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ABA E
ste era seu último ano do colégio. Entrar na universidade, ser presidente do conselho estudantil e passar todos os dias com sua melhor amiga era tudo o que Natalie havia planejado. Ela sempre foi estudiosa, a melhor da classe. Não era o tipo de garota comum na Academia Ross, pois se preocupava muito com sua reputação. Talvez até demais. Então, para sua surpresa, no início das aulas, uma caloura a reconhece por tê-la tido como babá anos atrás. Desse reencontro surgirão muitos acontecimentos em que Natalie será obrigada a fazer difíceis escolhas para os dilemas de sua vida no ensino médio, como qualquer adolescente. Seu último ano será repleto de decisões, indecisões, julgamentos e paixões, tornando-se inesquecível. Seus planos sofrem uma reviravolta e sua vida fica de pernas para o ar, tudo o que ela não desejava inicialmente.

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Siobhan Vivian

Não sou este tipo de

Garota
Tradução Marsely de Marco Martins Dantas

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Lisa Greenwald. Brenna Heaps.Agradecimentos O brigada a David Levithan e a todos da Scholastic. Brenna Vivian e a todos do incrível clã da Vivian. convidando-me ao lugar certo (sua sala de aula). Nick Caruso. Caroline Hickey. Morgan Matson. 4 . Tara Altebrando. Emmy Widener. Rachel Cohn e Brian Carr. Lynn Weingarten. na hora certa (almoço). Obrigada também a Andrea Mondadoro. Rosemary Stimola.

todos ao mesmo tempo. Pois havia somente três coisas a fazer para que um garoto vivesse uma experiência de sucesso no ensino médio: fazer a lição de casa. Mais da metade dos alunos lutava para ficar acordada. Dava para ver o brasão da Academia Ross gravado nos vitrais das duas enormes portas de madeira e uma delas estava aberta. Ou. Não havia muitos sins no Manual de orientação da Academia Ross. Na minha visão de veterana. usar camisinha (para o caso de se dar bem) e passar desodorante nos sapatos de couro da escola todas as noites. feita no máximo em dez minutos. e o vazio dava ao lugar um ruído oco que com certeza fazia com que os calouros se sentissem ainda menores e mais impressionados. pois o suor dos pés junto com as meias de poliéster têm um efeito inacreditável no nível de popularidade. Lá dentro. forçando os alunos novos a repetir palavra por palavra o Manual de orientação da Academia Ross.Prólogo N o primeiro dia do meu último ano do ensino médio. pelo menos. Para os garotos. separaria a orientação dos calouros por gênero. examinar um ao outro. enquanto o restante se concentrava em sutilmente. Na verdade. Foram necessários apenas três minutos para me dar vontade de gritar. as coisas seriam bem diferentes. passei por acaso em frente ao auditório durante a reunião de orientação aos calouros. sob a orientação do conselheiro mais próximo da morte. ou não tanto. a orientação aos calouros é uma perda de tempo colossal. a maneira como a escola a faz é. seria bem provável que a reunião de apresentação fosse cancelada e eu apenas entregasse um comunicado. Em primeiro lugar. Se fosse por mim. apenas uma apresentação simples. havia apenas o número de alunos necessário para ocupar somente as primeiras fileiras dos assentos duros e desconfortáveis. 5 . Era praticamente uma repetição de nãos. desde "não usar telefone celular durante o horário escolar" até "não correr em ritmo inadequado pelos corredores".

ele alardeando um enorme corte de papel na esperança de fugir da aula de espanhol II. as coisas seriam mais complicadas para as garotas. Faria uma orientação no estilo daquelas palestras sobre dirigir embriagado que assustam logo de cara. A garota jamais havia feito algo do tipo. antes mesmo de dizerem "oi". Um pouco depois. mas parecia uma ousadia divertida e excitante. de qualquer ano. arrumaria um palestrante que falasse francamente sobre o perigo dos garotos do ensino médio. Exceto que. em vez de comentar sobre os perigos de dirigir embriagado. Ela estava na minha classe no primeiro ano. Parecia que o uniforme escolar dela tinha sido feito sob medida para um encontro apressado como aquele. Arrumou um namorado. em que os policiais estacionam um carro destruído no gramado da escola e um palestrante conta como matou acidentalmente seu melhor amigo ao voltar para casa depois de uma festa. ela sentia isso toda vez que Chad entrelaçava seus dedos aos dela. a garota entrou de fininho no vestiário masculino e foi na ponta dos pés até a última fileira de armários. eram o casal. É claro que tinham intimidade. No fim da semana. e bonita de um jeito que facilmente passaria despercebida. preferindo trocar beijinhos doces durante caminhadas sobre as pilhas de folhas secas de outono em vez de partidas de luta livre quase sem roupa no apertado banco de trás do carro de Chad. ela não se preocupou com o local que as 6 . As mãos dele deslizavam por ela toda. ela quase deixou escapar. Mas ela ia com calma. Amigável até mesmo com os alunos esquisitos. Conheço uma garota que seria perfeita para isso. pagou o preço da popularidade. Poucas semanas após começar o ensino médio. Em outras palavras.Obviamente. caindo aos pedaços que ele amava mesmo assim. E pela primeira vez no relacionamento deles. depois de tomar suas primeiras três cervejas em uma festa. já eram um casal. Chad pediu que ela cabulasse a aula de álgebra para encontrá-lo no vestiário masculino para uma comemoração secreta. Ele era um veterano com notas decentes. Uma semana antes. Depois de olhar por trás dos ombros. No fim do mês. já estavam se beijando. Mas decidiu guardar para uma ocasião especial: o aniversário de dois meses. Todinha. bons dentes e ocupava uma posição no time de basquete da escola. Embora nenhum dos dois ainda tivesse dito "Eu te amo". Popular. Chad Rivington tinha quase o dobro da sua altura — um tamanho intimidador até ser visto se enfiando em um fusca azul-bebê enferrujado. mas não a ponto de deixar os demais enciumados. especialmente para uma caloura. Eles se conheceram na enfermaria — ela com enxaqueca. Era legal. era um tesouro para qualquer garota. No aniversário de dois meses de namoro. Chad a cumprimentou com um sorriso.

zombando da própria frustração depois que a garota o abraçava de manhã ou enquanto estavam no pátio. e ela finalmente permitiu-se curtir o momento. Para Chad. inventou uma desculpa que o isentava totalmente de culpa. pensando que seus amigos iam dar um tempo se ele participasse da brincadeira. com beijos. Até mesmo o próprio Chad brincou sobre isso durante semanas. 0 rapaz ficou muito desapontado — uma postura familiar em seus últimos encontros. E quando apareceu decepcionado. ela mal havia tocado nele e ele estava muito excitado. Suavemente. — Não aqui. Garotos que tinham sido gentis com ela em festas e veteranas que tinham acabado de aceitá-la no grupo agora pareciam distantes e reticentes. Coisas assim. A provocação ficava cada vez menos engraçada e cada vez mais pessoal. prontas para serem ditas. Chad era mais experiente nessas coisas. o perigo de ser descoberta invadia a névoa de insensatez da garota. ou até mesmo em seu carro. A garota não sabia que a inabilidade de Chad transar com uma caloura tinha se tornado a piada do momento.mãos percorriam. Desculpando-se. Ela sentiu três palavras querendo sair de sua boca. ou imitava estar transando com a porta do armário. os sussurros a atingiam como flechas envenenadas em suas costas. A garota se sentiu mal ao voltar apressada para a aula. Eles teriam ido até o fim se estivessem no quarto de Chad. Não agora. Afinal de contas. Chad tentou convencê-la com palavras. — Não posso — disse subitamente. Ele implorou que ela ficasse. "Não tem como dar errado". E quando percebeu como Chad continuava chateado. Sentiu-se ainda pior depois dela. Quando a garota chegou na escola no dia seguinte. Era romântico e sexy. Nada mais justo do que terminar o que haviam começado. Um beijinho na ponta do nariz. ele reclamava por "ficar na mão" após levá-la de carro para casa. só que um pouco mais enfática dessa vez. Então. "Use o aniversário". todo mundo na escola estaria com os olhos grudados no relógio durante a quinta aula. Uma responsabilidade social. Todos esperavam que ele conseguisse. Mas agora ela não estava mais se derretendo por dentro. certo? Ela insistiu que tinha de voltar à aula de álgebra. e tudo dentro dela estava derretendo. disse o cara. Ele foi para o carro sem nem mesmo acenar para ela com a cabeça. inclinou-se para beijá-lo. Mas estavam no vestiário fedorento e o fim da aula de ginástica estava se aproximando. assobio ou até mesmo um ruído animado que penetrava no ambiente. pelo contrário. Até mesmo alguns 7 . Mas a participação de Chad apenas incentivava os comentários dos demais. E a cada passo ouvido. Mas Chad virou o rosto. para deixar tudo bem. Foi um dos amigos de Chad que sugeriu a pegação no vestiário. Afastou-se da boca de Chad e disse que era melhor voltar para a aula. quando viu alguns rapazes tirando sarro de Chad perto da árvore dos fumantes.

Era o fim. Ela só percebeu o que estava acontecendo na hora do almoço. 0 fato de se tomar uma ou duas cervejas nunca parece perigoso no começo. Sempre que ela is para qualquer lugar. como qualquer outra frase de slogan de efeito. Funga. Era a isca de peixe. A orientação tinha de ser algo desse tipo. por onde ela passava. Ela não conseguia entender. Chad nunca se desculpou. Funga. 8 . Em forma de andar. todos começaram a fungar. para mim." Tão idiota. Chega. ela fedia tanto. Onde quer que ela estivesse. Mas foi a gota d'água. Ouvir uma história como essa era tão importante quanto saber seu tipo sanguíneo. de súbito passaram a ignorá-la. 1 Relação sexual feita com três pessoas. Claro. Tão mentiroso. para que não tivesse de falar com ela. mas ele não disse nada à garota. no que ousava colocar em seu prato no almoço. Mas para a garota aquilo provocou mudanças. E outra pessoa passou a ser alvo das fofocas quando uma novata supostamente participou de um ménage à trois1 no chuveiro da casa de seus pais com dois colegas de classe de Chad. alguém fungava. Pelo menos não até ver Chad. Mas. Talvez tivesse limpado a consciência admitindo para alguém que tinha apenas feito uma piada ridícula. que olhou na outra direção. "Quase morri de rir. 0 tempo frio estava no ápice. enfatizando sua culpa. Tão impensado. Ela nunca mais foi a mesma novamente. Era o tipo de informação que poderia salvar a vida de uma garota. Para ela era o fim. aqueles que ela havia ajudado a adentrar no exclusivo mundo escolar superior. quando um dos amigos de Chad foi até o quadro branco e escreveu o nome dela ao lado da entrada de iscas de peixe. era óbvio: por que alguém iria querer correr o risco? Então. ou se você é alérgico a picadas de insetos. era isso. Mas a ação ficava se repetindo. alguns correm o risco. Não mesmo. Funga. Em seguida. A onda inicial de provocação foi diminuindo depois de alguns meses.de seus próprios colegas. imaginava Chad dizendo. Tínhamos de informar coisas úteis em vez das regras de manutenção de armário. "Ela me deu nojo". É por isso que confiar em garotos era igual a beber e dirigir. Não parou para pensar no assunto. na freqüência com que levantava a mão na classe.

tirando minha faixa de cabelo de casco de tartaruga antes de ficar bem atrás de mim – vou fazer agora. as demais eram perto o suficiente para que sempre pudéssemos andar juntas. e minha amiga Autumn estava se sentindo nostálgica. Até mesmo a minha aparência depois da aula de natação – cabelos molhados como se fossem compridos blocos de gelo marrom. Virei-me e cheirei meu casaco. Dava para fazer a risca sem nem mesmo olhar no espelho. — Você tá com cheiro de verão – disse. — Vem cá – disse ela. Preferia nos fazer sofrer em mais uma volta de nado borboleta do que nos dar 30 segundos a mais para lavar a cabeça. – Queria que ainda fosse verão. 9 . – Você pode me fazer uma trança quando chegarmos na sala? – Odiava o jeito que meu cabelo secava depois da aula de natação. Apesar de ter mandado lavá-lo a seco um pouco antes do início das aulas. água da piscina derretendo sobre o meu casaco azulmarinho – conseguia deixá-la melancólica. Ficava falando do primeiro ano como se este tivesse ocorrido há décadas. recostando a cabeça em meu ombro. então eu o tirei e o amarrei na cintura.Capítulo 1 E ra o começo do terceiro ano do ensino médio. — Hei – disse. O técnico Fallon nunca dava tempo suficiente para o banho após a aula. formando vários nós idiotas. Dizia ser intervenção divina o fato de que. Autumn tinha muita sorte por ter machucado o ombro há alguns anos e possuir um atestado médico que a mantinha fora da piscina. Ela tirava fotos enquanto pegávamos nossos horários no escritório de orientação pela última vez. embora tivéssemos duas aulas comuns. já estava com cheiro de cloro. O cabelo de Autumn era na altura do ombro e dividido em duas metades loiras perfeitamente simétricas.

ainda parecia que toda garota da escola sabia que era necessário usar algo não tão revelador por baixo da saia do uniforme. — Nossa! – ela sussurrou. Olhei feio para eles e fiquei bem na frente para bloquear a visão. Autumn e eu iríamos viver em lados opostos do país em onze meses. Um pequeno triângulo lilás mal protegia seu traseiro de todo o corredor.Nós éramos assim tão jovens? Dava para perceber que Autumn estava tentando absorver toda a alegria e as possibilidades que exalavam dos calouros à nossa volta. Apesar de não estar escrito em nenhum lugar do manual de orientação da Academia Ross. pois. Por fim.. Momentos constrangedores tinham uma vida útil surpreendente na escola. eu guiando Autumn pelo meu cabelo. Em um minuto você é uma garota normal. como se fôssemos elefantes. A realista dentro de mim tinha de aceitar que as coisas não seriam mais as mesmas.Foi assim que passamos pelo corredor dos calouros. abriu um sorriso tão grande que o canto dos olhos ficou enrugado. Mantive a cabeça baixa. Também sorri. — Ei – disse para a garota. só que eu não percebi até minha cabeça ser puxada para trás. ou se meu zíper estivesse aberto. Qualquer um sabia disso. shorts. Dei meu caderno para Autumn segurar. Mas não era uma perspectiva que me deixava particularmente animada. fazendo-lhe perguntas sobre as minhas anotações de filosofia oriental enquanto ela continuava o trabalho. se eu tivesse um pedaço de espinafre nos meus dentes. e no outro você será conhecida como ―bunda de fora‖ pelos próximos quatro anos. Ou pelo menos não seriam nem de longe tão boas quanto eram agora. leggins ou no mínimo uma calcinha moderna. teria preferido que me contassem a ter feito papel de boba. Ela suspirou e perguntou: . Tínhamos estudado pelo telefone na noite anterior.. Intervir era a coisa certa. Mas só por um segundo. menos essa pobre caloura sem noção. – Releia minhas anotações sobre o Método Socrático. A moça estava ajoelhada no chão. A saia de preguinhas do uniforme caía para trás como se fosse o sino da igreja tocando. – Posso falar com você um segundo? 10 . Fiquei pensando se devia ou não dizer alguma coisa. tentando pegar os livros no meio da bagunça de seu armário. pela pele ruim e a estranha algazarra. — Segui pelo corredor. minha trança se desfazendo a cada passo. Autumn faria novos amigos. Sentia minha cabeça sendo apertada a cada trançada. Dois calouros já haviam notado o show gratuito e não paravam de olhar para a bunda da moça. — Não consigo acreditar – disse Autumn parando de andar. Ela estava completamente enfeitiçada pela imbecilidade deles. – Natalie. Bermudas. Nosso primeiro teste seria em 15 minutos. Se as universidades dos nossos sonhos nos aceitassem. Eu já volto. mas Autumn ainda estava errando algumas. veja! Autumn apontou em direção a uma garota cujo corpo era cheio de curvas e seus cabelos encaracolados. E eu tinha fé que também faria. então era mais uma revisão. Só que não estava relembrando o passado de tal forma que precisava me apegar a cada minuto do terceiro ano.

