estava desconcertando era sua própria reação à proximidade de Kelly. para então voltar-se e sair apressado em direção ao banheiro. sem erguer o olhar.

moça. devo dizer. é tolo o bastante para pensar em invadir o prédio da Anscott. e supondo que ainda esteja interessada em me ajudar a entrar naquele prédio. na verdade: ficara assustada. Por razões que Will não saberia explicar. Quanto à pergunta de Will. Os olhos que a fitavam se tornaram mais frios e a voz dele Stone recuperou o tom de aspereza quando disse: — Espere e verá. — Quer dizer aquilo em que você preferir acreditar. Seus planos não tinham nada de nobre ou heróico e talvez aquela mulher tivesse o direito de saber desde já que ele não era nada além do mau elemento que diziam ser. Tinham mudado de acomodações naquela tarde e. — Ah. — Afinal. será que não estava enganada? Afinal. O que não significa que tenha. se por um lado tinha plena certeza de que Will jamais seria capaz de feri-la.Confusa. mas. ela passara a sentir-se inquieta. servindo-se de mais um pedaço da galinha frita que comprara para o jantar. não fizera outra coisa ao longo de toda a tarde. mas foi você quem insistiu em ir junto comigo — ele se defendeu. ficara feliz ao saber que ela não o achava capaz de matar alguém. Mais que inquieta. — Supondo que você não esteja morrendo de pneumonia — ele insistiu —. Kelly seguiu-o com o olhar e de repente sentiu que era preciso repetir uma pergunta que já fizera antes. ele não havia fugido da penitenciária exatamente para vingar a morte do irmão? A resposta às duas perguntas era sim. — E graças a você.. — Como você faria para invadir a Anscott? — ele perguntou. mirando o fundo daqueles olhos verdes. O problema . Will deu-lhe as costas e entrou no banheiro. — Sinto muito. — O problema é que eu estou morrendo de pneumonia! — Ela tossiu. não sabia bem se acreditava em sua incapacidade para ferir outra pessoa qualquer? — Você matou aquele homem? Will parou onde estava e se voltou. acha? — Talvez. — Sente muito? Eu o ouvi dizer que sente muito? — Sinto. Não tinha mais nada a dizer. diga-me como devo fazer.. não é? Depois da conversa daquela manhã. Sim pois. como fizera no outro hotel. Dito isto. — Kelly deu de ombros. debaixo de chuva! — Não acha que eu seria tolo a ponto de deixar você sozinha dentro do carro. A aliança de ouro ainda lhe parecia estranha à vista. — Isso quer dizer sim ou não! — Kelly insistiu... para então espirrar. Kelly olhou mais uma vez para sua mão esquerda. mas eu não insisti para ser arrastada pelo meio do mato. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas. mas por algum estranho motivo sentia-se mais à vontade com ela do que se sentira com sua própria aliança de casamento. capturado a verdade. ela se limitou a fitá-lo por um instante. apanhar um lenço descartável e resmungar algo a respeito de estar morrendo de pneumonia. Faz um julgamento daquele instante. Não tinha nada contra invadir aquele prédio no meio da noite para provar que ali eram produzidas drogas ilegais ou mesmo que Will era inocente no crime pelo qual fora condenado. que se encerrara com o misterioso espere e verá de Will. necessariamente. Mas. Na verdade. Will os registrara como marido e mulher. — Uma câmera captura um pequeno pedaço do tempo e o preserva em uma imagem.

você não precisa saber nada além do que já sabe! — Para quê tudo isto? — ela insistiu. — Você tem esperanças de provar a sua inocência. então? — Como já lhe disse.era que ele parecia estar planejando algo muito mais perigoso. um aquecedor em perfeitas condições emitia seu murmúrio cálido. sim? — ele retorquiu... você está certo. Pronto. culpando a Anscott? — Moça. A não ser que tentasse abordar o assunto de um modo mais direto. O quê. — Não preciso saber de mais nada. — O rapaz no retrato? Will confirmou com um gesto silencioso. — Para que você quer entrar no prédio da Anscott? — Eu já lhe disse — ele respondeu sem erguer o olhar. a menos que isso possa ter alguma influência mais direta na sua vida. A seu lado.numa verdadeira batalha entre a natural teimosia de Kelly e a desconfiança característica de Will. por que não mencionou a Anscott no tribunal? Olhe.. ou melhor. a deixou comendo sozinha e foi sentar-se numa poltrona com seu entalhe e o canivete. pois não vou mais me intrometer em seus assuntos. porém. Não quero saber de mais nada! Foi tolice minha ter perguntado.. sarcástico. havia estragado tudo! Tivera a chance de saber um pouco mais sobre ele e a perdera. moça. como uma imagem fora de foco que de . — Para a sua história que vai ganhar mais um Pullitzer? — Tenho o direito de saber seus motivos. eu não dou a mínima para provar a minha inocência! — Ele riu. Afinal. sim! — Ah. — Kelly deu de ombros.. ela não sabia ao certo. — Alguém da Anscott foi responsável pela morte de meu irmão. Então. — Ontem à noite você não impôs condições para me ajudar. — É. para quê tudo isto. — Kelly fechou a embalagem da comida e a colocou de lado.. — O que você quer? Mais uma vez seus olhares se encontraram e mediram forças.. parecia tão ansiosa quanto eu para entrar lá! — Pois mudei de idéia. — Ninguém acreditaria. é? Para quê? — Ele a fitou com um ar de desprezo. mesmo que o tal sujeito do parque levantasse da tumba para apontar quem o matou! — Ora. — Poupe-me de seus conselhos. séria. lembra-se? — Esqueça! Não quero a sua ajuda.. Tenho certeza de que há mais alguma coisa por trás disso tudo! Você não arriscaria o pescoço fugindo da prisão. — Não. moça! — Dito isto. Quem venceu foi esta última. se não pretende provar sua inocência. — Só quero saber o que preciso fazer para entrar e sair dali! — Pensei que não precisasse de minha ajuda. de nós dois o criminoso é você. De fato.. — Seu irmão? — Sim. — Não precisa saber mais nada além do que já sabe. Não mesmo! Aliás. — Preciso. a jogara pela janela. Kelly o fitou. Não. eu.. E mesmo assim. Kelly se calou e o fitou. apenas para provar que uma certa companhia está envolvida na produção de drogas. se vou ajudá-lo a entrar lá! — Kelly insistiu. E pode ficar tranqüilo. algo está muito errado por aqui e eu quero saber o que é.

Mitch não teve tempo de consolar-se com esse pensamento. era quase o mesmo que não ter trabalho algum. Suas dívidas se acumulavam. Em seus olhos. Se por um lado parecia ter chegado mesmo ao fundo do poço. Recordou-se de uma outra ocasião em que não lhe fora dada essa chance. A verdade era que não tinha dinheiro para pagar por um quarto. Não tinha dinheiro para quase nada. pois os poucos clientes que chegavam a procurá-lo em geral não tinham como pagar por seus serviços. por outro a situação já estava tão ruim que não havia como piorar. — A pessoa enterrada naquele cemitério em San Francisco? — Sim. entravam no carro e seguiam de volta para 0 hotel. Pare de sentir pena de si mesmo. Não que estivesse ansioso por passar outra noite no carro. o desespero calado e estático do Homem de Pedra. Brody: ou se demite por conta própria ou será processado por corrupção e expulso da polícia. do lado de fora dos portões da Anscott. Ótimo. — Tem duas opções. os dois se haviam contentado em permanecer dentro do automóvel. Não adiantaria perguntar-lhe mais nada. Will Stone não lhe parecia o sujeito mais calmo e paciente do mundo. As palavras de seu superior. Em tempo algum olharam em redor. Seu novo trabalho. — Como pôde fazer uma coisa dessas? Não pensou em nós. o que fazia crer que nem imaginavam estar sendo seguidos. Sem qualquer aviso a porta do carro se abriu de repente para que duas mãos poderosas o agarrassem pela gola do casaco e o arrancassem do carro. — O segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado — Kelly disse. ao contrário do que tinham feito na noite anterior. casa e emprego. dormindo sentado. mas sua vontade valia pouco naquele caso. aliás. para que Will e Kelly tivessem tempo de chegar ao hotel e ir para o quarto. não pensou em nosso filho? — Papai. parando seu velho automóvel numa vaga do estacionamento do hotel para onde Will e Kelly se haviam transferido. Ele perdeu o equilíbrio e foi . caso fosse pego. pensou Mitch. Não queria ser notado. as coisas se encaixaram na mente de Kelly. é fazer com que a sua entrada pareça completamente normal e corriqueira. Misturou-se ao tráfego agitado da noite de sábado e dirigiu devagar. um imenso vazio denunciava a emoção contida. Acabara de passar duas longas e aborrecidas horas vigiando Will e Kelly. Capítulo VIII Mitch parou o carro a uma certa distância do supermercado diante do qual estava estacionado o conversível vermelho.repente ganhasse definição. Dessa vez. entre elas a pensão de seu filho e o aluguel do apartamento no qual vinha morando e trabalhando desde que perdera família. de sua esposa e de seu filho ainda doíam fundo em sua lembrança. por que eu e a mamãe não podemos mais morar com o senhor? Mitch afastou aqueles pensamentos e ligou o motor do carro. — A voz de Will soou como pouco mais que um murmúrio grave e rouco. pois não tinha idéia do que dizer. observando dali o movimento na portaria da empresa. enfim —. Poucos minutos depois eles saíam do supermercado com um saco de papel. e dificilmente lhe daria a chance de se explicar. ele ordenou. ao menos por ora.

por que não discutimos isto num lugar mais reservado? Ainda desconfiado. no entanto. Este obedeceu e imaginou. — Você joga duro. pela décima vez. um homem louro de meia-idade. — Eu trabalho para você! — Mitch grunhiu entre espasmos de dor. se é o que está pensando. Isso por certo significava alguma coisa. mas era assim que se sentia a respeito: o sujeito estava seguindo a eles dois. — Olá — ele a cumprimentou. A mesma capacidade de observação que fazia dela uma fotógrafa de sucesso lhe mostrava que aquele homem estava mergulhado num sofrimento profundo. como se tivesse algo de felino. Quem seria aquele homem e por que os estaria seguindo? Engraçado. mas quando o fez soltou o detetive com a mesma rapidez com que o prendera. — Escute. — E o que mais acha que eu poderia pensar? — É. foram seu olhar sombrio e desconfiado. talvez devesse ter pensado duas vezes. isto não é um jogo — Will respondeu. ainda massageando o braço. Kelly observou Will e o desconhecido caminharem juntos em direção ao hotel. Ao entrar no quarto o desconhecido.. seco. antes de concordar. Zonzo de surpresa e dor.. Will fitou o detetive por um momento. Com um gesto. E esse era um tipo de coragem que ela admirava. embora de porte físico menos maciço. — Só vou perguntar mais uma vez: por que está me seguindo? — Não estou interessado em entregá-lo às autoridades. me desculpe. continuava a lutar. — Por que está me seguindo? — Ouvi dizer que você havia fugido da prisão. O que mais lhe chamou a atenção. aquele homem parecia um enorme leopardo. — Oh. — Ele gemeu quando seu braço foi torcido com mais força. antes de se envolver naquilo. Um leopardo ferido que.. — Sou o detetive particular que contratou para procurar o seu irmão! Stone pareceu custar um pouco a absorver aquela informação.. não? — Não. — Ufa! — O detetive massageou o braço dolorido. quase que no mesmo instante. enquanto um de seus braços era torcido para trás de maneira impiedosa.. apontou o hotel e convidou Mitch a ir na frente. que conferiam a Stone um ar agressivo. Lado a lado com Will.. a fitou com o par de olhos mais azuis que ela já tinha visto. a porta do quarto se abriu. não só a Will. era tão alto quanto este. três vezes em seguida. O brilho ameaçador no olhar de Stone indicou que a resposta não o satisfizera. — Olá — Kelly respondeu e então espirrou uma.lançado com violência contra a lataria. acho que vou morrer de pneumonia. Apenas mais uma das vantagens de viajar com Will Stone! . Sim. se não estaria cometendo um erro. A despeito da escuridão que reinava no estacionamento. embora ainda parecesse não saber muito bem de onde. mas ela não teve tempo para pensar no assunto pois. Mitch ouviu uma voz hostil rosnar às suas costas: — Quem é você? — Solte-me e eu. Tudo nele inspirava leveza e agilidade. duas. você está certo. Da janela. Mas não era só isso o que a sensibilidade de Kelly enxergava nele. Sim. a despeito da dor. — Mitch deu de ombros. — Mitch Brody! Meu nome é Mitch Brody! No mesmo instante ele se deu conta de que o dono daquela voz áspera era Will Stone e percebeu que este reconhecera seu nome. Mitch pôde notar os cabelos compridos e a barba por fazer.

. — Por que estaria interessado em ficar do meu lado.. você nunca disse que havia contratado um! — Mas contratei. um dos dois deveria estar com muito dinheiro no bolso. Will dissera nos seguindo e não me seguindo. — Acredita que exista alguma ligação entre o homem que foi assassinado no parque e o irmão de Will? — Kelly perguntou.. — Se você tivesse assassinado aquele homem durante uma transação de compra e venda de drogas. Stone.. se desculpou e tomou outro comprimido contra gripe. estava pronto para acabar com Mitch Brody se este não desse alguma explicação convincente para seu comportamento. Se querem saber o que penso.Will preferiu ignorar o comentário. o detetive particular que contratei para que descobrisse o que havia acontecido com meu irmão. — Mitch arriscou. — O detetive respirou fundo e deu de ombros. — Vou abrir o jogo. E que desapareceu no mesmo dia em que você foi indiciado por assassinato. Bem. — Obrigado. . — O que acha? — Por enquanto não acho nada. — Este é Mitch Brody — ele o apresentou a Kelly —. nessa briga? — Porque. — Está certo. — Tente outra história. Espirrou mais algumas vezes. que você não mencionou. Não é uma proeza pequena. Pela expressão em seu rosto. também não foi encontrado com Stone. trabalho para você e sempre fui um empregado fiel. — Will cruzou os braços e apoiou os quadris num móvel próximo. Stone. está certo.. Brody. porém. Kelly o fitou por um instante.. E agora o Sr. — Ele se voltou paira Will.. — Sente-se — ordenou ao visitante.. E bem depressa. mas eu não preciso de um fã-clube. a arma do crime estava registrada oficialmente como propriedade das Indústrias Farmacêuticas Anscott. para variar. Brody! — Talvez não. Brody vai nos dizer por que tem estado nos seguindo. o seu irmão estava trabalhando para as Indústrias Farmacêuticas Anscott. Mitch fitou seus interlocutores e prosseguiu: — Achei muito curioso que o homem morto estivesse portando drogas mas não tivesse consigo nenhum dinheiro. ela não teve tempo de pensar a respeito. aliás. sem muitas pretensões de convencer alguém. tecnicamente. Não precisei farejar muito por aí para descobrir que ele vinha vivendo de maneira bem extravagante.. — Bem. um fato. num tom neutro. digamos apenas que ganhou minha admiração ao fugir da Penitenciária de Folsom. Eles alegam que havia sido comprada para uso de um de seus guardas. Prossiga. mas há muita gente atrás de você. Tomara um havia menos de uma hora. Dinheiro que. alguém se apoderou desse dinheiro. com seu espírito de jornalista se agitando diante daquela história.. voltou a atenção para Mitch. Não sei se tem visto os noticiários. algo que por si já bastaria para abalar a tese da acusação. Em vez disso.. — Você mesmo me disse que. mas com certeza seria bom ter alguém do seu lado.. então. antes de desaparecer. revelando que encaravam aquele assunto da mesma forma. Alguém que o usou para deixar a cidade. num padrão muito acima do que permitia sua real situação financeira. Como antes. e não é para pendurar uma medalha em seu pescoço! — E por que você estaria preocupado com o que possa ou não acontecer comigo? — Will olhou o outro homem nos olhos. — Detetive particular? Ora. aliás. — Continue — disse Will. Sr. — Ele tornou a olhar para Will. — Bem. tenho motivos para crer que seu irmão foi morto por alguém ligado à Anscott e acho que você fugiu da prisão para provar isso.

— Ora. O remédio para gripe já estava fazendo efeito. Coisas que não podia esperar que Will Stone lhe contasse. — Meu irmão pode ter sido muita coisa ruim.. — Muitos usuários de drogas parecem cidadãos equilibrados e íntegros.. Aliás. — Como ele morreu? — Overdose de cocaína. Em caso positivo. acho pouco provável que mencionassem o fato de Stone ter um irmão trabalhando lá. — Quero dizer.mas que foi roubada algumas semanas antes daquele crime. pois para eles isso pouco importa. — Ele abriu um breve sorriso. — Will hesitou. . A angústia era transparente em sua voz. decerto não notaram a relevância desse detalhe.. Stone poderia muito bem ter encontrado a arma no chão. — Kelly balançou a cabeça. — Bem. certo? — Kelly argumentou. — É isso o que você pensa. — E a promotoria não tinha conhecimento disso? — Kelly perguntou. E ainda que tivessem perguntado algo à Anscott. eles não sabiam que a arma estava registrada em nome da Anscott e que havia sido roubada? — Talvez soubessem. — Mitch olhou para Will. mas nunca foi um viciado. intrigada. roubado de alguém ou comprado no mercado negro. como se lhe custasse muito dizer aquilo. ou preferiram não notar. Não sabiam sequer que tinha um irmão. para então caminhar até a janela e ficar lá imóvel. — Quando consegui localizá-lo. Aos olhos da acusação. — Ele pode ter sido. Kelly podia ver e sentir a dor que o oprimia. calado. ele já tinha morrido havia cerca de dois meses. indo direto ao ponto.. Foi enterrado como indigente em San Francisco. mas parece que antes de ser morto estava vivendo em Los Angeles sob uma identidade falsa. — Sim — Will replicou. deixando-a sonolenta. — Exato. — O que aconteceu com o irmão de Will. Eu apostaria minha própria vida nisso! Kelly e Mitch se entreolharam. tenso.. existe uma queixa no Departamento de Polícia quanto ao roubo dessa arma. e o que o faz pensar que tenha sido assassinato? — ela perguntou. não é? Que a Anscott está envolvida no narcotráfico? E que de algum modo o seu irmão também se envolveu nisso.. — Se ele fugiu para Los Angeles. — Não entendo. De fato. Pelo modo como Will franziu a testa. Sr. ele não tinha qualquer ligação com a Anscott. — Por que não overdose acidental ou mesmo suicídio? — Não havia nenhuma evidência de que ele fosse um viciado. também. brusco. Brody? — Pode me chamar de Mitch. — Ele morreu em San Francisco? — ela perguntou. — Porque ele provavelmente estava traficando drogas para a companhia? — Kelly sugeriu. quanto mais que o mesmo trabalhava para aquele laboratório em especial. Mesmo assim era preciso continuar com aquele assunto e arrancar do detetive as coisas que ela precisava saber... talvez não. acho que esse é o tipo de coisa da qual as pessoas não fazem propaganda.. o que estava fazendo em San Francisco? Um silêncio longo e angustiante antecedeu a resposta do detetive. Ao que soubessem. ficou claro que aquela notícia era novidade para ele. tão pesada que lhe curvava os ombros e o fazia encolher-se. Mitch apenas confirmou com um gesto. muitos traficantes também! — Meu irmão não era um viciado! — Will interveio..

por ora. — Então me dê um motivo pelo qual eu deva permitir que você participe disto — disse Will. e quero tomar parte nisso. para saber o que fora feito do corpo. então liguei para ele. — Brody. Seu irmão tentara fazer a coisa certa. Na verdade. acredito que isso tenha ocorrido na noite anterior ao dia marcado para o encontro. se voltou de repente.. que por sinal havia se apresentado sob o nome falso que estava usando em Los Angeles.. — Creio que posso conseguir a planta baixa do prédio da Anscott.. — É uma descoberta recente. Marcou um encontro com seu irmão. olhando pela janela. O Caso foi dado como encerrado e os objetos me foram entregues. Stone. tudo isto é fascinante.. você nunca me contou isso! — ele acusou. o detetive tivera o cuidado de não mencionar diretamente a culpa do irmão de Will no assassinato do parque. em respeito aos sentimentos de seu cliente. ainda encarando o detetive. — O motivo é muito simples: vocês precisam de mim. Vamos deixar nesses termos.. — Só que ele não apareceu porque foi morto — disse Kelly. tentando compreender o que Mitch acabava de lhe contar e lutando contra a emoção que lhe apertava a garganta. Mitch. — No meu escritório. que até então estivera de costas. Mitch desviou o olhar e disse: — Tenho meus motivos. eu já notei que estão se preparando para entrar na Anscott. Entre eles estava um papel com o nome e o telefone de seu advogado.. o advogado pensou que se tratava apenas de um trote. . Apreciava tal demonstração de sensibilidade. — Antes que o outro pudesse protestar. Coisas que estavam com ele quando foi encontrado e sobre as quais eu não havia sido informado quando estive lá dois meses atrás. — Se querem mesmo saber.— Acho que ele havia voltado à cidade para corrigir um erro. Will. Will passou uma das mãos pelo rosto num gesto cansado. Por fim. — Eu sei. — Por quê? Um silêncio tenso se estendeu por vários segundos. com a voz trêmula de emoção. Mitch adiantou-se e fez uma oferta irrecusável. — Por que meu advogado não fez algo a respeito? — Ele fez. avaliando até que ponto poderiam confiar um no outro.. — Bem lembrado — Will interveio. Detetives particulares costumam ter conexões bastante úteis. desses que sempre acontecem quando um caso tem muita divulgação nos noticiários. Guardei para você. — Onde estão as coisas de meu irmão? — Will perguntou. — Como descobriu tudo isso? — O Departamento de Polícia telefonou para meu escritório. Como ele não compareceu. — Bem. — Exato. enquanto os dois homens se olhavam nos olhos.. porém havia algo que ela ainda precisava perguntar. — Eu as quero. — Kelly espirrou. avisando que havia alguns objetos pessoais anexados ao processo de investigação da morte de seu irmão. dizendo que precisava falar a respeito do caso. ao longo da conversa. Kelly percebeu que. — Mas não explica por que vinha nos seguindo. Estou certo de que pretendia contar a verdade a respeito do que aconteceu naquele parque. que me contou a respeito do encontro. Ele telefonou para o seu advogado.

