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[Oracula, S„o Bernardo do Campo, 3.5, 2007] ISSN 1807-8222

O FIM DO MUNDO: MEDO, CONSPIRA« O E ESPERAN«A

Jeffrey Burton Russell

Resumo

O ˙ltimo dia È terrÌvel, horripilante, um dia de temor infinito, medo e dor. Contudo, È tambÈm um dia de misericÛrdia e, conseq¸entemente, de esperanÁa. Do Antigo Oriente PrÛximo ao sÈculo XXI, seu poder de inspirar medo e esperanÁa continua. Este artigo trata das diferenÁas e semelhanÁas nas visıes de fim de mundo esboÁadas principalmente pelo judaÌsmo e pelo cristianismo. Trata-se de uma abordagem destas concepÁıes pela Ûtica da histÛria das idÈias.

Palavras-chave: Fim dos tempos; julgamento; medo; conspiraÁ„o; esperanÁa; bem; mal.

Abstract

The last day is terrible, horrifying, a day of infinite dread, fear, and pain. Yet it is also a day of compassion and therefore of hope. From the Ancient Near East to the twenty-first century its power to inspire fear and hope continue. This article deals with differences and similarities in the views of endtime mainly of both Judaism and Christianity. It refers to an approach of these views through the history of the ideas optics.

Keywords: Endtime; judgment; fear; conspiracy; hope; good; evil.

Professor emÈrito de HistÛria na Universidade da CalifÛrnia, Santa B·rbara, EUA. TraduÁ„o do original The end of the world: fear, conspiracy, and hope para a lÌngua portuguesa de Elizangela Soares, mestre em CiÍncias da Religi„o pela Universidade Metodista de S„o Paulo (Umesp). O texto bÌblico citado no artigo original È o da New Revised Standard Version, do qual o autor modificou a pontuaÁ„o e, em alguns casos, uma palavra. As citaÁıes de Enoque vÍm de CHARLESWORTH, James H. The Old Testament Pseudepigrapha. Vol 1. New York:

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Dies irae, dies illa Solvet saeclum in favilla, Teste David cum Sibilla.

. . Iudex ergo cum sedebit, Quicquid latet, apparebit; Nil inultum remanebit.

Quid sum miser tunc dicturus

. . Salva me, fons pietatis.

. . Recordare, Iesu pie, Quod sum causa tuae viae; Ne me perdas illa die.

.

.

.

.

Confutatis maledictis, Flammis acribus addictis, Voca me cum benedictis.

. . Lacrimosa dies illa, Qua resurget ex favilla Iudicandus homo reus.

.

O dia da ira, esse dia

Dissolver· o mundo em cinzas, Como Davi e a Sibila declaram.

Quando o Juiz estiver sentado sobre seu trono

O

que quer que tenha sido encoberto ser· desvelado.

O

que eu, miser·vel como sou, direi ent„o?

Salve-me, ” Fonte de compaix„o. Recorde, misericordioso Jesus,

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Que eu sou o propÛsito de sua jornada terrena; N„o se livre de mim naquele dia. Quando os condenados estiverem sendo amaldiÁoados E lanÁados nas chamas impetuosas, Chama-me entre os benditos. Esse dia lacrimoso No qual o culpado se levantar· das cinzas para ser julgado.

O ˙ltimo dia È terrÌvel, horripilante, um dia de temor infinito, medo e dor. Contudo, È

tambÈm um dia de misericÛrdia e, conseq¸entemente, de esperanÁa. Do Antigo Oriente PrÛximo ao sÈculo XXI, seu poder de inspirar medo e esperanÁa continua. E n„o È de se estranhar, pois o ˙ltimo dia vir· para cada pessoa e nenhum de nÛs sabe o dia ou a hora. A psicologia do nosso prÛprio ˙ltimo dia envolve a psicologia do ˙ltimo dia da humanidade. Nenhum adulto que pense pode evitar refletir, pelo menos ocasionalmente, sobre seu

momento final.

Mas o grande corpo de pensamento ñ teolÛgico, filosÛfico, liter·rio e artÌstico ñ que por

mais de um milÍnio produziu t„o poderosas imagens n„o est· limitado ‡ reflex„o sobre nossas prÛprias vidas e mortes pessoais. A variedade e a extens„o dos significados do ˙ltimo dia nesta longa tradiÁ„o devem ser captadas antes que o poder do ˙ltimo dia possa ser compreendido. Os termos utilizados para descrever tais idÈias eram vagos naquele tempo e permanecem ambÌguos, mas para as finalidades deste artigo seu significado È como segue:

Eschaton: o fim; Eschata: as ˙ltimas coisas; Escatologia: qualquer discuss„o ou apresentaÁ„o do fim dos tempos, tanto mÌtica como teolÛgica; Apocalipse: uma revelaÁ„o de segredos sobre o eschata, especialmente como no Apocalipse de Jo„o (RevelaÁ„o); ApocalÌptica: crenÁa e conduta de acordo com tais revelaÁıes sobre o fim dos tempos; Messianismo: a crenÁa de que um governante (o Soshyans iraniano, o Mashiach hebreu, o Christos grego; o Mahdi muÁulmano) vir· no fim para colocar o mundo em ordem; MilÍnio: mil anos; milenarismo, mileniarismo ou chialismo: a crenÁa de que precisamos nos preparar para a chegada do fim

do mundo, que introduzir· o reinado de mil anos de Cristo na terra; Parousia (lit. ìvindaî):

referente ‡ segunda vinda de Cristo (embora os teÛlogos modernos usem o termo muito mais freq¸entemente do que os antigos, a palavra aparece na BÌblia somente em Mateus 24).

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O

que, ent„o, È a tradiÁ„o do Fim? No sentido mais Ûbvio, o fim È a morte fÌsica sua, minha

e

de cada um de nÛs. No sentido seguinte, È o objetivo final e eterno de cada um de nÛs.

Seus outros sentidos v„o alÈm do pessoal. O ˙ltimo dia È percebido tambÈm como o fim de toda a raÁa humana; ou do planeta; ou do universo inteiro; ou de toda a matÈria. … o fim do universo fÌsico, do espaÁo e do tempo, mas n„o o fim do cosmos, o kosmos, o logos, do significado e o propÛsito do universo, que È eterno. De fato, longe de ser seu fim, a grande esperanÁa do ˙ltimo dia È que ele seja a vitÛria final do cosmos ñ a ordem correta do mundo ñ sobre o chaos, a desordem ou mal do mundo.

Os significados do ìmundoî s„o ambÌguos em toda lÌngua. Na linguagem comum, falamos

de ìnavegar ao redor do mundoî ou de um ìmapa mundiî, sugerindo que a palavra mundo È

equivalente ao planeta Terra. Mas o antigo deus Atlas sustenta a esfera dos cÈus, bem como a

da Terra em seus ombros. Muitos dos atlas mundiais mais recentes fornecem, com raz„o mapas da lua, de Marte, de VÍnus e as fotografias e gr·ficos de outros planetas, estrelas, gal·xias e mesmo de todo o universo fÌsico. Assim, novamente o ìmundoî est· comeÁando

a ser compreendido como o ìuniversoî de um modo geral. E esta È a maneira como os

antigos filÛsofos entendiam seu sentido. Quando AristÛteles, Paulo, Aquino ou Lutero consideravam o ìfim do mundo,î eles objetivavam um grande spectrum de sentido que inclui todos os significados do ìmundoî. Escritores crist„os tambÈm tencionaram a uma mudanÁa radical no sentido mais profundo do ìmundoî: este mundo presente, ìeste mundoî ou ìesta era,î o mundo dos seres humanos, da carne, do pecado, do Diabo, da corrupta sociedade humana ser· substituÌdo pelo mundo de Deus, a cidade ou o reino dos santos. Este È o sentido escatolÛgico: que o velho mundo, o mundo depravado, decrÈpito e tempor·rio ser·

destruÌdo e substituÌdo pelo novo mundo, no qual Deus reina com verdade e justiÁa. A escatologia (o estudo dos eventos que finalizam o mundo) declara que no fim dos tempos o domÌnio do mal ser· substituÌdo pelo domÌnio do bem.

Agora, olhando para a pergunta racionalmente, deve ser verdade que o mundo È essencialmente bom; ou que È essencialmente mal; ou que È um mistura de bem e mal; ou que n„o È nem bom nem mal, mas um universo sem propÛsito, sem significado. A ˙ltima

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opÁ„o tem sido dificilmente sustentada, exceto entre alguns da elite intelectual que comanda pelos os ˙ltimos cem anos, aproximadamente. Esta ˙ltima opÁ„o, se realmente levada a sÈrio, exclui toda discuss„o, pois È uma opÁ„o na qual kosmos e logos, significado e propÛsito, ou n„o existem absolutamente ou podem ser dilatados como sonhos vindos das percepÁıes de cada um de nÛs. … um mundo no qual nenhuma verdade È possÌvel e, portanto, um mundo no qual seus partid·rios n„o tÍm direito a reivindicar ñ embora atualmente filÛsofos predominantes continuem a fazÍ-lo vociferantemente ñ que suas prÛprias perspectivas sejam superiores a quaisquer outras. Esta alternativa È inteiramente estranha ‡ cosmovis„o da tradiÁ„o escatolÛgica e n„o mais ser· discutida.

A

cosmovis„o da tradiÁ„o escatolÛgica È a de que o mundo È um kosmos, que ele tem ordem

e

significado e que, portanto, o fim dos tempos ter· ordem e significado, apesar dos seus

horrores. Ainda, existem variaÁıes antigas e b·sicas nesta tradiÁ„o. O universo sempre teve

significado, sempre foi um cosmos? V·rios mitos antigos (uso o termo mito em seu sentido tÈcnico moderno de uma estÛria que pretende transmitir significado e n„o em seu corrente sentido comum de ìfalsidadeî) ñ mesopot‚mios e gregos ñ assumem um estado inicial a partir do qual Deus ou os deuses formaram o cosmos. Neste ponto de vista, o caos È algo que Deus luta para sujeitar, que resiste a ele sendo, portanto, seu inimigo. … algo mau, ou pelo menos n„o-bom. Um dos mitos mais comuns do Antigo Oriente PrÛximo, encontrado em muitas culturas, È o ìmito de combateî, a luta das forÁas da ordem contra as forÁas da desordem. Este mito supıe uma batalha do caos e seus defensores contra os criadores do cosmos. Por vezes esta È uma luta curta, como em GÍnesis, onde o Senhor conclui sua tarefa em seis dias. ¿s vezes È uma luta muito longa, volta e meia batalhada periÛdica ou mesmo anualmente; nesta perspectiva, a luta est· avanÁando e ainda n„o foi vencida. Por exemplo, em Cana„, o deus da fertilidade ñ Baal ñ devia lutar continuamente contra Mot, deus da morte e da esterilidade; no Egito, o deus da vida, OsÌris, È encerrado numa luta contÌnua com Set, um deus da morte e da esterilidade. O caos È transformado apenas parcialmente em

cosmos e o processo de criaÁ„o continua. Se esta concepÁ„o fosse inteiramente estranha para

o cristianismo n„o haveria necessidade de uma escatologia crist„; porÈm, que Cristo vir·

novamente È uma indicaÁ„o certa de que a obra ainda n„o foi completada. Uma escola de pensamento tardia, do vigÈsimo sÈculo, conhecida como Teologia do Processo, foi muito longe ao dizer que o prÛprio Deus est· em processo e que n„o estar· completo antes do fim

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dos tempos. O significado essencial do mito È o movimento do chaos (mal primordial) para o kosmos pela intervenÁ„o divina e, ent„o, para o arrebatamento aparte do cosmos pelo mal (quer demonÌaco ou humano) e, depois, para a destruiÁ„o do mal por um Messias ou outros meios divinos, culminando finalmente numa restauraÁ„o do bem primevo (a futura substituiÁ„o da era maligna por verdade e justiÁa eternas).

Uma tendÍncia de pensamento similar ñ comum entre Ûrficos, gnÛsticos, maniqueus e cataristas ñ era que o mundo foi criado mal por um poder maligno freq¸entemente chamado Diabo e que as forÁas da luz deviam lutar constantemente contra os poderes das trevas. Este tipo de dualismo extremo, que se originou nos pensamentos grego e iraniano (no orfismo e no mazdaismo), teve o seu apelo a muitos crist„os, mas foi decisivamente excluÌdo da tradiÁ„o crist„.

Em oposiÁ„o, a perspectiva filosÛfica È a de que o mundo È perfeitamente bom como ele È

se nÛs o entendemos. Esta concepÁ„o ganhou pequena forÁa de traÁ„o ao longo do tempo,

pois ela nos obrigaria a considerar o holocausto dos judeus e os massacres da £frica Central, sem mencionar um bilh„o de crimes menores e horrores que acontecem todos os dias e em

todos os lugares, como bem [ou bons]. Se os caminhos divinos s„o t„o inescrut·veis, ent„o n„o existe denominador comum entre nÛs mesmos e Deus. Se tortura, estupro e assassinato s„o parte do plano divino, ent„o ninguÈm, a n„o ser criminosos grotescos, est· em harmonia com esse plano ñ que, curiosamente, conduz de volta ‡ idÈia de que o mundo deve ser mal.