Seus olhos castanhos eram grandes e cheios de expectativa. Minha mente passou pelos rostos do meu curso de verão preparatório para o SAT 2. que só comia macarrão com queijo se esse último fosse alaranjado. que honestamente não poderia ter sido mais rápido. abriu os braços e exclamou: ―Riverdance‖!3Só que disse isso com um terrível sotaque irlandês. provavelmente por ter tomado sol usando enormes óculos escuros. bem ali. – disse e então passei a ter um tom desconfiado. Depois de um giro final. 11 . animado. De qualquer forma. parecendo mais Rivadaaaans! Foi aí que eu me lembrei. brilhando como a sombra que havia passado. depois de respirar bem fundo. Algo que. ela se agitava tão fervorosamente que seus cachos saltavam como se fossem milhares de pequenas molas. – Qual é o seu nome? Ela piscou os olhos um pouco e depois se levantou. 2 SAT (Scholastic Aptitude Test) – teste de avaliação de conhecimento exigido para entrar em curso superior nos EUA. Sim. Claro. – Você não sabe quem sou. No máximo. – Tem certeza de que não está me confundindo com alguém? — Tudo bem — ela disse fechando os olhos e balançando a cabeça para lá e para cá algumas vezes. Suas pernas bronzeadas chutavam o ar como se fossem tesouras. Dei de ombros como que me desculpando. Ela esperou. então não fazia sentido algum. sabe? – Seu jeito não parecia bravo. e os sapatos batiam com tanta força no piso impermeável que todo mundo começou a prestar atenção. começou uma dancinha. 3 Riverdance é um espetáculo de sapateado irlandês. que eu a reconhecesse. você é Natalie Sterling? — Hum. bem rápido. reconhecido pelo rápido movimento de pernas dos dançarinos e aparente imobilidade da cintura para cima. achando que era melhor me apresentar primeiro. seu rosto bronzeado parecia um pouco mais claro ao redor dos olhos. resolveu imediatamente o problema da sua escolha infeliz de calcinha. para o meu grande alívio. Minha própria deficiência em relação à dança fazia com que eu não percebesse se ela era boa ou apenas muito esforçada. Mas era óbvio que a garota era caloura. na frente do armário. — Sou Natalie Sterling — disse. — Não acredito que vou fazer isso — e então.Ela se virou para olhar para mim. – Seu tom era amigável e ao mesmo tempo desconfiado. não muito pacientemente. — Espera um pouco. – Hum. — Spencer Biddle? — A garota de oito anos que eu tomei conta durante um verão inteiro quando eu tinha doze anos? Que não usava o banheiro do andar de cima se não tivesse alguém do lado de fora da porta. que dava o maior show de sapateado bem no meio da sala de estar? Seu peito pulsava enquanto ela tentava recuperar o fôlego.

Ela abriu uma boca tão enorme que dava para ver todas as obturações. – Eu mal te reconheci também. – Sério. Spencer tirou meus cabelos molhados do ombro. Quando a minha mãe casou de novo. – Você está bem diferente. — Você dança na frente de qualquer coisa! Nas propagandas de televisão e também naquelas campainhas de vento que a sua mãe costumava pendurar na frente da varanda. 0 sorriso iluminado de Spencer transformou-se em uma ruga. Questionei: — Fiz isso mesmo? Spencer riu da mesma forma que costumava rir. O que? Quase seis anos? É melhor que eu esteja bem diferente mesmo. Lembro-me de uma vez que você ameaçou fazer o Eddie Guavera comer pedra quando ele fez xixi nas flores que havíamos acabado de plantar ao redor da caixa de correio. cheios de espelhos e eu posso praticar minha dança. apesar de achar estranho estar ali falando sobre divórcios com a Spencer. — De repente. Era demais! — A sua família não tinha se mudado para St. soltando sopros silenciosos de ar que saíam do nariz como fogo rápido.— Honestamente. — Não se preocupe — disse. então voltamos este verão – concordei com a cabeça. E tinha uns rapazes apreciando a vista. — Espera aí. do tipo que a tia Doreen ou a vovó fariam. Faz. — Alugamos um apartamento em frente ao Liberty River. Natalie! – ela continuou – você foi a melhor babá que eu tive.. — Todos os garotos da vizinhança tinham medo de você. Não é nada mau. comecei a lembrar de como era irritante. Estava certa que nossa última conversa tinha incluído apenas a minha opinião de que a pizzaria Lucky Charms tinha os piores recheios. por que veio falar comigo então? Tirei um fiapo de algodão da minha saia e de repente desejei que não soubesse a cor da calcinha da Spencer. do ponto de vista de uma babá. Quer dizer. olhando bem para a maquiagem dela e imaginando seus cachos se transformando no rosto de uma garotinha de cabelos encaracolados despenteados. Meu quarto tem armários enormes. estou aliviada por você não ter me reconhecido.. Eu mal conseguia fazer a Spencer ficar sentada. Mas ela se divorciou do meu padrasto. — Você tá brincando? 12 . dava para ver tudo. Louis? — Mudamos. Não de alguém três anos mais nova que eu. Se você não me reconheceu. olhe como você está grande e linda! – Era um elogio estranho. Aproximei-me o suficiente para sentir o perfume de algodão doce que exalava dela e sussurrei: — Enquanto você estava agachada. na verdade.

Uma sensação de amargor fez com que meu estômago contraísse. Os olhos dos jogadores de futebol que por ali passavam viraram para a esquerda. Spencer conseguiu sorrir. 0 mesmo olhar que tinha me convencido há um minuto. Na verdade. — Parece que a Spencer cresceu e se tornou uma dama. mas suas pregas são horríveis e a cor parece de papelão. Connor Hughes. Até mesmo por cima da meia-calça no inverno. É claro que era para ser uma piada. Os demais jogadores se amontoaram uns sobre os outros num ataque de riso. Precisei correr para a classe para que pudesse me organizar e me concentrar antes da prova. 13 . com seu cabelo castanho ondulado encostado no colarinho da camisa. Só que nenhuma de nós achou graça. Apesar de se sentir constrangida. fale comigo. — Pode acreditar. Spencer se virou e recostou no armário. — Sabe de uma coisa? Aqui na Ross também tem calcas femininas. Natalie. Spencer concordou. de falsa modéstia surgiu em seu rosto. — Com certeza nos veremos por aí. até levantei minha própria saia um pouco para mostrar meus shorts de lycra azul-marinho que eu sempre usava. Mike Domski. Um olhar de constrangimento fingido. como se Spencer tivesse emitido um som agudo. tirou a prancheta das mãos de Connor e a abanou com toda força na direção do traseiro de Spencer. — Ela não é desconhecida. acho. Jamais conseguiria falar uma coisa dessas para uma desconhecida. Spencer. Um deles. E se tiver alguma dúvida sobre a escola. o melhor a fazer é vestir alguma coisa embaixo da saia — dei a ela um leque de opções. definitivamente planejo explorar o fato de ser amiga de uma veterana! Todos os outros calouros vão morrer de inveja. Sabia que isso não era bem verdade. em uma freqüência que só os garotos conseguissem detectar. tentando entender quais eram os garotos que estavam olhando para ela. 0 sinal tocou.Balancei a cabeça negativamente. mas começou a olhar por detrás de mim. Ergui a sobrancelha. e ela olhou para o corredor. tentando fazer um vento forte o suficiente para que a saia dela se levantasse ainda mais. sua bunda estava à mostra para quem quisesse ver. — Não sei onde você arruma coragem. Contei a história para Autumn. 0 livro de jogadas estava em suas mãos e seus colegas de equipe orbitavam ao seu redor. — Então. espera aí. alto e magro. liderava o grupo de rapazes. Você ficou tão entretida conversando com a Spencer que se esqueceu de falar para ela sobre a calcinha? Virei-me e vi Spencer agachada novamente. mas ouvir Spencer dizer fez com que eu me sentisse muito bem e saí apressada pelo corredor para evitar ser atropelada pelo time de futebol inteiro. Autumn fechou meu caderno e o devolveu para mim.

Dava para ver que Autumn nem tinha se preocupado com o banho matinal. fazendo com que seus sapatos caíssem no banco. então sempre procurava deixar um livro debaixo do travesseiro quando ela vinha dormir na minha casa. Ultimamente. ao lado da minha amiga que roncava. leio apenas os manuais de preparação para o SAT4. presas às mãos. — Ooh! Café da manhã! — Sua recompensa por ter acordado cedo para me ajudar! 4 Algo como o nosso vestibular.Capítulo 2 E u saí de casa supercedo na manha seguinte e peguei dois sanduíches e dois sucos de laranja na mercearia da rua Principal. uma senhora de camisola me olhava por detrás da porta de tela. Balbuciei uma desculpa. mas foi assim que devorei a série toda de Goosebumps no ensino fundamental. Autumn finalmente apareceu. constrangida. Autumn se agachou para abrir o vidro do passageiro e inclinou os livros. Eu sempre fui madrugadora. cor de creme estava pendurado em seus ombros. atravessando descalça o gramado. preferindo dormir vinte minutos a mais em vez disso. Quando cheguei à casa de Autumn. Seu rosto se iluminou quando viu o saco de papel branco. um par de meias três quartos. 14 . Meus cartazes estavam presos debaixo do braço dela. mas Autumn adorava dormir. buzinei junto com a música que tocava entre uma notícia e outra da rádio. Suas sandálias pretas estavam por cima dos livros. Do outro lado da rua. Era o primeiro dia oficial de campanha para as eleições do conselho estudantil e eu queria pendurar meus cartazes antes que os outros começassem a brigar pelo espaço na parede. — Cuidado! Não amasse! — adverti.

Autumn abriu o suco e o devorou em cinco goles. Mas isso não é verdade. sou sua gerente de campanha oficial. Mas então ela mudou de assunto e perguntou: — Quais eram mesmo aqueles slogans engraçados que você criou? Estava tentando me lembrar deles hoje de manhã. baixinho. Eram mais ou menos assim: "Votem na Natalie. você tem de deixar isso para lá. Sei que era algo que ela deveria fazer por si própria. só eram engraçados por causa das ilustrações que os acompanhavam. sentia-me frustrada. É só uma desculpa conveniente para que não seja notada. Não podia forçar minha melhor amiga a se candidatar ao conselho estudantil. tentamos nos lembrar dos slogans divertidos que nos fizeram morrer de rir durante o fim de semana.— Não preciso de recompensa — disse. É difícil deixar boas idéias para lá. Os responsáveis por analisar a admissão na faculdade não se importam se você participou de atividades extracurriculares. mas Autumn ficou reclamando que eu havia desperdiçado um cartaz perfeito. de fato. — Não se trata de comparecer a reuniões. Uma pequena parte de mim achou que ela estivesse pensando na idéia. Eles querem ver habilidades de liderança. — Parece que o Kevin Stroop está levando o jogo muito a sério — disse Autumn. — Natalie. Estou falando de viver na potência máxima. Só que eu não preciso ser vicepresidente para ajudar em todos os seus projetos. o sol nascia atrás dos muros de pedra. prendendo o cinto de segurança com mais força do que necessário. Ela deu uma enorme mordida no sanduíche e ficou com um pouco de ketchup no rosto. Pintei um cartaz escrevendo o nome de nós duas. entre uma bocada e outra — significa muito para mim você achar que eu. conseguiria fazer algo assim. 15 . espalhando o orvalho pela grama espessa. — Olha — disse. colocando meus cartazes por cima com delicadeza — afinal de contas. — Queria que você fosse minha vice-presidente oficial — disse. Mesmo assim. A idéia passou pela minha cabeça inúmeras vezes durante o verão e no último fim de semana ficamos acordadas até as três da manhã pintando os cartazes. se você pode ser responsável por alguma coisa. — Que estranho — disse. O nosso carro foi o primeiro a chegar ao estacionamento dos alunos. jogando os livros no banco de trás. Autumn suspirou ao se jogar no banco do passageiro. Durante o restante do caminho para a escola. Dei um guardanapo para ela. Você sempre diz que é o tipo de pessoa que fica por detrás das câmeras. ela sempre estará por perto!" Contudo. Irei à todas as reuniões do conselho do mesmo jeito que tenho ido nos últimos três anos. Senti-me tão tocada pela beleza da escola que só percebi que todas as janelas tinham sido cobertas com um papel branco na metade do caminho. A Academia Ross estava bonita.

dando em cima de garotas burras só para se sentir mais esperto. era jogador de futebol. e. as portas do banheiro. era popular. — Você está de brincadeira — Autumn pegou o papel e fez uma careta.Mas isso era razão suficiente para alguém como Mike querer fazer isso. Isso é ilegal! Você quer que eu vá procurar a Srta. Bee? — Não se preocupe — disse. E parecia que essa moda estava começando a pegar. e ninguém tinha ficado feliz com isso. Um rolo de fita adesiva vazio ficou preso no meu sapato enquanto andava. Infelizmente. sim. Mike Domski realmente fazia com que as garotas gostassem dele. e ela acabou considerando os cartazes contra as regras da eleição.. E ele nem se incomodou em arrancar a página adequadamente — o canto inferior esquerdo estava rasgado e ele tinha xerocado com orgulho a margem espiralada que havia sido arrancada. os quadros de aviso. pelo que eu soube. Mas o cara era totalmente desprezível. — Eca. Abri a porta principal e centenas de pedaços de papel saíram voando com a brisa de outono. — Kevin Stroop era o bonitão do último ano e. meu único concorrente. Não foi isso. mas também porque Kevin tinha cometido um erro idiota de contabilidade que quase nos levou a falência. tive de parar um minuto para pensar — talvez para ajudar a entrar na faculdade? Ou ele está apenas sendo um imbecil? . Tivemos de impor uma regra severa de apenas uma fatia por pessoa na noite da pizza que fizemos no fim do ano. o desenho não era uma fantasia doentia.— Acho que sim. Estava contando com uma campanha fácil. Era uma folha de papel xerocopiada. Claro. os cartazes de Mike começaram a desaparecer.. Os papéis não estavam apenas nas janelas. Havia vários outros jogados no chão. Bee que a secretária da escola tinha caído na conversa dele. Sabia que Kevin não tinha coragem de aprontar uma coisa dessas. Por que Mike Domski está concorrendo para o conselho estudantil? Na verdade. principalmente por ter sido a vice-presidente ano passado. — Mike Domski — disse em voz alta. espalhados pelo corredor. Tirei apenas uma das folhas de cima do bebedouro. A escola inteira estava coberta por eles. todos os armários e isso incluindo o de troféus. E então pendurei meu maior cartaz bem em cima de vários dos sorrisos de caricatura do Mike Domski. Até a hora do almoço. deixando-o usar a copiadora. Vi uma fila de rapazes na 16 . Embaixo do desenho ele tinha escrito "Domski p/ Prez". e uma caricatura de Mike Domski fumando um cigarro ao lado de duas garotas de seios fartos usando biquínis. havia várias bolas de futebol flamejantes desenhadas nela. porém os garotos estavam arrancando de propósito. Talvez tivesse chegado aos ouvidos da Srta. — O que vamos fazer com todos os seus cartazes? Ele não deixou espaço para pendurá-los. — Vou ficar tão satisfeita em ver você destruí-lo — disse Autumn enquanto examinava uma das paredes.