Will. de modo que quando se dirigiu a Kelly. o fez com mais rispidez do que pretendia. — Acho que preciso pensar um pouco antes de decidir se você está conosco ou não... sentindo o efeito do remédio que a deixava cada vez mais sonolenta e confusa. — Como? — ela perguntou. você pode apostar que sei. Stone.. mas não a ponto de se deixar levar e cometer alguma tolice. — É.. para as lembranças que doíam mais que um ferimento aberto. pensava um monte de coisas. para que pudesse raciocinar com um mínimo de clareza a respeito das mesmas.. — Você está se sentindo bem? — Mais ou menos. já o teria feito desde o início. — O que você acha disso tudo? — ela murmurou. — Mitch se pôs em pé e deu alguns passos em direção à porta. E para a terrível necessidade por um gole. — ela concordou. voltou a experimentar um profundo desejo de protegê-la. — Pois eu acho que não foi só um pouco — observou Will. — Ele respirou fundo e fitou o detetive. — Tenho um amigo que pode apanhá-la para mim. que acabara de trancar a porta do quarto.. — Sentada em uma poltrona e com os olhos fechados. tonta. um só gole de bebida. Mitch deixou o quarto de hotel e voltou para o frio e a escuridão da noite. se fosse o caso. Esse era um sentimento que o perturbava. — Muito justo. — Mitch achou melhor não mencionar que o tal amigo era um policial.. Brody.. Mas já joguei limpo e de acordo com as regras. Ainda mais porque todas giravam em torno da figura de seu irmão: o assassinato no parque.Kelly e Will trocaram um olhar intrigado... tenho as minhas conexões. a mágoa que tal covardia lhe causara.. antes. E ao notar o quanto ela parecia frágil naquele instante. — Bem. ao contrário. Além do mais.. — Hmm. cruzando a passos incertos os poucos metros . Era com esforço que conseguia manter os olhos abertos. — Você sabe que isso é ilegal. decididamente isso era muita coisa para uma só cabeça! — Vamos deixar essa conversa para amanhã de manhã — pediu. Sem dizer qualquer mais nada e sem olhar para trás.. — Acho que vou. parecia mais desperto e atento que nunca. não sabe? — perguntou Will. — Mas ele está certo. Não. para o desconforto do banco de seu carro. vá se deitar — resmungou. e perdi. a planta daquele prédio é algo que não tem preço! — Devo entender isso como um voto a favor de Mitch Brody? — É. Kelly sentia-se como se houvesse areia em sua garganta e um enorme espaço vazio dentro de sua cabeça. Coisas demais. — Ande. Parece que o remédio para gripe me deixou um pouco.. mesmo. — Está se referindo a invadir o prédio da Anscott ou a não denunciar você às autoridades? — As duas coisas.. Já teria avisado a polícia. seu antigo parceiro e uma das poucas pessoas que acreditavam em sua inocência no caso de suborno. Kelly deu de ombros. — Estou impressionada — Kelly resmungou. na verdade. você sabe. — Como eu disse. sério. para então se voltar e encarar seu cliente ainda uma vez.. Will. Mal podia esperar para deitar seu corpo cansado numa cama e fechar os olhos ao menos por alguns minutos... a fuga de Stephen. — Kelly gemeu. Queria demais aquelas plantas da Anscott. e agora a notícia de que ele havia sido morto tentando corrigir a injustiça que causara. — Se eu pretendesse entregá-lo à polícia.

porém. Will sentou-se na beirada da cama e apagou as lâmpadas de cabeceira. ela já havia dado provas de que pensava assim. — Eu sabia que você não era culpado pela morte daquele homem. Assim adormecida ela mais parecia um anjo. ele vestiu as calças jeans e voltou ao quarto. Significava tanto que lhe faltavam palavras para exprimir o que sentia. por algum motivo. indo mais uma vez contra o que lhe ordenava o bom-senso. — Will? Céus! Ela precisava chamá-lo assim. Além do mais. pareciam fugir de sua mente a cada vez que tentava capturá-las. Minutos mais tarde. seria loucura pensar em se envolver com Kelly Cooper. pois desapareceu de seus lábios no instante em que ele se deu conta de que desejava desesperadamente beijá-la. — Volte a dormir — ele ordenou e já ia se levantando quando uma única palavra o fez ficar parado onde estava. iluminado apenas pela luz fraca que vinha do banheiro. mas nem por isso menos adorável.. Céus. imaginando se não seria melhor algemá-la. Kelly fez um esforço para lembrar-se do que tanto queria dizer a Will. num tom muito mais brando. a crença de Kelly em sua inocência significava muito para ele. era algo novo para Will e lhe causou um estranho aperto no coração.. seu olhar pousou em Kelly. Respirou fundo e desviou o olhar. porém. ele a deixara sozinha no quarto. — ela olhou nos . Embora de forma indireta. Quando fez menção de se levantar.. Não só ela estava sem condições de sair dali... — ela sussurrou. contudo.. eu. se deu conta de que era uma idéia ridícula. já nem se lembrava de quando fora a última vez que sorrira! E mesmo aquele sorriso durou pouco. e com um futuro ainda mais incerto. No mesmo instante. pois havia muitas coisas que precisava dizer a Will. Will parou e olhou para trás. Essas coisas. porém. Ouvi-la dizer isso com todas as palavras. depois de um banho rápido. Kelly não era mulher para um homem com um passado como o dele. Com toda a certeza. A meio caminho do banheiro. Vendo-a estendida na cama. No entanto. Um anjo de temperamento explosivo e que às vezes falava mais do que devia.que a separavam da cama. Ao pousar a cabeça no travesseiro ainda tentou dizer a si mesma que só descansaria por alguns minutos. num gesto terno. Ao longo de sua vida poucas pessoas lhe haviam dado crédito e. o que estava havendo com ele era perfeitamente normal e não passava de simples desejo. porque na ansiedade por descobrir quem os estava seguindo. Sim. — Eu. — Olá. mesmo enquanto insistia consigo mesmo para ficar longe dela. Will engoliu em seco. Tinha que parar de pensar nessas coisas! Ele que não se iludisse. com tanta suavidade? — Que é? — ele rosnou. as pálpebras pesadas de sono. Q rosto sardento exibia um ar quase infantil. quero dizer. que lhe tocava o coração. que não imaginasse haver um sentimento maior onde existia apenas a necessidade física. como tivera a chance de fugir e não o fizera. — confusa e sonolenta.. ficou imerso em uma agradável penumbra e. não é? Na Anscott. Sim. — Você não vai fazer nenhuma besteira. ele se curvou sobre Kelly e ajeitou as cobertas em redor dela. sem que pudesse evitar.. Will admirou o modo como os cabelos ruivos se espalhavam em cachos desordenados sobre o travesseiro e sorriu. Ela se mexeu. que dormia a sono solto. E Kelly ficara. O quarto. — Volte a dormir — ele repetiu. Abriu devagar os olhos. Kelly o segurou por um braço. Gemeu baixinho. com a porta aberta e sem algemas ou qualquer outra medida que a impedisse de sair.

sério e calado. — Oh. para ele. Will respirou fundo.. Tolo. sem saber que decisão o outro havia tomado. Nada jamais terminava bem. mas ela estava muito enganada se pensava que tudo ia terminar bem. Tolo por querer desesperadamente beijar aqueles lábios e deslizar os dedos pelas sardas que enfeitavam aquele rosto de anjo. .. Naquele instante... pensou.. dessa vez ele pudesse vencer. está? Não quero que faça nenhuma bobagem. Sonolento e com o corpo gelado e dolorido. E sua chance de recobrar ao menos parte da auto-estima se encontrava agora nas mãos do homem que o esperava. gritou para si mesmo. Por outro lado. Esfregando os olhos vermelhos com uma das mãos.. — Você não está mentindo para mim. — Então você vai ficar livre.. talvez ele fosse mais tolo do que imaginava. enquanto ouvia Kelly falar. certo? Certo? — Certo — disse Will. apenas talvez. a voz tornada rouca pela gripe e pelo sono. — Isso quer dizer que estou com vocês? — Está. parecia incapaz de tirar aquela idéia da cabeça! — Vamos reunir as provas e entregá-las à polícia — Kelly prosseguiu. o detetive abriu os olhos para se deparar com o semblante grave de Will Stone. Tolo por acreditar em milagres. a única bobagem que estava pensando em fazer era beijá-la. do lado de fora do carro. e tudo vai terminar bem. Sim porque. Não só queria ajudar a provar a inocência de Stone e a culpa das Indústrias Anscott. com todo o seu sarcasmo voltando à plena carga diante da menção da reportagem. odiando a si mesmo pela mentira. eu terei minha reportagem. alguma idéia tola quanto a vingar a morte de seu irmão... vai? — Kelly se esforçava para pensar com um mínimo de clareza.. — Vamos apenas coletar provas de que a empresa está envolvida com drogas ilegais. não só queria que a justiça prevalecesse. Mitch usou a outra para abrir a janela. E naquele instante. mas é claro! — Will murmurou. como também desejava provar a si mesmo que ainda merecia algum respeito. sem rodeios. — Traga as tais plantas do prédio — disse Will. Capítulo IX Mitch acordou na manhã seguinte com uma leve batida no pára-brisa de seu carro. Acreditara que talvez. — Não vai entrar lá com. foi que Mitch se deu conta do quanto era importante. E por mais que tentasse. ao deitar-se na dureza do chão. mas com uma condição.. Tolo por crer que pudesse despertar em uma mulher como Kelly algo além do interesse por uma boa reportagem. ao menos uma vez. quando ele estava por perto! Tudo o que desejava era fazer justiça. ter sua participação aceita.olhos de Will. em silêncio. Com alguma sorte ele conseguiria as provas e Kelly teria sua maldita história. chegara mesmo a crer que tudo pudesse ser diferente. Alguém iria pagar pela morte de Stephen..

— Com certeza isso é assunto restrito a um ou dois químicos empregados sob a fachada de altos cargos executivos. ao mesmo tempo em que tomavam todo o cuidado para não chegarem perto demais um do outro. — É assim mesmo que deve parecer — disse Kelly se voltando para Will. Tudo está claro e bem explicado demais. . Mitch. vejam. — Lembra-se de quando eu lhe disse que o segredo de se invadir qualquer lugar sem ser notado é fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? Bem. Lembrava do carinho com que Will arrumara a coberta a seu redor para depois deitar-se no chão. o mesmo se aplica a todos estes papéis. Kelly e Will puseram um freio a seus próprios pensamentos e se concentraram na leitura das plantas. — Eu dou as ordens. — Sim. Diante do comentário de Mitch. salas e corredores da construção. nestes depósitos entre a produção e o terminal de carga e descarga. todas muito bem pagas.. Mitch sorriu e deu de ombros. Kelly tinha que se esforçar para prestar alguma atenção aos desenhos diante de si. não era a única às voltas com lembranças perturbadoras. — Então parece que fizeram um bom trabalho de disfarce. O melhor modo de se aprovar um projeto fora do comum é fazer com que pareça o mais comum possível. mas não creio que vá ser tão simples — Will informou. certo? — disse Kelly. — Faz sentido — Kelly concordou. em alguma sala de acesso restrito a pessoal credenciado. Horas mais tarde. Will também não conseguia parar de pensar na noite anterior: o modo como mentira para Kelly quanto a não querer vingar a morte do irmão com outro ato de violência. de acordo com a planta. Ela. — Vejam. apanhar as provas e sair. o desespero com que ele desejara beijá-la. uma atitude que aliás a deixara estranhamente desapontada. — E posso apostar que o acesso é tão restrito que nenhum dos funcionários sabe do que se passa ali. no entanto. — Quando se está fazendo algo ilegal é preciso manter o segredo entre pouquíssimas pessoas. — Este canto é ocupado por escritórios.— Pode dizer. além de um sujeito no setor de carga e descarga. Apontou a área onde ficava a produção. Era um grande corredor no qual. com isto aqui. portanto meu palpite é que as coisas que estamos procurando fiquem mais ou menos por aqui. mas tudo isto aqui está me parecendo um bocado comum. o fato de ela ter deixado claro que só estava interessada em conseguir sua reportagem. perturbando-lhe a concentração.. com um ar mais grave que nunca. O furgão da floricultura entrou aqui. haviam seis salas. — Will apontou as divisões expostas no projeto. há uma porta principal que separa esta ala do restante . Embora livre dos efeitos do remédio para gripe. Fragmentos de lembranças da noite anterior agora giravam em sua mente. neste setor fica o departamento de embalagem e expedição. todos subordinados apenas ao verdadeiro chefão — explicou Mitch. — Não que eu seja um especialista no assunto. então o que precisamos é descobrir onde fica essa tal área restrita. — É. entrar. três pessoas se debruçavam sobre várias folhas de papel estendidas sobre a cama de um quarto de hotel. verificavam as entradas. lado a lado. Will e Kelly. ajoelhado aos pés da cama... pelos fundos. — Bem. estudava o sistema de alarmes do prédio. e neste fica a produção. acho que posso suportar isso.

mas acho mais provável fechaduras eletrônicas — disse Will. — Alguma idéia? — Will perguntou. Kelly começou a espirrar de novo. guardas e cães. ou donos. — Que tipo de problemas? — Mitch perguntou. o ar preocupado que roubariam a beleza da maioria dos homens. e que de preferência não tivesse a mais remota idéia do que estivesse acontecendo bem . o código numérico ou as impressões digitais que nos abririam aquelas portas como num passe de mágica. — Se você tivesse uma fábrica de drogas ilegais. o dono da Anscott — ela tornou a espirrar —. — Está bem — interveio o detetive —. E mesmo que descobríssemos qual o sistema usado. — Essa construção é recente e boa parte das instalações industriais usam esse sistema. insisto que não tem nenhum envolvimento com drogas. os três estavam sentados no chão do quarto. — O dono. sempre atenta. teclado com senha numérica. Constrangida. hoje em dia. reconhecimento de digitais ou mesmo de voz. — Estou pensando — disse ela. vencida pelo sono. Talvez não tenham percebido. Mitch olhava com grande interesse para as cervejas dela e de Will. mas não é exatamente essa a imagem que eles querem passar? Limpo. Ele tem urna carreira nesse setor. então..do prédio. algo que Will confirmara quando o detetive os havia deixado sozinhos para ir comprar a pizza: Mitch Brody não tinha dinheiro para alugar um quarto e estava dormindo dentro do próprio carro. bem sucedido. e também por que acha que o administrador desta filial não tem envolvimento com o esquema das drogas. — Estou pensando. Não seria só mais uma fachada? — Talvez. pode ser qualquer um: cartão magnético. notou que embora tivesse pedido um refrigerante. Não há indicação específica na planta. a barba por fazer. Preferia morrer de tanto espirrar do que sentir a própria mente se apagando aos poucos. — Então o que precisamos é descobrir um jeito de desativar 0 sistema — disse Will. mas o nosso problema é muito mais imediato — Kelly interveio. da Anscott são um verdadeiro mistério — Will respondeu. deviam ser. quem iria querer na direção? Alguém com uma reputação impecável. mas se recusou a tomar qualquer comprimido. — Eu discordo. mas o que havia em redor deles. Kelly. Lá pelo final da tarde. E aqueles lábios. continuaremos sem o cartão. — E quanto ao tipo de sistema.. Outra coisa que notou foi que ele estava enfrentando sérias dificuldades. — Guardas? — Alarmes? — Kelly arriscou.. Mesmo enquanto fazia aquela pergunta a Will. — Em primeiro lugar. O cabelo despenteado. claro. — Talvez.. — Não sei se podemos — Mitch balançou a cabeça. depois de passar por muros. — Eu gostaria mesmo de saber quem é o grande chefe. porque tem a ficha mais limpa que já vi e porque veio há pouco tempo de outra indústria farmacêutica de grande porte. impaciente. — Quanto ao atual administrador. e eu diria que é aí que vamos encontrar problemas. — Bem lembrado — Mitch concordou. Kelly olhava não em seus olhos castanhos. mas não para ele mesmo — Will insistiu. temos que encontrar um modo de entrar no prédio. ela se obrigou a mudar o rumo daqueles seus pensamentos e a prestar mais atenção no que era dito. — Que tipo de sistema é e como podemos passar por ele? — perguntou Kelly. devorando uma pizza de queijo. nele pareciam apenas realçá-la.

Parecia cansado. sem jeito. por exemplo. Diamond e Santico... caminhou até a janela e olhou para fora. mas é claro! Pode apostar que sim! — Então por que não descansa um pouco até a hora de sairmos? Você parece cansado. não está? — Sim. tão interessado naqueles detalhes quanto Kelly. Aquilo teve sobre Mitch Brody o efeito de uma bofetada. Desconfio que não passem de testas de ferro de alguém muito maior.. pigarreou e prosseguiu. — Esse laboratório parece não ter um dono. — Mitch sorriu. De repente.debaixo de seu nariz! — Que mais você sabe? — Mitch cocou a cabeça. Mitch abriu um sorriso largo. — E o que é? — Mitch e Kelly perguntaram em uníssono. depois de observar com olhos ansiosos enquanto Kelly e Will tomavam o último gole de suas respectivas cervejas. — Alugue um quarto aqui — Will ordenou. Brody? — Ora. Durante vários segundos silenciosos. por fim. afinal. mas. fitando um ao outro. eu não preciso. — Quer vir junto.. Kelly e Will se entreolharam. — Obrigado.. parece ter um número infindável deles. intrigado. — E quem está no topo dessa pirâmide? — Mitch perguntou. hã. — Aí é que está: o mais interessante é exatamente o que eu não sei. — Então trate de alugar um quarto e descansar. Mitch se levantou. no limite da exaustão.. — A quem. — Vou vigiar os portões da Anscott. mas. Will continuou. — Acho que estou. mas ninguém tem o controle acionário.. você cobra de seus clientes todas as despesas de viagem.. — Ainda está trabalhando para mim. As ações e cotas de participação estão divididas entre uma dúzia de companhias incorporadoras de nome pouco conhecido. Consultoria Califórnia. Haviam acabado com a pizza já fazia algum tempo e. O que foi impossível descobrir. — Ah. pertencem as Indústrias Farmacêuticas Anscott. Alguns nomes continuam aparecendo como acionistas de uma ou outra das companhias incorporadoras e às vezes um mesmo nome aparece em quase todas elas. esta madrugada — disse Will.. mesmo. Hesitante e embaraçado. Mitch recusou: — Eu. certo? — B-bem. mas não preciso de esmolas! — E nem eu estou lhe oferecendo isso. ou melhor. dois homens fortes e orgulhosos mediram forças. — A trilha desaparece no meio do caminho e não há como rastreá-la. Sabia bem demais o quanto era doloroso sentir-se privado da própria dignidade. — É.. homem! — Will insistiu. — Will olhou nos olhos do outro. . — Será que não consegue essa informação para nós? — Talvez.. — Vou avisar à recepção que sua despesa corre por minha conta. como Quantex. — Alugue um quarto. — Você disse que tinha conexões úteis — Kelly se voltou para Mitch.. — Sob o olhar ansioso de seus interlocutores. esse é o maior segredo de todos! — Will respirou fundo. sim. — Se bem me lembro.

Como um manto negro.— Você sabe jogar duro. Eu o chamo antes de sairmos para vigiar a Anscott. até parar diante do portão. Quando ela ergueu o olhar para fitar Will. oferecer o quarto a ele. A pista asfaltada que conduzia aos portões passava a poucos metros do ponto onde estavam. A uma certa distância dali. Kelly espirrou. Mais perto agora que da outra vez. o furgão foi autorizado a entrar e ela aproveitou o ângulo para fotografar a placa. — Faça uma foto. embora fosse impossível compreender o que estava sendo dito. Era o único ruído por ali. Stone? No mesmo instante um sorriso inesperado e surpreendente se abriu nos lábios de Will e para Kelly foi como se o mundo todo parasse. mas dessa vez não a feriu. Tenso. — Veja se consegue a placa do carro! — Pois você leu meus pensamentos! — Kelly havia preparado o equipamento para fotografia noturna de modo que. — Vamos ver quem é o dono. sem perder tempo. mas já passava da meia-noite — Will respondeu. desta vez acompanhada de sua câmera. teriam que fazê-lo o quanto antes. No mesmo instante o sorriso morreu nos lábios dele. nem que vivesse até os cem anos de idade. — A que horas apareceu o furgão. mas se aplicava muito bem a ela e ao que sentia naquele momento: jamais esqueceria aquele sorriso. ajustando melhor a jaqueta em redor do corpo. Com isto o detetive se retirou. Mitch e Kelly. — E não esqueça de que é você quem está pagando por tudo. Will. atravessaram a estrada e mergulharam por entre os arbustos com destino ao portão principal da Anscott. mas não queira fazer de mim um santo — Will resmungou. — Não sei. sob a proteção de um enorme tronco de árvore. O pio agourento de uma coruja soou na escuridão. porém. à exceção dos passos sobre o chão coberto de folhas. Nunca. hein. ele voltou a atenção a Mitch: — Pode dormir sossegado. Uma . a noite cercava o conversível vermelho escondido em meio ao arvoredo. substituído por um franzir de sobrancelhas como se estivesse ressentido por ter sido visto sorrindo. algo de que Will parecia compartilhar. — Boa idéia. O tom da voz dele soou áspero. — Pois é. como sempre. De repente. Se pretendiam mesmo entrar naquela empresa para coletar algum tipo de prova. Enquanto isso. deixando Will e Kelly a sós num quarto embaraçosamente silencioso. ergueu a câmera e se pôs a fotografar. Um furgão com o logotipo da Floricultura Flor de Verão saiu da estrada para a pista particular e diminuiu a velocidade. — Lembra-se de qual era o nome da floricultura? — Flor de Verão — disse Kelly. apenas para que ela pudesse apreciar aquela maravilha. o cão de guarda começou a latir. — Está bem. também — observou Mitch. Kelly sabia que aquela frase fora dirigida ao detetive. se puder — disse Mitch. — Acho que posso investigá-la. Kelly teve a certeza de estar ouvindo os tons fluidos característicos do idioma espanhol. — Abaixem-se — Kelly alertou. não se esqueça disso! — disse Will. — Foi muito gentil de sua parte. na primeira noite? — Mitch perguntou. este a estava observando. Kelly sentia o tempo correr contra eles. Talvez porque agora ela soubesse que os lábios que podiam falar de maneira tão rude podiam também sorrir de um modo devastador. — Will nem bem terminara de dizer isso quando um par de faróis cortou a noite. caindo ao chão e espiando em redor. — Desculpem! — ela sussurrou.

chamou os companheiros e apontou: — Vejam. fora forçado a trilhar aquele caminho? . faltou ontem e tornou a aparecer hoje. — Vamos embora? — Ainda é cedo — Will objetou.. Em parte devido à mulher que estava sentada a menos de um . — E mais interessante ainda é que se faça uma entrega de flores em um prédio industrial. em plena noite de domingo! — Realmente estranho.. Fora exatamente essa habilidade para esvaziar a mente e calar os sentimentos o que lhe permitira manter-se em seu juízo perfeito ao longo do último ano. Ao passar pela guarita. Agora. — Um carregamento por noite? — Não todas as noites. — Será que estão levando um carregamento de drogas pronto a ser distribuído pelas ruas? — arriscou o detetive. Pensou em Will. parecendo calmo e indiferente. Se Rachel tivesse tentado entrar em contato com ela por aqueles dias. sentado no chão úmido. — Faz sentido — Will ponderou. Will procurava não pensar em nada.foto. Will. outra vez. — Consegui — sussurrou Kelly. Teria sido sempre um solitário? Teria escolhido viver assim. — Eu diria que é uma forte possibilidade — Kelly respondeu. Mitch. Em parte por saber o que tinha à sua espera.. . Se preparando para dormir? Vendo suas figurinhas de beisebol pela décima vez no dia? Perguntando a si mesmo se o pai seria de fato um policial corrupto. — Se ele faz parte do esquema de tráfico. no entanto. Sentindo a casca grossa e irregular do pinheiro às suas costas. imaginou o que seu filho estaria fazendo. que agora estava sentado no chão e com as costas apoiadas contra um pinheiro. — os dois homens reconheceram ao mesmo tempo. Menos de vinte minutos depois. — Claro. como sentia falta daquele garoto! Kelly também se deixou levar pelos pensamentos. — Dessa vez foi Will que respondeu. pois a vingança era um peso muito grande sobre seus ombros. sem ninguém? Ou será que. um guarda que não fosse ligado ao esquema estranharia a entrega de flores em dias e horários tão estranhos. Sim.. três e o furgão saiu de seu alcance. — O furgão esteve aqui na noite de sexta-feira. — Bem. — Kelly fez mais uma foto do guarda. o furgão reaparecia e cruzava os portões mais uma vez para então desaparecer na noite. afinal se estava doente não deveria sair de casa. que contava com uma boa visão da frente do prédio. — Vamos ficar mais um pouco. àquela hora. embora dissesse ser inocente? Céus. Durante os trinta minutos que se passaram em seguida. — Interessante — Mitch considerou. — É verdade. nenhum deles falou muito. estava encontrando dificuldades em manter essa neutralidade. no entanto. está indo para os fundos do prédio. — Talvez só venham nos turnos de um determinado guarda — Kelly sugeriu. e agora? — perguntou Mitch. duas. deve ficar ainda mais atento a todos os que entram e saem da empresa. estaria achando tudo muito estranho. ou talvez ao longo de toda a sua vida. um guarda é essencial à operação deles! — O que só vai dificultar nosso trabalho de passar por ele e entrar no prédio. o motorista acenou para o guarda e Kelly aproveitou para mais uma foto. não acha? — Will comentou. domingo. também. dali a alguns minutos. — Grande garota! — Mitch elogiou. como ela própria.

