Você está na página 1de 5

LE MONDE

diplomatique
BRASIL

Projeto
transnacional
redesenha
o território
político da
cultura

Seminário busca O rapper GOG faz


novos laços saudação à arte e à luta
entre gupos sociais, anti-racial do mestre
artísticos, populares Abdias Nascimento
e acadêmicos Página 8

Páginas 3, 4 e 5

Mariza Veloso e
Heloísa Buarque
analisam o papel
da cultura nas ações
transformadoras
Páginas 6 e 7
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA

Cultura e Política na Um território comum


integração da América Latina para a política e a cultura
Com um seminário internacional realizado no Brasil, a rede Articulação Latino-Americana: Cultura e Política começou
um caminho de reflexão e de busca de novas conexões entre grupos sociais, populares, sindicais, artísticos
e acadêmicos que fazem da cultura um fator de transformação social e de demandas por direitos. A Articulação
propõe uma agenda comum e um intenso programa de trabalho para o próximo Fórum Social Mundial na cidade
de Belém, Brasil, com ações na Argentina, Brasil, Chile, Peru, Bolívia e vários países da América Central

ces que envolve e mistura tudo que identificamos com a cultura e com conflitos e

Pedro França
instrumentos da política, reabrindo a discussão do sentido do espaço público.
Não passa despercebido a ninguém que na América Latina a arte e a política
viveram uma espécie de romance apaixonado durante toda sua história: desde as
imagens de Siqueiros, passando pelo Olodum e AfroReggae, Victor Jara, o Sertão,
o carnaval uruguaio, ou Rodolfo Walsh na Argentina, até o continente integrado na
escola de samba do mesmo Rio de Janeiro que reinventa o hip hop nas favelas. Polí-
tica e poesia, política e pintura, política e cinema, política e teatro Política e arte
são, e sempre foram, elementos de uma roda que não pára de girar, às vezes com

Miguel Mello
Arquivo STF
maior fluidez e outras não isentas de profundos debates. Porém, os termos dessa
relação são os mesmos que lhe davam vida há algumas décadas? É possível pensar
em uma nova equação entre eles?
Paralelamente a esses debates, a conflituosidade se torna densa, em termos polí-
ticos e econômicos, enquanto tangencia as estruturas de um tema fundamental,
como é a definição do sentido democrático dos meios de comunicação. Se um dos
O Grupo Executivo da Articulação é formado pelo argentino Eduardo Balán (Rede de Arte e Transformação Por Valmir Santos*
Social), pelos brasileiros Guilherme Reis (Cena Contemporânea) e Iara Pietricovsky (Instituto de Estudos cenários privilegiados do cruzamento entre política e cultura é o espaço público e

D
Socioeconômicos – Inesc) e pelos bolivianos Carlos Hugo Molina (Centro para la Participación y el Desarrollo comunitário, o outro é, sem dúvida, o dos grandes meios de comunicação. Arte,
Humano Sostenible – Cepad) e Sebastián Molina (Sociedade da Informação e Comunicação). comunicação, cultura e política são faces de um debate que, na América Latina, se esde a sua criação, em 1991, o Mercado Comum do Sul, o Mercosul, evocando o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642), um dos prota-
reveste de características muito singulares e diversas. desdenha o universo das formas culturais. A ignorância dos países so- gonistas do Renascimento Científico.

