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(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO
(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO
(P-332)
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(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização
(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização
(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização
(P-332) A LUTA PELA LUA DE NETUNO Autor H. G. EWERS Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização

A LUTA PELA LUA DE NETUNO

Autor

H. G. EWERS

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Digitalização e Revisão

ARLINDO_SAN

Uma terrível arma dos policiais do tempo arremessou a Crest IV para o grupo estelar M-87, com Perry Rhodan, Atlan e outros personagens importantes do Império Solar a bordo. A Crest encontra-se a cerca de trinta milhões de anos- luz da Terra, mas nem por isso seus tripulantes desanimam. É uma distância fantástica, considerando que até então os terranos sô tinham chegado até a nebulosa de Andrômeda, que fica relativamente perto. Os tripulantes da Crest enfrentam a luta com o estranho anão vindo na frota dos esquifes de vidro, que com seus atos de sabotagem espalha o terror pela Crest. E, embora com dificuldades, saem vitoriosos no conflito travado num planeta cujas formas de vida enlouquecem depois da chegada da Crest. Mas a situação de Perry Rhodan e seus companheiros não é nada brilhante, ainda mais que perderam o contato com a Terra e o Império Solar. E num momento em que Old Man e os policiais do tempo põem em perigo o sistema central da humanidade, os subversivos entram em ação. O medo dos homens é sistematicamente instigado, e um político, que conta com o apoio secreto de uma organização criminosa, acredita que sua hora chegou. Heiko Anrath, um sósia de Perry Rhodan, desempenha contra a vontade o papel do Administrador-Geral, e Croton Manor, que espalharia o caos pela Terra caso Anrath fosse desmascarado, sacrifica-se por uma causa justa. O perigo que ameaça o Sistema Solar de dentro foi eliminado. Falta neutralizar o perigo vindo de fora. Dois homens de Oxtorne elaboram um plano com esse objetivo e A Luta Pela Lua de Netuno começa

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Cronot e Perish Mokart — Dois cosmohistóricos de Oxtorne.

General Moshe Ifros — Comandante militar de Triton, uma lua de Netuno.

Piet van Geldern — Governador civil de Triton.

Capitão Arturo Geraldi — Comandante de um grupo-tarefa.

Aser Kin — Vigilante de vibrações e policial do tempo.

Einaklos — Um arquiteto cujas obras duram muitos séculos.

1

Os dois oxtornenses viram a barreira ao mesmo tempo. Uma grade fechou o túnel

de lado a lado, e um miliciano saiu entre dois robôs de combate, balançando uma lanterna vermelha. Perish Mokart freou o veículo e praguejou.

— Calma, rapaz! — disse Cronot Mokart. Recolheu a cobertura transparente da

supertartaruga e inclinou-se para fora do veículo. — Olá, general! Que houve? Não nos conhece?

O miliciano desligou a lanterna vermelha e aproximou-se. Era um jovem que trazia

as divisas de sargento.

— Olá, Mr. Mokart! — respondeu. — Sinto muito. O acesso à cidade subtritonense

foi fechado. São ordens do comandante militar. Perish Mokart saiu do assento e saltou para a borda da cúpula. Usava conjunto negro justo com capuz-capacete enrolado que nem o pai, além de um cinto vermelho com uma gigantesca arma energética no coldre, tudo coberto por uma folgada manta cor de prata.

Quando ficou de pé à frente do sargento podia-se ter uma idéia de sua tremenda força física. Era pouco mais alto, mas muito mais robusto que o miliciano. No entanto, qualquer pessoa que não o conhecesse o teria subestimado. De fato, possuía uma constituição compacta resultante da adaptação a um ambiente agressivo, que

o tornava capaz de movimentar-se com a mesma leveza de um terrano em condições normais de seu planeta sob a gravitação de 4,8 gravos, com tempestades de areia de mil quilômetros por hora e temperaturas que oscilavam entre menos cento e vinte graus e mais noventa e cinco graus centígrados, sem usar qualquer proteção especial. Perish tirou do bolso um cartão de plástico e entregou-o ao sargento.

Este cartão nos habilita a entrar no velho núcleo de refugiados lemurenses.

O

sargento sacudiu a cabeça como quem lamentava.

— O General Ifros cancelou todas as autorizações especiais, Mr. Mokart.

Proclamou o estado de emergência. Foi por causa de Old Man.

— Old Man encontra-se bem além da órbita de Plutão, cochilando — retrucou

Perish em tom sarcástico. — Além disso não acredito que se lançar um ataque ele se perca e vá parar justamente em Triton. Seu objetivo é a Terra.

— Tenho minhas ordens — respondeu o miliciano em tom firme. — Faça o favor

de apresentar suas reclamações ao general. Quem sabe se no seu caso não está disposto a

fazer uma exceção? Perish Mokart soltou um palavrão. Virou a cabeça.

— E agora, pai? Tenho vontade de atravessar esta grade. Cronot Mokart sorriu.

— Com seus quarenta e dois anos terranos você já deveria ter quebrado as arestas, Perish. Vamos falar com o general.

O miliciano respirou aliviado. Sabia perfeitamente que mesmo com os dois robôs de

combate não seria capaz de deter os oxtornenses caso resolvessem abrir passagem à

força.

— Não me levem a mal, senhores! — gritou atrás dos dois.

Perish fez um gesto de pouco-caso e dobrou ligeiramente os joelhos. No mesmo instante saltou para cima do veículo, que balançou ligeiramente com o peso do ser adaptado a um ambiente hostil. Perish Mokart entrou na cabine, cuidadosamente, para não quebrar as poltronas

anatômicas. O veículo girou no mesmo lugar, atirou uma saraivada de lascas de rochas sobre o sargento e os dois robôs e saiu com os motores elétricos uivando. Atrás deles a voz do miliciano reclamando em altas vozes foi-se perdendo na distância.

— Gostaria de saber o que pensa esse general — resmungou Perish.

Seu pai abanou a cabeça calva.

— Se Moshe Ifros faz qualquer coisa, ele tem um bom motivo, meu filho. Talvez

tenha recebido notícias do comando da frota que ainda não chegaram ao nosso conhecimento.

— Ele nos teria avisado. Não mandaria bloquear simplesmente o acesso à cidade.

Zangado, Perish empurrou a alavanca do acelerador até o fim. As duas esteiras largas da supertartaruga moeram a rocha de Triton, fazendo o veículo de duzentas e cinqüenta toneladas terranas correr em alta velocidade. Somente nas curvas o oxtornense tinha certa dificuldade em manter o veículo na rota, uma vez que nas condições reinantes

em Triton ele não pesava mais de cinqüenta toneladas, quando seu gerador de fusão, seu sistema de propulsão elétrico e o resto do veículo tinham sido construídos para funcionar nas condições oxtornenses, sob as quais a supertartaruga pesava mil e duzentas toneladas. Às vezes uma das esteiras de três metros de largura abria sulcos profundos nas paredes do túnel.

— Gostaria de saber por que aqui embaixo é tão quente que um homem nascido na

Terra consegue passar sem trajes climatizados. A telecalefação não deve fazer efeito tão

longe. Ou será que faz?

Perish olhou para o pai de relance e, pensativo, coçou o crânio que, ao contrário dos outros oxtornenses, apresentava uma espessa cabeleira louro-cinza.

— Enquanto não revistarmos a velha cidade lemurense não saberemos. Mas acho

ainda mais estranho que no interior desta lua exista água. E apesar da gravitação reduzida

esta água só ferve a trezentos graus centígrados. Olhava para a frente com uma expressão sombria no rosto.

— Acho que deveríamos ter derrubado aquela grade. Quem sabe se Old Man não

acaba atacando Netuno e suas luas? Se isso acontecer, não teremos mais nenhuma chance

de examinar a cidade.

— Vá mais devagar — pediu o pai. — Vamos entrar na via de tráfego principal e

não gostaria de provocar um acidente. Perish obedeceu, freando o veículo. Dali a instante a supertartaruga entrou numa rampa em espiral. Reduziu ainda mais a velocidade e entrou ruidosamente na estrada de oito faixas de rolamento que ligava a cidade de Tritona aos conversores de matéria da gigantesca usina do pólo sul da lua de Netuno. Triton supria todas as necessidades de cobre da Terra e dos outros planetas industriais solares, embora as ocorrências naturais deste metal fossem insignificantes. Mas a técnica da conversão da matéria aprendida dos pos-bis tornava a humanidade independente das jazidas naturais.

— murmurou Cronot.

Há cerca de trinta e oito anos um número crescente de robôs de extração trabalhava em Triton, raspando uniformemente a superfície da lua e derramando a rocha inerte sobre esteiras transportadoras energéticas, que se dirigiam em raios concêntricos dos locais de extração à única usina conversora. Gigantescos conversores de matéria transformavam a estrutura atômica da rocha — e as bocas aquecidas dos complexos de produção cuspiam blocos de cobre bruto de cerca de uma tonelada terrana. Na via subtritonense um dispositivo positrônico de comando encarregou-se da direção da supertartaruga. Acoplou-se automaticamente ao segmento robotizado do veículo e passou a conduzir o carro pesado por uma faixa exterior de tráfego lento, para evitar que colidisse com os planadores de carga que passavam em alta velocidade. Não havia seres humanos na via expressa, além dos dois oxtornenses. Os veículos que transportavam cobre eram

dirigidos por robôs, e a mudança de turno da equipe de controle da usina conversora só seria dali a três horas. Perish Mokart arrancou as botas leves e macias de tercoplast e pôs-se a coçar as solas dos pés.

e macias de tercoplast e pôs-se a coçar as solas dos pés. — Ah! Isto faz

— Ah! Isto faz um bem! — gemeu.

O pai fitou-o com uma expressão preocupada.

— Qual é o problema? Está com dores imaginárias?

— Não. Uma coceira imaginária.

Perish sorriu enquanto via os dedos dos pés mexerem. Na verdade, não eram os dedos de seus pés, embora sua reação fosse igual à dos dedos normais da mesma forma que as pernas que usava para andar não eram suas. Do centro das coxas para baixo o cosmohistórico oxtornense usava plasma-próteses de incubação. Tratava-se de estruturas

orgânicas cultivadas com bioplasma sintético, segundo seu código genético. Deveriam ser absolutamente iguais às pernas que perdera em combate. Mas de vez em quando tinha a impressão de que se tratava de corpos estranhos — e a memória que suas fibras nervosas guardavam das pernas naturais causavam uma dor e uma coceira imaginárias, que faziam com que tivesse a impressão de que possuía quatro pernas. Mas Perish não levava isso muito a sério.

— Eu o avisei — disse Cronot Mokart, contrariado. — Mas você não me ouviu. Fez

questão de servir na USO. O que ganhou com isso? Duas pernas artificiais e uma

cobertura craniana de aço leve MV com uma ridícula biopele coberta de cabelos. Sem querer, Perish pôs a mão na cabeleira.

No fundo os cabelos que não deveriam estar lá eram a única coisa que o incomodava na cobertura craniana artificial. Um oxtornense de verdade não devia ter cabelos na cabeça.

— Deixe para lá, pai. Antes alguns cabelos na cabeça que ficar sem cobertura

craniana. Se aquele aconense tivesse apontado sua arma um pouco mais para baixo, nem mesmo os melhores médicos da USO me poderiam ter ajudado.

— Obrigaram você a lutar contra a organização secreta aconense, a tal da Condos Vasac, não é mesmo? Perish deu de ombros.

— Não posso falar sobre isso, pai.

— Tolice! — gritou Cronot. — Que mania de segredo! O complô encenado por

Croton Manor e a Condos Vasac aconteceu há poucos dias. Abriu os olhos de muita

gente — inclusive os meus — para as lutas travadas atrás dos bastidores. Felizmente os repórteres da televisão terrana não tiveram a menor contemplação na filmagem da destruição da base marciana da Condos Vasac. Perish deu uma risadinha. Acendeu um cigarro o ofereceu fogo ao pai, quando viu este tirar o cachimbo.

— Sem o consentimento da Segurança Galáctica a reportagem nunca teria sido

transmitida, Dad. A propósito. Não me arrependo dos dez anos que servi na USO. Talvez um dia volte a apresentar-me.

— resmungou o pai enquanto soltava grossas

baforadas do cachimbo.

— Não voltará coisa alguma!

— Você anda meio esclerosado — ironizou Perish em tom bonachão.

Cronot levantou a mão, mas acabou se controlando. Sorriu.

— Esclerosado! Ora veja este moleque! Com meus sessenta e oito anos ainda me

sinto em condições de competir com os marmanjos que fazem parte de sua turma. Quer

apostar que o lorde-almirante me contrataria se eu me candidatasse? Perish soltou uma estrondosa gargalhada.

— Eu o conheço. Você não seria capaz de candidatar-se. Sente-se muito ligado ao seu trabalho. Ainda mais agora que temos oportunidade de estudar um núcleo de fugitivos lemurenses que já tem cinqüenta mil anos.

— Quem dera que pudéssemos! — acrescentou Cronot Mokart em tom irônico.

— Se o general não deixar, eu o arranco do seu uniforme — exclamou Perish,

revoltado.

— Você não fará nada disso — repreendeu o pai. — É melhor que preste atenção ao

tráfego. Daqui a pouco sairemos da área do telecontrole. Perish Mokart levantou os olhos e viu as respectivas placas sob o teto. Apagou o cigano no cinzeiro e segurou os dois manches, enquanto o pé procurava o pedal do acelerador. Dali a pouco a rua começou a subir. Uma quantidade enorme de bifurcações foi ficando para trás. Os veículos que transportavam cobre desapareceram nas bocas fortemente iluminadas dos túneis que levavam aos armazéns do porto espacial de Tritona. De repente a supertartaruga atravessou trovejando as escotilhas blindadas abertas da entrada da cidade. Bem em cima deles abaulava-se a cúpula transparente da zona B da cidade de Tritona. Acima dela a bola gigantesca do planeta Netuno boiava ameaçadoramente na escuridão do espaço

* * *

Perish Mokart fez o veículo parar à frente do palácio alto de vidro e plástico no qual funcionava o comando militar de Triton.

Os dois guardas fortemente armados postados à frente da entrada principal eram um

sinal de que o estado de emergência fora promulgado na maior das luas de Netuno. Normalmente a sede do comando militar não era vigiada.

— Queremos falar com o General Ifros! — disse Cronot Mokart ao guarda que ocupava o posto mais elevado. Era um tenente.

O oficial pediu aos oxtornenses que aguardassem e entrou na guarita. Não demorou

a voltar.

— Sinto muito, mas o General Ifros saiu. Fui informado de que está inspecionando as defesas.

— E seu substituto? — perguntou Perish.

— Também saiu, Mr. Mokart. Posso ajudar em alguma coisa?

— Acho que não — respondeu Cronot. — Precisamos de uma permissão para entrar

na antiga cidade dos lemurenses.

— Pelo que sei o acesso foi fechado a partir de hoje de manhã — disse o tenente.

— Foi por isso que viemos — retrucou Cronot com uma evidente ironia.

O tenente parecia embaraçado.

— Não querem fazer o favor de dirigir-se ao governador civil, senhores? Pelo que

fui informado, Mr. van Geldern encontra-se em seu escritório.

— Muito bem — disse Cronot. — Vamos tentar.

Fez um sinal para o filho e entrou no carro. Perish seguiu seu exemplo e sentou junto ao volante. Quase no mesmo instante a supertartaruga partiu. Passou pelos escritórios da União das Usinas de Cobre Solares, pelos escritórios

arquitetônicos e por várias instituições científicas, por escolas e laboratórios, jardins experimentais e fazendas de criações de animais, em direção à saída da zona B da cidade.

O veículo atravessou um tubo protegido por quatro eclusas e entrou na zona C, onde

moravam cerca de dois terços dos cerca de vinte mil homens e mulheres que habitavam

Tritona. Os edifícios residenciais em forma de estrela eram separados por extensos parques, além de pequenos lagos e regatos artificiais com águas cristalinas.

O formato em estrela dos edifícios de cerca de cem metros de altura garantia a

privacidade das pessoas e das famílias. Nenhum dos amplos apartamentos se encostava

ao outro. No centro da estrela ficavam os elevadores de alta velocidade, os dutos de abastecimento e os tubos de detritos.

A sede do governo civil era parecida com um enorme cogumelo. O tubo que

formava o cabo continha os elevadores e os dutos de abastecimento e sustentava o “chapéu”, no qual tinham sido instalados os escritórios, o centro de computação positrônica e a residência oficial de Piet van Geldern. Somente metade do edifício estava ocupava. Contava-se com um acréscimo, já que o número de habitantes de Tritona devia triplicar dentro de poucos anos. Na cobertura do cogumelo ficavam os jardins suspensos mais formidáveis que Cronot e Perish Mokart já tinham visto. Os dois fizeram com que um robô porteiro os anunciasse. Em seguida pegaram um elevador de alta velocidade e subiram ao décimo sétimo pavimento, onde ficava a secretaria do governo civil.

As duas recepcionistas estavam tomando café.

— Mr. van Geldern encontra-se nos jardins suspensos, cavalheiros — disse uma

jovem rechonchuda de faces rosadas que se apresentara como secretária-chefe. — Podem subir. O senhor governador ficará satisfeito em mostrar-lhes suas últimas criações. Perish parecia um tanto perplexo, mas o pai puxou-o pela manga.

— Venha, filho — cochichou. — Até que é uma boa dica. Em Tritona não existe

ninguém que não saiba que van Geldern é um maníaco de flores. Se elogiarmos seus rebentos, ele certamente nos ajudará a conseguir uma licença especial. Perish deu de ombros. Não acreditava que o governador pudesse ajudá-los. Subiram num elevador pneumático muito lento. Os oxtornenses olharam em volta, espantados. Para seu gosto a vegetação exuberante chegava a ser um indício de decadência. Tulipas das montanhas do Turquestão, vermelhas, amarelas e multicoloridas, bem como formas híbridas de uma espécie silvestre da Ásia Central formaram manchas

coloridas entre as folhagens douradas, verde-azuladas e pálidas. As hastes longas e floridas da raiz umbilical pareciam acenar de cima das rochas espumosas tritonenses. A floração branco-espumosa das flores-borboleta formava um contraste agradável com o tapete baixo das prímulas douradas cor de manteiga. Os dois cosmohistóricos viram a figura abaixada de um jardineiro de capa azul por entre os barrancos que limitavam o caminho que fazia parte de um jardim de gramados. — Vamos perguntar a ele onde está o governador! — decidiu Cronot Mokart. Cronot abaixou-se instintivamente quando um pássaro colorido passou perto de sua cabeça, batendo ruidosamente as asas, e acabou pousando nas costas do jardineiro.

— Olá! — gritou Cronot. — Como vai, velho? As flores não querem crescer?

O homem que parecia ser um jardineiro endireitou o corpo, atingindo um tamanho impressionante. O rosto cheio e sangüíneo foi virado para os visitantes. Embaixo das sobrancelhas cor de palha, um par de olhos cor de água fitou demoradamente os visitantes. Havia uma ligeira indignação nesse olhar.

— Mr. van Geldern!

— exclamou Cronot, perplexo.

— Ora veja! Os bárbaros de Oxtorne — gritou o Governador Piet van Geldern. —

Parece que me confundiram com alguém. Van Geldern limpou as mãos sujas de terra no sobretudo azul.

— Acho que ainda não sou tão velho — resmungou. — Quanto à íris Bakeriana

Atropurpurea, vai muito bem, obrigado. Mas sabe-se perfeitamente que os oxtornenses

não entendem nada de flores

— Infelizmente — respondeu Cronot arrependido. — Mas assim mesmo devo

confessar que seu jardim suspenso é de uma beleza alucinante. A tal da íris Bak Bakeri

Atropurpurea — completou van Geldern. — É uma jóia do Líbano,

cavalheiros. Olhem só este vermelho violeta carregado! Acho que nem no mundo dos

senhores são encontradas cores tão intensas. — É um resultado formidável de sua jardinagem — elogiou Perish. — E o perfume

Bakeriana

— Tolice! É uma flor sem perfume.

De repente o rosto de Piet van Geldern abriu-se num largo sorriso.

— As lisonjas que acabo de ouvir levam-me a acreditar que têm um pedido. Muito bem! Vamos sentar neste banco de pedra.

Van Geldern levou-os por um caminho de lajotas até um banco esculpido em rocha vulcânica bruta. Era bem verdade que o assento tinha sido alisado e estava coberto de uma camada de spray de Iso. Atrás do banco erguia-se um muro. Heras subiam por ele como que por acaso, e de cima pendiam trepadeiras eternamente verdes.

O governador tirou do bolso um estojo de couro e ofereceu aos visitantes seus

charutos longos marrom-claros.

— São charutos importados de minha pátria — disse em tom sonhador. — Mas há

uma diferença. Lá se paga um solar por vinte charutos, enquanto aqui tenho de pagar um

solar por peça.

— Sua pátria? — perguntou Perish Mokart, espantado. — Quer dizer que não

nasceu na Terra? Piet van Geldern deu uma risada calma.

— Só mesmo um oxtornense seria capaz de fazer uma pergunta dessas! É claro que

nasci na Terra, mas acontece que lá, ao contrário dos mundos coloniais, existem muitas

paisagens diferentes, cada uma com suas especialidades. Minha pátria é a região dos Países Baixos da federação européia. Van Geldern agradeceu por Cronot lhe ter oferecido fogo e soprou gostosamente nuvens de fumaça branco-azulada para a atmosfera artificial da cidade formada por cúpulas.

— Os senhores deveriam voar para lá na primavera. O país transforma-se num

tapete de tulipas e narcisos. Acho que em seu mundo não existe nada igual. Perish escorregava nervosamente no banco. Cronot fitou-o com uma expressão recriminadora. Pigarreou.

— Talvez façamos uma viagem à Terra depois que tiver passado o perigo

representado por Old Man. Ainda temos uma tarefa a cumprir. Gostaríamos de visitar a cidade lemurense. Van Geldern acenou com a cabeça.

— Ah, sim. São cosmohistóricos. Se tivesse tempo eu os acompanharia. No

entanto Van Geldern suspirou e contemplou as mãos.

— Tenho muito trabalho aqui em cima.

— Um trabalho maravilhoso — bajulou Cronot. — Quem sabe se na cidade não

conseguimos sementes ou bulbos de plantas desconhecidas? É claro que o senhor seria informado imediatamente.

— Seria muita gentileza de sua parte. De fato, dizem que os velhos lemurenses

eram fanáticos por flores. Ficaria muito grato se quiserem fazer investigações a este

respeito.

Faremos o possível — respondeu Cronot. — Infelizmente o General Ifros

mandou fechar o único acesso à cidade.

