Terceiro Tempo Modernista A Poesia da Geração de 45 Ao fim da Segunda Guerra, um grupo de poetas constituiu a “geração de 45”, assim chamada

porque é possível anotar algumas direções – genéricas embora – que em maior ou menor grau estavam presentes em sua obra naquele momento. Veja-se, no exemplo sempre citado da obra de João Cabral de Melo Neto, a necessidade de expressão rigorosa, a busca da palavra única que circunscreve de maneira exata e precisa a feição substantiva do tema. Se a poesia de 45 foi tida como neoparnasiana, o fato vem de que se entrevê, nela, a tendência formalista, decorrente das exigências a que se submetia o modo de dizer as coisas. Tal procedimento não obstou ao surgimento de um lirismo novo, agressivo e intenso, a depor sobre um tempo que, parece, desdenhava a manifestação poética. (...) (SANCHES, Amauri M. Tonucci. Panorama da literatura no Brasil. São Paulo, Abril Educação, 1982.) Características da Poesia de 45 Os poetas de 45 entenderam que as conquistas dos modernistas de 22 deveriam ser abandonadas. Partiram, portanto, para a reabilitação de regras mais rígidas para a composição do verso.  VOLTA AO RIGOR DO VERSO Uma das primeiras conquistas dos modernistas de 22, o verso livre, foi abolida do ideário de 45. Os poetas revigoraram a metrificação com o emprego do verso decassílabo e de outras medidas poéticas, consideradas obsoletas. Assim, renasceu o soneto como forma fixa predileta. O desleixo do ritmo foi repudiado e, em seu lugar, observou-se o equilíbrio rímico.  INTENÇÃO ESTÉTICA Assim como os parnasianos dos últimos anos do século XIX, a Geração de 45 fez questão de cultivar uma linguagem lírica, com imagens intencionalmente

a que se seguiria a história desabusada da esquerda aventureira em Bar Don Juan (1971) (. no cinema. no governo João Goulart. Depois do golpe militar de 1964. versão brasileira.. A nova narrativa.) PAINEL DE REFERÊNCIAS HISTÓRICAS Entre 1962 e 1964. como os romances de Antonio Callado.. Na fase inicial.. O poema. Ática. que renovou a “literatura participante” com destemor e perícia. In: A educação pela noite e outros ensaios. graças ao pavor da burguesia e à atuação do imperialismo. (. no romance Em Câmara Lenta (1977).) (CANDIDO. o golpe militar de 1964. de Carlos Lyra) e no teatro (Brasil.Pós-Modernidade O decênio de 1960 foi primeiro turbulento e depois terrível. a circulação cultural esteve sob a mira da polícia e da política.. houve um aumento de interesse pela cultura popular e um grande esforço para exprimir as aspirações e reivindicações do povo – no teatro. de Glauber Rocha). Antonio. São Paulo. imperialismo e melhores condições de vida. o surgimento dos Centros Populares Culturais (CPCs) e do Movimento de Cultura Popular (MPC) proporcionou uma produção musical. reprimiu-se o tom esquerdizante. o decênio de 60 teve algumas manifestações fortes na linha mais ou menos tradicional de fatura.. repudiado pela ditadura de direita que vigorava no país. que se transformou em 1968 de brutalmente opressivo em ferozmente repressivo. surgiu o que se poderia chamar “geração da repressão”. A censura tornou-se particularmente temida. análise do terrorismo com técnica ficcional avançada (apreendido por ordem da censura. de Millôr Fernandes). quando foi assinado o terrível AI-5 (Ato Institucional nº 5). com o correr dos anos. a peça teatral ou a canção tornaram-se instrumentos de pedagogia política. . a radicalização generosa. Era uma produção esquerdizante. Em seguida.) e. teatral e literária voltada para um público que se reunia em comícios. tornando-se o primeiro cronista de qualidade do golpe militar em Quarup (1967). 1987. dos quais serve de amostra Renato Tapajós.) Na ficção. Os CPCs divulgaram uma produção artística comprometida com o nacional e o popular no cinema (Deus e o diabo na terra do sol. na educação. na música (Subdesenvolvido. (.. cujo projeto ideológico-político trazia para a literatura a discussão de temas como fome. foi liberado judicialmente em 1979). formada pelos jovens escritores amadurecidos depois do golpe. passeatas e assembleias. A partir de 1968. período Goulart. na poesia. A princípio. mas desorganizada do populismo.