O
Neste suplemento se dá conta da experiência fomentada por uma rede, a Articu- bre os modos de criação e produção artísticos dos demais atravanca o Um exemplo latente desse outro mundo possível foi citado coincidentemente
que entendemos por “cultura” e “política” em nosso continente são lação Latino- Americana: Cultura e Política – ALACP, que pretende construir caminho de um bloco que, apesar dos 18 anos de maioridade simbólica, duas vezes no seminário, nas falas da historiadora Wânia Sant’Anna e da antro-
categorias que, no decorrer da história, se combinaram de formas mui- ferramentas para, em todo o continente, fortalecer os processos, as iniciativas e as padece de obsessiva fixação nas plataformas da economia e dos negócios em detri- póloga e socióloga Mariza Veloso, da Universidade de Brasília (UnB). Ambas se
to diferentes. Nos últimos anos, parece haver uma busca das duas di- lutas que, em uma perspectiva de direitos, ocorrem nos países latino-americanos. mento de horizontes mais afeitos à cidadania, como as manifestações artísticas ou a lembraram de Joênia Batista Carvalho Wapichana (foto), a primeira advogada
mensões na criação de uma equação original, atenta e, quem sabe, Em um esforço em prol da conectividade com experiências sociais, populares, sindi- proteção ao ambiente. O déficit de direitos sociais é sentido na pele por milhões de índia a fazer uma defesa oral no Supremo Tribunal Federal. No mês anterior, ela
aquilo que De Souza Santos chamou de uma “transição paradigmática”. Cultura e cais, artísticas e acadêmicas, tal articulação propõe uma agenda comum e um inten- crianças, mulheres e homens para os quais o acesso à cultura deveria mobilizar os havia subido à tribuna do STF para defender a demarcação contínua da reserva
política protagonizam processos que, em diferentes partes do continente, ativaram so programa de trabalho para o próximo Fórum Social Mundial na cidade de Be- governantes tanto ou mais quanto os estimulam os tratados de livre-comércio. Não Raposa/Serra do Sol, em Roraima. E o fez lançando mão, em certas passagens,
uma poderosa revalorização dos conteúdos rituais, simbólicos e institucionais pro- lém, Brasil, com ações na Argentina, Brasil, Chile, Peru, Bolívia e vários países da é por acaso que ganha força a idéia da simbiose de movimentos sociais e culturais, do dialeto indígena do seu povo wapichana. “É de emocionar ouvir essa mulher
venientes de manifestações populares, tanto na perspectiva dos movimentos sociais América Central visando, basicamente, promover o encontro entre dois mundos com esperanças de esse magnetismo irradiar para todos os recantos latinos. Essa pintada com traços de guerra [no rosto] e podendo se expressar também por meio
como nas lutas dos povos originários, das reivindicações de gênero, das lutas sindi- que, aparentemente, seguem caminhos diferentes, como são aqueles que se conside- percepção encampou o I Seminário Articulação Latino-Americana: Cultura e Po- da linguagem dos brancos, do direito”, disse Veloso, autora do artigo O papel da
cais e das múltiplas identidades raciais e étnicas que convivem em nosso território ram produtores exclusivamente culturais e os que fazem do político e do social a sua lítica (foto, à direita), realizado em Brasília nos dias 1° e 2 de setembro. O encontro cultura na integração sul-americana (ver página 6). “Guardei aquela imagem,
latino-americano. tarefa cotidiana. internacional constituiu o primeiro fruto do projeto de mesmo nome sobre o qual chorei. Aprendi muitíssimo com a Joênia quando fazíamos parte do Conselho
É necessário enfatizar que, além do líder dos movimentos indígenas na Bolívia Porque no centro do debate surge, mais uma vez, o que parece ser o núcleo in- pensadores, artistas, produtores e militantes da Argentina, Bolívia, Brasil e Colôm- Nacional dos Direitos da Mulher, o qual ela também foi a primeira indígena a
e do sacerdote que falou em guarani no Paraguai, duas mulheres presidem a Argen- tegral das duas construções (cultura e política) que são, nada mais, nada menos, as bia trabalhavam havia pelo menos nove meses. integrar”, rememorou Sant’Anna.
tina e o Chile, e um metalúrgico ocupa a presidência no Brasil. Um fluxo e refluxo visões sobre democracia. Diante das realidades de pobreza e ameaça a nosso plane- Aberto ao público, o seminário colocou em relevo o pensamento As duas manhãs do seminário transcorreram sob o signo da mo-
transcendente de transformações têm conectado os rios subterrâneos que fazem a ta e a nossos recursos naturais, torna-se urgente transformar a política e a demo- crítico sobre as realidades regional ou continental; a troca de expe- derna arquitetura de Oscar Niemeyer, num dos auditórios do re-
comunicação, subjacente à realidade, entre a cultura e política, talvez construindo cracia em ferramentas participativas de um desenvolvimento sustentável e eqüitati- riências bem-sucedidas em alguns territórios; e a convicção urgente
O festival cém-inaugurado Museu da República, na Esplanada dos Ministé-
um único caudal simbólico que ainda não conta com sua própria estrutura. Porque vo. E, nessa linha, a reinvenção da democracia está exigindo, cada vez com mais de que a interseção cultura-política não pode ficar fora da agenda Cena rios, desenhado por esse homem de 100 anos cujo ímpeto
nada evita que essas lideranças formais encontrem sérias dificuldades para criar na força, uma recuperação crítica e renovada das práticas culturais geradoras de uma social. A atriz e antropóloga Iara Pietricovsky, uma das coordena- Contemporânea transformador não esmorece. A diversidade característica da for-
política pública visões que aparecem com maior nitidez nas manifestações culturais real cidadania. doras do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), destacou a mação brasileira perpassou o encontro ainda na homenagem ao
reclamando direitos. Como em um sistema velho ainda predominante, a pobreza, a Com muito a dizer e fazer nesse sentido, os movimentos sociais, de gênero, etnia aproximação desses dois vetores fundamentais: de um lado, a cul- abrigou a pensador Abdias Nascimento, ícone da causa anti-racista, co-fun-
degradação do meio ambiente, a desigualdade e a violência sobressaem na vida co- e raça, culturais e artísticos estão explorando formas de intercâmbio para dotar suas tura dos movimentos sociais, a militância; e, de outro, a manifesta- agenda da dador do Teatro Experimental do Negro, no Rio de Janeiro da
tidiana, embora indiscutivelmente sua eliminação faça parte das reivindicações das práticas com a eficácia e a amplitude necessárias aos problemas atuais. É nessa pers- ção por meio das artes, a expressão cultural em sua essência. “É década de 1940, dramaturgo, poeta, pintor e homem público ce-
maiorias populares. Mas o velho assiste a sua própria desarticulação, com renova- pectiva que a Articulação lança ao mundo um espaço de conexão entre cultura e como se essas duas dimensões ainda não se articulassem, não cons- interseção lebrado nas vozes da cantora Ellen Oléria e do rapper GOG, refe-
das forças éticas e políticas implementando paradigmas de nítida referência a direi- política, por meio de sujeitos políticos que produzem, de forma inédita e consistente, truíssem caminhos comuns de mudanças”, afirmou. A necessidade cultura-política rências da cultura negra politizada em território brasiliense, como
tos políticos, sociais, civis, econômicos, culturais, ambientais e sexuais. os movimentos sociais e culturais comprometidos com os direitos humanos e sua de ampliar a força de ação dessas duas instâncias teve acolhida no destaca reportagem na página 8. “Esta é uma geração proativa”,
Além disso, esses cruzamentos entre política e cultura convivem com fenômenos implementação radical. Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. definiu a editora e coordenadora do Programa Avançado de Cul-
de outra ordem que, no entanto, também são expressões de uma mesma transfor- A Articulação Latino-Americana: Cultura e Política começou a ser pensada A tônica política de sua nona edição expôs maturidade ao incorporar a discussão à tura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloísa
mação. São subculturas urbanas, novas tecnologias, manifestações de religiosidade em 2007, por pessoas e organizações (muitas das quais hoje integram o Grupo grade paralela de espetáculos de dança, teatro e música que igualmente problemati- Buarque de Holanda (ver página 7).
popular que se mesclam aos avanços das igrejas eletrônicas. São criações das indús- Consultivo do projeto) comprometidas com a defesa e promoção dos direitos hu- zam as questões da contemporaneidade em suas temáticas e linguagens. Eis o caleidoscópio sobre o qual o seminário permitiu uma alentadora refle-
trias culturais hegemônicas e dos meios de massa que permeiam expressões de bair- manos. As reuniões foram convocadas pela Fundação Avina. O projeto tem ainda O ator, músico e professor argentino Eduardo Balán, coordenador do grupo de xão. Resultou uma generosa partilha de proposições por parte do público e dos
ros, coletividades ou grupos. É a explosão de organizações sociais que adotam a arte o apoio do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) cultura comunitária El Culebrón Timbal, nos arrabaldes de Buenos Aires, diagnos- participantes que saíram convencidos de que seus caminhos podem levá-los a um
como eixo de projetos comunitários... Todos, artistas de uma mudança de multifa- e da Oxfam Novib. ticou “a audácia política e artística” desse formato para uma mostra de artes cêni- futuro mais próximo quando se trata de construir uma sociedade mais justa, éti-
cas. Ele afirmou que é importante ter consciência de que a América Latina vive uma ca e digna da condição humana. É o que contempla a cobertura do encontro
época de mudanças profundas no âmbito da tecnologia, com o potencial da inter- nestas páginas, com textos que possibilitam ao leitor uma interpretação dos ace-
Realização: Projeto Articulação Latino-Americana: Cultura e Política
net, e da política institucional nos processos de democratização, vide as eleições dos nos e passos iniciais do projeto Articulação Latino-Americana: Cultura e Polí-
Edição e Produção: Geraldinho Vieira e Luciana Costa
presidentes Lula (Brasil), Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Rafael tica, como nesta anedota bastante elucidativa sugerida por Balán: “Os engenhei-
Reportagem: Valmir Santos | Foto capa: AfroReggae / Mila Petrillo Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai). Mas isso seria apenas a ponta do ros costumam brincar que a única coisa que se constrói a partir de cima é o poço.
Contatos do Grupo Executivo: Carlos Hugo Molina (Bolívia): carloshugom@gmail.com | Eduardo Balán (Argentina): eduardobalan@yahoo.com.ar iceberg: a sociedade, segundo Balán, começa a transformar também os paradigmas Para tudo o mais, é necessário começar da base”.
Guilherme Reis (Brasil): cenabrasilia@cenacontemporanea.com.br | Iara Pietricovsky (Brasil): iarap@inesc.org.br | Sebastián Molina (Bolívia): yopuej@gmail.com de como a cultura e a política estruturam a vida, o cotidiano das populações. “Quem
sabe, somos todos Galileus diante de uma nova etapa da humanidade”, disse o ator, *Valmir Santos é jornalista e mestrando em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo.
Este suplemento é parte da edição no 15 (outubro de 2008) de Le Monde Diplomatique Brasil