— Pensei que os senhores possuíssem uma licença especial.

— Todas as licenças especiais foram canceladas. Parece que o general pensa que

Old Man atacará justamente Triton quando voltar a entrar em ação. E olhe que dizem que

ainda se encontra além da órbita de Plutão.

— Mas isso é uma bobagem!

Piet van Geldern revirou nervosamente o charuto entre os dedos sujos de terra.

— O senhor não poderia arranjar outra permissão especial para nós? — perguntou Perish, impaciente.

— perguntou o governador. — Infelizmente não é possível. Isso é da

competência exclusiva do governador militar. O governador apontou para um lugar sombreado que ficava embaixo dos galhos nus de um pé de rosas silvestres.

— Cyclamen Coum, a mais antiga das violetas dos Alpes. É a primeira vez que está dando flores. Fiquei experimentando durante seis anos para descobrir um bom lugar. Esta planta é uma dama voluntariosa — disse, orgulhoso com o êxito que finalmente alcançara. Perish fez uma careta e cerrou os punhos. Mas seu pai sacudiu a cabeça. Levantou e agachou-se junto às plantas baixas cor-de-rosa e brancas.

— Eu?

— Fantástico! — murmurou.

Van Geldern acompanhou-o entusiasmado.

— Às vezes tem-se a impressão que as plantas aqui em Triton não obedecem mais

às leis naturais — cochichou. — Já tive plantas de floração precoce que só deram flores

no outono e plantas de floração transitória florindo o ano inteiro. Permite que lhes mostre

uma coisa muito especial

reduzida de Triton alcançou três metros de altura. Na Terra não alcançaria mais de quarenta centímetros Cronot soltou um suspiro de resignação.

É uma Fritillaria Meleagris que graças à gravitação

?

— Será um prazer, Mr. van Geldern, um grande prazer. Mas primeiro temos de tratar de obter uma licença especial do general. Depois

— Ora! A licença especial — queixou-se o governador.

Lançou um olhar pensativo pelo jardim suspenso. De repente tirou um relógio de bolso achatado, abriu a tampa traseira e apertou um botão minúsculo.

Espantados, os oxtornenses viram que a parte traseira do relógio era um minicomunicador, do tipo que somente os agentes especiais da Segurança costumavam receber. Depois de alguns instantes ouviu-se uma voz áspera, na qual se notava um tom de impaciência.

— General Ifros falando! Que houve?

Van Geldern sorriu para a objetiva e só então ligou a transmissão de imagem. O rosto contraído de Moshe Ifros apareceu na pequena tela de imagem.

— Van Geldern falando. Caro general, preciso com urgência de duas permissões

especiais para entrar na velha cidade dos lemurenses. Poderia ter a bondade de instruir

seu comando a emitir prontamente os documentos? O rosto duro do general abriu-se num sorriso irônico.

— Os dois oxtornenses estão aí? Pois diga-lhes

— Um momento, general! — gritou van Geldern. — Preciso com urgência de um

lugar para guardar os documentos secretos sobre a produção de cobre. Como sabe, os dados relativos à conversão da matéria em hipótese alguma podem cair nas mãos do

inimigo. Quero que Mr. Cronot Mokart e seu filho se dirijam à cidade para guardar os documentos. Podemos ter certeza de que o velho núcleo de fugitivos lemurenses não será descoberto pelo inimigo.

— Aí as coisas mudam de figura — retrucou o General Ifros. — Instruirei

imediatamente meu pessoal. Daqui a meia hora os Mokarts poderão receber suas permissões especiais. Mas faço questão de que sejam acompanhados por uma escolta.

— Muito obrigado, caro Ifros — disse van Geldern em tom cordial. — Sabia que é

um homem sensato. Quando tiver tempo, venha visitar-me na sede do governo. Criei uma

nova variedade de íris O governador interrompeu-se ao notar que o General Moshe Ifros cortara a ligação.

— Este sujeito é um oficial muito competente, mas em matéria de floricultura não passa de um ignorante — murmurou o governador, decepcionado. Os oxtornenses tiveram de reprimir o sorriso.

— De qualquer maneira ficamos-lhe muito gratos, Mr. van Geldern — disse Cronot

e estendeu a mão para o governador. — Gostaria que nos dissesse onde deveremos receber os documentos

— Que documentos? — perguntou van Geldern, espantado. — Foi apenas um

estratagema, cavalheiros. Acham que sem isso o general teria concedido a permissão?

De repente os três estavam rindo.

— Venham — disse van Geldern depois de algum tempo. — Ainda vamos dar uma olhada na variedade gigante da Fritillaria Meleagris

* * *

O Capitão Arturo Geraldi era um homem baixo e franzino, de cabelos negros e

olhos da mesma cor.

Perish Mokart examinou-o discreta e cuidadosamente, quando ele se apresentou com um grupo de sete soldados.

O olho aguçado do antigo oficial especializado lhe mostrou que naquele corpo

moreno se agitava um verdadeiro vulcão. Arturo Geraldi certamente era um combatente

arrojado, que se empenhava nas lutas de corpo e alma. Perish Mokart ficou satisfeito por estarem do mesmo lado.

— Pois é! — disse. — Vieram para acompanhar-nos. Regozijo-me com a ação conjunta que realizaremos, capitão. Perish estendeu a mão. O Capitão Geraldi apertou-a.

A mão do capitão era dura e cheia de tendões. Nela pulsava o sangue quente dos

antepassados do sul da Europa.

— Posso retribuir o elogio — disse Geraldi com uma risada, enquanto centenas de ruguinhas se formavam em seu rosto moreno. — É a primeira vez que vejo um oxtornense em carne e osso. Perish deu de ombros meio embaraçado. Sempre tinha uma sensação desagradável quando faziam alvoroço de sua ascendência.

— Os oxtornenses são seres humanos como os outros — respondeu. — No fundo

sentimo-nos muito sós quando não estamos com nossa gente. Não é muito agradável ser

considerado um prodígio. Os soldados sorriram. Eram homens entre os trinta e os trinta e cinco anos, e as

condecorações que traziam provavam que há muito tinham enfrentado seu batismo de fogo. Perish seria capaz de apostar qualquer coisa de que se tratava de soldados especializados de elevado grau de inteligência.

— A gente poderia perfeitamente pensar que o senhor nasceu na Terra — objetou

Geraldi. — Não me leve a mal, mas gostaria de saber se sua cabeleira é natural ou se é uma peruca.

— Não é nem uma coisa nem outra — respondeu Perish contrariado. Não gostava

que alguém aludisse à sua cabeleira, que não combinava com a raça oxtornense. —

Alguém separou minha cobertura craniana com uma arma energética e os médicos

cultivaram uma pele nova sobre a prótese de metal leve. Infelizmente cometeram um erro, fazendo crescer cabelo.

O capitão ficou um pouco vermelho no rosto.

— Eu não sabia, senhor.

— Não importa — respondeu Perish Mokart com um gesto de pouco-caso. — Será que já podemos ir embora?

— Naturalmente, senhor.

Geraldi fez um sinal aos soldados, que pegaram a bagagem. Deixaram que Cronot Mokart os levasse ao compartimento de carga da supertartaruga e tributaram a devida admiração às instalações internas do veículo. O que mais despertou sua atenção foram os

arcos esportivos de dois metros de altura, pendurados na parede ao lado de uma aljava e de um alvo.

— O senhor coleciona armas antigas? — perguntou um dos soldados, espantado.

Perish sorriu.

— Não se trata de uma arma antiga, embora o princípio segundo o qual funciona

seja conhecido há tempos imemoriais. O arco por exemplo é de elastonita, enquanto a

corda é de aço terconite. As hastes das flechas são de aço leve, enquanto as pontas são de metal MV e podem ser substituídas, inclusive por modelos com diversos tipos de cargas. Meu pai ocupa parte de seu tempo livre com o tiro de flecha. Cronot sorriu.

— É um esporte que une o útil ao agradável. Se consegui sobreviver em Alyra, por exemplo, foi porque pude repelir um ataque noturno dos achuurs — trata-se de

gigantescos sáurios de alta ferocidade — com esta arma. As flechas perfuram a pele blindada de qualquer animal, por mais forte que seja, e a carga de atoterme existente na ponta seria capaz de destruir até mesmo um blindado voador terrano.

O Capitão Geraldi passou a mão pelas flechas. Parecia admirado.

— Nunca pensei que hoje ainda se pudesse lutar de forma eficiente com um tipo de

arma tão antigo. Mas parece que com os oxtornenses só podemos esperar as coisas mais

extraordinárias

O capitão fitou Perish.

— Qual é seu hobby?

— Acha que devo ter um?

Geraldi acenou com a cabeça. Estava com o rosto sério. — Se vejo o jogo dos músculos de seus ombros embaixo do uniforme, acho que pratica a luta livre ou o remo.

— Pois adivinhou errado, capitão. Já ouviu falar em vôo livre?

— O quê? — exclamou um soldado atlético. — O senhor pratica o vôo livre? E

nunca participou das nossas competições?

— Como pode voar com esse peso? — perguntou o capitão, estupefato. — Com as

asas de borboleta que usam para esvoaçar embaixo das cúpulas de Tritona?

— Com asas de dragão! — corrigiu Perish sorrindo. — É claro que preciso de uma

envergadura muito maior que um homem nascido na Terra, mas consigo. Praticamos esse

esporte até mesmo em Oxtorne. Os fortes ventos ascendentes embaixo das nuvens de trovoadas compensam em larga escala a gravitação de 4,8 gravos. O recorde é de duzentas e quatro horas — tempo terrano, naturalmente.

— Se não me engano, o senhor deve ser o recordista — observou o soldado atlético. Perish Mokart deu de ombros, embaraçado.

— A gente faz o que pode.

Em seguida fechou a escotilha de popa da supertartaruga, pediu aos soldados que durante a viagem permanecessem sentados nos bancos dobráveis e subiu à carlinga. O pai ficou no compartimento de carga. Em compensação o capitão acompanhou Perish. O veículo de esteiras arrancou violentamente, seguindo em alta velocidade para a saída da cúpula.

2

De repente as paredes do túnel recuaram. Os faróis de alta potência da

supertartaruga iluminaram a superfície de um lago subtritonense. Perish Mokart fez passar o veículo junto à água, até atingir o cais de rocha natural. Um objeto metálico refletiu a luz dos faróis. O objeto permanecia imóvel na água. Perish freou e fez com que a supertartaruga parasse perto da água.

— Chegamos, minha gente!

— espantou-se o Capitão Geraldi. Perish confirmou com um

gesto.

— É uma coisa estranha numa lua de Netuno, na qual normalmente não deveria

haver ar nem água, não acha?

— A presença de água em estilo livre já é bem estranha — respondeu Geraldi em

tom seco. — Por que esta água não entra em ebulição com a gravidade reduzida?

— Por que a água embaixo das cúpulas de Tritona não entra em ebulição? — respondeu Perish com outra pergunta.

— Um submarino!

Porque lá é gerada uma gravitação artificial de 0,8 gravos.

Pois é. Por aqui deve acontecer coisa semelhante. Ainda haveremos de descobrir.

O

oxtornense desceu do veículo e saltou do cais para o convés achatado do barco

submarino.

A torre ficava bem no centro do barco. Parecia uma gota achatada. À frente dessa

torre ficava a saliência de uma torre giratória encolhível. Perish abriu a escotilha da torre e desceu pela estreita escada de aço. O capitão seguiu-o. Estava curioso.

— Onde arranjou este barco? — perguntou.

Perish virou a cabeça e sorriu.

— No museu de história militar de Terrânia. Foi trazido desmontado. Foi o último

modelo dos submarinos atômicos americanos do fim do século vinte. Já está equipado com reator catalítico de fusão e possui um emissor de raios laser na proa, que serve para remover redes e minas inimigas. É claro que os dezesseis foguetes intercontinentais foram removidos, para evitar que alguém possa brincar com eles.

— Ei! Espere aí! — exclamou o capitão, assustado. — Este barco possui um gerador de gravidade?

— Por quê? — perguntou Perish Mokart, estupefato. Em seguida soltou uma estrondosa gargalhada.

Ainda estava rindo quando seu pai apareceu na escotilha da torre, com sete soldados e a bagagem.

— Qual é a graça? — resmungou Mokart sênior, espantado. Perish logo voltou a ficar sério.

— Na verdade não há graça alguma, Dad. O Capitão Geraldi somente descobriu uma coisa sobre a qual há muito estamos quebrando a cabeça.

— Não compreendo

Perish acenou com a cabeça.

— Por favor, tente avaliar a gravitação no interior deste barco.

Cronot Mokart parecia espantado. Em seguida balançou os pés. Seu espanto cresceu.

— Mais ou menos um gravo! — exclamou. — Mas a bordo deste barco não existe

nenhum De repente bateu com a mão na testa.

— A água! Mas é claro! Só pode ser isto. Há um projetor oculto, que faz com que a

água em Triton fique constantemente sujeita à gravitação de um gravo. E esta gravitação é transmitida a todos os objetos que entram em contato com a água.

— Mas é claro! Desta forma aqui prevalecem as mesmas condições da Terra. Geraldi franziu a testa.

— Mas o senhor não poderia ter deixado de notar que a gravitação é mais elevada que a de Triton Cronot sacudiu a cabeça.

— Para um oxtornense isso não é tão simples. Por que acha que não trazemos um

gerador de gravidade sobre o corpo que nem os ertrusianos e os epsalenses? É porque nos adaptamos instantaneamente a qualquer gravitação inferior à de Oxtorne. Para nós isso se transformou numa coisa tão natural que nem percebemos mais.

— Quem dera que com os terranos também fosse assim — respondeu o capitão. —

Se me lembro dos dois meses que tive de passar na base de Pallas durante meu

treinamento espacial!

Lá não existe uma gravitação terrana artificial. Nos primeiros

quatro dias senti-me miseravelmente mal. O capitão passou os olhos demoradamente pela sala de comando e assobiou numa expressão de elogio ao ver as telas panorâmicas.

— Até parece uma espaçonave.

— De certa forma não deixa de ser — afirmou Perish. — Afinal, o submarino

desloca-se num elemento quase tão hostil à vida humana como o vácuo do espaço cósmico. Mas vamos tratar de guardar a bagagem, se não o general é capaz de resolver outra coisa e obrigar-nos a voltar. Os soldados ajudaram a guardar a bagagem, que foi colocada no antigo silo de foguetes. A bagagem consistia principalmente no equipamento da expedição dos cosmohistóricos, que incluía um pequeno planador. Dali a trinta minutos Perish começou a inundar as câmaras de mergulho. No mesmo

instante as hélices da popa revolveram a água escura do lago. A proa foi baixando, e o barco mergulhou. As telas panorâmicas mostraram as imagens de radar das margens submersas. Depois de alguns minutos os homens avistaram a entrada de uma galeria. O barco mal e mal cabia nela. Se tivesse mais um centímetro, não entraria.

— O túnel está completamente cheio de água — explicou Cronot. — O desnível é

de cerca de doze graus em todo o trecho, que chega a cinco quilômetros.

— Quer dizer que se houver algum problema com o barco não poderemos emergir? — perguntou Geraldi.

— Sem dúvida — respondeu Cronot. — Mas não sei o que poderia acontecer.

O capitão deu de ombros. Nem ele nem os outros se lembravam do perigo que os espreitava além da órbita de Plutão.

* * *

— Atenção! Segurem-se — gritou Perish Mokart. — Alguma coisa estava

sacudindo o barco. No mesmo instante o submarino levou uma forte pancada. Nas telas não se via nada além da água. Cronot acionou uma chave. O ruído das bombas se fez ouvir. Perish ativou o leme de profundidade. Os soldados escorregaram para a parede dos fundos da sala de comando enquanto a proa subia. Dali a pouco a imagem de radar de uma caverna gigantesca foi projetada nas telas.

Estava quase completamente cheia por outro lago. Mas as margens estavam fortificadas e nas paredes que se erguiam atrás delas viam-se os reflexos metálicos de grandes eclusas. Em uma das escotilhas havia um grande buraco, pelo qual podia passar um planador de pequeno porte.

— Infelizmente a equipe que descobriu as instalações teve de abrir uma das

escotilhas com explosivos — informou Cronot. — O mecanismo automático de abertura

pode ser ativado por meio de um código especial.

— É bom termos cuidado — observou Perish. — Primeiro irei sozinho à cidade.

— Irá coisa alguma! — indignou-se o pai de Perish. — Pelos espíritos de Barrier,

eu

— É claro que você me dá cobertura, Dad. Irei na frente com meu equipamento de vôo livre para fazer um reconhecimento.

— Está bem — concordou Mokart sênior, que não podia deixar de reconhecer que

graças ao equipamento de vôo livre seu filho possuía mais mobilidade que qualquer

outro.

— Que pancada foi essa que sentimos há pouco? — perguntou um dos soldados.

Cronot apontou com o dedo polegar para a tela de popa. Ali se via a imagem de uma gigantesca queda d'água, ou melhor, de um jato d'água

que saía do túnel para cair no lago depois de ter percorrido uns duzentos metros.

— Descemos ali? — perguntou o soldado em tom de incredulidade.

— Parece que sim, meu filho — retrucou Cronot com um sorriso irônico.

— Para onde vai essa água? — perguntou o Capitão Geraldi. — E como se explica que o nível do lago superior permaneça constante? Perish deu uma risada.

— Olhe bem para essa queda d'água, capitão.

Geraldi olhou primeiro para Perish, depois para a queda d'água.

— Ora veja! — disse finalmente. — Até parece que a água está congelada. O que é feito da energia da queda?

— Não existe — explicou Perish Mokart. — Aquilo que parece um raio de água na

verdade é uma ponte aquática que permanece suspensa graças à ação dos raios de tração.

A água que liga os dois lagos permanece imóvel.

— Fantástico! — exclamou o capitão, entusiasmado. — E depois de cinqüenta mil

anos tudo continua funcionando perfeitamente? — Continua — murmurou Cronot. — Nossos antepassados também alcançaram

alguma coisa. Nem tenho certeza se já atingimos o mesmo nível técnico-científico que eles haviam alcançado. É possível que na cidade ainda encontremos outras surpresas.

— Tomara! — disse Mokart júnior.

* * *

Perish Mokart abriu violentamente a bainha magnética do envoltório de plaston e tirou um maço de peles com aspecto de couro. Abriu-o e passou os cintos largos por cima

do ombro. Em seguida apertou um botão instalado sobre uma caixinha achatada que mantinha os cintos unidos sobre o peito. As peles com aspecto de couro desdobraram-se e de repente se abriram em forma de asa de morcego. Perish enfiou as mãos nas alças presas às travessas que sustentavam a membrana voadora.

— Pronto, Dad.

Cronot Mokart colocou uma ponta de atoterme na última flecha e experimentou a corda do arco.

— Você sabe o que fazer, Perish! Primeiro lançará um ataque simulado e depois subirá para ficar fora do alcance das armas automáticas.

— Claro, Dad.

— Não é muito perigoso? — perguntou o Capitão Geraldi, preocupado.

Ele e os soldados pertencentes ao seu grupo estavam sentados em cima do pequeno planador trazido pelos cosmohistóricos.

— Qualquer outra coisa que fizéssemos seria mais perigosa — retrucou Cronot. —

Na verdade, não poderá acontecer nada. Se na cidade existisse um centro de manutenção

que funcionasse, a escotilha já teria sido reparada. Como não foi, é provável que o armamento defensivo destruído também não esteja funcionando. Cronot pegou uma flecha preparada, encostou-a à corda do arco e fez um sinal para o filho.

— Pronto!

Perish Mokart soltou um grito estridente e saltou com um movimento elástico. A força do salto do oxtornense deixaria espantado qualquer homem nascido na Terra que nunca tivesse visto coisa igual. Os soldados esticaram o pescoço.

Perish saltara uns vinte metros para o alto. Batendo as asas que nem um morcego, subiu silenciosamente a cem metros. Em seguida voou em direção à escotilha quebrada. Cronot fez pontaria com a flecha para os buracos de bordas enegrecidas, atrás dos quais costumavam ficar escondidas as armas do sistema defensivo — ou ainda estavam. Mas não aconteceu nada. Perish desceu para a escotilha que nem uma flecha — é voltou a subir. As membranas voadoras artificiais movimentavam-se com uma rapidez alucinante.

No mesmo instante Perish descreveu uma curva e atravessou a escotilha destruída.

Mokart respirou aliviado.

— O caminho está livre, minha gente.

O Capitão Geraldi gritou uma ordem e o piloto do planador deu partida, acelerando ao máximo. De tão entusiasmado que estava, quase bateu na parede rochosa ao lado da entrada. Mudou de direção no último instante. O planador atravessou a abertura, produzindo um som parecido com o estouro de uma rolha de champanha.

— Seu demônio! — praguejou Cronot Mokart.

Saiu correndo e atingiu a abertura. Olhou para trás e viu

O submarino balançando calmamente junto ao cais, iluminado pelas luzes de

sinalização verdes e vermelhas. Finalmente mergulhou no submundo da lua de Netuno. Enquanto isso Perish Mokart sobrevoava a antiga concentração de fugitivos lemurenses. Um sol atômico artificial brilhava no teto abobadado, algumas centenas de metros acima de sua cabeça, iluminando uma cidade do tamanho da Chicago de meados do século vinte.

Os telhados brilhavam, dando a impressão de que a cidade fora construída há poucos dias. Não se via o menor sinal de corrosão ou má conservação. Mas os parques

tinham-se transformado em selvas impenetráveis, mas só se tinham espalhado alguns metros, porque o material das ruas e das casas não cedia às raízes em expansão nem lhes proporcionava qualquer alimento. Praticamente, os parques eram formados apenas por aglomerações de verde entrelaçado de centenas de metros de diâmetro. Parecia que os antigos lemurenses não tinham exportado animais para Triton — ou então as respectivas espécies estavam extintas.

A melancolia apossou-se do cosmohistórico ao ver este quadro.

Teve uma consciência nítida da tragédia dos primórdios da humanidade. Pôs-se a refletir onde não teria chegado a segunda humanidade, se há cinqüenta mil anos alguns milhares de lemurenses tivessem conseguido refugiar-se naquele lugar. Era possível que a história da segunda humanidade tivesse começado algumas décadas depois de a Terra ter sido devastada. Talvez toda a Galáxia já tivesse sido explorada e colonizada e talvez não haveria nenhum robô do tamanho de um planetóide suspenso no espaço perto da órbita de Plutão, para pôr em perigo a Humanidade juntamente com os hipnocristais de Magalhães e os terríveis dolans Perish obrigou-se a não pensar mais nisso. O se e o porém não levavam a nada. Era

necessário reconhecer as oportunidades e adaptar-se a elas para controlar o presente.