Um outro ponto de vista È que Deus, sendo bom, criou o mundo bom, mas que algo saiu errado ñ ou talvez o caos, uma vez tendo sido derrubado pelo cosmos, È revivido por algum terrÌvel desastre, como representado no mito de Ad„o e Eva no GÍnesis. Representando toda a raÁa humana, por sua desobediÍncia orgulhosa os primeiros pais interrompem o cosmos que Deus t„o graciosamente tinha composto. Ent„o uma segunda luta deve acontecer e aqui, na tradiÁ„o judaico-crist„, o antigo combate entre caos e cosmos fora agora traduzido pela luta entre bem e mal.

O mal, solto no cosmos e, por conseguinte, deformando-o, deve ser combatido e derrotado

novamente, dia apÛs dia. Ad„o e Eva, tendo quebrado o acordo com Deus, introduziram

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uma era de pecado, atÈ que Deus deu uma segunda chance ‡ humanidade com as alianÁas que ele fez com Israel e com os profetas que enviou aos filhos de Israel. Eventualmente ele enviou Cristo para destroncar o mal e restaurar o bem no reino de Deus. Mas visto que È claro que o mal persiste no mundo mesmo apÛs a EncarnaÁ„o, ele chegar· a um fim apenas na segunda vinda de Cristo, quando o reino de Deus ser· estabelecido eternamente com verdade, justiÁa e misericÛrdia.

Enquanto isso, contudo, vivemos numa civitas permixta, uma cidade, uma sociedade, um mundo no qual o bem e o mal ainda lutam um contra o outro. A prova dessa concepÁ„o È vista diariamente nos jornais e na televis„o. Ainda, o fim dos tempos acontecer· com a vitÛria do bem.

Essa È a essÍncia da quest„o do fim dos tempos ser um tempo de medo ou um tempo de esperanÁa. … um tempo de esperanÁa, porque ent„o verdade e bondade eliminar„o mentiras e o mal para sempre (a antiga e persuasiva distinÁ„o entre a verdade e a mentira, todavia atenuada em tribunais e governos nos dias de hoje, permanece essencial em qualquer sociedade com pretensıes ‡ justiÁa). Ainda, o fim deve tambÈm ser um tempo de medo e, como o hino medieval Dies irae ilustra, È o medo que freq¸entemente tem capturado a atenÁ„o de pensadores crist„os. Quer seja o ˙ltimo dia percebido como um dia literal, quer seja uma met·fora para todos os tempos sob o intento escatolÛgico de Deus, ele È terrÌvel. Os temores n„o s„o mÌnimos: a tradiÁ„o n„o oferece nenhuma entrada f·cil no cÈu. Antes do cÈu vÍm tribulaÁıes de todo tipo, incluindo guerras, pragas, fome, o Anticristo, a ˙ltima batalha, o julgamento de cada ser humano e, para aqueles que distanciaram suas vidas de Deus, o inferno. Sempre existem alguns que enfrentam tormentos bravamente a caminho do fim, mas talvez muitos mais para os quais dor e sofrimento parecem demasiado assustadores, um obst·culo para se desejar o Fim com alegria ou mesmo tranq¸ilidade.

Que quer que o fim do mundo significasse, ele tencionava a completa transformaÁ„o do mundo no espaÁo e no tempo e a sua substituiÁ„o por uma nova era de verdade e justiÁa, uma nova era que n„o seria apenas uma restauraÁ„o da bondade original, mas tambÈm uma melhoria: uma reformatio in melius, uma restauraÁ„o que seria melhor do que o original. Em

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termos judaico-crist„os, o paraÌso definitivo ser· um aperfeiÁoamento do paraÌso original de Ad„o e Eva.

A concepÁ„o crist„ de fim dos tempos deriva diretamente da BÌblica hebraica e dos

apÛcrifos, com influÍncias mais antigas do mito do Antigo Oriente PrÛximo, dualismo iraniano e do dualismo Ûrfico grego. O Antigo Oriente PrÛximo tinha muitos mitos de

criaÁ„o, mas poucos mitos escatolÛgicos, sendo a hipÛtese a de que o mundo, uma vez tendo sido feito, era eterno. A escatologia era principalmente individual, como quando o deus egÌpcio An˙bis julga cada alma na morte; mas a morte era melhorada por mitos de ressurreiÁ„o, como quando a Ishtar babilÙnica desce ao mundo inferior e emerge novamente; ou como quando o OsÌris egÌpcio È rasgado em pedaÁos, mas È reunido de novo;

ou como quando a PersÈfone grega desce ao mundo inferior todos os anos no inverno e emerge a cada primavera.

No Ir„ [antiga PÈrsia], contudo, a escatologia do mundo todo surgiu v·rias centenas de anos antes de Cristo na religi„o do mazdaismo (zoroastrismo). Quando inteiramente desenvolvido, o mazdaismo apresentou uma vis„o de mundo completamente dualista: n„o

h· um deus e nem existem muitos, mas dois: Ahura Mazda (Ohrmazd), o deus da luz e da

alegria, e Angra Mainyu (Ahriman), o deus de escurid„o e do engano. Estes dois poderes lutam entre si pelo domÌnio do mundo atÈ que, no fim, o ˙ltimo Soshyans, o Santo definitivo, apareÁa, Ohrmazd triunfe, o mal seja destruÌdo e o mundo seja purificado na Frashkart 1 , a restauraÁ„o da perfeiÁ„o. Quando o fim vier, haver· um julgamento final no qual os filhos da luz viver„o com Ohrmazd em alegria, enquanto os filhos da escurid„o perecer„o na Casa da Mentira. Este dualismo de dois espÌritos guerreiros bem pode ter influenciado a apocalÌptica judaica, embora a cronologia e as interaÁıes ainda sejam debatidas.

Pode ser neste dualismo espiritual original que a noÁ„o de grandes conspiraÁıes, t„o comum atÈ o presente, tenha se originado. Se vocÍ fosse um filho da luz, ent„o vocÍ estaria frente a frente com uma grande conspiraÁ„o mundial encabeÁada por Ahriman e apoiada por seus

1 A transfiguraÁ„o final da terra, a reabilitaÁ„o final de toda a existÍncia; literalmente o ìtornar excelenteî, significando que o mal, em todas as suas formas, est· finalmente destruÌdo (nota da tradutora).

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seguidores maus. E, È claro, caso fosse um filho da mentira, vocÍ seria continuamente frustrado e ultrajado pela conspiraÁ„o dos justos seguidores do deus da luz, que tencionariam te destruir. Os judeus sempre tÍm se sentido ameaÁados pela grande conspiraÁ„o dos gentios contra Israel e os gentios lutam contra o suposto poder dos judeus. No cristianismo, a verdadeira fÈ (definida de qualquer forma) deve defender-se da vasta conspiraÁ„o de pag„os, judeus, muÁulmanos, hereges e bruxas, todos empenhados em frustrar o trabalho salvÌfico de Cristo. No islamismo, os incrÈdulos formam uma enorme conspiraÁ„o contra o profeta, a sharíia (lei muÁulmana) e a verdadeira fÈ, enquanto que, para os crist„os, os muÁulmanos s„o os temidos incrÈdulos. Os comunistas lutavam contra a conspiraÁ„o dos vorazes capitalistas em relaÁ„o aos trabalhadores, enquanto que o mundo livre 2 era aterrorizado pela conspiraÁ„o comunista mundial. Apenas recentemente nos EUA George Bush declarou que ìqualquer um que n„o esteja conosco est· contra nÛsî. … possÌvel formular escatologias n„o-dualistas, como no budismo ou no liberalismo secular moderno, por exemplo, mas dualismo em um ou outro grau prevalece nas religiıes ocidentais e suas descendÍncias seculares. Ele tem a grande vantagem de reconhecer ñ o que È Ûbvio para qualquer um que n„o tenha sido convencido a descrer ñ que o verdadeiro mal, o mal radical, existe no mundo. Mas tambÈm tem a grande desvantagem de empurrar pessoas para estereÛtipos que podem, ent„o, serem estigmatizados como bons ou maus, promovendo, desta forma, fantasias paranÛicas, estimulando Ûdio e favorecendo guerras ñ todas das quais existiriam sem o dualismo, mas que s„o pioradas por ele.

As contribuiÁıes da GrÈcia antiga para a formaÁ„o da escatologia judaico-crist„ foram mais indiretas, apesar de, no final das contas, terem sido de grande import‚ncia, sendo a maior delas a idÈia filosÛfica grega de logos, raz„o, que eventualmente fez possÌvel a teologia judaica, crist„ e (por um tempo na Idade MÈdia) a teologia muÁulmana. ExplicaÁıes pelo mito (estÛria) e por met·fora persistiam, mas elas eram agora contestadas e refinadas pelo uso da raz„o, especialmente pela lÛgica. Por outro lado, os gregos e romanos tinham uma escatologia muito pequena: para eles o mundo era eterno, cÌclico, sem comeÁo nem fim, como quando a Eneida de VergÌlio (1278-1279) declara do povo romano: His ego nec metas rerum nec tempora pono; imperium sine fine dedi: ìpara os romanos eu n„o coloquei limites no

2 Free world: designaÁ„o para aqueles paÌses governados pelos sistemas democr·tico e capitalista, em oposiÁ„o ao sistema comunista (nota da tradutora).

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tempo ou espaÁo, mas tenho concedido a eles um impÈrio infinitoî. Embora os gregos tenham uma reivindicaÁ„o de terem fundado a histÛria com seus grandes escritores HerÛdoto e TucÌdides, atÈ o crist„o Santo Agostinho n„o foi apresentada uma descriÁ„o racional da mudanÁa atravÈs do tempo, dos comeÁos aos fins, que um senso histÛrico completo desenvolveu. Quanto ‡ luta entre bem e mal, como os antigos egÌpcios e os modernos hindus, os gregos visualizavam o mundo como uma mistura onde os dois s„o insepar·veis. Este monismo, em oposiÁ„o ao dualismo persiano, percebe humanos ñ e mesmo os deuses ñ como misturas e freq¸entemente os mostra como ìdoubletsî: no Egito, por exemplo, o ìbomî deus HÛrus ‡s vezes era mostrado sendo um com o ìmauî deus Set e

a deusa do cultivo, Hathor, È tambÈm Sekhmet, a devoradora deusa da destruiÁ„o; na Õndia,

Vishnu cria e destrÛi; na GrÈcia, Apolo n„o È apenas o deus sol, mas o destruidor, enquanto Artemis È tanto protetora das bestas quanto a deusa da caÁa; ela È tambÈm tanto a deusa da virgindade quanto a do nascimento. Este monismo È freq¸entemente encontrado mais alÈm, como com o deus centro-americano Quetzalcoatl, que traz tanto a vida como a morte, tanto

a geraÁ„o como a decadÍncia.

Mas havia uma tendÍncia de pensamento dualista na GrÈcia que foi contra este monismo: o culto de DionÌsio, que estava relacionado a um vago conjunto de idÈias conhecido ìÛrficoî. Tais idÈias, apesar de sua mitologia l˙rida e complexa, estavam presentes pelo sexto sÈculo aEC e influenciaram os filÛsofos. A mitologia b·sica È que Zeus pari um filho, DionÌsio, a quem os Tit„s (os poderes malignos da terra e do mundo inferior) rasgam e devoram. Zeus, entretanto, È capaz de salvar o coraÁ„o do garoto e de comÍ-lo, permitindo-o gerar DionÌsio novamente. Depois, em vinganÁa, Zeus destrÛi os Tit„s, reduzindo-os (e ‡ crianÁa que eles tinham devorado) a cinzas, das quais eventualmente aparece a raÁa humana. A raÁa humana, ent„o, tinha em si tanto o mal tit‚nico quanto o bem de DionÌsio. A idÈia do mito È demonstrar a luta universal entre o poder do bem e o poder do mal, mas ‡ diferenÁa dos iranianos que postulavam uma guerra entre dois espÌritos, os dionisianos defendiam uma batalha entre espÌrito (o bem) e matÈria (o mal). O propÛsito da vida È liberta-se da matÈria que nos ata ao mal e, ent„o, devolver a humanidade a alguma unidade original, instintiva. Este dualismo espÌrito-matÈria influenciou os platonistas, que pensaram nos termos de uma dicotomia mente-corpo. Mais diretamente importante para a escatologia, ele influenciou os essÍnios hebreus e os escritores hebreus prÈ-crist„os tardios, especialmente aqueles dos

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apÛcrifos e pseudepÌgrafos, de forma que no tempo de Cristo a escatologia era comum em muito do pensamento judaico, inclusive entre aqueles judeus que escolheram seguir a Cristo. Uma vez o sendo cristianismo difundido entre os gentios, estas idÈias apocalÌpticas hebraicas e dualistas foram reforÁadas nele pelo dualismo grego. As interconexıes de todos estes dualismos s„o m˙ltiplas e muitas vezes obscuras, de maneira que nenhuma linha de causa- efeito cronolÛgica pode ser extraÌda delas; È suficiente dizer que pelo comeÁo da era crist„ elas eram comuns.