2 3
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA

Por uma militância em rede O lugar social das artes? Arte versus utilitarismos

N
O ator Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, endossou
um seminário realizado em pleno Museu da República, no coração da ca-
que, historicamente, os brasileiros costumam “voltar as costas para a América La-
pital brasileira, as artes visuais não poderiam passar em branco. Elas ga-
tina”. Fundada em 1979, a entidade que agrega cerca de 900 núcleos trata de com-
nharam um recorte na voz da professora Marília Panitz (foto), do Instituto
bater tal ensimesmamento por meio de uma Mostra Latino-Americana de Teatro de
de Artes de Brasília. Ela ressaltou o papel dos coletivos de criação que firmam “arti-
Grupo que chegou à terceira edição, este ano, e levou a São Paulo, para apresenta-
culações entre a arte crítica e a subversão”. Muitos deles estão engajados diretamente
ções e debates gratuitos, coletivos fundamentais na região, como o colombiano La
em lutas sociais que já não se apresentam ligadas a estruturas partidárias. Sob o ân-
Candelaria, o cubano Buendía e o equatoriano Malayerba. Ele mesmo integrante da
gulo brasileiro, citou o Movimento Passe Livre, o Movimento dos Trabalhadores
Companhia do Latão, Piacentini lembrou que os grupos da classe teatral do Brasil
Sem-Teto em centros urbanos e os movimentos vinculados a questões de gênero e a
vêm demonstrando, sobretudo nestes anos 2000, força de arregimentação para rei-
lutas por liberdade de orientação sexual. “Uma pergunta torna-se recorrente para
vindicar políticas públicas para o setor. Foi assim que veio à tona o Manifesto Arte
quem toma contato com esses trabalhos: o que neles sobra da experiência estética?
contra a Barbárie, em 1999, em defesa “de uma prática artística e política que se
Essa é uma questão que a gente tem que colocar”, propôs Panitz. Da platéia, a artista
contraponha às diversas faces da barbárie – oficial e não-oficial”. O documento re-
plástica Yana Tamayo lançou a pergunta que não queria calar: “Afinal, qual o lugar
sultou da vontade de alguns grupos de artistas e de entusiastas dessa arte que depois
social das artes?”. Trouxe à memória a polêmica recepção da crítica especializada ao
elaboraram um anteprojeto e viram aprovado o Programa Municipal de Fomento
tema central da 27ª Bienal de São Paulo, mostra internacional de arte contemporânea

E
ao Teatro para a Cidade de São Paulo, em vigor há seis anos. Atualmente, a meta
que, em 2006, problematizou o Como Viver Junto. “Houve muito questionamento m sua participação no I Seminário Articulação Latino-Americana: Cultu-
dos artistas é conquistar um Programa de Fomento em âmbito federal, bandeira que
se boa parte do que fora exposto era arte ou ação socioeducativa”, disse Tamayo. ra e Política, o jornalista espanhol Carlos Gil Zamora, editor da revista
desde 2004 atrai grupos de vários estados em torno dos encontros anuais do movi-
Panitz divisa esse fosso (ou ponte?) entre a contrapartida social e a ação no cam- Artez (www.artezblai.com), uma publicação há 12 anos voltada às artes
mento político Redemoinho, que principiou com foco em espaços de criação, com-
po da linguagem. “Um museu que não considera essas questões está fadado a si cênicas, traçou um breve panorama dos modos de criar e produzir teatro na Europa,
partilhamento e pesquisa teatral e acabou tornando-se um personagem-chave para
mesmo, corre perigo de ser sempre extremamente pedagógico. Isso também vale do pós-guerra à atualidade. O Estado de Bem-Estar Social que assegurou direitos
contracenar com o Legislativo e o Executivo.
para as galerias”, ponderou. fundamentais à cultura, à educação e à saúde tem sido profundamente abalado em
Para além das fronteiras nacionais, o produtor independente Roberto Malta, da
No segundo e último dia do seminário, o ator Guilherme Reis, diretor-geral do tempos neoliberais. Na Espanha, a maioria dos espaços é pública, principalmente
diretoria da Rede Brasil de Promotores Culturais, associação criada em 1996 e hoje
Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, rememorou a municipal, mas o fazer teatral resulta caro. É afetado por vieses partidários, perso-
com cerca de 600 membros, costura para 2010 a primeira edição quadrienal do
edição histórica do I Festival Latino-Americano de Arte e Cultura, o Flaac, que a Uni- nalistas e inclusive por variações de práticas de censura, outrora moral, em períodos
Fórum Cultural Latino-Americano, em cidade-sede a definir. A inspiração, em par-
versidade de Brasília (UnB) organizou em 1987, sob gestão do então reitor Cristovam de repressão, e hoje financeira, como chamou a atenção o jornalista. “Como sou um
El Culebrón Timbal: nos bairros da Argentina promovendo participação democrática e cultura comunitária te, vem do Fórum Cultural Mundial que ele mesmo ajuda a organizar desde 2000.
Buarque, que ainda se aventuraria por uma segunda edição, em 1989. Esse projeto homem que vive em contradição perpétua, declaro-me aferrado defensor do que na
O objetivo é reunir criadores e pensadores de 18 países para discutir teorias e práti-
visionário de formação do espírito cultural e do seu tempo chegava a concentrar na Europa se chama agora de excepcionalidade cultural, que consiste em arrancar das