— Alô, Perish! — disse uma voz saída do minúsculo rádio que ele trazia junto ao

ouvido esquerdo. — Acho que já está na hora de pousar. Temos muito trabalho pela frente.

— Um momento, Dad! — disse Perish Mokart para dentro do pequeno microfone colocado à frente dos seus lábios.

Gostaria de dar mais uma olhada por aí.

Está bem! — concordou o pai. — Mas não demore muito.

O

oxtornense seguiu em direção a um arranha-céu que ficava no centro da grande

cidade. Era um edifício que subia pelo menos duzentos metros em direção ao céu

artificial formado por uma cobertura abaulada. Os outros edifícios não tinham mais de cem metros de altura. Embaixo da ponta do edifício havia uma extensa plataforma, mostrando que antigamente planadores costumavam pousar ali — ou deveriam ter pousado Perish pousou cuidadosamente. No mesmo instante ouviu um zumbido fraco. O chão tremeu sob seus pés. Perish ia subir de novo, quando descobriu uma abertura na ponta em pirâmide. Certamente surgira naquele instante. Provavelmente qualquer peso que pressionasse a plataforma ativava um mecanismo muito antigo.

— Que coisa estranha! — murmurou Perish.

— O quê? — perguntou o pai, preocupado.

— Não é nada de importante — respondeu Perish.

Em seguida tirou as mãos das alças e largou os cintos. As membranas voadoras caíram ao chão.

Perish Mokart deixou-as onde estavam e tirou a arma da choque. Lamentou-se por não ter trazido uma arma mais eficiente. Era bem verdade que um paralisador serviria para rechaçar os ataques dos seres vivos. Mas diante dos robôs a arma falharia.

— Tolice! — resmungou Perish. — Aqui não pode haver robôs. Se existirem, já foram desativados. Se não fosse assim teria visto alguns.

O oxtornense aproximou-se cuidadosamente da abertura e olhou por ela. Viu uma sala iluminada com um buraco circular no chão. Era a entrada de um elevador antigravitacional. Perish aproximou-se do buraco. Uma placa cinza-prateada fechava a entrada do poço. O elevador fora desativado. Certamente havia uma escada de emergência. Afinal, às vezes eram necessários reparos que só podiam ser realizados com os projetores antigravitacionais desligados. Perish caminhou junto à parede, apalpando-a com as mãos. De repente cambaleou. Uma abertura surgiu no lugar em que pouco antes encostara as mãos. Uma luz vermelha mortiça iluminava uma estreita escada em caracol. Perish voltou a enfiar a arma paralisante no cinto e começou a descida. Quando tinha percorrido cerca de quatro metros na escada atingiu uma pequena plataforma presa à parede interna. Perish subiu na plataforma e passou as mãos pela parede. Outra porta abriu-se — silenciosamente que nem a primeira. O cosmohistórico deparou-se com uma sala circular. As telas apagadas refletiam a luz branco-amarelada filtrada através do teto e das paredes, que derramava uma luminosidade suave pela sala. Teclas e placas de comando emitiam um brilho metálico, enquanto as escalas emitiam uma leve cintilância. Em uma das poltronas largas em forma de concha havia um ser humano que trajava um conjunto cinza-azulado. Estava com a mão direita estendida. A mão segurava uma alavanca vermelha luminosa, dando a impressão de que esta fora puxada naquele instante, e não há dezenas de milênios

* * *

Perish Mokart sabia que só encontraria uma múmia, os restos mortais de um lemurense que morrera no posto que lhe fora designado. Mal se atrevia a respirar enquanto entrava na sala. Foi para perto da poltrona nas pontas dos pés e contemplou o rosto do cadáver. Era um rosto humano. Não havia nenhuma diferença com os rostos da atual geração. A pele endurecida com aspecto de couro dobrava-se sobre uma caveira e os olhos ressequidos fitavam o recém-chegado, dando a impressão de que ainda o viam. Os dentes estavam à mostra. Eram amarelentos e pareciam sorrir, quando na verdade não havia mais vida naquele corpo. Perish espantou-se porque um cadáver mumificado resistira durante cinqüenta mil anos, embora a sala não tivesse sido vedada. Uma brisa suave saía pelas grades de ventilação. Provavelmente se formava independentemente das instalações técnicas. Mas logo se lembrou de que na cidade subtritonense havia uma atmosfera artificial, uma atmosfera estéril. Isso explicava a mumificação. Perish examinou a testa muito alta do cadáver. Se a forma do crânio era um sinal do que havia nele, aquele lemurense devia ter sido um homem muito inteligente, talvez um cientista. Sem querer Perish tocou o braço esquerdo da múmia com o ombro. Houve um estrondo. O oxtornense sobressaltou-se e saltou para trás. No lugar em que ficava o braço esquerdo do cadáver havia uma nuvem de pó. Os tecidos mumificados tinham-se desmanchado ao contato.

De repente Perish Mokart encontrou o objeto que caíra de dentro da múmia, causando o barulho que o deixara tão assustado. Era uma esfera prateada brilhante do tamanho de uma maçã!

O cosmohistórico abaixou-se e pegou cuidadosamente a esfera.

Sentiu uma vibração fraca que partia dela. A esfera era quente. Tinha mais ou menos a temperatura do sangue de um homem nascido na Terra. Perish viu uma fresta

fina como um cabelo que surgira no lugar em que a esfera fora comprimida por um botão.

O

oxtornense ficou paralisado de susto.

O

botão certamente fora comprimido quando a esfera caíra ao chão.

Com cuidado, mas depressa, colocou o objeto sobre um quadro de comando.

Depois virou-se abruptamente, saltou para a porta, subiu correndo a escada em caracol, atravessou a sala do alto da torre, saiu para a plataforma e correu para junto da membrana voadora. Colocou os cintos de sustentação com uma rapidez extrema, enfiou as mãos nas alças e subiu da plataforma. Afastou-se apressadamente da torre, desceu sobre os edifícios e tratou de sobrevoar o mais depressa possível grande número de edifícios e percorrer muitos quilômetros para afastar-se da torre — e da bomba, cujo detonador-relógio vibrava Avisou os amigos pelo rádio e pediu-lhes que se protegessem. Mas quando viu o planador abandonado junto à entrada da cidade, encostado à parede do edifício, e notou que se afastara vários quilômetros da torre sem que tivesse havido uma explosão, Perish acalmou-se. Talvez o objeto que segurara na mão nem fosse uma bomba. Encontrou o pai e os oito soldados do destacamento especial no porão do edifício junto ao qual ficara estacionado o planador. Os homens fizeram inúmeras perguntas, mas a primeira coisa que Perish fez foi examinar o teto e as paredes do porão. Certificou-se de que podiam resistir a uma explosão atômica que se verificasse a uns quatro quilômetros dali. Só depois disso contou sua aventura.

— Provavelmente nem foi uma bomba — concluiu. — Mas acho que devemos ficar mais algum tempo aqui dentro. — Quer seja uma bomba, quer não seja, você agiu corretamente — murmurou Cronot Mokart. — Gostaria de saber que esfera é esta — caso não se trate de uma bomba — observou Perish em tom pensativo.

— O senhor disse que a esfera vibra? — perguntou o Capitão Geraldi. Perish fez um gesto afirmativo.

— É uma vibração completamente silenciosa, capitão. Foi nem uma pulsação rápida Perish interrompeu-se e respirou profundamente.

— Uma pulsação! Era isso mesmo! A esfera tinha vida e sua temperatura era igual à de um terrano. Além disso pulsava.

foi que

como direi?

— E possui um botão para ser ligada — completou Cronot em tom irônico. — Não

venha me dizer que você acredita que um ser vivo pode ser ligado e desligado que nem

uma máquina.

— E se a gente puder ligar e desligar?

— Nesse caso é uma máquina, meu filho. O resto, o calor, as vibrações, tudo isso pode ser produzido por uma máquina.

— Não demoraremos a descobrir — observou Geraldi.

— O senhor é um tipo muito esquentado! — advertiu Cronot. — O detonador-

relógio pode ter sido regulado tanto para trinta minutos como para vinte e quatro horas. Perish bateu com o punho direito na palma da mão esquerda.

— Portanto, é indiferente que eu volte agora ou dentro de uma hora, Dad!

Perish colocou o equipamento de vôo sobre os ombros e caminhou em direção à

porta.

— Espere! — gritou Cronot em tom enérgico. — Você fica! Se alguém vai, sou eu.

Sou um velho. Não farei muita falta Perish sorriu para o pai.

— É a primeira vez que você se considera velho. Não, Dad, você com seus sessenta

e oito anos está na flor da idade. E há outro detalhe. Como pretende examinar a esfera?

Cortando-a com uma arma térmica?

— Garanto que darei um jeito de abri-la.

Perish sacudiu a cabeça.

— Receio que, se for mesmo uma bomba, a maneira de abri-la é uma das coisas

mais importantes — disse em tom sério. — E neste ponto um antigo oficial especializado da USO sem dúvida leva uma vantagem enorme sobre você. Não, Dad. Se alguém for, sou eu.

O rosto de Cronot Mokart assumiu uma expressão sombria. Teve vontade de sentir

o quanto se sentira aflito há três anos, quando recebera um hipergrama no qual lhe era comunicado que seu filho Perish sofrera ferimentos graves em ação. As pernas tinham sido despedaçadas numa explosão e a cobertura craniana arrancada por um tiro energético Mas acabou engolindo a observação — como já fizera antes.

— Está bem, filho. Mas tenha cuidado.

— Terei — prometeu Perish.

— Irei com o senhor — disse o capitão. — O General Ifros me enviou para protegê- lo. Portanto, não deve recusar minha oferta. Perish Mokart sorriu.

— OK, capitão! Se é assim, ajude-me a tirar o equipamento. Precisamos de um

detector de raios gama, de um analisador de isótopos e de um refletor de impulsos ultra-

sonoros.

* * *

Foram à torre no planador. A entrada principal estava envolta numa luz mortiça, uma vez que os raios do sol eram filtrados por uma cobertura abobadada translúcida. Por isso Perish Mokart só avistou os dois robôs de combate quando o planador já estava parado. Soltou um palavrão, empurrou a alavanca do acelerador e contornou o edifício mais próximo. Perish parou. Admirou-se de não terem sido perseguidos pelos robôs de combate.

— Voltarei sozinho — disse.

— Irei com o senhor.

Geraldi quis levantar, mas Perish empurrou-o para dentro da poltrona.

— Seu idiota! Acha que pode fazer alguma coisa contra dois robôs de combate?

Não saia daqui, a não ser que ouça tiros. Neste caso afaste-se o mais depressa possível.

— E o senhor?

O oxtornense deu uma risada áspera.

— Sei lidar com robôs. Nada me acontecerá.

Perish saltou do planador e correu junto à parede de concreto de fibra de vidro sem

fazer qualquer ruído. Em três saltos percorreu os cerca de sessenta metros que o separavam da torre e encostou-se à parede junto à entrada.

Continuou tudo quieto. Contornou cuidadosamente a cúpula translúcida que se erguia à frente da entrada. Os dois robôs de combate ainda estavam no mesmo lugar, parados que nem estátuas. Estavam com os braços armados abaixados — e as células de visão Perish Mokart sorriu. Pôs a mão em concha à frente dos lábios e gritou:

— Venha, capitão. Está tudo bem.

Por um instante reinou um silêncio medonho. De repente ouviu-se o ruído de um

gerador antigravitacional forçado ao máximo — e o planador desceu sobre o revestimento de plástico à frente da entrada. O Capitão Geraldi estava sentado ao volante, com a arma energética levantada.

— Muito obrigado — disse o oxtornense em tom áspero. — Guarde seu pau de

fogo. Os robôs foram desativados.

— Nunca é bom arriscar — respondeu o capitão com um sorriso. — Ouvi dizer que

às vezes os robôs são capazes de falar como gente. Perish bateu levemente no peito de um dos robôs — mas logo teve de segurá-lo com ambas as mãos, para evitar que a máquina de uma tonelada tombasse.

— Os velhos lemurenses ainda não conheciam o intercosmo, Geraldi. Logo, seus

robôs também não conheciam. Perish amarrou ao corpo a caixa pesada com o equipamento e dirigiu-se à porta.

— Aqui também são escotilhas — murmurou. — Os lemurenses cuidaram muito

bem da segurança da população da cidade. Gostaria de saber por que acabou não dando

certo.

O oxtornense passou a mão nas partes da escotilha em que costumavam ficar as fechaduras térmicas. As duas metades abriram-se com um chiado quase imperceptível.

No gigantesco hall também havia uma luz suave. Era bem verdade que o oxtornense seria incapaz de dizer se esta não fora ligada automaticamente no momento em que a escotilha se abrira. As botas do Capitão Geraldi batiam ruidosamente nos ladrilhos de fibra de vidro. O rosto do oxtornense crispou-se numa expressão contrariada.

— Não poderia fazer um pouco menos de barulho, capitão? Não sei por que os astronautas terranos ainda fazem questão de usar essas botas militares.

— Botas militares?

Perish Mokart fez um gesto de pouco-caso.

— perguntou Geraldi. — Por quê?

— Deixe para lá. Na Academia da USO costumávamos escarnecer dos costumes

medievais dos terranos. Veja minhas botas! São de tercoplástico impregnadas de CF com solas de biossintético. Não pesam mais de cem gramas, peso terrano. É o material que a USO costuma fornecer aos seus homens.

— Pensei que se tivesse desligado da USO há três anos.

— Qualquer capitão da reserva leva para

casa o equipamento completo, capitão. Isto

para o caso de precisarem dele em algum lugar no qual não possa contar com suprimentos das bases da USO. Perish ficou parado junto ao tubo duplo do elevador antigravitacional.

parado junto ao tubo duplo do elevador antigravitacional. — Gostaria que pudéssemos ativar isso — Para

— Gostaria que pudéssemos ativar isso

— Para um oxtornense duzentos metros não são nada — ironizou Geraldi.

— Não estou preocupado com a subida,

mas com a descida — ponderou Perish. — É

possível que tenhamos de descer às pressas. Um tanto pensativo, foi até a abertura atrás da qual começava a escada de emergência.

— Vamos dar uma olhada no subsolo.

Pelo que estou informado, a tecnologia lemurense adotava o mesmo princípio do suprimento independente de energia que é adotado pelos terranos. Portanto, deve haver um gerador no edifício.

— Não se esqueça de que estamos num simples núcleo de fugitivos — objetou

Geraldi, mas nem ele mesmo se convenceu com o argumento. Ficara muito impressionado com a perfeição técnica das instalações da cidade subtritonense. O capitão seguiu o oxtornense o mais depressa que pôde. Mas Perish já chegara ao subsolo. A usina geradora ficava uns cinqüenta metros abaixo do chão da caverna. A julgar

pelos detalhes visíveis, tratava-se de uma usina compacta de fusão catalítica, de um tipo que os cientistas terranos ainda não conheciam, ao menos em dimensões tão reduzidas.

— O comando é robotizado — explicou Perish. — Parece que o gerador é acionado

de vez em quando, para carregar as células de armazenamento. Isso facilitará nossa tarefa. Não precisamos dar partida nos reatores. Depois de tanto tempo isso seria um tanto arriscado. Perish moveu resolutamente a chave do comando robotizado. Olhou para o capitão com um sorriso tranqüilizador no rosto. Em seguida testou o comando manual. Depois que compreendeu o esquema de controle, elevou cuidadosamente a temperatura de funcionamento e a injeção de massa catalítica. Em seguida aumentou o suprimento de hidrogênio até que a marca amarela que assinalava o desempenho mínimo fosse ultrapassada. Ouviu-se um zumbido atrás das paredes de aço molecularmente condensado, atrás das quais ficava o conjunto de fusão nuclear. Mas por enquanto só fora injetada uma névoa muito fina de átomos de hidrogênio nas câmaras de reação. Enquanto não fosse aumentado o suprimento de vapor catalisador, não haveria nenhum processo de fusão nuclear. Finalmente uma placa luminosa verde acendeu-se, mostrando que as células de armazenagem tinham acumulado um volume de energia suficiente para o funcionamento contínuo dos projetores de contenção. Perish Mokart aumentou a potência.

O zumbido transformou-se num ruído ensurdecedor. As energias de um sol em

miniatura tentavam abrir passagem à força, mas enquanto isso supriam de eletricidade o

campo energético que evitava que isso acontecesse.

O oxtornense moveu a chave que identificara como sendo o comando que fazia a

ligação dos centros de consumo. No mesmo instante mais de cem placas luminosas verdes acenderam-se no painel.

— Pronto! — disse Perish Mokart.

O capitão enxugou a testa.

— Se ficar mais algum tempo com o senhor, morrerei dez anos antes do tempo — exclamou.

Mokart deu uma risada. Teve vontade de bater amistosamente no ombro do oficial, mas antes disso lembrou-se das forças tremendas que possuía.

— Vamos! — gritou, com um pé na escada de emergência. — Vamos ver no que

deu nosso trabalho. Assim que chegaram ao hall, viram que o elevador antigravitacional estava funcionando. Os tubos estavam bem iluminados.

Levaram trinta segundos para chegar à sala que ficava embaixo da ponta da torre.

A

esfera continuava no mesmo lugar em que Perish a deixara.

O

oxtornense pegou-a e pesou-a na mão.

— Continua igual — cochichou.

Perish desamarrou a bolsa de equipamentos e tirou o detector de raios gama. — Só costumamos usar isto para examinar as características de construções e

materiais antigos — explicou. — Mas se o material de revestimento desta esfera não deixar passar as radiações, logo saberemos o que há dentro dela. Preparou o exame da esfera com movimentos rotineiros. Os raios gama muito duros mostrariam no analisador de que camadas e de que materiais era formada a esfera.

O oxtornense ligou o detector.

No mesmo instante uma língua de fogo de um metro subiu da célula de

armazenamento de energia. Houve um estouro que fez tilintar as telas de imagem da galeria panorâmica. Perish Mokart fitou a esfera com uma expressão de perplexidade. Continuava exatamente na mesma.

— Que foi isso? — perguntou o Capitão Geraldi.

— Não sei. O fusível de tantálio e irídio do cabo de energia queimou. Não faço idéia de como isso aconteceu. Perish afastou as peças do detector de raios gama.

— Não tenho fusível de reserva. Teremos de usar o ultra-som.

Perish montou o aparelho e colocou a esfera no recipiente cheio de um líquido no qual ela ficaria suspensa. Em seguida fez sinal para que o capitão recuasse até a escada de emergência. Finalmente ligou o detector de ultra-som e olhou ansiosamente para a tela do projetor. Nos primeiros instantes não aconteceu nada. Apenas uma mancha circular com um brilho metálico apareceu na tela, com uma massa pulsante que apresentava manchas escuras. De repente o oxtornense estremeceu. Um ruído suave encheu a sala. Até parecia a corda de uma harpa sendo tocada.

O som aumentou, voltou a diminuir — e novos sons misturaram-se à melodia

fantástica.

Perish Mokart esperou mais algum tempo antes de desligar o detector de ultra-som.

No

mesmo instante os sons estranhos desapareceram.

O

oxtornense arrancou as placas de registro e examinou-as com os olhos

semicerrados.

Só deu pela presença do capitão quando um hálito quente atingiu seu rosto.

Perish, que estivera agachado, levantou abruptamente e virou-se.

— Pedi que saísse, capitão!

Geraldi sorriu embaraçado.

— Achei que suas costas largas me protegiam, Mr. Mokart. Pelo menos desta vez não queimou nenhum fusível. Que música esquisita foi essa?

O cosmohistórico deu de ombros.

— Estou muito mais interessado nas fotografias. Veja esta superfície metálica

circular. Deve ser o revestimento da esfera. Através dele vê-se uma coisa parecida com uma aglomeração esférica de uvas. Conhece a fruta?

O capitão parecia ofendido.

— Faça-me o favor! Em minha pátria

— Perdão. Esqueci. Mas vale a pena dar uma olhada. O Capitão Geraldi pegou a placa e franziu a testa enquanto olhava para ela.

— Isto me faz lembrar minhas aulas de biologia

— Está brincando!

— De forma alguma. Parece uma blástula sob o microscópio eletrônico, Mr.

Mokart. Perish segurou a esfera. Ficou pensativo.

— Sabe lá o que devemos concluir se sua suposição for correta? Esta coisa tem

vida. Não gosta de raios gama, mas tem uma predileção toda especial pelo ultra-som.

— Que loucura! — respondeu o Capitão Geraldi em tom áspero.

Perish Mokart abriu a boca para dar uma resposta, mas não teve tempo.

De

repente a torre parecia balançar. Alguns vidros estalaram.

Os

dois homens viram a múmia encolher-se, enquanto a mão direita empurrava a

chave vermelha.

No mesmo instante as telas de imagem acenderam-se.

O Capitão Geraldi soltou um grito de pavor

3

O uivo intermitente dos alarmes interrompeu violentamente o sono de Ilja Malume.

Levantou atordoado, saltou do leito primitivo da sala de prontidão e saiu cambaleando para junto do intercomunicador. Bateu violentamente com o punho negro na tecla de acionamento. No mesmo instante Ilja Malume acordou de vez.

A imagem tridimensional do rosto largo do Marechal-de-Estado Bell apareceu na

tela de imagem.

Se o substituto de Perry Rhodan em pessoa entrara em ação, a catástrofe devia ser iminente.

— Ligação simultânea de hipercomunicador da Crest IV com todas as estações

retransmissoras e centros de rádio da frota metropolitana — rangeu a voz mecânica de

um robô. — Transmissão coletiva do Marechal-de-Estado Bell a todos os contingentes da frota operando entre as órbitas de Marte e Plutão.

O Tenente-Coronel Malume fechou o traje espacial quando a voz do robô ainda

estava soando. Mas deixou o capacete aberto.

Reginald Bell ergueu a mão. Parecia que seus olhos encaravam o oficial de frente. Era uma ilusão. Naquele momento todos os comandantes de flotilha veriam a mesma imagem e teriam a mesma impressão.

— Operação Optimum! — disse o Marechal-de-Estado com a voz controlada. —

Old Man começou a deslocar-se há um minuto. A rota que segue o levará para dentro do Sistema Solar. Parece que o destino é a Terra. Os grupos de caças espaciais sairão imediatamente e seguirão para o destino segundo o esquema operacional Optimum E. Os grupos combatentes da frota formarão uma frente de bloqueio móvel segundo o mesmo

esquema. O objetivo dos grupos de caças consistirá em lançar ataques maciços contra os dolans que eventualmente saírem de Old Man. Os grupos de naves de guerra lhes darão apoio, mantendo ocupadas as unidades inimigas. Espero que cada soldado da Frota dê o máximo de si. A Terra e o destino da Humanidade estão em jogo. Não se pode cogitar da capitulação. Defrontamo-nos com um inimigo que não está disposto a negociar. É só. Reginald Bell fez continência. Ilja Malume viu que o rosto do Marechal-de-Estado tremia. Parecia que o substituto de Rhodan sabia perfeitamente que a ordem que acabara de dar representava a morte de milhares de homens corajosos. Ilja também fez continência, embora ninguém pudesse vê-lo.

