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EDUCAÇÃO INFANTIL

Luciana Caiado Ferreira

Promotora de Justiça do Estado do Rio de Janeiro

A Constituição de 1988, que elevou a educação à categoria de direito público,

estabeleceu, em seu art. 208, IV, como dever do Estado com a educação a garantia de atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade. Também o Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 54, IV) é expresso ao afirmar o dever do Estado em assegurar o atendimento em creche e pré-escola às crianças de 0 a 6 anos de idade. Por sua vez, a Lei nº 9.394/96 (LDB) esclareceu que a educação

infantil será oferecida em creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade e pré-escolas, para crianças de quatro a seis anos de idade. Por fim, o art. 89 da mesma lei deu o prazo de três anos, esgotado em dezembro de 1999, para que as creches e pré-escolas existentes ou que viessem a ser criadas se integrassem

ao respectivo sistema de ensino.

Com efeito, reconhecida sua importância ante a necessidade de liberação dos pais ou responsáveis pelas crianças para o trabalho, as creches e pré-escolas deixaram de ser livres, isentas de qualquer exigência para sua organização estrutural e pedagógica e passaram a demandar autorização para seu funcionamento, nos termos do art. 11, IV, c/c 18, I e II, da LDB, exigindo de seus professores a habilitação legal em curso normal médio ou de nível superior, conforme art. 62, da mesma lei.

Isto porque, ao longo dos anos, observou-se que as creches e pré-escolas desintegradas dos sistemas educacionais, em regra ofereciam uma educação infantil de má qualidade, sem infra-estrutura, coordenação pedagógica e com responsáveis, professores, orientadores e assistentes que, muitas vezes, não possuíam sequer o diploma de ensino fundamental. O que se via era a inexistência da dimensão educativa nos objetivos da creche, justamente enquanto se confirmava, em

consonância com os melhores especialistas em educação do Brasil e do exterior, que

os seis primeiros anos de vida de uma criança são os mais propícios à aprendizagem.

Ademais, as creches e pré-escolas, desestruturadas e sem fiscalização, contribuíam para a assustadora estatística de que crianças carentes, aos seis anos de idade, estavam dois anos inferiorizadas no seu desenvolvimento psicossocial e cognitivo em relação aos padrões considerados normais para as crianças de classe média alta. O mesmo se diga a respeito do elevado nível de subnutrição nas idades mais tenras, principalmente de 0 a 3 anos de idade, fase em que se compromete todo o futuro desenvolvimento da capacidade de pensar e aprender.

Hoje não resta dúvida de que a Educação infantil deve ser oferecida para, em complementação à ação da família, proporcionar condições adequadas de desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança e promover a

ampliação de suas experiências e conhecimentos, como etapa fundamental para o sucesso escolar no tempo posterior. “A experiência internacional revela que, quando iniciada cedo, a escolarização contribui para a igualdade de oportunidades, como apoio adicional à superação das dificuldades iniciais de pobreza ou de um meio sócio-cultural limitado.” (Moaci Alves Carneiro in LDB Fácil, editora Vozes, 7ª edição, pág. 99).

Daí a importância da integração das creches e pré-escolas, públicas e particulares, no respectivo sistema de ensino, conforme art. 89 da LDB.

Sendo assim, para exata compreensão de como deve se dar tal integração é necessário fazer algumas considerações acerca da organização da educação municipal, já que, de acordo com o art. 211, § 2º, CF, a educação infantil é área de atuação prioritária dos municípios.

Reconhecido pela Constituição de 1988 como ente federativo de idêntica importância em relação aos estados, Distrito Federal e União, o município brasileiro foi chamado a organizar o seu sistema de ensino como mais uma etapa na construção da autonomia municipal, embora se saiba que a realidade em grande parte dos municípios brasileiros ainda seja a integração de suas escolas ao Sistema de Ensino Estadual.

Desta forma, alguns municípios já instituíram seu Sistema Municipal de Ensino e,

assim, adquiriram novas atribuições, como baixar normas complementares para o seu sistema se ensino (LDB, art. 11, III) e autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino (LDB art. 11, IV). Outros permanecem integrados ao Sistema de Ensino Estadual e deverão, portanto, submeter-se às normas

e à supervisão do Estado.

Logo, para saber a quem cabe, em cada caso concreto, a autorização, o credenciamento e a supervisão da rede pública e particular de educação infantil é

necessário, em primeiro lugar, saber a forma de organização da educação municipal. Se já instituído o Sistema Municipal de Ensino, o que é feito através de lei municipal e comunicação à Secretaria de Estado de Educação e ao Conselho Estadual de Educação,

a Secretaria Municipal passa a assumir tais incumbências, antes à cargo do Sistema Estadual de Ensino.