destinada a documentar a história trágica do país. do teatro e da telenovela. revistas e peças teatrais.. de Osman Lins. nos anos 70 e 80. O elemento extraordinário não se limita a uma experiência de leitura prazerosa para distrair o leitor. A ficcionalização de outros gêneros passou a ser um modo de narrar: os escritores trouxeram para o romance ou para o conto elementos do cinema. mas revelou-se frágil. por exemplo. cortar e proibir filmes. mas assume uma função . de João Ubaldo Ribeiro. Um dos mais marcantes escritores desse tempo é João Antonio. Na linha da alegoria e do realismo fantástico aparecem A máquina extraviada (1967) e Sombras de reis barbudos (1972). Características da nova narrativa  Incorporação de técnicas: legitimação da pluralidade Não há mais. Foi também a hora da paródia histórica. além de Incidente em Antares. de Ivan Ângelo. praticando a arte da “colagem”.  Realismo fantástico Há uma tendência de inserir o realismo fantástico nas histórias. reflexões. autor de Malagueta. documentos.  Ficcionalização de outros gêneros O livro de memórias ganhou força nos anos 70 e 80.. Há uma legitimação da pluralidade. e a crônica. contos que parecem poemas em prosa ou crônica. como é o caso de Galvez. jornais. de Érico Veríssimo (1971). Destacam-se a experimentação com a palavra elaborada e a forma de narrar de Avalovara (1973). de A pedra do reino. Assim. Uma resistência de intelectuais se esboçou pelo Brasil afora. Outros experimentos: A festa. refletem a literatura fragmentária. incorporando outras técnicas e linguagens dentro de suas fronteiras. Despontam também uma literatura engajada. ambos de 1971. muitos partiam para o exílio – ou desapareciam misteriosamente. de Márcio Souza (1970). Veiga.A censura federal passou a vigiar. Propostas alternativas e experimentais Novos rumos na ficção brasileira surgiram a partir do golpe militar. o monólogo. São romances que parecem reportagens. que confere ao texto uma nova mensagem. a narrativa desde fim de século traz para o relato a coexistência entre o falado e o escrito. e Sargento Getúlio. livros. e a de Zero (1975). e Reflexos do baile. o imperador do Acre. Avolumaram-se as propostas alternativas e experimentais para exprimir um país sacudido pela força de repressão. de Antonio Callado (ambos de 1976). textos que se fazem por justaposição de recortes. a gíria e o texto completamente livre. gênero jornalístico de grande difusão nos anos 80 e 90. deputados e intelectuais perdiam seus mandatos e empregos. de Ignácio de Loyola Brandão. narrativas que ganham jeito de cena teatral. autobiografias que ganham ares de romance. de José J. Perus e Bacanaço (1963). um limite entre o romance e o conto – estes gêneros que se desdobram. de Ariano Suassuna. Prendiam-se estudantes.

Nessa época. Traz a história do padre Nando. que torturava e matava. Getúlio Vargas. Quarup. Quarup Publicado em 1967. Uma rede para Iemanjá. o dado sobrenatural é um artifício da imaginação para remeter a conflitos originários da própria realidade. Com o golpe militar de 1964. – a grande festa dos mortos. Quando é libertado. Nando resolve ajudar no trabalho das Ligas Camponesas. no Rio de Janeiro.eminentemente crítica. Vietnã do Norte. onde é interrogado e torturado. TEATRO: O fígado de Prometeu. e Fontoura. então capital federal. Sempreviva. O colar de coral. A madona de cedro. no Xingu. sua sobrinha Vanda. Partem para a Amazônia. herança de seus pais. incutiram nele o sentido de uma realidade frágil. Passaporte sem carimbo. e passa o tempo “ensinando a arte de amar”. 1962. Tempo de Arraes. 1997) Antonio Callado conservou a paixão pela palavra escrita trabalhando em jornal – o que fez desde 1937. onde a sucessão de acontecimentos absurdos parecia ser a ordem do dia. REPORTAGEM: Esqueleto na lagoa verde. O ano é 1954 e. Pedro Mico. a luta dos camponeses ganha força. iria inaugurar o Parque Nacional do Xingu. quando ingressou no Correio da Manhã. grande amigo dos índios e chefe do posto. Reflexis do baile. durante a ditadura militar. para assegurar a preservação das terras indígenas. o jornalista Falua. Principais autores ANTONIO Carlos CALLADO (Niterói. Nando e os demais membros do SPI esperam pelo acontecimento e. que renunciara ao sacerdócio e voltara a Pernambuco com Francisca. sob o governo de Miguel Arraes. Ou seja. . participante do processo repressivo. Arraes é afastado. As experiências das várias prisões. Forró no engenho Cananéia. 1917 – Rio de Janeiro. numa “cruzada sexual” que escandaliza os seus antigos companheiros de luta política. do partido comunista. que vive em Pernambuco e acalenta o sonho de construir um paraíso terrestre na Amazônia. Foi preso em companhia de Gilberto Gil. ajudam os índios a preparar o quarup. ROMANCE: Assunção de Salviano. Nando recolhe-se a uma casa de praia. esse romance abre o ciclo da nova narrativa no Brasil. A cidade assassinada. o padre Nando conhece pessoas ligadas ao Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – o chefe Ramiro. O tesouro de Maria Chica. Várias personagens de seus livros foram inspiradas em pessoas reais – gente cruel. Anos mais tarde. Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco. Nando vai para a prisão. enquanto isso. o então presidente do Brasil. Olavo e Lídia. Francisca havia partido para a Europa. que passou a trabalhar com a alfabetização de camponeses. Caetano Veloso e Ferreira Gullar. a narrativa retoma o enfoque de Nando.