— A Terra pode confiar em nós — disse com a voz rouca de tão nervoso que

estava.

A tela apagou-se. O Tenente-Coronel Malume fez uma ligação com as salas de

prontidão de seu pessoal. Fixou a decolagem para X menos cinco minutos. Em seguida pegou o cinto e saiu correndo. Uma esteira rolante transportou-o pelos cem metros que o separavam do hangar em que estava guardado seu aparelho. Do outro lado veio correndo Teddy Jones, seu navegador e observador. Os dois homens cumprimentaram-se com um gesto ligeiro enquanto saltavam para dentro da cabine de seu caça-mosquito e atavam os cintos de segurança. O pessoal do hangar já pusera a funcionar em ponto morto o reator dos propulsores.

Ilja pegou o microfone do telecomunicador. Ao mesmo tempo levantou o braço, o que era um sinal para o pessoal do hangar pôr em movimento o jato-mosquito.

Enquanto a larga fita articulada se movimentava aos solavancos e a marca vermelha da eclusa se aproximava, Ilja Malume ia recebendo os avisos dos comandantes de grupo que anunciavam estarem prontos para entrar em ação. Enquanto isso transmitia o mesmo aviso em voz baixa ao comandante da nave em que estava baseado seu jato.

Comandante de esquadrilha do 22 o Destacamento. Decolaremos em X menos sessenta segundos. Contagem regressiva iniciada. É só.

— Roger! — respondeu a voz do comandante. — Boa sorte, Malume. Desligo. Ilja sorriu ligeiramente.

— Obrigado. Desligo.

Deixou que o microfone voltasse à posição original e agarrou o manche de direção. Olhou ligeiramente para os lados e viu que em toda parte os caças-mosquito do 22 o Destacamento Reforçado de Caças-Mosquito da Frota Metropolitana entravam nos tubos das eclusas de catapultamento. Eram 130 vespas espaciais agressivas, que poderiam acabar até mesmo com um gigante do porte de um supercouraçado. Tomara que também conseguissem acabar com as terríveis figuras conhecidas como dolans!

Ilja dobrou o capacete pressurizado para a frente, enquanto a escotilha da eclusa se abria à frente de seu aparelho. A cobertura da carlinga já se fechara. Os microfones externos transmitiram os uivos e estrondos do ar escapando. Numa decolagem-relâmpago não havia tempo de bombear a atmosfera dos tubos-eclusa de volta para a nave. Uma luz de alerta vermelha acendeu-se sobre a escotilha externa.

— Pronto para decolar! — gritou Ilja Malume para dentro do microfone.

De repente um buraco escuro surgiu no lugar em que pouco antes houvera a escotilha externa fracamente iluminada. E o jato-mosquito do tenente-coronel entrou em alta velocidade nesse buraco escuro

* * *

Ilja Malume ainda se encontrava a dois milhões de quilômetros quando distinguiu a olho nu a roda de fogo ofuscante que o grupo de naves inimigas empurrava à sua frente. Soubera, graças às mensagens transmitidas pelas naves solares envolvidas no combate, que Old Man, um gigantesco robô semi-esférico com duzentos quilômetros de diâmetro na base, fizera sair e lançara no combate cerca de quinze mil supercouraçados. A maior força combatente jamais criada por terranos estava empenhada na destruição dos próprios terranos. Era dirigida por hipnocristais microscópicos e controlada pelos misteriosos condicionados em segundo grau, que eram os gigantescos policiais do tempo, muito parecidos com os halutenses, que queriam punir a Humanidade pelo fato de uma de suas espaçonaves ter sorrido há tempos, contra a vontade, um deslocamento no tempo Ilja Malume pegou o microfone do hipercomunicador. Sabia que os caças-mosquito não teriam a menor chance de atravessar a roda de fogo dos supercouraçados.

Comodoro aos pilotos do 22 o Destacamento. Entrar em formação de leque e passar por cima do fogo de barragem inimigo a uma distância máxima de segurança. Siga as coordenadas verde delta, ípsilone trinta e três graus, quatro minutos, zero segundos!

Ilja puxou o manche para junto do corpo e observou a roda de fogo, enquanto esta parecia cair abaixo da proa de um caça espacial. Empurrou resolutamente o manche de direção para a posição máxima.

O Tenente Teddy Jones transmitia em voz calma as coordenadas da rota, que

mudavam constantemente. De vez em quando o Tenente-Coronel Malume via os lampejos distantes dos caças vizinhos. Mas os lampejos ficavam cada vez mais fracos, à medida que os aparelhos se afastavam. De repente Teddy Jones soltou um grito. Alarmado, Ilja inclinou-se sobre a subtela. Viu alguns sóis artificiais que acabavam de surgir embaixo de seu caça. Às vezes os redemoinhos energéticos causados pela explosão dos projéteis de conversão pareciam flores exóticas abrindo-se numa profusão de cores. Qualquer caça-mosquito que entrasse mesmo na zona periférica da área abrangida pela explosão se volatilizaria imediatamente. Felizmente os tiros inimigos ainda estavam muito distantes. Não representavam qualquer perigo para os caças espaciais. Mas nos lugares em que se encontravam as espaçonaves da Frota Solar se formavam constantemente bolas de fogo branco-azuladas em expansão, que irradiavam

sua energia para o espaço infinito. Eram naves de guerra terranas atingidas pelos projéteis conversores. Ilja Malume cerrou os dentes.

O flanar de naves de Old Man prosseguia inabalável — e atrás dele Old Man

penetrava cada vez mais profundamente no Sistema Solar, protegido por um campo hiperenergético verde que cintilava que nem uma gigantesca bolha de sabão.

O comodoro deixou que o rastreador de freqüência percorresse a escala. As vozes

de comando misturavam-se aos pedidos de socorro vindos de naves destroçadas à deriva.

De vez em quando uma voz parava de repente, mas às vezes ainda gritava o pavor que sentia A imagem produzida pelo conjunto das mensagens de rádio fez com que Malume tremesse de raiva e medo.

Parecia que ninguém seria capaz de resistir a esta tremenda concentração de forças.

A Frota Solar limitava-se a travar encarniçados combates durante a retirada, combates

estes que só lhe rendiam perdas em suas fileiras. Ilja sentiu que o medo de morrer diminuíra, sendo substituído aos poucos pela

preocupação que lhe inspirava o destino da Terra. A decisão de infligir perdas ao inimigo implacável, custasse o que custasse, era cada vez mais forte. — Faltam dois minutos para atingirmos o ponto de concentração, senhor! — informou Teddy Jones. Ilja puxou a alavanca do acelerador, obrigou o caça espacial a descrever uma curva ampla e reduziu a velocidade usando os propulsores de proa. Em seguida voltou a ligar o hipercomunicador na freqüência de sua esquadrilha.

Falta pouco, rapazes! — gritou para dentro do microfone embutido no capacete.

Os

pilotos responderam com gritos de júbilo. Ilja Malume engoliu em seco.

Vamos escolher um supercouraçado ou um dolan — disse em tom indiferente.

— Não quero que ninguém se sacrifique à toa. Somente os combatentes vivos e os caças espaciais intatos poderão ser úteis à Humanidade. Isto é uma ordem. Desligo.

Ilja sentiu-se aliviado por ter dito isto. Talvez tivesse salve alguns dos seus homens. Mas era a única coisa que podia fazer, a não ser que quisesse abandonar a luta antes que ela começasse.

— Faltam trinta segundos para

Ilja voltou o rosto, espantado porque o navegador se interrompera abruptamente.

O espaço e a incredulidade estavam estampados no rosto de Teddy Jones.

— Que houve? — gritou Ilja, nervoso.

— principiou o Tenente Jones.

— Estão se afastando! — exclamou Jones, perplexo. Ilja Malume olhou para a tela dos rastreadores.

A roda de fogo que girava embaixo deles estava quase apagada. Os rastreadores

energéticos mostraram que os supercouraçados de Old Man prosseguiam num ângulo de noventa graus em relação à rota que vinham seguindo e aceleravam depois de terem entrado em formação de cunha. Os supercouraçados protegiam os flancos do robô gigante. Uma gritaria ensurdecedora saiu dos receptores do hiper-comunicador.

— Estão fugindo! Nós os expulsamos. Bell lhes mostrou uma coisa!

— Silêncio! — gritou Ilja Malume. — Seus idiotas. O inimigo gozava de uma nítida superioridade. Deve estar tramando alguma coisa.

— A ponta da formação inimiga está entrando no espaço linear! — anunciou Teddy Jones com a voz se atropelando. — A Terra está fora de perigo.

— Cale a boca! — gritou Ilja, irritado, para em seguida pigarrear. — Desculpe,

Teddy!

Ilja olhou para o manche de direção, indeciso, para em seguida dizer em voz baixa:

— Tente calcular para onde os levará a rota que seguem, Teddy. Quero saber que

diabo eles pretendem fazer. Depois disso deu ordem para que os pilotos de sua esquadrilha adaptassem sua rota à do grupo inimigo e acelerassem.

O Tenente Jones voltou a falar dentro de menos de um minuto.

— Old Man segue em direção a Netuno, senhor! O resto da frota também está entrando no espaço linear.

Ilja segurou firmemente o manche de direção e cerrou os dentes. Pôs-se a refletir por um instante para em seguida ordenar em tom resoluto:

— A esquadrilha entrará no espaço linear sem sair da formação. Segue em direção a

Netuno. Tentem sair exatamente entre o planeta e a posição atual da lua Triton. Desligo.

Ainda ficou pensando se deveria informar o comandante da nave em que estava baseada sua esquadrilha sobre seu plano, mas os pilotos dos caças informaram que os aparelhos estavam preparados para iniciar a manobra linear.

O comandante deu uma risada silenciosa enquanto batia na tecla que ativava o

kalup.

As estrelas desapareceram — para reaparecer dali a pouco.

A primeira coisa que Malume ouviu foram as vozes dos comandantes, que

informaram terem alcançado as coordenadas fixadas. De repente uma gigantesca

espaçonave apareceu à pequena distância. O campo hiperenergético brilhava que nem uma tocha acesa. Ilja viu pelas informações que sua esquadrilha saíra por acaso numa posição de ataque favorável em relação ao gigante espacial saído de Old Man.

— Preparar para o combate! — gritou. A onda de emoções varreu suas angústias:

— Avante!

O gigante esférico foi entrando aos poucos na ponta da mira embutida no visor

reflex. A única arma do jato-mosquito era o canhão conversor rigidamente montado na

proa. Por isso o piloto era obrigado a movimentar a nave para fazer pontaria.

O traço vermelho da telemetria foi-se aproximando da marcação de fogo amarela.

Ilja colocou o dedo no botão acionador do canhão, embutido na ponta do manche de direção.

É agora!

Ilja ainda chegou a ver as flores brilhantes da explosão do projétil conversor abrindo-se junto ao inimigo. Depois disso o mundo desapareceu num inferno de fogo branco-azulado.

Quando recuperou os sentidos, o cosmos parecia executar uma dança louca. A superfície vermelho-incandescente de um astro aparecia constantemente entre as estrelas que pareciam girar, e cada vez que isso acontecia, essa superfície aumentava mais um pouco.

O

receptor do hipercomunicador transmitiu vozes confusas.

O

Tenente-Coronel Malume fez um grande esforço para virar a cabeça.

Quando olhou para trás, levou um grande susto. A popa de seu caça espacial desaparecera — juntamente com a cabine em que se encontrava Teddy Jones. A parede separatória fechara-se automaticamente, para evitar a despressurização instantânea da cabine do piloto. Mas naquela situação isso só representava um adiamento do que estava para vir. Era estranho, mas o comodoro não pensava em outra coisa que não fosse o destino

que tivera Teddy Jones. Tentou convencer-se de que seu subordinado e companheiro poderia estar vivo como ele, mas teve plena consciência de que era seu subconsciente que se recusava a aceitar logo a verdade. Levou algum tempo para voltar a pensar em si mesmo. Ao que parecia, sua esquadrilha voara bem para dentro do fogo defensivo do supercouraçado e fora dizimada. O aparelho do comodoro provavelmente só fora atingido pela área periférica de uma explosão. O calor fora tamanho que derretera a popa do caça. “É estranho que o hipercomunicador não esteja funcionando!”, pensou Ilja. Girou o botão de sincronização na intensidade máxima.

A tela iluminou-se por um instante. Parecia que a energia dos geradores de

emergência já estava diminuindo. Ilja Malume mal conseguiu ouvir uma voz nos fones de ouvido. —

não existe a menor dúvida de que Old Man e sua frota está atacando as duas

luas de Netuno Era a voz de Reginald Bell! —

Todos os contingentes da Frota Solar recuarão para as coordenadas

estabelecidas no plano Quo Vadis, onde ficarão concentrados. Chamando nave Prometeu! Ainda estamos sem notícias sobre o 22 o Destacamento. Peço informações urgentes

destruídas.

A voz diminuiu e deixou de ser ouvida. O receptor ficou em silêncio.

Ilja Malume riu amargurado.

O

Marechal-de-Estado Bell aguardaria em vão notícias sobre o 22 o Destacamento de

Caças-Mosquito. Parecia que nenhum caça espacial escapara ao fogo inimigo.

O tenente-coronel manteve os olhos vidrados fixados na parte dianteira da carlinga.

De repente estremeceu.

O

astro que vira não saía mais de seu campo de visão. Só balançava ligeiramente.

O

jato destroçado se estabilizara.

Isto significava que se precipitava sobre o astro! De repente Ilja teve uma esperança. Talvez conseguisse pousar são e salvo no astro, usando os retropropulsores de seu traje espacial e o gerador antigravitacional. Mas neste instante viu um lampejo na superfície vermelho-brilhante. Lá embaixo estava sendo travado um combate. Com isso as chances de descer à superfície com vida diminuíam bastante. Mas apesar disso a mão de Ilja apalpou o botão do ejetor do assento. Apertou o botão vermelho. A atmosfera escapou com um estalo, enquanto a cobertura da cabine era arremessada para longe. Ilja Malume sentiu o corpo ser comprimido de encontro à poltrona anatômica. Os destroços de seu caça-mosquito desapareceram. Mexeu automaticamente nos controles que normalmente garantiriam um pouso macio no satélite de Netuno. O objeto que parecia vir ao seu encontro em velocidade alucinante só podia ser a lua Triton. Ilja cerrou os dentes. A vontade de viver era cada vez mais forte. Mas o acaso desempenharia um papel muito importante — importante demais

4

O filme certamente era transmitido por intermédio de uma sonda espacial. Só assim

se explicava que Perish Mokart e o Capitão Arturo Geraldi pudessem testemunhar a explosão de Nereide enquanto se encontravam na cidade subtritonense. Nereide, a segunda lua do planeta gigante Netuno

O satélite-anão de 395 quilômetros de diâmetro desmanchou-se na fornalha das

explosões dos projéteis conversores — juntamente com a guarnição de duzentos e cinqüenta homens da base ali instalada.

O oxtornense lembrava-se perfeitamente das informações sobre Nereide, que lhe

tinham sido fornecidas pelo Governador van Geldern quando chegaram a Triton.

A guarnição da base lunar comandada pelo Major Tcho Lin era formada por

soldados especializados. Sua tarefa consistia em controlar a partir de um centro de

comando algumas centenas de plataformas conversoras do sistema defensivo solar, e se necessário manejá-las. Mas não poderiam fazer mais nada disso. Old Man golpeara impiedosamente. Neste instante uma bolha energética verde-cintilante apareceu na tela. Era o campo defensivo hiperenergético de uma belonave inimiga de grande porte. De repente a tela escureceu.

A sonda robotizada deixara de existir.

Triton voltou a ser sacudido.

O Capitão Geraldi cerrou os punhos à frente do peito.

— Já destruíram Nereide. Agora é nossa vez!

Neste instante ouviu-se o estrondo de um edifício desmoronando. Perish Mokart abanou a cabeça. — A pontaria é muito precisa. Acho que só estão pondo fora de ação os fortes instalados na superfície. Geraldi quis dar uma resposta, mas um terrível rangido abafou suas palavras. Triton

sacudiu-se como se tivesse vida. Quando o barulho diminuiu, o capitão fitou as outras telas com o rosto muito pálido.

— Foram disparos de canhões intermitentes, Mokart. É uma arma contra a qual não existe defesa, — Vamos aguardar! — respondeu Perish, tranqüilo. — Parece que querem conquistar Triton. Isso nos dá mais uma chance.

O

capitão também olhou para as telas restantes.

O

quadro com que se deparou quase fez congelar o sangue em suas veias.

Ao que parecia, a sala instalada na torre só servia para observar a superfície de Triton sem ser visto. Naturalmente houvera sondas espaciais, conforme se deduzia das oito telas escuras. Na opinião do oxtornense, estas sondas de transmissão de imagem tinham sido

destruídas, com exceção de uma, pelos abalos estruturais resultantes do aparecimento de Old Man e dos quinze mil supercouraçados baseados nele.

A transmissão de som e imagem de Triton e do labirinto de cavernas que ficava

embaixo das montanhas Scrap funcionava com uma nitidez macabra.

A cidade propriamente dita fora abandonada. Suas cúpulas só abrigavam edifícios e

ruas vazias. Os volumes de bagagem atirados fora mostravam que a população saíra às

pressas. Em compensação havia uma tremenda aglomeração nas gigantescas cavernas

embaixo das montanhas Scrap. Os habitantes de Tritona mostraram-se disciplinados, mas de vez em quando ouvia-se uma mulher soltando gritos histéricos ou um homem chamando seus familiares. As vozes enérgicas dos soldados espaciais se faziam ouvir constantemente, fazendo com que o fluxo dos fugitivos não se interrompesse.

— O alarme deve ter sido dado na cidade pouco antes da nossa chegada — disse Geraldi com a voz embaraçada.

— Acho que não perdemos nada — respondeu o cosmo histórico. — De qualquer

maneira, parece que os fugitivos estão em relativa segurança embaixo das montanhas.

— Receio que esteja formando um quadro muito otimista da situação — disse

Geraldi com a voz tensa. Em seguida apontou para outra tela. Perish Mokart olhou na direção indicada. Viu um trecho da superfície acidentada de

Triton. Havia uma sombra gigantesca suspensa sobre o quadro, encobrindo parcialmente a luz avermelhada de Netuno.

— É uma das plataformas-hangar de Old Man — cochichou o oxtornense.

— O que é isso? — gritou o capitão, puxando violentamente o braço de Mokart.

Perish viu em outra tela uma esfera negra de uns cem metros de diâmetro; A esfera passou embaixo da plataforma-hangar do robô gigante e seguiu em direção ao topo

achatado de um morro. Distinguia-se vagamente uma grande aglomeração de robôs de combate. Os lampejos dos tiros energéticos iluminavam a tela. Eram robôs lutando com robôs.

— Old Man acaba de soltar seus robôs de guerra — afirmou Arturo Geraldi,

amargurado. — Dizem que há centenas de milhares deles a bordo do robô gigante.

— Acontece que nossos robôs de combate são melhores — retrucou Perish. — Parece que estão rechaçando o inimigo.

O capitão soltou um grito de raiva impotente.

Resignado, Perish Mokart fechou os olhos.

O dolan seguiu em direção aos robôs terranos — e dali a pouco não sobrou nada

deles, além de uma nuvem de pó que desceu abruptamente, já que não havia nenhuma atmosfera capaz de amortecer a queda.

— Monstros! — esbravejou Geraldi. — Dizem que são seres feitos em retorta, verdadeiras espaçonaves vivas tripuladas por um único homem. Geraldi soltou uma risada histérica.

— O que foi que eu disse? Um homem?

São é monstros.

— Fique calmo — disse o oxtornense. — Até mesmo um monstro tem seus pontos fracos. Já conseguimos destruir um dolan. Não está lembrado?

— Muito bem — retrucou o Capitão Geraldi zangado. — Os monstros levaram

algum tempo para digerir o golpe. Mas lá estão eles de novo. Devem ter tramado um

plano diabólico enquanto estavam em segurança além da órbita de Plutão. Desta vez não conseguiremos derrubar nenhum deles, oxtornense. Preste atenção! Mas Perish não ouvia mais o que o capitão dizia. Estava sentado numa poltrona em concha, com a cabeça apoiada nas mãos, numa atitude pensativa.

A misteriosa esfera encontrava-se sobre seus joelhos

Mais uma vez Perish Mokart teve a impressão de que ouvira os acordes suaves de uma harpa. Mas eu seu subconsciente surgiu uma resistência fraca. Por que somente ele reagia aos sons vibrantes, e o capitão não? Mas os tons da harpa eólia invisível formaram uma melodia de sons harmônicos, reprimindo as resistências que surgiam no subconsciente. As recordações foram retiradas da memória, formando conceitos não muito claros Perish teve a impressão de que levitava sobre a gigantesca caverna. Embaixo dele as baterias de desintegradores faziam seu trabalho, e os raios térmicos bem abertos alisavam a rocha. Máquinas estranhas rolavam pelo chão. Até pareciam sáurios antediluvianos. Foram deixando para trás estradas, pontes e alicerces completos. Outras máquinas vieram atrás das primeiras, completando o trabalho. Aos poucos o gigantesco pavilhão foi-se esvaziando. Só ficou uma figura solitária, a figura de um ser humano. Caminhava entre os edifícios vazios, atravessou um portal e subiu por um tubo de elevador iluminado. Einaklos, o arquiteto e dono da cidade lemurense! Bem em cima, no pavilhão da visão, Einaklos passou a aguardar aqueles que nunca viriam. Enquanto esperava, esperava e caminhava entre o pavilhão e o laboratório, outra obra foi tomando corpo. Einaklos era o senhor do tempo! Einaklos o arquiteto morreu, mas Einaklos o senhor do tempo continuou vivo. Dormiu durante cinqüenta mil anos. Quando a mão do morto o soltou, acordou para uma nova atividade

* * *

Uma dor lancinante arrancou Perish Mokart dos sonhos. Abriu os olhos e levantou o braço, ao ver que seu pai estava tomando impulso para outro golpe. — Graças a Deus! — exclamou Cronot Mokart. — Já pensava que tivesse

enlouquecido. Ficou horrível com os olhos vidrados

Por que não parava de resmungar

alguma coisa a respeito de um tal de Einaklos? Perish esfregou as faces, que ainda ardiam por causa das bofetadas que o pai lhe

dera.