E
cas da cultura interligadas por cinco eixos: desenvolvimento, política, economia,
cidade uma média de 700 artistas. “Era um caos absoluto, não tínhamos garras do mercado e do neoliberalismo as artes cênicas e, insisto, to-
ra natural que o seminário de lançamento da Articulação Latino-Ame- mídia e cotidiano. Um dos desafios, conforme Malta, é “fazer com que a política se
estrutura. Além disso, vivíamos um momento político muito difícil. Fazía- das as manifestações culturais. Prefiro um teatro protegido pelo Es-
ricana: Cultura e Política evocasse, indiretamente, o Fórum Social superponha às cores partidárias e ideológicas”. Uma tarefa hercúlea num continente
mos um trabalho de sedução nas embaixadas das ditaduras mais ferre- tado que deixá-lo nas mãos do mercado puro”, defendeu Zamora.
Mundial, cujo primeiro encontro aconteceu no Brasil, em 2001. Os ím- que tenta restaurar democracias após sucessivas ditaduras militares.
nhas. Além de importantes grupos que hoje se tornaram referências lati- Sobre o trânsito da criação com a ação social, ele se disse a favor do
petos humanista e revolucionário daquele espaço descentralizado para o O coordenador do grupo argentino de cultura comunitária El Culebrón Timbal,
nas, uma mesma noite poderia reunir nomes como o do poeta nicaragüense teatro como valor absoluto, como arte, e não de um teatro utilitário.
debate sobre os malefícios do neoliberalismo catalisaram vários momentos da roda Eduardo Balán, disse que está em xeque o próprio regime político em que se vive. A
Ernesto Gardenal (então ministro recém-empossado), Caetano, Man- Recorreu ao diretor brasileiro Augusto Boal, idealizador das técni-
protagonizada por produtores culturais, artistas e representantes de entidades na-

Pedro França
rigor, a clássica democracia representativa foi gerada no ventre do capitalismo, sob
gueira, Fito Paez, Charly García e Celia Cruz”, disse Reis. De certa ma- cas do Teatro do Oprimido, para quem a expressão “teatro políti-
cionais e internacionais em Brasília. Não faltou disponibilidade para a reflexão e a os auspícios do mercado. A ela, há que se opor a democracia participativa. “Numa
neira, a alegria e a solidariedade emanadas daquela saudosa confraterni- co” é um pleonasmo. “Toda estética comporta uma ética, e toda
organização descoladas de lubrificadas máquinas de governo e de interesses partidá- cultura popular de autogestão coletiva não pode haver economia dirigida por força
zação alimentam as lembranças e ativam os futuros em jogo. (VS) ética, uma política”, sintetizou o jornalista. (VS)
rios de turno. Correlacionar estratégias sociopolíticas (extensivamente educativas) e do mercado, mas sim uma economia participativa. Nesse sentido, como construir
artísticas é um modo de propiciar novas diretrizes sobre o pensamento e a militância um modelo de vida comunitária?”, perguntou Balán, para responder em seguida.
contemporâneos. As quatro mesas trouxeram ao todo 12 convidados que versaram, “Evoluir para a democracia participativa, transcendendo e superando a democracia
em freqüência colaborativa com o público, sobre as perspectivas do projeto em si, as representativa. Carece outro modo de ver a democracia, na qual economia, cultura,
noções de cidadania, de políticas públicas para determinadas áreas e de iniciativas política e representação estão dirigidas pela comunidade e não pelas forças do di-
concretas de fusões político-culturais. nheiro.” Na atual conjuntura, a internet é desde já uma aliada decisiva, lembrou o
O boliviano Carlos Hugo Molina, coordenador do Centro para la Participación
As organizações que apóiam a Articulação Latino-Americana: Cultura e Política
boliviano Sebastián Molina, militante do movimento de imprensa cidadã. Ele insti-
y el Desarrollo Humano Sostenible (Cepad), de Santa Cruz de la Sierra, se permitiu gou todos a utilizar a internet como “ferramenta de resistência à tirania dos meios são parceiras dos povos do nosso continente, da consolidação da democracia e da
um exercício de desconstrução semântica do nome do seminário. “Se é articulação, tradicionais de comunicação”. Na sociedade da informação, a blogosfera converteu- busca de modelos sustentáveis e inclusivos de desenvolvimento...
quer dizer que ela ainda não existe. E cultura e política não são apenas conceitos, se em poder real nas mãos dos movimentos sociais.
estamos falando de gente, de populações”, observou. Daí a pertinência de aprofundar Equilibrar cultura e política no pêndulo de uma crise econômica foi a experiên- FORTALECENDO O TECIDO SOCIAL...
questões e idéias geradas sob o princípio de rede, de capacidade de interlocução entre cia que a Argentina viveu de forma aguda na crise de 2001, quando milhões de ci- Fundada em 1956, a Novib é uma organização holandesa para a coopera- Avina reconhece o papel fundamental da cultura nos processos de desenvolvi-
os “atores sociais” que aí estão e os que virão. Em suas propostas para uma equaliza- dadãos foram às ruas exigir renovação total da política e das instituições (“Que se ção internacional. A partir da formação da Oxfam Internacional, o nome da mento, pois contribui para a afirmação da identidade dos povos e para o resgate
ção dos marcos humano, social, cultural e político, Molina elencou três pontos: vayan todos”, era o grito de guerra). Balán testemunhou essa travessia: “O movi- Novib passou a ser Oxfam Novib. O seu objetivo inicial – converter-se numa de sua dignidade, sendo elemento efetivo para a mobilização do exercício de
1) contribuir para a reinvenção da democracia e a afirmação de culturas cidadãs mento cultural na Argentina ainda não dispõe de estruturas e organismos públicos organização que representasse a população holandesa na luta contra a pobreza uma cidadania plena e das boas práticas de participação política e social na
de responsabilidades e direitos; que dêem conta de sua diversidade e dinamismo, tanto no terreno das várias expres- e a injustiça – ampliou-se. Outros objetivos se juntaram ao longo dos anos: jus- construção de valores compartilhados.
2) promover articulações inovadoras dos movimentos culturais e sociais; e sões artísticas como no universo das comunicações e do desenvolvimento de experi- tiça econômica e justiça de gênero. São objetivos que se cumprem por meio do
3) construir uma América Latina feliz, plural, eqüitativa e ambiental e politica- ências locais e/ou regionais. No centro dos debates está presente o trânsito a uma financiamento de iniciativas em mais de 60 países onde a Oxfam Novib traba- ...E PROMOVENDO A IGUALDADE DE GÊNERO
mente sustentável. democracia participativa que efetivamente contribua à produção cultural e à vigên- lha com mais de 900 organizações. O trabalho na América Latina tem um ca- O Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – Unifem
Sim, “feliz”, defende. “É uma proposta filosófica que não significa desconhecer cia de uma lei de radiodifusão democrática – em um marco de políticas que dotem ráter especial: a organização vem investindo na cooperação, no fortalecimento promove a implementação dos compromissos pela igualdade de gênero assumi-
a realidade, alienar-se. Ser feliz para não perder o espírito humano”, sustentou em de legalidade todo esse enorme tramado que durante as últimas décadas soube mes- da sociedade civil e dos movimentos sociais, na consolidação de democracias e dos pela comunidade internacional, o que inclui a Plataforma de Ação de Pe-
sua explanação sobre políticas públicas. clar a rebeldia com a beleza”, diagnosticou. (VS) na promoção da identidade cultural dos povos - em especial dos povos indíge- quim; a Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação
“Cultura não é só a dimensão da expressão artística. Implica mudança de valores, nas, e nos direitos das mulheres. contra a Mulher (Cedaw); e a Resolução do Conselho de Segurança 1325 sobre
de atitudes. Há o viés revolucionário, transformador. Por isso, digo que política é Mulher, Paz e Segurança.
Exu, é o que nos faz acelerar a velocidade de conexão necessária para que ela se ex- ...FOMENTANDO ALIANÇAS ENTRE SETORES…
presse no plano da cultura, que se materialize”, afirmou a antropóloga Iara Pietrico- A Fundação Avina contribui para o desenvolvimento sustentável da Améri- O Escritório Regional do Unifem para os países do Cone Sul foi criado em
vsky. A representante do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), ONG de Bra- ca Latina, fomentando a construção de alianças entre líderes sociais e empresa- 1992 e atua na Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai com a missão de
sília, sublinhou que não dá mais para pensar questões nacionais sem colocá-las em riais, e articulando agendas de ações coletivas. Está orientada pela visão de uma apoiar ações inovadoras que beneficiem as mulherese que garantam sua partici-
relação com os contextos de integração regional, de institucionalidades políticas em América Latina próspera, integrada, solidária e democrática, inspirada em sua pação nos processos de desenvolvimento. O Unifem desempenha um papel ca-
curso como o Mercosul, a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) e sua an- diversidade, e constituída de uma cidadania que a posiciona de forma global, talisador dentro do Sistema das Nações Unidas, visando à incorporação da
Da esquerda para a direita,
típoda, a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca), para citar três exemplos. de cima para baixo: construindo seu próprio modelo de desenvolvimento inclusivo e sustentável. A perspectiva de gênero em projetos e programas de desenvolvimento.
“Existe toda uma teia de atos, decisões e ações sob pontos de vista político, econômi- Ney Piacentini, Eduardo Balán
(fotos Pedro França),
co e institucional que definem nossa vida. Se não nos tornarmos ‘atores e atrizes’, Guilherme Reis (foto Miguel
sujeitos políticos dessa ação, vamos continuar no espaço que sobrar e não na condição Mello), Sebastián Molina
de protagonistas que a gente quer. Nós, brasileiros, temos que começar a nos conectar (foto Pedro França),
Roberto Malta (divulgação)
a esses processos junto aos demais países, sem medo dos conflitos e das diferenças. e Carlos Hugo Molina
Quem sabe, conseguiremos fazer uma onda que vá daqui até os EUA”, projetou. (foto Pedro França)