No silêncio da noite uma brisa mais forte sibilou nas copas dos pinheiros. — Oh. — Precisa tomar um remédio para isso — disse Will. — Mitch deu de ombros.. no entanto. — Bem que uma das janelas podia estar aberta. Com justiça e honra.. Mitch se remexeu. — É. — Psiu. — Kelly murmurou. por que se preocupar tanto com Kelly Cooper. Obviamente o cão de guarda também estava ouvindo algo. Ali estava algo que Will Stone compreendia bem demais. inquieto. — Os vidros de trás são escuros! — Será que tem alguém lá dentro? — Kelly perguntou. enquanto a limusine atravessava os . o homem se voltou em sua direção. com esses vidros. — Kelly anunciou. Brody. — Será que o seu carrão não tem cinzeiro? Como se a tivesse ouvido. com a maior velocidade possível. Isso. não o faria mudar um só detalhe de seu plano. o silêncio que pairou entre eles foi total. Só que você não respondeu. só que dessa vez as luzes pertenciam a uma enorme limusine preta que parou diante da guarita. quando a silhueta de um homem apareceu recortada contra a escuridão. Dois cliques da câmera e a janela começou a se erguer. Mitch resmungou um saúde. por que está fazendo isto? — Will perguntou. como se suas preces tivessem sido atendidas. — Idiota! — Kelly rosnou baixinho. mais para si mesma que para os dois homens. — Quanto querem apostar que sim? — Will desafiou. em direção ao arvoredo. vamos lá. por exemplo. — Não. — Bem. e no entanto o que ele planejava fazer não era outra coisa que isso. Então. já que se pôs a correr rente à cerca. eu sei. se tudo o que ela queria era uma boa reportagem? Kelly espirrou. curioso. Ela acreditava em sua inocência e o considerava incapaz de cometer qualquer violência. desça mais! — Olhe lá. E naquele momento. Durante dez minutos. um novo par de faróis tornou a cortar a escuridão. como que esperando também pela resposta de Mitch. Stone.. num tom que deixava claro o sofrimento que lhe causava tocar nesse assunto. Com um gesto rápido. porém. pegue o sujeito! — Will sussurrou. um dos vidros começou a baixar lentamente. Kelly disparou o obturador da câmera várias vezes em seguida.. enquanto preparava a câmera para mais algumas fotos. digamos que eu saiba o quanto dói ser condenado por algo que não se fez — disse ele.metro de distância dele. Já tomei remédio. Além do mais.. e me senti bêbada. — Quero dizer. obrigada. ansioso.. lhe ocorreu que talvez a sua fuga da prisão tivesse a ver com algo além de vingança. Em questão de segundos. por que está se envolvendo em uma briga que nem ao menos é sua? — Já me perguntou isso. — Diga. ontem. rosnando e latindo como louco. ele jogou Uma ponta de cigarro ou charuto pela janela. a não ser que tinha cabelos escuros penteados para trás. e uma parte dele se odiava por estar prestes a trair a confiança de Kelly e desapontá-la. Por causa da distância e da pouca luz. Ao ouvir a palavra bêbada. A coruja tornou a piar e então se calou... — acho que ouvi alguma coisa! — Eu também estou ouvindo — disse Mitch. era difícil distinguir qualquer traço particular do homem no carro. — Difícil saber. — Raios! — Will resmungou baixinho.

E como seria se. Os problemas de Mitch e Kelly não lhe diziam respeito. Mitch Brody estava tomando aquilo como falha pessoal. Quanto mais cedo. — Estava escuro. era algo que podia esquecer: devia haver uma longa fila de homens melhores que ele e à espera de uma chance para reconfortá-la. intrigado. Kelly fotografara até que o rolo de filme acabasse. — Eu vi o número três e a letra G — insistiu Mitch pela décima vez.. — É. Capítulo X Uma hora e meia depois de terem visto a limusine chegando à Anscott. já tinha muito com que se preocupar. agora não tenho bem certeza. Brody. o que acontecera depois de exatos trinta e três minutos. pode ser — o detetive resmungou. a ansiedade explodira entre eles. com um gesto.. E ninguém melhor que Will para reconhecer tal sentimento. Se conseguira ou não. Nenhum de nós conseguiu enxergar direito — Will tentou acalmálo. Estavam todos tão aflitos por saber o resultado das fotos que. Haviam observado o luxuoso automóvel refazer o trajeto do furgão e então esperado com impaciência por seu retorno. seria difícil até mesmo esperar pelo amanhecer. porque o detetive também estava fugindo. Will concordou. Como também não sabia de que podia estar fugindo uma mulher de sucesso como Kelly Cooper. melhor. e era disso que provinha boa parte da inquietação que dominava os três. na esperança de conseguir uma boa leitura da placa de licenciamento do carro. Ninguém melhor que ele para saber o quanto era terrível acreditar-se incapaz de corresponder às próprias expectativas..portões. era algo que teriam que esperar para ver. encontrei um — disse Will.. forçando-se a tirar da cabeça aqueles pensamentos perturbadores. — Nove da manhã. — Não sei — disse Will —. — Ou teria sido número oito e letra C? Céus. na verdade. mas pode escrever o que digo: não é um visitante qualquer. Kelly terminasse por correr em direção a ele? Will ralhou consigo mesmo. muito menos àquele homem que tanto se parecia com ele mesmo.. — Ótimo. saindo e fechando a porta atrás de si. já de saída para seu quarto. no desespero da fuga.. . Não pude ver.. — A que horas abre? — Kelly perguntou. Desde o momento em que tinham avistado a limusine preta. Mas o fato era que ela estava. apanhou lápis e papel na mesa de cabeceira para anotar o endereço de um laboratório cujo anúncio prometia fotografias reveladas e ampliadas no prazo máximo de uma hora. retirando o filme de dentro da câmera. Sim. de algo que Will ainda não sabia o que era. Sentado na cama e com o catálogo telefônico aberto no colo.. — Aqui. talvez imaginando ter causado má impressão quanto à sua competência profissional. às pressas e sem muito êxito. — O que é que você achou? — ele perguntou. — Quem será aquele sujeito? — Mitch murmurou. estavam os três novamente no quarto do hotel. Era um sentimento que não desejava a ninguém. E quanto à idéia de Kelly acabar procurando apoio em seus braços.

porém. nada. — A respeito de quê? — Da noite de hoje. Parado diante da janela. Engraçado. sem conseguir conciliar o sono e ouvindo Will fazer o mesmo no chão. Na noite anterior. Poucos minutos se haviam passado. Kelly finalmente adormeceu. sombras.. aliviada. com Kelly e consigo mesmo. — Ela balançou a cabeça. mas quase que no mesmo instante ela constatou. que delineava o torso musculoso e se refletia sobre a pele nua. pensativa.. convencido de que ela não iria fugir..— O que achei? — Ela o fitou. sem compreender. Will saíra e a deixara algemada! Aquela simples idéia bastou para deixá-la em pânico. formas e . E que Will estava presente. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que estava sozinha. com as mãos na cintura. conferindo-lhe um tom prateado. — Oh. como se tivesse perdido por completo a paciência. — Já lhe disseram que você tem uma capacidade incrível para passar de agradável a insuportável em questão de segundos? — Kelly perguntou. — Diabos. — Como assim? — Não sei. — Por um instante Kelly franziu a testa. pode parecer esquisito. sim! Acho que esbarramos em uma pista importante. Seja como for. mas. E perdera de fato. Depois de ficar uma eternidade rolando de um lado para outro na cama.. Aqueles lábios lhe pareciam cada vez mais tentadores! — Vá descansar um pouco — ele ordenou. Will fora dormir no chão. — Vá logo dormir — ele explodiu. e daí? — Ela se empertigou. quando ela acordou assustada. moça. saindo da cama em direção ao banheiro. orgulhosa. Sim.. — Não precisa ser santo. Mais uma vez Kelly desejou estar com sua câmera nas mãos para capturar a beleza daquele momento. Esqueça! — Não. Será que faria o mesmo. colado ao seu. — Ah. agora? Mais importante que isso: onde ela preferia que Will dormisse? Ele também estava tendo problemas para ignorar o modo como as calças jeans moldavam as curvas tentadoras do corpo de Kelly. Só precisamos descobrir quem era aquele sujeito na limusine. algo naquele homem me pareceu familiar. lutando para manter seu olhar fixo no dele e não no modo como aquela posição realçava o físico perfeito de Will. — ela espirrou várias vezes e só então completou a frase — rude! — E trate de tomar um remédio para isso! — Não! Will se voltou e a fitou. como você é teimosa! — Sou mesmo. — Bem. Corpo que já tivera bem junto de si. As cortinas estavam abertas e ele era agora pouco mais que uma silhueta recortada contra a luz pálida do luar. os braços fortes que a tinham envolvido durante as noites em que haviam compartilhado a mesma cama. seja apenas um pouco menos. eu não gostaria de pensar que tenho andado ombro a ombro com barões do narcotráfico! Ao fazer essa observação ela sorriu e Will se viu obrigado a olhar para outro lado. que não havia algema alguma. — Bem. na Anscott — ele se explicou. mas. mas então deu de ombros. a câmara por certo poderia registrar a beleza do jogo de luzes.. — Talvez seja só minha imaginação ou ele apenas se pareça com alguém que conheço. já lhe disse mais de uma vez que não sou nenhum santo — ele retrucou. diante da súbita e evidente mudança no tom de voz de Will. com uma das mãos na cintura e a outra apoiada no batente. ele fitava a noite em completo silêncio. o que ia dizer? — Will quis saber.

Por fim. por aqui. — Will. tudo bem. calada. que não ganhe uma dúzia de prêmios. — A lua — ele respondeu.. mas no mesmo instante o seu medo se transformou em raiva: — Você sabe que eu não vou fazer isso! — Então encerre esse assunto! —Não — ela insistiu.. orgulhosa. tocar a escuridão. evasivo. na prisão.. vingança? — Kelly perguntou. — Will? Céus! Por que ela insistia em chamá-lo assim? Não via que o torturava? — Esqueça esse assunto. mas está muito enganado se pensa que vou tomar parte num plano de vingança que acabará por jogá-lo de volta na prisão! — Se quer cair fora. . A frieza com que Will disse aquilo chegou a assustar Kelly.. jogando as cobertas para um lado e sentando-se na cama. Will não o demonstrou. — Você não vai ter que voltar para aquele lugar — disse ela. Se quer saber. está morrendo de medo de falhar. grata pela escuridão quase total do quarto. Não fosse por isso e seria fácil notar que ela estava mentindo. — Eu estou fugindo da polícia. mas não conseguiu. eu vou ajudar a reunir provas para inocentá-lo e vou fazer tudo o que for preciso para provar o envolvimento da Anscott na produção e tráfico de drogas. afinal? Pela primeira vez desde o início daquela conversa. moça... num tom suave. era disso que eu mais sentia falta. Como um homem como aquele podia se considerar um derrotado? Será que não tinha idéia do próprio valor? — O você que está olhando? — ela perguntou. algo mais profundo que a mera beleza física e que aflorava nele agora. À luz difusa do luar. mais para acalmar-se a si mesma que para consolar Will. ouvir os sons da noite. — Há coisas pelas quais vale a pena voltar — ele murmurou num tom inexpressivo. — Parece um enorme disco de prata boiando no céu! Sabe. mas e você? Está fugindo de quê? — Não estou fugindo de nada. após um longo e angustiante silêncio. — O que está tentando provar. Se a pergunta o pegou de surpresa. acho que fica apavorada só por pensar que possa realmente vir fazer algo que não seja perfeito... Mas Will não parecia precisar de luz para vê-la como era. Kelly tentou imaginar como seria viver sem um mínimo de liberdade. Na melhor das hipóteses.. sem obter resposta. mas havia mais que isso naquela cena. Will voltou a cabeça para fitá-la.. Ver a lua e as estrelas. sem se voltar. A garota prodígio está fugindo de alguma coisa. Algo como a força interior que lhe permitira suportar todas as provações sofridas ao longo de um ano de prisão. a coragem excepcional com que enfrentara tudo aquilo em completo silêncio para proteger o irmão. — Não entendi — ela resistiu. a intensa lealdade que o fizera pagar por um crime que não cometera. seus olhares se encontraram.tons. Havia algo de intangível. sim? — ele pediu. Pode partir quando quiser. em meio à solidão da noite. não me venha com essa. Aquelas palavras deixaram Kelly tão espantada que por um momento ela apenas pôde fitálo. — Coisas como. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa. — Ora. ora! — disse Kelly. ela respondeu com outra pergunta: — O que você quer dizer com isso? — Que eu não sou o único tentando provar algo.

A exatidão do que acabava de ouvir foi um choque para Kelly. já disse.. Precisava se proteger. — Kelly balançou a cabeça. na esperança de que Will não se lembrasse do quanto ficara apavorada e de como implorara que não a deixasse só. Nem todas vão embora — disse Will. está bem? Todas as pessoas de quem gostei me abandonaram. Desde o início decidira não se permitir nenhum envolvimento pessoal com aquela mulher. — Pode ser. — Faça de conta que acredito. como se as emoções até então mantidas sob controle começassem a transbordar. — Por que tem tanto medo de ficar sozinha? — ele perguntou. Como em outras ocasiões. agora. — Ela emprestou um tom de ceticismo à própria voz. — E quanto a você. Alguém como Will? No instante em que esse pensamento lhe cruzou a mente. — Todo mundo. portanto insistiu na mentira: — Eu não estou fugindo de nada. — Ela deu de ombros e suspirou.. Nada! — Então me conte. E não tenho que falar de minha vida com você! Se ela fora insistente.. Will estava sendo ainda pior. Minha mãe morreu. Will experimentou um forte desejo de protegê-la. fique fora de minha vida pessoal! — O que aconteceu? Foi abandonada por alguém? — Não é da sua conta! — Quem foi? Um namorado? Um marido. embora estranhamente acreditasse nele. — Eu não tenho medo. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. Era ao mesmo tempo assustador e reconfortante dar voz aos medos e sentimentos que por tanto tempo trancara dentro de si. quando diz isso? — É. claro. — Não seja ridículo — Kelly respondeu. — Escute aqui. Fale-me de você. — E ele tem razão. que precisasse de outra pessoa em sua vida. então — ele insistiu. Nenhuma delas teve a decência de estar por perto quando precisei de alguém. Ela se calou de repente e baixou a cabeça. Talvez. — Não sabe nada a meu respeito. meu pai esteve sempre ocupado viajando pelos quatro cantos do mundo e meu marido. vamos. Stone? Vamos conversar a seu respeito. talvez? Algo se rompeu dentro de Kelly. houvesse mesmo esse alguém que um dia iria chegar e ficar a seu lado para o resto da vida.... — Ora. com um sorriso triste nos lábios. cínico. que quisesse. Alguém que desse mais valor aos relacionamentos.. Kelly tratou de afastá-lo e de inverter posições naquela conversa.. E no entanto lá estava ele. você não hesitou em falar de mim e analisar meu comportamento! Não fez cerimônia para dizer que eu estava fugindo de alguma coisa e que tentava chamar a atenção . — O que a faz pensar que ele a teria deixado? — Cedo ou tarde todo mundo faz isso — Kelly murmurou. querendo saber de detalhes íntimos da vida dela! Kelly jamais se havia sentido tão vulnerável.. antes. apenas talvez. também! — Não há nada para falar a meu respeito. — Que houve com seu marido? — Eu o mandei embora antes que ele pudesse encontrar algum pretexto para me deixar. — Como pode dizer uma coisa dessas? — ela se defendeu. — Oh. — Ao menos foi isso o que ele disse que eu fiz. — Will mal podia crer no que estava fazendo..

caso aquilo fosse um espelho. Will não fez rodeios: — Porque se continuar aqui. a voz mais rouca que nunca.dos outros através da perfeição. sua presença talvez não causasse nenhum reflexo. Seu olhar a percorreu de alto a baixo. mas através de seus defeitos. Diante daquela confissão. seu olhar se prendia àqueles lábios macios. porém. que também não deixava de ser um desafio. — Não se pode falar do que não existe. e que desejava beijar de novo. A partir desse instante. pois apesar de a idéia lhe ter passado pela cabeça. num. — Volte a dormir — ele resmungou. lembra? Will engoliu em seco. a pele branca banhada pelo luar. pensou que seu coração fosse parar de vez. Os cabelos cor de fogo. A voz dela soou tão perto que Will sentiu o coração mudar o compasso antes mesmo que se voltasse para fitá-la. — Por quê? — Kelly perguntou. Kelly levantou-se da cama e se aproximou de Will. o modo como a camisola longa se colava a esta ou aquela curva de seu corpo.. — Com o devido respeito à opinião de seu pai.tom ríspido e cansado. Sabia que ela o estava provocando. não há nada para falar a meu respeito — Ele suspirou. como eu já lhe disse. — Você não existe.. carnudos e tão tentadores.. Mais que tudo. — Que quer dizer com isso? — Exatamente o que disse: eu nem ao menos existo! — Ele deu uma risada sarcástica. Um ano de abstinência forçada e uma semana de desejos reprimidos já não podiam ser negados. você parece bem real.. ainda fitando a lua. — Volte para a cama — disse ele. não dissera nada quanto a chamar atenção. Meu próprio pai! Antes que pudesse ponderar a respeito do que estava fazendo. deixando-a tontas enfraquecida. Tomou a olhar pela janela imaginando que. Kelly só teve tempo de perceber a força com que aqueles braços a prendiam. — E isso são palavras de alguém com autoridade no assunto.. ousada. Seu olhar abandonou os olhos verdes de Kelly Cooper e desceu em direção aos lábios que até então tentara ignorar.. Aqueles lábios eram tão quentes e macios quanto ele se lembrava e muito mais que . os olhos verdes que o fitavam com uma estranha doçura. Kelly só se deu conta do quanto estava perto de Will quando ele se voltou. E agora era ele quem perguntava a si próprio até que ponto não estaria em busca de atenção também. Macios. mas enquanto parte dele fazia um esforço supremo para se conter. para mim. — Não. Foi você quem começou com isto! — Olhe. Will percebeu o quanto era revelador o último comentário de Kelly. porém. vou acabar beijando você. testando os limites da resistência do Homem de Pedra. Com um gemido grave ele a agarrou pela camisola e a puxou para junto de si de modo tão brusco que ela precisou buscar apoio pousando as mãos no peito nu e másculo. E quando a viu tão próxima. — Isso é impossível — ela murmurou. sua presença e proximidade invadiram-lhe os sentidos como um vento de tempestade. Os lábios de Will encontraram os seus com tamanha fúria e avidez que no mesmo instante a lançaram num mar de sensações. Como um vampiro. Lábios que ele beijara uma vez. Kelly experimentou um arrepio de antecipação. outra estava ansiosa por se deixar cair naquela armadilha.

num doce convite. Will. só que agora com o olhar de cheio de espanto e desapontamento. abraçou-a com mais força e uniu ainda mais os seus corpos. Kelly tivera certeza de que Will se arrependera por tê-la beijado. Kelly sentiu-se inflamar de desejo. No momento em que o vira. Se Mitch notou algo de estranho entre Will e Kelly ele nada disse. antes que aconteça algo de que nós dois acabaremos nos arrependendo! Muda. de fato. E a cada vez que fez essa pergunta a resposta foi a mesma: não. entregaram o filme no laboratório fotográfico. mas tampouco perdeu tempo pensando em como estaria agora caso ele e Kelly tivessem feito amor. da maneira mais eloqüente. Deitada sozinha. como você — Kelly perguntou. O modo como ela se entregou àquele beijo acendeu em Will um fogo intenso. — Sim. se esforçando para prestar mais atenção no que o detetive dizia que em Will. Seus lábios. O consenso geral é que você está fugindo para o sul. ofegante. mergulhou os dedos entre os pêlos negros e macios que recobriam o peito de Will e se deixou levar pelas sensações que lhe percorriam o corpo em deliciosos tremores. Com um murmúrio abafado. Dominado pela paixão. de reconhecer que ela havia vencido a discussão ao provar. sentado tão longe dela quanto o permitia a mesa da lanchonete. Mitch e Kelly. molhados e vermelhos. ou estou vendo filmes demais na . fazendo com que soltasse Kelly de modo tão brusco quanto a tomara nos braços. Lábios que se abriam devagar sob os seus. — Isso é bom — Kelly comentou. pela manhã. vá dormir! E vá logo. A importância dessa constatação o atingiu como um raio. Mais uma vez ela perdeu o equilíbrio. — Ande. — Esse amigo de quem eu falei é do Departamento de Polícia — disse Mitch —. Ele a queria. esta sentada no pouco confortável banco traseiro de seu carro esporte.permaneciam entreabertos como que ainda buscassem os dele. Deitado no frio do chão Will também não conseguiu conciliar o sono... Dali seguiram até uma lanchonete para tomar o desjejum. com os olhos fechados como se não suportasse vêla. em direção ao Canadá. Tinha. se bem que às vezes os fitasse de maneira um tanto curiosa. mas não conseguiu dormir. mas há uma notícia ainda melhor — Mitch prosseguiu. erguendo uma das mãos para enredá-la nos cachos ruivos e sedosos. tentando levantar um assunto mais leve —. rumo à fronteira com o México. evitava olhar na direção dela. — Vá dormir! — Will ordenou. em toda a sua vida. Nada no mundo poderia ser mais real do que aquele beijo! Às nove da manhã. O fato era que uma mulher como Kelly Cooper jamais se envolveria com um homem como ele sem carregar para o resto da vida o mais amargo arrependimento. O que Will Stone pudesse vir ou não a sentir tinha pouca importância. que Will Stone existia. — Todos os detetives particulares têm essas conexões dentro da polícia.os de qualquer outra mulher que já tivesse beijado. ou então para o norte. enquanto tomavam o desjejum. Ao primeiro toque da língua dele contra a sua. e vai ver se consegue nos informar quem é o dono daquela floricultura. se arrependido se houvessem feito amor. teve toda a madrugada para pensar se teria. Kelly voltou para a cama. contudo. — Fiquei sabendo que os federais já não estão procurando Will Stone nesta região do país. Desde cedo não lhe dirigira uma só palavra e mesmo agora.

. em favor de um assunto muito mais urgente: as fotografias. iria mesmo responder. — Raios! — Will praguejou. mas não respondeu de imediato.. começou a olhar as fotos. — É. os três mal podiam esperar para ver os resultados da noite anterior. Kelly tornou a examinar a foto do homem de cabelos . eu devia ter visto o número daquela placa — Mitch se acusou. eu costumava trabalhar com esse policial.televisão? Mitch a fitou. Will afastou a mão e a enfiou no bolso da jaqueta. mas não contra as condições precárias em que fotografara. ansioso. — Quer dizer então que você era um policial? — Sim — ele respondeu e.. cabelos negros e um enorme bigode. Quinze minutos depois. Sem palavras. Eu tinha a obrigação de fazer melhor! — Errar é humano. — Ótimo — Mitch exclamou. enquanto Mitch parecia decidir se dizia mais alguma coisa ou não. — Ah. E havia mesmo. ele enfim falou: — Não sei quanto aos outros detetives. só um casamento de milionários que fotografei para uma revista. porém. como na sexta-feira. — Não foi culpa de ninguém. — Parceiros? — Kelly o fitou. — Nesta aqui há. acrescentou — Acho que já está quase na hora de apanharmos as fotos. como se o simples ato de tocá-la se tivesse tornado algo doloroso. — Eu devia ter feito melhor. e sim contra a própria incompetência. mas não há como ler o número da placa — Will observou. — Nada. — Um curto silêncio se seguiu. voltou-se para fitá-lo. intrigada. Cinco delas. — A culpa foi minha. quem sabe. Ansiosos. num gesto terno e reconfortante. aliás. ao ver cenas de uma festa. Kelly resmungou uma imprecação.. ao ver a foto seguinte. Will sentiu a agonia em sua voz e pousou a mão em seu ombro.. também. a voz de repente tornada mais rouca. Mitch não estava pronto para lhes dizer mais do que já dissera. pensei ter ouvido esse homem falando em espanhol com o guarda na portaria — disse Kelly.. aqui está.. antes que alguém perguntasse mais alguma coisa. intrigado. sim — ela lhe mostrou a foto seguinte. — O que é isso? — Mitch perguntou. — Tudo bem — ele murmurou. E quando Kelly já pensava que não. no final do monte. Assim que chegaram ao carro. Mitch e seu passado haviam sido temporariamente esquecidos.. — E olhe lá o motorista! O homem ao volante do furgão tinha pele morena. Não agora. é o furgão. com dois homens quase mortos de curiosidade espiando por sobre seus ombros. na qual a limusine aparecia como pouco mais que um borrão. e em todas a placa do automóvel estava simplesmente ilegível. — Ontem à noite. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Ela sentiu a mão de Will apertar-se em torno de seu ombro e achou tudo muito estranho. Will e Kelly compreenderam a deixa. Mais tarde. tenho certeza de há outras fotos do carro — Kelly assegurou.. — Não. estava escuro como o diabo! — disse Will. as quatro fotos da festa. — Kelly colocou para trás. mas. Aquela altura de sua vida só fora recompensada por seus sucessos e receber um carinho por ter falhado era com certeza algo novo. Seus olhares se encontraram e então. No caminho de volta para o hotel. — Calma. Kelly abriu o envelope e.. não está nada bem! — ela discordou. — Eu e ele éramos parceiros.