A religi„o hebraica, especialmente a BÌblia hebraica (Antigo Testamento), foi de longe a maior influÍncia sobre o cristianismo. De fato, alguns historiadores plausivelmente descrevem o crescimento de duas diferentes seitas judaicas ñ os crist„os e os fariseus ñ no primeiro sÈculo EC, uma concepÁ„o que ajuda a entender muitos pontos. Primeiramente, ela torna claro que o cristianismo È, como o farisaismo (que se desenvolveu dentro do judaismo rabÌnico), uma religi„o judaica; em segundo lugar, ela nos ajuda a entender o aparente anti- semitismo encontrado no Novo Testamento. A raiva dos seguidores de Jesus estava direcionada aos fariseus e eles usavam (historicamente de forma fatalista) o termo genÈrico ìjudeusî para os fariseus. Os crist„os primitivos, sendo eles mesmos judeus, n„o poderiam ser anti-semitas ou mesmo anti-judeus; eles eram anti-fariseus e a antipatia era m˙tua, como indicado pela expuls„o dos seguidores de Jesus das sinagogas pelos fariseus em 90 EC. EsforÁos modernos est„o sendo feitos para trazer as grandes religiıes abra‚micas mais para perto, mas esse È tema para um artigo diferente. Aqui as visıes apocalÌptica, messi‚nica, ressurreiÁ„o e escatolÛgica da religi„o hebraica tardia s„o o ponto.

O mais antigo livro apocalÌptico profundo no Antigo Testamento È o Livro de Daniel (estimativas de suas datas estendem-se do sexto sÈculo aEC ao segundo sÈculo EC). A influÍncia iraniana sobre Daniel È d˙bia e geralmente È concordado pelos estudiosos que a inspiraÁ„o e justificativa para Daniel e para os apÛcrifos e pseudepÌgrafos tardios e n„o- canÙnicos repousa principalmente nos antigos profetas. As origens do apocalipsismo na religi„o hebraica s„o nativas do pensamento hebraico, contudo muito dualismo entrou nos trabalhos posteriores, de 150 aEC a 100 EC.

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A base sustentadora da apocalÌptica hebraica È a compreens„o hebraica de histÛria. Se Santo Agostinho desenvolveu a compreens„o histÛrica de forma completa no quarto sÈculo EC, o modelo que ele usou foi aquele do entendimento hebraico, segundo o qual o tempo se move para frente, de uma maneira significante, de um ponto A para um ponto B. Conservando a criaÁ„o original do cosmos, os hebreus mediam o tempo de acordo com uma sÈrie de eras. No comeÁo, Deus criou Ad„o e Eva, que decidiram seguir sua prÛpria vontade ao invÈs da vontade de Deus. Seu pecado iniciou um perÌodo de alienaÁ„o que terminou com Deus destruindo a humanidade, deixando apenas um remanescente sob NoÈ, com quem fez uma alianÁa arco-Ìris. Mas novamente a humanidade fracassou ao cultu·-lo adequadamente, necessitando da alianÁa com Abra„o, Isaque e JacÛ. Mesmo assim falhamos novamente, ent„o Deus nos enviou ao exÌlio na Terra do Egito. Ali ele nos enviou seu profeta MoisÈs, sob cujos sucessores os israelitas conquistaram o territÛrio que no sÈculo vinte e um È conhecido como Palestina ou Israel. Mas outra vez o povo falhou, ent„o Deus o puniu com ataques de impÈrios hostis, ataques culminando primeiro na conquista do Reino de Israel pelos assÌrios no oitavo sÈculo e, ent„o, na conquista do Reino de Jud· pelos caldeus (babilÙnios) no sexto sÈculo. A conquista de Jud· teve terrÌveis conseq¸Íncias, sobretudo a destruiÁ„o do Primeiro Templo (o centro da adoraÁ„o israelita) e a deportaÁ„o de um grande n˙mero de israelitas, especialmente seus lÌderes, para a Mesopot‚mia. Este perÌodo, conhecido como o Cativeiro BabilÙnico, produziu muitos dos livros do Antigo Testamento nas suas formas comumente aceitas. Tendo conquistado os caldeus, Ciro o Grande, rei da PÈrsia, devolveu JerusalÈm aos israelitas e os ajudou a reconstruir o Templo (o Segundo Templo). Mas mesmo assim, outra vez os judeus foram atacados pelos impÈrios malignos dos gregos, sÌrios e romanos, que profanaram o Templo. Seguindo a revolta in˙til de 69-70 EC contra os romanos, o Terceiro Templo (que os romanos permitiram ao rei Herodes construir) foi destruÌdo e a maioria dos judeus foi ainda para um outro exÌlio, a Di·spora, que permanece atÈ hoje. O sentido de exÌlio, tribulaÁ„o e culpa permeou o judaÌsmo do primeiro sÈculo em diante. Para os judeus, o exÌlio È simplesmente errado e deve de alguma forma ser superado, ou pela ressurreiÁ„o dos judeus em JerusalÈm e a restauraÁ„o do Templo, ou pela vinda de um Messias que ocasionaria este fim, ou pelo sionismo (desde o dÈcimo nono sÈculo), que tenciona reocupar a antiga terra de Israel. O sionismo, envolvendo uma forma de progresso secular, È uma despedida do judaÌsmo tradicional que via o fim dos tempos como um evento sobrenatural que restauraria a verdade, a justiÁa, a retid„o e o

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Templo. Este fim dos tempos È o Ponto B ˙ltimo, de modo que todo o processo desde a criaÁ„o ao fim do mundo tem propÛsito e significado intrÌnsecos.

O judaÌsmo foi a primeira religi„o a tomar tempo e histÛria seriamente e sua toler‚ncia È em

grande parte devida ao seu comprometimento com o significado, o princÌpio e o fim, de Israel e da humanidade em geral. A histÛria È uma histÛria de criaÁ„o do amor, pecado, dor, puniÁ„o e restauraÁ„o. N„o È de se estranhar que os ˙ltimos dias sejam vistos como atemorizantes e alegres.

Originalmente o Dia do Senhor era um dia de vitÛria e de regozijo pela entronizaÁ„o do Rei

de Israel (ou Jud·) como o representante do Senhor. Para os profetas do oitavo sÈculo, ele se

tornou a marca do apocalipsismo. Isaias declara que ìo dia do Senhor est· perto; ele vir· como destruiÁ„o do Todo-Poderoso! Ent„o todas as m„os estar„o dÈbeis, e todo coraÁ„o humano se derreter·, e eles estar„o apavorados. Sofrimento e agonia se apoderar„o deles

Veja, o dia do Senhor vem, cruel, com ira e f˙ria feroz, para fazer da terra uma desolaÁ„o e

para exterminar seus pecadores dela

Eu punirei o mundo por sua maldade e os maus por

sua iniq¸idade; eu colocarei um fim ao orgulho dos arrogantes e silenciarei a insolÍncia dos

tiranos

Eu farei os cÈus estremecerem e a terra ser· sacudida de seu lugar, no furor do

Senhor dos ExÈrcitos no dia de sua ira ferozî (Is 13.6-13). ìPois o Senhor vir· no fogo e suas carruagens como redemoinhos para restituir sua ira em f˙ria e sua repreens„o em chamas de fogo. Pois pelo fogo o Senhor executar· seu julgamentoî (Is 66.15-16; cf. Is 27).

O julgamento est· conectado com o Dia do Senhor. Naquele Dia, Deus vir· e salvar· os

justos, que reinar„o sobre a terra. Deus julga indivÌduos e povos: ìO Senhor julga os povos; julga-me, Senhor, de acordo com a minha retid„o e de acordo com a integridade que est· em mim. ”, deixa o mal dos Ìmpios vir ao fim, mas estabeleÁa os justosî (Sl 7.8-9; cf. Sl 96.10-

13; 98.9). ìTens mantido minha causa justa; sentaste em teu trono dando justo julgamento. Tens repreendido as naÁıes, destruÌdo os Ìmpios; tens apagado seus nomes para todo o

sempre

Mas o Senhor se assenta entronizado para sempre; ele estabeleceu seu trono para

julgamento. Ele julga o mundo com justiÁa; ele julga os povos com eq¸idadeî (Sl 9.4-8). ìLevanta-te, Û Deus, julgue a terra; pois todas as naÁıes pertencem a tiî (Sl 82.8). Tanto

seres humanos quanto anjos est„o sujeitos ao julgamento: ìNaquele dia o Senhor punir· as

Oracula 3.5, 2007.

hostes do cÈu no cÈu e sobre a terra os reis da terraî (Is 24.21). ìQuem fugir ao som do

terror cair· na covaî (Is 24.18). ìPois o dia do Senhor est· perto no vale da decis„o

limparei a culpa, pois o Senhor habita em Si„oî (Joel 4.14-21). ìEu te julgarei, Û casa de

Israel, todos vÛs de acordo com os vossos caminhosî (Ez 18.30; cf. Ez 33.20). ìDeus julgar·

os justos e os Ìmpios, pois ele fixou um tempo para casa propÛsito e para cada atoî (Ec

3.17).

Eu n„o

O julgamento È acompanhado pela salvaÁ„o dos justos ñ aqueles que permaneceram fiÈis ‡

AlianÁa. ìA luz amanhece para os justos e a alegria para os retos de coraÁ„oî (Sl 97.11). ìPois o necessitado n„o ser· sempre esquecido, nem a esperanÁa do pobre perecer· para sempreî (Sl 9.18). ìCertamente h· uma recompensa para os justos; certamente h· um Deus que julga o pobre e decide com eq¸idade pelos mansos da terraî (Is 11.4). ìSer· dito naquele dia: Veja! Este È o nosso Deus; nÛs temos esperado por ele, de maneira que ele pode nos salvar. Este È o Senhor por quem temos esperado; deixa que nos alegremos e nos

regozijemos na sua salvaÁ„oî (Is 25.9). ìNaquele dia haveis de cantar a vinha graciosa Israel brotar· e produzir· ramos e saciar· o mundo todo com frutosî (Is 27.2-6). ìNaquele dia as montanhas gotejar„o vinho doce e as colinas escorrer„o com leiteî (Joel 4.18). Mesmo

estes eu trarei

os gentios poder„o ser salvos: ìE os estrangeiros que se unirem ao Senhor

para o meu santo monte e os farei alegres em minha casa de oraÁ„oî (Is 56.6-7).

A salvaÁ„o dos justos È acompanhada por ressurreiÁ„o. ìSeus mortos viver„o, seus cad·veres

se levantar„o. ” habitantes do pÛ, despertem e cantem de alegriaî (Is 26.19). ìE naquele dia, uma grande trombeta ser· soprada e aqueles que estavam perdidos na terra da AssÌria e aqueles que foram expulsos para a terra do Egito vir„o e adorar„o ao Senhor no monte santo em JerusalÈmî (Is 27.13). O Senhor guia Ezequiel ao vale de ossos secos e o instrui a profetizar para eles: ìAssim diz o Senhor a estes ossos: eu farei carne entrar em vÛs e

vivereis

E o fÙlego veio a

dos quatro ventos, Û fÙlego, e sopra sobre estes mortos que podem viver

E os ossos se juntaram, osso ao seu osso. E quanto ao espÌrito, diz Deus, ëvenha

eles e eles viveram e se colocaram sobre seus pÈs, uma grande multid„oî (Ez 37.1-10). Tais

textos indicam que a idÈia de ressurreiÁ„o dos mortos j· existe muito antes do segundo sÈculo aEC, para cujo tempo a maioria dos estudiosos a tem remetido.

Oracula 3.5, 2007.

A justiÁa ser· restaurada. ìLevanta, brilha, pois tua luz tem chegado e a glÛria do Senhor se

O Senhor

levantou sobre ti

Em tempo prÛprio eu cumprirei isto

Alegrem-se

ser· tua luz eterna e teu Deus ser· tua glÛria

rapidamenteî (Is 60.1-22). ìPois eu estou preste a criar novos cÈus e nova terra

e regozijem-se para sempre no que estou criando; pois estou preste a criar JerusalÈm como

um gozo e seu povo como um deleiteî (Is 65.17-18). ìRegozija-te com JerusalÈm e alegra-te

por ela

Pois como os novos cÈus e a nova terra que farei permanecer„o diante de mim, diz

O Senhor se levantar· sobre ti e sua glÛria aparecer· sobre ti

o

Senhor, tambÈm vossos descendentes e vosso nome permanecer„oî (Is 66.10-22).