— Einaklos?

Sorriu ligeiramente e olhou assustado para a esfera.

— E Einaklos, o senhor do tempo.

O queixo de Cronot começou a tremer.

— O quê?

. Não compreendo, Perish. Trate de controlar-se, rapaz.

Cronot procurou alguma coisa em que segurar-se quando um novo tremor sacudiu a lua. A torre balançava que nem um mastro batido pelo vento. A esfera retirada do cadáver do lemurense rolou tilintando pelo console e bateu na grade de um microfone. Perish pegou-a.

— Não sei se estou sofrendo alucinações, pai. Mas, se estou em condições normais,

esta esfera contém os dados armazenados na mente de Einaklos, o lemurense que mandou

construir esta cidade. Cronot segurou o filho pelos ombros e girou-o para ver seus olhos. Dali a pouco soltou-o e respirou aliviado.

— Você não poderia estar mais normal do que está, Perish. Ninguém melhor que eu para saber, pois conheço-o muito bem.

Cronot tirou cuidadosamente a esfera da mão do filho, contemplou-a com uma expressão estranha e encostou-a ao ouvido.

Perish confirmou com

— Deve ser o objeto que você acreditava ser uma bomba um gesto.

Em seguida apontou para os discos de registro jogados ao acaso.

— Foram gravados com o detector de ultra-som.

Cronot Mokart examinou cuidadosamente os discos.

— Uma estrutura orgânica parecida com uma blástula, do tamanho de um punho de

criança, protegida por uma camada de metal, cuja composição e características provavelmente são parecidas com as do nosso terconite Cronot olhou atentamente para o filho.

— Acha mesmo que pode conhecer o ser pelo aspecto? Perish não pôde deixar de

rir.

— É uma pergunta típica sua, Dad. Daqui a pouco você exigirá as provas.

— Não fuja ao assunto, Perish!

— Está bem! Perish Mokart recostou-se.

— O

o objeto é capaz de emitir sons audíveis e inaudíveis. Talvez não me

tenha exprimido bem. É claro que não se trata de sons no sentido literal da palavra. É antes uma forma de transmissão espiritual de percepções acústicas.

bem

— Uma espécie de telepatia? — perguntou Cronot em tom irônico.

— Não sou nenhum especialista em ciências ocultas para poder dar uma resposta

concreta, Dad. Só sei que as percepções acústicas provocaram certas imagens em meu cérebro. Presenciei a construção do núcleo dos fugitivos lemurenses, vi o arquiteto

recolher-se ao pavilhão de observação, esperando em vão pelos fugitivos da Terra. E vi-o cultivar a blástula no laboratório. Perish passou a mão pelos olhos num gesto distraído.

— Vi Einaklos morrer, e percebi quando sua mente se apoderou completamente do

organismo sem alma existente nesta esfera. Fiquei sabendo que Einaklos — e esta esfera passou a ser Einaklos, menos quanto ao organismo mortal — dormiu durante cinqüenta mil anos terranos. Só acordou quando toquei na múmia daquilo que era Einaklos, e a esfera caiu ao chão. Cronot sentou-se no console de comando e encheu o cachimbo. Fez questão de demorar bastante. Os homens que se encontravam no pavilhão não tomaram conhecimento dos novos abalos e do estrondo dos edifícios desmoronando. Estavam perplexos com aquilo que o oxtornense acabara de contar. Dali a alguns minutos Cronot acendeu o cachimbo, soprou algumas baforadas de fumaça azulada contra as telas de imagem e começou a falar em voz baixa. — Resolvi acreditar no que você disse, Perish, embora a experiência colhida durante a vida de um velho se recuse a aceitar o fato de que a mente de um ser humano ainda possa continuar ativa cinqüenta mil anos depois de sua morte.

— Não se esqueça de Old Man, senhor! — pediu Arturo Geraldi. — A mente do

Capitão Rog Fanther e de seus companheiros continuou a existir pelo mesmo tempo.

— Ali o caso é diferente — objetou Cronot Mokart. — Os cérebros desses homens

continuam a viver num líquido que prove tudo de que precisam. Em outras palavras, seus

corpos só morreram em parte. O setor em que estava sediada a mente continuou a viver. Já aqui se afirma que a mente de um ser humano foi transferida de um cérebro moribundo

a uma estrutura biológica cultivada parecida com uma blástula. Além disso, ao que tudo indica, esta esfera não tem a menor possibilidade de alimentar o que há dentro dela. De que vive mesmo a blástula?

— Não sei — confessou Perish. — Quando chegar a hora, Einaklos me dirá. Ele mesmo não precisa de alimento, pois é todo espírito. Perish deu de ombros.

— É ao menos o que imagino.

— É uma loucura! — resmungou Cronot. — O que pretende fazer com esta esfera

— ou seja, com o tal do Einaklos?

— Pretendo guardá-la. Dad, você ainda não compreendeu que é a maior descoberta que já fizemos em nossa vida de cosmohistóricos? Cronot confirmou a contragosto.

— Parece que também será a última — acrescentou laconicamente.

Mais um abalo sacudiu a torre. Rachaduras formaram-se no teto do pavilhão.

* * *

Perish e Cronot Mokart sobressaltaram-se ao verem o Capitão Geraldi passar

correndo pela porta do laboratório e parar à sua frente, mostrando-se muito nervoso.

— Que houve? — perguntou Cronot, colocando cuidadosamente seu exsicador sobre a mesa. O oficial estava ofegante. Finalmente começou a falar.

— O Marechal-de-Estado deu ordem ao general para que suspendesse o fogo e entregasse Triton ao inimigo.

— Como soube? — perguntou Perish. Geraldi sorriu embaraçado.

— Um dos meus especialistas andou mexendo no sistema de transmissão de

imagem. De repente o quartel-general de emergência do General Ifros apareceu em uma das telas. Entendemos cada palavra que ele trocou com os oficiais de seu estado-maior e vimos quando recebeu a mensagem de hiper-rádio decifrada expedida por Bell.

— Vamos dar uma olhada! — exclamou Perish Mokart.

Em seguida tirou as luvas de plástico, atirou para longe o jaleco de laboratório e passou correndo por Geraldi, em direção ao elevador. Seu pai seguiu-o um pouco mais devagar, acompanhado pelo capitão, que continuava nervoso. Quando atingiram o pavilhão da torre, encontraram-no vazio.

— O general saiu há poucos instantes — informou um soldado.

— Esperaremos — respondeu Perish.

Em seguida examinou atentamente o soldado. Tratava-se de um homem alto, de cabeça estreita, testa alta, olhos cor de água e cabelos curtos.

andou mexendo nos controles? O soldado acenou calmamente

com a cabeça, como se aquilo fosse a coisa mais natural deste mundo.

— O senhor andou

— Qual é seu nome?

— Ljassew, senhor. Reginald Ljassew.

Perish sorriu.

— Será que a mania de chamar os filhos de Reginald ainda não terminou? Um em

cada dez meninos do Império recebe o nome Reginald, e um em cada cinco se chama Atlan. Mas parece que por enquanto pouca gente se arrisca a usar o nome Perry, não é mesmo?

— Eu não diria isso, senhor — respondeu Ljassew, indiferente. — Dizem que há algum tempo uma certa Mrs. Rhodan deu a seu filho o nome de Perry

Alguns dos soldados que se encontravam mais próximos soltaram uma estrondosa gargalhada.

— Muito engraçado, amigo. O senhor é formado em alguma coisa?

— Em técnica de ultra-rádio, senhor.

— Ah, então é isso! Neste caso sua ação arbitrária fica perdoada. É especialista no assunto. Meus parabéns pelo excelente trabalho.

— Espero que os policiais do tempo possam usar minha capacidade — respondeu Reginald Ljassew.

— Por quê?

— O Marechal-de-Estado não deu ordem para que Triton capitulasse?

Neste momento a conversa foi interrompida. A imagem do General Moshe Ifros apareceu na tela. Havia três oficiais superiores perto do comandante militar da primeira lua de Netuno. Estavam com o rosto muito sério, mas pareciam controlados. O General Ifros sentou à frente de seu telecomunicador. Tratava-se de um aparelho grande, que devia ter uma potência considerável. Um dos oficiais ligou o telecomunicador.

— Oficiais e soldados, cidadãos de Triton — principiou o general. — Diante da

superioridade esmagadora do inimigo, o Marechal-de-Estado Bell deu ordem para que Triton capitulasse. Depois de discutir ligeiramente o assunto com meu estado-maior, cheguei à conclusão de que não tenho alternativa senão obedecer à ordem do substituto

do Administrador-Geral. Por isso comuniquei-me com o inimigo pelo hipercomunicador para oferecer a rendição incondicional e instruí o centro de comando de robôs a destruir seus robôs de combate. As instalações militares que podem tornar-se importantes para o inimigo também foram destruídas. Moshe Ifros fez uma pausa e puxou nervosamente a manga do uniforme.

— Por favor, não percam a calma e mantenham a disciplina. Não se deixem arrastar

a ações irrefletidas, para evitar maior derramamento de sangue. Infelizmente já perdemos dezessete homens, que tombaram ao defender o abrigo de entrada A-3. Daqui O General Ifros teve de fazer um esforço para controlar a emoção.

— Daqui em diante serei apenas seu companheiro de infortúnio. Foi a última ordem que dei. Desligo. Moshe Ifros desligou abruptamente.

* * *

— E nós

Perish Mokart virou o rosto e olhou nos olhos do oficial.

— Acho que faremos aquilo que considerarmos certo. O rosto moreno de Geraldi

?

— perguntou o Capitão Arturo Geraldi, esticando as palavras.

abriu-se num largo sorriso.

— Muito obrigado, Mr. Mokart. O senhor acaba de tirar um grande peso de cima de

mim.

Perish exibiu um sorriso malicioso.

— Como pode ter tanta certeza?

— Bem. Na verdade, nem chegamos a receber a ordem. Perish deu uma risada

áspera.

— Podemos encarar a coisa assim, caro capitão. Só espero que se dê conta de que

nenhum de nós pode livrar o outro do peso da decisão. De repente os outros soldados protestaram em altas vozes, obrigando Perish Mokart

a gritar o mais que pôde para ser ouvido.

— Por favor, acalmem-se! — disse assim que pôde falar tranqüilamente.

Encarou os soldados um por um.

— Vamos agir corretamente. Quem não quiser tomar conhecimento da ordem do General Ifros

Perish abanou a cabeça num gesto de reprovação ao ver todos levantarem os braços ao mesmo tempo.

— O entusiasmo não pode fazer mal a ninguém — disse em tom gelado. — Mas

acho que no presente caso o raciocínio lógico vale mais. É possível que a decisão que

tomarmos neste instante represente uma decisão sobre a vida e a morte — nossa vida e morte. Um grupo que continua a lutar depois que o comando supremo deu ordem de capitulação deixa de ser uma tropa regular. Se nos pegarem, seremos sumariamente executados. Mas se obedecermos à ordem do General Ifros, teremos boas chances de sobrevivência como prisioneiros de guerra.

— Não quero saber de nenhuma chance! — exclamou um dos soldados.

Perish interrompeu com um gesto enérgico as manifestações de solidariedade.

— Pensem no que acabo de dizer. E não se esqueçam de que se não capitularmos teremos de lutar. — Sugiro que o assunto seja posto em votação dentro de trinta minutos — acrescentou Cronot Mokart.

— Posto em votação? — resmungou o Capitão Geraldi. — Para um soldado a

ordem de seu superior é quanto basta.

— Para um soldado — repetiu Perish. — Acontece que, se resolvermos continuar,

não passaremos de guerrilheiros. A decisão terá de ser tomada por maioria de votos. As ordens dos superiores só prevalecerão naquilo que disser respeito ao cumprimento do que tiver sido decidido. Perish virou-se abruptamente e voltou a examinar as imagens projetadas nas telas panorâmicas. Uma transmissão feita da superfície mostrou novamente uma das plataformas de Old Man, além de milhares de robôs de combate descendo sobre um campo antigravitacional. Uma vez no chão, entraram em forma nos abrigos mais ou menos danificados que protegiam as entradas. Em toda parte viam-se os destroços de seus colegas e dos robôs de combate terranos, alguns dos quais tinham tombado em combate, enquanto os outros haviam sido destruídos pelo centro de controle de robôs para não poderem ser usados pelo inimigo. Em outras telas viam-se soldados terranos desarmados e grupos de civis sendo brutalmente tangidos através dos corredores pelos robôs de combate inimigos, para serem trancados em silos e abrigos vazios. Nenhum tiro estava sendo disparado.

— Por que os civis não foram retirados em tempo? — perguntou Cronot em tom

amargo. — Afinal, lá em cima não faltam transmissores. Bastaria ajustá-los para as

estações receptoras instaladas em Marte ou em algumas naves cargueiras — e eles estariam livres.

— Teoricamente seria possível — respondeu Perish em voz baixa. — Mas pelo que

estou informado sobre os campos defensivos dos dolans, estes teriam perturbado a

transmissão. Poderia haver terríveis acidentes.

— Sempre os dolans! — indignou-se Cronot. — Afinal, quem são eles? De onde vieram e quem os jogou contra nós? Perish Mokart fitou o pai com uma expressão pensativa.

— Suponhamos que conhecêssemos a resposta a essas perguntas. Acha que nesse

caso os dolans ainda poderiam tornar-se perigosos para nós? Perry Rhodan extirparia o

mal pela raiz, usando os métodos já consagrados.

— disse Cronot pensativo. — Qual é mesmo sua opinião a

respeito das notícias que recebemos da Terra? Certa vez até se chegou a ter a impressão de que alguns dos soldados que servem em Triton iriam amotinar-se por se julgarem enganados. Acha mesmo que o tal do Croton Manor inventou tudo que disse? Era um tipo confuso, mas sabia raciocinar.

— Perry Rhodan está vivo — disse Perish em tom resoluto. Em seguida saiu caminhando calmamente para a entrada do elevador antigravitacional.

— Perry Rhodan

— Vou dar mais uma olhada no laboratório. Quer ir comigo? Cronot fez um gesto afirmativo. Achava que o filho queria falar a sós com ele. Uma vez no laboratório, sentaram em cima da mesa.

— perguntou Cronot. — Como oficial especializado da USO você deve

ter uma noção mais precisa sobre os procedimentos adotados pelo governo do Império Perish olhou para as pontas das botas.

— Ouvi dizer que o Administrador-Geral possui um sósia, um homem que de fora é igual a ele e sabe imitar seu modo de falar, seus gestos e hábitos. Perish pigarreou.

— Mas dali evidentemente não se pode concluir que o homem que apareceu perante

o Conselho dos Administradores e Croton Manor tenha sido o tal do sósia. É bem possível que tenha sido o próprio Perry Rhodan.

— Quer dizer que não podemos excluir a possibilidade de Rhodan estar morto?

— Segundo as leis da probabilidade, um homem que sempre se expõe nos combates

deve ser morto um dia, mesmo que graças ao ativador de células possua o dom da imortalidade — respondeu Perish hesitante. — Não há dúvida de que houve uma

catástrofe na grande nuvem de Magalhães, senão Old Man e os dolans não teriam chegado ao Sistema Solar. Logo, é possível que Perry Rhodan esteja morto — se bem que eu espero que não. Seria uma coisa horrível para a humanidade.

— Você está preocupado com os movimentos que visam à autonomia dos mundos

coloniais, não é mesmo? Perish Mokart confirmou com um gesto.

— É a velha história, Dad. No início os colonos ficam satisfeitos com o apoio que recebem da metrópole. Mais tarde, quando têm motivo para orgulhar-se de suas

realizações e depois que se passaram algumas gerações, eles se perguntam por que a grande política da Galáxia é conduzida a partir da Terra, ainda mais que todo o poder parece estar concentrado nas mãos de uma única pessoa. “Aí basta que a administração planetária seja assumida pelos homens errados, para que tenha início a atividade subversiva. Cada qual quer mais poder que os outros — e todos se unem para investir contra a posição do mais poderoso de todos. “Felizmente o desenvolvimento econômico dos últimos trinta anos serviu para melhorar um pouco o ambiente, mas tenho certeza de que atrás dos rostos sinceros de alguns administradores se esconde uma enorme sede de poder. “No dia em que Perry Rhodan, que é um símbolo para o Império e as grandes massas, não estiver mais por aí, os lobos se precipitarão sobre a presa.”

— Quer dizer que, mesmo que o Administrador-Geral esteja morto, deve-se criar a impressão de que ainda está vivo?

— Então?

— Isso mesmo.

Cronot Mokart cuspiu de raiva.

— Quer dizer que a humanidade ainda não evoluiu bastante.

Perish sacudiu a cabeça, muito sério.

— É possível que cada indivíduo tenha evoluído no sentido literal da palavra, Dad.

Mas como pode ele distinguir entre a mentira e a verdade, se alguns chefes criminosos só contam aquilo que lhes convém? Cronot levantou-se.

— Foram palavras sábias, meu filho. Mas vamos subir para fazer a votação. Pelo menos por aqui lidamos com homens sinceros.

* * *

O

Capitão Geraldi e seus subordinados não tinham mudado de opinião.

E

nem mudaram quando os dois oxtornenses os informaram de que pretendiam

fazer uma incursão na superfície do planeta, assim que o ambiente ficasse mais calmo.

— Terão uma surpresa quando de repente aparecermos no meio deles! — regozijou- se Arturo Geraldi. — Sugiro que façamos explodir seus veículos de carga. Perish Mokart sorriu maliciosamente.

— Não devemos esquecer que na superfície de Triton não existe ar, capitão. Além disso pretendemos fazer uma coisa diferente. Bem diferente. Parecia que os soldados sentiam que iriam ouvir uma revelação da maior importância. Olharam ansiosamente para o oxtornense.

— Que tal — perguntou Perish, falando bem devagar —, se seqüestrássemos um

dos vigilantes de vibrações

?

— Um dolan? — perguntou um dos soldados, assustado.

— Bobagem! — advertiu o Capitão Geraldi. — O que iríamos fazer com uma

espaçonave viva? Mr. Mokart refere-se aos condicionados em segundo grau.

— Um desses monstros? — perguntou Reginald Ljassew.

— Isso mesmo — retrucou Perish. Os soldados pareciam embaraçados.

— Como faríamos isso? — perguntou o capitão, cabisbaixo. — Se dissesse que

vamos matar um dos condicionados em segundo grau, eu compreenderia. Mas seqüestrá-

lo!

— Até são mais fortes que um oxtornense — respondeu Perish Mokart em tom

sério. — Mas não são tão fortes como dois oxtornenses e oito terranos juntos.

— E, o que é principal, nem desconfiam de nossos planos — observou Cronot. — Quando começarem a desconfiar será tarde. Cronot olhou para o filho com uma expressão animadora.

Esses monstros são mais fortes que os halutenses.

— Pode começar, reservista da USO! Afinal, é especialista nestas coisas.

Perish não ligou para a brincadeira. Era verdade que possuía muita experiência nestas coisas. Mas justamente por isso sabia melhor que seu pai que a ação planejada não passava de uma operação suicida.

E deixou isso bem claro ao explicar o plano.

Mas os soldados sentiam-se tão fascinados que nem enxergavam o reverso da medalha. Esperaram que o silêncio voltasse a reinar nas cavernas que ficavam embaixo das montanhas Scrap. Alguns até conseguiram dormir. Perish Mokart foi um deles. Quando servia na USO acostumara-se a aproveitar as pausas para recarregar a bateria, conforme se costumava dizer na gíria da USO. Pouco lhe importava em que lugar dormisse. Podia ser numa cama de campanha, num confortável leito pneumático ou sobre a rocha dura.

O pai acordou-o.

Reuniram sua escassa bagagem. Perish Mokart enfiou a esfera na qual estava guardada a mente ativa de Einaklos em um dos grandes bolsos de seu cinto. Em seguida deixou que o campo antigravitacional do elevador o levasse ao pavimento térreo.

Os soldados comprimiram-se no planador. Os dois oxtornenses dispensaram o uso do veículo. Não haveria lugar para eles, e além disso não se importavam em andar alguns quilômetros. Para surpresa de Perish, o pai deu uma volta. Perguntou qual era o motivo, mas Cronot Mokart limitou-se a exibir um sorriso malicioso.

— Acho que ambos devemos estar informados — disse. Perish não conseguiu arrancar mais nada do pai.

O planador atingiu um edifício esférico. Cronot dirigiu-se à entrada.

Perish foi atrás dele. Estava curioso para saber o que o pai pretendia mostrar-lhe. Viu assim que passaram pela escotilha.

— Um transmissor!

— E por que não? — retrucou Cronot irônico. — Você sabe que os antigos

lemurenses conheciam e dominavam perfeitamente o princípio da transmissão da matéria.

— cochichou Perish, incrédulo.

— Mas logo aqui!

Perish Mokart aproximou-se e examinou os pólos energéticos com um interesse científico. Tal qual o pai, era técnico em ultra-energia, além de cosmohistórico. Teve o cuidado de não ultrapassar o círculo vermelho de alerta.

— Parece que está funcionando — murmurou em tom pensativo.

— Se está! — disse o pai com um sorriso. — Parece que ainda não conhece o

relatório do grupo de pesquisadores que descobriu a cidade. Este grupo testou o

transmissor. Cronot dirigiu-se ao pequeno console de comando, de aspecto insignificante, que ficava do outro lado da sala.

— Não faça isso, Dad! — advertiu Perish.

Cronot deixou cair a mão sobre uma placa de comando vermelho-brilhante. Perish recuou assustado ao ver o arco do transmissor se formar zumbindo e

crepitando. As colunas de energia emitiam um brilho branco-azulado — e entre elas se abria a boca imaginária do hiperespaço.

— Contato! — gritou Cronot.

Perish aproximou-se desconfiado e olhou para o console. A placa brilhava num tom

verde, o que era uma prova de que a estação receptora estava preparada para funcionar.

— Para onde

?

— gaguejou Perish. — Onde irá parar aquele que puser os pés entre

os arcos do transmissor?

O pai fitou-o com uma expressão séria e desligou o transmissor.

— Ninguém sabe, meu filho. E nunca saberemos, a não ser que façamos a experiência.

5

O Capitão Geraldi engoliu em seco quando a proa do submarino levantou, saindo

em ângulo agudo sobre a superfície do lago inferior.

— Economizamos mais cinqüenta solares para o trem suburbano — murmurou

Reginald Ljassew. Perish Mokart aumentou a potência do propulsor. O rugido do reator de fusão abafou os outros ruídos.

outro caminho para cima? — perguntou o

capitão em tom de dúvida.