E mais uma vez a mesma questão lhe passou pela cabeça: por que tinha tanta certeza de conhecer aquele homem? Capítulo XI Os ocasionais espirros de Kelly tinham sido os únicos sons a quebrar o silêncio no arvoredo. Nesse instante Mitch. O deslize de Mitch deixou pairando no ar a pergunta que Will e Kelly não tinham ousado fazer: por que Mitch Brody deixara o serviço? E por que ainda se considerava um policial? — Bem. . porém. — O nosso quebra-cabeças já está começando a tomar forma! Sim. E quando se é um policial. também. com um ar misterioso. o sujeito jurou que não tem nenhum veículo com esse número. — E quem é — perguntou Will.. pensou Kelly ao olhar mais uma vez para o homem na limusine. Quando dei o número da placa. apanhou as quatro que colocara para o final. Embora tivesse dito que agora aquele rosto já não lhe parecia tão familiar assim. — A mim também esse sujeito não parece de todo estranho! De volta ao hotel. — Saúde — Mitch sussurrou. — Não.. — Engraçado. — A Santico. Kelly tornou a estudar a foto do homem na limusine. todas do casamento de Emmanuel Echeverria com Suzanne Andriotti. — Ela balançou a cabeça.. desde que haviam começado mais uma noite de vigília junto ao portão da Anscott. — Acha que o gerente está mentindo? — perguntou Will. — ele comentou. — Mitch sorriu. — Deixe-me ver — pediu Mitch. de modo que as deixou de lado. isso elimina o gerente da floricultura da nossa lista de suspeitos — disse Kelly. Deixando de lado essa foto em especial.. esqueci de contar uma coisa a vocês: telefonei para a floricultura Flor de Verão e disse ao gerente que havia visto um dos furgões da empresa andando acima do limite de velocidade. — Sinto muito. que até então estivera conversando em voz baixa ao telefone. pousou o aparelho no gancho e se pôs em pé.. Kelly entregou-lhe a foto e o detetive franziu o cenho. — Ele ainda lhe parece familiar? — Will perguntou. — Não vão acreditar quando eu disser quem é o proprietário da Flor de Verão — ele anunciou. — Não me pareceu. se aprende logo a confiar no instinto. — Não é uma das incorporadoras que possuem parte da Anscott? — Exato.escuros que chegara na limusine.. as peças começavam a se encaixar. não conseguia livrar-se da impressão de que já o vira em algum lugar. eu acho que não. Onde? Não fazia idéia. — Santico? — Kelly repetiu. — Ah. Não foi preciso mais que uma olhada superficial para perceber que aquelas não estavam tão boas quanto as que já havia enviado para a revista.

Estacionaram perto da porta da frente e começaram a descarregar vários equipamentos de limpeza. — E então? — Will perguntou. — Outro disfarce. — São dois homens uniformizados. As lembranças da noite anterior pareceram queimá-lo por dentro quando se recordou do modo como Kelly correspondera àquele beijo. Você não tem qualquer obrigação de ser perfeita o tempo todo! Will fora sincero ou dissera aquilo apenas porque a quisera consolar? Seria possível que alguém fosse capaz de amá-la. — Kelly sorriu. sorrindo. ela prosseguiu. — As pessoas não são sempre iguais umas às outras. como o da floricultura? — Will arriscou. Nem todas vão embora. — Eu. e foi erguida bem a tempo de ver o furgão dirigir-se para a frente do prédio. Mesmo tendo voltado mais cedo da Anscott. — Aí é que você se engana. sentir os lábios dela. ou melhor.. você pode eliminar mais três — Kelly observou. A noite anterior não fora das melhores. apanhou-se ansiando por coisas que jamais quisera com tanto ardor. — Bem. a língua tocando e acariciando a sua. — O que nos deixa apenas o resto da humanidade como possíveis suspeitos. — Will resmungou. rapazes. No mesmo instante. uma enceradeira e vários equipamentos de limpeza também alugados. — Ajudem-me a olhar por cima do muro — Kelly pediu. Também no furgão. — O sorriso de Kelly se alargou ainda mais... Podia sentir em si mesma o desejo que emanava dele e.. olhem lá! — Mitch apontou um furgão deixando a estrada e indo em direção aos portões da empresa. — Na verdade. duas pessoas ali pareciam estar preciso esfriar um pouco a cabeça. fora terrível e demorara uma eternidade para passar. ao lembrar daquele beijo. — Só esperando para ver — disse Mitch. Stone! — Parece que desta vez não demos sorte — disse Mitch. mesmo com todas as suas imperfeições? — Ei. Kelly percebeu Will se remexer. espero que saibam como empunhar uma vassoura! O furgão alugado estava no estacionamento do supermercado.. Mesmo na escuridão quase total podia ver. sério. vários punhados de carne moída. Seu corpo reagiu àqueles pensamentos e de forma tão poderosa que chegou a lhe causar dor. — Menos dois na sua lista.. depois de dizer que encontrara um meio de burlar a segurança do setor de produção. você e Mitch! Will a fitou. deixando claro que desejava mais dele. Dentro havia um aspirador de pó. Will e Kelly deixaram de lado aqueles pensamentos e tentaram se concentrar no que se passava em redor. Muito mais.— É. Na verdade. assim que a pousou de volta no chão. nenhum dos dois . E por falar em gelo. a boca tão úmida e macia. inquieto. além de ferramentas pesadas que Will insistira em levar. Será que aquilo era verdade? — Errar é humano. Tiveram uma boa vista do furgão quando este parou junto à guarita e puderam notar que a lateral do veículo trazia o logotipo da Empresa Limpadora MacMathson. não para os fundos como o furgão da floricultura ou a limusine. dentro de uma caixa de isopor com gelo. — Lembra-se do que eu disse a respeito de fazer com que a sua entrada pareça normal e corriqueira? — Antes que Will pudesse responder.

mas de modo algum esperava ver a cena com a qual se deparou ao entrar no quarto. — Avise-os. Kelly. entrara no furgão e batera a porta com toda a força. Aquela sensação tinha um nome e não era de todo desconhecida para ele. — Não se esqueça. Kelly e Will se voltaram para o detetive ao mesmo tempo e gritaram um sonoro não. moça.. O resultado não poderia ser 0utro . depois de assinar o canhoto do cartão de crédito. para então pousar o olhar nas alianças que estavam usando. com os olhos verdes a faiscar de ódio. estou anotando cada centavo gasto por você — dissera Kelly. assustada. por favor — disse ela. Will já desceu do carro resmungando. mas manterei contato. — Ah.. Sim. enquanto buscava se convencer de que não podia estar atraída por um sujeito tão educado e gentil que parecia saído da Idade da Pedra. Ele nada disse. Stone. — Oh. dois ânimos exaltados.. Kelly na cama e Will no chão. Eu ainda não sei como.. ao mesmo tempo em que tentava dizer a si mesmo que esquecesse aquela mulher e os desejos que ela lhe causava. — Esqueça. Mitch se limitara a fitá-los em silêncio por um instante.conseguira descansar. Com tantas mulheres bonita no mundo.. . em pé de guerra desde o instante em que haviam sentado para tomar o desjejum. Kelly já ia pousando o fone no gancho quando. — Estou aqui com ele. que até então estivera em uma cabine telefônica próxima dali. Ela se voltou. — Não se preocupe. E num galho bem alto! Vinte minutos mais tarde. moça. um par de mãos lhe arrancou o aparelho das mãos e o pôs sem qualquer delicadeza sobre a mesa de cabeceira. Um frio profundo pareceu gelar as entranhas de Will. o conversível vermelho parava ao lado do furgão. Chamava-se traição. por que iria escolher logo a mais irritante? — Espero que pague mesmo. obrigada. Rachel. apenas para se ver face a face com a expressão pétrea de Will Stone. mas a acusação estava ali. Surpreso. Incapazes de conciliar o sono. caso contrário serei obrigada processá-lo! — Kelly praticamente gritara. não é? — ele pousou as mãos na cintura. no estacionamento do hotel. em seus olhos. — Seja original — ele continuara provocando. que havia chegado ali uns dez minutos antes. — Só por pensar em viver com você um sujeito é capaz de querer se enforcar. furioso. Kelly notara a direção que tomara o olhar do detetive e não pudera mais conter a tensão que a oprimia.. — Não é o que está parecendo — ela se defendeu. — Somos marido e mulher! Dito isto ela passara entre os dois homens. — Já cansei de ouvi-la falar em processo. Um dos momentos mais críticos se dera logo depois de haverem alugado o furgão e os equipamentos de limpeza. Will não lhe contou? — dissera. tinham ficado rolando e se remexendo de um lado para outro. tão clara como se Will a tivesse gritado. como que vindo do nada. um detalhe que não havia notado antes. moça! — Will gritara. mas vou lhe pagar tudo! — Will retrucara. — Pois experimente não pagar para ver o que acontece! — Algum problema? — perguntara Mitch. até o dia amanhecer. estava de costas para a porta e falando ao telefone.

— Mas ninguém trata um amigo do modo como você vem me tratando. afinal? Por que não me conta a quem Rachel deve avisar. — O que você esperava que eu fizesse. você sabe muito bem o que poderia ter acontecido! — Bem.— ela respondeu apenas à última pergunta e já ia dando as costas a Will outra vez quando este a segurou por um braço.. Com toda a força. — Aonde pensa que vai? — ele rosnou... num movimento rápido. que ele também estava sofrendo. Bem.. . talvez devesse ter acontecido.. — Foi essa a minha grande traição. mas a dor não cessou. Kelly empertigou-se e lançou-lhe um olhar superior. fervendo de raiva diante da acusação silenciosa. — Eu telefonei para desfazer qualquer suspeita que Rachel pudesse ter — Kelly explicou. se quer mesmo saber eu lhe digo! Telefonei para Rachel porque se não o fizesse ela iria ficar desconfiada. Olharam nos olhos um do outro durante um longo momento. — Seu idiota! — ela gritou. na Europa. Soltou-a no mesmo instante. — Se quer saber. inesperado. — Está bem. apesar de doente. Ela ficou em silêncio. como se não tivesse percebido que a estava segurando. e com quem você disse a ela que estava? — Com um completo idiota! . — Kelly percebeu a expressão de Will se endurecer ainda mais diante daquela revelação. Will pareceu surpreso. Agora ela pensa que estou na casa de um amigo.. — Amigos — ela repetiu. melhor. resmungar e brigar comigo o tempo todo! — E suponho que você tenha estado muito bem-humorada. — Ela telefonou para minha casa algumas vezes e achou muito estranho que. mesmo! Talvez não estivéssemos querendo nos matar um ao outro se. que fôssemos amigos! Pensei que fôssemos. até que por fim a raiva e a mágoa de Kelly chegaram a um ponto insuportável. você está me machucando. desde hoje de manhã... — Ela abriu os braços. E curiosamente ela sofria mais por Will que por si mesma.. — Como pôde acreditar que eu faria isso com você.— Não — Kelly insistiu. aqui em Seattle. nos dois telefonemas que você me obrigou a fazer. mas não se deixou intimidar. Aproveitei para pedir a ela que avisasse algumas pessoas com as quais eu deveria me encontrar por estes dias. até que não estou mal para alguém que ouviu você resmungar e grunhir a noite inteira! — O chão é duro e frio! — Você dormiu lá porque quis! — E se eu não tivesse feito isso. porém.. ao menos no coração de Kelly. eu não estivesse lá para atender. Will Stone! Ele permaneceu calado. — a lembrança daquele beijo passou por sua mente. eu não sabia quais eram as suas intenções ou o que era capaz de fazer comigo! Aliás. depois de tudo o que temos passado juntos? Pensei que estivéssemos do mesmo lado. num gesto dramático. Afinal eu dei a ela boas pistas para isso.. Stone? Que me portasse como um carneirinho enquanto você me seqüestrava e me levava para onde bem entendia? Com os diabos. porém ainda me recuperando.. aí está. — Então por que não me conta o que é. ela correspondeu por inteiro e com igual paixão ao beijo que vinha desejando havia tanto tempo. mais calma. No mesmo instante e sem a menor timidez. Só o que tem feito é gritar. o que eu acho que já estava um pouco. Podia notar. Kelly não teve tempo de concluir a frase pois. Will a puxou para junto de si e a beijou com toda a urgência e avidez do desejo que vinha se forçando a reprimir. —Responda! Numa atitude que Will começava a reconhecer como típica dela.

descendo por seu pescoço e tornando a subir até o ouvido. Logo o sutiã de renda teve o mesmo destino e em seguida a camisa dele. — Também te quero. por exemplo. sobre os mamilos que. porém ele a impediu. Will permanecia calado. deliciada. — Eu te quero! — ele repetiu.Will mal podia crer que a tinha nos braços. Quando chegou ao último botão. separados apenas pela barreira das roupas. Os pêlos do peito dele roçando contra seus seios faziam Kelly suspirar e mover-se devagar de um lado para outro. Respirando fundo. E quando voltaram a se abraçar. as mãos dele se infiltravam por sob o suéter e procuravam pelo fecho do sutiã. — Um ano é muito tempo — ele murmurou junto a seu ouvido.. como se hesitassem em subir um pouco mais. que gemia em resposta àquela frança e direta demonstração de desejo. Naquele momento. ao contrário: ondulava os quadris de encontro aos dela. se contraíam a seu toque. neste instante! — Will sussurrou. Tornando ainda mais profundo e sensual o contato entre suas bocas. os pêlos encaracolados que o recobriam. sensíveis. ele gemeu e correu as mãos pelas curvas tentadoras que vinha desejando acariciar desde o momento em que as tocara para impedir que ela fugisse pela janela do banheiro de um posto de gasolina. já não havia tantas barreiras entre seus corpos e seus torsos nus se tocavam. Suas mãos lhe acariciavam a cintura. Em resposta ela enredou os dedos nos cabelos de Will e se apossou de sua boca outra vez. — Seus lábios me deixam louco. Agora seus corpos estavam de tal modo unidos em um abraço apertado que seus sexos se tocavam e comprimiam. — Acho que até já me esqueci de como se deve tocar uma mulher! — Pois eu duvido muito — Kelly sussurrou. Ela estremeceu e suspirou. macia e sensível. Ela ergueu o rosto e se pôs na ponta dos pés. Lábios entreabertos deram passagem a línguas que se tocavam em carícias molhadas.. tudo em você me deixa louco. Will não tentava esconder a própria excitação. Will tomou-lhe os seios nas mãos e os acariciou com delicadeza. Kelly sabia que mesmo durante o amor ele seria um homem de poucas palavras. deliciando-se com o atrito. quente. pousando uma das mãos sobre a dele para conduzi-la um pouco. Assim encorajado. Ele interrompeu o beijo para deslizar os lábios úmidos pelo rosto de Kelly. Kelly deslizou as palmas das mãos por sobre o peito másculo... — Eu te quero — ele confessou. — Promete? — ela o provocou.. e no entanto o silêncio pouco importava. Tomando-lhe o rosto entre . passando a lhe abrir bem devagar a camisa.. E de repente já não tinha mais paciência ou autocontrole.. sensuais. moça! — Ele desceu as mãos até as nádegas ocultas sob as calças jeans. pele contra pele. já que Will se expressava de maneira tão completa e perfeita com seu corpo. Will. Kelly gemeu e ondulou o corpo de encontro ao de Will quando ele lhe mordeu de leve o lábio inferior. Disso não lhe restava dúvida.. agora! — Estou cansado de lutar contra mim mesmo! — Então não lute. o seu jeito. ao mesmo tempo em que lhe beijava e mordia de leve o pescoço. Que ironia. buscando mais uma vez os lábios de Will. Ele a queria e queria já! Com um só movimento despiu-a do suéter e o largou no chão.. só um pouco mais para cima. sabia? — Fala sério? — Sim. com os olhos ainda fixos nos dele.. E também os seus cabelos. — Faça isso outra vez e juro que a possuo aqui mesmo. num murmúrio rouco.

. eu simplesmente não faço parte de seu mundo! Eu sou perdido no mundo.. não era um pedido sem importância: ele precisava daquela certeza. no ventre. enquanto ele a beijava na boca. seus corpos a ondular num ritmo crescente. que com um gesto silencioso ele a impedira de despir.. suas coxas e abaixo. não imaginara que menos de uma semana depois estaria ali.De fato faziam uma dupla bem estranha.. — Will.. — Será que durante uma hora em nossas vidas não podemos esquecer o passado e o futuro? — Prometa que não vai se arrepender — ele pediu E pelo modo como aqueles olhos escuros a fitavam. longo. Will chegara aos limites de seu autocontrole. — Eu. Mais . E mesmo que não tivesse estado preso. apenas a se fitar. a desejá-la com tal intensidade que seu corpo chegava doer. O corpo de Will pesava de um modo delicioso sobre o seu e suas mãos percorriam as costas lisas e bronzeadas. induzida apenas pelo modo como Will a fitou.. enquanto ela fazia o mesmo com as dele.. Prometo — ela murmurou — Mas quero que me prometa o mesmo. das curvas sedutoras de seus seios e ancas. sequer. um. e o modo como ela se roçava contra seu corpo era algo capaz de enlouquecer qualquer homem! Subitamente apressado. — Não! — Kelly pousou a ponta de um dedo sobre os lábios dele... mas a prisão tem o dom de nos deixar marcados para o resto da vida. ardente. Em questão de segundos estavam ambos livres das restrições impostas pelas roupas. num fio de voz.Diante da visão das pernas longas e bem feitas. Sem poder esperar mais um minuto.as mãos. — Um ano é tempo demais — ele repetiu. Com extrema delicadeza Will a tomou nos braços e a pousou sobre a cama para então. prometo. eu. Um homem forte e capaz que se considerava um derrotado e uma mulher oprimida pelo próprio sucesso! Will também os achava um casal improvável. um sujeito sem eira nem beira! Sou um perdedor.. tomando-o pelas mãos e fazendo com que se deitasse também. musculosos. — Não. Por um instante ficaram ali parados. muito devagar. Will abriu o zíper das calças de Kelly. deslizar a pequena peça de renda por seus quadris. O desejo evidente em seu olhar e a verdadeira reverência com que ele agora estendia a mão para tocá-la eram o mais poderoso dos afrodisíacos. eu não tenho o direito — ele murmurou. nos seios. Céus. — Como eu poderia me arrepender por. colocou-se sobre Kelly e a penetrou com um só movimento.. Uma onda de excitação se irradiou. do sexo emoldurado por pêlos tão ruivos quanto seus cabelos... à exceção da calcinha. a menos que o queira! — Ela acariciou as face cobertas pela barba. — Nunca mais diga isso.Não. quem diria! Quando invadira o apartamento de Kelly para seqüestrá-la. Kelly sentia-se queimar em desejo. de tornar culpados mesmo os mais inocentes. — ela murmurou. Sua boca tornou a cobrir a dela e logo ambos se moviam em harmonia. os ombros largos. ele não pode conter um murmúrio de encantamento.. — Não vou me arrepender nunca. Você não é um perdedor. — O quê um sujeito como eu poderia lhe oferecer? Passei este último ano na prisão! — Por um crime que não cometeu. olhou-a nos olhos. lento e profundo que a fez gemer de prazer. Um fugitivo e uma refém. — Eu sei... em investidas cada vez mais poderosas e rápidas. pensou Kelly. pelo corpo de Kelly. por favor! — Sim.

. inundados de prazer desde o instante em que seus corpos se tinham unido.rápidas do que Will pretendera. E à mesma pessoa. também? — Não. Nenhum dos dois parecia muito inclinado a pensar no que acabara de acontecer. Em outras palavras um homem muito bem sucedido. pensou Will. Capítulo XII Imersos na mansidão daquele momento. A resposta. O clímax não demorou a chegar para ambos e. Uma doce terna ameaça. como era o seu ex-marido? — O própri0 Will surpreendeuse com a pergunta. — Não. sentindo-se mais uma vez inferiorizado. no mínimo lacônica. de maneira irreversível. um ano é tempo demais. como você disse. de modo que era melhor não pensar em nada e apenas se deixar ficar na calmaria que se seguia à paixão. veio num tom sem expressão. corpos .. mais rápidas do que quisera.. — Desculpar por quê? — Kelly perguntou. e ainda assim impossíveis de se refrear... se entende o que quero dizer. Tem senso de humor. — Kelly sorriu. no aconchego dos braços um do outro... em uma semana. gosta de praticar esportes e tem uma inteligência brilhante. — ela admitiu. — Não odeia crianças nem chuta cachorros. Ambos sabiam que algo incomum se passara. — Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso! — Quer saber se já fui casado? — Sim. talvez. — Acho que fui rápido demais. Will e Kelly permaneciam quietos e abraçados entre os lençóis. — Ele é um bom homem. haviam pressentido isso no exato instante em que chegavam ao ápice do prazer. se deram conta de que algo extraordinário se passara entre eles. Estavam ambos perdidos. também — ela confessou. — Me desculpe — disse Will. mas agora tal pressentimento representava uma ameaça. mas nem por isso menos perigosa. — O que ele faz para viver? É fotógrafo. Quisera não ter feito aquela pergunta! — E quanto a você? — Não sou professor em nenhuma universidade. que pedia desculpas por algo. no exato momento em que explodiam juntos num êxtase avassalador. sem abrir os olhos.ainda banhados em suor. — Fazia muito tempo para mim. . Afinal já era a segunda vez. — Desculpe a pergunta. mas.. apenas trocando um pensamento perturbador por outro. mas a verdade era que estava curioso. É doutor em Física e leciona em Berkeley. — É. — Humm... tentando convencer a si mesma de que sua curiosidade não tinha nada a ver com ciúmes. depois de me divorciar. — Nunca mais estive com um homem.... Algo que mudaria suas vidas para sempre.

— O que foi? Não é bom? — É. a voz tomada rouca pelo esforço de resistir ao toque leve dos dedos de Kelly. Com a respiração entrecortada. O relógio na mesa de cabeceira continuava com seu tique-taque interminável. aqueles gestos simples lhe pareciam muito mais íntimos e comprometedores. As mãos de Will em seu corpo começavam a excitá-la e a tornar difícil o raciocínio. E continuara fingindo para si mesma pela vida afora.. depois de uma breve carícia.. — Sei que você vai achar absurdo. afinal? Passara boa parte da vida fingindo sentir-se bem. sim. por mais que tentassem evitar. o que é isso? Mais uma das maravilhosas opiniões de seu pai a seu respeito? — Eu diria apenas que meu querido pai nunca gostou de perder tempo com elogios — Will respondeu. apesar do que haviam acabado de compartilhar. havia um fato inalterável e que não podia ser ignorado: eles não tinham futuro.. E eu só queria um pouco da atenção dele! Com o tempo. — Por que diz isso? — ele perguntou. num tom preguiçoso. E não há nada de errado em sentir-se bem e ter prazer.. serviam apenas para confirmar as .. fingindo que seu pai não estava do outro lado do mundo e que não havia lágrimas em seu olhos. fazendo de conta que era feliz. seguir adiante rumo a alvos mais ousados. ele pousou a mão sobre a dela e a deteve. incapaz de controlar a poderosa reação de seu corpo àquele toque.. O estranho era que. na tarde seguinte. E no entanto. E não precisava ser nenhum gênio para saber o que fora. embora se sentisse perfeitamente à vontade para tocá-la de maneira tão sensual. A essas alturas da conversa a mão de Kelly já havia descido até o ventre plano e firme de Will para então.. era incapaz de encostar um dedo nas sardas em seu rosto ou de afastar os cachos ruivos que lhe caíam sobre a testa. combinado ao modo como seus olhares insistiam em se encontrar. mas para Will e Kelly o tempo havia parado por completo. Mas isso também não adiantou. — Elogios eram tudo o que meu pai me dava.. Jamais encontrei uma mulher tola o bastante! — Ora.. mas eu gostaria que meu pai tivesse sido só um pouquinho como o seu — disse ela. — disse Kelly. algo diferente acontecera. não existe algo bom em excesso. talvez você tenha razão — ela concordou. naquele instante suas vidas pareciam medir-se pela única coisa de que tinham medo. O que sabia sobre o assunto. O sorriso se fora de seu rosto. agora. Mitch percebeu que algo se havia passado entre Will e Kelly.. embora no fundo soubesse haver uma certa falsidade em suas palavras. de modo tão súbito quanto aparecera. não queria pensar nisso. Sentimentos. O fato de que haviam parado de se alfinetar um ao outro. — É. — Sentir é algo muito perigoso — disse ele.— Por quê? — Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente. Ironicamente. Assim que entrou naquele quarto. como se tivesse lido os seus pensamentos. Stone. E isso porque. acabei me convencendo de que ser a melhor em tudo era o único modo de fazer com que meu pai gostasse de mim e me desse alguma atenção. só que em excesso! — Ele murmurou. Mas não. — Ora. estendendo uma das mãos e acariciando a base dos seios de Kelly. que fazer amor com seu marido a satisfazia e até mesmo fazendo de conta que o amava. que desciam devagar por seu peito em direção ao ventre. De algum modo. com Will. Algo especial.

