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A Ciociara
Alberto Moravia

1
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CAPÍTULO I

Ah! Os belos tempos em que me casei e deixei a minha aldeia para ir


instalar-me em Roma! Todos conhecem a canção: “Quando la ciociara si marita a chi
tocca lo spago e a chi la ciocia”
Mas eu dei tudo ao meu marido, a sola e o cordão, porque era meu marido e
também porque me levava para Roma e eu gostava de ir para lá e não sabia que
precisamente em Roma me esperava a desgraça. Tinha um rosto redondo, olhos
negros, grandes e fixos, cabelos pretos, que me cresciam quase por cima dos olhos,
apartados em duas tranças espessas, semelhantes a cordas. A minha boca,
vermelha como o coral, mostrava, quando ria, duas filas de dentes brancos,
cerrados e regulares. Era bastante forte e capaz até de equilibrar à cabeça, sobre a
cercine2, o peso de meio quintal. Meu pai e minha mãe eram camponeses, mas
deram-me um enxoval de senhora, trinta de tudo: trinta lençóis, trinta fronhas, trinta
lenços, trinta camisas, trinta calcinhas. Tudo roupa fina, de bom linho fiado e tecido à
mão por minha mãe, no seu tear; alguns lençóis tinham até a cobra bordada com
muitos e lindos lavores. Também possuía jóias de coral vermelho-escuro, o de mais
alto preço.
Um colar, brincos de coral e ouro, um anel de ouro com um coral e até um
belo alfinete também de ouro e coral. Além dos corais, tinha outros objetos de ouro,
jóias de família, e um medalhão para trazer ao peito, com um camafeu muito bonito,
no qual se via um pastorinho com as suas ovelhas. Camponeses da ciociara, região
montanhosa das proximidades de Roma. Usam uma espécie de sandálias, ciocia,
feita com um retângulo de couro revirado para o peito do pé e ligado à perna por
cordões ou correlas.
Quando a ciociara se casa um dá o cordão a outro a sola. Alusão sem dúvida
aos costumes bastante livres das camponesas da região, que, uma vez casadas,
não ligam grande importância à fidelidade.
Meu marido tinha uma pequena mercearia em Trastevere, no Hecoclos Cinco,
e armou uma casita mesmo por cima da loja, tanto que, se me debruçasse na janela
do quarto, podia pôr os dedos na tabuleta cor de sangue de boi com os dizeres: Pão
e Massa.

2
Espécie de rolo, feito de trapo, usado para equilibrar pesos à cabeça, correspondente à nossa rodilha ou sogra.
A casinha tinha duas janelas que davam para o saguão e outras duas para a
rua; eram quatro divisões ao todo, pequeninas e baixas, mas eu mobiliei-as bem:
alguns móveis compramo-los em Campo di Fiori e outros deu-nos a minha família. O
quarto era todo novo, com o leito conjugal de ferro pintado a imitar madeira, a
caxeira enfeitada com ramos e grinaldas; na sala pus um lindo sofá de madeira com
torcidos e estofo de flores estampadas, duas cadeiras com o mesmo estofo e os
mesmos tórridos, uma mesa redonda para as refeições e um guarda louça para os
pratos, todos de porcelana fina, com um vivo de ouro e no fundo um desenho de flor
e fruta.
O meu marido descia de manhã direto para a loja e eu arrumava a casa.
Esfregava, varria, dava lustro, sacudia o pó, limpava todos os cantos, todos os
objetos; depois a casa ficava mesmo um espelho, e das janelas, com cortinas
brancas, vinha uma paz tranqüila e doce, e eu olhava para os quartos e vendo-os
tão arrumados limpos e brilhantes, com todas as coisas no seu lugar, entrava-me
não sei que alegria no coração. Ah! Como é bom ter casa nossa, onde ninguém
entra e que ninguém conhece, e passar a vida a limpá-la e a arrumá-la! Acabadas as
limpezas, vestia-me, penteava-me com cuidado pegava no cabaz e ia ao mercado
fazer compras. O mercado era mesmo ali a poucos passos, e eu andava por entre
as bancadas, mais de uma hora, não tanto para comprar, porque grande parte das
coisas tinha-as na loja, mas para ver. Andava e olhava para tudo: a fruta, os
legumes, a carne, o peixe, os ovos; entendia daquilo e gostava de calcular os preços
e os lucros, avaliar a qualidade, descobrir as trapaças e os truques dos vendedores.
Gostava também de discutir, tomar o peso às coisas, deixá-las, depois discutir outra
vez e por fim não comprar nada. Alguns vendedores faziam-me a sorte, dando-me a
entender que me ofereceriam isto e aquilo se lhes desse troco; mas eu respondia-
lhes de tal maneira que compreendiam logo que não estavam a falar com quem
julgavam.
Sempre fui orgulhosa e não é preciso muito para me subir o sangue à cabeça;
então vejo tudo vermelho e é uma sorte que as mulheres não usem facas na
algibeira, como os homens, porque, de outro modo, seria até capaz de matar. A um
vendedor que me aborrecia mais do que os outros e insistia em fazer-me propostas,
obrigando-me a aceitar-lhe presentes, corri um dia atrás dele com um grande
alfinete na mão; por sorte intervieram os guardas, senão espetava-lhe no lombo.
Bem, voltava para casa contente e, depois de pôr na água a ferver para o
caldo os temperos, alguns ossos e um bocadinho de ramo, fui imediatamente para a
loja. Também ali era feliz. Vendíamos um pouco de tudo, massa, arroz, legumes
secos, vinho, azeite, conservas, e eu estava atrás do balcão como uma rainha, os
braços nus até o cotovelo e o meu medalhão com o camafeu ao peito: recebia as
encomendas dos clientes, pesava, fazia rapidamente as contas com o lápis num
bocado de papel pardo, embrulhava-as, entregava-as. Meu marido, esse era mais
lento. Por falar no meu marido, esquecia-me de dizer que era já quase velho quando
nos casamos e houve até quem dissesse que o fiz por interesse; é verdade que
nunca estive doida por ele, mas, tão certo como Deus estar no Céu, sempre lhe fui
fiel, se bem que ele o não fosse. Tinha lá as suas manias, o pobrezinho, e a principal
era a de agradar às mulheres, o que não correspondia à verdade. Era gordo, mas
não uma gordura sã, com olhos negros, raiados de sangue, e faces pálidas com
pequenas manchas como migalhas de tabaco.
Bilioso, concentrado, grosseiro, ai de quem o contrariasse. Ausentáva-se
continuamente da loja e eu sabia que ia encontrar-se com qualquer mulher, mas
quase podia jurar que nenhuma lhe dava atenção senão a troco de dinheiro. Com
dinheiro, sabe-se, tudo se consegue, até mesmo que uma noiva levante a saia. Eu
percebia logo quando as coisas lhe corriam bem, porque então mostrava-se quase
alegre e gentil. Quando, ao contrário, não conseguia nada, ficava sombrio,
respondia-me mal e algumas vezes até me batia. Mas um dia disse-lhe:
“Vai lá para essas perdidas quando quiseres, mas não me toques, senão
deixo-te e volto para a minha casa.”
Eu não queria ter amantes, embora, como já disse, muitos homens andassem
atrás de mim; toda a minha paixão a pus na casa, na loja e, depois de ser mãe, na
minha filha. Com o amor não me importava, ou, antes, provavelmente por só ter
conhecido o meu marido, tão velho e feio, quase me enganava. Queria apenas viver
tranqüila e que me não faltasse nada. De resto, uma mulher deve ser fiel, aconteça o
que acontecer, mesmo quando o marido, como era o caso, não o é.
O meu marido, com os anos, deixou de encontrar mulheres que lhe dessem
atenção, nem por dinheiro o queriam, e tornou-se insuportável. Há muito tempo que
não fazíamos vida de casados, mas de repente, talvez à falta de melhor, apaixonou-
se de novo por mim e quis me ter à viva força, não simplesmente, como marido e
mulher, mas como as marafonas com os amantes, tentando, com certas manobras,
obrigar-me ao que nunca me agradou e nuca quis, nem mesmo quando vim para
Roma, casada de fresco, e me sentia tão feliz que cheguei quase a imaginar que
estava apaixonada por ele.
Disse-lhe que me deixasse em paz, e ele, a primeira vez, bateu-me,
fazendo-me até saltar o sangue pelo nariz; depois, vendo que eu estava mesmo
resolvida a não ceder, deixou de me importunar, mas passou a odiar-me e a
perseguir-me de todas as maneiras. Eu suportava tudo pacientemente, mas no
fundo também o odiava e não podia vê-lo. Até disse ao padre, em confissão: “Isto
um dia acaba mal”, e o padre, como verdadeiro padre, aconselhou-me a ter
paciência e a dedicar os meus sofrimentos à Virgem. Entretanto, arranjei uma
rapariga para me ajudar, uma certa Bice, de quinze anos, cujos pais ma tinham
confiado, pois era ainda quase criança, e ele começou a arrastar-lhe a asa quando
me via ocupada com os clientes, abandonava a loja, galgava os degraus a quatro e
quatro, ia à cozinha e deitava-se a ela como um lobo. Desta vez impus-me e
disse-lhe que deixasse a Bice em paz, mas, como ele insistisse em atormentá-la,
mandei-a embora. Por causa disto, o meu marido passou a odiar-me ainda mais e
foi então que começou a chamar-me labrega:
“A labrega já voltou?... Onde está a labrega?”
Em suma, era bem pesada a minha cruz, e, quando ele adoeceu a sério, devo
confessar, quase senti alívio. Tratei-o, no entanto, com todo o carinho, como se deve
tratar um marido doente, e todos sabem que nem quis saber mais da loja, só para
estar ao pé dele; até perdi o sono. Finalmente morreu e senti-me de novo quase
feliz. Tinha a loja e a casa, tinha a minha filha, que era um anjo, e na verdade não
desejava mais nada da vida.
Foram aqueles os anos mais felizes que vivi: 1940, 1941, 1942, 1943. É
verdade que havia a guerra, mas eu de guerra não percebia nada, e, como só tinha
aquela filha, não me preocupava que houvesse guerra ou não. Que se matassem
uns aos outros, com aviões, carros blindados, bombas, a mim não me importava,
bastava-me a loja e a casa para ser feliz, como de fato era. De resto, sabia pouco de
guerra, pois, embora saiba fazer contas e até assinar o meu nome num postal
ilustrado, para falar verdade, não sei ler lá muito bem e nos jornais só lia a crônica
dos crimes, ou, antes, mandava-a ler a Rosetta. Para mim, alemães, ingleses,
americanos, russos, como diz o provérbio, caça, caça, que é tudo a mesma raça.
Aos militares que apareciam na loja e diziam: venceremos além, iremos acolá,
faremos isto e mais aquilo, eu respondia: para mim tudo corre bem enquanto correr
bem o negócio. E o negócio corria realmente bem, embora houvesse aquele
inconveniente das senhas e Rosetta e eu passássemos todo o dia de tesoura na
mão, como se fôssemos costureiras, e não comerciantes. O negócio corria bem
porque eu era esperta e no peso conseguia ganhar sempre alguma coisa e também
porque, como havia racionamento, fazíamos as duas um pouco de mercado negro.
De tempos a tempos, Rosetta e eu fechávamos a loja e íamos à minha aldeia ou a
qualquer outra localidade mais próxima. Levávamos duas grandes malas de fibra,
vazias, e trazíamo-las para casa cheias de tudo: farinha, presunto, ovos, batatas.
Com os fiscais não havia complicações porque eles também tinham fome, e assim
cheguei a vender mais coisas às escondidas do que às claras. Mas a um desses
tipos meteu-se-lhe na cabeça aproveitar-se das circunstâncias. Um dia disse que me
denunciava se eu não lhe desse trela. Respondi-lhe, muito calma:
“Está bem... vai logo a minha casa.”
Ele ficou vermelho como se lhe tivesse dado um sopapo e foi-se embora sem
dizer nada. À hora combinada apareceu, mandei-o entrar pela cozinha, abri uma
gaveta, agarrei numa faca e apontei-lhe logo ao pescoço, dizendo:
“Tu denuncias-me, mas eu primeiro mato-te.”
Assustou-se e disse-me à pressa que eu era maluca, pois aquilo não passara
duma brincadeira. E acrescentou:
“Não és como as outras mulheres? Não te agradam os homens?”
Respondi-lhe:
“Vai perguntar isso às outras... eu sou viúva, tenho a minha loja e não penso
em nada mais... para mim o amor não existe, lembra-te disto, para teu governo.”
Ele não acreditou logo e durante algum tempo continuou a arrastar-me a asa,
mas respeitosamente. E eu tinha dito a pura verdade. O amor, depois do nascimento
de Rosetta, nunca mais me interessou, e talvez nem mesmo antes. Sou assim, não
suporto que alguém me ponha as mãos em cima. Se os meus pais, a seu tempo,
não tivessem combinado o meu casamento, creio que estaria ainda hoje como a
minha mãe me deitou ao mundo.
Mas a minha aparência engana, porque agrado aos homens, e, embora seja
baixa e com os anos alargasse um pouco, tenho a cara lisa, sem uma ruga, os olhos
negros e os dentes brancos. Naquele período, que, como disse, foi o mais feliz da
minha vida, perdi a conta aos homens que me propuseram casamento. Mas eu
sabia que a loja e a casa é que os seduzia, mesmo àqueles que diziam amar-me a
sério. Talvez nem eles próprios soubessem que assim era e se iludissem sobre os
seus sentimentos; mas eu julgava por mim e pensava:
“Eu trocaria qualquer homem pela loja e pela casa... Porque hão de ser eles
diferentes?... Somos todos feitos da mesma massa.”
Se ao menos fossem, não digo ricos, remediados; mas não, eram uns
pobretanas, e via-se a uma légua de distância que tinham necessidade de se
amparar. A um de Nápoles, agente da segurança pública, que mais do que qualquer
outro fazia de apaixonado e procurava conquistar-me com adulações, enchendo-me
de cumprimentos e chamando-me até, à maneira napolitana, “Dona Cesira”,
disse-lhe francamente:
“Vejamos: se eu não tivesse a loja e a casa, vinhas dizer-me essas coisas?”
Aquele ao menos foi sincero, Respondeu a rir:
“Mas como tens a casa e a loja...”
Também é verdade que foi sincero porque lhe tirei todas as esperanças.
Entretanto, a guerra prosseguia, mas a mim não me interessava, e quando,
na rádio, depois das cançonetas, liam o comunicado, dizia a Rosetta:
“Fecha, fecha essa telefonia, que se matem à vontade uns aos outros, esses
filhos duma m... não quero ouvi-los; o que nos interessa a guerra?... Eles fazem-na
sem se importarem nada com a pobre gente que tem de ir para lá... portanto, nós,
que somos a pobre gente, estamos no direito de não nos importarmos também.”
Por outro lado, devo confessá-lo, a guerra favorecia-me: vendia cada vez
mais no mercado negro, com preços ao meu gosto, e cada vez menos na loja, com
preços fixados pelo Governo. Quando começaram os bombardeamentos a Nápoles
e a outras cidades, muita gente dizia-me:
“Fujamos, se não matam-nos a todos.”
Eu respondia:
“A Roma não vêm, porque em Roma está o papa... e, se me vou embora,
quem cuida da loja?”
Também os meus pais me escreveram da aldeia, convidando-me a ir para lá,
mas recusei. Rosetta e eu íamos cada vez mais freqüentemente ao campo e
trazíamos nas malas tudo o que encontrávamos: no campo havia abundância de
mantimentos, os camponeses não queriam vendê-los ao Governo, que pagava
pouco, e esperavam por nós, os do mercado negro, que pagávamos preços altos.
Além do que metíamos nas malas, trazíamos muitas outras coisas; lembro-me que
uma vez voltei a Roma com alguns quilos de salsichas enroladas em volta da
cintura, debaixo da saia, e até parecia grávida. Rosetta escondia os ovos no seio e,
quando os tirava, estavam tão quentes como se acabassem de sair da galinha.
Estas viagens, porém, eram longas e perigosas; uma vez, para os lados de
Frosinone, um avião metralhou o comboio e estivemos parados em pleno campo;
disse a Rosetta que descesse e se escondesse em qualquer fosso, mas eu não
desci porque tinha as malas cheias e no compartimento havia algumas caras pouco
tranqüilizadoras e uma mala depressa se rouba. Estendi-me no chão, entre os
assentos, com as almofadas em cima do corpo e da cabeça, e Rosetta desceu com
os outros e escondeu-se num fosso. O avião, depois de nos metralhar a primeira
vez, deu uma volta no céu e voltou à carga, voando baixo por cima do comboio
parado, com um barulho infernal dos motores e o tique-tique continuo das
metralhadoras, como granizo. Passou, afastou-se e tudo ficou em silêncio.
Finalmente, os passageiros voltaram ao compartimento e o comboio partiu, Daquela
vez até me mostraram as balas, compridas como um dedo; uns diziam que eram
americanas, outros afirmavam que eram alemãs.
Eu disse a Rosetta:
“Temos de ganhar para o enxoval e para o dote. Os soldados voltam da
guerra, não é verdade? E na guerra estão sempre a disparar contra eles, procurando
matá-los de todas as formas... Pois bem, nós também havemos de voltar a salvo
destas viagens.”
Rosetta não respondia, ou então dizia-me que iria aonde eu fosse. Tinha um
feitio meigo, diferente do meu, e Deus sabe que, se alguma vez houve um anjo na
Terra, ela era mesmo um anjo. Eu dizia-lhe constantemente:
“Pede a Deus que a guerra dure ainda alguns anos... porque então não só
terás um bom enxoval e um bom dote, mas serás rica.”
Ela não respondia, ou suspirava, e por fim soube que o namorado andava na
guerra e ela tinha medo que o matassem. Escreviam-se, ele estava nessa altura na
Iugoslávia; pedi informações e vim a saber que era um bom rapaz de Pontecorvo,
onde os pais tinham umas territas; estudava para guarda-livros e interrompera os
estudos por causa da guerra, mas contava retomá-los quando a guerra acabasse.
Então, disse a Rosetta:
“O principal é que ele volte... do resto encarrego-me eu.”
Rosetta abraçou-me, muito feliz. E eu podia de fato dizer, nessa altura. “do
resto encarrego-me eu”: tinha a casa, tinha a loja, tinha dinheiro guardado, e as
guerras, já se sabe, um dia tem de acabar e tudo volta aos seus lugares. Rosetta até
me deu a ler a última carta do noivo e lembro-me sobretudo duma frase: “Aqui temos
uma vida muito dura. Estes eslavos não querem submeter-se e estamos sempre em
estado de alerta.” Eu não sabia nada da Iugoslávia, mas mesmo assim disse a
Rosetta:
“Que diabo fomos nós fazer a esse país? Não podíamos ficar na nossa casa?
Eles não querem submeter-se e tem razão, digo-te eu.”
Em 1943 fiz um negócio importante: consegui trazer uma dezena de
presuntos de Sermoneta para Roma. Arranjei maneira de chegar a acordo com o
dono duma camioneta que transportava cimento, ele meteu os presuntos debaixo
dos sacos e assim chegaram sãos e salvos e eu ganhei bastante dinheiro, pois toda
a gente os queria. Foi talvez por causa dos presuntos que nem dei conta do que
estava a suceder. Ao voltar de Sermoneta disseram-me que Mussolini tinha fugido e
que a guerra ia acabar. Eu respondi:
“Para mim, Mussolini ou Badoglio ou outro qualquer, pouco me importa,
contanto que se faça negócio.”
Com Mussolini, de resto, nunca me importei, achava-o antipático, por causa
dos olhos ameaçadores e daquela boca que nunca se calava; aliás sempre pensei
que as coisas lhe começassem a correr mal, desde o dia em que se meteu com a
Petacci, pois o amor faz perder a cabeça aos homens velhos e Mussolini já era avô
quando conheceu aquela rapariga. A única vantagem dessa noite de 25 de Julho foi
terem posto a saque um armazém da Intendência, na Via Garibaldi. Fui lá, como
muitos outros, e levei para casa, à cabeça, um queijo parmesão. Mas havia ali de
tudo e não ficou nada para amostra. Um vizinho meu levou para casa, num carrinho,
o fogão de sala, de terracota, que estava no gabinete do administrador.
Durante aquele verão fizeram-se bons negócios, toda a gente tinha medo e
amontoava em casa coisas e mais coisas e nunca lhe pareciam bastante. Havia
mais gêneros nas adegas e despensas do que nas lojas. Lembro-me que um dia
levei um presunto a uma senhora, para os lados da Via Veneto. Morava num lindo
palácio. Um criado de libré abriu-me a porta, eu levava o presunto na mala do
costume, e a senhora, muito bonita e perfumada, com tantas jóias que até parecia
Nossa Senhora, veio ao meu encontro na antecâmara, e atrás dela o marido,
baixinho e gordo, e quase me beijou, tal era a sua gratidão, dizendo-me:
“Querida... oh! querida... venha por aqui, faça favor... entre, entre.”
Eu segui-a por um corredor e a senhora abriu a porta da despensa: havia ali
de tudo, mais do que numa mercearia. Era uma divisão sem janelas, com prateleiras
de alto a baixo, sobre as quais se alinhavam todas as qualidades de gêneros: aqui,
uma fila de caixas grandes, das de quilo, de sardinhas em azeite; ali, outras
conservas finas, americanas ou inglesas; mais além, pacotes de massa, sacos de
farinha e de feijão, frascos de doce e, pelo menos, uma dezena de presuntos e
paios. Eu disse-lhe:
“Minha senhora, tem aqui que comer para dez anos.”
Mas ela respondeu:
“Nunca se sabe.”
Pôs o presunto ao lado dos outros, o marido pagou-me ali mesmo e,
enquanto tirava o dinheiro da carteira, as mãos tremiam-lhe de alegria e não fazia
senão repetir:
“Quando tiver coisas boas, lembre-se de nós... estamos dispostos a pagar
vinte e até trinta por cento mais do que os outros.”
Em suma, toda a gente queria coisas de comer e pagava qualquer preço sem
hesitar; por isso nem pensei em guardar para mim fosse o que fosse, pois me
habituara a considerar o dinheiro a coisa mais preciosa; mas o dinheiro não se come
e, quando a escassez chegou, não tinha absolutamente nada. Na loja, as prateleiras
estavam vazias, não restavam senão alguns pacotes de massa e umas caixas de
sardinha de má qualidade. Tinha, sim, uns cobres amealhados em casa, e não no
banco, por precaução, pois dizia-se que o Governo queria fechar os bancos e ficar
com as economias dos pobres; mas agora o dinheiro já ninguém o queria e, além
disso, não me agradava nada, depois de o ter ganho no mercado negro, ir gastá-lo
no mesmo mercado, onde os preços quase atingiam as estrelas.
Entretanto, tinham voltado os alemães e os fascistas e uma manhã, ao passar
na Praça Colonna, vi a grande bandeira negra dos fascistas a flutuar no balcão do
palácio de Mussolini e toda a praça cheia de homens com camisas negras, armados
até aos dentes. Os que tinham feito todo aquele barulho na noite de 25 de Julho
fugiam agora rente aos muros, como ratos quando aparece o gato. Eu disse a
Rosetta:
“Oxalá uns ou outros vençam rapidamente a guerra, a ver se podemos comer
seja o que for.”
Estávamos no mês de setembro e uma manhã disseram-me que havia uma
distribuição de ovos para os lados da Via della Vite. Fui lá e vi de fato dois
caminhões cheios de ovos. Mas não distribuíam nada e um alemão de calções e em
mangas de camisa, com uma espingarda-metralhadora a tiracolo, vigiava a
descarga. Juntaram-se muitas pessoas em volta a ver descarregar os ovos sem
dizerem nada, mas de olhos esgazeados, como se estivessem cheias de fome, e na
verdade estavam.
Via-se que o alemão tinha medo que o agredissem, pois não fazia outra coisa
senão voltar-se para todos os lados, a mão na espingarda-metralhadora, dando
saltos como uma rã na margem dum pântano. Era novo, gordo e branco, muito
vermelho por causa do sol, com queimaduras nas coxas e nos braços como se
tivesse passado o dia à beira-mar. A multidão, vendo que não distribuíam os ovos,
começou e murmurar, primeiro baixinho, depois cada vez mais alto, e o alemão, que
estava cheio de medo, via-se a uma légua de distância, pegou na espingarda e
apontou-a para nós, dizendo:
“Embora, embora, embora!”
Então perdi a cabeça, naquela manhã não tinha comido nada e estava com
fome, e gritei-lhe:
“Dá-nos os ovos, que nós vamo-nos embora!”
Ele repetiu:
“Embora, embora”, apontando-me a espingarda; fiz um gesto, a indicar que
tinha fome, levando a mão à boca.
Mas ele não se deu por entendido e de repente pôs-me o cano da espingarda
mesmo sobre o estômago, com tal força que me magoou. Foi tanta a minha raiva
que gritei:
“Fizeram mal em mandar embora Mussolini... estava-se melhor no tempo
dele... desde que vocês vieram, não há que comer.”
Não sei porquê, a estas palavras toda a gente começou a rir e alguns
chamaram-me “labrega”, tal qual como o meu marido; um disse-me:
“Em Sgurgola não se lêem jornais?”
Respondi enfurecida:
“Sou de Vallecorsa, e não de Sgurgola... além disso, não te conheço e não
falo contigo.”
Mas os outros continuavam a rir e até o alemão parecia querer rir também.
Entretanto iam descarregando os ovos, em caixas abertas, muito brancos e indos, e
levavam-nos para dentro do armazém. Então, gritei:
“Ah! malandros, queremos os ovos, compreendem... queremos os ovos!”
Da multidão saiu um polícia e ordenou-me:
“Vai-te embora, que é melhor...”
Respondi-lhe:
“Já comeste hoje? Eu ainda não.”
Ele então deu-me uma bofetada e empurrou-me para o meio da turba.
Palavra que até tive vontade de o matar; e debatia-me, dizendo-lhe tudo o que me
vinha à cabeça; mas em volta empurravam-me para me afastarem dali e por fim tive
de me ir embora mesmo. Na balbúrdia, até perdi o lenço. Fui para casa e disse a
Rosetta:
“Se não sairmos daqui a tempo, acabamos por morrer de fome.”
Ela pôs-se a chorar e murmurou:
“Mamã, tenho tanto medo!”.
Senti-me mal, porque até esse momento Rosetta nunca se lamentara e mais
de uma vez me tinha encorajado com a sua tranqüilidade. Disse-lhe:
“Pateta, porque tens medo?”
Ela respondeu:
“Dizem que vêm com aviões e matam-nos a todos... parece que têm um
plano: primeiro destroem as linhas férreas os comboios e depois, quando Roma
estiver isolada e não houver mais nada que comer e ninguém puder fugir para o
campo, matam-nos a todos com os bombardeamentos... Oh! mamãe, tenho tanto
medo... e Gino não me escreve há mais de um mês e não sei nada dele!...”
Tentei consolá-la, dizendo-lhe as coisas do costume, que eu já não sabia se
eram verdades: que em Roma estava o papa, que os alemães iam ganhar depressa
a guerra, que não havia razão para ter medo. Mas ela continuava a soluçar. Por fim
apertei-a nos braços e embalei-a como quando tinha dois anos. Enquanto a
acariciava e ela chorava e repetia:
“Tenho tanto medo, mamã!”, pensava que ela não se parecia comigo, pois
não tenho medo de nada nem de ninguém.
Mesmo fisicamente, não havia entre nós grandes parecenças: Rosetta tinha
uma cara de borreguinha, olhos grandes, de expressão doce e quase ardente, o
nariz fino arqueado um pouco para o lábio e uma boca bonita e carnuda ligeiramente
proeminente em relação ao queixo fugidio, tal como o das ovelhas. Os seus cabelos
lembravam a lã dos cordeiros, dum louro-escuro, muito espessos e encaracolados, e
a pele era branca, delicada, salpicada de sardas, ao passo que eu tenho os cabelos
negros e a carnação morena, como queimada do sol. Finalmente, para acalmá-la,
disse-lhe:
“Todos pensam que a chegada dos ingleses é uma questão de dias e, quando
vierem, acaba a escassez... entretanto, sabes o que vamos fazer? Vamos para junto
dos teus avós, para a aldeia, enquanto a guerra não acaba. Há lá que comer,
feijões, ovos, porcos. No campo encontra-se sempre qualquer coisa.”
Ela perguntou então:
“E a casa?”
Respondi:
“Minha filha, também já pensei nisso... arrendo-a a Giovanni... arrendo-a é
uma maneira de dizer... quando voltarmos, ele entrega-nos a casa tal qual... A loja,
fecho-a, tanto mais que não tem nada dentro e durante algum tempo não haverá que
vender.”
É bom saber-se que Giovanni era comerciante de carvão e lenha e fora amigo
do meu marido. Era um homenzarrão, calvo, de cara vermelha, bigodes eriçados e
olhos meigos. Em vida do meu marido tinham sido companheiros, à noite, na
taberna, com outros negociantes do bairro. Vestia habitualmente fatos largos e
amarrotados e trazia sempre metade dum charuto apagado entre os dentes, debaixo
dos bigodes; nunca o vi sem um canhenho e um lápis na mão, pois andava
constantemente a fazer contas e a tomar notas e apontamentos. As suas maneiras
eram, como os seus olhos, doces, afetuosas, familiares, e, quando Rosetta era
pequena, perguntava sempre que me via:
“Como está a boneca?... O que faz a boneca?”
Direi ainda... mas não estou bem certa, porque há coisas que acontecem e
depois se duvida que tenham sucedido, principalmente se as pessoas, como neste
caso, não falam mais no assunto e se comportam como se nada se tivesse passado.
Giovanni, ainda em vida do meu marido, subiu um dia a minha casa, não me lembro
a que pretexto; eu estava junto do fogão a cozinhar e ele sentou-se e começou a
falar disto daquilo e por fim, do meu marido. Eu Julgava que eram amigos, e por isso
pode imaginar-se a minha surpresa quando, de repente, o ouvi perguntar:
“Mas dize-me lá, Cesira, como consegues aturar esse malandro?”
Disse assim mesmo, “malandro", e eu nem queria acreditar no que ouvia e
voltei-me para ele: estava sentado tranqüilamente, o charuto apagado ao canto da
boca. Acrescentou:
“Já não se agüenta em pé e qualquer dia morre...mas antes, à força de andar
metido com prostitutas, ainda te pega alguma doença ruim."
Respondi:
“Quero lá saber do que faz o meu marido!... Quando entra em casa, já tarde,
mete se na cama, eu volto-me para o outro lado, e boa noite.”
Então ele disse ou pareceu-me ouvir:
“Mas tu ainda és nova; queres ir para freira? És nova e precisas dum homem
que te queira bem.”
Eu tornei-lhe:
“Que te importa? Não preciso de homens e, mesmo que precisasse, que
tinhas tu com isso?”
Nesta altura ele levantou-se, parece-me que estou a vê-lo, veio ao pé de mim
e pegou me no queixo, dizendo:
“Com vocês, mulheres, é preciso falar sempre pão pão, queijo queijo... Eu
estou aqui, não vês? Nunca pensaste em mim?”
Já passaram tantos anos e as minhas recordações baralham-se neste ponto.
Mas estou quase certa de que me fez propostas de amor e lembro-me de lhe ter
respondido:
“Não te envergonhas? Vicenzo é teu amigo.”
Ele retorquiu:
“Qual amigo! Não sou amigo de ninguém.”
E em seguida, posso jurá-lo, disse-me que, se quisesse ser dele, me dava
dinheiro. Abriu a carteira e, ali mesmo, na mesa da cozinha, começou a pôr, uma a
uma, muitas notas, enquanto me fitava e repetia:
“Mais ainda? Ou basta?”
Quando lhe disse, sem me zangar, que desaparecesse, guardou as notas e
saiu. Tudo isto sucedeu com certeza, porque não o podia ter inventado, mas no dia
seguinte ele não disse uma palavra sobre o assunto, nem nos outros dias, nem
nunca mais. A sua atitude para comigo voltou a ser o que sempre fora, simples e
afetuosa, de tal maneira que comecei a perguntar a mim mesma se acaso não teria
sonhado que ele chamara malandro ao meu marido e me fizera propostas de amor e
pusera dinheiro em cima da mesa da cozinha. Com o decorrer dos anos, essa
sensação de que tudo fora um sonho prevaleceu no meu espírito. Mas, ao mesmo
tempo, não sei porquê, tinha a impressão de que Giovanni era o único homem que
gostava de mim a valer, só pelo que eu era, não pelo que possuía, e o único
também que me poderia valer numa ocasião de apuro.
Por isso fui ter com Giovanni: encontrei-o na sua cave negra, cheia de molhos
de lenha e sacos de carvão, únicas mercadorias que havia em Roma naquela altura.
Disse-lhe o que queria e ele ouviu-me em silêncio, piscando os olhos e mordiscando
o charuto meio apagado. Por fim, anuiu:
“Está bem... olharei pela loja e pela casa enquanto estiveres fora... É uma
maçada, especialmente nos tempos que correm... nem sei mesmo porque o faço...
admitamos que seja por aquela boa alma...”
Estas palavras soaram-me mal, pois parecia-me estar ainda a ouvi-lo: “Como
consegues aturar esse malandro?” E mais uma vez me custava a acreditar no que
ouvia. De repente escapou-me:
“Espero que o faças também por mim.”
Não sei porque o disse, talvez por estar convencida de que ele me queria
bem e de que sentiria prazer, naquele momento difícil, de o ouvir afirmar que o fazia
também por mim. Ele olhou-me um instante, tirou o charuto da boca e pousou o na
beira da mesa. Depois foi até a porta da cave, subiu os degraus, fechou-a, pos a
tranca, correu o ferrolho, e ficamos completamente às escuras.
Compreendi logo tudo, fiquei sem poder respirar, o coração batia-me
apressado, mas não posso dizer que aquilo me desagradava: sentia-me, sim,
perturbada. Imagino que a culpa foi das circunstâncias: Roma inteira em desordem,
a carestia, o medo, o desespero de deixar a loja e a casa e a sensação de não ter
um homem ao meu lado, como todas as outras mulheres, que naquele momento me
ajudasse e desse coragem. A verdade é que, pela primeira vez na minha vida,
enquanto Giovanni, no escuro, caminhava ao meu encontro, senti o corpo
quebrar-se-me, tornar-se fraco, vencido; e, quando chegou ao pé de mim, sempre
no escuro, e me tomou nos braços, o meu primeiro impulso foi apertar-me contra ele
e unir a minha à sua boca, arquejante. Ele empurrou-me para cima duns sacos de
carvão e ali me entreguei, sentindo que era a primeira vez que me dava
verdadeiramente a um homem: e, embora os sacos fossem duros, experimentei uma
sensação de alívio e de conforto: quando tudo acabou e ele se afastou de mim,
fiquei ainda um bom bocado estendida em cima dos sacos, tonta e feliz; quase me
parecia ter voltado à juventude, ao tempo em que cheguei a Roma com o meu
marido, sonhando experimentar uma sensação semelhante e, ao contrário, passara
a ter nojo dos homens e do amor. Por fim, ele perguntou-me no escuro se eu queria
falar do nosso negócio; levantei-me e disse-lhe que sim, então acendeu uma
lamparina e, à sua luz fraca, vi-o sentado à mesa, como antes, como se nada
tivesse acontecido, o charuto entre os dentes, os olhos semicerrados. E disse-lhe,
aproximando-me:
“Jura-me que nunca contarás a ninguém o que se passou hoje... Jura!”
Giovanni sorriu e respondeu:
“Não sei a que te referes... Não te compreendo... Vieste falar-me a respeito da
casa e da loja, não é verdade?”
De novo tive a impressão de ter sonhado e, se não fosse o vestido em
desalinho e as mascarras de carvão bem visíveis, por me ter rebolado em cima dos
sacos, na verdade podia pensar que nada acontecera. Balbuciei, desconcertada:
“Sim, tens razão... vim por causa da casa e da loja.”
Ele então pegou numa folha de papel, escreveu uma declaração na qual eu
dizia que lhe alugava a casa e a loja por um ano e mandou-me assinar. Depois
meteu a folha de papel numa gaveta. Foi abrir a porta e disse:
“Estamos entendidos... hoje vou lá a casa fazer o inventário e amanhã vou
buscá-las e acompanho-as à estação.”
Estava ao pé da porta e, quando passei em frente para sair, deu-me uma
palmada no rabo, sorridente, como se dissesse:
“Estamos entendidos também neste negócio...”
Pensei comigo mesma que já não tinha o direito de protestar, deixara de ser
uma mulher honesta, e admiti que isto também era um efeito da guerra e da
carestia; uma mulher honesta, em certa altura, sente que lhe dão assim uma
palmada e não pode dizer nada, precisamente porque já não é honesta...
Voltei para casa e comecei logo a fazer os preparativos da partida.
Desagradava-me, confrangia-me o coração ter de deixar aquela casa onde passara
os últimos vinte anos, sem nunca me afastar dela, a não ser para as viagens do
mercado negro. Estava convencida, é certo, que os Ingleses chegariam dum
momento para o outro, dai a uma semana ou duas, e preparava-me para uma
ausência de um mês apenas; mas, ao mesmo tempo, tinha não sei que
pressentimento não só duma ausência maior, mas também de que o futuro me
reservava qualquer tristeza. Nunca me importara com a política e não sabia nada
dos fascistas, Ingleses, Russos ou Americanos: todavia, à força de ouvir falar de
tudo isso à minha volta, não digo que compreendesse já alguma coisa, porque, para
falar verdade, não compreendia patavina, mas percebia que não andava nada de
bom no ar para a pobre gente como nós. Era como no campo quando o céu se põe
negro à aproximação da tempestade, as folhas das árvores se voltam todas para o
mesmo lado, as ovelhas se encostam umas às outras e, embora no pino de verão,
sopra um vento frio rente à terra, não se sabe de onde. Tinha medo, mas não sabia
de que, e apertava-me o coração ao pensar que ia deixar a minha casa e a minha
loja, como se soubesse ao certo que não as tornaria a ver. Disse, porém, a Rosetta:
“Não leves muita roupa, pois não estaremos lá mais de duas semanas e ainda
faz calor.”
De fato, estávamos em meados de setembro e fazia bastante calor, mais do
que nos outros anos. Assim, enchemos duas pequenas malas de fibra com roupas
leves e metemos nelas somente dois casacos de malha, para o caso de fazer frio.
Eu, querendo consolar-me da partida, descrevia constantemente a Rosetta o
acolhimento que os meus pais nos fariam lá na aldeia:
“Verás, vão encher-nos de comida até mais não podermos... engordaremos e
descansaremos... no campo não existem todas estas coisas que tornam difícil a vida
em Roma... estaremos bem, dormiremos bem, e sobretudo comeremos melhor...
verás: têm porco, farinha, fruta, vinho... Vai ser uma vida regalada.”
Mas a Rosetta esta perspectiva parecia que não bastava para a alegrar,
pensava no noivo, que estava na Iugoslávia e há um mês não dava notícias. Eu
sabia que ela se levantava cedo todas as manhãs e ia à igreja rezar por ele, para
que não lho matassem e voltasse e pudessem casar.
Querendo mostrar que a compreendia, disse-lhe, abraçando-a e beijando-a:
“Querida filha, tranqüiliza-te, Nossa Senhora vê-te e ouve-te e não permitirá
que te suceda nenhum mal.”
Entretanto, continuava os preparativos da abalada e agora, passado o
momento das apreensões, parecia-me que nunca mais chegava a hora de partir.
Talvez porque nos últimos tempos, com os alarmes aéreos, a falta de comida, a
idéia de partir e tantas outras coisas, a vida para mim já não era vida, até nem tinha
vontade de limpar a casa, eu que habitualmente me punha de joelhos no chão para
lhe dar brilho e não parava de esfregar enquanto tinha fôlego, tornando-a luzidia
como um espelho. Parecia-me que a vida se desconjuntara, como uma caixa que cai
dum carro e se desfaz, espalhando tudo o que contém na rua. Se pensava no que
acontecera com o Giovanni, sobretudo na palmada que ele me dera, sentia-me
desconjuntada como a vida e capaz de fazer não sei o quê. Até de roubar ou de
matar, porque perdera o respeito por mim mesma e já não era o que fora antes.
Consolava-me pensando em Rosetta, que. Ao menos, tinha a mãe para a proteger.
Ela seria aquilo que eu já não era. Ah! Na verdade, a vida é feita de hábitos e até a
honestidade é um hábito também; e, assim que se muda de hábitos, a vida torna-se
um inferno, somos diabos à solta, sem respeito por nós próprios nem pelos outros.
Rosetta estava preocupada com o seu gato, um lindo gato pardo que
encontrara na rua ainda pequenino e criara com todo o carinho: à noite dormia com
ela na cama e de dia seguia-a para toda a parte como um cãozinho. Disse-lhe que o
confiasse à porteira do prédio ao lado e respondeu-me que assim faria. Agora
estava sentada no quarto, aos pés da cama, sobre a qual se encontrava a mala de
viagem, já fechada, com o gato nos joelhos, e acariciava-o devagarinho. O gato,
coitado. Não adivinhando que a dona o ia abandonar, fazia ronrom de olhos
fechados. Tive pena, vi que ela sofria, e disse-lhe
“Querida filha... deixa passar este mau bocado, que depois tudo entrará nos
eixos... a guerra acaba, volta a abundância, tu casas-te, viverás com o teu marido e
serás feliz.”
Precisamente nesse momento, como para me dar resposta, soou a sirene de
alarme, aquele ruído maldito que me parecia trazer mau agouro e me confrangia
sempre o coração. Então possuiu-me não sei que raiva, abri a janela que dava para
o saguão, levantei o punho para o céu e gritei:
“Que morras e nem a alma se te aproveite e mais quem te mandou cá vir!”
Rosetta, que não se mexera, observou:
“Mamã, porque te zangas tanto? Disseste agora mesmo que tudo há de voltar
ao seu lugar..."
Por amor daquele anjo, acalmei-me, embora com esforço, e respondi:
“Sim, mas entretanto temos de sair da nossa casa e quem sabe o que
sucederá mais ainda...”
Naquele dia sofri as penas do inferno. Parecia-me que já não era eu. Ora
pensava no que tinha sucedido com Giovanni, que me entregara a ele como
qualquer reles mulher da rua, completamente vestida, em cima dos sacos de carvão,
e dava-me vontade de morder as mãos de raiva: ora olhava em volta, para a casa
que fora minha durante vinte anos e que tinha agora de deixar, e sentia-me
desesperada. Na cozinha, o lume estava apagado; no quarto, onde eu dormia com
Rosetta no leito conjugal, os lençóis estavam revolvidos, em desordem; e não sentia
forças para fazer a cama, na qual sabia que não havia de dormir tão cedo, nem para
acender o fogão, que no dia seguinte já não seria meu e onde não tornaria a
cozinhar.
Comemos, na mesa sem toalha, pão e sardinhas; de vez em quando olhava
para Rosetta, muito triste, e sentia um nó na garganta, cheia de pena e de medo por
ela, pensando que tivera pouca sorte em nascer e viver nos tempos que corriam. Por
volta das duas horas deitamo-nos na cama por fazer e dormimos um pouco; ou,
melhor, Rosetta adormeceu, muito aconchegada a mim, e eu fiquei de olhos abertos,
pensando todo o tempo em Giovanni, nos sacos de carvão e na palmada que ele me
dera, na casa e na loja que ia deixar. Finalmente bateram à porta; furtei-me com
todo o cuidado ao peso de Rosetta adormecida e fui abrir. Era Giovanni, sorridente,
de charuto na boca. Nem o deixei respirar:
“Ouve”, disse-lhe, furiosa, “o que aconteceu, aconteceu, e não sou mais o que
era antes, concordo, e tens razão para me tratar como uma prostituta... mas se me
dás outra palmada como esta manhã, mato-te, tão certo como Deus existir... depois
vou para a prisão, mas nesta altura pode ser até que se esteja lá bem, e vou de boa
vontade.”
Ele apenas arqueou um pouco as sobrancelhas, surpreendido, mas não disse
nada. Passou à antecâmara, pronunciando baixinho:
“Então vamos lá fazer o inventário.”
Fui ao quarto e peguei numa folha de papel em que mandara escrever a
Rosetta tudo quanto tinha em casa e na loja. Ali discriminara até os mais pequenos
objetos, não porque desconfiasse de Giovanni, mas porque é mais seguro não
confiar em ninguém. Assim, antes de começar o inventário, disse-lhe, muito séria:
“Olha que tudo isto foi ganho com o meu suor e o do meu marido, em vinte
anos de trabalho... toma cuidado, guarda tudo bem, lembra-te que um prego é um
prego, e aqui dentro não deve faltar nada quando eu voltar.”
Ele sorriu e respondeu:
“Está descansada, encontrarás cá os pregos todos”.
Comecei pelo quarto. Tinha feito duas cópias desta lista: uma entreguei-a a
ele e outra a Rosetta e eu ia indicando os objetos. Mostrei-lhe a cama, para duas
pessoas, de ferro pintado a imitar madeira, tão bonita, com todos os veios a
conhecerem-se, que qualquer um julgaria ser de nogueira. Levantei a coberta e
mostrei-lhe que tinha dois colchões, um de crina e outro de lã. Abri o armário e
contei as colchas, os lençóis e toda a roupa branca. Abri as mesinhas de cabeceira
e mostrei-lhe os bacios de porcelana, com flores vermelhas e azuis. Depois
enumerei os móveis: uma cômoda com tampo de mármore branco, um espelho oval
com moldura dourada, quatro cadeiras, uma cama, duas mesinhas de cabeceira, um
guarda-vestidos com espelho nos dois batentes. Apontei todas as ninharias: uma
redoma de vidro com um ramo de flores de cera que pareciam mesmo verdadeiras,
prenda de casamento da minha madrinha; uma caixa de porcelana para amêndoas;
duas estatuetas que representavam uma pastorinha e um pastorinho; uma almofada
de veludo azul para alfinetes; uma caixa de música de Sorrento que, quando se
abria, tocava uma ariazinha e tinha na tampa um embutido representando o Vesúvio;
duas garrafas para água e os respectivos copos de vidro gravado e maciço; uma
jarra de porcelana colorida, em forma de tulipa, com três penas de pavão muito
bonitas em vez de flores; dois quadros a cores, um com a Nossa Senhora e o
Menino e outro com uma cena de teatro, um mouro e uma mulher loura, que me
tinham dito ser duma ópera chamada Otelo, que era também o nome do mouro. Do
quarto passei à sala de jantar que servia igualmente de sala de visitas e onde tinha a
máquina de costura. Aqui quis que ele tocasse na mesa redonda, de nogueira
escura, com um centro bordado e uma jarra de flores igual à do quarto e quatro
cadeiras em volta, forradas de veludo verde; depois abri o guarda-louça e contei
peça por peça todo o serviço de porcelana com flores e grinaldas, muito bonito, para
seis pessoas, que talvez tivesse servido apenas umas duas vezes em toda a minha
vida. Nessa altura adverti-o:
“Olha que quero tanto a este serviço como à luz dos meus olhos... se o
partires, verás...”
Ele respondeu a sorrir:
“Está descansada.”
Continuando o inventário, mostrei-lhe todos os outros objetos: dois quadros
de flores, a máquina de costura, o aparelho de rádio, o sofá estofado com as duas
poltronas, a licoreira, de vidro cor-de-rosa e azul, com seis cálices, algumas caixas
para bolos, um bonito leque que estava pendurado na parede, de várias cores, com
uma vista de Veneza. Depois passamos à cozinha e aqui contei, peça por peça, todo
o trem de cozinha, panelas de alumínio e de cobre, faqueiro de aço inoxidável, e
mostrei-lhe que não faltava nada, nem o forno, nem a máquina de esmagar batatas,
nem o armariozinho das vassouras, nem o caixote do lixo. Em suma, viu tudo; a
seguir descemos à loja. Aqui o inventário foi mais rápido porque, fora as prateleiras,
o balcão e algumas cadeiras, não ficara nada, tudo se tinha vendido, fora uma
limpeza geral nos últimos meses de penúria. Finalmente voltamos para cima. Então
suspirei, desanimada:
“Para que serve este inventário?... Sinto que não voltarei mais.”
Giovanni, que se sentara e fumava, abanou a cabeça e respondeu:
“Os ingleses chegam daqui a quinze dias, até os fascistas o dizem... vais para
férias duas semanas e voltas e faremos uma bela festa quando chegares... Que
dizes a isto?”
Giovanni, depois destas palavras, ainda acrescentou muitas outras para nos
consolar e quase o conseguiu; assim, quando se foi embora, ficamos mais animadas
e ele, desta vez, embora estivéssemos sozinhos na antecâmara, não repetiu a
palmada, contentou-se em fazer-me uma caricia na face, como costumava fazer
muitas vezes em vida do meu marido, e eu fiquei lhe grata e quase me pareceu, na
verdade, que nada se passara entre nós e continuava a ser a mesma que sempre
fora.
O resto do dia passei-o a ultimar os preparativos. Primeiro que tudo, fiz um
grande embrulho da comida para a viagem: um salame, caixas de conserva de
sardinha e de atum e um bocado de pão. Para o meu pai e a minha mãe fiz um
embrulho à parte: para o meu pai, um fato do meu marido, quase novo, que ele
mandara fazer pouco antes de morrer e me pedira que lho vestisse quando fosse
para a cova; mas eu, no último momento, pensei que era um pecado estragar assim
um fato tão bom de lã azul e embrulhei-o num lençol velho. Meu pai tinha quase a
mesma estatura que o meu marido e ao fato juntei também os sapatos, Já usados,
mas ainda em bom estado. Para a minha mãe, decidi levar-lhe um xale e uma saia.
Meti no pacote tudo o que me restava de salsicharia e de mercearia, alguns quilos
de açúcar e de café, conservas e dois salames. Pus estas coisas numa terceira
mala, de modo que tínhamos agora três malas, mais um saco em que pus duas
almofadas, para o caso de sermos obrigadas a dormir no comboio. Toda a gente me
dizia que os comboios levavam dois dias a chegar a Nápoles e nós íamos
precisamente até meio caminho entre Roma e Nápoles; por isso pensei que estas
precauções não eram demasiadas.
À noite sentamo-nos à mesa, mas desta vez cozinhara alguma coisa para não
entristecer ainda mais; mal tínhamos começado, soou o alarme e vi que Rosetta se
tornava pálida de medo, toda ela tremia; compreendi que, depois de resistir tanto
tempo, agora já não podia mais, tinha os nervos num feixe.
Resignei-me a deixar a ceia e descemos para a cave, precaução aliás inútil,
porque, se caísse alguma bomba, a nossa casa, velha como era, ficava feita em pó
e nós enterrados debaixo dela. Mesmo assim, lá fomos para o abrigo, onde já
estavam todos os inquilinos do prédio, e aí passamos três quartos de hora, sentadas
nos bancos, no escuro. Todos falavam da chegada dos Ingleses como de coisa
certa, daí a poucos dias. Tinham desembarcado em Salerno, que fica ao pé de
Nápoles, e de Nápoles a Roma não levavam talvez uma semana, mesmo a andar
devagar, porque os alemães e os fascistas fugiam agora como lebres e não
paravam senão nos Alpes. Alguns, porém, diziam que os Alemães se preparavam
para defender Roma, pois Mussolini continuava na cidade e não se importava nada
que ela ficasse reduzida a escombros, contanto que os Ingleses lá não entrassem.
Eu ouvia estas coisas e pensava que fazia bem em ir-me embora. Rosetta
achegava-se muito a mim e eu compreendia que ela agora estava cheia de medo e
só sossegara quando saíssemos de Roma. Em certa altura, alguém atirou:
“Vê bem o que dizem? Que vão lançar pára-quedistas e que eles entram nas
casas e fazem coisas do arco-da-velha.”
“O quê?”
“Bem, primeiro pilham o que encontrarem, depois atiram-se às mulheres.”
Então eu disse:
“Sempre quero ver se algum tem a coragem de me tocar.”
No escuro a voz dum tal Proietti, um padeiro, homem estúpido como não
havia outro e de língua comprida, com quem nunca simpatizei proferiu, numa risada
“A ti talvez não te toquem, porque já és velha, mas à tua filha, não digo nada.”
Respondi:
“Vê lá como fala... eu tenho trinta e cinco anos, pois casei com dezesseis, e
há ainda quem queira casar comigo, se não tornei a casar, foi porque não quis.”
“Sim”, respondeu ele, “a raposa e as uvas.”
Eu disse então, furiosa:
“É melhor que penses na cabra da tua mulher... ela já agora tos põe e não
estão cá os pára-quedistas... imagina o que não será depois...”
Julgava que a mulher estivesse na aldeia, eles eram de Sutri e tinha-a visto
partir uns dias antes; no entanto, por coincidência, ela estava também no abrigo e eu
não a vira por causa do escuro. Mas ouvi-a imediatamente berrar:
“Cabra és tu, bêbecia, velhaca, desgraçada!”
E senti que ela agarrava Rosetta pelos cabelos, julgando que era eu, e
Rosetta gritava e a outra batia-lhe, Então, sempre no escuro, atirei-me a ela e
rolamos as duas pelo chão, dando pancadas e arrancando os cabelos uma à outra,
enquanto todos gritavam e Rosetta chorava, rezava e chamava por mim. Acabaram
por separar-nos sempre no escuro, e creio que também aos pacificadores coube
alguma lambada porque, de repente, quando nos separaram, tocou a sirene do fim
do alarme e alguém acendeu a luz estávamos uma em frente da outra,
desgrenhadas e arquejantes, presas pelos braços e os que nos agarravam, um tinha
a cara arranhada e os outros os cabelos em desalinho, Rosetta soluçava a um
canto.
Naquela noite, depois desta cena deitamo-nos muito cedo, sem sequer
acabarmos a ceia, que ficou em cima da mesa e na manhã seguinte ainda lá estava.
Na cama, Rosetta aninhou-se a mim, como quando era pequenina e como há muito
tempo já não fazia. Perguntei-lhe:
“O quê, ainda tens medo?”
Ela respondeu:
“Não, não tenho medo mas é verdade, mamã, que os pára-quedistas fazem
aquilo às mulheres?”
E eu:
“Não dês ouvidos a esse parvo, não sabe o que diz.”
“Mas é verdade?” insistiu ela.
E eu:
“Não, não é verdade, e de resto, nós partimos amanhã, vamos para o campo
e lá não acontece nada, está tranqüila”.
Rosetta ficou calada um momento, depois disse:
“Mas, para que possamos voltar para casa, quem deve ganhar, os alemães
ou os ingleses?”.
Esta pergunta deixou me atrapalhada, porque, como já disse, não lia jornais
e, além disso, nunca me interessou saber como ia a guerra Respondi:
“Não sei o que combinaram, sei só que são todos uns filhos da mãe, ingleses
e alemães, e que fazem a guerra sem perguntarem nada a nós, os pobres, todavias
sabes o que te digo? Precisamos que qualquer deles vença a sério e que a guerra
acabe... alemães ou ingleses, não importa, contanto que um seja o mais forte.”
Mas ela insistiu:
“Todos dizem que os alemães são maus... mas o que fazem, mamã?”
Então, respondi:
“O que fazem? Em vez de estarem na terra deles, vieram para cá
aborrecer-nos... por isso os olhamos de mau modo.”
“Mas para onde vamos”, perguntou ela, “estão lá os alemães ou os ingleses?”
Eu não sabia que responder e disse:
“Lá não há alemães nem ingleses... há campos, vacas, camponeses e está-se
bem... agora dorme.”
Rosetta não disse mais nada, aninhou-se a mim e pareceu-me que acabou
por adormecer.
Que noite aquela! Eu acordava a todo o momento e creio que Rosetta
também não pregou olho, embora fingisse dormir para não me inquietar. Às vezes
julgava-me acordada e estava a dormir e a sonhar que acordava, outras vezes
supunha-me a dormir e, ao contrário, estava acordada e o cansaço e o nervosismo
iludiam-me. Jesus no horto, na noite em que Judas o foi prender, não sofreu tanto
como eu naquela noite. Apertava-se-me o coração ao pensar que ia deixar a casa
onde vivera tantos anos e receava que metralhassem o comboio durante a viagem,
ou então que deixasse de haver comboios, pois dizia-se que dum dia para o outro
Roma ficaria isolada. Pensava também em Rosetta e na verdadeira desgraça que
era para mim já não ter marido, porque duas mulheres sozinhas no mundo. Sem um
homem a guiá-las e a protegê-las, são, em certo sentido, como duas cegas que
caminham sem ver e sem saber onde se encontram.
Uma vez, não sei que horas eram, ouvi tiros na rua; já estava habituada
àquilo, disparavam todas as noites, parecia que andavam a atirar ao alvo, mas
Rosetta acordou e perguntou:
“O que é, mamã?”
Respondi:
“Nada, nada... são esses filhos da mãe que se divertem a dar tiros... não se
matarem eles uns aos outros...”
Outra vez passou uma fila de caminhões, mesmo rente à casa, e todo o
prédio tremia; os caminhões não acabavam de passar: quando parecia que era o
último, logo outro rodava com um barulho de ensurdecer. Eu abraçava Rosetta, que
tinha a cabeça sobre o meu peito, e, de repente, talvez por isso, lembrei-me de
quando ela era pequenina e lhe dava de mamar; eu tinha os peitos sempre cheios
de leite, como todas as camponesas da Ciociaria, que somos conhecidas como as
melhores amas do Lácio, e ela sugava todo aquele leite e ficava cada dia mais
bonita, era mesmo uma flor, até as pessoas paravam na rua para a ver, e disse de
mim para mim que teria sido talvez melhor ela não ter nascido do que viver num
mundo de ansiedades, perigos e medo. Mas depois refleti que essas idéias só se
tem à noite e é pecado pensar em tais coisas. E no escuro fiz o sinal da cruz e
encomendei-me a Jesus e à Virgem. Ouvi cantar um galo na casa ao lado, onde
morava uma família que tinha uma capoeira na frente, e pensei que não tardaria a
nascer o dia. Julgo que então adormeci.
Acordei sobressaltada com a campainha da porta, que tocava e tornava a
tocar, como se alguém estivesse a tocá-la há bastante tempo. Levantei-me no
escuro e fui abrir. Era Giovanni. Entrou, dizendo:
“Eia, que sono, estou a tocar há uma hora.”
Eu estava em camisa; ainda hoje tenho o peito rijo, bem direito, sem
necessidade de o amparar, e naquela altura era ainda mais belo, os seios fortes e
firmes, os bicos salientes, como se quisessem por força fazer-se notar por baixo da
camisa. Vi que ele me olhava o peito e que os seus olhos ardiam sob as
sobrancelhas, como dois carvões em brasa debaixo das cinzas. Compreendi que
estava prestes a atirar-se a mim e disse-lhe, de súbito, dando uns passos atrás:
“Não, Giovanni, não... para mim não existes mais e deves esquecer o que
sucedeu... se não fosses casado, casava contigo... mas és casado e entre nós não
deve haver mais nada.”
Ele não disse sim nem não, mas via-se que se esforçava por dominar-se. Por
fim lá o conseguiu, dizendo, numa voz natural:
“Tens razão... esperemos que aquele estafermo da minha mulher morra
durante a guerra... assim, quando voltares, estarei viúvo e casamos... morre por aí
tanta gente boa com os bombardeamentos, porque não há-de ela morrer?”
E eu mais uma vez fiquei apalermada; ao ouvir-lhe tal coisa, quase não queria
acreditar no que ouvia, tal como quando ele chamara malandro ao meu marido, pois
até então julgava-os muito amigos, por assim dizer inseparáveis. Conhecia a mulher
de Giovanni e sempre supus que ele gostasse dela, ou pelo menos lhe tivesse
afeição, pois estavam casados há muitos anos e tinham três filhos; no entanto, eis
que o ouvia falar dela com ódio, desejando-lhe até a morte, e pela maneira como
falava, dava bem a entender que a odiava há muito tempo e não sentia por ela
senão ódio, mesmo que alguma vez lhe tivesse manifestado outro sentimento. Para
falar verdade, quase me assustou pensar que um homem pudesse ser amigo de
outro e marido duma mulher durante tantos anos e depois lhes chamasse, com
tamanha frieza e perversidade, malandro a ele e estafermo a ela. Mas não disse
nada disso a Giovanni, que entretanto fora para a cozinha, onde o ouvia a gracejar
com Rosetta, também já levantada:
“Verás que voltam as duas mais gordas; para vocês será essa a única
conseqüência da guerra... Lá no campo há queijos, ovos, cordeiros... vão comer do
bom e do melhor.”
Estava tudo pronto; levei as três malas e o saco com os embrulhos para a
entrada; Giovanni pegou em duas malas, eu peguei no saco e Rosetta na mala
menor. Os dois foram descendo as escadas enquanto eu fingia demorar-me a fechar
a porta; logo que os vi dar a volta para descerem outro lance, entrei de novo em
casa, fui ao quarto, levantei um tijolo do pavimento e tirei o dinheiro que lá tinha
escondido. Era uma soma importante para aquele tempo, toda em notas de mil e
não quis tirá-la na presença de Rosetta, porque com o dinheiro todos os cuidados
são poucos e uma inocente pode cometer a imprudência de dizer o que não deve, e
em questões de dinheiro não devemos confiar em ninguém. Levantei a saia e meti
as notas dentro dum saquinho de pano que tinha feito de propósito. Depois fui juntar
me a Giovanni e a Rosetta na rua.
À porta estava uma carroça, pois Giovanni não quis servir-se do caminhão do
carvão, com medo que lho requisitassem. Giovanni ajudou-nos a subir e depois
subiu também. A carroça partiu e eu não pude deixar de voltar-me para trás e olhar
pela última vez a minha casa e a minha loja, pois tinha o mau pressentimento de que
nunca mais as tornaria a ver. Ainda não era dia, mas já não era noite, e na semi-
obscuridade do alvorecer vi a minha case, que fazia esquina, com as janelas todas
fechadas, e, no rés-do-chão, a loja com os taipais corridos. Em frente havia outra
casa, também de esquina, que tinha no segundo andar, num nicho, um medalhão
com a imagem da Virgem circundada de raios de ouro e uma lamparina
continuamente acesa. Pensei que aquela luzinha que ardia até em tempo de guerra,
até em tempo de fome, era um pouco como a minha esperança de voltar e senti-me
um tanto confortada essa esperança continuaria a aquecer-me quando estivesse
longe. Na claridade cinzenta, a esquina da rua dir-se-ia um palco de teatro vazio,
depois de os atores o terem abandonado: via-se que eram casas de gente pobre.
Pequenos casebres, em suma, um pouco inclinadas, como que para se apoiarem
umas às outras, e um pouco esfoladas, especialmente no rés-do-chão, por causa do
roçar de carroças e automóveis, mesmo ao lado da minha loja ficava a carvoaria de
Giovanni e em volta da porta estava tudo negro como a boca dum forno: àquela hora
todo esse negrume, não sei porquê, me pareceu imensamente triste... e lembrei-me
que durante o dia, nos bons tempos, essa rua estava sempre cheia de gente,
pessoas que passavam, mulheres sentadas em cadeiras de palhinha na soleira das
portas, gatos vagabundeando na calçada, garotos a correr e a saltar à corda, jovens
a caminho das oficinas ou entrando na taberna, sempre alegres. Pensando em tudo
isto, senti despedaçar-se-me o coração e percebi que aquelas casas e aquele sítio
me eram queridos, talvez porque tivesse passado ali quase toda a vida: quando os
vira pela primeira vez, era ainda rapariga e agora era uma mulher feita, com uma
filha já crescida. Disse a Rosetta:
“Não olhas para a nossa casa não olhas para a loja?”
Ela respondeu:
“Mamã, sossega, tu própria me disseste que voltamos daqui a poucas
semanas”. Suspirei e não disse mais nada. A carroça dirigiu se para o Tibre e então
voltei-me para olhar.
Já as ruas estavam desertas e o ar cinzento do amanhecer dava a idéia do
vapor da barrela quando a roupa está muito suja. No chão, o orvalho fazia brilhar o
empedrado, que dir-se-ia de ferro. Não passava ninguém, somente os cães: vi cinco
ou seis, feios, esfomeados e sujos, a farejar os cantos e a alçar a perna contra as
paredes, donde pendiam, rasgados, os manifestos coloridos que incitavam à guerra.
Passamos o Tibre na Ponte Garibaldi, percorremos a Via Arenula, atravessamos a
Praça da Argentina e a Praça de Veneza. Na sacada do palácio de Mussolini pendia
a mesma bandeira negra que tinha visto dias antes na Praça Coionna e dois
fascistas armados estavam postados ao lado da porta, A praça deserta parecia
major do que o costume. Primeiro não vi o lascio de ouro na bandeira negra,
pareceu-me mesmo uma bandeira de luto, tanto mais que não havia vento e pendia
no mastro como aqueles crepes que se põem nas portas quando morre alguém no
prédio.
Depois, lá vi o lascio de ouro, emblema de Mussolini, por entre as cobras da
bandeira. Perguntei a Giovanni:
“Mas Mussolini voltou?”
Ele fumava a ponta dum charuto e respondeu com ênfase:
“Voltou e esperamos que para sempre.”
Fiquei de boca aberta, pois sabia que não simpatizava nada com Mussolini;
mas ele estava constantemente a causar-me surpresas e por isso nunca podia
prever o que lhe passava pela cabeça.
Mas logo senti uma pequena cotovelada e vi que me piscava o olho na
direção do cocheiro, como quem queria dizer que aquelas palavras eram apenas
para o outro ouvir. Pareceu-me um exagero, o cocheiro era um pobre velho, via-lhe
os cabelos brancos a aparecer em todo o lado por baixo do boné, parecia mesmo o
meu avô, decerto não era espião, mas não disse nada.
Seguimos pela Via Nacional e o ar já estava menos cinzento: no cimo da
Torre de Nero via-se até uma faixa luminosa de sol. Mas, quando chegamos à
estação e entramos. Lá dentro era como se ainda fosse noite, com todas as
lâmpadas acesas por causa da escuridão. A estação estava apinhada de gente, a
maior parte gente pobre como nós, com os seus embrulhos, mas havia também
muitos soldados alemães, carregados de armas e mochilas, de pé, uns junto dos
outros, nos cantos mais escusos. Giovanni foi comprar os bilhetes e deixou nos ali,
com a bagagem, no meio da estação, Enquanto esperávamos, soou de repente um
enorme banzé e vimos aparecer uma dezena de motociclistas, todos vestidos de
negro, como os diabos do Inferno. Depois da bandeira negra da Praça de Veneza,
aqueles motociclistas, vestidos também de negro, inspiraram-me tal indignação que
pensei: “Mas porque negro, porquê todo este negro? Estes filhos duma cabra, com a
sua maldita cor, acabam por nos deitar mau olhado.” Os motociclistas pararam as
motos, encostaram nas às colunas da entrada e postaram-se aos lados da porta, a
cara meio tapada pelos capacetes de couro negro e as mãos nas pistolas que
traziam nos cinturões. Nesse momento faltou-me a respiração, tive medo, o coração
começou a bater-me apressado, pensei que aqueles motociclistas negros tinham
vindo ali e guardavam as saídas para prender toda a gente, como muitas vezes
sucedia, metendo depois as pessoas em caminhões, para nunca mais se saber
delas. Olhei em volta, à procura duma saída por onde pudesse escapar. Foi então
que vi aproximar-se um grupo de homens, enquanto outros gritavam:
“Deixem passar! Deixem passar!”
Compreendi que aqueles motociclistas estavam ali por causa da chegada de
alguma personagem importante. Não a cheguei a ver, com toda aquela multidão não
se podia ver nada, mas logo a seguir tornei a ouvir o barulho das malditas
motocicletas e concluí que iam atrás do automóvel da tal personagem.
Giovanni veio buscar-nos, com os bilhetes na mão, dizendo-nos que eram
para Fondi: daí, atravessando a montanha, poderíamos atingir a aldeia. Entramos na
gare, dirigimo-nos para o comboio. Ali já havia sol, os seus raios alongavam se no
pavimento e parecia o sol que se vê nas salas dos hospitais e nos pátios das
prisões. Não se via ninguém e o comboio, muito comprido, dir-se-ia vazio. Mas,
quando subimos e começamos a andar nos corredores, verifiquei que estava
completamente cheio de soldados alemães, todos armados, as mochilas às costas,
os capacetes enterrados até aos olhos, as espingardas entre as pernas. Havia não
sei quantos, passávamos de um compartimento para outro e víamos sempre oito
soldados alemães, com toda a sua tralha, parados e mudos como se tivessem
recebido ordem para não se mexerem nem falarem. Finalmente, numa carruagem
de terceira, encontramos italianos. Estavam amontoados nos corredores e nos
compartimentos, como animais levados para o açougue e que não importa instalar
comodamente, pois daí a pouco vão morrer; também eles, como os alemães, não
diziam nada e não se mexiam: mas compreendia-se que a sua imobilidade e o seu
silêncio eram devidos ao cansaço e ao desespero, ao passo que os alemães
estavam prontos a saltar do comboio e a combater imediatamente. Disse a Rosetta:
“Verás que teremos de fazer toda a viagem em pé.”
De fato, depois de andarmos não sei quanto tempo, com aquele sol que
entrava pelos vidros sujos e já abrasava as carruagens, conseguimos arrumar as
malas no corredor e ali nos acomodamos como pudemos. Giovanni, que nos
acompanhava, disse nos nesse momento:
“Bem, vou deixá-las, daqui a pouco o comboio parte.”
Mas um fulano qualquer, vestido de preto e sentado em cima duma mala,
rebateu-o, taciturno, sem levantar os olhos:
“Daqui a pouco, é uma maneira de falar... estamos à espera já há três
horas...”
Por fim, Giovanni despediu-se, beijou Rosetta nas duas faces e a mim ao
canto da boca; talvez quisesse beijar-me mesmo na boca, mas eu voltei a cara a
tempo. Logo que Giovanni partiu, sentamo-nos em cima das malas, eu na mais alta
e Rosetta na mais baixa, com a cabeça apoiada nos meus joelhos. Rosetta, depois
de estarmos assim meia hora, sem falar, perguntou:
“Mama, quando partimos?”
Eu respondi:
“Minha filha, sei tanto como tu.”
E fiquei ali quieta com Rosetta agachada aos meus pés, nem sei quanto
tempo. As pessoas no corredor dormitavam e suspiravam, o sol queimava e lá fora,
no cais, não se ouvia um único rumor. Os alemães estavam muito calados, dir-se-ia
que nem estavam ali. Mas, de repente, no compartimento ao lado, começaram a
cantar. Não se pode dizer que cantassem mal, vozes baixas e roucas, mas afinadas,
porém eu, que ouvira tantas vezes cantar alegremente os nossos soldados, como
sempre fazem quando viajam juntos, enchi-me de tristeza porque cantavam na
língua deles qualquer coisa que me parecia muito triste. Era um canto arrastado e
lento e fiquei com a impressão de que não tinham grande vontade de andar na
guerra. Por isso, disse àquele homem vestido de negro que ia ao meu lado:
“A guerra também não lhes agrada... no fim de contas, são homens como os
outros... ouve como cantam com tristeza.”
Mas ele resmungou:
“Não entendes nada disto... é o hino deles... é como a nossa marcha real.”
Em seguida, passado um momento de silêncio:
“A verdadeira tristeza temo-la nós, os Italianos.”
Finalmente, o comboio pôs-se em movimento, sem um apito, sem um toque
de corneta, sem barulho nenhum, como por acaso. Queria encomendar-me uma
última vez à Virgem, para que nos protegesse, a mim e a Rosetta, de todos os
perigos com que iríamos deparar. Mas veio-me um sono tão grande que não tive
forças. Pensei somente: “Estes filhos duma cabra...” E não sabia se pensava nos
alemães, ou nos ingleses, ou nos fascistas, ou nos italianos... Talvez um pouco em
todos eles. E assim adormeci.
Capítulo II