— Tem certeza de que não existe

— Tenho certeza absoluta — retrucou Perish. — Para cima só se vai subindo.

— Mas em geral as coisas acabam caindo novamente para baixo — observou

Ljassew. Perish virou o rosto para ele e disse:

perdão,

Ljassew. Reginald Ljassew ficou vermelho. Seus companheiros soltaram uma gargalhada sem graça, porque não tinham entendido a piada.

— Se continuar assim, ainda acabará sendo um tipo bem cínico, Bell

— Até que enfim! — gemeu Geraldi quando o submarino entrou no túnel.

— Temos de dar um jeito de livrar-nos dos robôs de combate inimigos —

raciocinou Cronot Mokart. — Mas o vigilante de vibrações não deve perder nossa pista.

Hum!

— Como é mesmo, senhor? — perguntou Arturo Geraldi.

— Mas é lógico — prosseguiu Cronot. — Ele nos descobre e tenta prender-nos. São dez terranos pequenos, dos quais ele pode esmagar cinco em cada mão

— Não compreendo — protestou Geraldi.

Reginald Ljassew pôs-se a assobiar a melodia da canção infantil que fala sobre dez

negrinhos.

— Ele não tem medo — prosseguiu Cronot no seu solilóquio. — E não se preocupa com o que esteja acontecendo atrás dele.

— Senhor! — exclamou o capitão, indignado. — Imagino do que está falando, mas

não compreendo uma palavra.

— Pois então não se meta — retrucou Cronot, e virou o rosto para a tela do radar.

— Água, só água! Gostaria de saber como pôde surgir água em estado líquido numa lua sem atmosfera e distante do Sol.

— É a primeira pergunta sensata que o senhor faz — respondeu Cronot Mokart. —

Como sabemos, a água é um composto químico formado pelos elementos hidrogênio e

oxigênio, sendo que cada átomo de oxigênio se liga a dois átomos de hidrogênio. Se não me engano, o resultado é conhecido como H 2 O.

— Mas como

?

— principiou Geraldi de novo.

— É uma pergunta ainda mais sensata — disse Cronot. — As medições feitas com

o contador Geiger mostraram que no centro de Triton existe um núcleo radioativo muito forte. Acontece que a emanação de energia térmica resultante da transformação da substância radiativa não corresponde ao volume dos raios gama. Dali só se pode tirar uma conclusão lógica. Os antigos lemurenses transformaram o núcleo natural da lua de

Netuno num elemento artificial, que com o processo de transformação gera volumes elevados de energia térmica, mas de outro lado tem vida tão longa que as emissões radiativas não representam qualquer perigo para a vida orgânica. Quod erot demonstrandum.

— O que se queria demonstrar! — corrigiu o capitão. — Palavras

— Espere aí, caro capitão — interrompeu Cronot Mokart em tom irônico. — Fiz a

prova através da interpretação das medições realizadas pelo primeiro grupo de pesquisadores e as que fiz hoje. Mas se julgarem necessário podem perfeitamente fazer

uma visita pessoal ao núcleo radiativo. Mas é bom que depois disso não se aproximem de qualquer ser vivo.

O Capitão Geraldi apertou os lábios, contrariado, mas permaneceu calado até que a

proa do submarino entrasse no lago superior.

Perish desligou o propulsor e Cronot fez sair o periscópio. Examinou cuidadosamente os arredores através do filtro infravermelho.

— Nada! — disse finalmente. — Parece que os robôs inimigos não se interessam pelo lago.

— Talvez estejam com medo de pegar ferrugem — murmurou Ljassew.

— Cuide do leme, Dad — pediu Perish. — Subirei à torre do canhão. Se ainda aparecer alguém

O pai confirmou com um aceno de cabeça.

Perish Mokart saiu da sala de comando e dirigiu-se à cúpula blindada giratória que ficava no terço anterior do submarino. Quando o barco mergulhou, Perish fez sair a

cúpula e mandou descobrir as lâminas transparentes que a vedavam hermeticamente. O lança-foguetes girou de um lado para outro. As pontas vermelhas dos projéteis explosivos ficaram ameaçadoramente apontadas para a entrada da caverna. Depois de algum tempo Cronot suspendeu o alarme.

— Resultado dos rastreadores de radar negativo.

O submarino seguiu lentamente e quase sem nenhum ruído para o ponto de

atracação. A supertartaruga na qual tinham vindo continuava no mesmo lugar, o que era mais uma prova de que nenhum robô inimigo chegara lá.

— Certamente os homens que montavam guarda lá em cima baixaram a placa de camuflagem antes de serem feitos prisioneiros.

— Placa de camuflagem?

Geraldi sorriu.

— perguntou Cronot. — Não sei o que vem a ser isso.

— Não seria bom se soubesse tudo, senhor. A placa de camuflagem é uma

instalação dos lemurenses. Uma das fresas que abria túneis bateu nela ao abrir outra

galeria. A máquina parou imediatamente e os técnicos conseguiram tirar a placa intacta. Se não fosse essa coincidência, nunca se teria descoberto o segredo de Triton.

— Os velhos lemurenses sempre serviram para alguma coisa — observou Perish e

dispôs-se a subir pela escada que dava para a torre. Os homens desembarcaram, levando somente a bagagem indispensável, uma vez que pretendiam voltar em breve. O submarino ficou atracado, preparado para partir a qualquer momento. Dali a quinze minutos o veículo de esteiras saiu sacolejando. Dali em diante os homens ficaram em silêncio. Diante do perigo mortal do qual se aproximavam, qualquer palestra se tornaria banal.

* * *

— É a porta — disse o Capitão Geraldi.

Perish Mokart freou a supertartaruga e fez recuar a cúpula transparente da cabine. Examinou espantado a parede de rocha ligeiramente abaulada que fechava o túnel.

— Se não tivesse certeza de estarmos no túnel certo, seria capaz de acreditar que entramos numa galeria sem saída. Arturo Geraldi esfregou as mãos.

— Que coisa louca, não é mesmo? Um excelente disfarce.

— Hum! — fez Perish, pensativo. — Por que aplicaram a camuflagem também do

lado de dentro? Bastaria camuflar o lado de fora para evitar que o acesso fosse

descoberto. O capitão fitou-o com uma expressão de perplexidade.

— É verdade. Nem pensei nisso.

— Pois está na hora de pensar. Não acredito que os lemurenses tenham instalado

uma dupla camuflagem sem terem um motivo para isso. Geraldi passou as mãos pela barba negra que começava a formar-se no queixo. Em seguida olhou para trás, desconfiado. Perish sorriu.

— Vejo que chegou à mesma conclusão que eu. O capitão fez um gesto afirmativo.

— Os lemurenses certamente esperavam que o acesso à sua cidade pudesse ser

aberto por acaso em outros lugares além da entrada principal. Por isso existem outras

placas de camuflagem atrás das paredes dos túneis.

— Placas estas que podem ser baixadas quando isso se torne necessário —

completou o oxtornense. — Só me admiro de que isso não tenha sido feito O Capitão Geraldi riu. Parecia inseguro.

— Tive uma idéia

— Diga logo!

— Os técnicos que descobriram a placa de camuflagem junto à entrada também

encontraram o mecanismo que a abria. Felizmente foram bastante inteligentes para não

fazerem experiências. Recorreram ao centro de computação para encontrar um meio de acionar o mecanismo sem correr qualquer risco. Perish assobiou entre os dentes.

— O centro de computação?

— Qual foi?

Perish fez um gesto de pouco-caso.

Tive uma idéia!

— Isto pode ficar para mais tarde. Voltemos ao seu raciocínio. Quer dizer que os

técnicos usaram o único meio acertado de abrir o mecanismo. Já estou compreendendo. Os anteparos de camuflagem são controlados e acionados por um mecanismo positrônico. Sempre que uma parede de túnel é aberta à força ou alguém abre a passagem

contrariando as regras, as placas de camuflagem caem em toda parte, fechando as passagens. Desta forma diminui bastante a possibilidade de alguma pessoa não autorizada descobrir o caminho que leva ao lago superior. Ainda bem que esses técnicos usaram a cabeça, senão talvez ainda teriam sido acionados outros mecanismos defensivos. Perish olhou fixamente para a parede de rocha, que parecia verdadeira.

— Espero que saiba como abrir isto, capitão, se não estamos presos.

Um sorriso de triunfo apareceu no rosto de Arturo Geraldi.

— O senhor está subestimando o General Ifros, Mr. Mokart. Ele me deu instruções detalhadas antes de destacar-me para lhes dar cobertura.

Geraldi passou para o lado de fora da cabine — e teria escorregado pela parede lisa da tartaruga, se o oxtornense não o segurasse no último instante.

— Cuidado, meu chapa! — alertou Perish Mokart. — Ainda precisaremos do

senhor. Para dizer a verdade, não sei o que faríamos sem sua ajuda. Perish ajudou o capitão a descer, e este saiu caminhando de peito estufado para a placa de camuflagem. Perish acompanhou-o com os olhos, sorrindo. Arturo Geraldi ficou parado do lado esquerdo da placa. Abaixou-se e passou os dedos em certo lugar da parede rochosa entrecortada. Perish Mokart respirava fortemente. Como cosmohistórico tivera acesso aos dados

que a tripulação da Crest trouxera no início do século passado. A parte da rocha pela qual Geraldi passava os dedos tinha exatamente a forma do antigo continente de Lemúria, tal qual era há cerca de cinqüenta mil anos do calendário terrano.

— É surpreendentemente simples — murmurou.

— Como? — perguntou o capitão, enquanto se virava e, sem querer, apoiou-se na

parede. De repente cambaleou. A placa de camuflagem desapareceu com um ligeiro zumbido no teto do túnel, e o Capitão Geraldi caiu de costas na galeria ao lado. Os outros homens também já tinham descido do veículo. Riram gostosamente do

infortúnio que atingira seu superior, mas calaram-se diante de um gesto enérgico de Perish.

— Daqui em diante teremos de fazer o menos possível de barulho — disse o

oxtornense. — O inimigo só deverá descobrir-nos quando isso combinar com nosso

plano.

— Aonde vamos mesmo? — perguntou o Capitão Geraldi, que já conseguira

levantar e estava limpando a poeira do uniforme.

— Para lá! — disse Ljassew apontando com o dedo em direção ao labirinto que ficava sob as montanhas de Scrap. O oxtornense não lhe deu atenção.

— O capitão há pouco me deu uma idéia. Prestem atenção.

Esperou que os companheiros formassem um semicírculo em torno dele.

— Temos de partir do pressuposto de que os vigilantes de vibrações são seres

extremamente inteligentes. Conquistaram uma base inimiga e preparam-se para a partir

dela lançar a expedição punitiva contra a Terra. Se é assim, o que deverá interessá-los mais?

— Devem estar interessados principalmente em descobrir um meio de atravessar o

cinturão das plataformas equipadas com canhões conversores — disse o Capitão Geraldi.

— Isso é uma das coisas — respondeu Perish. — Mas no fundo o sistema de

canhões conversores está tão espalhado pelo Sistema Solar que eles não precisam

preocupar-se muito com ele.

— Os condicionados em segundo grau perderam um dos seus — disse Cronot

Mokart calmamente. — Dessa forma viram-se confrontados com a idéia de que a humanidade é um inimigo especial, que não pode ser subestimado. Se estivesse no seu

lugar, tentaria descobrir mais alguma coisa sobre as atitudes mentais dos seres humanos.

— Quer dizer que os prisioneiros serão interrogados — respondeu Reginald Ljassew prontamente.

— Sem dúvida — retrucou Cronot. — Mas dificilmente se contentarão com o

resultado do interrogatório, uma vez que as declarações dos prisioneiros fatalmente serão

marcadas por características individuais. Os condicionados em segundo grau precisam de uma visão ampla e abrangente, que compreenda a maneira de pensar de toda a humanidade em conjunto.

— Só mesmo um cérebro robotizado não tem sentimentos — retrucou Arturo

Geraldi em tom áspero.

— É isso mesmo — confirmou Perish Mokart. — No fundo o senhor sempre tem a

idéia certa, só que não percebe.

— Quer dizer que os vigilantes de vibrações consultarão um cérebro positrônico,

para obter resultados que não estejam sujeitos a tendências emocionais nem sofram a influência das características individuais. Quer dizer que devemos dirigir-nos ao centro de computação de Tritona.

— Tomara que o general não tenha mandado destruí-lo — objetou Cronot.

O Capitão Geraldi deu de ombros.

— Isso não está previsto no plano Delta. Se o General Ifros não se afastou das

instruções, só os fatos que têm alguma importância militar foram retirados dos bancos de memória — além dos dados relativos à conversão da matéria, naturalmente.

— Tomara — disse Perish. — Faça o favor de escolher dois homens que fiquem

perto do veículo — atrás da placa de camuflagem fechada, naturalmente. O capitão escolheu dois soldados. Depois voltou a dirigir-se ao oxtornense.

— Quer que avisem se notarem algo de suspeito?

— Acho que isso não vai acontecer — retrucou Perish. — Só quero que eles cuidem

para que ninguém entre no túnel vindo do outro lado. Se isso acontecer, naturalmente

terão de avisar-nos pelo telecomunicador.

— Tomara que a mensagem de telecomunicador chegue até onde estivermos —

respondeu Geraldi com o rosto preocupado. — Precisaríamos de um hipercomunicador.

Acontece que não temos — disse Perish Mokart. De repente sorriu.

O senhor acaba de me dar mais uma idéia, capitão

Qual é? — perguntou Geraldi. Perish fez um gesto de pouco-caso.

Deixemos para depois. Peguem as armas que estão na tartaruga e venham

comigo.

* * *

Aser Kin apoiou-se nos curtos braços corredores e fitou o controle de entrada do computador positrônico com os três olhos vermelhos brilhantes.

— Este brinquedo é mais uma prova de que esses terranos são mesmo débeis e

insignificantes — disse em voz alta.

— Para mim eles são um mistério — retrucou Tro Khon, que estava de pé à frente

da parede de controle do centro de computação positrônica. A cabeça semi-esférica tocava no teto de quatro metros de altura. — Se examinarmos isoladamente um indivíduo dessa raça, só podemos chegar à conclusão de que estes seres de vida curta praticamente não podem oferecer qualquer resistência contra nós. Além de fisicamente débeis, têm a

mente especializada demais. Isto me faz lembrar Camaron Olek, que escolhi como primeiro executor encarregado da cosmonáutica. É um cosmonauta genial, mas em muitas outras áreas constitui um fracasso total.

— Acontece que os terranos destruíram um dos nossos — disse Aser Kin em tom pensativo.

Lembrou-se do terrível incidente que se verificara na grande nuvem de Magalhães, e que quase enlouquecera seus executores.

— O maior perigo dos terranos é o fato de eles usarem indivíduos com capacidades

extra-sensoriais — além dos povos auxiliares. Um dos dois seres que entraram há algum

tempo em meu dolan não era um terrano. Até parecia um animal, mas adotava um comportamento tático muito inteligente. É bem verdade que se meus executores não tivessem falhado os dois seres não me teriam escapado. De repente Tro Khon olhou para seu comunicador. Tratava-se de uma figura enorme presa ao pulso de seu braço de ação esquerdo.

— Meu analista me chama — disse. — O dolan precisa de alimento. Quer dar

licença por um instante, Kin?

— Naturalmente — respondeu Aser Kin. — Saberei arranjar-me sozinho. Afinal, os computadores positrônicos terranos não são tão complicados. Tro Khon soltou uma estrondosa gargalhada, deixou-se cair sobre os braços corredores e saiu às pressas. Aser Kin voltou a dedicar sua atenção ao setor de entrada do computador positrônico. Depois de algum tempo um robô interrompeu suas reflexões.

Olhou zangado para a máquina que lembrava os terranos, uma vez que pertencia a Old Man.

— Que houve?

O robô fez continência conforme estabelecia sua programação básica.

— Senhor! Detectamos alguns terranos que queriam entrar em contato pelo rádio com o antigo comandante militar desta base.

— Pelo rádio? — gritou Aser Kin, nervoso. — Não tiraram os rádios dos terranos?

O robô não se abalou com a exaltação demonstrada por seu dono atual.

— Tiramos, sim, senhor. Mas parece que os terranos que acabamos de detectar estavam escondidos. Não se encontram entre os prisioneiros.

— Pois então prendam-nos! — ordenou Kin em tom sarcástico.

— Sim, senhor.

O robô voltou a fazer continência e retirou-se do centro de computação estalando os

pés.

Aser Kin logo esqueceu o incidente. Não estava interessado em alguns soldados terranos perdidos. Queria informações sobre a mentalidade dos terranos. Mas dali a meia hora recebeu um chamado pelo rádio que fez com que se esquecesse dessa intenção. Virou-se abruptamente e entrou berrando no sistema de corredores

* * *

— O general não responde — disse o Capitão Geraldi.

Perish Mokart riu baixo.

— Acreditava mesmo que ele iria responder, capitão? Afinal, é um prisioneiro, e não é costume deixar aparelhos de comunicação em poder de um prisioneiro. O

importante é que os robôs ou os vigilantes de vibrações recebam o chamado. Arturo Geraldi deu de ombros e voltou a inclinar-se sobre o telecomunicador portátil.

— Capitão Geraldi falando! Chamo o General Ifros. Por favor, responda, General Ifros. Fomos esquecidos. Repito. Fomos esquecidos.

Reginald Ljassew sorriu ironicamente.

— Os esquecidos de Triton! Até daria um bom título para um filme.

— Cale a boca! — gritou Geraldi. — O que importa para nós é que a transmissão

leve os condicionados em segundo grau a acreditarem que um grupo de combatentes

perdido tenta estabelecer contato às escondidas com o antigo comandante supremo. De repente virou-se e apontou a arma para um vulto que vinha às pressas por um corredor secundário. Mas logo baixou o cano da arma. Cronot Mokart apareceu e colocou no chão um aparelho do tamanho de uma mala. Pelo tipo das antenas via-se que se tratava de um hiper-rádio portátil.

— Que tal, Perish? — perguntou ao filho. — O alcance é de quatrocentos anos-luz. Acho que para o que queremos basta. Perish Mokart confirmou com um gesto.

— Excelente, Dad. Viu robôs por aí?

— Não. Se tivesse visto, provavelmente não estaria aqui.

Cronot abriu a parte traseira do aparelho, tirou os largos cintos de plástico

guardados numa gaveta estreita e prendeu-os nos suportes existentes na face externa. Em seguida colocou o aparelho nas costas.

— Pronto! Nossos amigos podem vir.

— Por enquanto não se nota nada — disse Perish. — Tente de novo, capitão.

O Capitão Geraldi voltou a ligar o telecomunicador e recitou sua mensagem. De repente Perish colocou a mão sobre seu ombro.

— Desligo! Ouvi alguma coisa.

Geraldi apertou apressadamente a tecla DESLIGA e levantou.

Os homens prenderam a respiração. Ouviu-se o som de pisadas regulares, vindo não se sabia bem de onde do enorme labirinto de corredores. O rosto de Reginald Ljassew abriu-se num largo sorriso.

— São robôs de combate! Até parece que pensam que não temos ouvidos.

— Daqui a pouco o senhor não terá mesmo — ameaçou o capitão e pôs a mão no

facão que trazia constantemente na bainha de couro natural, presa do lado direito de seu cinto.

Perish Mokart checou as duas armas que encontrara enquanto ia ao labirinto de cavernas embaixo da superfície de Tritona. Certamente tinham sido jogadas fora por um

soldado. Tratava-se de um lança-foguetes parecido com uma bazuca, cuja munição tinha sido feita especialmente para lutar com os robôs de combate. A outra arma era um fuzil energético, que para o oxtornense era tão leve que não passava de um brinquedo. Cronot colocou uma flecha na corda do arco. Nas pontas das flechas havia cargas atotérmicas. — Espalhem-se pelas saídas dos corredores — ordenou Perish. É claro que ele assumiu o comando. O Capitão Geraldi considerou a maior experiência de combate do oxtornense. — Precisamos saber de onde vêm os robôs. Fiquem com os ouvidos atentos. Os soldados saíram correndo. Dali a pouco Reginald Ljassew levantou o braço.

— Eles vêm deste lado, senhor!

— OK — respondeu Perish. — Recuem para o cruzamento de onde sai um túnel

que leva à via de tráfego mais intensa. Lá darão cobertura para todos os lados, evitando que alguém nos ataque pelas costas.

— E o senhor? — perguntou o Capitão Geraldi preocupado.

O oxtornense deu uma risada bonachona.

— Saberemos arranjar-nos sozinhos. Além disso os senhores não correm tanto

como nós, e é importante que levemos os robôs para longe de seus colegas. Parecia que o capitão não compreendera muito bem quais eram as intenções de Perish Mokart. Confirmou com um gesto e saiu com seus cinco soldados.

Perish e Cronot Mokart entraram em posição de ambos os lados do túnel do qual deviam sair os robôs.

— Por que abandonou nosso plano? — cochichou Cronot. — Não iríamos rechaçar

os robôs daqui?

— É o que faremos — respondeu Perish contrariado. — Mas se isso levar um dos

vigilantes de vibrações a participar da luta, os outros estarão perdidos, Dad. Não se

esqueça de que aqui embaixo não podemos usar projéteis atoexplosivos. A pressão da explosão faria desmoronar os corredores num raio de centenas de metros. Caso apareça um dos vigilantes, seremos obrigados a fugir. Mas Geraldi e seus companheiros não podem fazer isso.

— Quando descobrirem que você os enganou de propósito, eles se sentirão

ofendidos, Perish.

— O importante é que então ainda estejam vivos. Cuidado. Os passos estão

chegando mais perto. Os oxtornenses comprimiram-se contra a parede, para evitar que fossem detectados pelos órgãos de rastreamento altamente sensíveis dos robôs.

Prenderam a respiração e esperaram que a ponta da coluna de robôs chegasse perto do centro do corredor secundário. Tornava-se mais fácil saber isso graças aos passos ruidosos das máquinas de guerra. Os dois tomaram impulso simultaneamente, giraram abruptamente e abriram fogo. Nem tentaram proteger-se. Ficaram na entrada do túnel, com as pernas afastadas. Os projéteis minifoguetes foram saindo da bazuca um atrás do outro, chiando fortemente, enquanto Cronot Mokart atirava metade de suas flechas. A pouco menos de cinqüenta metros do lugar em que se encontravam, o túnel transformou-se num inferno. Robôs explodiam e um pedaço do teto desmoronou, soterrando as máquinas de guerra que tentavam abrir passagem. Os minifoguetes entravam constantemente naquele inferno, pulverizando os destroços. Nenhum tiro chegou ao lugar em que estavam os oxtornenses. A surpresa fora completa. Perish colocou a mão no antebraço do pai, quando viu este apontar uma flecha para a carcaça trêmula de um robô jogada à frente dos destroços fumegantes.