Esclarecido o ente federativo responsável pela fiscalização, o órgão dentro de cada Sistema responsável pela incumbência também pode variar, já que a LDB, respeitando

o princípio federativo que pressupõe a autonomia dos estados e municípios, não dispõe

sobre a estrutura e funções de cada órgão da administração da educação. Em regra, no entanto, tal função fiscalizadora, bem como as funções normativas têm ficado a cargo dos Conselhos de Educação, como ocorre, por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro (conferir a respeito as Leis Estaduais nº 1.590/89, 2.654/96 e 3.155/98).

Vale registrar que os Conselhos de Educação são órgãos colegiados representativos da comunidade, mediadores entre a sociedade civil e o Poder Executivo. Foram concebidos em consonância com o princípio da gestão democrática do ensino (art. 206, VI, da CF), que tem como pressuposto a participação da sociedade na definição e acompanhamento da execução das políticas públicas para a educação. Tradicionalmente os Conselhos não têm incumbências administrativas, sendo-lhe atribuídas funções principalmente de caráter consultivo, deliberativo e fiscalizador. As leis municipais sobre a matéria prevêem as referidas funções.

Em resumo:

- de acordo com a LDB as creches e pré-escolas, públicas ou particulares, devem ter professores habilitados em curso normal médio ou de nível superior e precisam ser autorizadas, credenciadas e supervisionadas pelo Poder Executivo;

2- tais atribuições devem ficar a cargo dos municípios, permanecendo a cargo do Estado quando ainda não haja Sistema Municipal de Educação instituído, o que é feito através de lei municipal;

3- dentro do ente federativo responsável pela fiscalização o órgão poderá variar, mas em regra é o Conselho de Educação, como se dá do Estado do Rio de Janeiro.

De todo o exposto é possível concluir que a elevação da educação à categoria de direito público pela Constituição de 1988 e a inclusão da Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica representam avanço importante nas responsabilidades públicas sobre educação, podendo o Promotor de Justiça da Infância e Juventude não só exigir a oferta da educação infantil em creches e pré-escolas, como exigir a fiscalização de seu regular funcionamento pelo órgão competente.

MUNICÍPIO

CRECHES

CRECHES

     

PÚBLICAS

PARTICULARES

EQUIPE TÉCNICA

IRREGULARIDADES

PROCEDIMENTO

Informada apenas a visitação por 449 Não há creches suficientes Existe Ação _ Capital supervisores
Informada apenas a
visitação por
449
Não há creches
suficientes
Existe Ação
_
Capital
supervisores e
nutricionistas
Civil Pública

Regionais

       

Procedimento

177

667

_

Creches públicas não atendem

plenamente às disposições legais

Administrativo

n.º 037/00

Angra dos

Reis

Angra dos Reis

Araruama

Araruama
Arraial do Duas babás e uma professora por turno. _ Uma Cabo Funciona adequadamente. O
Arraial do
Duas babás e uma
professora por turno.
_
Uma
Cabo
Funciona
adequadamente.
O MP visitou a
creche e não
constatou
irregularidades,
embora a creche
seja modesta.
_

Barra do

Piraí

Seis

_

Pessoal capacitado

Nenhuma apresenta o o laudo de exigências e o Certificado de Aprovação do Corpo de Bombeiros

_

Barra Mansa
Barra
Mansa

Belford

Roxo

Belford Roxo

Bom Jardim

Bom Jardim

Bom Jesus

do

Itabapoana

Bom Jesus do Itabapoana
do Corpo de Bombeiros _ Barra Mansa Belford Roxo Bom Jardim Bom Jesus do Itabapoana Cabo

Cabo Frio

Cabo Frio

Cachoeiras

de Macacu

Cambuci

Cambuci

Campos

Campos

Cantagalo

Cantagalo
Informa apenas que Carmo Uma _ conta com profissionais qualificados _ _
Informa apenas que
Carmo
Uma
_
conta com profissionais
qualificados
_
_
Casimiro de Cinco Duas Não informado Abreu (autorizadas) Há seis creches não autorizadas em funcionamento
Casimiro de
Cinco
Duas
Não informado
Abreu
(autorizadas)
Há seis creches
não autorizadas
em funcionamento
_
Conceição de Macabu
Conceição
de Macabu

Cordeiro

Cordeiro

Duas Barras

Uma

_

Professores e serventes

_

_

Duque de

Caxias

Seis

Não informado

Orientação pedagógica e educacional, psicólogos, médicos e professores

_

_

Engº Paulo

de Frontin

uma

_

Profissionais capacitados

_

_

Iguaba

         

Grande

_

_

_

_

_

Itaboraí

Itaboraí

Itaguaí

Nove

Cinco

Diretor, professores, orientador educacional, psicólogo, fonoaudiólogo, pessoal de apoio administrativo

_

_

Seropédica

(Itaguaí)

Uma, a ser inaugurada em 2000

duas

_

_

_

Italva

Italva

Itaocara

Três

_

Não informado

Mau funcionamento dos estabelecimentos

_

Itaperuna

Itaperuna

Itatiaia

Itatiaia
Laje de Muriaé
Laje de
Muriaé

Macaé

Macaé

Magé

Magé

Mangaratiba

Mangaratiba

Maricá

Maricá

Mendes

     