4 5
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA

O poder da cultura A política do hip hop


na integração sul-americana nas favelas brasileiras
Professora da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco, Mariza Veloso afirma que a dinâmica dos movimentos sociais Coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ, Heloísa Buarque de Holanda aponta para o que
nos países sul-americanos começa a despontar como possibilidade concreta para a organização de ações transnacionais, une e define o hip hop no Brasil: um conjunto de ações mediadas pela cultura, buscando a transformação das comunidades.
e que “as estratégias desses movimentos deverão ser concebidas sem nenhuma estreiteza do nacionalismo cultural” Para Heloísa, “a periferia vê o acesso à cultura como um direito básico e fator estratégico para a transformação social”

Editamos abaixo alguns trechos da conferência de Mariza Veloso (foto abaixo) no seminário de Brasília. A íntegra está nos sites:

Marilda Borges
Mila Petrillo

João Wainer

Divulgação
www.inesc.org.br | www.cenacontemporanea.com.br | www.cepad.org | www.artetransformador.blogspot.com | www.culebrontimbal.com.ar

FORÇAS VIVAS num lugar passivo, ou mesmo tendo como pressuposto uma idéia meca-
Não há como discordar do sociólogo José nicista de cultura” (Alves Souza 2004:35). Parece-nos razoável afirmar
Maurício Domingues quando se reporta à questão do que também houve avanço na discussão sobre as dinâmicas culturais e
regionalismo na América do Sul afirmando que “pouco a pou- sua importância nos ordenamentos sociais e nos acordos cole-
Editamos abaixo alguns trechos da conferência de Heloísa Buarque de Holanda (foto abaixo) no seminário de Brasília. A íntegra está nos sites:
co o novo regionalismo finca raízes societárias mais fundas entre tivos nacionais e transnacionais.
www.inesc.org.br | www.cenacontemporanea.com.br | www.cepad.org | ww.artetransformador.blogspot.com | www.culebrontimbal.com.ar
nós. Dar-lhes organicidade e institucionalizá-las de forma inovadora é Alves de Souza afirma ainda que a dinâmica cultural
ainda um desafio”. Acredito que as “forças vivas” da sociedade são atual é capaz de propor mecanismos e estraté-
fundamentais nesse processo, e entre tais forças estão a cultura e o gias que suscitem o sentido de pertencimen- FAVELIZAÇÃO INFORMAÇÃO
respeito à diversidade de suas manifestações. to e a capacidade de viabilizar direitos. Segundo o UN-Habitat Report, a população favelada cresce hoje 25 milhões de A forma de ação distintiva desses novos projetos sociais é uma atitude proativa,
Nos anos 1980 e 1990, o processo de redemocratização impulsio- pessoas por ano e os novos pobres periurbanos serão em 2020 cerca de 45% a 50% agindo a partir e para a comunidade, com maior eficácia do que as velhas políticas
nou múltiplas dinâmicas sociais de “revitalização” da sociedade, o que POLÍTICA do total dos moradores da cidade. No Brasil, a população que vive em favelas ou de reação, oposição e denúncia de abandono do Estado. Ela privilegia a ação peda-
permitiu uma redefinição da identidade sul-americana, revendo-se a sua Estabelecer conexões entre cultura e direi- “aglomerados subnormais” cresceu 45% nos últimos anos, três vezes mais que a gógica em lugar do confronto agressivo. De forma mais geral, o que é reivindicado
posição como subdesenvolvida, subordinada e subalternizada em relação às tos parece ser uma tarefa urgente e necessária, média do crescimento demográfico do país. Hoje, temos 51,7 milhões de favelados é o acesso à cultura, visto como um direito básico e fator estratégico de qualquer
potências internacionais. especialmente quando se está tratando de Amé- (atrás apenas de Índia e China). projeto de transformação social.
É precisamente na década de 1990 que ocorre a consolidação robusta e reno- rica do Sul. É possível identificar várias respostas a esse cenário. Uma das mais interessantes é Algumas prioridades são estabelecidas nessas ações culturais, entre elas a con-
vada de movimentos sociais latino-americanos, decorrentes, entre outros fatores, A compreensão da cultura não se resume aos o caso dos processos que se desenvolvem na cultura do hip hop tal como vêm sendo quista de visibilidade por meio de divulgação intensiva da informação sobre a con-
da consolidação de um novo ambiente democrático que possibilitou o apareci- mecanismos de produção de identidade, mas também praticados nas favelas e comunidades de baixa renda no Brasil. O hip hop, nascido na dição de vida nas favelas e a formação de quadros nas áreas da cultura e do desen-
mento de novos atores sociais no cenário sul-americano. São novas redes sociais, é importante considerar as estratégias para a produção de Jamaica e “criado” nos EUA, adquire algumas características locais bastante específi- volvimento (gerando capacidade de se situar no mercado de trabalho, a partir de
como as ONGs e as mídias alternativas, que influenciaram o fortalecimento de novos agenciamentos societários e valorativos. cas, resultando em novas formas de organização comunitária e intervenção por meio uma pedagogia de formação do empreendedor engajado - porque se cria um com-
novas subjetividades coletivas. O discurso em torno da universalização dos direi- A cultura não deve ser pensada apenas no âmbito das polí- da procura de novos sentidos e efeitos para a produção e para o consumo culturais. promisso para a redistribuição dos saberes adquiridos)
tos humanos, da justiça e da responsabilidade social assume a linha de frente do ticas culturais estatais ou das propostas de acordos multilaterais,
debate político. nem como mero produto, evento ou espetáculo, mas sim como pro- OUTRAS PALAVRAS LITERATURA
A dinâmica dos movimentos sociais e a proliferação de organizações que têm cesso permanente de criação de uma urdidura simbólica que permita o O hip hop, nas periferias urbanas das metrópoles brasileiras, é mais abrangente Em sua ação individual na favela do Capão Redondo, Ferréz - que assume pu-
surgido na sociedade civil dos países sul-americanos despontam como possibilida- múltiplo entrecruzamento de experiências e tradições. do que sua forma original norte-americana, composta tradicionalmente pelo rap, blicamente o compromisso de sua literatura em estilo e em ativismo com o movi-
des concretas para a organização de movimentos sociais transnacionais. Será necessário construir estratégias e canais de expressão próprios, de grafite, MCs e break dance (b-boys). No Brasil, o hip hop agrega a literatura (uma mento hip hop - é autor de vários livros (como Capão pecado, Manual prático do