Olhei para ela esboçando um sorriso. chocada pela sua coragem de dizer alguma coisa. se apaixonaria por uma dançarina grávida. pois eles seriam "valiosos" algum dia. — Deixe-a em paz — disse. fazendo decretos ridículos em linguagem arcaica. sem aviso prévio. eles a deixavam com muita raiva. Também o modo como ele se comportava. e parou bem na frente dela: — Ei. naquele momento. Não foi difícil. Ela não tirou os olhos do bife. O que basicamente me deu vontade de vomitar. e não importava o quanto os insultos eram idiotas. observar a sua maneira artificial de gesticular sobre a candidatura me deixava louca. e exigindo que as pessoas o chamassem de Prez. fiz o que pude para ignorar Mike Domski. isca de peixe! Não tinha sentido seu cheiro por aqui! Aquelas palavras sugaram o oxigênio de toda a lanchonete. Alguém ia dizer aquilo no nosso 17 . Sempre me perguntei quando o restante da escola ia entender que a piada não tinha mais graça. enfatizando cada palavra em uma voz tão brava quanto alguém tão doce como Autumn consegue pronunciar. perderia todo o dinheiro em um daqueles esquemas da internet de ganhar dinheiro rápido. Só sentia o silêncio que emanava dela bem ali. finalmente compreendi que jamais aconteceria. Ela estava tremendo inteira. Ele não participa de nenhuma das aulas do grupo avançado. Não consegui olhar para Autumn. As bochechas de Autumn ficaram vermelhas de raiva. Ou talvez eu apenas tivesse esperança de que isso um dia acontecesse. batendo com tanta força na mesa que meu refrigerante caiu por toda a folha do laboratório. à distância. Durante o restante da semana. fazendo sinal de positivo com as duas mãos e gritando algo como "minha péssima caligrafia". Como dessa vez na lanchonete. e rezava para que ela se lembrasse de respirar. Nem me incomodava muito com aquilo. refletindo o bife mal passado em seu prato. Ele entraria em uma faculdade medíocre. Dava para vislumbrar o futuro totalmente deprimente escrito bem ali. fingindo surpresa e medo. cortando um pedaço de gordura sem parar com um garfo de plástico que estava prestes a quebrar diante do seu toque mortal. aspirando o ar como se fosse um cão de caça guiado pelo cheiro. Mas Autumn odiava ver o Mike tirando sarro de mim. levantou-se com tudo. se ele não estivesse agindo como um completo cretino. E então. Mike reagiu como se Autumn tivesse aparecido de súbito. Meu coração ficou partido ao ver como Autumn era uma boa amiga. mesmo quando Mike se dirigia diretamente a mim. Mas. quando Mike ficou bem embaixo de um dos cartazes que havíamos pintado juntas. ao meu lado. O ensino médio era o melhor que Mike Domski ia conseguir na vida. Provavelmente porque eu era uma das raras pessoas na Academia Ross que viam Mike como ele realmente era: um cabeça de bagre completo que fazia tudo para arrancar risadas do público. Se já era difícil para qualquer pessoa fazer algo do tipo. para ela era muito pior. na cara do imbecil. Aproximou-se todo cheio de pompa da nossa mesa. Não consegui me mexer. começando com doravante e concluindo com assim seja. Mesmo assim. Eu até sentiria pena de Mike Domski.lanchonete pedindo para que Mike autografasse os cartazes. Mas eu fiquei calma e controlada. e certamente não temos nenhum amigo em comum.

Não queria que ela se humilhasse mais ainda. Natalie — ela sussurrou — espero não ter te colocado em encrenca. Bee me deu. Vou te dizer uma coisa. aquilo não teria acontecido. Ela balançou a cabeça e disse. — Opa! — disse com minha voz nada ressentida. por dentro eu entrei em pânico. — Vamos para a biblioteca. na verdade. Será que tinha arruinado tudo apenas para defender a honra de Autumn? Será que tinha dado a eleição inteira de bandeja para Mike Domski. e pegou bem no meio do peito dele. Revirei os olhos quando Mike foi embora. Vou morrer se você for desclassificada! Autumn andava tão devagar que a segurei pelo braço e a empurrei pelo corredor. Alguns respiraram fundo. Era fácil demais. vou ver se ela tem mais um para me dar e conto para você. Mike entortou os lábios. em algum lugar. resoluta. — Autumn enxugou os olhos com uma das mãos e com a outra apertou a minha com força. — Sinto muito. Malvado demais. Procurei o objeto mais próximo e o atirei em Mike. E era extremamente injusto que alguém como Mike Domski jamais compreendesse o quanto aquelas palavras haviam destruído a minha bela amiga. — É isso o que melhores amigas fazem. — Você não tinha que me defender — resmunguei. colocando nossas coisas na minha mochila. e teve até quem achou graça. e Autumn teria de explicar a situação ao marido dela. deixando uma marca triangular de óleo. 18 . Se ela tivesse ignorado Mike como eu. Natalie. Era o meu pedaço de pizza. A raiva cresceu dentro de mim como lava. da mesma forma como eu sempre apertava a dela. — Droga! Sabe de uma coisa? Joguei fora o manual do conselho estudantil que a Srta. pelo resto de nossas vidas. Isca de peixe arrancaria a risada de alguém. Mas tenho certeza de que há uma seção inteira sobre as regras da eleição e esse tipo de coisa pode desqualificar um candidato. — Que é isso! — disse. algo com que vinha sonhando e trabalhando nos últimos três anos? Os olhos de Autumn se encheram de lágrimas. Mas.encontro de vinte anos de formatura. molho de tomate e flocos de pimenta em sua camisa antes de cair com tudo nos sapatos de veludo marrom.

e iam até a cintura. e observava com total fascinação o jeito como ficavam verdes durante as aulas. pois ela havia esquecido a dela. Uma vez. nunca consegui ser rápida o suficiente para compensá-la. e os vencedores podiam escolher uma bala no enorme pote de balas que ficava no escritório. soltava um jato de água. Tínhamos 6 anos quando nossas mães nos matricularam. Também era surpreendentemente boba. Autumn e eu nos conhecíamos há séculos por causa da natação. Mas não foi só por isso que prestei atenção nela.E E E Capítulo 3 N ão sou o tipo de pessoa que procura encontrar o lado positivo em todas as coisas. Autumn freqüentava a Academia Ross desde o maternal. Embora eu provavelmente fosse a nadadora mais rápida da piscina. quando apertada com forca. mas é inegável que uma coisa boa resultou do original fracasso da isca de peixe: ele salvou a minha amizade com a Autumn. Eu até teria ficado brava. como o interior de uma casca de limão. Gostava da forma como flutuavam na água. pois toda aula terminava com uma corrida de pranchinha. apenas garotas que nadavam juntas.. e não tivemos mesmo. Era porque Autumn era a nadadora mais agitada da piscina. Ela espalhava mais água do que qualquer outra e sempre parecia estar meio aflita. Ensinou-me um jeito de fechar a mão na piscina que.. dividi minha toalha com ela. Mas Autumn era tão legal. por causa do cloro. reclamei. Meus pais trabalhavam em empregos que exigiam muito deles — a mamãe tinha uma empresa 19 . Só que aquelas coisas não faziam de nós amigas. mas eu ia à escola pública. Quando o salva-vidas nos colocou em dupla. e escutei obrigada um milhão de vezes. Eu sabia bem que Autumn e eu não tínhamos chance alguma. Nunca conseguimos uma balinha sequer. então nunca a tinha visto antes. Os cabelos loiros eram claros. Prestei atenção nela logo de cara.

Ela falava que eu era a pior manicure do planeta e que conseguia fazer as unhas melhor com a mão esquerda do que eu com a direita. Ela saiu da piscina nadando cachorrinho. Lá no topo. mas a sensação era de que nunca mais iríamos parar de subir. Autumn meio que foi puxada por mim. nossos dedinhos enrugados se entrelaçaram com firmeza e eu contei até três antes de pular. no ensino fundamental II. Mas. Pela primeira vez. rindo do estilo de natação dos garotos que se movimentavam como ninjas ou gritavam como o Tarzan. mesmo eu tendo avisado que queria tentar fazer com que os garotos do quarteirão nos convidassem para brincar polícia e ladrão. talvez porque todas elas usavam maiô de duas pecas e um salto daquela altura faria com que a parte de cima saísse. Adorei ver como ela testava a si mesma. Mas antes de Autumn. Principalmente porque nenhuma das outras garotas ia subir. Eu tinha uma coleção de ursos de pelúcia que ficavam em uma rede de nylon pendurada em cima da minha cama e chorei como um bebe quando Christopher Clark jogou em mim uma cobra de jardim que tinha encontrado atrás da garagem. Eu a segui. mas assim que me transferi para a Academia Ross. leve e borbulhante. Lembro-me de me sentir com sorte por ter me 20 . Autumn e eu éramos definitivamente uma dupla estranha. mas estava escondida lá no fundo. vi com que facilidade Autumn fazia amigos. Autumn era como água com gás. E toda vez saltava um pouco mais alto. mesmo que não fôssemos para a igreja ou jantar fora. mesmo antes de conseguir me secar direito. já ia fazendo planos de brincar com uma das garotas. Eu não estava com medo. Não havia nenhuma na minha rua. gritando o percurso todo e ficando com a água ate o nariz quando afundamos. como se a aula de natação fosse um aquecimento para a diversão que viria em seguida. em vez disso. assim que saía da piscina. um pouco mais longe. Tudo aquilo de que ela precisava era um empurrãozinho meu. eu pulei. Autumn ficou paralisada de medo. tive a certeza definitiva. Assim que nossas mães chegaram para nos buscar naquele dia. Bem. Eu sempre soube disso.de arquitetura e o papai um consultório oftalmológico. Ela aparecia na minha casa de saia e sandália. É claro que as roupas que eu vestia vinham do meu primo Noah. nunca tinha feito amizade de verdade com uma garota. Elas ficaram na parte rasa. Foi só na última aula. Eles sempre chegavam exatamente às 14h55. Eu não era levada. e decidi ficar sentada ao lado dela pelo resto da aula. Autumn foi correndo para a escada e continuou pulando sozinha. com uma sensação péssima. mas eu a forcei a subir a escada comigo. mas às vezes eu até usava um vestido de verão. quando o salva-vidas nos deixou pular do trampolim mais alto. que Autumn e eu nos unimos de verdade. Autumn tinha muita coragem. muito mais fácil que eu. tossindo muito. Tantas pessoas a cumprimentavam nos corredores. e eu entrava no carro. Com Autumn era diferente. nos apresentamos como melhores amigas.

Eu levei na boa. Autumn explicou que às vezes eu era meio sabe-tudo. Dividíamos o jornal de domingo. churrascos e beliches era demais para resistir. Uma vez. Ainda guardo algumas na minha caixa de jóias. Mas acho que dizer não aos convites e tentar conseguir para mim convites de piedade já estava ficando meio ultrapassado para nós. mas a nossa amizade tinha essa estranha inocência atemporal. mais bronzeada do que jamais a tinha visto. não era páreo para Chad. Nem falávamos sobre eles. Talvez isso fizesse de mim uma pessoa entranha. Apesar de Autumn sempre ficar comigo. Acho que esse tipo de competição devia ter me preparado para o Chad. e esse tipo de coisa permeava tudo o que fazíamos em família. Claro que não intencionalmente. estava na casa dela praticando um diálogo para um projeto de Francês quando Chad ligou e a convidou para encontrá-lo com alguns amigos perto do Liberty River. cortesia do kit de bijuterias de Marci. e então recolhi todas as contas que consegui encontrar. Eu não neguei. Autumn se manteve distante de Marci. Os rapazes não faziam parte da nossa equação. Com sorte e um pouco assustada. Tínhamos o nosso rádio da cozinha sempre sintonizado em estações culturais. mas por dentro estava fervendo. expedições de fósseis ou monumentos históricos. Ela fez uma cara de decepção e então me explicou que tinha aceitado um convite da Marci Cooperstein para passar uma semana na casa dela no lago. E apesar de saber que podia competir com as Marci Coopersteins da vida. os outros garotos do quarteirão não eram mais amigos.tornado amiga dela antes. Ele deixava Autumn completamente hipnotizada. Havia sempre garotas que queriam sentar ao lado dela na hora do almoço. Isso pode até parecer estranho. dormiu na minha casa por quatro dias seguidos e me deu uma pulseira da amizade que fez especialmente para mim. Eu tinha convidado Autumn para ir comigo e minha família a um show de laser no planetário. mas ela disse isso de uma maneira muito mais educada e gentil. Meus pais eram do tipo intelectual. Fiz minha mãe me levar à biblioteca quatro vezes. podia sentir que ela estava se distanciando. eram só rapazes que se sentiam estranhos quando estavam por perto. pois tudo o que eu fazia era sentar no meu quarto e ler. Mas inteligência não necessariamente abre caminhos no ensino fundamental. Naquela época. Fazíamos charadas na hora do jantar. Autumn 21 . mas creio que a promessa de uso de Jet skis. Marci vinha tentando interferir na minha amizade com a Autumn há meses. Quando Autumn voltou. Toda vez que Marci via a pulseira. Ela era convidada para noites do pijama. mas não foi o que aconteceu. E ela usou as contas mais legais — esferas de vidro lilases alternadas com pedras brilhantes furta-cor com o formato de minúsculos grãos de arroz. fervia de raiva. mas definitivamente me deixava mais esperta do que a maioria das pessoas que conhecia. Foram sete dias de pura tristeza para mim. Usei até quebrar. E nossas viagens em família eram para centros científicos. Eu não tinha mais ninguém.

usando o campo de força da melhor amiga para distraí-la dos fungadores e das caras de nojo. 5 Meriwether Lewis e William Clark formavam uma dupla de exploradores que liderou primeira grande expedição exploratória do continente norte-americano. Andava na frente de Autumn. cerveja. exagerei. Autumn sabia que eu estava fingindo. partindo do leste e indo em direção ao oeste até a costa do oceano Pacífico. Éramos as únicas garotas por lá.supôs que eu não quisesse ir. mas ela amassou o bilhete e jogou no vaso sanitário. Então aconteceu o incidente da isca de peixe. Estava entusiasmada a ponto de gentilmente me encorajar a usar um de seus casacos e passar um de seus batons. chegamos a uma pedra enorme. Estava cheio de erros gramaticais. tomando cerveja e soltando a fumaça do cigarro no céu do anoitecer. Tive uma sensação esquisita quando Autumn pegou na minha mão e desviamos da calçada para um caminho estreito na mata. Bem na frente de Autumn. Autumn mostrou para mim. Disse à Marci que ela era patética. e me deixou voltar para casa sozinha. Alguns rapazes estavam sentados nela. Fiquei conhecida como a nerd com intensidade assustadora que fazia qualquer coisa para proteger a isca de peixe. Para todo o restante da escola. cheio de lixo e bitucas de cigarro. Depois disso. e até mesmo algumas garotas ficaram muito metidas e subitamente passaram a ser boas demais para serem suas amigas. escuridão e mata cerrada estavam muito além do meu domínio. definitivamente. Pensando bem. Marci pediu desculpas para Autumn em um bilhete escrito durante a aula de coral. Fiquei feliz ao ver como ela ficou animada pelo fato de querer acompanhá-la. ela só convidou Marci. mas disse a ela que queria. Seguimos por um caminho de terra. Mas rapazes mais velhos. Acho que algumas pessoas tinham medo de mim. Achei que a tivesse perdido. Idiota. Depois de dez minutos. Marci escreveu. (NT. ela ficou marcada. Marci até chegou a rir algumas vezes das piadas que as pessoas faziam. "Voce certa de estar brava comigo". Nunca senti tanto orgulho dela. Depois de algumas curvas e voltas. e eu fui a única pessoa que ficou ao lado dela. com posterior retorno. assentada em meio à água prateada. Achei que Autumn escreveria de volta para Marci. Fiquei bem desnorteada apesar de conseguir ouvir o rio. E tomei seu lugar com muita alegria. Algumas semanas depois. mas Autumn caminhava como se ela fosse ao mesmo tempo Lewis e Clark 5. Os garotos tinham nojo dela. fingi estar passando mal.) 22 . ou começava a falar bem alto sobre absolutamente nada.