— E que aparência tem o que vamos procurar. depois de passar por esta porta teremos caminho livre. — Eu disse que tinha conexões úteis. — Não. falei com um amigo que irá analisar todas as nossas amostrar no laboratório do Departamento de Polícia. colocamos o caso nas mãos da polícia e nos afastamos de tudo isso. sairemos do prédio com esse material e faremos com que seja testado. os planos para aquela noite.. coletar amostrar e então sair do prédio. hoje à noite? — Kelly perguntou. Basta fazer um buraco no lugar certo e pronto. e rezar para que dê tudo certo. mas e se o ruído ou a vibração fizerem disparar os alarmes? — Infelizmente não temos como saber mais sobre o sistema de alarme — Will confessou. certo? Na verdade. — Eu disse que trabalhava na MacMathson e perguntei qual o horário ideal para limpar os pisos com um produto de cheiro muito forte. — Nós vamos entrar disfarçados como membros da equipe de limpeza. procurar as drogas. — Mas e quanto ao barulho? — Não haverá ninguém para ouvir — disse Kelly. é possível que todas tenham sistemas individuais de segurança. Will por certo não reagiria com bom humor a quem o lembrasse que acabava de passar de seqüestrador a refém. — Acho que nesse caso teremos que arriscar.. E não era preciso olhar Kelly Cooper duas vezes para se ver que ele jamais tivera a menor chance. mas isso é ótimo! — Will elogiou. estamos dentro! — A serra para metal! — Mitch estalou os dedos. As plantas da Anscott estavam outra vez espalhadas pelo chão e sobre a cama. Na minha opinião. mas algum instinto dizia a Kelly que Will tinha alguma carta escondida na manga. o quê? — Essas drogas sofisticadas não são fáceis de reconhecer — Mitch respondeu.suspeitas do detetive. e Will se debruçava sobre os desenhos do setor de produção. não dá para arrombar! — Está vendo esses dois trechos de parede. — Todas as seis salas se abrem para o mesmo corredor. — E como vamos entrar na área sem abrir essa porta? — Mitch abriu os braços. — Kelly sorriu. bem aqui — Will apontou o local da planta onde a porta estava instalada. — Ora. — Você ligou para a Anscott para saber quando o prédio fica vazio? — O detetive riu alto. Por isso. pós. — São comprimidos. A partir daí. — Vejam — Ele apontou. ervas. de fato. — Portanto pegaremos amostras de tudo o que nos parecer suspeito. mas eu seria capaz de apostar que não. — E devo presumir que tenha imaginado um jeito de abri-la? — Mitch perguntou. — Vocês dois estão me saindo melhores que a encomenda! — Pois é.. disse que após as sete da noite o prédio já está deserto. — Ou ao menos foi o que a recepcionista da Anscott me garantiu. — Podemos entrar por um deles. sem atrapalhar ninguém. Mitch conteve a vontade de rir. Claro. inconformado. Kelly deixou no ar a única questão que a vinha perturbando: Will se . — É uma porta de segurança. — Deixe-me ver se entendi — disse ela. muito gentil aliás. — Olhem. Tudo parecia estar caminhando bem.. A garota. eu detesto ter que ficar levantando pontos falhos — Mitch se desculpou —. E por falar nisso. queria ouvir dos lábios dele quais seriam. arrebentar aquela parede. ao lembrar das ferramentas pesadas que Will fizera questão de alugar. E não é necessário.

— Mitch insistiu. — A verdadeira equipe de limpeza deve ter suas próprias chaves! E há também o cachorro. — E quanto ao cão. como faremos? — Mais uma vez Mitch quis saber. Não podia condená-lo. Do assento ao lado. Kelly o fitou. — Céus. se esforçando para concentrar toda a atenção na tarefa que tinham a cumprir. Kelly espirrou. e então ele disse: — Nesse caso vamos ter que improvisar.. — Deixem que eu fale com o guarda — Will ordenou. procurando detalhes que tivessem sido esquecidos. — Eu lhe dei a chance de cair fora! — Will murmurou ao parar diante da guarita. desde que haviam feito amor. Sabiam agora que teriam de se apressar. Ainda mais quando estou levando nas mãos uns dois quilos de carne moída! — E se chegar alguém. nervosa. — Eu continuo — ela respondeu. a equipe de limpeza costuma pegá-las na guarita. você sabe mesmo como levantar o ânimo das pessoas — Kelly riu. O homem . tanto física como emocionalmente. — A verdadeira equipe de limpeza só chegará as nove — disse Kelly. — Eu também — disse Mitch. visivelmente tenso. o que nos dá uma hora para a operação toda. já que ela mesma vinha agindo de maneira semelhante. porém. — As coisas estão apenas começando a ficar interessantes! — Boa noite — Will cumprimentou o guarda. — O que estamos prestes a fazer é ilegal. — Nunca é tarde para lembrá-los de que isto não será nenhum piquenique — Will insistiu. Era como se algum instinto básico lhes estivesse avisando que mantivessem distância um do outro. Todos os três vestiam macacões cinzentos e bonés semelhantes aos usados pelos funcionários da companhia de limpeza. por exemplo. pediu desculpas e então disse baixinho: — Não olhem agora.. — Kelly informou. o que faremos? — O detetive continuava a cumprir sua função. e nada garante que nos saiamos bem.. ainda é tempo — disse Will. — Adoro viver perigosamente! Naquele instante os três avistaram os portões de ferro e um silêncio momentâneo pairou no interior do furgão. — E para entrarmos no prédio.. mas é o mesmo guarda que costuma receber o furgão da floricultura. Ele a vinha afastando de si. — Não se preocupe com as chaves.. — Nós devemos estar entrando às oito. ao chegar. — Se algum de vocês quiser desistir... — E em caso de alguém mais aparecer? Como o furgão das flores.contentaria em agir pelos meios legais ou faria alguma loucura sob o pretexto de vingar a morte do irmão? Essa pergunta ficou sem resposta. ao guiar o furgão pela estrada ladeada de pinheiros. A chance de esbarrar com visitas indesejáveis se tornara muito maior. nunca encontrei um que não gostasse de mim logo à primeira vista. — Isso! — Kelly apoiou. Stone. quando este saiu de seu cubículo. que um relacionamento entre eles poderia ser tão perigoso quanto caminhar num campo minado. — Pois eu sugiro que paremos de falar e comecemos a agir — disse Mitch.. de seu posto na parte de trás do furgão. Kelly e Will se entreolharam. — E quem está falando em cair fora? — Kelly sussurrou.

ainda esta noite. Assim que estacionou. — Está bem. Will esperou que os portões se abrissem e dirigiu com muita calma até a frente do prédio. eu tenho o número bem aqui — ela sacou um pedaço de papel do bolso e o deu ao guarda.. você deu o número certo ao guarda? — Claro — Kelly piscou um olho. antes que Will pudesse dizer algo. — Por que vieram três de vocês? — Temos que fazer uma limpeza melhor no piso. Segurando apertado a chave em sua mão.. ele abriu uma gaveta e entregou a chave a Will. — Seu furgão não tem o logotipo. sim? Não temos a noite toda! Outra vez Will pareceu estar com vontade de matá-la. — Olhe. — Mas ligue logo. certo? Preciso do emprego e o homem é uma praga! A menção do nome da empresa pareceu impressionar o guarda que. podem ir — o vigia ordenou. cara. — Somos a turma da limpeza. com uma risada tensa. com o coração batendo tão rápido. — Agora vamos com isso. cético. — O que houve com Barney e Lou? — o homem perguntou. Aliás. cara. pois deu um passo à frente e examinou o interior do furgão. — Kelly interveio. ainda assim. Em vez disso.. que o enfrentou com um olhar. não funcionou? — ela se defendeu. não sabia se teria voz para tanto. — Os dois de uma vez? — É. — Ah. como se também ele tivesse ficado tenso com aquela conversa.. Ele não disse nada.. o cão latiu algumas vezes. porém. — É. Eu tenho quilômetros de chão para encerar e o tempo está passando depressa! Tanto o guarda como Will a fitaram com um ar irritado. — Funcionou. não sou eu quem vai dizer ao MacMathson quando pintar os carros dele. incapaz de continuar calada. — Telefone logo para a firma e pergunte o que for necessário para nos liberar. como que para confirmar. Foram parar no hospital! O guarda ainda não parecia convencido. O tempo está passando! . Parece que andaram reclamando do serviço do Barney e do Lou. permanecia indeciso.. cara. voltou-se para Kelly. — É novo na frota. Quanto a Mitch. — Ficaram doentes e estão de licença. — Duvido que consiga esquecer. Além disso temos dois outros escritórios para limpar. nós sabemos — Will forçou um sotaque simplório. no entanto. e agora sobrou para nós. assim que começaram a descarregar o equipamento —. — Preciso me lembrar disso para meus próximos serviços — Mitch comentou. — Isto é propriedade privada — ele anunciou e. — Só uma coisa — Mitch perguntou. meu caro — Will resmungou. cara. parece que comeram uns sanduíches ruins por aí e pegaram uma intoxicação daquelas. O guarda foi até a guarita e por um momento três pessoas pensaram que ele fosse mesmo telefonar. vamos.usava um uniforme em estilo militar e uma arma pendurada à cintura.. Olhe. parecia estar precisando de uma boa dose de uísque. e o fato de também termos o número nos dá mais credibilidade. — Com certeza ele tem esse tipo de informação dentro da guarita..

— Parte do plano vai ser alterada. estas duas paredes levam a salas. — Ora. que por sua vez se abrem para o corredor que procuramos. mexam-se! — Sim senhor! — Kelly tirou algumas fotos do local e seguiu com os dois homens pelo corredor que se iniciava aos fundos do saguão principal. como o tempo passa depressa. cheia de máquinas cuja função podiam apenas deduzir. se encontrava uma grande porta em aço inoxidável cujo sistema de segurança exigia um cartão magnético e uma senha numérica para sua abertura. aqui — disse Will. no entanto. — Pela planta. — Vamos ter que improvisar — Will respondeu. — Parece mais uma confeitaria! — Uma confeitaria tinindo de tão limpa — Kelly complementou. — E qual é a notícia ruim? — Mitch perguntou. — Sai de baixo! — ela brincou. . Will foi o primeiro a entrar. de fato. outras quatro também tinham as portas destrancadas e conteúdo semelhante: máquinas e mais máquinas de função desconhecida e sem nada que lembrasse. estendendo a mão para ajudar Kelly a passar. — Céus. seis salas no total. o fabrico de alguma droga ilegal. — Vamos. Mitch veio por último. passando a dar tapinhas nas paredes próximas. — Então vamos abrir logo o tal buraco — Mitch os apressou. Eram. A primeira vista. — Aqui não parece ter droga nenhuma — disse Will — Vamos ver as outras salas. quando estamos nos divertindo! — Kelly comentou. no instante em que o pedaço de parede caiu para dentro da sala. A sala onde estavam tinha apenas uma porta com fechadura convencional. ainda que remotamente. certo? — Kelly perguntou ainda uma vez. ela não se convenceu. assim que acendeu as luzes. assim que entraram no prédio. o corredor em forma de U contornava todo o prédio e na parte dos fundos. — Se não alteraram o projeto original. em posição oposta à da recepção. — Já são oito e quinze.— Vamos apenas pegar as amostras e dar o fora. dêem só uma olhada nisso! — O detetive iluminou a sala em que estavam. Uma rápida inspeção revelou que. outras eram bacias de aço com pás de borracha e botões de controle para todos os lados. que por sinal estava destrancada. Uma densa poeira branca invadiu o corredor. Algumas pareciam enormes batedeiras de bolo. passando a serra elétrica a Will. — A boa notícia é que estamos mesmo sozinhos. misturada a pedregulhos e outras partículas maiores lançadas longe pela serra circular. — Certo — Will respondeu. Acender as luzes na área de acesso restrito seria o mesmo que pedir para o guarda soar um alerta geral. com uma lanterna em cada mão. A porta não tem as mesmas proporções da que consta na planta — Will deu de ombros. o que procuramos deve estar naquela direção — disse Will. a recepção da Anscott parecia tão normal e desinteressante que Mitch e Kelly chegaram a imaginar se Will estaria mesmo na pista certa. Conforme o esperado. Will girou a maçaneta e abriu a porta devagar. Estavam no corredor. além daquela por onde tinham entrado. Por algum motivo. — Como podem ver. não há nenhuma parede vaga em redor! — E agora? — Kelly olhou em redor. fotografando o corredor e o início da perfuração da parede.

. — Interessante. incrédulo. nas horas vagas! — Sou uma mulher de muitos talentos. — Tem certeza de que nunca foi presa por mim? — o detetive brincou. porque exibia apenas tubos de ensaio e outras peças em vidro.. Eu. Apanhou um béquer. desapontado. Stone.. transparente. com uma careta de desagrado. mas fede um bocado! — E isto aqui? — Kelly apontou um recipiente com tampa que continha um pó branco. sob um prosaico quadro negro. olhe só isto! Mitch apontou um suporte com vários tubos de ensaio. sim? — Kelly pediu. — O que é isso? — Will perguntou. Mitch iluminou a sala.. mas estava de fato trancada. Vamos. por aqui — Will resmungou.. — Temos menos de meia hora. ah-ah! Consegui! — Kelly exultou. — Não desanime! — O detetive o encorajou. — Bem. — Venham cá e tragam a lanterna! Os dois homens se aproximaram numa fração de segundo. — Não vai me dizer que arromba portas. Com a câmera ajustada para a pouca luz do ambiente. — Isso em parte ajuda a justificar as medidas extras de segurança. Sou esperta demais para que me peguem.. — Ora. — Absoluta. devolvendo o canivete a Will e abrindo a porta. mas. cuspindo em seguida. — Mitch consultou o relógio de pulso. Mitch com a lanterna para iluminar a placa que dizia: PROJETO GOVERNAMENTAL ESPECIAL Proibida a Entrada de Pessoal Não Autorizado. já com o canivete nas mãos.. destinado à fabricação de drogas proibidas. A um canto. não? — Mitch observou. admirado.. Mais parecia um laboratório escolar dirigido por algum professor relaxado que um antro de criminosos. totalmente diversa das outras cinco. — A Anscott sempre teve alguns projetos patrocinados pelo governo — disse Will. — Aposto como não é açúcar. — Kelly murmurou. Kelly fez algumas fotos. Parte deles continha um líquido vermelho. Mitch removeu a tampa e experimentou uma minúscula porção do pó na ponta da língua.. Segundo. — Se eles acham conveniente manter esta sala trancada. — Will a fitou. me dê o canivete. acho que posso dar um jeito — Kelly se ofereceu.. — Will tentou abrir a porta outra vez. Primeiro. — Argh! Não sei. — Você estudou mesmo o que pôde a respeito deles. e cheirou seu conteúdo. por ser bem menor e não tão limpa e arrumada assim. — É bom irmos mais rápido. . — ela os chamou. curioso.. ei. então deve haver algum motivo. — Algum dos dois tem idéia de como vamos entrar? — Se você puder me emprestar o meu canivete suíço. — Pode apostar que sim. — Então me dê um pouco mais de luz aqui. embora também não estivesse vendo nada suspeito. acho que não estou vendo droga alguma. notando uma placa pregada à altura dos olhos.. em vez das máquinas vistas nas demais salas. este cheio de um líquido verde escuro. — Ei Will. Mitch. havia uma mesa cheia de pastas e papéis soltos.Coube a Kelly girar a maçaneta da última sala e descobrir que a porta estava trancada.

— o ex-policial balançou a cabeça. após um instante de confusão encontrou o que procurava. mas me lembro de que era a mistura de diversas substâncias químicas. iria cuidar de seu resfriado com muito caldo de galinha e cobertores. — E acho bom andarmos rápido. mas tome cuidado. Essa mistura é cristalizada e depois reduzida a um pó. — Não é açúcar mesmo. Kelly sentia a adrenalina correndo em suas veias agora que a missão fora cumprida. pelo amor de Deus! — Will entregou as amostras a Kelly e correu para ajudar Mitch a colocar o equipamento de volta no furgão. — Por quê? — Kelly e Will perguntaram ao mesmo tempo.. pois não estou vendo o produto final por aqui. enquanto Kelly fazia as últimas fotos. chamando a atenção do guarda com um toque curto . Will praguejou. Mitch? — Acho melhor nem dizer. — Vamos. — Está bem. alarmado. garota. ali? — Kelly apontou a câmera e disparou. — Chave? — Will revirou os bolsos e. O guarda estava de costas para eles.. Uma droga de produção complicada. Jogou a chave para Mitch. algumas drogas conhecidas e o extrato de um cacto que só se encontra no sul do México. provavelmente com sucesso.. o que vamos fazer? — Will olhou em redor. doía fundo em seu peito. — Onde está a chave do prédio? — perguntou Mitch. corria um boato sobre uma nova droga. mas que promete lucros enormes para os traficantes. o que acaba fazendo a droga custar muito. que tratou de apagar as luzes do saguão. — O líquido verde. Os três respiraram fundo ao mesmo tempo. que é colocado em cápsulas.. Ainda dirigindo devagar. mais forte e destrutiva que qualquer outra que se encontre pelas ruas. Will se aproximou dos portões imaginando que eles se abririam antes que chegassem perto demais. falando ao telefone. um par de faróis se tornou visível na distância. Will manobrou o veículo e se encaminhou de volta aos portões. — Quando eu ainda estava na polícia. hoje. Não cheguei a saber muito a respeito. Todo esse processo é bem caro e só um bom químico é capaz de executá-lo corretamente. de que Will Stone logo estaria saindo de sua vida de maneira tão brusca quanto entrara. — É bem provável. rapazes! Vocês levam o equipamento de limpeza e eu carrego os tubos. — E então. Com cuidado para não demonstrar pressa. em voz baixa. quando Will já estava dando a partida no motor. — Mantenha os tubos escondidos — ele avisou Kelly. E não estou gostando nada do que temos aqui. Engano seu. Temos menos de dez minutos para cair fora! Em questão de segundos Will e Mitch encontraram três tubos de ensaio vazios e os encheram com amostras das substâncias. — Não entrem em pânico — disse Will. trancar a porta e embarcar no furgão. há cerca de um ano ou um ano e meio. — Pegar amostras desses líquidos e mandar analisar? — Parece que é o único jeito. — Que horas são. Como que para reforçar o tom angustiado na voz do detetive. se não quisermos nos meter numa bela enrascada. apesar de ela saber que seria melhor assim. Sentia também um calafrio e disse a si mesma que quando tudo aquilo estivesse acabado. E a idéia de que aquela louca aventura estava chegando ao fim. — Mitch tornou a consultar o relógio... muito dinheiro.— Não.

um dos tubos de ensaio escapou de suas mãos.. — Eu diria que vai haver bagunça lá na Anscott. Um sorriso sempre tão raro e . da mesma forma que falhara para com seu pai! Este último voara para a África no amanhecer do dia seguinte para uma reportagem urgente. — Quantas vezes serão necessárias para mudar o que houve? Kelly pressentiu o sorriso que se abriu nos lábios dele. Naquele instante o portão começou por fim a se abrir. chocando-se contra a câmera fotográfica em seu colo e esparramando todo o conteúdo sobre as pernas do macacão cinzento do uniforme. como que num pesadelo. dois.. não? — O guarda observou. Will sorriu. A primeira fora não conseguir uma única foto da placa daquela limusine preta. Como se o tempo tivesse andado para trás. ouvira-o se mexer. Este se limitou a olhar para trás com ar de poucos amigos e voltar com toda a tranqüilidade a seu telefonema... meu velho. Segundos depois. — Eu sinto muito — murmurou. Com frieza inacreditável. a deixou paralisada. O idiota tem cinco segundos para abrir isso. O medo. mas fitando o véu da chuva fina que caía. — Não é à toa que depois ficam ouvindo reclamações! Will nada disse. sarcástico. — Quantas vezes ainda vai se desculpar? — ele perguntou. vamos lá. aliviado.. por que a estava forçando a se afastar. Sabia que Will estava acordado. E agora Will. E de fato parecia pouca coisa diante da segunda. três. três vezes em seguida e. — Will.. Vira quando se levantara e fora sentar na poltrona junto à janela...ainda custava a se convencer de que não fora aquele acidente o motivo da partida. Kelly disse a si mesma que a noite estava tendo um final dos mais perfeitos.. profundo. o que era pior. mas pelo visto descobriremos isso logo. — Idiota! — Kelly resmungou baixinho. Fora sem se despedir. senão eu avanço! Quatro. — Servicinho rápido. deixando para trás uma criança que. Horas mais tarde Kelly estava deitada no escuro do quarto de hotel. já na estrada. Ela falhara para com Will. você é bom em derrubar portões de ferro com furgões? — Não sei. miraculosamente recuperados da intoxicação — Mitch comentou. — Aqueles faróis devem ser de Lou e Barney. Pela segunda vez. terrível e sufocante. Will avançou devagar com o furgão e entregou a chave. quase trinta anos depois.. — Mitch riu baixinho... — Mitch murmurou. Como se de repente ela voltasse a ser uma criança de sete anos derrubando uma xícara de café sobre um artigo de jornal recém-datilografado por seu pai. apenas tocou o furgão adiante. Will mal acabara de entrar na rodovia principal quando outro furgão saiu em direção à estradinha que levava à Anscott. Vira-o voltar a cabeça para fitá-la e quisera perguntar por que não estava deitado na cama com ela.na buzina. Era o veículo da floricultura Flor de Verão. relembrando as cenas de sua infância e ouvindo a todo momento o ruído torturante do tubo de ensaio a se arrebentar sobre a câmera. não para olhar a lua. — Vamos lá. Foi então que ela espirrou duas. — Pois eu acho que o guarda vai perder aquele ar superior em pouco tempo — disse Kelly. cruzavam com o furgão da MacMathson. Mitch riu alto.

mas acho melhor acreditarmos no melhor. Queria tê-lo perto de si. Não costumava apostar no melhor. não se esqueça de anotar todas as suas despesas de viagem. até a volta! — Até a volta. — Tem certeza de que vão conseguir analisar as manchas no tecido? — Will perguntou. queria que a beijasse. a fitá-la sem trégua para então. — Que horas são? — Três da madrugada. — Foi horrível o que eu fiz! Uma estupidez! — Quer fazer o favor de parar de se acusar? Além do mais não foi um desastre tão grande assim. minha história seria muito diferente! — Eu sinto muito. Olhou pelo visor da porta antes de abri-la para Mitch Brody. Ainda temos as fotos e as duas outras amostras. ordenar num tom neutro e impessoal: — Vá dormir. — Não tem problema. Mas faça o favor de ficar quieta. sim? — ele a repreendeu. esperando. até que se tenha prova em contrário. áspero. — Tem certeza de que não quer esperar amanhecer? — Absoluta. sem jeito —. de verdade — ela repetiu. — Para falar a verdade não sei.. ficou a pensar em tudo o que houvera durante aquela semana. de repente.. — Mitch se remexeu. se achava tão distante como se estivesse a centenas de quilômetros dali. magoada. Ah.. eu estava acordado.. sem sono. Se pedir perdão resolvesse. ao entrar. — Você só está dizendo isso para que eu me sinta melhor! — Kelly acusou. quando as ouviu outra vez. então resolvi ir para San Francisco agora mesmo. — É eu também não estava conseguindo pegar no sono. ficaremos aqui.maravilhoso. porém. só mais uma vez! Mas ele se limitou a olhar para ela. agora mais fortes. — É. esteja à vontade. — Fique tranqüilo. Queria que Will a abraçasse e reconfortasse. Mitch. Kelly se calou. para que eu possa reembolsá-lo depois. Bem — o detetive deu de ombros. está bem? — Claro. Nó homem sentado a menos de dois metros de onde ela estava e quem ainda assim. para não ter que se decepcionar depois. — Eu já vou. naquela noite. — Will disse. — Ligo assim que tiver notícias. que fizesse amor com ela. o que não é pouco. Kelly se estendeu na cama mas. Na noite lá fora. — Desculpe incomodar — o detetive sussurrou. sem realmente concordar. — Mal posso acreditar que fui tão desastrada. moça. — Infelizmente a vida não funciona assim. — O quanto antes eu entregar aquelas coisas no laboratório. preocupado. E muito obrigado por tudo! . tão incompetente! — Está bem! Se quer pensar assim.. — Mitch despediu-se com um aperto de mão. E Mitch disse que o laboratório da polícia pode conseguir analisar as manchas no macacão para determinar que produto era aquele.. ansioso. melhor. Já se levantava para verificar. na qual a lua cheia estava brilhando acima da grossa camada de nuvens. As batidas na porta soaram tão baixo que Will não tinha certeza de tê-las ouvido.