Acordei uma hora depois e o comboio estava parado. Reinava um grande


silêncio. Dentro da carruagem, agora, quase nem se podia respirar com o calor:
Rosetta levantara-se e fora para a janela, a olhar não sei o quê. Muitos outros
assomavam também às janelas, em fila, ao longo do corredor. Levantei-me a custo,
sentia-me suada e tonta, e aproximei-me de Rosetta. Havia sol, e via o céu azul, os
campos verdes, as colinas cobertas de vinhedos e numa delas, mesmo na nossa
frente, uma casinha branca, recentemente incendiada. Das janelas saíam ainda
línguas vermelhas de fogo e nuvens negras de fumo, e aquelas chamas e aquele
fumo eram as únicas coisas que se moviam na paisagem, porque tudo o mais
estava imóvel e tranqüilo: um dia verdadeiramente lindo, e não se via ninguém...
Depois, na carruagem, todos gritaram:
“Olhem! Lá vem ele!”
Olhei para o céu e vi um inseto negro no horizonte que logo tomou a forma
dum avião e depois desapareceu. De súbito senti-o mesmo por cima da cabeça, a
sobrevoar o comboio, qual martelar terrível dum ferreiro louco, e, no meio desse
barulho, o tique-taque duma máquina de costura. O estrépito durou um instante,
depois atenuou se e logo a seguir houve uma explosão fortíssima e próxima: todos
se deitaram no chão, exceto eu, que não o fiz a tempo ou nem pensei nisso sequer.
Assim, vi a casinha incendiada desaparecer numa nuvem cinzenta, que logo
começou a alastrar pela colina, descendo em lufadas na direção do comboio; agora
estava tudo outra vez em silêncio e as pessoas levantaram-se, quase não
acreditando que ainda viviam: então todos voltaram para as janelas, para ver. O ar
estava carregado dum pó fino que provocava tosse; depois a nuvem dissipou-se
lentamente e vimos que a casinha branca já não existia.
Passados alguns minutos, o comboio retomou a sua marcha. Isto foi o mais
importante que aconteceu em toda a viagem. Houve muitas paragens, sempre no
meio do campo, às vezes meia hora, outras uma; assim, o comboio, que em tempo
normal levaria cerca de duas horas a fazer o percurso, demorou quase seis.
Rosetta, que tanto medo sentira em Roma durante o bombardeamento, desta vez,
depois de ver a casinha branca ir pelos ares, quando o comboio a se pôs em
marcha, disse:
“No campo tenho menos medo do que em Roma. Aqui há sol, ar livre. Em
Roma tinha receio de que a casa me caísse em cima. Aqui, se morresse, ao menos
via o sol.”
Então, um dos que viajavam conosco no corredor observou:
“Eu vi os mortos ao sol, em Nápoles. Havia duas filas nos passeios, depois do
bombardeamento. Pareciam montes de roupa suja. Aqueles viram bem o sol antes
de morrer.”
E outro comentou, a rir:
“Como diz a canção napolitana: Oh! querido Sol!.”
Mas ninguém tinha verdadeiramente vontade de falar e muito menos de rir; e
assim ficamos em silêncio durante todo o tempo que durou ainda a viagem.
Devíamos descer em Fondi e, mal passamos Terracina, disse a Rosetta que
se aprontasse. Os meus pais viviam na montanha, numa aldeiazinha para os lados
de Vallecorsa, onde tinham uma casita e um bocado de terra, De Fondi lá, pela
estrada principal, em automóvel, era coisa duma hora. Mas quando, como Deus
quis, chegamos por alturas do Monte San Biagio, uma aldeia encarapitada numa
colina donde se avista o vale de Fondi, vi que toda a gente saía da carruagem. Os
alemães já tinham descido em Terracina; no comboio seguiam apenas italianos.
Desceram todos e nós as duas ficamos no compartimento vazio. Então senti-me
melhor, porque estávamos sozinhas e fazia um lindo dia; depressa chegaríamos a
Fondi e dali seguiríamos para junto dos meus pais. O comboio estava parado, mas
não me admirei, pois já tinha parado muitas vezes.
Disse a Rosetta:
“Verás como no campo te sentes reviver: comes, dormes e tudo correrá bem.”
Continuei a falar do que faríamos e entretanto o comboio não saía do mesmo
sítio. Seria uma hora da tarde ou talvez mesmo duas e estava muito calor. Decidi:
“Vamos comer.”
Tirei para baixo a maleta onde pusera as provisões, abri-a e fiz dois
sanduíches com o pão e o salame. Tinha também uma garrafa de vinho e dei um
copo a Rosetta e bebi outro. Comemos, o calor cada vez apertava mais e o silêncio
era absoluto. Através das janelas viam-se somente os platôs que circundavam o
largo da estação, brancos de pó, queimados do sol, com cigarras a cantar na
folhagem como se estivéssemos em pleno agosto. Era o campo, o verdadeiro
campo onde eu tinha nascido e vivido até aos dezesseis anos, o campo da minha
aldeia, cheirando e poeira quente, a estrume seco e a ervas queimadas.
“Ah! como me sinto bem!”, não pude deixar de exclamar, estendendo as
pernas em cima do banco da frente. “Não te agrada este silêncio? Estou contente
por ter abandonado Roma”
Nesse instante, a porta do compartimento abriu-se e apareceu alguém. Era
um ferroviário, magro e moreno, de boné ao lado, o casaco desabotoado, a barba
comprida. Entrou e disse:
“Bom apetite...”, mas com ar sério, quase zangado.
Pensei que tivesse fome, o que era normal nesse tempo, e indiquei-lhe o
papel amarelo onde estavam as fatias de salame:
“É servido?”
Mas ele respondeu cada vez de pior catadura:
“Qual servido, nem qual carapuça! Têm é que descer!”
Eu respondi, mostrando-lhe os bilhetes:
“Nós vamos para Fondi.”
Ele nem sequer os olhou e retorquiu:
“Mas não viram que já desceu toda a gente? O comboio não passa daqui.”
“Não vai até Fondi?”
“Qual Fondi! As linhas estão cortadas.”
Passado um momento acrescentou, um pouco mais amável:
“A pé, podem chegar a Fondi em meia hora. Mas têm de descer, porque daqui
a pouco o comboio parte novamente para Roma”.
E foi-se embora, batendo com a porta.
Ficamos petrificadas, olhando uma para a outra, com o pão dentado nas
mãos. Disse a Rosetta:
“Isto começa mal.”
E ela, como se adivinhasse os meus pensamentos, respondeu:
“Mas não, mamã, descemos e encontraremos uma carroça ou um automóvel.”
Eu já não a ouvia. Tirei para baixo as malas, abri a porta e desci do comboio.
Na estação não estava ninguém, atravessamos a sala de espera: nem viva alma;
saímos para a praça: a mesma coisa. Da praça partia uma estrada, uma estrada
mesmo do campo, branca, poeirenta, deslumbrante de sol, por entre sebes cobertas
de pó e algumas árvores também com poeira. Num canto da praça havia uma fonte;
o calor e a ansiedade tinham-me secado a boca, fui lá para beber: nem um pingo de
água deitava. Rosetta ficara junto das malas e olhava-me com uma cara assustada:
“Mamã, que vamos fazer agora?”
Eu conhecia bem aqueles sítios e sabia que a estrada ia direita a Fondi:
“Filha, que queres que faça? Temos de meter os pés ao caminho.”
“E as malas?”
“Levamo-las nós.”
Ela não disse nada, mas olhou desolada para as malas: não compreendia
como as poderíamos levar. Abri uma e tirei dois guardanapos, com que fiz duas
rodilhas, uma para mim e outra para ela. Em rapariga estava habituada a transportar
pesos à cabeça, era capaz de levar até cinqüenta quilos. Enquanto fazia os rolos,
disse-lhe:
“Agora a mamã ensina-te como se faz.”
Rosetta, reanimada, sorriu. Pus a rodilha na cabeça, bem calcada, e convidei
Rosetta a fazer o mesmo. Depois tirei os sapatos e as meias e disse-lhe que se
descalçasse também. Em seguida coloquei em cima da minha rodilha a mala maior,
a do meio e o embrulho das provisões, por ordem de tamanhos, e pus à cabeça de
Rosetta a mala menor. Expliquei-lhe que devia caminhar com o pescoço bem direito,
amparando com uma das mãos o canto da mala. Vi que tinha compreendido,
pondo-se a caminhar com a mala à cabeça. Então pensei: “Nasceu em Roma, mas é
uma ciociara; quem sai aos seus não degenera”. E assim, de malas à cabeça, os
pés descalços, caminhando pela beirada da estrada, onde crescia alguma erva,
dirigimo-nos para Fondi.
Andamos um bocado. A estrada estava deserta e no campo também não se
via-ninguém. Para uma pessoa da cidade, podia parecer tudo normal; mas eu fora
camponesa antes de ser citadina e por isso percebi logo que atravessávamos um
campo abandonado: os cachos de uvas das vinhas, que já deviam estar vindimadas,
pendiam ainda entre as folhas amareladas, demasiado douradas, alguns já
castanhos, podres, meio comidos por vespas e lagartas. Aqui e além via-se milho
espalhado no chão, em desordem, com muitas folhas e as espigas maduras, quase
vermelhas. Em volta das figueiras, o solo estava juncado de figos caídos dos ramos,
maduros de mais, estragados e abertos, debicados pelos pássaros. Não se via um
só camponês e julguei que todos tivessem fugido. No entanto, estava um dia lindo,
quente e sereno, um magnífico dia de campo. Tudo parece normal, pensei, mas o
caruncho da guerra avança, roendo sempre; os homens, tomados de medo, fogem,
enquanto o campo continua, indiferente, a desentranhar-se em frutos, trigo, ervas e
plantas, como se nada acontecesse. É isto a guerra...
Chegamos às portas de Fondi com pó a embranquecer-nos as pernas até os
joelhos, a garganta seca, cansadas e mudas. Disse a Rosetta:
“Agora vamos a uma hospedaria, bebemos e comemos qualquer coisa e
repousamos um pouco. Depois veremos se encontramos um automóvel ou uma
carroça que nos leve a casa dos teus avós.”
Sim, uma hospedaria, um automóvel, uma carroça! Mal entramos em Fondi,
vimos imediatamente que a cidade estava deserta e abandonada. Não passava viva
alma, todas as lojas tinham os taipais corridos e um ou outro bocado de papel
branco fixado aqui e além explicava que os proprietários se tinham ausentado; as
casas tinham as portas e portões trancados, as janelas fechadas e até as gateiras
entaipadas. Parecia que andávamos numa cidade cujos habitantes houvessem sido
dizimados por alguma epidemia. E pensar que em Fondi é costume, naquela época,
toda a gente andar na rua, mulheres, homens, crianças, juntamente com gatos,
cães, burros, cavalos e também galinhas, uns na sua lida, outros aproveitando a
beleza do dia para passear ou sentar-se à soleira das portas ou nas esplanadas dos
cafés. Algumas ruelas davam a impressão de vida por causa da luz forte do Sol que
batia na calçada e nas fachadas; mas, olhando-se melhor, viam-se as janelas
fechadas, as portas trancadas, e aquele sol que se espreguiçava nas pedras da
calçada quase metia medo; como metia medo o silêncio e, no meio do silêncio, o
rumor dos nossos passos. Parava de vez em quando, batia a uma porta, chamava,
mas ninguém abria, ninguém aparecia a responder-me. Por fim, chegamos à
Hospedaria do Galo, com uma tabuleta de madeira na qual se via um galo pintado,
já muito descolorido e maltratado. A porta estava fechada, uma velha porta pintada
de verde, com fechadura antiga, de grande buraco. Apliquei nele um olho e espreitei.
Vi ao fundo da escuridão da sala a janela que dava para o jardim e debaixo da
parreira, ainda verde, inundada de luz, uma mesa a brilhar ao sol; e era tudo.
Também aqui ninguém respondeu: o dono fugira, como todos os outros.
Assim estava o campo: pior do que Roma! E, pensando que me tinha
enganado ao imaginar que encontraria no campo aquilo que faltava em Roma,
voltei-me para Rosetta e disse:
“Sabes o que te digo? Vamos descansar um momento e depois voltamos para
a estação e tomamos outra vez o comboio para Roma.”
Antes o tivesse feito. Mas vi que Rosetta fazia uma cara assustada, decerto a
pensar nos bombardeamentos, e acrescentei à pressa:
“Porém, antes de renunciar, quero fazer uma última tentativa. Isto é Fondi.
Experimentemos o campo. Pode ser que encontremos algum camponês que nos
deixe dormir em sua casa uma ou duas noites. Depois veremos.”
Assim, sentamo-nos uns momentos num muro baixo, sem falar, pois naquele
deserto até as nossas vozes nos metiam medo, e em seguida tornamos a pôr as
malas à cabeça e saímos da cidade pelo lado oposto àquele por onde havíamos
entrado. Caminhamos talvez meia hora pela estrada principal, à torreira do sol, a
respirar aquele pó branco e farinhento. Mal começaram os laranjais dos dois lados
da estrada, meti pelo primeiro carreiro entre as árvores, pensando: há-de ir ter a
algum lado, no campo os atalhos vão sempre dar a qualquer parte. As laranjeiras,
muito juntas umas às outras, com a folhagem luzidia e sem pó, enchiam o pomar de
sombra; depois da estrada principal, soalheira e poeirenta, aquela frescura
revigorava-nos. A certa altura, enquanto seguíamos o carreiro que serpenteava por
entre as árvores, Rosetta perguntou:
“Mamã, quando se colhem as laranjas?”
Respondi sem pensar:
“Em novembro começam a colhê-las. Verás como são doces.”
Imediatamente mordi os lábios, pois estávamos ainda em fins de setembro e
eu sempre lhe dissera que não ficaríamos fora de Roma mais de dez dias, embora
soubesse que isso não era verdade, e agora tinha-me traído. Mas, por sorte, ela
nem reparou e continuamos a andar.
Por fim, ao fundo do atalho, desembocamos numa clareira, no meio da qual
havia uma casinha que em tempos devia ter sido cor-de-rosa, mas agora, com a
umidade e a velhice, estava toda negra e escalavrada. Uma escada exterior subia
para o segundo piso, onde havia uma varanda com um arco, do qual pendiam
enfiadas de pimentões, tomates e cebolas. Diante da casa, na eira, uma quantidade
de figos espalhados, a secar ao sol. Uma casa de camponeses habitada. De fato, o
dono apareceu imediatamente, ainda antes de o chamarmos, e compreendi que
estava escondido em qualquer sítio para ver quem chegava. Era um velho tão magro
que até fazia impressão, de cara mirrada, nariz comprido de ave de rapina, olhos
encovados, testa estreita e cabeça calva: parecia um milhafre.
Disse-nos:
“Quem são vocês? o que querem?”
E tinha na mão uma foicinha, como para se defender. Eu porém não me
desconcertei, sobretudo porque estava ali Rosetta, e não se faz idéia da força que
nos dá uma pessoa mais fraca que precisa da nossa proteção. Respondi-lhe que
não queríamos nada, que éramos de Lenola, o que não deixava de ser verdade, pois
nasci num lugar não muito distante de Lenola, que naquele dia tínhamos andado
muito e lá não podíamos mais, e, se ele nos arranjasse um quarto para passarmos a
noite, pagaríamos bem, como no hotel.
Ele ouviu-me, parado no meio da eira, de pernas abertas: com as calças
rasgadas, o casaco cheio de buracos e a foicinha na mão, parecia mesmo um
espantalho. Creio que de tudo quanto lhe disse só percebeu que eu pagava bem,
pois mais tarde vim a descobrir que era meio parvo e só compreendia as coisas se
lhe cheirava a dinheiro. Mas mesmo isso devia custar-lhe bastante a compreender,
porque levou não sei quanto tempo a remoer o que eu dizia, respondendo:
“Nós não temos quartos, e tu pagas, mas com que pagas?”
Eu não queria mostrar-lhe o dinheiro que tinha no saquinho debaixo da saia;
em tempo de guerra nunca se sabe, todos podem tornar-se ladrões e assassinos e
ele de ladrão e talvez de assassino já tinha cara; por isso me limitei a responder que
estivesse tranqüilo, pois pagava-lhe com certeza. Mas ele não compreendia. E já
Rosetta me puxava pelas mangas, dizendo-me baixinho que era melhor irmo-nos
embora, quando por sorte apareceu a mulher, uma mulherzinha pequena e magra,
muito mais nova do que ele, com ar ofegante e exaltado e olhos cintilantes. Ao
contrário do marido, ela compreendeu imediatamente e quase nos deitou os braços
ao pescoço, repetindo:
“Mas, naturalmente, um quarto, porque não? Nós dormiremos na varanda ou
no palheiro e cedemos-te o nosso quarto. E também de comer, comerás conosco,
coisas simples, comida de camponeses, claro...”
O marido tinha-se afastado e olhava-nos, sombrio; parecia um galo doente,
daqueles que reviram os olhos e ficam monos e não querem comer. Ela agarrou-me
o braço, repetindo:
“Anda, vou mostrar-te o quarto, anda, dou-te a minha cama, eu e o meu
marido dormiremos na varanda.”
E lá subimos a escada exterior para o segundo piso.
Assim começou para nós a vida em casa de Concetta, pois era este o nome
da mulher. O marido chamava-se Vincenzo e tinha mais vinte anos do que ela: era
rendeiro, ou, melhor, meeiro dum tal Festa, um comerciante que fugira, como tantos
outros da cidade, e vivia agora numa casinha no cimo dum dos montes que
circundavam o vale. Tinham dois filhos, Rosário e Giuseppe, ambos morenos, de
caras maciças e brutas, olhos pequenos e testa baixa; nunca falavam e só
raramente os víamos: escondiam-se porque na altura do armistício estavam nas
fileiras e tinham fugido, não tornando a apresentar-se: agora receavam ser presos
pelas patrulhas fascistas, que andavam por toda a parte a arrebanhar homens para
irem trabalhar na Alemanha. Escondiam-se nos laranjais, apareciam à hora das
refeições, comiam à pressa, quase sem falar, e desapareciam novamente, não sei
para onde. Eram amáveis conosco, todavia achava-os antipáticos, sem saber
porquê, e às vezes dizia até de mim para mim que estava a ser injusta: mas um belo
dia compreendi que o meu instinto não me enganara, e na verdade eram pouco
recomendáveis, como suspeitava desde o princípio.
A pouca distancia da casa, entre as laranjeiras, havia uma grande barraca
pintada de verde, com telhado de zinco. Concetta dissera-me que naquela barraca
metiam as laranjas à medida que as iam colhendo, e talvez fosse verdade, mas
agora não se colhiam laranjas, estavam ainda nas árvores, e, não obstante isso,
reparei que tanto os dois filhos como Vincenzo e Concetta iam muitas vezes para lá.
Não sou curiosa, mas, encontrando-me sozinha com a minha filha em casa de gente
estranha, na qual, para falar verdade, não confiava muito, tinha de o ser, a bem dizer
por necessidade.
Numa tarde em que toda a família foi para a barraca, passado algum tempo
saí também e escondi-me atrás dumas laranjeiras. A barraca ficava numa clareira
menor e parecia mesmo um montão de ruínas toda destingida. O telhado à banda,
as tábuas tão desconjuntadas que só por milagre se mantinham unidas. No meio da
clareira estava a carroça de Vincenzo, atrelada a um macho, e, amontoadas na
carroça, vi não sei quantas coisas: colchões, enxergões, cadeiras, mesas de
cabeceira, embrulhos vários. A porta da barraca, bastante larga, de dois batentes,
estava escancarada e os filhos de Concetta desatavam as cordas que amarravam
todo aquele material. Vincenzo mantinha-se à parte, meio apalermado, como de
costume, sentado num cepo, a fumar o seu cachimbo: mas Concetta estava lá
dentro, não a via, mas ouvia-lhe a voz:
“Vamos, despachem-se, andem depressa. já é tarde!”
Os dois filhos, que sempre vi calados e molengões, como que assustados,
pareciam agora outros: ágeis, diligentes, desembaraçados, enérgicos. Pus-me a
pensar que é preciso ver as pessoas a fazer o que lhes interessa, os camponeses
nos campos, os operários na oficina, os comerciantes na loja e, em suma, digamos
também, os ladrões às voltas com o que roubam.
Porque aqueles colchões, aquelas cadeiras, aquelas mesas de cabeceira,
enfim, todos aqueles embrulhos, eram coisas roubadas: tive imediatamente essa
suspeita e Concetta confirmou-a na mesma noite, quando, enchendo-me de
coragem, lhe perguntei, de improviso, a quem pertenciam os trastes que tinham
estado a descarregar nesse dia na barraca. Os filhos, como de costume, não
estavam, já tinham saído: Concetta, por momentos, pareceu ficar desconcertada,
mas logo se recompôs e disse com aquela sua alegria entusiástica e exaltada:
“Ah! viste-nos?... Fizeste mal em não aparecer para nos ajudar. Não tínhamos
nada e esconder, mesmo nada. São coisas duma casa de Fondi. O proprietário, o
pobrezinho, fugiu para as montanhas e ninguém sabe quando voltará. Em vez de
deixarmos essa mobília lá em casa, para ser destruída no próximo
bombardeamento, já se sabe, preferimos ficar com ela. Ao menos, assim, serve a
alguém. Estamos em guerra, claro, e é preciso ter expediente, seja o que for que se
abandone é coisa perdida, minha rica. Além disso, esse proprietário, no fim da
guerra, será reembolsado pelo Governo, e decerto compra outros móveis ainda mais
bonitos do que estes.”
Confesso que me senti mal, ou, antes, assustei-me e creio que me pus pálida,
pois Rosetta levantou os olhos para mim e perguntou:
“Que tens, mamã?”
Eu estava aterrada, porque, como comerciante, tinha um forte sentimento da
propriedade: era honesta e sempre pensei que o meu é meu e o teu é teu, sem
margem para confusões, pois, quando as há, anda tudo em desordem. E eis que
vinha parar a uma casa de ladrões, e o pior é que estes ladrões não tinham medo de
nada, pois na região não havia leis nem carabineiros. E não só não tinham medo,
mas quase se vangloriavam de roubar. No entanto, achei melhor não abrir o bico.
Concetta percebeu em mim qualquer coisa, pois acrescentou:
“Entendamo-nos: se trouxemos esses trastes, é porque, como o outro que diz,
não são de ninguém. Somos gente honesta, Cesira, e provo todo imediatamente:
bate aqui.”
Levantou-se e deu algumas pancadas na parede da cozinha, à esquerda do
fogão. Levantei-me e bati também: senti que a pancada ressoava como se atrás da
parede houvesse um vazio. Perguntei:
“O que é que está aqui?”
E Concetta, com entusiasmo:
“São as coisas de Festa, é um tesouro, todo o enxoval da filha, todas as
roupas de casa: lençóis, cobertas, linhos, pratas, louças, objetos de valor.”
Fiquei pasmada, pois não esperava aquilo. Concetta, sempre com aquele
estranho entusiasmo que punha em tudo quanto dizia e fazia, explicou-me: Vicenzo
e Filippo Festa eram, como se diz, compadres isto é, Festa batizou o filho de
Vicenzo e Vicenzo é padrinho da filha de Festa; assim unidos por S. Giovanni, como
dizem, são quase parentes. Festa confiou em S. Giovanni e, antes de se refugiar
nas montanhas, emparedou todas as suas coisas na cozinha de Vincenzo e obrigou
o a jurar que lhas restituiria tal qual no fim da guerra e Vincenzo jurou.
“Estas coisas de Festa são para nós sagradas”, concluiu Concetta com
ênfase, como se falasse do Santíssimo.
“Era mais fácil matar-me do que tocar-lhes. Estão aí há um mês e aí hão-de
ficar até a guerra acabar.”
Eu continuei desconfiada e nem mesmo me convenci quando Vincenzo, até
então calado, tirou o cachimbo da boca e disse em voz cavernosa:
“Isso mesmo, sagradas. Os alemães ou os italianos terão de passar por cima
do meu corpo antes de lhes tocarem”.
Concetta, ao ouvir estas palavras, olhou para mim de olhos brilhantes e
excitados, como se me dissesse:
“Vês? O que te disse eu? Somos ou não gente honesta?”
Mas eu continuava na minha e, lembrando-me dos dois filhos atarefados a
descarregar a carroça, pensava de mim para mim: Arreda, ladrões... Cesteiro que
faz um cesto...”
A descoberta daquela ladroeira foi a razão principal por que comecei a pensar
em deixar a casa de Concetta e ir para outro sítio. Eu tinha aquele dinheiro
escondido no saquinho debaixo da saia aliás bastante dinheiro, e nós éramos duas
mulheres sozinhas, sem ninguém para nos defender, e não havia ali nem leis nem
carabineiros e pouco seria preciso para subjugar duas pobres como nós e tirar-nos
tudo quanto possuíamos. E verdade que eu nunca mostrara o saquinho a Concetta;
mas dava-lhe de vez em quando uma pequena importância pela alimentação e pelo
quarto e dissera que tencionava pagar bem; certamente haviam de supor que em
qualquer sítio escondia as notas. Agora roubavam coisas abandonadas, amanhã
poderiam roubar o meu dinheiro, matar-me talvez, não sabia do que seriam capazes.
Os dois filhos tinham cara de salteadores, o marido parecia estúpido, Concetta tinha
sempre um ar exaltado; na verdade não se podia prever o que sucederia. E aquela
casa, embora a pouca distância de Fondi, estava enterrada entre os laranjais,
escondida e solitária; podia-se matar ali um cristão, que ninguém daria por isso. Era,
claro, um bom esconderijo; mas um desses esconderijos onde nos podem suceder
males maiores do que ao ar livre, à mercê dos aviões.
Naquela mesma noite, depois de nos deitarmos, disse a Rosetta:
“É uma família de criminosos. Podem não nos fazer mal nenhum, mas
também podem matar-nos e enterrar-nos como esterco debaixo das laranjeiras. Isso
para eles é indiferente.”
Falei apenas para desabafar a inquietação; mas fiz mal, pois Rosetta, que
ainda não se refizera do susto dos bombardeamentos de Roma, começou logo a
chorar, apertando-se a mim e murmurando:
“Mamã, tenho tanto medo, porque não saímos já daqui?” Procurei então
tranqüilizá-la, dizendo-lhe que naturalmente eram tudo fantasias minhas; que a culpa
era da guerra; que Vincenzo, Concetta e os filhos eram decerto boa gente. Ela não
pareceu muito convencida e disse por fim:
“Eu ia-me embora na mesma; porque estamos mal aqui.”
Prometi-lhe que sairíamos dali o mais depressa possível. A esse respeito ela
tinha razão: não podíamos estar pior.
Estávamos mal de fato e hoje, ao recordá-lo, posso dizer que, em todo aquele
tempo de guerra que passamos fora, nunca estivemos tão mal como em casa de
Concetta. Deu-nos o quarto onde ela dormia com o marido desde que se casaram,
mas, posso afirmá-lo, embora eu fosse camponesa como ela, nunca vi nos dias da
minha vida tamanha porcaria. O quarto cheirava tão mal que, mesmo com as janelas
escancaradas, faltava o ar e quase se sufocava. Porque cheiraria tão mal o quarto?
Naturalmente por estar sempre fechado, concentrando o cheiro a suor antigo e
rançoso, a bichos e a urina. Ao procurar descobrir a origem de tal fedor, abri as duas
mesinhas de cabeceira: continham dois bacios altos e estreitos, sem asa,
semelhantes a tubos, de porcelana branca com flores cor-de-rosa; mas com certeza
nunca tinham sido lavados, por dentro estavam de todas as cores e uma boa parte
do mau cheiro vinha dali. Coloquei-os fora da porta e Concetta quase me bateu,
dizendo, furiosa, que tinha herdado aqueles bacios da mãe, eram da família, e não
compreendia porque é que eu não os queria no quarto.
Na primeira noite que dormimos no grande leito conjugal, sobre um colchão
cheio de covas e tarolos, atulhado de coisas que chiavam e picavam e coberto com
um pano tão fino que parecia ir romper-se ao menor movimento, mal me deitei, senti
comichões em todo o corpo; Rosetta também não tinha descanso e só fazia mudar
de posição sem conseguir dormir. Por fim acendi a vela e, com o castiçal na mão,
examinei a cama: à luz da chama vi, não um ou dois, mas grupos compactos de
percevejos que fugiam em todas as direções, vermelho-escuros, grandes, cheios do
sangue que nos tinham sugado naquelas horas. A cama estava negra de
percevejos, e digo a verdade se afirmar que nunca vi tantos duma só vez. Em Roma
acontecia-me às vezes encontrar um ou dois, mas imediatamente mandava encher
de novo o colchão e nunca mais davam sinal. Mas aqui eram aos milhares, e não
estavam só escondidos no colchão, mas também na madeira da cama e em todo o
quarto. Na manhã seguinte, Rosetta e eu levantamo-nos e fomos ver-nos ao espelho
do guarda-vestidos: estávamos cobertas, em todo o corpo, de bolhas vermelhas; os
percevejos tinham-nos mordido tanto que dir-se-ia sofrermos de alguma doença de
pele. Chamei Concetta e mostrei-lhe Rosetta toda nua sentada em cima da cama, a
chorar, e disse-lhe que era uma vergonha ter a cama com tantos percevejos. Ela,
habitualmente exaltada, respondeu:
“Tens razão, é uma vergonha, é uma indecência, sei que os percevejos são
uma porcaria. Mas nós somos uns pobres camponeses e tu és uma senhora da
cidade para nós percevejos, para ti lençóis de seda.”
Dava-me razão com entusiasmo, mas dum modo estranho, como se troçasse
de mim; e, de fato, depois de me dar razão, concluiu duma maneira inesperada,
dizendo que os percevejos também são criaturas de Deus e se Deus os criou é
porque servem para alguma coisa. Em conclusão, disse-lhe que daí em diante
dormiríamos na cabana onde guardavam o feno para o macho. O feno picava e
também havia lá um ou outro inseto, mas eram bichos limpos, daqueles que
passeiam pelo corpo e fazem cócegas, mas não chupam o sangue. Mas vi logo que
não podíamos ficar ali muito tempo.
Naquela casa tudo era nojento: até a comida. Concetta, desleixada e porca,
fazia tudo à pressa e sem cuidado: a sua cozinha era um antro escuro e as
frigideiras e os pratos tinham crostas de porcaria acumulada durante anos e anos;
nunca havia água, não lavava nada e cozinhava a correr, mal e porcamente.
Dava-nos todos os dias a mesma comida, aquilo que na minha terra se chama
minestrina: fatias finas de pão caseiro, postas em cima umas das outras, até encher
uma terrina, que era um alguidar de louça; a seguir, por cima do pão, deita-se uma
panela de caldo de feijões. Este prato come-se frio, depois de o caldo ter aboborado
bem o péo, reduzindo-o a papa. Nunca gostei de minestrina, mas em casa de
Concetta até me revolvia o estômago, um pouco por causa da porcaria, pois
encontrava sempre uma mosca ou qualquer outro bicho, e também porque ela nem
ao menos sabia fazer esse prato tão simples. Além disso, comiam à maneira dos
camponeses, sem pratos, cada qual metendo a sua colher no alguidar de todos,
levando-a depois à boca e tornando-a a meter nas papas. É incrível? Um dia fiz uma
observação a propósito das moscas que encontrava mortas entre o pão e os feijões
e Concetta, ignorante como era, respondeu:
“Come, não te apoquentes. Que é uma mosca? É carne, tal como a vitela,
nem mais nem menos.”
Por fim, vendo que Rosetta não era capaz de tragar aquelas mixórdias, passei
a ir com Concetta, de vez em quando, à estrada principal. Era agora ali o mercado;
na cidade, por causa dos alarmes aéreos e das requisições dos fascistas, não havia
segurança de espécie nenhuma. Por isso as camponesas se punham na estrada
principal e aí vendiam ovos, fruta, um bocadinho de carne e às vezes até peixe.
Vendiam caro e zangavam-se se alguém discutia e procurava regatear o preço.
Respondiam: “Está bem, come o dinheiro, que eu como os ovos.” Em suma, sabiam
que havia fome e que o dinheiro em tempo de escassez não serve para nada e
pediam couro e cabelo. Eu comprava sempre qualquer coisa e acabei assim por dar
de comer também à família de Concetta: por isso o dinheiro me escorria das mãos
como a água, e isso era para mim mais um motivo de inquietação.
Pensávamos sair dali. Mas para onde? Um dia disse a Concetta que, como os
ingleses não chegavam, o melhor era irmos numa carroça, ou mesmo a pé, para a
aldeia dos meus pais e esperarmos lá o fim da guerra. Ela aprovou logo com
entusiasmo:
“Fazes muito bem. Só em nossa casa nos sentimos à vontade. Quem pode
ocupar o lugar da mãe? Fazes bem, aqui nada te agrada, há percevejos, as sopas
são más, mas a casa dos teus pais, com os mesmos percevejos e as mesmas
sopas, há-de parecer-te um paraíso. E porque não? Amanhã Rosário leva-as na
carroça, vão dar um bonito passeio.”
Contentes e confiadas, esperamos pelo dia seguinte, em que Rosário havia
de voltar não sei donde. De fato voltou, mas, em vez da carroça com o macho,
trouxe um saco cheio de más notícias: os alemães requisitavam os homens, os
fascistas prendiam quem se arriscava nas estradas, os ingleses deitavam bombas,
os americanos lançavam-se em pára-quedas, e havia fome, carestia e revolução:
não tardaria nada que ingleses e alemães travassem batalha mesmo na região onde
ficava a aldeia dos meus pais: entretanto, soubera-o no comando alemão, a aldeia
fora evacuada e todos os habitantes levados para um campo de concentração perto
de Frosinone. Disse ainda que as estradas eram perigosas por causa dos aviões
que voavam baixo e metralhavam as pessoas e não deixavam de metralhar
enquanto não as viam mortas: que nem pelos caminhos da montanha se andava em
segurança, pois estavam cheios de desertores e salteadores que, sem mais nem
menos, matavam quem quer que fosse; em suma, era melhor esperarmos ali a
chegada dos ingleses, que deviam entrar em Fondi dentro de dias, pois o exército
aliado avançava e não demoraria uma semana. Em conclusão, disse muitas coisas
falsas e outras verdadeiras, misturadas de tal forma que as verdadeiras faziam com
que as falsas parecessem verdadeiras também. Era certo que havia
bombardeamentos e que metralhavam as pessoas, mas não era verdade que se ia
travar uma batalha perto da aldeia dos meus pais nem que a aldeia tivesse sido
evacuada. Mas nós ficamos assustadas; sozinhas e sem outras informações além
daquelas, não percebemos que nos davam tantas más noticias só para nos reterem
ali e continuarem a ganhar dinheiro conosco.
Evidentemente, os tempos estavam ruins a valer e eu tinha uma filha e não
queria correr o risco de me meter com ela ao caminho, mesmo que houvesse só
uma probabilidade em cem de encontrar os perigos que ele anunciava. Decidi por
isso adiar para outra altura a viagem e esperar em Fondi a chegada dos Aliados.
Mas, de qualquer maneira, impunha-se que deixássemos o mais depressa
possível a casa de Concetta, porque também naquele isolamento, no meio dos
laranjais, como já disse, podia acontecer o pior... E os filhos de Concetta, com o
decorrer do tempo, causavam-me cada vez mais medo. Disse que eram taciturnos;
mas, quando se punham a falar, revelavam um caráter que não me agradava nada.
Um deles contou um dia, por brincadeira:
“Numa aldeia da Albânia dispararam contra nós e tivemos dois feridos. Em
represália, sabem o que fizemos? Como os homens tinham fugido, agarramos as
mulheres, as mais agradáveis, claro, e passamo-las todas... umas fizeram-no de boa
vontade, umas cróias que só esperavam aquela ocasião para armar os maridos,
outras fizeram-no à força... e algumas tantas vezes que depois já não se
agüentavam em pé e pareciam como mortas.”
Eu ficava gelada com tais histórias; mas Concetta ria e repetia:
“Ah, rapazes... Sabe-se o que são rapazes... gostam de raparigas... têm o
sangue a ferver...”
Ainda pior do que eu, ficava Rosetta: vi-a empalidecer, tremer quase, e então
explodi:
“Acabem lá com isso, está aqui a minha filha e não se fala dessa maneira
diante duma rapariga solteira.”
Teria preferido que protestassem, talvez mesmo que me injuriassem; mas não
disseram nada, limitaram-se a olhar Rosetta de alto a baixo, com aqueles olhos de
carvão em brasa, cintilantes, que metiam medo, enquanto a mãe repetia:
“Rapazes... já se sabe... rapazes com o sangue a ferver... Mas tu, Cesira, não
tens que recear pela tua filha. Os meus filhos não lhe tocariam, nem por um milhão.
Vocês são hóspedes e um hóspede é sagrado. A tua filha aqui está tão segura como
na igreja.”
Mas, no meio do silêncio dos filhos e da exaltação da mãe, eu sentia
aumentar o medo. Foi por isso talvez que comprei a um camponês uma navalha de
ponta e mola e a trazia sempre comigo, juntamente com o dinheiro. Não me fiava e,
se tentassem alguma coisa, teriam primeiro de se ver comigo e eu era capaz até de
os matar.
Porém, o que nos convenceu definitivamente a sair dali foi o que se passou
umas duas semanas após a nossa chegada. Uma manhã, Rosetta e eu estávamos
sentadas na eira, atentas a desfolhar espigas de milho, para passar o tempo,
quando de súbito desembocaram dois homens no carreiro. Compreendi logo o que
eram, não só por causa das espingardas que traziam ao ombro e das camisas
negras bem à vista debaixo dos casacos, mas também porque Rosário, um dos
filhos de Concetta, que estava um pouco adiante a comer pão e cebola, mal os viu,
desapareceu imediatamente, correndo a bom correr. Disse baixinho a Rosetta:
“São fascistas, não digas nada, deixa-os comigo.”
Conhecia bem esses novos fascistas, que apareceram depois do 25 de Julho,
pois lidara com eles em Roma: uns brutos da pior espécie, uns vagabundos que
tinham interesse em vestir a camisa negra quando a gente honesta já não a queria
usar, mas todos homens fortes, como há muitos em Trastevere e na Ponte. Estes
dois, porém, vi logo que não passavam de dois migalhos de gente, dois idiotas
chapados, uns coitadinhos que tinham mais medo das próprias espingardas do que
as pessoas a quem queriam assustar. Um era meio zarolho, de cabeça calva, cara
mirrada como uma castanha pilada, os ombros tão estreitos que até causava dó,
olhos encovados, nariz achatado e barba comprida; o outro era quase anão, com
cabeça de professor, olhos grandes, carrancudo e gordo.
Concetta desceu imediatamente e saudou o primeiro com uma alcunha que
era mesmo um retrato:
“Que procuras por estes lados, Scimmiozzo?”
Scimmiozzo, o calvo e magro, respondeu, fanfarrão, bamboleando-se e
batendo com a mão na coronha da espingarda:
“Comadre Concetta, entendamo-nos, sabes muito bem o que procuramos.”
“Palavra de honra que não sei. Querem vinho? Querem pão? Temos pouco
pão, mas posso arranjar uma garrafa de vinho e também alguns figos secos. Coisas
do campo, já se vê.”
“Comadre Concetta, és esperta, mas desta vez encontras um mais esperto
ainda.”
“Scimmiozzo, que dizes tu?! Esperta eu?!”
“Sim, esperta; e esperto também o teu marido, e mais espertos ainda os teus
dois filhos.”
“Os meus dois filhos?! Quem me dera ver os meus filhos! Há tanto tempo que
os não vejo! Estão na Albânia. Pobres filhos, estão na Albânia a combater pelo rei e
por Mussolini, e que Deus conserve ambos sempre de boa saúde.”
“Qual rei nem meio rei, estamos em República, Concetta.”
“Então, viva a República!”
“E os teus filhos não estão na Albânia, estão aqui.”
“Aqui? Quem me dera que fosse verdade!”.
“Sim estão aqui, ainda ontem foram vistos, no mercado negro, para os lados
de Coccuruzzo.”
“O que estás para aí a dizer, Scimmiozzo? Os meus filhos aqui? Já te disse,
quem me dera que fosse verdade, abraçava-os, sabia-os longe do perigo, eu que
me consumo a chorar todas as noites e sofro por eles mais do que a Virgem das
Sete Dores.”
“Basta, diz onde estão e acaba lá com isso.”
“Que sei eu deles? Posso dar-te vinho, posso dar-te figos secos, posso dar-te
também farinha de milho, embora tenha pouca, mas os meus filhos, como posso eu
dar-tos, se não sei deles?”
“Hum... entretanto, venha de lá esse vinho.”
Sentaram-se então na eira, em duas cadeiras. Concetta, muito entusiasmada
como de costume, foi buscar uma garrafa de vinho e dois copos e trouxe também
um cesto cheio de figos secos. Scimmiozzo escarranchou-se na cadeira, bebeu o
vinho e depois disse:
“Os teus filhos são desertores. Sabes o que o decreto manda fazer aos
desertores? Se os apanhamos, são fuzilados. É a lei.”
E ela, muito contente:
“Têm razão: os desertores devem ser fuzilados... tratantes... devem ser todos
fuzilados. Mas os meus filhos não são desertores, Scimmiozzo.”
“O que são senão isso?”
“São soldados. Combatem por Mussolini, que Deus o conserve cem anos.”
“Sim, a fazer mercado negro?”
“Queres mais vinho?”
Quando não podia responder doutro modo, Concetta oferecia-lhes vinho; e
eles, que tinham vindo ali sobretudo pelo vinho, aceitavam e bebiam.
Nós as duas estávamos à parte, sentadas nos degraus da escada.
Scimmiozzo, mesmo a beber, não fazia outra coisa senão olhar para Rosetta, mas
não a olhava como um polícia que quisesse esticar-se se alguém tinha ou não os
papéis em ordem, olhava-lhe para as pernas, para o peito, como um homem a quem
uma mulher agrada e está com o sangue a ferver. Finalmente, perguntou a
Concetta:
“Quem são aquelas duas?”
Apressei-me eu a responder em vez de Concetta, pois não queria que os
fascistas soubessem que éramos de Roma:
“Somos primas de Concetta, viemos de Vallecorsa.”
E Concetta, entusiasmada, reforçou:
“Sim, são minhas primas, Cesira é filha dum tio meu, são do meu sangue,
vieram para estar conosco, pois, já se vê, o sangue não é água.”
Mas Scimmiozzo não ficou convencido. Via-se que era mais inteligente do
que parecia:
“Não sabia que tinhas parentes em Vallecorsa. Sempre me disseste que eras
de Minturno. E como se chama esta linda rapariga?
“Chama-se Rosetta”, disse eu.
Ele esvaziou o copo, depois levantou-se e veio até junto de nós:
“Agradas-me, Rosetta. Precisamos na sede duma criada que cozinhe e faça
as camas. Queres vir conosco?”
E, dizendo isto, estendeu a mão e pegou-lhe no queixo. Dei-lhe
imediatamente uma palmada:
“Abaixa lá as patinhas!”
Ele olhou-me, abriu muito os olhos e, fingindo-se admirado:
“Olá, que bicho te mordeu?”
“Não quero que toques na minha filha”.
E o malandro tirou a espingarda do ombro e apontou-me:
“Sabes com quem falas? Mãos ao alto!”
Eu então, muito calma, como se, em vez da espingarda, ele me estendesse a
colher para mexer a polenta, afastei o cano um quase nada e disse-lhe com
desprezo:
“Qual mãos ao alto! Julgas que me metes medo com a tua espingarda?
Sabes para que ela te serve? Para arranjares vinho e figos secos, é só para isso que
te serve. Até um cego vê que andas morto de fome.”
Ele, com grande admiração nossa, acalmou-se imediatamente e, rindo, disse
para o outro:
“Merecia pelo menos ser fuzilada, que dizes?”
Mas o outro encolheu os ombros e resmungou qualquer coisa como:
“São mulheres, não faças caso.”
Então Scimmiozzo baixou a espingarda e declarou com ênfase: “Por esta vez
estás perdoada, mas fica sabendo que escapaste por pouco à morte: quem toca na
milícia recebe bala.”
Esta frase estava escrita nas paredes de Roma e também nas de Fondi e
aquele safado tinha-a aprendido de cor. Passado um momento acrescentou:
“Mas fica entendido que nos mandas a tua filha para ser criada na sede, em
Coccuruzzo.”
Eu respondi:
“Bem podes sonhar com a minha filha. Não faltava mais nada senão
mandar-ta.”
Ele voltou-se então para Concetta:
“Façamos uma troca, Concetta: nós deixamos de procurar os teus filhos, que
andam por aí, e tu sabê-lo muito bem; se os procurássemos a valer, decerto os
encontrávamos. Mas tu, em troca, mandas-nos a priminha. Estamos entendidos,
hem?”
Aquela malvada Concetta, tanto mais exaltada quanto mais criminosas e
impossíveis eram as coisas que lhe propunham, respondeu, até me custa dizê-lo,
com calor:
“Pois naturalmente, amanhã mesmo, de manhã, Rosetta estará lá na sede.
Acompanho-a eu, fiquem descansados, Rosetta será cozinheira, criada de quarto,
fará tudo o que quiserem. Sim, amanhã de manhã eu levo-a.”
Desta vez, embora sentisse o sangue a ferver, por prudência não disse nada.
Aqueles dois safardanas ainda se demoraram um bocado, beberam mais uns copos
de vinho, papas de farinha de milho, e depois, um levando a garrafa, o outro o cesto
dos figos secos, foram-se embora pelo carreiro por onde tinham vindo.
Mal desapareceram, disse a Concetta
“Tu és doida... Preferia ver a minha filha morta a mandá-la servir de criada
aos fascistas.”
Não disse isto com muita energia, pois no fundo julgava que Concetta tivesse
concordado apenas pró-forma, para não contrariar os dois fascistas e deixá-los ir
embora contentes. Mas fiquei furiosa ao ver que ela, ao contrário, não estava nada
indignada como eu supunha:
“Bem, no fim de contas, ninguém te comia Rosetta. E os fascistas, comadre,
têm de tudo: vinho, farinha, carne, feijões. Na sede comem todos os dias bom
macarrão e boa vitela. Rosetta estaria lá como uma rainha.”
“Mas que estás para aí a dizer? És doida?”
“Não digo nada, digo somente que estamos em guerra e na guerra o
importante é estar ao lado do mais forte. Hoje os fascistas são os mais fortes, pois
bem, é preciso estar com os fascistas. Amanhã serão talvez os ingleses3, estaremos
então ao lado dos ingleses.”
“Mas não compreendes que eles querem Rosetta sei lá para que? Não viste
que esse malandro esteve todo o tempo a comê-la com os olhos?”
“E que tem isso? Tanto faz um homem como outro, algum há-de ser o
primeiro... Estamos em guerra e as mulheres, já se vê, em tempo de guerra não
devem olhar demasiado a delicadezas nem pretender que as tratem com respeito
como em tempo de paz. Além disso, comadre, cão que ladra não morde... Conheço
o Scimmiozzo: só pensa em encher a panca.”
Em resumo, era claro como água que ela tomara muito a sério a proposta de
Scimmiozzo: dás-me Rosetta e eu deixo os teus filhos em paz. Não digo que do seu
ponto de vista não tivesse razão: se Rosetta fosse para criada dos fascistas, ou para
coisa pior, aqueles dois malandros, que eram seus filhos, poderiam dormir
sossegados em casa e ninguém mais os procurava. Mas essa liberdade dos filhos
queria ela pagá-la com a minha filha, e eu, que também era mãe, compreendi que,
por amor dos filhos, ela era capaz de chamar os fascistas no dia seguinte e
entregar-lhes Rosetta. Protestar não servia de nada, era preciso simplesmente fugir.
Por isso mudei de tom e disse com grande calma:
“Bem, vou pensar. E verdade que nesta e noutras passagens, Rosetta, ao pé
dos fascistas, seria, como dizes, uma rainha, mas não queria...”
“Ora, histórias, comadre. É preciso estar com o mais forte. Vivemos em
guerra.”
“Esta noite decidirei.”
“Pensa bem. Não há pressa. Eu conheço os fascistas, direi que Rosetta irá ter
com eles daqui a uns dias. Esperarão... Mas, depois, podes ter a certeza, não te
faltará nada. Os fascistas têm tudo, azeite, vinho, carne de porco, farinha... junto
deles não se faz outra coisa senão beber e comer. Vão passar bem e engordar.”
“Decerto, decerto.”
“Foi a Providência, Cesira, que mandou cá esses fascistas, pois eu, para falar
verdade, não tinha já possibilidades de lhe hospedar. É certo que pagas, mas há a
carestia e em tempo de carestia contam mais as provisões do que o dinheiro. E,
além disso, os meus filhos não podiam continuar nesta vida, sempre fugidos, como

3
Por ingleses, subentenda-se Aliados, pois era assim que os Italianos geralmente designavam os Aliados na
última guerra.
ciganos. Assim, deixam-nos tranqüilos, já podem dormir em paz e trabalhar. Sim, foi
mesmo a Providência que mandou cá hoje esses fascistas.”
Em suma, ela parecia decidida a sacrificar Rosetta. E eu, por meu lado,
estava decidida a ir-me embora naquela mesma noite. Comemos os quatro, como
de costume: nós as duas, Concetta e Vincenzo; os filhos tinham ido a Fondi. Assim
que chegamos à cabana de feno, disse a Rosetta: “Não julgues que estou de acordo
com Concetta. Fingi, porque com gente desta nunca fiando... Agora vamos fazer as
malas e, mal desponte o dia, saímos daqui.”
“Mas para onde vamos, mamã?”, perguntou ela numa voz chorosa.
“O que é preciso é sair desta casa de malfeitores. Vamos para onde
pudermos.”
“Mas para onde?”
Pensara já tantas vezes nesta fuga que tinha as minhas idéias. Respondi:
“Para junto dos teus avós não podemos ir, pois a aldeia foi evacuada e sabe
Deus onde estão a esta hora. Primeiro que tudo, vamos a casa de Tommasino: é
bom homem, pedimos-lhe conselho. Disse-me muitas vezes que o irmão está na
montanha e está lá bem, com toda a família. Há-de saber dar qualquer indicação.
Não tenhas medo, estás ao pé da tua mãe, que te quer bem, e temos uns patacos,
que são os melhores amigos e os únicos em quem podemos confiar. Havemos de
encontrar algum sítio para onde ir.”
Em resumo, tranqüilize-a; ela também conhecia Tommasino, meio irmão de
Festa, o proprietário da herdade cultivada por Vincenzo. Este Tommasino era
comerciante e, embora quase morresse todos os dias de medo, não se decidia a ir
juntar-se aos parentes, na montanha, por amor ao mercado negro, pois negociava e
vendia de tudo. Morava num casebre ao fundo da planície, no sopé dos montes. E
ganhava bom dinheiro, arriscando a vida e continuando a negociar apesar dos
bombardeamentos, das prepotências dos fascistas e das requisições dos Alemães.
Mas, toda a gente sabe, por dinheiro até os covardes se tornam corajosos:
Tommasino pertencia a esse número.
Assim, à luz duma candeia, metemos dentro das malas as poucas coisas que
tínhamos tirado de lá quando chegamos e depois, vestidas como estávamos,
deitamo-nos em cima do feno e dormimos talvez umas quatro horas. Rosetta, claro,
de boa vontade dormiria, era jovem e tinha o sono pesado; podia até vir a banda de
música da aldeia e pôr-se a tocar ao pé dos seus ouvidos, que não acordava. Mas
eu, mais velha, tinha o sono leve, e desde que fugíramos, por causa das
preocupações e do nervosismo, dormia pouco. Quando os galos começaram a
cantar, era ainda noite, mas a alvorada já estava próxima e os galos sabem-no bem;
primeiro mais ao longe, ao fundo da planície, depois mais perto, e por fim mesmo ao
lado, na capoeira de Vincenzo. Levantei-me do feno e comecei a sacudir Rosetta.
Digo “comecei” porque ela não queria acordar, repetindo, com voz chorosa: “O que
é, o que é?”, como se tivesse esquecido que estávamos em Fondi, em casa de
Concetta, e se julgasse ainda em Roma, na nossa casa, onde nunca nos
levantávamos antes das sete. Finalmente acordou, muito queixosa, e disse-lhe:
“Preferias talvez dormir até ao meio-dia e ser acordada por um homem de
camisa negra?”
Antes de sair da cabana assomei à porta e olhei para a eira: viam-se no chão
os figos espalhados a secar, uma cadeira na qual Concetta estivera sentada, um
cesto cheio de milho, a parede cor-de-rosa da casa, toda esfolada e enegrecida,
mas não se via ninguém. Então, eu e Rosetta pusemos as males à cabeça, tal como
tínhamos feito ao chegarmos à estação de Monte San Biagio, saímos da cabana e
corremos rapidamente para o fiea de carreiro que atravessava os laranjais.
Eu sabia o caminho e, uma vez na estrada principal, tomei a direção das
montanhas que ficam ao norte da planície de Fondi. Nascia o dia. Lembrei-me da
outra alvorada, quando fugira de Roma, e pensei: “Quem sabe quantas outras como
esta verei ainda antes de voltar para case?” Uma luz cinzenta e falsa espalhava-se
por todo o campo; no céu, dum branco incerto, uma e outra estrela, aqui e além a
brilhar, como se não estivesse para nascer o dia, mas sim parecia começar outra
noite, menos negra do que a primeira; a geada cobria as árvores, tristes e imóveis, e
o cascalho da estrada ali muito frio, gelava-me os pés descalços. Havia um silêncio,
mas já não como o silêncio noturno: distinguiam-se os estalidos secos, adejos e
rumores; lentamente, o campo acordava.
Eu caminhava adiante de Rosetta e olhava para as montanhas que se
erguiam em volta, tendo por fundo o céu; eram montanhas nuas, com uma ou outra
mancha acastanhada aqui e além; pareciam desertas. Mas, como sou montanhesa,
sabia que, uma vez lá em cima, encontraríamos terra cultivada, bosques, matos,
cabanas, casas, camponeses e fugitivos. E imaginava o que iria suceder-nos nessas
montanhas, augurando que a sorte nos seria mais favorável e encontraríamos boa
gente, e não criminosos como Concetta e a família. Sobretudo esperava estar lá
pouco tempo e desejava que os ingleses chegassem depressa para poder voltar a
Roma, para a minha casa e para a minha loja. Entretanto, o sol erguia-se no
horizonte, por trás da orla dos montes, e os cumes e o céu em volta começaram a
ungir-se de vermelho. Já não havia mais estrelas no céu, que se tornara azul-pálido;
o sol brilhou de repente, claro como ouro, no fundo dos olivais, por entre os ramos
escuros, e os seus raios espreguiçaram-se na estrada, e, embora fossem ainda
fracos e hesitantes, pareceu-me imediatamente que debaixo dos meus pés o saibro
já não estava tão frio.
Reconfortada com esse sol, disse a Rosetta:
“Quem diria que há guerra; no campo nunca se percebe que há guerra.”
Rosetta nem teve tempo de responder; dos lados do mar surgiu um avião a
uma velocidade incrível: primeiro apenas lhe senti o ronco medonho, sempre a
crescer, depois vi-o descer do céu, em direção a nós, de focinho para baixo. Só tive
tempo de agarrar Rosetta por um braço e deitar-me com ela para além da beira da
estrada, num campo de milho onde caímos de bruços no meio das espigas; o avião,
voando baixo, passou-nos por cima com um barulho de enlouquecer, raivoso;
parecia mesmo estar enfurecido conosco; depois chegou até a curve da estrada,
voltou atrás, empinou-se de repente sobre uma fila de choupos e por fim afastou-se,
voando a meia encosta: parecia uma mosca a mover-se diante do sol.
Eu estava de bruços, com em Rosetta achegada a mim, e olhava para a
estrada, onde ficara a mala pequena, que Rosetta deixara cair no chão quando a
puxei. No momento em que o avião passava vi erguerem-se umas pequeninas
nuvens de pó que dir-se-ia correrem em direção aos montes juntamente com ele.
Quando tudo sossegou, saí do campo de milho, fui olhar e vi a mala esburacada em
vários sítios. Na estrada havia nas muitas balas do comprimento do meu dedo
mínimo. Assim, não havia dúvidas: aquele avião tinha disparado mesmo contra nós,
pois dali não havia mais ninguém. Pensei: “Malditos sejam!” e senti em mim um ódio
feroz contra a guerra: aquele aviador não nos conhecia, talvez fosse um bom rapaz
da idade de Rosetta, e, só porque estávamos em guerra, quisera matar-nos, por
simples capricho, tal como um caçador que anda no mato à caça com o seu cão e
atira ao acaso para uma árvore, pensando: “Talvez mate alguma coisa, nem que
seja um pássaro.” Sim, nós éramos apenas dois pássaros, a servir de alvos a um
caçador vadio, que depois, se os pássaros caem mortos, os deixa no mesmo sítio,
pois não lhe servem para nada.
“Mamã”, disse Rosetta, passado pouco tempo, enquanto caminhávamos,
“disseste que no campo não havia guerra e no entanto aquele tentou matar-nos.”
Respondi:
“Minha filha, enganei-me. A guerra está em toda a parte, tanto no campo,
como na cidade.”

CAPÍTULO III

Depois de meia hora de caminho, pouco mais ou menos, chegamos a uma


encruzilhada: à direita havia uma ponte sobre um ribeiro e, do outro lado, uma
casinha branca, onde, como já sabia, morava Tommasino. Debruçando-me na
ponte, vi uma mulher que lavava roupa no rio, ajoelhada nas pedras. Gritei-lhe:
“Mora aqui Tommasino?”
Ela acabou de torcer um pano já lavado e respondeu:
“Sim, mora aqui. Mas não está em casa. Foi a Fondi.”
“E volta?”
“Sim, volta.”
Não podíamos fazer mais nada senão esperar, e foi o que fizemos;
sentamo-nos num banco de pedra à entrada da ponte. Durante algum tempo
ficamos ali caladas, ao sol, que a pouco e pouco se tornava mais quente e luminoso.
Rosetta, por fim, perguntou:
“Julgas que a Annina me restituirá o Pallino são e salvo quando voltarmos
para Roma?”
Eu estava mergulhada em pensamentos tão diferentes que no primeiro
instante não compreendi. Depois lembrei-me que Annina era a porteira do prédio ao
lado do nosso, em Roma, e Pallino o gato pardo de que Rosetta gostava muito e
que, por isso mesmo, antes de partir, confiara a Annina. Tranqüilizei-a, dizendo-lhe
que com certeza encontraria o Pallino mais bonito e mais gordo, quanto mais não
fosse porque Annina era irmã de um cortador e, apesar da carestia, a eles nunca
faltava carne.
A minha resposta pareceu confortá-la e calou-se de novo, semi-cerrando os
olhos por causa do sol. Menciono aqui esta pergunta de Rosetta, naquele momento
tão crítico, para mostrar que ela, embora tivesse já mais de dezoito anos, era ainda
uma criança pelo caráter. Revelava-o bem tal preocupação quando não sabíamos
ainda onde dormiríamos naquela noite ou se teríamos que comer.
Por fim, lá apareceu um homem na curva da estrada; caminhava devagar,
sugando uma laranja. Reconheci imediatamente Tommasino, que era tal e qual um
hebreu do gueto, a cara comprida, a barba duma semana, o nariz adunco, os olhos
à flor da pele, o passo arrastado, os pés para fora. Ele também me reconheceu, pois
era sua freguesa e nessas duas semanas tinha-lhe comprado muitas coisas; mas,
desconfiado, não respondeu ao meu cumprimento e continuou a chupar a laranja de
olhos no chão. Quando chegou ao pé de mim, disse-lhe:
“Tommasino, nós saímos da casa de Concetta. Agora tens de nos ajudar, pois
não sabemos para onde ir.”
Ele então apoiou-se ao parapeito da ponte, com um pé contra o muro, deu
uma dentada noutra laranja que tirou do bolso, atirou a casca na minha direção e
respondeu:
“Isso é bom de dizer. Mas... nestes tempos cada um trata de si e Deus de
todos. Como queres que te ajude?”
Eu disse então:
“Conheces algum camponês na montanha que possa dar-nos agasalho até
chegarem os Ingleses?”
E ele:
“Não conheço ninguém e todas as casas estão cheias de gente, segundo me
disseram. Mas se vais para a montanha, alguma coisa hás-de encontrar: uma
cabana, um palheiro.”
Respondi:
“Não, assim à aventura não vou. Tens lá o teu irmão e conheces os
camponeses. Podes dar-me alguma indicação.”
E ele, atirando fora outra casca:
“No teu lugar sabes o que fazia?”
“Que fazias?”
“Voltava para Roma.”
Compreendi que não queria ajudar-nos porque nos julgava umas pobretanas;
aliás, já sabia que ele só pensava no dinheiro e, enquanto não visse dinheiro, era
escusado, não fazia nada por ninguém. Nunca lhe dissera que tinha comigo um bom
pecúlio, mas entendi que era chegado o momento de lho dizer. Nele podia confiar,
éramos os dois da mesma raça: ele também tinha uma mercearia em Fondi e agora
fazia mercado negro exatamente como eu fizera antes: em suma, como o outro que
diz: um cão não morde outro cão. Assim, sem insistir no assunto, disse:
“Eu para Roma não vou, por causa dos bombardeamentos e da carestia e
também porque já não há comboios: além disso, a minha Rosetta está ainda
impressionada com as bombas. Decidi ir para a montanha e procurar lá alojamento.
Pagarei o que for preciso. Quero também levar algumas provisões, por exemplo,
azeite, feijão, laranjas, queijo, farinha, um pouco de tudo. Pagarei à vista, tenho
umas economias, quase cem mil liras. Tu não queres ajudar-me, está bem, dirijo-me
a qualquer outro; não és o único aqui em Fondi, há o Esposito, o Scalise e muitos
outros. Vamos, Rosetta.”
Falei num tom resoluto e logo a seguir pus a mala à cabeça, Rosetta fez o
mesmo e demos alguns passos na estrada, em direção ao Monte San Biagio.
Quando me ouviu dizer que tinha cem mil liras, Tommasino arregalou os olhos e
ficou, por momentos, indeciso, com os dentes fincados na laranja que estava a
descascar. Em seguida deitou a laranja fora e correu atrás de nós. Por causa da
mala que levava à cabeça, não podia voltar-me, mas ouvi-o dizer, numa voz rouca e
perturbada:
“Pára um momento, que diabo! Estás com uma pressa... Pára... falemos um
pouco...”
Por fim, parei e, depois de me fazer rogada, consenti em voltar atrás e entrar
na casinha dele. Mandou-nos entrar para um quartinho branco e nu, no rés-do-chão,
no qual não havia senão uma cama de ferro com os lençóis em desalinho. Sentamo-
nos os três em cima da cama e então ele disse, num tom quase amável:
“Bem, vamos lá fazer a lista das provisões que precisas. Não prometo nada,
porque é uma altura ruim e os camponeses tornaram-se finórios. Assim, quanto aos
preços, deves confiar em mim e não discutir: não estamos em Roma em tempo de
paz, estamos em Fondi em tempo de guerra. Sobre a casa na montanha, nada
prometo. Havia muitas antes dos bombardeamentos, mas depois alugaram-se todas.
Porém, como vou falar hoje com o meu irmão, vocês as duas podem vir comigo para
cima e alguma coisa se há-de arranjar, especialmente se estás disposta a pagar
bem. Quanto às provisões, terás de esperar pelo menos uma semana. Entretanto,
se arranjares alojamento lá em cima, o meu irmão ou qualquer outro refugiado pode
emprestar-te ou vender-te o que for preciso.”
Ditas estas palavras em tom prático e razoável, tirou do bolso um caderninho
todo ensebado e rasgado, escolheu uma página em branco, agarrou num lápis,
molhou o bico na boca e recomeçou:
“Então dize lá: que farinha precisas?.”
Ditei-lhe o rol, cuidadosamente: tanto de farinha de trigo, tanto de farinha de
milho, tanto de azeite, tanto de feijão, tanto de queijo de ovelha, tanto de banha,
tanto de salame, tanto de laranjas, e assim por diante. Ele escreveu tudo, depois
meteu no bolso o canhenho e saiu do quarto, voltando dai a pouco com um pão e
metade dum salame:
“Eis um bom princípio... agora comam e fiquem aqui à minha espera... dentro
de uma hora iremos por ai acima... Entretanto, é melhor que me pagues já o pão e o
salame... assim evitam-se confusões.”
Tirei logo uma nota de mil liras e dei-lha e ele, depois de a ver bem contra a
luz, deu-me o troco, uma porção de notas tão rotas e sujas como eu nunca vira. São
estas as notas que se encontram no campo, onde há pouco dinheiro e esse pouco
gira e torna a girar dumas mãos para outras, nunca se renovando, pois os
camponeses não gostam de entregar o seu dinheiro ao banco e preferem
escondê-lo em casa. Ainda lhe restitui algumas daquelas notas, por estarem
demasiado sujas, e ele trocou-mas, observando:
“Tivesses tu uma carrada delas, que não me importava de poder trocá-las.”
Tommasino deixou-nos, avisando-nos de que voltava dai a pouco, e nós
comemos o pão e o salame sentadas na cama, sem falar, mas agora mais tranqüilas
com a certeza de que em breve não nos faltaria casa e comida. Apenas disse, a
certa altura, não sei porquê, talvez seguindo o fio dos meus pensamentos:
“Vês Rosetta, o que vale ter dinheiro?”
E ela:
“Nossa Senhora ajudou-nos, mamã, eu sei, e há-de ajudar-nos sempre.”
Não ousei contradizê-la, sabia que era religiosa, mesmo muito, e rezava todas
as manhãs quando se levantava e à noite ao deitar; eu própria lhe dera essa
educação, como é uso nas nossas aldeias; mas não pude deixar de pensar que, a
ser verdade, a ajuda de Nossa Senhora me parecia bastante estranha: o dinheiro
convencera Tommasino a auxiliar-nos, mas esse dinheiro ganhara-o eu no mercado
negro, graças à guerra e à carestia. Nossa Senhora teria querido também a guerra e
a carestia. Mas porquê? Para nos punir dos nossos pecados?
Depois de comermos o pão e o salame, estendemo-nos em cima dos lençóis
sujos de Tommasino e dormimos aí uma meia hora. Estávamos a pé desde o nascer
do dia e o sono atrasado turvava-nos a cabeça, como o vinho bebido em jejum.
Dormíamos ainda quando Tommasino voltou e nos bateu na cara, dizendo, muito
alegre:
“Acordem, vamos partir, acordem!” Estava contente, via-se que contabilizava
já os ganhos que esperava obter conosco.
Levantamo-nos e seguimo-lo. Em frente da casa, junto à ponte, um burro
cinzento, muito pequeno, daqueles a que chamam burros da Sardenha, já estava
bem ajoujado com uma porção enorme de pacotes, em cima dos quais Tommasino
atara as nossas malas. Partimos, Tommasino à frente com o burrico pela arreata,
uma vergasta na mão, vestido como um citadino, de chapéu preto, casaco preto,
calças pretas às riscas, mas sem gravata, e nos pés botas de soldado, de vitela
amarela, todas enlameadas. Nós as duas seguíamos atrás.
Primeiro contornamos, na planície, o sopé duma daquelas montanhas; depois
metemos por um atalho que saía da estrada principal e ia obliquando encosta acima,
cheio de pedras, pó e buracos, entre duas sebes de silvas. Começamos a trepar e
bem depressa nos encontramos num vale apertado e íngreme, entre dois montes,
que estreitava cada vez mais, como um funil, à medida que subíamos, até se tornar
em acanhada garganta, lá em cima, perto do céu, entre dois cumes rochosos. Mas,
querem acreditar?, mal pus os pés no atalho pedregoso, com excrementos de
animais, pó e buracos, experimentei logo grande alegria. Sou camponesa da
montanha e tinha percorrido tantos atalhos como aquele, para cima e para baixo, até
os dezesseis anos que, ao senti-lo debaixo dos pés, me pareceu ter encontrado
finalmente qualquer coisa familiar, como se, na falta dos meus pais, tornasse a ver
ao menos os lugares onde tinha sido criada. Até aqui, pensei, estivemos na planície
e a gente da planície é falsa, ladra, porca e traiçoeira; mas agora, com este querido
atalho cheio de pedras e esterco, poeirento e escarpado, encontro a montanha e a
minha gente.
Não disse nada disto a Tommasino, primeiro porque não me compreenderia e
depois porque também ele pertencia à planície, com aquela cara de judeu e aquela
mania de aforrar dinheiro. Mas disse baixinho a Rosetta, quando passávamos em
frente duma linda sebe na qual cresciam muitos ciclames:
“Colhe aqueles ciclames, faz um raminho e põe-o nos cabelos, fica bem.”
Lembrou-me de repente que costumava fazer isso quando era rapariga: colhia
os ciclames, fazia um raminho, punha-o nos cabelos por cima duma orelha, e
parecia-me que ficava duas vezes mais bonita. Rosetta seguiu o meu conselho e, no
momento em que paramos para tomar fôlego, colheu um raminho para ela e outro
para mim e com eles nos enfeitamos. Disse, a rir, a Tommasino, que nos olhava
espantado:
“Queremos entrar bonitas na nova casa.”
Mas ele nem sequer sorriu: estava sempre de olhos fitos não se sabia onde, a
fazer cálculos sobre o que ia vender ou comprar e os ganhos ou perdas. Um
verdadeiro comerciante do mercado negro e ainda por cima da planície!
O atalho passou primeiro junto dum grupo de casas, na embocadura do vale,
depois voltou à direita, flanqueando o monte, por entre o mato. Subia lentamente,
aos zigue-zagues, quase plano, de vez em quando com um troço mais íngreme, e
eu sentia que não me cansava, as minhas pernas estavam habituadas a subir desde
nascença, por assim dizer, e subitamente, como por instinto, reencontravam o seu
passo de montanha, lento e regular, de tal modo que nem sequer me esfalfava nas
maiores subidas, ao passo que Rosetta, que nascera em Roma, e Tommasino, que
era da planície, tinham de parar de vez em quando para tomar fôlego. Entretanto, à
medida que o atalho subia, ia-se descortinando a natureza do vale, ou, melhor, do
desfiladeiro, pois não se podia chamar vale a garganta tão estreita: era uma escada
imensa com degraus mais largos em baixo e mais estreitos em cima. Nestes
degraus estavam as culturas, espécie de terraços a que nós, montanheses,
chamamos socalcos e que consistem em faixas compridas e estreitas de terreno
fértil, sustidas por murinhos de pedras soltas. Sobre essas faixas cresce de tudo:
trigo, batatas, milho, hortaliças, linho e até árvores de fruto, plantadas aqui e além no
meio das culturas. Eu conhecia bem os socalcos; quando moça trabalhara, que nem
besta de carga, acarretando à cabeça cestos de pedra para erguer os muros de
suporte e habituara-me a andar para cima e para baixo pelos íngremes carreirinhos
e escadinhas que estabelecem comunicação entre um socalco e outro. Custam
muito trabalho estes socalcos; para os construir, o camponês tem de desbravar a
encosta da montanha, arrancar-lhe o mato, tirar todos os calhaus a um e um e levar
para lá, à força de braços, as pedras necessárias para os muros e às vezes a
própria terra. Mas, depois de feitos, asseguram-lhe a vida, dando-lhe tudo quanto
precisa, de modo que, por assim dizer, não tem necessidade de comprar nada.
Seguimos o atalho não sei por quanto tempo: vagabundo, ora trepava um
bom bocado, montanha acima, à esquerda do vale, ora passava para o outro lado e
começava a subir à direita. Agora podíamos ver toda a encosta, em declive, e lá no
alto o céu onde findava a escadaria gigantesca dos socalcos principiava a faixa
escura do mato; depois o mato rareava e viam-se algumas árvores espalhadas na
vertente nua; por fim, também as árvores cessavam, só se via saibro branco por
baixo do céu azul. Mesmo no cume havia um tufo de verdura, no meio da qual se
entreviam algumas rochas vermelhas.
Tommasino disse-nos que entre aquelas rochas ficava a entrada duma
caverna profunda, onde se escondera, há muitos anos, o famoso pastor de Fondi
que queimara viva a noiva numa cabana e depois fora para o outro lado da
montanha e lá casara e tivera filhos e netos; quando descobriram o seu crime, era já
um bom velho, pai, sogro e avô, de barba branca, amado e respeitado por todos.
Tommasino acrescentou que para lá desse cume ficavam os montes da Ciociaria,
entre os quais o monte das Fadas. Lembrei-me então que o nome daquele monte,
em criança, me fazia sempre sonhar, e muitas vezes perguntara a minha mãe se
nele havia na verdade fadas; ela respondia-me que não, que o monte se chamava
assim nem sabia porquê; mas nunca acreditei; e mesmo hoje, já mulher e com uma
filha crescida, estive quase tentada a perguntar a Tommasino porque é que o monte
tem esse nome e se alguma vez as fadas teriam andado por lá.
De súbito, numa volta do atalho, no meio da escadaria dos socalcos, eis que
surge um boi branco atrelado à sua charrua e um camponês a conduzi-lo numa
dessas faixas estreitas e compridas. Imediatamente Tommasino levou as mãos à
boca e gritou:
“OIá! Paride!”
O camponês revolveu a terra mais alguns passos com o arado, depois parou
e, sem pressas, veio ao nosso encontro.
Era um homem não muito alto, mas bem proporcionado, como os de
Ciociaria, de cabeça redonda, testa baixa, nariz pequeno e curvo, em gancho,
maxilar pesado e boca grande, cortada a direito, que parecia não ser feita para
sorrir. Tommasino disse-lhe, indicando-nos:
“Paride, estas duas senhoras são de Roma e procuram uma casinha aqui nas
montanhas... até chegarem os ingleses, claro, uma questão de dias.”
Paride tirou o chapéu preto e olhou-nos fixamente, sem expressão, como
olham, fascinados e estúpidos, os camponeses que passam horas e horas sozinhos
com o boi, o arado e os sulcos; depois disse, lentamente e de má vontade, que ali já
não havia casas, as poucas que existiam estavam todas alugadas; em resumo, não
via onde pudéssemos ficar.
Rosetta fez logo uma cara triste e desolada, mas eu continuei calma, tinha
comigo dinheiro e sabia que com dinheiro tudo se consegue. De fato, assim que
Tommasino lhe disse, quase rudemente:
“Paride, vamos ver se nos entendemos... estas senhoras pagam... não pedem
nada a ninguém... pagam a pronto”.
Paride coçou a cabeça e a seguir, baixando os olhos, admitiu que tinha uma
espécie de estábulo, um casebre encostado à sua casa, onde instalara o tear e onde
nós, se fosse por poucos dias, poderíamos acomodar-nos. Tommasino observou
então:
“Vês como sempre havia uma casa... A falar é que a gente se entende... Bem,
Paride, volta ao teu trabalho... eu cá apresento as senhoras à tua mulher.”
Paride pronunciou ainda algumas palavras e depois voltou à sua charrua e
nós retomamos a subida.
Agora já faltava pouco. De fato, apenas mais um quarto de hora de caminho e
vimos três casinhotos dispostos em semicírculo na planura dum socalco. Eram
casas pequenas de duas divisões, encostadas à vertente; os camponeses
constroem-nas, por assim dizer, sozinhos, as mais das vezes até sem a ajuda dum
mestre-de-obras. Nestas casas só dormem. O resto do tempo andam a trabalhar nos
campos; e quando chove, ou às horas das refeições, estão numas cabanas, ainda
mais fáceis de construir, que podem erguer numa só noite, com uma parede de
pedras soltas e um telhado de palha. E de fato havia muitas cabanas espalhadas
aqui e além, em redor das casas, formando com estas uma espécie de minúscula
aldeia.
Algumas, com o seu penacho de fumo, indicavam-nos que se cozinhava lá
dentro, outras pareciam palheiros ou estábulos onde à noite se fecham os animais.
Ia e vinha gente entre as casas e as cabanas, no apertado espaço do socalco.
Quando, por fm, chegávamos, vimos que aquela gente que ia e vinha estava
a pôr uma grande mesa ao ar livre, quase à beira do socalco, à sombra duma
figueira. Tinham colocado já os pratos e os copos em cima da toalha e agora
dispunham em volta grandes cepos de madeira para servirem de cadeiras. Um dos
homens, logo que nos viu, veio imediatamente ao encontro de Tommasino, a gritar:
“Chegaste mesmo a tempo de te sentares à mesa!”
Era Filippo, o irmão de Tommasino, e nunca vi dois irmãos tão diferentes. O
que um tinha de reservado, silencioso, fechado consigo e quase taciturno, sempre a
calcular os ganhos, a roer as unhas e a olhar para o chão, tinha o outro de
expansivo e cordial. Filippo era comerciante como Tommasino, mas, enquanto este
tinha uma mercearia, o irmão possuía um verdadeiro armazém onde vendia de tudo.
Era um homem atarracado, de pescoço curto, a cabeça quase enterrada nos
ombros muito largos, que até parecia um tarro voltado ao contrário com a parte mais
estreita para cima e a mais larga para baixo e o nariz exatamente como o bico dos
tarros. Tinha as pernas curtas, o busto amplo, o peito saliente e um pouco de
barriga, de forma que as calças, presas com o cinto, dir-se-ia irem escorregar e cair
ao primeiro movimento.
Filippo, quando ouviu dizer que éramos refugiadas e íamos morar lá em cima
com eles, que tínhamos dinheiro e éramos comerciantes (todas estas coisas lhas
disse Tommasino, taciturno e reticente, como se falasse consigo mesmo), pouco
faltou para nos saltar ao pescoço:
“Sentem-se aqui à mesa... temos massa com feijão... comam conosco...
enquanto não chegam as vossas provisões, servem-se das nossas... tanto mais que
os Ingleses estão ai a chegar e trazem de tudo, haverá abundância... o que é
preciso agora é comer e cara alegre.”
Ia e vinha, enfatuado, em redor da mesa, apresentou-nos a filha, uma
moreninha meiga e um pouco triste, e o filho, um rapaz baixo, de ombros largos, um
tanto encurvado, de tal modo que quase se pensava que fosse corcunda, mas não
era, muito moreno, com grossas lentes de míope; era doutor, pelo menos assim o
disse o pai:
“Apresento-lhes o meu filho Michele... é doutor.”
Depois apresentou-nos também a mulher, com cara espantada, muito branca,
olhos pisados e encovados e seios enormes: sorria de asma e também, segundo
penso, de medo; parecia de fato doente.
Filippo, como disse, assim que soube que eu tinha uma loja em Roma,
tornou-se cordial, ou, melhor, fraternal, e, depois de me perguntar se eu tinha
dinheiro e de saber que sim, confessou-me que também trazia uma grande soma no
bolso das calças, que lhe chegaria para viver mesmo que os Ingleses demorassem
um ano a chegar. Falava-me num tom confidencial, de igual para igual, ou, antes, de
negociante para negociante, e senti-me de novo animada. Não sabia ainda, e ele
também não, que toda aquela importante soma, se a guerra durasse, a pouco e
pouco iria perdendo o seu valor, e por fim o dinheiro que poderia manter uma família
durante um ano não chegaria sequer para um mês.
Filippo disse ainda:
“Nós ficamos cá em cima até chegarem os Ingleses; comemos e bebemos e
nada de preocupações... Quando os Ingleses vierem, trazem vinho, azeite, farinha,
feijão, volta a abundância, e nós, os comerciantes, abrimos imediatamente as lojas,
como se nada tivesse acontecido.”
Objetei, só para dizer alguma coisa, que podia dar-se o caso de os Ingleses
não virem e de os Alemães vencerem a guerra. E ele:
“Que nos importa isso a nós? Alemães ou Ingleses é a mesma coisa,
contanto que vença um... a nós importa-nos somente o negócio.”
Disse isto em voz alta, com grande segurança; então, o filho, que estava
sozinho à beira do socalco, contemplando o panorama de Fondi, voltou-se como
uma víbora e afirmou:
“Para ti talvez isso não tenha importância... mas eu, se os Alemães ganharem
a guerra, suicido-me.”
Disse isto num tom tão sério e convicto que me admirei e perguntei:
“Mas que mal te fizeram os Alemães?”
Ele olhou-me de esguelha e depois:
“A mim, pessoalmente, nenhum mal... mas ouve, se alguém te dissesse: olha,
ponho em tua casa esta serpente venenosa, trata-a bem, que dirias?”
Fiquei pasmada e respondi:
“Bem, eu não queria uma serpente em minha casa.”
“E porquê, se essa serpente não te tinha feito mal nenhum?”
“Sim, mas sabe-se que as serpentes venenosas, mais cedo ou mais tarde,
acabam por morder.”
“Pois é isso mesmo, embora os Alemães não me tenham feito nenhum mal
pessoalmente, sei que os Alemães, ou, melhor, os nazis, mais cedo ou mais tarde
acabam por morder como as serpentes.”
Naquele momento, Filippo, que estivera a ouvir-nos com impaciência, pôs-se
a gritar:
“Para a mesa, para a mesa... nada de alemães nem de ingleses... para a
mesa, já cá estão as sopas!”
E o filho, pensando talvez que, afinal, eu não passava duma pobre
camponesa e não valia a pena gastar palavras comigo, dirigiu-se para a mesa, como
os outros. Que almoço aquele! Lembrar-me-ei sempre dele enquanto viver, pela
estranheza do lugar e pela abundância. A estranheza do lugar: uma mesa comprida
e estreita, numa faixa de terreno comprida e estreita; por baixo de nós, a escadaria
gigantesca dos socalcos, descendo até o vale de Fondi; em volta, a montanha e por
cima, o céu azul, iluminado pelo sol dum setembro doce e quente. E, sobre a mesa,
a abundância: pratos de salame e presunto, queijos da serra, pão feito em casa,
quente, a estalar, legumes em conserva, ovos cozidos, manteiga e sopa de massa
com feijão nuns pratos enormes, cheios até acima, que a filha, a mãe e a mulher de
Filippo traziam, uma atrás da outra, da cabana onde cozinhavam. Havia também
vinho engarrafado e até uma garrafa de conhaque. Enfim, ninguém imaginaria ali
que lá em baixo, no vale, havia carestia, que um ovo custava oito liras e em Roma
se morria de fome.
Filippo andava em volta da mesa esfregando as mãos, o rosto a luzir de
satisfação. Repetia:
“Vamos comendo e bebendo... quando chegarem os Ingleses, chega a
abundância.”
Onde foi ele buscar essa idéia de que os Ingleses trariam a abundância, não
o sei dizer. Mas lá em cima todos acreditavam nela e a repetiam constantemente
uns aos outros. Creio que essa convicção a tinham colhido através da rádio, onde,
como me disseram, um inglês que falava italiano tal qual como um italiano fazia
propaganda, repetindo, todos os dias, que, mal os Ingleses chegassem, nadaríamos
em prosperidade e bem-estar.
Uma vez servida a sopa, sentamo-nos à mesa. Quantos éramos? Estava
Filippo com a mulher e os dois filhos; Paride e a sua mulher, Luísa, loura, pequena,
de cabelos encaracolados e olhos azuis de expressão taciturna, e o filho de ambos,
Donato; estava Tommasino com a mulher, alta, magra, de bigode, carrancuda, e a
filha, que também tinha um rosto cavalar como a mãe, mas meiga, de olhos negros
e bondosos; estavam quatro ou cinco homens mal vestidos e de barba comprida,
gente de Fondi refugiada na serra, que andavam sempre em volta de Filippo como
se o reconhecessem por chefe. Tinham sido todos convidados por Filippo para
festejar o aniversário do seu casamento. Mas isso soube-o mais tarde: naquele
momento tive a impressão de que Filippo dispunha de tantas provisões que podia
deitá-las pela janela fora, convidando todos os dias para a sua mesa os habitantes
do lugarejo.
Comemos, sem exagero, pelo menos durante três horas. Primeiro foi a sopa
de massa com feijão; a massa era leve, feita com ovos, amarela como ouro, e o
feijão da melhor qualidade, branco, tenro, grande, desfazendo-se na boca como
manteiga. Todos comeram dois e até três pratos de sopa, cheios até as bordas, tão
boa ela estava. A seguir foi a vez do antepasto: presunto da serra, um pouco
salgado, mas estimulante, salame feito em casa, ovos cozidos, legumes em
conserva. Depois as mulheres precipitaram-se para a cabana, ali a dois passos, e
voltaram com travessas cheias de grandes bocados de carne assada, cortados ao
acaso, vitela de primeira qualidade, tenra e clara; tinham abatido um bezerro no dia
anterior e Filippo comprara alguns quilos. A seguir à vitela foi a vez do cabrito
picadinho, tenro e delicado, com molho branco, ácido e doce, muito bom; em
seguida comemos queijo de ovelha, duro como pedra, picante, feito de propósito
para puxar bastante vinho, e ainda fruta: laranjas, figos, uvas, frutos secos. Houve
também doces, sim senhor, feitos no forno, de massa folhada, polvilhados com
açúcar e baunilha, e, por fim, com o conhaque, comemos alguns biscoitos duma
grande caixa que a filha de Filippo foi buscar à casinha onde moravam. Quanto
bebemos? Pelo menos um litro por cabeça, mas houve quem bebesse mais de um
litro e outros menos de um quarto, como, por exemplo, Rosetta, que nunca bebia.
A alegria daquela mesa não se pode descrever: todos comiam e bebiam e
não faziam senão falar em comidas e bebidas, tanto do que estavam a comer e a
beber como do que tinham comido e bebido em tempos. Para esta gente de Fondi, e
o mesmo sucede na minha aldeia, comer e beber é tão importante como em Roma
ter automóvel e um apartamento em Parioli; para eles, quem come e bebe pouco é
considerado um pobretão; por isso, quem se quer dar ares de senhor procura comer
e beber o mais possível, sabendo que é a única maneira de ser admirado e
considerado. Eu estava sentada ao lado da mulher de Filippo, aquela senhora muito
branca, de peito enorme, que parecia doente. Ela não estava nada alegre, coitada, e
via-se que não se sentia bem; todavia gabava-se da comida que tinham sempre em
casa:
“Nunca menos de quarenta ovos, seis presuntos e outros tantos salames e
queijos... nunca menos de uma dúzia de cabeças de porco. Toucinho, comíamos
tanto que um dia dei um arroto e um bocado que já me descera para o estômago
tornou a subir e saiu-me pela boca fora, como uma segunda língua, mas esta muito
branca.”
Repito isto porque ela o disse assim, simplesmente, para me impressionar.
Em suma, gente do campo, que não sabe ainda que os senhores da cidade comem
pouco, ou, melhor, pouquíssimo, em especial as mulheres, e gastam toda a sua
riqueza na casa, nas jóias e nos vestidos. Aqui, ao contrário, andam vestidas como
mendigas, mas têm tanto orgulho nos seus ovos e no seu toucinho como as damas
de Roma nos seus vestidos de noite.
Filippo bebia mais do que todos os outros, não só porque, como nos anunciou
a certa, altura, era o dia do aniversário do seu casamento, mas também por ter esse
viciozinho; várias vezes o vi, mais tarde, de olhos brilhantes e nariz vermelho, a
todas as horas do dia, mesmo às nove da manhã. Assim, talvez porque estivesse
bêbedo, a meio do jantar pôs-se a fazer confidências:
“Eu digo-lhes isto”, começou de súbito, com o copo na mão, “a guerra é ruim
somente para os parvos... para os outros, não. Sabem o que eu gostava de escrever
na minha loja, por cima da caixa? 'Aqui não há papalvos.' É o que dizem em
Nápoles, mas nós também o dizemos, e é a pura verdade. Não sou papalvo e nunca
o serei; porque neste mundo só há duas categorias de pessoas: os parvos e os
espertos; e ninguém que eu saiba quer pertencer à primeira. O importante é saber
certas coisas e ter os olhos bem abertos. Os parvos são os que acreditam nas
mentirolas dos jornais e pagam as contribuições e vão para a guerra e talvez lá
deixem a pele. Os espertos, ah, ah, os espertos são o contrário, eis tudo. E, nos
tempos que correm, quem é parvo perde-se e quem é esperto salva-se; os parvos
não podem deixar de ser parvos como antes, mas quem é esperto tem de tornar-se
espertíssimo. Ah! Sabem o provérbio: é melhor um burro vivo do que um doutor
morto. Ou este outro: é melhor um pássaro na mão do que dois a voar. Ou ainda
este: prometer e manter é próprio do homem mesquinho. Digo mais: daqui para o
futuro, já não há lugar no mundo para os parvos, ninguém pode dar-se ao luxo de
ser parvo, nem um só dia; doravante é preciso ser-se esperto, muito esperto, porque
vivemos tempos perigosíssimos e, se damos um dedo, tomam-nos logo a mão;
vejam o que sucedeu a esse pobre Mussolini, que julgava ir fazer uma guerrazinha à
França e ficou contra o mundo inteiro e agora tem de fazer figura de parvo à força,
ele que quis sempre armar em esperto... Escutem bem, os governos vão e vêm e
fazem as guerras com a pele da gente pobre e depois fazem a paz e tudo o que lhes
apetece, mas para nós a única coisa que conta e nunca muda é o comércio. Que
venham os Alemães, que venham os Ingleses, que venham os Russos, o importante
para nós, negociantes, é sobretudo e sempre o negócio; se o negócio corre bem,
tudo corre bem.”
Este discursinho custou-lhe sem dúvida um esforço extraordinário, porque no
fim já suava na testa e nas fontes e, depois de esvaziar o copo dum só trago, limpou
a cara com o lenço. Os refugiados, que, como disse, formavam o seu bando
aplaudiram-no calorosamente, tanto mais que estavam a comer à sua custa e
queriam agradecer-lhe; de resto, não passavam duns esfomeados e aduladores.
“Viva Filippo e viva o comércio!” gritou um.
Outro observou a rir:
“Tu podes bem dizer que o negócio não muda, pois, apesar de muitas coisas
terem acontecido, continuas a fazer bons negócios...”
Um terceiro, um pouco hesitante, mas sabichão, opôs:
“Que venham os Alemães ou os Ingleses, de acordo; mas não digas que
venham os Russos, Filippo.”
“E porquê?” perguntou ele, que tinha bebido já tanto vinho que naturalmente
nem entendia o que lhe diziam.
“Porque os Russos não te deixariam negociar, Filippo... não sabes? Os
Russos são sobretudo contra os negociantes.”
“Chavelhudos!”, exclamou Filippo, baixo e sentenciosamente, deitando mais
vinho no copo e observando-o amorosamente enquanto o via subir. Por fim, um
quarto gritou:
“Filippo, tens razão, aqui ninguém é parvo; disseste a pura verdade.”
Nesta altura, enquanto todos riam com frase tão sincera, eis que, de repente,
o filho de Filippo se levanta e diz com expressão sombria:
“Aqui ninguém é parvo, exceto eu, que sou um imbecil.”
Houve um silêncio depois desta intervenção inesperada e todos olhamos uns
para os outros, espantados. O filho de Filippo continuou, passado um momento:
“E, como os parvos não estão bem na companhia dos espertos,
desculpem-me, mas vou dar uma volta.”
Dito isto, enquanto alguns se apressavam a gritar-lhe:
“Eh! vamos, porque te ofendeste? Ninguém te chamou parvo...”, ele afastou a
cadeira e caminhou lentamente ao longo do socalco.
Todos se voltaram para o ver distanciar-se; mas Filippo estava demasiado
bêbedo para levar aquilo a mal. Ergueu o copo na direção do filho e disse:
“À tua saúde... um parvo, ao menos, em cada família é preciso, não estraga.”
Todos riram ao ver o pai, que se julgava esperto, beber à saúde do filho, que
se proclamava parvo, e riram ainda mais quando Filippo, levantando a voz, gritou:
“Tu podes fazer de parvo porque em casa cá estou eu para ser esperto.”
Alguém observou:
“E é bem verdade: Filippo trabalha e arranja os cobres, e entretanto o filho
passa o tempo a ler livros e a dar-se ares.”
Mas Filippo, que, no fundo, parecia ter orgulho que o filho fosse diferente dele
e tão instruído, acrescentou, passado um momento, tirando a ponta do nariz de
dentro do copo:
“Entendamo-nos: o meu filho, verdadeiramente, é um idealista... mas, nestes
tempos, o que é um idealista? Um parvo. Talvez não por culpa dele, talvez por culpa
das circunstâncias, mas mesmo assim um parvo.”
Entretanto caía a tarde, o sol escondera-se por trás das montanhas e, por fim,
uns de um lado, outros do outro, todos se levantaram da mesa. Os homens foram
jogar as cartas em casa de Filippo, os camponeses voltaram para o trabalho e nós,
as mulheres, começamos a levantar a mesa. Lavamos a louça numa celha cheia de
água, ao pé do poço, e depois fizemos uma pilha de pratos, que eu levei para os
aposentos que Filippo e a família ocupavam na casinha do meio. Era uma casa de
dois pisos; para o segundo piso subia-se por uma escada exterior. Fiquei
surpreendida quando entrei: Filippo e os amigos estavam sentados no chão, no meio
da sala, de chapéu na cabeça e cartas na mão: jogavam o scopone. Em toda a volta
não havia móveis, mas sim colchões enrolados e arrumados aos cantos e muitos
sacos. Não sei quantos seriam, mas devo reconhecer que, pelo menos em relação
às provisões, Filippo aplicara as suas idéias e procedera como esperto, e não como
parvo. Havia ali sacos de farinha de trigo, empoeirados de branco, sacos de farinha
de milho, estes empoeirados de amarelo, uns sacos menores que deviam conter
feijão, grão-de-bico, lentilhas, ervilhas. Havia também várias caixas, sobretudo com
conserva de tomate; na janela estavam dependurados dois presuntos e em cima dos
sacos viam-se alguns queijos. Vi também numerosos boiões com banha e tapados
com papel, garrafões de azeite, dois garrafões de vinho e, pendentes do teto, muitas
salsichas caseiras. Em resumo, havia ali dentro o essencial para fazer comida,
porque, quando há farinha, gordura e tomate, por muito mal que corram as coisas,
pode-se arranjar sempre um prato de massa.
Como disse, Filippo e os amigos jogavam o scopone no meio da sala; a
mulher e a filha, uma ao pé da outra, estavam em cima dum colchão, recostadas,
meio despidas, tontas com o calor e a digestão. Filippo, assim que me viu entrar,
disse, sem levantar os olhos das cartas:
“Vês, Cesira, estamos bem instalados cá em cima... vai pedir a Paride que te
mostre o teu quartinho... verás que ficas lá como uma abadessa.”
Não respondi, pousei os pratos no chão e saí em busca de Paride para
resolver o problema do alojamento. Encontrei-o a partir lenha junto da cabana e
disse-lhe que desejava ver o quarto que me prometera. Ele apoiando num cepo de
madeira o pé calçado com um tamanco e tendo na mão o machado, ouvia-me por
baixo da aba do chapéu preto. Depois pronunciou:
“Bem, Tommasino fala como se fosse o dono, mas o verdadeiro dono aqui
sou eu... primeiro disse-te que sim, mas agora, pensando bem, tenho receio de não
poder dispensar-te aquele quarto... a Luísa trabalha lá todo o dia no tear... o que vão
fazer vocês durante esse tempo?... Naturalmente não podem andar pelos campos.”
Compreendi que ele não se fiava muito em nós, como autêntico camponês;
então tirei da bolsa uma nota de 500 liras e entreguei-lha, dizendo:
“Tens medo que não te pague?... Estão aqui 500 liras, dou-tas já por conta;
quando me for embora, pagarei o resto.”
Ele calou-se e agarrou no dinheiro; mas agarrou-o duma maneira especial,
que vou descrever, porque tem importância para se compreender a mentalidade dos
camponeses da montanha. Pegou na nota, aproximou-a do ventre com as duas
mãos e ficou a olhá-la com uma admiração profunda e embaraçada, como se fosse
um objeto estranho, voltando-a de um lado e outro. Mais tarde vi-lhe fazer os
mesmos gestos sempre que lhe chegava dinheiro às mãos e compreendi porquê.
Eles quase nunca vêem dinheiro, pois fazem em casa tudo o que precisam, mesmo
o vestuário, e o pouco dinheiro de que dispõem obtêm-no com a venda dos molhos
de lenha que levam ao vale, à cidade, durante o Inverno; assim, o dinheiro para eles
é uma coisa rara e preciosa, mais que dinheiro, quase um deus. Na realidade, estes
camponeses da montanha, junto dos quais passei tanto tempo, não são religiosos
nem sequer supersticiosos e para eles a coisa mais importante do mundo é o
dinheiro: um pouco porque nunca o têm e nunca o vêem, e um pouco também
porque com o dinheiro, pelo menos assim julgam, se obtém tudo quanto é bom. É o
que pensam e eu, como comerciante, não posso deixar de lhes dar razão.
Por fim, depois de ter contemplado bem a minha nota, declarou:
“Se não te importas com o barulho do tear, podes ficar no quartinho.”
Segui-o até à casa dele, que ficava à esquerda do lugarejo, encostada, como
todas as outras, ao muro de suporte do socalco. Ao lado da casita de dois pisos
havia uma pequena construção, apoiada à parede rochosa, com o telhado de telhas,
uma portinha e uma janela sem vidros. Entramos e vi que, como ele me avisara,
metade do quarto estava ocupada pelo tear, um tear antigo, todo de madeira. Na
outra metade, uma espécie de tarimba, quero dizer, dois cavaletes de ferro
sustentando algumas tábuas postas ao comprido e em cima um saco de tecido
grosseiro cheio de palha de milho. Lá dentro, a custo se podia andar direito sob o
teto inclinado: a parede do fundo era a rocha nua e as outras tinham várias teias de
aranha e manchas de umidade. Baixei os olhos para o chão. Não havia tijolos nem
pedras, só terra, tal qual como um estábulo. Paride disse, coçando a cabeça:
“É este o quarto... vê se podes instalar-te.”
Rosetta, que nos seguia, perguntou em tom de espanto:
“Mamã, vamos dormir aqui?”
Mas eu mandei-a calar, respondendo:
“Em tempo de guerra não se limpam armas.”
Depois, voltando-me para Paride:
“Não tenho lençóis, dás-mos?”
Começamos a discutir, ele não queria dar os lençóis, que pertenciam ao
enxoval da mulher, mas por fim combinamos que lhe pagaria um tanto pelo aluguer
dos lençóis. Não tinha cobertores, mas prometeu-me, em vez dum cobertor, o seu
capote preto, pagando eu o aluguel, claro. E foi assim para tudo o mais: a bacia de
cobre da água para nos lavarmos, as toalhas de mãos, as louças, até uma cadeira
em que pudéssemos sentar-nos, uma de cada vez, tudo foi arrancado com unhas e
dentes e tudo foi obtido somente depois de lhe prometer o pagamento do aluguel de
cada objeto. Por fim perguntei lhe onde podíamos cozinhar e respondeu-me que na
cabana, onde eles também cozinhavam.
Disse-lhe então:
“Bem, vamos lá ver essa cabana, para fazer uma idéia.”
A idéia fui-a fazendo logo, enquanto seguia a caminho da cabana, situada um
pouco mais abaixo, no socalco imediato. Era uma cabana com chão de pedra solta e
telhado de palha em forma de barco virado ao contrário, de quilha para cima. Eu
conhecia estas cabanas; na minha aldeia metem-se nelas as alfaias e os animais;
podem construir-se num só dia se se trabalhar com vontade. Primeiro faz-se a
parede, colocando-se as pedras umas sobre as outras, ajustando-as bem, sem cal.
Depois erguem-se nas duas extremidades do recinto, que tem forma oval, dois
ramos bifurcados. Sobre eles coloca-se horizontalmente um pau comprido. Por fim,
em camadas sobrepostas, poe-se palha dos dois lados, em feixes unidos por vimes,
até se obter uma espessura suficiente. Nada de janelas, e a porta é constituída por
duas pedras direitas, os umbrais, e uma horizontal, a arquitrave, e é sempre
bastante baixa, o que obriga as pessoas a dobrarem a espinha para a transpor. A
cabana de Paride era semelhante em tudo às da minha aldeia. Perto da porta, e
pendurado num prego, estava um balde cheio de água com uma cucharra. Antes de
entrar, Paride pegou na cucharra, bebeu e depois deu-ma para eu beber também.
Entramos. Durante um momento foi como se estivesse cega, porque não
havia janelas e Paride fechara a única porta atrás de si. Depois ele acendeu uma
lamparina de azeite e então, a pouco e pouco, comecei a ver. O chão parecia de
terra batida, no meio havia uma fogueira moribunda e um tripé de ferro sobre o qual
estava pousada uma panela toda negra. Levantei os olhos: em cima, no escuro,
pendiam fieiras de salsichas e chouriços de sangue postos ali a curar e também
numerosos penduricalhos de fuligem, negros e leves, que faziam lembrar as
decorações duma árvore de Natal, mas uma árvore de Natal ornamentada de luto.
Em volta do fogo havia alguns cepos dispostos em círculo e, sentada num deles,
admirei-me de ver uma velha muito velha, de rosto parecido com a lua minguante,
só nariz e queixo, a fiar no seu fuso, completamente às escuras. Era a mãe de
Paride e acolheu-me com estas palavras:
“Muito bem, senta-te, disseram-me que és uma senhora de Roma... isto não é
um salão de Roma, mas uma cabana... tens de contentar-te, por agora... vem cá,
senta-te aqui...”
Eu, para dizer a verdade, não tinha vontade nenhuma de me sentar num
daqueles cepos estreitos e pouco faltou para perguntar onde estavam as cadeiras;
mas contive-me a tempo. Mais tarde descobri que nunca há cadeiras nas cabanas;
tem-nas em casa, consideram-nas um luxo que só se usa nas festas e nos
acontecimentos solenes, como casamentos, funerais ou outros semelhantes; para
não se estragarem, penduram-nas no teto, viradas ao contrário, como se fossem
presuntos. Um dia em que entrei na casa de Paride bati com a cabeça numa cadeira
e pensei cá com os meus botões que me encontrava numa terra deveras atrasada.
A cabana estava agora toda iluminada e eu podia ver que era mesmo um
lugar próprio para animais: fria e escura, com o chão lamacento e as pedras da
parede e a palha do teto completamente negras e pegajosas da fuligem. O ar estava
saturado do fumo daquele lume moribundo, naturalmente porque a lenha era verde;
e o fumo, à falta de janelas, acumulava-se lá dentro, só saindo a muito custo pelas
frinchas do teto; passado pouco tempo, Rosetta e eu começamos a tossir e a
lacrimejar. Nessa altura descobri, deitados e quase escondidos na ampla saia da
velha, um feio cão mestiço e um velho gato já sem pêlo, os quais, até parece
impossível, também choravam, coitadinhos, como se fossem cristãos, por causa
daquele fumo tão acre e pungente: mas choravam sem se mexer, de olhos abertos,
sinal de que estavam habituados.
Eu não gosto nada de porcaria e a minha casa em Roma, embora modesta,
quanto a limpeza era um verdadeiro espelho. Por isso, vendo aquela cabana, o
coração constrangeu-se-me ao pensar que, dali em diante, Rosetta e eu tínhamos
de cozinhar, comer e viver ali dentro, como duas cabras ou duas ovelhas. Disse,
como se pensasse em voz alta:
“Ainda é uma sorte ser por poucos dias, só enquanto não chegam os
Ingleses...”
E Paride:
“Porquê, a cabana não te agrada?”
Respondi:
“Na minha aldeia metem-se os animais nestas cabanas.”
Paride era um tipo curioso, como descobri em seguida, insensível e sem
amor-próprio, por assim dizer. Retorquiu, esboçando um sorriso estranho:
“E aqui vivem os cristãos.”
A velha disse, na sua voz estridula de cigarra:
“Não te agrada a cabana, hem... Mas sempre é melhor do que estar no meio
dum prado. Sabes lá quantos desses pobres soldados que estão na Rússia, maridos
das mulheres daqui, não se importariam de voltar para viver toda a vida numa
cabana como esta... Mas não voltam, matam-nos a todos, e nem lhes dão sepultura
de cristãos, porque na Rússia já não conhecem Cristo nem a Virgem.”
Fiquei surpreendida com previsões tão sombrias; Paride esboçou um sorriso
e disse:
“A minha mãe vê tudo pelo pior porque é velha, está aqui sozinha todo o dia e
ainda por cima é surda.”
Depois, levantando a voz:
“Mas quem te disse que não voltam? Voltam, com certeza, agora é uma
questão de dias.”
A velha resmungou:
“Não só eles não voltam, mas também nos matam a nós, com os aviões.”
De novo Paride sorriu, como se o caso fosse para rir; mas eu, assustada com
tanto pessimismo, disse à pressa:
“Bem, havemos de nos tornar a ver... adeus.”
E ela, com a sua voz de mau agouro:
“Tornaremos a ver-nos, não tenhas medo, pois não voltas para Roma tão
depressa e talvez mesmo nunca mais lá tornes...”
Com este remate, Paride riu então a valer, mas eu pensei que aquilo não
tinha graça nenhuma e mentalmente fui fazendo esconjuros contra o mau-olhado.
Aquela tarde passei-a a limpar o casebre onde estava a nossa cama e onde
não imaginava que tivéssemos de viver muito tempo. Varri o chão, raspando da terra
nua a porcaria acumulada durante anos e anos, dei a Paride, para os pôr noutro
sítio, não sei quantos sachos e enxadas amontoados nos cantos, tirei as teias de
aranha das paredes. A seguir, arrumei a cama a um canto, contra a parede de
rocha, ajustei as tábuas nos cavaletes, dei uma sacudidela ao saco de palha de
milho, pus os lençóis, muito lindos, de linho forte tecido à mão, brancos da barrela,
em cima dos quais estendi como cobertor o capote preto.
A mulher de Paride, Luísa, aquela loura que já descrevi, de rosto fechado,
olhos azuis e cabelos ondulados, sentara-se ao fundo, em frente do tear, e
manobrava-o para cima e para baixo, com braços fortes e musculosos, sem parar,
fazendo um barulho incrível que me obrigou a dizer-lhe:
“Mas o quê, estarás sempre aqui dentro a fazer esse banzé?”
Ela respondeu, rindo:
“Sei lá quanto tempo aqui estarei... tenho de tecer pano para fazer calças a
Paride e aos rapazes.”
Exclamei:
“Pobres de nós, vamos ficar surdas.”
E ela:
“Eu ainda não estou surda... verás que te habituas.”
Enfim, esteve ali cerca de duas horas, sempre a manobrar o tear, para cima e
para baixo, com aquele barulho seco e sonoro de madeira a bater uma na outra; nós
as duas, depois de arrumarmos tudo, sentamo-nos. Rosetta na cadeira que eu
alugara a Paride e eu sobre a cama, e assim ficamos, a ver Luísa tecer, como duas
palermas, de boca aberta, sem fazer nada.
Luísa não era faladora, mas respondeu de boa vontade às nossas perguntas.
Assim, soubemos que de tantos homens que havia na aldeia antes da guerra, Paride
foi o único que ficou, por ter dois dedos a menos na mão direita. Os outros andavam
longe, quase todos na Rússia.
“A não ser eu”, disse Luísa com um sorriso ambíguo, num tom quase de
regozijo, “todas as mulheres daqui é como se fossem já viúvas.”
Admirei-me e, supondo que Luísa fosse tão pessimista como a sogra, opus:
“Mas porque hão-de morrer todos? Estou certa de que alguns voltam.”
Luísa abanou a cabeça, sorrindo:
“Não me compreendeste. Se não acredito que voltem, não é porque os
matem a todos, mas sim porque às mulheres russas agradam os nossos homens. O
estrangeiro agrada sempre, já se sabe... Quando a guerra acabar, essas mulheres
são capazes de os convencer a ficar por lá, e então ninguém mais os vê.”
Em suma, ela encarava a guerra como uma questão entre fêmeas e machos;
e via-se que estava muito satisfeita por conservar o seu macho graças àqueles dois
dedos a menos, enquanto as outras, por causa das fêmeas russas, os perdiam.
Falamos também dos Festas e disse-me que Filippo conseguira que o filho não
fosse para a guerra à custa de recomendações e favores: mas os camponeses,
como não têm dinheiro nem conhecimentos, tiveram de marchar e talvez deixassem
lá a pele. Recordei então as palavras de Filippo sobre as duas categorias em que se
dividia o mundo, parvos e espertos, e compreendi que também neste caso se
comportara como esperto.
Quando Deus quis, veio a noite e Luísa parou com aquele barulho do tear e
foi preparar a ceia. Nós as duas estávamos tão cansadas que ficamos no mesmo
sítio durante uma hora, sem nos movermos, sem falarmos, eu sentada na cama e
Rosetta na cadeira, junto da cabeceira. A candeia de azeite dava uma luz fraca e
com essa luz o quartinho parecia mesmo uma espelunca: eu olhava para Rosetta.
Rosetta olhava para mim, e os nossos olhares exprimiam sempre coisas diferentes e
não falávamos porque nos compreendíamos muitíssimo bem só com o olhar e
sabíamos que as palavras eram supérfluas e nada podiam acrescentar ao que os
nossos olhos diziam. Os de Rosetta significavam:
“Mamã, o que vamos fazer?... Tenho medo... Onde viemos nós parar?...”, e
assim por diante. Os meus respondiam:
“Filha da minha alma, está tranqüila, tens-me aqui ao teu lado, não tenhas
medo...”, e outras coisas parecidas.
Assim, em silêncio, trocamos muitas e muitas reflexões; por fim, a concluir
esta desesperada conversa, Rosetta encostou a cadeira à cama e pôs a cabeça no
meu regaço, abraçando-me os joelhos; eu, sempre em silêncio, comecei a
acariciar-lhe os cabelos devagarzinho. Ficamos assim talvez meia hora; depois a
porta abriu-se, alguém a empurrava, e logo, muito em baixo, apareceu a cabeça
dum rapazinho, era Donato, o filho de Paride:
“O pai manda perguntar se querem comer conosco.”
Não tínhamos muita fome depois de toda aquela comezaina do almoço, à
mesa de Filippo; mas aceitei o convite porque me sentia de fato cansada e
deprimida e não me agradava nada a idéia de passar o serão sozinha com Rosetta,
naquele casebre tão triste.
Seguimos portanto Donato, que nos precedia quase a correr, como se visse
no escuro, tal qual os gatos, e chegamos à cabana situada no socalco mais abaixo.
Encontramos Paride rodeado de quatro mulheres: a mãe, a mulher, a irmã e a
cunhada. Estas últimas tinham cada uma três filhos, mas os maridos estavam
ausentes, eram soldados e tinham-nos mandado para a Rússia. A irmã de Paride
chamava-se Giacinta; era também morena e tinha uns olhos desvairados, de brilho
intenso, e rosto largo, de expressão dura: parecia possessa e só falava com
aspereza, sempre para repreender os três filhos, que lhe agarravam às saias, como
cãezinhos em roda duma cadela, e não faziam senão choramingar; algumas vezes
nem lhes falava, limitava-se a bater-lhes em silêncio, duramente, de punho fechado,
na cabeça. A cunhada chamava-se Anita e era mulher dum irmão de Paride que, em
tempo de paz, morava para os lados de Cisterna; era morena e pálida, magra, de
nariz aquilino, olhos serenos, expressão calma e meditativa. Ao contrário de
Giacinta, que quase metia medo, Anita dava uma impressão de tranqüilidade e
doçura. Também tinha os filhos em sua volta, não agarrados às saias, mas sentados
nos bancos, com muito propósito e educação, esperando em silêncio e sem
impaciência que lhes dessem de comer.
Quando entramos, Paride disse-nos, com aquele seu sorriso estranho, meio
embaraçado e meio sonsa:
“Pensamos que estavam sozinhas e talvez quisessem jantar conosco...”
Acrescentou, passado um momento:
“Enquanto não chegarem as vossas provisões, podem comer na nossa
companhia: depois faremos contas.”
Em suma, dava-nos a entender que não era de graça, mas eu fiquei-lhe
igualmente agradecida, pois sabia que eram pobres e havia carestia. Já
representava muito que quisessem dar-nos de comer a troco de dinheiro, pois, em
tempos de escassez, quem tem algumas provisões guarda-as para si e não as
reparte com outros por dinheiro nenhum.
Enfim, lá nos acomodamos e Paride acendeu um candeeiro de acetilene; uma
linda luz branca iluminou-nos a todos, sentados nos bancos e nos cepos em volta do
tripé, em cima do qual fervia uma pequena panela. Éramos só mulheres e crianças à
exceção de Paride, o único homem. Anita, a cunhada, não sem melancolia, pois,
como já disse, tinha o marido na Rússia, brincou, a propósito:
“Deves estar contente, Paride, rodeado de tantas mulheres: és um felizardo.”
Paride respondeu com um melo sorriso:
“Fortuna que dura pouco.”
Mas a velha mãe, sempre pessimista, imediatamente o rebateu:
“Pouco? Nós ainda acabamos primeiro do que a guerra.”
Entretanto Luísa pôs em cima da mesa bamboleante uma terrina de barro;
depois pegou num pão e, encostando-o ao peito, rapidamente, com uma faca afiada,
começou a cortar fatias delgadas até a terrina ficar completamente cheia. Então,
tirou do fogo a panela e deitou o conteúdo por cima das fatias sobrepostas: era a
sopa que costumávamos comer em casa de Concetta, isto é, uma papa de pão com
caldo de feijões.
Enquanto esperávamos que o pão aboborasse bem, Luísa pôs no chão, no
meio da cabana, um grande alguidar e nele deitou a água duma caldeira que estava
a aquecer no borralho, junto do tripé. Então, todos começaram a tirar os tamancos,
sem pressas e com certa gravidade, como se executassem um rito, que se repetia
todas as noites e sempre da mesma forma. Eu, ao princípio, não compreendi, mas
depois, quando vi Paride, que foi o primeiro a meter o pé nu, todo negro de terra
entre os dedos e em volta do calcanhar, na água do alguidar, percebi: nós, na
cidade, antes de comer lavamos as mãos; eles, coitados, como andam o dia inteiro
na lama dos campos, lavam os pés. Mas, como todos se lavam no mesmo alguidar,
sem mudar a água, pode imaginar-se como ficou aquela água, depois de
mergulharem nela tantos pés, incluindo os das crianças: da cor do chocolate. Só nós
as duas não nos lavamos e um dos meninos perguntou ingenuamente:
“Porque não se lavam?”
Ao que a velha, que também não se lavara, respondeu, taciturna:
“São senhoras de Roma. Não trabalham a terra como nós.”
Entretanto a sopa já estava pronta; Luisa levou dali o alguidar cheio de água
suja e pôs no meio a mesa com a terrina. Começamos a comer todos juntos, cada
qual metendo a sua colher na sopa. Creio que Rosetta e eu não comemos mais do
que duas ou três colheradas cada uma; mas os outros deram-lhe com tanta gana,
especialmente as crianças, que daí a pouco a terrina estava vazia e compreendi,
pelas caras um pouco desiludidas e ainda ávidas, que muitos tinham ficado com
fome.
Paride distribuiu a seguir uma mancheia de figos secos a cada um: em
seguida tirou dum buraco da parede da cabana uma garrafa de vinho e serviu todos,
até as crianças, sempre pelo mesmo copo, Um após outro, íamos bebendo e de
cada vez Paride limpava o rebordo do copo à manga, enchia-o de vinho com
cuidado e oferecia-o, pronunciando em voz baixa o nome da pessoa a quem se
destinava: parecia que estávamos na igreja. O vinho era áspero, quase vinagre,
vinho da serra, claro, mas vinho de uvas, lá disso podíamos ter a certeza. Terminada
a refeição, que decorreu em silêncio, as mulheres retomaram a roca e o fuso e
Paride, à luz do acetilene, começou a rever o exercício de aritmética do filho Donato.
Paride era analfabeto, mas sabia um pouco de contas e queria que o filho as
aprendesse também. Parece-me, porém, que Donato, um garoto de cabeça grande
e cara simples e sem expressão, era bastante estúpido, porque depois de várias
vezes ter tentado em vão ensinar-lhe não sei que problema, Paride zangou-se e
deu-lhe um forte murro na cabeça, dizendo:
“Parvalhão!”
O punho ressoou como se a cabeça fosse de madeira, mas o garoto não deu
mostras de contundido e começou, muito calado, a brincar no chão com o gato.
Perguntei então a Paride por que razão tomava tanto a peito que o filho aprendesse
aritmética, se, tal como ele, não sabia ler nem escrever. E compreendi que, em sua
opinião, os números eram importantes e as letras não, pois os números serviam ao
menos para se contar o dinheiro, enquanto as letras não serviam para nada.
Quis descrever este nosso primeiro serão com os Morrone (assim se
chamava a família, porque, uma vez descrito o primeiro, ficam descritos todos os
que se seguiram, rigorosamente iguais, e também porque naquele dia comi de
manhã com os refugiados e à noite com os camponeses, ficando assim em
condições de notar as diferenças entre ambos os grupos. Digo a verdade: os
refugiados eram mais ricos, pelo menos alguns; com eles comia-se melhor; sabiam
ler e escrever; não traziam tamancos nos pés e as mulheres andavam vestidas
como mulheres da cidade. No entanto, desde esse primeiro dia, e depois cada vez
mais, preferi sempre os camponeses aos refugiados. Esta preferência devia-se não
só ao fato de eu ter sido camponesa antes de ser comerciante, mas sobretudo à
estranha sensação que experimentava junto dos refugiados, em especial se os
comparava aos camponeses: era gente a quem a instrução só servira para os tornar
piores. Um pouco como acontece com certos rapazes turbulentos que, mal entram
na escola e aprendem a escrever, a primeira coisa que fazem é cobrir as paredes de
palavrões. Enfim, em minha opinião, não basta instruir, é preciso sobretudo ensinar
a fazer bom uso da instrução.
Quando todos cabeceavam com sono e algumas crianças tinham mesmo
adormecido, Paride levantou-se e anunciou que iam deitar-se. Saímos da cabana e
despedimo-nos, desejando uns aos outros boa noite; depois, Rosetta e eu ficamos
sozinhas, na beira do socalco, contemplando no escuro o ponto onde sabíamos que
ficava Fondi. Não se via nenhuma luz; tudo era negrume e silêncio; como únicas
coisas vivas, as estrelas a brilhar lá no alto, num céu completamente negro, como
outros tantos olhos de ouro que nos olhassem e soubessem tudo a nosso respeito,
enquanto nós não sabíamos nada delas. Rosetta disse-me baixinho:
“Que linda noite mama!”
Perguntei-lhe se estava contente por ter vindo para ali e ela respondeu que se
sentia sempre contente ao pé de mim. Estivemos ainda alguns momentos a
contemplar a noite, depois ela puxou-me pela manga e murmurou que queria rezar e
agradecer à Virgem por termos chegado lá acima sãs e salvas. Disse-o baixinho,
como se receasse ser ouvida, e eu admirei-me e perguntei:
“Aqui?”
Ela acenou que sim com a cabeça e depois deixou-se cair de joelhos na beira
do socalco, sobre a erva, obrigando-me a fazer o mesmo. Não me desagradou
aquela iniciativa; Rosetta, por assim dizer, interpretava o meu sentimento nessa
noite tão silenciosa e tranqüila, depois de tantos trabalhos e fadigas: um sentimento
de gratidão por alguém ou alguma coisa que nos auxiliara e protegera. Assim,
obedeci-lhe de boa vontade, juntei também as mãos e, movendo rapidamente os
lábios, recitei a oração que é costume recitar antes de ir para a cama. Há tempos já
que não rezava, não o fazia desde que me entregara a Giovanni, e se não rezara
mais desde esse dia é porque me considerava em pecado; mas, por outro lado, não
sei porque, não me sentia inclinada a reconhecê-lo. Assim, em primeiro lugar, pedi
perdão a Jesus pelo que tinha feito com Giovanni e prometi nunca mais o fazer. Em
seguida, talvez sugestionada por aquela noite tão vasta e tão negra, que encerrava
tantas vidas e tantas coisas sem se ver nada, rezei por todos, por mim e por
Rosetta, pela família de Festa e pela de Paride, e ainda pela gente que estava
espalhada pelas montanhas naquele instante, pelos Ingleses, que viriam
libertar-nos, e por nós, Italianos, que sofríamos, e ainda pelos Alemães e pelos
fascistas, que nos faziam sofrer, mas que também eram cristãos.
Confesso: à medida que, quase contra a minha vontade, a oração se
alongava, sentia-me comovida e tinha os olhos rasos de lágrimas, e, embora
pensasse que isso talvez fosse por efeito do cansaço, dizia de mim para mim que
era bom um tal sentimento e ainda bem que o experimentava. Rosetta rezava de
cabeça inclinada; depois, subitamente, apertou-me um braço e exclamou:
“Olha, olha.”
Olhei e vi, no fundo da noite, subir no espaço um risco luminoso, que, ao
atingir grande altura, se transformou numa flor verde e caiu em seguida, lentamente,
iluminando por instantes os montes em volta, os bosques e até, parece-me, as
casas de Fondi. Soube mais tarde que aquelas luzes verdes tão lindas eram
foguetes e serviam para iluminar na noite a frente de batalha e descobrir no escuro
os pontos que deviam ser atingidos pelos tiros dos canhões e as bombas dos
aviões. Naquele momento, porém, pareceu-me um bom augúrio, como que um sinal
da Virgem a dar-me a entender que ouvira a minha prece e estava disposta a
atendê-la.
Quis falar desta oração, sobretudo, para dar uma idéia do caráter de Rosetta,
que até agora não descrevi. Mais tarde, devido à guerra, esse caráter ficou diferente
como o dia da noite, e por isso quero dizer como era Rosetta nessa altura, no
momento em que chegamos ao cimo daquele monte, pelo menos como até então
me parecia que fosse. As mães, já se sabe, nunca conhecem os filhos; mas esta é a
idéia que eu fazia de Rosetta e mesmo hoje, que ela, como disse, mudou do branco
para o negro, penso que essa idéia não estava errada.
Eu educara Rosetta com todo o cuidado, como filha de gente rica, procurando
mantê-la na ignorância de todas as ruindades do mundo e, tanto quanto me era
possível, afastando-a delas. Não sou o que se chama uma mulher muito religiosa,
embora seja praticante: em mim a religião sobe e desce e dá voltas; por exemplo,
naquela noite, no socalco, pareceu-me acreditar sinceramente, ao passo que
noutras ocasiões, como nos dias em que tivemos de fugir de Roma, não acredito
mesmo nada. Mas, seja como for, a religião não me faz perder de vista a realidade,
que é o que é e, por mais que os padres se esforcem em explicá-la, muitas vezes
contradiz, ponto por ponto, as suas afirmações. Mas com Rosetta as coisas
passavam-se doutro modo. Não sei se pelo fato de a ter confiado às freiras, como
semi-interna, até os doze anos, ou por sua natural tendência, o certo é que Rosetta
era profundamente religiosa, duma maneira absoluta, sem hesitações nem dúvidas,
tão segura e convencida, por assim dizer, que nunca falava no assunto e talvez nem
sequer pensasse nele: para ela a religião era como o ar que se respire, que entra e
sai dos pulmões sem darmos sequer por isso.
É difícil para mim explicar agora, depois de tudo quanto se passou, o que era
Rosetta no tempo da nossa fuga de Roma. Limitar-me-ei a dizer que de vez em
quando me sucedia pensar que ela era perfeita. Era de fato um desses seres a
quem nem mesmo os mais maldizentes conseguem atribuir qualquer defeito.
Rosetta era boa, franca, sincera, desinteressada. Eu tenho mudanças bruscas de
humor, sou capaz de me enraivecer, de gritar, até de bater, pois às vezes perco a
cabeça. Mas Rosetta nunca me respondeu mal, nunca me guardou rancor,
mostrou-se sempre, em suma, uma filha perfeita. A sua perfeição, porém, não
residia apenas em não ter defeitos: manifestava-se também no fato de fazer e dizer
sempre o que era justo, o que devia fazer e dizer. Muitas vezes quase me assustava
e dizia tenho uma filha santa! E na verdade havia razão para pensar que fosse
santa. Comportar-se tão bem e de forma tão perfeita, não tendo nenhuma
experiência da vida e sendo, no fundo, uma criança, é só próprio dos santos. Ela
não fizera ainda mais nada na vida senão viver comigo; depois de educada no
pensionato, ajudava-me no arranjo da casa e algumas vezes também na loja; mas
comportava-se como se tivesse feito tudo e conhecesse tudo. Agora penso, porém,
que aquela perfeição, que me parecia quase incrível, resultava da inexperiência e da
educação que lhe tinham dado as freiras.
Inexperiência e religião, fundidas, formavam uma perfeição que eu julgava
sólida como uma torre e, ao contrário, era frágil como um castelo de cartas. Em
suma, não levava em conta que a verdadeira santidade é feita de conhecimento e de
experiência, muito embora dum gênero particular, e não pode resultar da candura e
da ignorância, como era o caso de Rosetta. Mas que culpa tive eu? Criei-a com
amor; e, como todas as mães deste mundo, tive o cuidado de lhe ocultar as coisas
ruins da vida; pensava que, quando saísse de casa, quando casasse, essas coisas
as conheceria até depressa de mais. Não contei com a guerra, que nos obriga a
conhecer tudo, ainda que não queiramos, e nos força a ter experiência antes do
tempo, duma maneira que não é natural, mas cruel. Assim, a perfeição de Rosetta
era própria para tempos de paz, com a loja a marchar bem, eu a juntar uns cobres
para o seu dote e um rapaz ajuizado que gostasse dela, com quem casasse e de
quem tivesse filhos; e assim, depois de ter sido uma criança perfeita e uma rapariga
perfeita, seria também uma mulher perfeita. Mas não é este gênero de perfeição que
se requer na guerra, a qual exige outras qualidades, não sei quais, mas não as de
Rosetta.
Mas, adiante. Por fim, levantamo-nos e caminhamos ao longo do socalco, no
escuro, para a nossa cabana. Passamos por baixo da janela de Paride e ouvi que
Paride e os seus não tinham ainda adormecido, mexiam e falavam lá dentro em voz
baixa, como as galinhas no poleiro que se agitam antes de dormir. Depois, eis o
nosso casebre encostado à casa e ao socalco, com a portinha de tábuas, o telhado
inclinado e o janelico sem vidros. Empurrei a porta e encontramo-nos no escuro.
Mas tinha comigo fósforos e acendi primeiramente um coto de vela; em seguida,
com uma tire de pano rasgada dum lenço, fiz uma torcida que pus na candela de
azeite. A esta luz clara, mas triste, sentamo-nos as duas na cama e eu disse a
Rosetta:
“Tiremos apenas a saia e a blusa. Só temos os lençóis e este capote de
Paride; se nos despirmos, naturalmente teremos frio.”
E assim fizemos. Em saia de baixo, uma apôs outra, metemo-nos na cama.
Os lençóis, de linho tecido à mão, pesados e frescos, eram a única coisa normal
naquela cama que verdadeiramente não era cama. Mal me mexia, sentia logo as
folhas de milho rangerem debaixo de mim, abrirem-se em dois montinhos
separados, e, através do pano fino do saco, os meus ossos tocarem nas tábuas
auras. Nunca na minha vida dormira num leito assim, nem em criança, na aldeia,
onde havia leitos normais, com colchão e enxergão. A certa altura fiz qualquer
movimento e não só as folhas se abriram, mas também as tábuas e lá vou eu por ali
abaixo bater com os costados no chão. No escuro, levantei-me, pus no seu lugar as
tábuas e o saco de palha e tornei a deitar-me, abraçando-me muito a Rosetta, que
me virara as costas e estava toda enrolada, junto à parede.
Mas foi uma noite bastante agitada. Não sei a que horas, talvez depois da
meia-noite, acordei e ouvi um pio muito fraco, ainda mais leve que o dos pássaros.
Vinha de baixo da cama e, por isso, daí a pouco acordei Rosetta e perguntei-lhe se
também ouvia. Ela respondeu-me que sim. Então, acendi a candeia e espreitei. Vi
logo que o que quer que fosse estava metido numa pequena caixa que parecia
conter apenas alguns ramos de camomila e hortelã. Mas, reparando melhor,
descobrimos, entre a camomila, um ninho feito de palha e de pêlos e dentro dele oito
ou dez ratos recém-nascidos, mais ou menos do tamanho do meu dedo mínimo,
cor-de-rosa, durinhos, quase transparentes. Rosetta disse logo que não os
devíamos matar, era a primeira noite que passávamos lá em cima e matá-los podia
trazer-nos desgraça. Tornamos pois a meter-nos na cama e, mal ou bem, lá
adormecemos novamente. Mas eis que, passada uma hora, no escuro, começou a
passear por cima da minha cara e do meu peito não sei o quê macio e pesado. Dei
um grande grito de medo; Rosetta acordou de novo; acendemos a candeia e, por
coincidência, depois dos ratos um gato. De fato, vimos um bonito gato preto, de
olhos verdes, magro, mas novo e lustroso, sentado aos pés da cama, a olhar-nos
fixamente, pronto a saltar pelo janelico por onde entrara. Rosetta, porém, chamou-o
a seu modo – tinha a paixão dos gatos e sabia tratar com eles – e o gato
aproximou-se, muito confiado; enfim, pouco depois estava também debaixo dos
lençóis, a fazer ronrom. Este gato dormiu conosco todo o tempo que estivemos em
Santa Eufêmia e chamava-se Gigi. Tinha os seus hábitos, chegava sempre depois
da meia-noite, metia-se debaixo dos lençóis, entre nós as duas, e ficava ali até de
madrugada. Era meigo e afeiçoado a Rosetta; mas se, durante o sono, uma de nós
ousava fazer qualquer movimento, imediatamente sentíamos o Gigi eriçar se todo no
escuro, como para nos dizer: “Olá, não se pode dormir tranqüilo?!”
Naquela noite, depois de acordar por causa dos ratos e do gato, acordei ainda
mais vezes e tive sempre dificuldade em reconhecer onde estava. Uma vez ouvi um
avião que voava baixo, muito lento, com um rumor regular, grave e doce, como se
andasse na água e não no ar, e pareceu-me que esse rumor me falava e dizia
coisas tranqüilizadoras. Mais tarde explicaram-me que esses aviões se chamam
cegonhas e andam de noite em observação, por isso voam tão baixo; por fim
habituei-me a eles, de tal modo que às vezes estava acordada de propósito só para
os ouvir e, se não os ouvia, ficava desiludida. Essas cegonhas eram aviões ingleses
e eu sabia que os Ingleses haviam de chegar um dia para nos libertar e permitir que
regressássemos a casa.