Depois de Chad Rivington. contanto que não fizesse nenhuma besteira no SAT. Levávamos o almoço para a biblioteca e estudávamos ou fazíamos lição de casa juntas. Autumn transformou o lado negativo em positivo. mas entrou na lista das honras comuns da escola. canalizamos nossa energia para o estudo. 23 . Autumn nunca foi uma ótima aluna. e. bem. Mesmo assim. conseguiria escolher a faculdade de sua preferência.Com a minha ajuda. O que era tudo que sempre quis ser. tudo isso apenas me permitiu ser uma boa melhor amiga. Juntas. Isso a salvou de várias desilusões inúteis. Eu até consegui incluí-la no conselho estudantil. e naquele primeiro semestre do primeiro ano quase repetiu por causa do estresse com tudo o que aconteceu. E eu. para começo de conversa. Autumn nunca mais teve outro namorado. Autumn não se saiu tão bem a ponto de conseguir freqüentar as aulas avançadas.

bonita e esbelta e estava usando um vestido solto preto. uma trança com contas de vidro vermelhas e turquês. As salas de aula ainda estavam trancadas por causa do fim de semana. Sabia que ele ia querer me envergonhar da mesma forma como eu o envergonhei. Na sexta-feira anterior. E a palavra não vinha bem apertadinha antes de experiência. Depois de pular algumas vezes em uma tentativa desesperada e sem sucesso de alcançar o cartaz. parecendo a crista de uma onda do mar. resolvi ir direto ao escritório da Srta.N N N Capítulo 4 N a segunda-feira. Bee. Bee era bronzeada. Seus cabelos brancos espessos eram cacheados na altura da testa. Apesar de ter 60 e poucos anos. assoprando a fumaça que saía da xícara de cerâmica que tinha em mãos. Ela tinha uma pilha de papéis e 24 . Mas o ataque dele era pior do que qualquer mancha de óleo. A Srta. 0 corredor estava vazio. achei um dos meus cartazes preso na parede acima do meu armário. Ele havia feito um bigode em mim. e fivelas de couro cor de mel. com a fita adesiva original ainda presa a ele. caindo nos ombros. mas não ficaria assim por muito tempo. então não dava para pegar uma cadeira. líder com experiência". Mike (obviamente) pegou uma caneta e fez alguns rabiscos às minhas custas. é claro. Possuía a minha foto segurando uma jaqueta em cada uma das mãos durante a doação de casacos para o inverno do ano passado e dizia: "Vote em Natalie. o mesmo cartaz estava pendurado próximo ao escritório central. andando tão rápido que minhas meias três quartos começaram a escorregar. Eu esperava uma retaliação por parte do Mike Domski depois do incidente da pizza na sexta-feira. Bee estava em sua mesa. a Srta. Era degradante. desenhado dois pênis enormes (um em cada uma das minhas mãos) e vários pontos de interrogação flutuavam sobre a minha cabeça. Ele riscou a palavra líder e escreveu virgem por cima.

— Você o viu fazendo? — Não — respondi. Estava muito brava para me sentar. cuja armação era preta e angular. — Apesar de você estar chateada. como o Vietnã e os anos de 1960. Tinha ódio por Mike me dar nos nervos dessa forma. eram incrivelmente interessantes. com recordações e até lia trechos de seu diário pessoal. até mesmo as eletivas. — É verdade que você jogou um pedaço de pizza em Mike Domski sexta-feira passada? — Meu queixo caiu. Eu sempre quis impressioná-la. Mas você deve se manter forte e equilibrada assim como tem sido nos últimos três anos do ensino médio. Domski sentem-se intimidados por mulheres poderosas. — Entendi — disse a Srta. E agora. Levou alguns segundos e uma pequena tossida fingida para ela perceber a minha presença.pastas à sua frente. Ela complementava as palestras com fotos pessoais. Entre. rindo de mim. Não deve permitir que ele ganhe a eleição de você. Bee colocando a xícara na mesa. mas estava com medo demais. tinha feito exatamente o contrário. E feche a porta. e os guardou em uma bolsinha de seda. Contudo. deixava minha orientadora louca preenchendo formulários para que pudesse freqüentar todas as aulas de história ministradas pela Srta. E ele escreveu coisas terríveis sobre mim — pensei em contar a ela que tipo de coisas. — Posso to dar um conselho de amiga. graças a Mike Domski. — Você tem certeza de que foi ele? — Sim — disse. Ela tirou os óculos. Todo semestre. Natalie. — Sim. e eu parecia uma criancinha. A única forma que ele tem de diminuir você é simplesmente o fato de você ser mulher. é verdade. os alunos iam começar a chegar e olhariam para o cartaz. Se não agíssemos rápido. Bee olhou para cima e disse: — Natalie. mas já que Mike Domski também decidiu percorrer um caminho não tão digno nessa campanha. sentindo meu rosto queimar — mas sei que foi Mike. — Mike Domski desenhou em um dos meus cartazes — minha voz tremia. — Garotos como o Sr. inclinando-se até sua cadeira ranger. A Srta. olhando para o relógio na parede bem acima dela. de garota para garota? — Fiz que sim com a cabeça. 25 . devo admitir que estou feliz em ouvir essa história do cartaz. como cerâmica. então fiquei em pé no escritório com a maçaneta pressionando as minhas costas. Estava preocupada com o fato de talvez ter de puni-la. Queria falar com você hoje. as infrações podem ser canceladas mutuamente — disse. Que bom. que eram bem mais difíceis do que as outras. Bee.

Achei uma lata de lixo vazia que pudesse ser virada para que eu subisse em cima para alcançar o cartaz e retirá-lo. Mas. — Obrigada — respondi. No mínimo é uma oportunidade de se relacionar com algumas das mulheres mais incríveis e inspiradoras no auge de suas carreiras. Se você ainda não fez as malas para Cancun. na verdade. A pessoa que administra a conferência foi minha colega de quarto durante o mestrado. Alguém tinha passado na minha frente. Vai tratar exatamente desse tipo de desafio. Bee abriu uma gaveta e começou a procurar por algo. A Srta. — Queria poder dizer que você não vai encontrar um milhão de outros Mike Domskis durante a sua vida.Uma onda de energia tomou conta de mim. acho que seria uma ótima experiência formativa para você. — Haverá uma conferência de liderança para jovens mulheres em Boston durante o feriado da primavera. Caminhei até o meu armário com a cabeça erguida. mas isso simplesmente não seria verdade — ela me entregou um panfleto brilhante. A Srta. 26 . Bee estava certa. e pode ser que eu consiga um desconto para você. Mike só conseguia recorrer a golpes baixos porque eu o superava em todos os outros aspectos. a manhã começava a chegar ao auge da agitação. isso nem chegava perto do que eu sentia naquele momento. O corredor começou a ficar cheio de alunos. Mas não precisei fazer isso.

pois é assim que um perdedor educado faz. Isso seria exatamente o que ele iria querer. parecendo uma mancha caqui. recusava-me a dar a Mike a satisfação de me humilhar na frente de todo mundo. apertando as mãos de Mike. Esfreguei as mãos nas pernas. mas Mike estava tão dolorosamente próximo que os braços das nossas cadeiras conseguiam se tocar. O candidato mais qualificado venceria. caso as coisas não saíssem do meu jeito. mas eu não saía do lugar. e o assoalho rangia tão alto que soava como um golpe em minha testa. Kevin estava um pouco mais distante. Parecia que a escola inteira havia se reunido ali para ouvir o resultado. Não queria arriscar tocar em Mike acidentalmente. Connor Hughes sentou-se na fileira da frente.Capítulo 5 N o dia da eleição. é óbvio. Natalie Sterling chorando por causa de uma eleição do conselho estudantil. sentei-me no meio de Mike e Kevin em frente a biblioteca. O ambiente todo ficou barulhento e subitamente tive dificuldade de engolir a bala que estava em minha boca. Ele fazia de propósito. essa competição não existiria. 27 . com a gravata solta ao redor do pescoço. Sua perna esquerda pulava para lá e para cá. "Dom-ski. nem um centímetro. Vislumbreime tendo de sorrir. Mas Mike Domski tinha muito mais amigos que eu. Rapidamente tentei me preparar. qualquer coisa para me irritar. Em um mundo perfeito. Ia me proibir de chorar caso perdesse. virando-se quando alguém atrás dele começava a cantar. Por mais difícil que fosse. muito mais. Eu me afogaria por dentro antes de permitir que uma única lágrima rolasse pelo meu rosto. Dom-ski". dando-me a maior coceira. Minha saia de preguinhas espetava minhas coxas. estavam úmidas e frias. Várias outras vozes uniam-se ao coro. nem mesmo que nossos uniformes se tocassem.

um gesto mais constrangedor do que 28 . Eu sabia o que aconteceria: Mike ficaria entediado com toda a responsabilidade e o trabalho e jogaria tudo para cima de mim.Perder nem seria a pior parte. Você é como um. A raiva percorria todo o meu corpo. Quando nossos olhares se cruzaram. Não ia fazer isso comigo mesma. claro. — Tenho de dizer. Um sorriso passou pelo rosto dele. Só estou brincando com você — falou. que mantinha seu olhar preso ao chão. Olhei para Kevin Stroop. Kevin ganhava tudo. — Você jamais me deixaria de pau duro. o que me deixava preocupada por razões óbvias. batendo no colo estou até sentindo uma movimentação bem aqui. contando as cédulas. Natalie. ela não desejava que a minha participação custasse a minha dignidade. e o melhor que conseguia fazer era me chamar de feia. assim nem tentaria me convencer a ficar. suas sobrancelhas grossas como taturana encontravam-se no meio da testa. seu nível de intensidade é ardente — disse. Precisei de todo o meu autocontrole para não lançar a maior e mais tímida cusparada bem no meio dos olhos dele.. — Ei. Natalie. absolutamente. Bee ficaria desapontada. mas o que mais poderia fazer? Decidi que a melhor atitude seria escrever uma carta de demissão à Srta. Antídoto para o tesão. O mais provável era que Kevin tinha medo de Mike Domski. então segurei firme os braços da cadeira. Podia até ter sido uma estratégia de campanha. A Srta. Bee estava sentada no escritório da biblioteca. E eu teria feito isso se não fosse a Srta. de cabeça baixa. O ruim seria ter de sair do conselho estudantil. É claro que Mike não ia se incomodar em barbear-se para o dia da eleição. — Pare de falar comigo — disse. mas eu duvidava disso. o que foi bem mais curto do que a resposta dura que esperava dar a ele. Apertei os lábios e o ignorei. alguém em quem pudesse mandar. E por mais que soubesse o quanto a Srta. Não que eu precisasse que Kevin me defendesse. Sentei-me ereta e tentei manter contato visual. E para mim. ela acenou e me mandou um beijo. Não queria isso. e ele esfregou o queixo com a barba por fazer. — Nervosa? Mike me olhava de forma presunçosa. com a mão levantada chacoalhando um pedaço de papel — Muito bem! Obrigada pela paciência de todos! Vamos lá! Spencer apareceu na porta ao lado de outras garotas. não havia meio de lidar com isso.. Bee movimentando-se em meio à multidão. esboçando um sorriso major. deixa disso. Dava para vê-la pelo vidro. Seu cenho parecia mais cerrado do que o comum. Mike Domski queria me ofender. Enquanto Mike e eu brigávamos. Ele tentaria fazer de mim sua secretaria particular. ou ele não estava nem ar em ver um cara que dizia coisas repugnantes para uma garota. Eu podia dar conta disso sozinha. Bee em vez de falar pessoalmente com ela.

só um pouquinho. Dipak Shah. é Na. Connor Hughes. todas carrancudas.. sorrindo tanto que até doía. impedindo a passagem da multidão com a sua enorme mochila. Sabia que minha camisa branca estava com enormes marcas de suor na parte das axilas. Pulamos para cima e para baixo. Tentei encontrar o rosto de Autumn no meio da multidão. e ela gritava o máximo que conseguia. nós duas. em que os retratos dos antigos presidentes do conselho estudantil da Academia Ross estavam pendurados. que batia louca e aceleradamente. 29 . Depois de rapidamente prender meu cabelo em um rabo de cavalo. Esperei. A Srta. Bee pigarreou e o local ficou em silêncio. Separei-me de Autumn e fiquei bem na frente dele. fiquei olhando para a parede à esquerda. A biblioteca abafada sentia o morno aplauso das pessoas que esperavam pelo evento principal. O cheiro apimentado do seu perfume me reconfortava. Alguém dentre os simpatizantes de Mike começou a vaiar. mas. Sorri para Martin para parabenizá-lo. O vencedor.reconfortante. e espero que aproveitem esse entusiasmo para se inscrever em pelo menos um de nossos comitês. e balançamos tanto que quase caímos no chão. A maior parte era composta de retratos de garotos de blazer. Todo mundo. Connor sorriu para mim. Mas Mike não conseguia esconder sua repulsa. David Goss ganhou como secretário. E eu estava adorando cada segundo. Senti a semelhança logo de cara. — É maravilhoso ver tantos de vocês interessados no conselho estudantil este ano. por apenas alguns votos. De algum lugar do fundo da sala. — Você não vai me parabenizar? — disse no tom mais sarcástico que consegui. A Srta. e eu não consegui ouvir o restante do meu nome. Autumn veio rapidamente em minha direção. O cabelo dela estava na frente do rosto todo. Tudo quieto. Creio que achou minha comemoração engraçada. Só havia algumas garotas. Bee ficou na frente da biblioteca.. nada de sorriso. gritando e rindo. Nossa primeira reunião será na segunda-feira. — E na eleição para o nosso novo presidente do conselho estudantil. Martin Gedge. e ele me retribuiu com um olhar de preocupação que me rachou ao meio. como não consegui. tivemos o resultado mais apertado da minha história como orientadora. estendi a mão e esperei o aperto de Mike. exceto o meu coração. Todos os amigos dele estavam ouvindo. com um sorriso que revelava uma ambição descarada e indesculpável. mas eu não estava nem aí. Não que isso tivesse importância. Percebi que Mike estava de pé com seus amigos. Um sorriso vazio congelava em minha face enquanto ouvia os nomes dos vencedores. sem parar. como vice-presidente. Levantei-me. como tesoureiro. Autumn me abraçou com muita força.