Mais longo que os outros.. sair daquele quarto. que vinha esperando pelo momento de executar a segunda parte de seu plano. na manhã seguinte à noite em que derrubara café no artigo de seu pai. Capítulo XIV .. Sabia que estava sozinha.. caía-lhe da testa sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto. ao longo da noite..Os dois homens se olharam nos olhos. Kelly acordou assustada. não era capaz de livrar-se da sensação de que acabara de fazer algo extremamente maravilhoso e incrivelmente tolo. Não se preocupou sequer em olhar a seu redor à procura de Will. Afinal. com passos tão silenciosos como os de um gato? Por que estava se ajoelhando ao lado da cama? Não. e assim suportar o remorso pelo que estava fazendo a ela. já estivera atrás das grades antes.. e por assassinato. Era um gesto íntimo demais para que sequer pensasse nisso! Mas se era assim. Poucos minutos antes das oito horas da manhã. embora odiasse tal dependência econômica. A sensação que experimentou então foi igual à que experimentara tantos anos antes. desde que soubera da morte de seu irmão para ser mais exato. desejou afastar aquele cacho. mas disse a si mesmo que não o fizesse. Sentira que estava sozinha muito antes de a governanta vir lhe dizer. então por que estava andando em direção a ela. nem mesmo tentou chamá-lo. Estendendo um único dedo. disse a si mesmo que não havia outro jeito e apanhou alguns cheques de viagem. não se arrependeria muito mais por não ter se permitido desfrutar da oportunidade única de provar daquela doce e proibida intimidade? A resposta foi imediata e inequívoca. se afastar dela. Sobre as delicadas sardas que lhe ornavam as faces. Não podia acordar aquela mulher. como a pele daquele corpo que tocara apenas uma vez. em especial. Eram sedosos e macios. Will levantou-se com uma disposição surpreendente até para ele próprio. Sim. E mesmo enquanto partia. Estivera sozinha então. Um deles. aquilo implicaria em reconhecê-la como pessoa. ali. agora mais do que nunca. tocou de leve os caracóis cor de fogo. Mesmo agora. Sem despedida. disse a si mesmo. Ele parou e se voltou para fitá-la. Porém ainda tinha a consciência de que não deveria acordá-la. Afinal. Estava sozinha agora. perdido. Hesitou ainda por um segundo.. Não vá fazer algo de que se arrependerá depois! Mas e quando os acontecimentos daquela semana não passassem de memórias. tinham conseguido! A manhã chegou sem que a chuva da madrugada tivesse partido.. não? Will estava a caminho da porta quando Kelly se moveu na cama e emitiu um gemido suave. Como tantas outras vezes. Vestiu-se em silêncio. recusava-se a chamá-la pelo nome. sem um bilhete ao menos. cada um com um pouco mais de respeito por si mesmo e pelo outro. ou melhor. Apanhou a bolsa dela sobre a cômoda e.. Fazia muito tempo. decidiu que isso não tinha a menor importância. E embora tivesse que falsificar a assinatura neles. notando os cachos ruivos e sedosos que se espalhavam pelo travesseiro. O silêncio opressivo que pairava no ar lhe dizia isso. de modo que afastou para um lado a mecha de cabelos. Estava maravilhado. chamou sua atenção. antes de se levantar dali. Embora não houvesse dormido um minuto sequer. Mesmo que fosse apenas em pensamento.

Não é da sua conta onde eu fui ou o que fui fazer. aquilo não fazia sentido.. — Fora — ele respondeu. Raios. afinal não perderia aquelas informações por nada. quanta consideração. o que pensa que sou? Um insensível? — Dito isto ele tirou algum dinheiro do próprio bolso e o colocou dentro da bolsa de Kelly. Pare com isso. Estava pensando em círculos! Num minuto se convencia de que Will partira para sempre e no outro acreditava que a qualquer momento entraria por aquela porta. Além do mais tinham combinado que Mitch iria para San Francisco logo pela manhã. mas sim com sua partida inesperada. E se não gostou. eu pagarei cada centavo. Mas como descobrira a quem culpar pela morte do irmão? Não. moça.. você gasta o meu dinheiro e não é da minha conta? — E isso aí. Kelly espiou mais uma vez pela janela e se convenceu de que Will não iria voltar. O que significava que Will voltaria. — Apanhei alguns cheques.. às nove horas e quarenta e cinco minutos daquela manhã. — Oh. Que foi o que acabou acontecendo. E o que ela mais temia era que Will tivesse saído sozinho em alguma louca missão de vingança. em que se ajoelhara ao lado da cama para afastar um cacho de cabelos ruivos que lhe caía sobre a testa. A não ser que. — Acho que foi isso mesmo o que eu disse. ciente de que seu ressentimento não tinha a ver com o fato de Will ter pego os cheques. lacônico. pensou. — Ah. No instante em que Will pôs os pés dentro do quarto. Kelly se ergueu da poltrona.. como o faria uma esposa cujo marido chegara tarde em casa. com as duas mãos na cintura. — E você é tão insensível que não teve ao menos a decência de me avisar? — Você estava dormindo. Poderia até pensar que ele tinha saído com Mitch. roubara duzentos dólares em cheques de viagem de dentro de sua bolsa. Will Stone que fosse para o diabo. — Ele despiu a jaqueta de veludo e fez um esforço para não lembrar daquele momento. — Ah. — Pode-se saber onde você esteve até agora? — ela ralhou. — Não se preocupe. indignada. Mas se fosse só isso já teriam retornado. Como também não sabia por que parecia sofrer com ela.Cerca de uma hora mais tarde. fora? — Kelly repetiu. mas faria contato com eles pelo telefone do hotel quando tivesse algo para dizer. aí está o troco. o modo como bateu a porta atrás de si não revelava exatamente a maior calma do mundo. mas não saberia dizer por quê. E embora o seu tom de voz parecesse normal. . — Podia ter me acordado! — Ora. — Pode apostar que sim! O que comprou com duzentos dólares? — Não é da sua conta e não custou duzentos dólares. ou melhor. Kelly ordenou a si mesma. A não ser que tivessem ido devolver o furgão à locadora de veículos. a porta da rua é aquela ali! Will sabia que a estava ferindo. porém o carro do detetive também não estava ali. pouco antes de sair. pois iriam em dois carros e voltariam num só. Ele havia saído com o furgão e apanhara.

Céus. por que aqueles lábios tinham que ser tão tentadores? Kelly deu um passo atrás e respirou fundo. — Eu vou ficar! — À vontade. então é isso — Will murmurou. . você é livre para ir embora. Aquele momento foi. indiferente. porém isso logo se transformou em raiva. — Kelly deixou claro. e não o contrário! — Está maluco. Will.. sentou-se na cama tempo suficiente para examinar mais uma vez a foto do homem na limusine e concluir pela décima vez que ele lhe parecia familiar. certo. quando tudo está prestes a se esclarecer! — Ah. com um tapa tão forte que a cabeça de Will foi lançada para trás. esquecendo que ele e Kelly estavam brigados. — Grande! — Kelly exultou.. para então lhe dar as costas como se ela simplesmente houvesse deixado de existir. Aquelas foram as últimas palavras que trocaram. — Escute. que estivera andando de um lado para outro. pior que qualquer tortura. lhe fez sinal de que estava tudo certo. — Sim. mas Will foi uma fração de segundo mais rápido. sua reportagem premiada. no final da tarde. — Conseguiram analisar a mancha no tecido? — ela perguntou. para ambos. estavam a ponto de gritar. lembrando-se de tudo o que houvera entre eles e com raiva de si mesmo por não conseguir esquecer. A reação dele não foi menos espontânea: com uma velocidade espantosa. A cada hora que se passava ambos ficavam mais e mais nervosos até que. moça. moça? Kelly sentiu como se a tivessem golpeado no rosto e revidou na mesma moeda.. sarcástico. Os dois correram para atender. — Notícia boa ou ruim? — Que tal excelente? O laboratório da polícia já identificou as três amostras e são exatamente o que pensávamos. A princípio ficou magoada. mas acho que é o seqüestrador quem decide a hora de libertar o refém. Kelly. E então o telefone tocou. mais uma vez medindo forças. está bem? — Eu não vou embora. e no entanto não podiam fazê-lo sem que se agredissem! Olhavam-se nos olhos.. alguém já lhe disse que você é um imbecil? — Olhe aqui. se pensa que permiti que me seqüestrasse.Kelly mal podia crer no que acabara de ouvir. começara a andar de um lado para outro no quarto minúsculo. Tudo o que mais queriam era voltar a tocar um no outro. que por algum tempo estivera entalhando. agarrou-lhe um braço e apertou com força. como queria que ele a beijasse! Poucos centímetros separavam suas bocas. me algemasse e me arrastasse até este ponto só para ser mandada embora logo agora. Raios. Parece que a Anscott está enterrada nisso até o pescoço! Will abriu um sorriso e. se esforçando por manter a dignidade... — E quer fazer o favor de me chamar por meu nome? — Não que eu seja um especialista no assunto. Estão mesmo produzindo drogas. — Will respondeu. ansiosa. — Não quer perder sua história. — Alô? — Stone? Está sentado? — Mitch perguntou.

Aquele nome foi pronunciado por Mitch com uma pompa que Will não compreendeu.. — Calma. — O que ele disse? — Kelly perguntou. O filho dele. — A voz de Mitch transpirava entusiasmo. de testas-de-ferro do antigo patrão! — Estou começando a entender. aflita. — Mitch fez suspense. Emmanuel. — Quem é esse Edward Andriotti? — Andriotti? O que tem ele? — Kelly perguntou. um importante político mexicano. O sujeito pertence a uma das famílias mais tradicionais desta região. mas . através da secretária de uma seguradora.. esqueci que você não é de San Francisco. do tipo que promove bailes de caridade e tudo o mais. sim. — Will sentia o coração bater mais rápido. ansiosa. para encurtar a história eu descobri. — Edward Andriotti. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott. mas muito dinheiro. você ainda não ouviu o melhor de tudo. não restava a menor dúvida. Fotografei a festa de casamento! Eu não disse que me parecia familiar? — Ei.. Mitch — Will voltou a falar ao telefone. E aposto como não passam. — Espere um minuto.— E ainda tem mais — Mitch prosseguiu. Mitch? — disse Will. mesmo! Gente respeitada. Will havia mentido para ela. — Eu sei quem é esse homem. — Oh. Mostrou-lhe então o homem na limusine. — Acho que descobri quem é o dono da Anscott.. Ele também havia mentido para Mitch.. casou-se recentemente com Suzanne.. — Escute bem esta. todos. a Flor de Verão e todas aquelas outras empresas pertencem a pessoas que trabalharam para Andriotti como guardas. para então dar atenção a Kelly. — O quê? — Kelly insistiu. enquanto guiava seu carro a toda velocidade em direção à Anscott.. — Faz sentido. — Desculpe. Tinindo de tão limpos! — Então por que acha que ele é o dono da Anscott? — O quê? — Kelly fitou Will.. — Como disse? — O homem nessas duas fotos — Kelly as apontou. que a Santico.. Acho que foi chamado por causa do servicinho que fizemos por lá. — Sabe para onde viajou Andriotti. — O que ele disse? — Kelly perguntou. motoristas. vigias. homem! — Seattle! — Está falando sério? — Will duvidou. Eram um só.. — E Rodrigo Echeverria. — Mais sério que nunca. a filha de Andriotti. — Andriotti é o dono da Anscott e está aqui em Seattle — Will explicou a Kelly. porque você não vai acreditar.. impaciente.. Oh. atento demais ao que Mitch continuava a dizer: — Tenho noventa e nove por cento de certeza quanto a isso e.. Kelly se deu conta disso uma hora depois. chocada. — Você não vai acreditar. diante de um espantado Will Stone. — Como é que é? — Will mal podia crer no que ouvia. Estamos falando em muito. hoje cedo? — Fale de uma vez. — Quem é? — Will apertava o fone com tanta força que sentia doer os dedos. pois não significava nada para ele. — Andriotti é o dono da Anscott? Will a ignorou. mas não recebeu resposta.. meu Deus! — Ela cobriu a boca com as duas mãos e correu para o envelope de fotos sobre a cômoda. Retirou a penúltima foto do monte e a estendeu para que ele examinasse por um instante. Will.

ou quando as pessoas não . Jogou-a aos pés do animal e pôde ver a batalha que se travava entre o treinamento e a tentação. Kelly escondeu o carro em meio ao arvoredo. Afinal de contas ele comprara algo. Depois da descoberta a respeito de Andriotti e Echeverria. Algo que custara cerca de duzentos dólares. hombre. Isto se saísse inteiro dali. a essas horas já teria virado comida de cachorro. Vazio. era o que perguntava a si mesma.. Will percebeu que as portas de aço da área de embarque estavam totalmente escancarados. que sumira com o furgão. Talvez ele tivesse uma arma. — O chefe está pior que uma cascavel. os três haviam combinado que nada seria feito até que Mitch voltasse a Seattle.. Precisava lembrar de agradecê-la. — Vamos cair fora logo. fazendo gelar o sangue em suas veias. aliás. Sempre que as coisas não acontecem do jeito dele. Não fosse pelo que aprendera com Kelly. — Ele é sempre assim? — o outro perguntou. Pouco adiante estava o furgão. Não podia ser! Will ouviu o rosnado de um cão assim que saltou do muro para o chão. apanhando com gestos lentos a carne moída que trouxera consigo do furgão. Ao contornar o prédio para chegar aos fundos. — disse um deles. O prédio todo. naquela manhã. Enfiou a mão no bolso da jaqueta e seus dedos envolveram o aço frio da arma de fogo. bem no instante em que dois homens passaram em direção ao furgão da floricultura. Mitch viria de avião o quanto antes e Kelly deveria ficar junto ao telefone para saber a que horas deveriam buscá-lo no aeroporto. tomando as luzes da guarita como ponto de orientação. Será que a segurança havia sido reforçada? Talvez. — Si.. mesmo que esse fosse o último ato de sua vida. Chegara a hora do ajuste de contas. claro. Como pudera ser tão idiota. ela cortava caminho por entre as árvores. A tentação venceu e. com forte sotaque mexicano. Devia ter percebido que as coisas estavam indo bem demais até ali! — Calma. Pronto. Ela e Mitch haviam sido usados! Kelly avisara ao detetive assim que recebera o telefonema combinado e logo em seguida apanhara seu carro esporte e saíra atrás de Stone. a refeição não fora mais que um pretexto. Precisava impedir que ele cometesse a maior estupidez de toda a sua vida. Andriotti e Echeverria não eram idiotas. pois não haviam sequer almoçado.. Escondido em meio às sombras. estava na parte mais interna dos jardins da Anscott. esgueirou-se para o interior da fábrica e se escondeu atrás de uma empilhadeira. Raios. o momento de derramar sangue em troca de sangue.isso não amenizava a dor daquela traição. Parecia óbvio que estava chegando a hora de entregar as provas todas à polícia. mais baixo. Apressada. si. enquanto o animal se ocupava de devorar a carne. depois. estacionado mais adiante. Will corria para saltar o segundo muro.. Iria vingar a morte de Stephen. exatamente. Will se esforçava por sentir agora o mesmo desespero que sentira ao se ajoelhar junto à tumba de indigente onde fora enterrado seu irmão. Será que Will conseguira burlar a vigilância? E o quê... Enquanto isso Will sairia para comprar o jantar.. parecia estar aceso. garoto — ele murmurou para o dobermann. Mas Will mentira. Céus. como haviam feito nos dias em que tinham montado guarda à Anscott. Aproveitando o momento. ele pretendia fazer por ali? Um pensamento cruzou a mente de Kelly.

Como não ser apanhado pela polícia.. — Se quer saber o que está me preocupando. — E daí? Isso não prova nada! Além do mais. já lhe disse! — gritou a voz irada. não sozinho de todo.. com toda essa arrogância. portas abertas. não têm estômago! Entram em pânico por qualquer besteira! — A discussão prosseguia.. Ou você pretende vencer as eleições presidenciais de dentro de uma cela e fora de seu país? — Você devia ser ator. não? —É verdade. — Bem que eu lhe disse que o administrador tinha que ser um dos nossos! — Ora. e pelo rumo da conversa daqueles dois. o que significava visitas importantes. Sabe como é. Bem. Em seguida sacou a arma e cruzou o setor de embarque em direção aos laboratórios. — Vamos. — Antes que Andriotti pudesse dizer algo. Edward. acalorada. pensou Will. esse sujeito deve estar bem longe daqui! Ele tem seus próprios problemas para cuidar. inclusive uma mulher. Em questão de segundos os dois haviam desaparecido e. que pareciam vir da sala de onde ele. Uma delas se erguia. você acha? E suponho que a sua preciosa carreira não corra riscos. — Ora.. também. Echeverria prosseguiu.. Edward. — Como pode saber se realmente levaram alguma coisa? — disse a voz do estrangeiro. — Só que não podemos nos arriscar a que tudo desmorone sobre as nossas cabeças. a julgar pelo silêncio que o cercou. Will se aproximava aos poucos das vozes. a sorte estava a seu lado! Assim que entrou no corredor dos laboratórios. Mitch e Kelly haviam pego as amostras. estavam falando dele. Will estava sozinho por ali. mas se Duggan atrapalhar darei um jeito nele e pronto.fazem o que ele quer. Nada me tira da cabeça que foi ele... do lado de fora. Rodrigo.. — Ah. Não foi? — Pode ser. claro.... rindo. americanos. lá vem você com suas tragédias outra vez. Mas ainda acho que deveríamos dar um jeito em Duggan. — Saber eu não sei. eles eram educados demais para isso! — Está bem. — Vocês. hombre. isso não parece coisa do nosso lobo solitário. amigo! Está vendo problemas onde não há nenhum! . Edward — disse o mexicano. Não. — Pode ser mas você. Sim. é esse maldito arrombamento. Se o chefe estava de mau humor. Will Stone sentiu o estômago se apertar. relaxe.. ele ouviu outras vozes. a inocência de Duggan nos foi muito útil. Mas não. Mais uma vez. você venceu esta. podemos? Silencioso como um gato. uma boa briga parecia estar prestes a estourar. — Ainda bem que nossos filhos se dão melhor que nós dois. Tem um grande dom para fazer dramas. o guarda disse que eram três pessoas. acidentes acontecem! A risada que se seguiu deu a Stone a impressão de que os acidentes causavam grande prazer àqueles homens... — O miserável sabe que o irmão trabalhava para nós. mais calma e com um carregado sotaque mexicano. Por incrível que pudesse parecer. enquanto durou. pior para ele. por exemplo. enquanto outra argumentava. encolerizada.. não podia ser outra coisa que não um político! Will estava junto à porta. Rodrigo.. afinal a limusine preta estava parada à frente do prédio.

— Deve ter gostado de assistir a meu julgamento. substituído por um olhar cruel. Eu o subestimei! Com a arma apontada para os dois homens. — Não seja tolo. fique quieto pelo amor de Deus — Andriotti pediu... determinado. — Rodrigo. sua lealdade. — Um bom advogado pode invalidar qualquer prova obtida em tais circunstâncias! — Ah. hombre. — Parece que lhe devo desculpas. com boas porcentagens do lucro. — Como em olho por olho. — Echeverria sorriu. dente por dente. ao mesmo tempo em que dava alguns passos para junto de um balcão. E essa é apenas uma das razões de eu estar aqui! — Oh. isso deve ser uma verdadeira mina de ouro. — Pois fabricação e tráfico de drogas são um delito um pouco mais grave. Will Stone entrou no pequeno laboratório e olhou em redor. é claro.. — disse Echeverria. Andriotti empalideceu.. Mesmo naquele momento. meu caro. rolando um charuto entre dois dedos. — Quer se acalmar. — E quem garante que esse infeliz já não avisou à polícia sobre nós? — Andriotti tornou a . passando um lenço pela testa suada.Um breve silêncio sucedeu-se às palavras do mexicano. — Está me oferecendo sociedade nos negócios? — Ora. ao mesmo tempo em que o sorriso cínico desaparecia do rosto de Echeverria. Rodrigo! — Andriotti sussurrou. — Pois você está muito enganado. em tão pouco tempo. — Sim. fui eu o responsável. Nem parecia o lugar onde estivera na noite anterior. que sabe negociar. aquele covarde. não pôde deixar de pensar em Kelly e Mitch. — Achou divertido ver alguém levar a culpa por um assassinato que você causou? — Tem razão. Silêncio cortado por uma voz grave e sinistra vinda do corredor. mas se não é o Homem de Pedra... não acha? Aliás.. — Deixe-me ver se entendi — ele simulou interesse. Stephen deixou você na pior. — Não sabe que invasão de propriedade privada é ilegal? — Echeverria largou a ponta de charuto no chão e a pisou.. então já sabe de tudo! — Sim. expondo dentes tão brancos que fizeram Will lembrar de um certo dobermann.. não foi? Mas admito que admirei seu silêncio. Só que não havia mais um só recipiente com o pó branco ou os líquidos verde e vermelho. — Pode apostar que sim. Curioso como duas pessoas que ele mal conhecia tinham se tomado tão importantes em sua vida. — Dê mais um passo e será um homem morto! — Will apontou melhor a arma. Edward? Não vê que Will Stone é um homem inteligente. — Cale essa boca.. e por que não? — Echeverria sorriu.. Homens assim têm sempre um bom lugar na nossa Organização. Se o Homem de Pedra chegou até aqui. Não é como o irmão. E vai pagar caro por isso! — Ora.. podemos dizer que sei de boa parte do que se passa. não se deixaria derrubar sem luta. — Devo supor que tenha sido você o responsável pelo arrombamento de ontem à noite? — Echeverria perguntou. — Will abriu um sorriso frio. não me diga! — Will fingiu espanto. não? — Will se dirigia ao mexicano. o quadro negro. Pode apostar que sim. o julgamento teve suas graças. Tudo estava em seu lugar: as prateleiras. os tubos de ensaio e demais vidrarias. O mexicano era um páreo duro. E qual seria a outra? — Digamos que seja algo de natureza bíblica.

um perdedor nato. você não tem tutano para isso. — Diga-me uma coisa:meu irmão sabia no que estava se envolvendo? — A princípio não. — Vá para o inferno! O sorriso desapareceu de vez do rosto do mexicano. sempre bêbado. Como seu pai sempre fora! — Você está enganado. Segurou com mais força o revólver. no parque. Stone. Echeverria emitiu uma gargalhada sonora. — Vamos. — Não vê que está dando corda para que ele nos enforque? Tanto Echeverria como Stone ignoraram o outro homem. para prender a ele e não a nós.. tentou cair fora e vocês mandaram matá-lo. Depois. que já passara do medo ao puro pavor.. nesta vida! — O dedo de . então começou a desviar mercadoria e a nos roubar. Cansei de ser um perdedor. um nada. Para falar a verdade.enxugar a testa. não é? — Will olhou nos olhos de Echeverria. Lembranças das rejeições e humilhações constantes. — Como também não esperávamos que você aparecesse para levar a culpa. — Não seja ridículo.. Então por que não deixa que o recompensemos pelo tempo que passou na cadeia? Seria apenas uma retribuição. por que não nos mata logo de uma vez? — Echeverria o desafiou. Sabe como é. e com uma arma roubada de nosso arsenal! — Echeverria tornou a sorrir. — É uma pena que tenha estômago tão delicado. Edward. a sangue frio! Como vê. Não podia perder o controle sobre as próprias emoções. quando meu irmão descobriu no que estava envolvido. Stone. Você não é capaz. você nem é homem! Will apoiou a mão direita sobre a esquerda para dar mais firmeza à mira e apontou direto para o peito do mexicano. Lembranças de seu pai.. você não é melhor que nós.. mas Stephen era ganancioso demais. profunda. das dificuldades... você é um perdedor.. mas agora tanto faz. Não esperávamos que seu irmão fosse levar a melhor. — Então. acusando-o de ser um zero.. E isso não podíamos tolerar.. Tão falante e seguro. você é um perdedor. se resolver ficar do nosso lado. Se fosse assim. cale-se! — Andriotti praticamente ganiu. — E é seletivo.. e não era pouco. mas não hesita em matar dois homens desarmados. — Seu irmão era burro demais. — Quer saber de uma coisa? — Will suspirou. — O mexicano deu de ombros. e pelo visto você não é diferente dele! Will sentiu como se tivesse recebido um golpe em cheio na boca do estômago. já estava enterrado na coisa até as orelhas. meu caro. — E isso o que você pensa? Que seu irmão era algum santo? Desculpe desapontá-lo. também! Tem nojo de vender drogas. isto aqui já estaria fervilhando de policiais. seu irmão não era exatamente um sujeito brilhante. antes de dizer: — Errado. Stone. — Não tínhamos escolha! Queríamos que parecesse uma compra de drogas que mal sucedida. Emoções e lembranças o invadiram com a força de um vendaval. E ele sabe que nós o livraremos desses problemas. — Então vocês arranjaram para que ele fosse morto por aquele homem. — Talvez não seja mesmo. quando se deu conta. E sempre a voz de seu pai a dizer: você é um perdedor. — Rodrigo. tão presunçoso... isso sim! Queria mais dinheiro do que já estava ganhando. meu caro? Will correspondeu ao sorriso de Echeverria. enquanto Andriotti começava a tremer descontroladamente. — Não.. Certo. Echeverria. Echeverria. Mais uma vez Will se forçou a ignorar a provocação. E fique sabendo que sua oferta me deixa enojado.