CAPÍTULO IV

E assim começou a vida em Santa Eufêmia, que era o nome daquele


lugarejo. Começou como se fosse provisória, apenas para durar algumas semanas;
mas, na realidade, prolongou-se por nove meses. De manhã dormíamos até tão
tarde quanto podíamos, pois não havia nada que fazer; além disso, estávamos
exaustas com as privações e angústias que passáramos em Roma e, portanto, na
primeira semana dormíamos às vezes doze e catorze horas seguidas. Vamos para a
cama cedo, acordávamos durante a noite, depois tornávamos a adormecer e
acordávamos novamente de madrugada, ferrávamos outra vez no sono e, quando já
era dia, voltávamo-nos para a rocha do socalco, de costas viradas para a luz que
entrava pela janela e dormíamos até manhã alta. Nunca dormi tanto na minha vida e
era um sono bom, profundo, saboroso como o pão feito em casa, sem sonhos nem
inquietações, um sono verdadeiramente repousante, de tal modo que de dia para dia
readquiríamos as forças que tínhamos perdido em Roma e em casa de Concetta.
Aquele sono longo e pesado fazia-nos mesmo bem; de fato, ao fim duma semana,
estávamos as duas transformadas, os olhos vivos, sem olheiras, as faces cheias e
coradas, a pele macia e lisa, a cabeça desanuviada. Nesse sono parecia-me que a
terra em que nascera e que abandonara há tanto tempo me retomava no seu seio e
me comunicava a sua força, um pouco como sucede às plantas arrancadas e depois
replantadas, que imediatamente readquirem vigor e começam a dar folhas e flores.
Oh, sim, somos plantas e não seres humanos, ou, melhor, mais plantas do que
seres humanos, e é da terra onde nascemos que vem toda a nossa força; se a
abandonamos, não somos uma coisa nem outra, nem plantas nem seres humanos,
apenas leves farrapos que a vida atira para aqui e para ali, ao sabor do vento das
circunstâncias.
Dormíamos tanto e com tanto gosto que todas as durezas da vida lá em cima
nos pareciam leves e as enfrentávamos alegremente, quase sem darmos por elas,
assim um pouco como um macho folgado e bem alimentado que puxa dum só fôlego
o seu carro por uma ladeira acima e, ao chegar ao fim, tem ainda forças para um
bom trote, como se nada fosse com ele. Mas, como já disse, a vida lá em cima era
dura, em breve o percebemos. Começava logo de manhã com as limpezas: era
preciso, ao sair da cama, ter todo o cuidado para não sujar os pés; por isso coloquei
aqui e além algumas pedras lisas, para não nos enlamearmos nos dias de chuva,
quando o chão era um perfeito lamaçal. Depois tínhamos de ir tirar água do poço
que ficava em frente do nosso casinhoto. Enquanto durou o Outono, isso não foi
difícil; mas no Inverno, como estávamos a quase mil metros de altitude, a água
gelava no fundo do poço, e todas as manhãs, quando deitava lá para dentro o balde,
as mãos se me inteiriçavam e a água que conseguia tirar era tão fria que até fazia
parar a respiração. Eu sou friorenta e por isso me limitava a lavar as mãos e a cara;
mas Rosetta, que preferia o frio à porcaria, punha-se nua no meio do quarto e
despejava por cima da cabeça o balde cheio de água gelada. Era tão robusta e
sadia a minha Rosetta que a água lhe escorria pelo corpo como se a sua pele
tivesse óleo e não ficavam senão algumas gotas nos seios, nos ombros, no ventre e
nas nádegas. Depois de vestidas, saíamos e começávamos os trabalhos da cozinha.
Também aqui, enquanto durou o Outono e o bom tempo, as coisas não correram
mal de todo; as dificuldades começaram verdadeiramente no Inverno.
Tínhamos de ir ao mato mesmo debaixo de chuva, para cortarmos, com o
auxilio de podões, alguns caniços e arbustos. Depois íamos para a cabana e
começava a loucura do fogo. A lenha verde e molhada não ardia, os caniços faziam
um fumo negro e denso, tínhamos de nos dobrar em duas, pôr a cara na lama do
chão e soprar, soprar, até que o fogo pegasse. Ficávamos enlameadas, com os
olhos a arder, cheios de lágrimas, exaustas e nervosas, e tudo isto para cozer, numa
pequena panela, uma mancheia de feijões e um ovo... Comíamos como os
camponeses, isto é, uma primeira refeição muito ligeira, aí pelas onze horas, e mais
tarde o verdadeiro jantar, aí pelas sete. De manhã comíamos umas papas de farinha
de milho temperadas com unto de salsicha ou então contentávamo-nos com uma
cebola e um bocado de pão ou uma mancheia de alfarrobas; à noite comíamos a
sopa que já descrevi e um pedacinho de carne, quase sempre de cabra, nas suas
três variedades: cabra, bode e cabrito. Depois da refeição da manhã, não havia mais
nada a fazer senão esperar pela refeição da tarde. Se estava bom tempo, íamos dar
um passeio; contornávamos a montanha, caminhando sempre no mesmo socalco, e
chegávamos por fim ao bosque; aí escolhíamos; um sítio bom e com sombra,
debaixo duma árvore, estendíamo-nos, na erva, e lá ficávamos toda a tarde diante
do imenso panorama. Mas com o mau tempo, que naquele Inverno durou meses
inteiros, não saiamos do quartito, eu sentada na cama e Rosetta na cadeira, sem
fazermos nada, enquanto Luísa, como de costume, tecia no tear, com esse barulho
de enlouquecer de que atrás falei.
As horas que ali passei com mau tempo, hei-de lembrá-las toda a vida. A
chuva não parava, compacta e regular, eu sentia-a crepitar nas telhas, gorgolhar no
cano da goteira antes de cair no poço; no quartito, para pouparmos o azeite, pois
não tínhamos muito, estávamos quase às escuras, apenas com aquela luz, velada
pela chuva, que entrava pela janelinha, ou, melhor, devo antes chamar-lhe goteira,
tão pequena era; e nós caladas, pois não tínhamos coragem de falar nos assuntos
habituais, que eram só dois: a carestia e a chegada dos Ingleses. Assim passavam
as horas, naquele entorpecimento; eu tinha perdido já a noção do tempo e não sabia
em que mês nem em que dia estávamos; parecia-me até que ia ficando estúpida, já
que não fazia uso da cabeça, pois não havia nada em que pensar; sentia-me às
vezes quase enlouquecer e, se não fosse Rosetta, a quem, como mãe, tinha de dar
o exemplo, nem sei o que faria, talvez saísse para o campo a gritar, ou talvez
esbofeteasse Luisa, que parecia fazer todo aquele barulho com o tear de propósito
para nos entontecer e tinha sempre não sei que sorriso malévolo estampado na
cara, como a dizer-nos: “Esta é a vida que nós, os camponeses, fazemos
habitualmente... agora também a têm de fazer vocês, belas damas de Roma... O
que dizem a isto? Agrada-lhes?”
Outra coisa me fez quase perder o juízo durante todo o tempo que ali estive: a
estreiteza do lugar em que vivíamos, especialmente comparado com a vastidão do
panorama de Fondi. De Santa Eufêmia víamos muito bem todo o vale, sombreado
por escuros laranjais, aqui e além salpicados pelas manchas brancas das casas. A
direita, para os lados de Sperlonga, avistava-se uma nesga do mar e nesse mar
havia a ilha de Ponza, que com tempo claro víamos algumas vezes. Sabíamos que
em Ponza estavam os Ingleses, por isso essa ilha era para nós o símbolo da
liberdade. Entretanto, não obstante aquela vastidão da paisagem, continuávamos a
viver e a mover-nos e a esperar sobre aquele socalco comprido e estreito, tão
estreito que, mal se davam quatro passos em frente, nos arriscávamos a cair noutro
socalco igual. Estávamos lá em cima como pássaros empoleirados num ramo
durante uma inundação, à espera do momento favorável de levantar vôo para
lugares enxutos. Mas esse momento nunca mais chegava...
Depois daquele primeiro convite no dia da nossa chegada, os Festas
convidaram-nos ainda algumas vezes, mas muito mais friamente, até que, por fim,
deixaram de nos convidar, pois, como disse Filippo, ele tinha família, e, quando se
trata de comida, deve-se pensar primeiro na família. Por sorte, passados poucos
dias, Tommasino chegou do vale, puxando pela rédea o seu burrico, carregado, é
caso para dizer, como um burro, com grande quantidade de embrulhos e malas.
Eram as nossas provisões, que ele mercadejara aqui e além, por todo o vale de
Fondi, conforme a lista que juntos elaboráramos. Quem nunca se encontrou em
condições semelhantes, com dinheiro que praticamente não valia nada, estranho
entre estranhos, no cimo duma montanha, e não sabe o que quer dizer a falta de
comida em tempo de guerra, não poderá compreender a alegria com que acolhemos
Tommasino. São coisas que é difícil explicar: normalmente, quem vive na cidade,
onde há armazéns cheios de tudo, não acumula em casa abastecimentos, pois sabe
que em qualquer altura que precise vai às lojas e as encontra bem fornecidas.
Assim, convence-se de que comprar nas lojas o que lhe faz falta é uma coisa
absolutamente natural, tal como as estações do ano, a chuva e o Sol, a noite e o dia.
Lérias. As coisas podem faltar de repente, como faltaram de fato naquele ano, e
então todos os milhões do mundo não chegam para comprar um pedaço de pão, e
sem pão morre-se de fome.
Tommasino chegou, todo ofegante, puxando pela cabeçada o jerico, que
quase não podia mais, e disse-me:
“Comadre, tem aqui que comer pelo menos para seis meses.”
Em seguida fez-me entrega de tudo, verificando as coisas pelo que estava
escrito no papel amarelo onde eu fizera o rol. Lembro-me bem desse rol e cito-o aqui
para se fazer uma idéia do que era a vida nesse Outono de 1943. A nossa vida, a
minha e a de Rosetta, estava confiada a um saco duns cinqüenta quilos de farinha
de trigo para fazer o pão e a massa, a um outro saco mais pequeno de farinha de
milho para fazer papas, a um saquinho duns vinte quilos de feijão da pior qualidade,
a alguns quilos de grão-de-bico, ervilhas e lentilhas, a cinqüenta quilos de laranjas, a
um boião de banha com o peso de dois quilos e a dois quilos de salsichas.
Tommasino trouxera também um saquinho de frutos secos: figos, nozes e
amêndoas, e uma boa quantidade de alfarrobas, que habitualmente se dão aos
cavalos, mas agora, como já indiquei, eram muito boas também para nós.
Metemos tudo isso no casinhoto, a maior parte das coisas debaixo da cama, e
depois fiz as contas com Tommasino. Vi que os preços, numa só semana, tinham
subido quase trinta por cento. Muitos pensariam que Tommasino os fizera subir, pois
ele, para arranjar dinheiro, era até capaz de fazer moeda falsa, mas eu, que sou
comerciante, quando lhe ouvi dizer que os preços tinham subido, acreditei-o logo,
pois sabia por experiência própria que não podia deixar de ser assim. E, se as
coisas continuassem a correr como corriam, isto é, os Ingleses parados em
Garigliano e os Alemães a arrebanharem tudo, a meterem medo a toda a gente,
impedindo-a de trabalhar, os preços subiriam ainda mais e talvez atingissem as
estrelas. Sucede assim em tempo de carestia: todos os dias os produtos se tornam
mais raros, todos os dias, no mercado, diminui o número de pessoas que têm
dinheiro suficiente para comprar e, por fim, pode suceder até que ninguém mais
venda e ninguém mais compre e todos, com dinheiro ou sem ele, morram de fome.
Acreditei em Tommasino quando ele me disse que os preços tinham subido e paguei
sem protestar; além disso, também pensei que um homem como ele, ávido bastante
para afrontar os perigos da guerra na ânsia da ganhuça, era um verdadeiro tesouro
nos tempos que corriam e era preciso estimá-lo. Paguei e, ao pagar, mostrei-lhe o
maço de notas de mil liras que tinha na bolsa por baixo da saia; ele, quando viu o
dinheiro, deitou-lhe uns olhos como um milhafre deita a um frango e disse-me que
nós os dois fôramos feitos para nos entendermos, que, quando quisesse, me
arranjaria mais coisas, sempre ao preço corrente, nem um tostão a menos nem um
tostão a mais.
Naquela ocasião pude observar, mais uma vez, a consideração que o dinheiro
nos dá, ou, neste caso, a comida. Os Festas, nos últimos dias, como vissem que as
nossas provisões nunca mais chegavam para comermos, socorriamo-nos de Paride,
que, embora de má catadura, nos sentava à sua mesa, pagando nós, bem
entendido, evitavam estar conosco e, quando chegava a hora das refeições, iam-se
embora sorrateiramente, quase envergonhados. Mas, logo que Tommasino chegou
com o burrico, a sua atitude mudou como do dia para a noite. Sorrisos, saudações,
carícias, conversas e até, embora já não precisássemos, convites para jantar.
Vieram mesmo ver os nossos abastecimentos e, nessa altura, Filippo disse-me, com
sincero regozijo, pois tinha simpatia por mim, não tanta que me desse de comer,
mas a suficiente para ficar satisfeito por me ver bem fornecida:
“Tu e eu, Cesira, somos os únicos aqui em cima que podemos olhar o futuro
com tranqüilidade, pois somos os únicos que temos dinheiro.”
O filho Michele, ao ouvir estas palavras, tornou-se mais sombrio do que o
costume e pronunciou entre dentes:
“Estás certo disso?”
O pai soltou uma gargalhada e deu-lhe uma palmada no ombro:
“Se estou certo?! É a única coisa de que tenho a certeza... Não sabes que o
dinheiro é o melhor amigo, o mais fiel, o mais constante que um homem pode ter?.
Eu ouvi e não disse nada. Mas pensava de mim para mim que aquilo não era tão
verdade como parecia. Nesse mesmo dia. o tal amigo tão fel tinha-me feito a partida
de baixar trinta por cento o seu poder de compra. E hoje, que cem liras só chegam
para comprar um bocado de pão, ao passo que antes da guerra chegavam para se
viver durante meio mês, posso afirmar que não há amigos fiéis em tempo de guerra,
nem homens, nem dinheiro, nem nada. A guerra revolve tudo e, juntamente com as
coisas que vemos, destrói muitas outras que não vemos e no entanto existem.
Desde o dia em que chegaram as provisões, começou a nossa vida normal
em Santa Eufêmia. Dormíamos, levantávamo-nos, vestíamo-nos, apanhávamos os
tojos e a lenha para o lume, acendíamo-lo na cabana, depois passeávamos um
pouco, conversando sobre isto e aquilo com os outros refugiados, comíamos,
passeávamos de novo, tornávamos a cozinhar e comíamos segunda vez e, por fim,
para economizar o azeite da candeia, íamos para a cama com as galinhas.
O tempo estava lindo, ameno e calmo, sem vento e sem nuvens, um outono
mesmo magnífico, com todos os bosques em volta, nas encostas das montanhas,
salpicados de vermelho e amarelo. Dizia-se que este era o tempo ideal para os
Aliados fazerem um avanço rápido e decisivo e chegarem pelo menos até Roma e
ninguém se convencia de que não o fizessem e ficassem por alturas de Nápoles ou
um pouco mais acima. Esta, de resto, era a conversa mais freqüente em Santa
Eufêmia, ou, melhor, a única conversa. Só falávamos dos Aliados, quando vinham,
porque não vinham, como e de que maneira viriam. Falavam nisso sobretudo os
refugiados, pois tinham um único desejo: voltar depressa a Fondi e retomar a sua
vida normal; os camponeses falavam menos, um pouco porque, no fundo, a guerra
era para eles um bom negócio, alugavam as casotas e obtinham ainda muitos outros
pequenos lucros com os refugiados; além disso, continuavam a fazer a mesma vida
que faziam em tempo de paz e a chegada dos Aliados pouco ou nada mudaria o seu
viver.
O que eu falei dos Aliados, a andar para cima e para baixo no socalco,
contemplando o panorama de Fondi e o mar azul lá ao longe; ou à noite, na cabana
de Paride, quase no escuro, com o fumo a fazer-me chorar, diante do lume melo
apagado; ou ainda na cama, abraçada a Rosetta, antes de adormecer!... Falei tanto
e tanto que a pouco e pouco esses Aliados se tornaram quase como os santos da
aldeia que fazem milagres e trazem a chuva e o bom tempo: um reza-lhes e outro
insulta-os, mas todos esperam qualquer coisa deles. Todos esperavam coisas
extraordinárias desses Aliados, precisamente como dos santos, e todos estavam
certos de que, com a sua chegada, a vida não sô se tornaria normal, mas até muito
melhor do que o normal. Valia a pena ouvir, sobretudo, Filippo. Suponho que ele
imaginava o exército dos Aliados como uma coluna sem fim de caminhões cheios de
todos os bens que nos dá Deus, com soldados encarrapitados em cima e
encarregados de os distribuir de graça a nós, Italianos. E era um homem experiente,
um comerciante que se gabava de pertencer à categoria dos espertos, que assim
falava, pensando que os Aliados eram uns parvos e só nos queriam fazer bem, a
nós, Italianos, que lhes tínhamos feito guerra, matando-lhes os filhos e obrigando-os
a gastar milhões!
Poucas notícias certas nos chegavam desses benditos Aliados, ou, melhor,
quase nenhumas. Às vezes, Tommasino aparecia em Santa Eufêmia. Vinha do vale,
mas, como sô se interessava pelo dinheiro e pelo mercado negro, era difícil
arrancar-lhe mais do que algumas frases incompletas; se aparecia lá em cima algum
aldeão, como era camponês, só dizia coisas sem pés nem cabeça. Outras vezes
chegavam rapazes de Pontecorvo, com sacos às costas, para vender sal e tabaco,
de que havia grande escassez. O tabaco era em folhas, úmido e amargo, e os
refugiados picavam-no e faziam cigarros, enrolando-o em papel de jornal; o sal era
de péssima qualidade, daquele que se dá aos animais. Estes rapazes também nos
traziam noticias, mas a maior parte delas eram fantásticas. Primeiro acreditávamos,
mas, quando as examinávamos com vagar, víamos que se pareciam ao sal que
vendiam, que pesava o dobro por causa da água que continha: também as notícias
eram misturadas com fantasias que pesavam como verdades; depois, ao calor do
exame, a fantasia evaporava-se e qualquer um compreendia que da verdade restava
pouco. Diziam que estava em curso uma grande batalha: ao norte de Nápoles,
afirmavam uns; para os lados de Caserta, garantiam outros; para as bandas de
Cassino e ali pertíssimo, em Itri, declaravam alguns ainda. Tudo mentiras. Na
realidade, o que lhes interessava era vender o sal e o tabaco e, quanto às noticias,
diziam apenas o que supunham agradar aos que os interrogavam.
O único acontecimento daqueles primeiros dias que nos lembrou que
estávamos em guerra foi ouvirmos uma manhã não sei quantas explosões dos lados
do mar, na direção de Sperlonga. Ouviram-se distintamente essas explosões e uma
mulher que apareceu lá em cima a vender laranjas disse-nos que os Alemães
estavam a destruir os diques dos pântanos e canais de escoamento para retardarem
o avanço dos Ingleses. Não tardaria que tudo ficasse inundado, debaixo de água, e
muita gente que trabalhara a vida inteira a cultivar esses campos ficaria arruinada,
porque, já se sabe, a água destrói as culturas e depois são precisos anos e anos
para secar e tornar a terra de novo cultivável. Essas explosões sucediam-se, como
os disparos dos morteiros numa festa de aldeia, e produziam-me um efeito estranho,
porque tinham qualquer coisa de festivo, e, no entanto, eu sabia que significavam
miséria e desespero para os que moravam lá em baixo, nas terras enxutas. Estava
um dia lindíssimo, sereno, calmo, o céu sem uma nuvem, e toda a planície de Fondi,
verde e próspera, alongando-se até a linha vaporosa do mar, tão bela, assim azul e
sorridente. E mais uma vez, ouvindo aqueles estrondos e olhando aquela paisagem,
pensei que os homens andam para um lado e a natureza para outro e, quando a
natureza desencadeia um temporal de trovões, raios e chuva, muitas vezes os
homens são felizes em suas casas, ao passo que, quando a natureza sorri e parece
querer prometer uma felicidade eterna, os homens se desesperam e desejam a
morte.
Passaram assim alguns dias e as notícias da guerra eram sempre incertas; os
habitantes do vale que subiam a Santa Eufêmia continuavam a dizer que um grande
exército inglês ia a caminho de Roma. Mas naturalmente esse grande exército
avançava a passo de tartaruga, pois, mesmo que caminhasse a pé e parasse de vez
em quando para tomar fôlego, já devia ter chegado e ainda não se via. Eu,
entretanto, não podia ouvir falar mais dos Ingleses, nem de quando chegariam, nem
da abundância que trariam consigo; por isso procurei ocupar o tempo de qualquer
maneira, por exemplo a fazer malha. Comprei a Paride certa quantidade de lá e fazia
malha com agulhas, pois parecia-me que teríamos de ficar lá em cima mais tempo
do que supunha e pensava no frio que não tardaria a chegar e nós as duas não
tínhamos nada que vestir. Era uma lá gordurosa e escura, cheirando a estábulo, lã
das poucas ovelhas que Paride possuía; tosquiavam-nas todos os anos e fiavam
depois a lã com a roca e o fuso, à moda antiga, fazendo com ela meias e camisolas.
De resto, lá em cima todos andavam assim vestidos, como no tempo em que Berta
fiava.
A família de Paride tinha tudo o que precisava, não só para comer, mas
também para vestir, isto é, linho, lã e couro, o que era um bem para eles, pois, como
já disse, quase não viam a cor do dinheiro e, se não se arranjassem desta forma,
teriam de andar nus. Cultivavam o linho, das ovelhas tiravam a lã e, quando
matavam as vacas, aproveitavam o couro para o calçado e as jaquetas. A lã e o
linho, depois de fiados, como disse, teciam-nos no tear, no nosso quarto, ora Luísa,
ora a irmã, ora a cunhada de Paride; mas devo dizer que as três juntas não
prestavam para nada e que, apesar de todo aquele trabalho de fuso, roca e tear,
ficava tudo mal feito. O tecido que fabricavam, tingiam-no depois de azul-claro, mal,
com tintas péssimas, e por fim cortavam-no para fazer calças e casacos (nunca vi
roupa mais mal talhada, parecia feita a machado); mas, passada uma semana,
rompia-se logo nos joelhos e nos cotovelos; as mulheres punham então remendos
nos buracos, e, assim, quinze dias depois de terem estreado os fatos novos, a
família já andava remendada e maltrapilha. É verdade que faziam tudo quanto
precisavam, e não tinham de comprar nada, mas faziam-no mal e porcamente.
Michele, o filho de Filippo, a quem comuniquei as minhas observações,
respondeu-me, muito a sério, abanando a cabeça:
“Mas quem trabalha hoje à mão, quando existem má quinas?! Só miseráveis
como estes, sô os camponeses de um país atrasado e pobre como é a Itália...”
Não se julgue, porém, por estas palavras, que Michele desprezava os
camponeses, antes pelo contrário. É que se exprimia sempre assim, duro e
peremptório, com a máxima aspereza, mas, ao mesmo tempo, e era o que me fazia
impressão, sem qualquer violência na voz, num tom tranqüilo, como se dissesse
coisas evidentes e indiscutíveis, com as quais já não perdia tempo, limitando-se a
enunciá-las como outro qualquer diria que o Sol brilha no céu ou está a chover.
Era um tipo curioso, este Michele; e, como depois nos tornamos amigos e me
afeiçoei a ele como a um filho, quero descrevê-lo, quanto mais não seja, para o ter
uma última vez diante dos olhos. Não era alto, antes um pouco baixo, ombros
largos, cabeça grande e testa ampla. Usava óculos e tinha um andar firme, um porte
altivo e soberbo, como quem não se deixa intimidar nem submeter por ninguém. Era
muito culto, e ouvi o pai dizer que nesse mesmo ano devia licenciar-se ou se
licenciara, já não me recordo. Em suma, tinha uns vinte e cinco anos, embora, por
causa dos óculos e também pelo seu ar sempre muito sério, aparentasse ter pelo
menos trinta. Mas sobretudo o seu caráter era invulgar, diferente do dos outros
refugiados e igualmente diferente do de todas as pessoas que eu até então
conhecera. Como disse, exprimia-se com absoluta segurança, como quem está
convencido de ser o único a conhecer e a dizer a verdade. Desta convicção
derivava, a meu ver, aquele fato curioso que já notei, mesmo quando dizia coisas
duras ou violentas: não se encolerizava, pronunciava-as num tom calmo e razoável,
por assim dizer quase casual e sem relevo, como se se tratasse de coisas velhas,
sobre as quais todos já estavam de acordo há muito tempo. E, no entanto, isso não
era verdade, pelo menos em relação a mim, pois, ao ouvi-lo falar, por exemplo, do
fascismo e dos fascistas, experimentava sempre uma sensação de espanto. Durante
vinte anos, isto é, desde que começara a raciocinar, só tinha ouvido dizer bem do
Governo e, embora de vez em quando encontrasse isto ou aquilo a criticar,
sobretudo em coisas que diziam respeito à minha loja, pois também nunca me
preocupei com a política, pensava no fundo que, se os jornais aplaudiam sempre o
Governo, deviam ter boas razões para isso e não nos competia a nós, pobres e
ignorantes, julgar o que não compreendíamos nem conhecíamos.
Mas eis que Michele negava isso tudo: onde os jornais tinham dito sempre
branco, ele dizia preto; e não havia nada de bom a apontar naqueles vinte anos:
tudo quanto se fizera em Itália estava errado. Segundo Michele, Mussolini, os seus
ministros, os homens importantes, todos, enfim, que eram alguma coisa, não
passavam de bandidos. Assim mesmo: bandidos. Eu ficava de boca aberta com tais
a firmações, pronunciadas com tanta segurança, indiferença e calma. Tinha sempre
ouvido dizer que Mussolini era um gênio, pelo menos; que os seus ministros eram
grandes homens, sem favor; que os secretários federais, para falar com modéstia,
eram pessoas de bem e inteligentes; e que todos os outros, os mais pequenos,
sempre em linguagem comedida, eram gente em quem se podia confiar de olhos
fechados; e eis que Michele, como se costuma dizer, mandava isso tudo à fava,
chamando a todos, nem mais nem menos e sem exceção, bandidos. As vezes
perguntava a mim própria como teria ele chegado àquela conclusão; porque não
parecia que tivesse começado a pensar assim, como tantos outros na Itália, a partir
do momento em que a guerra principiou a correr mal. Não; como já acentuei,
dir-se-ia que tinha nascido com aquelas idéias, e falava delas tão naturalmente
como os outros meninos dão um nome às plantas, aos animais ou às pessoas.
Simplesmente, manifestava uma desconfiança instintiva, sólida, inabalável, por tudo
e por todos. E isto parecia-me tanto mais surpreendente quanto é certo que ele tinha
apenas vinte e cinco anos e, por isso, só conhecera o fascismo e fora criado e
educado pelos fascistas. Assim, logicamente, se a educação serve para alguma
coisa, devia ser também fascista ou, pelo menos, um daqueles, como havia agora
tantos, que criticavam o fascismo, mas a meia voz e sem convicção. Mas, ao
contrário, Michele, com toda a sua educação fascista, era mesmo desenfreado
contra o fascismo. E eu não pude deixar de pensar que naquela educação havia
qualquer coisa que não estava certa, de outra forma Michele não falaria de tal
maneira.
Poder-se-á supor que Michele, para falar assim, tivera algumas amargas
experiências; é sabido que quando se sofre qualquer desilusão ou injustiça, e isso
pode suceder mesmo com os melhores governos, se é levado a generalizar, a ver
tudo negro, tudo mal, tudo errado. Mas não, o convívio com Michele convenceu-me,
a pouco e pouco, que eram muito limitadas as suas experiências, e essas mesmo
insignificantes, como sucede aliás a todos os jovens da sua condição e da sua
idade. Criado em Fondi com a família, lá fizera os seus primeiros estudos. Como
todos os outros rapazes da sua idade, fora balilla e vanguardista. Depois
inscrevera-se na Universidade de Roma e em Roma estudou e viveu alguns anos
em casa dum tio magistrado. E era tudo. Nunca tinha ido ao estrangeiro; e da Itália,
além de Fondi e de Roma, conhecia apenas as cidades mais importantes. Em suma,
nunca lhe aconteceu nada de extraordinário, ou, se lhe aconteceu, eram dessas
coisas que se passam só no pensamento, não na vida.
Por exemplo, quanto a mulheres, a meu ver, nunca tivera qualquer
experiência amorosa, que, em certos casos, à falta de melhor, ajuda a abrir os olhos
para a vida. Ele próprio nos confessou várias vezes que nunca tinha estado
apaixonado, nem noivo, nem fizera a corte a nenhuma mulher. Quando muito,
pareceu-me compreender, ter-se-ia aproximado de alguma prostituta, como fazem
os rapazes como ele que não têm dinheiro nem conhecimentos. Assim, cheguei à
conclusão de que aquelas convicções tão arraigadas as adquirira, por assim dizer,
sem dar por isso, talvez só por espírito de contradição. Durante vinte anos os
fascistas tinham-se esfalfado a proclamar que Mussolini era um gênio e todos os
seus ministros grandes homens; e ele, mal começou a raciocinar, pensou
precisamente o contrário daquilo que os fascistas proclamavam, tão naturalmente
como uma planta estende os seus ramos para o lado donde recebe o sol. São
coisas misteriosas, bem sei, e, como sou uma pobre ignorante, não pretendo
compreendê-las nem explicá-las. Mas tenho observado que às vezes as crianças
fazem precisamente o contrário do que os pais lhes dizem para fazer ou do que eles
próprios fazem, não por entenderem verdadeiramente que os pais procedem mal,
mas pela única e boa razão de que são crianças, e os pais são pais, e eles querem
ter também a sua própria vida, tal como os pais tiveram antes a deles. Penso que
sucedeu o mesmo a Michele. Foi educado pelos fascistas para ser fascista; mas,
porque queria viver e pensar a seu modo, tornou-se antifascista.
Michele, naqueles primeiros tempos, passava conosco quase todo o dia. Não
sei o que o atraia em nós, pois éramos duas mulheres simples, pouco diferentes de
sua mãe e de sua irmã; por outro lado, como direi adiante, não mostrava por Rosetta
uma atração particular. Provavelmente, preferia-nos à família e aos refugiados
porque éramos de Roma e não falávamos em dialeto, nem conversávamos, como os
outros, das coisas de Fondi, que, dizia ele muitas vezes, não lhe interessavam e até
o aborreciam. Aparecia logo de manhã, mal nos levantávamos, e só nos deixava à
hora das refeições, estando assim conosco praticamente o dia inteiro. Parece-me
que ainda o estou a ver quando espreitava à porta da cabana, onde nós estávamos
sem fazer nada, eu deitada na cama, Rosetta sentada na cadeira, e nos perguntava
com voz jovial:
“Então que me dizem a um bom passeio?”
Aceitávamos, embora esses seus bons passeios fossem sempre iguais:
seguíamos o socalco que contornava a montanha, caminhando sempre a direito, a
meio da encosta, e íamos ter a outro vale ao lado, em tudo semelhante ao de Santa
Eufêmia; ou então trepávamos, até lá acima, por entre penedos e carvalhedos; ou,
ainda, descíamos em qualquer ponto da encosta. Mas escolhíamos quase sempre o
caminho plano, para não nos fatigarmos muito, e, caminhando pelo socalco,
atingíamos o esporão do monte da esquerda, que descia a pique sobre o vale. Ali
havia uma grande alfarrobeira e em volta o mato muito verde e cheio de sol; no
chão, o musgo macio servia-nos de almofada. Sentávamo-nos quase na ponta do
esporão, não longe duma rocha azulada donde se abrangia todo o panorama de
Fondi, lá em baixo; ali ficávamos horas sem fim. O que fazíamos? Agora, que penso
nisso, não sei dizê-lo. Rosetta algumas vezes andava pelo mato, juntamente com
Michele, e colhiam ciclames, que naquela época cresciam densos, lindos e grandes,
com as suas corolas dum cor-de-rosa vivo, muito direitos no meio da folhagem
escura onde quer que houvesse um pouco de borraccina4. Ela fazia um grande ramo
e trazia-mo, e eu, mais tarde, punha-o num copo em cima da mesa do nosso
cubículo. Ou então ficávamos ali sentados e não fazíamos nada: olhávamos o céu, o
mar, o vale, as montanhas... Daqueles passeios, para dizer a verdade, de pouco me
recordo, a não ser das conversas de Michele. Destas, sim, lembro-me bem, como
me lembro dele, porque eram conversas novas para mim, e ele próprio um tipo novo,
como nunca encontrara outro igual até então.
Nós éramos duas mulheres ignorantes e ele um homem que lera muitos livros
e sabia muitas coisas. Mas eu possuía uma experiência da vida que ele não tinha; e
hoje penso que, com todos os livros que lera e todas as coisas que sabia, Michele
era, no fundo, um ingênuo, não conhecia nada da vida e sobre muitos assuntos fazia
uma idéia errada. Lembro-me, por exemplo, duma conversa nos primeiros dias:
“Tu (tratava-nos por tu e nós tratávamo-lo da mesma forma), tu, Cesira, é
verdade que és comerciante e não pensas senão no negócio, mas nem por isso
estás estragada; por sorte tua, continuas a ser o que eras em criança.”
Perguntei:
“Continuo a ser o quê?”
E ele:
“Uma camponesa.”
Respondi-lhe:
“Não me lisonjeias com isso... Os camponeses, fora a terra, não conhecem
mais nada, não sabem seja o que for, vivem como animais.”

4
Espécie de musgo.
Michele riu, retorquindo:
“Não era um elogio aqui há algum tempo... mas hoje é... hoje os que lêem,
escrevem e vivem na cidade, os senhores, são os verdadeiros ignorantes, os
verdadeiros incultos, os verdadeiros selvagens... com eles não há nada a fazer...
mas com vocês, os camponeses, pode começar-se do princípio.”
Eu não compreendia bem o que ele queria dizer e insisti:
“O que significa isso de começar do princípio?”
E ele:
“Bem, fazer deles homens novos.”
Exclamei:
“Vê-se logo que não conheces os camponeses, meu caro... com os
camponeses não há nada a fazer... o que julgas que são? Mais atrasados não há
outros. São exatamente o contrário de homens novos... já eram camponeses antes
de haver gente na cidade. São camponeses e continuarão a sê-lo sempre...”
Michele abanou a cabeça com compaixão e não disse nada. E eu tive a
impressão de que ele via os camponeses como eles não eram nem nunca seriam;
ou, antes, que, por motivos particulares, os via como desejava que eles fossem, e
não como eram na realidade.
Michele só falava bem dos camponeses e dos operários; mas, a meu ver, não
conhecia uns nem outros. Um dia disse-lhe:
“Michele, falas dos operários, mas não os conheces.”
Ele perguntou-me:
“E tu, conhece-los?”
Respondi:
“Compreende-se que os conheça, iam muitos à minha loja, moram ali perto.”
“Que espécie de operários?”
“Oh! artífices, funileiros, pedreiros, eletricistas, carpinteiros... gente que
trabalha... de tudo um pouco...”
“E como te parece que sejam os operários?”, perguntou ele nesta altura, com
ar trocista, preparado para ouvir asneiras. Respondi-lhe:
“Meu caro, não sei como são... para mim essas diferenças não existem... são
homens como os outros... há bons e maus... uns preguiçosos, outros
trabalhadores... alguns gostam das suas mulheres, outros andam atrás das
prostitutas... alguns bebem, outros jogam... Em suma, há de tudo, como em toda a
parte, como entre os burgueses, os camponeses, os funcionários e todos os mais.”
Ele disse então:
“Talvez tenhas razão... olhas para eles como homens iguais aos outros e
assim devia ser... Se todos os vissem como tu, isto é, como homens iguais aos
outros, e os tratassem em conformidade, não sucederiam certas coisas e talvez não
estivéssemos cá em cima em Santa Eufêmia.”
Eu perguntei:
“Então como os vêem?”
E ele:
“Não simplesmente como homens, mas apenas como operários.”
“E tu como os vês?”
“Eu também os vejo só como operários.”
“Então”, disse-lhe, “também tens culpa de estarmos cá em cima... Bem
entendido, estou a repetir o que disseste, embora não compreenda porque os
consideras apenas como operários, e não como homens iguais aos outros.”
E ele:
“Compreende-me, Cesira... É certo que só os considero como operários...
mas é necessário ver porquê...Para alguns é cômodo considerá-los assim para os
explorar melhor... quanto a mim, é cômodo, mas para os defender.”
“Em suma”, disse-lhe de repente, “és um subversivo.”
Michele ficou desconcertado e perguntou:
“Porque dizes isso?”
Volvi:
“Ouvi-o dizer a um sargento da polícia que ia à minha loja... estes subversivos
provocam a agitação entre os operários.”
Michele respondeu, passado um momento:
“Pois admitamos que eu seja um subversivo.”
Eu insisti:
“Mas já fizeste agitação entre os operários?”
Ele encolheu os ombros e declarou por fim, de má vontade, que não tinha
feito. Disse-lhe então:
“Vês que não os conheces?”
Desta vez não me respondeu. Apesar destas conversas difíceis, que nem
sempre compreendíamos, Rosetta e eu preferíamos a sua companhia à dos outros
homens que estavam lá em cima. Ele era o mais delicado e, além disso, o único que
não pensava no negócio e no dinheiro, e isso tornava-o menos aborrecido do que os
outros, porque o negócio e o dinheiro são certamente coisas importantes, mas ouvir
falar sempre no mesmo acaba por causar uma sensação opressiva. Filippo e os
outros refugiados não falavam senão nisso, isto é, do que vendiam e do que
compravam, dos preços e dos lucros, de quanto as coisas custavam antes da guerra
e de quanto custariam depois. Quando não falavam de negócios, jogavam as cartas:
reunidos na pequena habitação de Filippo, sentados no chão, de pernas cruzadas,
encostados aos sacos de farinha e de feijão, o chapéu na cabeça e o cigarro na
boca, numa atmosfera empestada de mau cheiro e de fumo, ali passavam horas e
horas a bater as cartas, com gritos e vociferações que parecia que se matavam. Em
volta dos quatro que jogavam havia sempre, pelo menos, outros quatro que
olhavam, como sucede nas tabernas de aldeia. Eu, que nunca suportei o jogo, não
compreendia como eles podiam passar dias inteiros naquela jogatina, com umas
cartas porcas e sebentas, em que já nem se conheciam as figuras, tão sujas
estavam. Mas era ainda pior quando, em vez de falarem de negócios ou de jogarem,
Filippo e os companheiros se punham a conversar. Eu sou uma ignorante e não
entendo senão da minha loja e do campo, mas percebia perfeitamente que aqueles
homens com barba, adultos, quando não falavam do comércio, só diziam asneiras. E
isto tornava-se para mim ainda mais evidente porque estabelecia o confronto com
Michele, que não era ignorante como eles, e o que dizia, embora muitas vezes não o
compreendesse, percebia que eram coisas acertadas. Estes homens, repito,
raciocinavam como estúpidos, ou, pior, como animais, se os animais pudessem
raciocinar: quando não diziam tolices, diziam coisas que ofendiam pela crueza e
brutalidade. Lembro-me, por exemplo, dum certo Antônio que era padeiro, homem
franzino, muito trigueiro, com um defeito numa vista: tinha um olho menor do que o
outro e sempre a abrir e a fechar, como se tivesse lá dentro uma palhinha.
Um dia, não sei como, quatro ou cinco refugiados, entre eles esse Antônio,
estavam a falar da guerra e do que nessas alturas se fez e acontece, todos sentados
nas pedras do socalco; Rosetta e eu escutávamos. Este Antônio estivera na guerra
da Líbia quando tinha vinte anos e gostava de falar dessa guerra, pois fora para ele
muito importante: entre outras coisas, perdera lá o olho. Em certa altura, Rosetta e
eu ouvimo-lo dizer:
“Mataram três dos nossos... mas matar é dizer pouco... tinham-lhes tirado os
olhos, cortado a língua, arrancado as unhas... Então decidimos exercer represálias...
de manhã cedo fomos a uma das aldeias, queimamos as cabanas e matamos todos
os homens, mulheres e crianças... às raparigas, a filha duma cabra, enfiamos-lhes
as baionetas pela barriga acima e atiramo-las para o monte... ficaram sem vontade
de fazer mais atrocidades.”
Nesta altura, um deles tossiu um pouco, a avisar que nós as duas estávamos
presentes, pois Antônio talvez não nos visse, encobertas atrás de uma árvore. Ouvi
Antônio desculpar-se, dizendo:
“Bem, na guerra sucede isto e ainda pior.”
Corri atrás de Rosetta, que se afastara dali imediatamente. Caminhava de
cabeça baixa; por fim parou e vi-lhe os olhos marejados de lágrimas. Estava
extremamente pálida. Perguntei-lhe o que tinha. Respondeu-me:
“Ouviste o que disse o Antônio...”
Também não encontrei nada melhor pare lhe dizer:
“Na guerra, infelizmente, sucedem estas e outras coisas, minha filha.”
Ela ficou calada um momento e depois proferiu, como se falasse consigo
mesma:
“Hei-de preferir sempre estar entre os que morrem a estar entre os que
matam.”
Desde esse dia afastamo-nos ainda mais do grupo dos refugiados, porque
Rosetta não queria de maneira nenhuma encontrar-se com Antônio nem falar-lhe.
Com Michele, também Rosetta só estava de acordo até certo ponto; no
capítulo da religião, o desacordo entre os dois era absoluto. Michele detestava
particularmente os fascistas, como já disse, e logo a seguir os padres; e não se
percebia bem se odiava mais uns do que outros; muitas vezes, a brincar, ele dizia
que fascistas e padres eram uma e a mesma coisa, a única diferença é que os
fascistas tinham cortado a sotaina, transformando-a em camisa negra, enquanto os
padres a conservavam inteira até os pés. A mim, as suas fúrias contra a religião, ou,
melhor, contra os padres, não me aqueciam nem arrefeciam: pensei sempre que
nestas coisas cada um deve regular-se por si e como melhor lhe parece; sou
religiosa, sim, mas não ao ponto de querer impor a minha religião aos outros. Além
disso, dei conta de que Michele, apesar de toda a sua aspereza, no fundo não era
ruim; algumas vezes cheguei mesmo a pensar que ele dizia mal dos padres, não por
os odiar como padres, mas porque lhe desagradava que não se comportassem
como, em seu entender, os ministros da religião deviam comportar-se. Em
conclusão, provavelmente era religioso, mas ao mesmo tempo um desiludido. Às
vezes, são as pessoas como Michele, no fundo mais exigentes do que os outros,
que atacam com maior severidade os padres, justamente por causa da sua
desilusão. Mas Rosetta era de uma espécie diferente da minha; acreditava na
religião e queria que os outros também acreditassem; não podia suportar que
falassem mal dela, mesmo quando, como no caso de Michele, o faziam de boa fé e
sem verdadeira maldade. Assim, logo ao princípio, mal lhe ouviu a primeira fúria
contra os padres, advertiu-o claramente:
“Se queres continuar a ver-nos, Michele, tens de acabar com esses
discursos.”
Eu esperava que ele insistisse ou se zangasse, como era costume quando o
contradiziam. Ao contrário, com grande assombro meu, não protestou, não disse
nada; limitou-se a observar, passado um momento:
“Há alguns anos atrás, eu era como tu... pensava até a sério em ser padre...
depois, isso passou-me.”
Fiquei pasmada com esta inesperada informação: nunca, mas mesmo nunca,
me podia ter passado pela idéia que ele tivesse alimentado semelhante intenção.
Perguntei:
“Mas, a sério, querias ser padre?”
Ele respondeu:
“Sim... podes perguntá-lo a meu pai, se não acreditas.”
“E então porque renunciaste?”
“Bem, era uma criança, e dei conta de que não tinha vocação. Ou melhor”,
acrescentou com um sorriso, “senti que a tinha e precisamente por isso é que não
devia sê-lo.”
Rosetta desta vez não disse nada e a conversa findou ali. Entretanto, as
coisas mudaram, lentamente, e não para melhor. Depois de tantos boatos
contraditórios, chegou-nos por fim uma notícia certa: uma divisão alemã estava
acampada na planície de Fondi e a frente de batalha fixava-se no rio Garigliano. Isto
queria dizer que os Ingleses não avançavam e que os Alemães, por seu lado, se
preparavam para passar o Inverno conosco. Quem chegava do vale dizia que havia
soldados alemães por todos os lados, a maior parte escondidos nos pomares de
laranjeiras, com os seus carros blindados e as suas tendas cobertas de manchas
verdes, azuis e amarelas, mimetizadas, como diziam. Mas, para nós, tais falas não
passavam de boatos; ninguém vira ainda os Alemães, digo ninguém dos que
estavam lá em cima, pois nenhum alemão subira a Santa Eufêmia. Depois
aconteceu qualquer coisa que nos pôs em contacto com os Alemães e nos fez
compreender que raça de gente é essa. Conto-o porque desde esse dia pode
dizer-se que as coisas mudaram; e, de certo modo, foi então que a guerra apareceu
lá em cima pela primeira vez, para nunca mais se ir embora.
Entre os refugiados que jogavam as cartas com Filippo havia um alfaiate
chamado Severino, o mais novo de todos, um homem pequeno e magro, de cara
amarela e bigode preto e que parecia estar sempre a dar piscadelas de olho de
entendimento; este hábito vinha-lhe do seu ofício, pois, enquanto cosia na loja,
agachado numa cadeira, tinha sempre um olho meio fechado e outro aberto.
Severino fugira de Fondi, como os outros, logo após os primeiros bombardeamentos
e estava alojado numa casota pouco distante da nossa, com uma filha e a mulher,
pequena e modesta como ele. Severino era o mais inquieto de todos os que
estavam lá em cima porque, durante a guerra, aplicara todo o seu dinheiro numa
quantidade de fazendas inglesas e italianas e escondera-as num lugar seguro, mas
na realidade não tão seguro que não estivesse sempre em ânsias pelo destino do
seu pequeno patrimônio. Severino, no entanto, passava da ansiedade à esperança,
quando não pensava no presente, nos Alemães, nos fascistas, na guerra e nos
bombardeamentos, e falava do futuro. Para quem queria ouvi-lo, expunha um plano
que, em sua opinião, mal acabasse a guerra, o tornaria riquíssimo. Esse plano
consistia em aproveitar o período, talvez seis meses, talvez um ano, entre o fim da
guerra e o regresso à normalidade. Nesses seis meses, ou nesse ano, faltaria tudo,
porque não estariam regularizados os transportes, as trocas e o comércio, e na
Itália, ocupada pelos militares, os negócios seriam difíceis, para não dizer
impossíveis. Então, durante esses seis meses ou esse ano, Severino meteria as
suas fazendas num caminhão, iria para Roma e ai, peça por peça, com os preços
mais altos do que as estrelas, devido à escassez, ficaria rico, vendendo a retalho as
fazendas que comprara por junto. Era um plano acertado, como se vê, e
demonstrava que Severino, talvez o único entre todos os que estavam lá em cima,
compreendera bem o mecanismo dos preços, que iam subindo à medida que as
coisas faltavam e os Alemães, os Aliados e os Italianos emitiam papel-moeda sem
nenhum valor. Era um plano acertado, repito, mas infelizmente os planos acertados
são sempre aqueles que não vingam, sobretudo em tempo de guerra.
Resumindo, numa daquelas manhãs chegou da planície, todo ofegante, um
rapazinho que fora empregado de Severino; ainda antes de atingir o socalco, gritou
lá de baixo para o alfaiate, que, muito nervoso, o esperava na beira do muro:
“Severino, roubaram-te tudo... descobriram o esconderijo e roubaram-te os
tecidos.”
Eu estava ao pé dele e vi-o vacilar ao ouvir aquelas palavras, como se
alguém, à traição, lhe tivesse batido com um pau na cabeça. O rapaz, entretanto,
chegou ao socalco; ele agarrou-o pelo peitilho da camisa, muito aflito, balbuciando,
de olhos esbugalhados:
“Não pode ser... que dizes tu?... Os tecidos?... Os meus tecidos?...
Roubados? Não pode ser... E quem os roubou?”
“Eu sei lá ...”, respondeu o rapaz.
Todos os refugiados tinham acorrido e estavam em volta dele. Severino fazia
gestos de louco, revirava os olhos, deitava as mãos à cabeça e arrancava os
cabelos; Filippo procurava acalmá-lo, dizendo:
“Não te excites... pode ser apenas boato.”
“Qual boato”, volveu ingenuamente o rapaz, “vi eu, com os meus olhos, a
parede esburacada e o esconderijo vazio.”
Severino, ao ouvir isto, fez um gesto de desespero com a mão no ar, como se
quisesse invocar o auxílio do Céu; depois lançou-se em correria pela vertente abaixo
e desapareceu. Ficamos todos muito impressionados com esta cena: queria ela
dizer que a guerra não só continuava, como até piorava, pois já não havia
consciência e, se agora roubavam, qualquer dia começariam a matar. Alguém disse
a Filippo, que, mais do que os outros, esbracejava a comentar o sucedido e
censurava Severino por não ter tomado suficientes precauções:
“Tu escondeste as tuas coisas na parede do teu meeiro, toma cuidado, não te
aconteça o mesmo.”
Lembrei-me das conversas de Concetta e Vincenzo e pensei que aquele
refugiado tinha razão; a parede a todo o momento podia ser abatida. Mas Filippo
abanou a cabeça com segurança, confiado:
“Sou compadre do meu meeiro... batizei-lhe o filho e ele batizou-me a filha...
não sabes que entre compadres não há velhacarias?”
Pensei então, ao ouvi-lo falar assim, que se pode ser muito esperto, como ele
julgava ser, e em dada altura fazer figura de parvo, porque acreditar em histórias de
compadres em relação a Concetta e Vincenzo parecia-me que era mesmo uma
tolice, sem dúvida simpática, mas apesar de tudo tolice. Não disse nada, para não o
consumir com suspeitas. Tanto mais que já alguém experimentara pô-lo de
sobreaviso e de pouco servira.
Naquela mesma noite Severino voltou do vale, coberto de pó até os olhos,
triste e cansado. Disse que fora à cidade e encontrara a parede esburacada e o
esconderijo vazio; tinham-lhe levado tudo e agora estava arruinado; julgava que
tanto podiam ter sido os Alemães como os Italianos, mas supunha que tivessem sido
os italianos, ou, antes, os fascistas, pelo pouco que pudera apurar, interrogando as
raras pessoas que continuavam na cidade. Dadas estas explicações, para ali ficou
mudo, encolhido numa cadeira, diante da porta da casa de Filippo, mais amarelo e
mais escuro do que o costume, abraçando o espaldar e olhando só com um olho
para Fondi, onde o tinham roubado, enquanto o outro parecia fechar-se em
piscadelas de entendimento, e isto era talvez o mais triste, porque só se pisca o olho
quando se está satisfeito e a ele pouco faltava para se matar de desespero.
De vez em quando abanava a cabeça e repetia em voz baixa:
“Os meus tecidos... não tenho nada... levaram-me tudo...” Depois passava a
mão na testa, como se não pudesse convencer-se. Por fim, disse:
“Fiquei velho num só dia...” E desandou para a sua casita, sem aceitar a ceia
de Filippo, que procurava consolá-lo e acalmá-lo.
No dia seguinte via-se que ele continuava a pensar nos seus tecidos e
meditava na maneira de os reaver. Estava convencido de que quem lhos roubara
era gente da terra, provavelmente fascistas, ou, melhor, esses que se intitulavam
agora fascistas e antes da queda de Mussolini eram conhecidos no vale como
vagabundos e pedintes. Esses vagabundos, mal o fascismo voltou, inscreveram-se
imediatamente na Milícia, com o único fito de comer e gozar à custa da população,
que, devido à guerra e à ausência das autoridades, se encontrava completamente
abandonada, entregue a si própria. Severino, firmemente resolvido a reaver os seus
tecidos, pode dizer-se que ia todos os dias ao vale, voltando à noite cansado,
coberto de pó e de mãos vazias, mas mais decidido do que nunca. Essa firme
resolução revelava-se até na sua atitude: sempre calado, os olhos cintilantes, fixos,
um nervo constantemente a tremer sob a pele esticada do maxilar. Se alguém lhe
perguntava o que ia fazer todos os dias a Fondi, limitava-se a responder:
“Vou à caça”, dando a entender que ia à caça dos seus tecidos e de quem
lhos roubara.
A pouco e pouco, das converses de Severino com Filippo depreendi que
esses fascistas de quem ele desconfiava estavam entrincheirados num barracão
duma quinta chamada do Uomo Morto. Eram uns doze e tinham transportado para
esse refúgio grande quantidade de provisões, arrancadas à força aos camponeses,
e lá comiam e bebiam e gozavam, servidos por algumas rameiras que tinham sido
antes criadas de servir ou operárias. À noite saíam e andavam pela cidade,
entravam nas casas abandonadas pelos refugiados, revistavam-nas uma por uma,
roubavam o que lá ficara e batiam com as espingardas em todas as paredes e
pavimentos para ver se havia algum esconderijo. Estes fascistas andavam todos
armados com metralhadoras, bombas e punhais e sentiam-se em segurança porque
em todo o vale, como já disse, não havia agora carabineiros, pois todos tinham
fugido ou sido presos pelos Alemães, nem polícia nem outra qualquer autoridade.
Ficara, é certo, um guarda municipal, mas era um pobre homem, carregado de
família, que andava de quinta em quinta, roto e esfomeado, a pedir aos camponeses
que lhe dessem, por amor de Deus, um bocado de pão ou um ovo. Em suma, não
havia lei e os gendarmes do exército alemão, que se distinguiam dos outros
soldados porque traziam ao peito uma espécie de colar, eram os únicos que a
faziam respeitar; mas era a lei deles, não a dos Italianos, e era uma lei que, por
assim dizer, nos parecia feita de propósito para lhes permitir arrebanhar os homens,
roubar as coisas e fazer toda a espécie de exigências.
Para dar uma pálida idéia de tudo quanto sucedia naqueles tempos, basta
afirmar que um camponês duma localidade perto de Santa Eufêmia, uma manhã,
não sei por que razão, deu uma navalhada num sobrinho, um rapaz de dezoito anos,
deixando-o na vinha a esvair-se em sangue até morrer. Isto sucedeu às dez horas
da manhã. Às cinco horas do mesmo dia, o assassino foi ao talho clandestino
comprar meio quilo de carne. O crime já era conhecido de toda a gente, mas
ninguém se atreveu a dizer-lhe nada: eram coisas lá entre eles e todos tinham medo
de intervir. Só uma mulher teve a coragem de lhe observar:
“Mas que coração é o teu... mataste o sobrinho e vens aí muito sossegado
comprar carne?”
E ele retorquiu:
“Toca a quem toca... ninguém me prende, pois agora já não há lei e cada qual
faz o que lhe apetece...”
E tinha razão; não o prenderam e ele enterrou o sobrinho debaixo duma
figueira e continuou a viver sem ninguém o incomodar.
Severino, então, meteu-se-lhe em cabeça fazer justiça por suas próprias
mãos, visto já não haver justiça oficial. Não sei o que combinou nesses passeios a
Fondi, mas uma manhã chegou lá acima um rapazito do campo, com um palmo de
língua de fora por subir a encosta a correr, e gritou que Severino vinha aí com os
alemães, que tinha os alemães do seu lado e que eles o iam ajudar a recuperar as
fazendas, porque tinham chegado a acordo. Todos os refugiados saíram dos
casinhotos e nós as duas também. Seríamos umas vinte pessoas no socalco, a
vigiar o carreiro, à espera de ver surgir Severino e os alemães.
Entretanto todos diziam que Severino fora inteligente e sensato, pois a
verdade é que a autoridade estava agora na mão dos Alemães e estes não eram
vagabundos nem delinqüentes como os fascistas e não só lhe restituiriam os
tecidos, como castigariam os culpados. Filippo era o que mais falava a favor dos
Alemães:
“É gente séria, que faz tudo a sério: a guerra, a paz e o negócio... Severino
fez bem em recorrer a eles... Os Alemães não são como nós, Italianos, anárquicos e
indisciplinados... têm disciplina e em tempo de guerra roubar é um ato contrário à
disciplina... Estou certo de que vão restituir as fazendas ao Severino e punir esses
malandros fascistas... Valente Severino, fez o que devia fazer: quem tem hoje
autoridade na Itália? Os Alemães. Então é necessário recorrer aos Alemães...”
Filippo pensava em voz alta, pavoneando-se e cofiando o bigode. É claro,
pensava nas duas coisas escondidas em casa do meeiro; ficaria contente se
Severino recuperasse as fazendas e se os ladrões fossem castigados, pois também
tinha bens escondidos e também receava que lhos roubassem.
Olhávamos para o carreiro, onde por fim assomou Severino, mas, em vez dos
alemães que julgávamos que subissem com ele em patrulha armada, vimos só um
alemão e, ainda por cima, simples soldado, nem sequer era da polícia militar.
Quando chegaram lá acima ao socalco, Severino, altivo e satisfeito, apresentou-o
com o nome de Hans, que em alemão quer dizer João, e todos o rodearam, de mãos
estendidas, mas Hans não apertou nenhuma e limitou-se a fazer a saudação militar,
batendo os calcanhares e levando a mão à pala do boné, como para pôr uma
distância entre ele e os refugiados. Este Hans era um homem baixinho, lourinho, de
ancas largas como uma mulher, cara branca e um pouco cheia. Tinha duas ou três
grandes cicatrizes na face e, quando lhe perguntaram onde as recebera, respondeu
secamente:
“Estalingrado."
Por causa daquelas cicatrizes, a sua cara mole e não muito redonda, como
que amolgada, parecia mesmo um pêssego ou uma maçã caídos da árvore e que,
ao caírem, se racham e machucam e depois, quando se partem, estão por dentro
meio podres. Tinha olhos azuis, mas não bonitos, de um azul deslavado,
inexpressivo, muito claro, como que de vidro. Severino, entretanto, muito orgulhoso,
explicava-nos que se tornara amigo daquele Hans porque, por coincidência, Hans,
na sua terra, em tempo de paz, era também alfaiate. Assim, entre alfaiates,
tinham-se entendido, e ele contara-lhe o roubo e Hans prometera-lhe recuperar os
tecidos, pois, precisamente porque era alfaiate, podia compreender melhor do que
qualquer outro as suas preocupações. Resumindo, o alemão não era da polícia, não
eram muitos alemães, mas um só, não se tratava de uma coisa oficial, mas
particular, entre amigos do mesmo ofício, ambos alfaiates. Mas o alemão estava
fardado, tinha a espingarda-metralhadora a tiracolo e comportava-se como
verdadeiro soldado; logo, todos ao desafio, lhe mostraram boa cara. Um
perguntava-lhe quanto tempo duraria a guerra, outro interrogava-o sobre a Rússia,
onde ele tinha estado, outro queria saber se os Ingleses dariam batalha ou se
seriam os Alemães a tomar a ofensiva. Hans, quanto mais perguntas lhe faziam,
mais inchava de importância, como um balão vazio que alguém assopra. Disse que
a guerra ia durar pouco porque os Alemães possuíam armas secretas... que os
Russos combatiam bem, mas os Alemães combatiam melhor... que em breve os
Alemães desencadeariam a ofensiva e lançariam os Ingleses ao mar. Em suma,
incutia respeito; Filippo, por fim, convidou-o para almoçar com Severino em sua
casa.
Eu também assisti ao almoço; já tinha almoçado, mas estava com curiosidade
de ver aquele alemão, o primeiro que aparecia lá em cima. Quando cheguei, iam na
fruta. Toda a família de Filippo estava presente, menos Michele, que odiava os
Alemães e pouco antes, quando Hans falava com bazófia da grande vitória que em
breve iriam alcançar sobre os Ingleses, o olhara, sombrio e ameaçador, como se
quisesse saltar-lhe em cima e dar cabo dele aos murros. Agora, graças ao vinho que
bebera, o alemão ganhara mais confiança. Não fazia senão bater no ombro de
Severino, repetindo que os dois eram alfaiates e amigos até à morte e iria fazer com
que lhe restituíssem as fazendas. Depois tirou do bolso a carteira e mostrou a
fotografia duma mulher alta e gorda, fazia dois dele, de cara bonacheirona; disse
que era sua mulher. Voltaram a falar da guerra e Hans repetiu:
“Nós fazer ofensiva e lançar ao mar Ingleses.”
Filippo, que queria amansá-lo, lisonjeando o reforçou:
“Pois claro, claro... deitam-nos ao mar, a todos... esses assassinos.”
Mas o alemão respondeu:
“Não, assassinos não, bravos soldados.”
E Filippo:
“São bravos soldados, decerto, sabe-se, são bravos soldados.”
Mas o alemão volveu:
“Tu admiras soldados ingleses... tu traidor.”
E Filippo, assustado:
“Quem os admira?... Se disse que são assassinos.”
Mas o alemão estava implicativo.
“Não assassinos, bravos soldados... mas traidores como tu que admiram
Ingleses, kaputt”, e fazia o gesto de cortar o pescoço.
Em suma, não gostava de uma coisa nem de outra, nunca estava satisfeito, e
todos ficamos cheios de medo porque de repente ele pareceu transtornado. Disse a
Severino:
“Porque não estás na frente de batalha?... Nós, Alemães, combatemos e
vocês, italianos, estão aqui... tu para a frente.”
Severino assustou-se e respondeu:
“Fui licenciado... fraco do peito.”
E bateu no peito e era verdade, estivera muito doente e diziam até que tinha
só um pulmão. O alemão, porém, zangado, agarrou-o por um braço, dizendo!
“Agora vens já comigo para a frente,” Levantou-se e começou a puxá-lo.
Severino ficou branco e esforçava-se em vão por sorrir, e todos estavam
consternados e eu tive tanto medo que o coração parecia querer saltar-me do peito.
O alemão puxava pelo braço de Severino e este procurava resistir, agarrando-se a
Filippo, que também parecia assustado. Então, de repente, o alemão soltou uma
risada e disse:
“Amigos... amigos... tu alfaiate e eu alfaiate... tu recuperar os tecidos e ficar
rico... eu ir à frente, fazer a guerra e morrer.”
E, sempre a rir, tornou a bater-lhe com a mão no ombro.
A mim esta cena causou-me uma impressão estranha, a impressão de me
encontrar, não diante de um homem, mas de um animal selvagem que ora ronrona
ora mostra os dentes e não se sabe que intenções tem nem como se há de lidar
com ele. Parecia-me que Severino se iludia, tal como os que costumam dizer:
“Este animal conhece-me... a mim nunca me morde.”
E, como se provou, a sua confiança não tinha razão de ser.
Depois desta cena, o alemão tornou-se amável, bebeu mais vinho, bateu
ainda não sei quantas vezes no ombro de Severino, de tal modo que ao alfaiate lhe
passou de todo o medo e, num momento em que o alemão estava distraído, disse a
Filippo:
“Hoje mesmo terei as minhas fazendas... verás.”
Dali a pouco o alemão levantou se da mesa, tornou a pôr o cinturão, que
tirara ao sentar-se, dizendo a rir que tinha de alargar um furo por ter comido muito.
Depois voltou-se para Severino:
“Nós ir lá abaixo e logo tu tornar aqui com os teus tecidos.”
Severino ergueu-se também, o alemão fez a saudação militar, batendo os
calcanhares, e lá foi, muito empertigado, na companhia de Severino, pelo carreiro
abaixo, de socalco em socalco, a caminho do vale. Filippo, que saíra com os outros
pare os ver abalar, disse por fim, exprimindo o sentimento geral:
“Severino confia muito naquele alemão... mas eu, no seu lugar, não confiava
tanto.”
Esperamos toda aquela tarde e parte da noite e Severino não voltou. No dia
seguinte fomos à casita onde ele morava com a família e encontramos a mulher a
chorar no escuro, com a filha ao colo. Estava com ela uma velha camponesa, que
fiava lã na sua roca e repetia de vez em quando, ao puxar o fio:
“Não chores, mulher... Severino há-de voltar, está descansada...”
Mas ela abanava a cabeça e respondia:
“Sinto que ele não volta mais... senti-o logo uma hora depois de o ver
partindo”
Procuramos confortá-la, mas ela não fazia senão chorar, dizendo que era a
culpada, pois o marido fizera tudo aquilo por sua cause e por cause da filha, para
terem boa vida, pare serem ricas, e ela devia tê-lo impedido de comprar essas
malditas fazendas. Não havia nada a dizer; a verdade é que Severino não voltava e
contra um fato nada valem todas as boas palavras deste mundo. Estivemos a
acompanhá-la o dia inteiro, ora dizendo uma coisa ora outra, fazendo todas as
suposições possíveis sobre o desaparecimento de Severino, mas ela continuava a
chorar e a repetir que o marido não voltaria mais. No dia seguinte tornamos à casita,
mas já não a encontramos: de madrugada pegara na filha ao colo e descera ao vale,
para saber o que tinha acontecido.
Depois, durante alguns dias não soubemos mais nada de Severino nem da
mulher. Por fim, Filippo, que, a seu modo, gostava de Severino, decidiu apurar o que
se passava e mandou chamar Nicola, um velho camponês que já não trabalhava no
campo e passava os dias com os garotos para cima e para baixo, nos socalcos.
Disse-lhe o que queria: que fosse saber o que era feito de Severino,
recomendando-lhe que devia ir ao lugar do Uomo Morto, precisamente onde
estavam instalados os fascistas que tinham roubado os tecidos. O velho, ao
princípio, não queria ir, mas Filippo prometeu-lhe trezentas liras e, como Nicola, por
dinheiro, era capaz até de entrar num forno aceso, não disse mais nada e foi
preparar o burro. Declarou que voltaria no dia seguinte, que dormiria em casa duns
parentes, no campo, e pôs no alforge um pão e um bocado de queijo.
Despedimo-nos dele e vimo-lo partir, muito direito em cima da albarda, o
chapeuzinho preto na cabeça, o cachimbo na boca, escarranchado no burro, uma
perna para cada lado, os tamancos com atilhos brancos. Filippo recomendou-lhe
que procurasse entre os fascistas um tal Tonto, que era o menos mau de todos, e o
velho disse que assim faria e lá foi.
Passou aquele dia e passou metade do dia seguinte. Ao entardecer, eis que
aparece no socalco o burro, que o velho conduzia pela carreata, e, em cima da
albarda, o Tonto. Chegaram e o Tonto desmontou: era um homem de cara escura e
magra, barba crescida, olhos melancólicos e encovados e nariz comprido e curvo.
Todos o rodearam logo e o Tonto parecia embaraçado, calava-se. O velho Nicola,
pegando na cabeçada do burro, disse-nos então:
“O alemão ficou com as fazendas e mandou o Severino trabalhar para as
fortificações, na frente de batalha, foi o que aconteceu.”
Depois de dizer isto, afastou-se e foi dar de comer ao animal. Ficamos todos
varados... O Tonto estava à parte, um pouco confundido: Filippo, irritado, disse-lhe:
“E tu que vieste fazer cá acima?”
O Tonto avançou um passo e, muito humilde, volveu:
“Filippo, não me julgue mal... vim cá para lhe ser agradável. Quero contar-lhe
como as coisas se passaram para não supor que fomos nós.”
Todos o olharam com antipatia, mas todos queriam saber o que sucedera; por
fim, Filippo, embora de má vontade, convidou-o a beber um copo em sua casa. O
Tonto aceitou e lá foram, e nós atrás, em procissão. No quarto, o Tonto sentou-se
em cima dum saco de feijão e Filippo deu-lhe o vinho, ficando em pé diante dele;
nós reunimo-nos na soleira da porta, também de pé. O Tonto bebeu com calma e
depois disse:
“É inútil negar: fomos nós que levamos as fazendas... Nestes tempos, Filippo,
cada um por si e Deus por todos... Severino julgava que tinha escondido bem as
fazendas, mas éramos muitos a saber onde estavam e então pensamos: se não
formos nós, serão os alemães, uma denúncia depressa se faz, é melhor portanto
ficarmos com elas. E que mal havia nisso, Filippo?”, juntou as mãos e olhou para
nós. “Também temos família e, nos tempos que correm, todos pensamos em
primeiro lugar na família e depois no resto. Não digo que tivéssemos feito bem, mas
sim que o fizemos por necessidade. Você, Filippo, é comerciante, Severino é alfaiate
e nós... nós cá nos arranjamos... Mas Severino fez mal em recorrer aos alemães,
que não tinham nada com o assunto, Que diabo, Filippo, se Severino não quisesse
ser malandro, podíamos chegar a um acordo, por exemplo, vendermos as fazendas
e dividirmos os lucros... ou então dávamos-lhe um presente... entre conterrâneos,
sempre se chegaria a acordo... Mas Severino quis fazer-nos mal e sucedeu o que
sucedeu. Veio aquele alemão duma figa e Severino disse-nos uma porção de
ofensas e palavrões e logo o alemão nos apontou a metralhadora, afirmando que
tinha de fazer uma busca. Nós, que, em certo sentido, dependemos dos Alemães,
não pudemos opor-nos, Os tecidos apareceram e o alemão carregou-os no
caminhão em que tinham vindo ambos e lá se foi embora com Severino, que, ao
partir, ainda nos gritou: ‘Há finalmente justiça neste mundo!’ Sim, bonita justiça.
Sabem o que fez o alemão? Dali a poucos quilômetros encontrou outro caminhão
cheio de italianos recrutados para irem trabalhar nas fortificações, na frente de
combate. Então parou o caminhão e apontando-lhe a metralhadora mandou descer
o Severino e meteu-o no caminhão dos recrutados. E assim Severino, em vez de
recuperar as fazendas, foi mandado para frente e o alemão, que é alfaiate, vai enviar
agora pouco a pouco os tecidos para a Alemanha, onde abrirá com eles uma
alfaiataria, rindo-se do Severino e de nós todos, Agora pergunto eu, Filippo: para
que meteu ele nisto os alemães? Entre dois litigantes, o terceiro é que aproveita... e
foi o que sucedeu, juro que é verdade.”
Filippo e todos nós, depois deste discurso do Tonto, ficamos silenciosos;
também porque, entre tudo quanto o Tonto dissera, havia aquele pormenor do
recrutamento, de que ouvíramos falar, é certo, mas nunca tão clara e
tranqüilamente, como de uma coisa normal. Por fim, Filippo ganhou coragem e
perguntou o que era isso do recrutamento. O Tonto respondeu com indiferença:
“Os alemães andam por aí com um caminhão e levam todos os homens que
encontram aptos para o trabalho e mandam-nos para frente, para os lados de
Cassino ou Gaeta, a fortificar as linhas.”
“E como os tratam?”
Tonto encolheu os ombros:
“Hum! Muito trabalho, barracas e pouca comida. Já se sabe como os Alemães
tratam os que não são alemães...”
Ficamos de novo em silêncio; mas Filippo insistiu:
“Mas prendem os homens da planície... os refugiados que estão nas
montanhas, não os prendem, pois não?”
Tonto encolheu de novo os ombros:
“E melhor não confiar muito nos Alemães... fazem como às alcachofras:
comem as folhas a uma e uma... Agora toca aos da planície, depois tocará aos da
montanha.”
Ninguém pensava já em Severino: todos tinham medo e cada qual pensava
em si próprio. Filippo perguntou:
“Mas como sabes tu essas coisas?”
Tonto respondeu:
“Sei-as porque tenho de tratar todos os dias com os alemães... Ora
prestem-me atenção: ou se alistam na Milícia, como nós, ou aconselho-os a
esconderem-se bem... mas muito bem... doutro modo os alemães apanham-nos uns
a seguir aos outros.”
Depois deu algumas explicações: os alemães primeiro agiam na planície,
arrebanhando todos os homens aptos para o trabalho; em seguida passavam às
montanhas e agiam da seguinte forma: de manhã cedinho, ainda escuro, uma
companhia de soldados subia ao cimo de um monte; depois, chegado o momento,
por volta do meio-dia, descia para o vale, espalhando-se em leque por toda a
vertente de maneira que os que estavam, suponhamos, a meia encosta, como nós,
ficavam presos como os peixes numa grande rede.
“Eles pensam em tudo!”, observou nessa altura um, com voz apavorada.
Tonto agora estava já senhor de si e quase se tornava descarado. Tentou, por
isso, a léria das recomendações com Filippo, que sabia ser o mais endinheirado:
“Mas, se chegarmos os dois a acordo, posso dar uma palavrinha, a favor do
teu filho, ao capitão alemão, que conheço muito bem...”
Talvez Filippo, deveras receoso, aceitasse discutir o caso. Mas,
inesperadamente, Michele avançou para ele e disse-lhe com dureza:
“Porque esperas para te ires embora?”
Todos emudeceram, surpreendidos, tanto mais que Tonto estava armado com
bombas e espingarda e Michele não tinha qualquer arma. Mas, não sei porquê, o
Tonto ficou subjugado com aquele tom. Disse, relutante:
“Bem, se é assim. arranjem-se como puderem... eu vou indo.”
Depois levantou-se e saiu. Todos o seguiram e Michele, antes de ele
desaparecer, gritou-lhe do alto do socalco:
“Em vez de andares a oferecer os teus serviços, pensa em ti... os alemães
qualquer dia tiram-te a espingarda e mandam-te trabalhar, como ao Severino.”
O Tonto voltou se e fez-lhe uma figa. Nunca mais o vimos.
Depois de o Tonto se ter ido embora, fomos com Michele para o nosso
casinhoto. Rosetta e eu comentávamos o caso, lamentando o pobre Severino, que
perdera primeiro as fazendas e a seguir a liberdade. Michele, com ar sombrio,
estava calado, de cabeça baixa, mas de repente encolheu os ombros e disse:
“Foi bem feito!”
Protestei:
“Como podes dizer uma coisa dessas? Aquele pobre ficou arruinado e agora
talvez deixe lá a pele.”
Ele não respondeu logo e só passado um momento gritou:
“Enquanto não perderem tudo, não compreenderão nada... Têm de perder
tudo e sofrer e chorar lágrimas de sangue... só então estarão maduros.”
Objetei:
“Mas o Severino nem sequer fez aquilo por interesse, fê-lo por causa da
família...”
Michele pôs-se a rir, mesmo com maldade:
“A família!... A grande desculpa para todas as patifarias neste país... Pois
bem, tanto pior para a família."
Michele, já que estou a falar dele, tinha na verdade um caráter curioso. Dois
dias depois do desaparecimento definitivo de Severino, falando nós disto ou daquilo,
veio a propósito eu dizer que como era inverno e anoitecia cedo. Não sabia o que
fazer para passar o tempo. Michele lembrou então que, se quiséssemos, nos podia
ler qualquer coisa em voz alta. Aceitamos, satisfeitas, embora estivéssemos pouco
habituadas a leituras, como me parece que já o dei a entender. Mas naquela
situação até os livros podiam servir para nos distrairmos. Eu, julgando que ele
pretendia ler-nos algum romance, recordo-me de lhe ter perguntado:
“O que é? Uma história de amor?”
Michele respondeu, com um sorriso:
“Muito bem, acertaste, é mesmo uma história de amor.”
Ficou combinado que Michele nos leria um livro em voz alta, nessa noite,
depois da ceia, que comíamos sempre dentro da cabana, a uma hora em que não
sabíamos como matar o tempo.
Lembro-me muito bem dessa noite, que ficou gravada na minha memória, não
sei porquê, talvez porque Michele revelou então uma particularidade do seu caráter
que eu não conhecia. Revejo a cena, nós duas e a família de Paride, todos sentados
sobre cepos e bancos em volta do fogo meio apagado, quase no escuro, a
lamparina de azeite pendurada atrás de Michele para ele poder ler. A cabana era
mesmo tenebrosa: do teto de ramos secos pendiam farripas negras de fuligem, que
balançavam ao mais leve sopro; ao fundo, quase submersa na escuridão, estava
sentada a mãe de Paride, até parecia a bruxa de Benevento, tão velha e enrugada
era, sempre a fiar lã com a roca e o fuso. Rosetta e eu estávamos contentes por
causa da leitura; mas Paride e a família não tanto, pois, após um dia inteiro de
trabalho, mal chegava a noite ficavam a cabecear com sono e às vezes iam logo
para a cama. As crianças dormiam já, aninhadas ao pé das mães.
Michele disse-me, antes de começar, tirando um livrinho do bolso:
“Cesira, querias uma história de amor e vou ler precisamente uma história de
amor.”
Uma das mulheres, mais por cortesia do que por curiosidade, perguntou se
era uma história verdadeira ou inventada e ele então respondeu que talvez fosse
inventada, mas era como se realmente tivesse acontecido. Entretanto abria o livrinho
e ajeitava os óculos no nariz. Por fim anunciou que ia ler alguns episódios da vida de
Jesus, no Evangelho. Ficamos todos pouco à vontade, porque esperávamos um
verdadeiro romance; além disso, tudo o que trata de religião parece sempre
aborrecido, talvez porque as coisas da religião as fazemos mais por dever do que
por prazer. Paride, interpretando o sentimento geral, observou que todos
conhecíamos a vida de Jesus e por isso a leitura não nos daria novidades. Rosetta
não disse nada; mais tarde, porém, quando estávamos no nosso casinhoto,
sozinhas, comentou:
“Se ele não acredita em Jesus, porque não o deixa em sossego?”, quase
aborrecida, mas não hostil, pois simpatizava com Michele, muito embora não o
compreendesse verdadeiramente, como aliás ninguém lá em cima.
Michele, às palavras de Paride, limitou-se a responder com um sorriso:
“Tens a certeza?” Depois anunciou que ia ler o episódio de Lázaro,
acrescentando: “Lembram-se quem era?”
Ora todos nós já ouvíramos falar deste Lázaro, mas à pergunta de Michele
apercebemo-nos de que não sabíamos bem quem era nem o que tinha feito. Talvez
Rosetta soubesse, mas também desta vez ficou calada.
“Bem”, disse Michele com tranqüilo ar de triunfo, “dizem que conhecem a vida
de Jesus e nem sequer sabem quem foi Lázaro... No entanto, este episódio está
pintado, como muitos outros, nos quadros da Paixão que há nas igrejas... até na
igreja de Fondi, lá em baixo...”
Paride, pensando talvez que estas palavras envolviam para ele uma censura,
observou:
“Mas sabes que para ir à igreja, lá em baixo no vale, é preciso perder um
dia?... Nós temos de trabalhar e não podemos desperdiçar um dia, nem mesmo para
ir à igreja.”
Michele não lhe respondeu e começou a ler. Como estou certa de que o
episódio de Lázaro é conhecido de todos os que lerem as minhas recordações, não
o transcrevo aqui, tanto mais que Michele o leu sem fazer comentários: os que o não
conhecem, podem lê-lo no Evangelho. Limitar-me-ei a observar que, à medida que a
leitura prosseguia, em volta de Michele as caras dos camponeses exprimiam, cada
vez mais, se não aborrecimento, pelo menos indiferença e desilusão. Esperavam
uma bonita história de amor e, em vez disso, ele lia-lhes a história dum milagre, no
qual, ainda por cima, pelo menos assim me pareceu, não acreditavam, como de
resto não acreditava o próprio Michele. Mas havia uma certa diferença enquanto os
ouvintes se aborreciam, tanto que duas mulheres tinham começado a cochichar,
rindo baixinho, uma terceira não fazia senão bocejar e o próprio Paride, sem dúvida
o mais atento, mostrava, curvado para frente, uma cara absolutamente obtusa e
insensível, Michele, por seu lado, à medida que avançava na leitura, parecia
comover-se com aquele milagre em que não acreditava. Quando chegou à frase:
“E Jesus disse: eu sou a ressurreição e a vida”, interrompeu-se um momento
e todos pudemos ver que parara porque não podia continuar a ler com os olhos
rasos de lágrimas. Compreendi que ele chorava por causa do que lia, pois, como
logo a seguir se tornou claro, o relacionava de algum modo com a nossa presente
situação; mas uma daquelas mulheres que se aborreciam a ouvi-lo estava tão longe
de pensar que o episódio de Lázaro lhe pudesse provocar aquelas lágrimas que
observou, solícita:
“Incomoda-te o fumo, Michele?... Aqui há sempre muito fumo... Bem, já se
sabe, estamos numa cabana...”
Para compreender bem esta frase é preciso ter presente, e parece-me que já
aludi a isso, que o fumo do braseiro não saía pela abertura da chaminé, que não
existia, mas sim, muito devagar, através dos ramos secos do telhado, estagnando
durante bastante tempo dentro da cabana. Por isso, muitas vezes acontecia
chorarem todos os que lá se encontravam, incluindo os dois cães, a gata e os
gatinhos. Aquela mulher pretendera desculpar-se do fumo, por amabilidade, mas
Michele, de repente, limpou as lágrimas e começou a gritar de uma forma imprevista:
“Qual fumo nem qual cabana... eu não leio mais porque vocês não
compreendem... e é inútil tentar fazer compreender quem nunca o conseguirá.
Porém, lembrem-se disto: cada um de vocês é Lázaro... e eu, ao ler a história de
Lázaro, li a vossa história, a história de todos... de ti Paride, de ti Luisa, de ti Cesira,
de ti Rosetta e também a de mim próprio, e a de meu pai, e a daquele patife do
Tonto, e a do pobre Severino com as suas fazendas, e a dos refugiados, que estão
cá em cima, e a dos alemães e fascistas que estão no vale, em suma, a de todos...
todos estão mortos, estamos todos mortos e julgamos Ester vivos... Enquanto nos
julgarmos vivos porque temos as nossas fazendas, o nosso medo, as nossas
preocupações, as nossas famílias, os nossos filhos, estaremos mortos... Só no dia
em que nos apercebermos de que estamos mortos, mais do que mortos, putrefatos,
decompostos, cheirando a cadáver a uma légua de distância, somente então
começaremos a viver... Boa noite.”
Dito isto, levantou-se, atirando ao chão a lamparina de azeite, que se apagou,
e saiu batendo com a porta, Ficamos todos no escuro, estupefatos. Por fim, Paride,
depois de muito procurar, lá conseguiu encontrar a lamparina e acendeu-a, Mas
ninguém sentiu vontade de comentar aquela fúria de Michele; Paride disse somente,
com o ar embaraçado e soma de camponês que julga saber tudo:
“Michele fala bem e depressa... é filho de burgueses, não é camponês...”
Suponho que também as mulheres pensavam o mesmo: tudo aquilo eram
coisas de senhores que não cavam nem ganham a vida com o suor do seu rosto.
Concluindo, demos as boas-noites e fomos para a cama. Michele, no dia seguinte,
fingiu não se recordar já da cena, mas nunca mais se ofereceu para nos ler em voz
alta.
Nessa ocasião, porém, confirmei a opinião que formara de Michele no dia em
que ele nos disse que, em rapaz, pensara a sério em ser padre. Na realidade, como
então pensei, apesar de todos os seus discursos contra a religião, Michele
assemelhava-se mais aos padres do que aos homens vulgares, como Filippo e os
outros refugiados. Por exemplo, aquela sua fúria quando se deu conta, ao ler o
episódio de Lázaro, de que os camponeses não o compreendiam, não o escutavam
e se aborreciam, com uma pequena troca de palavras poderia tê-la qualquer pároco
de aldeia durante a prédica do domingo, ao aperceber-se, enquanto gesticulava no
púlpito, de que os paroquianos, na igreja, estavam distraídos e não lhe prestavam
atenção. Era, no fim das contas, a fúria dum padre que considera todos os outros
mortais como pecadores que é necessário instruir e levar ao bom caminho, e não a
de um homem que se julga semelhante aos outros homens.
Para terminar as minhas observações sobre o caráter de Michele, quero
contar outro pequeno episódio que confirma tudo quanto acabo de dizer. Como já
mencionei, ele nunca falava de mulheres nem de amor e parecia não ter nenhuma
experiência a esse respeito. Não apenas por falta de ocasião, mas, como se
compreenderá pelo que vou contar, principalmente por ser, neste capítulo, muito
diferente dos rapazes da sua idade. O caso foi o seguinte: Rosetta adquirira o
costume de todas as manhãs, mal saltava da cama, tirar a roupa e lavar-se
completamente nua. Eu ia buscar ao poço um balde cheio de água e dava-lho; ela
deitava metade dessa água por cima da cabeça, em seguida ensaboava o corpo
todo e por fim despejava a outra metade. Rosetta era muito asseada e a primeira
coisa que quis que eu comprasse aos camponeses, mal chegamos a Santa Eufêmia,
foi o sabão que eles faziam em casa, e continuou a lavar-se assim, mesmo no pino
do inverno, quando lá em cima fazia um frio próprio de montanha e de manhã a
água do poço estava tão gelada que o balde saltava no gelo antes de o partir e a
corda quase me cortava as mãos. Esse balde cheio de água, despejado por cima da
cabeça, verifiquei-o nas poucas vezes que quis imitar Rosetta, tirava-me a
respiração e fazia-me estar de boca aberta um minuto, sem falar. Pois numa dessas
manhãs Rosetta tinha-se lavado, como era seu costume, e estava a esfregar-se
fortemente com a toalha, perto da cama, com os pés em cima duma tabuazinha para
os não sujar na lama do chão. A minha filha tinha um corpo robusto, como mal se
podia imaginar pelo seu rosto meigo e delicado, de olhos grandes, nariz um pouco
comprido e boca carnuda a sobressair do queixo fugidio que a fazia parecer uma
cordeirinha. Tinha o peito não muito grande mas desenvolvido como uma mulher
feita que já tivesse sido mãe, os seios cheios e brancos, como se tivessem leite, os
biquinhos escuros muito arrebitados, como que a procurar a boca de um neném
acabado de dar à luz. O ventre, ao contrário, era mesmo o duma rapariga virgem:
liso, plano quase encovado. Pelas costas, então, era verdadeiramente bela, parecia
uma estátua, daquelas de mármore branco que se vêem nos jardins públicos de
Roma espáduas cheias e redondas, dorso longo e ao fundo uma pronunciada curva,
como a duma égua jovem, a dar relevo às nádegas brancas, redondas e
musculosas, tão bonitas e asseadas que me dava vontade de as comer com beijos,
como quando ela tinha dois anos. Sempre pensei que um homem, ao ver a minha
Rosetta nua, de pé, a esfregar com uma toalha, curvados rins, fazendo tremer um
pouco, a cada movimento, o lindo peito sólido e alto, devia ao menos perturbar-se,
ficar vermelho ou pálido, conforme o temperamento. E isto porque se pode ter o
pensamento noutra coisa, mas, no momento em que uma mulher se apresenta nua,
todos os pensamentos voam como passarinhos de uma árvore quando se dispara
um tiro: e não fica senão a perturbação do macho diante da fêmea. Ora Michele, não
sei como, numa dessas manhãs em que Rosetta estava, como disse, a limpar-se,
toda nua, a um canto do casinhoto, veio procurar-nos e, sem bater, empurrou a
porta, entreabrindo-a. Eu estava sentada logo à entrada e poderia avisá-lo, gritando-
lhe: “Não entres, Rosetta está a lavar-se!” No entanto, confesso, quase não me
desagradou que ele entrasse, assim de improviso, e isto porque uma mãe tem
sempre orgulho da filha e, nesse momento, mais forte do que a surpresa, e mesmo
do que a reprovação, foi a minha vaidade de mãe. Pensei: “Vai vê-la nua... pouco
mal faz, tanto mais que não é de propósito... verá como a minha Rosetta é bonita!”
Com este pensamento na cabeça, fiquei calada; e ele, iludido pelo meu silêncio
abriu a porta de par em par e ficou em frente de Rosetta, que entretanto procurava
em vão cobrir-se com a toalha. Eu observava-o: vi o um momento indeciso, quase
aborrecido por ver Rosetta assim nua: depois voltou-se para mim, dizendo à pressa
que o desculpasse, talvez fosse ainda muito cedo, mas de qualquer forma queria
dar-nos a grande novidade que ouvira nesse mesmo instante a um rapaz de
Pontecorvo que andava na montanha a vender tabaco: os Russos tinham
desencadeado uma grande ofensiva contra os Alemães e estes retiravam em toda a
frente. Acrescentou que tinha que fazer, ver-nos-ia mais tarde e foi-se. Nesse
mesmo dia encontrei maneira de lhe falar a sós e disse-lhe a sorrir:
“Tu, Michele, verdadeiramente não és como os outros rapazes da tua idade...”
Ele toldou-se um pouco e perguntou:
“Porquê?”
E eu:
“Tiveste diante dos olhos uma bonita rapariga como Rosetta, toda nua, e só
pensaste nos Russos e nos Alemães e na guerra: pode dizer-se que nem sequer a
viste.”
Ele ficou de mau humor, ou, antes, quase se zangou, e disse:
“Que tolice é essa? Admiro-me que sejas tu, a mãe dela, a falar dessa
maneira.”
Eu volvi-lhe então:
“Também o escaravelho é bonito para a mãe, não sabias, Michele? E que tem
isso? Por acaso te disse que viesses cá esta manhã e entrasses sem bater? Mas,
como entraste, talvez me zangasse se tivesses olhado Rosetta com demasiada
insistência, mas, no fundo, porque sou mãe, não me desagradaria de todo. Em vez
disso, nada, nem sequer a viste...”
Michele sorriu, um sorriso forçado, depois afirmou:
“Para mim essas coisas não existem.”
E foi esta a primeira e a última vez que falamos em tal assunto.
CAPÍTULO V