30 .Mike olhou para a minha mão e tirou sarro. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Como todos aqueles momentos que alteram a nossa vida devem ser: fáceis. tão Belo. Autumn me tirou de perto e perguntou: — Tudo bem. mas ainda havia vários alunos que ficaram por perto para me parabenizar. Srta. — Parabéns por ser o tipo de fracassada para quem esse tipo de coisa é realmente importante. Como o destino. A biblioteca começava a esvaziar. Presidente? — e começou a massagear minhas costas como se fôssemos lutador de boxe e treinador depois de uma longa luta. O momento pareceu-me tão adequado.

e os trailers dos filmes eram em francês e italiano. fui buscar Autumn.Capítulo 6 M ais tarde. era muito diferente do complexo dentro do shopping Center Summit. O tempo em setembro sempre nos deixava sem saber. mas esse cinema. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. seguida por lanches. naquela noite. pois vestia uma saia de veludo vermelha. Não que eu precisasse me arrumar. em particular. pelo menos para ela. alguns dias eram quentes como o verão e outros frios como o outono. Era para ser. Senti-me um pouco mal. Só que eu tinha ouvido no rádio durante o café da manhã que Um Bonde Chamado Desejo estava passando em um pequeno cinema independente em uma das cidades vizinhas. tudo parecia melado. uma organização independente e sem fins lucrativos de filme. uma blusa preta de gola careca e as pequenas pulseiras prateadas que a vovó me deu quando fiz 16 anos. Eles serviam vinho e petiscos. Uma cortina de veludo vermelha escondia a tela até um pouco antes de o filme começar. 31 . não era o próximo filme da nossa lista. considerando que eu tinha ganho a eleição há apenas algumas horas. depois máscaras faciais ou manicure e então por qualquer programa sem graça na televisão que assistiríamos até cair no sono. Na verdade. 6 American Film Institute. Buzinei e Autumn veio correndo de jeans e um agasalho que eu havia comprado para ela em uma das minhas visitas às faculdades. uma sexta-feira típica – alugaríamos algum filme da nossa lista (estávamos tentando completar a lista dos 100 melhores filmes da AFI 6 que eu havia recortado e plastificado com todo critério no escritório da minha mãe). Além disso. como pipoca caramelada e barras de chocolate. mas a chance de ver um deles na tela grande era excitante demais para deixar passar. tornaria a noite especial.

Não parecia que estávamos dentro do carro. De qualquer forma. Tentei parecer animada ao descrever os petiscos sofisticados e a cortina de veludo. ela estava sempre bonita. apontou para um lugar pela janela e ficou toda animada. Sentia meu coração leve. como se o estoque de cerveja fosse acabar a qualquer momento. expliquei o que havia planejado. você está ótima.Então. É melhor eu trocar de roupa? Eu devia ter dito sim. – Aonde vamos? .. – O que está acontecendo? – ela perguntou.Autumn soube que eu estava aprontando alguma coisa assim que me viu.É segredo – respondi. quem diria quando tinha de realmente escolher uma roupa para sair. Apesar de não querer estragar a surpresa.. mas se Autumn era tão lenta para se arrumar para a escola. . Ela não parava de olhar para a rua enquanto passávamos pela casa em que havia a festa. animado pelo alívio de ter ganho a eleição e pela surpresa de Autumn. Então. Balancei a cabeça.Você tá de brincadeira? – Como é que Autumn podia imaginar que eu a levaria a uma festa? . mas eu acelerava na hora certa. Juntas. estacionados com pressa. . Reconheci alguns por causa dos adesivos da Academia Ross. Havia carros por toda a extensão do acostamento. sorrindo. Tudo o que eu consegui dizer foi: . Tive de descer das nuvens e olhar ao redor para entender. Suas palavras não fizeram sentido para mim a princípio. cobertos pela folhagem de outono que ninguém havia se importado em recolher. A música vinha de uma pequena casa da rua. apinhada de gente. Autumn não parava de tentar adivinhar quais eram os nossos planos.Nem me diga! Nós vamos festejar! – disse ofegante. cantamos todas as músicas que tocavam. mas Autumn não pareceu interessada. não é isso que nós vamos fazer hoje à noite? – disse ao mesmo tempo em que a excitação se esvaía de seu rosto.Mas você está tão bonita. Decidi pegar a estrada secundária e deixar Autumn sem saber – um labirinto repleto de montanhas e ruas sinuosas que faziam nossos estômagos revirar. Não estávamos nada perto do cinema.Não se preocupe. tínhamos a sensação de estar flutuando. o meu rádio patético estava tão alto que os falantes chiavam. provocadora. Balancei a cabeça e disse: . Algumas pessoas estavam conversando no gramado. 32 .

Celebridades ou convidadas especiais ou algo assim. vomitando. Parece mesmo que estamos perdendo a maior diversão. .Uau. acenou e fez sinal de positivo com as mãos. Então. Em vez disso. nem mesmo olhou em nossa direção.. parei o carro e abaixei o vidro. Ainda tínhamos um bom tempo para chegar ao cinema. vomitando em um arbusto. dando a Autumn a chance de mudar de idéia. desligou o rádio. achava que seria recebida de braços abertos. .Acho que sim – ela disse. depois trancar as portas. mas eu estava preocupada com o fato de Autumn tentar sair correndo para a casa se parássemos para ver o garoto e eu acabasse tendo de correr atrás dela. Não ficaria ali esperando.Finalmente. e parece ser algo que provavelmente devêssemos fazer antes de nos formarmos.. cheia de pessoas de quem nem gostávamos. E Autumn estava iludida. não acha? Olhei para o relógio. ela se virou para mim e disse: . rabugenta. Não conseguia acreditar nas suas palavras. Seríamos como. certo? E você está tão bonita hoje.E se a gente simplesmente entrar? . está tudo bem? O garoto não disse nada. Virei-me para Autumn. Então.. Mas nem precisei explicar tudo isso. Se havia uma coisa no mundo todo que eu não queria fazer era aparecer de surpresa em uma festa de escola para a qual não tivesse sido convidada. Você aí.Ei.Não sei. fazendo com que o carro parasse de 33 .Devíamos estacionar para ver se ele está bem. ―Acho que sim‖ era uma resposta suficiente boa para mim. Autumn gritou quando eu pisei no acelerador. Sem falar que eu tinha feito planos melhores para nós.Por que faríamos isso? .Podemos ir agora? . . dizendo: . Para deixar todo mundo louco? Não no mau sentido. O que fiz foi apontar para um garoto que estava ajoelhado na calçada. nunca fomos juntas a uma festa antes.. Além disso. abriu o vidro e esticou o corpo para fora para sentir a música que a brisa trazia. Pisei no freio o mais rápido e forte que pude.

fazendo movimentos sexuais.Vamos nos atrasar para o filme. Deus! Estou tentando! Depois de fingir ter levado o meu Honda ao orgasmo. apontando para a escuridão. Alguém todo desarrumado deu alguns passos em nossa direção. e isso poderia ser interpretado como um convite. A movimentação dos rapazes iniciou-se com uma risada barulhenta ao perceberem que tinham acabado de escapar da morte. Scott Philips.Parece que Mike já superou a perda da eleição – disse Autumn. . Meu batimento cardíaco começou a diminuir. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundos. os garotos voltaram para a festa rindo.Estou tentando! – gemeu. Autumn virou-se em seu lugar.Sabe. – Ah. Os olhos dele eram azuis e lacrimejavam por causa da bebida e por estar fazendo sei lá o que mais. O cheiro de borracha queimada pairava no ar. .Há uma vaga no fim da rua – disse. . Os dedos estavam enroscados nos buracos do casaco.Por que você não vai sozinha? – perguntei com raiva. tentando amenizar o clima e acrescentou: . Eles se abraçaram mutuamente e disseram em coro: ―Caramba. Olhei pelo retrovisor e não vi mais nada. apenas a noite. soando como quem não ia sair do lugar. Tentei mover o carro para frente. . não há problema algum em ser 34 .Olhe por onde você anda! – gritei. sentindo minha mão tremer ao apertar a buzina. Connor Hughes. Ele parou para ver dentro do meu carro com um olhar de curiosidade. então pisei fundo no acelerador. . . Mike Domski. mas não consegui evitar. mano!‖ Mike Domski jogou uma cerveja de lado e começou a subir no meu capô. mas fui impedida pela barreira humana. .Deixa para lá – disse Autumn.Saia do meu carro – gritei. forçada a testemunhar sua comemoração embriagada. Quatro garotos bêbados estavam paralisados na frente do meu pára-choque.Obrigada pela dica – disse com sarcasmo. . Autumn ajeitou-se no banco.repente.Tem certeza de que você não quer ir? . Os faróis do carro balançavam para cima e para baixo na rua escura. Paul Zed e James Rocker. bufando de raiva: . O corpo dele exalava cerveja quente e amarga.

35 . Apenas dirigi o mais rápido que pude para me afastar daquela casa.espontâneo. Nem me preocupei em responder.

Antes de ir para a reunião. como se estivesse fazendo um estranho exercício de yoga. Eu havia vencido Mike Domski e agora podia finalmente começar a trabalhar. Autumn não dormiu na minha casa na sexta nem no sábado. mesmo com o cronômetro acionado. As outras garotas evitavam usá-lo por medo de serem pegas falando ao telefone ou fumando. ela estava espiando pela janela da cozinha. Era o meu lugar predileto para fazer xixi. Sorri para ela e coloquei minha bolsa na bancada de uma pia seca. Ela sussurrou: . Sempre que olhava em seu rosto. colocando o dedo na frente da boca e apontou a cabeça para o respiro do teto. mas a falta de uso significava que estava sempre mais do que limpo.Capítulo 7 O restante da minha semana foi um tédio. Obviamente. Não que tenha sido sempre assim. mas apareceu no domingo para fazermos juntas alguns simulados para o SAT. Ela estava se esticando toda até o teto. e constantemente havia papel higiênico e papel-toalha sobrando. queria me refrescar e dar uma organizada em tudo. mas o SAT seria em menos de um mês e queria que estivéssemos o mais preparadas possível.Shhhh! Spencer fez sinal de silêncio. apesar de ter praticado meu discurso incontáveis vezes. . Era como um banheiro para garotas executivas. O lugar perfeito para isso era o banheiro feminino da sala dos professores.A Sra. e pelo menos cinco páginas atrás de mim. As saboneteiras estavam sempre cheias de sabonete líquido cor-de-rosa. Abri a porta e vi Spencer ajoelhada em cima do aquecedor. Dockey está falando mal do diretor Hurley por ele não ter aprovado o 36 . pois. Mas eu não estava sozinha. Havia uma camada de poeira em cada uma das fendas. os simulados não eram o mais legal a se fazer. Dava para perceber a sua falta de concentração. Não parava de lembrar a mim mesma que o estresse da eleição já tinha passado. estava muito mais nervosa do que pensei que estaria para a primeira reunião do conselho estudantil na segunda-feira.

levava suas produções teatrais muito a sério. nem chegava perto disso. mas não tinha nada a ver com sexo. e coloquei a camisa para dentro da saia. mas aquele só com os lábios.. . Spencer piscou para mim. Algumas garotas do meu grupo estavam planejando votar em Mike porque ele é bonito. Não dava para imaginá-la falando dessa forma. com várias franjas no bumbum. isso é parte da minha fantasia do can-can que apresentei no show Moulin Rouge. – Mike está louco para transar com você. Passei batom. . Balancei a cabeça e falei: . .Vi o que Mike escreveu no seu cartaz – falou. Dockey tinha uns 80 anos de idade e falava de uma forma completamente macia.Obrigada – disse. Certifiquei-me de que a fita estava bem colocada em minha cabeça.Segui seu conselho – disse Spencer.Mesmo? .Hmm. mas eu as forcei a votar em você.A tensão sexual faz os caras agirem como perfeitos idiotas. Será que foi Spencer quem tirou o meu cartaz? Virei-me para ela e perguntei: . mas era praticamente impossível. como se eu estivesse sendo modesta. dizendo: . Sorri. É tão óbvio. 37 . de ser líder. provavelmente não ficaria nervosa em ter que apresentar um discurso ao conselho estudantil. Nunca tinha tido a chance de aparecer dessa forma. Se ela usava roupas daquele tipo para dançar. Não aquele sorriso que mostra os dentes. mostrando a roupa de baixo de cetim cor-de-rosa.Mesmo. Contudo. uma melhora relativa. Chegou a dizer que não pode estrelar O mágico de Oz com malditos lençóis e sacos de estopa idiotas! Tentamos segurar o riso. ele não está. mas por dentro meu estômago revirava.O que você quer dizer? Ela amassou os cachos do cabelo olhando no espelho. . Mas tinha que dar algum crédito a Spencer. Nós nos odiamos. Mais pronta que isso impossível. Com certeza havia tensão entre Mike Domski e eu.orçamento para os figurinos do musical da escola. Era. balançando a cabeça com desaprovação. Procurei minha escova na bolsa para dar um jeito nos nós do cabelo.Então. não.. – Viu? – Ela saiu de perto do aquecedor e levantou a saia. parabéns por ter vencido a eleição. Ergui a sobrancelha. – Mas acho que você não pode culpá-lo por isso. A Sra. – Na verdade. .

fazendo com que ele aja dessa forma. – Ela não gosta de mim. – Era algo estranho de se dizer. Se ela achar que você não está interessada. Gostava disso nela. Gosto de tudo. .É hoje. Na verdade. impedindo minha passagem. Fechei a mochila e a coloquei nos ombros. daqui a cinco minutos. pode fazer essa proposta para o corpo diretivo da escola.Tenho certeza de que gosta – disse. E toda a frustração explode. – Queria mesmo que a escola tivesse um clube de dança. mesmo eu não tendo a mínima idéia do que ela estava falando.Então. Spencer. se você fizer parte do conselho estudantil. – Temia que este fosse o maior problema de Spencer. era só participar. Você é muita areia para o caminhão dele.Bem legais. Era legal ouvir Spencer dizer elogios sobre mim. e era bem dura com as meninas. como vão as aulas? – perguntei. a coisa vai muito mais além. Mas me dava nos nervos ouvi-la analisando Mike e a mim daquela forma. Fazer uma entrada dramática. pois o que havia para ser avaliado por Spencer? Se você queria participar de um clube. – Isso é demais. . . Spencer olhou-me de forma questionadora. mas. Honestamente. por dentro. na verdade.Você tem de mostrar seu interesse em aprender. Mas Spencer se inclinou na pia ao lado da minha. . – Ela bateu o dedo na boca algumas vezes pensando. . Talvez eu vá à primeira reunião. Na verdade. E talvez fosse legal ser a garota por quem todos estavam esperando. .Então. não é tão difícil. É a melhor professora de toda a escola. .O maior trabalho é a professora – Spencer reclamou..Ele jamais vai conseguir ter uma garota como você. Acho que podia ficar mais alguns minutos. Bee era uma professora difícil. Bee é demais. – Você já se inscreveu em algum clube? .Bem. . menos de História da Civilização Moderna. Não havia limite para esse tipo de coisa. – Como é que ela não sabia disso? 38 .Ainda não. mas. e ele quer morrer por causa disso. mas com certeza não aprovaria a travessura da roupa de baixo chamativa de Spencer. havia uma parte de mim que achava que talvez Spencer tivesse razão. então não vai querer saber de você. Ela estava se concentrando nas coisas erradas. certo? . parecendo irresponsável. é bem típico dos garotos. . É amanhã.O quê? Você tá brincando? A Srta. Estou avaliando minhas opções. Quem era ela para saber de tensão sexual? Ela só tinha 14 anos. tá. A Srta. Queria conversar. Não queria ser a última a chegar na biblioteca. Talvez ele te odeie por fora – concordou Spencer -. contanto que você não se atrase nas leituras. .Sério? Os alunos têm poder para fazer isso? – ela perguntou e eu concordei.Fiz essa aula no primeiro ano.

. Vamos decidir quem será hoje. Uma em que não fosse preciso usar figurinos sexies. eu mesma os tinha pendurado. sorrindo. 7 Quando duas pessoas batem as suas mãos levantadas. para mostrar o espírito da escola. . sou amiga da presidente do conselho estudantil. Algumas das minhas colegas e eu estávamos pensando em desenhar nossas próprias camisetas. . Sabe.Boa sorte. . desde que as cores sejam iguais às da escola. na reunião. de verdade. Ela fez uma careta. . levantando a mão para fazer high Five7. Com certeza. Ele. Vai ser algo épico. Natalie. mas me procure amanhã e te digo. Tenho certeza de que sua ajuda seria bem-vinda.Legal – Spencer mordeu o lábio. não dá para ficar melhor que isso. vou me atrasar e isso não seria nada bom. ou ela. Quando bati na mão de Spencer. Bee anunciou a reunião. – Você definitivamente precisa se reunir com o representante da classe.Legal.Não se preocupe.Spencer esta na biblioteca na sexta-feira quando a Srta. será responsável pela organização das decorações dos corredores para a turma dos calouros. O dia de abertura dos jogos é levado bem a sério por aqui – disse enquanto verificava se minhas anotações ainda estavam no bolso da minha camisa.Ohh! Então você é a pessoa perfeita para me responder isso. Você ainda pode participar do conselho estudantil mesmo se perder a reunião de hoje – disse. O entusiasmo dela era uma surpresa agradável. estão está numa posição privilegiada. Senti que estava corando. É verdade que podemos usar roupas normais nos dias de jogos? Ouvi alguém dizendo isso no corredor. – E planejei coisas bem animadas para as festividades deste ano. Queria muito poder comparecer hoje. Spencer soltou um suspiro profundo e feliz. – Desculpe. – E você me conhece. automaticamente. mas tinha a sensação de que Spencer podia se beneficiar mais participando de uma atividade escolar mais tradicional. 39 . Não que o envolvimento com a dança não fosse uma boa. então ainda não sei quem é. Natalie! – ela disse. . Sinto como se estivesse desapontando você de alguma forma. Também queria que ela pudesse. e agora. Não consegui me lembrar da última vez que havia feito algo assim. E havia anúncios pendurados por todos os corredores da escola. o som foi maravilhoso.Sim. – Bem. Minha mãe vai me levar ao estúdio de dança em Main para que eu me inscreva em algumas aulas. – Ainda não consigo acreditar na sorte que tive em ter você como babá. – Droga.

laranja e amarelo – queimavam o vidro espesso das janelas.Tem muita gente por aqui. E se ela quisesse mesmo se sentar na frente. e achei que não era o melhor momento para começar uma conversa sobre o incidente da isca de peixe. Procurei um lugar vazio. Lá fora. Várias mesas de madeira foram unidas formando um enorme retângulo. teria que ter competido para o cargo de vice-presidente. . Não queria parecer estar favorecendo minha melhor amiga. mas a sala já estava cheia. não acha? Concordei e tentei não prestar atenção na pequena caspa que pairava em um tufo do fino cabelo preto de Martin. as copas das árvores – em tons de vermelho vivo.Por onde você andou? – Autumn perguntou. – Deixa para lá – respondi. puxando-as até caírem. O que era uma droga. Martin aproximou-se e disse: . tentando convencê-la a participar do conselho estudantil.Capítulo 8 A s cabeças se viraram para me ver entrar na biblioteca. como eu havia sugerido. expondo a biblioteca à fraca luz do sol de setembro. Ainda faltavam alguns minutos. Acho que ela se beneficiaria muito com isso – e então tive uma ótima idéia. Ela entortou a boca e perguntou: . Pensei em pedir para alguém trocar de lugar para que Autumn ficasse ao meu lado na frente. Autumn. mas provavelmente era o que devia ser feito. até que me lembrei que o meu era aquele bem na frente da sala. .Estava conversando com Spencer no banheiro. – Acho que você deveria falar com ela. ela pegou uma cadeira na última fila. dizendo-lhe como foi bom para você. mas antes que conseguisse fazer isso. perto da porta.O que você quer dizer? Dava pra ver que estava ficando brava. Dipak estava em uma luta com as persianas de plástico da janela. 40 .

A Srta, Bee fechou as portas e a conversa diminuiu. Ela acenou com a cabeça para que eu começasse. Levantei-me e segurei minhas anotações. - Olá a todos. Obrigada por virem – disse, projetando a voz da melhor forma possível, e então fui para o próximo cartão. Eu devia ter escrito mais de uma frase em cada um deles, mas minha caligrafia era muito feia e queria ter certeza de que conseguiria ler tudo. – Estou emocionada por ter sido eleita presidente do conselho estudantil da Academia Ross e declaro esta nossa primeira reunião aberta – algumas pessoas aplaudiram, o que causou uma boa sensação. - Vai ser um ano muito estimulante e agitado, com muitas expectativas a nossa frente. Todos os que participaram do conselho no ano passado sabem que minha responsabilidade é imensa – citei com orgulho a lista das muitas realizações de Will Branch, o presidente anterior. Além dos deveres comuns de presidente do conselho estudantil, Will também criou a sala dos veteranos com sofás de couro, militou contra a proibição de The chocolate War8, incitando uma reunião secreta do corpo diretivo e fazendo uma greve branca inspirada em Ghandi, e coordenou um jogo de basquete entre alunos e professores para angariar fundos para um aluno com leucemia. Will presidiu mirando alto, mas eu queria ir ainda mais longe. – Não se preocupem – falei -, também tenho idéias inovadoras. Incluindo... Nesse momento, a porta rangeu lentamente ao ser aberta, e Spencer enfiou a cabeça para dentro. Ela tentou entrar em silêncio, mas todos se viraram para olhar. – Desculpe! – falou, e foi pedindo desculpas para atravessar a sala, passando por vários assentos livres até encontrar um lugar para sentar, apertada, à mesa. Obviamente, não foi o melhor momento. Mas não conseguia ficar brava. Estava feliz por Spencer ter aparecido no fim das contas. Não só estar lá, mas ter forçado a sua presença na frente, local em que ficavam os alunos mais velhos. A garota era destemida. Sorri e fui para o próximo cartão. - Para as festividades de abertura dos jogos, decidi que meu primeiro ato como presidente do conselho estudantil será nossa primeira fogueira, que ocorrerá imediatamente após o time de futebol destruir o da escola Saint Ann. – Os cochichos imediatamente dominaram o ambiente. Era exatamente essa a reação que eu esperava. - Prometi trabalhar o máximo possível para elevar a Academia Ross a uma posição melhor, mas não posso fazer isso sozinha. Vou precisar que vocês se inscrevam no máximo
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Romance juvenil publicado pela primeira vez em 1974 e adaptado para filme em 1998. Não há publicação em língua portuguesa. Favor tradutoras, será que a gente consegue fazer este?? rsrs

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possível de comitês e se unam a mim, que me ajudem. Juntos, sei que seremos capazes de realizar grandes coisas. Obrigada. – com um aceno de cabeça, sentei-me e ouvi mais uma rodada de aplausos. David pegou o meu lugar no palanque e explicou a lista de comitês que precisavam de membros imediatamente, começando com os de celebração aos jogos. Dipak falou sobre a situação da tesouraria: fraca. Resisti ao desejo de fazer cara feia para Kevin Stroop. E isso, explicou Dipak, poderia possivelmente anular meus planos em relação à fogueira. - Não me leve à mal – ele disse -, acho a idéia legal, mas como vamos pagar por isso? Precisaremos de autorização, comprar a madeira e... - Estamos isentos da tarifa de autorização – expliquei. – Já resolvi isso com o corpo de bombeiros do bairro. – Claro que tinha resolvido isso. Não teria sugerido a idéia se não tivesse pelo menos refletido um pouco, e não estava gostando do tom condescendente de Dipak. Não havia pensado, porém, em como pagaríamos pela madeira. – Vamos tentar conseguir um patrocinador para a fogueira – comentei. - Não sei se isso funcionaria de acordo com as regras da Academia Ross – disse a Srta. Bee. – Você sabe que o corpo diretivo não aprovou as máquinas de refrigerantes há alguns anos. Spencer pigarreou: - Podíamos vender kits para assar marshmallows e cachorros-quentes. Isso ajudaria a contrabalançar os custos. - Que idéia maravilhosa, Spencer – disse. Sério mesmo, estava impressionada. Dipak balançou a cabeça: - Contrabalançar é um bom começo. Mas, para começo de conversa, nem temos um fundo de caixa. A sala ficou em silêncio. Senti a minha idéia se esvaindo como fumaça. Autumn levantou a mão. Você não precisa acenar com a mão para ter a palavra em reuniões do conselho estudantil, mas era tão raro Autumn falar, que provavelmente nem tinha percebido isso. – E se falássemos com Connor Hughes? Talvez ele possa fazer uma doação. Tive vontade de dar um beijo nela. Era a solução perfeita. A família de Connor era proprietária da Fazenda Hughes de Árvores de Natal. Seria bem provável que tivessem várias toras para nos doar. O restante da reunião seguiu com leveza. Anotei todos os detalhes e adorei a forma como as pessoas ali me viam, como falavam olhando em meus olhos. Eu era o centro das atenções. 42

A Srta. Bee ficou surpresa quando Spencer levantou a mão para ser a representante dos calouros. E talvez tenha sido até um pouco exagerado, mas ela se inscreveu em quase todos os comitês e grupos. Depois da reunião, a Srta. Bee perguntou se poderia falar comigo um minuto. Ela me levou até a parede dos retratos, longe de todos os demais. - Adorei a idéia da fogueira, Natalie. Lembrei-me dos meus dias de faculdade. Você está mesmo pensando além. E estou ansiosa para ver os outros projetos que irá propor este ano. - Obrigada, Srta. Bee. Ela se aproximou um pouco mais. – Não queria te contar isso antes, caso algo terrivelmente injusto acontecesse e você não ganhasse a eleição. Mas houve apenas oito mulheres presidentes do conselho estudantil na história da Academia Ross, e nenhuma desde que eu voltei para dar aula aqui há onze anos. O que, honestamente, como uma mulher que se importa de forma profunda com esse tipo de coisa, fez com que eu me sentisse um fracasso completo. Virei-me para dizer alguma coisa, mas a Srta. Bee ficou ali em pé, admirando a parede com fileiras de retratos levemente empoeirados dos antigos presidentes do conselho estudantil. Levei um segundo para perceber que o retrato dela estava bem na minha frente. Sabia que a Srta. Bee tinha se divorciado do marido, um professor de filosofia há vários anos. Eles moraram no exterior e nunca tiveram filhos. Depois da separação, ela voltou para a cidade em que havia crescido, Liberty River, e começou a dar aulas na Academia Ross. Ela foi bonita no passado. Cabelos negros presos com fivela, olhos escuros, brincos de pérola. Em seu retrato mais ria do que sorria, uma sobrancelha arqueada com um tom travesso. Nancy Bee. A Srta. Bee apontou para o espaço vazio na parede ao lado do último retrato, o de Will Branch. Infelizmente, ele havia piscado na pior hora possível. Imaginava se em dez anos as pessoas iriam pensar que ele fosse cego. – É aqui que o seu retrato vai ficar, Natalie. É um clube exclusivo, mas sei que você será um membro maravilhoso. E será conhecida para sempre como a número nove. Parecia, no momento, a melhor forma possível de ser lembrada.

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Olhei no fim de cada aula até a hora do almoço. sendo alvo de trotes no meio da noite após a bebedeira. Spencer pegou no meu braço. – Estávamos organizando o material de arte e cobrindo as mesas com papel craft para deixar tudo preparado para os alunos pintarem os cartazes para a abertura dos jogos após a aula. Seu jeito era muito tranqüilo. mas decidi não fazer isso.Talvez seja melhor eu ir com você – Spencer estava toda animada com essa possibilidade. Ele é. E não queria que Spencer pensasse que me sentia intimidada pela presença de Mike Domski. para começo de conversa? Péssima idéia. era como se todo o conjunto criasse uma bela harmonia. . – Vá colocar esses materiais no armário e me encontre aqui – disse a ela. Spencer fez uma cara de decepção ao tentar colocar todos os materiais em seus braços. Natalie. No dia seguinte ele não havia respondido. – Daria o meu braço esquerdo por uma chance de falar com Connor Hughes. mas precisava saber sobre a situação da madeira o mais rápido possível. Mas Spencer e Connor? Ou Spencer e qualquer um daquele grupo. Terrível idéia. por favor. Teria preferido falar com Connor quando ele estivesse sozinho. pois o sucesso da fogueira dependia disso. Olhei na lista para encontrar o de Connor Hughes e digitei uma pequena mensagem para ele sobre a madeira para fogueira e pedi que me enviasse.Capítulo 9 T odos os alunos da Academia Ross têm um endereço de e-mail fornecido pela escola. parecia não se importar com nada no mundo. Parece que foi criado à base de leite e bolinhos caseiros de amora. E provavelmente não se importava.. 44 . uma mensagem em resposta para que pudéssemos discutir os detalhes. profanamente sensual. Connor era mesmo bonito. quando o vi na mesa de pingue-pongue da lanchonete com ninguém menos que Mike Domski e mais alguns parasitas como Marci Cooperstein. Pensei em passar-lhe o número do meu celular.. – Lá está ele. Vá falar com ele. Não precisava do meu número espalhado por aí dentre aqueles caras. Não havia uma coisa que se sobressaía nele.

fingindo sussurrar -. pois Connor não era o tipo que falava muito. mas os outros jogadores de futebol. – Sim. Ele a pegou no ar em vez disso. – Então ele jogou a bola no ar para sacar. mas de algum lugar mais quente. na realidade. Fiquei parada. Mas acho que ele viu que eu estava brava. . A força do seu movimento fez o meu cabelo esvoaçar. pois seriam eles quem mais se beneficiariam. Riu como se eu tivesse acabado de contar uma piada. sem problemas. Estava preocupada se teria de pensar em um plano B. incluindo as garotas. – Ou à tarde? Só quero confirmar os detalhes com você para que possa coordenar tudo com o bombeiro. A voz dele era rouca. o que fazia muito sentido. Connor riu. Parecia meio enferrujado. Você receberá a madeira na primeira aula. E. depois de respirar fundo. Vou trazer a madeira na sexta de manhã. Mike jogou a bola para Connor. .Ei. – A madeira vai chegar aqui na sexta de manhã? – questionei Connor. Todo mundo está muito animado com a fogueira. E não parecia ter vindo de sua boca. Pode até ser que vire uma tradição da escola – sei que pareceu forçado. – Sério. Mike Domski balançava a raquete para mim.mas assim o fez. Menos Marci – a garota não me suportava -. Recebi. prometo. Só que eu não saí. mas ficou presa na rede. desesperadamente.Mano – disse Mike. Natalie quer a sua madeira. Posso pagar pela minha própria madeira 45 . E. Todos abafaram o rido. como se tivesse saído do fundo do peito.Não preciso da madeira de ninguém. mas não podia perder a oportunidade de esfregar isso na cara de Mike Domski. Peguei-a para ele. esperava que o restante das pessoas ao redor da mesa mostrasse uma reação positiva. A coisa toda estava acontecendo praticamente por causa deles. batendo a bola com toda força antes de se virar para mim. tirando de vez essa pendência da minha lista de coisas a fazer. Sterling. como se tivesse começando uma dor de garganta. fui falar com Connor. Mas não de um jeito em que talvez estivesse se solidarizando com o tempo e o esforço que eu estava dispensando para que tudo fosse feito. tentando fazer com que eu saísse do caminho e o jogo continuasse. pois sabia que aquilo ia deixá-lo com raiva. RSVP feito ou coisa do gênero. – Ótimo. pois não sacou. . Você recebeu meu e-mail? Connor terminou a jogada. Só que a expressão em seus rostos era de austeridade e de falta de entusiasmo. – Pode considerar confirmado.

retruquei. expondo a minha óbvia irritação. 46 . Foi só quando percebi que todo mundo estava morrendo de rir que entendi o que ele quis dizer. Saí de lá o mais rápido possível e fantasiei um trágico acidente em que os órgãos genitais de Mike pegavam fogo.

pois estava estressada demais e Autumn deveria saber como aquilo era importante para mim. – Vamos lá. trabalhei como nunca em minha vida.Capítulo 10 N a manhã da abertura dos jogos eu estava ansiosa demais para tomar café da manhã. O céu ainda estava escuro quando peguei Autumn. mas em vez de dar nó. mas tive que cuidar de todos os detalhes. Talvez seja a minha personalidade perfeccionista e obsessiva. Uma bexiga azul brilhante saiu do botijão. Peguei um pedaço de fita adesiva com os dentes e prendi os cantos na parede. Só tínhamos quinze minutos para terminar tudo. e olhei no meu relógio. – Você quer que eu pegue uma régua? – brincou. Não queria dar nenhuma chance para o azar. não quando todo o sucesso da abertura dos jogos dependia totalmente de mim. Depois levei as mãos à boca e gritei do corredor: . Então. Darby. que dormiu no banco do passageiro com a cabeça recostada no cinto de segurança durante todo o percurso até a escola. Esticando-se o mais que conseguia. respondendo: – Entendi. professor de literatura comparada. ela o colocou na boca e aspirou. tá bom? – 47 . havia elaborado um projeto bastante ambicioso para a sala dos veteranos. ela levantava a ponta do papel crepom azul um centímetro por vez. Carlie? Carlie Glaskov. Autumn tinha subido numa cadeira que pegou emprestada da sala do Sr.Vamos amarrar bexigas nas grades de todas as escadas. veteranos! – repeti. – Dá uma olhada nela. Além do mais. veteranos! . durante duas horas antes do início das aulas.Vamos lá. manejava o botijão de gás hélio que eu tinha conseguido como doação do supermercado. Honestamente. meio assustada. Ignorei a brincadeira. era cedo demais para eu fazer isso. Natalie! – A voz dela parecia a de um rato de desenho animado. e ela deu uma gargalhada tão grande que ficou até vermelha. ok. usando o uniforme de líder de torcida.