. Pelo amor de Deus. Ela lhe parecera desnorteada. Três longos e sofridos dias. — Não! — ela sussurrou. parou de correr assim que ouviu os dois estampidos secos. depois quando assistira a polícia levá-lo embora... Tarde demais para tentar evitar o inevitável. Isso se passara havia três dias... sentimentos de medo e confusão. — Não. Capítulo XV De seu catre.. Will Stone fitava seu pequeno mundo através de espaços entre barras de aço. Apenas o suficiente para honrar uma promessa feita diante de uma tumba sem nome. Ela havia chegado tarde. Tão desnorteada quanto ele se sentia. tão. Devagar. a mão pateticamente estendida em sua direção.. Mil vezes a cada instante ele ouvia os dois tiros que disparara. Apenas o necessário para ajustar as contas pela vida de seu irmão. no espaço de uma semana ele conseguira esquecer o quanto podia ser traumática a experiência de ser encarcerado. primeiro quando ela entrara correndo no laboratório da Anscott. Will. por favor. Já não podia ver a lua nem ouvir o canto dos pássaros. Por incrível que pudesse parecer. não! — Andriotti implorava. — Você é um zero à esquerda. Não podia sentir a chuva fria no rosto. E então os disparos ecoaram pelo corredor vazio. Para um homem que passara a vida toda se esforçando por não sentir nada.. Só assim talvez pudesse compreender melhor o que estava se passando com ele. — A voz de Kelly. com as mãos cruzadas sob da cabeça. rapaz! — dizia seu pai. Kelly. só o fazia por saber que era necessário. Ruídos que não raro se convertiam em gritos de raiva ou desespero. algemado.Will começou a pressionar o gatilho. Dois. — Não acredito que você seja capaz de uma violência dessas.. estava repentinamente inundado de sentimentos.. Mil vezes a cada instante via a expressão no rosto de Kelly. eram os espaços confinados da prisão e os ruídos abafados de outros prisioneiros. O que desejava mesmo era ser deixado sozinho. Desde então não falara com ninguém a não ser com seu advogado.. tão suave. — Você é um perdedor. Tudo o que podia ver e ouvir. num protesto impotente contra o que sabia ser a verdade. como a criatura atormentada que sempre fora. que acabara de entrar no prédio pelo mesmo caminho seguido por Will. Acima de tudo. Um. agora. Devagar. Devagar. porém. — Não! — Will gritou como um animal ferido. Tarde demais para salvar Will de si mesmo..... Todos os ressentimentos e angústias. um perdedor.... segurando um lenço encharcado de suor. devagar. agora. Na verdade não tinha a menor vontade de falar com aquele homem. . tinham retornado de uma só vez no momento em que aquelas portas haviam sido trancadas às suas costas. um perdedor.

Um final feliz. Will aceitou o cumprimento e murmurou um sincero. porém esperneando e fazendo ameaças. pois tratava a todos com a mesma consideração. mas ainda assim nada mais que um momento. levados pela polícia. mas ele tratou de mandá-lo acalmar-se. a começar pela mais intrigante: por que chamara e então esperara pela polícia? Tinha plena certeza de que seria preso. estendendo a mão. Enquanto a liberdade não chegava. você me ouviu? — O guarda acenou para chamar-lhe a atenção. rapaz! Os bandidos foram presos. O político mexicano e o famoso empresário para que aguardassem julgamento. saiu de sua cela. .. tem alguém esperando por você. e a mais ninguém. pronto a tirar-lhes a vida. Gostava daquele guarda em especial. muito obrigado. Talvez fosse engano. — Saia daí. — Boa sorte. ainda que tímido. Will esperara tanto tempo para ouvir essas palavras que não deixava de ser uma grande ironia ouvi-las agora. Naquele momento se dera conta de que caberia a ele. o mocinho está livre. Igualmente algemados. Mas pensando bem. E para todas elas. Will continuava a se fazer aquelas mesmas perguntas. Stone. como ele. Aliás. No dia seguinte à prisão. pois já havia desistido de tentar entender o que se passara entre eles. não como a algum tipo de lixo humano.. um presidiário fugitivo que havia entrado naquela empresa brandindo uma arma de fogo! Mas aquilo tudo valera no mínimo pelo grande prazer que sentira ao ver os poderosos e bem vestidos Andriotti e Echeverria serem. todos os três haviam sido extraditados para o Estado da Califórnia. — Ei. sorridente. obtinha uma só resposta: vivera tempo demais com raiva de si mesmo e do revoltado com o resto do mundo. depois de olhar em redor pela última vez. na penitenciária de Folsom. todos eram muito decentes ali na cadeia de San Francisco.. decidir o que seria feito do resto de sua vida. — Ah. Pior que isso: era para si mesmo um completo estranho. um para cada homem. afinal era um homem condenado por assassinato. girou-a com uma mesura e abriu a porta. sem saber. Muito diferentes do guarda Sapo. talvez o advogado. Como fora ela quem lhe dera um motivo para seguir adiante e o desejo por um futuro melhor. mas por certo não era ela. Por que não matara Echeverria e Andriotti. ele para esperar por uma provável revisão de processo e conseqüente libertação. Muito disso se devia a Kelly. Um homem livre. algo para se lembrar pelo resto de seus dias. não levara seu plano até as últimas conseqüências? Por que disparara dois tiros.— Ei. O guarda inseriu uma chave na tranca da cela. se tivera toda a intenção de fazê-lo? Jamais houvera qualquer dúvida em sua mente a respeito de vingar a morte de seu irmão! Por que. E Will Stone decidira não ser nunca mais um perdedor. que tal? Will se levantou devagar e. lhe dera as bases para aquela mudança de atitude. Essa constatação o atingira no instante em que se colocara diante dos assassinos de seu irmão. antes que eu me esqueça — disse o guarda —. Logo agora. Fora ela quem. contra o simbólico alvo do teto daquele laboratório? Já fizera aquelas perguntas a si mesmo no mínimo umas cem vezes. então. Fora um momento ímpar em sua vida.. Will não queria que fosse Kelly. Stone — disse o guarda. lá fora! O coração de Will saltou dentro do peito. e já passava da hora de parar. Stone? Will voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com o de um guarda. quando se sentia mais cativo que nunca. — Pronto! Você é um homem livre — anunciou.

Por serem ambos homens públicos. de modo que teriam de ser punidos exemplarmente para satisfazer a opinião pública. a serviço.. Informações vindas de pessoas dentro do Departamento de Polícia e da Promotoria. No fundo Will sabia que o fato de uma certa ruiva morar ali havia influenciado em sua decisão. com um largo sorriso nos lábios. Não havia futuro possível para eles. naquela manhã. gostei da cidade. Segundo o detetive. — ele pigarreou. caminhou em direção a ele.. com uma naturalidade que espantou até a si mesmo. Mitch Brody não mentira.. — Bem. pelo qual Will fizera questão de pagar. levando tudo o que tinha de seu dentro de um embrulho de papel.. Will pensou em recusar. O que houvera naquelas últimas semanas criara uma amizade que ele não queria perder. embora os acusados dispusessem de meios para contratar os melhores advogados. na verdade uma sobreloja de três cômodos sob a qual ficava seu escritório. ela não deixou nenhum recado para você. Fora uma tolice.Em poucos minutos. que tal ficar em meu apartamento? — Mitch ofereceu. Stone. o que pretende fazer agora? — Encontrar um lugar para morar e então sair à procura de um emprego — Will respondeu. Seu apartamento.. — Ela telefonou hoje pela manhã — Mitch encarou o amigo de frente. mas tem um sofá cama razoável na sala. mas preferia não pensar nisso agora. e que ele fez questão de passar a Will durante um suculento almoço de comemoração. a cada vez que precisar depor. A notícia da viagem não foi surpresa para Will. — Sim. o tempo logo transformaria isso em mero detalhe. mas não quis magoar Mitch. mas. — É seu filho? — Will perguntou. — Então vai ficar aqui em San Francisco? — Sim. É só até eu conseguir me ajeitar. porém ainda não conseguira escolher o melhor momento para dizer ao amigo que Kelly Cooper havia telefonado. Ao final do almoço. claro. Mitch Brody se pôs em pé e. O tom de Mitch não encorajava maiores avanços. ao menos até o final do julgamento daqueles dois. aquele já era considerado um caso perdido. à sua espera. Além do mais. pensou Will. De qualquer modo. Não me agrada a idéia de ficar indo e voltando de algum lugar. depois de já ter feito a pergunta. — Enquanto não encontra um lugar. desde que eu e ela nos separamos. — Não é nenhum hotel de cinco estrelas. E embora estivesse feliz por ver o amigo. ao ver o retrato de um garotinho louro sobre a mesa de centro. Mitch. — Obrigado. mas era habitável e arejado. além de ter um detalhe muito importante a seu favor: não era a cela de uma prisão. não menos delicado: — E então. Mitch Brody levantou um outro assunto. ab menos daquela vez. Will percebeu que uma parte dele tivera esperanças de encontrar Kelly ali. O nome dele é Scott e vive com a mãe. não oferecia qualquer luxo.. Will. Mitch tinha um punhado de notícias frescas sobre o caso Echeverria-Andriotti. dentro e fora do país. E colocada a questão nesses termos. já que fora ele o principal motivo do . de modo que Will mudou de assunto: — Tem tido notícias de Kelly? — Não era bem esse o assunto que pretendia abordar. Não eram apenas essas as notícias que Mitch trazia. Will apareceu na sala de espera da prisão. a repercussão de seu envolvimento com o submundo do narcotráfico e do crime organizado fora grande demais. — Disse que estava a caminho da Europa. até mesmo o cético Will Stone começava a crer que a justiça enfim seria feita.

como se fosse um criminoso de alta periculosidade. Ainda que momentâneo. Não se lembrava nem mesmo de como conseguira chegar ao laboratório.. sobre o seu. Ou melhor. Assim..... algo com que ia acabar se acostumando. ela não tinha certeza de como Will lhe parecera. e de maneira tão profunda que chegou a lhe fazer revirar o estômago.. caso continuasse perto daquele homem. O frio que ela passara a sentir depois daqueles disparos se prolongara depois. Tomou um gole do chocolate quente que a aeromoça acabara de servir. uma reportagem digna de premiação. Aquele frio terrível. desde que ouvira aqueles dois tiros. Sim. Passou pela cabeça de Will que ela havia conseguido dele a única coisa com a qual se importava: uma boa história. Talvez tão surpreso quanto ela ao ver que aqueles homens ainda estavam vivos. Durante aqueles horríveis segundos ela havia parado de viver. era como se jamais tivesse estado viva. naquele momento. a estava acompanhando já havia alguns dias. ele não estava surpreso. Riu.. É bobagem minha — Will deu de ombros. Quanto a Will. Will Stone era perigoso de fato.. Não. Aquela idéia o magoou também. pois era capaz de invadir seu coração de um modo que homem algum jamais pudera. Mais breve impossível. mas apenas para si próprio. que parecia brotar de dentro dela. o calor da bebida serviu para reconfortá-la. Estava magoado... Na verdade.. E a idéia de jamais voltar a sentir-se tão completamente viva era algo que a . mais nada. antes. Lembranças dos beijos de Will. Kelly não conseguia se aquecer nem conciliar o sono... enquanto via a polícia levar Will embora. mas indubitavelmente confuso com o inesperado desfecho dos acontecimentos. — Não se preocupe com isso. um cartão de boa sorte. Aquele frio era resultado do medo. Mais uma vez Kelly tentou explicar a si mesma o que havia significado aquele breve interlúdio amoroso. Só o que se lembrava era de ter visto que Andriotti e Echeverria estavam vivos e ilesos. mas de algum modo estivera esperando que ela lhe mandasse um bilhete. sem vontade. de jeito nenhum. qualquer coisa. Medo do que poderia acontecer. — Quem deve muito a ela sou eu e não o contrário. enfim! — Sinto muito — disse Mitch. embora tivesse consciência de que estava mentindo para si mesma. agora a fugitiva era ela. E agora aquele frio em seu corpo. acabara por fazer o que sempre fazia. Para ser mais exata. Algemado e acorrentado.adiamento. aliás. mesmo! Não que tivesse esse direito. Kelly tentava convencer-se de que aquilo não passava de uma gripe mal curada. ecoando em meio ao silêncio do prédio deserto da Anscott. dois estampidos secos e sinistros. Fugira do país. para si próprio e para ela.. O que ele não daria para tê-la em seus braços! Apesar de bem acomodada na poltrona do avião e envolta em um grosso cobertor de lã. tentando fazer-se de indiferente. Bem. Mesmo agora podia escutá-los. talvez com raiva de si mesmo por não ter ido em frente e dado cabo dos dois. E no entanto tinham sido as horas mais marcantes de toda a sua vida! Horas durante as quais se havia sentido mais viva que nunca.. de Will e de si mesma. do calor do corpo dele junto ao seu. Kelly Cooper.. O que ele não daria para dizer-lhe umas verdades. mas também trouxe consigo as lembranças mais inquietantes. Sim. pois não havia durado muito mais que algumas horas. diante de situações que não conseguia resolver: fugira. se bem que pálidos de medo.

mas então se lembrara do quanto sua própria vida mudara após uma semana de convivência com Kelly e concluíra que valia a pena. Apenas aos poucos estava aprendendo a conviver com seus próprios sentimentos e com o novo homem no qual ia se transformando. e sim uma paz que ele jamais havia conhecido.. As imagens que capturava em um filme eram permanentes. parecia ter um verdadeiro dom de destruí-los e seu trabalho era a única coisa que lhe trazia uma satisfação mais duradoura era o seu trabalho. era sua capacidade de construir-se a si próprio. Duas noites por semana. Onde estaria ela. Ela era péssima. agora? Será que pensava nele. ele havia conseguido um emprego como carpinteiro numa loja especializada em armários sob medida. E era aquele o ponto central de toda a questão. Will passara a trabalhar como voluntário num grupo de ajuda a menores carentes. além do seu emprego. implorando que alguém os notasse de forma positiva. A princípio se questionara quanto ao impacto que poderia ter um programa de dois meses sobre a vida daqueles jovens. Aconchegando-se melhor sob o cobertor. Uma semana depois de ter ido morar com Mitch. afinal. quando o assunto era relacionamentos. cada vez mais. constantes. fiéis. Uma coisa.enchia de medo. agora? Será que permaneceria em San Francisco? Será que manteria contato com Mitch? E o que. Além do mais. reunia-se com um grupo de garotos do centro da cidade para ensinar-lhes o seu ofício. contudo. De fato. Alguns dias mais e encontrara para si um apartamento pequeno. . Mitch parecera um tanto triste por vê-lo partir. no sentido mais verdadeiro da palavra. E o mais curioso de tudo foi que essa constatação não lhe causou medo algum. imaginou se Will já teria sido libertado. Estavam lá. no contato com as crianças ele acabava por conhecer a si próprio. se havia algo de curioso a respeito do futuro. ao longo de uma noite em que tivera apenas as lembranças por companhia: estava apaixonado por Kelly. por mais simples que fossem. No fundo ele ainda se considerava um fugitivo. Will havia descoberto sem a ajuda de ninguém. ao menos de vez em quando? O mês de setembro se acabou e outubro trouxe consigo o frio do inverno que se aproximava.. a cada vez que as procurava. cujo aluguel lhe consumia quase a metade do salário. o que ele iria fazer. da mesma forma que Will continuava a ser um mistério para si mesmo. rebeldes. aquela semana que haviam passado juntos significara para ele? Capítulo XVI Will acabou por concluir que. imutáveis. Agora. Apesar da convivência. ainda eram algo novo e ainda o amedrontavam. cada uma dessas mudanças ele gostaria de poder compartilhar com Kelly. Meninos que o faziam lembrar de si mesmo naquela idade: desfavorecidos. Tudo isso.. porém.. problemáticos. Kelly. ainda havia todo um lado de Mitch que permanecia como verdadeiro mistério para Will. dia após dia. Emoções. pois a amizade entre os dois vinha se tornando cada dia mais sólida. Em caso positivo.

Boa parte da carta se referia à situação de Echeverria e Andriotti. o maldito carro parava de funcionar. e ao julgamento que estava marcado para o começo do ano seguinte. Tudo ótimo. quase sempre sem que ele notasse. em toda a sua vida. o que só servia para lembrá-lo de que já não era um policial. Retratos que ela fizera durante a semana que haviam passado juntos.. Estava encharcado até os ossos e jamais. ansiara tanto por um grande gole de uísque. homem algum soubera. Por menos que quisesse admitir. desde aquela semana que passara com Will e Kelly. seu corpo. E de uma forma que. Primeiro prometera a si mesmo que completaria aquela investigação sem recorrer à bebida. Speedy Talbot. até então. Naquela mesma noite. um retrato em close que o apanhara de surpresa. momentos capturados para sempre em filme e papel. Foi a gota d'água. em Seattle. Nem ao menos um recado. Não punha uma só gota de álcool na boca.. a aspereza da barba de encontro à sua pele. mas de nada adiantou. No último dia de outubro.. estava amando Will Stone. Em outra. numa tarde fria e chuvosa. Isso porque agir de outro modo seria tirar vantagem de Will. tudo muito bem. Ao pousar os olhos no envelope tão gasto e amarrotado que parecia ter rodado metade da Europa em seu encalço. Rasgou o envelope com mãos trêmulas. onde deveria executar a última parte do serviço para o qual fora contratada. do apartamento onde o amigo estava morando... o que tornara mais fácil suportar a solidão. Depois continuara sóbrio por uma questão de amor próprio e então Will viera morar com ele. que piorava à medida que avançavam as investigações. Tentara uma dezena de vezes telefonar para seu filho e cumprimentá-lo pelo aniversário. Mitch entrou praguejando em seu apartamento. apenas para descobrir que o menino fora viajar com o novo namorado de Connie. os olhos escuros pareciam estar olhando direto nos dela. Era como se pudesse sentir o calor dos lábios dele. olhando pela janela do hotel como costumava fazer. E porque mais tarde se dera conta de que não as havia feito para outros olhos que não os seus. mais uma vez incapaz de dormir. Eram de Will. a transmissão do automóvel de Mitch Brody parou de funcionar de uma vez por todas. para que eles três pudessem se reunir de novo. do trabalho com as crianças carentes. guardadas no fundo de sua mala. Na primeira foto Will estava de costas. Kelly correu os dedos sobre o papel. Aquele estava sendo o pior dia de sua vida. Imagens roubadas. E agora. O detetive falava ainda do emprego de Will. Era demais para qualquer ser humano. Saíra para almoçar com seu antigo parceiro.A carta de Mitch Brody chegou às mãos de Kelly às vésperas de sua viagem para a África. ansiosa por saber notícias de Will. mas que haviam acabado ali. Will Stone tocara muito mais que sua pele. Perdera um cliente de cujo dinheiro realmente precisava. Tocara seu coração. Por menos que quisesse admitir.. Agora estava sozinho de . que ela pretendera vender para alguma revista ou mesmo expor numa galeria. Kelly disse a si mesma que era bobagem ficar desapontada por causa daquilo. Com um embrulho nas mãos. para piorar tudo. Em seguida Mitch perguntava quando ela pretendia voltar. mas não havia uma só palavra de Will ali. e da pior forma possível. Kelly saiu da cama e apanhou em sua valise um envelope com algumas fotos que guardava à parte. sentiu o coração bater mais forte.

. Saiu do apartamento e foi atender o telefone no corredor estreito. Sentia-se apenas vivo. Will começara a guardar dinheiro para comprar um túmulo decente para Stephen.novo e não via motivos para continuar lutando. onde havia um telefone comunitário. — ela pigarreou. estou aqui. era diferente. porém. hoje à tarde. a qual tratou de entornar num único gole. — Estou aqui no apartamento de Mitch. de si mesmo? Engraçado. sensuais. do verdadeiro Mitch Brody.. Consultou o relógio da parede. Com mãos trêmulas de ansiedade. mas desde que conseguira o emprego passara a mandar todas as semanas uma certa quantia para a conta bancária de Kelly. já não pensava. Primeiro houve um silêncio um tanto longo e então. de modo a ir descontando de sua enorme dívida. Stone! Ligação para você — uma voz o chamou. eu.. Agora. Mitch foi até a cozinha e desembrulhou a garrafa que trouxera consigo. — Mais um daqueles seus trabalhos digno de prêmio. sequer. Ele costumava imaginar o que sentiria ao reencontrar Kelly. até de viver. como se o cinzento do mundo de repente se tingisse de cores brilhantes. e deixou de lado o dinheiro que estivera contando e separando. A partir da quarta dose dispensou o copo. certo? — Houvera um tempo em que ele teria dito isso com uma tremenda carga de sarcasmo. Will estranhou. pegou um copo e serviu-se de uma dose mais que generosa. um dia. Will vinha se sentindo muito bem consigo mesmo. — Pronto. vinda do corredor do prédio. — Will? — ela repetiu. mas agora não sentia nenhuma dessas emoções.. e. Talvez em conseqüência de seu próprio amadurecimento emocional. Quem poderia impedir? Sem se importar com as poças de água que ia deixando pelo assoalho. . Não que fosse muito. nos últimos tempos... Tentara fazer o mesmo para pagar o que devia a Mitch. ainda.. mas o detetive se recusara terminantemente a receber um dólar. Pode falar.. — Olhe. Para a terceira foi sentar-se no sofá da sala com roupas encharcadas e tudo o mais. Will agora se via desejando sinceramente que ela um dia fosse forte e segura o bastante para não precisar viver lutando por prêmios. Conhecia poucas pessoas na cidade. mas acabei de chegar em San Francisco. Assim. Sim. — Ei. Queria um gole de uísque e o teria. — Will? Aquela voz suave trouxe de volta lembranças de cabelos cor de fogo e lábios macios.. portanto era raro que recebesse chamadas. embora duvidasse que isso pudesse. ele já não distinguia mais nada. Serviu mais uma dose e deu a ela o mesmo destino. para saldar sua dívida com Kelly ou juntar dinheiro bastante para um túmulo. pois já não conseguia transferir o líquido da garrafa sem derramar metade. Levaria algum tempo. Estava cansado de tudo. vir a acontecer. — No apartamento de Mitch? Pensei que estivesse na Europa! — De fato eu estive na Europa e depois na África. Em questão de minutos restava pouco daquele homem.. — Sim. Nada mais importava. Ficaria com medo? Ficaria aliviado? Teria raiva dela. mas cedo ou tarde ele conseguiria fazer as duas coisas. Com a consciência afogada em álcool e o raciocínio embotado. Profunda e totalmente vivo. que marcava quase nove horas da noite.

— Por algum motivo. mas foi só por um momento. mais aliviada. — Está bem. sim? Enquanto eu não chego. Mas você vem.. — disse ela. Não era o tipo de cansaço. ela encheu uma caneca grande e foi sentar-se perto do amigo que continuava exatamente como o deixara.. a voz pastosa. Ele resmungou algo ininteligível. não entre em pânico. Deu alguns tapinhas no rosto dele. Com mais aquela palavra. — Sim. aquilo não soava como surpresa para Will. cuidad. sou eu! — Ela respirou. não é? — Estou a caminho. Will notou. a fitá-la. — Não tive tempo nem de forçá-lo a tomar um pouco de café. — Mitch acordou. Ele vai ficar bem.. — Cuidado com eles. Parecia emocionalmente exausta. — Você entendeu? — Oh. Ela estava cansada... que Kelly tivesse passado todo aquele tempo pensando tanto nele quanto ele mesmo havia pensado nela. claro. ela não ouviu sequer os passos na escada e. que uma boa noite de sono pudesse aplacar. pensou Kelly. Kelly ainda estava sentada ao lado de Mitch. me reconheceu e apagou de novo. ele está encharcado! — Will acomodou melhor o amigo no sofá e se voltou para . ao ouvir um ruído e erguer a cabeça já se deparou com ele dentro do apartamento. ele tornou a mergulhar no sono intoxicado pelo álcool. — Mitch está bêbado. quando Will chegou. — O que houve? Você parece preocupada... — Não. Quero dizer inconsciente. cuidado que te pegam! Pior que a voz arrastada e as palavras incoerentes. mas por algo mais profundo e impalpável. como se agora houvessem nele a segurança e a paz que antes lhe faltavam.. ele insistiu. — Céus. Tentei ajudá-lo. — Quando Kelly não respondeu. só mesmo o hálito de bebida. daqueles bem fortes. Não apenas pela falta da barba ou o novo corte dos cabelos.. sim? Ele me parece estar muito mal! Espero que não seja nada grave. mas não consegui. fez uma careta e abriu um olho só.. vá preparando um café. do modo mais egoísta. — Mitch? Ei. mas me faz um favor. Mitch. Por causa do barulho da chuva. ignorando o comentário.. mesmo. Kelly se pôs em pé.. está apagado como uma lâmpada! — Calma. porém. Afastando os cabelos ruivos da própria testa.— Você poderia vir até aqui? — ela perguntou.. Kelly fez o mesmo e então foi para a cozinha. Parte dele queria reconfortá-la. Pronto o café. mas outra parte continuava a desejar. — Tome. Acho que desmaiou no sofá. — Kelly? — murmurou. Por um segundo. sim. ambos sentiram o mundo parar em seu eixo. como se as últimas semanas tivessem sido difíceis. num gesto que era para ele dolorosamente familiar..... tentando não pensar na possível gravidade do estado de Mitch nem no fato de ter acabado de falar com Will. Vá fazendo o café! Dito isto ele pousou o fone no gancho. pensou Kelly.. como a porta estava destrancada. — Venha rápido. beba isto. — Estou a caminho. Ele só resmungou algumas coisas incoerentes. Ele estava mudado.