Capacitação da equipe, falta de segurança nas instalações

Procedimento

administrativo

Duas

_

Não capacitada

iniciado pela

portaria 005/00

Miguel

Pereira

duas

_

Acompanhamento médico, odontológico, fonoaudiológico e

psicológico por profissionais da Secretaria Municipal de Saúde

_

_

Miracema

   

Professores

e

Secretaria comunica ter encontrado as creches com problemas graves de segurança, em sua maioria resolvidos

 

recreadores c/ curso de

Formação

de

doze

_

Professores, pessoal de apoio capacitado com

_

palestras; supervisão pedagógica.

capacitado com _ palestras; supervisão pedagógica. Natividade       Nem todos os  

Natividade

     

Nem

todos os

 

Professores, secretarios, administradores,

monitores, cozinheiras, lavadeiras, serventes

profissionais têm a

seis

_

capacitação exigida, mas estão dentro do prazo para obtê-la

_

Varre-Sai

   

Diretora, professoras,

   

uma

_

monitores e serventes

_

_

(Natividade)

(Natividade)
(Natividade)
(Natividade)
(Natividade)
(Natividade)

Nilópolis

Nilópolis

Niterói

Dez creches

       

comunitárias

assistidas

pela Fund.

Mun.

86

Não especificado

Não há informações acerca das creches

Procedimento

administrativo

n.º 03/00

Educação

Nova

Friburgo

Nova Friburgo

Nova

Iguaçu

Nova Iguaçu

Paracambi

Paracambi

Paraíba do

Sul

Três

_

Não informado

_

_

Parati Funciona dentro das uma _ _ _ condições do município
Parati
Funciona dentro das
uma
_
_
_
condições do município

Paty de

         

Alferes

_

_

_

_

_

Petrópolis

Petrópolis
Há dois Piraí projetos _ _ _ _ encaminhados
Há dois
Piraí
projetos
_
_
_
_
encaminhados

Porciúncula

   

Professores,

     

ser

quatro

duas (ONG’s)

ventes,

apoio

de

Professor,

cozinheira,

serventes

Quanto à higiene e a organização na Casa da Criança

_

nutricionista

(ONG).

e

pedadgoga

Porto Real

Porto Real

Queimados

Queimados
Queimados
Queimados
Queimados
Queimados

Resende

Resende

Rio Bonito

Rio Bonito
Profissionais habilitados, incluindo equipe de Uma _ _ _ Rio Claro apoio, supervisão por pedagogo
Profissionais habilitados,
incluindo equipe de
Uma
_
_
_
Rio Claro
apoio, supervisão por
pedagogo
Rio das Flores
Rio das
Flores
Rio das Ostras
Rio das
Ostras

Santa Maria

Madalena

Santa Maria Madalena

Santo

Antonio de

Pádua

     

O

MP

visitou

as

 

creches

e

não

Uma

constatou

Três

(filantrópica)

_

irregularidades,

_

elogiando

seu

funcionamento.

Psicólogo, Assistente Social, Nutricionista, seis _ _ _ São Fidélis Pediatra, Enfermeiro e Pedagogo
Psicólogo, Assistente
Social, Nutricionista,
seis
_
_
_
São Fidélis
Pediatra, Enfermeiro e
Pedagogo

São

Gonçalo

São Gonçalo

São

Francisco

de

Itabapoana

São Francisco de Itabapoana

São João da

Barra

São João da Barra

São João de

Meriti

seis

_

Diretores Pedagógicos

_

_

São Pedro

da Aldeia

São

Sebastião

do Alto

   

Orientador pedagógico, psicólogo, fonoaudiólogo,

Uma

_

nutricionista, fisioterapeuta, assistente social, etc.

Sapucaia

   

Professores, serventes, orientação da equipe

   

Uma

_

pedagógica da prefeitura, apoio de nutricionista e pediatra

_

_

Saquarema

Saquarema

Silva Jardim

apoio.

Sumidouro

Sumidouro
Diretor, professores capacitados p/ pedagogos, nutricionista, Nove _ _ _ Teresópolis assistente social,
Diretor, professores
capacitados p/
pedagogos, nutricionista,
Nove
_
_
_
Teresópolis
assistente social,
fonoaudiólogo e
psicólogo

Trajano de

Moraes

Trajano de Moraes

Três Rios

   

Professores e auxiliares concursados

Prédio é

 

Duas

Cinco

inadequado

_

Levy Gasparian Não possui _ _ _ _ ainda (Três Rios)
Levy
Gasparian
Não possui
_
_
_
_
ainda
(Três Rios)

Areal

(Três Rios)

Duas

_

profissionais capacitados

_

_

Valença

Valença

Vassouras

Vassouras

Volta

Volta

Uma

_

Diretor, Professores,

Nenhum professor tem o curso específico de Educação Infantil

_

Redonda

Redonda
Redonda
Redonda
Redonda
Redonda