— Espere!

Largou a bazuca e correu para perto do robô destroçado. Agitou triunfante a arma energética superpesada da máquina e entregou-a ao pai.

— Por favor, Dad. Suas flechas não darão para toda a vida. Cronot sorriu

agradecido e enfiou a arma pesada embaixo do cinto de seu uniforme. Neste instante os dois viraram-se abruptamente. As batidas regulares dos pés dos robôs estavam saindo de outro corredor secundário. Os oxtornenses resolveram experimentar de novo a tática que já mostrara seu valor. Mas os robôs de combate tinham aprendido com a derrota. Avançaram impetuosamente um por um pelo túnel, atirando com ambas as armas portáteis que traziam consigo.

Cronot e Perish foram obrigados a atirar às cegas para dentro do corredor. Ao que parecia, o grupo era apenas uma retaguarda pouco numerosa do primeiro

contingente. Quando o fogo cessou, só havia oito máquinas de guerra destruídas no chão. Em compensação soou de repente um terrível berreiro vindo das profundezas do labirinto. Sem querer, Perish Mokart mordeu o lábio.

— É um condicionado em segundo grau!

* * *

— exclamou Cronot.

Perish encostou aos lábios o aparelho que trazia no pulso.

— Águia a falcões! — disse, recitando o código de identificação. — Voltem ao

ninho! O dragão está atacando.

— Falcões à águia! — veio a resposta. — Voaremos para o ninho. O que é feito dos

robôs?

— Sucata! — respondeu Perish laconicamente e desligou.

Neste momento um gigante apareceu nas luzes do sistema de iluminação semidestruído, nos fundos do túnel em que estavam jogados os oito robôs destroçados. Uma cabeça semi-esférica bem negra e quatro garras também negras saíam de um conjunto-uniforme vermelho-vivo. Três gigantescos olhos cor de rubi emitiam um brilho demoníaco. O monstro escancarou a boca enorme, exibindo as fileiras de dentes apavorantes.

De repente berrou zangado, deixou-se cair sobre os braços corredores e aproximou-se em alta velocidade. Perish e Cronot dispararam suas armas contra o vigilante de vibrações, mas nem os minifoguetes nem a arma energética pesada de Cronot fizeram qualquer efeito. O gigante aproximava-se que nem um projétil.

— Para trás! — gritou Perish.

Puxou o pai pelo ombro e empurrou-o para o túnel pelo qual iriam fugir. O vigilante de vibrações alcançava a velocidade de cento e vinte quilômetros por

hora. Acontece que os oxtornenses também eram capazes disso. Seus corpos estavam acostumados a uma gravitação mais forte e a constituição orgânica adaptara-se a esta condição. Além disso Perish Mokart atirava constantemente no teto do túnel enquanto fugia. Toneladas de rocha caíam no corredor, obrigando o perseguidor a reduzir a velocidade. Era uma cena fantástica, o condicionado em segundo grau correndo que nem um foguete pelos escombros. Mas nenhum dos dois pôde apreciar o quadro.

— Tomara que os outros tenham uma boa dianteira! — exclamou Perish ofegante.

Virou-se enquanto corria e disparou dois tiros contra o teto do corredor. Mais uma vez se ouviu o terrível rugido. Os escombros de rocha espalharam-se para os lados. A cabeça negra do vigilante de vibrações apareceu, e em seguida todo o corpo. Os oxtornenses respiraram aliviados ao verem a entrada da parte lemurense do labirinto. Não se via sinal do Capitão Geraldi e de seus companheiros. Portanto, já se encontravam no interior da supertartaruga.

Cronot atirou uma flecha contra o teto. A carga atotérmica derreteu a rocha. Uma torrente de lava incandescente envolveu o condicionado em segundo grau.

Mas o gigante limitou-se a proteger os olhos com a mão. Continuou correndo, enquanto blocos de lava endurecida se desprendiam de seu corpo, arrastando pedaços do conjunto-uniforme. Mas a carga adicional que teve de

suportar atrapalhou-o a ponto de garantir uma boa dianteira aos oxtornenses.

O Capitão Geraldi acenou de dentro da

aos oxtornenses. O Capitão Geraldi acenou de dentro da cúpula do veículo. Deixou-se cair pela portinhola

cúpula do veículo. Deixou-se cair pela portinhola de entrada ao ver os oxtornenses se aproximarem em alta velocidade da cabine do motorista. Perish Mokart segurou o manche de

direção e empurrou a alavanca do acelerador para a posição máxima. A supertartaruga partiu sacolejando fortemente e com os motores uivando. Os soldados que se encontravam no compartimento de carga gritaram assustados. Mas no mesmo instante a placa de camuflagem baixou. Perish praguejou.

— Era só o que faltava! Se não conseguir remover o obstáculo sozinho, ele mandará vir reforços. Aí, estamos perdidos. Perish freou instintivamente, mas o pai cutucou-o zangado.

— Vá embora, filho! Não vê o que aconteceu? O centro de comando do sistema de proteção do acesso entrou em ação.

A cabeça de Arturo Geraldi apareceu na portinhola.

— O que aconteceu?

Cronot Mokart explicou.

— Tomara que as outras placas de camuflagem não se e olhou para a frente, furioso. — Aí está!

— acrescentou. Interrompeu-

A supertartaruga acabara de passar por uma curva. Perish freou com toda força. A

proa do veículo bateu com um estrondo na placa de camuflagem que baixara.

Dali a um instante ouviram-se estrondos e rangidos no lugar de onde tinham vindo.

— Este cara está abrindo passagem! — exclamou Perish.

Em seguida arrancou o capitão violentamente pela portinhola e colocou-o de pé sobre a borda da cúpula.

Abra a placa! Depressa!

O

Capitão Geraldi compreendeu que a desgraça não estava longe. Houve mais um

estrondo, e o berreiro arrepiante do vigilante de vibrações se fez ouvir de novo, seguido do tamborilar surdo dos pés. Arturo Geraldi mexia nervosamente no mecanismo de abertura.

— Deve estar com tanta raiva que não consegue pensar mais — cochichou Cronot. — Senão nunca nos perseguiria sozinho.

— Tanto melhor — retrucou Perish e olhou para trás, nervoso. — Tomara que

consiga Calou-se quando viu a placa desaparecer no teto. O Capitão Geraldi deixou que os oxtornenses o ajudassem a entrar na tartaruga. Perish Mokart estava dando partida no veículo quando o vigilante de vibrações apareceu na curva do corredor.

Cronot atirou uma flecha em sua direção. A haste espatifou-se de encontro ao corpo do gigante sem produzir qualquer efeito. A bola de fogo produzida pela carga atotérmica envolveu-o por um instante, mas logo ficou para trás.

A segunda placa de camuflagem desceu bem à sua frente. O vigilante de vibrações

ainda conseguiu enfiar um dos braços de ação na fresta. Ele mesmo ficou do outro lado do obstáculo.

— Mais depressa que isto não é possível — disse Perish em tom áspero. — Esteja preparado, capitão.

Depois de uns dois quilômetros percorridos em velocidade alucinante, outra placa de camuflagem apareceu à frente do veículo. Cronot Mokart agarrou o capitão e saltou da cúpula antes que a supertartaruga tivesse parado.

Já se ouvia novamente a gritaria furiosa do gigante, vinda de trás.

Mas mais uma vez ainda conseguiram.

A placa caiu e o corpo do condicionado em segundo grau bateu ruidosamente do

outro lado.

— Desta vez temos de detê-lo por mais algum tempo — murmurou Cronot.

Virou-se e girava o cano da arma energética de um lado para outro, enquanto mantinha comprimido o botão acionador.

O raio energético aparentemente inofensivo abriu com sua tremenda energia térmica

sulcos profundos no teto. Grandes blocos de pedra desprenderam-se e caíram. O

oxtornense atirou uma carga atotérmica em uma das frestas que se formara. O túnel desabou com um estrondo numa extensão de mais de dez metros. Cronot sorriu satisfeito enquanto voltava a olhar para a frente.

— Acho que assim teremos uma dianteira que nos permita chegar ao submarino.

Nos oito quilômetros de túnel que ainda restavam não encontraram qualquer obstáculo. Quando a última placa de camuflagem apareceu à sua frente, o bramido do vigilante de vibrações vinha de bem longe.

Praticamente conseguimos — anunciou Perish Mokart.

O

Capitão Arturo Geraldi deslizou pela parte externa do veículo e correu para junto

da parede, a fim de acionar o mecanismo de abertura.

Mas dali a um minuto a placa ainda estava no mesmo lugar.

— Que houve? — gritou Perish. — Levante logo essa droga.

O Capitão Geraldi virou-se com um ar deprimido.

— Não consigo. O mecanismo deve ter um defeito.

— Para trás! — ordenou Cronot. — Vamos ver se conseguimos abrir passagem à

força.

— Não adianta — respondeu Perish. — Lá vem ele.

A curva mais próxima do corredor ficava a uns quinhentos metros. O vulto gigantesco do condicionado em segundo grau aproximava-se que nem um projétil. Havia um brilho de ódio nos três olhos enormes. Perish Mokart saltou do veículo e ficou parado ao lado dele. Examinou calmamente a bazuca e enfiou o penúltimo cartucho na câmara de foguetes.

Cronot chegou perto dele. O capitão também veio correndo com a arma pronta para atirar.

* * *

O vigilante de vibrações ainda se encontrava a uns cem metros quando se ouviram

três ruídos claros. No mesmo instante o ar tremeu à frente dos terranos.

O gigante freou a corrida com as pernas e os braços de ação.

Empertigou-se com a boca escancarada. Perish Mokart sabia que o condicionado em segundo grau estava berrando. Mas não se ouvia nada.

Um campo defensivo — disse, perplexo.

O

vigilante de vibrações foi-se aproximando com o corpo balançando. Sua postura

era parecida com a de um urso. Acontece que era muito mais perigoso que este animal.

— Não compreendo — murmurou Arturo Geraldi. — Ninguém viu qualquer sinal

de um projetor de campo.

— Também não sabíamos da existência das placas de camuflagem, com exceção da

que fica na entrada — retrucou Perish. — Sou capaz de apostar que as velhas instalações

lemurenses ainda encerram outros segredos. É bem verdade que não compreendo por que o misterioso centro de comando nos protege contra o condicionado em segundo grau.

— Pois eu já começo a compreender — observou Cronot Mokart, calmo.

O filho fitou-o com uma expressão inquisitória.

Neste instante o capitão deu um grito estridente que o fez virar o rosto. Do outro lado do campo energético dois objetos estranhos estavam saindo da parede do corredor. Pareciam objetivas de projetores gigantes.

O vigilante de vibrações viu os objetos no mesmo instante. Girou abruptamente e

deixou-se cair sobre os braços corredores. Mas já era tarde.

O gigante foi atingido por uma força invisível que o fez girar rapidamente. Outra

força sacudiu seu corpo com uma violência terrível. O vigilante de vibrações fez um

esforço desesperado de escapar ao perigo que não era capaz de enfrentar. Mas seus contornos já começavam a desmanchar-se.

Girou que nem uma hélice de avião à velocidade máxima. O chão em que se apoiavam seus pés foi triturado. A poeira levantou-se e também foi atingida pelo campo de rotação. Ranhuras surgiram nas paredes e pedaços de rocha caíam do teto. E a velocidade da rotação aumentava cada vez mais. Não se via nada do condicionado em segundo grau além de um torvelinho translúcido. Reginald Ljassew deixou as pernas compridas penduradas por cima da borda da cúpula.

— O que houve com o menino? — perguntou em tom ingênuo. — Será que isso é

uma dança festiva? Perish Mokart baixou o cano da arma. — Sua disposição pode ser tudo, menos festiva. Acho — prosseguiu, apontando com o cano da bazuca para os projetores embutidos no teto — que se trata de canhões

rotativos e vibratórios. Não gostaria de estar preso neste campo. Vejam como os pedaços de rocha que entram nele se transformam em poeira. O corpo de qualquer um de nós já se teria desmanchado em seus componentes químicos. Os outros soldados também saíram do compartimento de carga da supertartaruga.

— Os condicionados em segundo grau são tão resistentes quanto os halutenses —

disse o Capitão Geraldi. — Receio que ele simplesmente endureça a estrutura cristalina

de seu corpo a ponto de ficar resistente que nem o aço terconite. Quando os campos forem desligados, sairá são e salvo. Perish pigarreou e dirigiu-se ao pai.

Dad, há pouco você disse que sabe por que o centro de comando desta área de

defesa lemurense demonstra uma nítida preferência por nós Cronot sorriu e bateu com a ponta do dedo indicador no peito de Geraldi. O capitão cambaleou e por pouco não caiu.

— Mais uma vez nosso amigo adiantou a solução, sem perceber, como sempre.

— Eu? Como? — perguntou Arturo Geraldi estupefato. Cronot acenou com a cabeça.

— O senhor disse que os condicionados em segundo grau são tão resistentes quanto

os halutenses

velhos lemurenses. Sem querer, passou a mão pela calva.

— Não interprete minhas palavras ao pé da letra, Ljassew — pediu ao ver o soldado abrir a boca para dizer alguma coisa.

Já compreendi — afirmou Perish. — Os rastreadores ocultos da zona de defesa confundiram-nos com os lemurenses —

chegaram à conclusão de que o condicionado em segundo grau é um halutense que nos persegue — completou Cronot Mokart.

— Para nós é bom que seja assim — disse o Capitão Geraldi radiante. — A única coisa que temos de fazer é esperar Interrompeu-se e fitou Cronot com uma expressão de perplexidade.

Além disso se parecem com eles — enquanto nós somos igualzinhos aos

e

O oxtornense sorriu.

— Esperar não adianta, prezado capitão. Assim que os campos de rotação e vibração forem desligados, temos de fazer alguma coisa. Faço votos de que aí o campo energético também se apague. Comunicou-se com o filho através de olhares. Perish largou a bazuca e pigarreou.

— Meu pai e eu tentaremos subjugar o vigilante de vibrações. Façam o favor de

preparar seus paralisadores, cavalheiros. Quando chegar a hora, será apenas uma questão

de segundos.

O Capitão Geraldi olhou um tanto desconfiado para os oxtornenses.

— Não sei

Perish e Cronot limitaram-se a sorrir.

mas se os comparo com o vigilante de vibrações

Dali a uns dez minutos o movimento de rotação do condicionado em segundo grau diminuiu de repente. A poeira e as pedras menores foram atiradas para longe. Parte delas derreteu-se no campo energético.

O chão tremeu quando o corpo do vigilante de vibrações, que pesava mais de duas

toneladas, caiu duro que nem um pedaço de pau.

— Você vai pela direita, eu pela esquerda — gritou Perish para o pai.

Cronot Mokart acenou com a cabeça. Não tirava os olhos do corpo imobilizado do gigante. Sabia que o vigilante de vibrações levaria algum tempo para recuperar a liberdade de movimentos. Mas se o campo energético demorasse a desaparecer, seria tarde De repente o campo defensivo entrou em colapso, no momento exato em que o condicionado em segundo grau começou a fazer os primeiros movimentos.

!

Cronot e Perish saltaram para perto dele. Cada um pegou um braço corredor e um braço de ação do gigante.

Parecia que só então o vigilante de vibrações compreendera que de forma alguma se livrara do perigo. Tentava desesperadamente libertar-se, mas os oxtornenses o seguravam com mão de ferro, puxaram para cima os dois pares de braços e esforçaram-se para obrigar o monstro a deitar no chão.

— Os paralisadores

rápido! — gritou Perish.

Os soldados acordaram do estado de atordoamento. Correram todos ao mesmo tempo para perto do condicionado em segundo grau e apontaram as armas paralisantes para o crânio semi-esférico da criatura. O chicotear dos tiros de choque misturou-se aos gritos furiosos do vigilante de vibrações, que redobrou os esforços para libertar-se. Cronot e Perish deram outro puxão nos braços virados para trás. O condicionado em segundo grau gemeu e caiu com o rosto no chão. Os oxtornenses comprimiram os joelhos de encontro às costas enormes do gigante, encostando seu corpo cada vez mais firmemente no chão. Os soldados disparavam sem parar suas armas paralisantes contra a cabeça do vigilante de vibrações. Pareciam embriagados com o que estavam fazendo. Finalmente o prisioneiro permaneceu imóvel. Perish deu ordem de suspender o

fogo.

O vigilante de vibrações não fez mais nenhum movimento.

— Tomara que não tenha morrido — disse Geraldi. — Os raios paralisantes que

enfiamos em seus dois cérebros dariam para matar uma companhia de terranos.

— De homens nascidos na Terra — retificou Cronot, irônico. — Não se preocupe.

Ele só vai dormir algumas horas. Antes que acorde temos de colocá-lo num lugar seguro.

Perish soltou o poderoso dispositivo de rebocamento da supertartaruga e enfiou o gancho enorme embaixo do cinto do gigante. Do uniforme vermelho brilhante só sobravam alguns farrapos meio desfiados. O grupo partiu dentro de alguns minutos. A última placa de camuflagem reagiu prontamente ao contato das mãos de Geraldi. O vigilante de vibrações foi arrastado ao ponto de atracação do submarino e atirado no antigo silo de foguetes. A embarcação saiu com a proa ligeiramente levantada e entrou em velocidade reduzida no tubo gigantesco que levava ao lago inferior.

6

No porto da cidade lemurense não havia guindastes ou elevadores de carga

antigravitacionais. Por isso os dois oxtornenses tiveram de tirar o vigilante de vibrações desmaiado com suas próprias forças do compartimento de carga do submarino.

O planador fora deixado junto ao lago superior. Só assim havia lugar para o

prisioneiro dentro do submarino. Por isso envolveram o corpo do gigante numa rede de malhas grandes feita de cabos de terconite. Em seguida colocaram as duas extremidades do cabo sobre os ombros e arrastaram o corpo pesado para dentro da cidade, através da escotilha destruída. O Capitão Geraldi e seus soldados formaram a retaguarda. Era bem verdade que não havia sinal de eventuais perseguidores. O vigilante de vibrações certamente não informara ninguém sobre a operação solitária que resolvera levar a efeito. Os oxtornenses seguiram em direção ao pavilhão alongado de uma fábrica robotizada que tinham descoberto durante a primeira visita à cidade. Conheciam os

princípios de funcionamento desse tipo de fábrica, e por isso acreditavam que não havia lugar mais seguro para guardar seu prisioneiro. Colocaram o condicionado em segundo grau no pavilhão de produção. Em seguida procuraram o conjunto de reatores de fusão e ativaram-no. No mesmo instante as máquinas pesadas instaladas no pavilhão começaram a zumbir e as esteiras transportadoras entraram em funcionamento, fornecendo blocos de metal retangulares às unidades automáticas de produção. Cronot Mokart moveu a chave mestra. O zumbido das máquinas e o ranger das esteiras transportadoras cessou.

O oxtornense aproximou-se de um dos blocos que emitiam um brilho fraco e

arranhou a superfície com o cano da arma energética. Em seguida tirou do cinto uma faca larga e passou-a pelo metal, produzindo um arranhão claro.

— Terconite, ou talvez uma liga parecida — afirmou Cronot. — Só pode ser arranhado com a lâmina de aço especial de minha faca.

— É o que queremos — disse Perish. — Agora só falta um molde apropriado.

— O que querem mesmo? — perguntou Arturo Geraldi espantado. — Sou de

opinião que deveríamos refletir para descobrir um meio de evitar que o condicionado em segundo grau nos mate depois que recuperar os sentidos.

— É o que tentamos o tempo todo — retrucou Perish. — Temos de amarrar suas

mãos e pernas de tal forma que nem se possa mexer. Para isso precisamos de fitas de aço

terconite ou coisa parecida. Em seguida foi para perto de uma prateleira que ficava perto do controle automático principal e mexeu nos moldes ali guardados.

— Pode fazer o favor de vir para cá, Dad? — pediu. — Você conhece estas coisas melhor que eu.

— Acha mesmo que encontraremos exatamente o molde de que precisamos? — perguntou Geraldi.

— Se não encontrarmos, adaptaremos um parecido — respondeu Perish.

— Acho que seria muito demorado — objetou Cronot.

Foi para perto do filho e folheou as placas metálicas finas nas quais estavam gravados os impulsos correspondentes às diversas fases de produção em forma de linhas e pontos prateados muito finos.

— Não se esqueça de que cada unidade de produção automatizada precisa de seu

próprio molde, e de que somente todos os moldes em conjunto garantem um produto final satisfatório.

De repente interrompeu-se, folheou para trás e retirou uma pilha de chapas.

— Acho que é o que desejamos, minha gente. Eu sabia que os lemurenses usavam

esse tipo de fitas de aço para estabilizar as paredes das galerias do subsolo. Logo, aqui deve haver os respectivos moldes.

— Tomara que seja isso mesmo, senhor — disse Reginald Ljassew preocupado. —

Senão o produto final talvez acabe sendo um lote de alfinetes.

— Pare com essas brincadeiras! — gritou Geraldi. — Se realmente produzirmos

alfinetes, trataremos de enfiá-los em seu traseiro. Cronot Mokart separou os moldes, espalhando-os à sua frente. Teve de concentrar- se ao máximo, uma vez que a seqüência era muito importante. E Cronot não possuía conhecimentos especializados em programação automática. A composição do lote de moldes só se tornou possível porque o processo de fabricação das fitas de aço era relativamente simples. Enquanto isso seu filho saiu à procura de uma soldadora energética. Acabou

encontrando-a numa sala ao lado, onde também havia peças sobressalentes e ferramentas. Quando voltou ao pavilhão, seu pai já concluíra a programação das unidades automáticas de produção. Cronot foi para perto do conjunto principal, respirou profundamente e moveu a chave de acionamento. No mesmo instante as unidades voltaram a emitir o zumbido monótono. As esteiras transportadoras trouxeram a matéria-prima e as unidades automáticas versáteis aqueceram e forjaram o material, além de lhe dar a respectiva forma. Começou a fazer calor no pavilhão de produção, uma vez que o aquecimento do terconite exigia a ação dos conjuntos atômicos.

O último estágio, que era o do controle de qualidade automático, cuspia

regularmente longas fitas de aço terconite. Cada fita tinha seis metros de comprimento, quatro centímetros de espessura e vinte de largura. Depois de cinco minutos Cronot voltou a desligar as máquinas. No ponto de saída do produto acabado via-se uma pilha de dez metros de fitas pesadas de aço terconite.

Os dois oxtornenses tiraram o vigilante de vibrações, que continuava inconsciente,

da rede em que estivera preso, prepararam dez fitas e colocaram o corpo gigantesco em

cima delas.

