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Módulo II. Características textuais: tipos, conteúdos e estruturas lingüísticas

Para melhor ler e produzir textos, é necessário compreender o modo como esse material é organizado e quais são as normas de construção. Conhecer como os textos se organizam permite ampliar, diversificar e enriquecer as produções textuais, assim como aprimorar a capacidade de recepção, compreensão e interpretação. Esse módulo abordará dois aspectos fundamentais relativos à organização textual:

1. Tipos e funções textuais

2. Macro-estrutura textual.

Basicamente, será visto como um texto se organiza em função

do conteúdo

do contexto

das intenções

dos interlocutores

Esse aprendizado tem uma conseqüência muito significativa: ao mesmo tempo em que você aprenderá a produzir tais textos usados no plano pessoal, profissional etc, estará também ampliando suas possibilidades de atuação, seja no campo pessoal ou profissional, assim como de cidadão, pois isso lhe permite, por exemplo, quando

averiguar algum problema, ter condições e instrumentos adequados para tomar ou exigir que se tomem providências (pense no caso de uma reclamação ou solicitação de serviços

por uma autoridade governamental – municipal, estadual ou federal

Esses serão

instrumentos para opinar, manifestar ponto de vista, interferir nos acontecimentos, enfim, interagir, conforme a necessidade ou interesse

).

1.

Tipos e gêneros textuais 1

Nas diversas situações cotidianas, ao escrevermos um texto, queremos atingir alguns objetivos, temos determinadas intenções, e para isso consideramos o conteúdo, o contexto e o leitor. Por exemplo, quando queremos avisar um colega de classe sobre uma reunião, consideramos:

O que vou escrever

Para quem vou enviar esse texto interlocutor

Como vou enviar Como escreverei o texto

conteúdo

meio estrutura do texto e linguagem

Nesse exemplo, definimos o conteúdo do texto (aviso sobre reunião), o interlocutor (colega), e assim precisamos definir como organizar as informações que desejamos

passar. Pelo nosso conhecimento de mundo, sabemos que um bilhete dará conta de atingir esse objetivo. Assim, o próximo passo é saber como esse texto é estruturado e como podem ser organizadas as informações. Nesse caso, precisamos conhecer, dentre outros aspectos:

- qual a configuração estrutural macro-estrutura: saudação inicial, corpo do texto, saudação final, data.

- qual o meio usado para enviar o texto papel ou tela do computador.

Assim, a opção foi pelo assim chamado gênero textual bilhete, que pode conter uma parte de descrição do lugar onde o grupo se reunirá (tipo textual descritivo) e uma parte que trate da importância dessa reunião (tipo textual argumentativo). Desse modo, para todo e qualquer texto, a regra permanece: há sempre um gênero textual (no caso, o bilhete) que configura o texto, e nele há uma tipologia (no exemplo, descritivo e argumentativo) adequada aos propósitos comunicativos. Nossa orientação para produzir textos é baseada na escolha de um gênero para que a comunicação realmente se efetive. Os gêneros textuais são diversos:

1 A fundamentação teórica dessa classificação é proposta por MARCUSCHI, Luiz Antônio. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”. In: Dionísio, A. P., Machado, A.N., Bezerra, M.A. (orgs.). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 19-36.

poesias, folhetos, panfletos, currículos, convites, e-mails, manuais de instruções, notícias, crônicas, diálogo, conversas telefônicas, artigos de revista/jornal, romances, biografias, verbete de dicionário, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais, telemensagens, telegramas, reportagens ao vivo, boletos, extratos bancários, formulários, currículos etc etc etc.

Já os tipos textuais são mais reduzidos. Uma das propostas (existem outras) é a da classificação em narração, descrição, dissertação ou argumentação e injunção. Vamos ver, bem resumidamente, cada um dos tipos por meio de exemplos de gêneros textuais.

a) Tipo dissertativo/argumentativo

Dissertação base em argumentação: colocam-se posicionamentos pessoais e exposição de idéias, a fim de defender um ponto de vista. Implica argumentação, organização do pensamento, defesa de pontos de vista, descoberta de soluções. Exemplos: debate, artigos científicos, artigos de jornal, editoriais, resenhas

etc.