Depois da visita do Tonto e das suas ameaçadoras previsões de


recrutamentos, começou a chover. Durante todo o mês de outubro estivera um
tempo lindíssimo, céu sereno e ar fresco, limpo e sem vento. Com esse tempo,
naqueles dias sem fim que passávamos lá em cima, havia ao menos a distração
dum passeio qualquer ou, simplesmente, estar ao ar livre a contemplar o panorama
de Fondi. Mas numa daquelas manhãs o tempo mudou de repente: quando nos
levantamos, fazia calor, e ao olharmos para o lado do mar, vimos tudo enevoado e
muitas nuvens enormes e negras suspensas sobre o mar cinzento como por cima
duma panela a ferver. Essas nuvens não tardaram a invadir todo o céu ainda no
decorrer da manhã, empurradas por vento fraco e úmido, soprando também do mar.
Os refugiados, entendidos em todas mudanças, pois tinham nascido para aqueles
lados, disseram-nos que essas nuvens significavam que a chuva duraria enquanto o
siroco, vento que sopra do mar, não fosse substituído pela tramontana. E de fato
assim foi: por volta do meio-dia começaram a cair as primeiras gotas e nós
encafuamo-nos na casota à espera de que a chuva parasse.
Sim, é o pares... Choveu todo aquele dia e toda a noite e no dia seguinte o
mar estava mais sujo do que nunca e o céu era todo ele um novelo de nuvens
escuras que encarapuçavam as montanhas, e subiam do vale, com as rajadas de
vento úmido, mais nuvens prenhes de chuva. Depois de uma breve interrupção,
tornou a chover, e desde então, não sei quantos dias, talvez mais de um mês,
choveu sempre dia e noite.
Para quem mora na cidade, a chuva não tem importância. Se sai, caminha no
passeio ou no asfalto, debaixo de um guarda-chuva; se está em casa, anda em
pavimentos de madeira ou de mármore. Mas lá em cima em Santa Eufêmia, no
socalco e nas cabanas, a chuva era um verdadeiro castigo de Deus. Estávamos
todo o dia em case, naquela toca escura de teto inclinado, com a porta aberta
porque não havia janelas, a olhar para a chuva que caía e formava diante da porta
um véu úmido e fumegante. E ali ficávamos, eu sentada na cama e Rosetta na
cadeira que me dispensara Paride (pagando-lhe eu um tanto pelo aluguer, é claro), a
olhar para fora, aparvalhadas, sem dizer nada; se falávamos, era da chuva e dos
seus inconvenientes. Sair, nem pensar nisso. Só deixávamos o casinhoto em último
caso, por exemplo, para ir buscar lenha ou satisfazer as necessidades naturais e a
este respeito, embora o assunto não seja muito simpático, devo dizer que quem
nunca fez esta vida e mora na cidade, onde todas as habitações têm uma retrete e
até uma casa de banho, não imagina o que seja viver num lugar onde não há nada
disso. Duas ou três vezes por dia, pelo menos, as duas tínhamos de ir lá fora, ao
socalco, procurar uma sebe, atrás da qual levantávamos as saias e nos púnhamos
de cócoras; assim mesmo, como os animais. Papel higiênico não havia,
naturalmente, nem sequer jornais ou coisa parecida; assim, adquiríramos o hábito
de arrancar as folhas duma figueira que ficava mesmo ao lado da casota e
limpávamo-nos com elas, Com a chuva, naturalmente, tudo isto se tornou muito mais
difícil e desagradável andar no campo, afundando os pés na lama até ao tornozelo,
e depois, debaixo de chuva, levantar as saias e sentir a água fria e incômoda bater
na carne nua, e ter de se limpar em seguida a uma folha da figueira toda molhada e
viscosa, tudo isto são coisas que não desejo a ninguém, nem ao meu maior inimigo,
Acrescente-se que a chuva era tão aborrecida lá fora como dentro de casa; como
não havia pavimento no casinhoto, a lama era tanta que, de manhã, ao sairmos da
cama, tínhamos de saltar como rãs daqui para além, por cima dumas pedras
colocadas de propósito no chão, pois doutro modo ficaríamos com os pés
emporcalhados, da cor do chocolate. Em suma, a chuva penetrava em toda a parte,
deixando uma umidade impossível de descrever: qualquer coisa que fizéssemos,
mesmo o menor movimento, descobríamos logo que estávamos salpicadas de lama,
nas saias, nas pernas e não sei onde mais.
Lama no chão e chuva no céu; Paride e a família estavam habituados e
consolavam-se dizendo que essa chuva era normal e necessária e todos os anos
vinha e não havia nada a fazer senão esperar que parasse. Mas para nós as duas
era mesmo um tormento, pior do que tudo quanto tínhamos sofrido até então. Mas
ainda o maior de todos os males é que os Ingleses, devido ao mau tempo, pararam
em Garigliano e já não falavam em avançar. Naturalmente, mal os Ingleses
renunciaram a avançar, os Alemães, como depois soubemos, decidiram não retirar e
entrincheiraram-se onde estavam.
Não compreendo nada de guerras nem de batalhas; sei somente que, numa
daquelas manhãs de chuva, chegou lá acima um camponês, todo ofegante, com
uma grande folha de papel impressa: era uma ordem que os Alemães tinham
afixado em todas as localidades habitadas, Michele leu a e explicou-nos o que
continha: o comando alemão decidira mandar evacuar toda a zona entre o mar e a
montanha, incluindo a terra onde nos encontrávamos e que de fato vinha
mencionada no papel, Para cada localidade indicava o dia em que devia realizar-se
a mudança. Ninguém podia levar consigo malas nem sacos, mas apenas alguma
coisa de comer, Em resumo, todos tinham de abandonar casas, cabanas, animais,
alfaias, móveis e outros haveres, pegar nos filhos ao colo e caminhar pelos montes,
por carreiros impossíveis, debaixo de chuva, recuando sempre em direção a Roma,
E naturalmente esses safados dos Alemães, esses filhos duma cabra, ameaçavam
com as penas do costume quem não obedecesse: prisão, confiscação, deportação,
fuzilamento. A nossa terreola estava indicada para ser completamente evacuada
dentro de quarenta e oito horas. Daí a quatro dias toda a região devia estar
desabitada para Alemães e Ingleses terem espaço suficiente para poderem matar-se
uns aos outros mais à vontade.
Filippo e os restantes refugiados, tal como os camponeses, tinham-se
habituado já a considerar os Alemães como a única autoridade que existia agora na
Itália; assim, a sua primeira reação foi mais de desespero do que de revolta, Os
Alemães queriam qualquer coisa impossível, mas eram eles a autoridade e, como
não havia outra, tinham de obedecer, ou então... ou então não sabiam o que fazer...
Os refugiados, que já tinham abandonado as suas casas de Fondi, sabiam o
que significa fugir e, ante a perspectiva de andarem de novo pelos carreiros das
montanhas, naquela estação gelada, com a chuva que não parava de cair de manhã
até à noite, com a lama que tornava impossível caminhar, não só até Roma, mas
mesmo até o fundo do socalco, sem destino, sem guia, sem lugar certo para onde ir,
entregaram-se ao desespero. As mulheres choravam e os homens praguejavam e
diziam palavrões ou ficavam abatidos e calados. Os camponeses como Paride e as
outras famílias, pelo seu lado, tudo gente que penara uma vida inteira a construir
com as próprias mãos aqueles socalcos, a cultivá-los, a erguer as casas e as
cabanas, mais do que desesperados, estavam, sim, estupefatos: quase não
acreditavam. Um repetia: “E para onde vamos?” Outro queria que lhe lessem
novamente o edital, palavra por palavra. Outro dizia, depois de lho terem lido: “Não
pode ser. É impossível!” Pobrezinhos, não compreendiam que para os Alemães o
impossível não existia, tanto mais quando se tratava do mal dos outros.
A cunhada de Paride, a Anita, cujo marido estava na Rússia e tinha três filhos
pequeninos, exprimiu o sentimento geral declarando de repente, sem ênfase, antes
com calma:
“Eu, em vez de me ir embora, mato primeiro os filhos e dou cabo de mim em
seguida.”
E percebi que ela não dizia aquilo por desespero, mas sim porque
compreendia que andar com três filhos pequeninos, em pleno inverno, pelos
carreiros da montanha significava condená-los à morte: mais valia portanto matá-los
logo, sofriam menos.
O único que não perdeu a cabeça nessa ocasião foi Michele e creio que isso
se devia ao fato de ele não reconhecer a autoridade dos Alemães, considerando-os,
como dizia muitas vezes, bandidos, malfeitores e delinqüentes, que provisoriamente
eram os mais fortes porque tinham armas e se serviam delas. Depois de ler a
proclamação do comando alemão, limitou-se a dizer, com um riso sarcástico:
“Quem dizia que os Ingleses e os Alemães são a mesma coisa e tanto valem
uns como outros dê um passo em frente.”
Ninguém fugiu nem mugiu, e menos ainda Filippo, o pai dele, a quem essas
palavras eram dirigidas. Estávamos todos reunidos na cabana, em volta do fogo, e
Paride observou-lhe:
“Tu troças de tudo, Michele, mas para nós isto significa a morte... temos aqui
as casas, os animais, as alfaias, temos aqui tudo... se nos vamos embora, o que vai
ser de tudo isto?”
Michele, como já tive ocasião de dizer, era um tipo curioso, bom e ao mesmo
tempo duro, generoso, se quisermos, mas também cruel. Pôs-se a rir de novo e
disse:
“Bem, perdem tudo quanto têm e depois morrem... o que há nisso de
extraordinário?... Não perderam tudo e não morreram os Polacos, os Franceses, os
Checoslovacos, em suma, todos os que sofreram a ocupação alemã?... Agora toca-
nos a nós, Italianos... Enquanto isso sucedia aos outros, ninguém abriu o bico...
Agora toca-nos a nós... hoje a mim, amanhã a ti...”
Todos ficaram consternados ao ouvir estas palavras e Filippo mais do que
nenhum outro, pois, via-se bem, todo ele tremia de medo. Disse ao filho:
“Estás sempre a brincar... mas bem vês que não é momento próprio para
brincadeiras.”
E Michele:
“Mas que te importa? Não disseste que para ti Alemães e Ingleses eram a
mesma coisa?”
Filippo então perguntou:
“Em resumo, o que vamos fazer?”
E, pela primeira vez, vi que toda a sua sabedoria, baseada na frase “aqui
ninguém é tolo”, não valia o fumo de um cigarro, não só para nós, mas para ele
também. Michele encolheu os ombros:
“Os Alemães não são os senhores? Pois vão ter com eles e perguntem-lhes o
que devem fazer... Claro, eles dirão que cumpram o que está escrito no papel.”
Paride nessa altura pronunciou uma frase mais ou menos como a de Anita
sobre os filhos:
“Eu agarro a espingarda e, assim que vir o primeiro alemão, mato-o... depois,
eles matam-me também, mas paciência... ao menos não vou sozinho para o outro
mundo...”
Michele riu e comentou:
“Bravo, começas a raciocinar como deve ser.”
Ficamos todos indecisos, enquanto Michele continuava a troçar e os outros
olhavam aparvalhados para o fogo que se apagava. Por fim Michele pôs-se sério e
disse:
“Querem saber o que têm a fazer?”
Todos o olharam cheios de esperança. Michele prosseguiu:
“Não devem fazer nada, eis tudo. Façam de conta que não viram este edital.
Fiquem onde estão, continuem a vida do costume, ignorem os Alemães e as suas
proclamações e as suas ameaças. Se eles quiserem evacuar esta região, terão de o
fazer à força, e não com bocados de papel, que não valem nada. Os Ingleses
também têm força; porém, por causa do mau tempo, não podem empregá-la e
pararam. O mesmo acontece aos Alemães. Se ninguém se mexer donde está, hão
de pensar duas vezes antes de mandar os soldados cá acima, por esses carreiros
fora. E, se vierem, terão de nos levar em charola. Façam-se surdos. Depois
veremos. Não sabem que os Alemães e os fascistas põem editais por toda a parte,
ameaçando sempre com a pena de morte quem lhes não obedecer? Eu próprio
estava mobilizado em 25 de Julho e desertei; depois eles fizeram uma proclamação
ordenando, sob pena de morte, que nos apresentássemos na repartição respectiva.
E eu, em vez de ir apresentar-me, vim para aqui. Façam pois como eu fiz, não se
mexam.”
Era o mais simples, o pensamento mais justo naquela ocasião; mas a
ninguém lhe passara tal idéia pela cabeça, pois, como já disse, todos consideravam
os Alemães a única autoridade e todos tinham necessidade duma autoridade, fosse
ela qual fosse; além disso, quando uma coisa está impressa no papel, ninguém se
atreve a fazer-lhe a mais pequena objeção.
Mas foram para a cama nessa noite já quase sossegados, pelo menos com
mais confiança do que quando se levantaram de manhã, e no dia seguinte, como
que por milagre, não se tornou a ouvir falar dos Alemães nem do edital. Foi como se
todos tivessem passado palavra uns aos outros para não falarem no assunto,
continuando a vida como se nada tivesse acontecido. Passaram os dias e viu-se que
Michele tinha razão, pois ninguém se mexeu em Santa Eufêmia nem, segundo
soubemos, nos outros lugares das proximidades; os Alemães mudaram de idéias,
renunciando à evacuação, pois não ouvimos falar mais dos editais.
Quantos dias choveu? Eu digo que choveu pelo menos durante quarenta dias,
como no dilúvio universal. E, além da chuva, fazia também frio, pois estávamos no
inverno e aquele vento, que vinha do mar em rajadas cheias de umidade e nevoeiro,
era gelado e a água que as nuvens descarregavam todos os dias na montanha
parecia uma mistura de neve e gelo e feria a cara como se a picassem com
alfinetes. Para nos aquecermos no quartito não tínhamos senão uma braseira cheia
de carvão miúdo que púnhamos ao pé dos joelhos, mas a maior parte do tempo
estávamos metidas na cama, enroscadas uma na outra, ou então na cabana, no
escuro, diante do fogo sempre aceso. Chovia toda a manhã; por volta do meio-dia
havia uma aberta, mas insuficiente, com todas aquelas nuvens franjadas e rasgadas
suspensas no céu como que para tomarem fôlego e o mar mais sujo e mais
nebuloso do que nunca; à tarde continuava a chover e chovia até à noite e depois
durante toda a noite. Nós as duas estávamos sempre com Michele, ele falava e nós
ouvíamos. Do que falava? De tudo um pouco, gostava de falar, tinha o ar de um
professor ou de um pregador e muitas vezes lhe disse:
“É pena que não tenhas estudado para padre, Michele... Que lindas prédicas
farias aos domingos.”
Com isto não quero dizer que fosse um palrador; dizia sempre alguma coisa
que interessava, ao passo que os palradores se tornam aborrecidos e às duas por
três já ninguém os ouve; a ele dava-nos sempre vontade de o escutar e por vezes
até me sucedia suspender o trabalho de malha para ouvir melhor alguns dos seus
raciocínios. Quando falava, não dava atenção a mais nada, nem ao tempo que
passava, nem à lâmpada que se extinguia, nem ao fato de eu e Rosetta podermos
querer estar sozinhas por qualquer motivo particular. Prosseguia, entusiasmado,
monótono, cheio de boa-fé, e quando o interrompia, dizendo: “Bem, são horas de
jantar”, ficava mal disposto, desconcertado, com um modo sombrio que parecia
significar: “Eis para que serve falar com mulheres ignorantes e fúteis... Só para
perder tempo...”
Durante aqueles quarenta dias de chuva não sucedeu nada de notável, a não
ser o caso que vou contar e diz respeito a Filippo e ao seu meeiro Vincenzo. Numa
daquelas manhãs de chuviscos em que o céu, como de costume, era todo um
novelo de nuvens escuras que subiam sem cessar do panelão do mar, eu e Rosetta
fomos assistir à matança duma cabra que Filippo comprara a Paride e tencionava
vender-nos a retalho, depois de ficar com uma parte para ele. A cabra, branca e
preta, estava amarrada a um pau e os refugiados, como não tinham nada que fazer,
observavam-na, calculando-lhe o peso e quanta carne ficaria depois de lhe tirarem a
pele e a limparem. Rosetta, enquanto estávamos ali de pé debaixo da chuva fina,
com os sapatos na lama, disse-me baixinho:
“Mamã, aquela pobre cabra faz-me pena... agora está viva, mas daqui a
pouco matam-na... se dependesse de mim, não a matariam.”
Respondi-lhe:
“E que comerias depois?”
Ela volveu:
“Pão e hortaliça... que necessidade há de comer carne? Eu também sou feita
de carne e a minha carne não é, no fundo, muito diferente da carne desta cabra...
Que culpa tem ela de ser um animal e não poder raciocinar nem defender-se?”
Cito por completo as palavras de Rosetta sobretudo para dar uma idéia de
como ela raciocinava e pensava ainda naquele tempo, em plena guerra e com a
carestia. Talvez pareçam palavras um pouco ingênuas ou tolas, mas testemunham a
perfeição a que já aludi, muito sua, na qual não se conseguia descobrir nenhum
defeito, tal qual como uma santa, e que talvez resultasse da sua inexperiência e
ignorância, mas, em qualquer dos casos, sincera e do coração. Mais tarde, como já
disse, percebi que essa perfeição era frágil e quase artificial, como a de uma flor
crescida numa estufa, que, uma vez levada para o ar livre, imediatamente murcha e
morre; mas naquele momento não pude deixar de me enternecer e de pensar que
tinha uma filha muito boa e sensível e que não fizera nada para a merecer.
Entretanto, o açougueiro, um tal Ignazio, de quem se podia julgar tudo menos
que tivesse aquele oficio, um tipo melancólico e indolente, com uma madeixa de
cabelos grisalhos caída para a testa, bigodes compridos e olhos azuis encovados,
tirara o casaco, ficando em mangas de camisa. Numa mesinha junto do pau onde a
cabra estava amarrada tinham-lhe posto duas facas e uma tigela, mesmo como nos
hospitais quando se faz uma operação. Ignazio pegou numa das facas,
experimentou o fio na palma da mão, depois aproximou-se da cabra e agarrou-a
pelos chifres, puxando-lhe a cabeça para trás. A cabra revirava os olhos, até parecia
irem-lhe sair das órbitas, cheia de medo, dir-se-ia compreender tudo, e soltava
balidos que soavam mesmo como lamentos. Parecia dizer: “Não me mates, tem
piedade!” Mas Ignazio mordeu o lábio inferior e dum só golpe espetou-lhe a faca nas
goelas, até o cabo, continuando a agarrá-la pelos chifres. Filippo fazia de ajudante,
foi rápido a pôr a tigela debaixo das goelas do bicho; o sangue jorrou da ferida como
duma fonte, negro e denso, quente, a fumegar. A cabra estremeceu, depois
semicerrou os olhos, já um pouco embaciados, como se, à medida que o sangue
escorria para a tigela, a vida lhe fugisse e, com a vida, também o olhar; por fim
dobrou os joelhos e abandonou-se, dir-se-ia que confiante ainda, nas mãos daquele
que a matara.
Rosetta afastara-se debaixo da chuva que continuava a cair e eu queria
segui-la, mas, por outro lado, precisava estar ali presente porque a carne era pouca
e não podia perdê-la, além disso, Filippo prometera-me as tripas, que são muito
boas assadas na grelha, em fogo brando de lenha de carvão. Ignazio, entretanto,
erguera a cabra pelas patas traseiras e, arrastando-a na lama, fora pendurá-la em
dois paus, pouco mais adiante, de cabeça para baixo e as patas uma para cada
lado. Todos nos juntamos em redor para o ver trabalhar.
Antes de mais nada, Ignazio pegou numa das patas anteriores e cortou-lhe o
pé, assim como se decepasse uma das mãos pelo pulso. Em seguida pegou num
pauzinho fino, mas duro, e introduziu-o entre o couro e a carne: a pele da cabra está
ligada à carne apenas por filamentos e pouco é preciso para a separar, como se fora
um papel mal colado. Introduzido o pauzinho, andou com ele em volta, de modo a
fazer um buraco, e depois deitou-o fora, meteu a pata na boca, à maneira duma
flauta, e soprou para dentro com toda a força, até ficar com as veias do pescoço
grossas e as faces roxas. Soprando sempre, a cabra começou a inchar à medida
que o sopro de Ignazio se introduzia e circulava entre o couro e a carne. Ignazio
continuou a soprar e por fim a cabra pendia entre os dois paus, cheia como um odre,
quase com o dobro do tamanho. Só então ele abandonou a pata, limpou a boca suja
de sangue e, com a faca, cortou a pele a todo o comprimento da barriga, desde a
virilha até o pescoço. Depois, com as mãos, começou a despegar a pele da carne.
Era verdadeiramente uma coisa estranha ver como a pele saía tão facilmente,
semelhante a uma luva que se descalça da mão, conforme ele ia puxando e com a
faca cortava aqui e ali os filamentos que ainda estavam presos. Em resumo, acabou
de tirar devagarinho toda a pele e deitou-a para o chão, peluda e ensangüentada,
semelhante a um vestido velho; agora a cabra estava nua, por assim dizer, muito
vermelha, com algumas manchas brancas e azuladas aqui e além. Continuava a
chuviscar, mas ninguém se afastava: Ignazio pegou novamente na faca, abriu ao
comprido a barriga da cabra, meteu as mãos lá dentro e gritou, imediatamente, para
mim:
“Cesira, apara nos braços.”
Eu acorri logo e ele tirou para fora o rolo das tripas, soltando-as uma por uma,
com ordem, como se fosse uma meada. De vez em quando cortava-as e punha-mas
nos braços; estavam ainda quentes, cheiravam mal a valer e sujavam-me toda.
Ignazio ia repetindo, como se falasse consigo mesmo:
“Isto é um prato de reis, ou, melhor, tratando-se de mulheres, de rainhas...
Bem limpas e assadas em lume brando...”
Nesse momento ouviu-se uma voz chamar:
“Filippo! Filippo!”
Voltamo-nos todos e eis que aparece no socalco, primeiro a cabeça, depois
os ombros e por fim o corpo inteiro de Vincenzo, o meeiro de Filippo, em casa do
qual tínhamos morado antes de subirmos para Santa Eufêmia. Mais do que nunca
semelhante a um passarão depenado, o nariz adunco, os olhos encovados,
ofegante, sujo de lama, encharcado até os ossos, ainda antes de chegar ao socalco
já vinha a gritar:
“Filippo, Filippo, aconteceu uma desgraça... aconteceu uma desgraça!...”
Filippo, que, como todos nós, estava a observar Ignazio, correu ao seu
encontro, de olhos arregalados:
“Que aconteceu, fala, que aconteceu?”
Mas o outro, astuto, fingia ter perdido o fôlego com a subida e comprimia a
mão no peito, repetindo em voz cavernosa:
“Uma grande desgraça!”
Todos tínhamos deixado Ignazio e a cabra para nos juntarmos em volta de
Filippo e do meeiro: a janela da casa de Filippo, um pouco mais acima, abriu-se
entretanto e apareceram nela duas mulheres, a esposa e a filha. O meeiro, por fim,
explicou:
“Aconteceu que vieram os alemães e os fascistas, bateram nas paredes,
encontraram o esconderijo e deitaram abaixo o muro.”
Filippo interrompeu-o com um urro:
“E roubaram as minhas coisas?”
“Claro”, respondeu o outro, encorajado não sei porque, talvez por ter dado já
a notícia, “roubaram tudo, não deixaram nada, mesmo nada...”
E disse isto em voz tão alta que a mulher e a filha de Filippo, à janela, o
ouviram e começaram imediatamente a lamuriar-se em altos gritos e a agitar os
braços, debruçando-se no parapeito. Mas Filippo não perdeu tempo com mais
explicações:
“Não é verdade, não é verdade”, pôs-se a berrar. “Tu é que me roubaste,
foste tu o ladrão... Qual alemão, qual fascista!... Foste tu e aquela bruxa da tua
mulher e os malandros dos teus filhos! Conheço-os a todos. São uma corja de
ladrões, não respeitam sequer um compadre...”
Gritava como um possesso e de repente tirou de cima da mesa uma das
facas de Ignazio, agarrou Vincenzo pelo pescoço e preparava-se para o agredir. Por
sorte, alguns refugiados saltaram-lhe rapidamente em cima: e, enquanto quatro o
seguravam pelos braços, ele lançava o peito e a cabeça para frente, com espuma na
boca, a gritar:
“Deixem-me, que eu mato-o, deixem me, que quero matá-lo!”
Por sua vez, as duas mulheres agitavam-se à janela e gritavam:
“Estamos desgraçadas! Estamos desgraçadas!”
E a chuva caia sem parar, encharcando todos. Mas Michele, que estivera a
observar a cena, podia dizer-se quase com satisfação, como se sentisse prazer em
que a irmã perdesse o enxoval e a mãe todos os haveres, aproximou-se
repentinamente de Vincenzo, que continuava a protestar:
“Não fui eu que roubei! Foram os alemães, foram os fascistas, nós não
tivemos nada com isso!”, e, como se já soubesse, meteu-lhe a mão no bolso do
casaco e tirou de lá uma caixinha, pronunciando, muito calmo: “Aqui está quem
roubou. Foste tu... Este anel pertence a minha irmã.”
E, dizendo isto, abria a caixinha e mostrava, de fato, um pequeno anel com
um brilhante que, como soube depois, fora oferecido por Filippo à filha, no dia dos
seus anos. Filippo, mal viu o anel, deu um grande grito e, libertando-se com um
safanão dos que o retinham, atirou-se a Vincenzo de faca em punho. Mas o meeiro
foi mais lesto ainda e, safando-se por sua vez dos que o cercavam, lançou-se pelo
socalco abaixo. Filippo, naturalmente, queria segui-lo, mas compreendeu que de
nada lhe servia: era baixo e barrigudo e o meeiro magro e alto, com pernas de
avestruz. Então apanhou uma pedra do chão e atirou-a, berrando:
“Ladrão, ladrão!”
Ele não correu, mas correram outros, não porque se importassem com as
coisas de Filippo, mas sim porque, quando há uma rixa, todos aquecem e querem
fazer o gosto às mãos. Assim, vi dois ou três rapazes correrem de socalco em
socalco, quase voando atrás do velho, que corria como uma lebre. Alcançaram-no,
por fim, agarraram-no pelos braços e obrigaram no a subir novamente. Filippo, que
durante todo este tempo continuara a atirar pedras suficientemente grandes para
matar um homem, agora, cansado e ansioso, esperava na beira do socalco que lhe
trouxessem o meeiro; tinha na mão a faca de Ignazio, ainda vermelha do sangue da
cabra. Então Michele aproximou-se do pai e disse-lhe calmamente:
“Aconselho-te a ir para casa.”
“Mas eu mato-o!”
“Vai para casa.”
“Eu quero matá-lo, tenho de o matar!”
“Dá-me a faca e vai para casa.”
Com grande pasmo meu, vi Filippo aquietar-se diante do filho muito calmo:
pousou a faca em cima da mesa e encaminhou-se para casa, donde agora saíam
gritos e gemidos como de um purgatório. Assim, no meio do socalco, apenas ficou,
debaixo da chuva que continuava a cair, a pobre cabra aberta ao meio, suspensa
nos dois paus.
Entretanto, Vincenzo e os rapazes que o perseguiram, chegaram onde
estávamos e os camponeses e os refugiados voltaram a reunir-se em sua volta,
perguntando-lhe o que tinha feito, mais por curiosidade, como observei, do que com
reprovação. Vincenzo não se fez rogado:
“Eu não queria”, disse com aquela voz de orco, “nenhum de nós queria... que
diabo, somos compadres... ele batizou o meu filho, eu batizei-lhe a filha... o sangue
não é água, pois não? Teria preferido, juro-o, cortar uma das mãos a roubá-lo... que
eu morra já aqui fulminado por um raio se isto não é verdade...”
“Acreditamos, Vincenzo, acreditamos... mas então porque roubaste?”
“Uma voz... ouvi uma voz dentro de mim, dias e dias, uma voz a repetir: pega
num martelo e deita abaixo a parede... pega num martelo e deita abaixo a parede...
Uma voz que não me deixava sossegar de noite nem de dia.”
“E assim, Vincenzo, pegaste por fim num martelo e deitaste abaixo a
parede... não é verdade?”
“Assim mesmo...”
Todos os refugiados e camponeses deram uma grande gargalhada e, depois
de mais algumas perguntas, deixaram-no e voltaram para junto de Ignazio e da
cabra. Vincenzo, porém, não se foi logo embora. Começou a andar por ali, de uma
casa para outra, de uma cabana para outra, e em toda a parte pedia de beber e
repetia a história da voz e fazia rir toda a gente; mas ele não ria, quedava-se com ar
apalermado, qual pássaro de mau agouro, e parecia não compreender sequer a
razão por que nós ríamos. Por fim, à noite, foi-se embora, de rabo entre as pernas,
como se o roubado fosse ele, e não Filippo.
Michele, nessa noite, apareceu na cabana, onde eu estava a assar as tripas
da cabra, na companhia de Paride e da família, e disse à guisa de comentário:
“O meu pai não é mau, mas por causa de quatro lençóis e algum ouro, por
pouco não matava um homem, ao passo que todos nós, por uma idéia, nem somos
capazes de matar um frango...”
Paride proferiu devagar, fixando o fogo:
“Michele, não sabes que para os homens contam mais os haveres do que as
idéias? Olha, por exemplo, o padre: se em confissão lhe disseres que roubaste, ele,
quando muito, ordena-te que, em penitência, rezes uma oração qualquer a S. José
e, no fim, absolve-te. Mas, se fores à casa paroquial e lhe roubares, sei lá, um talher
de prata, verás como grita... Imediatamente, em vez de te absolver, manda chamar o
chefe dos carabineiros para te prender... Se isto é assim com um padre, que é
padre, pensa o que não será conosco, que não somos padres.”
Foi só isto que aconteceu de notável durante os dias de chuva. O resto,
apenas o costume: conversas sobre a guerra e o tempo, o que farÍamos quando os
Ingleses chegassem, e principalmente grandes sonos, doze e catorze horas sempre
a dormir; de vez em quando acordávamos e, depois de ouvir, por alguns momentos,
a chuva crepitar nas telhas e gorgolhar no algeroz, tornávamos a dormir ainda mais
profundamente, abraçadas uma à outra, naquele leito feito de tábuas
desconjuntadas e um saco cheio de palha de milho seca, que às vezes se abria
debaixo de nós e ameaçava deixar-nos cair no chão.
Para a família de Filippo e, em geral, para todos os refugiados, a grande
ocupação era uma só: comer. Pode dizer-se que não faziam outra coisa senão
banquetear-se de manhã até à noite, nadando em abundancia. Afirmavam que era
preciso comer, porque era a única maneira de combater a melancolia; diziam
também que o melhor era gastar as provisões, pois com a chegada dos Ingleses
viria a abundância, os preços baixavam e aquelas coisas ninguém mais as queria.
Mas eu pensava comigo própria: “Confiar é bom, mas não confiar é ainda melhor.”
Estava igualmente convencida de que os Ingleses viriam. Mas quando? Bastava que
por qualquer motivo se atrasassem um mês ou dois, e todos morreríamos de fome.
Assim, enquanto os outros se empanzinavam, eu, na nossa casinha, fazia
racionamento. Comíamos uma única vez por dia, por volta das sete horas: uma
panelinha cheia de feijões e um bocadinho de carne, as mais das vezes de cabra,
um pouco de pão, sempre a mesma quantidade, e alguns figos secos. Às vezes
fazia polenta, outros dias, em lugar de feijões, era grão-de-bico ou ervilhas e, em vez
de cabra, vaca. De manhã cortava para mim e para Rosetta uma fatia de pão e, com
o pão, comíamos uma cebola crua. Ou nem pão comíamos e roíamos algumas
alfarrobas, que vulgarmente se dão aos cavalos, mas que em tempo de carestia
servem até para os cristãos. Rosetta queixava-se freqüentemente de que tinha
fome; compreende-se, era jovem, e eu então aconselhava-a a dormir, porque, já se
sabe, dormir é como comer: consome-se pouco e acumulam-se forças. Em suma,
imitava os camponeses, que, ao contrário dos refugiados, eram prudentes, ou,
antes, avaros, e dir-se-iam que pesavam a comida numa balancinha de ourives. É
verdade que eles estavam habituados à escassez e sabiam por instinto que com os
Alemães ou os Ingleses nunca teriam o bastante para matar a fome, pois lhes
faltava sempre o dinheiro e a colheita nunca chegavam para todo o ano. Assim, em
certo sentido, sentia-me mais camponesa do que refugiada e não podia deixar de
experimentar até antipatia pelos refugiados, a maior parte deles comerciantes que
tinham amealhado uns cobres à custa da pele dos outros e esperavam, mal
chegassem os Ingleses, voltar a amealhar mais do mesmo modo. Qualquer um
poderá dizer que também eu era comerciante; é verdade, mas nascera camponesa
e agora, em contato com a terra e os camponeses, sentia-me outra vez tal como nos
tempos em que, ainda rapariga, abandonara a aldeia para ir casar em Roma.
Assim se passaram uns quarenta dias; depois, lá para os fins de Dezembro,
uma bela manhã levantamo-nos como de costume e vimos que durante a noite o
vento mudara. O céu estava dum azul-duro, luminoso, profundo, ainda avermelhado
pela aurora, com muitas nuvenzinhas vermelhas e cinzentas afastando-se para
longe, as últimas desses dias de chuva. Lá em baixo, para os lados de Ponza, via-se
brilhar o mar pela primeira vez depois de tanto tempo, um mar azul-escuro, quase
negro. A planura de Fondi, sob o manto de invernia, mais cinzenta do que verde,
fumegava na névoa da manhã, como no alvorecer dum belo dia de sol, seco e
esplendoroso. Dos montes soprava a tramontana, fria, cortante, fazendo agitar e
bater uns nos outros os ramos nus da árvore que ficava perto do nosso casinhoto. A
lama, quando saí, estava dura, com crosta, rangia debaixo dos pés e brilhava aqui e
além como se lhe tivessem misturado estilhaços de vidro: durante a noite geara.
Esta mudança de tempo deu novas esperanças aos refugiados, que saíram todos
das suas casas, na manhã gelada, e começaram a abraçar-se em sinal de regozijo:
agora, com o bom tempo, os Ingleses fariam um grande avanço e acabavam todos
os tormentos.
Os Ingleses chegaram, de fato, pontuais, mas não como os esperavam os
refugiados. Nessa primeira manhã de bom tempo, aí por volta das onze horas,
quando estávamos no socalco a apanhar sol, como lagartixas friorentas, ouvimos
repentinamente um fragor longínquo que, à medida que se aproximava, se ia
tornando cada vez mais amplo e majestoso e parecia encher todo o céu. Os
refugiados, passado um momento de incerteza, compreenderam e, tal como eles, eu
compreendi também, pois ouvira aquele mesmo fragor muitas vezes em Roma, tanto
de noite como de dia:
“Os Ingleses, os aviões, aí estão os aviões ingleses...”
E, de fato, por trás duma montanha, no céu luminoso e limpo, apareceu o
primeiro grupo de quatro aviões. Eram brancos e lindos, cintilavam ao sol, pareciam,
lá em cima, no céu, aquelas jóias de filigrana de prata que se fazem em Veneza.
Logo a seguir apareceram outros quatro, e depois mais quatro, doze ao todo.
Voavam muito certos, como se os ligasse um fio invisível, e, garanto, embora o seu
fragor enchesse o céu e me fizesse recordar muitas horas más vividas em Roma,
também me exaltei ao ouvi-lo, porque nele me parecia sentir uma voz terrível, mas
boa para nós, Italianos, a intimar os fascistas e os Alemães a irem-se embora.
Assim, foi de coração em expectativa e cheio de esperança que os vi dirigirem-se,
muito confiantes, para a cidade de Fondi, lá ao longe, no vale, mancha de casinhas
brancas cercada pelo verde-escuro dos laranjais. E depois o céu, em redor dos
aviões, começou a salpicar-se de pequenos farrapos brancos e logo se ouviu o
estrondear seco e apressado da artilharia antiaérea. Eram não sei quantos canhões
que disparavam de todos os lados, lá em baixo, no vale. Os refugiados gritavam:
“Disparem para aí, desgraçados, que disparam em vão... agarram-nos amanhã...
sim, disparem, disparem, que não lhes fazem mossa.” Efetivamente, aquele
canhoneiro não parecia preocupar os aviões, que entretanto continuavam a avançar
no céu. Depois, uma explosão maior e mais funda, e vimos uma nuvem branca, não
já no céu, mas em terra, no meio das casas e jardins de Fondi. Os aviões tinham
principiado a despejar as suas bombas.
O que se passou após essa primeira explosão, recorda-lo-ei durante muito
tempo, quando mais não seja, por ter visto tanta gente passar da alegria à dor em
poucos minutos. As bombas agora caíam umas a seguir às outras, dentro da cidade,
sobre a qual as nuvens brancas das explosões se multiplicavam a olhos vistos.
E todos aqueles refugiados, antes tão contentes, começaram a gritar lá em
cima, chorando e lamentando-se em altos gritos, como a filha e a mulher de Filippo
quando Vincenzo anunciou que os alemães lhes tinham roubado o enxoval. Todos
gritavam, correndo de um lado para outro e agitando os braços como se quisessem
deter os aviões: “A minha casa, a minha casa, assassinos! Destroem-nos as casas,
pobres de nós, as nossas casas!...” E entretanto as bombas continuavam a cair
como frutos maduros duma árvore que se abana e a artilharia antiaérea continuava
a disparar, insistente e raivosa, com um barulho de ensurdecer, e não só enchia o
céu, como parecia também fazer tremer a terra. Os aviões foram até ao fundo do
vale, para os lados do mar, e lá longe, onde o mar cintilava ao sol, viraram e
voltaram para trás e deitaram mais bombas, enquanto os refugiados, que por
instantes se calaram, julgando que eles se tinham ido embora, recomeçaram a gritar
e a chorar mais forte do que a primeira vez. Mas, quando a esquadrilha, inflexível e
segura, se afastava já na direção donde viera, eis que o segundo avião do último
grupo lança uma grande chama vermelha, semelhante a uma charpa ondulando no
céu azul. A antiaérea ferira-o de morte e o avião ficava para trás dos outros e aquela
charpa de fogo ondulava em volta da pequena máquina branca, cada vez maior e
mais vermelha. Os refugiados agora gritavam: “Bravo, alemães, deitem abaixo esses
assassinos, deitem-nos abaixo!” Rosetta exclamou, de súbito:
“Olha, mamã, que lindo, os pára-quedistas!”
E, de fato, enquanto o avião ferido se afastava em chamas em direção ao
mar, vi abrirem-se no céu, um após outro, os grandes guarda-chuvas brancos dos
pára-quedas, e cada um deles trazia uma coisinha preta pendurada em baixo e que
se movia ao sabor do vento: um aviador. Abriram-se sete ou oito pára-quedas, que
desciam lentamente; a antiaérea já não disparava; O anão atingido, cambaleando e
baixando, desaparecera por trás deu-ma colina; em seguida ouviu-se uma explosão
fortíssima e, depois, mais nada. Agora havia de novo silêncio; distinguia-se apenas
um eco metálico na lonjura, para os lados onde tinha desaparecido a esquadrilha; e
lá em cima não se ouviam senão os choros e os gritos dos refugiados; os
pára-quedistas prateados continuavam a descer lentamente e todo o vale de Fondi
estava envolto num fumo cinzento, aqui e além avermelhado pelas chamas dos
incêndios.
Foi assim que chegaram os Ingleses, mas para destruir as casas dos
refugiados. Também nessa ocasião se manifestou a estranha dureza de Michele,
duma forma que eu não esperara. Na mesma noite, quando falávamos, na cabana,
dos bombardeamentos, proferiu de repente:
“Sabes o que diziam esses refugiados que choram agora as suas casas
destruídas, quando os jornais anunciavam que os nossos tinham bombardeado
qualquer cidade inimiga? Pois bem, diziam, que os ouvi eu com os meus ouvidos:
'Se os bombardeiam, é porque o merecem.'“
Eu perguntei-lhe:
“Mas não te faz pena que todos esses pobres fiquem sem as suas casas e
sejam obrigados a andar de terra em terra, sem nada, como ciganos?”
E ele:
“Sim, faz-me pena, como me fez pena os outros que perderam as suas casas
antes deles. Afirmo-te, Cesira, hoje a mim, amanhã a ti... Aplaudiram quando eram
bombardeadas as casas dos Ingleses, Franceses, Russos; agora chegou também a
sua vez... Não será isto justo? Tu, Rosetta, que crês em Deus, não vês nisto o dedo
da providência divina?”
Rosetta não disse nada, como de costume quando ele falava de religião; e a
conversa ficou por ali.
Depois daquele primeiro bombardeamento, os refugiados precipitaram-se
para o vale, a ver o que sucedera às suas casas; quase todos voltaram com a boa
noticia de que a maior parte delas se tinha salvo e que, no fim de contas, as ruínas
não eram tão terríveis como se receara à primeira vista.
Havia, é verdade, alguns mortos: um velho mendigo que dormia numa casa
semi-arruinada da periferia e, parece impossível, aquele fascista chamado
Scimmiozzo, que nos ameaçara com a espingarda quando morávamos em casa de
Concetta. Scimmiozzo morreu como tinha vivido: nessa manhã, aproveitando o bom
tempo, fora a Fondi e arrombara a porta de uma retrosaria. Uma bomba fizera ruir a
casa e ele ficou lá debaixo. Encontraram-no no meio de fitas e botões, com o roubo
nas mãos ainda fechadas. Ao saber isto, disse a Rosetta:
“Enquanto morrer gente desta espécie, abençoada seja a guerra.”
Mas ela surpreendeu-me, mostrando-me os olhos cheios de lágrimas e
dizendo:
“Não digas isso, mamã... era também um pobre homem...”
E à noite quis rezar uma oração por sua alma, embora ele tivesse a alma
mais negra do que a camisa negra que vestia quando a bomba o levou desta para
melhor.
Esquecia-me de dizer que naqueles dias houve outra morte: a de Tommasino.
Sei bem como e porque morreu, pois estava ao pé dele quando sucedeu o que lhe
provocou a morte. Tommasino, apesar da chuva, do frio e da lama, continuava
sempre com o seu comércio. Comprava aos camponeses, aos alemães, aos
fascistas e vendia aos refugiados. Os gêneros eram agora poucos, mas ele lá
arranjava sal, tabaco, laranjas, ovos. Tinha aumentado os preços,
naturalmente, e suponho que ganhava bastante dinheiro. Andava todo o dia no vale,
dum lado para outro, indiferente ao perigo, não porque fosse corajoso, mas porque
queria mais ao dinheiro do que à própria pele; sempre com a barba por fazer, as
calças arregaçadas e rotas, os sapatos cheios de lama, parecia mesmo o Judeu
Errante. Alojara a família, há tempos, em casa duns camponeses que viviam ainda
mais acima do que Paride; a quem lhe perguntava porque não ia para junto da
família respondia:
“Tenho o negócio, quero fazer negócio até o último momento.”
Referia-se até o último momento da guerra; mal sabia ele que faria negócio,
sim, mas até o último momento da vida.
Resumindo, um dia juntei oito ovos num cestinho e desci ao vale com
Rosetta, na intenção de os trocar por um pão militar aos alemães que acampavam
nos laranjais. Por acaso, Tommasino estava em Santa Eufêmia, em visita de
negócios, e ofereceu-se para nos acompanhar. Descemos no quinto dia de bom
tempo, após aquele primeiro bombardeamento. Tommasino, como de costume, ia
adiante, caminhando por cima das pedras e dos buracos do carreiro, sem uma
palavra, absorto nos seus cálculos, e nós seguíamo-lo, também sem falar. O atalho
descia em zigue-zague pelo flanco do monte da esquerda, mas a certa altura, ao pé
de um despenhadeiro que nos barrava o passo, corria por um planalto e depois
continuava a descer no monte da direita. Este planalto era um lugar estranho: havia
muitas rochas nuas e direitas, duma forma curiosa, semelhantes a pães de açúcar,
cinzentas como a pele dos elefantes, todas furadas por grutas e grutazinhas, e entre
essas rochas cresciam muitas figueiras-da-índia, com as suas folhas verdes e
carnudas, que pareciam outras tantas faces inchadas e cheias de espinhos. O
carreiro serpenteava por entre as figueiras-da-índia e as rochas, ao longo dum
riachozinho que era mesmo uma beleza ver, a água clara como cristal a correr num
leito de musgo verde. Ora, quando chegamos ao planalto, Tommasino precedia-nos
aí uns trinta metros, ouvimos O fragor duma esquadrilha de aviões. Não fizemos
caso: agora isso tinha-se tornado vulgar e a maior parte das vezes dirigiam-se às
linhas da frente; podia-se estar seguro de que não bombardeavam a montanha, pois
não valia a pena gastar bombas, que custavam bom dinheiro, nas pedras e
socalcos. Limitei-me por isso a dizer a Rosetta, tranqüilamente:
“Olha, os aviões.”
Via, no céu luminoso, a esquadrilha branca como prata, ordenada em três
filas, e, à frente, um avião que parecia servir de guia. Depois, enquanto olhava, vi
uma bandeirinha vermelha sair do avião da frente e, não sei como, lembrei-me que
Michele me dissera ser aquele o sinal do lançamento das bombas. Mal tive tempo de
pensar isto, e já as bombas começavam a chover, ou, melhor, nós não vimos as
bombas, tão rápidas caíram, mas sentimos quase imediatamente uma explosão
violentíssima e muito próxima, enquanto todo o terreno em volta bailava, como se
houvesse um terremoto. Na realidade, não era o terreno que bailava, mas uma
quantidade enorme de pedras arrancadas do chão e, sobretudo, como me apercebi
depois, pedaços de ferro aguçados e torcidos, cada um do comprimento, pelo
menos, do meu dedo mindinho: se um só nos tivesse entrado no corpo, morríamos
logo ali. Em volta de nós, entretanto, levantara-se uma poeirada acre que nos fazia
tossir, e no meio dessa nuvem espessa de pó, que não me deixava ver nada,
possuída de um medo terrível, eu chamava por Rosetta. A poeirada dissipou-se um
pouco, no chão havia uma grande quantidade daqueles pedaços de ferro e todo um
massacre de folhas de figueira-da-índia, arrancadas e despedaçadas; ouvi então a
voz de Rosetta:
“Estou aqui, mamã!”
Nunca acreditei em milagres, mas, confesso, ao ver todos aqueles pedaços
de ferro que tinham dançado em volta de nós, no momento da explosão, pensei,
enquanto abraçava, feliz, a minha Rosetta sã e salva, que era mesmo um milagre
não estarmos as duas mortas. Abracei-a, beijei-a, toquei-lhe na cara e no corpo,
quase não acreditando que ela estivesse intacta; depois procurei Tommasino, que,
como disse, nos precedia uns trinta metros. Não o vi, nem perto nem longe, no
planalto semeado de folhas de figueira-da-índia partidas e desfeitas; mas ouvi a sua
voz a lamentar-se, não sei onde:
“Meu Deus, Nossa Senhora, meu Deus, Nossa Senhora...”
Pensei que estivesse ferido e senti mesmo remorsos da minha alegria por
encontrar Rosetta sã e salva; ele não era nada simpático, mas, no fim de contas, era
um cristão e tinha-nos ajudado, embora por interesse. Esperava encontrá-lo
estendido por terra, banhado em sangue, e dirigi-me para o lugar donde me parecia
vir a sua voz. Era uma grutazinha pouco profunda, quase uma pequena cavidade na
rocha, onde ele se encolhera todo como um caracol dentro da casca, a cabeça entre
as mãos e a lamentar-se, gemendo. Vi logo, porém, que não tinha sequer um
arranhão, tudo aquilo era só medo. Disse-lhe:
“Tommasino, já passou... que fazes aí nesse buraco? Podemos agradecer a
Deus, por estarmos salvos.”
Ele não respondeu e tornou a mugir:
“Meu Deus, Nossa Senhora...”
Insisti, surpreendida:
“Tommasino, mexe-te, vamos para baixo, senão faz-se tarde.”
E ele:
“Não saio daqui.”
E eu:
“Mas o quê, queres ficar aqui?”
E ele:
“Não vou para baixo... vou para o cimo do monte, o mais alto que puder, e
meto-me numa gruta funda, debaixo da terra, e não me mexo mais... para mim,
acabou...”
“Mas, Tommasino, e o negócio?”
“Que o leve o diabo!”
Ao ouvi-lo mandar para o diabo o negócio, pelo qual até então desafiara
tantos perigos, compreendi que falava a sério e era inútil insistir. Disse-lhe todavia:
“Mas ao menos acompanha-nos hoje lá abaixo... podes estar certo de que os
aviões não voltam.”
Respondeu-me:
“Vão vocês... eu não saio daqui.”
E todo ele tremia, enquanto se encomendava a Nossa Senhora. Então,
despedi-me e segui pelo carreiro, em direção ao vale. Quando chegamos ao vale,
encontramos à beira dos laranjais um carro de assalto alemão todo coberto com
ramos de laranjeira e uma tenda mimetizada, ou seja, pintada de azul, verde e
castanho, e seis ou sete alemães que cozinhavam, enquanto outro, sentado debaixo
duma árvore, tocava acordeão. Eram todos jovens, de cabeças rapadas e faces
pálidas, inchadas e cobertas de arranhões e cicatrizes: tinham estado na Rússia
antes de vir para Fondi e lá, como nos disseram, a guerra era cem vezes pior do que
na Itália. Eu conhecia-os, pois já fizera aquela troca do pão pelos ovos uma outra
vez. De longe, levantei ao alto, mostrando-o, o cestinho dos ovos; o do acordeão
parou logo de tocar, foi à tenda e saiu com um pão de forma, de um quilo de peso.
Aproximamo-nos e ele, sem nos olhar de frente, segurando bem o pão como se
tivesse medo que lho roubássemos, tirou as folhas que cobriam os ovos e contou-os
em alemão de um até oito. Não contente com isso, pegou num e levou-o ao ouvido,
abanando-o para ver se era fresco. Disse-lhe então:
“São frescos, está descansado, não tenhas medo: arriscamos a vida para os
trazer cá abaixo, hoje devias dar-nos dois pães em vez de um.”
Ele não compreendeu e fez uma cara interrogativa; eu então indiquei-lhe o
céu e depois fiz um gesto como para aludir à queda das bombas, proferindo: “Bum!
Bum!”, a imitar a explosão. Ele compreendeu finalmente e disse uma frase em que
entrava a palavra kaputt, que eles dizem a toda a hora e que, como me explicou um
dia Michele, significa em italiano qualquer coisa como “morto, assassinado”. Percebi
que falava do avião abatido e repliquei:
“Por um que abatem, vem um cento... se fosse vocês acabava com a guerra e
voltava para a Alemanha... era melhor para todos, para vocês e para nós.”
Ele desta vez não disse nada porque novamente não compreendeu, mas
entregou-me o pão e pegou nos ovos com um gesto como a dizer: “Volta e
tornaremos a fazer a troca.” E assim nos despedimos e regressamos, pelo carreiro,
a Santa Eufêmia.
Tommasino, nesse mesmo dia, escapou-se mais para cima, para a localidade
a seguir a Santa Eufêmia, onde tinha a família. Na manhã seguinte mandou um
camponês com duas mulas buscar à sua casa do vale tudo quanto lá tinha, incluindo
camas e colchões. Mas a casa em que se encontrava com a família não lhe pareceu
bastante segura e, alguns dias depois, mudou-se com a mulher e os filhos para uma
gruta mesmo no cimo do monte. Era uma gruta espaçosa e profunda, cuja entrada
não se podia ver de fora, pois estava encoberta por árvores e silvas. Por cima dessa
gruta erguia-se uma rocha enorme, cinzenta, muito alta, em forma de pão de açúcar,
que se via bem do fundo do vale, tão grande ela era. O teto, portanto, devia ter uma
espessura de algumas dezenas de metros de pedra maciça. Ele meteu-se com a
família nessa gruta, que em tempos idos servira de refúgio aos salteadores, e era
natural que se sentisse então em segurança contra as bombas e que o medo lhe
passasse. Mas não, apanhou tal medo que, por assim dizer, lhe entrou no sangue
como uma febre e, mesmo na gruta e com a rocha a protegê-lo, não fazia outra
coisa senão tremer todo o dia, dos pés à cabeça, apoiado ora aqui ora ali, muito
enrolado num cobertor. E repetia constantemente: “Estou mal, estou mal...”, numa
voz fraca e lamentosa; não comia e não dormia, definhava a olhos vistos,
apagando-se como uma vela, todos os dias um pouco mais.
Visitei-o uma vez e encontrei-o tão magro e abatido que até metia dó, a
tremer, apoiado à entrada da gruta, todo embrulhado num cobertor. Lembro-me que,
não notando que ele estivesse doente mesmo a sério, trocei um pouco, dizendo-lhe:
“Mas, Tommasino, de que tens medo? Esta gruta é à prova de bombas. De
que tens medo então? De que as bombas andem pelo bosque como serpentes e
acabem por entrar aqui para virem ter contigo à cama?”
Ele olhava para mim como se não compreendesse e só repetia:
“Estou mal, estou mal...”
Passados alguns dias soubemos que tinha morrido. Morreu de medo, porque
não tinha feridas nem qualquer doença: só o susto das bombas. Não fui ao funeral,
pois ficaria triste, e tristezas já havia muitas. Só o acompanharam os parentes, entre
eles Filippo e a família; o morto não foi metido num caixão porque não havia tábuas
nem carpinteiros, mas ataram-no a dois ramos de árvore, e o coveiro, um
grandalhão louro que também era refugiado e fazia um pouco de mercado negro nas
montanhas, prendeu Tommasino à sela do seu cavalo e lá foi, pelo carreiro abaixo,
para o cemitério. Disseram-me depois que não conseguiram encontrar nenhum
padre, pois tinham fugido todos, e o pobre teve de se contentar com as orações dos
parentes; que o funeral foi interrompido três vezes por causa dos alarmes aéreos;
que em cima da cova, à falta de melhor, puseram uma cruz feita com duas tábuas
arrancadas duma caixa de munições. Em seguida soube que Tommasino deixara à
mulher algum dinheiro, mas nenhumas provisões: sempre a negociar, vendera tudo,
até o último quilo de farinha e os últimos gramas de sal, e a viúva foi obrigada a
comprar depois pelo dobro o que o marido vendera por metade e creio que, no fim
da guerra, de todo o dinheiro que Tommasino lhe deixou, já não tinha quase nada,
por causa da desvalorização da moeda. Querem saber o que disse Michele a
respeito da morte do tio?
“Tenho pena dele porque era bom homem. Mas morreu, como podem morrer
tantos outros iguais a ele que passam a vida a correr atrás do dinheiro, imaginando
que não há mais nada no mundo além do dinheiro; depois, um dia, imprevistamente,
ficam gelados de medo ao ver o que está por trás do dinheiro...”