] .

) Eu tinha onze anos quando tio Baltazar chegou da primeira vez. mas veio sozinho e com fama de muito rico. – Hum. Estava casado de novo. descendo.. Lu: é mais fácil um burro voar do que a Companhia acabar. e não do que deixou de acontecer. como os que disseram que tio Baltazar ia voltar. – Então não vai? Ele sorriu e disse: – Olhe. Agora eu perguntou de novo: se ele tivesse voltado naquela ocasião. Relembrando aqueles tempos meu pai me disse que depois de alguns dias aqui tio Baltazar pensou em desistir da Companhia e voltar. Fiquei na dúvida se ele sabia mesmo ou se estava apenas torcendo. Deixe eles. Estou aqui para falar do que aconteceu. Ele me olhou espantado e perguntou: – A Companhia acabando? Onde você descobriu isso? – Muita gente está dizendo – respondi. Pare de repetir bobagens. curvos..) Um dia eu disse aqui em casa que a Companhia estava se acabando. Muros muros muros (. De repente os muros. abafando. subindo. Da noite para o dia eles brotaram assim retos.. será que teríamos passado por tudo o que passamos? Mas perguntar essas coisas agora é o mesmo que dizer que se o bezerro da vizinha não tivesse morrido ainda estaria vivo. Até hoje não sabemos se eles foram construídos aí mesmo nos lugares ou trazidos de longe já prontos e fincados aí. separando amigos. esses muros. tapando vistas.A chegada (. Não sabem de nada.. quebrados. dividindo as ruas ao meio conforme o traçado. escurecendo. Assim a surpresa vai ser maior. será que ainda estaria vivo? E se ele não tivesse não tivesse fundado a Companhia. No princípio quebrávamos a cabeça para achar o caminho de uma rua à rua . e pela primeira vez ouvi a opinião de meu pai sobre o assunto.

. – Vou fazer um chá de laranjeira pra você. hoje podemos transitar por toda parte até de olhos fechados. e onde nenhum fiscal se lembraria de procurar gente. Discuta a função do elemento fantástico nessa história. Rio de Janeiro. eles todos tinham essa morrinha. e pensávamos que não íamos nos acostumar. Sombras de reis barbudos. esperando. se sofresse não enfiava linha em agulha com tanta facilidade para poupar tempo a mamãe na costura. todo mundo estar voando.. nem estava pensando no tal homem voador.) Passavam-se os dias. um céu sem nuvem nem fumaça. até meu pai quando era fiscal. e dei com ele vindo do lado do rio. quando eu regava a horta distraído. de repente. e dizem que também de assombração. – Você viu o quê? – Um homem voando. Eu enxergava até demais. – Você está branco! – ela disse. Veio do lado do rio. e muito menos de doença da cabeça ou dos nervos. – Não tem um pingo de sangue no rosto! Você se assustou com quê? Resolvi arcar com as consequências de dizer a verdade.. O que significa o fato de. José J. mas dava para distinguir os braços. passou por cima da casa e sumiu. na história? 4. Eu tinha certeza que não sofria de nenhuma doença. procurando. Bertrand Brasil. 1988). até as mãos de dedos abertos. como se os muros não existissem. (. FORMA E CONTEÙDO 1. – Eu vi um homem voando. é bom para acalmar. Qual o significado dos muros da cidade? 3. e acompanhei-o até sumir atrás do telhado de nossa casa. quero dizer.. de longe e de perto – a não ser que a doença fosse essa justamente. cheguei a sentir o cheiro de azedo da roupa dele. a situação dentro de mim..) Das profundezas do céu Eu e uns colegas descobrimos um lugar ótimo para olhar os campos escondido dos fiscais. A minha situação piorava dia a dia. cercada de mato e carrapicho. Aquela mania de procurar gente voando ainda podia me custar caro. Larguei o regador e corri para dentro. Para você. (. o que parece ser a Companhia? Por que Baltazar teve de abandoná-la? 2. Uma vez quase dei uma trombada em um fiscal. largatixa e calango.) (VEIGA.. doença de ver além do normal. AUTORES DO BOOM EDITORIAL . Mas uma tarde. olhei para cima na maior inocência. Também não sofria da vista. Ele sacudiu-me pelo braço. perguntou o que era que eu tinha guardado lá em cima e seguiu o seu caminho resmungando e limpando a roupa de uma sujeira imaginária. Não sei como ele não me arrastou para a escola de fiscais.seguinte. Vinha mais alto do que o da torre. Quando cheguei lá fora não vi mais. Quase toda tarde nos reuníamos na torre do convento velho. e eu sempre de olhos no céu. lugar de muita cobra. que faz a pessoa ver o que não existe. Peguei-o quase no meio do céu. (. as pernas.

O conto desenvolveu-se nos anos 70 e até mesmo inflacionou a década. tornado-se um genro predileto. talvez porque a rapidez .No meio da década de 70. o movimento editorial agitou-se com um número surpreendente de autores estreantes e a presença de escritores já atuantes em anos anteriores.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful