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(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão
(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão
(P-333)
(P-333)
(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão ARLINDO_SAN
(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão ARLINDO_SAN
(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão ARLINDO_SAN
(P-333) O MAR DOS SONHOS Autor KURT MAHR Tradução RICHARD PAUL NETO Digitalização e Revisão ARLINDO_SAN

O MAR DOS SONHOS

Autor

KURT MAHR

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Digitalização e Revisão

ARLINDO_SAN

Os calendários do planeta Terra registram os últimos dias do mês de fevereiro do ano 2.436. Perry Rhodan e outros personagens importantes do Império Solar estão desaparecidos há várias semanas a bordo da Crest IV.

Enquanto isso os terranos do sistema central travam uma luta desesperada.

A existência da humanidade está em jogo, no sentido

literal da expressão. De fato, Olá Man e os novos donos do

robô gigante, os policiais do tempo, representam uma ameaça mortal. No Sistema Solar apareceu um poder diante

do qual as instalações defensivas e a frota metropolitana dos terranos são relativamente impotentes.

É bem verdade que por enquanto as forças defensivas

comandadas por Reginald Bell e Julian Tifflor conseguiram manter razoavelmente suas posições. De fato, somente a lua de Netuno foi obrigada a capitular. Mas não há dúvida de que a Frota Solar levaria a pior se o inimigo resolvesse lançar um ataque concentrado. O Marechal-de-Estado Bell e as outras pessoas incumbidas da defesa do Sistema Solar têm uma consciência dolorosa dessa situação. Nessa altura Reginald Bell recebe uma mensagem urgente de Mory, esposa de Perry Rhodan. Atende imediatamente à mensagem e, passando por Fobos, dirige-se a Last Hope, o planeta da última esperança. Quando regressa ao Sistema Solar a bordo de um cruzador ligeiro, o Marechal-de-Estado mal e mal chega em tempo para apoiar o comando suicida de Don Redhorse, que abriu passagem para O Mar dos Sonhos

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Reginald Bell — O Marechal-de-Estado que faz uma visita- relâmpago.

Coronel Don Redhorse — Chefe de um comando suicida.

Frizz Eisner e Holl Vincent — Amigos e companheiros de Redhorse.

Aser Kin — Um policial do tempo que luta pela liberdade.

Tro Khon — Chefe dos vigilantes de vibrações.

Fevereiro de 2.436.

É o mês mais negro de toda a história da humanidade terrana. Em

meados deste mês o robô monstruoso Old Man penetrou no Sistema Solar e, sob o comando dos vigilantes de vibrações, que se encontram a bordo do gigante juntamente com seus veículos organo-mecânicos, passa a atacar as bases do Império situadas na lua do planeta Netuno. Graças à ação implacável e suicida de milhares de unidades terranas, fora possível romper o campo defensivo hiperenergético de um dos seis veículos organo-mecânicos e destruir a espaçonave viva juntamente com os vigilantes de vibrações que se encontravam a bordo dela.

Parecia que este seria o único sucesso reservado aos defensores do Sistema Solar. Diante dos ataques maciços do robô gigante, a lua de Netuno chamada Nereide e a base nela instalada transformaram-se em pó. O estabelecimento do Império em Triton resistiu obstinadamente, mas os comandantes terranos reconheceram que aquilo era uma tarefa inútil e deram ordem ao comandante militar para que se rendesse. Olá Man e suas supernaves passaram a isolar completamente

Netuno e seu satélite Triton do resto do Sistema Solar. Os cinco vigilantes de vibrações que ainda restavam pousaram em Triton com seus dolans, que na verdade eram seres vivos. Mais uma vez o destino favoreceu o Império. Dois homens audaciosos naturais de Oxtorne conseguiram prender um vigilante de vibrações no labirinto de corredores e cavernas existente sob a superfície de Triton e levá-lo a outro lugar. Conseguiram escapar à perseguição iniciada imediatamente, atingindo uma base subterrânea da raça dos lemurenses, desaparecida há muito tempo, e colocando o corpo do prisioneiro imobilizado com fitas de terconite num transmissor ativado, do qual ninguém sabia em que lugar iria expelir o objeto que lhe fosse confiado. Desta forma o resultado da ação arrojada dos dois oxtornenses ainda era bastante duvidoso. Foi bem verdade que a ação assustou até a medula os vigilantes de vibrações, que se consideravam inexpugnáveis e dentro de poucos dias tiveram de convencer-se duas vezes de que sua inexpugnabilidade não chegava tão longe. Mas para os terranos a ação não representou um êxito imediato. O vigilante de vibrações, que poderia ser extremamente valioso como refém desde que se pudesse pôr as mãos nele, tinha desaparecido. Quer dizer que o planeta-sede do Império Solar continuava exposto a um perigo imediato. Quatro vigilantes de vibrações não eram muito menos perigosos que cinco ou seis. De fato, dispunham de um poder imenso e aterrorizante. Por enquanto continuavam em Triton, quietos. Mas até mesmo o mais simplório dos homens compreendia que isso não iria durar muito. Dentro de algumas horas ou dias certamente empreenderiam novas ações.

E então?

Era esta a pergunta que afligia a humanidade.

1

O homem alto olhava fixamente para a tela de imagem e observava os gestos

apaziguadores de seu interlocutor. Neste instante deu-se conta de um fato doloroso. Acabara de receber ordem de suicidar-se. Ou mais ou menos isso. Don Redhorse, coronel da frota do Império Solar, fechou os olhos por um instante e

passou a mão pela faixa de cabelos curtos que atravessava sua calva da testa à nuca. A voz do homem que aparecia na tela suplicava:

— Redhorse, ainda está ouvindo?

O homem com o estranho corte de cabelos abriu os olhos e fez um gesto afirmativo.

— Naturalmente, senhor. Ouço — respondeu completamente calmo.

Seu interlocutor era um homem de aspecto não muito impressionante. Olhos

aguados, cabelos ralos, um rosto pálido ligeiramente inchado transmitiam a impressão de um tipo medíocre, que não tinha direito de ser tratado com tamanho respeito por um coronel. O homem era Allan D. Mercant, marechal solar e chefe da Segurança terrana. Seu aspecto insignificante lhe rendera alguns êxitos sensacionais na área da luta contra a espionagem.

— Sei o que estou pedindo, Redhorse — garantiu em tom sério. — Pode crer que é

muito difícil para mim dar-lhe uma tarefa destas. Acontece que de todos os oficiais que

conheço o senhor é o único capaz de dar conta do recado. Redhorse acenou calmamente com a cabeça. — O problema não é este, senhor — informou. — Usaremos dezenas de milhares de espaçonaves numa tentativa de romper o bloqueio inimigo em torno de Netuno, para

que eu possa abrir passagem com um único veículo. A operação custará centenas de preciosas espaçonaves, além de milhares de vidas humanas. Será que vale a pena? É isto que me deixa preocupado. Allan D. Mercant ficou calado algum tempo. Redhorse examinou atentamente seu rosto, mas suas feições continuavam impenetráveis como sempre.

— Vale, sim, Redhorse — respondeu Mercant depois de algum tempo. — Temos

motivo para supor que conhecemos o lugar em que se encontra o vigilante de vibrações seqüestrado. Até mesmo para Don Redhorse e o proverbial autocontrole de seus antepassados indígenas a surpresa foi demais. Levou alguns segundos para recuperar-se do choque.

— Em Netuno

— Em Netuno — confirmou Mercant. — No Mar dos Sonhos.

?

— perguntou em tom seco.

* * *

Aser Kin estava acordado. Sua figura enorme jazia bem em frente a um raio concentrado de luz vermelha iridescente, que parecia grudado ao chão e marcava o limite do campo de ação do transmissor que trouxera o gigante. Pela primeira vez em toda a vida, Aser Kin não teve possibilidade de ativar seu cérebro programador e levar o computador orgânico a realizar um trabalho lógico, capaz de contribuir para tornar menos difícil sua situação ou até possibilitar sua fuga.

Aser Kin estava fora de si de raiva. A esta raiva juntava-se uma dose de espanto e um medo indefinível, que o gigantesco vigilante de vibrações nunca antes experimentara. Sentia-se indefeso. Era outra coisa que nunca lhe acontecera. Faixas largas e grossas de aço condensado cingiam seu corpo, comprimindo os dois pares de braços de encontro ao corpo. Outras faixas enlaçavam as enormes pernas-tronco a ponto de não poder movê- las um milímetro que fosse. Aser Kin ainda não tinha uma idéia muito precisa do que acontecera com ele. Duas figuras ridiculamente pequenas, que se encontravam no labirinto de corredores situados sob a superfície do astro que os terranos chamavam de Triton, o tinham subjugado. Arrastaram-no para as profundezas da lua e acabaram por empurrá-lo para a abertura de um campo de transmissão.

E Aser Kin voltara a materializar no lugar em que se encontrava naquele momento.

A sala em cujo interior se encontrava parecia ter sido esculpida na rocha natural. O teto abobadado sustentava uma fileira de luminárias irregularmente distribuídas, que irradiavam uma suave luz amarela. Parecia que a sala abobadada não possuía nenhuma saída — além da que passava pelo campo de transmissão. Mas apesar da fúria que o dominava, Aser Kin era bastante inteligente para compreender que não devia deixar-se enganar pelas aparências. Era possível que na rocha lisa houvesse dezenas de entradas

e saídas que ele não podia ver.

dezenas de entradas e saídas que ele não podia ver. O diâmetro da abóbada correspondia mais

O diâmetro da abóbada correspondia mais

ou menos a cinco vezes o comprimento de um homem. Estava completamente vazia, com exceção do traço vermelho brilhante que assinalava o campo de transmissão. Pelo que Aser Kin pôde verificar, os dois anões pelos quais fora subjugado lhe tinham deixado todo o equipamento que trazia consigo. Uma das partes integrantes das vestes que usava era o projetor de campo antigravitacional, que o envolvia constantemente num campo de gravidade cuja intensidade era igual àquela a que estava acostumado. O projetor estava

funcionando perfeitamente. Mas Aser Kin nem sequer teve a possibilidade de determinar

a gravitação aproximada do astro no qual se encontrava, o que lhe permitiria verificar para onde fora levado. Aser Kin já tentara romper suas amarras. Transformara seu corpo num material duro como aço e forçara ao máximo as faixas diabólicas.

O resultado fora nulo. O reconhecimento da própria impotência voltou a instigar sua

raiva, impedindo-o de ativar o cérebro programador. O cérebro comum dominava sua mente, com as irrupções de raiva agitadas e descontroladas. Mas apesar disso bem no subconsciente de Aser Kin surgiu uma idéia que talvez pudesse ajudá-lo.

* * *

Os quatro vigilantes de vibrações estavam conferenciando numa sala que antigamente servira de cassino aos oficiais da base de Triton. A conferência era presidida por Tro Khon, o mais experiente do grupo. Tro Khon sentia o nervosismo dos três companheiros de raça. Sabia perfeitamente que não seria fácil restabelecer o ambiente de confiança. Ele mesmo experimentava uma sensação desagradável, um misto de medo e incerteza. A expedição punitiva contra a Terra, que todos consideravam uma simples operação de rotina, já fizera duas vítimas. Um dos vigilantes de vibrações se desmanchara na bola de fogo produzida por milhares de canhões terranos. Outro fora seqüestrado. O número dos vigilantes fora reduzido de seis para quatro. “É um motivo suficiente para não nos sentirmos muito à vontade”, pensou Tro Khon. — Apesar de tudo, a operação prosseguirá — explicou, reiniciando em tom enfático

a discussão que fora interrompida por algum tempo, durante a qual todos ficaram pensativos. — O crime contra o tempo cometido por esta raça não pode ficar impune. Cabe-nos fazer com que os criminosos recebam o castigo que merecem. “Sofremos alguns reveses que ninguém esperava. A raça que combatemos é mais resistente e ágil do que pensávamos. Mas não devemos deixar-nos intimidar. Já conhecemos o inimigo. Sabemos que dispomos de recursos muito mais eficientes que ele.

A única coisa que temos de fazer é atacar, e o crime cometido há pouco tempo por esta

raça será punido. E punido de uma forma que tornará impossível sua repetição.” Enquanto Tro Khon falava, ele se sentia cada vez mais confiante. Até parecia que bastava articular suas idéias para restabelecer a autoconfiança. Um dos seus companheiros objetou que seu dolan, o veículo organo-mecânico dirigido por sete cérebros especialmente conservados, manifestara dúvidas graves contra novos avanços em direção à Terra. Mas Tro Khon rejeitou a objeção. — Os sete coordenadores — disse com a voz retumbante — são criaturas nervosas

e supersensíveis. Depois de separados dos próprios corpos, passaram a ser dominados pelo instinto da auto-conservação. Recuam diante de qualquer perigo. Não devemos atender ao seu pedido. Sua tarefa consiste em responder às nossas perguntas e transportar-nos em segurança pelo cosmos. Não lhes cabe dar conselhos. Era isso mesmo. Quanto mais falava, mais suas forças aumentavam. Fora um tolo por ter-se impressionado tanto com a perda de dois companheiros. Aser Kin não estava perdido. Fora seqüestrado. Acabaria sendo encontrado. Era a primeira coisa que tinham de fazer. Em seguida atacariam a Terra.

* * *

Era uma nave rápida e seu comandante era um excelente astrogador. Reginald Bell estava disposto a reconhecer este mérito diante de seus anfitriões, quando a tela de imagem ampla instalada em seu camarote mostrou a superfície acidentada, entrecortada por montanhas escarpadas e vales que eram verdadeiros desfiladeiros, do planeta sobre o qual estava descendo a Aronto. Mas apesar de ter de reconhecer isso, Bell experimentava uma insatisfação cada vez mais acentuada, que o incomodava cada vez mais enquanto durava a viagem. Depois que recebera a mensagem urgente de Mory Rhodan-Abro levara nada menos de vinte e oito horas a bordo da nave mais rápida da frota do Império para chegar a Plofos, onde ficava a corte da esposa do Administrador-Geral, desaparecido há algum tempo. Mory era titular

de uma herança um tanto duvidosa deixada por um megalomaníaco chamado Iratio Hondro. Mory Abro, que mais tarde passaria a ser Mory Rhodan-Abro, transformara o reino estelar plofosense, revoltado contra a Terra, numa região leal ao Império Solar. Reginald Bell resolvera atender ao chamado, deixando a frota entregue ao comando de outra pessoa, apesar do perigo dos vigilantes de vibrações que ameaçava a região metropolitana, não porque Mory fosse esposa de Rhodan, mas porque achava que se tratava de uma mulher que sempre sabia o que queria. Parecia que pela primeira vez se arrependeria de uma decisão baseada em reflexões objetivas. De fato, em Plofos só foi encontrar uma Mory Rhodan-Abro extremamente nervosa, que o colocou imediatamente em outra nave, depois de garantir que aquilo pelo qual o chamara seria encontrado em Last Hope. Reginald Bell não fizera nenhuma objeção. Afinal, já perdera mais de um dia, e a viagem a Last Hope só duraria algumas horas. Agora Last Hope se estendia lá embaixo, um planeta infernal, que há cento e sete anos desempenhara um papel tão importante na derrota do chefe Iratio Hondro e na sufocação da rebelião contra o Império. O ângulo da objetiva da câmara que fornecia a imagem à tela que Reginald Bell estava examinando não bastava para mostrar uma abertura circular profunda que, de repente, se formou embaixo da nave que já iniciara a descida. Foi somente quando a tela escureceu um pouco, deixando que se visse por uma fração de segundo a borda do gigantesco buraco no qual a Aronto estava mergulhando, que Bell se lembrou de que Last Hope não possuía qualquer instalação na superfície. Iratio Hondro instalara neste mundo uma base dedicada principalmente às pesquisas técnico-científicas. A necessidade de manter em segredo a existência dessa base e as condições reinantes na superfície do planeta eram os principais motivos pelos quais a base fora instalada no subsolo. Last Hope ficava tão perto do sol que na face diurna as temperaturas subiam a quinhentos ou seiscentos graus centígrados. Por outro lado, as características da superfície do planeta e o tempo de rotação muito elevado faziam com que na face noturna o calor armazenado durante o dia fosse irradiado em poucas horas e as temperaturas chegassem perto do zero absoluto. Somente nas regiões polares não se verificavam as temperaturas extremas. O movimento de precessão de Last Hope, de freqüência muito mais elevada que a rotação em torno do próprio eixo, fazia com que perto dos pólos o dia e a noite se alternassem muito mais depressa que no resto do planeta, mantendo a temperatura dentro de certos limites. O complexo de pesquisa de Iratio Hondro fora instalado próximo ao pólo norte do planeta, e Reginald Bell acreditava que a Aronto se propunha a pousar nessa mesma região. Vários minutos se passaram até que a tela voltasse a iluminar-se. A nave entrou num pavilhão gigantesco, iluminado até os cantos mais remotos por luminárias branco- amarelentas. As dimensões do recinto eram impressionantes. Alguém mandara construir um porto espacial no subsolo de Last Hope que em extensão praticamente não ficava atrás do de Terrânia. Reginald Bell nem sentiu quando a Aronto pousou, mas percebeu que a nave começou imediatamente a movimentar-se na horizontal. Não sabia de que tipo era o mecanismo propulsor, mas a finalidade da operação era evidente. A área do campo de pouso que ficava embaixo da galeria vertical de entrada tinha de ser evacuada imediatamente. O tráfego espacial de Last Hope parecia ser muito intenso. Era estranho que nos círculos oficiais terranos se pensasse que se tratava de um planeta praticamente deserto.

Finalmente a Aronto imobilizou-se numa área assinalada em vermelho. Uma escolta de oficiais da nave veio buscar Reginald Bell e acompanhou-o para fora da nave. Havia um contingente perfilado ao pé da rampa, o que era necessário para receber o segundo homem mais importante do Império Solar. O chefe do contingente era um homem alto e obeso, de bigode ruivo, chamado Koster Heks, que usava uniforme de general da guarda espacial plofosense. Reginald Bell simpatizou com ele por causa do uniforme, que não apresentava o colorido vivo que costumava caracterizar as vestes dos oficiais das tropas regionais autônomas do Império. O hóspede importante foi convidado a entrar em um veículo pertencente a um grupo de quinze, que tinha comparecido para recepcioná-lo. Foi levado prontamente a uma espécie de sala de recepção escavada na rocha da parede do porto espacial subterrâneo. Comparado com o gigantesco pavilhão do campo de pouso, a sala de recepção parecia acanhada, e suas instalações eram modestas. Um velho balcão, meio estragado, com os aparelhos robotizados geralmente encontrados nestes lugares, cuidava das formalidades de entrada. Não havia ninguém junto ao balcão. Uma luminária fluorescente instalada embaixo do teto liso, pintado de branco, espalhava uma luz amarela fraca. Além disso viam-se algumas poltronas, sofás e mesas baixas, que davam a impressão de que deveriam ter sido aposentadas há muito tempo. Nos fundos havia uma porta com uma antiquada fechadura de pressão. Mas a entrada pela qual Reginald Bell viera possuía um portal hidráulico do último modelo. Bell mal se deu conta de que sua ilustre comitiva ficou para trás quando entrou na estranha sala. Teve a atenção despertada por um homem que entrara tropeçando quase ao mesmo tempo que ele pela porta antiquada que ficava do outro lado. O homem realmente tropeçou. Parecia tão apressado que nem vira a soleira da porta. Teve de esforçar-se para não perder o equilíbrio. O único objeto que parecia bem equilibrado o tempo todo e dava a impressão de saber sempre onde era em cima e embaixo era o cachimbo que balançava entre seus lábios, e do qual saíam incessantemente grandes baforadas de fumaça. Finalmente o homem conseguiu orientar-se. Aproximou se de Bell com um sorriso embaraçado, com o cachimbo pendurado no canto esquerdo da boca e os cabelos negros desgrenhados descendo pela testa. Estendeu a mão direita e no último instante deu-se conta da posição do visitante, tirando o cachimbo da boca com a esquerda. Reginald Bell pegou a mão estendida e apertou-a com as forças que ainda lhe restavam naquele momento de surpresa. Já conhecia o homem. Fazia tempo que o vira pela última vez. Mas ainda se lembrava do dia em que em vez de proferir a palestra programada perante a Academia Espacial de Terrânia, para a qual fora convidado, fugira diante das estrondosas gargalhadas de seus colegas cientistas e abandonara a Terra na primeira nave em que conseguira entrar. Era o Dr. Abel Waringer, um homem que servira de objeto a maior número de anedotas que qualquer outro. Era um cientista que seus colegas achavam meio louco. Além disso era o homem que merecera as simpatias da filha do Administrador- Geral, que acabara casando com ele contra a vontade do pai. A idéia de ter feito uma viagem de um dia e meio no momento em que a própria existência do Império estava em jogo, somente para encontrar-se com o Dr. Abel Waringer, quase fez com que Reginald Bell perdesse o autocontrole. Certamente sua decepção se refletira ao menos em parte em seu rosto, pois o sorriso de Waringer parecia ainda mais embaraçado. O cientista libertou desajeitadamente a mão dos dedos de Bell que a comprimiam e retirou-a apressadamente.

— Parece que não ficou muito satisfeito — observou Waringer. Bell sentiu-se um

tanto aliviado ao notar que ao menos sua voz não perdera o timbre firme e profundo. —

Não se arrependerá por ter vindo. Disse isto no tom apressado de um vendedor que quer empurrar um carro usado

para um cliente indeciso. Reginald Bell sentiu uma desconfiança instintiva. Além disso estava aborrecido.

— Abandonei a frota metropolitana num momento extremamente grave —

respondeu amargurado. — Fiz isso porque esperava que me fosse apresentada uma

novidade sensacional, capaz de eliminar nosso medo e angústia. No entanto Bell interrompeu-se abruptamente ao dar-se conta do que pretendia dizer.

Abel Waringer virou-se para o lado. Era uns vinte centímetros mais alto que Bell. Em seu rosto magro sobressaía até mesmo o perfil dos maxilares, e o nariz enorme parecia um enorme balcão, que dava um aspecto pouco sério ao conjunto.

— No entanto — completou Waringer — o senhor vem encontrar um homem que

na Terra se apresentou como um idiota incompetente. O fato de ouvir de outra boca as palavras que ele mesmo trouxera na ponta da

língua doeu em Reginald Bell. Waringer girou sobre os calcanhares, com uma rapidez que ninguém esperaria encontrar naquela figura desajeitada, e encarou Bell.

— Nunca lhe ocorreu que talvez se tenha deixado levar por um preconceito sem o

menor fundamento? Que o homem que serve de objeto a chacotas na Terra talvez nem

seja o idiota que todos acham? Já se deu ao trabalho de ouvir o outro lado antes de formar sua imagem sobre Abel Waringer? Reginald Bell contemplou espantado a modificação que se verificara com o cientista alto e magro, enquanto este falava num tom cada vez mais nervoso. O sorriso tímido desaparecera de seus lábios, bem como a expressão meio ingênua, meio sonhadora dos grandes olhos castanhos. Naquele momento Abel Waringer era um homem contrariado, e neste momento ninguém o consideraria ridículo. Bell fez um gesto de quem pede desculpas.

— O senhor não deixa de ter razão, Doutor Waringer — contemporizou. —

Comportei-me de uma forma imperdoável. Talvez possa ter um pouco de compreensão

por um homem martirizado, que só é cientista em segundo lugar e prefere confiar nas idéias daqueles que o sejam em primeiro lugar. E que além disso saiu diretamente de uma tremenda confusão, da qual parece não haver saída. Apaziguado, Waringer voltou imediatamente a ser a figura desajeitada que todos conheciam. Voltou a enfiar o cachimbo no canto da boca e conseguiu dizer entre os lábios e a haste:

— Eu sei. Os condicionados em segundo grau e Old Man. Estão no pêlo dos

terranos. Por isso

— Estão na garganta dos terranos! — corrigiu Bell.

— Isso mesmo. E é por este motivo que sua vinda talvez tenha sido útil.

Reginald Bell ficou com os olhos semicerrados, como se a luz o ofuscasse.

— Quer dizer que o senhor

Waringer riu e fez um gesto de recusa.

— Não quero dizer nada. Mostrarei. A decisão será sua. De acordo?

Reginald Bell acenou ligeiramente com a cabeça. Não tinha alternativa. De qualquer maneira não tinha nada a perder.

— Venha — pediu Waringer e fez um gesto convidando Bell a atravessar a porta

atrás da qual se estendia um corredor fortemente iluminado. — Os grandes segredos

podem ser encontrados nas profundezas.

* * *

As duas horas que se seguiram deixaram Reginald Bell mais confuso que a investida dos condicionados em segundo grau contra a Terra. Sabia que em Last Hope havia extensos centros de pesquisa criados por Iratio Hondro. Depois que se encontrara com Abel Waringer, pudera perfeitamente imaginar que depois que o cientista deixara a Terra devia andar imbuído da ambição de ampliar e aperfeiçoar estas instalações. Mas nem nos sonhos mais arrojados teria sido capaz de conceber aquilo que o cientista desajeitado lhe estava mostrando. Desceram num pneumoelevador em cujo painel de controle estavam marcados pelo

menos cinqüenta andares. Reginald Bell, que estava acostumado aos elevadores antigravitacionais das cidades e espaçonaves terranas, perguntou o que levara Waringer a construir os elevadores segundo um princípio aparentemente antiquado. A explicação de Waringer foi bem interessante.

— A única vantagem do elevador antigravitacional em relação ao pneumático são

os custos de manutenção mais reduzidos. Mas sua instalação é mais cara, bem como os

reparos, que além disso são complicados. O princípio do elevador pneumático foi abandonado antes da hora. Para torná-lo economicamente viável bastaria instalar alguns mecanismos automáticos, que fizessem com que não houvesse nenhum vazamento e que a pressão no interior do poço fosse constantemente regularizada. Com isso o elevador pneumático passou a funcionar perfeitamente, sua manutenção é barata e nunca apresenta problemas. Parecia simples, mas Bell possuía conhecimentos técnicos suficientes para saber que eram necessárias instalações bastante complexas para controlar constantemente a vedação do poço pneumático e regular a diferença de pressão de forma tal que a cabine do elevador subisse e descesse. O respeito que sentia pelas realizações daquele homem era cada vez maior.

A viagem vertical terminou perto de uma área de estacionamento na qual estavam

guardadas centenas de veículos de um, dois ou mais lugares. Eram planadores que usavam o princípio da gravitação artificial, que deixara de ser utilizado justamente nos elevadores. Waringer convidou o hóspede a entrar em um dos veículos de dois assentos que estavam com a porta aberta e disse em voz alta e bem articulada:

Um

dois

três.

O

veículo partiu, abandonando a área de estacionamento e entrando num corredor

largo. No interior do corredor, do qual partiam várias vias secundárias, o tráfego era bem intenso. Havia veículos dos mais diversos tamanhos viajando em todas as direções. O vento provocado pelo deslocamento de ar era cuidadosamente desviado por um pára-brisa inclinado para cima, fazendo com que no interior do veículo ficasse bem quieto. Os ocupantes dos veículos que viajavam em sentido contrário cumprimentavam Waringer acenando amavelmente com os braços. Waringer retribuiu com a mesma gentileza.

Parecia que em Last Hope as pessoas simpatizavam mais umas com as outras do que costumava acontecer nos grandes centros de pesquisas, com uma população considerável de técnicos e cientistas. Foi outra coisa que deixou Reginald Bell espantado.

O veículo começou a movimentar-se sem que Abel Waringer mexesse na direção.

Waringer pronunciara uma combinação de algarismos que parecia ser um código

processado por um mecanismo acústico, a fim de colocar o carro na rota que o levaria ao destino. Desviava-se automaticamente dos outros veículos, sem obedecer a quaisquer regras de trânsito, mas empenhado somente em avançar o mais depressa possível. Reginald Bell teve a atenção distraída quando o corredor foi ficando mais largo para finalmente terminar num pavilhão tão gigantesco que Bell pensou por um instante que tivesse voltado à superfície do planeta. Waringer notou seu espanto e explicou com um sorriso irônico nos lábios:

— Complexo número um. É um dos maiores recintos que possuímos. Aqui não se

fazem muitas pesquisas, mas em compensação o desenvolvimento é bem maior. Noventa por cento dos produtos que fornecemos são concluídos aqui. Bell quase não ouvia o que Waringer estava dizendo. O gigantesco pavilhão estava repleto de máquinas, aparelhos e seres humanos. Em toda parte se desenvolvia uma atividade febril — nos postos de medição, junto aos painéis de controle das máquinas monstruosas e nos corredores largos que separavam as fileiras de instrumentos cuidadosamente organizadas, formando uma malha de vias de tráfego. Bem no alto brilhavam gigantescas luminárias, espalhando uma luz forte e suave, que proporcionava uma iluminação uniforme sem sombras. Mas o que mais perturbava Reginald Bell era o silêncio quase absoluto que reinava no pavilhão. A única coisa que se ouvia era um ligeiro zumbido, entremeado de vozes. Waringer deu algumas explicações, enquanto o carro prosseguia em velocidade elevada junto à parede. — O mais importante foi criar tipos de motores que funcionassem o mais silenciosamente possível. Outro problema foi revestir as máquinas de tal forma que os ruídos não chegassem para fora. Conseguimos ambas as coisas. É claro que o fato de o

teto abobadado ter sido construído e revestido segundo o princípio da acústica ótica também ajudou. Acredito que isto seja um dos pavilhões de máquinas mais silenciosos do Império.

— Para que serve isso? — perguntou Bell finalmente, assim que se recuperou um pouco da surpresa. — Para que todo esse dispêndio? Waringer sacudiu a cabeça.

— O dispêndio não importa — objetou. — As despesas iniciais foram elevadas,

mas são amortizadas com uma rapidez surpreendente. — Waringer olhou Bell de lado e

piscou os olhos:

— Não pense que entendo alguma coisa de contabilidade de custos. Foi Suzan que

fez os cálculos. Reginald Bell acreditou no que Waringer dizia. Suzan Rhodan-Waringer, filha do

Administrador-Geral, era a mulher que cuidava para que todos os dispêndios seguissem o princípio do retorno máximo.

— Trabalhamos com um pessoal de elite regiamente pago — prosseguiu Waringer.

— As pessoas que trabalham aqui ganham duas vezes e meia mais do que as pessoas que ocupam posições equivalentes em qualquer lugar do Império. Um nível de ruídos elevado causa doenças e faltas no trabalho. Desta forma economizamos muito dinheiro cuidando da saúde do pessoal. “Existe outro detalhe. “Nossas instalações possuem um sistema de isolamento energético. Nem um único quanto de radiação remanescente chega à superfície. A superfície planetária foi mantida intacta. Iratio Hondro cuidou disso. É praticamente impossível que alguém nos descubra.

Por isso chegaria mesmo a ser ridículo se permitíssemos que as vibrações acústicas transmitidas à rocha revelassem nosso esconderijo.” Reginald Bell ficou calado. Seu cérebro estava funcionando em alta velocidade. Compreendeu que Abel Waringer fora gravemente subestimado em Terrânia. Aquele cientista de aparência desajeitada transformara o legado de Iratio Hondro num centro de pesquisas que dificilmente encontraria igual em qualquer lugar do Império. Bell já começou a admitir a possibilidade de a longa viagem que acabara de fazer não ter sido em vão.

2

A Tobruk encontrava-se três unidades astronômicas ao norte da elipse, na altura da

órbita de Júpiter. O Coronel Redhorse estava tendo um encontro com o alto comando, na sala de conferência. Do encontro participavam dois dos seus comandantes, Frizz Eisner e Holl Vincent. Redhorse foi diretamente ao assunto.

— Recebemos ordem de fazer descer um comando de vinte homens em Netuno,

para realizar investigações. Em seguida o grupo deverá ser trazido de volta, são e salvo,

com tudo que for encontrado. — Olhou para Eisner e Vincent: — Pensei que um de vocês talvez tivesse uma idéia de como fazer isto. Redhorse afastou as primeiras objeções, reproduzindo quase textualmente a conversa que tivera com Allan D. Mercant.

— Toda a frota atacará as espaçonaves de Old Man. Não podemos fazer quase nada

contra os supergigantes, mas certamente conseguiremos abrir uma passagem pela qual

nosso comando possa chegar a Netuno. Frizz Eisner, que era um homem baixo, de músculos salientes, com nariz adunco e cabelos negros curtos, olhou atravessado para Redhorse.

— Talvez possamos chegar a Netuno — ponderou. — Mas como faremos para

voltar?

— A mesma tática será usada no regresso do grupo de comando — respondeu

Redhorse com a voz fria.

— Mas há uma diferença — observou Eisner sarcasticamente. — A essa altura Old Man já saberá o que está acontecendo e não cairá no truque. Redhorse acenou calmamente com a cabeça.

— De fato, existe essa diferença, Frizz.

Frizz, que esperara uma resposta mais tranqüilizadora, praguejou em voz baixa.

Holl Vincent, um homem alto, magro, com cabelos ralos louro-claros e olhos azuis apagados, perguntou com a voz apagada:

— Quais são as chances de sobrevivência, Red? Um por um?

— Um por dez — respondeu Redhorse. — Levaremos vinte homens, para termos certeza de que voltem pelo menos dois. Frizz suspirou e recostou-se na poltrona.

— Mais uma dessas excursões!

— Isso mesmo, Frizz. Mais uma.

De repente Frizz Eisner ficou zangado.

— Por que justamente nós sempre somos escolhidos para arriscar o pescoço? —

perguntou, exaltado. — Será que Mercant não poderia escolher outras pessoas? — Redhorse quis dar uma resposta, mas Frizz interrompeu-o com um gesto zangado: —

Cale a boca! Já sei. Para uma missão difícil são escolhidos os melhores elementos. Já ouvi isso muitas vezes. Mas depois que a confusão passou sempre tomei a decisão de não cair mais nessas bajulações baratas. Mas sempre acabo caindo de novo. Bateu com o punho fechado na mesa.

— De qualquer maneira você vai, não vai? — perguntou Redhorse. Frizz piscou os olhos.

— É claro que vou — resmungou contrariado.

— Holl ?

Holl Vincent fez um gesto de desprezo. Mesmo em comparação com sua altura as mãos eram grandes demais. Vincent gostava de gesticular. Sabia que dessa forma ninguém deixaria de notá-lo.

— Não me pergunte. Estou em todas. De repente Redhorse sorriu.

— Qual é a graça? — indignou-se Frizz.

— Não estarei nessa — afirmou Redhorse. — Somos vinte ao todo e as chances de sobrevivência são de um por dez. Quer dizer que na melhor das hipóteses um de nós ficará pelo caminho. Frizz ficou com os olhos semicerrados e fitou Redhorse com uma expressão zangada.

— Espero que ainda chegue o dia em que terá de pagar pelo seu senso de humor

nada humanitário. — Em seguida abriu os dedos e fez uma careta! — Quem sabe se não será desta vez? Redhorse, Eisner e Vincent estavam ligados por uma amizade inabalável que já durava vários decênios. Os três tinham conquistado a patente de tenente no mesmo dia e em seguida serviram durante um ano na mesma nave. Depois disso Don Redhorse fora

transferido. Quando foi promovido ao posto de capitão e sua palavra passou a pesar cada vez mais, conseguira várias vezes destacar Eisner e Vincent para operações de que ele mesmo participara. Desta forma o contato nunca fora interrompido. Há pouco tempo, já no posto de coronel e comandante de uma flotilha, Don Redhorse conseguira que Vincent

e Eisner fossem nomeados para servir como comandantes sob suas ordens. Os três já

tinham muito mais de cinqüenta anos, mas ainda estavam em plena forma. Frizz Eisner,

que durante toda a carreira nunca conseguira controlar a língua, chegara a major. Já Holl Vincent, que no fundo era um excelente oficial, mas não sabia dar o devido realce às suas capacidades e realizações, era tenente-coronel. Eisner comandava a nave Beirut e Vincent

a Sanaa. Todas as naves pertencentes à flotilha de Don Redhorse tinham nomes de cidades pertencentes às regiões culturais árabes. Redhorse explicou os detalhes do plano.

— A manobra de despistamento da frota só será iniciada quando tivermos chegado

perto do anel de bloqueio formado pelas naves de Old Man. Usaremos uma nave de

aspecto estranho, para que os robôs possam quebrar a cabeça para descobrir quem somos

e por que viemos. Desta forma ganharemos um pouco de tempo. Old Man entrará em

contato conosco pedindo que mudemos de rota — ou coisa que o valha. Não daremos resposta. Aí resolverá destruir-nos. É o momento em que a frota desferirá seu golpe. Frizz Eisner riu.

— Basta que atrase um décimo de segundo que seja em relação à palavra-código

para que amanhã Mercant tenha de procurar outra pessoa e dizer-lhe que só poderá escolher os melhores para a operação.

— É isso mesmo — garantiu Redhorse, calmo. — Já deve ter notado que não quero

criar falsas esperanças em você. Seja como for, o ataque da frota servirá para distrair a

atenção das naves de Old Man. Depois disso só poderemos contar com nossos próprios recursos e temos de descobrir o mais depressa possível a rota mais segura para Netuno. É bem possível que nossa nave seja atingida pelo fogo das unidades inimigas ou da nossa frota. Nosso pessoal usará todo o potencial de fogo das naves. Esperam que nos desviemos de seu fogo. Acho que quando chegarmos a Netuno nossa nave na melhor das hipóteses estará à deriva. Por isso levaremos oitenta jatos espaciais. É de esperar que

apesar de todos os tiros sobrem pelo menos alguns deles. Desta forma poderemos colocar nosso pessoal nos jatos e abandonar a nave antes que esta exploda. Por enquanto nosso destino será o Mar dos Sonhos. Trata-se de uma aglomeração de amoníaco em estado líquido mais ou menos do tamanho do mar Mediterrâneo. Temos certeza quase absoluta

de que nas imediações desse mar existe uma base ainda não descoberta dos lemurenses. No interior dessa base existe o terminal de recepção de um transmissor, terminal este no qual o condicionado em segundo grau voltou a materializar. Vamos Hol Vincent ergueu o braço.

— Um momento — disse. — Você está indo depressa demais para o meu gosto.

Como podemos ter tanta certeza de que o condicionado em segundo grau se encontra em

Netuno?

Por causa das medições que foram realizadas. Os dois oxtornenses tiveram

bastante presença de espírito para avisar a frota pelo rádio antes de enfiarem o condicionado em segundo grau no transmissor. Informaram laconicamente o que tinha

acontecido e quais eram suas intenções. No mesmo instante todas as unidades da frota foram informadas sobre a mensagem. Os laboratórios de rastreamento entraram em alvoroço. O impulso energético provocado pelo processo de transmissão foi medido. O último impulso de energia residual veio de Netuno. Da região do Mar dos Sonhos.

— Deve ser perigoso — interveio Frizz. — Por que aquilo se chama Mar dos

Sonhos? Exerce alguma influência hipnótica? Ou emite outras radiações que possam

tornar-se perigosas? Hol Vincent abriu os braços e virou as palmas das mãos para cima.

— Acho que não adiantará se arriscarmos nossos pescoços para alcançar Netuno,

somente para em seguida sermos impedidos por alguma bruxaria de cumprir nossa

missão. Redhorse sorriu amargurado.

— É muita gentileza ficarem tão preocupados. Mas eu me informei. Dos dados

disponíveis não se pode concluir que o Mar dos Sonhos possa ser perigoso. É o nome

oficial, que consta de todos os mapas, mas ninguém sabe quem o inventou e há quanto tempo existe. Não há motivo para ficarmos preocupados. Eisner e Vincent entreolharam-se. Frizz suspirou e inclinou a cabeça.

— Nada feito, Holl. Ele tem resposta para tudo. — Em seguida dirigiu-se a Redhorse: — Quando vai começar? Redhorse olhou para o relógio.

— o coronel estalou os dedos,

e oito tempo geral

sincronizado. Os preparativos estão em pleno andamento. A operação será iniciada no dia dois de março, às zero-três-zero-zero. Eisner e Vincent levantaram. — Quer dizer que teremos mais trinta e três horas de vida para viver despreocupadamente — observou Frizz com um sorriso.

— É o dia vinte e nove de fevereiro, dezoito horas e Vincent e Eisner compararam seus cronômetros —

quarenta

— Isso se não nos mexermos demais — completou Holl.

* * *

A tempestade emocional de Aser Kin já tinha passado. Ainda estava zangado e ao mesmo tempo ligeiramente atordoado e um pouco assustado, por causa da sorte inesperada que tivera. Mas seu cérebro programador voltara a funcionar perfeitamente e passou a elaborar um plano que permitiria ao vigilante de vibrações libertar-se das tiras

de metal que o prendiam. Naquele momento nem mesmo o cérebro programador de Aser Kin era capaz de dizer o que este teria a ganhar caso seu plano fosse bem-sucedido. Isso dependia em grande parte do lugar em que se encontrava. Se conseguisse libertar ao menos os braços, poderia desativar o gerador antigravitacional e verificar com base na gravitação natural do ambiente para onde fora levado. Além do plano que permitiria a Aser Kin soltar as amarras, o cérebro programador ofereceu mais um resultado de complicados processos lógico-matemáticos, que também era notável, apesar de não apresentar muita utilidade imediata.

A melhor coisa que poderia acontecer ao inimigo naquela situação era pôr as mãos

num vigilante de vibrações. Logicamente só se podia supor que os terranos submeteriam

o prisioneiro a todos os procedimentos psicofísicos imagináveis para obter informações capazes de ajudar o Império Solar na defesa contra o poderoso inimigo.

Se era assim, por que estava nesse lugar há mais de quarenta horas terranas sem que

ninguém se tivesse interessado por ele? Só havia uma explicação. E essa explicação formava um encadeamento lógico impecável com os acontecimentos verificados pouco antes que ele fosse seqüestrado, acontecimentos estes de que voltara a lembrar-se perfeitamente. Os terranos não sabiam onde ele estava. Aser Kin lembrou-se de que seu seqüestro fora realizado às pressas. Parecia que não fora uma operação cuidadosamente

planejada, mas um golpe de audácia praticado por terranos arrojados, que talvez tivessem ficado perplexos com o resultado e de repente se viam numa situação para a qual não tinham feito planos. As instalações que Aser Kin vira antes de ter sido enfiado no transmissor não eram de fabricação terrana. Eram mais antigas e provinham de uma tecnologia bem diferente da tecnologia atual dos terranos. Aser Kin acreditava que as instalações vinham da época dos lemurenses, que dominavam a Terra e um poderoso império sideral cinqüenta anos antes da fundação do Império Solar. Era bem possível que os terranos tivessem descoberto a base lemurense há pouco tempo e não soubessem onde ficava o outro pólo do transmissor no qual Aser Kin fora colocado.

O condicionado em segundo grau não tinha motivo para duvidar de que essa

hipótese era correta. Sentiu-se mais calmo ao compreender que não tinha motivo para temer qualquer interferência dos terranos na experiência prolongada que pretendia realizar.

O método elaborado por seu cérebro programador para remover as tiras de aço

terconite que o prendiam estava estreitamente ligado às características físicas de seu corpo. A transformação da substância de seu corpo, de uma matéria orgânica mole num material inorgânico duro que nem diamante, era um processo no curso do qual a entropia do sistema sofria uma redução considerável, e que por isso mesmo exigia certo volume

de energia. Essa energia era fornecida por um centro de transformação situado no interior do corpo gigantesco, que a retirava do metabolismo do condicionado em segundo grau. No processo inverso da retransformação da substância de seu corpo em matéria orgânica,

a entropia aumentava, liberando um volume considerável de energia. A energia assim

liberada assumia a forma de calor. Era nisso que se baseava o plano de Aser Kin. As tiras de terconite, perfeitamente encostadas ao corpo a ponto de fornecerem um

excelente contato, absorveriam graças à sua elevada capacidade condutora parte do calor liberado e sofreriam uma dilatação de alguns milímetros. Nos segundos que se seguissem

à transformação da substância do corpo de Aser Kin de uma matéria cristalina dura numa

matéria cristalina morna, enquanto as tiras de aço não transmitissem o calor absorvido à

atmosfera da sala ou a devolvessem ao corpo de Aser Kin, as amarras sofreriam um alongamento em comparação com o estado normal.

Aser Kin não precisaria de mais nada. Os segundos de alongamento seriam suficientes para movimentar pelo menos um braço ou talvez até um par de braços por alguns centímetros. A experiência poderia ser repetida à vontade, até que conseguisse libertar uma das mãos. E Aser Kin não tinha a menor dúvida de que, assim que pudesse pôr a mão nas tiras de aço, conseguiria rompê-las ou torcê-las até que se quebrassem. O condicionado em segundo grau não perdeu tempo.

Numa fração de segundo o corpo gigantesco transformou-se num bloco rígido e duro. Dali a instantes veio a reconversão. Aser Kin sentiu uma onda de calor atravessar seu corpo e desaparecer quase instantaneamente, quando a energia térmica foi absorvida pelas tiras de aço. Sentiu que a pressão das tiras diminuíra.

O braço instrumental direito fez um esforço tremendo e conseguiu fazer um

movimento. A tentativa fora bem-sucedida. Quando o equilíbrio térmico foi restabelecido, o pulso estava pelo menos quatro centímetros mais perto da amarra de terconite. Aser Kin voltou a ter alguma esperança.

* * *

Em Triton, a conferência destinada a descobrir um meio de ajudar Aser Kin, que continuava desaparecido, não deu qualquer resultado. No curso da discussão fora estabelecido várias vezes contato telepático com o dolan de Aser Kin. Mas até mesmo o dolan, que em séculos de colaboração intensa aprendera a ter uma compreensão tão precisa dos pensamentos do dono e a acompanhar suas emoções tão de perto que o dono e

os sete cérebros coordenadores pareciam ter-se fundido numa unidade, não tinha a menor idéia de onde podia estar Aser Kin. Se ainda estivesse em Triton, o dolan saberia. As radiações emitidas por seu cérebro não lhe teriam escapado, mesmo que ele estivesse inconsciente. Aser Kin estava morto, ou então fora levado para fora de Triton.

A primeira alternativa, explicou Tro Khon aos companheiros, não estava em

discussão. Os terranos não iriam seqüestrar um vigilante de vibrações para matá-lo. Era uma presa muito valiosa. Aser Kin estava vivo, mas encontrava-se num esconderijo bem guardado. Dessa forma só havia uma diretiva a ser seguida nas futuras ações contra a Terra. Esperariam algum tempo, para ver se não aparecia uma pista de Aser Kin que pudessem seguir. Depois, quando o prazo fixado tivesse passado sem novidades, ou Aser Kin fosse libertado, atacariam a Terra. Atacariam imediatamente, sem perda de tempo.

Os reveses mais recentes tinham convencido Tro Khon de que isso era necessário.

Os terranos eram uma raça diferente das outras. O único meio de puni-los pelo crime contra o tempo por eles cometido era um golpe desferido com todas as forças disponíveis.

* * *

Depois de uma excursão de duas horas, durante a qual Reginald Bell não parara de espantar-se, ele finalmente foi levado ao laboratório particular de Abel Waringer. Era uma sala com instalações modestas, que de forma alguma correspondia à importância do papel que Waringer desempenhava em Last Hope. A escrivaninha antes parecia uma velha cômoda de linhita, em cuja parte traseira alguém abrira um buraco para que o dono

da peça pudesse esticar as pernas compridas. Só havia mais dois lugares para sentar: uma cadeira enfraquecida pela idade, feita de madeira genuína, e uma banqueta sobre rodízios, que Waringer certamente usava nas experiências feitas ao longo das mesas de laboratório. Waringer teve a gentileza de tirar a cadeira frágil de trás da escrivaninha e convidar Bell a sentar nela. Ele mesmo contentou-se com a banqueta. Aos poucos Reginald Bell foi-se recuperando do choque causado pelo centro de pesquisas de Last Hope. Os dirigentes de Terrânia sabiam que naquele mundo estavam sendo realizadas pesquisas bastante avançadas. Mas tratava-se de uma operação independente em larga escala do governo central, uma vez que os recursos vinham de fontes privadas. Em Plofos, quando soube que se dirigiria a Last Hope, Reginald tivera uma boa imagem do que acontecia no antigo planeta infernal de Iratio Hondro. Agora, que tinha sido levado durante duas horas de um lado para outro, compreendeu que estivera enganado. Os homens de Terrânia que se consideravam entendidos no assunto só sabiam um centésimo do que estava sendo feito em Last Hope. Não havia dúvida de que se tratava do maior e mais bem-equipado centro de pesquisas situado na área de influência do Império Solar. Deixava bem para trás os centros de pesquisas diretamente controlados pelo Império, dos quais sempre acreditara que não houvesse nada capaz de igualá-los. De repente Bell sentiu que estava sendo observado. Levantou o rosto e viu que Abel Waringer o fitava com um sorriso amável nos lábios.

— Sinto-me honrado — disse. — Vejo o espanto estampado em seu rosto.

Reginald Bell não fez nenhuma questão de esconder a impressão que as instalações

tinham causado nele.

— O senhor conseguiu coisas espantosas num tempo muito curto — confessou com

toda franqueza. — Não sei se conseguirei ficar com a boca calada quando voltar para Terrânia.

— Por que haveria de ficar? — perguntou Waringer, perplexo.

— O maior centro de pesquisas do Império funciona livre do controle estatal —

respondeu Bell. — Isso é capaz de despertar desconfianças. Muitos políticos acham que qualquer coisa que não podem controlar é suspeita. Além disso Last Hope é uma velha possessão plofosense, e o receio de que um dia Plofos possa atacar a mãe Terra pelas costas ainda existe. Waringer recostou-se e deu uma risada, batendo palmas.

— Isso é ridículo — exclamou. — Qualquer pessoa que possua um pouquinho de

bom-senso reconhecerá imediatamente que essas suspeitas não têm fundamento. Last Hope está submetido à soberania plofosense. O chefe de Plofos é Mory Rhodan-Abro,

esposa do Administrador-Geral. A acionista majoritária de vários bancos galácticos que cobrem a maior parte dos nossos custos é Suzan Rhodan-Waringer, filha do Administrador-Geral e minha esposa. Para onde quer que se olhe, só vemos o nome Rhodan em letras garrafais. Acha mesmo que desta forma poderia surgir a idéia de uma revolta plofosense? Trata-se de uma empresa familiar. Mais nada. Reginald Bell fitou-o de cima a baixo.

— Já teve contato com os políticos terranos?

Waringer fez que não.

— Que Deus o guarde. O senhor nem imagina o que essa gente é capaz de acreditar, desde que se lhes dê o menor pretexto. Waringer parecia um tanto perplexo.

— Nem sei o que dizer. Espero que ao menos o senhor acredite que nossos

propósitos são honestos. Não o teríamos chamado se não estivéssemos constantemente

preocupados com o destino do Império. Bell interrompeu-o com um gesto.

— Quanto a mim não precisa preocupar-se — disse com uma risada. — Já

conseguiu convencer-me. Para mim a existência de Last Hope é a melhor coisa que

poderia ter acontecido às pesquisas terranas. — Neste instante Bell lembrou-se da tarefa que tinha pela frente e voltou a ficar sério: — Só faço votos de que ainda possamos ganhar alguma coisa com isso. Para ser mais preciso, gostaria de saber por que fui chamado. Abel Waringer levantou-se. Seus grandes olhos castanhos brilharam que nem os de um menino que vai mostrar seu último brinquedo ao amigo.

— Venha comigo, por favor — pediu.

Bell levantou-se. Passaram junto a uma fileira de mesas com instrumentos e dezenas

de aparelhos de medição e registro. Waringer parou junto a uma mesinha, mais baixa que as outras, onde se via, cuidadosamente confeccionada, uma miniatura de um conjunto de instalações que Bell identificou à primeira vista.

— É o que queríamos lhe mostrar — disse Waringer com uma ponta de triunfo.

— É um canhão conversor de um tipo de que existe pelo menos um a bordo de

qualquer nave terrana que não seja muito pequena — retrucou Bell, imitando o tom de

voz de Waringer. Waringer sorriu e inclinou-se sobre a maquete.

— E isso? — perguntou.

Apontou para um cubo de cerca de um centímetro de aresta, preso lateralmente a maquete de um aparelho maior. Reginald Bell recordou num instante o que sabia. O modelo ao qual estava preso o cubo representava um materializador de mira. Outra

caixinha, montada mais ao lado, representava o conversor de matéria. O outro, parecido com uma antena de radar antiquada, era o projetor. O conversor transformava o projétil em energia. O projetor irradiava esta energia. O materializador do alvo voltava a converter o projétil em matéria sólida, nas imediações do alvo, fazendo com que detonasse. Waringer tinha razão. O pequeno cubo estava fora de lugar na aparelhagem de um canhão conversor convencional.

— O que é mesmo? — perguntou Bell.

Waringer recuou um passo. Via-se que se deleitava com a situação.

— Qual é a principal desvantagem que a Frota Solar leva na luta com os

condicionados em segundo grau? A resposta de Reginald Bell foi imediata. Como estrategista, conhecia duas desvantagens a serem consideradas. Uma delas era o tremendo poder de fogo de Old Man.

Mas Bell achou que a outra desvantagem era mais importante. Old Man seria muito menos perigoso se não fosse controlado pelos vigilantes de vibrações.

— Os campos paratron — exclamou. — Os condicionados em segundo grau cercam

suas estranhas espaçonaves com estes campos, que nossas armas não conseguem

atravessar. Waringer ficou radiante.

— Isso mesmo — confirmou. — Isto aqui — prosseguiu, batendo várias vezes com o dedo no pequeno cubo — eliminará seus problemas.

Bell fitou-o pelo canto dos olhos.

— Por quê?

— Simplesmente porque — exclamou Waringer no auge do triunfo — isto aqui permite que o feixe energético atravesse o campo paratron.

* * *

Reginald Bell ficou paralisado por alguns instantes, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir, mas imaginando como desmoronaria o poder dos condicionados em segundo grau se aquilo que Waringer acabara de dizer fosse verdade. Contemplou o cientista magro.

— Está brincando!

Waringer estava muito bem-humorado.

— Que é isso? — protestou rindo. — De forma alguma. Temos um aparelho do

qual

— Já fizeram um teste? — interrompeu Bell em tom áspero.

Waringer ficou atordoado por um instante. Em seguida abanou a cabeça.

— Não tivemos oportunidade.

— Se é assim, como pode ter certeza de que funcionará? De repente Waringer assumiu um ar de superioridade.

— Existem teorias tão bem fundamentadas que se tornam incontestáveis e dispensam a confirmação experimental. Ainda mais quando o objeto com o qual tem de ser feita a experiência está fora do nosso alcance. Reginald Bell franziu a testa.

— Quer dizer que não está em condições de criar um campo paratron, mas tem

certeza de que este acessório faz com que os raios energéticos sejam capazes de

atravessar esse campo. Não é isso que o senhor quer que eu acredite? Abel Waringer ergueu o braço num gesto defensivo.

— Nada de conclusões precipitadas, por favor. A ciência não aprendeu a fragmentar o átomo antes que fosse capaz de produzir um? Reginald Bell contraiu o rosto como se estivesse sentindo dores.

— Nunca consegui entrosar-me com os exemplos elucidativos — respondeu em

tom não muito amável. Waringer percebeu que desse jeito não conseguiria nada. Pôs-se a explicar em tom apressado, quase precipitadamente:

— Os campos paratron e sua reação à incidência dos raios energéticos foram

estudados várias vezes num passado recente. Os dados estão aqui. Há poucos meses foi iniciado um estudo intenso da fenomenologia dos campos paratron. Os resultados não demoraram, e isso foi devido principalmente ao fato de que a estrutura do campo paratron na verdade não é uma novidade completa. O campo paratron pertence à classe dos hipercampos. Difere dos campos de hipercarga que vêm sendo usados pelas naves do Império não em essência, mas somente em intensidade — mais precisamente, no volume energético. “O senhor sabe como é criado um campo defensivo. Certo número de antenas emite

radialmente uma forma de hiperenergia de freqüência múltipla. As freqüências são selecionadas de tal forma que os raios energéticos de cada antena se desmancham, com uma única exceção, através de um processo de interferência. No lugar em que se verifica a exceção ocorre uma superposição de vibrações, gerando um campo de potência extremamente elevada. Trata-se de um hipercampo, e por isso seus efeitos no conjunto

espácio-temporal da quarta dimensão se fazem sentir como um efeito gravitacional com uma intensidade de vários trilhões de einstein por centímetro. Essa intensidade basta para destruir qualquer objeto que penetre no campo, quer seja material ou energético. “O princípio em que se baseia o funcionamento do campo paratron é o mesmo. Difere de nossos campos de hipercarga na freqüência das hiper-radiações utilizadas. Veja — Waringer abriu as mãos —, é como se usássemos ondas luminosas para criar nossos campos defensivos, enquanto os condicionados em segundo grau utilizam raios X ou raios gama.” Reginald Bell já começava a compreender. O resultado das pesquisas realizadas em Last Hope seria da maior importância, mesmo que delas não tivesse saído um aparelho que, conforme afirmava Waringer, seria capaz de atravessar os campos paratron dos condicionados em segundo grau.

— No lugar — prosseguiu Waringer — em que, graças à interferência das

respectivas faixas de ondas, surge o campo paratron em forma esférica com a disposição

das antenas no centro, sua intensidade é tamanha que nos poucos centímetros de espessura do campo ele imprime a qualquer objeto uma aceleração capaz de fazê-lo

atingir uma velocidade ultraluz. Desta forma, qualquer objeto vindo de fora, que fosse bastante resistente para resistir ao efeito gravitacional do campo, teria de deslocar-se em velocidade superior à da luz para ter uma chance. “Mas não é o que importa. Os fenômenos estranhos observados durante o bombardeio dos campos paratron encontram sua explicação nas propriedades hiper- relativistas deste campo. “O campo pode perfeitamente ser atravessado, se conseguirmos encontrar uma série de freqüências que cause uma interferência nos hiper-raios do campo, extinguindo-as no lugar em que este se encontre.” Reginald Bell fez uma objeção.

— Há dois minutos o senhor me disse que não tinha possibilidade de produzir

hiper-radiações que tenham mais ou menos a mesma freqüência usada no campo paratron. Mas sem uma radiação destas não surgirá a interferência. Waringer confirmou com um gesto.

— Isso nós sabíamos — respondeu calmo. Parecia ter esquecido com quem estava

falando. Parecia um professor tentando explicar alguma coisa a um aluno que custava a

compreender. — Sabíamos perfeitamente que não tínhamos nenhuma chance de causar uma superposição das freqüências primárias para eliminá-las. Acontece que nos poucos centímetros de espessura do campo formam-se as chamadas suspensões, cujo envolvimento forma uma espécie de radiação secundária de freqüência muito mais

reduzida. E esta freqüência secundária nós conseguimos produzir. É nisso que se baseia o funcionamento do cubo que acaba de ver. Reginald Bell olhou com uma expressão pensativa para o modelo de canhão conversor. Levou algum tempo para responder à exposição de Waringer.

— Até que ponto sua explanação pode representar uma hipótese? E será que essa

hipótese será confirmada durante a prova de fogo? Waringer cruzou os braços nas costas e olhou obliquamente por cima de Bell.

— Em termos rigorosamente científicos, tudo é hipótese — respondeu pensativo. —

Não tivemos oportunidade de realizar experiências com um campo paratron real. Nossa argumentação baseia-se em indícios. Isso mesmo. Pode considerar nossa hipótese correta, da mesma forma que se faz com uma sentença judicial baseada em indícios. Já deve ter notado o paralelismo. Acho que também somos

Reginald Bell ergueu o braço e Waringer interrompeu-se imediatamente.

— Isso não deixa de ser verdade — disse o Marechal-de-Estado. — O que quero

saber é até que ponto o senhor se sentiria seguro se se encontrasse a bordo de uma espaçonave equipada com seu aparelho, que esteja prestes a atacar um veículo dos condicionados em segundo grau. Waringer fitou-o demoradamente e seu olhar foi ficando cada vez mais penetrante.

— Acha que teria pedido que viesse para cá se não tivesse certeza do que estava

fazendo? — perguntou em tom sério. — O aparelho funcionará. Sobre isso não tenho a

menor dúvida. Por enquanto existem poucas pessoas capazes de lidar com ele. Sou uma delas. Por isso quero pedir-lhe que me leve. Gostaria de estar presente quando o aparelho for usado pela primeira vez. Será que isto basta para dissipar suas dúvidas? Reginald Bell baixou os olhos. Era a segunda vez que cometia o erro de tratar Waringer como o homem que parecia ser, e não o que realmente era. Aproximou-se do cientista e estendeu-lhe a mão.

— Queira desculpar — disse em tom sério. — Posso garantir que não duvido da sua

sinceridade nem de seu senso de responsabilidade. O senhor irá comigo e veremos juntos

o aparelho em funcionamento. Entendido? Os olhos de Waringer brilharam. Segurou a mão que Bell lhe estendia e apertou-a fortemente.

— Entendido! — exclamou. — Mas é claro!

3

2 de março de 2.436 — 0130 tempo universal sincronizado.

A Tobruk encontrava-se trinta unidades astronômicas atrás do Sol e a oitocentos e

cinqüenta unidades de Netuno, planeta em torno do qual se concentrara todo o poder dos

condicionados em segundo grau. A bordo da nave encontravam-se os comandantes dos cruzadores Sanaa e Beirut, dezoito suboficiais e tripulantes cuidadosamente selecionados entre as tripulações de várias naves e algumas toneladas de equipamentos e armas. Don Redhorse transferira o comando da Tobruk ao imediato e pouco depois da uma e meia foi juntar-se aos homens do comando que se tinham alojado provisoriamente na eclusa equatorial principal. Os homens sabiam o que tinham pela frente. Pertenciam à tropa de elite da quadragésima primeira frota, que por sua vez ocupava uma posição especial no comando da frota metropolitana. Já tinham participado de dezenas de missões, e em todas elas tinham arriscado nada menos que o próprio pescoço. Na grande câmara da eclusa reinava o silêncio. Quase ninguém falava. Os olhos olhavam fixamente para a frente ou mantinham as pálpebras fechadas, mantendo as costas confortavelmente apoiadas na parede ou em alguma peça de equipamento. O cenário parecia exalar um ar de tranqüilidade misturada com uma atitude de alerta, quando Don Redhorse entrou na eclusa. Às 0148 TUS o comandante informou que o reflexo de um objeto voador de grande porte acabara de ser detectado a oitocentos mil quilômetros de distância. Às 0211 a nave atingiu a distância de visibilidade ótica da Tobruk. Às 0220 foi iniciada a operação de saída da eclusa. Don Redhorse ia na frente. O Campo gravitacional artificial no interior da eclusa foi desligado. Redhorse empurrou-se e flutuou através da escotilha que se abria lentamente, para a escuridão. Bem à sua frente erguia-se uma parede gigantesca, que emitia um brilho suave, e que parecia estender-se ao infinito para cima e para baixo. Uma insignificante mancha luminosa amarela parecia perdida na grande superfície. Redhorse ativou o sistema de propulsão instalado em seu traje de proteção e seguiu em direção à mancha luminosa. Virou a cabeça e viu os homens do comando saírem um após o outro da eclusa que nem pequenas fagulhas, para em seguida entrarem na rota.

A distância entre os cascos das duas naves era aproximadamente de quinhentos

metros. A operação de embarque foi concluída às 0232. O veículo no qual Redhorse e seus companheiros se encontravam era a Roban, um monstro esférico de oitocentos metros de diâmetro pertencente à época do robô regente de Árcon. A protuberância equatorial em que estavam instalados os propulsores era muito mais espessa que a das

unidades terranas de modelos mais recentes. Até mesmo uma pessoa não especializada em espaçonaves notaria imediatamente que não se tratava de um veículo espacial terrano. Pela sua origem, era dirigida por robôs e, para o deslocamento através de categorias especiais superiores, usava o velho processo dos saltos de transição.

A Roban fora preparada e programada na Terra especialmente para esta operação.

Os oitenta jatos espaciais que Redhorse havia requisitado para a operação estavam guardados em dezoito eclusas-hangar. Tratava-se de veículos de um modelo especial, que

se prestavam à locomoção em ambientes gasosos ou líquidos cuja densidade não fosse superior a quinze gramas por centímetro cúbico.

A nave robotizada arcônida partiu às 0300 TUS conforme o plano. Seria sua última

viagem, a não ser que acontecesse um milagre. Redhorse alojara os homens num ponto do convés principal do qual as dezoito eclusas-hangar podiam ser atingidas com a menor demora possível. Tratava-se de uma espécie de sala de rastreamento com telas de imagem instaladas em todas as paredes. Por alguns instantes o corpo esférico da Tobruk apareceu no setor de estibordo da tela de imagem, enquanto a Roban se afastava dela. Entre as 0310 e 0330 a nave arcônida efetuou duas transições numa rápida seqüência, transições essas que deixaram alguns homens inconscientes por vários minutos. Naquele mesmo instante, Redhorse sabia, a 110 a Frota, estacionada na altura da órbita de Saturno, estava realizando um verdadeiro fogo de artifício energético, com o qual se queria evitar que o inimigo pudesse detectar as duas transições. A Roban teria de pegar de surpresa Old Man e seus supercouraçados ao sair do hiperespaço, senão a

operação estaria condenada ao fracasso. Parecia que a tensão fazia vibrar o ar da sala de rastreamento desolada, depois da segunda transição. A imagem projetada na tela panorâmica continuava praticamente a mesma. Para o lado da proa via-se uma mancha luminosa pouco intensa, muito maior que as outras estrelas. Era Netuno. Ao lado deste planeta encontrava-se o Sol, um disco insignificante com uma tremenda luminosidade. Se tudo tinha corrido segundo os planos, naquele momento a Roban ainda se encontrava a quarenta milhões de quilômetros de Netuno e deslocava-se à velocidade de trinta mil quilômetros por segundo em direção ao planeta. Acabara de materializar no meio da frente formada pelas espaçonaves inimigas, mas por enquanto não se via nenhum dos gigantes de Old Man.

O primeiro contato verificou-se às 0334. Em um dos painéis instalados embaixo da

tela as luzes de controle começaram a piscar. A Roban estava recebendo uma mensagem pelo rádio. Sabia-se perfeitamente de onde vinha a mensagem. Era as supernaves de Old Man dando ordem para que o intruso parasse ou mudasse de rota. A Roban responderia à mensagem, conforme estabelecia o programa elaborado para a operação. Transmitiria uma mensagem mutilada e incompreensível, da qual se deduziria que havia algo de errado a bordo. Os especialistas em robótica da Terra não se tinham arriscado a fazer uma previsão

segura do comportamento do robô. Em sua opinião esta reação poderia assumir duas formas diferentes. Era possível que Old Man abrisse fogo imediatamente para afastar o corpo estranho que o perturbava, ou então destacaria uma das naves para abordar o desconhecido e fazer uma vistoria a bordo. Nos momentos de tensão máxima Don Redhorse era de opinião que a alternativa não tinha a menor importância. Era bem compreensível que a tática da frota tivesse sido adaptada à alternativa que envolvia maiores riscos. Os gigantes de Old Man tinham de ser impedidos de qualquer maneira de destruir a Roban. Para não arriscar nada, as naves terranas abririam fogo assim que terminasse a primeira troca de mensagens.

O bombardeio começou às 0335.

De repente a tela mostrou centenas de centelhas branco-azuladas que inchavam com uma rapidez tremenda, transformando-se por alguns segundos em sóis ofuscantes, antes que se desmanchassem e apagassem. As luzes coloridas do painel apagaram-se. As supernaves de Old Man tinham coisa mais importante que fazer do que comunicar-se com um veículo desconhecido vindo não se sabia de onde.

A batalha tomou o curso traiçoeiro e silencioso que é uma das características das batalhas espaciais. A Roban estava ao alcance dos canhões inimigos, mas em momento

algum aproximou-se das unidades de Old Man o suficiente para estas aparecerem na tela.

A mesma coisa acontecia com as naves terranas. Só se viam as bolas de fogo produzidas

pela explosão dos projéteis conversores.

A Roban prosseguiu em alta velocidade. Lá fora, às vezes em lugares

perigosamente próximos, energias imensas perdiam-se no nada. A energia liberada em cada explosão seria suficiente para satisfazer as necessidades da humanidade desde a época pré-histórica até o ano dois mil.

Às 0341 a nave arcônida foi atingida pela primeira vez. Um projétil conversor,

provavelmente dirigido contra a unidade, explodiu a poucas centenas de quilômetros de distância. Os campos defensivos da nave entraram imediatamente em colapso. A Roban balançou e empinou. O dispositivo antigravitacional deixou de funcionar perfeitamente, criando no interior da nave um campo residual que fazia com que o chão da sala de

rastreamento se parecesse com um íngreme plano inclinado. Mas a nave continuava a correr em direção a Netuno a velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. O planeta

já se transformara num imenso disco leitoso, que parecia brilhar de dentro para fora. A

mancha luminosa ofuscante formada pelo Sol deslocara-se mais para a direita. Dois minutos passaram-se sem que acontecesse nada, enquanto lá fora a escuridão do espaço era varrida quase completamente pelos lampejos incessantes dos canhões conversores, e a gigantesca tela de imagem brilhava com tamanha força que às vezes se chegava a ter a impressão de que a Roban estava suspensa algumas centenas de metros acima de uma paisagem fustigada pelos raios do Sol. Pouco antes das 0344 a nave foi atingida pela segunda vez. Don Redhorse sentiu-se

agarrado e arremessado para o alto por uma gigantesca mão invisível. Enquanto estava no ar, ouviu o ranger dos metais maltratados e o estrondo furioso dos aparelhos arrancados dos suportes que atravessavam as paredes de aço com um ruído infernal. Redhorse bateu em algum lugar e perdeu os sentidos por um instante. Recuperou os sentidos num montão confuso de equipamentos. Sentia dores no peito e quase não conseguia respirar. Saiu da confusão e conseguiu pôr-se de pé. A gravitação diminuíra. Estupefato, Redhorse notou que estava parado sobre aquilo que há instantes fora uma parede lateral da sala de rastreamento. A transmissão de imagem falhara, salvo quanto a um único setor. No meio do brilho ofuscante dos projéteis explodindo ininterruptamente Redhorse viu uma borda entrecortada, envolta numa luminosidade vermelha, que penetrava no campo de visão do lado direito. A Roban sofrera um impacto direto que rompera o casco da nave. Chegara a hora de abandonar o veículo. Os outros membros do comando tinham sido tão duramente atingidos pelo choque da explosão quanto o próprio Redhorse. Estavam saindo da confusão criada pelo abalo. Redhorse olhou ligeiramente para a tela.

A nave descrevia um movimento de rotação. O disco gigantesco que representava Netuno

estava meio encoberto pelas bolas de fogo das explosões das granadas conversoras. Ao que parecia, a Roban reduzira a velocidade. — Para os jatos! — disse a voz fria e energética transmitida pelos rádios instalados nos capacetes dos homens. — A nave sofreu avarias graves. Os danos foram causados exclusivamente a bombordo. Vamos ocupar cinco dos jatos estacionados nos hangares de estibordo. Em seguida procederemos de acordo com o plano. Duas armas energéticas queimaram um buraco na parede dianteira da sala, uma vez que com o movimento de rotação da nave a escotilha ficara numa posição tão elevada que

os homens não poderiam atingi-la. Os homens foram passando um após outro pela abertura recém-criada, cujas bordas ainda estavam incandescentes. Três homens continuaram na sala de rastreamento: Don Redhorse e os dois oficiais que o acompanhavam, Eisner e Vincent.

— A ordem também vale para vocês — resmungou Redhorse, pouco lhe importando que os outros membros do comando pudessem ouvi-lo pelos rádios instalados nos capacetes.

— Esperaremos você — disse Frizz. — Podemos representar os tipos corajosos tão bem quanto você.

— Fora! — gritou Redhorse. — A qualquer momento poderemos ser atingidos de novo, e se então não estiverem a bordo dos jatos tudo terá sido em vão. Vincent fez menção de sair.

— Ele está falando sério, Frizz. Vou dar o fora.

Eisner ficou indeciso por um instante, mas também acabou saindo em direção à abertura queimada na parede. Por enquanto foi a última coisa que Redhorse viu dos dois. Um relâmpago de intensidade tremenda surgiu, enchendo o campo de visão de Redhorse por uma fração de segundo com uma claridade insuportável. Os olhos sobrecarregados recusaram-se a funcionar. A escuridão espalhou-se em torno de Don. Redhorse bateu violentamente numa coisa dura e angulosa. Ouviu vozes distantes no receptor, mas não compreendeu o que diziam. Por alguns minutos parecia envolto numa confusa semiconsciência. Uma única idéia enchia sua cabeça, deixando-o desesperado. A Roban fora atingida de novo. E fora tão pouco tempo depois da ordem dada por ele que os homens ainda não podiam ter atingido os jatos. Talvez tivessem corrido para o centro da explosão. Talvez o impacto tivesse arrebentado a nave. Enquanto isso ele flutuava no nada e em lugar algum, quase inconsciente e incapaz de fazer qualquer coisa. A raiva causada pela própria impotência fez com que voltasse a si. Realmente flutuava — numa beleza assustadora formada por vigas e paredes rompidas, que brilhavam num verde, vermelho e azul suave. O susto foi tamanho que produziu o efeito de um choque elétrico. O brilho colorido só podia significar uma coisa. O último impacto desencadeara uma fogueira nuclear no material de que tinha sido feita a Roban. O brilho

colorido marcava a fase inicial do incêndio. Quando um número suficiente de átomos participasse do processo de dissociação, a claridade seria de um branco-azulado uniforme e aumentaria de intensidade. Depois disso seria apenas uma questão de segundos para a nave transformar-se numa nuvem ofuscante de massa plasmática. Redhorse ativou o pequeno sistema de propulsão auxiliar de seu traje. Descobriu o buraco no meio da luminosidade que o cercava. Foi na direção dele. Parecia que o corredor que ficava atrás do buraco estava intacto. Mas as luzes se tinham apagado e em alguns lugares as paredes brilhavam numa incandescência verde. Duas sombras andavam cambaleantes vinte metros à sua frente. Redhorse chamou-as.

— Aqui é Frizz! — respondeu alguém com a voz rouca. — Ajude-me se puder.

Holl bateu com a cabeça. Redhorse deslocou-se em sua direção. Os dois foram empurrando Holl Vincent. A falha do dispositivo antigravitacional tomou a tarefa mais fácil. Enquanto se deslocavam pelo corredor, Redhorse tentou entrar em contato de rádio com os homens do comando. Não conseguiu. Ninguém respondeu aos seus chamados. Redhorse começou a conformar-

se com a idéia de que a missão fracassara antes de começar. Para ele e Holl e Frizz e quem mais pudesse estar vivo só restava uma esperança: que pelo menos um ou dois jatos tivessem escapado à catástrofe intactos. A Roban explodiria dentro de oito a dez minutos. Se não conseguissem abandonar a nave antes disso, não teriam de preocupar-se com mais nada.

O corredor terminou junto a um poço de elevador. O caminho mais curto para os

hangares de estibordos começava três conveses abaixo deles. Redhorse enfiou Holl Vincent, que continuava inconsciente, para dentro do poço e deu-lhe um forte empurrão

para baixo. Em seguida também saltou no poço. Alcançou o corpo que descia lentamente pouco antes da saída e puxou-o para perto de si. Mal conseguiu empurrá-lo pela abertura de saída antes que Vincent com seu impulso o puxasse mais para baixo. Frizz Eisner vinha pouco atrás dele.

O setor da nave no qual se encontravam também fora afetado pelo último impacto.

Em alguns lugares as paredes apresentavam fendas ramificadas, e havia áreas extensas que irradiavam uma forte luminosidade. Parecia que Frizz já compreendera o que estava acontecendo. Passaram a empurrar o corpo de Holl Vincent mais depressa e com menos

cuidado. Por mais de uma vez bateu com a cabeça em um dos lugares brilhantes da parede. O traje especial que usava protegia-o contra a radiatividade, e por enquanto as áreas incandescentes eram tão frias como o resto da parede. Aproximavam-se das eclusas do hangar. As paredes recuaram de ambos os lados, abrindo-se numa área em cuja extremidade oposta ficavam os acessos das eclusas. Redhorse ficou mais tranqüilo por não ter encontrado nenhum homem que tivesse ficado no caminho. Mas ficou muito assustado com o aspecto da parede atrás da qual ficavam os hangares. Esta parede brilhava em várias cores. Em alguns lugares a luminosidade já era tão intensa que as cores se mesclavam num branco azulado. A parede estava prestes a entrar no estágio final do processo de combustão nuclear. Mais um ou dois minutos, e ela se iluminaria num brilho infernal e se volatilizaria. Redhorse soltou o corpo de Vincent.

— Cuide dele — gritou para Frizz Eisner.

Em seguida tirou a arma energética que trazia no cinto e disparou contra a escotilha mais próxima. A salva descarregou-se silenciosamente no vácuo da nave mortalmente ferida. Uma bolha amarela formou-se na escotilha e espalhou-se rapidamente. Eisner foi empurrando Holl Vincent para a abertura que crescia lentamente. O brilho da parede era

quase tão forte como o do raio energético concentrado que incidia sobre a escotilha. As cores empalideceram. Um branco azulado frio começou a espalhar-se.

— Quando eu disser, empurre Holl pela abertura — disse Redhorse ofegante. —

Trate de levá-lo o mais depressa possível a um dos veículos. Trate de desatracar assim

que estiver a bordo.

— E você? — gritou Eisner.

— Não se preocupe comigo. Trate de levar Holl para fora da área de perigo.

Um buraco circular de aproximadamente um metro e meio de diâmetro abria-se na

escotilha incandescente. Atrás do buraco parecia estar tudo escuro, o que era um sinal de que no interior do hangar o incêndio nuclear ainda não era muito intenso.

— É agora! — gritou Redhorse.

Eisner empurrou violentamente o corpo flácido para a abertura. Conduziu-o habilmente através do buraco, de forma a não encostar nas bordas incandescentes. Em seguida saltou para dentro da câmara da eclusa e ficou fora da vista de Don Redhorse.

Nesse instante o volume de energia da parede incandescente alcançou o nível crítico. A intensidade do brilho aumentou abruptamente. Redhorse foi obrigado a fechar os olhos por um instante. Nuvens luminosas desprenderam-se da parede e vagaram ao acaso, quando a matéria começou a volatilizar-se. A temperatura da parede aumentou

repentinamente. Redhorse sentiu o calor infernal através das camadas isolantes de seu traje de proteção. Se quisesse ter uma chance de ganhar a corrida com o tempo, tinha de agir imediatamente. Dali a vinte ou trinta segundos a nave se transformaria num inferno borbulhante de plasma superaquecido. Redhorse saiu correndo. No oceano de luz o buraco aberto a tiros não passava de uma pequenina mancha escura, quase completamente encoberta pelas massas de gases incandescentes. Redhorse tocou o chão pela última vez e empurrou-se com toda a força. Uma parede de luz veio em velocidade alucinante para junto dele. Redhorse comprimiu

os braços contra o corpo, para oferecer a menor área de ataque ao calor mortífero. Se não tivesse calculado bem o salto, estaria perdido.

Don precipitou-se para a incandescência. Um calor martirizante fustigou sua mente quando o calor atravessou o traje de proteção, atingindo a pele, enquanto o equipamento de climatização entrava em pane temporariamente sob o efeito da tremenda sobrecarga. Redhorse não viu mais nada. Ficou com os olhos fechados, para não perder a visão. Entesou instintivamente os músculos, à espera do impacto que se verificaria fatalmente, pois era impossível atingir um alvo tão pequeno. A única sensação que experimentou foi

o desejo ansioso de que aquilo terminasse quanto antes. Mais tarde, ao lembrar-se

daqueles instantes, constataria surpreso de que fora relativamente fácil conformar-se com

a idéia de que sua vida chegara ao fim. Mas não houve nenhum impacto. O calor diminuiu de repente. Redhorse ouviu o zumbido violento através do qual o equipamento de climatização de seu traje tentava fazer voltar a temperatura ao normal. Abriu os olhos e viu que estava escuro. O corpo

esguio de um jato espacial erguia-se à sua frente, cintilando sob os efeitos da fogueira atômica saída da parede que ficara para trás. Don estendeu os braços e empurrou-se fortemente com os pés. Uma escotilha abriu-se à sua frente. Redhorse ouviu vozes confusas que pareciam vindas de bem longe, misturando-se com o crepitar das interferências causadas pela fogueira atômica. Mãos estenderam-se em sua direção e seguraram-no pelos ombros. Redhorse empurrou-se e atravessou a escotilha. Neste instante uma voz estridente, que desta vez estava bem perto, gritou:

— Nós o pegamos! Pode decolar!

Sua vista turvou-se por algum tempo. Quando recuperou os sentidos, estava amarrado numa confortável poltrona. Uma penumbra agradável reinava em torno dele. O único ruído que chegava a ele através dos microfones externos era o zumbido dos

aparelhos e os estalos dos relês. Don levantou os olhos para identificar a fonte da luz mortiça. Tratava-se de uma enorme tela de imagem. Nela flutuava um gigantesco disco branco-leitoso, atravessado por faixas paralelas de várias tonalidades. Os contornos de duas figuras destacavam-se contra a luz que atingia o disco. Redhorse distinguiu vagamente os contornos de dois capacetes espaciais.

— Um veículo foi perdido — disse alguém. — Os outros mantêm a rota combinada. E depois de uma ligeira pausa:

— Parece incrível, mas acho que conseguimos.

* * *

Aser Kin estava satisfeito com o progresso alcançado. Convertia e reconvertia a estrutura de seu corpo nos menores intervalos possíveis. Toda vez que retornava do estado cristalino à sua condição normal, as tiras de aço que o prendiam era aquecidas o bastante para dilatar-se alguns milímetros, permitindo-lhe tirar

o braço no qual concentrava seus esforços mais um pedacinho das amarras. O princípio que usava pertencia aos fundamentos da termodinâmica clássica. O corpo de Aser Kin possuía a capacidade de existir em duas formas diferentes. No estado normal a substância de seu corpo era quase igual à de qualquer ser vivo. Mas no estado de endurecimento as moléculas de que era feito seu corpo formavam estruturas complicadas, que em conjunto formavam uma massa incrivelmente dura. Em comparação com o estado normal, o estado de endurecimento formava uma condição de categoria superior e, portanto, de entropia mais reduzida. Para introduzir entropia num sistema, conduzindo-o a um estado de categoria mais elevada, precisava-se de energia. Conforme as condições, a energia era liberada durante a reconversão. E a estrutura orgânica de Aser Kin apresentava condições adequadas. Por isso podia aproveitar a energia liberada em forma de calor. No fundo, Aser Kin usava o método da conversão de estados para conduzir a energia necessária do centro de transformação situado dentro de seu corpo para fora dele, onde o calor era absorvido pelas tiras de aço, provocando sua dilatação. As tiras voltavam

a contrair-se depois de transferir o calor ao ambiente, restabelecendo o equilíbrio térmico. Aser Kin aproveitava o tempo que isso demorava para tirar o braço instrumental mais um pedaço das amarras. Aser Kin já tinha certeza de que não demoraria a libertar-se da prisão.

* * *

A situação mudara. Ainda não passara nem metade do prazo durante o qual Tro Khon esperaria que aparecesse qualquer pista capaz de levá-lo para junto de Aser Kin, quando recebeu, através dos canais que o mantinham ligado com Old Man e cerca de quinze mil naves pertencentes ao robô gigante, a notícia da concentração de unidades da frota inimiga nas imediações do sistema de Netuno e Triton. Tro Khon alertou os companheiros. Mantiveram contato ininterrupto com Old Man enquanto aguardavam os acontecimentos. Parecia que por enquanto o inimigo limitava sua concentração a um total de oitenta mil unidades dos mais diversos tipos e tamanhos. Não atacou, e Old Man recebeu ordem de também manter inativas suas naves. Duas horas se passaram sem que acontecesse nada. Tro Khon chegou a desconfiar de que a concentração de forças não passava de uma manobra sem importância, que tinha por fim manter acesa a guerra de nervos. Mas de repente chegou outra notícia. Uma nave desconhecida, provavelmente de construção arcônida e com uma idade de vários séculos, materializara repentinamente a alguns milhões de quilômetros da órbita de Netuno. Não foi possível medir o abalo estrutural provocado pela materialização, porque justamente nesse momento o inimigo criara uma forte interferência com seu fogo de artilharia. Dali em diante os acontecimentos se precipitaram. As naves de Old Man chamaram

o desconhecido pelo rádio. Este deu uma resposta incompreensível, dando a impressão de

que suas instalações de hiper-rádio apresentavam algum defeito. Já se apurara que se tratava de uma nave robotizada arcônida. Não se sabia se possuía uma tripulação orgânica. Não se sabia o que viera procurar nesse lugar. Talvez se tivesse perdido por causa de uma falha do sistema de astrogação. Tro Khon hesitou um pouco antes de dar ordem de destruir a nave desconhecida. Na situação em que se encontrava não estava disposto a correr qualquer risco.

Mas quando foi dada a ordem já era tarde. De um instante para outro descobriu-se a finalidade da concentração de unidades inimigas. O inimigo abriu fogo contra as naves de Old Man. Foi um bombardeio mais violento que qualquer outro já desfechado nesse setor espacial. A primeira investida causou a explosão de oitenta gigantes espaciais de Old Man. Mas o robô não demorou a retribuir o golpe. Centenas de unidades inimigas desmancharam-se no contra-ataque de sua frota.

A batalha espacial foi travada aproximadamente durante quarenta minutos com uma

obstinação sem igual. As baixas inimigas foram elevadas, mas Old Man também perdeu grande número de naves. De repente o inimigo abandonou o campo de batalha e retirou- se. Tro Khon deu ordem para que o robô mantivesse suas unidades a postos e em hipótese alguma saísse em perseguição dos terranos. Não era difícil adivinhar a finalidade da manobra. A batalha violenta só servira para uma coisa: permitir que um único veículo parecido com uma velha nave robotizada de Árcon rompesse as linhas de bloqueio formadas pelos gigantes de Old Man e chegasse a Netuno. Não se sabia se a operação fora bem-sucedida. A pista da nave misteriosa perdera-se na confusão da batalha. Mas uma coisa era certa. Se os terranos estavam dispostos a usar todos estes recursos para permitir que uma única nave chegasse a Netuno, então devia haver uma coisa muito importante nesse planeta. Aser Kin, por exemplo. Era apenas uma hipótese. Mas Tro Khon estava disposto a gastar tempo e outros recursos para verificar se a hipótese correspondia à realidade. Não teria de fazer muita

coisa. Bastava esperar que os terranos tentassem retirar seu comando do setor de Netuno, uma vez concluída a operação. Se realmente se encontrasse em Netuno, Aser Kin estaria a bordo do veículo que tentasse abrir passagem.

A única coisa que tinha de fazer era aprisionar esse veículo.

* * *

2 de março de 2.436, 0400 TUS.

A Aronto estava preparada para levar Reginald Bell e sua comitiva de volta para

Plofos, onde se encontrava a nave de Bell, que faria a viagem de volta à Terra em menos de um dia normal. Quando saiu de Last Hope, Reginald Bell não estava só. Estava acompanhado do Dr. Abel Waringer, de quatro de seus especialistas e de algumas caixas grandes, nas quais se encontravam os equipamentos necessários para colocar os canhões conversores de um couraçado terrano em condições de medir a energia estranha e modificar sua freqüência com a precisão necessária para romper um campo paratron. As pessoas de Last Hope

tinham dado ao aparelho o nome de MMF (medidor e modulador de freqüências), e com este nome entraria nos anais da Frota Solar.

O vôo para Plofos só durou algumas horas. A bordo de sua nave, Reginald Bell teve

oportunidade de entrar em contato com o comandante da frota metropolitana através das

estações retransmissoras. Aproveitou a oportunidade porque queria saber qual era a

situação, mesmo correndo o risco de os condicionados em segundo grau acompanharem a troca de mensagens. Não teriam quase nada a ganhar com isso. Bell só ficou sabendo o que eles já sabiam, ou seja, que alguns homens tinham conseguido chegar a Netuno numa operação audaciosa. Não foi dito mais nada. Bell sabia qual era o único objeto capaz de justificar o uso de tamanhos recursos para levar um veículo a Netuno através das linhas de bloqueio de Old Man. Certamente havia bons motivos para supor que o condicionado em segundo grau que fora seqüestrado se encontrava em Netuno. Se esta suposição se confirmasse e se a tripulação do veículo rompe-bloqueio conseguisse retornar à Terra com a presa a bordo, seria bem possível que dentro de pouco tempo a sorte do Império mudaria. De fato, a invulnerabilidade dos condicionados em segundo grau era devida principalmente ao fato de ninguém ter conseguido chegar bastante perto deles para descobrir como feri-los. Pelo menos este problema estaria resolvido, quando um dos inimigos pudesse ser examinado pelos cientistas terranos. Reginald Bell respondeu com a informação lacônica de que estava voltando para casa o mais depressa possível. Qualquer pessoa estranha só poderia ser levada a acreditar que o único motivo da pressa era a investida contra Netuno e seus possíveis resultados. Bell não transmitiu uma palavra sobre as informações recebidas em Last Hope. Sua nave, a Colombo, um modelo especial dos cruzadores da classe Cidades, com a incrível capacidade de aceleração de 80.000 G, decolou de Plofos pouco depois da troca de mensagem e tomou a rota que a levaria de volta ao Sistema Solar. A Aronto, que continuava sob o comando do Tenente-Coronel Haiker Lastron, veio logo atrás dela. A bordo da Aronto havia mais um grupo de cientistas que cooperavam diretamente com o Dr. Waringer. Reginald Bell não tivera nada a opor ao argumento lógico de que era conveniente levar mais um grupo de especialistas para a Terra, mesmo que não fosse por outra coisa senão a possibilidade remota de que alguma coisa pudesse acontecer ao primeiro grupo. Em 2 de março de 2.436, às 0935 TUS, a Colombo entrou no espaço linear. A Aronto seguiu seu exemplo dali a três minutos. A corrida com o tempo começara.

4

2 de março de 2.436, 0950 TUS. Quatro jatos espaciais corriam em formação pouco compacta oitenta quilômetros acima da superfície inóspita de Netuno. Fazia mais de cinco horas que os destroços da Roban tinham rompido a espessa camada de nuvens do planeta que nem um sol branco incandescente, desencadeando com suas energias nucleares furacões de violência indescritível, que rugiram por horas a fio na atmosfera densa, tornando mais difícil a navegação dos jatos. Finalmente as tempestades amainaram — na medida em que pode amainar uma atmosfera que a cinqüenta quilômetros de altura tem a mesma densidade da atmosfera

terrestre ao nível do mar, e onde a velocidade média dos ventos é pouco inferior a cento e vinte quilômetros por hora. Os jatos passaram a voar mais baixo. No aparelho identificado pelo código César Zero, Don Redhorse olhava fixamente para a tela de imagem que mostrava as camadas mais densas da atmosfera de Netuno com o aspecto da água de um aquário que não tivesse sido limpa há muito tempo. Frizz Eisner ergueu o braço.

— Uma superfície aquática!

— Nem quero saber dessa água — resmungou Vincent em tom de desprezo.

— Qual é o tamanho? — quis saber Redhorse.

— Não dá para avaliar — respondeu Frizz. — Vai para além do horizonte.

Redhorse pegou o microfone.

— exclamou exaltado.

— César Zero chamando todos os Césares. Parece que acabamos de encontrar o que

estávamos procurando. Reduzam a velocidade para quatrocentos e fiquem atentos em

minhas manobras. Em seguida voltou a colocar o microfone no gancho e disse:

— Isto também vale para o senhor, cabo.

— Sim, senhor — respondeu o piloto.

Redhorse digitou uma série de dados no teclado do computador e leu o resultado no visor ótico. A diferença entre as coordenadas do Mar dos Sonhos e as do lugar em que se encontravam os quatro jatos era praticamente igual a zero.

— Estamos no lugar certo — disse Redhorse. — Baixe o nariz.

César Zero entrou em mergulho. A pressão externa crescia rapidamente.

— Gostaria de saber se os outros nos seguem — disse Redhorse. Passaram-se alguns segundos.

— Positivo — informou Holl Vincent.

Voaram pelo litoral do Mar dos Sonhos, que tinha mais ou menos a mesma extensão do mar Mediterrâneo e parecia ser bem profundo. O que chamava a atenção era a falta de ilhas. Só havia um acidente na superfície aparentemente infinita. Era um rocha escarpada, que subia centenas de metros acima da superfície. Ficava a cerca de cem quilômetros do litoral norte e a oitocentos quilômetros do limite sul do mar. A temperatura ao nível do mar era de menos 173 graus centígrados. A substância que enchia a bacia enorme do mar era o metano. Os blocos de gelo tangidos pelo vento provavam que as oscilações de temperatura não eram nenhuma raridade. A faixa de

temperatura na qual o metano podia existir em estado líquido não era muito ampla — menos de trinta graus centígrados nas condições reinantes.

Don Redhorse sabia perfeitamente que, embora a parte mais difícil da missão já tivesse ficado para trás, ainda faltava muito para atingir seu objetivo. O rastreamento por meio do qual fora detectado o teor de radiações emitido pelo terminal de recepção do transmissor instalado em Netuno só tinha um grau de precisão de mais ou menos mil quilômetros. E seria inútil tentar vasculhar ao acaso uma área de um milhão de quilômetros quadrados, ainda mais que não se sabia até que ponto a região a ser vasculhada se estendia na terceira dimensão. Era quase certo que os lemurenses não tinham instalado sua base na superfície do planeta. Para ter uma chance precisaria de outros dados. Restava saber como poderia consegui-los.

— Aproxime-se da rocha — ordenou ao piloto.

Holl Vincent foi incumbido de controlar os rastreadores. A tela de radar quase não

mostrava nenhuma novidade. Se houvesse alguma indicação, o rastreamento energético seria o primeiro a notar. Holl passou os olhos pela tela reflex. Endireitou o corpo e sacudiu a cabeça.

— Sei o que espera encontrar — disse com a voz triste. — Acontece que por ali não

há nada. Redhorse acenou obstinadamente com a cabeça.

— Fique atento, Holl.

Os quatro aparelhos seguiam em formação compacta. Não se podia distinguir os três jatos restantes na atmosfera turva de Netuno, mas eles apareciam na tela de radar de César Zero junto ao ponto de origem das coordenadas. Desenvolvendo quatrocentos quilômetros por hora, o grupo sobrevoou a um quilômetro de altura a superfície leitosa do mar de metano. Meia hora passou sem que acontecesse absolutamente nada. Don Redhorse começou a refletir sobre o que poderia fazer se realmente não encontrasse qualquer pista do velho forte lemurense na superfície do planeta. Mas de repente aconteceu aquilo que esperara bem no íntimo. Um bip agudo saiu dos rastreadores. Quase no mesmo instante Holl exclamou muito nervoso:

— Campos energéticos de grande intensidade pela frente! Na tela de reflex apareceu uma série de pontos claros, bem definidos. Ficavam todos perto do centro do campo de imagem. Pela nitidez concluía-se que eram produzidos por campos de grande intensidade que, próximos como estavam, deveriam ter sido detectados há tempo, se já existissem. Don Redhorse foi o primeiro que compreendeu o que estava havendo. Os campos energéticos eram gerados por aparelhos que tinham sido postos a funcionar há poucos segundos. Ao que parecia, ainda havia na velha base lemurense que fora ativada pela última vez há cinqüenta mil anos padrão alguns rastreadores que funcionavam muito bem, e que tinham registrado a aproximação dos quatro jatos, reagindo da forma prevista. A reação consistia na ativação do sistema defensivo do forte. Não havia dúvida de que parte dos raios energéticos era produzida pelos reatores de fusão. Também era certo que as quantidades imensas de energia geradas pelos reatores eram conduzidas principalmente aos canhões pesados. A pista da base fora descoberta, mas com ela surgira um problema para Redhorse que era mais difícil de resolver que aquele com o qual andara quebrando a cabeça.

Os três jatos restantes receberam ordem de realizar operações de rastreamento energético destinadas a localizar a fonte das radiações e transmitir os resultados à César Zero. A ordem levou doze minutos para ser cumprida. Redhorse comparou os resultados com aqueles obtidos por Holl Vincent e chegou à conclusão de que a posição do ponto de origem dos raios energéticos fora determinada com uma precisão de mais ou menos duzentos metros. Este ponto ficava quase exatamente embaixo da rocha para a qual seguiam os quatro jatos, cerca de seiscentos metros abaixo do nível do mar. Redhorse pegou o microfone. — César Zero chamando todos os Césares. Encontramos o que estávamos procurando. Em algum lugar lá embaixo existem velhas instalações lemurenses cujas máquinas ainda funcionam perfeitamente. Vamos descer. Preparem-se para a viagem submarina e acompanhem minhas manobras. — Redhorse hesitou um instante, sem saber se devia dizer aos homens aquilo que trazia na ponta da língua. Acabou prosseguindo: — Fiquem atentos. Receio que o velho forte não concorde com nossa aproximação.

* * *

1120 TUS. Viajavam quinhentos metros abaixo do nível do mar. Em torno deles reinava uma escuridão completa. A escassa luz de sol que atingia a superfície de Netuno, depois de atravessar a espessa camada de nuvens, não tinha a menor chance de romper os quinhentos metros de metano líquido. No início tinham ficado com os holofotes embutidos ligados, pois queriam que as telas de imagem fornecessem pelo menos o esboço de um quadro. Mas dentro de pouco tempo a César Dois foi atacada por uma coisa que, segundo informava o piloto, era do tamanho de uma cidade. A informação do piloto foi confirmada e reforçada pela observação feita por Frizz Eisner na tela do rastreador. Um objeto que impressionava pelo tamanho, certamente orgânico e com vida, passara a interessar-se por um dos jatos, atraído provavelmente pelo holofote. Não se sabia quais eram suas intenções. Talvez a claridade lhe proporcionasse um estranho prazer, ou então era um elemento que destoava da escuridão reinante. Don Redhorse não estava disposto a assumir qualquer risco. Deu permissão para que o co-piloto de César Dois atirasse. Uma bola de fogo brilhou, abafando por uma fração de segundo a luz potente dos holofotes. O reflexo enorme do monstro projetado na tela de imagem de Frizz Eisner desmanchou-se em milhares de fragmentos, e dali a instantes a César Dois informou que estava com o caminho desimpedido. Por causa deste incidente os holofotes foram desligados. Depois disso o número de pontos de reflexo na tela de Eisner começou a crescer numa verdadeira avalanche. Parecia que a luz dos holofotes assustara a maior parte dos seres que habitavam o mar. Em certo momento, o computador que fazia a interpretação automática das indicações fornecidas pelo rastreador registrou um total de dois mil e duzentos reflexos de área considerável, num raio de um quilômetro em torno de César Zero, além de oitenta mil ecos menores. O menor objeto detectado pelo rastreador ainda era do tamanho de uma lagosta adulta. Alguns dos reflexos maiores eram produzidos por seres de dimensões superiores às de um edifício de cinco andares. Para Don Redhorse, e mais ainda para seus companheiros, o desenvolvimento de uma vida misteriosa nas profundezas de um mar terrivelmente frio situado num planeta hostil à vida era uma coisa fascinante. Netuno tinha uma coisa em comum com os outros

mundos de metano do Sistema Solar, que eram Júpiter, Saturno e Urano. Por causa das condições mortais reinantes na superfície, que se afastavam completamente das da Terra, estes planetas nunca conseguiriam despertar nos terranos aquela curiosidade que costumavam experimentar diante dos mundos recém-descobertos. Os mundos de metano só despertavam algum interesse por causa das luas, algumas delas bem maiores que o satélite da Terra, em cuja superfície reinavam condições que permitiam a colonização por grupos especiais habituados a ambientes adversos. Quase ninguém se interessara por Netuno. Foram realizadas algumas expedições, inclusive aquela cujos participantes deram ao lago do tamanho do Mediterrâneo o nome de Mar dos Sonhos. As expedições partiram depois de realizar algumas medições. As tormentas infernais que agitavam a atmosfera densa exigiam muito, até mesmo dos estabilizadores de último tipo. Os xenobiólogos elaboraram um esquema segundo o qual era possível que em Netuno tivesse surgido vida orgânica — de uma forma bem diferente das conhecidas na Terra. Eram seres que respiravam hidrogênio e convertiam os radicais NH em amoníaco. Surgiram hipóteses sobre a constituição desses seres e o grau de inteligência que poderiam ter atingido nas condições mais favoráveis. Mas nenhuma das poucas pessoas que tinham estado em Netuno chegara a ver um ser nativo. Don Redhorse e seus companheiros foram os primeiros — embora nem mesmo eles pudessem ter a percepção imediata destes seres, já que a única coisa que viram das criaturas estranhas eram alguns reflexos luminosos verde-azulados projetados na tela do rastreador. Mas a vida existia; quanto a isso não havia a menor dúvida. Os quatro jatos espaciais atravessavam um mundo fantástico. Por alguns minutos os homens dedicaram sua atenção ao ambiente encantador, em vez de concentrá-la na tarefa que tinham pela frente. A sondagem da área que ficava pela frente revelou que a rocha estreita que subia acima da superfície era uma excrescência de uma imensa massa rochosa, cuja extensão já chegava a centenas de quilômetros apenas cem metros abaixo da superfície. À medida que se ia para o fundo, o tamanho do complexo rochoso aumentava. Era de forma aproximadamente circular. A seiscentos metros de profundidade ligava-se a uma saliência que contornava todo o bloco e tinha duzentos metros de largura em média. Da extremidade da saliência para baixo, a massa rochosa era quase vertical, até o fundo do mar, a cerca de mil e cem metros de profundidade. Os quatro jatos espaciais aproximaram-se da saliência rochosa vindos do nordeste. Os rastreadores, cujas indicações eram cada vez mais precisas à medida que diminuía a distância, revelaram que a fonte dos raios energéticos se situava no nível da saliência, cerca de quatro quilômetros para dentro da massa rochosa. A cinqüenta quilômetros de distância, o rastreador ainda não estava em condições de verificar se, acima ou abaixo da saliência, a superfície rochosa apresentava alguma característica pela qual se pudesse saber se havia alguma eclusa. A rocha parecia completamente inerte e não apresentava o menor sinal de que por ali já tinham entrado e saído seres inteligentes. Don Redhorse começou a considerar a possibilidade de ter de usar desintegradores para abrir caminho através da rocha e atingir o interior da base lemurense. As emanações que os rastreadores continuavam a registrar permaneceram inalteradas durante a aproximação dos quatro jatos. A nota dominante eram os impulsos característicos dos reatores de fusão pesados. Se realmente tivesse sido ativado todo o sistema defensivo do forte, já deveriam ter sido detectadas outras emanações. Será que

somente parte das máquinas da base ainda estava funcionando? Quem sabe se os reatores tinham entrado em funcionamento, mas não os sistemas automáticos de mira e disparo? Era possível que os cinqüenta mil anos de existência da base tivessem eliminado o perigo que teria de ser enfrentado por qualquer pessoa não autorizada. Era uma esperança vaga, para a qual Don Redhorse não abriu mais espaço do que permitia a situação. Continuava atento. Quando de repente um lampejo verde-pálido atravessou a tela, estava preparado para entrar em ação. — Detecção! — gritou Vincent. — Bem à nossa frente. Uma bola luminosa vermelha inchou na escuridão profunda. Numa questão de segundos cresceu além das margens da tela, ficou mais pálida e desapareceu. Uma voz cansada saiu do intercomunicador. — César Três a César Zero. César Dois foi destruído pelo disparo de uma arma desconhecida. O corpo de Don Redhorse contraiu-se. Perdera um veículo. Quatro vidas humanas ceifadas numa fração de segundos! — Leme de altitude para cima! — gritou. — Toda força à frente. No mesmo instante a pressão causada pela explosão atingiu a César Zero, arrastando o pequeno veículo no turbilhão.

* * *

Aser Kin foi obrigado a fazer uma pausa. Depois de quase mil conversões e reconversões suas reservas de energia estavam esgotadas e tinham de ser restauradas. Conseguira retirar o braço instrumental direito da amarra mais ou menos até a metade da mão. Mas precisava de descanso. Seu esquema de trabalho apresentava um rendimento extremamente baixo. No máximo meio por cento da energia que o transformador orgânico tinha de gerar para converter a matéria de seu corpo em matéria dura atingia as tiras de terconite para provocar sua dilatação. O resto perdia-se em seu corpo ou era irradiado diretamente para a atmosfera. Mas Aser Kin estava satisfeito com os resultados alcançados. Tranqüilo, mergulhou num sono profundo, durante o qual sua mente apagou completamente, e que regeneraria suas forças.

* * *

Tro Khon e seus três companheiros subiram a bordo de seu dolan e saíram de Triton com destino a Netuno. Old Man não descobrira mais nenhuma novidade. Se o inimigo realmente conseguira levar um comando a Netuno, este certamente agia com o maior cuidado. Os rastreadores supersensíveis de Old Man tinham sido direcionados para a superfície do planeta de metano, mas por enquanto só tinham captado os ruídos das interferências produzidas pela atmosfera turbulenta de Netuno. Os sete coordenadores de Tro Khon o haviam informado de que seria necessária a energia de uma pequena bomba atômica para atravessar as interferências da atmosfera de Netuno e ser detectada pelos rastreadores de Old Man. Tro Khon recebeu a informação com a maior calma. Não pretendia mesmo descer em Netuno. Não havia motivo para isso. Se Aser Kin realmente estivesse lá, os terranos o encontrariam e tentariam levá-lo a um lugar em que estivesse em segurança. O momento de entrar em ação chegaria no instante em que o veículo inimigo tentasse sair de Netuno.

* * *

— Eu já disse — principiou Abel Waringer, agitando a haste de seu cachimbo —

que a estrutura de nosso campo de hipercarga e a do campo paratron dos condicionados em segundo grau são parecidas. Gostaria de dar mais algumas explicações. A Colombo corria em alta velocidade pelo espaço linear. A tela mostrava o cinza apagado num ambiente cujas verdadeiras características as objetivas não conseguiam captar. As estrelas eram pontos luminosos ofuscantes de uma só cor. Um círculo luminoso apagado assinalava o lugar em que estava a Aronto. Eram 1150 horas tempo universal sincronizado do dia 2 de março de 2.436. As duas naves já tinham percorrido cerca de dez por cento da distância de Plofos para a Terra. — Para a criação dos campos paratron — prosseguiu Waringer —, os condicionados em segundo grau usam hiper-raios de uma freqüência que pelos nossos

cálculos corresponde à dos nossos campos de hipercarga multiplicada por dez na nona potência. É perfeitamente admissível diante dos princípios da hiperfísica estabelecer certa analogia entre os raios convencionais e os hiper-raios. Quanto maior a freqüência, mais elevado será o conteúdo energético dos raios. Acho que já fiz uma comparação, dizendo que é como se utilizássemos a luz visível, enquanto os condicionados em segundo grau recorrem aos raios gama. Waringer fitou Reginald Bell com uma expressão inquisitória. Bell acenou com a cabeça. Era o único ouvinte de Waringer. A conversa era numa pequena cabine que ficava ao lado da sala de comando e que Bell requisitara para seu uso particular ao escolher a Colombo para a viagem. Via-se perfeitamente que Waringer se deleitava com o papel de explicador. Reginald Bell via nisso um castigo justo pelos erros que cometera ofendendo seu interlocutor. Waringer fazia sua exposição em termos tão simples que até parecia ter à sua frente um estudante de filosofia que tivesse entrado por engano numa aula de física.

— Muito bem. Com os raios hiperenergéticos conseguem-se efeitos que beiram o

milagre. Gostaríamos de ter nossos campos paratron, nem que fosse somente para estudá-

los e conhecê-los melhor. Mas — e é aqui que está o problema — Waringer levantou a mão e apontou com a haste o cachimbo para cima — não dispomos dos recursos

necessários. Falta-nos a energia capaz de gerar hiper-raios de uma freqüência tão elevada. Era um ponto de vista completamente novo. Reginald Bell nem tentou esconder a surpresa, e Abel Waringer deleitou-se ao notar que pela primeira vez conseguira deixar seu ouvinte perplexo.

— Não acredito em nada do que está dizendo — resmungou Bell. — Não temos a

menor dificuldade em criar campos de hipercarga. Qualquer nave de guerra de certo

tamanho é equipada com os respectivos geradores. Não posso deixar de confessar que consomem muita energia. Acontece que o senhor vem me dizer que não possui recursos para produzir um feixe de hiper-raios de alta freqüência? Waringer riu e fez um gesto de recusa.

— Não é isso! Podemos gerar qualquer tipo de hiper-raios, mas não na quantidade

necessária para criar um campo paratron. — Waringer gesticulou com o cachimbo, e uma porção de tabaco aceso caiu em sua perna. O tecido da calça era à prova de fogo, mas o calor propagou-se através do material e acabou queimando sua pele. Saltou da poltrona com um grito abafado e passou a mão livre pela coxa queimada. Mas quando voltou a sentar seu rosto era tão compenetrado quanto antes, e verificou-se que não perdera o fio da meada por um segundo que fosse. — Sabemos — prosseguiu imediatamente — que

são necessárias milhares de frentes de ondas para criar um campo. Acontece que simplesmente não dispomos da energia necessária na faixa das altas freqüências. Não se esqueça de que num único campo paratron existe mais energia do que a que pode ser produzida por dez mil reatores de fusão de grande potência — Waringer piscou os olhos e passou a mão pela testa para afastar uma mecha de cabelo rebelde que perturbava sua visão. — Sabe lá o que significa isso? Bell sabia. — Os condicionados em segundo grau conhecem um princípio superior de produção de energia. Não é isso? Em vez da fusão nuclear usam outro método muito mais rentável, que ainda não conhecemos. Waringer sugou o cachimbo, mas este não funcionou porque o fogo se apagara. — É isso mesmo. Conhecemos outro método de produção de energia, princípio este que por enquanto só pôde ser posto em prática nos grandes laboratórios do cosmos, não em pequenas mesas de laboratório — Waringer roeu a haste do cachimbo. — Placa negra — exclamou finalmente em tom desdenhoso. Reginald Bell não respondeu logo. Estava absorto em pensamentos. A energia dominava o mundo. O homem que utilizava a energia de seus músculos para entesar um arco levava desvantagem em relação ao que sabia usar a pólvora. Aquele que conhecia o segredo das energias nucleares saía vitorioso contra aquele cujos conhecimentos se limitavam aos explosivos químicos. O homem que trabalhava com reatores de fusão levava vantagem sobre o que usava o processo de fissão nuclear. Será que a humanidade se aproximava de mais uma grande mudança? Talvez a seqüência lógica dos acontecimentos nem fosse tão perfeita como sempre se acreditara. A civilização das raças conhecidas de astronautas baseava-se no reator de fusão para a produção de energia. A união de dois núcleos de hidrogênio para formar um núcleo de hélio com suas variantes era a forma mais eficiente de produzir energia. Se aparecesse um inimigo que utilizasse um princípio mais avançado, ele somente por isso poderia ficar em posição de superioridade. Esta possibilidade não podia ser desprezada. Mas o otimismo que era uma das características de Reginald Bell recusava-se a aceitar as conseqüências, que certamente representariam o fim do Império Solar. De fato, já houvera casos em que pessoas que só lutavam com arcos e flechas tinham saído vitoriosas contra outras que dispunham de canhões. Tudo dependia de que com o arco e a flecha se conseguisse manter afastados os canhões até que os arqueiros aprendessem a construir um canhão. — A produção de energia segundo o princípio da placa negra — prosseguiu Abel Waringer em tom professoral — é observada tanto no âmbito macroscópico como no microscópico. Conhecemos casos em que uma estrela que acabara de formar-se com matéria interestelar criou, no curso do processo de contração, um campo gravitacional de grande intensidade, a ponto de a velocidade de fuga do astro em formação exceder a da luz. Um objeto como este não pode existir no universo einsteiniano. A curvatura do espaço, segundo se tenta explicar, fecha-se em torno de um objeto como este. O efeito, muito mais fácil de compreender, é que metade da matéria que forma a estrela se transforma em energia. Se conseguíssemos envolver alguns astros em campos gravitacionais tão fortes, poderíamos utilizar a energia assim gerada. Mas há um problema. Não dominamos a respectiva tecnologia. “A aniquilação de corpúsculos no embate da matéria e antimatéria constitui o exemplo microscópico. Neste caso também se verifica que metade da massa de repouso

das respectivas partículas se transforma em energia. Em comparação com a fusão de dois núcleos de hidrogênio, na qual somente uma parte insignificante das massas nucleares se transforma em energia aproveitável, o princípio da placa negra proporciona o ganho de toda a energia correspondente à massa de uma das partículas. Em linhas gerais, pode-se dizer que um gerador de placa negra tem uma potência pelo menos dez mil vezes maior que um reator de fusão que tenha mais ou menos as mesmas dimensões.” Reginald Bell acompanhou a exposição sem que se desse conta de que prestava atenção às palavras de Waringer. Conhecia o princípio da placa negra. As explicações de Waringer só serviram como diretriz para que seus pensamentos tateassem a fim de descobrir como seria o mundo, se um dia a humanidade terrana dominasse esse método de produção de energia. A breve troca de mensagem realizada com a frota metropolitana a partir de Plofos não deixava dúvida de que fora descoberto o lugar em que se encontrava o condicionado em segundo grau. Se fosse possível levar o prisioneiro de Netuno à Terra, talvez não fosse difícil aos psicofísicos arrancar-lhe o princípio da placa negra A idéia deixou Bell fascinado. Por alguns minutos, nos quais Waringer continuava a explicar em tom monótono as vantagens do princípio da placa negra, Reginald Bell esqueceu o perigo que ameaçava a Terra naquele instante e imaginou as possibilidades que se ofereceriam à humanidade se um dia conseguisse dominar o novo método de produção de energia.

5

Don Redhorse foi arremessado de costas contra a parede quando a pressão causada pela explosão atingiu a César Zero, fazendo com que o veículo girasse loucamente em torno do eixo transversal. Durante um ou dois segundos ficou paralisado pela dor. O impacto fora tão forte que expelira o ar dos pulmões e paralisara os músculos do tórax. Anéis de fogo dançavam diante de seus olhos. Finalmente seus músculos se descontraíram. Redhorse levantou de um salto. O piloto estava pendurado nos cintos de segurança, imóvel. Holl Vincent jazia no chão, inconsciente, e não se via sinal de Frizz Eisner. Redhorse inclinou-se sobre o piloto e soltou os cintos de segurança. O corpo flácido

tombou de lado e caiu ao chão. Redhorse colocou o propulsor na potência máxima e acionou os estabilizadores. Dentro de instantes a César Zero voltou a prosseguir em linha reta. Uma luminosidade verde cruzou a tela. Era tão fantástica e indefinível como a que se vira pouco antes, quando fora destruída a César Dois. Redhorse prendeu a respiração. Mas desta vez não surgiu nenhuma bola de fogo vermelha. O inimigo errara o alvo. Redhorse enfiou-se no assento do piloto. Estava só. Na situação em que se encontrava não podia perder tempo. Precisava de auxílio. Puxou o microfone do intercomunicador para perto dos lábios e gritou:

— César Zero chamando todas as unidades. Respondam! Quero saber quantas

baixas sofremos e em que diabo de lugar estamos. Tenho três homens inconscientes em

meu jato. As respostas foram quase imediatas.

— César Três falando. Temos três feridos, mas estão todos em condições de lutar.

Acabamos de estabilizar a rota. Não faço a menor idéia de onde estamos. Ainda demorará

uns dois ou três minutos.

— César Um falando. Não temos feridos. A rota foi estabilizada. A pressão da

explosão deslocou-nos para o nordeste. Estamos cerca de sessenta quilômetros a leste nordeste da rocha. Temos César Zero e Três nas telas dos rastreadores. César Zero, o

senhor se encontra três quilômetros a leste sudeste de nossa posição e prossegue para o leste. Solicitamos instruções, senhor. A tela voltou a tremeluzir. Redhorse teve a impressão de que a luminosidade era menor que das outras vezes. Talvez o alcance dos canhões do forte lemurense fosse limitado. Era ao menos o que esperava ardentemente. Precisaria de alguns minutos para controlar os pensamentos e colocar em forma os homens inconscientes.

— Os canhões inimigos têm de ser postos fora de ação — respondeu a César Um.

— Identificaram o alvo?

— Ainda não identificamos um alvo preciso, senhor. Estamos trabalhando para isso.

— Continuem a trabalhar. Quero saber que tipo de arma está sendo usado contra

nós, quantas existem e onde ficam. Não se aproximem a menos de cinqüenta e cinco quilômetros da rocha. Isto também vale para o senhor, César Três. Desligo. Redhorse saiu do assento. Em primeiro lugar tentou reanimar o piloto. Antes não tivera tempo de examiná-lo. Viu que a cabeça estava pendurada entre os ombros numa posição esquisita, e que o homem não fechara os olhos, que o fitavam, rígidos e sem vida.

Redhorse enfiou a mão embaixo da nuca e não demorou a encontrar o lugar em que a coluna vertebral parecia formar um nó embaixo da pele. O piloto quebrara a nuca. Foi relativamente fácil reanimar Holl Vincent. Batera com a cabeça e queixava-se de dores terríveis, mas voltou ao seu lugar junto aos rastreadores. Frizz Eisner estava metido atrás da grande caixa de distribuição do rastreador. Fora arremessado para lá durante o tumulto que se seguira à explosão. Sofrera uma contusão

no tórax e estava com falta de ar. Mas recuperou-se depressa depois que Redhorse o tirara da posição incômoda. Fitou o homem que o salvara com o rosto retorcido de dor.