Falta de provas ou coisa assim. mas não é preciso conhecer alguém a vida toda para saber do que é ou não capaz! E Mitch não seria capaz.. — Ela se calou ao ver o meio-sorriso nos lábios de Will. — Will lhe deu mais café. — O que foi? No que está vendo tanta graça. mais alto.. quando se revolta com alguma coisa. — Mitch.. voltava com uma xícara fumegante. — Mas que mulherzinha. — Will deu de ombros. Não fui eu! Nunca aceitei suborno! — Mitch agarrou-se à gola do amigo. Kelly se deu conta de que tudo o que sentia por Will era correspondido à altura. um ano e meio. Já havia me esquecido de como pode ficar toda agitada. — Mas não sei como foram desconfiar dele.Kelly. Mitch. e essa constatação a deixou ao mesmo tempo exultante e assustada. Will ergueu o amigo no colo sem grandes dificuldades e o levou para o banheiro.... depois de o haver despido das roupas molhadas e colocado na cama para dormir. levantou-se do sofá e foi apanhar mais café para si. — Como pôde deixar o marido numa hora como essa? Sei que não conheço Mitch a tanto tempo assim. Ei. nisso eu aposto meu pescoço. — Ei.. Agora estou me lembrando de um caso que aconteceu há cerca de um ano.. — Conseguiu entender o que ele dizia? — ela perguntou. sim? Ela saiu para a cozinha e. acorde! Que tal voltar para o planeta Terra? — Hummm? — Mitch! — Will chamou. claro! — Bom! Que bom. para aquecêlas. nem de como era sentir o seu corpo junto ao meu. tornando a bater-lhe de leve no rosto. — Hora de acordar e enfrentar a ressaca. em questão de segundos. mas parece que o processo jamais chegou a ser formalizado. — E do que mais você esqueceu? — os olhos dela pareceram perguntar.. — Quero meu filho! — Mitch resmungou. Will retornou à sala onde Kelly o esperava.. — Traga um café. ou sob o meu. um pouco mais claramente.. imagine. — Acho que vou passar mal! Contando com a vantagem do físico mais avantajado. a cada gole um gemido de protesto do amigo. Will notou que a xícara dela ainda estava cheia... Um policial foi acusado de corrupção. Meia hora mais tarde. — De nada. E dentro de seu . — Você acredita em mim? Acredita em mim? — Claro.. em silêncio. mas uma coisa eu sei: se ele diz que nunca aceitou suborno.. não? — Kelly segurou a xícara com ambas as mãos. o café fora um pretexto. amigão. — Eu não peguei aquele dinheiro. Mitch não é um corrupto. Will Stone? — Em você... — o detetive olhou nos olhos de Will.. então nunca aceitou. — Nem dos seus beijos. eu sei.. Will se ajoelhou no chão e deu alguns tapas no rosto de Mitch. está melhor? — Não. Será que esse policial era Mitch? — Talvez. Ponto final. Will forçoulhe uma boa quantidade de café amargo garganta abaixo. — Mitch fez uma careta. saia daqui! — Só depois que você tomar um pouco disto! — segurando o queixo do amigo. Mitch. enquanto servia um pouco de café para si e para Will. — Não muito bem.. — os dele responderam.. Até a esposa o deixou. ela era péssima para lidar com relacionamentos! Confusa. Diabos.. vamos! — Nãão. — Eu sei... ainda um pouco assustada. — Também penso assim.

— Eu preciso saber uma coisa. Pensei que era só assim que sabia atrair as pessoas.próprio coração ele sentiu ressurgir um medo antigo: Kelly pertencia a um outro mundo. precisava sim.. superar tantas e tão profundas diferenças? — Tem recebido o dinheiro que estou mandando para o banco? — ele perguntou quando Kelly voltou da cozinha. Talvez ele tivesse razão. talvez até uma pitada de medo. De repente a mão de Will a segurou por um braço e a fez girar para encará-lo de novo. ele insistiu. calada.. — Sim.. Só num segundo momento notou o brilho divertido nos olhos verdes. acho que vou embora.. Stone.. — E o que o faz pensar que não mandei? — Você mandou? — Como ela nada disse. Mas a verdade era que. seus olhos buscaram os dele. — Por que não mandou publicar a história a meu respeito? Kelly parou e se voltou para fitá-lo. de repente.. Seriam capazes de. está bem? Foi só porque eu já tenho troféus suficientes. de preferência não muito inteligente. muito diferente do seu.. A viagem foi longa e eu estou exausta! — Ela apanhou a bolsa. então acho melhor avisar que está devendo muito mais do que pensa. fazer com que gostassem de você: mostrando uma perfeição cada vez maior.. Por instinto. ao menos no que se refere a essas taxas. Não era o melhor dos assuntos. naquele exato momento ela se sentia apavorada. — O quê? — Seus lábios são mesmo como eu me lembro deles? .. — Então estamos quites. — Você mandou a história. — Bom. agora vai me dizer que eu o torturei? — Mas é claro! Quando um seqüestrador pega alguém como refém. evitando o olhar de Will. — Taxas adicionais por tortura mental e emocional. — Você teria preferido que eu pegasse outra pessoa como refém? A voz de Will de repente ganhou aquele tom rouco do qual ela se lembrava tão bem. agora que Mitch já está melhor. Kelly? — Não. sério e surpreso. — Por exemplo? — Kelly conteve um sorriso. — Um pouco de obediência. Eu também as cobrei de você.. descontei do que lhe devia! — Ora. — Ela baixou o olhar. espera por determinadas coisas que são tidas como praxe. mas foi o que lhe ocorreu de mais neutro. — Ah. de ser o que ninguém era. Kelly o fitou. — Olhe... agora andando mais rápido. Mais uma vez ela se voltou para a porta. não veja nisso nada além do que realmente há.. o casaco e caminhou em direção à porta. — ela respondeu. — Bem. — Ah.. — Will abriu um sorriso. Suficientes. Will parou com a xícara a meio caminho da boca e a fitou. — Gostaria mesmo? — Will ficou sério.. Afinal o seqüestrador seria em princípio um sujeito mau! — Então devia ter pego uma refém mais dependente e medrosa. Kelly sentiu-se um tanto sufocada. — Por quê? — ele perguntou. — Mas não precisava. — Nunca pensei que fosse ouvi-la dizer isso.. — ele murmurou. juntos. Talvez ela estivesse cansada de ser perfeita. Não seria correto.

. — Não adianta fingir que não sabe do que estou falando — Mitch prosseguiu. você também me assusta! Capítulo XVII Uma semana depois. Viver um dia de cada vez. — É. — disse o detetive. Will se dava conta de que aquele conselho também servia para ele. — Como são em sua memória? — Macios. — Você não tem que pensar em como passará o dia de amanhã ou a semana que vem. Quase duas. tão. apenas olhando enquanto os lábios dos quais ele acabara de falar se entreabriam para receber os dele num beijo tão cuidadoso e delicado que ela chegou a pensar que estava sonhando. Queria continuar a vê-la e a beijá-la. quando voltava com o amigo para casa. Will Stone! — Bem. sem fôlego. Ele e Mitch estavam jantando juntos.— E-eu.. Depois de ter visto Kelly de novo. bem devagar. — Precisa apenas se manter sóbrio hoje. Mitch — Will repetiu um dos mandamentos do AA... Com o gosto da boca dele ainda pairando na sua como o de um doce. talvez a reação não fosse dirigida apenas a ele e sim a qualquer homem que ameaçasse mexer com seus sentimentos. — E não faça essa cara de surpresa por eu saber do que há entre vocês. Ficou imóvel. quase uma semana depois daquela primeira reunião no AA. Tinha que ser mesmo sonho ou ilusão. A única coisa que o ajudou a suportar a dor e a humilhação foi a presença de Will. desde que vira Kelly pela última vez.. tê-la beijado outra vez. eu não sei — ela sussurrou.. e suspirou. — Eu não sei como vou conseguir me manter sóbrio amanhã e depois e depois. Nada no mundo poderia ser tão doce. estava mais perplexo e infeliz que nunca. Mitch Brody se levantava e anunciava perante o grupo de estranhos. também não deve . ser também um alcoólico. moça. Seria possível que ele. Não precisa nem ser detetive para ver! — Se não precisa ser detetive para ver que houve algo entre nós. — São mesmo como eu lembrava. durante uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. — Ele respirou fundo. Tão macios que me deixavam louco. Will Stone. pegou Will de surpresa.. Será que era só a minha imaginação? Kelly não sabia o que dizer. considerando seu divórcio e as razões que a tinham levado a isso.. direta e sem rodeios. lembra-se? Mesmo enquanto falava com o amigo. tão terno. o que pensar. Kelly murmurou: — Você me assusta. e que lutava contra isso. Mas. tivesse algo a oferecer a uma mulher como Kelly Cooper? — Quando é que você e Kelly vão parar com esse joguinho de esconde-esconde e ficar juntos de uma vez por todas? A pergunta... Queria dizer-lhe que estava total e perdidamente apaixonado! Sabia que Kelly também sentia algo por ele... tão perfeito! Will afastou seus lábios dos dela.

. Will fez menção de dizer algo. Podia não ter diploma universitário ou situação financeira invejável. E se isso não significava alguma coisa. Afinal.. Mas que diabos. também sem nenhum rodeio. imagine! Seja quem for que fez isso. ele abriu a lista telefônica e a folheou com verdadeiro desespero até encontrar o número de Kelly e discá-lo tão rápido quanto possível. mas e daí? Não soubera caminhar com suas próprias pernas para o lado certo? E depois de tudo por que passara nos últimos meses. tão enevoados quanto as ruas de San Francisco. Podia não ser o melhor homem na face da terra. Eu vim do lado errado da vida. porém ele o impediu com um gesto. mas nada disso importava. saiu para dar uma volta e respirar um pouco de ar fresco. então nada mais fazia sentido neste mundo! De volta a seu apartamento. O que diria a ela? E como diria? Ou será .. e conseguiu.. Quem preparou a armadilha não foi um amador. Será que estava mesmo apaixonada? E caso estivesse. Um tipo como ele. e o homem que era agora. A moça está apaixonada por você. Alguém queria sujar minha imagem e acabar com minha carreira e minha vida. Quando começou a ouvir o toque de chamada. já esqueceu? — Pode ser. — Olhe. Como um refrão interminável. mas isso não muda um fato básico: a moça está apaixonada por você. Continuou a caminhar.. nascido de sua própria luta contra a injustiça e as adversidades. afinal.. mas acho melhor esquecer esse assunto. não podia permitir que Kelly desperdiçasse a vida ao lado de um tipo como ele! Dentro de Will duas forças contrárias combatiam: o homem que ele um dia fora. ladeira acima e abaixo. aquelas palavras continuaram a ecoar na mente de Will ao longo daquela noite. sim. jamais fora grande coisa. Mitch. quando iria perder essa mania de se considerar um lixo? Certo. — Suspeita de alguém? — Will insistiu. isso não serviria apenas para tornar ainda mais grave a sua responsabilidade para com ela? Talvez. — Verdade? — Verdade.. meu caro. Viera do lado errado da vida. Mas agora já não importa. — Esqueça — Will balançou a cabeça. — Não sou homem para ela. que mais deveria fazer para provar a si mesmo que tinha algum valor? Will continuou a caminhar pelas ruas desertas. — Não se pode acusar alguém com base em suspeitas — disse Mitch. — Will tomou um gole de café. nascemos em mundos diferentes. conformado com a falta de perspectivas que lhe fora imposta pela vida. — Eu e Kelly somos muito diferentes. tinha dinheiro para gastar. a pensar e a se convencer cada vez mais de que talvez tivesse algo para oferecer a Kelly Cooper. — Agora vamos mudar de assunto: tem certeza de que não faz idéia de quem armou aquela enrascada para você? Mitch não disse nada. Encontraram cinqüenta mil dólares na minha conta corrente. diante de uma grande verdade: homem algum jamais teria por Kelly um amor que se comparasse ao dele. cortando o parque no qual vira Kelly pela primeira vez. revoltado.precisar ser muito esperto para notar que não tenho a menor chance — disse Will.. — Mitch acabou de tomar seu refrigerante. sentiu o coração bater mais forte dentro do peito. sem dar a si mesmo tempo para pensar em mudar de idéia. mas nem isso era capaz de clarear seus pensamentos. Ele andou de um lado para outro em seu minúsculo apartamento. eu posso até estar errado. — É com você e Kelly que devíamos estar nos preocupando.

não podia ser assim.. Will não ouviu a lixa de unhas ser inserida na fechadura. talvez o melhor mesmo fosse jogar limpo e dizer tudo o que sentia por ela. Will suspirou e mudou de posição durante o sono. ali. bem devagar. como de outras vezes. mas não conseguiríamos. — Sim. Sim. Ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça. poderíamos. depois de tudo o que haviam passado juntos. Um ruído metálico soou abafado na sala minúscula. fazendo com que a corrente tilintasse. ao mesmo tempo em que pousava uma das mãos sobre a boca dele. Mais um toque. De repente Will se deu conta de que não teria como dizer absolutamente nada a Kelly. Mas o quê fazer. Talvez aquele par de algemas fosse o um modo de ter certeza de que ela mesma não fugiria correndo dali antes de dizer tudo o que precisava ser dito. o que você quer? — Conversar. seu hálito quente a roçar contra o ouvido de Will. que se abriu com um clique suave. Ele se ergueu no sofá e estendeu a mão para acender um abajur. pé ante pé. — Não. Também não ouviu a maçaneta girar ou a porta se abrir. — Fique bem quieto! Ela sentia o próprio coração saltar como louco dentro do peito e podia jurar que o de Will se encontrava no mesmo estado. . Não se esqueça que somos ambos especialistas em fuga. entendeu? Will ocultou um sorriso. praguejando baixinho e imaginando onde Kelly poderia estar a uma hora daquelas. A sombra silenciosa que invadira o apartamento avançou. — Esta bem. Não. também.que simplesmente desabafaria com um prosaico e direto eu te amo! O telefone chamou pela segunda vez... aquela se parecia mais com a mulher teimosa. Devagar.. Ah. admitir que a amava. — E não poderíamos conversar sem isto — Will chacoalhou as algemas. E sensual. independente e agressiva que seqüestrara. — Eu vou tirar a mão de sua boca. — Faça o que eu mandar e não sairá ferido — uma voz feminina murmurou a seu ouvido. Ao menos não naquele momento. então? Convidá-la para sair? Não. Com uma das algemas já presa ao próprio pulso. mas. pois ela não estava em casa. O telefone tornou a chamar. O tempo e o silêncio eram fatores importantes. Bateu o telefone. deixe apagado. Kelly retirou a mão com que o estivera calando. Bem.. e muito. Será que algum dia teria coragem para tentar ligar outra vez? Adormecido no sofá-cama. mas não quero ouvir nem um pio. e antes que me esqueça: eu falo e você escuta. Para Will aquela voz soou rouca e suave. interrompendo pela metade uma imprecação assustada. — Entendeu? — ela insistiu. seria banal demais. entendeu? Ele não respondeu. A voz mais sensual que já ouvira! — Isso mesmo — Kelly sussurrou. a invasora prendeu a outra extremidade ao pulso de Will. embora ele agora soubesse que boa parte da agressividade não passava de escudo por trás do qual se escondiam inseguranças e medos como os de qualquer ser humano..

Kelly tinha certeza de que havia algum motivo para que ele a chamasse pelo nome. — Não. — Bem. estou escutando — disse Will. lá vou eu! — disse ela. Stone. com a voz embargada pela emoção —. você sabe muito bem o que está me impedindo! Sabe que aconteceu algo diferente entre nós e não estou me referindo ao fato de você ter me seqüestrado. simplesmente porque não é mais a garotinha solitária. fiz com que pagasse por todos os erros do meu pai! — Ela suspirou. como sempre lutando contra a vontade de tomá-la em seus braços. na sala iluminada apenas pelo fraco reflexo de um luminoso de rua. — Kelly ajeitou os cabelos com a mão algemada. O modo como Kelly pronunciava seu nome não falhava em lhe apertar o coração. e agora já não havia como voltar. mas você está falando! — Desculpe. desesperada por um pouco de atenção. Ela ergueu o rosto e. uma semana depois... Ou ao menos algo bem parecido com o que ela era. — Estou cansada de fugir.. — E eu quero. — Certo. ameaçava esmagá-lo de uma vez.. para ser sincera. que eu saísse de sua vida e a deixasse em paz. você invadiu minha vida e as coisas não têm sido as mesmas desde então. — Então pare de fugir. saiu dela como se jamais tivesse existido! — Pensei que fosse isso o que você queria. o que o futuro lhes estaria reservando? Tantas perguntas sem resposta a deixavam frustrada! — Olhe.. fazendo com que o silêncio na sala parecesse ensurdecedor... se fosse mesmo esse o caso. antes. — Ora. Pobre Gary. — Quando? — Na noite em que você entrou em meu apartamento para me seqüestrar. arrastando junto a de Will. Ora. ou queria. olhou nos olhos de Will. Will. Naquela noite você invadiu minha vida e.. Meu desempenho era apenas mais um pretexto pois ele estava sempre envolvido demais com o seu trabalho e a sua própria vida para se dispor a me dedicar mais tempo ou a dar mais de si mesmo. combinado com tudo o que ela acabara de dizer.estou cansada de tentar agir como se fosse. E então apareceu Gary. Você não faria isso — disse ele. — Você nunca me chamou assim. lá estava eu cuidando de minha própria vida. — E o que a está impedindo de ter sua vida de volta? — ele perguntou naquela sua voz grave e sensual. mas. E isso. agora. num tom estranho. Ela havia cruzado um limite.. Kelly. .. qual? Será que Will Stone também queria parar de fugir? E. E sabe qual é a maior ironia? Meu pai nunca se importou de verdade com isso. pois jamais sinto que seja o suficiente para manter junto de mim as pessoas a quem amo. Estou cansada de tentar conquistar o amor das pessoas com isso! No fundo não importa quantos prêmios eu ganhe. é bem provável que eu voltasse a cometer os mesmos erros. eu sei. — Quero minha vida de volta. sei que não sou perfeita e. — E se quer saber do pior. — É.. Kelly — ele murmurou.— Muito bem.. Will.. Foi algo tão assustador que nós começamos a fugir um do outro no minuto seguinte e não paramos de correr até agora! Kelly se calou de repente. — De qualquer modo — ela prosseguiu —... se me casasse com você! Ao ouvir falar em casamento Will pensou que seu coração fosse parar de bater..

. eu sei disso! — Kelly suspirou. com os olhos cheios de lágrimas. — Bem. — Não está? — Sim — ela sussurrou. apesar da restrição imposta pelas algemas. Um homem que voltara as costas ao passado e começava enfim a seguir em direção ao futuro. ..Agora você sabe que seu pai não era perfeito pois. — Kelly hesitou. — Sei que você poderia conseguir alguém melhor que eu. por que você teria que ser? O amor não exige perfeição. — Shh! — Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. Ninguém amou nem vai amar você mais do que eu. acho que você vai ter que se conformar em ser meu refém pelo resto da noite! — Que tal pelo resto da minha vida? — ele murmurou. — Não acredito! — ele também se pôs a rir. — Trato feito — Kelly sussurrou. naquele momento. mais segura e decidida que nunca. — Kelly riu. Ele a puxou para junto de si e por um instante Kelly pensou que a fosse beijar... e nunca... — Eu estou amando você? — Não está? — Quando ela não respondeu. Cheio de ternura. E se ele não tinha que ser perfeito para que o amasse. mas eu te amo mais do que à minha própria vida. permitirei que você me faça ir embora. tão baixo que Will a escutou mais com o coração que propriamente com os ouvidos. — Quero ouvi-la dizer. — Eu te amo — ela disse.. mas algo impediu seu movimento. envolta num profundo silêncio.. — Will.. mas nunca mesmo. Longe de estar saciado mas ávido também por olhar nos olhos dela. Kelly. sempre caindo em cachos desordenados sobre a testa. Will interrompeu o beijo. — ele pediu.. — Will. num fio de voz. Beijou-a não como o perdedor que sempre pensara ser. de repente. sempre que você precisar de mim. para em seguida repetir. que tal se agora você me entregasse a chave destas coisas? — Que chave? — A chave não ficou com você? — Ora.. porém os lábios dele pararam um pouco antes de tocar os seus.. — Eu te amo. Eu jamais vou te deixar. — Sei que você poderia ter alguém muito melhor. — Escute bem. Will Stone. — É. tocou os cabelos cor de fogo. eu nem sabia onde tinham ido parar essas algemas! — Você não. A fraca luminosidade que entrava pela janela não permitia uma visão mais detalhada. mas mesmo assim ele ergueu a mão que lhe restava livre para acariciar as maçãs do rosto de Kelly. Eu te amo! Só então ele avançou os poucos milímetros que ainda faltavam e a beijou com sofreguidão. teria sabido reconhecer as necessidades da filha e tentado corresponder a elas. Tentou erguer a mão para acariciar o rosto de Will. mas como o novo homem que era agora. Era o que ela mais queria.. Will Stone. Kelly Cooper! E pode ter certeza de que vou tentar estar por perto. Kelly. um segundo antes que os lábios de Will buscassem mais uma vez os seus.... onde sabia estarem as sardas que davam a ela aquele ar de garota travessa. você não estaria amando um sujeito como eu! Aquela frase pairou no ar. Se fosse assim. pois nunca mais vou dizer isto enquanto viver — ele sussurrou. Muito melhor. Will tomou-lhe as mãos entre as suas. se ele fosse. — E eu.

Condição atual: exílio voluntário. uma tentativa de resgate mal-sucedida fez Jake abandonar tudo e perder a vontade de viver. E lado a lado.. Charles. uma autora de prestígio que já recebeu numerosos prêmios.. em Shreveport.ENTRE O PERIGO E O DESEJO Maura Seger . PRÓXIMAS EDIÇÕES 12 . por ter sido a primeira vez que escreveu histórias interligadas. A autora sentiu-se particularmente motivada por este romance e por sua continuação.divorciada e mãe de uma criança seqüestrada.***Fim*** Este é o sétimo romance escrito por Sandra Canfield. Agora. inclusive duas indicações para o RWA Golden Choice de melhor romance do ano. Rachel Dryden . A beira de um grave ataque de nervos. Sandra mora com seu marido. que será publicada dentro de alguns meses.agente do FBI especializado em encontrar crianças desaparecidas. Jake e Rachel descobrem que o amor não escolhe ocasião para florescer.CORAÇÃO DE GELO Ann Williams Jake Frost . em sua difícil busca. o pedido desesperado de uma mãe obriga-o a esquecer sua própria dor e ajudar quem lhe pede socorro. Mas Jake se recusa a escutar os apelos de seu próprio coração. 13 . Tempos atrás. no Estado de Louisiana.

Tem certeza de que encontrará segurança na pacata cidade onde cresceu. A ameaça aproximase. e onde está o perigo? . os ombros largos de Mark parecem protetores e atraentes para ela. onde reside a segurança. surge Mark Fletcher. despistando quem persegue a ela e a seu filhinho. incendiando-lhe o sangue nas veias. Em meio às trevas do pavor. afinal. o perigo a segue de perto.. Mas. Lisa Morley respira mais aliviada. embora seu olhar sensual a faça se sentir vulnerável! O desejo toma conta de Lisa.A medida que seu carro se afasta de Nova York. Contudo. saído das más lembranças de seu passado.. congelando a alma de Lisa! De repente.

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