O texto a seguir ilustra essa tipologia: usando o gênero artigo de opinião e a tipologia dissertativo-argumentativa, o autor pretende mostrar seu ponto de vista a respeito do tema ‘cidadania’ e assim coloca argumentos para convencer o leitor.

Texto 1.

O cidadão de papel (Gilberto Dimenstein)

Quando andamos pela cidade, encontramos diariamente meninos de rua. Alguns não fazem nada. Outros estão lavando ou cuidando de carros. São engraxates ou vendedores de balas nos semáforos. Esta cena se tornou tão comum que nem mais chama a atenção. Nota-se a ausência de cidadania quando uma sociedade

gera um menino de rua. Ele é o sintoma mais agudo da crise social. Os pais são pobres e não conseguem garantir a educação do filho. Estamos vendo dois extremos da perversidade social. Os mais fracos são as maiores vítimas: as crianças e os velhos. E uma sociedade que não respeita suas crianças e seus velhos, mostra desprezo ou, no mínimo, indiferença com seu futuro.

E aí está a importância de saber direito o que é cidadania. É uma palavra usada

todos os dias e tem vários sentidos. Mas hoje significa, em essência, o direito de viver decentemente. Cidadania é o direito de ter uma idéia e poder expressá-la. É poder votar em quem quiser sem constrangimento. É processar um médico que cometa um

erro. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o direito de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião sem ser perseguido. Há detalhes que parecem insignificantes, mas revelam estágios de cidadania:

respeitar o sinal vermelho no trânsito, não jogar papel na rua, não destruir telefones públicos. Por trás destes comportamentos está o respeito à coisa pública.

O direito de ter direitos é uma conquista da humanidade. Foi uma conquista dura.

Muita gente lutou e morreu para que tivéssemos o direito de votar. E outros batalharam para você votar aos dezesseis anos. Lutou-se pela idéia de que todos os homens merecem a liberdade e de que todos são iguais perante a lei. Em 1948, surgiu a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas). Com essa declaração, solidificou-se a visão de que, além da liberdade de votar, de não ser perseguido por suas convicções, o homem tinha direito a uma vida digna. É o direito do bem-estar. Agora, a pergunta é: Esses direitos passam do papel onde foram escritos?

Fonte: DIMENSTEIN, Gilberto. In: O cidadão de papel. São Paulo: Ática, 1993.

b) Tipo narrativo

Narração base em fatos: conta-se um fato, real ou fictício, ocorrido em um espaço e em um momento, vivenciado por personagens. Exemplos: contos de fadas, piadas, notícias, biografias, novela, tirinhas, história em quadrinhos, lendas etc.

O texto a seguir, do gênero fábula, é narrativo, pois conta um fato, fictício, sobre duas personagens.

Texto 2.

A cigarra e a formiga, de La Fontaine (Millôr Fernandes)

Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra muito amigas. Durante todo o outono a formiguinha trabalhou sem parar a fim de armazenar comida para o período de inverno. Não aproveitou nada do sol, da brisa suave do fim da tarde e nem da conversa com os amigos ao final do expediente de trabalho para tomar uma cerveja. Seu nome e sobrenome eram trabalho. Enquanto isso, a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos, nos bares

da cidade. Não desperdiçou um minuto sequer, cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol, curtiu para valer sem se preocupar com o inverno que estava por vir. Então, passados alguns dias, começou a esfriar. Era o inverno que estava começando. A formiguinha exausta entrou em sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. Mas, alguém chamava por seu nome do lado de fora da toca e quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga cigarra estava dentro de uma Ferrari com um maravilhoso casaco de vison.

E a cigarra falou para a formiguinha:

- Olá, amiga, vou passar o inverno em Paris. Será que você podia cuidar de minha

toca?