Você tem o telefone de Connor? – Dipak perguntou. admirando tudo. . Parecia um cenário da fábrica de chocolates de Willy Wonka9 ou de um parque de diversões.sussurrei para Autumn e percorri o corredor. 48 . fita de tecido e bexigas estouradas. Sabia que ele tinha votado em Mike Domski. mas ela tinha vindo mesmo assim. O pessoal do terceiro ano é fraco.Você viu se o Connor trouxe a madeira da fogueira? – perguntei. como Carlie. – Mas eu estava mesmo bem impressionada com os calouros. como estão os outros corredores? – perguntei. Ótimo para elevar o ego. A Srta.Eu devia ter ligado ontem para lembrá-lo – odiava ter de depender de outras pessoas. Não tinha conseguido vê-los. Até mesmo membros da turma dos populares. Dipak veio pulando pela escada. o teto. Era exatamente o que eu esperava ouvir. Mas. o segundo ano fez uma decoração cheia de penas. . Trajava um elegante vestido azul-marinho.Acho que ele ainda não chegou – Dipak deu de ombros. parecia um doce colorido branco e azul-marinho. um grupo de veteranos que não fazia parte do conselho apareceu para ajudar na decoração. Olhei para o corredor e fiquei ali.Ei. isso não era nada comparado à minha fogueira. Era tão improvável assim que o tivesse? – A Fazenda Hughes de Árvores de Natal está na lista telefônica. Uma hora antes de evento. Cheguei ao fundo do corredor.Bem. – Mas nenhum corredor ganha dos veteranos – ele disse -. Dipak arregaçou as mangas do casaco do uniforme da Academia Ross e disse: . . Spencer tinha dado várias dicas durante a semana toda sobre ter planejado algo muito especial. . abri a cabine do telefone público e me sentei no banco dentro dela. . Eles criaram jornais com manchetes sobre a vitória da Academia Ross – sorri ao vê-los. ninguém nem chega perto. sempre acabava me decepcionando. Rasgamos uns travesseiros e espalhamos tudo pelo chão. O corredor dos veteranos estava maravilhoso. sentindo-me um pouco insultada. na verdade. o chão. sapatos 9 Willy Wonka é o personagem principal do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. Mas estou meio preocupado que pareça que tenhamos matado alguma águia bem ali no meio do corredor.Não – admiti. só fizeram uns dois cartazes. Bee apareceu no corredor. Cobrimos com fita cada centímetro daquele lugar: os armários. surpreso. E agora só havia mais uma coisa a ser verificada: . recolhendo pedaços de fita adesiva.

. me diverti muito caminhando pelos corredores hoje. Você sabe se já está tudo pronto? . quer dizer. A escola está maravilhosa – disse. Bee teria calças de moletom. está bem? – disse.Pare de se mexer – advertiu. Mas o problema não é esse. . Reparei que estava meio insosso. não sei se a madeira está aqui ou não. pressionando a ponta de um lápis branco contra a minha bochecha. Ela empurrou meus ombros e me encurralou contra meu armário.Tudo vai ficar pronto – prometi.de couro e salto alto e vários colares com enormes pérolas brancas. E se Connor tivesse planejado não trazer a madeira só para me deixar em uma situação ruim? E se tudo não passasse de uma grande piada às minhas custas. .Não. . .Nada grande demais. Escolhi um agasalho azul. Senti-me no topo do mundo até que Martin apareceu e disse: .Natalie.Pintando seu rosto! – disse. Pelo menos. Autumn veio correndo.Shhhhh – ordenou Autumn.O quê? A madeira não chegou? .Qual é o problema? 49 . porque tinha ganho as eleições de Mike Domski? Martin balançou a cabeça: . unindo igualmente os espíritos de animação e inteligência da escola. colocando a mão no meu ombro. jeans e meus tênis de ginástica. . Desviei-me do lápis de Autumn: .Natalie. – Você ainda não entrou totalmente no espírito da escola do jeito que a presidente do conselho estudantil deve entrar. Pensei se alguém como a Srta.olhei ao redor para procurar por Connor Hughes e comecei a entrar em pânico. esperava que estivesse.O que você está fazendo? – perguntei rindo. – Creio que o bombeiro está planejando vir em algum momento durante a segunda e a terceira aula para dar uma última olhada na fogueira antes de assinar a autorização. a febre e a excitação dos corredores. olhando para a pena que tomava um lado todo da cabeça de Autumn. Estava tão ocupada com as arrumações que não tinha pensado muito no que vestir. temos um problema sério. Deixei Autumn me pintar e curti a agitação. . Um pouco depois.

Tenho que vender as mercadorias na hora do jogo. só mais um segundo. Um som dançante que já tinha ouvido no rádio. hoje à noite? . o barulho dos corredores começou a aumentar. Todo mundo aplaudiu. Fique parada! – Disse Autumn. Ela tinha razão.Sim. a Águia. Presidente – afirmou com uma expressão séria. Autumn – disse. para o jogo de hoje à noite.. afastando-me dela -. mas eu nem liguei. .Vou tentar. você está me dizendo que eu tenho que ser Ross. a Águia.E daí? .Ei. – Prometa que você não vai ficar estressada e triste em todos os eventos do conselho estudantil este ano.Dipak tem claustrofobia. . certo? Está tudo bem.Não tem nenhum dos representantes dos calouros para fazer isso? .E você? – perguntei.Martin. Relaxe. Srta. Connor Hughes e outros veteranos do time de futebol. Música. todos ao mesmo tempo se aproximando de seus armários. só que o ritmo estava mais rápido e grave. Logo em seguida. – E a madeira? Connor virou-se e pareceu confuso. Ele fica com falta de ar dentro da fantasia. Respirei fundo e questionei: .E daí que não tem ninguém para se vestir de Ross. A multidão subitamente se separou. está bem – disse. – Connor! – gritei o mais rápido que pude. provavelmente por causa do rabisco no meu rosto.Nick Devito está com gripe. Mas ele fez sinal positivo: a madeira havia chegado. mas muitos deles já estão fazendo parte de algum time ou banda. Autumn e eu fomos empurradas para trás até ficarmos pressionadas contra os armários. . vamos nos divertir! . . Era hora de curtir o resultado do meu trabalho. tentando abrir caminho para chegar até ele. . segurando meu rosto e ajeitando o lápis. De repente. Os corredores estão lindos. apertando os olhos.Desculpe. vestindo jeans e coletes de lã. Tudo correria bem. O lápis deu um escorregão até a minha orelha. mais barulho. 50 .E o Dipak? .Está bem. . .

E acima. a mesma palavra impressa no peito. As garotas tinham os cabelos presos em rabos de cavalos com cachos de fita de cetim branco. essas eram as regras. Academia Ross + Prostituta = ―Rosstituta‖. havia o nome e o número de um jogador de futebol impresso nas costas das camisetas delas. calouras!‖. que era outra das minhas representantes das calouras. fazendo um arco perfeito. regras como essa eram ridículas. 51 . Seu andar era como o de uma modelo em fuga. Mesmo assim. Os sussurros e cochichos superaram os gritos de ―Voltem para casa. As pessoas podiam andar por onde quiserem. ―Rosstituta‖. esforçando-se para ver. e shorts brancos atoalhados que eram curtos demais para qualquer atividade atlética de verdade. Todas usavam o mesmo uniforme. Estavam sendo guiadas por Spencer. Essa percepção parecia estar saltando da minha cabeça e entrando na de toda multidão. Era como um exercício de quebra dos radicais da palavra do SAT. a mesma camiseta baby look azul. assobios. Não reconheci todas elas. De repente. os quais não paravam de se mexer.Fiquei na ponta dos pés. As garotas passaram e percebi que debaixo dos rabos de cavalo. um em cada uma das mãos. Fui empurrando até ficar na frente da multidão. Será que ela não sabe que os calouros não podem caminhar pelos corredores dos veteranos no dia de abertura dos jogos? Claro. Ela tinha um ipod cor-derosa preso no braço e segurava dois falantes portáteis brancos. Ouvi algumas risadas. . Domski 27 Philips 4 E nas costas de Spencer: Hughes 14. Dez calouras marcharam pelo nosso corredor em duas filas.Que diabos é isso? – Autumn balançou a cabeça. vaias. mas vi Susan Choi. entendi tudo. como se estivessem desfilando. conforme as garotas marchavam no ritmo da música. E parece que havia muitas que Spencer não conhecia. As camisetas tinham duas bolas enormes. Autumn pulava. posicionadas bem na frente dos seios. Percebi a alegria nos rostos dos jogadores de futebol e as caretas nos rostos das líderes de torcida.

Bee levou a líder do grupo embora. Ela era a estrela do show. O corredor ficou quieto. antes de o rosto dela ficar coberto. Quando Spencer passou por mim. nunca a vi tão brava. olhando o tempo todo para Spencer para saber o que fazer. Spencer – disse a Srta. A Srta. Usava um sutiã corde-rosa de algodão. Bee pegou no braço de Spencer e a tirou de lá. Mas antes que mais alguém tirasse a roupa. sem falar que são completamente contra as regras da escola. Ela tirou a camiseta bem ali. Era constrangedor demais e não queria me envolver naquilo. Spencer era diferente. Era energia pura e os calouros estavam se alimentando dela. Bee -. Spencer aumentou o volume da música no máximo.Essas camisetas são ofensivas demais. 52 . Srta. deu uma piscadela.Subitamente. Seguia a coreografia com muita confiança. problema resolvido. Bee por ter parado a dança. com o bojo dando tudo de si para elevar e turbinar uma pequena protuberância. . A maioria rapazes. Bee. e. A movimentação da maioria das garotas era tão estranha que dava só. definitivamente sim. as garotas pararam. Seus movimentos eram extremamente precisos e sensuais. segurando-a pelo braço. A agitação voltou ao corredor. O sorriso voltou ao mesmo tempo em que Spencer. Mudei de lugar para ficar escondida atrás de todo mundo. sem camiseta. Parecia até câmera lenta ver o sorriso de Spencer. provavelmente procurando por mim. mantendo contato visual com o público. Estavam tensas e nervosas. Senti dificuldade em respirar. no meio do corredor. dançava bem. girando na hora errada. Todos estavam vendo o que ia acontecer. só se ouvia a música. Ela olhou pelo corredor. Algumas pessoas até vaiaram a Srta. virava sua roupa para o lado de dentro. Vocês devem trocar de roupa imediatamente. mesmo com os cachos do cabelo chacoalhando na frente do seu rosto. Elas mudaram o posicionamento e então começaram a dançar. As outras pegaram nas barras de suas camisetas também. Só vi por um segundo. com uma pequena rosa no centro. pelo que dava para ouvir. – Eu vou virar do avesso. a Srta.

– Você não está se divertindo nada? – Autumn escondeu o sorriso.Capítulo 11 H onestamente. como aqueles cestos com roupa de baixo que não servem mais. – Quero dizer. agora estou presa à carcaça de um animal empalhado. ou meias furadas que acabam ficando muito tempo sem lavar. Ela colocou o canudinho da Coca-Cola na pequena abertura da fantasia. Estou com muita sede. Ah. Revirei os olhos. Autumn beliscou o meu bico. não se esqueça de que nenhuma previsão do tempo mencionou a chegada de nuvens cinzentas ameaçando destruir minha fogueira. – Isso é uma bela droga. ainda estava quente e pinicante dentro da fantasia conhecida como Ross. Aquela cabeça enorme tinha cheiro de roupa suja. Embora o vento estivesse forte. Pode procurar no dicionário que você vai encontrar a minha foto. – O que é pior? Isso. ou ver Ross. você está demais. esquecendo que ela não podia ver meu rosto pela pequena abertura da fantasia. Essa sim é a verdadeira definição de demais. e para piorar. como se isso pudesse intimidar as nuvens cinzentas. fumando um cigarro no estacionamento da Vila Sésamo? Nem sei como estou aqui hoje. tentei usar minhas asas para retirar a cabeça da águia. – Bebe. não acho que vá chover – disse Autumn. Autumn. com certeza. – Você não pode tirar a cabeça aqui fora! Há muitas crianças aqui! Você não se lembra como surtei ao ver Garibaldo sem cabeça. É sério. a Águia. colocando os lábios no canudinho da Coca-Cola. a Águia. morrer de insolação na lateral do campo? Poxa. sorrindo para o céu. – Não bastasse a marcha humilhante das Rosstitutas esta manhã. Ao perceber que ia passar mal se não respirasse ar fresco. O 53 .

Tinha de admitir. Mesmo 10 O futebol descrito aqui se refere ao futebol americano. Connor tinha se superado. Não entendi o motivo. Na fogueira. Já Connor socou o chão de raiva. a torcida ia à loucura. Quando terminei minha volta ao redor do campo. Corri pela lateral do campo como uma boa mascote faria. Apenas balancei as asas e rezei para que não chovesse. vi Spencer e seu agora not ório grupo de ―Rosstitutas‖ voltando para as arquibancadas com bandejas de nachos. como teria feito Nick Devito. Dividiam seu tempo entre assistir ao jogo e vigiar o céu. Tive de cuspi-lo. furioso. tentando localizá-la. A punição pelo episódio das camisetas ainda não tinha sido declarada. decisões e precedentes precisavam ser considerados. – Desde quando você gosta de futebol? – perguntei. O lado positivo foi que pude contemplar a minha pilha de madeira. mas deixando o canudinho balançando na minha boca. responsável pela interceptação. Um dos juízes apitou e o jogador do Saint Ann. e eu resmunguei: – Quantas vezes eles vão tocar essa coisa? Autumn bateu no meu ombro e disse: – Hora do show. Ao olhar para trás. havia muita lenha e galhos das árvores de natal de sua família. Ele havia participado dos três touchdowns10. Connor Hughes deu um passe longo que não chegou às mãos de Mike Domski. O que as ―Rosstitutas‖ fizeram não parecia ser tão ruim como brigar. Autumn virouse.jogo já está quase acabando. Pé direito de uma construção significa a altura entre o piso e o teto.. os refletores foram acesos e os poucos insetos remanescentes do verão formavam uma nuvem escura junto à iluminação. roubar ou vandalizar a fachada da escola. Bombeiros com uniformes amarelos brilhantes. A banda começou a tocar o grito de guerra da escola. Talvez tivesse até corrido mais rápido se não fossem as garras plásticas da águia amarradas no meu tênis. levando com ela o refrigerante. formando uma enorme pirâmide que praticamente superava o pé direito 11 da lanchonete. Ele ficou muito bravo. tirou o capacete e gritou com os seus colegas até ficar roxo. movendo-me para os lados. Enquanto eu tomava um pouco de refrigerante. não me arrisquei a julgá-la. Mesmo triste com a Spencer. botas e capacetes já estavam a postos. 11 54 . pois estávamos ganhando de vinte a zero.. Não saí dando piruetas e socando o vento.