— Que

— Holl, você e eu estamos. O piloto morreu e a César Dois foi destruída. Por

que houve? Ainda estamos vivos, não estamos?

enquanto não corremos perigo. Frizz conseguiu pôr-se de pé.

— Como vai?

Frizz passou a mão pela testa e enxugou o suor.

— Sinto-me terrivelmente mal — resmungou. — Meu peito heróico chia como se houvesse algumas costelas arrebentadas. Mas de resto está tudo bem. — Precisamos dos resultados do rastreamento — disse Redhorse em tom indiferente. — Veja o que pode fazer.

Frizz foi cambaleando para seu lugar. César Um chamou. Mais três raios verde- pálidos tinham atravessado a tela de imagem sem causar qualquer estrago.

— Já conhecemos a posição de dois canhões, senhor — disse a voz vinda de César

Um. — Nada indica que neste setor haja outros. O funcionamento dos canhões baseia-se

na combinação do efeito energético e desintegrador. O efeito energético assume a função de detonador, que coloca o material bombardeado num estado em que se dissolve mais facilmente sob o efeito do desintegrador. Redhorse chamou a César Três, que em linhas gerais fizera as mesmas observações, com a diferença de que, em virtude das duas baixas, elas não tinham sido tão cuidadosamente interpretadas quanto as de César Um. Redhorse olhou para o relógio. Eram 1235 TUS. Redhorse hesitou um pouco e voltou a pegar o microfone.

— Avançaremos em direção à rocha à velocidade máxima. Ao que tudo indica, o

alcance dos canhões lemurenses não é superior a cinqüenta quilômetros. Quando estivermos a cinqüenta e dois quilômetros, cada um dos nossos veículos disparará duas salvas contra as posições de artilharia inimigas. Os resultados do bombardeio deverão ser cuidadosamente observados. Precisamos ter certeza de que os canhões foram postos fora de ação antes de chegarmos mais perto da rocha. Se necessário, fornecerei novas instruções enquanto a operação estiver em curso. Desligo.

Os três jatos deram partida. O computador de Frizz Eisner recebera de César Um as coordenadas das duas posições de artilharia. No momento Frizz desempenhava as

funções de oficial de artilharia. Don Redhorse fazia o trabalho do piloto. Holl Vincent ocupava o posto de observação.

— Cinqüenta e quatro — disse Frizz com a voz embaraçada. — Os dois veículos

que nos acompanham estão na rota correta. Os jatos atravessavam o líquido escuro do mar de metano desenvolvendo quase cem quilômetros por hora. Era o máximo que os propulsores hidráulicos podiam dar.

— Cinqüenta e três — disse Frizz. — Tudo em ordem. Alvo na mira e tudo preparado para abrir fogo.

Um brilho esverdeado atravessou a tela — mais forte que antes, e quase perigosamente próximo.

— mais forte que antes, e quase perigosamente próximo. — Cinqüenta e dois — gritou Frizz.

— Cinqüenta e dois — gritou Frizz. — Vamos logo

com isso. Ouviu-se um ruído ligeiro e seco, vindo não se sabia bem de onde. Parecia o estouro de duas garrafas de champanha. Duas trilhas luminosas branco-amarelentas apareceram na tela de imagem, depois mais duas, mais distantes e não tão nítidas, quando a César Um e Três também dispararam seus torpedos. Os projéteis usavam um sistema de propulsão química. O ajuste do alvo foi feito por meio de um microcomputador e de um sistema de direção inercial instalado bem embaixo da ogiva nuclear. Os torpedos dessa espécie eram de uma precisão mortal. Alguns instantes se passaram. As trilhas luminosas dos projéteis desapareceram no líquido tingido. Don Redhorse prendeu instintivamente a respiração. De repente achou ridículo atacar as posições de artilharia de uma raça há muito desaparecida, mas que alcançara um elevado grau de evolução técnica, com torpedos autoguiados. Os rastreadores lemurenses detectariam os projéteis, apontariam os canhões para eles e estes os destruiriam em uma única salva. Se isso não acontecesse, um dos monstros do mar de metano cruzaria o caminho de um dos torpedos e ativaria o

detonador antes da hora. Uma única explosão seria suficiente para fazer detonar os outros torpedos, que corriam bem perto um do outro.

— Droga — resmungou Frizz Eisner exaltado. — Os torpedos já deveriam ter atingido o alvo. Holl Vincent aspirou violentamente o ar entre os dentes.

— A paciência nunca foi seu forte, Frizz — disse.

— Vá para o inferno — resmungou Frizz. — Para que quero paciência se

Nesse instante a tela iluminou-se. A escuridão do mar de metano foi substituída por uma claridade ofuscante, na qual os contornos grotescos dos seres aquáticos se destacavam como sombras negras contra uma parede branca. A luminosidade só durou alguns segundos. A escuridão voltou, ainda mais completa porque era percebida por olhos que tinham sido ofuscados. Em meio à escuridão soou a voz resoluta de Don Redhorse. — Toda força à frente. Cuidado com os estabilizadores! Os três veículos atravessaram o líquido escuro como se estivessem sendo perseguidos por fúrias. A onda de choque da explosão veio ao seu encontro, atingindo-os dentro de alguns segundos. César Zero empinou e deu a impressão de que iria atravessar-se diante da torrente furiosa para ser arrastado por ela. Os estabilizadores uivaram, obrigando a nave a voltar à posição anterior. Durante alguns minutos os propulsores tiveram de lutar com toda força contra o redemoinho para pelo menos manterem o jato no mesmo lugar. Finalmente a força do líquido diminuiu. Os jatos voltaram a deslocar-se para a frente. Uma notícia triunfal veio de César Um.

— As posições de artilharia foram destruídas, senhor. Nossos torpedos abriram um buraco enorme na rocha, pelo qual o metano entra em grande quantidade. Frizz Eisner deu uma risada amarga.

— Existem pessoas que nunca têm sorte. Os canhões foram postos fora de ação,

mas em compensação essa droga vai se enchendo de metano e nosso condicionado em segundo grau toma um banho.

Redhorse não respondeu. Seus nervos ameaçavam estourar de tão tenso que estava. Não acreditava que os lemurenses tivessem sido negligentes a ponto de não tomarem providências contra uma eventual penetração de metano em sua base.

— Holl — gritou para Vincent —, verifique se está acontecendo algo de anormal.

— Positivo, Red — respondeu Holl quase no mesmo instante. — A intensidade dos

campos energéticos aumentou repentinamente. E não são somente reatores de fusão que estão rugindo por lá. Redhorse não esperara outra coisa. Uma técnica experimentada na guerra como a dos lemurenses não iria construir um forte submarino sem protegê-lo contra inundações. O que Holl Vincent via na tela do rastreador eram os campos de energia residual gerados pelos aparelhos que vedavam o buraco aberto pelos torpedos. Uma vez concluída a vedação, não haveria como entrar na base. O guarda robô fora alertado. Usaria todos os

meios disponíveis para isolar o forte de qualquer coisa vinda de fora e destruir o inimigo. A mão de Redhorse caiu pesadamente sobre a alavanca do acelerador, que se encontrava na posição máximo. O indicador de desempenho do propulsor estava um centímetro além da marca luminosa vermelha que indicava o limite de risco. Mas apesar de tudo os jatos não chegariam em tempo. Se mantivessem a velocidade atual, levariam meia hora para atingir a rocha. Uma idéia louca, que parecia espreitar o subconsciente de Redhorse há algum tempo, assumiu forma de um instante para outro. Por maior que fosse o risco que o novo plano envolvia, Redhorse estava disposto a assumi-lo. Antes isso que aceitar a derrota. Pegou o microfone e começou a falar. Sua voz tinha um tom seco. — Os mecanismos robotizados estão fechando o rombo aberto pelos torpedos e colocando o forte em estado de emergência — disse. — Se não conseguirmos entrar no forte antes que a vedação seja completada, perderemos o jogo. Os propulsores hidráulicos não podem dar mais do que estão dando. Se quisermos ganhar a parada, teremos de usar um método diferente. — Redhorse olhou ligeiramente para o relógio. — Exatamente às doze e quarenta e um e zero segundos os senhores ativarão os jatos-propulsores de partículas para levar os veículos o mais depressa possível para dentro da base, através do rombo aberto pelos torpedos. Isto é uma ordem. Confirmem, por favor. Redhorse viu pelo canto dos olhos que Frizz e Holl o fitavam apavorados. Uma voz meio rouca bastante nervosa saiu do receptor.

— Mas, senhor, isso é

— Quero a confirmação! — gritou Redhorse. — Eventuais objeções poderão ficar

para mais tarde. Depois de alguns segundos, nos quais não se ouvia nada além do ruído das interferências, ouviu-se uma voz assustada.

— César Três a César Zero, senhor. Confirmo o recebimento da ordem. Ativaremos

o propulsor espacial às doze e quarenta e um e zero segundos. César Três desligando.

A confirmação de César Um veio em seguida. Redhorse colocou o microfone no gancho. Era o sinal que Frizz Eisner estivera esperando.

— Você só pode ter enlouquecido — indignou-se. — Por que não deu ordem para

que os homens encostassem o cano de uma arma energética na cabeça e puxassem o

gatilho? Redhorse olhou para o relógio. Faltavam noventa segundos para o propulsor ser

ativado. Holl Vincent não disse nada. Era porque pensava da mesma forma que Frizz. Isso acontecia raramente, mas quando acontecia a situação era grave.

— Você está exagerando — respondeu Redhorse, sem tirar os olhos da tela. — É

perigoso, mas vamos escapar. — Será? — escarneceu Frizz. — No momento em que você abrir os tubos dos propulsores, o metano inunda tudo. E no momento em que acionar o sistema de propulsão, o raio de partículas com seu elevado teor energético volatiliza o metano, causa sua dissociação e ioniza os componentes. Dentro de alguns décimos de segundo a máquina ficará repleta de plasma de carbono e hidrogênio. A mesma coisa acontecerá fora dos tubos de propulsão, nos lugares atingidos pelo jato. Deslocar-nos-emos no interior de uma nuvem de plasma em estado hipercrítico. Assim que o propulsor for desligado, terá início o processo de reassociação. Acha que sobrará alguma coisa de nós quando milhares de toneladas de plasma se reconverterem em moléculas de hidrogênio e metano? Haverá um grande estouro, e a expedição maluca de Don Redhorse já era. Don Redhorse olhava fixamente para o cronômetro, com a mão direita pousada na chave-mestra do jato-propulsor de partículas. As mesmas dúvidas manifestadas por Frizz tinham levado o próprio Don a abandonar a idéia no início. Qualquer cadete da Academia Espacial aprendia que não se devia usar um jato-propulsor de partículas num ambiente formado por matéria ionizável com uma densidade superior a 0,3 gr/cm 3 , já que a ação recíproca entre o raio de partículas e a matéria fatalmente provocaria um estado instável hipercrítico, que depois de ser desligado o propulsor terminaria numa explosão carregada de energia. Faltavam vinte segundos. Era um princípio válido para a Academia. Servia para proteger os cadetes contra perigos que não estavam em condições de enfrentar. Mas um fator importante deixara de ser considerado. O veículo se deslocava enquanto o raio de partículas criava o campo plasmático. 1240 indicou o cronômetro. As cifras luminosas dos segundos correram num ritmo implacável. 52, 53, 54, 55 É agora! Os dedos médio e indicador, preparados há minutos para este instante, moveram a chave como se fosse uma peça de aço cuja resistência só pudesse ser vencida pela violência. Durante alguns instantes que pareciam uma eternidade não aconteceu absolutamente nada. De repente o corpo esguio do jato sofreu um solavanco. Uma luminosidade colorida vinda não se sabia de onde encheu a cabine apertada com uma luz fantástica. Uma força irresistível parecia comprimir Don Redhorse contra o encosto da poltrona. Don não tirava os olhos da tela. Uma nuvem de luz colorida cortara a escuridão das profundezas. Trilhas luminosas verdes, vermelhas, azuis, amarelas, confundiam-se num torvelinho que nem névoas coloridas num redemoinho. Nos lugares em que se condensavam surgiam figuras esféricas ofuscantes, que expeliam jatos de luz para todos os lados. Era um quadro de uma beleza encantadora, que fez com que os homens esquecessem o perigo que ele encerrava.

Redhorse sobressaltou-se ao ouvir a voz estridente de Holl Vincent.

— Parede rochosa dois quilômetros à nossa frente. Estamos num campo de sucção

diabólico. Um e Três seguem-nos de perto. Redhorse acenou com a cabeça. A existência do campo de sucção provava que o rombo ainda não fora fechado. O jato deslocava-se a pelo menos quatrocentos quilômetros por hora num ambiente formado em grande parte por plasma altamente

ionizado. A estrutura do veículo resistia perfeitamente à carga tremenda. O perigo era o calor que se formaria quando o plasma entrasse no processo de reconversão.

A parede lisa e íngreme do rochedo apareceu no meio da nuvem luminosa

turbilhonante. Um buraco gigantesco de bordas entrecortadas e incandescentes em alguns

lugares abria-se bem à frente da César Zero. Os esguichos de luz misturavam-se com bolhas gigantescas de vapores de metano superpressurizados que subiam em velocidade incrível das bordas quentes do buraco. Redhorse voltou a levar o microfone para perto dos lábios.

César Um e Três, sigam-nos. Vamos entrar.

Os

contornos dos dois aparelhos apareceram na tela por uma fração de segundo. As

bordas do buraco foram passando junto ao jato. Parecia que a agitação e o burburinho dos esguichos luminosos estavam diminuindo.

— Três quilômetros à nossa frente, uma parede de rocha compacta! — gritou Frizz. Redhorse distinguiu os contornos vagos de um gigantesco pavilhão. Notou que o

jato não se deslocava mais no líquido, mas através dos vapores de metano terrivelmente comprimidos sob a pressão tremenda do mar.

Desligar propulsores! — gritou.

As

bombas ainda estavam funcionando. Na matéria gaseificada tornavam-se menos

eficientes, mas a pressão incrível fazia com que o metano em estado gasoso se tornasse viscoso a ponto de permitir um deslocamento relativamente seguro.

O veículo sofreu um terrível solavanco ao tocar o chão. As peças de metal

maltratadas rangeram. A imagem confusa projetada na tela parecia ter entrado num

carrossel louco. O sangue subiu à cabeça de Redhorse, martelando violentamente nas têmporas. Don percebeu que os cintos de segurança começavam a ceder. Quis estender as mãos para segurar-se em alguma coisa, mas a pressão foi tamanha que as empurrou para outro lado. Redhorse estava quase inconsciente quando o rangido finalmente diminuiu e a pressão ficou mais fraca. Conseguiu pôr-se de pé. Frizz e Holl também estavam se recuperando. Uma luz amarelenta calma e uniforme enchia a pequena cabine. Redhorse levantou os olhos para a tela. O quadro mudara. A agitação colorida do plasma desaparecera. O jato parecia envolto numa névoa ondulante. De algum lugar, bem no alto, vinha a luz amarelada saída de meia dúzia de grandes luminárias. Redhorse voltou ao assento do piloto. Cambaleava e estava meio atordoado.

— César Zero chamando Um e Três. Chegamos sãos e salvos. Fomos sacudidos um

pouco, mas de resto está tudo em ordem. Como estão as coisas por aí? Alguns segundos se passaram em martírio antes que respondesse uma voz calma, quase imperceptível. — César Um falando. Tudo em ordem, senhor. Batemos com a cabeça, mas o veículo não sofreu avarias de monta. — Muito bem — disse Redhorse e percebeu que aos poucos recuperava a autoconfiança. — César Três, responda. Tudo ficou em silêncio.

Pingos de suor cintilantes apareceram na testa de Redhorse.

César Três

!

De

repente a voz cansada vinda de César Um voltou a falar.

Do lugar em que estamos distinguimos objetos parecidos com um pedaço de asa

e a popa de um jato, senhor. Provavelmente César Três explodiu com o impacto.

* * *

Aser Kin sobressaltou-se quando o trovão distante de uma explosão encheu a câmara do transmissor. Há algum tempo voltara a trabalhar para soltar as amarras que o prendiam. Desta vez usava um método diferente. Depois de o corpo voltar ao estado normal, quando mexia o braço instrumental direito por alguns milímetros, descansava alguns minutos. Com isso ganhava tempo a longo prazo, pois não se cansaria e não precisaria de um período prolongado de sono.

O ruído da explosão acabou derrubando seus planos. Assustado, deu-se conta de

que a premissa mais importante em que se baseara seu plano não era correta. O inimigo

sabia onde estava. A explosão provava que estava prestes a entrar nas instalações em cujo interior se encontrava.

O condicionado em segundo grau passou a trabalhar desesperadamente. Mesmo

assustado, ainda possuía bastante discernimento objetivo para perceber que apesar de

tudo lhe restava uma chance, mesmo insignificante. A explosão parecia ser um sinal de que os terranos tinham problemas. Não sabia de que espécie eram as instalações em cujo interior se encontrava, mas certamente seriam defendidas.

A única esperança que lhe restava era que o inimigo fosse detido até que

conseguisse libertar-se.

* * *

Tro Khon aguçou o ouvido.

Os instrumentos de Old Man e um dos sete coordenadores de seu dolan acabavam

de registrar um forte impulso vindo da superfície de Netuno. A interpretação dos dados revelou que se tratava de seis impulsos emitidos praticamente ao mesmo tempo. A análise estrutural dos impulsos mostrou que estes tinham sido produzidos por explosões nucleares. Isso esclarecia um ponto importante. O inimigo não fora destruído pelo fogo de Old Man. Conseguira chegar à superfície do planeta de metano.

Os impulsos detectados mostravam que estava enfrentando dificuldades. O cérebro

programador de Tro Khon não teve nenhuma dificuldade em formar um quadro aproximado da situação reinante em Netuno. Era praticamente certo que Aser Kin fora levado de Triton por um transmissor. O outro pólo do aparelho, em cujo campo Aser Kin rematerializara, não se encontraria num lugar qualquer da superfície de Netuno, que não apresentava condições de vida. Certamente faria parte de uma base. O cérebro programador logo rejeitou a hipótese de que talvez se tratasse de uma base terrana. Os terranos tinham-se interessado pelas luas dos planetas exteriores de seu sistema, mas não pelos próprios planetas. As bases dessa espécie possuíam uma guarnição — formada em parte por seres orgânicos, em parte por robôs enquanto eram usadas pelos seres que as tinham construído, e inteiramente robotizada depois disso. Os robôs fariam o possível para manter afastados os intrusos. As seis explosões nucleares tinham sido produzidas por projéteis disparados pelos robôs contra os terranos ou pelos terranos contra os robôs.

Neste ponto Tro Khon viu-se obrigado a fazer uma distinção. Era possível que a batalha entre robôs e terranos, que estava sendo travada em Netuno, afetasse a segurança de Aser Kin. Mas a raça dos condicionados em segundo grau tinha uma estrutura orgânica que fazia deles os seres mais resistentes do Universo. No estado cristalino o corpo do condicionado em segundo grau suportava temperaturas que se aproximavam do zero absoluto ou dos dois mil graus positivos. Não precisava de qualquer atmosfera para sobreviver. Vivia no vácuo absoluto do espaço cósmico. Era praticamente invulnerável. Mas a energia tremenda de uma bomba nuclear era capaz de matá-lo. Se uma dessas bombas explodisse bem perto de Aser Kin ele estaria perdido, indefeso, certamente sem contar com seu campo defensivo individual, e talvez até inconsciente. Tro Khon tinha de resolver um problema. Devia ir em auxílio de Aser Kin? Depois que os impulsos detectados tinham sido interpretados, conhecia o local em que estava sendo travada a batalha a ponto de não precisar perder tempo procurando-o. Estava em condições de intervir na luta e salvar Aser Kin. A resposta de Tro Khon foi negativa. O avanço para Netuno causaria complicações desnecessárias. Uma delas seria o fato de que, mostrando como os condicionados em segundo grau poderiam ser atraídos para fora de sua reserva com a perda de um dos seus, o inimigo teria uma indicação preciosa e alcançaria uma vitória psicológica. Os condicionados em segundo grau formavam um grupo reduzido, e, nas reflexões de Tro Khon, um único de seus companheiros tinha a mesma importância que um exército no raciocínio de um estrategista terrano. Mas o companheiro não chegava a ser completamente indispensável. Na verdade, deu-se conta Tro Khon, Aser Kin e sua segurança pessoal desempenhavam um papel secundário. O importante era que não caísse nas mãos dos terranos. “E isso”, concluiu Tro Khon, “é mais fácil de impedir na posição atual que por meio de uma ação direta em Netuno.

6

Acabavam de sair dos jatos e caminhavam pesadamente através da atmosfera densa de metano que enchia o gigantesco pavilhão. Os instrumentos mostravam que a pressão externa era superior a três mil e quinhentas atmosferas. Os trajes espaciais dos homens tinham sido inflados automaticamente, o material dividira-se em milhares de camadas finíssimas, e entre uma e outra a pressão diminuía umas poucas atmosferas de fora para dentro, de forma que o traje resistia facilmente à pressão tremenda, enquanto a pressão interna era mantida constante em uma atmosfera. Avançaram lentamente, principalmente por causa da viscosidade do gás, não tanto pela gravitação de Netuno, que era pouco superior à da Terra. Estavam fortemente armados. Eram sete homens que estavam decididos a recolher um condicionado em segundo grau e levá-lo à Terra com vida. Atrás deles, quase invisível na bruma leitosa, abria-se um buraco gigantesco feito pelos torpedos. Além do buraco o mar de metano brilhava num colorido ofuscante. Um forte rugido enchia o pavilhão, mas os sete homens não se abalaram com o que pudesse acontecer do lado de fora. Caminhavam pesadamente em direção à parede dos fundos do pavilhão. A hipótese de Don Redhorse acabara sendo confirmada pelos fatos. Enquanto os jatos estavam em movimento, a reconversão altamente energetizada do plasma não poderia afetá-los, porque se verificava bem atrás dos veículos. O momento crítico seria aquele em que os propulsores fossem desligados, permitindo que o processo de reconversão alcançasse os jatos. Se tivessem parado no metano em estado líquido, seriam fatalmente destruídos. Mas no interior da atmosfera densa, mas gasosa, o processo era mais lento e não causava a geração explosiva de energia sem a qual os veículos não sofreriam avarias mais graves. O processo ainda estava em pleno andamento em torno dos homens. Mas era tão fraco que as radiações emitidas pelos átomos que participavam do processo de reconversão se perdiam na luz amarela. Mas apesar disso Redhorse teve um calafrio ao lembrar-se do risco que assumira. Sua teoria baseava-se na suposição de que no interior da base encontrariam uma atmosfera gasosa. Admitira que os velhos lemurenses tinham projetado o mecanismo destinado a fechar o rombo de uma forma que garantia um funcionamento simples e seguro. Qualquer arma capaz de romper a parede rochosa gerava bastante calor para volatilizar grandes quantidades de metano. O metano em estado gasoso enchia a câmara atrás do rombo. Sua pressão aumentava enquanto o metano em estado líquido penetrava no interior do recinto, até alcançar a pressão do mar, interrompendo o processo. O metano em estado líquido cobria o chão do pavilhão junto ao rombo, numa extensão de vários metros. O chão subia em direção à parede traseira, primeiro fortemente, depois de uma forma mais suave. Assim que a pressão de dentro atingisse o mesmo nível da do lado de fora, o metano em estado líquido deixaria de entrar e o resto do pavilhão continuaria seco. Ainda bem que Redhorse tivera razão. Se os lemurenses tivessem usado outro princípio para fechar a abertura, os jatos teriam parado dentro do metano líquido, e a esta hora todos teriam morrido. Restava saber que outras providências tinham tomado os seres que construíram a base para que o forte voltasse ao estado anterior. O intercâmbio térmico com o metano

em estado líquido faria com que o gás esfriasse e também voltasse ao estado líquido. Se não fosse feito mais nada, o pavilhão dentro de cinco ou seis horas ficaria cheio de

metano líquido até o teto. Mas isso não poderia interessar aos donos da base. A abertura certamente seria fisicamente vedada, para que os defensores do forte pudessem continuar

a usar o pavilhão. Redhorse não tinha a menor idéia de que forma os lemurenses — ou os robôs que passaram a guarnecer a base — cumpririam a tarefa. Mas não tinha a menor dúvida de que dispunham de recursos para isso. De repente Frizz Eisner, que caminhava bem a seu lado, disse:

— Ora vejam. A pressão subiu vinte atmosferas em dois minutos.

É isso”, pensou Redhorse, “a pressão no interior do pavilhão é aumentada por meio de bombas, até que a última gota de metano seja expelida através do rombo.” Provavelmente havia aquecedores embutidos no piso, no teto e nas paredes, que mantinham o ambiente suficientemente aquecido para evitar a condensação do metano em estado gasoso. Dentro em breve apareceria um grupo de robôs móveis que começaria

a refazer a parede rochosa e fechar a abertura. Redhorse lembrou-se do piloto da César Zero que morrera. Tinham-no colocado junto ao jato, dentro do traje espacial fechado. Tombara diante do inimigo, morrera de uma forma ridícula, e o pavor daquela guerra chegava a tal ponto que ele nem sequer teria um enterro decente. A durabilidade do traje em que estava envolto era praticamente ilimitada. Algum indivíduo que se perdesse naquele pavilhão dali a alguns milênios daria com o morto e se perguntaria como ele fora parar ali. Finalmente atingiram a parede dos fundos. Eram 1556 horas TLJS do dia 2 de março de 2.436. Tinham levado pouco menos

de treze horas desde o início da operação para chegar àquele lugar. Isso custara a vida de quatorze homens. Don Redhorse viu-se obrigado a tomar outra decisão. A parede era bem lisa. Não se via o menor sinal de uma escotilha cujo mecanismo de trava talvez pudesse ser decifrado para dar acesso ao interior do forte. Restava saber o que ficava atrás daquela parede. O que aconteceria se as armas energéticas queimassem um buraco na rocha? Qual seria a pressão no interior da base? Redhorse resolveu confiar na genialidade dos engenheiros lemurenses. Pouco importava o que tivessem inventado — o grupo não tinha alternativa senão abrir caminho através da parede.

— Recuem cinco passos! — ordenou com a voz apagada. — Atirarei. Atirem em

seguida para o lugar que eu cobrir com meu fogo. Os homens recuaram. Redhorse levantou o cano da arma energética e apertou o botão acionador. O feixe de concentração média atingiu a parede com um chiado. A rocha começou a volatilizar. As outras armas também entraram em ação. Uma mancha incandescente branca formou-se na parede. Os vapores da rocha desciam preguiçosamente. A superfície incandescente foi-se abaulando para o lado de dentro, mais rapidamente do que Redhorse esperara. Trilhas escuras dentadas surgiram nos lugares em que ela foi rompida. Tudo se passou com uma rapidez alucinante. Redhorse não precisou dar qualquer ordem para que os homens parassem de atirar. A diferença de pressão entre a face interna e a face externa da parede cuidou do resto. A superfície luminosa fragmentou-se em milhares de pedacinhos, como se tivesse sido atingida por uma marreta gigante, e os fragmentos foram arrastados pela sucção que se formou no buraco. Redhorse aproximou-se da abertura. Do outro lado havia uma sala pequena.

Deve ser uma espécie de eclusa”, pensou. Na parede que ficava do outro lado destacavam-se os contornos de uma escotilha pesada de metal. De ambos os lados da

escotilha havia nichos na parede, cujo interior não via do lugar em que se encontrava. Não tinha a menor idéia sobre a finalidade deles. Redhorse levantou o braço.

— Tudo em ordem — disse em tom confiante. — Vamos entrar.

Foi o primeiro a atravessar a abertura. Os homens seguiram-no de perto, dando a impressão de que tinham medo de perder contato. Holl Vincent apontou para a escotilha que ficava do outro lado.

— Ainda falta resolver o problema principal — disse em tom indiferente. — Neste

instante a pressão nesta sala é igual à do pavilhão. Assim que abrirmos esta escotilha, a próxima sala também ficará cheia. Estou curioso para ver como acabará tudo isto. Don Redhorse foi para perto da escotilha, cujo mecanismo de trava era bem simples. Redhorse tinha certeza de que saberia lidar com ele. — Em algum lugar — disse, despreocupado — certamente encontraremos uma eclusa de verdade com umas bombas de grande potência. Aí Redhorse foi interrompido por um ruído que veio dos fundos da sala. Virou-se abruptamente. O grupo encontrava-se na parte traseira da sala. Ao entrar tinham passado perto dos nichos e constataram que estavam vazios. Mas não estavam mais. O sangue quase congelou nas veias de Redhorse quando viu que a situação mudara completamente. Embaixo de cada um dos seis nichos via-se um bloco de metal cintilante, uma figura estranha apoiada sobre um conjunto complicado de rolos, que mal e mal tinha bastante semelhança com os contornos do corpo humano para que se pudesse identificar um robô. Eram robôs de combate. Aquilo que parecia um par de braços armados na verdade eram os canos de armas energéticas pesadas. Os braços subiram lentamente. Don Redhorse deparou-se com uma boca de arma em forma de funil e contemplou hipnotizado a luminosidade vermelha trêmula que surgira no interior do cano. Uma única idéia dominou sua mente paralisada. “É o fim!

* * *

Depois dos impulsos produzidos pela energia remanescente das seis explosões nucleares ficou tudo em silêncio. Da série de acontecimentos podiam-se tirar duas conclusões evidentes. Os terranos tinham sido destruídos ou haviam quebrado a resistência do forte robotizado. Tro Khon convocou uma reunião. Seus companheiros, cada um no interior de seu dolan, encontravam-se a milhares de quilômetros de distância, mas o contato parapsíquico estabelecido através dos coordenadores era tão estreito, que até se poderia ter a impressão de que os outros condicionados em segundo grau se encontravam no interior da sala de comando de Tro Khon. Para dar um aspecto real ao quadro, os coordenadores geraram uma imagem em três dimensões, perfeitamente focalizada, fazendo com que Tro Khon pudesse facilmente imaginar que ele e seus companheiros estavam sentados em torno de uma mesa.

— Não estamos mais recebendo sinais da superfície do planeta de metano — disse, abrindo a reunião. — O comando inimigo deve ter sido destruído, ou então está

avançando sem encontrar resistência forte. Se esta última hipótese for correta, o regresso do comando poderá verificar-se a qualquer momento. Neste caso avistaremos os veículos inimigos, isso se for mais de um, o mais tardar dentro de dez horas do padrão deles. Se isso não acontecer, deveremos supor que o grupo foi destruído em Netuno. Tro Khon esperara uma objeção, e esta veio mesmo.

— Não devemos admitir a possibilidade — indagou um dos companheiros de Tro

Khon — de o inimigo ser bem-sucedido, mas retardar o regresso para enganar-nos? — Tenho certeza de que o inimigo se sentiria muito feliz se tivesse essa possibilidade — respondeu Tro Khon. — Acontece que na situação em que se encontra não pode perder tempo. Old Man põe em perigo a Terra. Os terranos esperam que seu planeta seja atacado a qualquer momento. A única chance de repelir o ataque é arrancar de Aser Kin tudo que ele sabe. Tenho certeza de que não estão em condições de obrigar

nosso companheiro a revelar seus conhecimentos. Acontece que o inimigo não sabe disso. Mesmo que soubesse, certamente tentaria. Por isso o comando será obrigado a sair de Netuno o mais depressa que puder. Em minha opinião não demorará mais de dez horas terranas para aparecer. Tro Khon fez uma pausa para certificar-se de que não havia outras objeções.

— Nesta altura somos obrigados a tomar uma decisão importante — prosseguiu. —

Quando o grupo partir de Netuno, Aser Kin estará a bordo de um dos veículos inimigos. Para resgatá-lo vivo, teríamos de apoderar-nos desse veículo. Acho que não é necessário enumerar as complicações que a operação fatalmente acarretaria. Os terranos seriam capazes de transformar o veículo numa bomba viva quando percebessem nossas intenções. Ou, o que seria ainda mais simples, matariam Aser Kin antes que pudéssemos pôr as mãos nele. Quer dizer que qualquer plano de salvar nosso companheiro estará condenado ao fracasso. “Sei perfeitamente que todos nos sentimos ligados a Aser Kin e não recuaríamos diante de qualquer esforço para salvar sua vida. Mas os motivos pessoais têm de ser colocados em segundo plano diante da tarefa que temos a executar. “Por isso não teremos alternativa. Seremos obrigados a destruir os veículos do grupo de comando assim que estiverem ao alcance das nossas armas. É a única maneira de evitar que Aser Kin possa trair nossa causa — caso o inimigo acabe conseguindo criar a técnica psicofísica necessária para interrogar um ser da nossa espécie. “Quer dizer que destruiremos o comando. Em seguida trataremos imediatamente de cumprir a tarefa que nos fez vir para cá: punir a raça dos terranos pelo crime contra o tempo por ela cometido e usar nossa superioridade de forças para fazê-los regredir a um estágio de desenvolvimento, em que se torne impossível a prática de outros crimes dessa espécie por alguns milhares de séculos.”

* * *

1600 TUS, 2 de março de 2.436.

— Estamos fazendo uma excelente viagem — afirmou Reginald Bell. Estava bem-

humorado e olhava com certo desdém para a grande tela de imagem na qual se via o cinza apagado do espaço linear e os pontos luminosos estranhamente foscos das estrelas. — Se mantivermos a mesma velocidade, chegaremos dentro de oito horas.

Abel Waringer estava refestelado numa confortável poltrona, com as pernas cruzadas e sugando no cachimbo, que não largara uma única vez desde o momento em que, um dia atrás, se encontrara com Bell em Last Hope.

— Também tenho uma boa notícia — espremeu pelo lado direito da boca. — Nosso

detector de energia estranha e conversor de freqüência, conhecido como dê-e-e-cê, está acoplado com o mais potente de seus canhões conversores e completou com sucesso os primeiros testes. Dois dos meus homens estão equipando outro canhão com o DEEC, mas com a velocidade que estamos desenvolvendo provavelmente não completarão o serviço antes do fim da viagem. Reginald Bell fez um gesto de pouco-caso.

— Basta um canhão — disse. — Mais tarde precisaremos de outros, mas enquanto

os condicionados em segundo grau não souberem o que temos preparado para eles

poderemos arranjar-nos com uma peça. Bell voltou a olhar para a tela. Desta vez estava sério e parecia um pouco preocupado.

— O fato é — disse em tom pensativo — que não posso dar-me ao luxo de reduzir a

velocidade. É possível que neste instante a Terra já se tenha transformado num inferno. Cada segundo que ganharmos na viagem poderá representar a diferença entre a vida e a morte.

7

Primeiro parecia uma idéia louca, que apareceu em sua mente com a força de um

raio. Mas não havia tempo para analisá-la. Vira a cintilância vermelha no interior do cano da arma e sabia que, se não agisse logo, estaria perdido. Obedeceu instintivamente ao comando do subconsciente.

— Fo-lar! — ouviu dizer a própria voz. Era uma expressão tefrodense que

significava pare. — Maranoth vi-ler! (— Estamos autorizados!) Um tempo infinitamente longo parecia ter passado, durante o qual os olhos lacrimejaram enquanto olhava fixamente para os seis robôs, aguardando sua reação. Finalmente as máquinas baixaram os canos das armas. O sentimento de alívio foi tão intenso que ele ouviu o sangue zunindo nos ouvidos, enquanto anéis coloridos dançavam diante de seus olhos. Fora uma idéia ingênua, mas funcionara. Deveria ter-se lembrado disso antes. A nação dos lemurenses estava desaparecida há cinqüenta mil anos, mas as máquinas que

controlavam o forte de Netuno não possuíam a noção do tempo. Para eles uma hora era igual a outra, o dia de hoje não tinha nenhuma diferença do de ontem, e a única coisa que identificava um intruso como um ser hostil ou amistoso era a língua que falava. Don Redhorse e seus subordinados dominavam o tefrodense, a língua dos lemurenses que tinham emigrado para a galáxia de Andrômeda, e que conservara sua pureza no curso dos milênios, a tal ponto que ainda parecesse um dialeto do velho lemurense que pouco se distinguia da língua original. Ao seguir a intuição, Don Redhorse nem tivera certeza se os robôs poderiam ouvi- lo. O traje espacial que usava estava equipado com um sistema acústico que transmitia os ruídos de fora para dentro. Para receber os ruídos em sentido inverso, dependia da capacidade de conduzir o som que apresentava a estrutura de membranas que o protegia contra a terrível pressão do ambiente em que se encontrava. Fora bem-sucedido. Os sons de sua voz tinham sido transmitidos e foram captados pelos robôs. Um dos seres-máquina veio rolando para perto dele.

— Errnek va-lar! (— Obedeceremos!) — disse uma voz mecânica.

Redhorse respondeu em tefrodense, no tom de quem não esperara outra coisa.

— Estamos à procura de um prisioneiro vindo pelo transmissor. É importante. Devemos levá-lo.

— Não temos acesso à sala do transmissor — respondeu o robô. — Mas temos

certeza de que há pouco tempo o transmissor esteve em funcionamento fazendo

materializar um objeto.

— Muito bem. Leve-nos à sala dos transmissores. Pelo menos até onde puder ir. Do resto nós cuidaremos.

— Obedecerei. Afaste-se.

Don Redhorse e seus companheiros ficaram postados de ambos os lados da escotilha. O robô abriu-a. Atrás dela havia uma eclusa. A pressão em seu interior certamente fora adaptada à pressão externa, uma vez que a escotilha se abriu com a maior facilidade e sem o menor ruído. Os homens entraram na câmara da eclusa. Redhorse olhou por cima do ombro e viu que estavam sendo acompanhados por apenas dois robôs. Os outros tinham desaparecido. Parecia que os nichos possuíam entradas e saídas ocultas.

A atmosfera de metano muito densa foi bombeada para fora da eclusa para ser

substituída por ar respirável sob pressão normal. Don Redhorse foi o primeiro que se arriscou a abrir o capacete. O ar que aspirou era fresco e tinha um perfume refrescante. Os equipamentos de climatização lemurense tinham resistido perfeitamente aos cinqüenta mil anos. Do outro lado da eclusa havia um corredor largo e bem iluminado, que levava para o interior da base. Havia esteiras rolantes que garantiam uma locomoção rápida. Viam-se alguns robôs que trabalhavam nos aparelhos instalados no teto ou nas paredes. A idéia de que estavam realizando este trabalho há cinqüenta mil anos, em silêncio e passivamente, para manter em funcionamento certos aparelhos que, segundo tudo indicava, nunca mais seriam usados, chegava a ser perturbadora e preocupante. Corredores estreitos cruzavam o corredor largo pelo qual se deslocavam, em ângulo reto e a pequena distância um do outro. Não possuíam esteiras rolantes. Redhorse olhou para dentro de alguns deles e viu que não eram muito longos. Teve a impressão de que, ao instalar a base, os lemurenses só haviam utilizado uma pequena parte do volume de rocha de que podiam dispor. O forte penetrava vários quilômetros na rocha, mas não havia nenhum lugar em que sua largura excedesse algumas centenas de metros. Depois de vinte minutos de viagem, o corredor terminou em outro mais largo e as esteiras rolantes desapareceram no chão depois de passar por fendas estreitas. Os homens desceram e foram para o outro corredor. Este fazia curvas ligeiras para a direita e a

esquerda, até onde alcançava a vista, e parecia fazer parte de uma via de tráfego circular que contornava o centro propriamente dito da base. Os dois robôs não os acompanharam.

— Aqui termina a área à qual temos acesso — disse um deles. — A sala do

transmissor fica numa sala bem atrás da usina da força central. Lá encontrarão robôs especializados. Quando se depararem com eles, usem o código Karahol para evitar complicações. Redhorse confirmou o recebimento da mensagem e atravessou o corredor com seu grupo. Um pouco adiante da saída do corredor pelo qual tinham vindo, na parede que ficava do outro lado, havia uma escotilha do tamanho de um portão. Certamente servia

para deixar passar objetos volumosos. O mecanismo de trava era bem simples. Atravessaram a escotilha e entraram num pavilhão em cujo interior estavam abrigados os robôs de distribuição firmemente ancorados da usina principal. Havia um robô-porteiro junto a entrada. Parecia que não estava armado, mas na situação em que se encontrava Don Redhorse não estava disposto a assumir qualquer risco, por menor que fosse. Preferiu pronunciar a palavra-código.

— Identificado. Estou preparado para receber instruções — respondeu o porteiro.

— Procuro a sala do transmissor — disse Redhorse. — Há um prisioneiro por lá.

— É verdade — confirmou o robô. — Materializou há oitenta e uma horas. Os senhores terão um guia à sua disposição. Um pequeno objeto cúbico veio rolando de um dos cantos da ampla sala.

— Sigam-me! — pediu com uma voz de tom surpreendentemente agradável e

começou a movimentar-se ao longo do corredor central. Atravessaram várias salas em cujo interior tinham sido instalados reatores de fusão em forma de torre. Alguns deles ainda funcionavam. A julgar pelo calor que enchia as salas, ainda há pouco tempo todos eles deviam ter estado em atividade. A notícia de que os intrusos eram pessoas amigas não demorou a espalhar-se. Já não havia necessidade do volume de energia que se tivera a precaução de reservar para os canhões.

O robô-guia parou a frente de uma escotilha ampla que não apresentava nenhuma

característica especial, a não ser o tamanho, que pudesse levar alguém a acreditar que a

sala situada atrás dela era muito importante.

— É a entrada da sala do transmissor — informou o robô.

Don Redhorse virou a cabeça e contemplou seus subordinados. Seus olhos exprimiam satisfação, satisfação pelo fato de terem cumprido sua tarefa até onde isso

podia ser feito pela iniciativa humana. A parte que ainda faltava dependia exclusivamente da sorte e do acaso. “Chegamos”, parecia dizer seu olhar. “Tiveram toda razão de exigir que avançássemos até aqui, pois os sacrifícios necessários para abrir o caminho foram feitos por outros, pelos homens que se encontram nas naves da frota. Chegamos. Dentro de mais alguns minutos poremos as mãos no prisioneiro. Levá-lo-emos para bordo e abandonaremos Netuno. O que virá depois fica fora do nosso controle.” Don voltou a olhar para a escotilha.

— Abra! — ordenou ao robô.

* * *

Aser Kin travou a grande luta de sua vida — e perdeu. Começava a alcançar a extremidade inferior da tira de terconite com um dos polegares da mão instrumental

direita, quando sentiu a presença de seres pensantes nas imediações. Sozinho, o polegar não tinha força para girar a tira e soltá-la. Aser Kin precisaria de pelo menos mais cinco conversões e reconversões para colocar mais um dos dedos na posição certa. Mas não havia tempo para isso. Aser Kin perdera a corrida com o tempo.

O sentimento da raiva e da vergonha inundou sua mente, afogando que nem uma

onda enorme a atividade do cérebro programador. Tremendo de raiva, ficou deitado no

chão, indefeso, quando num lugar situado dentro de seu campo de visão a parede abaulada começou a abrir-se, deixando ver figuras humanas.

Entraram. Eram sete ao todo. O que ia na frente era um gigante pelos padrões humanos. Seus olhos verdes fitaram-no com uma expressão fria e calma. Tinha a cabeça raspada, com exceção de uma faixa de cabelos curtos que ia da testa até a nuca.

O homem maior começou a falar. Aser Kin dominava o terrano bastante bem para

compreendê-lo perfeitamente. — Eis aí nosso homem — ouviu dizer o homem maior, enquanto este virava

ligeiramente o corpo e apontava para o prisioneiro. — Não será fácil levá-lo daqui. Em seguida, para espanto de Aser Kin, passou a falar outra língua. Deu uma ordem em tefrodense ao pequeno robô cuja presença só então Aser Kin notou.

— Precisamos de auxílio para levar o prisioneiro.

— Obedeço — respondeu o robô solícito. — Daqui a pouco terão o auxílio.

Aser Kin começou a compreender o que estava acontecendo. Conhecia a história desse setor da galáxia e sabia que ela abrangia um período de cinqüenta mil anos. Na época os lemurenses, que habitavam a Terra, controlavam um império estelar de tamanho considerável. O transmissor pelo qual fora transportado certamente era um antiqüíssimo aparelho lemurense. A sala em cujo interior se encontrava fazia parte de uma base lemurense situada em um dos planetas do Sistema Solar. De repente deu-se conta por que os terranos não tinham encontrado uma resistência mais forte antes de chegarem a esse

lugar. Eram parecidos com os lemurenses e dominavam a língua destes. Portanto, os robôs não tinham motivo para pensar que fossem inimigos. Um dos sete, um homem baixo que colocara o capacete espacial desleixadamente sobre o ombro, aproximou-se de Aser Kin e inclinou-se sobre ele.

— Meu Deus! Que sujeito enorme! — exclamou sem tentar esconder o espanto.

Aser Kin media quatro metros e meio da sola dos pés até o alto do crânio semi-

esférico, duas vezes e meia mais que um terrano normal. A largura dos ombros era superior à altura do mais alto dos terranos. O homem inclinado sobre Aser Kin endireitou repentinamente o corpo. Parecia que acabara de ter uma idéia.

— Aposto que não o levaremos a bordo — exclamou. O homem alto de cabeça

raspada aproximou-se. — É uma possibilidade que temos de considerar — reconheceu. Examinou atentamente o braço instrumental direito de Aser Kin e sorriu ironicamente. — Parece que nosso amigo soube preencher seu tempo. Conseguiu levar a mão instrumental direita para perto da tira de terconite. Mais uma hora ou duas, e ficaria livre.

tira de terconite. Mais uma hora ou duas, e ficaria livre. Um robô entrou rolando. Tratava-se

Um robô entrou rolando. Tratava-se de uma máquina trabalhadora que apresentava um número impressionante de ferramentas e aparelhos. O homem mais alto deu algumas ordens ligeiras. Quatro braços instrumentais saíram do robô e Aser Kin sentiu-se agarrado e levantado. Acabou deitado numa plataforma que fazia parte da carroçaria do robô. A máquina começou a deslocar-se imediatamente, e graças à extraordinária visão global proporcionada por três olhos grandes, Aser Kin percebeu que os terranos a seguiram de perto.

* * *

Eram 2110 TUS quando o pequeno grupo guiado pelo robô trabalhador chegou ao grande pavilhão em cujo interior estavam estacionados os dois jatos. Conforme supusera Don Redhorse, estavam sendo realizados trabalhos para fechar a grande abertura que se

formara na parede externa. O metano líquido fora bombeado para fora. Robôs especializados deslizavam junto às bordas da abertura e aspergiam alguma coisa através de gigantescos aparelhos parecidos com canhões antiquados. Das bocas dos canhões saía uma massa que poderia ser rocha plastificada e que endureceu ao simples contato. Os robôs deslocavam-se no sentido dos ponteiros do relógio em torno da abertura, e o diâmetro desta diminuía a cada volta que completavam. Frizz Eisner tinha razão. O condicionado em segundo grau era tão grande que seria impossível colocá-lo numa cabine. Don Redhorse já contara com isso depois que Frizz lhe falara a respeito e tomara sua decisão. Aproximou-se do robô trabalhador em cujas costas achatadas estava deitado o prisioneiro que até então permanecera em silêncio. Assim que o grupo saíra da base e entrara no pavilhão em cujo interior havia uma atmosfera de metano, ele convertera o corpo na fase rígida. Mas Redhorse sabia que apesar disso conservava certo controle da musculatura e, o que era mais importante, era capaz de ouvi-lo e de falar. — Sei que me compreende — disse em voz bastante alta para que suas palavras pudessem ser ouvidas através do capacete. — Quero explicar uma coisa. Não precisa responder, mas será do seu interesse seguir meus conselhos. “Pouco importa quais sejam as intenções de Old Man e dos seus companheiros, tentaremos levá-lo à Terra. É muito grande para ser colocado em um dos veículos de que dispomos. Por isso não temos alternativa senão transportá-lo na face externa do jato. Soldaremos as tiras de terconite que o prendem ao casco do veículo, o que lhe proporcionará um bom apoio. Sabemos que é capaz de resistir ao vácuo e a temperaturas extremamente baixas. Seu corpo não será atingido pela energia inercial, já que o veículo viajará envolto em seu próprio campo antigravitacional de valor constante. Portanto, é bom que conserve a atual estrutura de seu corpo — e que faça votos para que nenhum dos seus amigos tenha a idéia maluca de abrir fogo contra nós.” Redhorse afastou-se sem esperar a resposta. O robô trabalhador ajudou-o a colocar o corpo enorme do condicionado em segundo grau em cima do jato César Zero. As soldadoras eletrônicas ligaram as amarras de Aser Kin ao metal do casco do veículo. Estava bem em cima do eixo longitudinal do jato, numa posição em que não podia afetar a capacidade de vôo do veículo, salvo quanto à carga adicional que o propulsor tinha de impelir. Os homens subiram a bordo. Holl Vincent assumiu o comando da César Um. Don Redhorse, Frizz Eisner e um sargento do outro jato formavam a tripulação da César Zero, que além disso tinha de transportar o condicionado em segundo grau. Os dois veículos subiram quase simultaneamente do chão do pavilhão, com os propulsores trabalhando devagar e ajudados pelos campos de estabilização. Seguiram em velocidade reduzida em direção ao buraco na parede, atrás do qual o metano frio e escuro do mar de Netuno os esperava como se fosse uma parede de metal sólido. Redhorse conduziu a máquina cuidadosamente através da abertura e mergulhou cautelosamente no líquido. Os campos de estabilização e o jato-propulsor de partículas foram desligados antes mesmo que os bocais do jato entrassem em contato com o metano líquido. Suas funções passaram a ser exercidas pelas bombas. Dentro de alguns minutos, às 2230 TUS, a luminosidade das grandes lâmpadas que atravessava o buraco cada vez menor desapareceu na escuridão. Don Redhorse não perdeu tempo. Começou a subir. Às 2232 TUS os jatos romperam a superfície do Mar dos Sonhos, os jatos-propulsores voltaram a ser ligados e os veículos subiram em alta velocidade na atmosfera densa e leitosa de Netuno.

Dali em diante o êxito da operação dependeria quase exclusivamente da sorte. Que as naves robotizadas de Old Man investissem contra os dois jatos e os destruíssem, que os outros condicionados em segundo grau investissem contra eles em suas naves semi- mecânicas e semi-orgânicas, ou que os dois jatos, que mal chegavam a produzir um

reflexo nas telas dos rastreadores, conseguissem atravessar sãos e salvos as linhas de bloqueio — tudo isso não dependia da coragem, da habilidade e da resistência dos sete homens que viajavam em César Zero e César Um. Naquela altura a iniciativa humana abandonava o campo, deixando-o entregue ao acaso. Mas faltava fazer uma coisa — tentar enganar o destino. Don Redhorse ativou o hipercomunicador. Ligou a transmissão de imagem e pegou o microfone. Falou da maneira mais calma que a situação permitia.

— Comando especial Netuno chamando comandante supremo da frota. César Zero,

Coronel Redhorse falando. Missão cumprida. Encontramos o condicionado em segundo grau e o levamos conosco. Desligo.

Redhorse voltou a colocar o microfone no suporte. De repente achou que praticara um ato ridículo, embora a idéia que ficava atrás dele tivesse nascido no cérebro ilustre de Allan D. Mercant, chefe do Serviço Secreto.

— “Informe os condicionados em segundo grau de que leva um dos seus a bordo, e

eles os deixarão em paz.” Isto soava bem, desde que se estivesse sentado junto a uma grande escrivaninha, numa sala com ar condicionado, elaborando um plano de batalha. Mas junto ao console do piloto de um jato espacial que estava prestes a penetrar no desconhecido as coisas mudavam de figura. De repente Don Redhorse não teve mais tanta certeza de que a reação dos condicionados em segundo grau fosse exatamente a que Allan D. Mercant previra. Neste instante a tela iluminou-se. Às 2248 TUS os dois jatos saíram da atmosfera espessa de Netuno e penetraram no espaço cósmico.

* * *

O dolan de Tro Khon captou a mensagem e decifrou-a prontamente. Chegara o momento decisivo. O inimigo estava regressando de Netuno, e Aser Kin encontrava-se em seu poder. Aser Kin não teve a menor dúvida de que a mensagem era verdadeira. As regras da tática convencional determinavam que, depois de ter encontrado Aser Kin, o inimigo anunciasse isto para todo o mundo. De fato, chamar a atenção dos aliados de Aser Kin para a carga preciosa que levava a bordo era a única maneira de talvez conseguir que os inimigos o deixassem passar em paz, justamente para proteger a carga. Os terranos não podiam saber que a direção suprema tomara outra direção. Confiavam plenamente nas leis da tática convencional. Tro Khon duvidava de que a inteligência de um terrano estivesse em condições de, com sua capacidade reduzida, identificar a solução alternativa, mesmo que duvidasse de seu plano. O desprezo que Tro Khon sentia pela inteligência humana não se baseava na experiência colhida em contatos com os homens, mas — e ele acabaria descobrindo que isso representava um grave erro estratégico — nos contatos que tivera com outros povos humanóides e nas experiências então colhidas. Não havia motivo para acreditar que os terranos fossem diferentes de certos outros seres com os quais estivera em contato durante sua longa vida de vigilante de vibrações. Cometeu um erro catastrófico ao julgar

todos pelo mesmo padrão. Nem lhe ocorreu a possibilidade de alguma das raças se distinguir das outras pela capacidade de compreensão, iniciativa e persistência. Tro Khon entrou em contato com os três companheiros. Disse pouca coisa.

— Daqui a pouco o inimigo estará ao alcance de nossas armas. Ficaremos numa

posição favorável, conforme exige a situação, e desferiremos o golpe. O plano para as ações que se seguirem já foi estabelecido. O próximo alvo será a Terra. É necessário que essa raça bárbara receba o justo castigo pelos crimes que cometeu em sua arrogância.

* * *

Os cronômetros da Colombo marcavam 2304 TUS, quando a nave saiu do espaço linear, entrando na área situada dentro da órbita de Plutão à velocidade de aproximadamente 260.000 quilômetros por segundo. Reginald Bell trabalhava em seu próprio painel de controle de hipercomunicador, no camarote que ficava bem ao lado da sala de comando. Quase no mesmo instante em que a nave saiu do espaço linear entrou em contato com o quartel-general da frota

metropolitana. A resposta à sua mensagem foi imediata. Às 2308 o Marechal-de-Estado

já fora informado em linhas gerais sobre o que acontecera nas últimas horas, inclusive

que há pouco fora recebida uma mensagem do comando especial Netuno, segundo a qual

o Coronel Redhorse e seus companheiros estavam viajando para a Terra com o

condicionado em segundo grau que fora feito prisioneiro. Sem dúvida a mensagem fora recebida e decifrada também a bordo das naves de Old Man, mas por enquanto não se

notava qualquer reação das unidades robotizadas. Em compensação há poucas horas tinham sido detectados quatro objetos voadores pequenos entre Triton e Netuno. Ao que parecia, tratava-se dos veículos organo-mecânicos dos vigilantes de vibrações.

A transmissão dos dados mais importantes ao computador da Colombo só demorou

alguns segundos. Depois disso Reginald Bell estava preparado para intervir novamente nos acontecimentos dos quais se mantivera afastado por mais de dois dias.

A Aronto, que ficara constantemente nos calcanhares da Colombo, recebeu ordem

de dirigir-se imediatamente à Terra e pousar em Terrânia. A nave voltou a desaparecer no

espaço linear, onde estava a salvo dos ataques do poderoso inimigo.

A Colombo seguiu em direção a Netuno. Reginald Bell não tinha uma idéia clara

sobre qual seria o rumo que os acontecimentos tomariam por lá, mas achava que era bem possível que dentro em breve Don Redhorse precisasse de um vigoroso apoio.

As 2343 TUS apareceram três reflexos insignificantes na tela do rastreador da César

Zero. Provinham de objetos relativamente próximos. No início Don Redhorse sentiu-se

confuso. Parecia que os reflexos eram produzidos por objetos que absorviam grande parte dos raios de rastreamento, e por isso mesmo não continham qualquer quantidade de metal. A explicação ocorreu-lhe dentro de alguns segundos, quando Frizz Eisner fez a leitura das indicações do rastreador e chegou à conclusão de que os objetos não identificados geravam estranhos campos de energia remanescente, de pequena intensidade, mas formados por impulsos extremamente duros.

Só podiam ser os veículos dos quatro condicionados em segundo grau. Era a única

possibilidade. A estranha substância, orgânica e técnica ao mesmo tempo, de que eram

formados os objetos, reagia aos raios de rastreamento de uma forma diferente de qualquer forma conhecida de matéria.

A distância média dos quatro veículos era, às 2344 TUS, de dois milhões e

quinhentos mil quilômetros. Don Redhorse mudou a rota, para não se aproximar demais

do inimigo. Mas os quatro reflexos também começaram a caminhar na tela, e dali a um

minuto estavam novamente pela frente, exatamente na direção em que se deslocava o jato.

A finalidade da manobra era bem compreensível. Os quatro condicionados em

segundo grau não tinham a intenção de deixar que Redhorse escapasse com a presa. Deprimido, Don deu-se conta de que o último trunfo que jogara por ordem de Allan D. Mercant fora inutilizado pelo inimigo. Ao que tudo indicava, os vigilantes de vibrações não se importavam nem um pouco com os problemas que pudessem surgir para um dos seus. Redhorse até teve a impressão de que compreendia seu raciocínio. Fossem quais

fossem os laços de amizade que os ligavam ao prisioneiro, o importante era evitar que este caísse definitivamente nas mãos dos terranos e fosse obrigado a revelar o que sabia.

A sorte acabara de ser lançada. O comando especial Netuno provavelmente nunca

chegaria a um porto seguro.

No seu íntimo Don Redhorse admirou-se com a calma e indiferença demonstrada por seus homens do que parecia evidente. Dirigiu-se a Frizz Eisner.

— Chegou a hora — disse em tom sério.

Frizz confirmou com um aceno de cabeça.

— Até parece que eu não sabia disso o tempo todo — resmungou em tom sarcástico. — Essas coisas belas como o sucesso reservado para o valente hoje não existem mais. Redhorse entrou em contato com Holl Vincent na César Um.

— Você está vendo o que vem ao nosso encontro, Holl.

— Tento fechar os olhos o tempo todo, mas não posso deixar de ver — respondeu Holl em tom seco.

— Está bem — sorriu Redhorse. — Não vamos desperdiçar nossa munição. Seria

inútil usar os canhões. Não conseguiríamos atravessar seus campos defensivos. Só nos resta uma esperança: realizar manobras que possam confundir suas miras. Não espere

instruções específicas para isso. Faça o que achar acertado. Depois que tivermos passado voltaremos a conversar. Boa sorte! Frizz fitou-o pelo canto de olho, enquanto Redhorse voltava a colocar o microfone no gancho.

— Palavreado vazio — disse em tom de desprezo. —Você sabe perfeitamente que não passaremos. Redhorse sacudiu a cabeça.

— Nossas chances são mais ou menos de uma em um milhão — confessou. — Ainda é um pouquinho melhor que nada.

Às 2436 a distância entre os dois jatos e os veículos dos condicionados em segundo

grau se reduzira a um milhão de quilômetros. A decisão viria dentro de alguns segundos. Os campos defensivos ofuscantes do inimigo apareceram na tela ótica em forma de débeis pontos luminosos. Don Redhorse agarrou firmemente os controles, dando a impressão de que precisava apoiar-se em alguma coisa para não perder o equilíbrio. Dali a trinta segundos os vigilantes de vibrações abriram fogo. Frizz Eisner notou uma marcação do rastreador que só podia ter sido produzida por uma salva de elevado conteúdo energético. O tiro não acertou o alvo. Don Redhorse fez o jato descrever uma curva fechada para a direita, a fim de atrapalhar a pontaria do inimigo.

A salva que veio em seguida atingiu o jato de raspão e deixou-o de cabeça para

baixo. Houve um terrível solavanco, que o equipamento antigravitacional não pôde compensar completamente, mas Redhorse só levou alguns instantes para estabilizar o

veículo e, numa manobra arrojada, dirigiu-o para baixo e para a esquerda para escapar ao fogo inimigo. “Frizz tem razão”, pensou. “Ainda estamos a setecentos mil quilômetros e já enfrentamos o pior.” Às 2343 TUS o jato foi novamente atingido de raspão. Desta vez o veículo girou várias vezes em torno do próprio eixo e Don Redhorse foi arrancado da poltrona e atirado ao chão. Voltou rastejando ao seu lugar, atordoado e com o sangue saído de uma rachadura na testa entrando-lhe pelos olhos. Na tela as estrelas executavam uma dança maluca. Redhorse não sabia se o movimento era real, ou se tudo não passava de uma alucinação gerada pelo cérebro maltratado. Alcançou a poltrona e puxou-se para cima. Cravou os dedos na borda do painel de controle e fez um grande esforço para pôr-se de pé. Quase estava conseguindo, quando o veículo foi atingido pela terceira vez. Seus esforços revelaram-se inúteis. Redhorse saiu escorregando pelo chão e bateu com a cabeça. De repente ouviu um grito de triunfo selvagem. No limiar da inconsciência, o cérebro indolente esforçou-se para compreender o sentido do grito. Não conseguiu. A vista de Redhorse escureceu.

* * *

Tro Khon estava sentado na sala de estar de seu dolan e mantinha contato direto com os sete coordenadores de seu veículo. Indiferente, deu ordem de abrir fogo e deixou por conta dos sete dirigentes de sua nave acompanhar as manobras desviacionistas do inimigo e coordenar as salvas de tal maneira que atingissem o alvo. Acompanhava os acontecimentos que se desenrolavam no espaço numa gigantesca tela de imagem, que ornamentava uma parede inteira como se fosse uma janela. Viu os pontos luminosos ofuscantes que representavam os outros dolans e dois reflexos fracos gerados pelos veículos do inimigo. Os acontecimentos deixaram-no fascinado. Não era fácil atingir os terranos. Eram excelentes astrogadores. As manobras que executavam eram terrivelmente arrojadas. Forçavam ao máximo o limite do possível e eram tão imprevisíveis que os coordenadores tiveram dificuldade em orientar seu fogo. Tro Khon raramente vira um jogo tão fascinante. De repente a tela chamejou. Uma bola de fogo branca apareceu nela, ofuscante que nem um sol recém-formado. Tro Khon experimentou uma sensação parecida com a tristeza. Pela primeira vez um tiro acertara em cheio. O jogo chegara ao fim. Só viu o que acontecera depois que a bola de fogo se apagou. No mesmo instante recebeu os impulsos dos coordenadores com uma intensidade tão diabólica que quase perdeu a razão. Levantou-se incrédulo e olhou pasmado para a tela. O medo começou a tomar conta dele e não conseguiu afastá-lo. Um dos três pontos luminosos mais fortes tinha desaparecido. Um dos dolans acabara de ser destruído!

* * *

A Colombo rompeu em vôo linear as linhas de bloqueio das naves robotizadas. Apareceu bem dentro do anel formado por elas e tratou de orientar-se. Os quatro veículos dos condicionados em segundo grau foram detectados quase no mesmo instante que os dois jatos do comando especial Netuno. A Colombo acelerou. Às 2347 TUS ainda se

encontrava a dois milhões de quilômetros do palco dos acontecimentos. Os condicionados em segundo grau estavam disparando a primeira salva.

Reginald Bell sabia que não podia perder um segundo que fosse. Há trinta minutos Abel Waringer estava sentado junto ao comando de artilharia, com o canhão conversor equipado com o aparelho especial preparado.

— Comece logo! — resmungou Bell. — Redhorse precisa de todo auxílio que

alguém lhe possa dar. Waringer jogou o braço para cima, num gesto exaltado. Dali a dois segundos atirou. Dentro de mais dois segundos um sol artificial rompeu a escuridão do espaço. Waringer e Bell e os ocupantes da sala de comando soltaram um grito. Foi um grito selvagem e descontrolado, uma reação às horas de incerteza que acabavam de atravessar. Um grito de triunfo indômito e o grito de morte para os vigilantes de vibrações. Às 2.348 TUS do dia 2 de março de 2.436 um canhão conversor terrano rompera pela primeira vez o campo defensivo paratron de um dolan e destruíra o veículo.

* * *

Tro Khon ficou estarrecido, enquanto o medo ia tomando conta dele. Poucos segundos depois que a primeira bola de fogo se apagou surgiu outra. Tro Khon sobressaltou-se. O medo de morrer fazia tremer o corpo gigantesco. A reação dos coordenadores assumia a forma de um grito recheado de medo e dor. Tro Khon não sabia o que estava fazendo. Foi dando ordens, uma após a outra, numa sucessão alucinada que confundiu ainda mais os coordenadores, que acabaram tomando a iniciativa e dirigindo o veículo segundo seu critério. Para longe da área de perigo mortal, onde dois dos seus tinham sido vítimas. Para longe! Para longe do lugar em que um inimigo medonho exibia um poder que excedia tudo que os vigilantes de vibrações tinham previsto, até mesmo nas suas visões mais pessimistas. Tro Khon ficou trêmulo na poltrona que dominava a sala de estar. Incapaz de tirar os olhos da grande tela de imagem, viu o terceiro dolan desmanchar-se numa bola de fogo.

Já não sabia o que estava acontecendo. O medo abafava todos os outros sentimentos. Não sabia se conseguiria ficar protegido dos acontecimentos medonhos que se desenrolavam lá fora, por mais depressa que se afastasse do local da catástrofe.

* * *

— Um deles está fugindo! — gritou Abel Waringer decepcionado. — Vamos sair

em sua perseguição. Reginald Bell fez que não.

— Redhorse precisa de nosso auxílio, e isto é mais importante. Deixe escapar um. É

bom que espalhe entre os condicionados em segundo grau a notícia de que somos perigosos. Bell sentiu-se dominado por uma euforia indescritível. Até parecia que acabara de ingerir uma droga estimulante. Não se lembrava de alguma vez ter experimentado um sentimento de alegria e triunfo tão forte. Três veículos do inimigo tinham sido destruídos. Dos seis condicionados em segundo grau que tinham participado desde o início do ataque à Terra só restavam dois, e destes mesmos um era prisioneiro do Império. E o homem ao qual em última análise se

devia agradecer o êxito inesperado estava sentado junto aos controles de artilharia, resmungando contrariado porque não lhe davam oportunidade de experimentar a eficiência de sua arma no último objeto que ainda restava.

Às 0008 TUS do dia 3 de março de 2.436 os dois jatos espaciais atracaram junto à

Colombo. Um dos dois veículos produziu uma estranha imagem na tela. Até parecia que uma inchação surgira na parte superior do casco. Reginald Bell comunicou-se pelo

hipercomunicador com o Major Eisner, que dirigia o veículo no lugar de Don Redhorse, uma vez que este ficara inconsciente. Mal conseguiu dominar o espanto quando descobriu o que significava a excrescência.

Os dois jatos tinham sido fortemente sacudidos pelo fogo dos condicionados em

segundo grau, mas não apresentavam avarias graves. A Colombo recolheu-os e, mal a manobra foi concluída, desapareceu no espaço linear, com destino à Terra.

* * *

O dolan de Tro Khon pousou em uma das plataformas gigantes que se estendiam espaço a fora embaixo do robô gigante Old Man. Uma instalação automática encarregou- se do veículo, transportando-o para dentro da plataforma e de lá para o interior do corpo gigantesco do robô. Tro Khon mal tomou conhecimento disso. Sua mente ficara atordoada. Depois de tantos séculos, nos quais a superioridade de sua raça sobre todas as outras espécies do cosmos se revelara de forma tão convincente, naquele dia tivera de ver pela primeira vez que existiam seres diante dos quais a técnica fantástica que ele dominava não valia nada. Era uma coisa que ele não conseguia compreender. Levaria dias para dar-se conta de vez do que tinha acontecido. Por enquanto um único sentimento dominava sua mente, soberano. Era o medo. O medo puro e simples.

* * *

Os maçaricos eletrônicos silenciaram na eclusa de hangar da Colombo. O corpo

gigantesco do condicionado em segundo grau estava jogado no chão. Ainda se encontrava na fase cristalina que assumira para resistir aos contratempos que o transporte trazia consigo. Estava cercado por Reginald Bell e pelo Dr. Abel Waringer — e por três dos homens graças a cujo desprezo pela morte do prisioneiro se encontrava em

segurança: Redhorse, Eisner e Vincent.

O condicionado em segundo grau estava consciente. Os três olhos grandes

brilhavam num vermelho traiçoeiro.

— Dou cinco solares a quem me disser o que ele está pensando! — disse Waringer, divertido. Reginald Bell estendeu a mão.

— Passe para cá o dinheiro — disse com uma risada. — Eu lhe digo. Está tão

furioso que quase sufoca na própria raiva. Don Redhorse fitou o prisioneiro com uma expressão sombria.

— Ele deveria agradecer ao senhor — disse. — Afinal, foi o senhor que o salvou da morte que seus companheiros lhe tinham preparado. Waringer sorriu com uma expressão amável.

— É claro que do nosso ponto de vista o senhor tem razão, Mr. Redhorse. Mas às

vezes tenho a impressão de que existe uma estranha diferença entre nossa mentalidade e a

de outras raças. Redhorse dirigiu-se a Reginald Bell.

— Gostaria de perguntar o que será feito dele, senhor.

Bell apontou para Waringer.

— Este cavalheiro conta com a colaboração de certos especialistas que, segundo

acredita, são capazes de romper qualquer bloqueio psicofísico, por mais forte que seja.

Acho que conseguiremos convencer as autoridades competentes de Terrânia a conceder a necessária autorização aos colaboradores do Dr. Waringer. Olhou prolongadamente para Redhorse, e este compreendeu que ao menos por enquanto não descobriria mais nada.

* * * * *

*

O novo aparelho criado por Waringer confirmou as esperanças que seu inventor depositara nele. A visita- relâmpago de Bell ao planeta da última esperança não fora em vão. Tro Khon, o único vigilante de vibrações que escapou ao inferno criado pela Colombo, resolveu fugir do Sistema Solar. A espaçonave viva de Tro Khon parte — e é perseguida pela Wyoming. Trata-se de uma nave comandada pelo Coronel Don Redhorse. No próximo volume da série Perry Rhodan, você verá como esse comando dirigido por Redhorse descobrirá O Arsenal dos Gigantes.

dirigido por Redhorse descobrirá O Arsenal dos Gigantes . Visite o Site Oficial Perry Rhodan: www.perry-rhodan.com.br

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