CAPÍTULO VI

O bom tempo, além das bombas dos Ingleses, trouxe um outro flagelo: os
recrutamentos dos Alemães. O Tonto tinha-os anunciado, mas, no fundo, ninguém
acreditara, e agora alguns camponeses fugidos na montanha informavam-nos que
no vale os alemães tinham feito uma rusga, prendendo todos os homens aptos para
o trabalho, metendo-os em caminhões e mandando-os não se sabia para onde, uns
diziam que para as fortificações da frente de batalha, outros afirmavam que para a
Alemanha. Depois veio outra má notícia: de noite os alemães cercaram um vale
próximo do nosso, subiram ao cimo do monte e em seguida desceram,
espalhando-se pelas encostas e apanhando na sua rede, como peixes, todos os
homens, os quais expediram logo em caminhões para longe dali. Os refugiados
ficaram imediatamente cheios de medo, pois havia entre eles pelo menos quatro ou
cinco rapazes que, no momento da queda do fascismo, estavam na tropa e tinham
desertado, e eram mesmo esses rapazes que os alemães procuravam, porque os
consideravam traidores e queriam fazer-lhes pagar a traição, obrigando-os a
trabalhar como escravos, quem sabe onde e em que condições. Os mais astutos
eram os pais, e mais do que todos Filippo, por causa de Michele, que o estava
sempre a contrariar, mas em quem tinha muito orgulho. Em resumo, fez-se uma
reunião em casa de Filippo e ficou decidido que nos próximos dias, enquanto
houvesse o perigo dos recrutamentos, todos os rapazes subiriam de madrugada a
montanha, cada um para seu lado, descendo só ao pôr-do-sol. Lá no alto, embora
os alemães pudessem lá ir também, havia muitos atalhos que conduziam a outros
vales ou a outras montanhas e no fim de contas os alemães eram homens como os
outros e decerto perderiam a coragem ao ver que tinham de andar quilômetros e
quilômetros, por montes e vales, só para apanharem um homem ou dois. Michele,
para dizer a verdade, não queria fugir como os outros, não por bazófia, mas porque
nunca gostava de fazer o mesmo que todos faziam. Mas a mãe tanto lhe pediu e
suplicou que ele por fim cedeu.
Rosetta e eu decidimos ir com ele, não porque tivéssemos medo, não
prendiam as mulheres, mas para fazermos qualquer coisa, pois no socalco
morríamos de tédio, e também para estarmos ao pé de Michele, que era a única
pessoa lá em cima a quem nos tínhamos afeiçoado. Assim começou para nós uma
vida estranha de que me lembrarei enquanto viver.
Noite ainda, Paride, que se levantava sempre antes do romper da aurora,
vinha bater à nossa porta; vestíamo-nos à pressa, alumiados pela luz fraca de uma
lamparina de azeite. Saíamos para o frio, no escuro, com muitas sombras a
correrem para cima e para baixo pelo socalco fora e as janelas das casitas a
iluminarem-se uma após outra. Por fim encontramos Michele, pequenino, todo
enroupado em camisolas e camisolões, com um pau na mão, parecia mesmo um
anão das fábulas, dos que vivem nas cavernas de guarda aos tesouros. Sem
trocarmos uma palavra, lá seguíamos atrás dele pela montanha acima.
Começávamos a subir no escuro, através de mato denso e alto, que nos
chegava até ao peito, pelo carreiro incrustado de gelo, não se via nada, mas Michele
tinha uma lâmpada de bolso e, graças a esse foco de luz, podíamos ver o caminho;
e andávamos, andávamos, sem falar. Entretanto, enquanto subíamos, o céu
começava a clarear por trás das montanhas, tornando-se lentamente de um cinzento
sujo, mas ainda com muitas estrelas a brilharem uma última vez antes de romper o
dia. As montanhas desenhavam-se, negras, sobre esse fundo mais claro e
pontilhado de estrelas; depois também elas aclaravam, revelando a sua cor verde,
aqui e além manchada do escuro do mato e dos bosques. Agora já não havia
estrelas e o céu era de um cinzento quase branco e todo o mato surgia aos nossos
olhos, seco, gelado pelo inverno, mortificado, silencioso e ainda adormecido. Mas o
céu tornava-se gradualmente rosa no horizonte e azul por cima das nossas cabeças
e com os primeiros raios do sol que despontavam atrás de um dos montes, agudos e
cintilantes quais flechas de ouro, todas as cores apareciam, o vermelho-vivo de
alguns troncos, o verde-brilhante do musgo, o branco-creme dos penachos das
canas, o negro-lustroso dos ramos apodrecidos. A seguir deixávamos o matagal
para caminharmos num bosque de carvalhos que cingia a serra até lá muito em
cima. Eram carvalhos enormes, espalhados pela encosta, a boa distância uns dos
outros, que tinham crescido sem se tocarem e aqui e além estendiam os seus ramos
como braços, quase como se quisessem dar-se as mãos para se ajudarem e não
caírem devido à força do vento ou ao declive. Torcidos e espaçados, formavam um
bosque esparso, permitindo que o olhar abrangesse a encosta cheia de calhaus
brancos, até o cume recortado no céu azul. O atalho era quase plano no meio do
bosque, o sol acordava os pássaros empoleirados nos ramos, que se ouviam
esvoaçar e pipilar em grande número, embora não se vissem. Michele ia à frente de
nós, parecia feliz não sei porquê; andava com desembaraço, fazendo girar o ramo
de árvore que Lhe servia de bordão e assobiando uma ariazinha que parecia uma
marcha militar.
Subimos um bocado e os carvalhos tornavam-se cada vez mais raros,
menores e mais torcidos; por fim cessavam de todo, ficando só o carreiro íngreme
por entre pedras duma brancura que cegava; um pouco mais acima, atingíamos o
cume do monte, ou, melhor, a passagem entre dois cumes para onde nos
dirigíamos. Chegados lá, encontrávamo-nos num planalto que era mesmo uma
surpresa, depois de tantas pedras, todo atapetado de erva macia e muito verde,
entre a qual, aqui e além, se erguiam, como corcovas, rochas brancas e redondas.
No meio desse prado cor de esmeralda havia um velho poço defendido por um
parapeito de pedras soltas. Do planalto gozava-se um panorama soberbo, e até eu,
pouco dada a entusiasmar-me com as belezas naturais, talvez porque nasci na
montanha e as conheço bem, garanto que fiquei de boca aberta e cheia de
admiração a primeira vez que o contemplei. De um lado os olhos desciam pela
encosta majestosa, toda em socalcos, semelhante a uma escadaria imensa, até o
vale e, mais longe ainda, até a risca azul e cintilante do mar; do outro não se viam
senão montanhas e mais montanhas, as da Ciociaria, algumas salpicadas de neve
ou completamente brancas, outras calcinadas e cinzentas. Lá em cima fazia frio,
mas não muito, porque havia um sol puro e límpido e se estava bem ao sol e não
havia vento, pelo menos durante todo o tempo em que para lá fomos, cerca de duas
semanas.
Tínhamos de passar lá o dia inteiro: estendíamos um cobertor sobre a erva e
deitávamo-nos em cima dele. Repousávamos assim algum tempo e, quando
sentíamos vontade de nos mover, girávamos por aqui ou por ali. Michele e Rosetta
afastavam-se, colhendo flores ou simplesmente conversando, ou, melhor, ele
falando e ela ouvindo; mas eu, a maior parte das vezes, não os acompanhava e
ficava no planalto. Agradava-me estar sozinha; em Roma podia fazê-lo quando
queria, mas em Santa Eufêmia era impossível, porque de noite dormia com Rosetta
e durante o dia havia refugiados em toda a parte. Estar só dava-me a ilusão de uma
paragem na vida, durante a qual podia olhar em volta; na realidade, o tempo
passava, mas eu não dava por ele como quando estava acompanhada. Havia lá em
cima um grande silêncio; de um valezito logo abaixo chegava às vezes o som dos
chocalhos dum rebanho, mas era o único ruído e por vezes nem parecia um
verdadeiro ruído, não chegava a perturbar, dir-se-ia antes um rumor que tornava
mais calmo o lugar e mais profundo o silêncio. Agradava-me ir de ora em quando ao
pé do poço, aproximar-me do bocal e olhar para baixo, muito tempo. Era bastante
fundo, ou pelo menos assim parecia, pois a água mal se entrevia. As avencas tão
lindas, com os seus pezinhos negros como ébano e folhas verdes e finas que nem
plumas, despontavam densas por entre as pedras e refletiam-se na água escura.
Debruçava-me, olhava o fundo longamente e lembrava-me de que, em criança,
mirar-me nos poços me inspirava ao mesmo tempo medo e atração; imaginava que
os poços comunicavam com um mundo subterrâneo povoado de fadas e anões e
quase sentia vontade de me deixar cair para esse mundo e abandonar o meu...
Olhava para baixo enquanto os olhos não se habituavam àquela obscuridade e não
via distintamente a minha cara refletida na água; então, agarrava uma pedra e
deixava-a cair no meio da cara e via-a despedaçar-se no tremor dos círculos que a
queda da pedra provocava. Além de olhar para dentro do poço, agradava-me
também passear por entre aquelas rochas brancas e redondas, tão estranhas, que
se elevavam aqui e além no meio da erva verde. Nestes passeios parecia-me
igualmente voltar a ser criança: quase tinha a esperança de encontrar no meio
dessa erva coisas preciosas, talvez porque a própria erva, tão verde, me parecia ali
uma coisa preciosa, ou talvez também porque em lugares como aquele, segundo os
contos que ouvira em criança, podia estar enterrado um tesouro. Mas ali só havia
erva, que não vale nada e se dá aos animais. Uma vez encontrei um trevo de quatro
folhas e ofereci-o a Michele e ele, mais para me agradar do que por superstição,
guardou-o na carteira.
O tempo passava assim lentamente; o sol subia no céu e tornava-se
escaldante, tanto que algumas vezes abria a blusa e me estendia no chão, para me
queimar como se estivesse na praia. À hora do almoço, Michele e Rosetta voltavam
do seu passeio, e então comíamos, sentados na erva, um bocado de pão com
queijo. Comi antes e depois muitas coisas boas, mas aquele pão escuro e duro,
misturado com farinha de milho, e aquele queijo de ovelha tão rijo que era preciso
um martelo para o partir parecem-me, ao lembrá-los, o melhor que comi na vida.
Talvez o seu condimento fosse o apetite que a caminhada e o ar da montanha nos
provocavam; talvez a idéia do perigo constituísse também um molho raro; o certo,
porém é que comia com um prazer estranho, como se me apercebesse pela primeira
vez na vida de que a comida, além de nos servir simplesmente para viver e
recuperar as forças, nos pode proporcionar também prazer. E devo acrescentar a
propósito que lá em cima, em Santa Eufêmia, me sucedeu o mesmo pela primeira
vez com muitas outras coisas que são, é estranho dizê-lo, as mais simples, por
assim dizer, e que habitualmente se fazem mecanicamente, sem se pensar nelas. O
sono, que nunca antes me tinha parecido um apetite, cuja satisfação desse prazer e
repouso; a limpeza do corpo, que, como era difícil, se não impossível, parecia lá
uma coisa quase voluptuosa; em suma, tudo quanto diz respeito ao físico, a que na
cidade se dedica pouco tempo e quase sem se dar por isso. Penso que, se
estivesse lá em cima um homem que me agradasse, também o amor teria para mim
um sabor novo, mais profundo e mais forte. Era, em suma, como se me tivesse
tornado um animal, pois imagino que os animais, não tendo que pensar senão no
próprio corpo, devem experimentar os sentimentos que eu experimentava então,
obrigada pelas circunstâncias a ser somente um corpo que se alimentava, dormia se
arranjava e procurava o maior bem-estar possível.
O sol dava a volta ao céu, lentamente, descendo para o lado do mar. Quando
o mar começava a ficar mais escuro e a avermelhar-se com os raios do poente,
iniciávamos a descida para casa, não já pelo carreiro, mas a correr pela encosta,
sem querer saber do atalho, escorregando nas ervas e nas pedras. Assim, o
caminho que de madrugada percorrêramos em duas horas, à volta não levava mais
de meia hora. Chegávamos na altura da ceia, cobertos de pó, as vestes cheias de
folhas e espinhos, e íamos logo para a cabana cear. Deitávamo-nos cedo e de
madrugada estávamos de novo a pé.
Nem sempre, porém, lá em cima, no planalto, tudo estava calmo e distante da
guerra. Não me refiro aos aviões que freqüentemente passavam sobre as nossas
cabeças, isolados ou em esquadrilha, nem às explosões cujo rumor nos chegava do
vale, enfraquecido pela distância, e que indicavam que esses safados dos alemães
continuavam a destruir os diques, espalhando a água e a malária por toda a parte;
falo, sim, dos encontros que de vez em quando tínhamos e que tornavam para nós a
guerra sempre presente. E isto porque aquela passagem tão solitária era o caminho
quase obrigatório de todos quantos, através das montanhas, trilhando sempre os
cumes altos e evitando os vales, desciam de Roma e da alta Itália, ocupadas pelos
Alemães, para a Itália meridional, onde se encontravam os Ingleses. Eram, na
maioria, soldados em fuga, ou gente pobre que queria voltar à sua aldeia, de onde a
guerra a expulsara, ou ainda prisioneiros fugidos de qualquer campo de
concentração.
Lembro-me muitíssimo bem de um desses encontros. Estávamos a comer,
como de costume, pão e queijo, e eis que apareceram, de repente, por trás dumas
rochas, dois homens armados de varapaus, com tal aspecto que por pouco não os
tomava por selvagens. Vinham rotos e esfarrapados, mas não foi isso que me meteu
medo, porque de farrapos andava toda a gente vestida lá em cima; mas os seus
ombros, de uma largura nunca vista, e os seus rostos, completamente diferentes dos
Italianos, fizeram-me tanta impressão que nem sequer pude mexer-me ao vê-los
aproximar-se, e ali fiquei, sentada, paralisada de medo, com o pão e o queijo
suspensos no ar. Michele, que não tinha medo de nada nem de ninguém, não só por
coragem, mas porque confiava em todos, aproximou-se dos dois homens e começou
a falar com eles por gestos. Tomamos ânimo e também nós duas nos aproximamos.
As caras de ambos eram amarelas e achatadas, sem barba, com umas rugas
compridas na pele lisa ao longo das faces; tinham cabelos negros e espessos, olhos
pequenos, repuxados para cima nos ângulos, ao lado das têmporas: narizes
esmagados e bocas de mortos cheias de dentes aguçados e escuros. Michele
disse-nos que eram dois prisioneiros russos, mas de raça mongol, como quem diz
chinesa; em sua opinião, tinham fugido de qualquer campo de concentração alemão
onde estavam prisioneiros. Eu não me cansava de olhar para os seus ombros muito
largos, pensando que talvez tivesse sido uma imprudência não nos termos
escondido ou fugido: aqueles dois homens eram tão fortes que, se saltassem em
cima de mim ou de Rosetta, decerto não poderíamos escapar. Mas os dois mongóis
comportaram-se como gente boa: sempre a falar por gestos, ficaram conosco uma
hora ou pouco mais, o tempo de descansarem. Michele ofereceu-lhes pão e queijo e
eles comeram com discrição e parece-me que agradeceram. Riam constantemente,
os pobrezinhos; talvez, como não conseguiam compreender-nos nem fazer-se
compreender, quisessem dar-nos a entender, com esse riso, que as suas intenções
eram boas. Michele, sempre por gestos, explicou-lhes o caminho que deviam tomar
e, passado algum tempo, lá se foram embora, por entre as fragas; de longe
pareciam mesmo dois grandes macacos a caminharem sobre as patas traseiras,
com o auxílio dos varapaus que tinham arrancado de qualquer árvore.
Uma outra vez passou um operário italiano que estivera a trabalhar nas
fortificações da frente de batalha, não me lembro onde, e tinha fugido porque lá não
comiam nada, eram tratados como cães e trabalhavam como escravos. Quase não
se tinha em pé. Era um perfeito rapaz, distinto, de rosto fino e moreno, mas magro
como um cão, os ossos a furarem-lhe a pele, os olhos encovados e tristes e todo o
corpo verdadeiramente na espinha. Disse-nos que tinha família em Puglie e
esperava chegar lá, caminhando assim de montanha em montanha. Há uma
semana que andava e tinha um aspecto miserável, os sapatos rotos, as vestes em
farrapos. Não disse grande coisa; por causa da fraqueza, falava devagar, a custo, e
poucas palavras de cada vez, como se quisesse poupar o fôlego. Ouvira dizer que
em Roma houvera uma revolta e que tinham morrido alguns alemães... estes, em
represália, mataram muitos italianos... mas não sabia quando, nem como, não sabia
mais nada. Por fim, sempre a falar dos Alemães, disse:
“São uns miseráveis. Sabem muito bem que já perderam a guerra, mas, como
a guerra lhes agrada e nada lhes falta, porque vivem à nossa custa, continuarão a
fazê-la enquanto tiverem um soldado. Se a guerra não acabar depressa,
morreremos todos de fome e de miséria. Ou acaba a guerra ou acabamos nós.”
Aceitou, de Michele, pão, queijo e algum tabaco e, depois de descansar uma
meia hora no planalto, retomou o seu caminho, arrastando devagar as pernas.
Parecia que a cada passo iria cair ao chão para não se levantar mais.
Uma manhã, quando estávamos a apanhar sol, ouvimos inesperadamente um
assobio. Escondemo-nos logo todos os três atrás duma daquelas rochas brancas,
para ver o que se passava. Nunca se sabia... estávamos sempre alerta e sempre
com medo que aparecessem os alemães e nos prendessem. Dali a pouco Michele
deitou a cabeça de fora e viu, em frente, outra cabeça, que se escondia à pressa
atrás duma rocha não muito distante. Continuamos assim durante algum tempo, a
espiar-nos uns aos outros, e por fim vimos que não eram alemães e eles viram que
nós éramos italianos e saíram do esconderijo. Eram dois homens da Itália
meridional, militares, um tenente e um alferes, segundo nos disseram, mas vestidos
à paisana, pois também eles, como tantos outros, fugiam através das montanhas em
direção ao Sul, no intuito de passarem as linhas de combate e atingirem a terra onde
tinham as famílias. Um era moreno e alto, de pele escura, cara redonda, olhos
pretos como o carvão, dentes brancos e lábios quase de cor violeta; o outro era
louro, de cara comprida, olhos azuis e o nariz muito aguçado. O moreno chamava-se
Carmelo e o louro Luigi. De todos os encontros que tivemos no cimo da montanha,
foi talvez este o menos agradável, não porque os dois fossem verdadeiramente
antipáticos: é provável que em tempo de paz, na sua terra, eu não achasse nada
que lhes censurar, mas, como adiante se verá, a guerra exercera neles uma
influência péssima, como de resto em tantos outros, pondo a descoberto o lado mau
do seu caráter, que de outra forma ficaria oculto. E a propósito quero afirmar que a
guerra é uma grande provação: para se julgar bem os homens é preciso vê-los em
tempo de guerra, não em tempo de paz; não quando há leis e respeito pelos outros
e temor a Deus, mas sim quando todas essas coisas não existem e cada um age
segundo a sua natureza, sem freios de qualquer espécie.
Aqueles, no momento do armistício, encontravam-se num regimento
aquartelado em Roma e desertaram; primeiro estiveram escondidos, depois fugiram
da capital, na esperança de chegarem às suas terras. Durante um mês viveram em
casa de um camponês, nas faldas do monte das Fadas, e fiquei logo com má
impressão deles ao ouvi-los falar desse homem, que, em suma, os hospedara, de
uma maneira depreciativa, como de um pobre tísico ignorante, que nem sabia ler e
cuja casa parecia um covil. Um disse, a rir:
“Mas, já se sabe, tínhamos de nos contentar, em tempo de racionamento, pão
bolorento...”
Disseram ainda que tinham abalado do monte das Fadas porque o camponês
lhes dera a entender que não podia tê-los lá mais tempo, não tinha comida para lhes
dar, mas o moreno observou que não era verdade, pois, se tivessem dinheiro, a
comida decerto aparecia, todos os camponeses são interesseiros. Em conclusão,
iam para o Sul e esperavam passar a frente.
Era a hora do almoço e Michele, embora de má vontade, ofereceu-lhes o pão
e o queijo do costume. O moreno disse que aceitava o pão, mas, quanto ao queijo,
tinham um inteiro, roubado ao camponês avarento sem ele dar por isso, na altura em
que o deixaram. E, dizendo isto, tirou o queijo da sacola e agitou-o no ar, a rir. Fiquei
mal impressionada com esta declaração tão franca, não tanto pelo roubo, vulgar
naqueles tempos em que todos roubavam e o furto já não se chamava furto, como
pelo à vontade, que me parecia impróprio num homem como ele, com o posto de
tenente e que, pelas suas maneiras, devia pertencer à burguesia. Além disso, não
era bonito, pensei, pagar a hospitalidade daquele pobre homem levando-lhe o pouco
que tinha. Mas não disse nada; sentamo-nos na erva e começamos a comer e,
enquanto comíamos, conversávamos, ou melhor, ouvíamos o moreno, que falava
pelos cotovelos e sempre de si próprio, atribuindo-se uma grande importância, quer
como proprietário de terras na sua aldeia, quer como oficial durante a guerra. O loiro
ouvia-o semicerrando os olhos por causa do sol e de vez em quando contradizia-o
maliciosamente; mas o outro não se desconcertava e prosseguia com as suas
gabarolices. Dizia por exemplo o moreno:
“Na minha aldeia tenho uma herdade...”
E o louro:
“Bem, digamos dois ou três campitos do tamanho de lenços de assoar.”
“Não, uma grande herdade, e é preciso um cavalo para a percorrer.”
“Ora, ora, basta ir a pé e não é preciso dar muitos passos.”
Ou então:
“Arranjei uma patrulha e entrei no bosque. Estavam lá escondidos, pelo
menos, uma centena de soldados inimigos.”
“Eia, eu fui contigo e vi, não eram mais de quatro ou cinco.”
“Não, digo-te que eram pelo menos cem... claro, quando surgiram de trás das
sebes onde estavam escondidos, não os contei, nesses momentos há mais que
fazer do que contar os inimigos, mas deviam ser pelo menos cem...”
“Vamos, diminui lá isso, faz-lhe um desconto, eram uns cinco ou seis...”
E assim por diante. O moreno dizia-as das grossas, num tom muito seguro e
fanfarrão; o loiro, fraco e indolente, não deixava passar nem uma. Por fim, o moreno
contou o que fizera no dia em que fora proclamado o armistício e o exército italiano
se dispersara:
“Eu estava nos serviços da intendência, um armazém militar cheio de todos
os bens que Deus criou. Quando soube que a guerra acabara, não hesitei: mandei
carregar num caminhão tudo quanto pude, caixas de conservas, queijos, farinhas,
toda a espécie de gêneros alimentícios, e levei esse carregamento para casa, para a
minha mãe.”
Riu satisfeito do seu belo feito, mostrando a fieira dos dentes brancos e
perfeitos; então Michele, que até aí o ouvira sem uma palavra, observou num tom
seco:
“Em resumo, você roubou.”
“Que quer dizer?...”
“Quero dizer que momentos antes era um oficial do exército italiano e
momentos depois era um ladrão.”
“Meu caro senhor, não sei quem é, nem como se chama, mas podia...”
“Podia o quê?”
“Quem lhe disse que roubei?... Fiz o que faziam todos, se eu não tivesse
levado esses gêneros, outro qualquer os levaria.”
“É possível, mas, apesar disso, foi você que os roubou...”
“Veja como fala, sou capaz...”
“De quê, vejamos de que é capaz?...”
O loiro disse então ao moreno em ar de troça:
“É pena, Carmelo, mas tens de reconhecer que este senhor chegou para ti...
Tocado!”
O moreno encolheu os ombros e disse a Michele:
“Não quero perder tempo a discutir consigo.”
“Faz muito bem”, declarou Michele com autoridade, “mas sempre lhe digo
porque é que se comporta como um ladrão... Não contente em ter roubado, ainda se
gaba... supõe que foi muito esperto... se o tivesse feito e se se envergonhasse,
poderia supor-se que o fizera por necessidade... ou arrastado pelo contágio da
multidão... Mas não, gaba-se, e assim mostra que não ligou importância ao que fez e
está pronto a fazê-lo de novo.”
O moreno. furioso com este tom, levantou-se, agarrou num ramo de árvore e
brandiu-o contra Michele, dizendo:
“Ou está calado ou...”
Mas Michele nem teve tempo de reagir. O loiro desarmou-o imediatamente,
com uma risadinha maliciosa:
“Tocado de novo!”
Carmelo então voltou a sua fúria contra o amigo:
“Mas cala-te, também participaste no saque, estávamos lá os dois...”
“Eu apenas obedecia... eras meu superior... ah! ah!” Em suma, a refeição
acabou em silêncio, com o moreno deveras sombrio e o loiro a fungar. Depois
ficamos ainda mais algum tempo calados. Mas Carmelo não podia engolir aquela do
ladrão e dali a pouco disse em ar de desafio a Michele:
“Você, que julga sem saber e chama tão facilmente ladrão a quem vale mais,
mas muito mais, do que você, pode saber-se quem é? Eu posso dizer quem sou:
Carmelo Ali, oficial, agricultor, licenciado em direito, condecorado por mérito,
cavaleiro da Coroa de Itália. E você, quem é?”
O loiro, fungando, observou:
“Esqueceste-te de dizer que és também o secretário do fascio na nossa terra.
Porque não o dizes?”
Carmelo respondeu, aborrecido:
“O fascio já não existe, só por isso não o disse... mas sabes bem que, como
secretário do partido, nunca ninguém se queixou de mim.”
O loiro, a rir, corrigiu:
“A não ser que te aproveitavas disso para apanhares as camponesas mais
bonitas que iam pedir-te algum favor... Sempre foste um grande D. João...”
Carmelo, lisonjeado com a acusação, sorriu, mas não a repeliu; depois
voltou-se para Michele, insistindo:
“Então, meu caro senhor, diga um título, um curso, uma condecoração,
qualquer coisa em suma que nos faça compreender quem é e com que direito critica
os outros.”
Michele olhava-o fixamente através das espessas lentes de míope; por fim
perguntou:
“Que lhe importa o que sou?”
“Mas ao menos é licenciado?”
“Sim, sou licenciado... mas, mesmo que não fosse, nada mudaria.”
“Que quer dizer?”
“Quero dizer que você e eu somos homens e aquilo que somos, somos pelo
que fazemos, e não pelas honras e cursos... e o que você fez e disse define-o como
um homem pelo menos leviano e de consciência muito elástica... eis tudo.”
“Tocado!”, exclamou outra vez o loiro, nudo.
O moreno desta feita escolheu o partido de não fazer caso. Disse de repente,
pondo-se em pé:
“Eu sou estúpido em baixar-me a discutir consigo... Vamos, Luigi, que se faz
tarde e ainda temos de andar muito... Obrigado pelo pão e não duvide que, se for à
minha aldeia, lho pagarei com juros.”
Michele, caprichoso, respondeu com calma:
“Sim, contanto que o pão não seja feito com a farinha que você roubou ao
exército italiano.”
Agora Carmelo, que já ia distante, limitou-se a encolher os ombros, dizendo:
“Vá para o diabo mais o exército italiano.”
Ouvimos ainda o loiro repetir numa risada: “Tocado!” Depois viraram por trás
de uma rocha e desapareceram da nossa vista.
Outra vez vimos ao longe, num carreiro que contornava a montanha, uma
quantidade de gente que caminhava em fila indiana, como em procissão. Passaram
daí a pouco junto de nós. Eram pelo menos trinta pessoas, os homens com fatos
domingueiros, a maior parte fatos pretos, as mulheres com o seu trajo regional:
saias compridas, blusas e xales. As mulheres levavam à cabeça embrulhos e cestos
e ao colo as crianças menores; as crianças maiorzinhas iam pela mão dos homens.
Estes desgraçados, como eles próprios explicaram, eram os habitantes de uma
aldeia que estava mesmo na lha da frente. Os alemães, uma manhã, tinham-nos
acordado de madrugada, quando ainda dormiam, e deram-lhes meia hora para se
vestirem e embrulharem os objetos mais necessários. Depois meteram-nos num
caminhão e transferiram-nos para um campo de concentração perto de Frosinone.
Mas, passados alguns dias, fugiram desse campo e agora tentavam regressar à sua
aldeia, através das montanhas, para voltarem às suas casas e recomeçarem a sua
vida. Michele interrogou o chefe do grupo, um perfeito homem, já velhote, de
bigodes grisalhos, e este disse-lhe com ingenuidade:
“Se não fosse por mais nada, pelos animais... Se nós não pensarmos nos
animais, quem há-de pensar?... Os alemães?...”
Michele não teve coragem de lhes dizer que, ao chegarem à aldeia, não
encontrariam casas, nem animais, nem nada. Descansaram um momento e
retomaram o seu caminho. Eu simpatizei imenso com esses pobrezinhos, tão
resignados e confiantes, naturalmente porque se assemelhavam a nós as duas, a
Rosetta e eu: também tinham sido postos fora das suas casas pela guerra, também
andavam fugidos nas montanhas, abandonados, como ciganos. Alguns dias mais
tarde soube que os alemães os tinham prendido e levado outra vez para o campo de
Frosinone. Depois não soube mais nada deles.
Fizemos esta vida, subir de madrugada e descer ao pôr-do-sol, durante umas
duas semanas; por fim tornou-se evidente que os alemães tinham renunciado aos
recrutamentos, pelo menos naquele ponto da montanha, e ficamos lá em baixo e
recomeçamos a vida do costume. Ficou-me, porém, a saudade daqueles dias tão
lindos que passei no alto do monte, em comunhão íntima com a solidão e a
natureza. Lá em cima não havia refugiados nem camponeses a aborrecerem-me
com a guerra, os ingleses, os alemães e a carestia; não tinha canseiras para
cozinhar um ruim almoço ou jantar com lenha verde numa cabana escura; nada nos
lembrava a situação em que nos encontrávamos, a não ser aqueles dois ou três
encontros que já referi. Podia pensar que ia passear todos os dias com Michele e
Rosetta, e eis tudo.
Aquele pradozinho verde sobre o qual o sol de inverno se tornava tão quente
que parecia mesmo estarmos em maio, com as montanhas da Ciociaria no
horizonte, coroadas de neve, e do outro lado o mar cintilando ao fundo da planura de
Fondi, parecera-me um lugar encantado, onde muito bem podia estar escondido um
tesouro, como ouvia dizer em criança. Mas esse tesouro não estava debaixo da
terra, sabia-o agora, encontrara-o em mim própria, com tanta surpresa como se o
houvesse desenterrado com as minhas mãos: era aquela calma profunda, uma
completa ausência de medo e de ansiedade, uma confiança em mim e no que,
passeando sozinha, sentia crescer no meu íntimo à medida que os dias passavam.
Em tantos anos, foram talvez esses os dias mais felizes da minha vida e, é estranho
dizê-lo, foram também aqueles em que fui mais pobre, mais desprovida de tudo,
tendo pão e queijo por único alimento e a erva do prado por leito, e nem uma cabana
para me acoitar, vivendo mais como um animal selvagem do que como um ser
humano.
Agora estava-se no fim de Dezembro e mesmo no dia de Natal chegaram na
verdade os Ingleses. Não os ingleses do exército de Garigliano, bem entendido, mas
dois ingleses que fugiam, como tantos, pelas montanhas e apareceram em Santa
Eufêmia na manhã de 25 de Dezembro. O tempo continuava lindíssimo, frio, seco e
límpido; nessa manhã, ao chegar à porta do casinhoto, avistei no socalco uma
pequena multidão. Aproximei-me e vi que os refugiados e os camponeses cercavam
dois rapazes que pareciam forasteiros: um louro e pequeno, de olhos azuis, nariz
direito e fino, boca vermelha, barba loura cortada em ponta; o outro, alto e magro, de
olhos azuis e cabelos pretos. O louro falava um italiano arrastado e disse-nos que
eram ingleses: ele, oficial da marinha, o outro, simples marinheiro. Tinham
desembarcado para os lados de Óstia, perto de Roma, para fazerem ir pelos ares,
com dinamite, um pouco do que restava aos pobres italianos. Uma vez a missão
concluída, voltaram à praia, mas o barco que os trouxera não tornou a aparecer e
tiveram de fugir e esconder-se como e onde puderam. O período das chuvas
passaram-no em casa de uns camponeses, para os lados de Sermoneta, mas
agora, que fazia bom tempo, queriam tentar atravessar as linhas e alcançar Nápoles,
onde estava o seu comando.
Estas explicações foram seguidas de outras tantas perguntas e respostas;
refugiados e camponeses queriam saber como ia a guerra e quando acabava. Mas
eles sabiam tanto como nós: viviam nas montanhas há muitos meses, durante os
quais só tinham lidado com camponeses analfabetos que não estavam a par do que
se passava. Assim, quando os refugiados se aperceberam de que os dois não
sabiam nada e, ainda por cima, precisavam de auxilio, agora um, logo outro,
afastaram-se todos, repetindo que era perigoso estar ao pé dos ingleses, pois nunca
se sabe o que pode acontecer: denunciar é fácil e se os alemães viessem a sabê-lo,
era caso para suceder alguma desgraça. Em suma, por fim ficaram os dois sozinhos
no meio do socalco, ao sol, vestidos de farrapos, as barbas compridas, olhando em
volta como perdidos...
Também eu, confesso, tive medo de estar ao pé deles, e não por mim, mas
por Rosetta; mas Rosetta fez-me sentir vergonha desse medo, dizendo:
“Mamã, eles têm o ar de quem anda perdido, os pobrezinhos... e hoje é dia de
Natal... Não têm nada de comer e naturalmente gostariam de estar com as famílias e
não podem... Porque não os convidamos a comer conosco?”
Envergonhei-me do meu medo e pensei que Rosetta tinha razão. Não valeria
a pena desprezar os refugiados como desprezava, se no fim de contas procedia
como eles. Lá conseguimos que os dois compreendessem que os convidávamos a
comer conosco o jantar de Natal. Aceitaram logo, muito felizes.
Para esse Natal eu fizera um sacrificiozinho, sobretudo por causa de Rosetta,
que todos os anos, desde que nascera, festejava aquele dia melhor do que a filha
dum senhor. Comprara a Paride uma galinha e assara-a no forno com batatas. Tinha
também feito massa em casa, pouca, verdade se diga, pois restava-me pouquíssima
farinha, e arranjara uns pãezinhos com recheio. Tinha dois salpicões, que cortei em
fatias finas, pare comermos com alguns ovos cozidos. Fiz também doce: à falta de
melhor, raspei umas quantas alfarrobas, misturei essa farinha com farinha de trigo,
passes de uvas, pinhões e açúcar e cozi no forno um bolo baixo e duro, mas
saboroso. Consegui ainda que um refugiado me dispensasse uma garrafa de
marsala, o vinho tinha-me dado Paride. Fruta havia com abundância: em Fondi as
árvores estavam carregadas de laranjas, que custavam baratíssimo, e uns dias
antes comprara cinqüenta quilos delas e não comia outra coisa todo o dia.
Pensei convidar também Michele e disse-lho quando ele se dirigia à pressa
para casa do pai. Aceitou logo e penso que o fez sobretudo para não estar junto da
família. Acrescentou:
“Cara Cesira, fizeste hoje uma boa ação... Se não tivesses convidado esses
dois homens, retirava-te toda a minha estima.”
Michele, no entanto, chamou o pai, que apareceu à janela; então disse-lhe
que o tínhamos convidado para jantar e que aceitara. Filippo, em voz baixa, pois
tinha medo que os ingleses o ouvissem, começou a aconselhá-lo:
“Não vás, eles são dois fugitivos, se os alemães vêm a sabê-lo, estamos
arranjados.”
Mas Michele encolheu os ombros e, sem esperar que o pai acabasse o
discurso, dirigiu-se para o nosso casebre.
Tinha posto a mesa de Natal com uma toalha de linho espesso que os
camponeses me emprestaram. Rosetta colocara em volta dos pratos ramos cortados
no mato, verdes com bagas vermelhas, semelhantes àqueles que se vêem nas
festas em Roma. Num prato estava a galinha, que, para cinco pessoas, era
pequena, nos outros os salpicões, os ovos, o queijo, as laranjas e o doce. O pão
tinha-o feito de propósito para aquele dia e estava ainda quente do forno e cortara-o
em fatias, uma para cada um. Comemos com a porta aberta, pois a casa não tinha
janelas e, se a porta estivesse fechada, ficávamos às escuras. Lá fora brilhava o sol
e avistava-se o panorama de Fondi, luminoso e lindíssimo até onde o mar cintilava
ao longe. Michele, depois dos pãezinhos recheados, começou a atacar os ingleses a
respeito da guerra. Dizia-lhes das boas e fortes, falando de igual para igual, e eles
pareciam um pouco admirados. Talvez por não esperarem uma conversa daquelas
em tal lugar, com um farroupilha. Michele disse-lhes que tinham cometido um grande
erro em não desembarcar perto de Roma, em vez de desembarcarem na Sicília;
nessa altura teriam tomado Roma com facilidade e toda a Itália meridional. Agora,
avançando a passo e passo pela Itália acima, não só destruíam o pais, como faziam
sofrer horrivelmente as populações, que se encontravam, por assim dizer, entre a
bigorna, que eram eles, e o martelo, que eram os alemães. Os ingleses respondiam
que não sabiam nada de tudo isso, eram soldados e obedeciam. Michele então
atacou-os com outros argumentos: porque faziam a guerra, com que fim? Os
ingleses responderam: faziam a guerra para se defender dos Alemães, que queriam
submeter o mundo inteiro. Michele respondeu: isso não era razão suficiente, toda a
gente esperava que eles, depois da guerra, criassem um mundo novo, com mais
justiça, mais liberdade e mais felicidade do que o antigo. Se não conseguissem criar
esse mundo, então teriam perdido também a guerra, embora de fato fossem os
vencedores.
O oficial loiro ouvia Michele com desconfiança e respondia pouco, mas o
marinheiro pareceu-me que tinha as mesmas idéias, embora, por respeito ao oficial,
seu superior, não tivesse coragem de as exprimir. Por fim, o oficial cortou a
discussão, dizendo que o essencial, agora, era vencer a guerra; para o resto,
confiava no seu governo, que tinha certamente planos para criar esse mundo novo
de que Michele falava. Compreendemos todos que não queria comprometer-se
numa discussão embaraçosa, e o próprio Michele, embora contrariado, também
compreendeu e propôs que bebêssemos à saúde desse mundo novo que iria surgir
depois da guerra.
Enchemos os copos de marsala e bebemos todos à saúde do mundo de
amanhã. Michele estava comovido e tinha lágrimas nos olhos e, depois desse
primeiro brinde, quis beber à saúde dos Aliados, incluindo os Russos, que nessa
altura, segundo constava, tinham alcançado uma grande vitória sobre os Alemães.
Estávamos todos muito contentes, mesmo como se deve estar em dia de Natal; por
momentos pareceu-nos que não havia diferenças de língua nem de educação, que
éramos na verdade todos irmãos e que esse dia, que tantos séculos antes vira
nascer Jesus num estábulo, assistia agora também ao nascimento de qualquer coisa
semelhante a Jesus, qualquer coisa de bom e de novo que tornaria os homens
melhores. No fim do jantar fizemos um último brinde à saúde dos dois ingleses e
depois abraçamo-nos todos; eu abracei Michele, Roseta e os dois ingleses e eles
abraçaram-nos e dissemos uns aos outros:
“Bom Natal e bom Ano Novo!“
Pela primeira vez desde que estava em Santa Eufêmia me senti
verdadeiramente feliz. Michele, porém, observou daí a pouco que tudo aquilo era
muito bonito, mas havia um limite para o sacrifício e o altruísmo, e explicou aos dois
ingleses que nós as duas lhes podíamos oferecer hospitalidade aquela noite, o
máximo; depois era melhor partirem, porque seria verdadeiramente perigoso para
eles e para nós se ficassem lá em cima: os alemães podiam vir a sabê-lo e então
ninguém nos salvaria da sua vingança. Os ingleses responderam que
compreendiam perfeitamente estas exigências e asseguraram-nos que partiriam no
dia seguinte.
Ficaram conosco todo aquele dia. Falaram um pouco de tudo com Michele e
eu não pude deixar de notar que, enquanto Michele parecia muito bem informado
sobre a terra deles, até quase melhor do que eles próprios, eles, ao contrário,
ignoravam tudo da Itália, na qual todavia se encontravam e faziam a guerra. O
oficial, por exemplo, disse-nos que andara na universidade, portanto era pessoa
instruída. Mas Michele, arranha que arranha, acabou por descobrir que ele não
sabia quem era Dante. Ora eu não sou instruída e nunca li o que escreveu Dante,
mas conhecia-o pelo menos de nome, e Rosetta disse-me que, quando andava na
escola, não só lhe tinham ensinado quem era Dante, como também lera alguns
trechos desse poeta. Michele confessou-nos baixinho a sua admiração e, sempre
em voz baixa, num momento em que os ingleses não o ouviam, acrescentou que
assim se explicavam muitas coisas, como por exemplo os bombardeamentos que
tinham destruído tantas cidades italianas. Os aviadores que deitavam as bombas
não sabiam nada de nós nem dos nossos monumentos, a ignorância tornava os
tranqüilos e sem piedade e a ignorância, acrescentou Michele, é talvez a causa de
todas as nossas dores e das dos outros, porque a malvadez não é senão uma forma
de ignorância e quem sabe não pode verdadeiramente fazer mal.
Aquela noite dormiram os dois num palheiro e, de manhã cedo, sem se
despedirem, foram-se embora. Estávamos ambas muito cansadas, pois ficáramos a
pé até tarde, o que não era habitual: todos os dias íamos para a cama com as
galinhas.
Assim, nessa manhã, já passava do meio-dia e nós ainda dormíamos. No
melhor desse sono, eis que ouço uma pancada terrível na porta e depois uma voz
medonha que dizia não sei o quê numa língua que eu não conhecia.
“Oh, meu Deus, mamã!”, exclamou Rosetta, aconchegando-se a mim. “Que é
isto?”
Fiquei um momento sem me mexer, quase incrédula, e logo outra pancada e
outro grito incompreensível. Então disse a Rosetta que ia ver quem era, saltei da
cama tal como estava, em saia de baixo, toda despenteada, os pés descalços, e fui
abrir a porta. Eram dois militares alemães; um devia ser sargento e o outro simples
soldado. O sargento era mais jovem: tinha a cabeça loura, a cara branca como
papel, os olhos dum azul deslavado, sem pestanas, sem expressão e sem luz. O
seu nariz era um pouco torto para um lado e a boca torcida para o outro; duas
cicatrizes na face, longas e pálidas, davam-lhe um aspecto curioso, como se a boca
continuasse até o pescoço. O outro era um homem de meia-idade, forte, moreno, de
testa enorme, olhos tristes e encovados, de um azul-escuro, o maxilar de cão
mastim. Digo a verdade: assustei-me deveras, não por mais nada, pelos olhos do
sargento, frios e inexpressivos, de um azul tão feio que pareciam os olhos de um
animal, e não dum homem. Porém, não mostrei medo e gritei-lhe na cara com
quanta força tinha:
“Olá, que bicho te mordeu, desgraçado? Queres arrombar a porta? Não vês
que somos duas mulheres e estamos a dormir? Nem sequer podemos dormir?”
O sargento dos olhos claros fez com a mão um gesto, dizendo em mau
italiano:
“Bona, bona.”
Depois, voltando-se para o soldado, fez-lhe aceno para que o seguisse e
entrou na casota.
Rosetta estava ainda na cama e olhava-os de olhos esbugalhados, os lençóis
puxados até o queixo. Espreitaram por toda a parte, até debaixo da cama; e o
sargento, na sua fúria pesquisadora, até levantou o lençol a Rosetta, como se ela
pudesse ter debaixo das roupas aquilo que procuravam. Depois saíram. Entretanto,
juntaram-se à porta muitos refugiados, e hoje, pensando nisso, digo que foi mesmo
um milagre os dois alemães não os interrogarem a respeito dos ingleses, pois
decerto, quanto mais não fosse por estupidez, algum havia de dar com a língua nos
dentes, e, então, coitadinhas de nós... De resto, o fato de os alemães irem lá acima,
logo no dia seguinte à chegada dos ingleses, fez-me pensar sempre que houve com
certeza denúncia ou, pelo menos, alguma conversa. Mas os alemães, segundo me
pareceu, não queriam ter aborrecimentos, e por isso se limitaram a fazer uma busca
à pressa, sem interrogar ninguém.
Porém, os refugiados, que não estavam habituados a ver alemães lá em
cima, queriam informar-se a respeito da guerra, se terminaria ou não depressa. Um
até foi chamar Michele, que sabia alguma coisa de alemão, e, no momento em que
os dois estavam para se ir embora, empurraram-no para a frente, porque ele não
queria, e gritaram-lhe:
“Pergunta-lhes quando acaba a guerra.”
A Michele, via-se a uma légua de distância, não lhe agradava falar com os
alemães. Mas encheu-se de coragem e lá disse qualquer coisa. Reproduzo agora
em italiano aquilo que os alemães e Michele disseram em alemão, porque uma parte
Michele traduziu-a logo ali para os refugiados e a outra parte traduziu-me depois de
os alemães partirem. Michele perguntou-lhes quando acabaria a guerra e o sargento
respondeu que não demoraria muito, com a vitória de Hitler. Acrescentou que os
Alemães tinham umas armas secretas e com elas iriam deitar ao mar os Ingleses, o
mais tardar na primavera. Disse ainda qualquer coisa que fez uma grande impressão
aos refugiados.
“Faremos a ofensiva e deitaremos os Ingleses ao mar. Entretanto, os
comboios servirão para transportar munições e nós viveremos do que os Italianos
têm, e aos italianos que nos traírem, deixa-los-emos morrer de fome.”
Disse assim mesmo, com ar convicto, calmo e desapiedado, como se, em vez
de italianos, isto é, cristãos, falasse de moscas ou de qualquer outro animalejo. Os
refugiados calaram-se todos ao ouvir estas palavras, pois não as esperavam; não
sei porquê, supunham que os alemães tinham simpatia por eles. Michele, que
tomara o gosto de falar, perguntou ainda de onde eram. O sargento respondeu que
era de Berlim e em tempo de paz tinha uma pequena fábrica de caixas de cartão,
mas agora tinham-lha destruído, e por isso não lhe restava senão fazer a guerra o
melhor que podia. O soldado hesitou antes de responder; depois, revirando os olhos
encovados e tristes e fazendo uma cara aflita, como um cão que apanhou uma
paulada, disse que também era de Berlim e também lhe não restava mais nada
senão a guerra, pois a mulher e a filha única tinham-lhe morrido, vítimas dos
bombardeamentos. Em resumo, ambos responderam mais ou menos a mesma
coisa: que tinham perdido tudo nos bombardeamentos e só pensavam agora em
fazer a guerra; simplesmente, via-se bem, era claro como a água, o sargento fazia a
guerra com zelo e paixão, talvez até com malvadez, enquanto o soldado, tão
sombrio, com aquela testa enorme que parecia cheia de tristeza, fazia a guerra por
qualquer outra razão, talvez por desespero, pois sabia que ninguém já o esperava
em casa. E eu pensei que aquele soldado talvez não fosse mau; mas o fato de ter
perdido a mulher e a filha poderia torná-lo ruim, e se, por exemplo, Deus me livrasse
de tal, nos tivesse prendido as duas, talvez não hesitasse em matar Rosetta ao
lembrar-se de que lhe morrera uma filha da mesma idade nos bombardeamentos de
Berlim. Enquanto pensava em tudo isto, o sargento, que parecia ter algum agravo
dos Italianos, perguntou de repente por que razão entre os refugiados havia tantos
rapazes com as mãos nos bolsos, enquanto todos os alemães combatiam na frente.
Michele respondeu-lhe, elevando a voz, quase aos gritos, que ele e todos os outros
tinham combatido por Hitler e pelos Alemães na Grécia, em África e na Albânia e
estavam prontos a combater de novo, até a última gota de sangue, e todos lá em
cima ansiavam pela hora em que o grande e glorioso Hitler vencesse definitivamente
a guerra e deitasse ao mar esses safados dos Ingleses e Americanos. O sargento
ficou um pouco atrapalhado com esta tirada; olhava com ar de dúvida para Michele,
media-o de alto a baixo e via-se que não o acreditava. Mas, em suma, eram
palavras que não faziam mal nenhum e contra as quais nada podia dizer, embora
não acreditasse nelas. Assim, depois de terem entrado nas outras casotas e
revistado aqui e além, mas de má vontade e sem interesse, os dois voltaram para o
vale com grande alívio de todos nós.
Eu porém fiquei impressionada com a atitude de Michele. Não digo que devia
insultar os alemães, mas todas aquelas mentiras, assim gritadas com uma cara sem
vergonha, surpreenderam-me bastante. Disse-lho e ele encolheu os ombros e
respondeu-me:
“Com os nazis tudo é lícito: mentir-lhes, traí-los, matá-los se for possível, Que
farias a uma serpente venenosa, um tigre ou um lobo raivoso? Procuravas, decerto,
reduzi-lo à impotência pela força ou pela astúcia. Naturalmente não lhe falavas,
tentando de qualquer modo amansá-lo, porque já sabias que isso seria inútil. É
assim com os nazis. Eles colocaram-se fora da humanidade, como animais:
selvagens, e por isso, para os combater, todos os meios são bons. Tu, como aquele
oficial inglês tão instruído, nunca leste Dante. Se o tivesses lido, saberias que Dante
diz: ‘E cortesia fu in lui esser villano’”.
Perguntei o que queria dizer aquela frase de Dante e ele então explicou-me
que queria dizer precisamente que com gente como os nazis era já muita cortesia
mentir e atraiçoar. Nem isso mereciam. Eu disse por dizer que entre os nazis
também podia haver bons e maus, como há em todo o lado, e portanto não se podia
saber se aqueles dois eram maus. Mas Michele pôs-se a rir:
“Aqui não se trata de bons e maus. Talvez sejam bons para as mulheres e
para os filhos, tal como os lobos e as serpentes são bons para as fêmeas e suas
crias. Mas para a humanidade, é isso que conta, contigo, comigo, com Rosetta, com
estes refugiados e camponeses, não podem deixar de ser maus.”
“E porquê?”
“Porque”, respondeu, passado um momento de reflexão, “estão convencidos
de que é o bem aquilo que nós chamamos o mal. E fazem o mal julgando que
cumprem o seu dever.”
Fiquei na dúvida, parecia-me não ter compreendido. Ele, porém, não me dava
atenção e concluiu, como que a falar consigo mesmo:
“A combinação do mal e do sentido do dever, eis o que é o nazismo.”
Era curioso como Michele podia ser tão bom e ao mesmo tempo tão duro!...
Lembro-me de termos encontrado alemães noutra ocasião, em circunstâncias muito
diferentes. Eu tinha já pouca farinha e fazia o pão aproveitando não só o farelo mais
fino, mas também o mais grosso. Um dia decidimos ir ao vale a ver se
encontrávamos um pouco de farinha para trocar por ovos. Os ovos comprara-os a
Paride; tinha dezesseis e esperava, em troca desses ovos e juntando-lhe algum
dinheiro, arranjar uns quilos de farinha branca. Nunca mais descêramos ao vale
desde o dia daquele bombardeamento que causara tanto medo ao pobre
Tommasino, e, digo-o com sinceridade, desta vez ia de má vontade. Não sei porquê,
falei nisto diante de Michele e ele ofereceu-se para nos acompanhar. Aceitei com
prazer porque, com Michele, sempre me sentia mais segura, pois era a única pessoa
lá em cima que verdadeiramente me inspirava coragem e confiança. Meti então os
ovos num cestinho com palha e pusemo-nos a caminho de manhã cedo. Estávamos
nos primeiros dias de Janeiro, em pleno inverno, em plena guerra, no momento, por
assim dizer, mais negro, mais frio e mais desesperado, daquele desespero que
durava há tantos anos já. A última vez que descera ao vale, nesse dia em que fora
com Tommasino, havia ainda folhas nas árvores, embora amarelas, e erva nos
prados, depois de tantas chuvas, e nas encostas algumas flores, as últimas do
Outono, como ciclames e violetas selvagens. Mas agora, à medida que descíamos,
víamos tudo seco, cinzento, árido e nu, num ar frio e sem sol, sob um céu nublado e
sem cor. Partimos bastante alegres, mas depressa nos calamos: o dia estava
silencioso como são silenciosos os dias de Inverno e esse silêncio gelava-nos e
impedia-nos de falar.
Primeiro descemos pela encosta à direita do vale, depois atravessamos o
planalto onde, entre figueiras-da-índia e rochas, caíra a bomba lançada pelo avião
no dia em que íamos acompanhadas por Tommasino, passando em seguida para o
lado esquerdo. Caminhamos assim sem falar ainda meia hora e por fim chegamos à
entrada do vale, onde havia a pontezinha, a encruzilhada e a casa em que
Tommasino morara até o dia fatal do bombardeamento. Lembrava-me desse lugar
como de um sítio risonho, bonito e amplo, e fiquei surpreendida, confesso, ao vê-lo
triste, cinzento, nu e mesquinho. Já viram uma mulher sem cabelo? Eu já vi uma
rapariga da minha aldeia que teve o tifo: uma parte caiu-lhe, o resto rasparam à
máquina zero. Parecia outra, até tinha uma expressão diferente, fazia lembrar um
ovo grande e feio, com a cabeça lisa e calva que as mulheres nunca têm, pois uma
cara privada dos cabelos fica como que esmagada por uma luz demasiado crua. Do
mesmo modo, sem a folhagem espessa e verde dos três plátanos que davam
sombra à casita de Tommasino, sem a verdura que cobria as pedras das margens
do riacho, sem as plantas dos dois lados da estrada e nos valados, que então eu
não notara, mas deviam lá estar, pois agora sentia a sua falta, aquele lugar não
parecia o mesmo, perdera toda a beleza, exatamente como uma mulher a quem
tivessem rapado o cabelo. E, não sei porquê, vendo-a assim tão miserável,
constrangeu-me o coração e quase me pareceu que se assemelhava um pouco às
nossas vidas naquele momento, também nuas e sem ilusões, numa guerra que não
acabava mais.
Seguimos pela estrada principal e daí a pouco tivemos o primeiro encontro do
dia. Um homem conduzia pelas rédeas dois cavalos, castanhos e gordos, muito
bonitos, na verdade. Eram dois cavalos alemães, mas o homem tinha um uniforme
que eu nunca vira. Quando chegamos ao pé dele, primeiro olhou-nos, depois
saudou-nos e, como fazíamos o caminho na mesma direção, começou a conversar
conosco num mau italiano. Assim andamos e falamos um bom bocado. Era um
rapaz dos seus vinte e cinco anos, de uma beleza como poucas vezes tenho visto
na vida. Alto, de ombros largos, cintura delgadíssima como uma mulher, elegante,
pernas altas, metidas em botas de couro amarelo. Era louro como o ouro, tinha
olhos de uma cor entre o verde e o azul, talhados em amêndoa, estranhos e
sonhadores, o nariz direito, comprido e fino, a boca vermelha e bem desenhada e,
quando sorria, descobria uns dentes lindíssimos, brancos e certos, que era um
prazer olhá-los. Disse-nos que não era alemão, mas sim russo, de uma terra muito
distante, cujo nome não me lembro. Confessou tranqüilamente que traíra os Russos
e se pusera ao lado dos Alemães porque não gostava dos Russos, embora também
não gostasse dos Alemães. Acrescentou que, juntamente com outros compatriotas
que tinham traído igualmente o seu país, estava ao serviço dos nazis; mas agora
tinha a certeza de que os Alemães perdiam a guerra, pois a sua crueldade revoltara
o mundo inteiro, que se unira contra eles. Os Alemães, concluiu, mais mês, menos
mês, perdem a guerra e então, para ele, acabaria tudo, e fez nesta altura um gesto
que nos deixou gelados, levando a mão ao pescoço, como que a dizer que os
Russos lhe cortariam a cabeça. Falava com calma, como se a própria sorte lhe fosse
indiferente. E sorria até, não só com a boca, mas com aqueles olhos estranhos,
cerúleos, que pareciam dois bocadinhos de mar, onde o mar é mais fundo. Via-se
que odiava os Alemães e odiava os Russos e se odiava a si mesmo e não lhe
importava nada morrer. Caminhava tranqüilamente, segurando pelas rédeas os dois
cavalos. Na estrada deserta e no campo cinzento e gelado não havia senão ele e os
seus cavalos e parecia inacreditável que este homem tão belo estivesse, por assim
dizer, já condenado e tivesse de morrer, talvez mesmo antes do fim do ano. Na
encruzilhada onde nos separamos disse ainda, acariciando as crinas a um dos
cavalos:
“Estes dois cavalos são tudo quanto me resta na vida e nem sequer são
meus...”
Depois, lá se foi em direção à cidade. Ficamos a vê-lo um momento
afastar-se. E eu não pude deixar de pensar que encontrara mais uma vitima da
guerra: se não fosse a guerra, aquele rapaz tão belo teria ficado na sua aldeia,
decerto para se casar e trabalhar e ser um homem honrado, como todos os outros.
A guerra obrigara-o a sair da aldeia, obrigara-o a trair e agora a guerra matava-o e
ele estava resignado a morrer, e isso, entre tantas coisas horríveis, era talvez a pior,
por ser a menos natural e a menos compreensível.
Tomamos, à esquerda, uma estrada secundária que conduzia aos laranjais.
Esperávamos trocar aí os ovos pelo pão dos alemães que tinham as suas tendas à
beira do pomar, como da outra vez. Mas não encontramos ninguém, as peças de
artilharia tinham desaparecido. Só se via o solo pisado e sem ervas no sítio onde
tinham estado as tendas e algumas árvores arrancadas e despedaçadas, era tudo...
Disse então que seria melhor continuarmos por aquela estrada, pois talvez outros
grupos de alemães estivessem acampados um pouco mais adiante.
Caminhamos ainda um quarto de hora, sempre em silêncio, e, por fim,
percorrido quase um quilômetro, encontramos uma rapariga loura que andava por ali
sozinha, não como quem se dirige para um lugar determinado, mas como quem
passeia sem destino. Caminhava devagar, olhando com estranho interesse para os
campos cinzentos e nus e dando de vez em quando uma dentada num bocado de
pão. Fui ao seu encontro e perguntei-lhe:
“Dize-me, sabes se há alemães para estes lados, se seguirmos pela estrada
adiante?”
Ela parou ao ouvir a minha pergunta e fitou-me. Usava um lenço na cabeça, e
era uma linda rapariga, sã e robusta, de cara larga, um pouco maciça e olhos
grandes, castanhos. Respondeu logo à pressa:
“Os alemães... decerto que os há... pois estão cá os alemães.”
Perguntei-lhe:
“Mas onde estão?”
Ela olhava-me e agora parecia assustada, de repente, sem me responder, fez
um movimento para se ir embora. Peguei-lhe num braço e repeti a pergunta. Então
baixou a voz e disse:
“Se eu te disser, não vais contar onde tenho as provisões?”
Fiquei de boca aberta ao ouvir tais palavras, que eram ao mesmo tempo
adequadas às circunstancias e completamente absurdas. Exclamei:
“O que dizes? Porque me falas tu de provisões?”
E ela, abanando a cabeça:
“Vêm e levam tudo... vêm e levam tudo... os alemães, claro... mas sabes o
que lhes disse a última vez que cá vieram? Não tenho nada, não tenho farinha, não
tenho feijões, não tenho banha, não tenho nada... só tenho o leite para o meu
menino... se o querem, levem-no... aqui está.”
E, olhando-me fixamente, de olhos esbugalhados, começou a desabotoar a
blusa. Fiquei perplexa, tal como Michele e Rosetta. Ela olhava para nós, mexendo
os lábios como se falasse consigo mesma, e entretanto abria a blusa até a cinta e
depois, com uma das mãos, os dedos abertos, como fazem as mães quando dão de
mamar aos filhos, tirou para fora o seio.
“Não tenho senão isto... levem-no”, repetia em voz baixa, sonhadora. Agora
tinha conseguido tirar para fora da blusa todo o seio, que era lindo, redondo e cheio,
com aquela transparência de pele e brancura que habitualmente indicam que a
mulher é mãe e amamenta. Mas, depois de o tirar, eis que de repente se foi embora,
cantarolando, distraída, a blusa toda aberta, um seio à mostra e outro tapado.
Fez-me impressão vê-la ir assim a mordiscar o bocado de pão, com o seio exposto
ao frio do inverno, única coisa viva e branca e luminosa e quente naquele instante
sem sol e sem cor, nu e frio...
“É louca!”, disse por fim Rosetta.
Michele confirmou secamente:
“Sim!”
Recomeçamos a caminhar em silêncio. Como não se viam alemães em parte
alguma, Michele propôs que fôssemos a casa de uns seus conhecidos que
possivelmente viviam refugiados numa barraca no meio dos laranjais. Disse-me que
eram gente honesta e talvez nos pudessem indicar onde se encontravam alemães
que nos trocassem os ovos por pão. Assim, dali a pouco deixamos a estrada e
metemos por um carreiro através do pomar. Michele disse-nos que todas aquelas
laranjeiras pertenciam à pessoa a casa de quem íamos, um advogado solteiro, que
vivia com a mãe, já velha. Andamos talvez dez minutos e por fim desembocamos
numa pequena clareira, diante duma barraquita insignificante, com paredes de tijolo
e teto de chapa ondulada. A barraca tinha duas janelas e uma porta. Michele
aproximou-se de uma das janelas, olhou, viu que os donos estavam em casa e
bateu duas vezes. Esperamos um bocado e por fim a porta abriu-se lentamente,
como que de má vontade, e o advogado apareceu na soleira. Era um homem duns
cinqüenta anos, corpulento, calvo, fronte pálida e brilhante como o marfim,
circundada de cabelos pretos desgrenhados, olhos aquosos e à flor da pele, nariz
em bico, boca mole e dobrada sobre o duplo queixo. Vestia um casaco como os que
se usam à noite na cidade, de fazenda azul e gola de veludo preto. Mas, além deste
casaco tão elegante, tinha um par de calças esfarrapadas e botas de soldado, de
couro, com cardas.
Ao ver-nos, notei-o imediatamente, ficou pouco satisfeito; porém recompôs-se
logo e deitou os braços ao pescoço de Michele, com uma cordialidade quase
excessiva.
“Michelino... bravo, bravo... que bom vento te traz por cá?”
Michele apresentou-nos e ele saudou-nos a distância, empertigado, quase
com frieza. Entretanto, continuávamos à porta e ele não nos convidava a entrar.
Michele, então, disse:
“Passamos por aqui e lembramo-nos de lhe fazer uma visita.”
O advogado estremeceu:
“Muito bem... íamos agora mesmo sentar-nos à mesa... venham... comem
conosco.” Hesitou e depois acrescentou: “Michele, vou avisar-te... como conheço os
teus sentimentos, que, de resto, são também os meus... Convidei o tenente alemão
que comanda a bateria antiaérea instalada aqui ao lado... tinha de o fazer... nos
tempos que correm...”
Assim, desculpando-se e suspirando, introduziu-nos na barraca. Uma mesa
redonda estava posta junto da janela e era a única coisa limpa e em ordem na sala:
o resto eram apenas bugigangas, montes de farrapos, pilhas de livros, montões de
malas e caixas, À mesa estavam já sentados a mãe do advogado, uma senhora
idosa, pequena, vestida de preto, de face enrugada e apreensiva, qual macaquinha
assustada, e o tenente nazi, loiro, magro, chato como uma folha de papel na farda
justa, as compridas pernas metidas em calções de montar e polainas e estendidas
sem cerimônia, uma para cada lado, debaixo da mesa. Tinha mesmo focinho de cão:
só nariz, os olhos, quase amarelos, muito próximos um do outro, sem pestanas nem
sobrancelhas, com expressão estudada e hostil, a boca grande e repuxada nos
cantos. Cortês e obsequioso, levantou-se e saudou-nos, batendo os calcanhares:
mas não apertou a mão a ninguém e tornou a sentar se imediatamente, como quem
diz:
“Não o faço por vocês, mas sim porque sou uma pessoa educada.”
O advogado, entretanto, explicava que o tenente comandava uma bateria
antiaérea, o que nós já sabíamos, e que aquele almoço era um almoço de boa
vizinhança.
“E esperemos”, concluiu, “que a guerra acabe depressa e o tenente possa por
sua vez retribuir nos este convite em sua casa, na Alemanha.”
O tenente não disse nada, nem sequer sorriu. e eu pensei que ele não
percebia a nossa língua e não tinha compreendido. Mas, depois, de repente, ouvi-o
dizer em bom italiano à mãe do advogado, que, com voz lamentosa, lhe oferecia um
vermute:
“Obrigado, não tomo aperitivos.”
E compreendi então, não sei porquê, que ele não sorria porque embirrava, por
qualquer motivo, com o dono da casa. Michele contou o encontro com a louca e o
advogado disse com indiferença:
“Ah, sim, Lena!... Ela foi sempre doida. No ano passado, naquela confusão de
tropas para um lado e para o outro, um soldado surpreendeu-a enquanto vagueava
nos campos, sozinha como de costume, e engravidou.”
“E onde está agora o filho?”
“Está com a família, que o cria com todo o cuidado. Mas ela, a pobre louca,
imagina que lho querem tirar por não ter leite para alimentá-lo. É curioso, porém, que
o amamenta regularmente, isto é, a horas certas, a mãe põe-lho nos braços e ela faz
o que a mãe lhe diz que faça. Mas continua com a idéia fixa de que não pode
saciar-lhe a fome.”
O advogado falava da pobre Lena como de uma coisa sem importância. A
mim, pelo contrário, causara-me uma impressão profunda, que nunca mais se
apagou da minha memória. Como se aquele seio nu, que ela oferecia a qualquer na
estrada, fosse a verdadeira imagem das condições em que todos nós, Italianos,
vivíamos naquele inverno de 1944: desprovidos de tudo, como os animais que não
têm senão o leite que dão aos filhos.
Entretanto, a mãe do advogado, assustada, trêmula, apreensiva, ia à cozinha
e voltava, trazendo os pratos nas duas mãos, como se fossem o Santíssimo
Sacramento. Pôs na mesa salame e fatias de presunto, pão de fabrico alemão, igual
àquele de que nós andávamos à procura, depois uma verdadeira sopa com os
condimentos necessários e por fim um grande frango assado com guarnição de
legumes em conserva. Pôs também na mesa uma garrafa de vinho tinto, de boa
qualidade. Via-se que o advogado e a mãe faziam tudo para agradar àquele
rapazote alemão; como era agora vizinho deles, com a sua bateria, tinham todo o
interesse em amansá-lo.
Mas o tenente possuía de fato um caráter ruim, pois a primeira coisa que fez
foi indicar o pão e inquirir:
“Posso perguntar-lhe, senhor advogado, como conseguiu adquirir este pão?”
O advogado, todo enrolado no capote como se tivesse febre alta, respondeu
numa voz hesitante mas zombeteira:
“Bem, foi um presente, um soldado deu-nos isso e nós demos-lhe outra
coisa... sabe-se, em tempo de guerra...”
“Uma troca”, disse o outro, severo, “isso é proibido... E quem é esse
soldado?”
“Ah! ah! tenente, fala-se do pecado, mas não do pecador... Prove este
presunto, não é alemão, é nosso.”
O tenente não disse nada e começou a comer o presunto. Depois o tenente
deixou o advogado em paz e voltou-se para Michele. Perguntou-lhe à queima-roupa
qual era a sua profissão e Michele respondeu, sem hesitar, que era professor.
“Professor de quê?”
“De literatura italiana.”
O tenente, com grande espanto do advogado, afirmou então tranqüilamente:
“Conheço a vossa literatura e até traduzi para alemão um romance italiano”.
“Qual?”
O tenente disse o nome do autor e o título, mas já não me recordo de um nem
de outro e vi que Michele, que até então não mostrara nenhum interesse pelo
tenente, parecia agora interessado. O advogado, vendo que o nazi falava a Michele
quase com uma espécie de consideração, de igual para igual, também mudou de
atitude: parecia contente por sentar Michele à sua mesa; chegou a dizer ao tenente:
“Ah! o nosso Festa é um literato... um literato de valor!”
E dava-lhe palmadas no ombro. Mas dir-se-ia ser ponto de honra para o
tenente não ligar nenhuma ao advogado, que era o dono da casa e o convidara. E
continuou, voltado para Michele:
“Vivi dois anos em Roma e estudei a vossa língua... pessoalmente, ocupo-me
de filosofia”.
O advogado procurou meter-se na conversa, dizendo a brincar:
“Então deve compreender porque é que nós, Italianos, encaramos tudo
quanto nos aconteceu ultimamente com filosofia... ah! ah! é isso mesmo, com
filosofia...”
Mas mais uma vez o tenente nem sequer olhou para ele. Agora falava
animadamente com Michele, citando uma quantidade de nomes de escritores e
títulos de livros; via-se que conhecia bem a literatura e percebi que Michele, mesmo
contra vontade, ia cedendo a pouco e pouco, não digo a um sentimento de estima,
mas pelo menos de curiosidade. Continuaram assim algum tempo e em seguida,
não sei como, começaram a falar da guerra e do que pode significar a guerra para
um homem de letras ou um filósofo. O tenente, depois de observar que era uma
experiência importante, ou, antes, necessária, saiu-se com esta:
“Mas a sensação mais original e até a mais estética,” repito esta palavra
estética, embora naquela altura não a tivesse compreendido, porque toda a frase me
ficou na memória como que gravada a fogo, “experimentei-a durante a campanha
dos Balcãs, e sabe, senhor professor, de que maneira? Limpando uma caverna
cheia de soldados inimigos com o lança-chamas...”
Quando ele proferiu esta frase, ficamos todos quatro, Rosetta, eu, o advogado
e a mãe, como petrificados. Depois pensei que talvez aquilo fosse gabarolice e quis
convencer-me que não o tinha feito, que não era verdade: ele bebera já alguns
copos de vinho, tinha o rosto avermelhado e os olhos um pouco brilhantes, mas no
mesmo instante senti oprimir-se-me o coração e gelei completamente. Olhei para os
outros. Rosetta tinha os olhos no chão; a mãe do advogado, nervosa, endireitava
com as mãos trêmulas a dobra da toalha; o advogado fez como as tartarugas,
enterrou a cabeça na gola do capote. Só Michele olhava para o tenente de olhos
bem abertos; então disse-lhe:
“Interessante, não há outra coisa a dizer, muito interessante... Mas ainda mais
original e estética, suponho, deve ser a sensação do aviador que lança bombas
sobre uma aldeia e depois, ao passar, vê que onde estavam casas não resta senão
uma nuvem de pó...”
O tenente, porém, não era tão tolo que não percebesse a ironia daquela frase
de Michele. Passado um momento, declarou:
“A guerra é uma experiência insubstituível, sem a qual um homem não pode
chamar-se um homem... E, a propósito, senhor professor, como é que está aqui e
não na frente?”
Michele retorquiu-lhe com simplicidade:
“Qual frente?”
E, por muito estranho que pareça, o tenente desta vez não disse nada,
limitou-se a lançar-lhe um olhar mau e voltou-se para o prato.
Mas não estava satisfeito, via-se a uma légua de distancia; compreendia que
tinha em sua volta pessoas, se não hostis, pelo menos desfavoráveis. Assim, de
súbito, deixou Michele em paz, talvez por não lhe parecer bastante assustado, e
atacou de novo o advogado:
“Caro senhor”, disse muito empertigado, indicando a mesa, “aqui nada-se em
abundância, enquanto toda a gente das redondezas, de uma maneira geral, rebenta
de fome. O que fez para adquirir tantas coisas boas?”
O advogado e a mãe trocaram um olhar significativo, assustado e apreensivo
o da mãe, tranqüilizador o do filho; depois este afirmou:
“Asseguro-lhe que nos outros dias não comemos assim... fizemo-lo em sua
honra.”
O tenente calou-se um momento e em seguida perguntou:
”O senhor é proprietário aqui no vale, não é verdade?”
“Sim, de certo modo, sou.”
“De certo modo? Disseram-me que possui metade do vale...”
“Oh! Não, meu caro tenente, quem lhe disse isso foi algum mentiroso ou
invejoso ou as duas coisas juntas... possuo uns pomares... nós chamamos pomares.
a estes lindos bosques de laranjeiras.”
“Disseram-me que estes pomares rendem bom dinheiro... o senhor é um
homem rico.”
“Bem, senhor tenente, rico, rico, não... vivo do que é meu.”
“E sabe como vivem os camponeses que trabalham para o senhor?”
O advogado, vendo o caminho que a conversa tomava, respondeu com
dignidade:
“Vivem bem... neste vale são dos que vivem melhor...”
O tenente, que nessa altura cortava um pedaço de frango, observou sem
sorrir, espetando a faca na direção do advogado:
“Se estes passam bem, imagine-se como hão-de viver os que passam mal...
Eu vejo como vivem os seus camponeses. Vivem como animais, ente ou casas que
parecem chiqueiros, comem como as bestas e vestem-se de farrapos. Nenhum
camponês, na Alemanha, vive assim. Nós, na Alemanha, envergonhar-nos-íamos se
os nossos camponeses vivessem dessa maneira”.
O advogado, para agradar à mãe, que deitava olhares suplicantes, a pedir:
“Não lhe dês corda, está calado”, encolheu os ombros e não replicou. O tenente,
porém, insistiu:
“Que diz, meu caro advogado, a tudo isto? O que me responde?”
O outro desta vez afirmou:
“São eles que querem viver assim, asseguro-lhe, meu tenente. O senhor não
os conhece“.
Mas o tenente retorquiu com dureza:
“Não, vocês, os proprietários, é que querem que os camponeses vivam dessa
maneira. Tudo depende disto”, e batia na cabeça. “Vocês são a cabeça da Itália e a
culpa é vossa se os camponeses vivem como animais...”
O advogado estava mesmo assustado e via-se que engolia a comida com
esforço, como os frangos quando comem à pressa. A mãe tinha uma expressão
completamente desvairada e vi-a juntar as mãos, às escondidas, no regaço: rezava,
encomendava-se a Deus. O tenente prosseguiu:
“Antigamente, eu conhecia apenas algumas cidades da Itália, as mais belas, e
dessas cidades conhecia só os monumentos. Mas agora, graças à guerra, conheço
a fundo o seu país, percorri-o todo de lés a lés. E sabe, egrégio advogado, o que lhe
digo? Que as vossas diferenças de classes são um escândalo!”
O advogado ficou calado; porém fez um movimento de ombros como quem
diz: “E que tenho eu com isso?” O tenente percebeu e saltou:
“Não, meu caro senhor, isso diz-lhe também respeito, como a todos os outros,
advogados, engenheiros, médicos, professores, intelectuais. A nós, Alemães, por
exemplo, indignam-nos as enormes diferenças que há entre os oficiais e os soldados
italianos: os oficiais, cobertos de galões, vestem uniformes de tecidos especiais,
comem comidas especiais, têm em tudo e para tudo um tratamento especial,
privilegiado. Os soldados andam vestidos de farrapos, comem como animais, são
tratados como gado... Que tem a dizer, meu caro senhor, a tudo isto?”
O advogado desta vez falou:
“Digo-lhe que talvez seja verdade. Eu sou o primeiro a deplorá-lo. Mas que
posso eu fazer sozinho?”
E o outro, teimoso:
“Não meu caro senhor, não deve dizer isso. A sua responsabilidade é
evidente porque, se o senhor e todos os que são como o senhor quisessem
verdadeiramente que esta situação mudasse, ela mudaria. Sabe porque é que a
Itália perdeu a guerra e agora nós, os Alemães, temos de desperdiçar tropas nesta
frente italiana? Por causa dessa diferença entre soldados e oficiais, entre o povo e
os senhores da classe dirigente. Os soldados italianos não combatem porque
pensam que esta guerra é a vossa guerra, não a deles. E manifestam precisamente
a sua hostilidade não combatendo. Que tem a dizer a isto, egrégio advogado?”
O outro, talvez por raiva, desta vez conseguiu vencer o medo e pronunciou:
“É verdade que o povo não quis a guerra. E eu também não. Esta guerra
foi-nos imposta pelo governo fascista. E o governo fascista não é o meu governo,
disto pode o senhor estar certo.”
Mas o nazi, levantando a voz:
“Não, caro senhor, isso é muito cômodo. Este governo é o seu governo.”
“O meu governo? O senhor está a brincar, tenente...”
A mãe interveio nessa altura:
“Francesco, por favor, por amor de Deus!”
O tenente insistiu:
“Sim, o seu governo, quer a prova?”
“Mas qual prova?”
“Eu sei tudo a seu respeito, meu caro senhor, sei por exemplo que é um
antifascista, um liberal. Apesar disso, o senhor não se entende com os camponeses
e os operários do vale e entende-se com o secretário do fascio... que diz a isto?...”
O advogado encolheu mais uma vez os ombros:
“Pois saiba que não sou antifascista, nem liberal, não me ocupo de política,
trato apenas das minhas coisas... E, depois, que tem isso... andei na escola com o
secretário do fascio, somos quase parentes, a minha irmã casou com um primo
dele... Vocês, Alemães, não podem compreender certas coisas... Não conhecem a
Itália bem...”
“Não, caro senhor, esta é uma prova boa e sólida... vocês, fascistas e
antifascistas, estão todos unidos uns aos outros, porque são todos da mesma
classe, e este governo é o governo de todos os fascistas e antifascistas porque é o
governo da vossa classe... hem! Claro, os fatos falam por si, o resto é conversa...”
O suor molhava agora a testa do advogado, se bem que na barraca fizesse
frio; a mãe, não sabendo o que fazer, tinha se levantado, muito assustada, e dizia
com voz trêmula:
“Vou preparar-lhes um bom café...”
E encafuou-se em seguida na cozinha. O tenente entretanto dizia:
“Eu não sou como a maior parte dos meus compatriotas, que são tão
estúpidos como vocês, Italianos... eles amam a Itália por causa dos monumentos e
porque as suas paisagens são as mais belas do mundo... ou porque encontram um
italiano que fala alemão e comovem-se ao ouvir falar a própria língua... ou porque
lhes oferecem um bom jantar, como o senhor me ofereceu hoje, e ficam amigos.
Mas eu não sou como esses alemães estúpidos e ingênuos. Vejo as coisas como
elas são e digo-as de cara a cara, meu caro senhor.”
Não sei porquê, talvez porque aquele pobre advogado me causava dó,
disse-lhe de repente, quase sem refletir:
“O senhor sabe por que razão o advogado lhe ofereceu este jantar?”
“Porquê?”
“Porque vocês, Alemães, metem medo a toda a gente... não há ninguém que
não tenha medo de vocês... por isso procurou amansá-lo, como se faz a um animal
feroz, dando-lhe qualquer coisa boa a comer...”
Até custa a acreditar, mas ele mostrou por momentos uma cara quase triste e
amargurada: a ninguém, nem mesmo a um alemão, agrada ouvir dizer que mete
medo e que as outras pessoas são amáveis com ele só por terem medo. O
advogado, cheio de terror, procurou remediar as coisas, intervindo:
“Tenente, não dê ouvidos a esta mulher... é uma pessoa simples, não
compreende certos assuntos...”
Mas o nazi fez-lhe sinal que se calasse e perguntou:
“E porque é que nós, Alemães, metemos medo? Não somos homens como os
outros?”
Eu, agora lançada, ia responder-lhe: “Não, um homem verdadeiramente
homem, ou seja, um Cristão, não tem prazer em limpar, como o senhor disse há
pouco, uma caverna cheia de soldados vivos com um lança-chamas...” Mas, por
sorte, pois não sei o que daí poderia advir, não tive tempo; subitamente, começou no
vale um banzé de disparos desordenados e secos dos canhões antiaéreos,
alternando com os estrondos mais profundos das bombas que caíam. Ao mesmo
tempo, o ar enchia-se de um rumor distante, mas que se aproximava, tornando-se
cada vez mais distinto. O tenente levantou-se imediatamente, exclamando:
“Os aviões... tenho de correr para a minha bateria!”
E, deitando ao chão cadeiras e tudo quanto encontrou na passagem, saiu a
correr. O primeiro a recompor-se depois da fuga do tenente foi o advogado:
“Depressa, depressa, venham... vamos para o abrigo...”
Levantou-se e saiu da barraca à nossa frente. A um canto do terreiro havia
uma abertura à flor da terra, protegida por um castelo de traves e sacos de areia. O
advogado dirigiu-se para lá e começou a descer uma escadinha de madeira,
repetindo:
“Depressa, que daqui a instantes estão mesmo por cima de nós”.
De fato, sentia-se aquele rumor, entre as explosões da antiaérea, tornar-se
cada vez mais intenso, como se viesse de trás das árvores que circundavam a
clareira. Depois tudo acabou e ali ficamos no escuro, num quarto subterrâneo que
parecia ter sido escavado mesmo por baixo da clareira.
“Isto naturalmente não basta para uma bomba”, disse o advogado, “mas serve
pelo menos para nos abrigar das balas das metralhadoras... por cima de nós há um
metro de terra e os sacos...”
Estivemos lá em baixo não sei quanto tempo, de pé, no escuro, quase sem
poder respirar: ouvia-se de quando em quando, mas muito fraco, um tiro da
antiaérea, e era tudo. Por fim o advogado abriu a portinha, verificou que a calma era
completa e saímos para o ar livre. O advogado apontou-nos alguns dos sacos de
areia rasgados e furados e apanhou um projétil de latão, do comprimento de um
dedo, dizendo:
“Isto, se nos apanhava, matava-nos com certeza.”
A seguir, erguendo os olhos para o céu:
“Benditos aviões, venham muitas vezes. Oxalá nos libertem desse maldito
tenente, que é mesmo um animal feroz.”
A mãe repreendeu-o:
“Não digas isso, Francesco. Também é um cristão, não se deve desejar a
morte a ninguém.”
Mas o advogado respondeu:
“Um cristão? Maldito seja ele, maldita a sua bateria e maldito o dia em que
chegou aqui! Quando se for embora, hei-de dar um jantar mil vezes melhor do que o
de hoje. E fica entendido, estão todos convidados.”
E não se cansava de amaldiçoar o tenente alemão, com verdadeiro ódio.
Tornamos a entrar na barraca e bebemos o café; depois a mãe do advogado ficou
com os ovos e deu-nos em troca alguma farinha e feijões. Por fim despedimo-nos e
partimos.
Fazia-se tarde e, como já tínhamos trocado os ovos, eu queria voltar
depressa a Santa Eufêmia. No vale só tivéramos maus encontros. Primeiro o russo
com os cavalos, depois a pobre louca, por fim o tenente alemão. Michele, durante o
caminho, disse:
“A ouvi-lo falar, fazia-me raiva sobretudo uma coisa.”
“O quê?”
“Que tivesse razão, apesar de ser nazi.”
Eu observei:
“Porquê? Os nazis também podem ter razão de vez em quando.”
E ele, de cabeça baixa:
“Nunca!”
Queria perguntar-lhe como explicava que aquele nazi tão feroz, que sentia
prazer em queimar gente com o lança-chamas, fosse capaz ao mesmo tempo de se
impressionar com a injustiça que reinava na Itália. Michele dissera-nos sempre que
só sentiam a injustiça as pessoas de bem, os melhores, os únicos que ele não
desprezava. E eis que aparecia aquele tenente, ainda por cima filósofo, que sentia e
censurava a injustiça e simultaneamente tinha prazer em matar gente. Seria
possível? Então, no fim das contas, a justiça não era uma coisa boa? Mas não tive
coragem de lhe comunicar as minhas reflexões, pois via-o abatido e triste. Assim
deixamos o vale e chegamos a Santa Eufêmia, onde já fazia escuro há pedaço.

CAPÍTULO VII

Num desses dias de Janeiro, continuava a soprar a tramontana num céu


transparente e luminoso que parecia de cristal, Rosetta e eu ouvimos, ao acordar,
um rumor distante e regular, vindo do fundo do horizonte, dos lados do mar. Era
primeiro um baque surdo, como se o céu tivesse recebido um murro, e depois um
segundo logo a seguir, mais forte e mais claro, que parecia o eco do primeiro. Brum,
brum... Brum, brum... Era assim, sem parar, mas este som misterioso e ameaçador
parecia tornar, em contraste, o dia mais belo, o sol mais claro e o céu mais azul.
Durante dois dias aquela barulheira não parou nem de noite nem de dia; depois,
uma manhã, chegou um pastorinho do mato, trazendo um papel impresso que
encontrara numa sebe. Era uma folha dum jornal dos Ingleses, mas escrito em
língua alemã, para os Alemães, e, como lá em cima Michele era o único que sabia
alguma coisa de alemão, levaram-lho. Ele, depois de o ler, explicou-nos que os
Ingleses tinham feito um grande desembarque para os lados de Anzio, próximo de
Roma, e que se travava agora uma grande batalha com navios, canhões, carros
blindados e soldados... Os Ingleses avançavam para Roma e, segundo parecia,
estavam já às portas de Velletri. Ao saberem esta notícia, todos os refugiados
caíram nos braços uns dos outros, felicitando-se e beijando-se com alegria. Naquela
noite ninguém foi para a cama cedo, como era costume, todos andaram de casa em
casa, comentando o desembarque e regozijando-se com o sucedido.
Os dias seguintes, porém, não nos trouxeram nenhuma novidade. Aquele
rumor surdo do canhão continuou, é certo, a ressoar no fundo do horizonte, para os
lados de Terracina; mas os Alemães, não tardamos a sabê-lo, não se iam embora.
Passados alguns dias, chegaram-nos as primeiras noticias certas: os Ingleses, sim,
tinham desembarcado, mas os Alemães mandaram prontamente contra eles não sei
quantas divisões e, após duros combates, conseguiram detê-los. Agora os Ingleses
estavam entrincheirados na praia, num espaço bastante reduzido, e os Alemães
faziam fogo para lá, com todos os seus canhões, como se se tratasse de tiro ao
alvo; por aquele andar, depressa obrigariam os Ingleses a reembarcar nos navios
que continuavam ao largo, prontos a recebê-los, no caso de o desembarque ser
repelido.
Depois destas notícias, só se viam em Santa Eufêmia narizes de palmo e
meio; os refugiados repetiam que os Ingleses não sabiam fazer a guerra em terra,
pois eram só marinheiros, ao passo que os Alemães a tinham no sangue; por isso os
Ingleses não levariam a melhor e os Alemães acabariam por ganhar a guerra.
Michele não falava a este respeito com os refugiados porque, segundo nos disse,
não se queria irritar. Mas a nós assegurava-nos, com calma, que era absolutamente
impossível os Alemães vencerem. Quando um dia lhe perguntei porque pensava
assim, respondeu simplesmente:
“Os Alemães estavam já vencidos quando principiaram a guerra.”
Quero contar aqui uma história para mostrar como estávamos lá em cima sem
notícias e como os camponeses, quase todos analfabetos, deformavam até o pouco
que se conseguia saber.
Visto ser difícil conseguirmos dados concretos sobre o desembarque dos
Ingleses em Anzio, Filippo e outro refugiado, negociante como ele, decidiram pagar
a Paride para ir, pelos atalhos da montanha, a uma aldeia bastante longe, na
Ciociaria, onde havia um médico municipal que tinha rádio. É verdade que Paride
era analfabeto, não sabia ler nem escrever, mas tinha ouvidos e podia ouvir a rádio
como toda a gente e pedir explicações ao médico. Deram ainda a Paride algum
dinheiro para tentar comprar, pelo caminho, mantimentos: farinha, feijão, gorduras,
tudo o que encontrasse. Paride amarrou o burro e partiu uma manhã ao romper da
alva. Esteve fora três dias e voltou uma tarde à noitinha. Assim que o viram a descer
o monte com o burro pela arreata, todos os refugiados foram ao seu encontro, e
entre eles Filippo e o seu amigo negociante, que lhe tinham pago para ele ir ouvir a
rádio. Paride, mal chegou ao socalco, disse que não encontrara nada ou quase nada
de comer, por toda a parte havia escassez e fome como em Santa Eufêmia, ou
ainda pior. Depois dirigiu-se para a cabana seguido de um cortejo de gente. Na
cabana sentou-se num banco e em sua volta sentaram-se a família, Michele, Filippo
e outros; muitos ficaram lá fora, porque não havia lugar, mas queriam à mesma ouvir
o que Paride conseguira saber.
Paride disse que ouvira a rádio, mas esta quase nada adiantava sobre o
desembarque, a não ser que os Ingleses e os Alemães continuavam nas suas
posições e dali não se moviam. Mas falara com o médico e com outras pessoas que
tinham ouvido a rádio nos dias anteriores e assim pudera concluir porque é que o
desembarque falhara. Filippo perguntou-lhe porquê e Paride respondeu com
simplicidade que fora por culpa de uma mulher. Ficaram todos de boca aberta com
tal notícia. Paride prosseguiu e contou que o almirante que comandava o
desembarque era americano, ou, melhor, na realidade alemão, mas ninguém sabia.
Este almirante tinha uma filha, linda como as estrelas, que estava noiva do filho do
general que comandava todas as tropas americanas na Europa. Mas esse filho do
general não passava de um patife e fizera a afronta de romper o noivado, restituindo
à filha do almirante os presentes e o anel para ir casar com outra.
Então, o almirante, pai da noiva, que era alemão, para se vingar, informou os
Alemães, secretamente, do desembarque, e, assim quando os Ingleses apareceram
diante de Anzio, encontraram já ali os alemães prontos a recebê-los com os seus
canhões. Mas a traição fora já descoberta, sabia-se de fonte segura que o almirante
era alemão, embora se fizesse passar por americano; tinham-no prendido e iam
julgá-lo e com certeza seria fuzilado. Estas notícias de Paride dividiram os ouvintes.
Alguns, os mais ignorantes e mais simples, repetiam, abanando a cabeça: “Sabe-se,
por trás de tudo há sempre uma mulher... se procurarmos bem, encontramos sempre
saias.” Mas muitos outros não acreditavam, dizendo que era impossível que a rádio
tivesse contado aquelas patranhas. Michele limitou-se a perguntar a Paride:
“Estás certo de que essas notícias as deu a rádio?”
Paride confirmou que o médico e outros mais lhe asseguraram que tinham
ouvido isso nos comunicados da Voz de Londres. E Michele:
“Dize lá, por acaso não as terias ouvido a algum cantor na praça da aldeia?”
“Que cantor?”
“Digo isto por dizer. Parece uma nova versão da história de Gano di Maganza.
Muito interessante, não há dúvida...”
Paride não compreendeu a ironia e repetiu que eram tudo notícias dadas pela
rádio; mas eu, pouco depois, perguntei a Michele quem era esse Gano di Maganza e
ele explicou-me que tinha sido um general do passado, que há muitos séculos traíra
o seu imperador numa batalha contra os Turcos. Então, observei:
“Bem, como vês, são coisas que podem acontecer... não digo que Paride
tenha razão, mas não é completamente impossível...”
Ele pôs-se a rir e disse:
“Oxalá as coisas se passassem ainda hoje dessa maneira!...”
Em suma, não nos restava senão esperar, visto que o desembarque tinha
falhado por qualquer motivo. Mas, como diz o provérbio, quem espera desespera, e
nós lá em cima, em Santa Eufêmia, durante esse fim de Janeiro e em todo o mês de
Fevereiro não fizemos senão desesperar e morrer cada dia um pouco mais. O tempo
passava, monótono, tudo se repetia e todos os dias aconteciam as mesmas coisas
que tinham acontecido nos meses anteriores. De manhã era preciso levantar, cortar
lenha, acender o fogo na cabana, fazer a comida e comer; e depois andar pelos
socalcos para enganar o tempo até a hora da ceia. E todos os dias vinham os aviões
deitar bombas. Todos os dias se ouvia, de manhã à noite, o martelar daqueles
malditos canhões de Anzio, que disparavam continuamente e parece que nunca
acertavam, pois nem os Ingleses nem os Alemães, segundo sabíamos, avançavam
um passo. Cada dia era semelhante ao anterior; mas a esperança, excitada e
impaciente, tornava-o mais tenso, exasperado, doloroso, aborrecido, interminável e
enervante. E aquelas horas que, no princípio da nossa permanência em Santa
Eufêmia, parecia passarem tão rapidamente, agora nunca mais findavam e era
mesmo um desfalecimento e um desespero impossível de descrever.
Contudo, o que contribuía para tornar ainda mais exasperante aquela
monotonia era ouvir sempre a mesma conversa: comida, só comida. Falava-se de
comida cada vez mais, talvez porque houvesse cada vez menos. E nessas
conversas não transparecia só a saudade de quem come mal, mas a inquietação de
quem não come bastante. Agora todos comiam uma única refeição por dia e tinham
muito cuidado em não convidar os amigos. Como dizia Filippo: “Amigos até à morte,
mas à mesa, nestes tempos, cada um por si.” Os que passavam menos mal eram
ainda os que tinham alguns cobres, isto é, Rosetta e eu, Filippo e outro refugiado,
que se chamava Geremia; mas também nós, os “ricaços”, como se diz, sentíamos
que daí a pouco o dinheiro não serviria para nada. De fato, os camponeses, que, ao
princípio, se mostravam tão ávidos de dinheiro, pois, coitados, em tempo de paz
nunca o vêem, começavam já a entender aquele latim e convenciam-se de que
afinal o dinheiro vale menos do que os gêneros. Diziam surdamente, quase com
acento de vingança: “Agora chegou a hora dos camponeses... Somos nós que
mandamos porque temos as provisões... o dinheiro não se come...” Mas eu sabia
que isto eram gabarolices e só gabarolices eles também não tinham que comer. Não
passavam de pobres camponeses da montanha, que lutam sempre com dificuldades
até à altura das colheitas e, quando chega Abril ou Maio, têm de arranjar uns
patacos para comprar alguma coisa até o mês de Julho.
Qual era a nossa alimentação? Comíamos, uma vez por dia, alguns feijões
cozidos em água com uma colherinha, das de café, de banha e um pouco de
conserva de tomate, um bocado de carne de cabra e alguns figos secos. De manhã,
como já disse, alfarrobas ou cebolas e uma fatia de pão. O pior é que não havia sal,
e isto era terrível, pois a comida sem sal não se pode tragar, assim que se mete na
boca dá vontade de vomitá-la, tão insípida é, quase doce, até parece uma coisa
morta e podre. De azeite não havia uma gota sequer, de banha restavam-me dois
dedos no fundo de um tacho de barro. De vez em quando lá nos saía a sorte grande,
como num dia em que pude comprar dois quilos de batatas. De outra vez
sucedeu-me comprar a uns pastores um queijo de ovelha com quatrocentos gramas,
duro como pedra, mas bom e picante. Mas isto era um acaso, uma coisa rara, com a
qual não se podia contar.
O campo, quando chegamos aos primeiros dias de Março, começou a mostrar
os sinais da Primavera. Uma manhã, por exemplo, ao debruçarmo-nos no socalco,
vimos por entre o nevoeiro, na encosta, o primeiro tremular das flores brancas das
amendoeiras: tinham aberto durante a noite e parecia tremerem de frio, brancas
como quimeras no nevoeiro cinzento. A nós, refugiados, essa floração pareceu um
bom sinal: chegava a Primavera, as estradas iam secar, os Ingleses recomeçariam o
seu avanço. Mas os camponeses abanavam a cabeça: Primavera quer dizer fome.
Eles sabiam por experiência própria que as suas provisões não chegavam até a
nova colheita e procuravam poupá-las o mais que podiam, tentando de todas as
formas arranjar qualquer coisa que comer sem as desfalcar. Paride, por exemplo,
punha no mato ratoeiras feitas com canas para apanhar pintarroxos e cotovias: mas
eram pássaros tão pequeninos que menos de quatro não chegavam para uma
refeição. Ou então procurava apanhar em armadilhas as raposas, que para aqueles
lados são pequenas e vermelhas como fogo; depois tirava-lhes a pele e deixava-as
em água durante alguns dias para amaciar a carne, cozinhando-as em seguida com
um molho doce e forte, de maneira a não se sentir o seu gosto selvagem. Mas o
grande recurso dessa época era a chicória, não a planta que se come em Roma
com esse nome e é sempre a mesma, mas qualquer planta boa para comer. Eu
também recorria cada dia mais à chicória e algumas vezes passava manhãs inteiras
com Rosetta e Michele a colhê-las nos socalcos. Saltávamos da cama cedo e, cada
um com uma faquinha e um cabaz, íamos pela encosta, ora mais para baixo, ora
mais para cima das casas, colher as ervas.
Não se faz idéia da grande quantidade de ervas boas para comer: são quase
todas. Já as conhecia por tê-las colhido em criança, mas esquecera-me quase por
completo dos seus nomes e espécies. Luísa, a mulher de Paride, acompanhou-me a
primeira vez para me ensinar e bem depressa me tornei tão hábil como os
camponeses, conhecendo as várias espécies uma por uma, pelo nome e pela forma.
Lembro algumas: o mastruco, que na cidade se chama agrião, com as folhas e os
pés tenros e doces, de um verde-escuro; o dente-de-leão, que se encontra entre as
pedras dos socalcos, de um verde quase azul, com folhas finas, compridas e
carnudas; a beldroega, que é uma erva achatada, com quatro ou cinco folhas
esmagadas contra o chão, peludas, verdes e amarelas: a autêntica chicória, com
pés compridos e folhas denteadas e pontiagudas; os poejos; a hortelã, as azedas e
não sei quantas mais. Andávamos, como disse, para cima e para baixo, nos
socalcos, e não éramos os únicos, porque todos colhiam chicória, o que dava à
encosta da montanha um aspecto estranho, toda salpicada de gente a mover-se de
um lado para o outro, de cabeça baixa, em passos miúdos, como outras tantas
almas do Purgatório. Parecia que todos procuravam algum objeto perdido, quando,
ao contrário, era a fome que os fazia procurar qualquer coisa, não que tinham
perdido, mas sim que esperavam encontrar. Esta colheita de chicória durava
bastante tempo, duas ou três horas, e até mais, porque para fazer uma tigela era
preciso colher um avental cheio, e também porque não havia tanta que chegasse
para todos que a procuravam; por isso, à medida que os dias passavam, era preciso
ir procurá-la cada vez mais longe e durante mais tempo. De todo este trabalho, no
fim, pouco restava; uma vez cozidas, as ervas de dois ou três aventais cheios
ficavam reduzidas a duas ou três bolas verdes, cada uma do tamanho de uma
laranja. Depois de as cozer, eu passava-as na frigideira por um pouco de banha; isto
servia, se não para nos alimentar, ao menos para nos encher a barriga e enganar a
fome. Mas o trabalho de colher a chicória deixava-nos cansadíssimas para todo o
dia. E à noite, quando me deitava ao lado de Rosetta na cama dura, em cima do
saco cheio de palha de milho, mal fechava os olhos, em vez de ver o escuro, só via
chicória, plantas e mais plantas de chicória a dançarem na minha frente. E bem me
esforçava por dormir: durante um bocado só via a chicória a cruzar-se e a separar-se
diante de mim, até que, depois de uma longa sonolência, adormecia.
Mas, como já disse, a coisa mais aborrecida, neste período, era o fato de a
escassez incitar os refugiados a falar todo o dia de comida e mais comida. A mim
também me agrada comer; reconheço, naturalmente, que comer é uma coisa
importante; se não se come, não se pode fazer nada, nem sequer procurar comida.
Mas há coisas mais importantes, como dizia Michele, para se conversar: e, além
disso, falar de comida com a barriga vazia é sofrer um duplo tormento: recorda-se ao
mesmo tempo a fome e a fartura. Filippo, sobretudo, estava sempre caído nestas
conversas. Algumas vezes, ao passar no socalco, via Filippo sentado numa pedra e
cercado de um grupo de refugiados: aproximava-me e ouvia-o dizer:
“Lembram-se? Alguém telefonava para Nápoles, fazia a marcação duma
mesa num restaurante. Depois tomávamos um carro, uns quatro ou cinco, todos
bons garfos, e partíamos. Sentávamo-nos à mesa à uma e só nos levantávamos às
cinco. O que comíamos? Ah! espaguete de peixe, com lulas, gambás, ostras;
douradas e muges assados ou cozidos com maionese: peixe-pombo com ervilhas;
postas de peixe-espada, de perca ou de atum na grelha: polvos à Luciana, que são
bem bons. Em suma, peixes de todas as qualidades e com todos os molhos, durante
duas ou três horas. Sentávamo-nos à mesa em ordem, irrepreensíveis:
levantávamo-nos com os coletes desabotoados, os cintos desapertados e arrotos
que faziam tremer os vidros: pesávamos, cada um, mais dois ou três quilos. E
bebíamos pelo menos uma garrafa de vinho por cabeça. Ah! Quando tornaremos a
essas comezainas?”
Qualquer um dizia então:
“Quando chegarem os Ingleses, volta a abundância, Filippo!”
Num desses dias em que, como de costume, falavam de comida, assisti a
uma contenda entre Filippo e Michele. Filippo dizia:
“Ah! Quem me dera ter agora um bom porco para matar e fazer uns belos
bifes, bem gordos, da altura de um dedo, cada um com o peso de quinhentos
gramas... sabem, quinhentos gramas de porco é coisa de fazer ressuscitar um
morto...”
Michele, que, por acaso, estava a ouvir, comentou:
“Seria mesmo um caso de canibalismo.”
“Porquê?”
“Um porco a comer outro porco...”
Filippo ficou para morrer ao ouvir o filho chamar-lhe porco, fez-se vermelho e
proferiu, em voz forte:
“Não respeitas os teus pais?!”
E Michele:
“Não só não os respeito, como me envergonho deles.”
Filippo ficou novamente desconcertado com esse tom tão duro e intransigente
e limitou-se a observar mais calmo:
“Se não tivesses tido um pai que te pagasse os estudos, não podias agora
envergonhar-te de nós... mea culpa.”
A estas palavras, Michele ficou um momento calado e depois disse:
“Tens razão... fiz mal em ouvi-los... daqui para o futuro estarei a distância e
vocês podem falar à vontade de comidas...”
Filippo volveu então, conciliador e quase comovido, pois era talvez a primeira
vez, desde que estavam lá em cima, que o filho lhe dava razão:
“Se queres, falamos de outra coisa... tens razão, que necessidade há de falar
em comida?... Falemos de outra coisa...”
Mas Michele, de súbito, encheu-se de cólera e, voltando-se, como uma
víbora, gritou:
“Está bem, e do que vamos falar? Do que faremos quando chegarem os
Ingleses? Da abundância? Dos negócios? Das coisas que o meeiro roubou? Sim, do
que vamos falar?”
Desta vez Filippo calou-se, pois eram só aqueles, ou poucos mais e
semelhantes, os assuntos em que podia falar; o filho tinha-os dito quase todos e não
havia nenhum outro de que ele se lembrasse. Michele, depois de dizer isto,
afastou-se. Filippo, quando o viu pelas costas, fez um gesto vago, a significar:
“É um extravagante, temos de ter pena dele...”
E todos os refugiados procuravam consolá-lo, dando-lhe razão:
“Filippo, tens um filho que sabe muitas coisas... o dinheiro que gastaste com
os seus estudos não foi mal empregado... isto é o importante, o resto não conta...”
Michele disse-nos naquele mesmo dia, um pouco mortificado:
“Meu pai tem razão, falto-lhe ao respeito. Mas é mais forte do que eu: quando
o ouço falar de comida, perco a cabeça.”
Perguntei-lhe porque o irritava tanto que o pai falasse de comida. Ele pensou
um momento e depois respondeu-me:
“Se soubesses que morrias amanhã, falavas de comida?”
”Não.”
“Pois bem, nós estamos nessas condições. Amanhã ou daqui a anos
morreremos. Devemos, então, enquanto esperamos a morte, falar só de tolices?”
Eu não compreendia bem e insisti:
“Mas de que havemos de falar?”
Ele pensou outra vez e retorquiu:
“Da situação em que nos encontramos, por exemplo, devíamos falar das
razões por que viemos aqui parar.”
“E quais são essas razões?”
Ele pôs-se a rir e respondeu:
“Cada um de nós deve encontrá-las por si próprio.”
Eu então disse:
“Será, mas o teu pai fala de comida precisamente porque ela falta e somos
forçados, por assim dizer, a pensar nela à força.”
Michele concluiu:
“Pode ser. A desgraça, porém, é que o meu pai fala sempre no mesmo, até
quando há fartura e não falta comida a ninguém.”
Entretanto, havia verdadeira falta de gêneros e todos agora procuravam
salvar o pouco que tinham; quando falavam uns com os outros, o seu primeiro
cuidado era esforçarem-se por convencer toda a gente de que já não tinham nada.
Filippo, por exemplo, repetia constantemente aos refugiados mais pobres:
“Só tenho farinha e feijões para uma semana... depois, será o que Deus
quiser...”
Ora isto não era verdade e todos sabiam que ele tinha ainda em casa um
saco de farinha e outro menor de feijões, mas Filippo, com medo de que o
roubassem, não convidava ninguém a ir a sua casa e de dia fechava a porta à chave
e ia para os socalcos com a chave no bolso.
Os camponeses, esses, coitados, estavam na verdade quase sem nada, pois
nos outros anos, por essa época, costumavam descer a Terracina para comprarem
com que viver até a altura das colheitas. Mas nesse ano havia escassez por toda a
parte e dava-se até o caso de haver mais fome em Terracina do que em Santa
Eufêmia. Além disso, os alemães, sempre que podiam, deitavam mão ao que
apanhavam, não porque fossem todos maus e ladrões, mas simplesmente porque
estavam em guerra e a guerra significa matar e roubar. Por exemplo, num daqueles
dias chegou lá acima um soldado alemão sozinho, como se fosse em passeio:
estava desarmado. Moreno, de cara redonda e boa, olhos azuis inquietos e um
pouco tristes, andou muito tempo em volta das cabanas a falar com os camponeses
e os refugiados. Via-se que não tinha más intenções, até mostrava simpatia por toda
aquela pobre gente. Disse que em tempo de paz era ferreiro na sua terra, na
Alemanha, e disse ainda que era um bom tocador de harmônio. Então um dos
refugiados foi buscar o seu harmônio e o alemão sentou-se em cima de uma pedra e
tocou para nós, cercado de crianças que o ouviam de boca aberta. Tocava mesmo
bem e tocou, entre outras coisas, uma cançoneta que naqueles tempos, segundo
parece, era cantada por todos os soldados alemães: Lili Marlene. Era uma
cançoneta triste, quase um lamento, e ao ouvi-la pensei que, apesar de tudo,
aqueles alemães, que Michele tanto odiava e nem sequer considerava como
homens, também eram cristãos. Tinham mulher e filhos em casa e também odiavam
a guerra, que os separava da família. Depois de Lili Marlene tocou muitas outras
árias, sempre tristes, que comoviam, algumas tão complicadas como músicas de
concerto. E ele, de cabeça inclinada para o harmônio, todo absorvido a considerar
as teclas que percorria com os dedos ágeis, dava a impressão de ser um homem
sério que conhecia o valor das coisas e não odiava ninguém, e, se pudesse, de boa
vontade renunciaria a fazer a guerra. Bem, este alemão simpático, depois de ter
tocado aí uma hora, retirou-se, não sem primeiro acariciar a cabeça das crianças,
dizendo-nos algumas palavras de conforto, no seu italiano arrastado:
“Coragem, a guerra vai acabar depressa.”
O carreiro por onde desceu passava rente a uma cabana em cuja paliçada o
refugiado que lá morava pusera a enxugar uma linda camisa aos quadrados
vermelhos e brancos. O alemão parou, apalpou o tecido para ver se era de boa
qualidade, depois abanou a cabeça e seguiu o seu caminho. Mas, meia hora mais
tarde, ei-lo de volta, cansado da subida feita a correr. Vai direito à cabana, tira a
camisa da paliçada, põe-na debaixo do braço e lá vai ele de novo a correr pela
encosta em direção ao vale. Compreende-se isto? Foi-se embora depois de ter
tocado harmônio e acariciado as crianças, era um bom homem, via-se bem; mas
aquela camisa ficara a moê-lo e a remoê-lo e pelo caminho, enquanto descia, só
pensava nela; por fim a tentação foi mais forte do que a consciência e voltou à
pressa lá acima, pegou nela e foi-se de vez. Enquanto tocara harmônio, fora o
homem que em tempo de paz era ferreiro; quando pegou na camisa, era o soldado
que não conhece o meu nem o teu e não respeita nada nem ninguém. Em suma,
como já disse, a guerra não quer dizer só matar, mas também roubar; e aquele que
em tempo de paz não mataria, nem roubaria por nenhum ouro do mundo, em tempo
de guerra encontra no fundo do coração o instinto de roubar e de matar que há em
todos os homens: mas encontra-o porque o encorajam a encontrá-lo, dizendo-lhe a
todo o momento que aquele instinto é bom e deve obedecer-lhe, de outro modo não
será um verdadeiro soldado. Então ele pensa: “Estamos em guerra... tornarei a ser
aquilo que na realidade sou quando voltar a paz... por agora, deixo-me ir ao sabor
da corrente...” Infelizmente, ninguém que tenha roubado e matado, ainda que seja
na guerra, pode esperar vir a ser alguma vez o que era antes, pelo menos em minha
opinião. Seria como se, por exemplo, uma mulher virgem se deixasse deflorar na
ilusão de que podia mais tarde voltar a ser virgem, não sei por que milagre que
nunca sucedeu. Ladrões e assassinos uma vez, mesmo com farda e o peito coberto
de medalhas, serão ladrões e assassinos para sempre.
Os camponeses sabiam que os alemães tinham o costume de deitar a mão a
tudo e por isso arranjaram uma espécie de serviço de alarme: vários rapazes
escalonados pela encosta, desde o vale até Santa Eufêmia. Mal um alemão
aparecia no carreiro, imediatamente o primeiro gritava com quanto fôlego tinha:
“Malária!”
E outro logo mais acima repetia o grito:
“Malária!”
E assim duns para outros iam gritando:
“Malária! Malária!”
Então, àquele grito, era um corrupio geral em Santa Eufêmia: um agarrava no
saquito dos feijões, outro no da farinha, outro no pote da banha e outro nas
salsichas, e iam todos esconder esses tesouros no meio das sebes ou dentro das
grutas. Algumas vezes o alemão chegava, era um simples soldado que se arriscara
até lá acima não se sabia porquê, andava um bocado por entre as casas e todos o
seguiam em procissão e um ou outro levava a comédia ao ponto de fazer gestos,
com as mãos na boca, como a dizer que tinha fome. Mas muitas vezes o alarme era
falso e, passada uma hora, como não aparecia nenhum alemão, os refugiados
davam um suspiro de alívio e iam buscar as suas coisas aos esconderijos.
Mas a verdade é que cada vez escasseava mais a comida e, como as minhas
provisões estavam quase no fim, decidi fazer um esforço sério para arranjar
mantimentos; eu tinha dinheiro e talvez em qualquer lugar menos exposto alguém
vendesse fosse o que fosse. Assim, uma bela manhã, muito cedo, pusemo-nos a
caminho, Rosetta, Michele e eu, em direção a uma localidade da montanha
chamada Sassonero, que ficava mais ou menos a umas quatro horas de caminho.
Calculávamos chegar lá por volta do meio-dia, fazer as nossas compras, se fosse
possível, comer qualquer coisa, e pormo-nos de novo a andar, para voltarmos a
Santa Eufêmia antes do anoitecer. Partimos ainda o sol se escondia por trás dos
montes, embora já fosse dia há bocado. Corria um ventinho frio que nos gelava o
nariz e as orelhas e, na realidade, quando chegamos lá acima, encontramos neve:
alguns flocos brancos que se desfaziam na erva cor de esmeralda. O sol apareceu
finalmente e passamos a sentir menos frio, o panorama das montanhas da Ciociaria,
salpicadas de neve por baixo do céu luminoso, era tão lindo que paramos um
momento a contemplá-lo. Recordo que Michele disse, num suspiro, quase a custo,
olhando para os montes:
“Ah! Como é bela a Itália!”
Eu observei-lhe, a rir:
“Michele, dizes isso como se te desagradasse.”
E ele:
“É verdade, desagrada-me um pouco, porque a beleza é uma tentação.”
No planalto tomamos por um vago carreiro entre os rochedos, que não era
mais que um rastro na erva: porém, a pouco e pouco tornava-se bem visível,
seguindo sempre a crista do monte, tendo de um lado e de outro vertentes em
precipício, uma que descia ininterruptamente até Fondi, a outra, menos funda, que ia
dar a um vale deserto, todo coberto de espesso mato, o carreiro, sempre
encarrapitado lá nos píncaros, ondulava um bocado em curvas de serpente, depois
começava a descer a meia encosta para o tal vale selvagem, entre mato e
carvalheiras.
Descemos até o fundo desse vale, ou, melhor, dessa garganta deserta, e
durante algum tempo caminhamos ao longo de um riacho meio escondido nas
sebes, o qual produzia, ao correr sobre as pedras, um leve e alegre rumor naquele
silêncio profundo. Logo o carreiro tornava a subir, atingindo do outro lado novo
planalto, e depois descia um pouco, para começar, noutra montanha, nova subida
até um cume nu e pedregoso, com uma cruz de madeira negra, muito velha,
colocada no meio das pedras, sabe-se lá porquê. Avançando sempre pela crista dos
montes, chegamos por fim a um lugar estranho, que pudemos observar um
momento lá do alto, antes de descermos. Era um pequeno plano, liso como a palma
da mão, estendido em frente duma rocha vermelha do feitio de um panettone5, aqui
e além semeado de carvalhos e rochedos. Os carvalhos eram grandes e velhos, de
ramos nus e grisalhos, emaranhados no ar, semelhantes a cabeleiras de bruxas; os
rochedos, esses, uns eram pequenos e outros grandes, mas todos do feitio do pão
de açúcar, lisos e negros, como se os tivessem passado ao torno. Entre os
carvalhos e as fragas, aqui e acolá, viam-se cabanas cobertas de palha enegrecida,
a fumegarem, e, em frente das cabanas, mulheres que costuravam ao ar livre, ou
estendiam roupa nas cordas, a secar, e muitas crianças que brincavam no chão
pedregoso; não se viam homens, pois era uma aldeia de pastores e àquela hora os
homens andavam com os seus rebanhos na montanha. Quando descemos até junto