- Claro, sem problemas, mas o que aconteceu que você está com esta Ferrari e vai para Paris? No que a cigarra responde:

- Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada e um

produtor gostou da minha voz e fechei um contrato de seis meses para fazer shows em Paris. A propósito, amiga, deseja algo de lá?

A formiguinha respondeu:

- Desejo, sim, se você encontrar por lá um tal de La Fontaine, mande ele pra puta

que o pariu

Moral da história: Aproveite sua vida, saiba dosar trabalho e lazer, pois trabalho em demasia só traz benefício em fábulas do La Fontaine.

c) Tipo descritivo

Descrição base em caracterização: constitui uma espécie de fotografia de um lugar, pessoa, animal, objeto, sensações etc. Exemplos: apresentações pessoais, currículos, documentos pessoais, mapas, cardápios etc. A seguir, em gênero história em quadrinhos, encontra-se um texto descritivo, chamado assim por caracterizar, descrever o sentimento de amizade entre duas pessoas.

Texto 3. A amizade

descritivo, chamado assim por caracterizar, descrever o sentimento de amizade entre duas pessoas. Texto 3. A
descritivo, chamado assim por caracterizar, descrever o sentimento de amizade entre duas pessoas. Texto 3. A
d) Tipo injuntivo Injunção → base no imperativo: caracterizado por apresentar seqüências que pretendem orientar,
d) Tipo injuntivo Injunção → base no imperativo: caracterizado por apresentar seqüências que pretendem orientar,

d) Tipo injuntivo

Injunçãobase no imperativo: caracterizado por apresentar seqüências que pretendem orientar, solicitar, ordenar, convidar, pedir, instruir. Exemplos: manuais de instruções, convites gerais, prescrições em bulas, regras de jogos, regulamentos, receitas culinárias etc. No texto a seguir, do gênero manual de instruções, encontra-se essa tipologia, marcada pela instrução ao cliente.

Texto 4.

Instruções de uso do Drive Thru Bradesco (autor desconhecido)

O Banco Bradesco, devido às inúmeras reclamações por parte de usuários insatisfeitos, apresenta as instruções de uso de nome “Drive Thru.” Você, caro cliente, tem a possibilidade de sacar dinheiro sem sair do automóvel. Para que possa aproveitar todas as vantagens dessa inovação tecnológica, recomendamos que tenha em mente as seguintes instruções:

Clientes masculinos: Dirija até o vidro automático. Baixe o vidro. Introduza o seu cartão e a senha. Selecione a importância. Retire o dinheiro. Retire o cartão. Suba o vidro. Pode partir. Clientes femininas: Dirija até o caixa automático. Dê a partida novamente: o carro

morreu! Engate a ré e recue até o caixa. Volte a avançar um metro até que seu ombro alinhe com o caixa. Baixe o vidro. Pegue a bolsa, esvazie-a no banco do passageiro e procure seu cartão. Ponha tudo de volta na bolsa. O CARTÃO NÃO! Tente introduzir o cartão no caixa automático. Parou longe! Abra a porta para chegar ao caixa. Ajeite a saia. Introduza o cartão. Não é desse lado! Do outro! Isso! Não!. Do outro extremo, não é do verso. Verso, sim, o outro lado. Pronto! Retire o cartão. Esse é da Renner, esse é do Carrefour! Esta caixa é do Bradesco, não Itaú! Introduziu o cartão? Agora a senha!OK! Esvazie outra vez a bolsa no banco do passageiro. Consulte a agenda, na primeira página, onde está escrito senha do banco, copie. Não é para outro papel! É para o teclado da máquina. Pressione CANCELA e introduza novamente o número, mas o correto. Verifique o batom no retrovisor. Calma. Retire o dinheiro. Esvazie de novo a bolsa e procure a carteira. Guarde o dinheiro. Guarde também a agenda. Diga adeus aos desgraçado que está buzinando no veículo atrás. Ligue o carro e avance dois metros. Volte! Volte de ré no caixa! Cuidado com o quiosque do segurança. Retire o cartão do caixa eletrônico. Esvazie a bolsa, ache a carteira e guarde o cartão. Desligue o limpador de pára-brisa que acionou com o cotovelo. Ligue o carro de novo. Não adianta mudar a marcha, porque o carro morreu de novo. Conduza uns 3 ou 4 km. Já pode baixar o freio de mão.