O

Livro de Daniel, o livro mais apocalÌptico no Antigo Testamento, embora inteiramente

dentro de sua tradiÁ„o, pode ser tratado separadamente dos outros. Daniel (cap. 2),

interpretando o sonho de Nabucodonosor sobre os quatro reinos, estabelece uma das muitas sucessıes apocalÌpticas de eras (embora sete, correspondendo aos sete dias da CriaÁ„o, tenha

se tornado mais comum que quatro). Quatro impÈrios perversos governar„o sobre a terra,

mas ser„o destruÌdos e substituÌdos por uma quinta monarquia dominada pelo AltÌssimo. A idÈia de um Messias (Mashiach: ìreiî) por vir estava agora bem estabelecida no pensamento judaico. Daniel diz que quatro bestas aparecer„o nos ˙ltimos dias e que seus poderes malignos ser„o destruÌdos pelo Senhor ñ uma outra imagem a ser utilizada na RevelaÁ„o neotestament·ria ou Apocalipse de Jo„o (Dn 7). A quarta besta, particularmente poderosa, foi tomada no Apocalipse posterior para representar o Diabo ou, para os crist„os, o

Anticristo. Ela ìdevorar· toda a terra e a pisotear· e a quebrar· em pedaÁos

palavras contra o AltÌssimoÖ Ent„o a corte se sentar· em julgamento e seu domÌnio ser· tirado para ser consumido e totalmente destruÌdo. A realeza e o domÌnioÖ ser„o dados ao povo dos santos do AltÌssimo; seu reino ser· um reino eternoî (Dn 7.23-27). Daniel teve uma outra vis„o na qual um anjo conta a ele ìo que acontecer· posteriormente no perÌodo de ira; pois ela [a vis„o] se refere ao tempo fixado do fimî (Dn 8.17-18). Quatro reinos se levantar„o e, ent„o, no fim, um outro ìrei de semblante destemido se levantar·, h·bil em intriga. Ele crescer· forte em poder, causar· terrÌvel destruiÁ„o e ter· sucesso naquilo que faz. Ele destruir· os poderosos e o povo dos santos. Por sua perspic·cia ele far· o engano prosperar sob sua m„o e em sua prÛpria mente ele ser· grande. Sem aviso ele destruir· a muitos e se levantar· atÈ mesmo contra o PrÌncipe dos prÌncipes, mas ele ser· quebrado e

Ela falar·

n„o por m„os humanasî (Dn 8.23-25). Esta figura tambÈm seria interpretada pelos crist„os

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como o Diabo ou como o Anticristo, o servo do Diabo. Mesmo os s·bios no ultimo dia ìcair„o por espada e fogo e sofrer„o cativeiro e saqueî (Dn 11.33). Mas ent„o, ìMiguel, o grande prÌncipe, o protetor de nosso povo, se levantar·. Haver· um tempo de ang˙stia, tal como nunca houve desde que as naÁıes pela primeira vez vieram ‡ existÍncia. Mas naquele tempo nosso povo ser· livrado, cada um que for encontrado escrito no livro. Muitos daqueles que dormem no pÛ da terra despertar„o, alguns para a vida eterna e alguns para vergonha e desprezo eternos. Aqueles que s„o s·bios brilhar„o como o esplendor do firmamento e aqueles que levam muitos ‡ justiÁa como as estrelas para todo o sempreî (Dn

12.1-3).

Daniel teve uma vis„o do escolhido por vir: ìEu vi um como um homem vindo com as

A ele foram dados domÌnio e glÛria e majestadeÖ Seu domÌnio È um

domÌnio eterno que n„o passar· e sua realeza jamais ser· destruÌda

receber„o o reino e o possuir„o para sempreî (Dn 7.13-18). Aqui est„o os motivos do Livro

da Vida, no qual os nomes dos salvos est„o inscritos, bem como uma clara indicaÁ„o de ressurreiÁ„o.

Os santos do AltÌssimo

nuvens do cÈu

Daniel tambÈm menciona, embora com falta de clareza, uma abominaÁ„o da desolaÁ„o (Dn 12.11), uma frase a ser, mais tarde, freq¸entemente usada por crist„os. A Ínfase na apocalÌptica se tornou muito maior no pensamento hebraico do segundo sÈculo aEC em diante e continuou tanto no judaÌsmo como no cristianismo. Os resultados de tais visıes apocalÌpticas s„o duplos: elas oferecem esperanÁa, coragem e alegria para aqueles que amam ao Senhor; elas oferecem ruÌna e destruiÁ„o para os que n„o o amam. Esta dicotomia È verdadeira para indivÌduos e naÁıes, para seres humanos e anjos. A idÈia de que o mal est· solto e que est· chegando em breve para uma cabeÁa em um dia (ou perÌodo), quando deveremos passar por grande tentaÁ„o e sofrimento nas m„os dos malfeitores, tem muitas vezes promovido um terror de conspiraÁ„o e, na pior das hipÛteses, uma demonizaÁ„o de pessoas e naÁıes (e cosmovisıes). Assim, a apocalÌptica, como explosivos, È algo a ser manuseado muito cuidadosamente.

Motivos apocalÌpticos foram bastante desenvolvidos nos apÛcrifos (ìlivros ocultosî) e pseudepigr·ficos (livros escritos sob o nome de antigos profetas) judaicos n„o-canÙnicos. O

Oracula 3.5, 2007.

Primeiro Livro de Enoque, supostamente uma vis„o pelo patriarca Enoque mencionado em GÍnesis 5.24 foi, na verdade, escrito em algum ano entre 160 aEC e 100 EC, perÌodo que tambÈm produziu as visıes apocalÌpticas de Daniel no Antigo Testamento e as de Jo„o no Novo. O Pseudo-Enoque apresenta a vis„o tÌpica e ambivalente do fim dos tempos:

horrores seguidos por resoluÁ„o e restauraÁ„o. Mas desde o comeÁo enfatiza o bem ˙ltimo.

ìEu falo sobre os eleitos O Deus do universo, o Grande Santo, sair· do esconderijo de sua

E haver· um julgamento sobre todos, (inclusive) os justos. E para todos os justos

ele conceder· paz. Ele preservar· os eleitos e a bondade estar· sobre eles. Todos pertencer„o

morada

a Deus, todos prosperar„o e ser„o benditos; e a luz de Deus brilhar· para elesî (En 1.3-9). No fim dos tempos, as forÁas de Azazíel ou Semyaza (anjos do Diabo) ser„o amarradas

sobre a terra por setenta geraÁıes; ent„o anjos e seres humanos maus ser„o mergulhados ìno fundo do fogo ñ e em tormentoî para sempre (En 10.12-14), mas tambÈm ìnaqueles dias eu

abrirei os depÛsitos de bÍnÁ„o

do mundo e em todas as geraÁıes do mundoî (En 11.1-2).

E paz e verdade se tornar„o companheiras em todos os dias

[Naquele ˙ltimo] dia meu Eleito se sentar· no lugar de glÛria e far· uma seleÁ„o dos

suas almas estar„o firmes dentro deles quando eles verem meu Eleito,

aquele que tem invocado meu glorioso nome. Naquele dia eu motivarei meu Eleito a habitar entre eles; eu transformarei o cÈu e o farei uma bÍnÁ„o de luz para sempre. Eu transformarei a terra e a farei uma bÍnÁ„o e motivarei meu Eleito a habitar nela Mas pecadores tÍm de vir diante de mim, de maneira que pelo julgamento eu os destruirei da face da terra (En 45.3-6).

feitos deles

Enoque antevÍ a ressurreiÁ„o: ìNaqueles dias, [o mundo dos mortos] devolver· todos os depÛsitos que recebeu e o inferno devolver· todos aqueles que ele deve. E [o Eleito] escolher· os justos e os santos entre [os ressuscitados], pois o dia quando eles ser„o eleitos e salvos chegou. Naqueles dias, [o Eleito] se sentar· sobre meu tronoÖ E a terra se regozijar·;

e os justos habitar„o sobre ela e os eleitos caminhar„o sobre elaî (En 51.1-5). ìOs eleitos

[estar„o] na luz da vida eterna que n„o tem fim e os dias da vida dos santos n„o podem ser

numerados

a luz ser· permanente diante do Senhor dos EspÌritosî (En 58.3-6). As visıes do Pseudo-

Enoque sobre o fim seguem pelo livro, revelando um sentido de Dia do Senhor, de Eleito (o

Haver· uma luz que n„o tem fim e eles n„o ter„o (mais) que contar dias. Pois

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Messias), de julgamento, de condenaÁ„o dos Ìmpios e alegria dos justos, de ressurreiÁ„o e de renovaÁ„o ˙ltima dos cÈus e da terra. Tais motivos foram essenciais na transformaÁ„o da escatologia crist„ primitiva.

O cristianismo n„o È essencialmente uma religi„o escatolÛgica (como alguns estudiosos do

vigÈsimo sÈculo acreditavam), mas a escatologia certamente È central para ele. A humanidade como um todo sofre a Paix„o de Cristo: a histÛria da humanidade È repulsiva, horrÌvel e mortÌfera ñ mas no fim existe um novo mundo, um mundo sem sofrimento e dor. Este artigo trata o cristianismo do primeiro sÈculo como um todo; ele n„o est· preocupado com qual das epÌstolas paulinas È do prÛprio Paulo, ou como os Evangelhos concordam ou n„o concordam, ou se as palavras e aÁıes de Jesus s„o ìacuradamenteî relatadas. Ao invÈs, o ponto È o que os crist„os do primeiro sÈculo transmitiram ‡ comunidade crist„ do segundo sÈculo em diante. O judaÌsmo e o cristianismo do primeiro sÈculo testemunharam um n˙mero de eventos fundantes que fixariam o padr„o de escatologia por milhares de anos: a vinda de Cristo, a destruiÁ„o do Terceiro Templo em 70 EC depois da rebeli„o falida contra

o ImpÈrio Romano, o (atÈ agora desconectado) rompimento entre a comunidade judaico-

crist„ e a comunidade judaico-rabÌnica e o crescente senso de que estes eventos pressagiavam

um fim para o mundo que viria em breve

Nos ˙ltimos sÈculos aEC, a religi„o hebraica, sob a press„o de impÈrios perversos, esperou

de forma progressiva a vinda do Messias, o qual derrotaria os impÈrios e restauraria Israel

com verdade e justiÁa. Para seus seguidores, Jesus era ìo Messias nomeado para vÛsî (At 3.20). O significado ˙ltimo do fim È que o mundo ser· transformado, feito novamente, e que

a antiga ordem, a antiga era de mal e corrupÁ„o, ser· substituÌda, ìdesordenadaî do mal para

o bem. O advento terreno de Jesus anuncia justamente tal transformaÁ„o. Com Jesus, a

antiga ordem ñ o mundo no sentido da sociedade humana ñ j· est· experimentando o processo de destruiÁ„o e reconstruÁ„o; neste sentido, Jesus traz consigo o comeÁo do eschata. Elizabeth [Isabel] exclama para Maria ìbendita seja ela que creu que haveria uma realizaÁ„o do que lhe foi dito pelo Senhorî, e Maria replica com o Magnificat, que inclui poderosas promessas revolucion·rias: ì[O Senhor] espalhou o orgulho nos pensamentos dos seus coraÁıes. Ele abaixou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes; ele saciou os

famintos com coisas boas e despediu os ricos vaziosî (Lc 1.45-53). E no ìSerm„o da

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Montanhaî, Jesus promete que ìbenditos s„o os pobres no espÌrito, pois deles È o reino dos cÈus. Benditos s„o aqueles que est„o de luto, porque ser„o confortados. Benditos s„o os mansos, porque eles herdar„o a terra. Benditos s„o aqueles famintos e sedentos por justiÁa, porque ser„o saciados. Benditos s„o os misericordiosos, porque eles receber„o misericÛrdia. Benditos os puros no coraÁ„o, porque eles ver„o a Deus. Benditos s„o os pacificadores, porque eles ser„o chamados filhos de Deus. Benditos aqueles que s„o perseguidos pela seguranÁa da justiÁa, porque deles È o reino do cÈuî (Mt 5.3-10). Este È o comeÁo da escatologia pura neste mundo: toda a estrutura de sucesso atravÈs de riqueza, fama e poder ser· destruÌda e substituÌda por uma estrutura de amor e paz. O caminho j· est· apresentado e sua meta È o eschata literal, as ˙ltimas coisas literais que vir„o no fim dos tempos, ìnaquele diaî.

Quando È esse dia? ìN„o sabeis o dia nem a horaî (Mt 25.13; cf. At 1.7). Mas È em breve:

ìDe ora em diante vereis o Filho do Homem sentado ‡ direita do Poder e vindo sobre as

nuvens do cÈuî (Mt 26.64; cf. Mc 14.32), e ser· repentino e radical: ìE vos digo, naquela noite haver· dois numa cama; um ser· levado e o outro deixado. Haver· duas mulheres estar„o moendo a refeiÁ„o juntas; uma ser· levada e a outra ser· deixadaî (Lc 17.34-35). ìEis que venho em breve; minha recompensa est· comigo, para retribuir de acordo com o trabalho de cada umî (Ap 22.12). O Dia do Senhor anuncia a libertaÁ„o do cosmos, mas ser· um dia apavorante para todos e, para aqueles devotados ao mal, este È o dia de sua destruiÁ„o. … o dia da cÛlera contra a antiga ordem, a ordem de Satan·s e a era da riqueza e poder terrenos. ìBendito È o que vem em nome do Senhorî (Mc 11.9), mas para aqueles que n„o vÍm, ìcom seu coraÁ„o duro e impenitente est„o acumulando ira para si mesmos no dia

da ira, quando o justo julgamento de Deus ser· reveladoî (Rm 2.5). Os horrores do Dia s„o

particularmente manifestados no Apocalipse de Jo„o: ìcaiam sobre nÛs e nos escondam da face daquele que est· sentado no trono e da ira do Cordeiro, pois o grande dia da sua ira chegou, e quem poder· ficar de pÈ?î (Ap 6.16-17); ìai, ai dos habitantes da terraî (Ap 8.13).

O terror do Dia È especialmente o julgamento que ele traz sobre todos nÛs (o cristianismo È

chamado ìmuletaî apenas por aqueles que n„o entendem as dores da morte do Filho de Deus ou o horror do julgamento divino). ìQuando o Filho do Homem vier em sua glÛria e

todas as naÁıes ser„o reunidas diante dele e ele separar· pessoas

todos os anjos com ele

Oracula 3.5, 2007.

umas das outras como um pastor separa as ovelhas dos bodesî (Mt 25.31-32). Cristo dir·:

ìafastai-vos de mim, todos vÛs malfeitores! Haver· choro e ranger de dentes quando virdes Abra„o, Isaque, JacÛ e todos os profetas, e vÛs mesmos lanÁados foraî (Lc 13.27-28). ìEle

retribuir· de acordo com os feitos de cada um

ele dar· vida eterna; enquanto que para aqueles que s„o egoÌstas e que n„o obedecem ‡

verdade, mas ‡ maldade, haver· ira e f˙riaî (Rm 6-8). ìE vi os mortos, grandes e pequenos,

de pÈ diante do trono

Cristo È o juiz ìdos vivos e dos mortosî (2 Tm 4.1). ìAs naÁıes se enfureceram, mas sua ira chegou e o tempo para o julgamento dos mortos, para recompensar seus servos, os profetas, os santos e todos os que temem seu nome, pequenos e grandes, e para destruir aqueles que

destroem a terraî (Ap 11.18). O julgamento recai sobre anjos, bem como sobre seres humanos: ìE os anjos que n„o mantiveram sua prÛpria posiÁ„o, mas deixaram suas habitaÁıes prÛprias, ele tem mantido em cadeias eternas nas mais profundas trevas para o julgamento do grande Diaî (Judas 6). ìPois a nossa luta n„o È contra inimigos de sangue e carne, mas contra os dominadores, contra as autoridades, contra os poderes cÛsmicos destas

trevas presentes, contra as forÁas espirituais do mal nas regiıes celestiaisî (Ef 6.12). ìOs cÈus

e a terra atuais foram reservados para o fogo, sendo mantidos atÈ o dia do julgamento e destruiÁ„o dos Ìmpiosî (2 Pe 3.7).

E os mortos foram julgados de acordo com suas obrasî (Ap 20.12).

[para aqueles que amam a Deus e ao bem]

Destes e de outros textos do Novo Testamento os crist„os derivariam a idÈia de dois julgamentos: o ìJulgamento Particularî ou pessoal de cada indivÌduo no tempo da morte e o ìJulgamento Geralî ou ⁄ltimo sobre indivÌduos, comunidades e toda a raÁa humana. O Novo Testamento n„o È tÌmido ao expressar o destino daqueles cujas vidas n„o foram

justificadas. ìOs anjos

separar„o os maus dos justos e os lanÁar„o na fornalha de fogo,

onde haver· choro e ranger de dentesî (Mt 13.49-50; cf. Mt 22.13; 25.30). ìVÛs que sois

Estes

malditos, apartai-vos de mim para o fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos

ir„o para puniÁ„o eterna, mas os justos para a vida eternaî (Mt 25.41; cf. Ap 20.10). De fato,

a prÛpria morte possui dois significados: a morte fÌsica, que significa a separaÁ„o tempor·ria

entre corpo e espÌrito, e a infinitamente mais apavorante morte espiritual, que destrÛi o mal e

bane aqueles que o seguem da presenÁa de Deus para todo o sempre (teÛlogos tradicionais distinguem entre ìalmaî, o ser humano completo em espÌrito e corpo, e ìespÌritoî, a parte n„o-material da alma). A idÈia de duas mortes È freq¸ente no cristianismo primitivo ñ a

Oracula 3.5, 2007.

morte do corpo e, no fim dos tempos, a morte da alma m·: ìQuanto [aos malfeitores], seu lugar ser· no lago que arde com fogo e enxofre, que È a segunda morteî (Ap 21.8).

A luta progressiva do mal contra o bem È epitomizada e concluÌda por batalhas entre Cristo

e Satan·s, pois Satan·s È o originador do mal e o lÌder de todos os malfeitores. Muitas vezes

o advers·rio de Cristo nestas batalhes È o Anticristo (um ser humano ou um conjunto de

seres humanos), que conduzir· os exÈrcitos de Satan·s na Guerra Final. Como Cristo faz a vontade do Pai, assim o Anticristo faz a vontade de seu pai, o Diabo. ìMuitos falsos profetas se levantar„o e levar„o muitos para fora do caminhoî (Mt 24.11). ìFilhos, esta È a ˙ltima hora! Como tendes ouvindo que o anticristo est· chegando, tambÈm agora muitos anticristos tÍm vindoî (1 Jo 2.18); ìtodo espÌrito que n„o confessa a Jesus n„o È de Deus. E este È o espÌrito do anticristo, do qual tendes ouvido que est· chegando, e que agora j· est· no mundoî (1 Jo 4.3).

A EncarnaÁ„o de Deus em Cristo È necess·ria para sujeitar estes poderes: ìAqueles que n„o

confessam que Jesus Cristo veio em carne; qualquer semelhante pessoa È o enganador e o anticristoî (2 Jo 7). O ìDia n„o vir· a menos que a rebeli„o venha primeiro e o fora da lei

seja revelado, aquele destinado ‡ destruiÁ„o

trabalhos de Satan·sî (2 Ts 2.3,9). A identificaÁ„o n„o apenas de pecadores, mas tambÈm de incrÈdulos como anticristo ou seguidores de Satan·s teve o efeito n„o-salutar de encorajar povos a pensarem de seus confrontos com outros como confrontos entre nÛs (os justos) e eles (os diabÛlicos). A antiga crenÁa hebraica na luta de Israel contra impÈrios malignos foi continuada na luta crist„, primeiro contra o perverso ImpÈrio de Roma e, ent„o, depois de Roma ter se convertido ao cristianismo, contra os outros reinos perversos e impÈrios deste mundo.

A vinda do fora da lei est· aparente nos

O Apocalipse de Jo„o È a express„o mais vÌvida da guerra entre Cristo e Satan·s; as muitas

bestas que ele retrata s„o representativas das forÁas do Diabo, especificando que a maior das bestas tinha ìo n˙mero de uma pessoa. Seu n˙mero È 666î (Ap 13.17-18). Nenhuma passagem bÌblica teve efeito sobre a escatologia na mesma medida que o comeÁo de Apocalipse 20:

Oracula 3.5, 2007.

Ent„o eu vi um anjo descendo dos cÈus, trazendo em suas m„os a chave para o abismo e uma grande corrente. Ele amarrou o drag„o, aquela antiga serpente que È o Diabo e Satan·s, e acorrentou-o por mil anos e o atirou dentro do abismo, fechando-o e selando-o, de maneira que n„o mais enganaria as naÁıes atÈ que os mil anos fossem terminados. Depois disso, ele deve ser solto por pouco tempoî (Ap 20.1-3; cf. Ap 20.4-7).

Esta passagem complicou a escatologia crist„ primitiva e conduziu a uma enorme variedade de expectativas milenaristas, muitas das quais ainda persistem: Cristo tem de vir duas vezes para colocar um ponto final ao mal? Reina o Diabo por mil anos ou governa Cristo por mil anos? Ou as duas coisas? Ou o que? Este artigo pode apenas sugerir uma partÌcula nesta estranha, diversa, porÈm rica tradiÁ„o.

Ligados ‡ ⁄ltima Batalha est„o os tempos de tribulaÁ„o que encapsulam todas as dores do mundo e que devem ocorrer antes que Cristo possa vir novamente. Em uma passagem por vezes chamada ìo pequeno apocalipseî e que soma a dor e a vitÛria do fim dos tempos, Jesus diz:

E havereis de ouvir sobre guerras e rumores de guerras. Cuidado para n„o vos alarmardes. … preciso que aconteÁa, mas ainda n„o È o fim. Pois se levantar· naÁ„o contra naÁ„o e reino contra reino. E haver· fome e terremotos em todos os lugares.

Tudo isso ser· o princÌpio das dores. Nesse tempo vos entregar„o ‡ tribulaÁ„o e vos

matar„o e sereis odiados de todos os povos por causa do meu nome

portanto, virdes a abominaÁ„o da desolaÁ„o de que fala o profeta Daniel instalada no

ent„o os que estiverem na JudÈia fujam para as montanhas, aquele que

estiver no terraÁo, n„o desÁa para apanhar as coisas da sua casa e aquele que estiver

no campo n„o volte atr·s para apanhar as suas vestes

uma grande tribulaÁ„o tal como n„o houve desde o princÌpio do mundo atÈ agora Logo apÛs a tribulaÁ„o daqueles diasÖ aparecer· no cÈu o sinal do Filho do HomemÖ e [as naÁıes] ver„o o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do cÈu com poder e grande glÛria. E ele enviar· seus anjos que, ao som da grande trombeta,

reunir„o os seus eleitos dos quatro ventos (Mt 24.6-31; cf. Mc 13.3-37).

Pois naquele tempo haver·

lugar santo

Quando,

Oracula 3.5, 2007.

O Livro do Apocalipse apresenta os sofrimentos do fim dos tempos em termos aterrorizantes, descrevendo pragas, fome, sangue, trevas, fogo e sofrimento, a agonia completa a terminar na batalha do Armageddon ou Armagedom (Ap 14.19; 15.16). Na verdade, toda a vis„o apocalÌptica de Jo„o È uma met·fora ampliada para os ˙ltimos dias, embora muito de sua import‚ncia histÛrica esteja baseada em entendimentos claros (ìliteraisî) do texto como profetizador de uma histÛria futura, movimentando, assim, uma especulaÁ„o sem fim, do primeiro ao vigÈsimo primeiro sÈculo, de que personagens ou naÁıes realmente s„o as bestas malignas descritas no livro. Ademais, as imagens em tons variados apresentadas em Apocalipse ñ as trombetas, os tronos, as t˙nicas brancas, as coroas douradas, as sete tochas, os sete selos do rolo, as quatro bestas, os quatro anjos ou ìcavaleirosî, a guerra no cÈu entre (o arcanjo) Miguel e o ìgrande drag„oî e ìantiga serpente, que È chamada o Diabo, Satan·sî, a besta do mar, a besta da terra, a marca da besta, as sete taÁas da ira, a grande prostituta e BabilÙnia, ìa m„e das meretrizesî, as pedras preciosa e o ouro da cidade celestial, o trono do Cordeiro debaixo do qual flui a ·gua da vida e muitos outros motivos ñ repousaram profundamente na consciÍncia crist„ e se expressaram freq¸ente e poderosamente em trabalhos de arte e literatura (Ap 4-5; 8; 12-14; 16-17; 20-22). E embora o livro seja ultimamente um livro de esperanÁa, terminando com palavras atribuÌdas a Jesus, ìcertamente venho em breveî (Ap 22.20), s„o as imagens luridamente assustadoras dos ˙ltimos dias que foram expressas com mais freq¸Íncia.

Estas dores ser„o banidas pela segunda vinda de Cristo, que livrar· a cada um de nÛs, Israel e todo o mundo do mal. Da mesma forma que o prÛprio Cristo sofreu e depois se levantou dos mortos, tambÈm todos os seres humanos se levantar„o, os fiÈis para o gozo eterno e os malfeitores para o sofrimento que nunca cessa. A ressurreiÁ„o geral realiza, amplia e completa a ressurreiÁ„o do prÛprio Cristo: ìDe fato, Cristo ressuscitou dos mortos, primÌcia dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, tambÈm por um homem vem a ressurreiÁ„o dos mortos. Pois assim como todos morrem em Ad„o, em Cristo todos receber„o a vidaî (1 Co 15.20-22; cf. At 4.2; 1 Ts 4.13-17, que implica o arrebatamento dos vivos aos cÈus no fim; 1 Pe 1.2-4). Assim, a justiÁa original na qual Ad„o e Eva foram criados e ‡ qual deixaram de lado È restaurada por Cristo, mas ela È uma restoratio in melius, melhor que o paraÌso original, pois agora Deus mesmo se tornou humano

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(como n„o tinha se tornado nos dias de Ad„o). Dessa forma, Deus reconecta o alfa ao Ùmega, o comeÁo ao fim, o paraÌso de Ad„o e Eva ao cÈu de Cristo.