5
Bolo especialmente fabricado em Milão, feito com farinha, manteiga, açúcar, ovos e passas de uvas. Tem a
forma de um cilindro abaulado no cimo
das cabanas, vimos na base daquela grande rocha em forma de panettone, de que
já falei, a abertura negra duma caverna; uma das mulheres disse-nos que lá dentro
havia refugiados. Perguntei-lhe se tinha alguma comida para vender, mas ela
abanou a cabeça, taciturna, em sinal negativo; depois, num tom reticente,
acrescentou que talvez os refugiados pudessem vender-nos qualquer coisa. O que
me pareceu estranho, pois habitualmente os refugiados não vendem, compram.
Contudo, dirigimo-nos para a caverna, quando mais não fosse, ao menos
para pedir informações, visto que das mulheres dos pastores, selvagens e
desconfiadas, era impossível arrancar uma única palavra. O chão, à medida que nos
aproximávamos, estava juncado de grande quantidade de ossos, pequenos e
grandes, misturados com o cascalho, sem dúvida os restos das cabras e ovelhas
consumidas por aqueles refugiados; mas além dos ossos havia também lixo, caixas
ferrugentas, farrapos, sapatos velhos, papéis. Parecia um desses terrenos de Roma
destinados a construções, onde se deita o lixo das casas vizinhas. Aqui e além
viam-se círculos negros de fogueiras com tições apagados em volta de pequenos
montes de cinza. A entrada da caverna era bastante ampla e, em torno, toda negra e
suja. De pregos espetados na pedra, pendiam panelas, tachos de cobre, trapos e
um quarto de cabra há pouco abatida, do qual escorria ainda o sangue para o chão.
Quando entrei, confesso, fiquei surpreendida: alta e profunda, com a abóbada
enegrecida pelo fumo e o fundo tão escuro que nem se lhe via o fim, parecia um
imenso dormitório, completamente cheio de camas e enxergões, alinhados uns ao
lado dos outros, como num hospital ou numa caserna. Lá dentro reinava o mau
cheiro característico dos asilos e albergues para pobres e aquelas camas, à primeira
vista, pareceram-me em desordem, com os lençóis revolvidos, sujos de causar
medo. Os refugiados estavam aqui e ali e eram muitos: uns sentados na beira da
cama, coçando a cabeça ou muito quietos sem fazer nada; outros deitados,
enrolados nos cobertores; outros ainda passeando dum lado para o outro no
pequeno espaço livre. Um grupo, sentado em duas camas, em volta de uma
pequena mesa, jogava as cartas mais ou menos como os de Santa Eufêmia, com os
chapéus na cabeça e os sobretudos pelas costas. Numa das camas notei uma
mulher seminua que dava o peito a um bebê; mais além, três ou quatro crianças,
encostadas umas às outras, imóveis, como mortas, estavam talvez a dormir. O fundo
da caverna, como disse, ficava no escuro, mas entreviam-se trastes amontoados,
numa grande pilha, provavelmente tudo quanto aqueles pobres refugiados tinham
conseguido trazer consigo quando fugiram.
Junto da entrada da gruta notei uma coisa insólita: um altar construído com
caixas de embalagens e, a cobri-lo, uma linda toalha bordada. Em cima da toalha,
um crucifixo e duas jarras de prata, nas quais, à falta de flores, tinham posto ramos
de carvalho com toda a folhagem Por baixo do crucifixo, em vez de santos e outros
objetos do culto, vi com estranheza vários relógios, talvez uma dúzia, alinhados em
boa ordem. Eram todos relógios de tipo antigo, dos que se traziam no bolso do
colete, a maior parte de metal branco, mas dois pareceram-me de ouro. Junto do
altar, num banco, vi o padre. Digo o padre porque o distingui pela tonsura, pois,
quanto ao resto, seria difícil imaginar que fosse padre. Era um homem de uns
cinqüenta anos, com rosto moreno, magro e grave. Não tinha batina, estava vestido
todo de branco, camisa branca, faixa branca, calças, ou, melhor, calções à zuavo,
meias pretas e sapatos pretos. Em suma, tirara, sabe-se lá porquê, a batina, e ficara
com o que trazia por baixo. Estava imóvel, a cabeça inclinada e mãos unidas no
regaço, mexendo depressa os lábios como se rezasse. Depois levantou os olhos
para mim, que, entretanto, me aproximara para observar bem o altar; e vi então que
eram uns olhos desvairados e, ao mesmo tempo, como que privados de vista. Disse,
baixinho, a Rosetta: “É louco”, mas sem me admirar, porque desde há tempos que já
não me admirava de nada.
Ele, entretanto, olhava para mim fixamente, com um olhar que a pouco e
pouco ia tomando uma expressão curiosa, como quem reconhece lentamente uma
pessoa. De súbito levantou-se, pegou-me num braço e disse:
“És corajosa, sempre vieste... relógios.”
Voltei-me para a caverna, um pouco confusa, tanto mais que a mão dele me
apertava o braço com força terrível, como apertam as patas dos falcões ou dos
milhafres. Um dos refugiados que jogavam as cartas, o qual tinha seguido a cena
pelo canto do olho, gritou sem se voltar:
“Faz-lhe a vontade, dá corda aos relógios... coitado, destruíram-lhe a igreja e
a casa e ele fugiu com os seus relógios e bem, dá corda a estes não raciocina... mas
não faz mal a ninguém... podes estar descansada.”
Um pouco mais tranqüilas, Rosetta e eu pegamos cada uma em seu relógio e
demos-lhe corda, ou, melhor, fingimos dar, porque todos tinham corda e
trabalhavam muito bem. Ele olhava-nos como olham os padres, de pé, as pernas
abertas, as mãos atrás das costas, carrancudo, a cabeça inclinada. Quando
acabamos, disse numa voz profunda:
“Agora, que lhes deram corda, posso finalmente dizer missa... corajosas,
corajosas, vieram finalmente...”
Naquele momento aproximou-se de nós outra habitante da caverna: uma
jovem freira, cuja presença me tranqüilizou imediatamente. Tinha um rosto pálido, de
um oval perfeito, as sobrancelhas negras muito juntas, formando como que um traço
escuro sobre os olhos negros, brilhantes e tranqüilos, semelhantes a duas estrelas
numa noite de verão. O que, porém, me fez mais impressão e na verdade me
maravilhou foi o escapulário e tudo quanto era branco no seu hábito de freira:
imaculado como a neve e, inacreditável naquele lugar, engomado na perfeição.
Como podia ela apresentar-se assim tão limpa e irrepreensível naquela caverna
imunda? Com boas maneiras e uma voz doce, voltou-se para o padre:
“Vamos, Dom Matteo, venha comer conosco... Mas antes vista qualquer
coisa... não parece bem comer em ceroulas...”
Dom Matteo, de pernas abertas, um verdadeiro zuavo da cabeça aos pés,
ouvia-a de boca aberta, os olhos perdidos. Resmungou por fim:
“E os relógios? Quem pensa nos relógios?”
A irmã volveu, numa voz tranqüila:
“Deram-lhes corda; trabalham todos à maravilha, veja, Dom Matteo, marcam
todos a mesma hora, que é precisamente a hora do almoço.”
Entretanto, tirara de um prego a batina preta do padre e ajudava-o a enfiá-la,
com boas maneiras, tal como se fora enfermeira de um louco num manicômio. Dom
Matteo deixou que ela lhe vestisse a batina cheia de pó e de nódoas; depois,
passando a mão pela cabeça despenteada, lá foi com a freira, que o amparava pelo
braço, para o fundo da caverna, onde se via em cima de um tripé um grande
caldeirão preto a fumegar. Ela disse então, voltando-se para nós:
“Venham também os três, a comida chega para todos.”
Aceitamos e aproximamo-nos do caldeirão, em volta do qual, neste meio
tempo, se tinham reunido muitos outros refugiados. Entre eles notei um que parecia
descontente e arrogante ao mesmo tempo, um homenzinho baixo, gordo, muito mal
vestido, todo em farrapos, despenteado e com a barba comprida. Tinha um rasgão
nas calças, mesmo nos fundilhos, e por ele saía-lhe a fralda da camisa branca.
Lamuriava-se, estendendo o prato:
“A mim dá-me sempre menos do que aos outros, Irmã Teresa; porque me dá
sempre menos a mim?”
A Irmã Teresa não lhe respondeu, estava atenta a encher as tigelas, dando a
todos um bocado de carne e duas conchas de caldo; mas outro refugiado, um
homem de meia-idade, de bigodes pretos e cara vermelha, disse sarcasticamente:
“Ticó, porque não aplicas uma multa à irmã?... És guarda-municipal,
aplica-lhe uma multa por te dar menos sopa do que aos outros.”
E depois, rindo para Michele:
“Nós vivemos aqui muito bem: o padre está doido, os polícias foram
deportados para a Alemanha, o guarda anda com a fralda da camisa fora das calças
e o prefeito, que sou eu, é o mais esfomeado de todos. Não há autoridade, é um
milagre que não se matem uns aos outros.”
A irmã respondeu sem levantar os olhos do caldeirão:
“Não é um milagre, é a vontade de Deus, que quer que os homens se ajudem
mutuamente.”
Ticó, no entanto, resmungava:
“Dom Luigi tem sempre vontade de brincar... Não sabe que um guarda sem
uniforme é um pobretão como qualquer outro? Dê-me novamente o uniforme e
poderei então manter a ordem.”
E eu pensei que no fundo ele tinha razão. Pelo menos em certos casos o
uniforme é tudo. E até aquela boa irmã, com o seu caráter doce e a sua religião, não
teria tanta autoridade se, em vez do hábito de freira, estivesse vestida de farrapos,
como eu e Rosetta.
Adiante. Comemos a sopa, uma caldaça gorda em que decerto tinham cozido
carne de bode, pois cheirava e sabia a bodum; apesar da fome, quase não
conseguia engoli-la. Enquanto comíamos, ouvimos as mesmas conversas que
conhecíamos em demasia: a carestia, a chegada dos Ingleses, os
bombardeamentos, os recrutamentos, a guerra. Por fim, quando me pareceu o
momento propício, arrisquei-me a perguntar se alguns deles podia vender-nos
quaisquer mantimentos. Ficaram estupefatos, como já imaginava: não tinham nada;
tal como nós, também compravam aqui e além, ou acabavam por consumir o que
tinham trazido da terra. Mas aconselharam-nos a ir ter com os pastores que viviam
nas cabanas, fora da caverna, dizendo-nos:
“É a eles que compramos... têm sempre um queijo ou um cabrito... vejam se
lhes vendem alguma coisa.”
Eu respondi que uma mulher nos indicara a gruta, afirmando que os pastores
não tinham nada para vender. O prefeito encolheu os ombros:
“Dizem isso porque não confiam em ninguém e querem manter os preços
altos. Mas têm os rebanhos e por estes lados são ainda os únicos que podem
vender seja o que for.”
Em resumo, agradecemos à irmã e aos refugiados a sopa, tornamos a passar
diante do altar cheio de relógios do padre louco e saímos da caverna. Nesse mesmo
instante passava entre a fraga e as cabanas um pequeno rebanho de ovelhas e
cabras guiado por um homenzarrão de tamancos brancos, calças pretas, faixa na
cinta, casaco preto e chapéu preto. Uma refugiada que estava perto da entrada da
caverna a mordiscar um naco de pão e ouvira a nossa conversa indicou-me,
dizendo:
“Olha, aquele é um dos evangelistas... vende-te queijo se souber que lho
pagas bem.”
Corri atrás do homem e gritei-lhe:
“Tens algum queijo para vender?”
Ele não me respondeu, nem sequer se voltou, continuando a andar; parecia
surdo. Tornei a gritar:
“Sr. Evangelista, vende-me queijo?”
Ele então disse:
“Não me chamo Evangelista, chamo-me De Santis.”
E eu:
“Disseram-me que te chamavas Evangelista.”
E ele:
“Não, nós pertencemos à religião evangelista, assim é que é.”
Por fim, lá acabou por dizer que talvez pudesse vender-nos o queijo e
seguimo-lo até à cabana. Primeiro meteu as ovelhas num cortelho ao lado, uma por
uma, chamando as pelo nome: “Bianchina, Paciocca, Matta, Celeste...”, e assim por
diante; depois fechou a porta ao rebanho e conduziu-nos à sua cabana. Era
semelhante àquela em que vivia Paride, talvez um pouco maior, mas, não sei
porquê, mais triste, mais vazia e mais funda; ou talvez isto fosse apenas uma
impressão causada pelo seu acolhimento pouco amável. Em volta do fogo do
costume, e sentadas em iguais bancos e cepos de madeira, estavam muitas
mulheres e crianças. Sentamo-nos também e ele, em primeiro lugar, pôs-se a rezar,
juntando as mãos; todos o imitaram, até as crianças. Fiquei pasmada ao vê-lo rezar,
pois os camponeses, pelo menos lá para os meus sítios, raramente rezam e só o
fazem na igreja; mas lembrei-me da resposta dele sobre a religião evangelista e
compreendi que não eram como nós, que criam em Deus de uma maneira diferente.
Michele, cheio de curiosidade, mal ele acabou a oração, perguntou lhe porque eram
evangelistas, e, ao fazê-lo, parecia conhecer o significado dessa palavra. O
homenzarrão respondeu que ele e dois dos seus irmãos tinham estado na América a
trabalhar e lá encontraram um pastor protestante que os convenceu, e por isso se
tinham convertido à religião evangelista. Michele perguntou-lhe com que impressão
ficara da América e ele volveu:
“Embarcamos em Nápoles e desembarcamos numa pequena cidade do
Pacífico; depois fomos de comboio para as florestas, porque tínhamos sido
contratados como lenhadores. Por aquilo que vi, parece-me um pais de florestas.”
“Viste alguma cidade?”
“Não, só aquela onde desembarcamos, uma cidade pequena... Estivemos
dois anos nas florestas e depois voltamos pelo mesmo caminho para a Itália.”
Michele parecia surpreendido e também divertido, porque, disse-me mais
tarde, na América há cidades enormes e eles só viram árvores e por isso pensavam
que a América era uma floresta imensa... Falaram da América ainda durante algum
tempo; depois, como se fazia tarde, eu aludi ao queijo; o homem então remexeu no
escuro, entre a palha do teto, e tirou de lá dois queijinhos de ovelha, amarelados,
dizendo com toda a simplicidade que, se os queríamos, custavam tanto. Dei um
salto, pois era um preço como nunca ouvira, mesmo naqueles tempos de carestia, e
disse:
“O quê, o teu queijo é de ouro?”
Ele respondeu, gravemente:
“Não, é melhor do que o ouro, é queijo. O ouro não o podes comer, o queijo,
sim.”
Michele observou, sarcástico:
“O Evangelho ensina-te a pedir esses preços?”
O homem não respondeu e eu insisti:
“Eia pouco, a Irmã Teresa, ali na caverna, disse que Deus quer que os
homens se ajudem uns aos outros. É bonita a vossa maneira de ajudar os homens.”
E ele, com cara de bronze, tranqüilo:
“A Irmã Teresa é de outra religião, nós não somos católicos.”
“E o que julgas que é ser evangelista?”, interveio de novo Michele. “É vender
pelo dobro do que vendem os que são católicos?”
E ele, com a mesma gravidade:
“Evangelista, irmão, é observar os preceitos do Evangelho. Nós
observamo-los.”
Em suma, tinha sempre uma resposta pronta e não havia nada a fazer, era
mais duro do que uma pedra. Disse-nos, por fim:
“Se querem, posso vender-lhes um cordeiro... bem gordo, para a Santa
Páscoa... tenho-os até de seis quilos. Faço um preço razoável.”
Pensei que de fato a Páscoa se aproximava e que um cordeiro vinha mesmo
a propósito; perguntei-lhe o preço e dei outro salto; com esse dinheiro quase
poderíamos comprar, além do cordeiro, a ovelha que o parira. Michele proferiu de
repente:
“Sabes o que vocês são, os Evangelistas? Boas pessoas para matarem os
outros à fome.”
E o homem:
“Sossega, irmão, o Evangelho ensina os homens a amarem-se uns aos
outros.”
Por fim, desesperada, disse que lhe comprava o queijo, mas ele tinha de fazer
um abatimento. Sabem o que me respondeu?
“Um abatimento? É o preço mais baixo que posso fazer. É melhor que o
deixes ficar, irmã, pois, se o compras ao meu preço, ficarás a querer-me mal e, se
eu o vender ao teu, ficarei a odiar-te. Ora o Evangelho ensina os homens a
amarem-se uns aos outros. Deixa-o ficar e assim continuaremos a querer-nos bem.”
Não fiz caso desta recomendação e discuti não sei quanto tempo; mas ele era
inflexível e não houve meio de o convencer; quando o punha contra a parede,
provando-lhe que era um ladrão, saía-se com uma máxima do Evangelho, como. por
exemplo:
“Não te deixes dominar pela ira, irmã, a ira é um ruim pecado.”
Por fim, lá paguei esse preço exorbitante, obtendo somente que ele nos
desse a mais uma fatia de requeijão, que comemos ali com um bocado de pão.
Depois despedimo-nos e ele, à porta, se bem que nos tivéssemos separado
friamente, saudou-nos assim:
“Deus seja convosco, irmãos.”
Pensei comigo, quase de mau grado:
“E a ti que o diabo te leve para o Inferno.”
Esta caminhada não nos rendeu senão aquele queijo; e pensar que tínhamos
andado tantos quilômetros pelas montanhas e cada um de nós quase gastara um
par de tamancos! ... Mas, como acontece às vezes nestas situações, daí a poucos
dias veio a compensação, sem esforço, como que por intervenção da Providência: o
coveiro, que andava pelas montanhas à procura de comida, no seu cavalo preto,
vendeu-nos por um preço razoável uma quantidade de feijão-frade. Tinha-o
comprado a uns desterrados iugoslavos que na altura do armistício fugiram da ilha
de Ponza, escondendo-se num vale vizinho do nosso, e agora, com medo dos
Alemães, iam-se embora não sei para onde e não podiam levar com eles todas as
provisões. O coveiro, um rapaz aloirado, muito alto e vivo, deu-nos também algumas
notícias da guerra, que soubera por esses desterrados. Disse-nos que numa cidade
chamada Estalingrado, na Rússia, os Alemães tinham sofrido uma derrota terrível e
que os Russos lhes aprisionaram um exército inteiro, com todos os seus generais;
Hitler, desencorajado, ordenara então a retirada. Acrescentou que era agora uma
questão de dias, o máximo de semanas, e a guerra acabava.
Estas notícias encheram de alegria os refugiados, mas não os camponeses. A
maior parte dos homens de Santa Eufêmia que andavam na guerra encontravam-se
mesmo em Estalingrado e até tinham escrito dessa cidade, por isso agora muitas
daquelas mulheres temiam pela vida dos maridos e dos irmãos, e com razão, pois a
seguir soube-se que nem um sequer se salvara.
Em todo o mês de Março, enquanto os dias cresciam e lentamente a
montanha começava a verdejar e o ar a tornar-se mais ameno, continuou o
bombardeamento de Anzio de um lado e de Cassino do outro. Estávamos, por assim
dizer, a meio caminho entre Anzio e Cassino e todo o dia e toda a noite ouvíamos
muito bem os canhões que disparavam naqueles dois lugares, sem tréguas, como
se estivessem ao desafio. Bum, bum... dizia o canhão de Anzio, primeiro com a
explosão da partida e depois com a da chegada; bum, bum... respondia o de
Cassino do outro lado. O céu parecia uma pele de tambor, que repercutia
sombriamente esses estrondos, como quando se dá um murro num bombo. Fazia
impressão ouvir semelhante barulho ameaçador e lúgubre em dias tão lindos;
chegava-se a pensar que a guerra fazia agora parte da natureza, que aquele barulho
estava ligado e confundido com a luz do sol e que também a primavera sofria, como
os homens, do mal da guerra. Aquele estrondo do canhão entrara já na nossa vida,
como os farrapos, a carestia, os perigos, e, como nunca parava, tornou-se, como os
farrapos, a carestia e os perigos, uma coisa normal, à qual nos habituáramos, de tal
modo que, se acabasse, como de fato acabou um belo dia, ficaríamos
surpreendidos. Isto serve para dizer que nos habituamos a tudo e a guerra se pode
tornar um hábito, e aquilo que nos modifica não são os fatos extraordinários, que
acontecem uma só vez, mas sim esse hábito, essa longa aceitação das coisas
contra as quais deixamos de nos revoltar.
Nos primeiros dias de abril, a montanha estava mesmo bonita, toda verde e
florida, e o ar tão ameno que podíamos andar fora de casa todo o dia. Mas naquelas
flores que alegravam a vista ocultava-se para nós, refugiados, a idéia da fome, pois
as flores desabrocham quando as plantas alcançam o máximo de desenvolvimento,
se tornam duras e fibrosas e não se podem já comer. Em suma, aquelas flores tão
lindas significavam que o nosso último recurso, a chicória, acabara e que, na
verdade, desta vez só a chegada imediata dos Ingleses nos poderia salvar. Também
as árvores estavam em flor, os pessegueiros, as amendoeiras, as macieiras, as
pereiras, aqui e além, na encosta, dir-se-iam pequenas nuvens brancas e
cor-de-rosa suspensas no ar calmo, sem vento; mas também não podíamos olhar
para essas árvores sem pensar que aquelas flores tinham de se tornar frutos e os
frutos, dos quais nos poderíamos alimentar, só estariam maduros daí a alguns
meses. E o trigo, que era ainda erva verde, baixo e tenro qual veludo, produzia-me
também uma espécie de desfalecimento: ainda se passaria muito tempo antes que,
crescido e loiro, pudesse ser ceifado e trilhado, os grãos levados ao moinho e a
farinha feita em massa e metida no forno em lindos pães de quilo. Ah! A beleza pode
apreciar-se com a barriga cheia; mas, com a barriga vazia, todos os pensamentos
vão dar ao mesmo e a beleza parece um engano ou, pior, uma troça.
A propósito do trigo ainda verde, lembro-me de uma coisa que nesses dias
me deu a noção exata da carestia. Uma tarde desci a Fondi, como era costume, na
esperança de comprar pão; quando chegamos ao vale, ficamos varados ao ver três
cavalos do exército alemão que pastavam tranqüilamente num campo de trigo. Um
soldado sem divisas, talvez um russo traidor como o que encontráramos da outra
vez, estava sentado na cerca, sem fazer nada, com uma erva entre os dentes, a
guardá-los. Garanto, nunca como nesse momento compreendi tão bem o que
significa a guerra e como, em tempo de guerra, o coração deixa de ser coração e o
amor do próximo não existe e tudo é possível. Estava um lindo dia, cheio de sol e de
flores, e nós os três, Michele, Rosetta e eu, de pé junto a cerca ficamos olhando
para aqueles três cavalos bonitos e gordos que, coitados, sem cuidarem do mal que
os donos os obrigavam a fazer, comiam o grão de trigo duro, com o qual se fabrica o
pão dos cristãos. Lembro-me que em criança os meus pais me diziam que o pão é
sagrado, que é um sacrilégio deitá-lo fora ou estragá-lo, e até é um pecado voltá-lo.
Agora via que esse pão o davam aos animais, quando tanta gente no vale e nas
montanhas morria de fome. Michele disse, por fim, exprimindo o sentimento geral:
“Se fosse crente, diria que tinha chegado o apocalipse quando se vêem os
cavalos a pastar no trigo. Como não sou, limito-me a dizer que chegaram os nazis, o
que no fundo é talvez a mesma coisa.”
Nesse mesmo dia, um pouco mais tarde, tivemos a confirmação do caráter
dos Alemães, tão estranho e tão diferente do nosso, cheio talvez de grandes
qualidades, mas com enormes lacunas, como se não fossem homens completos.
Fomos outra vez a casa do advogado onde encontráramos aquele oficial ruim que
gostava, como dizia, de limpar as grutas de inimigos com o lança-chamas. Desta vez
encontramos lá outro alemão, um capitão. O advogado, porém, advertiu-nos:
“Este não é como os outros, é uma pessoa educada, fala francês, viveu em
Paris e, sobre a guerra, pensa como nós.”
Entramos na barraca e o capitão, como fazem todos os alemães, levantou-se
à nossa chegada e apertou-nos a mão, batendo os calcanhares. Era na verdade um
homem fino, um cavalheiro, já um pouco calvo, de olhos cinzentos, nariz delgado e
aristocrático, na boca uma expressão altiva; um belo homem, em resumo, que
pareceria quase italiano se não fosse aquele seu ar rígido que os Italianos nunca
têm. Falava bem o italiano e dirigiu-nos uma quantidade de cumprimentos sobre a
Itália, dizendo que era a sua segunda pátria e que ia todos os anos para Capri; a
guerra, se não lhe servisse para mais, servia-lhe ao menos para visitar muitos
lugares bonitos da Itália que ainda não conhecia. Ofereceu-nos cigarros, informou-se
a respeito de Rosetta e de mim, falou por fim da família e mostrou-nos uma
fotografia: a mulher, uma linda senhora de magníficos cabelos loiros, e três meninos,
também muito lindos, três anjinhos, todos loiros. Disse, voltando a pegar na
fotografia:
“Neste momento, estes meninos são felizes.”
Perguntamos porquê e respondeu que tinham desejado ter um burrinho e ele,
dias antes, comprara um em Fondi e mandara-lhe de presente, para a Alemanha.
Entusiasmado, entrou em pormenores: encontrara exatamente o burrinho que
procurava, de raça sarda, e, como era ainda de manhã, mandara-o num comboio
militar, com um soldado encarregado de lhe dar continuamente leite; no comboio ia
também uma vaca. E ria, satisfeito, pensando que os filhos andariam a essa hora a
cavalo no burrico, muito felizes da sua vida.
Nós, o advogado e a mãe estávamos pasmados: era tempo de carestia, não
havia comida, mas ele arranjara maneira de mandar um burrinho para a Alemanha e
de o alimentar no trajeto com leite que podia ter sido dado às crianças italianas, que
tanta falta tinham dele. Onde estava o seu amor à Itália e aos Italianos se não se
apercebia duma coisa tão simples? No entanto, pensei, não fizera isto por maldade,
pois era decerto o melhor alemão que encontrara até essa altura; fizera-o, sim,
porque era alemão e os Alemães, como já disse, têm uma maneira de ser especial,
talvez com boas qualidades, mas todas pendendo só para um lado, enquanto no
outro não têm nem uma, mais ou menos como certas árvores que crescem
encostadas a uma parede e têm os ramos todos voltados para o lado oposto à
parede.
Michele, agora, que faltava a comida, procurava ajudar-nos de todas as
maneiras, ora abertamente, levando-nos uma parte do seu almoço ou da sua ceia,
ante os olhares de reprovação da família, ora às escondidas, roubando para nós as
provisões do pai. Por exemplo, um dia mostrei-lhe o pão que nos restava, um pão
pequeno e, ainda por cima, com dois terços de farinha de milho. Ele então disse que
dali em diante nos traria pão, pouco de cada vez, tirando-o da caixa onde a mãe o
punha. E assim fez. Todos os dias nos trazia algumas fatias de um pão ainda
branco, sem mistura de farinha de milho nem de sêmeas, um pão como ninguém
mais fazia lá em cima, embora Filippo chorasse continuamente a sua miséria e
dissesse para quem o queria ouvir que ele e a família estavam na última, reduzidos
a passar fome.
Um dia, não sei porquê, em vez das três ou quatro fatias de costume, Michele
trouxe-nos dois pães inteiros, tinham cozido pão nessa manhã e ele julgava que não
dariam pela falta. Mas deram e Filippo fez um banzé dos demônios, gritando que lhe
tinham roubado as provisões; mas não disse que eram pães porque, se o dissesse,
desmentia-se, pois andava sempre a afirmar que já não tinha farinha. Filippo fez
uma verdadeira investigação policial, medindo a altura e a largura da janela,
examinando o terreno em baixo, a ver se a erva estava calcada, observando os
umbrais para ver se acaso teria caído algum bocado de cal e por fim convenceu-se
de que, dada a pequenez e a altura da janela, devia ter sido um garoto a entrar em
casa e a praticar o furto, mas que esse garoto não poderia chegar tão alto sem a
ajuda de um adulto. De conclusão em conclusão, decidiu que o garoto era
certamente um tal Mariolino, filho dum refugiado, e que o adulto que o ajudara fora
com certeza o pai. Mas tudo teria ficado por aí se Filippo não comunicasse as suas
suspeitas à mulher e à filha. O que para ele eram apenas suposições, tornaram-se
imediatamente certezas para as duas mulheres. Primeiro deixaram de cumprimentar
o refugiado e a mulher, passando na frente deles sempre caladas e sérias; depois
deixaram escapar algumas alusões:
“O pão hoje estava bom?” Ou: “Tenham cuidado com o Mariolino... pode
quebrar a cabeça ao subir às janelas.”
Por fim, um dia disseram-lhes de cara a cara:
“O que vocês são é uma família de ladrões.”
Começou então um burburinho que dificilmente se pode descrever, com gritos
e berros que chegavam até o céu. A mulher do refugiado, mulher pequena e fraca
de saúde, desgrenhada, esfarrapada, repetia numa voz estridente:
“Anda! Anda!”
Confesso que não sei o que ela queria dizer. E a mulher de Filippo, por seu
lado, gritava-lhe na cara que eram todos uns ladrões. Assim, uma repetindo aquela
única palavra: “Anda!”, e a outra berrando que eram ladrões, continuaram por algum
tempo, uma em frente da outra, num círculo de refugiados, sem se tocarem, como
duas galinhas furiosas. Entretanto, nós as duas, não sem remorsos, estávamos a
trincar o pão de Filippo nesse mesmo instante, no escuro, para não dar nas vistas,
um bocado a cada grito das duas mulheres, e não posso negar que aquele pão
roubado quase me parecia mais saboroso que o nosso, precisamente porque tinha
sido roubado e porque o comíamos às escondidas. No entanto, depois desse dia.,
Michele teve o cuidado de fazer as coisas de maneira que a família não desse conta,
uma fatia agora outra logo, e de fato não tornaram a descobrir os furtos e também
não houve mais cenas.
Passou abril com as suas flores e a fraqueza nos estômagos e veio maio com
o calor; agora, além da fome e do desespero, havia o tormento das moscas e das
vespas. Na nossa casota havia tantas moscas que, por assim dizer, passávamos o
dia a enxotá-las e à noite, quando íamos para a cama, elas iam também dormir nas
cordas em que dependurávamos os vestidos, e eram tantas que as cordas ficavam
negras. As vespas tinham o ninho debaixo do telhado e entravam e saíam em
nuvens, e ai de quem lhes tocasse, picavam sem dó nem piedade. Suávamos todo o
dia, talvez por causa da fraqueza, e, com o calor, não sei porquê, decerto porque
não podíamos lavar-nos nem mudar de roupa, apercebemo-nos a certa altura de
que parecíamos duas pedintes, daquelas que parecem não ter idade nem sexo e
pedem esmola à porta dos conventos. Os nossos vestidos estavam feitos em
farrapos e cheiravam mal; os nossos tamancos (desde há algum tempo que não
tínhamos sapatos) também causavam dó, consertados por Paride com bocados de
velhos pneus de automóvel, e o quartito tornou-se inabitável por causa das moscas,
das vespas e do calor; depois de ter sido um refúgio no inverno, era agora pior do
que uma prisão.
Rosetta, apesar de toda a sua doçura e paciência, sofria com esta situação
talvez mais do que eu, porque eu nasci camponesa, mas ela nasceu na cidade.
Tanto que um dia disse-me:
“Tu, mamã, falas-me sempre em comida... mas eu não me importaria de
passar fome ainda durante um ano contanto que tivesse um vestido limpo e vivesse
numa casa asseada.”
O fato é que faltava também a água, porque não chovia já há meses e ela não
podia lavar-se com a água do poço, como durante o inverno, justamente quando
tinha disso mais necessidade...
Em maio soube uma coisa que pode dar uma idéia do desespero a que
tinham chegado os refugiados. Parece que em casa de Filippo houve uma reunião,
na qual participaram só os homens, e durante essa reunião foi decidido que, se os
Ingleses não chegassem nesse mês, os refugiados, que possuíam todos armas - um
tinha um revólver, outro uma espingarda de casa, outro uma faca - obrigariam os
camponeses a pôr em comum as provisões, a bem ou à força. Michele também
participou na reunião e protestou logo, disse-nos depois, declarando que se
colocaria ao lado dos camponeses. Um dos refugiados, então respondeu-lhe:
“Muito bem, nesse caso tratar-te-emos como aos outros, considerando-te um
deles.”
Em resumo, essa reunião talvez não significasse lá grande coisa, porque,
apesar de tudo, os refugiados eram boa gente e duvido que fossem capazes de
fazer uso das armas; mas serve para indicar o grau de desespero a que todos
tinham chegado. Outros, soube-o mais tarde, como estava bom tempo e o solo
endurecera, preparavam-se para partir de Santa Eufêmia em direção ao Sul,
atravessando as linhas de batalha, ou ao Norte, onde se dizia que os mantimentos
não faltavam. Outros falavam também em ir para Roma, a pé, porque, diziam, no
campo nos deixam morrer de fome, mas na cidade hão-de ajudar-nos, têm medo da
revolução. Em suma, ao calor daquele sol ardente de maio, tudo se movia, tudo se
esboroava, cada um tornava a pensar em si mesmo e na própria pele e muitos
estavam até dispostos a arriscar a vida para sair daquela situação de imobilidade e
de espera sem fim.
De repente, um dia qualquer, eis que chegou a grande notícia: os Ingleses
tinham desencadeado a ofensiva a sério e avançavam. Não posso descrever a
alegria dos refugiados, os quais, à falta de melhor, não podendo beber porque não
havia vinho, nem comer porque não havia comida, se manifestaram abraçando-se e
atirando os chapéus ao ar. Coitados, mal sabiam eles que o avanço dos Ingleses
nos traria ainda mais sofrimentos. As dificuldades mal tinham começado.