modo a possibilitar que os mais diferentes e diversos grupos sociais presentes tendência muito forte e prestigiada do nosso hip hop), algumas formas de competi- ódio, Ninguém é inocente em São Paulo, Os inimigos não mandam flores) e exerce
NACIONALISMOS no continente possam desfrutar de reconhecimento e visibilidade no espaço pú- ção esportiva como o basquete de rua e, o que parece mais interessante, um investi- uma forte liderança entre seus “brothers”. Graças à projeção que sua literatura ga-
Para viabilizar estratégias de integração regional sul-americana será necessário blico, e ainda, conforme argumenta Hannah Arendt, que tais grupos possam ex- mento bastante significativo nas formas de aquisição e produção de conhecimento. nhou, Ferréz faz uma campanha pelo direito à cultura nas comunidades pobres e
que estas sejam concebidas sem nenhuma estreiteza do nacionalismo cultural nem pressar não apenas suas identidades, mas também exercer sua palavra e sua ação O que une e define o hip hop no Brasil é a criação de um conjunto de ações me- cria, em parceria com o rapper Mano Brown, o movimento 1 DASUL, uma empre-
visão essencial e ontológica de cultura. Nos anos 1920 e 1930, o nacionalismo cul- nesse espaço público e, principalmente, serem reconhecidos como legítimos. diadas pela cultura, buscando a transformação de suas comunidades. Essa atitude é sa cultural que, entre várias frentes de ação, tem sua produtora de CD e uma marca
tural foi importante em toda a América do Sul e especialmente significativo para os Cabe lembrar que uma forma contundente de violência simbólica é a própria agora experimentada simultaneamente como arte e ativismo. Chama atenção ainda de roupas chamada Irmandade que produz uma média de 400 peças por dia, além
processos de construção e consolidação das culturas nacionais, sendo estas pensa- invisibilidade de determinados grupos sociais na sociedade contemporânea, como que a jovem cultura negra do hip hop parece agora mais descompromissada com de deter os direitos de comercialização de outros seis grupos de rap. A grife publica
das a partir de seus elementos constitutivos, considerando as diversas etnias presen- tem sido o caso de indígenas, negros e mulheres no Brasil ao longo de vários séculos, uma cultura focada em suas raízes (ainda que estas sejam um elemento central dessa ainda panfletos antidrogas e planeja a criação de uma clínica para dependentes
tes no contexto sul-americano. e também de muitos grupos étnicos e de migrantes em praticamente todos os países produção), sendo assim capaz de articular um fórum supranacional de jovens po- químicos na favela do Capão Redondo.
A integração não pode ser confundida com unificação, mas sim como possibili- sul-americanos. Os grupos subalternos inexoravelmente tendem à invisibilidade. bres e pretos que levantam a bandeira da resistência. Outros dois casos notáveis do papel instrumental da literatura como fator de
dade de disseminação das diferentes tradições e práticas culturais que possam per- Precisamos deixar de pensar as práticas culturais e o desenvolvimento sul-ame- mobilização dos direitos culturais de uma comunidade são o “Cooperifa”, do poe-
mitir novas conexões entre diferentes grupos sociais. O processo de integração não ricano apenas como emergentes. É preciso também mudar a postura e pensar a NARCOTRÁFICO ta Sergio Vaz; e o projeto de literatura de Alessandro Buzo, coordenador do movi-
pode ser pensado fora da moldura da configuração sócio-histórica e cultural, em América do Sul como espaço insurgente, onde alternativas podem surgir e um novo Dois exemplos, entre muitos, de naturezas diferentes, da força dessa nova cultu- mento “Favela Toma Conta”. Os saraus da Cooperifa – Cooperativa Cultural da
que ganham destaque os baixos níveis de educação e escolaridade e as dificuldades espaço público pode se desenvolver – um novo espaço público onde é possível atuar ra periférica são: primeiro, o Grupo Cultural AfroReagge (primeira foto, à esquer- Periferia (segunda foto, da esq. para dir.), nos arredores do Capão Redondo, São
de acesso à informação e aos bens culturais. e agir em conjunto, mesclando a diversidade, para que de fato irrompa a construção da); segundo, o impacto da criação e do consumo da literatura nessas comunidades Paulo, congregam uma média de 500 pessoas por semana para ouvir e declamar
de novas subjetivas coletivas. (falo especialmente do trabalho dos escritores Ferréz, Sergio Vaz e Alessandro Buzo, poesia. Vaz é um ativista da poesia e já tem cinco livros publicados, entre eles Su-
INTEGRAÇÃO Pensar a cultura como campo de possibilidades interativas e propositivas a res- e do surpreendente poder de mobilização da literatura hip hop). bindo a ladeira mora a noite e Colecionador de pedras.
As manifestações culturais, estéticas e patrimoniais podem colaborar para a peito da organização dos interesses coletivos é uma tarefa necessária para todos os O AfroReggae é uma ONG criada pelo impacto, na imprensa e sociedade civil, Alessandro Buzo é o cronista da periferia mais popular do Itaim Paulista,
constituição de novos agenciamentos, de novas e renovadas identidades coletivas, atores envolvidos no processo de integração. As práticas culturais, mais do que ou- gerado por um confronto sangrento entre os chefes do narcotráfico e a polícia que comunidade pobre a 38 quilômetros do centro de São Paulo. Escreveu os livros
viabilizando a reprodução social de diferentes grupos sociais, inclusive de múltiplos tras instâncias, ensejam e contribuem para a organização dos interesses coletivos. terminou com um terrível massacre de 21 inocentes. Os moradores inauguraram, e O trem – Baseado em fatos reais (2000), Suburbano convicto – O cotidiano do
grupos subalternos, como os camponeses, os indígenas e os artesãos, e possibilitan- A integração do continente passa inexoravelmente pela necessidade do que desenvolvem desde então, uma estratégia singular cuja meta é retirar os jovens do Itaim Paulista (2004) e Guerreira (2007). Além da militância de
do novas articulações entre cultura e desenvolvimento sustentável. Gramsci chamou de “produção de sentido comum” (Quijano, trabalho com o narcotráfico por meio do estímulo à produção cultural nessa comu- divulgação da leitura e da luta pelos direitos culturais de acesso

Miguel Mello
É preciso antes de tudo romper com os cânones da exotização da cultura e da 2001). Para tanto, é importante produzir e implementar operações de nidade. É importante lembrar que, desde a década de 1980, as favelas brasileiras são ao livro, Buzo fundou o movimento “Favela Toma Conta” (du-
Miguel Mello

arte latino-americanas, construídos pelo “olhar estrangeiro”, e permitir que os gru- gramática de reconhecimento mútuo entre diferentes grupos e dife- dominadas pelo narcotráfico, o que tende a desmobilizar as possíveis articulações de as fotos da direita), uma articulação do hip-hop com a literatu-
pos produtores de arte possam expressar sua própria voz ou seu próprio sotaque, de rentes países. Políticas culturais devem ser interpretadas como vetores organizações de base nessas comunidades. ra. Buzo inaugurou na sua comunidade a loja Suburbano Con-
forma altiva e com plena legitimidade. visando à construção de valores coletivos. Esse uso estratégico da cultura desenvolve-se e amplia-se no sentido dos usos da victo, onde são vendidos livros, roupas, CDs e DVDs,
Alves de Souza (2004) observa: “A integração latino-americana adotou padrões A cultura não é apenas uma “reserva de valor”, mas um repertó- cultura como fator de geração de renda, de alternativa ao desemprego progressivo, transformando de certa forma o cenário cultural de sua favela,
inovadores nos anos 1990, mas já veio alojada no contexto da globalização, portan- rio produtivo que passa a agenciar novas responsabilidades coletivas de estímulo à auto-estima, de afirmação da cidadania e, conseqüentemente, de de- e promove eventos regulares como o “Suburbano no Centro”
to muito marcada pela idéia de proeminência do mercado. A cultura foi colocada na construção de um continente justo e democrático. manda por direitos políticos, sociais e culturais nessas comunidades. e “Encontro com o Autor”.

6 7
ARTICULAÇÃO LATINO-AMERICANA: CULTURA E POLÍTICA

Saudação à luta anti-racial


de Abdias Nascimento

E
xistem os artistas que têm preço e os que têm valor. mos capazes, sim. Sem essa da ideologia que nos coloca sempre
Quem tem preço, os caras têm dinheiro para com- para trás, que diz que somos simplesmente negativos, proble-
prar. Quem tem valor está sempre nas resistências.” máticos, burros. O professor Abdias nos mostra isso por meio
As palavras ricocheteiam feito uma letra de rap. de suas expressões culturais também: como escultor, como
De fato, servem à embocadura do rapper GOG numa de suas pintor (foto, ao centro), como dramaturgo, como teatrólogo...
intervenções em que pediu o microfone durante o seminário que Ele não foi um negro diferente, mas um negro que soube bus-
marcou a primeira atividade pública da Articulação Latino- car dentro de si a superação”, afirmou GOG, emocionado.
Americana: Cultura e Política. Genival Oliveira Gonçalves, o
GOG, e a cantora e compositora Ellen Oléria (foto box abaixo), CONSCIÊNCIA NEGRA
ambos artistas expoentes do movimento negro contemporâneo Acerca das relações raciais, as evitações sociais, econômicas, po-
em Brasília, interpretaram ao vivo a canção Carta à Mãe África líticas e culturais que afetam a população negra há séculos, a histo-
(ver abaixo), de autoria do primeiro, uma saudação voz-violão- riadora Wânia Sant’Anna (foto, à direita) enfatizou um feito extra-