Esta È a nova criaÁ„o, a nova cidade, os novos cÈu e terra, o novo cosmos, a ìrestauraÁ„o universalî (At 3.21) que IsaÌas profetizou. Existe uma nova criaÁ„o: ìpassaram-se as coisas antigas; eis que tudo se fez novoî (2 Co 5.17; cf. Ap 21.5). ìVi tambÈm descer do cÈu , de junto de Deus, a Cidade santa, uma JerusalÈm nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu maridoî (Ap 21.2; 3.12). Sim, a escatologia È um terror, mas È muito mais uma alegria e uma libertaÁ„o e a mensagem escatolÛgica do Novo Testamento È mais uma mensagem de esperanÁa e amor do que uma mensagem de medo. O sofrimento È real, mas ele ser· suplantado por Cristo em felicidade universal e eterna.

O cristianismo dos trÍs primeiros sÈculos lidou de duas formas com conceitos de fim dos tempos deixados a eles pelo Novo Testamento: expandindo e acrescentando detalhes a eles e usando a raz„o para reconcili·-los e organiza-los.

De acordo com Justino M·rtir (c. 100-165), no fim os justos ser„o ressuscitados para participarem em uma vida de calma e abund‚ncia em uma JerusalÈm restaurada por mil anos; ent„o vir· um julgamento geral de todos. Para Justino e outros crist„os primitivos, o n˙mero de julgamentos estava em quest„o. Na morte, cada pessoa passa por julgamento imediatamente? Ou o julgamento da pessoa È postergado atÈ o ⁄ltimo Julgamento? Ou È confirmado no ⁄ltimo Julgamento? Ou s„o ambos os julgamentos a mesma coisa para Deus, que vÍ todo o tempo como um? Haver· um julgamento geral no tempo da ressurreiÁ„o, ou ele ser· apÛs mil anos, ou haver· dois julgamentos gerais? Em todo caso, os pais da igreja estavam todos de acordo em que o julgamento de Deus sempre permaneceria o mesmo: isto È, o julgamento que uma pessoa merece no tempo de sua morte n„o ser· mudado no ⁄ltimo Julgamento. Mas, argumentaram Paulino (c. 354-431) e JerÙnimo (c. 345-420), visto que nenhum de nÛs È sem pecado (exceto Jesus e Maria) e posto que a maioria de nÛs possui um bom n˙mero de imperfeiÁıes, deve haver no julgamento um momento de purificaÁ„o pelo fogo para aqueles que n„o s„o nem perfeitos nem amaldiÁoados. Hil·rio de Poitiers (c. 315- 368), AmbrÛsio (c. 339-397) e JerÙnimo viam a purificaÁ„o como extremamente dolorosa. Ent„o, para evit·-la deverÌamos levar uma vida t„o simples e agradecida quanto possÌvel.

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Esta idÈia de um momento de purgaÁ„o seria expandida pelo dÈcimo segundo sÈculo atÈ um tempo de purgaÁ„o, que depois se tornou conhecido como PurgatÛrio. A purgaÁ„o, apesar de ser tormento, n„o est· conectada com o inferno, mas com o cÈu: qualquer um que esteja no processo de purgaÁ„o est· destinado ao cÈu.

A purgaÁ„o È an·loga ao tempo de testes ou tribulaÁıes que a comunidade inteira, na verdade o mundo todo, deve resistir antes do momento da salvaÁ„o. Tertuliano (c. 160-225) viu na perseguiÁ„o dos crist„os pelo ImpÈrio Romano pag„o uma realizaÁ„o da profecia apocalÌptica das pragas, fome, guerras e perseguiÁ„o. Os crist„os continuaram a ver Roma como um dos impÈrios malignos que os hebreus, e agora os crist„os, tinham que padecer ñ atÈ que no quarto sÈculo o ImpÈrio Romano se convertesse e outras naÁıes pag„s remanescentes fossem estigmatizadas como malignas. SulpÌcio Severo (c. 360-430) e muitos historiadores crist„os depois dele acreditaram que haveria dez perseguiÁıes ou tribulaÁıes. Para SulpÌcio, o Imperador Nero era o Anticristo, ou talvez Nero governasse sob Satan·s no Ocidente enquanto o Anticristo reinasse sob Satan·s no Oriente. Tertuliano acreditava que o Anticristo seria um falso profeta imitando a Cristo e levando muitos para fora do caminho. Irineu (c. 130-200) declarou que o Anticristo seria um governador humano injusto na terra que encorajaria e apoiaria toda mentira e crueldade e que iludiria a muitos no pensamento de que ele È um deus; ao final ele seria destruÌdo por Cristo, que estabeleceria um reino de harmonia, plenitude e paz. Lact‚ncio (c. 250-325) desenvolveu um cen·rio no qual o Anticristo seria um rei da SÌria que reinaria por trÍs anos e meio, depois dos quais a ⁄ltima Batalha aconteceria, na qual os judeus seriam convertidos e os pag„os destruÌdos. Atipicamente, mas n„o sem precedente bÌblico, OrÌgenes (c. 185-254) disse que o Anticristo È uma met·fora para qualquer um e para tudo que obstrui o plano de Deus para o cosmos, mas JerÙnimo insistiu que o Anticristo era um indivÌduo humano real, que seria um falso Messias enganando indivÌduos e naÁıes inteiras ao realizar falsos milagres e ao reconstruir o Templo. Pelo quarto sÈculo, era comum acreditar que o Anticristo era um judeu de pais humanos ou de uma mulher humana (possivelmente uma prostituta de BabilÙnia) com Satan·s, vindo da tribo de Dan e nascido na BabilÙnia. Os servos do Anticristo eram perseguidores, romanos, judeus, hereges, muÁulmanos (mais tarde) e todos os crist„os que se voltaram contra Deus.

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A idÈia apocalÌptica que oferecia a maior dificuldade aos pais primitivos, e certamente ao sÈculo vinte e um, era o milÍnio. O milÍnio, sugeriram OrÌgenes, JerÙnimo e Agostinho (354-430), deveria ser considerado metaforicamente. Havia muitos nÌveis de sentido na BÌblia: claro (ìliteral), significando objetiva, cientifica ou historicamente a verdade; metafÛrico; moral; e escatolÛgico. O milÍnio poderia legitimamente ser tomado como uma met·fora escatolÛgica. Mas nenhum destes teÛlogos influentes o consideraram apenas uma met·fora: haveria de fato um perÌodo de tempo no futuro que pudÈssemos chamar um milÍnio. Mas este era apenas o comeÁo da dificuldade, pois n„o foi resolvido se o milÍnio precederia a Segunda Vinda de Cristo ou se ele a sucederia; ou se o milÍnio acontece na terra ou no cÈu. Um n˙mero de pessoas (agora chamadas milenaristas), incluindo os montanistas e alguns gnÛsticos, enfatizavam o milÍnio como uma parte importante de suas teologias, mas os grandes escritores OrÌgenes, JerÙnimo e Agostinho condenaram fazÍ-lo central e preferiram (como a maioria dos escritores depois deles) deix·-lo permanecer ambÌguo. Eles argumentavam que o Apocalipse de Jo„o n„o deveria ser considerado como profetizador de pessoas e eventos histÛricos futuros especÌficos. Apesar de tudo, visıes milenaristas continuariam a surgir repetidamente na Idade MÈdia, no perÌodo moderno (com Swedenborg) e nos Estados Unidos de hoje.

Irineu, numa vis„o diferente de todo o catastrofismo inerente ao pensamento apocalÌptico, ressaltou que Deus poderia conduzir os seres humanos gradualmente e sem agonia em direÁ„o ‡ nossa perfeiÁ„o em Deus. E OrÌgenes argumentou fortemente pelo que ele chamou apokatastasis, o eventual retorno de todos os seres humanos, animais e todo o cosmos a Deus, que o criou ao origin·-lo de si mesmo e que o reabsorveria: o resultado, se catastrÛfico ou gradual, terminaria em glÛria. O Credo Niceno (quarto e quinto sÈculos) declara que Cristo vir· em glÛria para julgar os vivos e os mortos, que seu reino n„o ter· fim, que os mortos ser„o ressuscitados e que haver· vida na era por vir. GlÛria ñ um conceito n„o popular nos primeiros anos do sÈculo vinte e um ñ È essencial para compreender o conceito crist„o do fim. N„o apenas todas as coisas ser„o refeitas e boas; elas ser„o glorificadas, explodindo em amor, luz, forÁa e alegria.

Agostinho de Hipona, o mais influente de todos os teÛlogos crist„os, foi o primeiro a expor uma teoria clara de tempo. Para Deus, que est· fora do tempo e do espaÁo, todo o tempo È

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˙nico; para nÛs, que estamos dentro do tempo e do espaÁo, o tempo est· se movendo inexoravelmente do comeÁo para o fim. Agostinho argumentou que todos os humanos anteriores a Cristo tinham sido preparaÁ„o para sua EncarnaÁ„o e Paix„o e que, agora, apÛs a Primeira Vinda de Cristo, o presente e o futuro s„o uma preparaÁ„o para a sua Segunda Vinda. Em seus dias juvenis e otimistas, Agostinho tomou uma posiÁ„o gradualista: todo o propÛsito do tempo desde Cristo È conduzir mais e mais pessoas ‡ verdade, de maneira que Cristo possa vir novamente quando o mundo estiver preparado para ele. Nesta concepÁ„o gradualista, o fim do mundo, embora de fato ocorra, È menos importante que o presente. Como n„o temos, na prÛpria demonstraÁ„o de Cristo, nenhuma idÈia de quando ele vir· outra vez, n„o faz sentido insistir extensivamente no fim dos tempos. O que È importante È a luta entre o que Agostinho notoriamente chamou ìAs Duas Cidadesî, an·logas aos dois reinos ñ o de Deus e o de Satan·s. A Cidade de Deus, a cidade celestial, tem como seus cidad„os os anjos bons e os santos ñ os fiÈis do passado, do presente e do futuro. A outra cidade È a Cidade de Satan·s, daqueles anjos e pessoas que praticam o mal. No presente, os cidad„os de cada Cidade s„o conhecidos apenas por Deus, pois as sociedades terrenas ñ incluindo a Igreja ñ que observamos de nossa perspectiva humana, limitada ao tempo, s„o misturas de bem e de mal. O final dos tempos ser· apenas isso ñ o fim do tempo ñ e o que È

eternamente patente a Deus ser· revelado. Agostinho, novamente insistindo em que n„o podemos conhecer como e quando o fim vir·, acreditou (A Cidade de Deus 20.30), contudo, que haver· sinais discernÌveis do Dia: o profeta Elias retornar· para a terra, todos os judeus ser„o convertidos, o Anticristo chegar· e perseguir· a Cidade de Deus, Deus separar· os bons dos maus, o mundo mal ser· destruÌdo e recriado perfeito. Agostinho rejeitou a vis„o milenarista de que existiria um reino de paz e felicidade de mil anos na terra. Na verdade, como ele envelheceu e testemunhou o colapso do ImpÈrio Romano crist„o, ele recuou de suas concepÁıes otimistas e progressivas, mas sempre acreditou que o fim dos tempos culminaria em alegria e felicidade eternas. Ent„o, nÛs que estamos vivendo no tempo deverÌamos agir diariamente como cidad„os da Cidade de Deus, amando a Deus e ao prÛximo, fiÈis a Cristo e fazendo suas obras no mundo, ansiando pela consumaÁ„o do tempo

na paz eterna e justiÁa do novo mundo, o reino do cÈu que Jesus promete.

A cosmovis„o de um monge sÌrio anÙnimo do sexto sÈculo escrevendo sob o pseudÙnimo

de DionÌsio Areopagita, aquele a quem Paulo converteu em Atenas, tornou-se imensamente

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influente no pensamento tardio, em Tom·s de Aquino, Dante e nas tradiÁıes mÌsticas tanto da igreja oriental como da igreja ocidental. DionÌsio (c. 500), como OrÌgenes, tinha uma vis„o muito otimista. No comeÁo, Deus criou o mundo do nada. Este ìnadaî n„o era apenas algo separado de Deus, nenhum caos que Deus tinha que trazer para a ordem, pois n„o poderia existir nada ‡ parte de Deus. A afirmaÁ„o de que Deus criou mundo do nada n„o significa que Deus o tenha criado de algo chamado ìnadaî. O nada quer dizer absolutamente nenhuma coisa. Tudo est· em Deus, ent„o Deus criou o mundo de si mesmo. Deus cria o universo com seu amor transbordante, para o qual DionÌsio usou a palavra eros (um termo ausente do Novo Testamento). O eros de Deus pelo cosmos È contÌnuo e, assim, eventualmente, no fim, Deus recuar· o cosmos para o interior de si mesmo. O fim dos tempos, ent„o, È um tempo jubiloso quando o cosmos inteiro, purificado e glorificado, retorna para Deus.