CAPÍTULO VIII

Quando eu era criança, havia um negociante na minha aldeia que tinha as


coleções da Domenica Illustrada do tempo da outra guerra; muitas vezes as folheei,
juntamente com os seus filhos. Tinham lindas gravuras a cores, nas quais se viam
as batalhas de 1915. Talvez por isso, eu imaginava as batalhas como as vira
naquelas ilustrações: canhões a dispararem, poeira, fumo, fogo; soldados a
correrem ao assalto, de baioneta calada e bandeira ao vento; lutas de corpo a corpo,
homens que caíam mortos, outros que continuavam a correr. Confesso, gostava
dessas ilustrações e parecia-me que a guerra, no fim de contas, não era tão má
como se dizia. Ou, melhor, era má, sim; mas para quem gostasse de matar, ou de
mostrar coragem e dar provas de iniciativa e de desprezo do perigo, a guerra era o
elemento próprio. E pensava também que não era admissível que todos gostassem
da paz. Pelo contrário, havia muita gente que se sentia bem com a guerra, quando
mais não fosse por poder dar largas aos seus instintos violentos e sanguinários.
Pelo menos era o que eu julgava, enquanto não vi a verdadeira guerra com os meus
próprios olhos.
Num daqueles dias Michele veio dizer-me que a batalha para o rompimento
da frente estava quase no fim; mas eu não o acreditei, pois, tão longe quanto os
meus olhos alcançavam, não via nem sombra de um combate. Estava um dia
lindíssimo, sereno, apenas com uma ou outra nuvenzinha cor-de-rosa no horizonte,
quase aflorando o cimo das montanhas, atrás das quais ficavam Itri, Garigliano,
enfim, a frente de batalha. À direita verdejavam as montanhas, majestosas, sob a luz
do sol; à esquerda, para lá da planura, cintilava o mar, dum azul sorridente, claro,
primaveril. Onde se travava a batalha?
Michele respondeu-me que a batalha estava em curso pelo menos há dois
dias e se desenrolava por trás das montanhas de Itri. Eu não queria acreditar
porque, como sabem, imaginava uma batalha de maneira muito diferente, e
disse-lho. Michele pôs-se a rir e explicou-me que essas batalhas, que eu tanto
admirara nas capas da Domenica, já não existiam: agora os canhões e os aviões
limpavam o terreno de soldados até grande distância da verdadeira frente; cada vez
mais uma batalha se assemelhava à operação que uma dona de casa faz como
pulverizador, matando todas as moscas sem sujar as mãos sem sequer lhes mexer.
Na guerra moderna, afirmou Michele, não havia lugar para cargas à baioneta,
assaltos, combates corpo, corpo; o valor individual tornara-se inútil; agora vencia
quem possuísse maior número de canhões, que atirassem mais longe, aviões com
maior raio de ação e mais velozes.
“A guerra tornou-se um trabalho de máquinas”, concluiu, “e os soldados
pouco mais são do que bons mecânicos.”
Bem, esta batalha que não se via durou talvez um dia ou dois, depois, uma
manhã, o canhão deu um salto no espaço e ouvimos tão próximo de nós que fazia
tremer as paredes do nosso cubículo. Bum, bum, bum, parecia que disparava
mesmo atrás do lombo da montanha. Levantei-me à pressa e saí precipitadamente
da choupana, quase com o pressentimento de ir ver o corpo-a-corpo de que falei.
Mas nada: estava o mesmo dia lindíssimo, sereno e cheio de sol; a única diferença é
que lá longe, no horizonte, para além do montes que fechavam a planície, viam-se
uns traços finíssimos vermelhos, como relâmpagos, semelhantes a feridas abertas
no céu que logo se dissolviam na imensidade azul. Eram, como me explicaram, os
projéteis dos canhões, cujas trajetórias, devido a momentâneas condições
atmosféricas, se podiam distinguir a olho nu. Esses traços vermelhos pareciam
mesmo navalhadas no firmamento, com sangue a jorrar um segundo das feridas,
estancando logo de seguida. Víamos primeiro a navalhada; a seguir chegava até
nós o som do disparo; depois ouvíamos mesmo por cima da cabeça um miado
furioso e soprado, e, quase ao mesmo tempo, detrás da montanha vinha o estouro
da explosão, fortíssimo, ressoando no céu como num quarto vazio. Disparavam, em
suma, por cima de nós, para alguém ou para qualquer coisa que estava nas nossas
costas, e isto, como nos explicou Michele, queria dizer que a batalha mudara para o
Norte e o vale de Fondi já estava livre. Perguntei-lhe para onde tinham ido os
Alemães e ele respondeu-me que os Alemães, decerto, teriam fugido para Roma e
que a batalha para o rompimento da frente terminara e aqueles canhões martelavam
agora a retirada dos nazis. Em suma, nada de corpo-a-corpo, de assaltos à
baioneta, de mortos e feridos...
Naquela noite vimos, porém, que o céu, para os lados de Itri estava mais claro
e de vez em quando vermelho, como que iluminado por uma chama imprevista;
entretanto, continuavam a navalhadas dos tiros dos canhões, qual fogo de artifício
no céu negro e cheio de estrelas: era uma chuva contínua de riscos muito finos mas
sem as florações que coroam os estouros dos morteiros; o barulho também era
diferente, mais cavo, mais profundo e ameaçador, e não alegre como o estralejar
dos foguetes.
Ficamos a contemplar o céu durante algum tempo e depois, cansadíssimas,
fomos para a cama e quase não dormimos: estava calor e Rosetta não fazia senão
falar. De manhã, muito cedo, acordamos com um estrondo fortíssimo e muito
próximo. Saltamos da cama e vimos que desta feita atiravam mesmo para cima de
nós. Então compreendi pela primeira vez que os canhões são bem piores do que os
aviões; estes, ao menos, vêem-se e, assim que os vemos, podemos correr e
abrigar-nos ou, pelo menos, ter a satisfação de ver para onde voam; mas aos
canhões nunca os vemos, estão escondidos para lá do horizonte, e, embora não os
vejamos, eles procuram-nos e nunca sabemos onde havemos de nos esconder,
porque o canhão nos segue para toda a parte como um dedo vingador. Aquele
barulho, como disse, foi muito próximo, e de fato informaram-nos de que caíra um
projétil a pouca distância da casa de Filippo. Michele chegou a correr, dizendo-nos
muito contente que era agora uma questão de horas; mas eu observei-lhe que
morrer podia ser uma questão de segundos; ele encolheu os ombros e retorquiu que
devíamos considerar-nos como imortais. Ia responder-lhe quando ouvimos, de
súbito, mesmo por cima de nós, uma explosão horrível. Tremeram as paredes e o
chão; do teto choveu caliça e pó, e o ar escureceu um momento, de tal forma que
julgamos que o projétil tinha caído mesmo em cima da casa. Precipitamo-nos para
fora e então vimos que explodira muito perto, no socalco, do qual fizera abater um
grande bocado, abrindo um enorme buraco cheio de terra revolvida e ervas
arrancadas. Não digo que Michele ficasse assustado, mas compreendeu que eu
tinha razão ao dizer que para morrer bastavam poucos segundos. Então disse-nos
que devíamos segui-lo, pois sabia para onde ir; era preciso, explicou, abrigarmo-nos
num ângulo morto. Corremos ao longo do socalco, até o outro extremo da garganta,
e fomos para uma choça feita de ramos que servia de abrigo aos animais, situada
por baixo de um esporão rochoso.
“Este é um ângulo morto”, disse Michele, muito contente por mostrar o seu
conhecimento da guerra, “podemos sentar-nos na erva... os tiros nunca chegarão
aqui.”
Sim, bom ângulo morto. Mal acabara de falar, houve uma explosão
violentíssima e ficamos todos envolvidos em fumo e pó e, por entre o fumo e o pó
vimos a cabana dobrar-se toda para um lado e depois ficar assim, inclinada, que até
parecia uma daquelas casinhas feitas pelas crianças com cartas de jogar, que nunca
estão direitas. Desta vez Michele não falou do ângulo morto. Mandou-nos deitar no
chão e sem se levantar, gritava-nos:
“Sigam-me até a gruta vamos para a gruta não se levantem, arrastem-se
como eu.” A gruta ficava mesmo por trás da choça, era muito pequena, com entrada
baixa, e nela os camponeses tinham improvisado uma capoeira. Rastejamos atrás
dele e, sempre de rastos, entramos na gruta, por entre as galinhas, que cacarejavam
e fugiam assustadas para o fundo. A gruta era demasiado baixa para estarmos de
pé, e assim ficamos mais de uma hora estendidos ao lado uns dos outros, de
maneira que sujamos os vestidos com os excrementos que cobriam o chão,
enquanto as galinhas, depois de readquirirem coragem, passeavam por cima de nós
e nos bicavam os cabelos. Entretanto ouvíamos as explosões seguirem-se umas às
outras, em volta de nós. Eu disse a Michele:
“Não é nada mau este ângulo morto...”
Por fim, houve ainda uma ou outra explosão, cada vez mais raras, e depois
mais nada, a não ser o canhoneiro distante que, por assim dizer, nos cavalgava e ia
martelar outra localidade por trás de Santa Eufêmia. Michele disse então que os
projéteis que tinham atingido a cabana provavelmente não eram atirados pelos
ingleses, mas sim pelos alemães, com morteiros de montanha de tiro curvo, e agora
podíamos sair em segurança, pois os alemães já não disparavam e os ingleses não
atirariam contra nós. De rastos, como tínhamos entrado, lá saímos da gruta e
voltamos para casa.
Era já uma hora e pensamos em comer qualquer coisa, um bocado de pão
com queijo. Enquanto comíamos, apareceu a correr, esbaforido, o filho de Paride,
dizendo que tinham chegado os alemães. Não compreendemos logo, porque
pensávamos, logicamente, que, depois de tantos tiros de canhão, deviam ser, sim,
os ingleses a chegar, e insisti com ele, pois era uma criança e podia ter
compreendido mal:
“Queres dizer os ingleses?...”
“Não, os alemães.”
”Mas os alemães fugiram.”
“E eu digo-te que chegaram.”
Mas Paride veio explicar o mistério: chegara efetivamente um grupo de
alemães em fuga, que estavam sentados na palha, à sombra de um palheiro, e
ninguém entendia o que eles queriam. Eu disse a Michele:
“Que nos importam esses alemães?... Estamos à espera dos ingleses, não
dos alemães... Eles que se amanhem como quiserem e puderem...”
Mas Michele, infelizmente, não me deu ouvidos: os seus olhos adquiriram
novo brilho ao ouvir o que contava Paride. Dir-se-ia que odiava os alemães e era ao
mesmo tempo atraído por eles; naturalmente, a idéia de os ver agora em fuga e
derrotados, depois de os ter encontrado tantas vezes soberbos e vitoriosos,
excitava-o e agradava-lhe. Disse a Paride:
“Vamos lá ver esses alemães.”
E foi. Rosetta e eu seguimo-lo. Encontramos os alemães, como Paride nos
dissera, à sombra do palheiro. Eram cinco e em toda a minha vida nunca vi gente
mais fatigada e exausta. Estavam deitados na palha, um aqui, outro além,
estendidos, as pernas e os braços abertos, como mortos. Três dormiam ou, pelo
menos, estavam de olhos fechados; outro, de olhos abertos, deitado de costas,
fixava o céu; o quinto, também estendido, fizera uma almofada com um molho de
feno e olhava a direito na sua frente. Fixei sobretudo este último: era quase albino,
com a pele rosada e transparente, os olhos azuis circundados de pêlos quase
brancos, os cabelos de um loiro claríssimo, finos e lisos. Tinha as faces cinzentas de
pó e estriadas de sulcos, como de lágrimas que tivessem rolado por cima do pó,
deixando o rasto da sua passagem; as narinas negras de terra ou não sei de que
porcaria; os lábios gretados, e os olhos circundados de vermelho, com dois traços
negros por baixo que pareciam duas unhadas. Os Alemães, sabe-se, andam sempre
com o uniforme em ordem, muito limpo e engomado como se tivesse saído nesse
momento da naftalina. Mas os uniformes destes cinco estavam rasgados e
desabotoados; parecia até que tinham mudado de cor, como se lhes tivessem
atirado para cima, com violência, um jato de poeira ou de negro-de-fumo. Muitos
refugiados e camponeses formavam um círculo em volta, a alguma distância,
olhando os alemães em silêncio, como se olha um espetáculo inacreditável; eles
permaneciam calados e não se moviam.
Michele aproximou-se e perguntou-lhes de onde vinham. Falava em alemão,
mas o albino, sem se mexer, como se a sua nuca estivesse pregada àquela
almofada de palha, respondeu devagar:
“Pode falar em italiano... conheço o italiano.”
Michele repetiu então a pergunta em italiano e o outro respondeu que vinham
da frente. Michele inquiriu o que tinha acontecido. O albino, sempre naquela posição
de paralítico, separando devagar as palavras umas das outras, num tom grave,
ameaçador e abatido, disse que os cinco eram artilheiros e tinham estado dois dias
e duas noites sob um terrível bombardeamento aéreo, que não só os canhões, mas
também o terreno onde se encontravam, tinham ido pelos ares, e que, por fim,
depois de terem visto morrer a maior parte dos companheiros, foram obrigados a
fugir.
“A frente”, concluiu lentamente, “já não é em Garigliano, mas mais ao norte e
temos de lá chegar... mais ao norte há outras montanhas e resistiremos.”
Mesmo reduzidos àquele estado, mais mortos do que vivos, ainda falavam em
continuar a guerra e resistir!
Michele perguntou então quem tinha rompido a frente, os Ingleses ou os
Americanos? Foi uma pergunta imprudente, pois o albino teve um sorriso de
escárnio e respondeu:
“Que lhe importa quem foi? Meu caro senhor, deve contentar-se em saber
que dentro em pouco chegam aqui os seus amigos, e é tudo.”
Michele fingiu não se aperceber do tom sarcástico e ameaçador e perguntou
o que podia fazer por eles. O albino disse:
“Dê-nos alguma coisa que comer.”
Mas o fato é que estávamos todos na última; talvez a única exceção fosse
Filippo; tanto refugiados como camponeses, não creio que arranjassem maneira de
cozer ainda pão. Assim, olhamos uns para os outros, consternados, e eu,
interpretando o sentimento geral, exclamei:
“Comer? Mas quem tem alguma coisa que comer? Se os Ingleses não o
trouxerem o mais depressa possível, morreremos aqui todos de fome. Esperem
também pelos Ingleses e terão que comer.”
Vi Michele fazer um gesto de desaprovação, como se me chamasse estúpida,
e compreendi que tinha dito o que não devia. O alemão entretanto fixava-me, como
se quisesse guardar a minha cara na memória. Disse lentamente:
“Um ótimo conselho: esperar pelos ingleses...” Ficou quieto ainda um instante
e depois, levantando a custo um braço, começou a procurar qualquer coisa no peito,
debaixo da farda. Em seguida: “Já disse que queremos comer...” Agora apertava na
mão uma enorme pistola negra e apontava-a para nós, sem se mexer, sem mudar
de posição.
Fiquei com um medo terrível, talvez não tanto pela pistola como pelo olhar
dele, que parecia mesmo o de um animal selvagem preso numa armadilha e que, no
entanto, continua a ameaçar e mostrar os dentes. Michele não se perturbou e
dirigiu-se com simplicidade a Rosetta:
“Vai, corre, vê se encontras o meu pai e dize-lhe que te de um pão para um
grupo de alemães que precisam.”
Pronunciou estas palavras de uma maneira especial, como a sugerir a
Rosetta que devia explicar que os alemães pediam o pão de pistola em punho.
Rosetta correu imediatamente a casa de Filippo.
À espera do pão, ficamos todos ali parados, fazendo círculo em volta do
palheiro. O albino, passado pouco tempo, continuou:
“Não precisamos só de pão... temos necessidade de alguém que venha
conosco e nos indique os atalhos para o Norte, para nos juntarmos ao nosso
exército.”
Michele respondeu:
“O atalho é aquele”, e indicava-lhe o carreiro escarpado da montanha.
O albino volveu:
“Também o vejo. Mas não conhecemos estas montanhas. Temos
necessidade de alguém. Por exemplo, aquela rapariga.”
“Qual rapariga?”
“Aquela que foi buscar o pão.”
Gelou-se-me o sangue nas veias ao ouvir tais palavras: se levassem Rosetta,
em plena guerra, quem sabe o que lhe sucederia, quem sabe se a tornaria a ver?
Mas Michele disse logo, sem perder a calma:
“Aquela rapariga não é destes sítios. Conhece ainda menos as montanhas do
que vocês.”
“Então”, disse o albino, “virá o senhor. O senhor é destes lados, não é?”
Eu queria gritar a Michele: “Diz-lhe que és forasteiro!”, mas não tive tempo.
Demasiado honesto para mentir, ele respondia:
“Sou destes sítios, mas também não as conheço. Vivi sempre na cidade.”
O albino quase riu ao ouvir estas palavras e volveu:
“A acreditá-lo, ninguém aqui conhece as montanhas. Pois virá o senhor. Verá
como descobre de repente que as conhece bem.”
Michele não respondeu, limitou-se a franzir as sobrancelhas por cima dos
óculos. Entretanto Rosetta voltara, cansada, com dois pães pequenos, que pôs no
chão, em cima da palha, estendendo uma mão à frente, exatamente como se faz
com os animais selvagens em quem não se confia. O alemão notou o gesto e disse
com uma nota de desespero na voz:
“Dá-me o pão na mão. Não somos cães raivosos que mordam.”
Rosetta pegou nos pães e entregou-lhes. O alemão guardou a pistola, pegou
nos pães e sentou-se. Os outros também se sentaram, e viu-se que não dormiam e
tinham seguido toda a conversa, embora de olhos fechados. O albino tirou do bolso
uma faca, cortou os dois pães em cinco partes iguais e distribuiu-as pelos
companheiros. Comeram devagar e nós continuamos ali em volta sem pronunciar
uma só palavra. Quando acabaram, e demorou algum tempo, pois comiam, por
assim dizer, migalha a migalha, uma camponesa trouxe-lhes, em silêncio, uma
vasilha de cobre cheia de água e eles beberam, uns duas e outros até quatro tigelas
cheias: estavam mesmo mortos de fome e de sede. Depois o albino sacou de novo
da pistola.
“Então”, disse, “temos de partir, senão faz-se tarde.” Dirigiu estas palavras
aos companheiros, que logo começaram a pôr-se em pé, lentamente. Em seguida
voltou-se para Michele: “E o senhor vem conosco, para nos ensinar o caminho.”
Ficamos todos aterrados, pois julgávamos que o albino, há pouco, tivesse dito
aquilo por dizer, mas agora, ao contrário, via-se bem que o tinha dito a sério.
Também Filippo ali estava e assistira em silêncio à refeição dos alemães. Mas,
quando viu o albino apontar a pistola a Michele, deu um gemido e, com uma
coragem que ninguém lhe conhecia, pôs-se entre a pistola e o filho:
“Este é meu filho entendem? E meu filho!”
O albino não disse nada. Fez porém com a pistola um gesto como para
enxotar uma mosca; queria dizer que Filippo se afastasse. Mas Filippo gritou:
“O meu filho não conhece as montanhas, juro-o pelo Evangelho. Ele lê,
escreve, estuda, como podia conhecer as montanhas?”
O albino volveu:
“Irá conosco e acabou-se.”
Pusera-se em pé e, sem baixar a pistola, apertava o cinto com a outra mão.
Filippo olhou-o como se não tivesse compreendido bem. Vi-o engolir em seco
e passar a língua pelos lábios: devia sentir-se sufocado; não sei porquê, lembrei-me
naquele momento da frase que ele repetia com tanto gosto: “Aqui ninguém é tolo.”
Pobrezinho, agora já não era tolo nem esperto, era um pai e mais nada. Depois de
se quedar um momento, como que fulminado, gritou de novo:
“Levem-me a mim! Levem-me em lugar do meu filho... Eu conheço as
montanhas. Antes de ser comerciante fui vendedor ambulante. Andei por todos
esses montes... Posso guiá-los, acreditem!” E voltou-se para a mulher, dizendo:
“Vou eu. Não fiquem aflitos, volto amanhã, antes do anoitecer.”
Juntando a ação às palavras, apertou o cinto das calças e, compondo na cara
um sorriso, que naquele momento me pareceu mesmo dilacerante, aproximou-se do
alemão, pôs-lhe a mão no ombro e disse com um desembaraço forçado:
“Bem, vamos, temos muito caminho para andar.”
Mas o alemão não entendia as coisas da mesma maneira. Respondeu
calmamente:
“Você é muito velho. Irá o seu filho, é o seu dever.”
E, afastando-o com o cano da pistola, foi até junto de Michele e fez-lhe sinal,
sempre de pistola apontada, para seguir em frente:
“Vamos!”
Um, não sei quem, gritou:
“Michele, foge!”
Pois sabem o que fez o alemão? Embora exausto de forças, ei-lo que se
volta, rápido como um raio, para donde tinha partido o grito e dispara. Por sorte o tiro
perdeu-se nas pedras do socalco; mas o alemão conseguiu à mesma o objetivo em
vista: intimidar os camponeses e os refugiados e impedi-los de fazerem fosse o que
fosse em defesa de Michele. De fato todos fugiram, aterrados, tornando a formar
círculo um pouco mais longe, e depois olharam em silêncio para o alemão, que se
afastava, levando na frente Michele, com o cano da pistola apontado às suas costas.
Partiram e eu conservo ainda nos olhos, como se a tivesse presente, a cena dessa
partida: o alemão de braço dobrado a apontar a pistola e Michele a caminhar na sua
frente; lembro-me que tinha uma perna das calças mais comprida, chegando-lhe
quase ao salto do sapato, e outra mais curta, deixando-lhe o tornozelo à mostra.
Michele caminhava devagar como se esperasse que nós nos revoltássemos e lhe
déssemos ocasião de fugir; a maneira como arrastava as pernas deu-me a idéia de
que arrastava atrás dele uma pesada corrente. A procissão dos quatro alemães, de
Michele e do Albino desfilou por baixo de nós, no carreiro que conduzia ao vale, e
depois desapareceu lentamente no mato.
Filippo, que, como os outros, fugira ao ouvir o tiro, só parando a alguma
distância, quando viu desaparecer Michele, deu de repente um rugido e ia lançar-se
atrás deles. Os camponeses e os refugiados correram e seguraram-no, e ele
continuou a rugir e a repetir o nome do filho, enquanto grossas lágrimas lhe
banhavam as faces. Tinham acorrido também a mãe e a irmã, que, não sabendo o
que se passava, pediam explicações a um e a outro; mas, logo que compreenderam,
puseram-se a chorar e a gritar o nome de Michele. A irmã soluçava e repetia, entre
soluços:
“E agora, que iam acabar os nossos sofrimentos... agora, que iam acabar...”
Nós não sabíamos o que dizer, pois, quando há dor verdadeira, provocada
por causas verdadeiras, as palavras não a diminuem: seria necessário anular as
causas, e isso estava fora do nosso alcance, Por fim Filippo reanimou-se e disse à
mulher, segurando-a pelos ombros e ajudando-a a andar:
“Verás que volta... decerto... não pode deixar de voltar... indica o caminho e
volta.”
A filha, mesmo a chorar, dava razão ao pai:
“Verás, mamã, volta antes do anoitecer.”
Mas a mãe disse o que muitas vezes dizem as mães nestes casos, e
acontece acertarem quase sempre, pois o instinto das mães é mais forte do que
qualquer raciocínio:
“Não, não, não volta, tenho o pressentimento de que não o torno a ver...”
Devo confessar que, com toda aquela barafunda do canhoneiro, da derrota
dos Alemães, do rompimento da frente e do fim da nossa estada na montanha, o
que aconteceu a Michele não nos causou a impressão que devia causar-nos.
Também julgávamos, ou, melhor, procurávamos iludir-nos e acreditar que ele
voltaria sem falta, e isto talvez por sentirmos que, se não acreditássemos no seu
regresso, seríamos incapazes de participar na dor dos Festas como devíamos: o
nosso pensamento, os nossos corações estavam já noutro sítio. Possuía-nos por
completo essa novidade tão desejada e tão esperada da libertação. Nem nos
apercebíamos de que o desaparecimento de Michele, que tinha sido para nós um
pai e um irmão, era mais importante até do que a libertação, ou pelo menos devia
tê-la tornado amarga e dolorosa. Mas é assim mesmo: o egoísmo, que se
conservara mudo enquanto o perigo existira, agora, que ele desaparecera, tornava a
fazer-se ouvir. E eu própria, ao dirigir-me para o casinhoto depois do
desaparecimento de Michele, não pude deixar de pensar que fora uma grande sorte
os alemães terem-no levado em vez de Rosetta. No fim de contas, o seu
desaparecimento dizia respeito sobretudo à família, nós estávamos em vésperas de
abalar, talvez para sempre, e nunca mais os veríamos, voltaríamos para Roma e
recomeçaríamos a nossa vida, e desse tempo passado na montanha só nos
lembraríamos de longe em longe, um pouco distraidamente, dizendo uma para a
outra: “Lembras-te de Michele?... E lembras-te de Filippo, da mulher e da filha?...
Que será feito deles?”
Naquela noite dormimos as duas abraçadas, apesar do calor, talvez porque o
canhão continuava a disparar e os tiros caiam ali perto de vez em quando;
parecia-nos que, se fôssemos atingidas, ao menos assim morreríamos juntas.
Dormimos é uma maneira de dizer, dormitávamos cinco ou dez minutos e logo um
tiro mais forte nos fazia saltar e sentar na cama; ou então acordávamos, sem motivo,
agitadas e nervosas.
Rosetta estava preocupada com Michele, e agora compreendo que ela, ao
contrário de mim, sentia que o seu desaparecimento era muito mais grave do que eu
pretendia fazer-lhe acreditar. Assim, de vez em quando, ouvia-a perguntar-me no
escuro:
“Mamã, que farão eles a Michele?” Ou então: “Mamã, acreditas, na verdade,
que Michele volta?” Ou ainda: “Mamã, o que será feito daquele pobre Michele?”
Eu, por um lado, sentia que ela, no fundo, tinha razão para se preocupar,
mas, por outro, quase me zangava, pois, como já disse, parecia-me que a nossa
estada em Santa Eufêmia findara e não devíamos portanto pensar senão em nós as
duas. Assim, respondia-lhe ora uma coisa, ora outra, procurando sempre
sossegá-la, e por fim, impaciente, disse-lhe:
“Agora dorme, tanto mais que não podes fazer nada por ele, mesmo que não
durmas. De resto, estou certa de que não lhe fazem nenhum mal. A esta hora
Michele já vem a caminho para junto de nós.”
Rosetta pronunciou ainda, quase a dormir:
“Pobre Michele!”
E foi tudo; depois destas palavras adormeceu.
Na manhã seguinte, quando acordei, vi que Rosetta não estava ao meu lado.
Corri para fora de casa: era já tarde, o sol ia alto e apercebi-me de que o canhoneiro
cessara e em toda a parte havia grande movimento. Os refugiados andavam de um
lado para o outro, uns despedindo-se dos camponeses, outros transportando coisas,
alguns seguindo já em fila indiana pelo carreiro abaixo, em direção a Fondi. Senti de
súbito um medo terrível, pensei que Rosetta, por qualquer motivo que eu não sabia,
tivesse desaparecido também, como Michele, e comecei a correr e a chamá-la.
Ninguém queria saber de mim, não me davam atenção; então percebi que, tal como
eu procedera com Michele, procediam agora os outros comigo. Rosetta não estava
ali e todos cuidavam apenas de si próprios, ninguém queria sequer parar para me
ouvir o que tinha acontecido. Por sorte, a mulher de Paride chegou a porta da
cabana e gritou-me:
“Mas que queres tu de Rosetta? Ela está aqui conosco, a comer a polenta.”
Respirei de alívio e, um pouco mortificada, entrei na cabana e sentei-me com
os outros em volta da mesa onde estava a terrina da polenta. Como de costume,
ninguém falava, e eu também não falei; os camponeses pareciam, como sempre,
absorvidos de todo no ato de comer, mesmo naquele dia em que tinham acontecido
e estavam para acontecer tantas novidades. Só Paride, exprimindo um pensamento
comum, disse a certa altura, sem tristeza, como se dissesse que o tempo estava
bonito ou outra frase semelhante:
“Com que então, lá voltam para a cidade a fazer vida de senhoras... e nós
ficamos neste penar...”
Limpou a boca, pegou num pícaro de água, bebeu-a e saiu, como fazia todos
os dias, sem se despedir sequer. Eu disse à família de Paride que íamos preparar as
nossas coisas, mas voltaríamos para nos despedirmos. E saí com Rosetta.
Agora só tinha um desejo, grande, impaciente e jubiloso: ir-me embora dali o
mais depressa possível. No entanto disse, não sei porquê:
“É preciso ir a casa dos Festas para saber o que aconteceu a Michele.”
Disse-o contrariada, pois podia dar-se o caso de Michele não ter voltado e
receava que a dor dos Festas viesse perturbar a minha alegria. Mas Rosetta
respondeu tranqüilamente:
“Os Festas já cá não estão. Foram-se embora esta manhã, de madrugada. E
Michelle não voltou. Esperam encontrá-lo na cidade.”
Senti um grande alivio ao ouvir estas palavras, não menos egoísta da que a
minha contrariedade de pouco antes, e disse:
“Bem, só nos resta fazer as malas e abalarmos o mais depressa possível.”
Rosetta então acrescentou:
“Eu levantei-me de madrugada, tu ainda estavas a dormir, e fui dizer adeus
aos Festas. Coitados, estavam mesmo desesperados... Para eles, este dia tão lindo
é bem triste, pois Michele não voltou...”
Calei-me um momento, pois de repente senti vergonha de mim própria;
Rosetta era muito melhor do que eu: levantara-se de propósito de madrugada e fora
a casa dos Festas, não tendo tido medo que a dor deles estragasse a sua alegria.
Disse-lhe, então, abraçando-a:
“Rica filha, és muito melhor do que eu e fizeste aquilo que eu não tive
coragem de fazer. Sentia-me tão feliz por chegar ao fim deste tormento, que quase
tinha medo de ir a casa dos Festas...”
Ela respondeu:
“Oh! Não me custou nada, fui lá porque gostava de Michele. Custava-me, sim,
se não tivesse ido... Toda a noite não preguei olho, não fiz outra coisa senão pensar
naquele pobre rapaz... E a mãe dele tinha razão: não voltou...”
Agora era preciso partir. Quando chegamos ao nosso tugúrio, tiramos para
fora as duas malas de fibra que trouxéramos de Roma e metemos nelas os poucos
farrapos que ainda possuíamos: umas saias, duas camisolas de malha feitas lá em
cima com agulhas e a lã grossa dos camponeses, algumas meias e lenços. Guardei
também o que nos restava de provisões, o queijo de ovelha comprado ao
evangelista, um quilo ou pouco mais de feijão-frade e um pequeno pão escuro, o
último, feito de farelo e farinha de milho. Hesitei ainda se devia levar os dois ou três
pratos e copos que comprara aos camponeses, mas decidi deixá-los e pousei-os em
boa ordem em cima do peitoril da janela. E era tudo. Fechei as malas, sentei-me um
momento na cama, ao lado de Rosetta, olhando em volta para o pequeno quartito,
que já tinha o aspecto triste e vazio das casas que vão ser abandonadas para
sempre. Agora não me sentia tão alegre e impaciente; experimentava, antes, uma
sensação de angústia. Pensava que àquelas paredes sujas, àquele chão lamacento,
ficavam ligados os dias mais amargos e terríveis da minha vida, e sofria ao
deixá-los, embora o desejasse. Os nove meses que passara naquele casinhoto,
vivera-os dia a dia, hora a hora e minuto a minuto com a intensidade da esperança e
do desespero, do medo e da coragem, da vontade de viver e do desejo de morrer.
Sobretudo, esperava uma coisa, a libertação, anseio ao mesmo tempo belo e justo,
que possuía, além disso, o mérito de interessar aos outros tanto como a mim.
Compreendi então que quem vive à espera de uma coisa como esta vive com mais
intensidade do que os que não esperam nada. E, aprofundando o meu pensamento,
pensei que o mesmo se podia dizer de todos os que esperavam coisas ainda mais
importantes, como a volta de Jesus à Terra, ou o triunfo da justiça para os pobres. E,
digo a verdade, quando saí dali para me ir embora definitivamente, pareceu-me
abandonar, não digo já uma igreja, mas um lugar quase sagrado, porque lá dentro
tinha sofrido muito e, como disse, tinha esperado e desejado não só por mim, mas
também pelos outros.
Pusemos as malas à cabeça e dirigíamo-nos à cabana dos camponeses, para
lhes dizer adeus, quando entre a gente que se encontrava no socalco houve de
súbito uma debandada geral. Desta vez, porém, não era o canhão que se ouvia ao
longe, como o trovão de um temporal que se afasta, mas um tique-tique regular,
preciso, furioso, que se diria vir do mato, lá de cima, do cume da montanha. Um
refugiado parou um momento para nos gritar:
“As metralhadoras! Os alemães disparam as metralhadoras sobre os
americanos!”
E continuou a correr. Agora todos tinham fugido para se esconder nas grutas
e nos buracos e nós as duas estávamos sozinhas no meio do socalco e aquele
tique-tique não parava, antes parecia tornar-se mais insistente. Durante um
momento também eu pensei em correr para qualquer abrigo; mas depois nasceu em
mim uma revolta enorme, não queria recomeçar, exatamente quando ia descer para
Fondi, a vida de medo que fizera durante esses nove meses, e disse, raivosa, a
Rosetta:
“As metralhadoras... sabes o que te digo? Que não me interessam nada e vou
para baixo na mesma.”
Rosetta não respondeu; também ela, com o tédio e a fadiga, se tornara
corajosa. Renunciamos, por isso, a ir dizer adeus aos camponeses que nos tinham
hospedado durante tanto tempo e agora estavam escondidos sabe Deus onde. E,
sem fazer caso das metralhadoras, tomamos pelo carreiro que descia para o vale,
andando sem pressas. Começamos a descer, um socalco a seguir a outro, e, à
medida que descíamos, notávamos que afinal fizéramos bem em não nos
escondermos; agora o tique-tique já não se ouvia e tudo parecia normal: um lindo
dia de maio como os outros, com o sol a escaldar, as sebes a cheirar a rosas bravas
e a pó e as abelhas a zumbirem nas sebes, tudo como se não houvesse guerra.
Mas a guerra existia e bem depressa vimos os seus sinais. Primeiro
encontramos dois soldados que julguei serem americanos, mais por aquilo que nos
disseram do que pelos uniformes, que eu não conhecia. Eram dois jovens baixos e
morenos e vieram quase de encontro a nós, saídos do meio do mato. Um disse:
“Hello!”, ou coisa parecida; o outro pronunciou umas palavras em inglês que não
compreendi. Cruzaram-se conosco e depois, abandonando o carreiro, começaram a
trepar pelo mato, curvados, a espingarda na mão, os olhos voltados para cima, sob
a sombra do capacete, em direção ao cume, de onde vinha o tique-tique das
metralhadoras. Estes foram os primeiros americanos que vimos e foi por acaso; mas
toda a guerra, agora que penso nisso, é uma série de acasos; tudo acontece sem
razão; se damos um passo para a esquerda, matam-nos; se, ao contrário, o damos
para a direita, estamos salvos. Disse a Rosetta:
“Viste-os? Aqueles são americanos.”
E Rosetta:
“Julgava-os altos e loiros, e afinal são morenos e baixos.”
Naquele instante não soube o que havia de responder, mas mais tarde vim a
saber que no exército americano há gente de todas as raças e de todas as cores:
negros e brancos, loiros e morenos, altos e baixos. Aqueles dois, disseram-me
depois, eram ítalo-americanos, e havia muitos, pelo menos no corpo de exército em
operações naquela região.
Continuando a descer, encontramos um posto da Cruz Vermelha, à sombra
duma alfarrobeira, fora do carreiro: um leito, um armário com medicamentos e
alguns soldados. Precisamente nesse momento, outros dois soldados traziam ao
posto um companheiro ferido, estendido de costas numa maca. Paramos a olhar
esses dois maqueiros, que subiam com dificuldade em direção ao posto. O ferido
tinha os olhos fechados e parecia morto. Mas não estava morto; os que o levavam
falavam-lhe, como que a dizer-lhe que tivesse paciência, que faltava pouco para
chegarem, e ele fazia um ligeiro sinal com a cabeça, como que a responder que
compreendera e não se afligissem. Mas, ao ver esta cena, naquela encosta, com o
sol, o mato florido que escondia até a cintura os dois homens que carregavam a
maca, quase se pensava que não só aquele ferido não estava ferido, mas também
aqueles soldados não eram soldados e o posto da Cruz Vermelha não era um posto
da Cruz Vermelha, em suma, que tudo aquilo não era verdadeiro, mas uma cena
estranha e absurda que não se podia explicar e não significava nada. Disse a
Rosetta:
“Aquele foi ferido pelas metralhadoras... podíamos ter sido nós...”
Creio que o disse para me convencer que as metralhadoras existiam na
verdade e o perigo era real e sério. Mas não estava muito convencida disso.
Adiante no socalco chegamos lá abaixo, à encruzilhada onde ficava a casita
onde outrora morava o pobre Tommasino. A última vez que víramos esse lugar
estava deserto, como todos os lugares sob o domínio dos Alemães, os quais
conseguiram, não sei porquê, fazer o deserto em sua volta: para onde eles iam, toda
a gente se escondia e desaparecia. Agora, pelo contrário, via-o apinhado de gente,
camponeses e refugiados, uns a pé, outros em burros e mulas, todos carregados de
coisas e descendo, como nós, da montanha para voltarem às suas casas.
Juntamo-nos a essa multidão. Iam todos alegres e falavam uns com os outros como
se se conhecessem há muito tempo. Diziam: “Acabou a guerra... acabaram os
tormentos... chegaram os Ingleses... chegou a abundancia...” e outras frases
semelhantes.
Enfim, dir-se-ia terem esquecido os anos de sofrimento. Assim caminhando,
chegamos a uma encruzilhada onde a estrada principal cortava outra estrada que se
dirigia para o monte e aqui encontramos a primeira coluna de americanos.
Marchavam em fila indiana, e desta vez, sim, vi que eram na verdade americanos,
isto é, diferentes tanto dos Alemães como dos Italianos. Tinham uma maneira de
andar arrastada, indolente, quase descontente; cada qual levava o capacete de sua
maneira: um inclinado para o lado, outro para os olhos, outro para a nuca; muitos
iam em mangas de camisa e todos mastigavam pastilhas elásticas. Parecia que
faziam a guerra de má vontade, no entanto sem medo, mesmo como gente que não
nasceu para fazer guerra, ao contrário dos Alemães, por exemplo, mas que a faz
porque a isso é arrastada pelos cabelos. Não olhavam para nós; via-se a uma légua
de distância que já não tinham conta as estradas de montanha por eles percorridas,
apinhadas de gente carregada de embrulhos, em lindas manhãs como aquela,
desde que desembarcaram em Itália; estavam calejados, como se costuma dizer.
Desfilaram durante não sei quanto tempo, em direção aos cumes, lentos, muito
lentos, sempre no mesmo passo igual. Por fim passaram os últimos três ou quatro,
que pareciam ainda mais cansados e aborrecidos, e nós retomamos a estrada
principal. Esta estrada levava a Monte San Biagio, uma terra encarrapitada nas
alturas que fecham ao norte o vale de Fondi; pouco mais adiante entroncava na
estrada nacional, na Via Ápia, segundo creio. Quando chegamos à Via Ápia, então é
que ficamos de boca aberta diante do espetáculo do exército americano em
movimento. Dizer que a estrada estava à cunha seria dizer muito pouco, e até não
seria exato porque não era uma multidão o que enchia a estrada, eram carros de
toda a espécie, pintados de verde, com a estrela branca de cinco pontas, a estrela
da América, bastante diferente da grande estrela da Itália, que, dizem, nos dá sorte,
mas somente isso, ao passo que a estrela americana dá força e poder àqueles que
a seguem. Disse carros, e não automóveis. E de fato havia ali carros de todas as
formas e feitios, tão juntos que quase nem se mexiam. Pequenos automóveis de
ferro, descobertos, apinhados de soldados com a espingarda entre as pernas; carros
de assalto gigantescos, couraçados e com canhões a tocarem nos ramos dos
plátanos que sombreavam a estrada: caminhões pequenos e grandes, fechados e
abertos; carros de assalto menores, quase brinquedos, mas também com um
potente canhão apontado para o alto; até vagões inteiros, enormes, blindados, com
cabinas onde se entreviam quadros cheios de botões, alavancas e fios elétricos.
Garanto que quem não viu avançar numa estrada o exército americano não faz idéia
do que seja um exército. Esse rio de carros grandes e pequenos, todos com uma
estrela branca, até parecia uma obsessão, avançava lentamente, mais devagar que
o passo de um homem, parando a cada instante e retomando depois a marcha,
como os carros no Corso, em Roma, à hora de maior movimento. E por toda a parte
soldados amontoados, nos carros de assalto, nos automóveis, nos caminhões,
sentados e em pé, sempre com aquele ar paciente de indiferença, quase de
aborrecimento, e sempre a mastigarem pastilhas elásticas; alguns liam uns
jornaizinhos cheios de figuras. Entre um carro e outro metiam-se as motocicletas,
com um ou dois motociclistas, todos vestidos de couro, e estes eram os únicos que
andavam depressa e podiam correr e pareciam cães de pastor que se agitassem em
volta de um enorme rebanho lento e preguiçoso. Ao ver esta procissão de carros tão
juntos que, se atirasse uma moeda para o meio deles, não cairia no chão,
admirei-me que os Alemães não aproveitassem aquele momento para aparecerem
com os seus aviões e fazerem um massacre. E isto principalmente fez-me
compreender que os Alemães tinham perdido na realidade a guerra; já não podiam
fazer mal, tinham-lhes cortado as unhas e os dentes, que num exército são os
canhões e os anões.
E foi então que compreendi o que é a guerra moderna. Não o corpo-a-corpo
que tanto admirara nas ilustrações da guerra de 1915, mas uma luta distante e
indireta: primeiro os aviões e os canhões limpam o terreno com bombas e projéteis;
depois surge o grosso das tropas, que raramente estabelece contato com o inimigo
e se limita a avançar comodamente, os soldados sentados em automóveis e
caminhões, a espingarda entre as pernas, mastigando pastilhas elásticas e lendo
jornais ilustrados. Alguém me disse mais tarde que em certos sítios estas tropas
tiveram grandes baixas. Nunca em luta com outras tropas, mas sim castigados pelos
canhões que contra elas atiravam, procurando detê-las.
Atravessar ou seguir por esta estrada, nem pensar nisso: seria como
atravessar um rio caudaloso no seu ponto mais fundo. Assim, voltamos para trás,
como muitos outros, e, chegados a uma estrada secundária, tomamos a direção da
cidade. Chegamos lá em dez minutos, mas também aí não vimos possibilidades de
parar. Todas as casas estavam por terra, em grandes montões de ruínas; e onde
não havia ruínas havia enormes buracos cheios de água estagnada; no pouco
terreno desimpedido pululavam e cirandavam soldados americanos, refugiados e
camponeses. Era como uma feira, somente não havia nada para vender nem para
comprar, a não ser a esperança em dias melhores, e aqueles que podiam vender
essa esperança, ou seja, os americanos, pareciam indiferentes e distantes e os que
a queriam comprar, os camponeses e os refugiados, dir-se-ia que não sabiam como
fazer tal aquisição. Andavam em volta dos americanos, interrogando-os em italiano,
e eles não compreendiam e respondiam em inglês; então os camponeses e os
refugiados iam-se embora, desiludidos, para daí a pouco recomeçarem, com igual
resultado.
Diante de uma casa que ficara intacta, não se sabe como, vi grande balbúrdia
e aproximei-me. Alguns americanos estavam na varanda do segundo andar e
deitavam à rua, para os refugiados e camponeses, caramelos e cigarros, e eles
apressavam-se a apanhá-los, brigando uns com os outros, rojando-se no pó... Era
mesmo uma indecência. Via-se bem que no fundo não se importavam muito com
esses caramelos e cigarros e, se bulhavam com tanta fúria, era por suporem que os
americanos esperavam que se comportassem assim. Em resumo, respirava-se já
naquelas primeiras horas a atmosfera que mais tarde tive ocasião de observar em
Roma, durante todo o período da ocupação aliada: os Italianos mendigavam para
agradar aos Americanos e os Americanos davam para agradar aos Italianos, e nem
uns nem outros compreendiam que não proporcionavam assim nenhum prazer.
Penso que certas coisas ninguém as deseja e sucedem espontaneamente, como
que por acordo tácito. Os Americanos eram os vencedores e os Italianos os
vencidos. Isso explica tudo.
Aproximei-me de um carro militar parado no meio daquela multidão: estavam
lá sentados dois soldados, um de cabelos ruivos, com sardas e olhos azuis, e o
outro moreno, de cara amarelada, nariz aguçado e lábios delgados. Pedi-lhes:
“Digam-me, como se vai para Roma?”
O ruivo nem sequer olhou para nós, mastigava a sua pastilha elástica e
estava absorvido na leitura de um jornalzinho: mas o moreno rebuscou nos bolsos e
tirou um maço de cigarros. Eu gritei:
“Qual cigarros nem meio cigarros! Nós não fumamos! Digam-nos só se há um
meio de ir para Roma.”
“Roma?”, repetiu o moreno por fim. “Não Roma.”
“E porquê?”
“Alemão em Roma.”
Entretanto revistava os bolsos e desta vez tirou caramelos. Mas eu também
lhos recusei, dizendo-lhe:
“Se queres dar-nos alguma coisa, dá-nos pão. Para que queremos nós
caramelos? É para nos adoçarem a boca? Não o conseguirás, ficará amarga ainda
durante muito tempo.”
Ele não compreendeu e tirou debaixo do banco uma máquina fotográfica e fez
um gesto como quem diz que queria tirar-nos uma fotografia. Desta vez perdi a
paciência e gritei-lhe:
“Ah! Queres tirar-nos o retrato assim, rotas e sujas, que até parecemos duas
selvagens? Muito obrigada, guarda a tua máquina fotográfica.”
Como ele insistisse, tirei-lhe a máquina das mãos e a pus no banco, como
que a dizer:
“Deixa-te disso.”
Desta vez ele compreendeu e voltou-se para o companheiro, falou-lhe em
inglês, e o outro respondeu de má vontade, sem levantar os olhos do jornal. Depois
o moreno voltou-se para nós e fez-nos sinal que subíssemos: obedecemos e o ruivo,
como quem desperta, pegou no volante e pôs o carro em movimento. O automóvel
partiu como um foguete por entre a multidão, que se afastava. Entrou na cidade,
galgando montes de entulho, atravessando poças de água: via-se que era um carro
militar que podia andar por toda a parte. O moreno entretanto observava os pés de
Rosetta, que trazia tamancos como eu. Por fim perguntou:
“Sapatos?” E inclinou-se até tocar nos tamancos. Depois, com a mão,
seguindo os atilhos, foi-lhe apalpando a perna.
Eu então dei-lhe uma palmada forte, dizendo:
“Eh! A mão para baixo... São tamancos, sim, que têm de especial?... Mas não
deves aproveitar-te para apalpar as pernas à minha filha.”
Ele ainda desta vez fingiu não compreender e, indicando os tamancos de
Rosetta, pegou de novo na máquina fotográfica e inquiriu:
“Fotografia?”
Respondi-lhe:
“Andamos de tamancos, mas não queremos que nos tires fotografias.
Naturalmente ias dizer depois lá para a tua terra que todos nós, Italianos, usamos
tamancos e não conhecemos sapatos... Vocês têm lá peles-vermelhas; o que diriam
se nós os fotografássemos e disséssemos depois que os Americanos andam todos
com penas na cabeça, como se fossem galináceos? Sou ciociara e orgulho-me
disso; mas para ti sou italiana, romana, ou o que quiseres, mas não estejas a
maçar-me com as tuas fotografias.”
Por fim ele compreendeu que não devia insistir e pousou a máquina.
Entretanto, aos saltos, passando por cima dos escombros ou transpondo lagos de
água suja, o automóvel atravessou a cidade e chegou à praça principal. Aqui estava
uma grande multidão, sempre a mesma balbúrdia de feira, e sobretudo muita gente
em volta de uma casa que devia ser a sede da comuna e que por milagre não tinha
ruído: apenas um ou outro buraco e algumas fendas na fachada. O ruivo, que até aí
não dissera uma só palavra e nem sequer olhara para nós, fez-nos então um sinal
para descermos; obedecemos; o moreno desceu também, disse-nos que
esperássemos e desapareceu no meio da multidão. Voltou daí a pouco com outro
americano fardado, um rapaz que parecia mesmo italiano, moreno, de olhos
brilhantes e dentes brancos e certos, que me disse logo:
“Eu sei falar italiano.”
E continuou a discorrer naquilo que julgava ser italiano e era, quando muito,
um dialeto napolitano dos mais vulgares, falado pelos carregadores no porto de
Nápoles. Mas, como nos entendia e se fazia entender, disse-lhe:
“Nós as duas somos de Roma e queremos voltar para lá. Explica-nos pois o
que temos de fazer para ir para Roma.”
Ele pôs-se a rir, mostrando todos os dentes branquíssimos, e respondeu:
“A única maneira é vestirem-se de soldados, subirem para um carro de
assalto e virem tomar parte na batalha que vai travar-se para a conquista de Roma.”
Não fiquei lá muito satisfeita e perguntei:
“Mas vocês não a ocuparam já?”
E ele:
“Não, estão lá ainda os Alemães. E, mesmo que a tivéssemos ocupado, não
poderiam ir enquanto não chegassem ordens a esse respeito. Sem ordens, ninguém
pode ir para Roma.”
Senti o sangue ferver e gritei de novo:
“É esta a vossa libertação? Morrer de fome e não ter casa, como antes ou
pior do que antes?”
Ele encolheu os ombros e disse que havia razões de força maior, era a
guerra. Mas acrescentou que, quanto a morrer de fome, estava tudo previsto para
que nos territórios por eles ocupados ninguém morresse de fome: e, como prova
disso, ia-me dar qualquer coisa de comer. De fato, sempre a sorrir com aqueles
dentes brilhantes, disse-nos que o seguíssemos; assim, entramos atrás dele na
sede da comuna e encontramos lá o fim do mundo, impossível de descrever, gente
que se empurrava e gritava e protestava ao fundo de um grande salão branco onde
havia uma mesa muito comprida. Atrás da mesa estavam alguns habitantes de
Fondi com braçadeiras brancas e, em cima da mesa, montes e montes de caixas de
conservas americanas.
O oficial ítalo-americano guiou-nos até lá e, graças à sua autoridade,
conseguimos que nos entregassem algumas daquelas caixas. Lembro-me que nos
deram seis ou sete de carne com legumes, duas de peixe e uma grande caixa
redonda, com o peso pelo menos de um quilo, de compota de ameixas. Resumindo,
metemos as caixas dentro da mala e saímos para a rua aos empurrões e
encontrões. Os dois soldados do automóvel já tinham desaparecido. O oficial
fez-nos uma amável saudação militar, com um sorriso, e também desandou.
Começamos a andar por entre a multidão, sem destino, como todos os outros.
Agora, com aquelas caixas na mala, sentia-me mais tranqüila, porque ter comida é o
principal; e diverti-me então a olhar o espetáculo de Fondi libertada. Pude assim
notar algumas coisas que me fizeram compreender que a situação era muito
diferente do que tínhamos imaginado lá em cima em Santa Eufêmia, quando
esperávamos a chegada dos Aliados. Não havia aquela famosa abundância de que
todos falavam. Os Americanos davam cigarros e caramelos, de que parecia terem
na verdade grande reserva; mas, quanto ao resto, via-se bem, mostravam-se muito
mais parcimoniosos. Além disso, a atitude destes americanos, confesso, não me
agradava. Eram amáveis, sim, e por isso preferia-os em qualquer caso aos Alemães,
que de amáveis não tinham nada; mas a sua amabilidade era indiferente e distante,
tratavam-nos como crianças terríveis que aborrecem as pessoas crescidas e por
isso é necessário mantê-las sossegadas, precisamente com os caramelos.
Mas algumas vezes nem sequer eram amáveis. Para se fazer uma idéia vou
contar um incidente a que assisti. Quem quisesse entrar na cidade precisava de um
salvo-conduto ou, pelo menos, de estar ligado aos trabalhos que Italianos e
Americanos tinham começado já para remediar os estragos causados pelos
bombardeamentos. Por acaso encontrávamo-nos, Rosetta e eu, num lugar da
estrada principal onde havia um posto de guarda, com dois soldados e um sargento.
Vimos aproximarem-se dois italianos, dois senhores, via-se pelas suas maneiras,
embora ambos estivessem também mal vestidos. Um deles, um velho de cabelos
brancos, disse ao sargento:
“Somos engenheiros e o comando aliado mandou-nos apresentar hoje para
os trabalhos.”
O sargento, um tipo forte, com cara rapada e rude que parecia um punho
fechado, perguntou:
“Onde está o salvo-conduto?”
Os dois olharam um para o outro; o velho respondeu:
“Não temos salvo-conduto... disseram-nos só que nos apresentássemos...”
O sargento, então com maus modos, começou a gritar:
“E apresentam-se a esta hora? Deviam apresentar-se de manhã, às sete,
como todos os outros operários.”
“Só nos disseram há pouco”, declarou o mais novo, um homem duns quarenta
anos, magro e distinto, nervosíssimo, com um tique que lhe fazia inclinar um pouco a
cabeça para o lado, como se tivesse torcicolo.
“Mentira, vocês são uns mentirosos!”
“Veja como fala” disse o mais novo, ressentido.
“Este senhor e eu somos engenheiros e...”
Ia continuar, mas o sargento interrompeu-o com estas bonitas palavras:
“Cala a boca, trapalhão... senão dou-te dois bofetões que te faço já fechar o
bico...”
O engenheiro mais novo, como notei, devia ser bastante nervoso e tais
propósitos produziram-lhe o mesmo efeito que se tivesse recebido as duas
bofetadas. Fez-se branco como um papel e por momentos pensei que ia atirar-se ao
sargento. Por fortuna, o velho interveio, conciliador, trocaram-se mais algumas
palavras e lá acabaram por passar.
Incidentes semelhantes vi alguns nesse dia. E devo afirmar que eram sempre
provocados pelos soldados americanos ou, melhor, ítalo-americanos. Os
verdadeiros anglo-americanos, quero dizer, os altos, loiros, magros,
comportavam-se de maneira diferente: distantes, sim, mas educados e respeitosos.
Mas estes ítalo-americanos eram uma desgraça, com eles nunca se sabia o que se
havia de fazer. Talvez, por se sentirem muito semelhantes aos Italianos, quisessem
convencer-se de que eram diferentes e melhores e, para se distinguirem, nos
tratassem mal; ou por terem rancor à Itália, donde tinham ido para a América, nus e
vagabundos: ou então, como na América não eram muito considerados, talvez
quisessem fazer-se valer ao menos uma vez na vida: em suma, o caso é que eram
os mais grosseiros ou, se se prefere, os menos amáveis. Todas as vezes que tive de
pedir alguma coisa aos Americanos, roguei sempre a Deus que me aparecesse
qualquer um, nem que fosse um negro, mas não um ítalo-americano. Além disso,
gabavam-se de saber falar o italiano e falavam todos uns dialetos da baixa Itália,
como o calabrês, o siciliano, ou o napolitano, e custava a compreendê-los.
Conhecendo-os melhor, descobria-se que eram, no fim das contas, boa gente. Mas
o primeiro contato era sempre desagradável.
Bem, mas adiante. Andamos ainda algum tempo entre os escombros, no meio
da multidão de italianos e de soldados, e depois tomamos pela estrada principal,
onde havia ainda algumas casas intactas, pois os bombardeamentos tinham atingido
principalmente a cidade. No sítio onde a montanha lançava na planície uma espécie
de espigão e a estrada fazia uma curva em sua volta vimos uma casinha. A porta
estava aberta e eu disse a Rosetta:
“Vamos ver se esta noite podemos ficar ali.”
Subimos três degraus e encontramos uma única divisão completamente
vazia. Talvez noutros tempos as paredes tivessem sido brancas; mas agora estavam
mais sujas do que as de um estábulo. Entre as manchas de fuligem, as gretas e os
buracos havia muitos desenhos feitos a carvão: mulheres nuas, caras de mulher e
outras coisas que não digo: as indecências que os soldados costumam desenhar
nas paredes. A um canto, no chão, um montão de cinzas e muitos tições apagados e
negros indicavam que tinham acendido ali o lume. Nas duas janelas não havia vidros
e só restava uma persiana; lembrei-me que aqueles tições talvez fossem os restos
da outra. Em resumo, disse a Rosetta que, por duas ou três noites, nos convinha
acomodar-nos ali; vira, da janela, um palheiro, no terreno ao lado; iríamos lá buscar
um bragado de palha e, bem ou mal, faríamos com ela uma cama. Lençóis e
cobertas não tínhamos, mas estava o tempo quente e podíamos dormir vestidas.
Dito e feito: fizemos como pudemos uma limpeza ao quarto, tirando a maior
porcaria, e depois fomos ao campo e trouxemos uma porção de palha, a suficiente
para fazer uma cama. Disse a Rosetta.
“É estranho que ninguém tivesse pensado ainda em instalar-se aqui.”
A explicação do fato tivemo-la daí a pouco, quando saímos para a estrada
que contornava a montanha. A curta distância da casa havia uma espécie de largo e
um grupo de árvores. Pois bem, descobrimos que os Americanos tinham colocado aí
três canhões tão grandes como durante toda a guerra nunca vi outros iguais.
Estavam apontados para o céu e tinham canos enormes, largos na base como
grossos troncos de árvores, adelgaçando cada vez mais para o cimo, pintados de
verde-garrafa e tão compridos que desapareciam entre a folhagem dos grandes
plátanos, sob os quais se ocultavam.
Montados sobre rodas e lagartas, possuíam quadrantes cheios de rodelas,
botões e alavancas, que faziam pensar que devia ser complicadíssimo o seu
manejo; à volta estavam não sei quantos caminhões e carros blindados, nos quais,
como nos disseram uns camponeses, que também estavam ali a ver, se guardavam
os projéteis, que, a avaliar pelos canos, deviam ser também enormes. Dos soldados
que guarneciam a bateria, uns estavam deitados na erva, de barriga para o ar,
outros empoleirados nos canhões, todos em mangas de camisa, todos jovens e
despreocupados, como se estivessem ali num piquenique, e não na guerra: uns
fumavam, outros mastigavam pastilhas elásticas, outros liam jornais. E um dos
camponeses disse-nos que os soldados tinham avisado todos os habitantes das
proximidades que, se ficassem em suas casas, corriam sérios riscos, pois podia
dar-se o caso de os Alemães contra-atacarem com algum bombardeamento aéreo e,
se atingissem os canhões, todas aquelas munições podiam ir pelos ares, matando
os que se encontrassem num raio de uma centena de metros. Compreendi então
porque é que aquela casota estava desabitada, apesar da falta de casas que havia
em Fondi, e disse:
“Parece-me que saltamos da frigideira para cima das brasas, como se
costuma dizer. Estamos aqui em perigo de ir pelos ares juntamente com estes
rapazes.”
Mas havia sol, aquela calma dos soldados em mangas de camisa, deitados
na relva, havia todo aquele verde e aquele ar ameno dum lindo dia e parecia mesmo
impossível que se pudesse morrer, e então acrescentei:
“Bem, não importa... não morremos até agora, também não morreremos desta
vez. Ficamos na casinha.”
Rosetta fazia sempre o que eu queria e disse que por ela não se importava:
Nossa Senhora tinha-nos protegido até aí e havia de continuar a proteger-nos. E
assim prosseguimos tranqüilamente o nosso passeio. Era como se fosse domingo e
houvesse feira e todos quisessem saborear em santa paz um lindo dia de festa. A
estrada estava cheia de camponeses e soldados e todos fumavam cigarros e
comiam caramelos americanos e gozavam o sol e a liberdade como se as duas
coisas fossem uma só, e o sol sem liberdade não desse luz nem calor, e a liberdade
não existisse enquanto durava o inverno e o sol estava escondido pelas nuvens.
Tudo era natural, em resumo, como se o que acontecera antes tivesse sido contra a
natureza e finalmente, passado tanto tempo, a natureza recuperasse os seus
direitos. Conversamos com muita gente e todos diziam que os Americanos tinham
distribuído mantimentos e já falavam em reconstruir Fondi e fazer dela uma cidade
muito mais bonita do que era; agora todos os males tinham passado, não havia nada
a temer...
Rosetta atormentava-me para saber notícias de Michele, pois ficara-lhe esse
espinho cravado no coração, apesar de tantas alegrias. Perguntei por ele a várias
pessoas, mas não consegui saber nada. Agora, que os Alemães tinham partido,
ninguém queria pensar em coisas tristes. Também eu, quando abandonei Santa
Eufêmia, tive medo de ir despedir-me de Filippo, que, de todos, era o único que não
podia estar alegre. As pessoas diziam: “Filippo? Deve andar a organizar o mercado
negro.” Mas do filho ninguém sabia, chamavam-lhe “o estudante”, e compreendi que
o consideravam um mandrião e um original.
Nesse dia comemos o recheio de uma daquelas caixas de conservas com um
bocado de pão que nos deu um camponês, e depois, como apertava o calor, não
tínhamos nada que fazer e estávamos cansadíssimas, fomos para a casota,
fechamos a porta e deitamo-nos na palha a dormir. Acordamos em sobressalto, a
meio da tarde, com uma explosão fortíssima: as paredes tremiam como se não
fossem de tijolo, mas de papel. Fiquei primeiro na dúvida sobre a origem da
explosão, mas, passados uns cinco minutos, ouvi outra, não menos violenta, e então
compreendi: os canhões americanos, a cinqüenta passos de nós, entravam em
ação. Se bem que já tivéssemos dormido algumas horas, estávamos ainda bastante
cansadas e ali ficamos estendidas ao canto do quarto, abraçadas em cima da palha,
entontecidas, incapazes até de falar. O canhão continuou a disparar toda a tarde.
Depois da primeira surpresa, comecei a dormitar e, não obstante a violência terrível
das explosões, ouvia-as muito longe, numa sonolência, e os tiros misturavam-se
estranhamente às minhas reflexões, e estas, por assim dizer, seguiam o ritmo dos
tiros. O troar do canhão era regular e os meus pensamentos adaptaram-se depressa
a essa regularidade e o barulho não os perturbava. Primeiro uma explosão
violentíssima, profunda, rouca e dilacerante, como se a própria terra vomitasse o
projétil; todas as paredes tremiam e caíam do teto, em cima de nós, bocadinhos de
caliça. Depois, tudo ficava em silêncio, mas por pouco tempo; de repente, outra
explosão fazia tremer de novo as paredes e cair a caliça do teto. Rosetta não dizia
nada, apertava-se contra mim, mas eu pensava e não podia deixar de pensar,
embora fossem pensamentos carregados de sono e estivesse de olhos fechados.
Confesso, aquelas explosões enchiam-me de alegria e a minha alegria aumentava a
cada explosão. Pensava que aqueles canhões disparavam contra os Alemães e os
fascistas e compreendi então pela primeira vez que odiava os Alemães e os
fascistas. Aquelas explosões não me pareciam de canhões, mas sim de qualquer
força natural, como o trovão ou o alude. Aqueles tiros tão regulares, tão monótonos,
tão obstinados, refletia, punham em fuga o inverno e os sofrimentos e os perigos e a
guerra e a carestia e a fome e todas as coisas más que os Alemães e os fascistas
tinham feito chover sobre as nossas cabeças durante anos e anos. Pensava:
“Queridos canhões... abençoados canhões... canhões de ouro”, e acolhia cada
explosão com uma sensação de alegria que me fazia estremecer o corpo todo; e
notava cada silêncio quase com medo, receando que os canhões não disparassem
mais...
De olhos fechados, parecia-me ver um salão enorme, o mesmo que vira
muitas vezes reproduzido nos jornais, um salão com muitas e belas colunas e
numerosas pinturas, cheio de fascistas de camisa negra e de nazis de camisa
castanha, todos na posição de sentido, como diziam os Jornais. E atrás duma mesa
enorme estava Mussolini, com aquela carantonha larga, aqueles olhos grandes,
aqueles lábios grossos, o peito coberto de medalhas, um penacho branco na cabeça
e ao lado dele esse outro alma do Diabo, o seu amigo Hitler, com a sua cara de
feiticeiro, bigodinho negro, que parecia mesmo uma escova de dentes, olhos de
peixe podre e nariz aguçado e aquela madeixa de valentão das dúzias caída para a
testa. Via esse salão como o vi sempre nas fotografias, e podia distinguir todos os
pormenores como se lá estivesse: os dois atrás da mesa, muito direitos, em pé, e,
de um lado e outro, fascistas e nazis, à direita os fascistas, todos de negro, os
desgraçados, sempre de negro, com uma caveira branca nos barretes pretos; à
esquerda os nazis, como os vi em Roma, de camisas castanhas, a braçadeira
vermelha com aquela cruz negra que parecia um bicharoco a correr com as quatro
patas, as caras gordas sombreadas pela pala do boné, as barrigas ensacadas
dentro das calças de montar. Eu olhava, olhava e divertiam-me aquelas caras de
safados impunes, de almas do Diabo, e depois, de súbito, voltava em pensamento
para junto dos canhões que estavam ao lado da casinha, ocultos nos plátanos, e via
então um soldado americano, não em posição de sentido, sem cruzes penduradas,
sem camisa preta ou castanha, nem caveira no boné, nem punhal enfiado no cinto,
nem polainas brilhantes, nem sodas as outras coisas com que se ornamentavam os
Alemães e os fascistas, mas simplesmente vestido e, como fazia calor, com as
mangas da camisa arregaçadas. E esse rapaz americano, calmamente, a mastigar
uma pastilha elástica, pegava sem pressa num projétil enorme, enfiava-o na culatra
do canhão, manobrava as alavancas dos comandos e o canhão disparava, rugindo e
dando um salto para trás, e então no sonho entrava o ruído do canhão verdadeiro,
que disparava realmente, e o sonho não era sonho, mas realidade. E eu seguia em
pensamento aquele projétil que, assobiando e miando, fendia o ar e depois via-o cair
de repente no salão, fazendo ir pelos ares fascistas e nazis, Hitler e Mussolini, com
sodas as suas caveiras e penachos, as suas cruzes, os seus punhais e as suas
polainas. E esta explosão dava-me uma alegria profunda e eu compreendia que uma
tal alegria não era boa porque era a alegria do ódio, mas não podia deixar de a
sentir, via-se bem que eu odiara sempre os fascistas e os nazis sem o saber, e
agora, que o canhão disparava contra eles, estava contente. Assim, de uma
explosão pare outra, ia e vinha, em pensamento, do salão ao canhão e deste ao
salão novamente, e todas as vezes voltava a ver as caras de Mussolini e de Hitler e
dos fascistas e dos nazis e depois a do artilheiro americano, e todas as vezes
também experimentava a mesma alegria, mas nunca ficava saciada. Mais tarde ouvi
falar muito de libertação e compreendi o sentido dessa palavra porque nesse dia a
senti no próprio sangue, uma sensação física de bem-estar semelhante à que
alguém sente ao ser desamarrado, depois de estar amarrado muito tempo; ou a
sensação de se ver livre quando se esteve fechado à chave num quarto e de
repente se abrem as portas. E aquele canhão que disparava contra os nazis,
embora fosse em tudo semelhante aos canhões que os nazis usavam para disparar
contra os Americanos, representava para mim a libertação: qualquer coisa que tinha
uma força bendita mais forte de que a força maldita dos outros, qualquer coisa que
lhes fazia medo depois de eles terem causado tanto medo a todos, qualquer coisa
que os destruía depois de eles terem destruído tanta gente e tantas cidades. Aquele
canhão disparava contra os nazis e os fascistas e cada tiro seu atingia essa prisão
de mentiras e de medo que eles tinham construído durante anos e anos e era
grande como o céu e agora desabava de todos os lados com os tiros daquele
canhão, e todos podiam já respirar, até os fascistas e nazis, que em breve não
seriam obrigados a ser fascistas e nazis e voltariam a ser homens como os demais.
Sim, naquela tarde senti deste modo a libertação e, embora depois essa
libertação tenha significado muitas outras coisas menos belas, até por vezes
bastante feias, lembrar-me-ei sempre, enquanto viver, daquela tarde e daquele
canhão e de como me senti deveras livre e senti a libertação como uma felicidade
que até me fez regozijar com a morte que o canhão espalhava e odiar pela primeira
e única vez na vida. Mau grado meu, alegrava-me a destruição dos outros com o
mesmo sentimento de júbilo com que se acolhe a chegada da primavera e das flores
e do bom tempo.
Assim passei essa tarde dormindo, ou, melhor, dormitando, embalada pela
tremenda cantilena do canhão, tão doce aos meus ouvidos como a que me cantava
minha mãe para me adormecer quando era criança. A casa tremia a cada explosão,
a caliça caía aos bocados em cima da minha cabeça e do meu corpo, a palha picava
e o chão por baixo da palha era duro; mas, apesar de tudo, essas foram as mais
belas horas da minha vida, posso dizê-lo hoje com plena consciência. De vez em
quando, se abria os olhos e olhava para a janela sem vidros, via a folhagem verde
de um plátano iluminada pela bela luz de maio; depois essa luz esmoreceu, a
folhagem tornou-se mais escura e menos luminosa, mas o canhão continuou a
disparar e eu abraçava-me a Rosetta e sentia-me feliz... Era tal o cansaço e o
entontecimento que, apesar do canhoneiro, dormi pelo menos uma hora, num sono
pesado e profundo; depois acordei e de novo ouvi o canhão ribombar lá fora e
compreendi que durante aquela hora o canhão não deixara de disparar. Por fim, ao
entardecer, quando o quarto estava quase mergulhado no escuro, o canhão
calou-se repentinamente.
Sucedeu-lhe um silêncio que parecia entorpecido por todos os tiros
disparados, um silêncio feito, dos rumores normais da vida: um sino de igreja que
tocava algures, vozes, gente que passava na estrada, um cão a ladrar, um boi a,
mugir. Ficamos ainda uma meia hora abraçadas, meio adormecidas, e depois
levantamo-nos e saímos.
Era já noite, o céu estava constelado de estrelas e no ar calmo e sem vento
havia um cheiro forte a erva cortada. Mas da Via Ápia, pouco distante, continuava a
chegar um fragor de ferros e motores: a ofensiva prosseguia. Comemos mais uma
caixinha de conserva e um bocado de pão e depois estendemo-nos novamente na
palha e recomeçamos logo a dormir, estreitamente abraçadas, desta vez sem o
barulho do canhão. Não sei quanto tempo dormimos, talvez umas quatro ou cinco
horas, talvez mais. Só sei que de repente dei um salto e me sentei, aterrada: o
quarto estava todo iluminado por uma luz verde, intensíssima, vibrante: tudo era
verde, as paredes, o teto, a palha, a cara de Rosetta, a porta, o pavimento. Esta luz
parecia tornar-se cada vez mais intensa, como certas dores físicas que se tornam
cada vez mais agudas, embora se julgue impossível que possam aumentar, tão
fortes e intoleráveis são. Depois, subitamente, a luz apagou-se e, no escuro, ouvi
aquele maldito uivo da sereia de alarme que não ouvia desde os tempos de Roma e
compreendi que era um bombardeamento aéreo. Foi um segundo, gritei a Rosetta:
“Depressa, fujamos daqui!”
E ao mesmo tempo ouvi as explosões das bombas, violentíssimas, que caíam
perto, e, por entre as explosões, o fragor enfurecido dos aviões e os disparos secos
da artilharia antiaérea.
Peguei na mão de Rosetta e precipitei-me para fora de casa. Era noite, mas
parecia dia por causa de uma luz vermelha que iluminava a casa, as árvores e o
céu. Depois houve um estrondo espantoso: caíra uma bomba atrás da casa e a
deslocação do ar que senti na saia, como se uma boca enorme a tivesse soprado,
colando-a às minhas pernas, fez-me pensar que estava ferida ou talvez já morta,
Mas corria, arrastando Rosetta pela mão, através dum campo de trigo; a seguir
tropecei e senti que andava com água até o joelho. Era uma poça, cheia até cima, e
o frio da água acalmou-me um pouco; fiquei ali parada, a água chegava-me agora à
barriga, apertando Rosetta contra o peito, enquanto em redor de nós dançava
aquela luz vermelha, que nos permitia ver as casas de Fondi em ruínas, com todas
as suas cores e contornos, como se fosse dia, e no campo em volta continuavam os
disparos próximos e distantes. O céu, por cima de nós, era todo ele uma floração de
flocos brancos: os tiros da antiaérea; e, no meio desse terror de fim do mundo,
continuava a barulheira furiosa dos aviões voando baixo e lançando bombas. Por fim
houve uma última explosão, mais forte do que todas, como se alguém batesse à
porta do céu com mais força antes de se ir embora; logo o clarão vermelho se
extinguiu quase por completo, menos num canto do horizonte, onde naturalmente
havia um incêndio; a barulheira dos aviões também se foi distanciando até se perder
ao longe e a antiaérea deu ainda alguns tiros e depois mais nada...
Eu disse a Rosetta, mal a noite se tornou negra e silenciosa e as estrelas
apareceram de novo no céu por cima das nossas cabeças:
“Não nos convém voltar para a casita... pode dar-se o caso de esses filhos da
mãe recomeçarem a lançar bombas, e desta vez não escapamos...”
Assim, saímos da água e deitamo-nos no meio do trigo, ao lado da poça. Não
dormimos, dormitamos apenas, mas já não tão felizes como dentro de casa
enquanto o canhão troava. A noite estava cheia de rumores, ouviam-se gritos
distantes, berros, o ronronar dos motores, o tropear dos pés e não sei quantos
outros sons estranhos. A noite estava inquieta e pensei que cheia de mortos e
feridos por causa das bombas lançadas pelos Alemães; agora os Americanos
corriam de um lado para outro a recolher esses mortos e feridos. Finalmente,
adormecemos; acordamos com a luz cinzenta da madrugada e vimo-nos deitadas no
meio de uma seara de trigo; em nossa volta, espigas atas e amarelas e por entre as
espigas, algumas papoulas dum vermelho muito bonito, e o céu, lá em cima, branco
e frio, com algumas estrelas de ouro brilhando ainda. Olhei para Rosetta, estendida
ao meu lado: dormia, tinha a cara toda manchada de lama negra e seca e as pernas
e a saia pretas até muito acima; as minhas pernas e a minha saia estavam na
mesma.
Sentia-me porém repousada, pois não tinha feito senão dormir, desde as
primeiras horas da tarde do dia anterior até aquele instante. Disse a Rosetta:
“Vamos embora?”
Mas ela murmurou qualquer coisa que não compreendi, voltou-se e pôs a
cabeça no meu regaço, enlaçando-me com os dois braços. Então estendi-me de
novo, embora já não tivesse sono, e fiquei ali, com o trigo alto em volta de nós, de
olhos fechados, esperando que ela deixasse de dormir.
Acordou finalmente, já dia alto. Levantamo-nos a custo da nossa cama de
trigo e, quando chegamos à beira do campo, olhamos na direção da casita onde nos
abrigáramos; mas, por mais que olhássemos, não houve maneira de a
descobrirmos. Por fim, à força de olhar, vi um montículo de escombros no sítio onde
me lembrava muito bem que estava a casa. Disse a Rosetta:
“Vês, se tivéssemos lá ficado tínhamos morrido.”
Ela respondeu com uma voz calma, sem se mover:
“Talvez fosse melhor, mamã...”
Olhei para ela, vi que tinha uma expressão desesperada e disse-lhe, com
súbita decisão:
“Hoje mesmo abalamos daqui, de qualquer maneira.”
Ela perguntou:
“E como?”
E eu:
“Temos de ir e iremos.”
Entretanto fomos ver a casita e notamos que a bomba rebentara mesmo ao
lado, empurrando-a para a estrada, que, de fato, estava entulhada de escombros em
quase toda a largura. A bomba abrira um grande buraco superficial e esbeiçado, em
volta do qual a terra escura e fresca se misturava com ervas arrancadas; no fundo
havia já uma poça de água amarelada. Assim, estávamos agora sem casa e, o que
era pior, também as nossas malas, com o pouco que possuíamos, tinham ficado
debaixo dos escombros, Senti-me de repente desesperada e, não sabendo o que
fazer, sentei-me no meio das ruínas, a olhar em frente. A estrada, como no dia
anterior, fervilhava de soldados e refugiados, mas todos seguiam a direito, sem olhar
para nós nem para as ruínas: coisa tão normal que nem já se fazia caso. Depois um
camponês parou e saudou-nos: era de Fondi e eu conhecera-o quando descia de
Santa Eufêmia à procura de mantimentos. Disse-nos que aquele bombardeamento,
durante a noite, obra dos Alemães, provocara uns cinqüenta mortos, trinta soldados
e uns vinte italianos. Contou-nos que uma família de refugiados que passara quase
um ano na montanha, como nós, e de lá descera também quando os Aliados
chegaram, estava numa casita à beira da estrada a pouca distância da nossa: uma
bomba atingiu-a em cheio e matou todos, mulher, marido e quatro filhos, Ouvi isto
sem dizer nada. Rosetta também não abriu a boca. Noutros tempos teria exclamado:
“Mas como? Porquê? Coitadinhos! Vejam lá que desgraça!”, mas agora não tinha
vontade de dizer nada. Na realidade, as nossas desgraças tornam-nos indiferentes
às desgraças alheias. Em seguida pensei que isto é certamente um dos piores
efeitos da guerra: torna-nos insensíveis, endurece o coração, mata a piedade.
Passamos a manhã sentadas nos escombros da casa, apatetadas, incapazes
de pensar fosse o que fosse. Estávamos tão tontas e de uma maneira tão estupefata
e dolorosa que nem sequer tínhamos forças para responder aos numerosos
soldados e camponeses que se nos dirigiam quando passavam diante de nós.
Lembro-me que um soldado americano, ao ver Rosetta sentada nas pedras, imóvel
e atônita, parou a falar-lhe. Ela não respondia e olhava-o; o soldado falou-lhe
primeiro em inglês, depois em italiano; por fim tirou do bolso um cigarro, meteu-lhe
na boca e foi-se. E Rosetta ficou como estava, a cara manchada de lama negra e
seca e aquele cigarro na boca, pendente dos lábios: seria uma imagem cômica se
não fosse imensamente triste. Depois chegou o meio-dia, e então, num esforço
supremo, decidi que tínhamos de fazer qualquer coisa, quando mais não fosse,
arranjar comida, pois precisávamos de comer. Disse a Rosetta que íamos voltar a
Fondi e procurar aquele oficial americano que falava napolitano e parecia ter
simpatizado conosco, Devagar, caminhando sem vontade, voltamos à cidade. Lá
encontramos a mesma feira, entre montes de caliça, poças de água, caminhões e
carros blindados; os polícias americanos, nos cruzamentos, esbracejavam para dar
uma direção a toda aquela gente ociosa e desordenada. Chegamos à praça e
dirigi-me à sede da comuna, onde como no dia anterior, havia a mesma multidão em
tumulto e a mesma distribuição de mantimentos. Desta vez notei um pouco de
ordem: os policiais tinham alinhado todo aquele povo em três filas, e em frente de
cada uma via-se um americano muito direito, atrás da mesa onde estavam
amontoadas as caixas; ao lado de cada americano, um italiano com braçadeira
branca, funcionários da comuna encarregados de ajudar à distribuição. Vi, por entre
os outros, atrás da mesa, o oficial americano que procurava e disse a Rosetta que
nos puséssemos naquela fila, pois assim conseguiríamos falar-lhe. Esperamos um
grande bocado e finalmente chegou a nossa vez. O oficial reconheceu-nos e sorriu
com aqueles seus dentes muito brilhantes:
“Como está, não foi ainda para Roma?”
Disse-lhe, indicando o meu vestido e o de Rosetta:
“Olha o estado em que estamos...”
Ele olhou-nos e compreendeu logo:
“O bombardeamento desta noite?”
“Sim, e agora não temos nada. As bombas destruíram a casa para onde
fomos e as nossas malas ficaram debaixo dos escombros, juntamente com as caixas
que nos deste”.
Ele deixou de sorrir. Sobretudo Rosetta, com o seu lindo rosto sujo de lama,
tirava a vontade de sorrir.
“Posso dar-lhes mantimentos, como ontem”, disse, “e até algumas roupas.
Mas não posso fazer mais nada.”
“Ajuda-nos a voltar para Roma”, supliquei-lhe, “temos lá casa, roupas, tudo...”
Mas ele respondeu, como no dia anterior:
“Ainda não chegamos a Roma, como podes ir tu para lá?”
Desta vez calei-me, não tinha mais nada a dizer. Ele tirou do monte algumas
caixas, deu-me e depois mandou um daqueles italianos de braçadeira branca
acompanhar-nos a outro sítio onde distribuíam roupa. De repente, quando o ia
deixar para seguir o italiano, disse-lhe, nem sei porquê:
“Tenho os meus pais numa aldeia perto de Vallecorsa... ou, melhor, tinha,
pois agora não sei onde param. Lá conheço toda a gente e, mesmo que não
encontre os meus pais, sempre arranjarei forma de ir vivendo.”
Ele olhou-me e respondeu, amável, mas firme:
“Não posso mandá-las nos transportes do exército. É proibido. Só os italianos
que trabalham para o exército americano se servem dos nossos meios de transporte
em serviço. Tenho muita pena, mas não posso fazer nada por vocês.”
Dito isto, voltou-se para as outras duas mulheres que se seguiam e
compreendi que não tinha mais nada a acrescentar; segui o italiano da braçadeira.
Quando chegamos à rua, o italiano, que ouvira a nossa conversa, disse:
“Ainda ontem levaram dois refugiados, mulher e marido, à aldeia deles, num
automóvel do exército. Mas esses puderam demonstrar que tinham dado
hospitalidade durante o inverno a um prisioneiro inglês. Para os recompensar,
abriram uma exceção à regra e lá os levaram. Se vocês tivessem feito alguma coisa
parecida, talvez não fosse muito difícil irem para Vallecorsa.”
Rosetta, que até aí não dissera nada, exclamou de súbito:
“Mamã, lembras-te dos dois ingleses? Podemos dizer que os hospedamos.”
Ora, por acaso, aqueles ingleses, antes de nos deixarem, tinham-me dado um
bilhetinho escrito na sua língua e assinado por ambos, que eu pusera no saco onde
guardava o dinheiro. Agora dinheiro já havia pouco, mas o bilhete devia lá estar.
Tinha-o esquecido, mas, àquelas palavras de Rosetta, apressei-me a procurá-lo e
de fato encontrei-o. Os dois ingleses tinham-me pedido que, mal chegassem as
tropas aliadas, entregasse o bilhete a um oficial. Exclamei com alegria:
“Então estamos salvas!”
E contei ao italiano a história dos dois ingleses e que nós as duas fomos as
únicas a dar-lhes hospitalidade no dia de Natal, pois todos os refugiados tiveram
medo de os ajudar, e que no dia seguinte tinham partido e nessa mesma manhã
apareceram lá em cima os alemães a procurá-los. O italiano disse:
“Venham agora comigo buscar as roupas. Depois vamos ao comando e verás
que consegues tudo quanto desejas.”
Resumindo, fomos a outra casa, onde faziam a distribuição das roupas, e ali
deram-nos um par de sapatos de homem, com solas de borracha, meias verdes pelo
meio da perna, uma saia e uma blusa da mesma cor para cada uma. Era o que
vestiam as mulheres do exército americano e ficamos muito contentes por poder
vestir aquilo, pois os nossos vestidos já estavam reduzidos mesmo a farrapos e
todos sujos de lama. Recebemos também um bocado de sabão e aproveitamos a
ocasião para lavar a cara e as mãos; eu penteei-me e Rosetta penteou-se também;
ficamos assim quase apresentáveis e o italiano então disse-nos:
“Bom, agora já parecem duas pessoas civilizadas... há bocado pareciam
mesmo duas selvagens... Venham daí comigo ao comando.”
O comando era noutra casa. Subimos uma escada, e por toda a parte havia
polícias do exército, que perguntavam onde íamos e se informavam de tudo. Um
lanço a seguir a outro, por entre o vaivém de soldados e italianos, chegamos ao
último andar. Aqui, o italiano foi falar com um soldado que estava de guarda diante
de uma porta e depois veio ter conosco e disse:
“Não só se interessam pelo caso, mas recebem-nas imediatamente,
Sentem-se neste banco e esperem.”
Esperamos pouco. Passados cinco minutos, o soldado que fora lá dentro veio
chamar-nos e introduziu-nos numa sala. Esta sala estava completamente vazia,
apenas tinha uma escrivaninha, atrás da qual se sentava um homem loiro, de meia
idade, com bigode ruço à laia de escova, olhos azuis e cara sardenta, corpulento e
jovial. Vestia uniforme com divisas, mas eu não conhecia os postos deles; soube
depois que era major. Havia duas cadeiras em frente da escrivaninha; quando
entramos, ele levantou-se delicadamente; convidou-nos a sentar e sentou-se depois.
“Fuma?”, perguntou em bom italiano, oferecendo-nos o maço dos cigarros.
Recusei e começou logo: “Disseram-me que têm um bilhete para mim.”
Respondi:
“Está aqui...” E entreguei-lhe. Ele pegou no bilhete, leu-o duas ou três vezes
com atenção e em seguida, de cara muito séria, olhando-me fixamente, pronunciou:
“Este bilhete é muito importante e vocês deram-me informações preciosas.
Estávamos sem notícias destes dois militares há algum tempo e ficamos muito
gratos pelo que fizeram por eles. Digam-me agora como eram?”
Descrevi-lhes o melhor que pude:
“Um loiro, baixo, com a barba em ponta. O outro era alto e magro, moreno, de
olhos azuis.”
“Que traziam vestido?”
“Casacos largos, parece-me que de oleado preto, e calças compridas.”
“Tinham boné?”
“Sim, uma espécie de boné militar.”
“Estavam armados?”
“Tinham pistolas. Mostraram-me.”
“E que tencionavam fazer quando as deixaram?”
“Queriam ir, pelas montanhas, até à frente de batalha, atravessá-la e
alcançar Nápoles. Estiveram todo o inverno escondidos em casa de um camponês,
no Monte das Fadas, e esperavam poder atravessar as linhas da frente. Mas
parece-me que não o conseguiram, toda a gente dizia que era impossível por causa
das patrulhas alemãs e do fogo das metralhadoras e canhões.”
“De fato”, concordou o oficial, “não passaram, pois nunca chegaram a
Nápoles... Em que data estiveram convosco?”
Disse-lhe a data e ele prosseguiu, passado um momento:
“E quanto tempo os hospedaram?”
“Só um dia e uma noite, pois iam com pressa e tinham medo de serem
apanhados. De fato, logo que se foram embora, apareceram os Alemães. Mas
passaram conosco o dia de Natal, comemos juntos uma galinha e bebemos algum
vinho.”
O oficial sorriu e comentou:
“Esse vinho e essa galinha que dividiram com eles representam apenas uma
pequena parte da dívida que temos para convosco. Agora digam-me o que podemos
fazer por vocês.”
Então disse-lhe tudo: não tínhamos que comer; em Fondi não nos agradava
ficar; não tínhamos casa, o bombardeamento destruíra-a nessa noite; queríamos ir
para a minha aldeia, perto de Vallecorsa, onde viviam os meus pais e onde, quanto
mais não fosse, tinha a minha casa. Ele ouviu-me, muito sério, e depois afirmou:
“O que me pedem é proibido. Mas sob o domínio dos Alemães também era
proibido dar hospitalidade aos fugitivos ingleses, não é assim?”
Sorriu e eu sorri também. Ele continuou:
“Faremos assim: direi que vão de automóvel, com um oficial nosso, colher
informações nas montanhas sobre esses dois oficiais perdidos. De resto, em
qualquer dos casos, temos de fazer um inquérito, embora não seja muito provável
que eles passassem pela vossa aldeia. Quer dizer, o oficial acompanha-as primeiro
a Vallecorsa e depois irá fazer a sua investigação.”
Eu agradeci-lhe muito e ele respondeu:
“Somos nós que agradecemos. Entretanto, dêem-me os vossos nomes.”
Disse-lhe como nos chamávamos, ele escreveu tudo com cuidado e depois
levantou-se, cumprimentou-nos e levou a sua amabilidade ao ponto de nos
acompanhar até a porta para nos confiar ao soldado da guarda, ao qual disse
qualquer coisa em inglês. O soldado tornou-se imediatamente também muito amável
e convidou-nos a segui-lo.
Fomos com o soldado até o fundo de um corredor branco e nu e ele
introduziu-nos numa sala vazia, mas limpa, onde havia duas camas de campanha;
disse-nos que nessa noite dormiríamos ali e no dia seguinte, conforme as ordens do
major, iríamos para outro lado.
Deixou-nos, fechando a porta, e nós sentamo-nos nas camas, com um
suspiro de satisfação. Agora sentíamo-nos muito melhor do que nos sentíramos até
então. Possuíamos roupas limpas, estávamos lavadas e tínhamos conservas para
comer, duas camas de campanha para dormir, um teto para nos proteger e, mais do
que tudo isso, a esperança em melhores dias. Em suma, tudo mudara e essa
mudança devíamo-la ao major e às suas boas palavras. Eu pensava muitas vezes
que um homem deve ser tratado como um homem, e não como animal, e tratar
assim um homem quer dizer dar-lhe os meios de estar limpo, numa casa asseada,
mostrar por ele simpatia e consideração e, sobretudo, dar-lhe esperanças no futuro.
Se tal não sucede, o homem, que é capaz de tudo, não tardará a tornar-se um
animal selvagem e a comportar-se como tal, e é inútil pedir-lhe que se conduza
como homem, uma vez que foi tratado como animal.
Bem, adiante. Abraçamo-nos e eu beijei Rosetta e disse-lhe:
“Verás que tudo se compõe, desta vez a sério. Vamos passar alguns dias na
aldeia, lá comemos bem, descansamos e depois regressamos a Roma e tudo
voltará a ser como antes.”
A pobre Rosetta respondeu-me:
“Sim, mamã...”
Assim mesmo, como um cordeirinho que é conduzido ao matadouro sem
saber e lambe a mão que o arrasta para o cutelo. E, ainda por cima, essa mão era a
minha e eu não sabia que, por minha iniciativa, a levava para o açougue, como se
verá a seguir.
Naquele dia, depois de termos comido conservas, ficamos toda a tarde
estendidas nas camas, a dormitar. Não nos agradava andar nas ruas de Fondi, era
muito triste ver toda aquela multidão de farroupilhas e soldados e todos aqueles
escombros que a cada passo nos lembravam a guerra. Por outro lado, estávamos
ainda bastante cansadas: tínhamos passado uma noite inteira ao ar livre e, depois
de tantos sustos e emoções, sentíamos os ossos partidos. Assim, dormimos; de vez
em quando acordávamos e depois tornávamos a adormecer. A minha cama ficava
em frente da janela, uma janela sem persiana, através da qual se via o céu azul. De
cada vez que acordava, notava que a luz diminuía de intensidade à medida que o
sol se movia no horizonte, do nascente para o poente. Também naquele dia me
senti feliz como no dia anterior ao ouvir o canhão, mas desta vez sentia-me feliz por
ver Rosetta a dormir na cama ao lado, sã e salva depois de tantas peripécias e de
tantos perigos passados. Pensava que, no fim de tudo, tivera sorte e conseguira
atravessar a tempestade da guerra e pôr-me a salvo, tanto eu como a minha filha.
Rosetta estava bem, eu estava bem, não nos acontecera nada de verdadeiramente
grave e bem depressa voltaríamos a Roma, para a nossa case, e eu tornaria a abrir
a loja e tudo recomeçaria como antes. Até melhor do que antes, pois o noivo de
Rosetta decerto se salvara também e voltaria da Iugoslávia para casar com ela. No
meio da sonolência, detinha-me com grande satisfação e profundo júbilo no
casamento de Rosetta. Via-a sair do portal branco, com flores de laranjeira na
cabeça, pelo braço do marido, e, atrás dela, eu e todos os parentes e amigos,
sorridentes e felizes. Depois já não me bastava vê-los no portal da igreja, dava um
salto atrás, queria vê-los ajoelhados diante do altar, enquanto o padre os casava e
fazia a sua prédica sobre os deveres e obrigações do santo matrimônio. Mas isto
ainda não me bastava, e dava mais outro salto, desta vez para a frente, e via
Rosetta com o seu primeiro nenê: estávamos à mesa, eu, ela e o marido: e a criança
começava; de repente a chorar no quarto ao lado, Rosetta levantava-se, ia buscá-la
e tornava a sentar-se, desabotoava a blusa e oferecia o seio ao filho, que o agarrava
logo com a boca e as duas mãozinhas, enquanto ela se inclinava para a frente para
tomar uma colher de sopa; e assim já não estávamos só três a comer à mesa, mas
sim quatro: o marido de Rosetta, Rosetta, o nenê e eu. Contemplando no meu sonho
este quadro, pensava que era avó e não me desagradava sê-lo, pois já não
desejava o amor, queria tornar-me uma mulher velha e viver muitos anos como avó,
ao lado de Rosetta e dos seus filhos. Entretanto, enquanto sonhava, via às vezes
Rosetta estendida no leito de campanha e dava-me prazer vê-la ali como que a
demonstrar-me que os meus sonhos não eram apenas sonhos, que depressa se
tornariam realidade, quando voltássemos a Roma e refizéssemos a antiga
existência.
Veio a noite, levantei-me e, no escuro, olhei em minha volta: Rosetta dormia
ainda, tirara a saia e a blusa, na penumbra entrevi-lhe os ombros e os braços nus,
brancos e roliços, de rapariga nova e sadia; a combinação subira, pois tinha a perna
dobrada, com o joelho quase à altura da boca; também as coxas eram brancas e
fortes, como os ombros e os braços. Perguntei-lhe se queria comer, e ela, daí a
pouco, sem se voltar, abanou a cabeça e disse qualquer coisa que era uma recusa.
Perguntei-lhe ainda se queria levantar-se e descer às ruas de Fondi: novo gesto,
nova negação. Então tornei a deitar-me e desta vez adormeci a valer; na realidade
estávamos ambas exaustas com tantas emoções e aquele nosso sono era um
pouco como a corda que se dá a um relógio parado há muito tempo, que se gira e
torna a girar e não se acaba mais porque o relógio está sem corda nenhuma, sem
forças para andar.

CAPÍTULO IX

De madrugada fomos acordadas por alguém que batia à porta com pancadas
tão fortes como se a quisesse arrombar. Era o soldado que nos auxiliara na véspera.
Quando abrimos, avisou-nos de que o automóvel que nos levaria a Vallecorsa já
estava lá em baixo e nos devíamos despachar. Vestimo-nos à pressa e, ao
vestir-me, notei que me sentia mais forte do que nunca; aquelas horas de sono
tinham-me restaurado por completo. Compreendi que Rosetta também se sentia
forte, pela maneira enérgica como se lavou e vestiu. Só uma mãe pode perceber
estas coisas; lembrava-me de Rosetta, no dia anterior, apatetada pelo sono e pelas
emoções, a cara suja de lama seca, os olhos distraídos e tristes; e agora dava-me
prazer olhá-la ao sentar-se na cama, as pernas pendentes, a espreguiçar-se,
levantando os dois braços e enchendo de ar o lindo peito branco, que parecia ir
saltar fora da combinação; e depois dirigir-se ao lavatório, situado a um canto, deitar
a água fria do jarro na bacia, lavar-se com força, não só a cara, mas também o
pescoço e os ombros, e, de olhos fechados, pegar às apalpadelas na toalha e
esfregar-se bem até ficar vermelha, pegando em seguida na saia e enfiando-a pela
cabeça, no meio do quarto. Eram tudo gestos normais que lhe vi fazer não sei
quantas vezes. Mas sentia neles a sua juventude e a sua força restaurada, como se
sente a juventude e a força de uma bela árvore banhada de sol, quando todas as
suas folhas mexem ao mais leve sopro do vento da primavera.
Bem, adiante. Vestimo-nos e descemos a correr as escadas ainda desertas
daquela casa vazia. Em frente da porta estava um desses pequenos automóveis
descobertos do exército aliado, bastante sólidos e com assentos de ferro. Ao
volante, um oficial inglês, loiro, de faces vermelhas e expressão embaraçada ou
talvez aborrecida. Indicou-nos os assentos de trás e disse-nos em mau italiano que
tinha ordem para nos levar a Vallecorsa. Não parecia muito amável, sem dúvida
mais por timidez do que por antipatizar conosco. No automóvel estavam também
duas enormes caixas de papelão cheias até acima de conservas; o oficial inglês
disse-nos, sempre com o seu ar embaraçado, que o major nos mandava aquelas
caixas com os seus cumprimentos e desejos de boa viagem, desculpando-se de não
poder despedir-se de nós, mas estava muito ocupado. Enquanto duraram estes
preparativos, vários refugiados que, provavelmente, tinham passado a noite ao
relento cercaram o automóvel, olhando-nos em silêncio, com a inveja claramente
estampada no rosto. Apercebi-me de que nos invejavam porque arranjáramos
maneira de sair de Fondi e também por termos todas aquelas conservas; confesso,
nesse momento quase experimentei um sentimento de vaidade, embora aliado a
certo remorso. Mal sabia eu quanto a nossa sorte era pouco para invejar!...
O oficial pôs o motor a trabalhar e o automóvel partiu, rápido, por cima de
poças e escombros, em direção às montanhas. Tomou por uma estrada secundária
e bem depressa, sempre a grande velocidade, começou a subir, entre dois montes,
um vale estreito e profundo, onde corria um riacho. Nós íamos caladas e o oficial
também, nós porque, no fim de contas, nos enfastiava falar por gestos e ganidos,
como surdas-mudas, e ele talvez por timidez ou por não gostar de ser motorista. De
resto, que podíamos nós dizer àquele oficial? Que estávamos satisfeitas por deixar
Fondi? Que estava um lindo dia de maio, com o céu azul, sem nuvens, e o sol
resplandecente a inundar os campos verdes e viçosos? Que íamos para a aldeia
onde eu nascera? Tudo coisas que não lhe interessavam... E ele teria razão se
respondesse que não queria saber disso para nada, que ia ali apenas a cumprir o
seu dever, o de nos conduzir a determinada terra, conforme as ordens recebidas, e
portanto era melhor irmos caladas, pois tinha de guiar e não podia distrair-se.
Porém, ainda que pareça estranho, embora eu pensasse assim, senti, em todo o
tempo, o desejo aflitivo de falar àquele oficial, de saber quem era, onde tinha a
família, o que fazia em tempo de paz, se estava noivo, e assim por diante. Na
realidade, compreendo-o agora, passado o perigo eu tornava a experimentar os
sentimentos normais dos tempos normais, isto é, retomava interesse pelas pessoas
e pelas coisas alheias a mim, para além da minha segurança e da de Rosetta. Em
resumo, recomeçava a viver, ou, melhor, a fazer muitas coisas sem razão, por
simpatia, por simples capricho, por impulso, ou até por brincadeira. E aquele oficial
despertava a minha curiosidade, como, depois de uma longa doença, ao entrar-se
na convalescença, desperta curiosidade tudo quanto vemos por acaso, ainda que
seja insignificante. Olhava para ele e via que tinha cabelos loiros verdadeiramente
magníficos, da cor do ouro, com muitas madeixas lisas e brilhantes que se
acamavam e entrançavam como as fibras de um lindo cesto e depois formavam, na
nuca, franjas caprichosas. Estes cabelos de ouro davam-me quase a tentação de
estender a mão e acariciá-los: não porque aquele jovem me agradasse ou atraísse
de uma maneira especial, mas só porque a vida me dava de novo prazer e aqueles
cabelos eram mesmo vivos. E, de fato, experimentava igual sensação pelas árvores
de folhagem nova que corriam ao nosso encontro na estrada, e pelo paredão de
pedras polidas e bem talhadas que sustentava o terrapleno do outro lado do fosso, e
pelo céu azul e o claro sol de maio. Tudo isto me agradava, tudo despertava em mim
apetite, como depois de um longo jejum que por muito tempo me tivesse tirado o
gosto de comer.
A estrada secundária, depois de ladear durante algum tempo o riacho, no vale
estreito e alto, foi dar finalmente à estrada nacional e o riacho a um ribeiro largo e
transparente que corria num vale um pouco mais amplo. As montanhas agora não
estavam mesmo em cima da estrada, desciam para ela em suaves encostas e não
eram verdes, mas sim pedregosas e nuas. Toda a paisagem se tornava, a cada
passo, mais nua, mais deserta e mais severa. Era a paisagem onde eu crescera e
me fizera mulher, reconhecia-a cada vez melhor, e a sensação desencorajante,
quase assustadora, da sua selvajaria e solidão era em parte mitigada pela alegria de
me encontrar num local familiar. Era mesmo uma paisagem de salteadores e nem o
sol de maio a tornava mais agradável e acolhedora; não havia senão pedras e
rochas e encostas cobertas de pedras e rochas e quase nenhuma verdura; e aquela
estrada negra, lisa e brilhante que corria por entre aqueles pedregulhos dir-se-ia
uma serpente acordada pelos primeiros passos da primavera. Não se via uma casa,
um palheiro, uma barraca, uma cabana; não se via um único ser vivo, homem ou
animal. Eu sabia que aquele vale continuava assim nu, silencioso e deserto durante
quilômetros e quilômetros e a única aldeia que aí se encontrava era a minha terra,
um grupo de casas alinhadas ao longo da estrada e em volta de uma praça onde se
erguia a igreja.
Corremos assim um bocado, em silêncio, e depois, de repente, numa volta do
caminho, eis que surge, a alguma distância, a minha aldeia. Tudo continuava como
eu me lembrava ainda: dos dois lados da estrada, o povoado começava com duas
casas que eu conhecia muito bem, velhas casas de campo construídas com pedras
daqueles montes, sem cal, escuras e modestas, com as telhas verdes do musgo.
Senti de súbito não sei que timidez em relação àquele oficial inglês, que parecia tão
aborrecido de nos servir de motorista: e impulsivamente bati-lhe no ombro e
disse-lhe que podíamos parar ali: tínhamos chegado. Ele travou no mesmo instante
e eu, já vagamente arrependida do meu gesto, avisei Rosetta de que chegáramos
ao nosso destino e devíamos descer. Apeamo-nos no meio da estrada e o oficial
ajudou-nos a descarregar as duas grandes caixas com provisões, que pusemos à
cabeça. Depois pronunciou, em italiano, de maneira quase afetuosa e com um
sorriso:
“Boa sorte!”
Logo deu meia volta rapidíssima e partiu como um foguete. Passados uns
segundos, já tinha desaparecido na curva da estrada e nós as duas estávamos
sós...
Foi então que notei o profundo silêncio e completa solidão do lugar. Não se
via ninguém, não se ouvia nenhum rumor, a não ser o do vento da Primavera, doce
e leve, que corria no vale. Ao olhar para as duas casas à entrada da aldeia, descobri
qualquer coisa em que não reparara no primeiro instante: tinham as janelas
cerradas, as madeiras igualmente fechadas e na porta do rés-do-chão duas tábuas
pregadas em cruz. A aldeia fora evacuada... E pela primeira vez admiti que talvez
tivesse feito mal em deixar Fondi: ali havia, é verdade, o perigo dos
bombardeamentos, mas havia também muita gente e não se estava só... Senti
constranger-me o coração e, para ganhar coragem, disse a Rosetta:
“Talvez na aldeia não esteja ninguém, talvez se tenham refugiado em
qualquer parte. Nesse caso não paramos aqui, seguimos até Vallecorsa, que fica a
poucos quilômetros. Ou então pedimos a qualquer condutor de caminhão que nos
leve, esta estrada é muito freqüentada, há-de passar alguém...”
Quase no mesmo instante, como a confirmar as minhas palavras, eis que
aparece na curva uma longa fila de carros militares. Esta aparição reconfortou-nos:
eram aliados, por isso amigos; em caso de apuros, podíamos recorrer a eles, como
em Fondi. Pus-me na beira da estrada, ao lado de Rosetta, para ver desfilar a
coluna diante de nós. À frente vinha um pequeno automóvel descoberto, semelhante
àquele que nos trouxera; lá dentro iam três oficiais e por cima do motor levava
espetada uma bandeirinha. Era uma bandeira azul, branca e vermelha, a bandeira
francesa, como soube depois, e os oficiais eram oficiais franceses, com o quepe do
feitio de uma panela redonda e a pala dura por cima dos olhos. Atrás deste
automóvel vinham muitos caminhões, todos iguais, a abarrotar de tropas, mas não
eram soldados semelhantes aos que vira até então, eram homens de pele escura,
com caras de turcos, tanto quanto deixavam adivinhar os turbantes vermelhos que
lhes envolviam as cabeças, e cobertos por lençóis brancos, tendo por cima um
capote de cor escura. Só mais tarde soube a origem destes soldados: eram de
Marrocos, portanto marroquinos, e Marrocos, segundo penso, é um país distante,
que fica em África, e, se não fosse a guerra, estes marroquinos nunca teriam vindo à
Itália. A coluna não era muito comprida; fechava-a um automóvel semelhante àquele
que ia na frente; a estrada então voltou a ficar deserta e silenciosa. Disse a Rosetta:
“São aliados, decerto, mas não sei a que raça pertencem. Nunca vi gente
assim “
Em seguida dirigi-me para o povoado. Pouco antes da aldeia, a montanha
encurvava para a estrada um grande rochedo, por baixo do qual havia uma espécie
de gruta com uma nascente. Disse a Rosetta, enquanto caminhava com a caixa à
cabeça:
“Aquilo é uma gruta com uma nascente. Vamos lá, pois tenho sede e quero
beber.”
Foi isto o que disse, mas, na realidade, queria era tornar a vê-la, pois em
criança e mais tarde, já rapariga, ia àquela gruta buscar água todos os dias várias
vezes, com o cântaro de cobre à cabeça, e ficava lá a conversar dez minutos ou
mais, conforme os casos, com outras mulheres que também ali iam por igual razão;
às vezes até encontrava gente das aldeias vizinhas com barris amarrados à albarda
dos burros, porque a água daquela fonte tinha fama e era a única nas redondezas
que durante o verão não secava e continuava a correr, sempre gelada e abundante.
Gostava daquela gruta e lembrava-me que, em criança, me parecia um lugar
estranho e misterioso, que me metia medo e ao mesmo tempo me atraía; muitas
vezes me debruçava, o busto todo dobrado para a frente, na beira do tanque que lá
existia, para me ver espelhada na água negra, e olhava durante muito tempo as
avencas densas que ocultavam a nascente. Gostava de contemplar a minha imagem
voltada ao contrário, tão clara e colorida; gostava de olhar para as avencas tão
lindas, com as folhinhas verdes e as hastes negras como ébano; gostava de ver o
musgo aveludado, com gotas brilhantes como pérolas e constelado de florinhas
vermelhas que cobria a rocha. Mas sentia-me atraída sobretudo pela gruta porque
na aldeia alguém me contara uma lenda segundo a qual quem se atirasse com
decisão à água, nadando sempre para o fundo, chegaria a um mundo subterrâneo
muito mais belo do que o nosso cá em cima, com cavernas cheias de tesouros e
anões e lindas fadas.
Esta história causara-me grande impressão e mesmo mais tarde, quando já
era rapariga e não acreditava nisso, pois sabia ser apenas uma lenda, nunca
cheguei à gruta sem me lembrar dela e experimentar uma sensação de dúvida e
incerteza, como se aquilo não fosse uma lenda, mas sim uma coisa verdadeira e eu
pudesse dar ainda aquele mergulho, se quisesse ir lá abaixo visitar as tais cavernas
encantadas. Fomos até a gruta, pus no chão a caixa, subi os dois ou três degraus e
debrucei-me, esmagando o peito na beira do tanque, por baixo das estalactites
revestidas de musgo verde e brilhante que, tal como outrora, pingavam gota a gota.
Também Rosetta se aproximou e eu olhei um momento as nossas duas caras
refletidas na água negra imóvel e suspirei, pensando no sem-número de coisas, nem
sempre boas, que tinham sucedido desde o tempo em que, criança ainda, me
debruçava para aquela água e nela me via como num espelho. Por baixo das
avencas densas, no fundo do tanque, via-se, como então, o leve borbulhar
produzido pela nascente e pensei que aquela nascente continuaria a brotar assim
por toda a eternidade, doce e tranqüila, quando eu e Rosetta e todos os outros
fôssemos embora deste mundo e desta guerra tão terrível restasse apenas a
recordação. Porque tudo acaba, considerei; eu estava ali e já não era criança e tinha
uma filha crescida, mas a fonte continuava a deitar água, como sempre...
Inclinei-me e bebi; creio que uma lágrima me caiu dos olhos para o tanque;
Rosetta, ao meu lado, bebia também e não se apercebeu. Depois limpamos a boca,
tornamos a pôr as caixas à cabeça e dirigimo-nos para a aldeia.
Tal como imaginava, a aldeia estava deserta. Não fora bombardeada nem
devastada, apenas abandonada. Todas as casas, umas casas pobres, de pedra em
bruto, sem rebocos, encostadas umas às outras ao longo da estrada, estavam
intactas, mas de janelas fechadas e portas pregadas. Caminhamos um bocado entre
duas filas de habitações mortas que me davam quase uma sensação de medo,
como quando se caminha num cemitério e se pensa na gente que está por baixo das
lápides; passamos diante da casa de meus pais, também fechada e pregada;
renunciei a bater e, sem dizer nada a Rosetta, apressei o passo; por fim chegamos a
um largo em declive, com degraus, no cimo do qual se erguia a igreja, uma igrejinha
mesmo de aldeia, de velhas pedras enegrecidas, rústica e antiga, sem floreios nem
ornamentos. O largo continuava tal qual como eu me lembrava dele: os degraus
calcetados de pedra negra com listras brancas; quatro ou cinco árvores plantadas
irregularmente, que, como sempre na primavera, se apresentavam carregadas de
folhas novas, e a um lado um velho poço com o parapeito da mesma pedra negra da
igreja e o cabrestante de ferro todo enferrujado. Notei que, sob o pórtico, sustentado
por duas colunas, a porta da igreja estava semi-aberta e disse a Rosetta:
“Sabes o que vamos fazer? A igreja está aberta, vamos sentar-nos lá dentro
um bocado, a descansar, e depois seguimos a pé para Vallecorsa.”
Rosetta não respondeu e seguiu-me. Entramos e imediatamente percebi, por
vários indícios, de que a igreja fora, se não devastada de propósito, pelo menos
habitada por soldados e reduzida ao estado de estrebaria. A nave era comprida e
estreita, caiada, com grandes traves negras no teto e ao fundo o altar, este último
sobrepujado por um quadro representando Nossa Senhora com o Menino. O altar
estava agora nu, sem paramentos nem nada; o quadro continuava lá, mas de banda,
como se um terremoto o houvesse deslocado, e os bancos, que outrora se
alinhavam em duas filas até junto do altar, tinham desaparecido todos, menos dois,
dispostos no sentido do comprimento. Entre eles, no chão, havia muitas cinzas e
alguns tições pretos, sinal de que se acendera ali lume. A igreja recebia luz de um
grande vitral por cima da entrada, que noutro tempo fora brilhante e colorido. Agora,
desses vidros não restavam senão alguns fragmentos aguçados e na igreja era dia
claro. Encostei-me a um dos bancos sobreviventes, endireitei-o, de modo a ficar de
frente para o altar, pousei lá a caixa e disse a Rosetta:
“Eis o que é a guerra: nem as igrejas respeitam...”
Depois sentei-me e Rosetta sentou-se ao meu lado. Experimentava uma
sensação estranha, como a de quem se encontra num lugar sagrado, e no entanto
não tinha vontade de rezar. Voltei os olhos para o quadro de Nossa Senhora, todo
torcido, com o rosto da Virgem já negro de fumo, e não a olhar para baixo, para os
bancos, como antigamente, mas sim para o teto, de revés; pensei que, se quisesse
rezar, teria, antes de tudo, de endireitar aquela imagem. Mas talvez nem mesmo
assim fosse capaz de rezar; estava como que inteiriçada e não sentia nada, a não
ser uma espécie de atordoamento. Esperava encontrar a aldeia onde nascera e a
gente no meio da qual tinha crescido e, se Deus quisesse, também os meus pais;
mas, ao contrário, encontrara apenas uma casa vazia... Todos tinham abalado, não
se sabia para onde, e talvez também Nossa Senhora, desgostosa por terem
ofendido a sua imagem, deixando-a para ali à banda. Olhei para Rosetta, ao meu
lado, e vi que ela rezava de mãos postas e cabeça inclinada, mal movendo os
lábios. Disse-lhe então, em voz baixa:
“Fazes bem em rezar... reza também por mim... eu não tenho coragem...”
Naquele instante ouvi não sei que barulho de passos e de vozes do lado da
entrada, voltei-me e, como um relâmpago, vi chegar à porta qualquer coisa branca
que imediatamente desapareceu. Pareceu-me reconhecer, porém, um daqueles
estranhos soldados que viramos passar pouco antes na estrada dentro de
caminhões. Tomada de súbita inquietação, levantei-me e disse a Rosetta:
“Vamos... é melhor ir andando...”
Ela levantou-se logo, benzendo-se; ajudei-a a pôr a caixa à cabeça, pus
também a minha e depois dirigimo-nos para a entrada. Empurrei a porta, que estava
fechada, e encontrei-me cara a cara com um soldado que parecia turco, tão escuro e
bexigoso era, com um carapuço vermelho enterrado até os olhos, pretos e
brilhantes, e o corpo embrulhado naquele capote escuro por cima do lençol branco.
Ele pôs-me as mãos no peito, empurrando-me para trás e dizendo-me qualquer
coisa que não entendi; atrás dele vi outros, não sei quantos, pois o bruto agarrou-me
com força um, braço e puxou-me logo para dentro da igreja, enquanto os outros,
todos de lençol branco e carapuço vermelho, entravam de roldão. Então gritei:
“Mais devagar, que querem de nós? Somos refugiadas!”
Ao mesmo tempo, a caixa que trazia à cabeça caiu e senti as conservas
rolarem no chão. Comecei a debater-me. O turco agarrava-me pela cintura,
apertava-me contra ele, a cara escura e feroz perto da minha. De súbito ouvi um
berro, agudo, dilacerante, era Rosetta; então procurei libertar-me com quantas
forças tinha, para correr em seu auxílio, mas ele apertava-me desalmadamente e,
embora lhe fincasse a mão no queixo, empurrando-lhe a cara para trás, senti que ele
conseguia arrastar-me para um canto, na penumbra da igreja, à direita da entrada.
Então gritei também, um berro ainda mais agudo que o de Rosetta, e creio que pus
nele todo o meu desespero, não só por aquilo que me estava a acontecer nesse
instante, como por tudo quanto me sucedera desde o dia em que saí de Roma.
Seguiu-se uma breve luta e por fim desmaiei...
Voltei a mim passado não sei quanto tempo; estava estendida a um canto, na
penumbra da igreja, os soldados tinham-se ido embora e reinava um grande
silêncio. Doía-me a cabeça, mas só atrás, na nuca; não tinha outras dores e
compreendi que aquele homem terrível não conseguira os seus intentos; eu
defendi-me, dando-lhe vigoroso apertão no sítio onde os homens não toleram que os
apertem, e ele, raivoso, agarrou-me pelos cabelos e bateu-me com a cabeça no
pavimento; por isso desmaiei e, já se sabe, é difícil fazer seja o que for a uma
mulher desmaiada. Mas também não me fizera nada porque, como refleti a seguir,
os companheiros o chamaram, para segurar Rosetta e ele deixou-me e foi saciar-se,
como todos os outros, na minha pobre filha. Infelizmente, Rosetta não desmaiou e
tudo quanto lhe sucedeu viu-o com os olhos e sentiu-o com os sentidos. Eu estava
para ali estendida, quase incapaz de me mexer; depois experimentei levantar-me e
senti subitamente uma dor aguda na nuca. Porém, reagi, pus-me de pé e olhei em
volta. Primeiro não vi senão o pavimento da igreja semeado de caixas de conservas
que tinham rolado pelo chão no momento em que fomos assaltadas; depois ergui os
olhos e vi Rosetta. Tinham-na arrastado, ou então perseguido, até junto do altar;
estava estendida de costas, o vestido levantado e a cobrir-lhe a cabeça, nua dos pés
até à cintura.
Aproximei-me e chamei-a, em voz baixa: “Rosetta!”. Mas não esperava que
ela me respondesse, e ela, de fato, não me respondeu, nem se mexeu e
convenci-me de que estava morta. Inclinei-me e afastei-lhe as roupas de cima da
cara. Vi então que ela me olhava de olhos arregalados, sem pronunciar uma palavra,
sem se mover, com um olhar que nunca lhe vi, como um animal preso numa
armadilha, sem poder mexer-se, à espera que o caçador lhe dê o golpe de
misericórdia. Sentei-me então junto dela, debaixo do altar, passei-lhe o braço pela
cintura, levantei-a, apertei-a contra mim e disse:
“Meu tesouro!...”
Mas não consegui dizer mais nada, comecei a chorar e as lágrimas
saltavam-me dos olhos e eu bebia-as e sentia que eram amargas, com toda a
amargura concentrada que eu recolhera na minha vida. Entretanto, esforçava-me
por compô-la; antes de tudo, tirei o lenço do bolso e limpei-lhe o sangue ainda fresco
das coxas, baixei-lhe a combinação e a saia e depois, sempre a chorar
perdidamente, meti-lhe dentro do colete o seio que aqueles bárbaros tinham tirado
para fora e abotoei-lhe a blusa. Por fim peguei num pentezinho que me tinham dado
os ingleses e penteei-lhe cuidadosamente os cabelos desgrenhados. Ela
deixava-me fazer tudo, estava quieta e não falava. Eu agora já não chorava e
entristecia-me por não poder chorar, nem gritar, nem me desesperar. Disse-lhe:
“Podes sair daqui?”
Respondeu que sim, numa voz muito baixa. Ajudei-a a levantar-se; ela
vacilava, estava muito pálida, mas por fim lá deu alguns passos, sempre amparada a
mim. A meio da igreja, quando chegamos junto dos dois bancos, disse-lhe:
“Temos de apanhar estas coisas e metê-las nas caixas. Não devemos
deixá-las aqui. Podes?”
Novamente respondeu que sim; enchi as duas caixas com as conservas que
estavam espalhadas no chão, pus-lhe uma à cabeça e fiquei com a outra; por fim
saímos. Continuava a doer-me a nuca de uma maneira que não sei explicar, e ao
sairmos da igreja até se me enevoou a vista; mas reagi, com o pensamento em
Rosetta, que devia sofrer bastante naquele momento. Descemos devagar os
degraus resvaladiços do largo; o sol já ia alto e iluminava com a sua bela luz as
paredes escuras. Marroquinos não havia nem um; depois de terem feito o que
fizeram, foram-se embora, graças a Deus, talvez para irem fazer o mesmo em
qualquer outra terra próxima. Atravessamos toda a aldeia por entre duas filas de
casas fechadas e silenciosas, logo tomamos a estrada principal, cheia de sol, limpa,
clara, batida pelo vento da Primavera, que me soprava docemente aos ouvidos e
parecia dizer-me que não me desesperasse, pois tudo continuava como dantes,
como sempre. Andamos talvez um quilômetro, lentamente, sem falar; mas eu
sentia-me cada vez pior da nuca e compreendi que também Rosetta não podia mais.
Disse-lhe:
“Agora, na primeira quinta que encontrarmos, paramos até amanhã, para
descansar.”
Ela não disse nada, começava assim aquele silêncio em que se fechou
depois de os marroquinos a violarem e que havia de durar muito e muito tempo. Em
suma, demos ainda mais uns cem passos e vi vir ao nosso encontro um
automovelzinho descoberto, em tudo semelhante àquele que nos trouxera, com dois
oficiais dentro, dois oficiais franceses, reconheci-os logo pelo quepe em forma de
panela. Então senti não sei que impulso e pus-me no meio da estrada, fazendo
sinais com o único braço livre, e eles pararam. Aproximei-me e gritei-lhes com fúria:
“Sabem o que fizeram os turcos que vocês comandam? Sabem o que tiveram
a coragem de fazer num lugar sagrado, na igreja, sob os olhares de Nossa
Senhora? Digam, sabem o que eles fizeram?”
Não me compreendiam e olhavam-me espantados: um era moreno, de bigode
preto e cara vermelha, cheia de saúde; o outro era loiro, delgado, pálido, de olhos
azuis e vesgos. Gritei outra vez:
“Desgraçaram a minha filha, sim, desgraçaram-na para sempre, uma filha que
era um anjo e agora está pior do que se tivesse morrido. Mas não sabem o que eles
fizeram?”
Então o moreno levantou a mão e fez um sinal como a dizer “basta” e depois
repetiu, em italiano, mas com acento francês: “Pace, pace”, que quer dizer “paz”.
Gritei:
“Sim, paz, linda paz, esta é a vossa paz, filhos de um corno?!”
O louro não sei o que disse ao moreno, naturalmente que eu era doida, pois
levou um dedo à testa e sorriu. Então perdi por completo a cabeça:
“Não sou doida, não, olhem!”
E, atirando a caixa ao chão, corri para Rosetta, que ficara mais atrás, no meio
da estrada, com a caixa à cabeça, imóvel, e levantei-lhe as saias para lhes mostrar
aquelas belas pernas ensangüentadas, No mesmo momento ouvi o automóvel
passar ao meu lado a grande velocidade e, quando me voltei, vi-o desaparecer lá
adiante na curva.
Rosetta continuava parada, semelhante a uma estátua, com a caixa à cabeça,
o braço levantado para a segurar, as pernas unidas, e eu de repente tive medo que
ela tivesse enlouquecido e, baixando-lhe o vestido, pronunciei:
“Minha filha, porque não falas? O que tens?... Fala à tua mamã.”
Então ela respondeu, numa voz tranqüila:
“Não é nada, mamã. E uma coisa natural, já está a passar.”
Respirei fundo, pois tive verdadeiramente medo que ela, com o abalo, ficasse
tola; perguntei-lhe, já um pouco mais animada:
“Então podes andar ainda um bocado?”
Respondeu:
“Sim, mamã.”
Pus a caixa à cabeça e continuamos a palmilhar a estrada principal. Andamos
ainda mais outro quilômetro e eu sentia-me cada vez pior da nuca; de vez em
quando quase desfalecia e toda a paisagem ficava negra, como se o sol se
encobrisse de repente. Por fim, numa curva, vimos um morro abrigado por
montanhas mais altas, redondo e coberto de mato. No cimo, entre o mato, havia
uma cabana como as que em Santa Eufêmia os camponeses construíam para meter
os animais. Disse a Rosetta:
“Não posso mais e tu também deves estar cansada. Vamos para aquela
cabana; se tiver gente, devem ser cristãos e hão-de deixar-nos passar lá a noite. Se
não houver ninguém, tanto melhor. ficamos hoje e amanhã e, logo que nos
sentirmos bem, retomaremos o caminho.”
Rosetta não disse nada, como de costume; mas desta vez fiquei menos
inquieta, pois já sabia que não tinha enlouquecido, estava somente perturbada, e
isso compreendia-se, depois do que sucedera. No entanto, sentia que ela nunca
mais seria a mesma e que qualquer coisa mudara, não só no seu corpo, mas
também na sua alma. E, embora fosse sua mãe, não tinha o direito de lhe perguntar
o que pensava, pois a única maneira de lhe demonstrar todo o meu afeto era
deixá-la em paz.
Seguimos por uma vereda que serpenteava no meio do mato, em direção à
cabana, e por fim, após longa subida, chegamos lá. Como imaginava, era uma
choupana de pastores, com paredes de pedra solta, o telhado de palha, descendo
quase até ao chão, e a porta de madeira. Pousamos as caixas e tentamos abrir a
porta. Mas esta tinha uma barra de ferro com um grande soquete e era feita de
tábuas muito grossas: não podíamos pensar em abri-la, nem um homem a
conseguiria arrombar. Enquanto abanávamos a porta, ouvimos primeiro um balido
muito fraco e depois outro e outro; pareciam de cabras, mas não fortes e irritados
como são os balidos das cabras quando estão no escuro e querem sair, mas fracos
e lamentosos. Então disse a Rosetta:
“Fecharam aqui dentro os animais e fugiram... é preciso arranjar maneira de
os pôr cá fora.”
Assim, fui para o lado da cabana e comecei a tirar a palha do telhado. Tarefa
difícil, pois a palha estava bastante comprimida e emaranhada devido à chuva e ao
fumo e por ter sido acamada ali há muito tempo; além disso, cada feixe estava preso
com vimes aos troncos de esteio. Porém, arrancando aqui e além, ora
despedaçando os vimes, ora desatando-os, consegui tirar alguns feixes de palha e
fazer um buraco bastante grande à altura da parede, e, logo que o alarguei, uma
cabra branca e preta aproximou a cabeça, pondo as patas na parede e olhando para
mim com olhos lamentosos e balindo. Disse-lhe:
“Anda, linda, salta, salta!”
Mas vi que ela, a pobrezinha, embora procurasse erguer-se, não tinha forças,
e compreendi que aquelas cabras estavam enfraquecidas pela fome e era preciso
tirá-las de lá. Alarguei mais o buraco, enquanto a cabra continuava com as patas
apoiadas à parede, olhando-me e balindo baixinho; depois agarrei-a pela cabeça e
pelo pescoço, puxei-a e ela fez um esforço e saltou. Logo a seguir outra cabra
apareceu no buraco e de novo me esforcei por tirá-la para fora, e depois uma
terceira e uma quarta. Por fim não apareceu mais nenhuma, mas sentia-se ainda
balir na cabana; alarguei de novo o buraco e saltei lá para dentro. Vi logo dois
cabritos que estavam mesmo debaixo da abertura, incapazes de saltar porque eram
muito pequenos. A um canto distingui um vulto e aproximei-me: era uma cabra
branca, estendida no chão, de lado, imóvel. Um cabrito estava junto dela, agachado,
com as patas dobradas debaixo da barriga e o pescoço estendido, a mamar. Ainda
pensei que a cabra estivesse assim imóvel para dar de mamar ao cabrito, mas,
quando me aproximei, vi que estava morta. Compreendi-o logo pelo abandono da
cabeça, pela boca semi-aberta e pelas moscas pousadas aos cantos da boca e dos
olhos. A cabra morrera de fome e os três cabritos viviam ainda porque tinham podido
mamar até o último suspiro da mãe. Peguei nos cabritos, um por um, e,
inclinando-me para fora, pousei-os no chão, ao pé da parede. As outras quatro
cabras que libertara devoravam já o mato com uma avidez furiosa, cegas de fome;
os cabritos alcançaram-nas e bem depressa cabras e cabritos deixaram de se ver,
embrenhados no meio dos arbustos. Mas ouviam-se os seus balidos, cada vez mais
claros e fortes, como se a cada bocado a sua voz se fortalecesse e quisessem
assim dar-me a entender que estavam melhor e me agradeciam tê-los salvo da
morte.
Em conclusão, tirei para fora da cabana, com grande custo, o cadáver da
cabra e arrastei-o para tão longe quanto pude, para não nos incomodar com o mau
cheiro. Depois peguei naquela palha toda que arrancara do telhado, juntamente com
outra que consegui: alargando mais o buraco, e coloquei-a num canto da cabana,
fazendo na sombra uma espécie de cama. Disse a Rosetta:
“Vou estender-me nesta palha, quero dormir um bocado. Porque não fazes o
mesmo?”
Ela respondeu:
“Eu fico aqui fora, ao sol.”
Não insisti e fui deitar-me. Estava na sombra, mas pelo buraco aberto no
telhado via um pedaço de céu azul; o sol alongava os seus raios no chão da cabana,
semeado das caganitas negras das cabras, brilhantes como bagas de louro;
respirava-se ali um bom cheiro a estábulo. Sentia os ossos quebrados e compreendi
que era incapaz, devido ao cansaço, de me amargurar verdadeiramente com o que
sucedera a Rosetta: o acontecido ficara na minha memória como qualquer coisa
incompreensível e absurda; via em pensamento as suas lindas pernas brancas, as
coxas apertadas e os músculos em relevo, e ela de pé, imóvel, no meio da estrada,
e o sangue a escorrer até aos joelhos, muito vivo e vermelho, brilhando ao sol.
Quanto mais rememorava essa cena, menos a compreendia. Finalmente adormeci...
Dormi pouco, talvez só meia hora; de repente acordei, em sobressalto, e
chamei logo por Rosetta, aos gritos, quase com ansiedade. Ninguém respondeu,
havia um silêncio profundo, não se ouviam sequer as cabras, e sabe-se lá para onde
teriam ido. Chamei outra vez, e depois, inquieta, levantei-me, saltei para fora, pelo
buraco: Rosetta não estava ali. Dei a volta à cabana, vi as duas grandes caixas de
conservas encostadas à parede, mas dela nem sombra.
Fui tomada de um medo louco, pensei que tivesse fugido, cheia de vergonha
e desespero, que tivesse ido para a estrada para se meter debaixo de algum
automóvel e acabar assim num momento de desanimo. Faltou-me o ar e senti o
coração bater mais apressado no peito; comecei a chamar por Rosetta, parada
diante da porta, mas em todas as direções. Ninguém respondia, talvez porque não
gritasse muito alto; com a perturbação faltava-me a voz. Então abandonei a cabana
e caminhei ao acaso pelo meio do mato. Segui a vereda, que ora se alargava, clara
e poeirenta, ora não era mais do que um traço incerto entre os arbustos altos.
Imprevistamente, cheguei junto duma rocha que descia a pique para a estrada
principal. Havia ali uma árvore e a rocha estava talhada em forma de banco. donde
se podia ver uma boa parte da estrada que serpenteava no vale estreito e, lá mais
abaixo, o leito da torrente, semeado de seixos brancos, com dois ou três braços de
água transparente, correndo e cintilando ao sol entre os seixos e os tufos de
verdura. Quando me sentei na rocha e me inclinei para olhar, vi Rosetta ao longe.
Compreendi então que não me tivesse ouvido, pois estava muito mais abaixo do que
a estrada, no meio do riacho pedregoso, e caminhava sem pressas, com prudência,
saltando de uma pedra para outra, evitando molhar os pés; pela sua maneira de
andar, vi que não fora por desespero ou por perturbação de ânimo que ali descera.
Depois vi-a parar no sítio onde a corrente era mais estreita e mais funda, ajoelhar-se
e inclinar-se até tocar com o rosto na água para beber. Quando acabou, ergueu-se,
olhou em volta um momento e em seguida levantou as saias, descobrindo as
pernas, e, embora eu tivesse bastante longe, pareceu-me ver um risco escuro de
sangue seco que lhe chegava até o joelho. Agachou-se, de pernas abertas,
apanhando a água na concha da mão e levando-a ao ventre: compreendi que se
lavava. Tinha a cabeça inclinada para um lado e lavava-se sem pressa, com
método, assim me pareceu, não se importando de expor ao sol e ao ar as suas
vergonhas. Todas as minhas terríveis suposições caíram por terra: Rosetta
afastara-se da cabana, descera à ribeira, unicamente para se lavar...
Devo confessá-lo, experimentei uma sensação de dolorosa desilusão. Claro,
eu não queria que ela se matasse; no entanto, temia-o: mas vê-la agir de uma
maneira tão diferente da que imaginava inspirava-me uma decepção profunda e
quase medo do futuro. Parecia-me que se vergara já ao novo destino, que começara
para ela na igreja, ao perder a virgindade por obra daqueles bárbaros, e que o seu
obstinado silêncio era mais de resignação do que de furor. E pensei mais tarde,
quando esta impressão, infelizmente, se confirmou, que, nesses poucos instantes de
tormento, a minha pobre Rosetta se tornara bruscamente mulher, tanto no corpo
como na alma, mulher endurecida, experimentada, amarga, sem ilusões nem
esperanças.
Fiquei a olhá-la durante muito tempo, lá de cima, do rochedo. Depois de se
limpar o melhor que pôde, e sempre com o mesmo impudor quase animal, tornou a
atravessar a corrente e subiu de novo para a estrada. Em seguida atravessou-a e eu
então levantei-me da rocha e voltei para a cabana: não queria que ela pensasse que
a tinha estado a espiar. De fato, vi-a chegar daí a poucos minutos, com uma cara
não de todo sossegada e calma, mas sem qualquer expressão: eu, fingindo uma
fome que não tinha, disse-lhe:
“Estou com apetite, queres comer alguma coisa?”
Respondeu-me numa voz indiferente:
“Se quiseres...”
Sentamo-nos ambas em frente da cabana, numas pedras, e abri duas caixas
de conservas, e de novo fiquei surpreendida, de uma maneira obscuramente
dolorosa, ao ver que ela comia com apetite, ou, melhor, vorazmente. Também desta
vez não esperava, decerto, que não comesse, pelo contrário; no entanto, vê-la
atirar-se à comida com tal sofreguidão surpreendeu-me, pois pensava que, pelo
menos, depois de tudo quanto sucedera, a comida lhe repugnasse. Não sabia o que
dizer, estava para ali apalermada, a vê-la tirar com os dedos, das caixas abertas, os
bocados de carne em conserva, um a seguir a outro, e metê-los na boca e
mastigá-los com fúria, de olhos arregalados. Por fim disse-lhe:
“Minha rica filha, não deves pensar mais no que sucedeu na igreja... não
penses e verás...”
E ela, interrompendo-me, pronunciou secamente:
“Se não queres que eu pense, começa por não me falares mais nisso.”
Fiquei surpreendida, até o tom da sua voz já era outro: quase irritado e, ao
mesmo tempo, frio, impassível.
Em suma passamos lá em cima quatro dias e quatro noites, sempre a fazer
as mesmas coisas, isto é, dormindo de noite na cabana, em que entrávamos pelo
buraco do telhado, levantando-nos com o sol, comendo as conservas do major
inglês, matando a sede na água da corrente e quase não falando, a não ser quando
era mesmo necessário. Durante o dia andávamos no mato, sem destino: às vezes
dormíamos também à tarde, no chão, debaixo duma árvore. As cabras, depois de
pastarem todo o dia, voltavam para a cabana e nós ajudávamo-las a saltar para
dentro e depois dormiam conosco, acaçapadas umas contra as outras, a um canto,
juntamente com os cabritos, que tinham começado a mamar ora numa ora noutra e
já nem se lembravam da mãe morta, Rosetta estava sempre com o mesmo humor
apático, indiferente, distante: como me pedira, não lhe falei mais no que sucedeu na
igreja; e desde então não toquei em tal assunto uma única vez, e a dor que
experimentei ficou dentro de mim, como um espinho, e nunca mais me abandonará
porque nunca encontrará expressão. A propósito daqueles quatro dias, não sei
porquê, estou convencida de que foi nessa altura que Rosetta mudou
verdadeiramente de caráter, ou à força de pensar, de uma maneira muito especial,
em tudo quanto lhe sucedeu, ou transformando-se sem querer e sem dar por isso,
pela própria força do ultraje sofrido, numa pessoa diferente da que fora até aí. E
devo dizer que ao princípio até eu me surpreendi com a sua mudança tão completa
e tão radical, passando do branco para o preto: mas depois, pensando melhor,
pareceu-me que, dado o seu temperamento, não podia ser de outra forma. Já aqui
afirmei que ela era levada pela sua natureza para uma estranha perfeição; se era
qualquer coisa, tinha de o ser a fundo e completamente, sem incertezas nem
contradições, e de tal forma que sempre estive convencida de que a minha filha era
uma espécie de santa. Ora essa perfeição de santa, feita, como disse, sobretudo de
inexperiência e ignorância da vida, fora ferida de morte pelo que sucedeu na igreja;
então mudou bruscamente para a perfeição oposta, sem essas meias-medidas,
moderação e prudência próprias das pessoas normais, imperfeitas e espertas.
Tinha-a visto até aí toda devoção e bondade, pureza e doçura; devia esperar, de
futuro, que ela se voltasse para o excesso oposto, com a mesma ausência de
dúvidas e de hesitações, a mesma inexperiência e o mesmo sentido absoluto.
Muitas vezes, em conclusão das minhas reflexões sobre este doloroso
assunto, disse a mim própria que a pureza é uma coisa que não se pode receber à
nascença como dom da natureza, por assim dizer; mas que se encontra com as
provações da vida e quem a recebeu ao nascer perde-a cedo ou tarde e tanto mais
facilmente quanto mais confiava possuí-la: em suma, vale mais nascer imperfeito e
tornar-se, a pouco e pouco, se não perfeito, pelo menos melhor, do que nascer
perfeito e depois ser obrigado a abandonar aquela primeira efêmera perfeição pela
imperfeição da experiência e da vida.