Porém, o mais importante não é saber a classificação, mas entender como esses textos funcionam. Ao longo do curso, veremos alguns gêneros textuais usados no meio acadêmico e outros no meio profissional. Vamos analisar, principalmente, como esses

textos são estruturados, qual a linguagem usada e ainda quais conteúdos são adequados para cada um desses gêneros. Uma das questões é a referida na unidade anterior, em que você trabalhou com a adequação dos textos aos propósitos, interlocutores e situação de comunicação. Para cada um dos gêneros a serem trabalhados, você sempre deverá se lembrar de:

- o que escrever: cada conteúdo pedirá um gênero textual.

- para quem escrever: interlocutor mais íntimo ou mais distante.

- como encaminhar o texto: oral ou escrito, no papel ou na tela do computador.

- em qual linguagem escrever: linguagem formal ou informal.

Todos esses aspectos devem ser pensados para se elaborar um bom texto.

2. Macro-estruturas textuais

2.1. Gênero textual e-mail

Nosso primeiro gênero será o e-mail, usado no meio profissional ou particular, cada um com suas características. A título de exemplificação vamos usar o e-mail a seguir (um texto humorístico) para mostrar cada uma das partes da macro-estrutura.

Texto 5. E-mail: Descobrimento do Brasil

DE: pedro1@terra.com.br PARA: joao6@corte.gov.pt ASSUNTO: Eu fico

1. Bom dia, Pai.

2. Acho que cheguei à idade adulta. Sei que o senhor me quer de volta em Lisboa,

mas chegou a hora de eu virar um homem maduro. Estou a falar de independência, pai! Em procurar os meus próprios caminhos, ter meu próprio carro, meu próprio e-mail, minha própria home-page, meu próprio cartão de crédito, meu próprio país! O senhor fica com a matriz, a uma hora e meia de Londres e Paris, eu fico com a colônia, longe de tudo, quente feito um forno de padaria. Mas não estou a reclamar. A turma aqui pediu-me, e eu já disse que, se é para o bem de todos e a felicidade geral da galera, fico. Ficamos assim:

eu cuido da (ex) colônia, e o senhor não precisa mais me mandar mesada.

3. Abraços.

4. Pedro

Eis a estrutura:

1. Saudação inicial e vocativo

2. Corpo do texto

3. Saudação final

Quanto às demais características, consulte um dos sites indicados. Observe também as regras de elaboração e também as netiquetas.

2.2. Gênero textual carta comercial

A carta comercial exige necessariamente um registro mais formal e obedece a uma estrutura bastante rígida. No entanto, é preciso atentar-se aos modelos mais modernos desse gênero, já que houve mudanças significativas nos dias atuais. (Para saber quais são as mudanças, consulte o site indicado)

http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.phpop=redacao/correspondencias/docs/carta

comercial ) Segue modelo:

Texto 6. Modelo de carta comercial (disponível no site acima indicado)

TIMBRE 1. Rua X - Porto Alegre - caixa postal, 47 Porto Alegre, 6 de novembro de 1995.

2. Fernando de Barros & Cia. Ltda.

3. Prezados senhores

4. À solicitação feita pelo escritório de V.Sas., representado, em nossa cidade, pelo Sr.

Marcelo Silveira, informamos que seguiram, via aérea, dez caixas dos medicamentos pedidos. Comunicamos que a duplicata no. 086013 foi encaminhada ao Departamento de Cobrança.

5. Atenciosamente

6. Tiago Almeida

Diretor

A estrutura da carta comercial é a seguinte:

1) local e data 2) destinatário 3) vocativo 4) contexto ou assunto 5) despedida 6) assinatura

Vamos à produção desses gêneros, considerando os tópicos estudados durante o curso.