Na Idade MÈdia a principal quest„o era como este mundo poderia ser adequado mais estritamente ‡ Cidade de Deus e se de fato isso era mesmo possÌvel. N„o havia d˙vida de que Cristo era o governante, mas era calorosamente debatido quem tinha a autoridade na terra sob ele. A quest„o da autoridade apropriada era prazerosamente mesclada com questıes de poder pragm·tico, como quando papas, bispos, imperadores, reis e vozes profÈticas competiram por autoridade. O ponto alto da controvÈrsia chegou do dÈcimo primeiro para o dÈcimo terceiro sÈculo. Em 1073, o monge Hildebrando se tornou o Papa GregÛrio VII e lanÁou uma campanha para reformar a sociedade nos moldes da Cidade de Deus. A reforma se centralizava primeiro em substituir ou educar o clero iletrado e depois em remover o clero corrupto. Mas nenhuma divis„o entre ìigreja e estadoî poderia existir na Cidade de Deus. Os conceitos de ìigreja e estadoî e sua separaÁ„o È puramente moderno. No mundo antigo, religi„o e estado eram uma entidade. Na mente medieval havia uma Sociedade Crist„, que tinha que ser regida por quem quer que tivesse a autoridade vinda de Cristo. GregÛrio VII e seus sucessores acreditavam que para Cristo eles eram os respons·veis por toda a sociedade, de maneira que a reforma poderia n„o estar limitada a assuntos estritamente eclesi·sticos: tudo da sociedade devia estar sujeito ao vig·rio de Cristo na terra. ReivindicaÁıes papais para tal autoridade tinham sido disputadas anteriormente por bispos, regentes seculares e concÌlios da igreja, mas por dois sÈculos e meio o papado

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combinou uma forte reivindicaÁ„o para legitimar autoridade com uma quantidade consider·vel de poder pragm·tico.

CorrupÁ„o, ignor‚ncia e falsidade tinham que ser afastadas para se estabelecer a Iustitia, ìjustiÁaî, definida como aquele estado de sociedade mais estritamente congruente com a Cidade de Deus. O papa reclamou a autoridade para assegurar que justiÁa fosse feita por toda a sociedade. Isso significava a reforma ou remoÁ„o de poderes seculares que n„o se conformavam ‡ justiÁa (a raiz medieval da moderna convicÁ„o de que o povo pode, e deveria, desobedecer a um governante injusto). Era f·cil consignar a funÁ„o de anticristo para aqueles que se opunham ao movimento de reforma; nos tempos antigos tinham sido Herodes ou Nero, agora era Mohammad, Saladin e uma variedade de imperadores alegadamente maus, tais como Henrique IV e Frederico II. Igualmente, os inimigos do papa, assim como o Santo Imperador Romano, acusaram uma variedade de papas (Bonif·cio VIII e Benedito XI, por exemplo) de serem anticristos. Que a luta n„o era de igreja e estado, mas de autoridade sobre toda a sociedade crist„ est· mais claro na disputa entre GregÛrio VII e Henrique IV, quando o imperador tinha seu prÛprio papa e bispos e GregÛrio tinha seu prÛprio imperador e prÌncipes. Em contraste, Henrique IV, Frederico I e Luis VII foram considerados por partidos imperiais e reais como lÌderes apropriados da sociedade crist„.

O movimento de reforma significou a imposiÁ„o da crenÁa certa, bem como da pr·tica correta. A Cidade de Deus e suas autoridades an·logas na terra tinham a responsabilidade de educar, reformar e, se necess·rio, combater idÈias que obstruÌam o caminho do Reino de Deus. Isso significava judeus, muÁulmanos e hereges: j· no oitavo sÈculo, Beato de LiÈbana identificou Mohammad como o anticristo, uma idÈia que persistiu pelo tempo da Reforma Protestante e alÈm dela. Os judeus, que tinham vivido em consider·vel paz com seus vizinhos crist„os antes do sÈculo oitavo, agora se encontravam sob intensa press„o para se converterem, partirem ou enfrentarem algumas severas penalidades. A antiga idÈia de que o Anticristo È um judeu estava revivida: ele nasce de uma repulsiva uni„o entre Satan·s e uma meretriz judia da Tribo de Dan.

Os muÁulmanos foram submetidos a cruzadas concebidas para recapturar algumas das terras crist„s que eles tinham conquistado sÈculos mais cedo e para destruir o anticristo

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Mohammad. Os hereges foram sujeitados especialmente a exames detalhados e a processos fechados. A definiÁ„o de um herege mudava e se expandia na medida em que o movimento de reforma progredia, atÈ que n„o apenas heresias n„o-crist„s de forma demonstr·vel, tais como o catarismo, foram incluÌdas, mas tambÈm qualquer movimento que impedia a reforma ou outra reforma avanÁada demasiado independente. Hereges e apÛstatas estavam ent„o propensos a serem identificados como anticristos, bem como judeus e muÁulmanos.

Uma sociedade crist„ baseada no modelo da Cidade de Deus era um nobre ideal que produziu grande bem, mas est· claro do supracitado que ele acabou em grandes males (como movimentos tendem a acabar por toda a histÛria humana). A crescente intensidade da oposiÁ„o na luta significava que quem quer que reivindicasse ser o prÛximo iustitia poderia afirmar que o outro lado estava servindo ao Diabo. Do ponto de vista da Reforma, o papado, governantes seculares, o clero e bispos desobedientes e hereges eram servos de Satan·s; do ponto de vista dos monarquistas, imperialistas e muitos bispos, eram os papas da reforma que eram os injustos. Do ponto de vista dos papas, os hereges eram maus; do ponto de vista dos hereges os papas eram maus. A linguagem de posiÁ„o se tornou violenta:

met·foras de decadÍncia, corrupÁ„o, infecÁ„o, depravaÁ„o, lepra, pervers„o e seus assemelhados eram atiradas de todas as direÁıes e a linguagem desta ideologia de dualismo freq¸entemente levava a batalhas, execuÁıes, massacres e torturas.

Entre os hereges condenados estava uma variedade de milenaristas. Embora Agostinho, JerÙnimo e o Papa GregÛrio I, o Grande (c. 540-604) tivessem todos rejeitado o milenarismo de forma decisiva, este permaneceu uma influÍncia oculta quase invisÌvel na Igreja atÈ dÈcimo segundo e dÈcimo terceiro sÈculos, quando Joaquim de Fiore (c. 1135-1202) e outros milenaristas floresceram. O renascimento do milenarismo acordou principalmente de um desencanto compreensÌvel provocado pelas lutas sobre autoridade na sociedade crist„; os milenaristas acreditavam que a sociedade n„o era de modo algum perfectÌvel e que apenas a sua completa destruiÁ„o e substituiÁ„o no fim dos tempos poderia trazer paz e justiÁa no Reino de Deus a ser estabelecido. AlÈm do milenarismo, a literatura medieval apresenta muitos trabalhos de literatura e arte, tais como o Christ and Satan do antigo inglÍs e as peÁas populares na Inglaterra, Alemanha e FranÁa (como o Jour du jugement do dÈcimo quarto sÈculo), retratando a luta vitoriosa de Cristo contra o Diabo e o Anticristo. Nas peÁas e

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outras literaturas populares, o Diabo e os demÙnios aparecem como bobos ridÌculos, incautos e palhaÁos, um motivo projetado para suavizar o sombrio terror de suas atividades incessantes sobre a terra (como especulaÁ„o, sugiro que esta escurid„o pode ter sido o resultado do fato de que no sÈculo sÈtimo os muÁulmanos conquistaram dos crist„os as terras ensolaradas do sul do Mediterr‚neo, movendo o centro do cristianismo da £frica e £sia para as escuras e deprimentes terras da Europa).

A grande riqueza de intelecto nos sÈculos treze e quatorze È mais bem representada por Tom·s de Aquino (1225-1274) e Dante Alighieri (1265-1321). Aquino tentou estabelecer uma teologia crist„ pura e acabada baseada na revelaÁ„o e na raz„o. Ele desenhou linhas claras entre verdadeira doutrina e falsa doutrina, mas nunca esteve pronto a condenar qualquer pessoa como m·. Aquino e outros teÛlogos escol·sticos discursaram sobre muitos dos problemas permanentes da salvaÁ„o. O cÈu era percebido como aqui, agora e depois, com os ˙ltimos dias culminando no processo de conformaÁ„o ao Reino de Deus. Quem quer que escolha a Deus est· no cÈu; quem quer que escolha a si mesmo ao invÈs de Deus est· no inferno. Aqueles que est„o no cÈu vÍem Deus face a face na Vis„o Bendita, como estabelecido por Benedito XII (r. 1334-1342). Os hereges n„o poderiam ganhar nenhum conforto da teologia escol·stica, mas os incrÈdulos poderiam. Est· claro do Novo Testamento que ninguÈm È salvo exceto atravÈs de Jesus Cristo. Mas isto teve que ser interpretado de um modo geral. Em primeiro lugar, claramente os patriarcas e profetas hebreus est„o no cÈu, embora tenham vivido antes da instituiÁ„o do batismo. Bons pag„os ñ aqueles que crÍem em outras religiıes e que as praticaram fielmente pelo bem ñ tambÈm ser„o salvos por uma revelaÁ„o de Jesus Cristo a eles em seus ˙ltimos momentos ou pela simples aÁ„o da misericÛrdia divina. Como Agostinho tinha dito anteriormente, quando em d˙vida alguÈm deveria aceitar a interpretaÁ„o mais caridosa. De certo, se vÍ de forma vasta em obras-de-arte e literatura menos judeus, muÁulmanos e pag„os no inferno do que crist„os falsos e maus.

A maior obra liter·ria sobre as ˙ltimas coisas È, claro, a Divina Commedia de Dante. Ainda que Inferno sempre tenha sido a cantica mais popular da Commedia por causa de suas representaÁıes em tons assustadoramente variados das agonias do inferno, no Purgatorio todas as almas est„o ligadas ao cÈu e o Paradiso È a representaÁ„o mais gloriosa do cÈu jamais desenhada. De fato,

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Paradiso comeÁa com as palavras ìLa gloriaî, significando a luz, o poder, o amor, a bondade,

a misericÛrdia, a harmonia, a justiÁa, a beleza, o riso e a alegria que Deus irradia atravÈs de

todo o cosmos a tudo o que ele fez (exceto para aqueles anjos e seres humanos que por sua

prÛpria escolha se excluÌram dessa glÛria). Deus ama a tudo; sua glÛria penetra e se difunde

por todo o cosmos e o cosmos a reflete de volta: Io credo in uno Dio solo ed etterno, che tutto ël ciel

move, non moto, con amore e con desio (24.130-132). Todo o paraÌso canta:

Al padre, al Figlio, a lo Spirito Santo,

CominciÚ, ìgloria!î tutto ël paradiso,

Si che míinebriava il dolce canto.

CiÚ chíio vedeva mi sembiava un riso

De líuniverso; per che mia ebbrezza

Intrava per líudire e per lo viso.

Oh gioia! Oh ineffabile allegrezza!

Oh vita intËgra díamore e di pace!

Oh sanza brama sicura richezza! (27.1-9)

Finalmente, Dante olha diretamente para Deus, o Primeiro Amor, na Vis„o Bendita, quantí Ë

possibil per lo suo fulgore (32.142-144) e, de maneira incrÌvel, ele mesmo se dirige a Deus

diretamente:

O luce etterna che sola in te sidi,

Sola tíindendi, e da te intelletta

E intendente te ami e arridi (33.124-126).

Assim, no final, o medo e a dor dos ˙ltimos dias s„o dissolvidos para sempre na glÛria

infinita de Cristo.

A Reforma Protestante derivou a maioria da sua teologia da teologia medieval, especialmente

a forma como relata o fim dos tempos. Os luteranos tendiam a desaprovar o curso que o

mundo estava tomando. Eles viam que, por um lado, os turcos tinham sobrepujado o

cristianismo bizantino e estavam se aproximando da Europa Central, ameaÁando atÈ mesmo

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o Santo ImpÈrio Romano; por outro lado, o papa anticristo dominava a Europa. O grau de

esperanÁa e medo È sempre grande quando a Igreja se sente mais ameaÁada. N„o È um jogo

de soma zero entre esperanÁa e medo no qual, enquanto a esperanÁa ganha, o medo declina

e, enquanto o medo ganha, a esperanÁa declina. Antes, È um aumento ou uma diminuiÁ„o de

intensidade nos dois juntos. Lutero acreditava que o mundo estava se tornando t„o medonho que ele, conseq¸entemente, devia estar se aproximando do seu fim. Nosso sofrimento tem especial significado porque estamos no fim dos tempos e, por causa deste sofrimento, o fim era para ser esperado com entusiasmo. Os calvinistas tendiam a ser mais otimistas, crendo que a Igreja poderia ser salva por uma rigorosa reforma e restauraÁ„o da pureza bÌblica e moral. Alguns Reformadores Radicais, especialmente entre os anabatistas, continuaram a especulaÁ„o milenarista esperando por um reinado de mil anos dos santos na terra. As guerras religiosas entre catÛlicos e protestantes (ao mesmo tempo em que os turcos ameaÁavam sempre mais intensamente) auxiliaram as especulaÁıes milenaristas e os anticristos poderiam ser encontrados em qualquer lugar.