CAPÍTULO X

Entretanto, as conservas do major inglês iam desaparecendo a olhos vistos,


tanto mais que Rosetta parecia ter agora uma fome de lobo; assim, decidi que
precisávamos de sair o mais depressa possível daquele pouso. Não tinha coragem
de me dirigir a Vallecorsa ou a qualquer outra terra da região, pois receava encontrar
novamente os marroquinos, que, segundo me parecia, estavam espalhados por toda
a Ciociaria. Por fim disse a Rosetta:
“O melhor é voltarmos a Fondi. Lá encontraremos decerto maneira de
regressar a Roma, se os Aliados já lá tiverem chegado, De qualquer modo, mais
vale suportar os bombardeamentos do que os marroquinos...”
Rosetta ouviu e ficou calada um momento, depois saiu-se com uma frase que
me soou mal:
“Não, por mim prefiro os marroquinos aos bombardeamentos. Os marroquinos
já não podem fazer-me pior do que me fizeram, enquanto os bombardeamentos... eu
não quero morrer...”
Discutimos ainda um pouco e por fim convenci-a de que era aconselhável
voltar para Fondi: os bombardeamentos já deviam ter acabado, pois o exército
aliado avançava para o Norte. E uma manhã deixamos a cabana e descemos à
estrada. Tivemos muita sorte, posso afirmá-lo, porque, depois de termos deixado
passar alguns caminhões militares, que, já sabia, não transportavam civis, vimos de
súbito aparecer um caminhão completamente vazio que descia, por assim dizer.
alegremente e a toda a velocidade os ziguezagues da estrada deserta. Pus-me no
meio do caminho e agitei os braços. O caminhão parou e vi ao volante um rapaz
loiro, de olhos azuis, vestido com uma linda camisola vermelha. Ele olhou para mim
e eu gritei-lhe:
“Somos duas refugiadas, podes levar-nos a Fondi?”
Ele soltou um assobio e respondeu:
“Estás com sorte, é mesmo para Fondi que vou. São duas refugiadas; então a
outra, onde está?”
“Vem já aí.”
Fiz o sinal combinado a Rosetta, a quem ordenara, receando algum mau
encontro, que ficasse um pouco mais acima, atrás de uma moita. Ela desceu e
caminhou ao nosso encontro, pelo meio da estrada inundada de sol, trazendo à
cabeça a única caixa que possuíamos, na qual guardávamos as conservas que nos
restavam. Agora podia ver melhor o rapaz do caminhão e não me pareceu lá muito
simpático: havia um não sei quê de arrebatado, vulgar e violento nos seus olhos
azuis e na sua boca demasiado vermelha. Essa impressão desfavorável confirmei-a
logo a seguir: quando Rosetta se aproximou, ele não lhe olhou para a cara, mas sim
para o peito, que, como ela trazia os braços levantados, a segurar a caixa, estava
puxado para cima e sobressaía debaixo do tecido fino da blusa. O rapaz exclamou
então, com uma risada tola:
“A tua mãe disse-me que eras refugiada, mas não acrescentou que eras uma
linda rapariga,”
Depois desceu e ajudou-a a subir para o seu lado, colocando-me do lado
oposto. Reparei que não protestara ao ouvir aquela frase pouco respeitosa, quando
alguns dias antes o teria feito asperamente e talvez renunciasse até a seguir no
caminhão; e pensei que também eu já não era a mesma, pelo menos em relação a
Rosetta. Entretanto, o rapaz pôs de novo o motor a trabalhar e o caminhão partiu.
Durante algum tempo não falamos; depois, como acontece sempre nestes
casos, começou a troca de informações. A nosso respeito, disse pouco; mas ele,
que parecia bastante conversador, contou muito da sua vida. Disse que nascera
naqueles sítios; era soldado na altura do armistício e desertou; depois de andar a
monte algum tempo, foi preso pelos Alemães; mas um capitão nazi simpatizou com
ele e, em vez de o mandar para as fortificações, pusera-o nas cozinhas, onde
trabalhou todo esse tempo; nunca na sua vida tinha comido mais e melhor; enfim,
como a escassez era geral, a abundância de provisões de que dispunha
permitira-lhe conseguir das mulheres tudo quanto queria:
“Muitas raparigas bonitas vinham pedir-me qualquer coisa de comer. E eu
dava, mas, bem entendido, sob condições. Talvez não acreditem, mas nunca
encontrei nenhuma que recusasse. Ah! A fome é boa conselheira, torna razoáveis
até as mais soberbas...”
Para mudar de conversa, perguntei-lhe o que fazia agora e ele respondeu que
se associara a uns amigos e naquele carro levavam para aqui e para além os
refugiados que voltavam às suas terras; claro, faziam-se pagar bem.
“A vocês não levo nada”, acrescentou nessa altura, deitando uma olhadela de
soslaio a Rosetta.
Tinha a voz grossa e rouca; no pescoço forte caiam-lhe tantos anéis de
cabelos loiros que a sua cabeça parecia a de um bode, e na verdade tinha qualquer
coisa de bode na maneira como olhava Rosetta, ou, melhor, todas as vezes que
podia lhe atirava os olhos ao seio. Disse ainda que se chamava Clorindo e
perguntou o nome de Rosetta. Ela disse-lhe e então comentou:
“É pena, é uma pena que a carestia acabe. Mas mesmo assim havemos de
chegar a acordo. Gostas de meias de seda? Ou de um bonito corte de fazenda para
um vestido? Ou de um lindo par de sapatos de pelica?”
Rosetta, com grande espanto meu, retorquiu, passado um instante:
“Quem não gosta de coisas dessas?”
Ele riu e repetiu:
“Havemos de nos emendar, havemos de nos emendar...”
Toda eu tremia e não pude deixar de exclamar:
“Vê lá como falas... A quem julgas que estás a falar?...”
Ele olhou-me de esguelha e disse:
“Uh! Como és má! A quem julgo que estou a falar? A duas pobres refugiadas
que precisam do meu auxílio...”
Em resumo, um tipo alegre, embora vulgar, brutal e profundamente imoral.
Depois desta conversa, quando chegamos à altura em que a estrada desce para o
mar, começou a guiar o caminhão como um louco, lançando-o numa morreria
vertiginosa, com o motor desligado, fazendo e desfaze curvas a seguir umas às
outras e cantando a plenos pulmões uma canção brejeira. Na verdade, dava vontade
de cantar, pois estava um lindo dia e respirava-se no ar a liberdade reconquistada
após tantos meses de escravidão. E não posso negar que até ele, de certa maneira,
nos fazia sentir, com a sua conduta desordenada, que essa liberdade era já um fato;
simplesmente, a sua era a liberdade do valdevinos que não quer respeitar nada nem
ninguém; enquanto a nossa, a minha e a de Rosetta, era só a liberdade de voltar
para Roma e de recomeçar a vida de outros tempos. Numa curva, um solavanco do
caminhão atirou-me contra ele, e então vi que guiava só com uma das mãos,
enquanto com a outra apertava a mão de Rosetta em cima do assento. E uma vez
mais me admirei de ver aquilo e não protestar, como sem dúvida o teria feito alguns
dias antes. Era esta a liberdade dele, pensei; e veio-me à idéia que não podia fazer
nada... Nossa Senhora também não fizera o milagre de impedir que os marroquinos
realizassem a sua obra nefasta mesmo junto do seu altar, assim eu agora, muito
mais fraca do que Nossa Senhora, não podia impedir Clorindo de segurar a mão de
Rosetta...
Entretanto descíamos em correria a encosta e daí a pouco rodávamos na
estrada, que eu conhecia bem, ladeada de um lado pela montanha e do outro pelos
laranjais. Lembrava-me de a ter visto, a última vez, apinhada de soldados, de
refugiados, de automóveis, de carros de assalto, e fiquei impressionada com o
silencio e a solidão que tinham sucedido àquela espécie de feira. Se não fosse o sol
e as árvores verdejantes que se inclinavam para a estrada, por cima das sebes em
flor, podia pensar-se que se estava ainda no Inverno, no pior momento da ocupação
alemã, quando O terror obrigava toda a gente a esconder-se como coelhos nas suas
tocas. Não passava ninguém ou quase ninguém, a não ser um ou outro camponês
levando à frente o seu burro; não se ouvia nenhum rumor, nem próximo nem
distante. Percorremos a grande velocidade a estrada principal e entramos em Fondi.
Também aqui reinava o deserto e o silêncio, mas muito pior, com todas aquelas
casas arruinadas, aqueles montes de entulho, aquelas poças cheias de água
estagnada. A gente que andava nas ruas cheias de buracos, ruínas e poças parecia
miserável e esfomeada, nem mais nem menos do que um mês antes sob a
ocupação alemã. Observei isto a Clorindo e ele respondeu alegremente:
“Eh! Diziam que os Ingleses traziam a abundância. Sim, trouxeram-na, mas
só nos dois ou três dias que pararam aqui. Nesses dois ou três dias distribuíram
caramelos, cigarros, farinha, roupas. Depois foram-se embora e a abundância
acabou e toda a gente ficou como antes, ou pior do que antes, pois já não têm mais
nada a esperar, nem a chegada dos Ingleses... “
Vi que ele tinha razão; era assim mesmo: os Aliados paravam um momento
com o seu exército nos lugares conquistados aos Alemães e, durante um dia ou
dois, o exército dava um pouco de vida às terras devastadas. Depois iam-se embora
e tudo voltava à mesma desolação. Disse a Clorindo:
“E que vamos nós as duas fazer agora? Não podemos ficar aqui neste ermo.
Já não possuímos nada... Temos de voltar para Roma.”
Ele, continuando a guiar por entre os destroços, respondeu:
“Roma não foi ainda libertada. É melhor por enquanto ficarem aqui.”
“Mas o que fazemos?”
Clorindo retorquiu então num tom reticente:
“De vocês as duas trato eu...”
Pareceu-me um tom estranho, mas não disse nada. Clorindo guiava o carro
para fora de Fondi e em seguida meteu por uma estrada secundária entre os
laranjais.
“Aqui, no meio destes pomares, mora uma família que eu conheço”, disse,
num tom despreocupado, “podem lá ficar enquanto Roma não for libertada. Logo
que seja possível, eu mesmo as levo a Roma neste carro. “
Mais uma vez não disse nada; ele fez o caminhão dar meia volta, parou-o,
depois desceu, explicando que tínhamos de ir a pé até casa dos seus amigos.
Seguimos por um atalho entre laranjeiras. Parecia-me conhecer aquele lugar; é
verdade que só se viam laranjeiras e o atalho era igual a tantos outros; todavia, por
alguns indícios, iria jurar que já percorrera aquele atalho, no meio daquelas
laranjeiras. Caminhamos ainda uns dez minutos e depois, repentinamente,
desembocamos numa clareira; então compreendi: diante de mim estava a casa
cor-de-rosa de Concetta, a mulher junto de quem tínhamos estado nos primeiros
dias que passamos em Fondi. Disse, resoluta:
“Eu aqui não quero ficar.”
“E porquê?”
“Porque já aqui estivemos há meses e fugimos; é uma família de ladrões e
esta Concetta queria que Rosetta andasse metida com os fascistas, como uma
prostituta.”
Ele soltou uma grande risada:
“Águas passadas não movem moinhos... hoje já não há fascistas... os filhos
de Concetta não são ladrões, são meus sócios, e podes estar tranqüila que te tratam
bem... águas passadas...”
Quis ainda insistir e afirmar de novo que não ficaria em casa de Concetta por
nada deste mundo; mas não tive tempo. No mesmo instante, Concetta saiu de casa
e correu ao nosso encontro, atravessando a clareira, jubilosa, exuberante e exaltada
como antigamente:
“Bem-vindas sejam, bem-vindas sejam! Quem é vivo sempre aparece! Ah!
vocês fugiram, foram-se embora e nem sequer disseram para onde, nem nos
pagaram o que deviam... Mas fizeram bem em fugir para a montanha; daí a pouco
tempo os meus filhos também tiveram de ir para o monte por causa dos
recrutamentos desses malditos Alemães. Fizeram bem, tiveram mais juízo do que
nós, que ficamos aqui e passamos o bom e o bonito. Sejam bem-vindas, sejam
bem-vindas, dá-me muito prazer vê-las de boa saúde. Ah! Quando há saúde, há
tudo... Venham, venham, Vincenzo e os meus filhos hão-de gostar de as ver. E,
além disso, vêm com Clorindo, é como se viessem com um filho meu. Clorindo agora
faz parte da família... Estejam à vontade, não façam cerimônia.”
Em resumo, era a mesma Concetta, e senti apertar-se-me o coração por estar
ali de novo, em piores circunstâncias do que antes, pois tínhamos fugido da casa de
Concetta justamente para evitar o perigo em que caíramos depois, sem remédio, ao
chegarmos à minha aldeia. Mas não disse nada e deixei-me beijar e abraçar por
aquela mulher odiosa, o mesmo fazendo Rosetta, que parecia agora quase um
boneco, tão apática e indiferente se mostrava. Entretanto, também Vincenzo saíra
de casa, mais pássaro de mau agouro do que nunca, magro de meter medo, o nariz
mais adunco, as sobrancelhas mais salientes e os olhos mais cintilantes do que a
última vez que o vira. E Concetta teve a coragem de dizer, enquanto ele,
resmungando qualquer coisa incompreensível, me apertava a mão:
“Vincenzo disse-me que vocês estavam lá em cima com os Festas, que as
tinha visto em Santa Eufêmia. Ah! Também para os Festas foi um mau inverno.
Primeiro não conseguimos resistir à tentação daqueles tesouros escondidos na
parede, depois o filho, o Michele... Pobrezinhos... as coisas que lhes tiramos,
restituímo-las todas, menos naturalmente as que já tinham sido vendidas, porque
somos honestos e o que pertence aos outros para nós é sagrado. Mas o filho
ninguém lho restituirá, coitados...”
Confesso, ao ouvir estas palavras tão estouvadas e tão cruéis, senti o
coração desfalecer, toda eu gelei e pus-me pálida, pálida como morta. Perguntei,
num murmúrio:
“Porquê, sucedeu alguma coisa a Michele?”
E ela, entusiasmada, como se nos desse uma grande e bela notícia:
“Mas, não sabiam? Os Alemães mataram-no!”
Estávamos no meio da eira e senti que me faltavam as forças; compreendi
pela primeira vez que gostava de Michele como de um filho; sentei-me numa cadeira
ao pé da porta e tapei a cara com as mãos. Concetta, entretanto, continuava,
excitada:
“Sim, os alemães mataram-no quando fugiam. Parece que o tinham levado
para lhes servir de guia... Assim, de montanha em montanha, chegaram a um
lugarejo isolado onde vivia uma família de camponeses e, como Michele não estava
bem certo de qual era o melhor caminho, os alemães perguntaram a esses
camponeses por onde andavam os inimigos. Queriam dizer os Ingleses, que, para
eles, de fato, eram os inimigos. Mas os camponeses, pobrezinhos, convencidos,
como todos nós, Italianos, que os inimigos eram os Alemães, responderam que
tinham fugido para Frosinone. Os alemães, ao serem tratados como inimigos,
ficaram furiosos - compreende-se, ninguém gosta de ser considerado inimigo - e
apontaram as armas contra os camponeses. Michele meteu-se de permeio, gritando:
‘Não disparem, são inocentes!’ Morreu ali mesmo, juntamente com todos os outros...
Uma família inteira massacrada... ah! sabe-se, é a guerra, uma verdadeira
carnificina, homens, mulheres e crianças, e Michele em cima do monte, com muitas
balas no peito, pois dispararam quando ele, coitado, se meteu de permeio...
Soube-se tudo isto porque uma garota se escondeu atrás de um palheiro e se
salvou; depois veio cá abaixo e contou tudo... Mas então não sabiam? Toda a gente
em Fondi fala disto. Ah! Sabe-se, a guerra é a guerra...”
Michele tinha morrido... e eu estava para ali sentada, a cara entre as mãos.
Depois senti que chorava porque tinha os olhos molhados e dei um suspiro profundo
e comecei a soluçar baixinho. Parecia-me que chorava por todos, por Michele
principalmente, a quem queria como a um filho, e também por Rosetta, que talvez
fosse melhor ter morrido como Michele, e por mim mesma, que já não tinha
quaisquer esperanças, depois de ter esperado tanto durante um ano inteiro...
Entretanto ouvia Concetta dizer:
“Chora, chora, faz-te bem. Também eu, quando os meus filhos fugiram para a
montanha, chorei não sei quanto tempo e depois senti-me melhor. Chora, chora,
tens bom coração e faz bem chorar... Michele, coitadinho, era mesmo um santo e
tão instruído que, se não o matassem, ainda um dia havia de ser ministro. É a
guerra, sabe-se, e nesta guerra todos perdemos qualquer coisa. Mas os Festas mais
do que todos. Aqueles que perderam a fortuna refazem-na, mas um filho não se
refaz... ah!... não, não se refaz... Chora, chora que te faz bem...”
Em suma, chorei um bom bocado; entretanto, ouvia os outros em volta a falar
dos seus assuntos; por fim levantei a cabeça e vi Concetta, Vincenzo e Clorindo a
discutirem a um canto da eira, não sei que porção de farinha, e Rosetta, um pouco
afastada, à espera, de pé, que eu acabasse de chorar. Olhei para ela e mais uma
vez fiquei assustada com a sua expressão, absolutamente apática e indiferente, de
olhos secos, como se não tivesse sentido nada, como se o nome de Michele não lhe
dissesse coisa alguma. Pensei que ela se tornara insensível, como quem sofre uma
queimadura na mão e depois de cicatrizada a pode pôr mesmo em cima das brasas
que não sente nada. Ao vê-la assim iria e apática, voltou-me de novo a dor pela
morte de Michele, pois sabia que ele a estimava muito e era talvez a única pessoa
neste mundo que poderia fazê-la voltar ao seu estado normal; mas Michele tinha
morrido e não havia mais nada a esperar...
Digo a verdade: naquele momento, quase mais do que a morte de Michele,
amargurou-me sobretudo a maneira como Rosetta acolheu tal notícia. Concetta
tinha razão, era a guerra e agora também nós fazíamos parte da guerra e nos
comportávamos como se a guerra, e não a paz, fosse a condição normal do homem.
Por fim levantei-me e Clorindo disse:
“Vamos então ver como ficam aqui instaladas.”
Seguimos Concetta até a barraca do feno já nossa conhecida. Desta vez,
porém, não havia feno lá dentro, mas sim três camas com colchões e cobertores.
Concetta explicou:
“São as camas daquele desgraçado da estalagem de Fondi. Pobre homem,
levaram-lhe tudo, a estalagem ficou vazia, não há lá nada dentro, até os vasos de
noite lhe tiraram... Nós, com estas camas, ainda fazemos algum dinheiro durante o
inverno. Refugiados que iam e vinham, sem nada, como ciganos, pobre gente,
pagavam um tanto por noite e assim arranjamos uns cobres... Os proprietários não
estão cá, fugiram; uns dizem que foram para Roma, outros, que estão em Nápoles.
Quando voltarem, damos-lhes as camas, claro, somos pessoas honestas...
entretanto, vamos fazendo algum dinheiro... Ah! Sabe-se, a guerra é a guerra...”
Clorindo disse nessa altura:
“Mas estas duas senhoras não pagam nada.”
E ela, entusiasmada:
“Pois, certamente, quem lhes ia pedir dinheiro? Somos todos uma família...”
Clorindo acrescentou:
“E dás-lhes também de comer, depois fazemos contas.”
E ela:
“De comer, pois decerto, coisas simples, comida do campo...”
Em suma, daí a pouco foram-se embora e eu fechei a porta da barraca e,
quase no escuro, sentei-me numa das camas, ao lado de Rosetta. Estivemos
caladas algum tempo; depois explodi com violência:
“Mas que tens tu? Pode saber-se? Não tens pena que Michele tenha morrido,
dize, não tens pena? No entanto gostavas dele.”
Não podia ver-lhe o rosto, porque ela tinha a cabeça inclinada e também
porque estávamos quase às escuras. Ouvi-a responder:
“Sim, tenho pena.”
“E dizes isso com esse modo?”
“Como hei de dizê-lo?”
“Mas que se passa contigo, fala, nem sequer deitaste uma lágrima por aquele
pobrezinho, que morreu para defender gente pobre como nós. Que morreu mesmo
como um santo...”
Ela não respondeu; eu, então, tomada não sei de que frenesi, sacudi-a por
um braço, repetindo:
“Mas o que tens, pode saber-se o que tens?”
Ela libertou-se sem pressa e disse, lentamente, lacônica:
“Mamã, deixa-me tranqüila.”
Desta vez não lhe disse mais nada e fiquei um momento imóvel, de olhos
arregalados, olhando na minha frente. Ela, então, levantou-se, foi para a sua cama e
deitou-se, voltando-me as costas. Deitei-me também e adormeci.
Quando acordei, era noite fechada e Rosetta não estava na cama ao lado.
Durante um bocado fiquei imóvel, estendida de costas, incapaz de me levantar e de
fazer fosse o que fosse, não tanto por cansaço, mas por falta de vontade. Depois,
através das paredes da barraca, ouvi Concetta, que falava com alguém na eira;
arranjei coragem, levantei-me e saí. Concetta tinha posto a mesa ao ar livre, perto
da porta, e já lá estava o marido, mas Rosetta e Clorindo não os vi. Aproximei me e
perguntei:
“Onde está Rosetta? Viram-na?”
Concetta respondeu:
“Julgava que soubesses, saiu com Clorindo...”
“O que dizes?!...”
E ela:
“Sim, Clorindo foi com o carro levar uns refugiados a Lenola. E levou Rosetta
para não fazer sozinho a viagem do regresso. Devem estar de volta amanhã à
tarde.”
Eu fiquei para morrer. Rosetta nunca teria feito coisa semelhante noutros
tempos: ir-se embora assim, sem me dizer nada, e ainda por cima acompanhada por
esse Clorindo... Insisti, quase incrédula:
“Mas não deixou nenhum recado?”
“Nada. Disse apenas que te avisasse. Não quis acordar-te, é boa filha... E
depois, claro, a juventude, está na idade, gosta de Clorindo e quer estar sozinha
com ele. Nós, as mães, a partir de certa altura, somos um estorvo para os filhos.
Também os meus saem de casa para estar sozinhos com as raparigas. E Clorindo é
um rapaz bem parecido, ele e Rosetta fazem um lindo par.”
Não me contive:
“Se certas coisas não tivessem sucedido, ela não olhava para esse Clorindo.”
Mal pronunciei estas palavras, logo me arrependi de as ter dito, mas já era
demasiado tarde, porque aquela bruxa me saltou em cima, perguntando:
”Mas o que sucedeu? Achei estranho que Rosetta fosse com ele, assim, sem
pensar, mas não fiz caso, claro, a juventude... Mas, dize-me, o que sucedeu?”
Não sei porque, um pouco devido à raiva que me causava o procedimento de
Rosetta, um pouco para desabafar o meu desgosto com alguém, fosse quem fosse,
até mesmo com Concetta, não resisti e contei tudo: a igreja, os marroquinos e o que
nos tinham feito às duas. Concetta ia servindo a sopa e repetia:
“Pobrezinha... pobre Rosetta... como me entristece...”
Depois sentou-se e, quando acabei, comentou:
“Sabe-se, é a guerra... E os marroquinos, no fim de contas, também são
rapazes e, ao verem a tua filha tão nova e tão bonita, não resistiram, cederam à
tentação... Sabe-se, é...”
Mas não a deixei acabar, de repente, saltei como uma fúria, com uma faca na
mão, e gritei:
“Não sabes o que tudo isto significou para Rosetta! Tu és uma cabra e filha de
outra que tal e queres que todas as mulheres sejam como tu. Mas se tornas a falar
de Rosetta dessa maneira, mato-te, palavra, tão certo como Deus existir!”
Ela, ao ver-me assim enfurecida, deu um salto para trás e depois, juntando as
mãos:
“Jesus, porque te zangas tanto? Que disse eu, no fim de contas? Que a
guerra é a guerra e a juventude é a juventude, os marroquinos também são
rapazes... Mas não te zangues, Clorindo agora olhará por Rosetta, e enquanto ele
olhar por ela verás que não lhe falta nada... Clorindo negocia no mercado negro, tem
tudo o que quer, comida e vestidos, meias, sapatos, está tranqüila... Com ele
Rosetta não tem nada a recear.”
Compreendi que era tempo perdido zangar-me com aquela mulher. Pousei a
faca e comi um pouco de sopa sem dizer palavra. Mas naquela noite a comida
parecia me veneno: Rosetta não me saia do pensamento, como ela era antigamente
e no que se tornara agora. Fora com Clorindo, como qualquer prostituta vai com o
primeiro homem que lhe aparece, e nem sequer me avisara e talvez mesmo nem
quisesse mais viver comigo. A ceia acabou em silêncio, depois retirei-me para a
barraca e estendi-me na cama, mas sem poder dormir: e ali fiquei de olhos
arregalados, o ouvido à escuta e todo o corpo crispado não sei por que fúria.
No dia seguinte Rosetta não voltou e todo ele o passei impaciente, andando
pelos laranjais e aproximando-me de vez em quando da estrada principal a ver se
ela chegava. Comi com Vincenzo e a mulher, que procurava confortar-me, sempre
no mesmo tom exaltado e estúpido, repetindo que, com Clorindo, Rosetta estava
bem e daí em diante não lhe faltaria nada. Eu não respondia, sabia que não merecia
a pena e, além disso, nem vontade tinha de me zangar. Depois da ceia fui fechar-me
na barraca e por fim adormeci.
Por volta da meia-noite senti a porta abrir-se devagarinho: abri os olhos e à
luz do luar vi Rosetta, que entrava em bicos de pés. Caminhou às escuras até a
mesinha de cabeceira que ficava entre as nossas duas camas e, dai a pouco,
acendeu a vela: fechei os olhos, fingindo que dormia. Depois entreabri-os. Rosetta
estava de pé diante de mim e, à luz da vela, pude vê-la toda vestida de novo, como
Concetta previra. Trazia um fato de saia e casaco, de tecido fino, vermelho, uma
blusa branca, sapatos pretos, brilhantes, de salto alto, e também meias. Despiu
primeiro o casaco e, depois de lhe lançar um longo olhar, pô-lo em cima da cadeira,
aos pés da cama. Em seguida tirou a saia, que pôs ao lado do casaco. Ficou em
combinação, uma combinação preta, de renda, daquelas que deixam ver aqui e
além, pelos buracos, a carne branca: depois sentou-se e tirou os sapatos, que olhou
demoradamente, mirando-os bem à luz da vela antes de os pôr, ao lado um do
outro, debaixo da cama. A seguir tirou a combinação, despindo-a pela cabeça. E
então, enquanto se esforçava por tirá-la, de pé, contorcendo o tronco e as pernas, vi
que trazia também uma cinta preta que lhe apertava as ancas, com várias fitas a
segurarem as meias. Rosetta nunca usara cinta para prender as meias, nem preta
nem de outra cor: habitualmente usava ligas um pouco acima dos joelhos, e aquela
cinta transformava-a por completo: o seu corpo não parecia já o mesmo, parecia
outro. Antes era um corpo são e jovem, forte e limpo, próprio da rapariga inocente
que era: agora, ao contrário, por causa daquela cinta muito justa e preta, tinha um
não sei quê de provocante e vicioso: as coxas pareciam demasiado brancas, as
nádegas demasiado redondas, o ventre demasiado saliente. Não era, em suma, o
corpo da Rosetta que fora até aí a minha filha: era, sim, o corpo da Rosetta que
andava com o Clorindo. Levantei os olhos para o rosto e vi que também este
mudara. A luz da vela batia-lhe em cheio e Rosetta, de repente, fez-me pensar, pela
expressão ávida, absorta e matreira, numa mulher de má vida que, depois de andar
horas e horas nas ruas e nos quartos de aluguel, volta a casa, noite alta, e faz
contas aos ganhos do dia. Desta vez não me contive e exclamei, com voz forte:
“Rosetta!”
Ela ergueu logo os olhos para mim, depois pronunciou lentamente e quase de
má vontade:
“Mamã?”
Disse-lhe então:
“Onde foste? Estive em cuidados durante três dias. Porque não me avisaste?”
“Onde estiveste?” Ela olhava para mim e por fim respondeu: “Fui com o
Clorindo, mas voltei...”
Eu tinha me sentado na cama e insisti:
“Mas, Rosetta, o que te aconteceu? Já não és a mesma...”
Ela retorquiu, baixinho:
“E no entanto sou a mesma... porque havia de ter mudado?...”
Pronunciei, amargurada:
“Mas, minha filha, esse Clorindo, quem o conhece? O que andas a fazer com
ele?”
Desta vez não me respondeu. Estava sentada, de olhos baixos, mas por ela
falava o corpo, agora nu, só com o pára seios e a cinta, tão diferente do que era
outrora.
Então perdi a paciência, levantei-me da cama, agarrei-a pelos ombros e
sacudi-a, gritando:
“Mas tu queres fazer-me perder a cabeça com o teu silêncio?! Sei que não me
respondes porque te portas como uma mulher perdida e és amante do Clorindo...
não dizes nada porque já não te importas com a tua mãe e queres continuar a
mesma vida quando te parecer.”
Ela não rugia nem mugia e eu continuava a sacudi-la; então perdi de todo a
cabeça e berrei:
“Mas, ao menos, vais tirar isto!”
E tentei arrancar-lhe a cinta. Ela ainda desta vez não se mexeu nem
protestou, continuou imóvel, de cabeça baixa, quase enroscada a mim: e puxei-lhe a
cinta, mas não fui capaz de lha tirar, era muito forte: então empurrei a para cima da
cama, ela caiu de bruços, a cara sobre a coberta, e dei-lhe duas grandes palmadas
nas nádegas: depois atirei-me para a minha cama, arfando, e gritei:
“Mas não percebes que te tornaste uma reles prostituta?”
Esperava, nem sei porquê, que ela desta vez protestasse. Mas não protestou,
levantou-se da cama e dir-se-ia preocupada somente com as meias, que eu, ao
tentar arrancar-lhe a cinta, esticara demasiado. De fato, a uma delas tinham caído
algumas malhas, de cima até ao joelho: vi-a meter um dedo na boca, molhá-lo de
saliva, inclinar-se e umedecer as malhas para não se romperem mais. Depois
disse-me num tom razoável:
“Porque não dormes mamã?... Já é muito tarde.”
Compreendi que não havia nada a fazer e, num ímpeto, estendi-me na cama
e voltei-lhe as costas. Senti-a mexer-se ainda durante algum tempo e podia ver a
sua sombra que a luz da vela projetava na parede na minha frente, mas não me
voltei. Por fim ela apagou a luz, ficamos às escuras e ouvi a sua cama ranger, ao
aninhar-se, procurando a melhor posição para dormir.
Agora queria dizer-lhe muitas coisas que, enquanto havia luz e a podia ver,
não fora capaz de dizer, tal a raiva que me inspirava vê-la assim mudada. Queria
dizer-lhe que a compreendia: compreendia que, depois daquilo que sucedera com
os marroquinos, ela não fosse já a mesma e quisesse ter um homem para se sentir
mulher e apagar assim a recordação do que lhe tinham feito; compreendia também
que depois de ter sofrido o que sofreu, mesmo à vista de Nossa Senhora, sem que
ela fizesse fosse o que fosse para o impedir, já não acreditasse em nada, nem
mesmo na religião. Queria dizer-lhe tudo isto e talvez tomá-la nos braços e beijá-la e
acarinhá-la e chorar com ela. Mas, ao mesmo tempo, sentia que já não era capaz de
lhe falar e de ser sincera, porque ela tinha mudado e, ao mudar, mudara-me a mim
também, e assim entre nós as duas tudo mudara... Em suma, depois de ter pensado
muitas vezes em levantar-me e ir deitar-me ao seu lado para a abraçar muito e
muito, renunciou e acabei por adormecer.
No dia seguinte e nos outros foi sempre a mesma música. Rosetta quase não
me falava, não porque estivesse ofendida, mas porque não tinha nada a dizer-me.
Clorindo estava sempre ao pé dela e não se envergonhava de a apalpar na minha
frente prendendo-a pela cintura ou acariciando-lhe a face, e Rosetta consentia tudo,
com ar de submissão complacente, quase reconhecida. Concetta exclamava
constantemente, juntando as mãos, que faziam na verdade um lindo par, e eu, cá
por dentro, moia-me cheia de raiva e desespero, mas não podia fazer nem dizer
nada, não era capaz.
Um dia experimentei lembrar-lhe o noivo, que estava na Iugoslávia: sabem o
que me respondeu? “Ora, também ele encontrou com certeza alguma eslava e de
resto não vou esperá-lo toda a vida.” Aliás, pouco tempo parava na casa
cor-de-rosa. Clorindo levava-a sempre no caminhão, que se tornara, por assim dizer,
a verdadeira casa deles. E era ver como ela obedecia e corria ao seu encontro.
Bastava que Clorindo chegasse ao terreiro e a chamasse, para deixar tudo
imediatamente e ir ter com ele. E não a chamava com a voz, mas com um assobio,
como se faz aos cães, e parece que ela gostava de ser tratada como um cão: via-se
a uma légua de distância que era atraída para ele por algo que ela nunca antes
experimentara, essa novidade de que já não podia prescindir, como um bêbado não
pode passar sem vinho e um fumador sem cigarros. Sim, tomara o gosto àquilo que
os marroquinos lhe tinham imposto pela força; e era esse talvez o aspecto mais
triste da sua mudança, ao qual eu não podia resignar-me: que a sua revolta contra a
força que a violentara se exprimisse em aceitar e procurar essa força, e não em
repeli-la e recusá-la.
Ela e Clorindo iam no caminhão a Fondi e às aldeias em redor de Fondi, e
algumas vezes até Frosinone ou Terracina ou mesmo até Nápoles, e então ficavam
fora de noite; quando voltava, parecia-me ainda mais ligada a Clorindo, e aos meus
olhos, que lhe notavam a mínima mudança, ainda mais prostituta. Naturalmente não
se falava já em ir para Roma, onde de resto os Aliados ainda não tinham chegado.
Clorindo, entretanto, dava a entender que, mesmo depois de os Aliados tomarem
Roma, isso não significava que abandonássemos logo Fondi: Roma não seria
acessível durante muito tempo, seria declarada zona militar, e para entrar lá iam ser
necessárias não sei quantas licenças e quem sabe como e quando se poderiam
obter. Em suma, aquele futuro que no momento da libertação me parecia tão claro e
luminoso, agora, devido ao procedimento de Rosetta, por um lado, e à presença de
Clorindo, por outro, obscurecera-se de tal maneira que eu própria já não sabia
verdadeiramente se desejava voltar a Roma e retomar a nossa antiga vida, que
estava certa, não seria a mesma, uma vez que nós também deixáramos de ser como
éramos. Aqueles dias que passei na casita cor-de-rosa, no meio dos laranjais, foram
os mais tristes de todo aquele período, pois Rosetta andava sempre enrolada com
Clorindo; o que eles faziam, não o adivinhava somente, via-o com os meus próprios
olhos, pois faziam-no por assim dizer na minha frente. Às vezes, por exemplo,
estávamos já na cama e eis que ouvia, no terreiro, o assobio do costume; Rosetta
levantava-se imediatamente, enquanto eu, furiosa, perguntava:
“Mas onde vais a esta hora, pode saber-se?...”
Ela nem sequer me respondia, vestia-se à pressa e saía a correr, sempre com
a mesma expressão tensa, ávida e absorta que lhe vi a primeira vez quando
regressou de Lenola e me fizera compreender definitivamente que já não era a
mesma de outro tempo. Uma noite, julgo que Clorindo até esteve na barraca, pelo
menos estou quase certa disso, porque fui acordada pelo ranger da cama de
Rosetta e um leve cochichar; sentei-me no leito, à escuta, de ouvido atento, e
perguntei a Rosetta, no escuro, se dormia: ela, numa voz aborrecida, respondeu:
“Claro que estou a dormir, que querias que estivesse a fazer? Agora
acordaste-me...”
Deitei-me pouco convencida e creio que eles ficaram quietos e mudos até se
persuadirem de que eu adormecera novamente; depois Clorindo saiu,
sorrateiramente, um pouco antes da alvorada. Mas dessa vez não quis acender a
vela: no fundo, preferia não os ver juntos na cama; e, quando ele saiu, aos primeiros
alvores da manhã, como disse, embora não estivesse a dormir, fingi que estava e
conservei os olhos tão fechados que só o senti pelo leve ranger da porta ao abrir-se
e depois fechar-se. A maior parte das vezes, porém, iam os dois sabe-se lá para
onde, partindo na caminhoneta logo depois da ceia e voltando para casa alta noite.
Isto acontecia quase todos os dias; era um amor puramente físico, que nunca se
saciava; ele andava sempre com grandes olheiras negras e até parecia mais magro;
Rosetta, por seu turno, tornava-se, visivelmente, cada dia mais mulher, com aquele
não sei quê de lânguido e satisfeito que têm as mulheres quando andam bem fartas
e regaladas com o homem que lhes agrada e a quem agradam.
Depois de um mês desta vida, comecei a procurar conforto na idéia de que,
apesar de tudo, Clorindo era um belo rapaz, ganhava bem com a sua caminhoneta e
o mercado negro e, enfim, podia casar com Rosetta e tudo ficaria em ordem. Esta
idéia não me agradava muito, pois não simpatizava com Clorindo, mas, em suma,
como se costuma dizer, tinha de fazer boa cara à má fortuna; além disso, não era eu
que casava com ele, mas sim Rosetta; e se ele lhe agradava, não havia nada a
fazer. Pensava que casariam, iriam viver para Frosinone, onde Clorindo tinha a
família, teriam filhos, e talvez Rosetta fosse feliz. Esta perspectiva confortou-me um
pouco; mas continuava inquieta porque Clorindo não falava de matrimônio, nem
mesmo Rosetta. Assim, uma noite, depois da ceia, na barraca, enchi-me de
coragem e disse-lhe:
“Bem, não sei nem quero saber o que vocês fazem ou não fazem quando
estão juntos, mas quero pelo menos saber se ele tem intenções sérias a teu respeito
e, se as tem, como espero, quando pensa casar contigo.”
Ela estava sentada na cama, diante de mim, atenta a tirar os sapatos.
Levantou-se, olhou-me e depois disse simplesmente:
“Mas, mamã, Clorindo já é casado, tem mulher e dois filhos em Frosinone... “
Confesso que, ao ouvir esta resposta, me subiu o sangue à cabeça; apesar
de tudo, sou da Ciociaria e nós, os desses sítios, temos o sangue quente e por
pouca coisa somos até capazes de dar uma facada. Então, sem sequer me
aperceber do que fazia, saltei da cama, fui-me a ela, agarrei-a pelo pescoço, atirei-a
para cima do colchão e comecei a esbofeteá-la. Ela procurava proteger-se como
podia e eu continuava a bater-lhe e berrava:
“Eu mato-te!... Tu queres ser puta, mas eu mato-te!...”
Com os braços, Rosetta procurava defender-se das minhas pancadas, mas
não protestava nem reagia de maneira nenhuma; por fim faltou-me o fôlego e
deixei-a: ela não se mexeu, ficou como estava, enrodilhada em cima da cama, o
rosto enterrado na almofada, e não se sabia se chorava, se pensava, ou o que fazia.
Eu olhava-a fixamente, sentada na minha cama, ainda ofegante, sentindo dentro de
mim um desespero indescritível: compreendi que podia até matá-la, mas não serviria
de nada; agora era impotente, já não tinha nenhuma autoridade sobre ela...
fugira-me para sempre... Por fim disse, cheia de raiva:
“Vou falar com esse patife do Clorindo. Sempre quero ver o seu
descaramento e o que vai responder-me.”
A estas palavras, Rosetta levantou-se e vi-lhe os olhos enxutos e o rosto,
como de costume, apático e indiferente. Disse-me tranqüilamente:
“Não verás Clorindo porque voltou para a família. Não tinha mais nada a fazer
em Fondi. Foi para Frosinone e despedimo-nos esta noite. Não o tornarei a ver, o
sogro ameaçou-o de lhe tirar a filha e, como é a mulher que tem os cobres, não teve
outro remédio senão obedecer...”
Fiquei mais uma vez sem fôlego, pois, confesso, não esperava tal. Sobretudo
não esperava que ela me anunciasse com tamanha indiferença que se tinha
separado de Clorindo, como se o caso não lhe dissesse respeito. No fim de contas,
fora esse o primeiro homem que passara na sua vida: cá bem no íntimo, sempre
supus que se amassem realmente; no entanto, não era verdade, tinham andado um
com o outro como um homem anda com uma prostituta qualquer: ele paga, ela
recebe o dinheiro, e não têm mais nada a dizer e separam-se sem saudades, como
se nunca se tivessem visto nem conhecido, Ah! Na verdade, Rosetta mudara
mesmo, não pude deixar de repeti-lo a mim própria, mais uma vez, mas eu,
habituada a considerá-la a minha Rosetta de outros tempos, nunca chegaria a
compreender até que ponto ela estava mudada! Estupefata, comentei:
“Então foste sua amante e ele agora deixa-te e vai se embora e dizes-me isso
dessa maneira!”
Ela respondeu:
“Como querias que o dissesse?”
Fiz um movimento de raiva e ela teve um gesto de medo, como se receasse
que eu lhe batesse novamente; e também isso me amargurou, porque uma mãe não
gosta de ser temida, mas sim amada. disse-lhe:
“Está tranqüila, não te tocarei mais... mas parte-se me o coração por te ver
chegar ao que chegaste.”
Ela desta vez não respondeu e continuou a despir-se. Então, de súbito, gritei,
numa voz exasperada:
“E agora quem nos leva para Roma? Clorindo dizia que nos levava quando
Roma fosse libertada pelos Aliados, Roma foi libertada, Clorindo desapareceu, e
agora quem nos leva para lá? Amanhã, seja como for, volto para Roma, nem que vá
a pé.”
Ela respondeu calmamente:
“Para Roma não se pode ir por estes dias, mas, de qualquer modo, um dos
filhos de Concetta leva-nos para Roma, logo que lá se possa entrar. Não aqui
amanhã à noite, pois foram acompanhar Clorindo a Frosinone: a sociedade
desfez-se e eles ficaram com o caminhão. Está tranqüila que voltaremos para
Roma.”
Esta notícia também não me deu prazer, Até então não pusera ainda a vista
nos filhos de Concetta, empenhados, ao que supunha, nos negócios do mercado
negro em Nápoles: mas lembrava-me muito bem deles, mais antipáticos ainda do
que Clorindo, se era possível, e a idéia de fazer a viagem para Roma na sua
companhia não me agradava. Disse:
“A ti já nada te importa, não é assim?”
Ela olhou-me, depois perguntou:
“Mamã, porque me atormentas tanto?”
Havia na sua voz como que um reflexo do antigo afeto. Volvi-lhe, comovida:
“Querida filha, tenho a impressão de que mudaste e não sentes nada por
ninguém, nem mesmo por mim.”
E ela:
“Estarei mudada, não o nego, mas para ti sou sempre a mesma.”
Assim ela reconhecia que estava mudada, mas ao mesmo tempo
tranqüilizava-me, dando-me a entender que me queria bem como antes. Sem saber
se devia entristecer-me ou consolar-me, fiquei calada, e a discussão acabou ali. No
dia seguinte, como Rosetta me anunciara, chegou o caminhão de Frosinone, mas só
com um dos filhos de Concetta, Rosário: o outro prosseguiria nos negócios em
Nápoles. Dos dois, ambos antipáticos, como já disse, Rosário era aquele que me
desagradava mais. Não muito alto, atarracado e forte, com cara de bruto, quadrada
e escura, testa baixa, os cabelos chegando-lhe quase até os olhos, o nariz curto e o
maxilar saliente, era mesmo aquilo que em Roma se chama um labrego, ou seja, um
homem rústico, um vadio do campo, que ainda por cima não era bom nem
inteligente. À mesa, no mesmo dia em que chegou, ele, que nunca dizia nada,
tornou-se quase loquaz.
Disse a Rosetta:
“Trago-te cumprimentos do Clorindo: irá ver-te a Roma, quando lá estiveres.”
Rosetta respondeu, secamente, sem levantar os olhos:
“Dize-lhe que não vá, não o quero ver mais.”
Compreendi então pela primeira vez que toda aquela indiferença de Rosetta
era fingida: ela sentira e talvez sentisse ainda qualquer coisa por Clorindo. É
estranho, mas o fato de ela sofrer por causa daquele homem tão desprezível
aborreceu me ainda mais do que a idéia de não querer saber dele para nada.
Rosário perguntou:
“Porquê? Que mal te fez ele? Já não te agrada?”
Eu irritava-me por ver Rosário falar a Rosetta sem respeito nem amabilidade,
como quem fala a uma prostituta, que não tem o direito de protestar nem de se
indignar: e irritei me ainda mais quando Rosetta respondeu:
“Clorindo fez-me uma coisa que não devia ter feito. Nunca me disse que era
casado,.Só o soube ontem, quando decidimos separar-nos. Enquanto lhe fez jeito,
ocultou-o: logo que lhe conveio dizê-lo, disse-o.”
Agora era sina minha não compreender nenhuma das reações de Rosetta e
fiquei uma vez mais apalermada, dolorosamente confundida; assim, ela soubera só
no último momento que Clorindo tinha mulher e filhos e falava naquele tom, como de
um despeito sem importância, próprio de uma prostituta sem orgulho nem dignidade
que sabe que não pode fazer-se valer perante o homem que ama. Fiquei sem
fôlego: entretanto Rosário, com um risinho zombeteiro, observou:
“E porque havia de dizer-lhe? Naturalmente vocês iam casar, não?”
Rosetta baixou a cabeça para o prato e não respondeu. Mas aquela bruxa da
Concetta saltou logo:
“Idéias de outros tempos... Com a guerra, sabe-se, tudo mudou, os rapazes
fazem a corte às raparigas sem lhes dizerem se são casados ou não e as raparigas
andam com os rapazes sem lhes pedirem que casem com elas. Idéias de outros
tempos... tudo mudou... que importa que se seja casado ou não, que se tenham
filhos e mulher ou não? Idéias de outros tempos... O importante é quererem-se bem
e Clorindo gostava de Rosetta... bastava ver como a trazia vestida: antes de se
encontrarem parecia uma cigana e agora parece uma senhora.”
Com estas palavras, Concetta, sempre pronta a defender os malandros, pois
no fundo era igual a eles, dizia uma grande verdade: a guerra mudara tudo e eu
tinha a prova disso diante dos meus olhos, na minha própria filha, que sempre fora
anjo de pureza e bondade e agora se tornara uma prostituta insensível e sem
vergonha. Tudo isto eu sabia que era verdade; no entanto, o que via e ouvia
confrangia-me da mesma forma o coração; por isso saltei contra Concetta:
“Tudo mudou, uma gaita! Vocês é que estavam todos à espera da guerra, tu e
os teus filhos, e esse malvado do Clorindo. Esses assassinos dos marroquinos, em
suma, todos quantos queriam dar largas aos seus instintos e fazer o que em tempos
normais nunca teriam a coragem de fazer. Mas eu digo-te que isto não durará muito
tempo e um dia tudo volta a entrar nos eixos, e então tu e os teus filhos e esse
Clorindo hão-de ficar em maus lençóis, muito maus mesmo, ao perceberem que
ainda há moral, religião e leis e que as pessoas honestas valem mais do que os
canalhas.”
Ao ouvir-me falar assim, Vincenzo, meio palerma, ele que tinha roubado os
Festas, abanou a cabeça, dizendo:
“Palavras de ouro!”
Mas Concetta encolheu os ombros e disse:
“Porque te zangas tanto? O que é preciso é viver e deixar viver...”
Rosário, esse, pôs-se a rir e comentou:
“Tu, Cesira, és uma mulher de antes da guerra, e nós, meu irmão, eu,
Rosetta, minha mãe e Clorindo, somos gente do pós-guerra. Por exemplo, olha: fui a
Nápoles com um carregamento de conservas americanas e peúgas de militares,
vendi logo tudo, tornei a carregar o caminhão com coisas para vender na Ciociaria e
eis o resultado...”
Dizendo isto, tirou um maço de notas de banco e abanou-o diante do meu
nariz.
“Ganhei mais num dia do que o meu pai nos últimos cinco anos. Tudo mudou,
agora já não estamos no tempo em que Berta fiava, deves convencer-te disso! E,
depois, porque te ralas tanto com Rosetta? Ela também compreendeu que a
linguagem que se falava antes da guerra não é a mesma de hoje e pôs-se em dia,
aprendeu a viver. A ti talvez nunca te tenha agradado muito o amor, e ensinaram-te
que, sem o padre a abençoá-lo, o amor não é amor, ou, antes, não se pode amar.
Mas Rosetta, essa, sabe que, com padre ou sem padre, o amor é sempre amor...
Não é verdade, Rosetta?... Vá, dize à tua mãe o que sabes.”
Eu estava pasmada. Mas Rosetta continuava calma e serena, quase parecia
gostar daquela maneira de falar de Rosário, que continuou:
“Por exemplo, há tempos estivemos em Nápoles todos juntos, Rosetta,
Clorindo, meu irmão e eu, como amigos, sem ciúmes e sem complicações. E,
embora entre nós estivesse Rosetta e Rosetta agradasse a todos, Clorindo, meu
irmão e eu ficamos amigos como antes. E divertimo-nos os quatro, não é verdade,
Rosetta, que nos divertimos?”
Toda eu tremia como varas verdes, porque compreendia agora que Rosetta
não só fora amante de Clorindo, o que já era mau, mas também servira para distrair
todo o bando, e talvez se tivesse entregado não só a Clorindo, como já sabia, e a
Rosário, como ficara agora a saber, mas também ao outro filho de Concetta e talvez
até a qualquer meliante napolitano, desses que vivem à custa de mulheres e as
trocam entre si como mercadorias. Rosetta passara a ser uma pobre desgraçada a
quem os homens faziam o que queriam, porque, no momento em que fora violada
pelos marroquinos, a sua vontade se estilhaçara e, ao mesmo tempo, qualquer coisa
que ela até então ignorara-lhe tinha entrado na carne, como um fogo que a
queimava, fazendo-a desejar ser tratada por todos os homens que encontrava da
mesma maneira como a tinham tratado os marroquinos.
Rosário, entretanto, como a ceia terminara, levantou-se e, apertando o cinto,
disse:
“Bem, vou dar uma volta no caminhão. Rosetta, queres vir comigo?”
Vi Rosetta fazer um aceno de concordância, pousar o guardanapo na mesa e
preparar-se para se levantar, com aquela cara ávida e concupiscente que lhe notara
à luz da vela, no primeiro dia em que se escapara com Clorindo. Movida não sei por
que impulso, ordenei:
“Proíbo-te que te levantes, não sais daqui!”
Houve um momento de silêncio, Rosário olhava-me com fingida admiração,
como se dissesse: “Mas o que se passa? O mundo está às avessas?” Depois,
dirigindo-se a Rosetta, ordenou:
“Então, vamos, despacha-te!”
Eu disse ainda, não já em tom de mando, mas de pedido:
“Rosetta, não vás.”
Mas ela já se tinha levantado e respondeu-me:
“Mamã, até logo...”
Em seguida, sem se voltar, juntou-se a Rosário, que se afastava muito senhor
de si, enfiou-lhe a mão no braço e desapareceu com ele nos laranjais. Assim,
Rosetta obedecera a Rosário de olhos fechados, como antes obedecia a Clorindo, e
ele levava-a para qualquer prado e eu não podia fazer nada. Concetta exclamou:
“Sabe-se, as mães têm o direito de proibir o que quiserem às filhas... Porque
não haviam de ter?... Mas também as filhas têm o direito de andar com o homem
que lhes agrada, porque não?... Claro, as mães nunca estão de acordo com os
homens que agradam às filhas, mas a juventude tem os seus direitos e nós, as
mães, temos de compreender e perdoar e compreender...”
Eu desta vez não disse nada, fiquei de cabeça baixa, como uma flor murcha,
o rosto banhado pela luz do acetilene, em volta do qual as borboletas voavam e de
vez em quando caíam mortas, queimadas pela chama. E pensava que a minha
pobre Rosetta era mesmo parecida com essas borboletazinhas: a chama da guerra
queimara-a e ela estava morta, pelo menos para mim...
Naquela noite Rosetta voltou muito tarde e eu nem sequer a senti quando
entrou. Mas, antes de adormecer, pensara nela durante muito tempo e no que lhe
acontecera e no que se tornara: depois, é estranho dizê-lo, o meu pensamento
fixou-se em Michele, e em todo o resto da vigília não pensei senão nele. Não tinha
tido ainda coragem de ir fazer uma visita aos Festas para lhes dizer quanto me
amargurara a morte do filho, tanto que era como se me tivesse morrido um filho,
nascido do meu ventre. Mas, da mesma forma, em todo esse tempo, a sua morte,
tão cruel e injusta, ficara-me cravada no coração como um espinho, Era a guerra,
dizia Concetta... E a guerra atinge justamente os melhores, porque são os mais
corajosos, os mais altruístas, os mais honestos: uns morrem como o pobre Michele,
outros ficam estropiados para toda a vida como a minha Rosetta. E, ao contrário, os
piores, os que não tem coragem, nem fé, nem religião, nem orgulho, os que roubam
e matam e pensam só em si e tratam apenas dos seus interesses, esses salvam-se
e prosperam e tornam-se ainda mais descarados e canalhas do que eram antes.
Se Michele não tivesse morrido, pensava, decerto me daria algum bom
conselho e eu não teria saído de Fondi para a minha aldeia e não teríamos
encontrado os marroquinos e Rosetta continuaria a ser o anjo de bondade e pureza
que sempre fora. E dizia de mim para mim que a sua morte fora mesmo uma
desgraça, porque ele fora tudo para nós as duas, um pai, um marido, um irmão e um
filho e, embora fosse bom como um santo, quando era necessário sabia ser duro e
sem piedade para os patifes do gênero do Rosário e Clorindo. E possuía uma força
que a mim me faltava, pois era não só bom, como também instruído, e sabia muitas
coisas e julgava do alto os fatos da vida, e não terra a terra como eu, que era uma
pobre ignorante que mal sabia ler e escrever e até agora tinha vivido sempre só para
o negócio, entre a casa e a loja, sem querer saber de mais nada.
De repente, não sei como nasceu em mim um desespero e um frenesi
indescritível; e de súbito decidi que não queria viver mais num mundo como este, no
qual os homens bons e as mulheres honestas não contam e os tratantes é que dão
leis; pensei que para mim, com Rosetta naquele estado, a vida já não tinha sentido,
e mesmo em Roma, com a casa e a loja, não tornaria a ser eu nem teria gosto de
continuar a viver. Assim, valia mais morrer... E saltei da cama e, com as mãos a
tremer de impaciência, acendi a vela e fui ao fundo do quarto buscar uma corda que
estava lá pendurada num prego e de que Concetta se servia para estender a roupa
a enxugar, depois da barrela. Naquele canto da barraca havia uma cadeira de palha:
pus-me em cima dela, com a corda na mão, resolvida a prendê-la em qualquer
prego ou trave do teto e depois atá-la ao pescoço, dar um pontapé na cadeira e
deixar-me cair, acabando de vez. Mas, quando, já com a corda na mão, levantei os
olhos para o teto em busca de uma trave onde a prendesse, eis que sinto, atrás de
mim, a porta abrir-se devagarinho. Voltei-me e vi Michele na soleira, ele em pessoa.
Estava tal qual como o vira a última vez, quando os nazis o levaram, e notei que,
como então, tinha uma perna das calças mais comprida, a roçar no sapato, e a outra
mais curta, chegando-lhe apenas ao artelho. Trazia óculos, como sempre, e para me
ver melhor, baixou a cabeça e olhou-me por cima dos óculos, como fazia em vida.
Ao ver-me assim de pé em cima de uma cadeira, com uma corda na mão, fez
imediatamente um gesto, como se dissesse: “Não, não faças isso, não deve; fazê-
lo.”
Eu perguntei:
“E porque não devo fazê-lo?”
Michele abriu a boca e disse qualquer coisa que não entendi: depois
continuou a falar e eu procurava ouvi-lo, mas não ouvia nada, era mesmo como
quando se quer ouvir o que nos diz uma pessoa que está por trás de um vidro e se
vê que ela mexe os lábios, mas, por causa do vidro, não se ouve o que diz,
Gritei-lhe:
“Fala mais alto, que não ouço!”
E nesse instante acordei, alagada em suor. Compreendi então que tudo tinha
sido um sonho: a tentativa de suicídio, a interferência de Michele e as suas palavras
que não consegui ouvir. Ficou-me, porém, o desgosto angustioso, amargo, violento,
de não ter ouvido o que ele me dizia; durante algum tempo voltei-me e tornei a
voltar-me na cama, perguntando a mim própria o que poderia ser: decerto Michele
me dissera por que motivo não devia matar-me e valia a pena viver, por que razão a
vida, em qualquer caso, era melhor do que a morte. Sim, ele com certeza me
explicou, em poucas palavras, o sentido da vida, que nós, vivos, não percebemos,
mas que os mortos, ao contrário, compreendem, clara e limpidamente. E, para maior
desgraça minha, nem pudera ouvir o que ele me dizia, embora aquele sonho tivesse
sido verdadeiramente uma espécie de milagre, e os milagres, sabe-se, são milagres
precisamente porque tudo pode acontecer, até as coisas mais incríveis e mais raras.
O milagre dera-se, mas fora apenas meio milagre: Michele aparecera-me e não
deixara que eu me suicidasse, é verdade, mas eu, por culpa minha, decerto, porque
não era digna disso, não fiquei sabendo porque não devia fazê-lo. Assim tinha de
continuar a viver, mas como antes, como sempre, sem saber por que razão a vida é
preferível à morte.

CAPÍTULO XI

E assim chegou o grande dia do regresso a Roma. Mas como foi diferente do
que eu imaginara nos meus sonhos, durante os nove meses vividos em Santa
Eufêmia!... Sonhara um regresso alegre e feliz, num desses caminhões militares
repletos de rapagões loiros, ingleses ou americanos, contentes, simpáticos, cheios
de vida, e Rosetta ao meu lado, doce e tranqüila como um anjo; e talvez Michele
fosse também conosco, igualmente muito feliz. E eu numa grande ansiedade por ver
aparecer no horizonte a cúpula de São Pedro, que é a primeira coisa que se vê de
Roma, e o coração repleto de esperança, e a cabeça a zunir, cheia de projetos em
relação a Rosetta e ao seu casamento e à loja e à casa.
Pode dizer-se que naqueles nove meses estudei todos os pormenores desse
regresso e até cada pormenor desses pormenores. E tinha imaginado também a
nossa chegada a casa, com Giovanni a acolher-nos, calmo e sorridente, o charuto
apagado ao canto da boca, e os vizinhos que se juntavam em volta de nós e que
nós abraçávamos a sorrir e a dizer: ”Bem, já cá estamos, depois contaremos tudo o
que nos sucedeu.”
Tinha pensado em todas estas coisas e em muitas outras, e lembro-me que,
ao pensar nelas, me surpreendia às vezes a sorrir com antecipada alegria, mas
nunca, mesmo nunca, me passou pela mente que as coisas não sucedessem tal
qual como eu as imaginava. Em suma, não previ que, como dizia Concetta, a guerra
é a guerra, isto é, que, mesmo quando já está prestes a extinguir-se, ainda é a
guerra e, qual fera moribunda que continua a querer fazer mal, pode ainda dar-nos
uma patada. Ora a guerra dera-nos patadas bem fortes mesmo nas vésperas de
acabar: os marroquinos violaram Rosetta, os nazis mataram Michele e nós as duas
tínhamos agora de ir para Roma no caminhão daquele malandro do Rosário, e eu,
em vez de tantas coisas alegres que imaginara saborear, tinha a alma cheia de
tristeza, de desilusão e de desespero.
Era uma manhã de junho, já com o calor e a luz de verão no céu afogueado e
na terra seca e poeirenta. Rosetta e eu, dentro da barraca, acabávamos de nos
vestir pois o caminhão de Rosário esperava-nos na estrada principal. Rosetta
passara parte da noite fora, e eu, que o sabia e a vira entrar sorrateiramente,
continuava a experimentar aquele sentimento de impotência de que já falei: minha
alma transbordava de palavras que queria dizer, mas minha boca não sabia
exprimi-las. Todavia, por fim, consegui pronunciar, enquanto ela se lavava a um
canto, de pé diante da bacia:
“Posso saber onde estiveste esta noite?”
Esperava novo silêncio ou qualquer resposta breve; mas desta vez não foi
assim, não sei porquê. Rosetta acabou de se limpar, depois voltou-se para mim e
disse-me numa voz clara e firme:
“Estive com Rosário. E não me perguntes mais o que faço, para onde vou e
com quem estou, porque ficas a sabê-lo agora: faço amor, onde posso e com quem
posso. E quero também dizer-te que isso me agrada, ou, melhor, que não posso
nem quero deixar de o fazer...”
Exclamei:
“Mas com Rosário, minha filha, não vês quem é Rosário...”
E ela:
“Com ele ou com outro, para mim é igual. Já te disse, é a única coisa que me
agrada e me apetece fazer. E daqui por diante será sempre assim, por isso não me
faças mais perguntas, pois não poderei responder-te de outra maneira.”
Ela nunca falara tão claro, ou, antes, era a primeira vez que me falava assim;
compreendi que, enquanto não lhe passasse aquele frenesi, devia proceder como
ela me dizia: não lhe perguntar nada, calar-me. E foi o que fiz: acabei de vestir-me
em silêncio, enquanto ela, do outro lado do leito, fazia o mesmo.
Saímos, por fim, da barraca e encontramos Rosário, sentado à mesa com a
mãe, a comer uma salada de cebolas com pão. Concetta veio logo ao nosso
encontro e começou a fazer-nos os discursos do costume, desconexos e exaltados,
que tanto me irritavam ao princípio de a conhecer, quanto mais agora.
“Então, sempre se vão embora, voltam para Roma, abençoadas sejam, suas
felizardas... Vão-se embora e deixam-nos, a nós, pobres camponeses, aqui neste
deserto, onde não há mais nada senão fome e todas as casas estão em ruínas e
toda a gente anda rota e nua como os Ciganos... Suas felizardas, vão fazer vida de
senhoras em Roma, onde há abundancia... O que os Ingleses deram aqui só
durante três dias darão lá o ano inteiro... Mas fico contente, porque gosto de vocês e
dá-nos sempre prazer que as pessoas de quem gostamos sejam felizes e estejam
bem.”
Para me furtar a tais efusões. repliquei:
“Sim, somos umas felizardas... E tivemos muita sorte, não haja dúvida...
Sobretudo por termos encontrado uma família como a vossa.”
Mas ela não compreendeu a ironia e continuou:
“Podes dizê-lo bem alto, que somos uma boa família. Estiveram aqui como
em vossa casa, foram tratadas como irmã e filha, comeram, beberam, dormiram e
estiveram à vontade. Ah! Famílias como a nossa não há muitas!...”
“Felizmente!”, ia eu responder, mas detive-me, pois agora tinha pressa de
partir, mesmo com aquele Rosário que me era tão odioso, contanto que não
estivesse mais tempo naquela clareira fechada, entre aqueles laranjais tão espessos
que me pareciam uma prisão. Despedimo-nos de Vincenzo, que nos disse, com o
seu ar meio aparvalhado:
“Já nos deixam? Mas há tão pouco tempo que chegaram! Porque não ficam
ao menos para as festas de agosto?”
Concetta quis abraçar-nos e beijar-nos nas duas faces, com uns beijos
sonoros, que soavam tão falsos como as suas palavras. Por fim, lá seguimos pelo
carreiro, voltando para sempre as costas àquela maldita casa cor-de-rosa. Na
estrada principal estava o caminhão. Subimos, Rosetta ao lado de Rosário e eu ao
lado de Rosetta.
Rosário ligou o motor engrenou e pôs o carro em movimento, gritando
“Partida para Roma!” O caminhão rolou velozmente em direção à estrada nacional.
Era já manhã alta; um sol de junho, ardente, seco, cheio de força, alegre e jovem,
iluminava a estrada branca de pó e as sebes também esbranquiçadas pela poeira;
quando o caminhão abrandava, ouviam-se, em cima das poucas árvores que
ladeavam a estrada, as cigarras cantar, escondidas entre a folhagem. Ao ouvir esse
canto, ao ver aquele pó tão branco na estrada e nas sebes e as cotovias que
desciam para debicar os excrementos das mulas e depois levantavam de novo vôo
no céu luminoso, vieram-me de repente as lágrimas aos olhos. Sim, este era o
campo, o meu querido campo, onde foi criada, onde cresci e onde me refugiei no
período da carestia e da guerra, como quem se acolhe junto de uma mãe muito
velha que já viveu e viu muito e, não obstante, continua boa e sabe tudo e tudo
perdoa. Mas o campo tinha-me traído; tudo se conjugara para acabar mal; agora eu
estava mudada e o campo continuava a ser o mesmo de sempre: o seu sol aquecia
todas as coisas menos o meu coração gelado; as cigarras cantavam, belo canto que
dá prazer ouvir quando se é novo e se gosta de viver, mas que me parecia fastidioso
agora, que nada mais esperava da vida: e o cheiro do pó quente, que inebria os
sentidos ainda virgens e não satisfeitos, sufocava-me como se me tapassem o nariz
e a boca. O campo tinha-me traído e eu voltava para Roma sem esperanças, ou,
pior, desesperada. Chorava baixinho e bebia as lágrimas amargas que me desciam
dos olhos, procurando no entanto voltar a cabeça para o lado da estrada, para evitar
que Rosário e Rosetta me vissem chorar. Mas Rosetta percebeu e perguntou:
“Porque choras, mamã?”, numa voz tão doce que me fez quase pensar que
se tornara de novo, por um milagre do céu, a minha Rosetta de outros tempos.
Ia responder-lhe quando, voltando-me, vi a sua mão pousada na coxa de
Rosário, muito em cima, e lembrei-me de repente que eles iam calados há alguns
minutos, nem sequer se mexiam... Compreendi o significado daquele silêncio e
daquela imobilidade... Mesmo diante dos meus olhos!... Aquela doçura da voz de
Rosetta não era a doçura da inocência, mas a do prazer... E acariciavam-se sem
pudor e sem vergonha, enquanto ele guiava, logo de manhã cedo, como os animais
no cio, que fazem aquilo a todas as horas e em qualquer sítio. Disse então:
“Choro de vergonha, é por isso que choro...”
A estas palavras, Rosetta teve um movimento como que para retirar a mão;
mas o odioso Rosário agarrou-lhe e tornou a pô-la em cima da coxa. Ela resistiu um
momento, ou, pelo menos, assim me pareceu; depois ele deixou-lhe a mão e ela não
a retirou; compreendi uma vez mais que, para ela, o que fazia era mais forte do que
a minha vergonha e até do que a sua, embora, apesar de tudo, fosse capaz de
senti-la.
Entretanto rodávamos na Via Ápia; os grandes plátanos que desfilavam dos
dois lados da estrada juntavam a folhagem nova e espessa por cima das nossas
cabeças. Parecia que corríamos no interior de uma galeria verde; o sol, rompendo
aqui e além por entre as folhas, alongava de quando em quando os seus raios na
estrada e dir-se-ia então que até o asfalto, tão opaco, se tornava matéria luminosa e
palpitante, semelhante ao lombo de um animal, quente de sangue e de vida. Eu ia
com a cabeça virada para a estrada, para não ver o que Rosetta e Rosário faziam;
para me distrair dos meus tristes pensamentos, comecei a observar a paisagem. Vi
as inundações provocadas pelos Alemães quando fizeram saltar os diques, com as
suas águas azuis encrespadas pelo vento, de onde emergiam aqui e além uns tufos
de árvores e ruínas, onde outrora havia campos cultivados e quintas. Depois de San
Biagio, a estrada seguia à beira-mar. O mar estava calmo, varrido por uma brisa
ligeira e fresca que fazia correr de través inúmeras ondas azuis; e cada onda
mostrava um reflexo de luz a cintilar e todo o mar parecia sorrir ao sol. Agora,
Terracina. Fez-me ainda mais impressão do que Fondi, uma verdadeira desolação,
as casas todas esfoladas pelo fogo das metralhadoras e furadas por buracos
grandes e pequenos, e as janelas negras como os olhos dos cegos, ou, pior ainda,
azuis, porque só restava a fachada e montões de escombros poeirentos e fossos
cheios de água amarela em toda a parte e por elas se via o céu. Não havia ninguém
em Terracina, pelo menos assim me pareceu, nem na praça principal, onde a fonte
tinha a taça cheia de caliça até acima, nem nas ruas compridas e direitas,
marginadas por ruínas, que iam em direção ao mar.
Pensei que em Terracina devia ter acontecido o mesmo que em Fondi: o
primeiro dia fora uma feira, uma grande multidão, soldados, camponeses e
refugiados, distribuições de mantimentos e roupas, alegria e alarido, em resumo,
vida, depois o exército avançara para Roma e, repentinamente, a vida cessara,
ficando apenas um deserto de ruínas e silêncio.
Passada Terracina, continuamos a correr loucamente pela estrada que vai em
direção a Cisterna, tendo de um lado o canal denso e verde do saneamento e do
outro uma vasta planície, aqui e além alagada, estendendo-se até o sopé das
montanhas azuis que limitavam o horizonte. De vez em quando, à beira da estrada
via-se, nos fossos, a carcaça de um carro militar, de rodas para cima, já enferrujado
e irreconhecível, como se a guerra tivesse passado ali há muitos anos; de tempos a
tempos, também, num campo de trigo, avistava-se, imóvel, apontando para o céu, o
canhão alongado de um carro de assalto e, quando nos aproximávamos, víamos o
carro inteiro afundado entre as espigas altas, imóvel e ressequido como um animal
ferido de morte e depois abandonado.
Rosário guiava agora a grande velocidade, só com uma das mãos, enquanto
com a outra apertava a de Rosetta no regaço dela. Eu não podia suportar aquele
espetáculo, um indício mais da mudança que se operara na minha filha, e de
repente, nem sei porquê, lembrei-me que ela sabia cantar bem e tinha uma bonita
voz, doce e musical, e, quando estava em casa, ocupada na lida doméstica,
costumava cantar para fazer companhia a si própria, e eu, no quarto ao lado, muitas
vezes me encantava a ouvi-la, porque naquela voz que se elevava, tranqüila e
alegre, e parecia nunca se cansar nem perder o fio da canção, estava todo o seu
caráter, como era então e agora deixara já de ser. Lembrei-me do seu canto nessa
estrada entre Terracina e Cisterna e experimentei como que o impulso de
ressuscitar, nem que fosse por um momento só, a ilusão da Rosetta de outro tempo.
Disse:
“Rosetta, porque não cantas qualquer coisa? Sabias cantar tão bem... Vá,
canta uma canção bonita... de outro modo, com este sol e esta estrada tão reta,
acabamos por adormecer...”
Ela respondeu:
“O que queres que eu cante?”
Disse, ao acaso, o nome de uma canção que estivera em voga alguns anos
antes e ela começou a cantar, com toda a força, imóvel, sempre com a mão de
Rosário no seu regaço. Mas vi que já não era a mesma voz; parecia menos decidida
e menos melodiosa; também errava a música; ela apercebeu-se disso, pois
repentinamente interrompeu-se e disse:
“Tenho medo de já não saber cantar, mamã, sinto-me sem vontade.”
Deu-me ganas de lhe gritar: “Sentes-te sem vontade e já não sabes cantar
porque tens essa mão no regaço e já não és tu, nem tem o sentimento de outro
tempo, que te enchia o peito e te fazia cantar como um passarinho!”, mas não tive
coragem de falar. Rosário disse então:
“Bem, se querem, canto eu.”
E começou, em voz rude, a entoar uma canção vulgar e brejeira. Eu agora
sofria ainda mais do que antes: pelo fato de Rosetta não poder cantar - até nisso
estava mudada! - e também por ouvir cantar Rosário. Entretanto, o carro seguia a
uma velocidade louca e bem depressa chegamos a Cisterna. Também aqui, como
em Terracina, era completa a desolação. Lembro-me, sobretudo, da fonte da praça,
um semicírculo de casas esburacadas ou destruídas: a taça estava cheia de
destroços, no meio da taça via-se um pedestal com uma estátua; esta estátua,
porém, não tinha cabeça, mas sim um gancho de ferro negro no seu lugar, e
conservava apenas um braço e a este braço faltava a mão. Parecia uma pessoa
viva, precisamente porque lhe faltavam a mão e a cabeça. Também aqui não
passava nem um cão; as pessoas ou estavam ainda nas montanhas ou escondidas
entre os escombros. Depois de Cisterna, a estrada atravessava uns bosques pouco
densos de sobreiros e não se via uma casa nem um cristão, mas somente, a perder
de vista, chão verde e troncos torcidos e vermelhos, que até pareciam esfolados.
Agora o dia não se mostrava tão bonito: dos lados do mar surgira um negrume,
primeiro um pequeno leque de nuvenzinhas cinzentas, depois esse leque foi-se
abrindo e tornara-se imenso, com o cabo voltado para o mar e as varetas, feitas de
nuvens cinzentas e juntas, espalhadas por todo o céu.
O sol encobrira-se e o campo, com aqueles sobreiros torcidos e vermelhos,
que dir-se-ia sofrerem por estarem assim torcidos e vermelhos, ficara de uma só cor,
desmaiada e opaca, sem luz. Havia uma solidão completa; e, embora o ruído do
motor não parasse um único instante, adivinhava-se que reinava um grande silêncio,
sem cantos de cigarras nem de pássaros.
Rosetta dormitava; Rosário fumava, mesmo a guiar; e eu ora seguia com os
olhos os marcos brancos dos quilômetros, ora afundava o olhar por entre os
sobreiros, sem ver nada nem ninguém. Depois a estrada fez uma curva e eu, que
continuava a olhar para os sobreiros, fui de súbito projetada para a frente, batendo
com a cabeça no vidro do pára-brisas. Quando retomei a minha posição, vi que a
estrada estava cortada por um poste telegráfico derrubado: ao mesmo tempo, três
homens saíam do sobreiral e avançavam para nós, agitando as mãos para
mandarem parar o caminhão. Rosetta disse, acordando:
“O que é?”
Mas ninguém lhe respondeu: eu não compreendia nada do que se passava e
Rosário já tinha descido e dirigia-se com decisão ao encontro dos três homens.
Estes, lembro-me muitíssimo bem, e ainda hoje era capaz de os reconhecer entre
mil, estavam vestidos de farrapos, como toda a gente naqueles dias; um era
pequeno, loiro, de ombros largos e o fato de veludo castanho; o segundo era alto, de
meia idade, escanzelado, a cara tensa e magra, os olhos encovados e os cabelos
grisalhos em desordem; o terceiro era um rapaz do tipo comum, moreno, a cara
larga, os cabelos negros, não muito diferente de Rosário. Este, ao descer do
caminhão, teve um gesto que não me passou despercebido: tirou rapidamente do
bolso um embrulho e escondeu-o no tablier. Eu compreendi que aquele embrulho
tinha dinheiro e compreendi também, repentinamente, que aqueles três homens
eram ladrões. Depois tudo aconteceu num relâmpago, enquanto Rosetta e eu
olhávamos, imóveis e paralisadas de assombro, através do pára-brisas, sujo de
insetos esmagados, de pó e de sulcos de chuva que parecia acrescentar, à luz
mortiça do céu enevoado, não sei que melancolia e incerteza. Através desse vidro,
vimos Rosário ir ao encontro dos três, com ar decidido, pois era corajoso, e os
outros afrontarem-no ameaçadores. Via Rosário de costas, mas via muito bem a
cara do loiro com quem ele falava: tinha a boca vermelha, um pouco torcida, com
qualquer coisa como uma erupção ou espinhas nos cantos.
Em resumo, o loiro falou e Rosário respondeu; o loiro falou outra vez e, à
segunda resposta de Rosário, de repente levantou a mão e agarrou-lhe a gola do
casaco mesmo por baixo do pescoço. Rosário fez um movimento com os ombros,
primeiro para a direita, depois para a esquerda, libertando-se, e ao mesmo tempo
vi-o, com clareza, levar a mão ao bolso de trás das calças. Em seguida ouvi um tiro,
depois outros dois, e julguei que fosse Rosário a disparar. Entretanto ele voltou-se,
como se se dirigisse para o caminhão, de cabeça baixa, estranhamente incerto, e
depois, de súbito, caiu de joelhos, mantendo-se nessa posição, com as mãos
estendidas para o chão; esteve um momento assim de cabeça baixa, como que a
refletir, e por fim atirou-se de lado. Os três, sem se importarem mais com ele,
caminharam para o caminhão. O loirinho, agora com uma pistola na mão,
pendurou-se na portinhola e meteu a cabeça na cabina, dizendo-nos, arquejante:
“Vocês as duas desçam imediatamente, desçam!”
Ao mesmo tempo agitava a pistola, não tanto para nos ameaçar, como talvez
para nos dar a entender que devíamos descer. Entretanto, os outros dois tiravam o
poste da estrada. Vi que tínhamos de obedecer e disse a Rosetta:
“Bem, desçamos.”
E ia abrir a porta. Mas nesse instante o loirinho, já quase todo enfiado na
cabina, inclinou-se para fora, a olhar a estrada, e vi que os outros dois lhe faziam
sinais, como que a adverti-lo de qualquer coisa de novo que estava a acontecer.
Proferiu uma blasfêmia, saltou do caminhão, correu para os dois companheiros e
vi-os fugir, todos três, desesperadamente, por entre os sobreiros, onde bem
depressa desapareceram, a correr aos zigue-zagues. Durante momentos não houve
mais nada nem ninguém, a não ser o poste telegráfico afastado para um lado e o
corpo de Rosário imóvel no meio da estrada.
Disse então a Rosetta:
“E, agora, o que fazemos?”
Mas quase ao mesmo tempo surgiu ao pé de nós um pequeno automóvel
descoberto com dois oficiais ingleses e um soldado a conduzir. O automóvel
abrandou a marcha, pois o corpo de Rosário barrava o caminho, mas não tanto que,
andando ao rés da beira, não se pudesse passar; os dois oficiais voltaram-se,
olharam para o corpo e depois para nós as duas; vi um deles fazer um gesto ao
condutor, como que a dizer: “Quem morre está morto, vamos para diante”, e o
automóvel partiu logo, passou quase rente ao corpo de Rosário, retomou a corrida e
bem depressa desapareceu ao longe na estrada, numa curva. Então, não sei como,
lembrei-me do dinheiro que Rosário escondera no tablier; estendi a mão, peguei no
embrulho e escondi-o no seio. Rosetta viu-me fazer o gesto e deitou-me um olhar
que me pareceu quase de desaprovação. Subitamente sentiu-se uma chiadeira forte
de freios e um caminhão parou ao mesmo tempo junto do nosso.
Desta vez era um italiano, um homem pequeno, de cabeça grande e calva, a
cara pálida e toda suada, os olhos redondos à flor da pele e suíças compridas
descendo até ao meio do rosto. Tinha uma expressão espantada e descontente,
mas não má, como a de quem faz por dever um ato de coragem e ao mesmo tempo
amaldiçoa a sorte que o torna corajoso contra vontade. Perguntou à pressa:
“Mas que sucedeu?”, sem sair do caminhão, a mão na alavanca das
mudanças.
Disse-lhe:
“Mandaram-nos parar e mataram aquele rapaz e depois fugiram. Queriam
roubar. E agora nós, que somos duas refugiadas...”
Ele interrompeu-me:
“Para onde fugiram?”
Indiquei o sobreiral; ele voltou para lá os olhos espantados e disse depois:
“Por amor de Deus, depressa, subam para o meu caminhão, se querem ir
para Roma, mas depressa, andem depressa, por amor de Deus...”
Compreendi que, se hesitasse um momento, ele partiria, e apressei-me a
descer, puxando Rosetta pela mão. Ele, então, gritou, com voz aflita:
“Afastem esse corpo, afastem-no, senão não posso passar.”
Olhei e vi que, de fato, o caminhão dele, muito mais largo do que o pequeno
automóvel dos oficiais ingleses, não tinha espaço suficiente para passar entre a
beira e o corpo de Rosário.
“Andem depressa, pelo amor de Deus...”, recomendou outra vez, com aquela
voz lamentosa; eu então recuperei ânimo e disse a Rosetta:
“Ajuda-me.”
Caminhei para o corpo de Rosário, estendido de lado, com um braço
levantado por cima da cabeça, como que para se agarrar a qualquer coisa que não
tivera tempo de apanhar. Inclinei-me e peguei-lhe num pé, Rosetta inclinou-se e
pegou-lhe no outro, e, assim, a custo, porque ainda pesava bastante, arrastamo-lo
para um lado, para a beira da estrada, as costas e a cabeça no chão e os braços
estendidos ao comprido, sem vida, de rastos no asfalto. Rosetta foi a primeira a
deixar cair o pé e eu logo a seguir fiz como ela; mas depois inclinei-me à pressa
para o morto, num gesto instintivo, quase com receio de descobrir que ainda
estivesse vivo: na realidade, tinha o embrulho do seu dinheiro no seio e convinha-me
conservá-lo, porque nas nossas condições me fazia muito jeito e queria ter bem a
certeza de que ele estava na realidade morto. E estava mesmo morto, compreendi-o
pelos olhos, que tinham ficado abertos e olhavam não sei para onde, imóveis.
Confesso, naquele instante comportei-me como uma pessoa interesseira e vil, tal
qual como se teria comportado Concetta, em conformidade com a sua convicção de
que a “guerra é a guerra”. Guardara o dinheiro do morto; e, por causa do dinheiro,
receava que o morto não estivesse morto, mas sim vivo; como verifiquei que estava
na verdade morto, quis compensar aquele meu abjeto receio com um ato de fé que
não custava nada: rapidamente, enquanto o homem do caminhão me gritava,
impaciente:
“Está descansada, já está morto, não há nada a fazer...”, inclinei-me e fiz o
sinal da Cruz com o indicador e o médio no peito de Rosário, no sítio onde o casaco
preto estava manchado com uma larga nódoa escura.
Senti, ao fazer esse gesto, os meus dedos aflorarem o tecido do casaco, que
estava úmido; e depois, enquanto corria juntamente com Rosetta para o caminhão,
olhei furtivamente os dedos com que fizera o sinal da Cruz e vi-os vermelhos de
sangue vivo, acabado de jorrar. Experimentei repentinamente, à vista daquele
sangue, um remorso obscuro, quase horror de mim mesma, por ter feito aquele
gesto hipócrita no corpo do homem que, momentos antes, tinha roubado, e esperei
que Rosetta não tivesse percebido. Mas, quando limpei os dedos à saia, vi-a olhar
para mim e compreendi que ela tinha visto tudo. Entretanto, subimos ambas para
junto do motorista. O caminhão partiu.
Aquele homem guiava curvado para o volante, que segurava com ambas as
mãos, como quem se agarra a um destroço, os olhos esbugalhados, o rosto pálido,
ofegante, cheio de medo; eu ia preocupada com o maço das notas de banco que
levava no seio e Rosetta olhava em frente, a cara imóvel e apática, em que seria
impossível encontrar o reflexo de qualquer sentimento. Veio-me à idéia que nenhum
dos três, cada qual pelos seus motivos, tínhamos demonstrado piedade por Rosário,
morto como um cão e abandonado na estrada; o homem, amedrontado, nem sequer
descera para ver se estava morto ou vivo; eu preocupara-me sobretudo em verificar
se na verdade estava morto por causa do dinheiro que lhe tirara, e Rosetta
limitara-se a arrastá-lo por um pé para a valeta, como se fosse o cadáver
malcheiroso e incômodo de um animal qualquer...
Não havia piedade, nem emoção, nem simpatia humana: um homem morria e
os outros não faziam caso, cada um pensando só em si próprio. Era a guerra, como
dizia Concetta, e eu temia que esta guerra se prolongasse nas nossas almas por
muito tempo, depois de a verdadeira guerra ter acabado. Mas o caso de Rosetta era
ainda o pior dos três: meia hora antes acariciava Rosário; acordara nele o desejo e
satisfizera-lhe; dera e recebera prazer; e agora ia ali sentada de olhos enxutos,
imóvel, indiferente, apática, sem sombra de pena no rosto. Pensava nisto e dizia a
mim própria que tudo estava ao contrário do que devia estar, que a vida se tornara
absurda, sem pés nem cabeça e as coisas importantes já não eram importantes e as
que não tinham importância é que se tornavam importantes. Depois, de repente,
aconteceu um fato estranho que não tinha previsto: Rosetta, que até então, como
disse, não manifestara nenhum sentimento, começou a cantar. Primeiro com uma
voz hesitante, como que estrangulada, depois aclarando-a e alterando-a, cada vez
mais segura, começou a cantar a mesma canção que eu lhe pedira para cantar
pouco antes e ela, sentindo-se incapaz, interrompera à primeira estrofe. Era uma
cançoneta em voga anos atrás e Rosetta costumava cantá-la, como já disse ao
cuidar da lida doméstica; não era grande coisa, antes um pouco sentimental e tola, e
pareceu-me primeiro estranho que ela a cantasse naquele momento, depois da
morte de Rosário: mais uma prova da sua insensibilidade e indiferença. Mas a seguir
lembrei-me que, quando lhe pedi para cantar, ela me respondera que não era capaz,
que se sentia sem vontade, e recordei-me que pensara então que ela tinha mudado
por completo e não podia cantar porque já não era a mesma de outros tempos; por
isso disse de mim para mim que talvez, recomeçando a cantar, ela quisesse dar-me
a entender que não era verdade, que não estava mudada, que ainda era a mesma
Rosetta de outros tempos, boa, doce e inocente como um anjo. De fato, enquanto
pensava assim, olhei para ela e vi que tinha os olhos cheios de lágrimas, e estas
lágrimas saltavam-lhe dos olhos arregalados e corriam-lhe pelas faces; de repente, a
confiança voltou-me; Rosetta não tinha mudado tanto como eu temia; chorava por
Rosário, primeiro que tudo, que fora morto sem piedade, como um cão, e depois por
ela e por mim e por todos quantos a guerra atingira, massacrara e arruinara. E isto
queria dizer que ela, no fundo, não estava mudada, e eu também não, embora
tivesse roubado o dinheiro de Rosário, nem os outros que a guerra, em todo o tempo
que durara, tinha tornado semelhantes a nós. Subitamente senti-me confortada, e
deste conforto brotou, espontâneo, o pensamento: “Logo que chegue a Roma,
mando este dinheiro à mãe de Rosário.”
Sem dizer nada, passei um braço por cima do braço de Rosetta e apertei a
sua mão na minha...
Ela cantou ainda várias vezes aquela canção enquanto o caminhão corria
para a curva de Velletri; e depois, quando as lágrimas deixaram de lhe correr dos
olhos, parou de cantar. Aquele homem do caminhão não era mau, estava somente
apavorado. Talvez tivesse compreendido qualquer coisa, porque de repente
perguntou:
“O que era a vocês aquele rapaz que mataram?”
Apressei-me a responder:
“Não nos era nada, apenas um conhecido, um do mercado negro que se
ofereceu para nos trazer a Roma...”
Mas ele, tomado outra vez de medo, acrescentou à pressa:
“Não digas nada, não quero saber de nada, não sei nada e não vi nada; em
Roma deixo-as e será como se nunca nos tivéssemos visto nem conhecido...”
Eu respondi:
“Tu é que perguntaste...”
E ele:
“Sim, tens razão, mas dou o dito por não dito.”
Finalmente, surgiu ao fundo da planície extensa e verde uma longa risca de
cor incerta, entre branco e amarelo: os subúrbios de Roma. E por trás,
sobrepujando-a, simples sombra, cinzenta no fundo cinzento do céu, muito distante,
mas nítida, a cúpula de São Pedro! Só Deus sabe quanto eu ansiara durante todo
esse ano tornar a ver, no horizonte, aquela querida cúpula, tão pequena e ap
mesmo tempo tão grande que podia ser confundida com um acidente do terreno,
uma colina ou uma montanha; tão sólida, embora não mais do que uma sombra; tão
tranqüilizadora e familiar, mil vezes vista e observada. Aquela cúpula, para mim, não
era só Roma, mas a minha vida de Roma, a serenidade dos dias que se vivem em
paz conosco e com os outros. Lá ao longe, no fundo do horizonte, aquela cúpula
dizia-me que podia agora voltar confiante a casa, que a antiga vida retomaria o seu
curso, apesar de todas as mudanças e tragédias. Mas também me dizia que essa
minha nova confiança a devia a Rosetta e ao seu canto e às suas lágrimas. E que,
sem essa dor de Rosetta, Roma não teria tornado a ver as duas mulheres inocentes
que um ano antes dali tinham partido e entretanto se tornaram, com a guerra e por
causa da guerra, uma ladra e outra prostituta.
A dor... Voltou-me ao pensamento Michele, que não estava ali conosco nesse
momento tão suspirado do regresso e nunca mais estaria ao pé de nós, e
lembrei-me daquela noite em que nos leu em voz alta, na cabana de Santa Eufêmia,
a passagem do Evangelho sobre Lázaro, zangando-se porque os camponeses não
tinham compreendido nada e gritando que estávamos todos mortos à espera da
ressurreição, como Lázaro. Então, essas palavras de Michele tinham-me deixado na
dúvida; agora, sim, compreendia que Michele tinha razão e que durante algum
tempo também Rosetta e eu estivéramos mortas, mortas para a piedade que se
deve aos outros e a nós próprios. Mas a dor viera salvar-nos no último momento; e,
assim, de certa maneira, a história de Lázaro aplicava-se também a nós: graças à
dor conseguíramos por fim sair da guerra, que nos encerrava no seu túmulo de
indiferença, crueldade e maus sentimentos, para retomarmos o curso da nossa vida,
que talvez seja uma pobre vida cheia de escuridão e de erros mas a única que
devemos viver, como sem dúvida no-lo diria Michele se estivesse ali conosco...

Fim do livro

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oportunidade de conhecerem novas obras.
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