Acervo Ipeafro
e-palavra ao pensador Abdias Nascimento (foto, à esquerda), de ordinário que o movimento negro do país conquistou após a
94 anos, cuja vida carrega a causa anti-racista nas entranhas e ditadura militar (1964-1985). “Não é trivial, como reação política
cuja trajetória de perseveranças humanista e intelectual – home- de grupos forjada nesse período de democratização, o fato de ter-
nageada no seminário – foi mostrada em vídeo exibido pelos mos conseguido constituir a data cívica de 20 de novembro como o
organizadores. Abdias, filho de uma doceira e de um músico e sapateiro, nasceu Dia Nacional da Consciência Negra”, pontuou. Além de servir à reflexão, a data, im-
em Franca, no interior paulista. plantada em 2003, reafirma a instituição de Zumbi (1635-1695), líder do Quilombo
Em breve resumo biográfico, ele cresceu numa família coesa, carinhosa e orga- de Palmares, no atual estado de Alagoas, como um herói nacional. Há aí um forte
nizada, porém empobrecida, como informa o site www.abdias.com.br. Na década componente de memória coletiva. “O resgate da história da escravidão se dá não ape-
de 1930, aliou-se à Frente Negra Brasileira contra a segregação racial em estabeleci- nas como explicação das relações étnico-raciais que experimentamos, mas como fonte
mentos comerciais da cidade. Foi um dos fundadores do Teatro Experimental do para mudanças que devem ocorrer nos dias de hoje”, comentou Sant’Anna.
Negro, em 1944. Após o golpe militar de 1964, partiu para o exílio e, nessa condi- Ao lançar mão de expressões como “mal-estar perpetuado” e “liber-
ção, ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Co- dade condicionada” para espelhar o discurso objetivo das relações de
mo deputado federal, nos anos 1980, foi o primeiro afro-brasileiro a poder na sociedade, a historiadora identificou três situações típicas nos
dedicar seu mandato à luta contra o racismo. Na década seguinte, processos de interdição que a população negra costuma sofrer. Primeiro,
atuou como senador. Entre as secretarias que comandou no estado ela é desqualificada. Depois, desclassificada. Por fim, desapropriada. Em
Acervo Ipeafro

do Rio de Janeiro, estão a da Defesa e Promoção das Populações seus estudos, Sant’Anna analisa como a capoeira, o samba e a religiosi-
Afro-Brasileiras e a de Cidadania e Direitos Humanos. dade foram reprimidos de forma avassaladora ao longo dos séculos e,

Miguel Mello
“Sua história mostra, principalmente a nós, negros, que so- igualmente, resistiram ao apagamento. (VS)

Carta à Mãe África


Composição e interpretação de GOG no CD Aviso às Gerações - 2006
Miguel Mello

É preciso ter pés firmes no chão muito pouco / E penso... Qual foi o erro cometido? / vistas nas revistas / Alguns de nós, quando expõem
/ Sentir as forças vindas dos Por que fizeram com a gente isso? / O plano fica cla- seus pontos de vista / Tentam ser pacíficos, cordiais,
céus, da missão... / Dos seios da ro... É o nosso sumiço / O que querem os partidá- amorosos / E eu penso como os dias têm sido doloro-
Mãe África e do coração / É ho- rios, os visionários disso / Eis a questão... / A maio- sos / E rancorosos, maldosos muitos são / Quando
ra de escrever entre a razão e a ria da população tem guetofobia / Anomalia sem falamos numa mínima reparação: – Ações afirmati-
emoção / Mãe! Aqui crescemos vacinação. / E o pior, a triste constatação: Muitos vas, inclusão, cotas?! / – O opressor ameaça recalçar
subnutridos de amor / A dis- irmãos patrocinam o vilão... / De várias formas, as botas... / Nos mergulharam numa grande confu-
tância de ti, o doloroso chico- oportunistas, sem perceber / Pelo alimento, fome, são / Racismo não existe e sim uma social exclusão /
te do feitor... / Nos tornou al- sede de poder / E o que menos querem ser e pare- Mas sei fazer bem a diferenciação / Sofro pela cor,
go nunca imaginável, imprevisível / cer... / Alguém que lembre no visual você. pelo patrão e o padrão / E a miscigenação, tema po-
E isso nos trouxe um desconforto horrível / As tran- lêmico no gueto / Relação do branco, do índio com
cas, as correntes, as prisões do corpo outrora... / (Refrão*) preto / Fator que atrasou ainda mais a auto-estima:
Evoluíram para a prisão da mente agora / Ser preto A carne mais barata do mercado é a negra / A carne – Tem cabelo liso, mas olha o nariz da menina / O
é moda, concorda? Mas só no visual / Continua ca- mais marcada pelo Estado é a negra / A carne mais espelho na favela após a novela é o divã / Onde o
so raro ascensão social / Tudo igual, só que de ma- barata do mercado é a negra / A carne mais marcada parceiro sonha em ser galã / Onde a garota viaja... /
neira diferente / A trapaça mudou de cara, segue im- pelo Estado é a negra. Quer ser atriz em vez de meretriz / Onde a lágrima
punemente / As senzalas são as ante-salas das corre como num chafariz / Quem diz! Que este povo
delegacias / Corredores lotados por seus filhos e fi- Os tiros ouvidos aqui vêm de todos os lados / Mas foi um dia unido / E que um plano o trouxe para um
lhas... / Hum! Verdadeiras ilhas, grandes naufrágios não se pode seguir aqui agachado / É por instinto que lugar desconhecido / Hoje amado (Ah! muito ama-
/ A falsa abolição fez alguns estragos / Fez acreditar levanto o sangue Banto-Nagô... / E em meio ao bom- do...), são mais de quinhentos anos / Criamos nossos
em racismo ao contrário / Num cenário de estações bardeio / Reconheço quem sou, e vou... / Mesmo fe- laços, reescrevemos sonhos / Mãe! Sou fruto do seu
rumo ao calvário / Heróis brancos, destruidores de rido, ao front, ao combate / E, em meio à fumaça, sangue, das suas entranhas / O sistema me marcou,
quilombos / Usurpadores de sonhos seguem reinan- sigo sem nenhum disfarce / Pois minha face delata ao mas não me arrebanha / O predador errou quando
do... / Mesmo separado de ti pelo Atlântico / Minha mundo o que quero: Voltar para casa, viver meus pensou que o amor estanca / Amo e sou amado no
trilha são seis românticos cânticos / Mãe! Me imagi- dias sem terno / Eterno! É o tempo atual, na moral / exílio por uma mãe branca.
no arrancado dos seus braços / Que não me viu nas- No mural vendem uma democracia racial / E os pre-
cer, nem meus primeiros passos / O esboço! É o que tos, os negros, afro-descendentes... / Passaram a ser *Colagem de A Carne, composição de Seu Jorge, Marcelo
tenho na mente do teu rosto / Por aqui de ti falam obedientes, afro-convenientes. / Nos jornais, entre- Yuca e Wilson Capellette interpretada por Elza Soares.