O cristianismo catÛlico sempre recepcionou uma diversidade de visıes, mas especialmente entre os sÈculos onze e quinze, limitou as fronteiras da ortodoxia. A rejeiÁ„o protestante da autoridade papal e sua restauraÁ„o da BÌblia (como eles a interpretavam) como autoridade abriram as portas para uma grande variedade de concepÁıes do fim dos tempos. No moderno protestantismo de tendÍncia dominante ñ luterano, reformado e anglicano ñ houve um declÌnio de interesse geral, sen„o pronunciado, no fim dos tempos. O progressivismo do esclarecimento teve uma grande influÍncia sobre os crist„os nos sÈculos dezoito e dezenove. Muitos acreditavam que Deus est· nos guiando gradativamente para o Reino, que vir· apenas quando este progresso estiver completo. Esta concepÁ„o, ‡s vezes chamada ìpÛs- milenarismoî, supunha a gradual convers„o de povos por todo o mundo ao cristianismo racionalista; apenas uns poucos povos realmente seriam amaldiÁoados.

Este protestantismo liberal, progressivo, floresceu em um mundo que, pelo sÈculo entre 1815 e 1914, foi poupado de terrÌveis tribulaÁıes (exceto pela Guerra Civil nos EUA) e era f·cil expedir prognÛsticos de um fim medonho. Em 1909, foi possÌvel dar crÈdito ‡ idÈia de que a vinda de Cristo ìn„o È um evento, ela È um processo que inclui inumer·veis eventos,

um perpÈtuo avanÁo de Cristo na atividade do seu reino

Nenhum retorno visÌvel de Cristo

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‡ terra deve ser esperado, mas antes o longo e est·vel avanÁo de seu reino espiritualî 3 . O reino de Deus n„o È para ser aguardado, mas antes ser criado aqui na terra e concretizado por bons trabalhos sociais. Esta È a base do movimento conhecido como Evangelho Social. Na verdade, talvez n„o exista fim nenhum, mas aprimoramento contÌnuo. Cristo poderia ser visto como um homem de negÛcios ou como um sindicalista mais de bom grado do que como um rei glorioso.

ComeÁando em torno da virada do sÈculo vinte e reforÁado pela terrÌvel experiÍncia da Grande Guerra e da praga que se seguiu a ela, houve um afastamento marcado deste progressivismo. No lado teolÛgico, a neo-ortodoxia apresentada por Karl Barth (1886-1968)

e sua escola demandou um retorno ‡s raÌzes bÌblicas e teolÛgicas e uma avaliaÁ„o saud·vel de

que o mal ainda era poderoso e n„o iria embora f·cil e confortavelmente. De forma similar, as concepÁıes escatolÛgicas de Rudolf Bultmann (1884-1976) e sua escola enfatizavam que cada momento estava escatologicamente sob julgamento. A neo-ortodoxia e a escatologia foram dominantes dos anos de 1930 aos anos de 1960, quando foram substituÌdas por um tempo pelo otimismo pÛs-milenial. Desde os anos de 1970, tem havido um vasto revival do ìprÈ-milenarismoî, a tradicional idÈia de fim dos tempos baseada na BÌblia e muitas vezes bordada de forma pesada. O terrificante estado do mundo sob crescente ameaÁa de guerra nuclear, fome e praga apoiou o ressurgimento de idÈias milenaristas. A mais importante e duradoura rebeli„o contra o progressivismo liberal foi o evangelicalismo, que considerou a tradiÁ„o liberal como cristianismo decaÌdo e se enraizou firmemente na BÌblia. Os evangÈlicos observaram que muito pouco no mundo do sÈculo vinte ñ e do sÈculo vinte e um ñ sustenta a concepÁ„o afirmada em 1909 de maneira t„o confiante. A teologia da libertaÁ„o, um am·lgama de catolicismo e marxismo que emergiu na AmÈrica Latina nos anos de 1960, proclamava que o fim viria quando a opress„o dos pobres pelos ricos cessasse para sempre.

Mas um estranho desenvolvimento ocorreu no mundo secular nos sÈculos dezenove e vinte. Por um lado, filÛsofos seculares estavam inclinados a apoiar uma vis„o progressiva da sociedade; por outro lado, eles viam enormes obst·culos ao progresso. Como um resultado,

3 CLARKE, William Newton. Outline of Christian theology. Edinburgh: T. & T. Clark, 1909, pp. 444-446.

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eles formaram uma variedade de ideologias seculares baseadas em um estranho casamento entre progresso e milenarismo. Utopias poderiam ser alcanÁadas apenas pela tribulaÁ„o. Para Marx e LÍnin, o bem, a sociedade sem classes, poderia ser formado apenas quando a besta teimosa do capitalismo tivesse sido sujeitada; quando o processo do comunismo estiver completo, n„o haver· mais histÛria. Mao Zedong e Josef Stalin, ambos consideraram suas visıes da perfeita sociedade porvir dignas do sacrifÌcio de dezenas de milhıes de vidas.

Hitler, um outro milenarista secular, declarou que o obst·culo era a conpiraÁ„o dos judeus, capitalistas e comunistas e que, quando eles fossem destruÌdos, seu Terceiro Reich duraria mil anos. Entre outros seculatistas as crenÁas de que forÁas estranhas estavam em aÁ„o prevaleciam: extraterrestres desceriam para nos salvar ñ ou para nos destruir ñ ou ambos, como no 2001 de Stanley Kubrick (1968); ou talvez velhos deuses retornar„o; ou a m·gica restaurar· a terra; ou quem sabe antigos s·bios e guerreiros possam ser canalizados por um

ser humano vivente, ou

a lista È infinita. Todas estas idÈias parecem brotar da percepÁ„o de

que estamos em uma terrÌvel situaÁ„o e que apenas algo sobrenatural pode nos ajudar a sair

dela (The Day the Earth Stood Still, 1951). Agora que os seres humanos tÍm, como Satan·s, tentado arrancar de Deus a habilidade para destruir a nÛs mesmos com armas de destruiÁ„o

em massa, parecem existir poucas razıes no presente para o final feliz da raÁa humana ou do prÛprio planeta.

O evangelicalismo È de longe a mais influente variedade de protestantismo no mundo hoje.

Enquanto congregaÁıes e denominaÁıes liberais se dissolvem, as conservadoras prosperam.

O retorno ‡ BÌblia confere um retorno aos muitos fundamentos da apocalÌptica. O

Evangelho Quadrangular, as Testemunhas de Jeov· e os pentecostais est„o entre os movimentos com uma pronunciada propens„o apocalÌptica e milenarista. H· uma consider·vel variaÁ„o, mas os seguidores d„o a descriÁ„o geral: o fim est· perto. Os sinais dos ˙ltimos dias est„o manisfestos em eventos contempor‚neos. O mal humano e o natural,

ambos aumentar„o atÈ alcanÁarem seu cimo na Grande TribulaÁ„o. Neste momento, antes

da TribulaÁ„o, entretanto, Cristo recolher· seus seguidores da terra para o cÈu, onde eles se

juntar„o aos santos (aqueles que j· morreram em Cristo). A TribulaÁ„o durar· sete anos, durante os quais o Anticristo governar· a Terra. Ent„o Cristo retorna com seus santos e todas as hostes celestiais; eles derrotam o Anticristo na batalha do Armagedom. Cristo ent„o

reina por mil anos. No fim desses mil anos vem o ⁄ltimo Julgamento. O Anticristo

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reaparece em um ultimo esforÁo desesperado para frustrar o inevit·vel, mas ele È vencido novamente e seu tempo destruÌdo no fogo eterno. Agora o tempo cessa e o eterno Reino de Deus, o Novo Ce˙ e a Nova Terra, a Nova JerusalÈm, È regido por Cristo em justiÁa e retid„o para sempre. Os malfeitores ser„o convertidos ou destruÌdos. A histÛria termina.

Embora tradicionalmente o cristianismo sustentasse raz„o e caridade, juntamente com fÈ e esperanÁa, como valores talvez mais altos que a demanda por convers„o ou morte, mesmo assim os crist„os freq¸entemente tÍm visto um o outro como anticristos; e os crist„os muitas vezes tÍm percebido judeus, muÁulmanos e pag„os como anticristos. Se o Anticristo est· guiando um bando de demÙnios e malfeitores humanos em um poderoso esforÁo para frustrar e evitar o Reino de Deus, conseq¸entemente existe uma conspiraÁ„o da qual o Anticristo È o cabeÁa. Ent„o judeus, hereges e pag„os n„o est„o simplesmente errados; eles est„o ñ conscientemente ou n„o ñ no exÈrcito do Anticristo, que deve ser despedido e destruÌdo antes que o Reino possa ser estabelecido.

Os crist„os n„o tÍm monopÛlio sobre as teorias conspiratÛrias. Quaisquer que sejam as origens evolucion·rias de tais teorias ñ tribalismo, por exemplo ñ, elas parecem ser um aspecto permanente da natureza humana. Os judeus vÍem seu ExÌlio como o resultado de maquinaÁıes de impÈrios, estados e religiıes malignas. Os islamitas temem e odeiam uma grande conspiraÁ„o cruzada sionista para destruir o isl„. Os comunistas temem os capitalistas e os capitalistas temem os comunistas. A Esquerda teme a Direita e a Direita a Esquerda. Os fundamentalistas temem os evolucionistas e os evolucionistas temem os fundamentalistas. Os fisicalistas temem uma enorme exibiÁ„o de visıes transcendentes que supere o fisicalismo. Feministas temem uma imensa conspiraÁ„o de homens patriarcais, enquanto os homens temem a castraÁ„o social por feministas. A senadora dos EUA Hillary Clinton teme uma Grande ConspiraÁ„o dos Conservadores e George W. Bush teme o Eixo do Mal 4 . Os sunitas temem os xiitas (Shiía) e os xiitas aos sunitas. E sem falar nas hostilidades raciais que atormentam a humanidade por todo lugar. … claro que nem todas as conspiraÁıes s„o imagin·rias; muitas realmente existem. Mas È um grande erro da humanidade que estejamos

4 A express„o Eixo do Mal foi utilizada pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em seu discurso do Estado da Uni„o em 29 de janeiro de 2002 para descrever o que denominou ìregimes que apÛiam ao terrorî. Os estados-naÁ„o que Bush mencionou em seu discurso foram Iraque, Ir„ e CorÈia do Norte, aos quais posteriormente se agregaram LÌbia, SÌria, Zimb·bue, Bielor˙ssia e Cuba (nota da tradutora).

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t„o avidamente prontos a acreditar nelas e, muito pior, a agir de acordo com nosso medo do ìoutroî em intermin·veis espirais de intensa violÍncia.

Visto que as naÁıes continuam a odiar furiosamente uma a outra, o fim pode de fato estar perto. Isso pode ou n„o ser verdade para a humanidade como um todo, mas È inquestionavelmente verdade para cada um de nÛs. EsperanÁa e medo s„o inevit·veis e uma grande esperanÁa È a de que conspiraÁıes e medo de conspiraÁıes possam desaparecer. Aproximando-se nosso fim, que n„o queiramos nenhum dia para ser desperdiÁado sem amor e gratid„o.

NOTA BIBLIOGR£FICA

The Encylopedia of Apocalypticism, editada por John J. Collins, Bernard McGinn e Stephen J. Stein (New York: Continuum, 1998), fornece um grande n˙mero de excelentes artigos. Livros recentes ˙teis incluem ASSMANN, Jan. Tod und Jenseits im alten Aegypten, traduzido como Death and salvation in Ancient Egypt. Ithaca: Cornell University Press, 2005; BRYAN, Steven M. Jesus and Israelís traditions of judgement and restoration. Cambridge: Cambridge University Press, 2002; COLLINS, Adela Yarbro. Cosmology and eschatology in Jewish and Christian apocalypticism. Leiden: Brill, 2000; GOWAN, Donald E. Eschatology in the Old Testament. Edinburgh: T. & T. Clark, 2000; HILL, Charles E. Regnum caelorum: patterns of millennial thought in Early Christianity. 2 ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2001; KELLY, Anthony. Eschatology and hope. Maryknoll: Orbis, 2006; LA DUE, William J. The trinity guide to eschatology. New York: Continuum, 2004; LAPHAM, Lewis H. (ed.). The end of the world. New York:

History Book Club, 1997; PITRE, Bryant James. Jesus, the tribulation, and the end of the exile:

restoration eschatology and the origin of the atonement. T¸bingen: Mohr Siebeck, 2005; POLKINGHORNE, John C. The God of hope and the end of the world. New Haven: Yale University Press, 2002; RUSSELL, Jeffrey Burton. A history of heaven. Princeton: Princeton University Press, 1997.

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