Os olhos dos oito soldados terranos quase saltaram das órbitas de tão espantados

que ficaram, quando viram os dois oxtornenses dobrarem as fitas de aço quase sem nenhum esforço.

Cronot e Perish trabalhavam depressa e com cuidado. Foram colocando as fitas uma após a outra em torno dos pulsos e dos tornozelos do prisioneiros, dobraram as extremidades e enrolaram as pontas em torno do corpo do gigante. Finalmente Perish Mokart trouxe a soldadora atômica sobre rodas e ligou o maçarico térmico.

Os outros homens tiveram de virar o rosto para o outro lado. A chama atômica era

mais ofuscante que o sol.

Perish cobriu a cabeça com o capacete-capuz de seu uniforme. A lâmina anti- ofuscante regulou-se automaticamente. Em seguida soldou cuidadosamente os pontos de contato das fitas de aço terconite. O calor atômico não afetava o vigilante de vibrações. Mesmo inconsciente, seu

metabolismo reagia ao perigo, fazendo com que seu corpo se transformasse numa espécie de bloco de aço de estrutura cristalina. Finalmente o oxtornense concluiu seu trabalho. Dobrou o capacete para trás e desligou o maçarico atômico.

— Pronto! — disse, aliviado. — Este não nos escapa mais. A única coisa que ainda temos de fazer é levá-lo a um lugar seguro.

— Que lugar seria esse? — perguntou o capitão.

Perish Mokart exibiu um sorriso vago.

— Pode ser em qualquer lugar, menos em Triton!

— Não é possível! — protestou Geraldi. — Não venha me dizer que pretende levá-

lo à superfície enquanto os robôs de Old Man e os outros condicionados em segundo grau de Triton mantiverem ocupado o satélite.

— É claro que não — afirmou Cronot. — Mas a primeira coisa de que precisamos

agora é algum meio de transporte. Meu filho e eu não podemos carregar ou arrastar o

monstro todo o trecho. O Capitão Geraldi sacudiu a cabeça, perplexo, mas deu ordem para que seus soldados saíssem à procura de um meio de transporte apropriado. Dentro de alguns minutos Ljassew voltou com um rebocador pesado.

Prenderam o gancho do rebocador a uma das fitas de aço. Cronot Mokart tomou lugar no assento do motorista e deu partida. O corpo do vigilante de vibrações batia e rangia ao ser arrastado pelo chão. Os outros foram a pé. Cronot levou o rebocador para a entrada da estação do transmissor. Ele e Perish carregaram o gigante pela rampa pouco inclinada que levava ao pavilhão.

— Que é isso? — perguntou Geraldi, desconfiado. Cronot foi ao console e apertou a placa que acionava o transmissor.

Os soldados recuaram instintivamente para perto da saída ao verem surgir o arco feito de energia.

— Acho que é um transmissor — disse Cronot com um sorriso irônico. Arturo Geraldi continuava perplexo.

— Isso eu sei. Mas onde fica a estação receptora?

O oxtornense deu de ombros.

— Mas o senhor não pode fazê-lo sair daqui sem saber para onde! — exclamou o capitão indignado.

O rosto de Cronot assumiu uma expressão séria.

— Garanto que os outros condicionados em segundo grau não aceitarão tranqüilamente o desaparecimento do colega. Certamente o procurarão — e acabarão encontrando-o. Mas não permitiremos que o libertem. Se necessário o faremos passar pelo transmissor. Pouco importa em que lugar do Universo saia. De repente o vigilante de vibrações soltou um ronco. Até parecia uma sirene de neblina antiquada. Perish acariciou o rosto do monstro, mas recuou apressado: o gigante tentou morder sua mão.

— Não seja malvado — disse em tom sarcástico. — Só colocamos um colete de aço em você.

O condicionado em segundo grau soltou um berro furioso e tentou romper as fitas

que o prendiam. Mas o aço terconite não cedeu. O gigante não conseguiu mover os

braços e as pernas um milímetro que fosse.

— Mesmo amarrado ainda mete medo na gente — observou um dos soldados.

— Seria um bom souvenir para sua sogra — escarneceu Reginald Ljassew.

— Um momento! — cochichou Perish. — Silêncio! Ouvi alguma coisa.

Pegou a arma energética e correu encurvado para a saída. Parou e ficou na escuta.

O ruído que se seguiu foi tão forte que nenhuma das pessoas que se encontravam no

pavilhão poderia deixar de ouvi-lo. Um berreiro igual ao de mil leões famintos enchia as gigantescas cavernas da cidade dos fugitivos. Cronot empalideceu.

— Lá estão eles, capitão! Dê o fora e leve seus soldados. Tratem de esconder-se do

outro lado da cidade, num lugar em que não possam ser encontrados pelos vigilantes de vibrações. Perish e eu enfrentaremos a situação sozinhos. Em seguida pegou o hipercomunicador que trazia nas costas e ligou-o. Seus dedos mexiam nervosamente no seletor de freqüências.

— Saia logo daqui! — gritou para o capitão, que estava parado, indeciso.

— Mas

— principiou Geraldi.

— Não se preocupe conosco! — gritou Cronot. — Somos tão rápidos quanto os

monstros. Quando tivermos terminado aqui, nós os atrairemos para fora da cidade e também daremos o fora. Parecia que finalmente o Capitão Arturo Geraldi compreendera que o oxtornense tinha razão. Gritou alguns comandos enérgicos para seus soldados, fez continência sem dizer uma palavra e saiu à frente do grupo. Do lado de fora soava o berreiro dos condicionados em segundo grau, irritados ao máximo.

* * *

— Até que enfim! — exclamou Cronot. — A freqüência da frota.

Ligou o hipercomunicador para a freqüência máxima. — Triton chamando Marechal-de-Estado Bell. Triton chamando Marechal-de- Estado Bell. Responda por favor. Os berros dos vigilantes de vibrações eram cada vez mais próximos.

— A sala de rádio da Crest IV falando! — disse dali a instantes uma voz saída do receptor. — Quem está chamando?

— Feche a porta — cochichou Cronot para o filho. — Aqui fala Cronot Mokart.

Encontro-me na cidade subtritonense. Mande ligar imediatamente os goniômetros dos transmissores da Crest. Temos um passageiro que pretendemos enviar dentro de instantes a um destino desconhecido, através de um transmissor lemurense. O senhor me ouve? — Ouço muito bem — respondeu a voz. — Goniometria ativada. Marechal-de- Estado Bell informado. Justifique o rompimento do silêncio de rádio imposto pelo

comando. — Burocrata! — indignou-se Perish, enquanto o berreiro dos condicionados em segundo grau chegava a atravessar até mesmo a porta blindada. Cronot interrompeu-o com um gesto enérgico.

— Conseguimos prender um condicionado em segundo grau. Está no pavilhão do

transmissor, devidamente amarrado. Mas seus colegas andam pela cidade. Acabarão nos encontrando. Antes disso temos de dar um jeito de tirar o monstro daqui. O transmissor está funcionando e a respectiva estação receptora deu o sinal de desimpedido. Acontece

que não sabemos onde fica essa estação. Diga ao Marechal-de-Estado que, caso esteja interessado num condicionado em segundo grau, trate de localizar a estação receptora e vá para lá. Desligo.

— Um instante! — exclamou a outra voz. — O Marechal-de-Estado

O resto da frase foi abafado por um estrondo surdo. Parecia que eram os condicionados em segundo grau tentando arrombar a porta blindada.

Cronot desligou o hipercomunicador e colocou-o nas costas, enquanto Perish arrastava o vigilante de vibrações para a área de transporte do transmissor.

A porta ficou incandescente.

Cronot saltou para perto do console e bateu na placa de acionamento. As colunas energéticas voltaram a subir. Os contornos da figura monstruosa confundiram-se — e o condicionado em segundo grau desapareceu. Em algum lugar seu átomos voltariam a materializar-se a partir da energia da quinta dimensão, compondo-se, segundo um modelo estrutural neles inserido, num ser igual ao que desaparecera no transmissor de Triton. Mas por enquanto ninguém sabia onde isso aconteceria

* * *

A porta blindada arrebentou no meio de um chuvisco de metal liquefeito.

Cronot e Perish comprimiram-se contra a parede, depois de desligar o transmissor. Quatro gigantes entraram correndo pela porta destruída. Não olharam para os lados. Desta forma os oxtornenses tiveram oportunidade de sair sem serem vistos.

— Talvez nem percebam que o transmissor foi usado — exclamou Cronot enquanto

corriam pelas ruas. — Certamente captaram nossa transmissão pelo hipercomunicador — retrucou Perish. — E o resto deduzirão facilmente com seus cérebros-computadores.

— Tomara que não usem o transmissor.

— Não farão isso enquanto não souberem onde fica a estação receptora, Dad. Estes monstros gostam de continuar vivos. Empurrou o pai com o ombro ao ver uma trilha de metal derretido atravessando a

rua.

Os oxtornenses caíram, voltaram a levantar e entraram na casa mais próxima. Saíram pela porta dos fundos. No mesmo instante quatro feixes de radiações

concentraram-se no edifício, que desmoronou com um estrondo. Um fragmento pontudo bateu na placa craniana artificial de Perish. Perish cerrou os dentes para não gemer de dor. A ligação bioplasmática que mantinha unida a prótese e o esqueleto natural do crânio começou a sangrar.

O pai puxou-o pelo braço e o fez descer por uma rampa rolante parada.

Estava escuro, mas estavam livres dos impactos das armas térmicas — ao menos

por enquanto.

— Parece ser uma estação de trem tubular — cochichou Cronot. — Vamos seguir à direita. O túnel leva para a periferia da cidade.

Perish limpou o rosto que estava sujo de sangue. Acenou automaticamente com a cabeça. Era a primeira vez que sentia a desvantagem de uma prótese não-orgânica. Os pontos de ligação eram mais sensíveis às influências mecânicas. Mas Perish conseguiu controlar-se e acompanhou a corrida do pai. Dali a pouco não sentiu mais nada além de um atordoamento vago e de algumas pontadas de dor. Recuperou as energias.

— Tomara que os outros tenham encontrado um bom esconderijo — gritou para o

pai.

De repente ouviram o ruído surdo das armas energéticas vindo de cima. Cronot Mokart parou abruptamente.

— Em quem estão atirando? Será que querem queimar um buraco no teto do túnel?

— Lá na frente está entrando luz! — exclamou Perish e continuou a correr. —

Vamos ver o que está havendo lá em cima. De repente Cronot também se sentiu dominado por um estranho nervosismo. Disse

a si mesmo que os soldados já de viam estar num lugar seguro, mas tinha certeza de que os vigilantes de vibrações que estavam lá fora não ficariam atirando a esmo. Os oxtornenses atingiram a estação seguinte. Estava novamente tudo em silêncio. Subiram pela esteira rolante e deitaram no chão. A uns cem metros de distância, um dos condicionados em segundo grau acabara de atravessar a parede de uma casa. Os berros dos outros vinham de mais longe. Os dois correram abaixados para o lugar em que minutos antes deviam ter sido disparados os tiros. Ficam imóveis diante dos restos mortais de oito seres humanos. Cronot passou a mão pelos olhos.

— O Capitão Geraldi e seus homens morreram como heróis — disse com a voz abafada pelas lágrimas.

Perish pigarreou. Muitas vezes vira coisa semelhante durante o tempo em que servira na USO. Mas seu rosto parecia impassível quando cochichou:

— Devem ter-se escondido perto da sala do transmissor para poderem entrar em ação, caso isso se tornasse necessário. Eu Perish interrompeu-se.

militares

Providenciaremos para que tenham um funeral decente com todas as honras depois que tudo tiver passado! — jurou Cronot Mokart.

para que tenham um funeral decente com todas as honras depois que tudo tiver passado! —

Isso não lhes restituirá a vida! — indignou-se Perish. — Em seguida abanou a

cabeça. — Desculpe, Dad!

— Está bem, meu filho — disse Cronot enquanto colocava o braço sobre os ombros

do filho. — Eu compreendo. Mas se ficarmos parados aqui esperando que os monstros voltem a encontrar-nos também não estaremos ajudando os coitados.

— Vamos atrás deles para matá-los! — retrucou Perish, para em seguida sacudir os ombros num gesto de resignação. — Está bem. Sei que não conseguiríamos. Vamos andando.

* * *

Perto da torre-mirante encontraram- com um vigilante de vibrações. Abriram fogo imediatamente, mas os tiros não afetaram o gigante. Os impulsos saídos das armas energéticas atingiram o chão perto dos dois oxtornenses, que saíram em saltos largos, pondo-se a salvo no interior de um edifício.

O ruído da batalha atraiu outros vigilantes de vibrações. Perish e Cronot recuaram

disparando ininterruptamente. Tinham de prestar atenção para não cair numa cilada.

Quando atingiram a margem do lago artificial chegou a hora. Os tiros vieram de quatro lados ao mesmo tempo.

Os oxtornenses foram obrigados a saltar na água. Só lhes restava fazer votos que a profundidade do lago fosse suficiente para que os raios energéticos não os atingissem. Demorou alguns segundos até que os condicionados em segundo grau compreendessem o plano dos oxtornenses. Quando isso aconteceu, raios energéticos fulgurantes atravessaram a água perto dos fugitivos. Mas parecia que os monstros não sabiam onde estavam os oxtornenses. Atiravam ao acaso e logo passaram a cobrir outra área do lago. De repente as mãos de Perish tocaram o fundo do lago.

O oxtornense deixou de dar braçadas de natação e dirigiu-se ao pai. Em virtude do

elevado peso específico de seus corpos, os oxtornenses não subiriam à superfície se não

quisessem. Permaneceram praticamente imóveis junto ao fundo do lago. Cronot estendeu a mão e tocou no ombro de Perish. Em seguida colocou o capacete- capuz. As placas deste estabilizaram-se imediatamente. Perish seguiu o exemplo do pai. Teve de engolir alguns litros de água, depois que a

borda magnética do capacete tocou na parte correspondente do uniforme, mas logo voltou a respirar à vontade. No mesmo instante ligou o transmissor embutido em seu capacete na potência mínima.

— Aqui não podemos ficar muito tempo, Dad.

— Estamos numa tremenda armadilha, meu filho — foi a resposta transmitida em

voz baixa através dos fones de ouvido. — Se não voltarmos logo à tona, as feras nos procurarão aqui embaixo.

— Deve haver uma entrada de água para este lago — pensou Perish em voz alta. —

Vamos! Empurrou-se com os pés e nadou calmamente para a margem, seguido pelo pai. Felizmente o fundo do lago não subia. Assim os oxtornenses pelo menos tinham certeza de não serem vistos, a não ser através da água. Os dois alcançaram a margem e seguiram tateando junto a ela.

Levaram quase trinta minutos para encontrar a entrada de água fechada por uma grade.

— Tivemos sorte, filho — disse Cronot. — Poderíamos ter dado com a saída de água. Nesse caso iríamos parar no lago inferior.

— Antes isso que parar na cidade — retrucou Perish. Não tiveram muito trabalho em arrancar a grade dos suportes.

— É pena que o tubo de entrada não seja um pouco mais estreito — murmurou

Perish. — Se os monstros perceberem que fugimos, certamente irão atrás de nós.

— Aguardemos para ver o que acontece — disse Cronot.

Até parecia que estas palavras representavam um comando para alguém. Uma

sombra gigantesca apareceu perto deles. Os oxtornenses encostaram-se o mais que puderam à margem.

A sombra desapareceu.

— Vamos embora — cochichou Cronot. — Dentro de um minuto no máximo

estarão no nosso encalço.

Enfiou o filho na abertura e deixou que este o ajudasse a entrar. Em seguida empurraram-se e saíram nadando pelo tubo, em braçadas calmas e vigorosas, para um lugar desconhecido.

* * *

Ficaram surpresos porque dali a quinze minutos ainda não havia sinal dos seus perseguidores.

— Devem ter descoberto o tubo de entrada de água — fungou Cronot. Estava

cansado de nadar contra a correnteza constante. Qualquer homem nascido na Terra só

agüentaria alguns minutos e acabaria sendo arrastado para trás. — Será que desistiram?

— Receio que não esteja avaliando corretamente os vigilantes de vibrações, Dad. Quando esses monstros descobrem uma pista, seguem-na até o fim.

— Se é assim, por que não atiram em nós?

— Talvez seus corpos encontrem maior resistência na água e assim só possam

avançar bem devagar. De qualquer maneira devemos tratar de livrar-nos deles o mais depressa possível. Deve haver alguma bifurcação mais adiante, ou então chegaremos ao começo do tubo. Os dois ficaram calados algum tempo. Avançaram obstinadamente contra a correnteza. Os movimentos dos braços e das pernas quase eram automáticos. De repente, sem que tivessem visto qualquer sinal, apareceu uma superfície clara em cima de Perish Mokart. O oxtornense fez recuar instintivamente o corpo e empurrou-se com toda força. Dali a instantes emergiu de um pequeno lago na caverna.

Por causa do peso teve dificuldade em manter-se na superfície mexendo com as pernas. Mas olhou atentamente em volta. Havia um sol artificial sob o teto da caverna, espalhando uma luz forte e desagradável. Junto às paredes da caverna viam-se cinco edifícios altos sem paredes. Eram os únicos sinais da ação do homem. Uma queda d'água espumante de uns cinqüenta metros de altura saía de uma fenda estreita. Além disso viam-se as entradas de umas cinqüenta cavernas espalhadas pelas paredes.

— Muito bem — gemeu Cronot. — Excelente! Basta entrarmos em uma destas

cavernas, e os monstros poderão tratar de adivinhar qual foi.

— Tem mais uma flecha? — perguntou Perish aparentemente sem qualquer motivo.

— Como? Não, meu filho. O que quer com ela?

— Só estou interessado na carga explosiva da ponta, Dad.

— Ah, sim. É claro que ainda tenho boa quantidade de cargas. Ah, já compreendi

— Cronot pôs-se a remexer os bolsos externos e tirou um objeto de dois centímetros de

comprimento. — Olhe! É uma carga explosiva atômica. Que me diz?

— Obrigado, Dad.

Perish segurou a cápsula de formato estranho e logo voltou a mergulhar. Desceu apressadamente para o fundo do lago. Levou apenas alguns segundos para encontrar a saída de água do lago. Ficou tateando no escuro, à procura de uma fenda ou fresta na qual pudesse colocar a cápsula.

Mas as paredes eram lisas e inteiriças. Perish continuou a procurar desesperadamente. Sentiu que os perseguidores não estavam longe. Quando aparecessem já seria tarde. Virou-se assustado ao sentir alguma coisa tocar seu ombro.

— Sou eu, Perish — disse a voz do pai saída dos fones de ouvido. — Dê-me a

cápsula. Perish não sabia o que o pai queria com a cápsula. Afinal, não era capaz de farejar qualquer fresta escondida. De qualquer maneira apalpou a mão do pai e enfiou a cápsula nela.

— Pronto — exclamou Cronot depois de um instante. — Vamos tratar de subir,

meu filho! No mesmo instante Perish compreendeu o que seu pai fizera. Empurrou-se com os pés e saiu nadando mais depressa do que já fizera em toda vida. Veio à tona juntamente com o pai. Estavam próximos a margem. Puxaram-se para cima e saíram correndo para os fundos da caverna. Mas não chegaram longe.

Parecia que um punho de gigante desabara sobre o chão. Perish perdeu o apoio dos pés e caiu de cabeça para dentro do lago. Em cima dele e dos lados blocos de pedra caíam na água. Finalmente ouviu o ruído da explosão. Perish Mokart perdeu os sentidos por alguns instantes. Quando voltou a si, estava nadando de volta para a superfície. Amedrontado, olhou em volta à procura do pai. Toda a margem daquele lado da caverna estava coberta de rochas. Fendas de vários metros se abriam nas paredes, e os escombros continuavam a cair. No lugar em que devia ficar a saída de água o líquido fervia e borbulhava num enorme torvelinho.

Dad! — gritou Perish desesperado.

— Estou aqui! — respondeu uma voz alta.

A cabeça do pai saiu da água a menos de um metro do lugar em que Perish se encontrava. Cronot Mokart olhou ligeiramente em volta.

— Tivemos sorte, meu filho, muita sorte! — disse com o rosto sério.

Os dois saíram nadando lado a lado. Alcançaram a margem, passaram por cima do monte de escombros e ficaram parados junto à queda d'água. Abriram os capacetes.

— Você deixou que a cápsula fosse levada pela correnteza, não é mesmo, Dad? — perguntou Perish. Cronot sorriu com uma expressão matreira.

— Foi a única possibilidade. Tomara que a carga tenha explodido na cara de um

desses amaldiçoados condicionados em segundo grau. Perish não respondeu. Sabia perfeitamente que nem mesmo uma explosão atômica

de pequena potência seria capaz de matar um condicionado em segundo grau. Depois de algum tempo Cronot apontou para a fresta da qual saía a queda d'água.

— Podemos passar ali andando. A água não tem mais de um metro e meio de

profundidade. Vi do lago. Perish sorriu.

— É uma boa idéia. Não acredito que os vigilantes de vibrações nos procurem nesse

lugar. Certamente pensarão que escolhemos o caminho mais confortável através de uma das cavernas secas.

— Além disso o corpo desses monstros não passaria por uma fresta tão estreita — acrescentou Cronot, indiferente. Perish confirmou com um gesto e os dois começaram a subir.

Subiram durante seis horas, lutando contra a corrente e com as águas turbilhonantes até os quadris. Foram subindo aos poucos. Quando atingiram a nascente do rio subtritonense, viram-se diante de outro lago de caverna. Era bem verdade que ali não havia nenhum sol atômico. Os dois sentaram numa rocha molhada e puseram-se a escutar no meio da escuridão. O único ruído que ouviram foi o ruído borbulhante da água. — E agora? — cochichou Cronot Mokart. — Não podemos ficar aqui para sempre. Perish abriu a bolsa que trazia presa ao cinto e tirou a esfera vibrante. Pesou-a cuidadosamente na mão. — Talvez Einaklos possa dizer o que podemos fazer — disse. — Afinal, foi ele que mandou construir estas cavernas e os rios

* * * * *

*

Usando a velha tecnologia lemurense, os oxtornenses Cronot e Perish Mokart conseguiram uma

coisa considerada impossível. Prenderam um policial do tempo e enviaram-no, bem empacotado, pelo transmissor, numa viagem pelo desconhecido.

O próximo volume contará a fase seguinte, muito

emocionante, do conflito entre os terranos e os policiais do tempo.

A história tem o título O Mar dos Sonhos.

do tempo. A história tem o título O Mar dos Sonhos . Visite o Site Oficial

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