Algumas das ―Rosstitutas‖ que estavam perto de mim evitaram a minha queda. esfregando-se nas minhas pernas. Caminhava em direção a Autumn quando Spencer apontou para mim e gritou. Já sem forças. Era bem possível que ela estivesse certa. escorreguei na grama molhada e quase caí de cara no chão. Mais do que isso. dispensando as ―Rosstitutas‖. – Muito bem! Chega. tentei. que estava com a máquina fotográfica. Tentei ajudar a Spencer no banheiro naquele dia.assim. fez um círculo ao meu redor e caiu na risada. – Essas garotas estão causando mais problemas? 55 . À medida que tentava me soltar. me desapontava. Queria que Spencer se sentisse uma verdadeira idiota. vestia paletó e gravata todos os dias. Como se não bastasse. mostrando a ela como seu comportamento era ridículo. – Não tenha medo de mim. forçando-me a ser seu par. Foi então que avistei Autumn a poucos metros de distância. Afinal. As coisas que tornam alguém popular na escola chegam a ser irritantes. Mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa. O diretor Hurley era o me mbro mais velho da Academia Ross. Sr. Balancei minhas asas na tentativa de mantê-la à distância. E naquele momento parecia mais irritado do que nunca. mesmo assim aquilo me incomodava. Águia! – gritou – Não vou te machucar. meninas! Voltem para a arquibancada – acenou suas mãos. Não via a hora de dizer para ela que era eu naquela fantasia de águia. apenas torci para que esse pesadelo terminasse logo. mas ela aproximou-se ainda mais. ouvi a voz do diretor Hurley ecoando em nossa direção. o castigo precisava ser rigoroso para coibir atitudes semelhantes no futuro. Ela observava a cena horrorizada. – Será que alguém pode tirar uma foto nossa com a águia! – gritou Spencer. – Capricha no zoom – disse Spencer instruindo Susan Choi. Nick Devito? – Spencer disse suavemente. desviou para si toda a atenção que deveria ter sido dada ao meu trabalho de decoração no corredor dos veteranos. Bee apareceu. Felizmente. mas toda a minha boa vontade tinha ido por água abaixo. A Srta. O grupo de ―Rosstitutas‖ veio correndo das arquibancadas. – Não sei por que está tão brava – Autumn me disse depois que as ―Rosstitutas‖ haviam passado. antes que a foto fosse tirada. Careca. sério e com a postura de um oficial do exército. busquei envolvê-la no conselho estudantil. – É você aí dentro. ela agarrou uma de minhas asas e começou a dançar. Recuei. – Isso não tem nada a ver com você. que ficasse envergonhada. mas as ―Rosstitutas‖ ficaram todas ao meu redor.

Mike Domski fingiu socar Bobby como se ele fosse um saco de batatas. Conto com sua presença. acho que aquelas que vestiram as camisetas deveriam ganhar uma semana de detenção. Até achei que tinha ido buscar uma garrafa de água. alongando-se. correr o risco de ser interpelada novamente. Hoje à noite. – Bem. – Nunca vi alguém se alongar tantas vezes como o Bobby Doyle. a torcida ia ao delírio. Para quê? Impressionar o Connor? Então o diretor Hurley disse: – Vou chamá-las na diretoria segunda-feira bem cedo. apresentando a identidade do irmão mais velho. – Sim. apenas desorientada. – Cara. Mike Domski havia interceptado outro passe de Connor. – Você não estaria tão cansado se não tivesse toda essa banha. – Está na hora de acabarmos com esse jogo. Dirigi-me ao alambrado. mas algo ridículo como ―coelho gordo cintilante‖. só cerveja light. 56 . se a minha opinião for válida. Bee concordou. Nessas horas. claro. mas Autumn já não estava mais lá. Bobby Doyle tirou o capacete e esticou os braços. Uma mancha permanente como essa no currículo poderia afastar suas chances de estudar em uma faculdade descente. é minha? E que a hidromassagem. Achei fora de moda. – Três dias de suspensão? A Srta. O único local seguro era junto ao banco de reservas do time. Enquanto me acomodava no banco.– É por isso que rezei para que Martha e eu nunca tivéssemos filhas – lembrou o diretor Hurley. Ouvi dizer que a maioria desses símbolos chineses nem correspondem ao significado que dizem ter. Ele queria que as pessoas vissem os caracteres chineses tatuados em seu quadril. Tudo porque ela fez algo incrivelmente estúpido. Já a líder do grupo deveria ser usada como exemplo e receber uma punição maior. suspensão. Bobby deu uma gargalhada. Ela não era uma má pessoa. Toda a raiva que sentia da Spencer transformou-se em pena. você se esqueceu de que a festa é na minha casa? Que a cerveja que você mencionou. já que esse assunto também interessa ao conselho estudantil. Bee olhou para o céu. e que está agora gelando. O nosso ataque voltava para o banco e a defesa tomava seu lugar no campo. Puxa vida. Os jogadores reservas eram incumbidos de abastecer com garrafas e toalhas aqueles que saíam do gramado. A Srta. eu gostaria de ter memória fotográfica. orgulhoso por ter feito uma tatuagem ainda menor de idade. Poderia pesquisar esses caracteres e mostrar ao Bobby que não dizem ―força e coragem‖. Mas não queria ficar ali parada.

Mike suspirou: . dando de ombros. – Tudo bem. Não quero ver ninguém amarelando agora. A Dança da Chuva. o que importa mesmo é que ela tem fogo. o jogo ainda não acabou. Não era lá muito agradável. pois ele vivia como um porco. foi o que ouvi dizer.que liguei no almoço para ficar bem quentinha e aconchegante. meu Deus! James Rocker encheu a boca de água. Connor! – disse James – A Spencer mandou fazer uma camiseta com o seu nome. Fiquei pasma. Connor. Você viu como ela dança? Parece até uma stripper. 57 . – Perfeito.Isso foi a coisa mais idiota do mundo – disse Connor. Até jogaria a cabeça da águia bem no meio da fogueira. – Fala sério. – Só espero que essa história estúpida de fogueira termine logo – disse Mike. – Ei. cara de sorte. Connor queria continuar no jogo. com latas vazias de cervejas por todos os lados e vários buracos de socos nas paredes. O treinador Fallon aproximou-se com sua prancheta.Cara. Se o time de futebol fosse embora ainda no início da fogueira. gargarejou suavemente e cuspiu toda a água: Ela não é tão gostosa assim. Cerrei os punhos. ainda temos dois minutos. Era praticamente o ponto de encontro da nossa escola. Oh. você colocou querosene na madeira? – Connor concordou. Mal pude acreditar. – Vamos. mas acabou ficando no banco de reservas e começou a arrancar as travas da chuteira sem ao menos desamarrá-las primeiro. também é minha? A família de Bobby Doyle era muito rica. – Sabe de uma coisa. Construiu uma casa de hóspedes só para ele. já vi que terei de bancar o herói dessa história – começou a pular para cima e para baixo e a bater a mão contra a boca. juro que aprontaria o maior barraco. Connor e eu finalmente concordávamos sobre alguma coisa. . Mantenham a concentração. Connor tirou uma barra de cereais de sua mochila. gostaria de cair de boca nos seios da Spencer – Mike disse às gargalhadas. Pelo menos.

– Esse foi o maior erro da minha vida. para serem usadas e descartadas. não você – disse James. vou terminar com a Melanie. a Mindy faz ginástica entre outras coisas. James agiu como se tivesse esquecido esse detalhe. tentando proteger os olhos dos refletores. – Bem. sim. Que pena não ter levado um gravador. Ela praticamente venerava o James. 58 . Mostraria à Spencer e àquelas garotas exatamente o que aqueles rapazes. Elas nos querem – disse Mike –. É como se estivéssemos amarrados. – Ela quer o Connor. cara. sempre lhe escrevia bilhetes detalhados em quatro cores diferentes durante as aulas. Ninguém deveria ter uma namorada fixa na escola. mas é muito feia de rosto. Eu não queria ouvir o que iam dizer sobre mim. que tanto veneravam. Bobby olhou para as arquibancadas. não ficaria nada surpreso em saber que a Natalie Sterling tem um pau maior do que o meu. – Você já tem namorada. – Você acha que uma garota como ela vai ficar pura e casta esperando o Connor? Vai por mim. Fiquei imaginando a pobrezinha da Melanie Walsh ao lado da mão do James nas arquibancadas. Mike Domski colocou a língua para fora como se estivesse sufocando. quero aquela baixinha de covinhas – disse James. cara. O fato de a Spencer realmente gostar do Connor não tinha importância. Na semana que vem. – E a Sterling? – perguntou Bobby. Mas não consegui sair do lugar.. Eu tinha de ouvir. Connor riu. Na verdade. – Ela é do tipo de garota traiçoeira que te cortaria as bolas do saco no meio da noite se tivesse a chance. James entrou na brincadeira. As ―Rosstitutas‖ eram vagabundas. sou o próximo da fila. e se o Connor não está afim da Spencer. Escuta o que eu estou falando. – Aquela loira magrinha do primeiro ano daria para o gasto se não parecesse uma tábua de passar – brincou. Domski. Senti meu revirar. – Mindy estava no segundo ano.Idiota. vou furar esse bloqueio. – Já que é assim. Mas a Spencer e aquelas garotas estavam tentando nos enviar uma mensagem. pensavam delas. O pai dela trabalhou na mesma empresa de arquitetura que a minha mãe. Eu. Ela fez todos acreditarem que era do tipo de garota que ficaria com qualquer um. Não queria ouvir suas piadas. – Eu ficaria com ela em vez da Mindy Polchek. E nenhum de você vai tentar me impedir. Minha temperatura se elevou a mil graus.

Precisava arrumar algo para cobrir a madeira ou o meu primeiro grande feito como presidente do conselho estudantil iria por água abaixo.Tive vontade de ir até lá e lhe dar um chute bem no meio das pernas. rápida e forte. ou ainda das inúmeras marcas de catapora no pescoço do Bobby. Devito. Quando me virei. Mas essa luta solitária para manter a madeira seca já estava perdida. Mas onde estava com a cabeça. Eu não me meteria com ela se fosse você. – Meu. Mas congelei novamente depois de tudo o que ouvi. Soltei-me de suas mãos e fui em direção a Autumn. ou que o James era tão baixo que as garotas. Connor levantou a cabeça e fez cara de cansaço. para dançar com ele. Naquele momento. tudo bem. – Ela tem um rosto decente – disse James. te jogou uma pizza na cara. Posso jurar que ele me reconheceu pela pequena abertura da fantasia. ouvindo todas as coisas nojentas que diziam. lá estava Connor. 59 . Talvez pelo choque. E. Cruzei as minhas asas com orgulho. e obrigada. Mas o que mais me preocupava era a minha fogueira. Presenciei seu esforço na tentativa de cobrir a pilha de madeira com um tecido impermeável azul. Tentei me levantar. Um minuto mais tarde. A torcida gritou ―ohhh‖. minha fantasia ficou encharcada. Em um instante. mas escorreguei na grama e caí de costas. Senti alguém me levantando. a chuva começou a cair. Tentei correr. mas com aquela fantasia era impossível. Aquela garota é durona. Ninguém ofereceu ajuda. Algumas garotas gritaram de susto na arquibancada. precisavam usar rasteirinha. Imagino como se comportariam se eu falasse sobre os braços extremamente peludos do Mike Domski. O chão estava muito escorregadio e a fantasia grudava em mim como uma camisa de força. de quebra. Seu cabelo estava encharcado. — Você está bem? – perguntou baixinho. ou pelo orgulho de ver Connor Hughes me defendendo. Não havia me colocado como uma mercadoria para ser avaliada. Eu queria dizer sim. – Cuidado. do tipo que ecoa no peito. no meio da chuva. Você está bravo porque a Sterling te deu uma surra nas eleições. sentindo-me orgulhosa por um reles elogio? E que direito tinham esses caras de me julgar? Eu não era como a Spencer. Mas seria mais vergonhoso para mim se soubessem que era eu quem estava lá o tempo todo. Fui tomada por uma sensação de bem-estar. cheio de nós e colado ao rosto. ouviu-se um grande trovão.

você é um gênio! Eu poderia usar o mesmo método. tive vários calafrios. Autumn virou a cabeça. Poderíamos organizar tudo juntas. – E se você organizasse um encontro de mulheres na escola. A fogueira já era – embora soubesse disso. discussões. Autumn seria a convidada palestrante de honra. mas ainda assim queria que soubesse de tudo. No caminho para casa. Apenas deixei de fora o que o Connor disse a meu respeito. Pelo menos. Mas não quero. Autumn virou a cabeça para trás e a chuva escorreu pelo seu rosto.. Autumn roeu as unhas. – Autumn. era doloroso admitir. Foi quando contei para ela sobre o primeiro dia de aula. Segurei a mão da Autumn. — Estou quase lá. ajudando-a descer. Ouviu-se outro trovão. Sabia que ela ficaria chateada.Corri até ela e estendi a minha mão. algo positivo. Bee nos contou.. Autumn olhou para as unhas roídas. porque a Spencer era uma idiota. Infelizmente é em Boston e começa só nas férias de verão. — Desça. – Conte comigo. Palestras. Vai do outro lado que. Natalie.. faria com que incidentes como aquele na festa do fim de semana passado não voltassem a acontecer. por exemplo? Fazia mesmo todo o sentido do mundo. Mas como explicar para a teimosa da Spencer que suas escolhas era realmente péssimas? E também para o resto das garotas? Gostaria que houvesse uma forma de ajudá-las como ajudei a Autumn. Teria a chance de fazer algo bom. já que isso era irrelevante naquele momento. Contei para Autumn todas as coisas terríveis que havia escutado. — Autumn. Autumn sabia exatamente o que aquelas garotas queriam.. — É uma pena não podermos levar todas as garotas da escola à conferência das jovens mulheres que a Srta. porque estava chateada e enojada com os absurdos que ouvi e por talvez ter sido reconhecida pelo Connor. Sobre as minhas idéias para mudar a orientação escolar dos calouros. Não porque estava toda molhada. mas por causa da fogueira. Não é seguro subir aí. e juntas corremos até o meu carro. Não devíamos nos associar a certo tipo de pessoas. – Tem certeza? Acho que a chuva está parando. dizendo: 60 . esquece isso.

Era a pura verdade. — Eles falaram alguma coisa de mim? — Não – respondi. 61 .— Posso te perguntar uma coisa? Você não fica brava? — Sim. mas não fez. Ela recostou a cabeça na janela. Achei que isso faria com que Autumn se sentisse melhor. deixando escapar um longo suspiro. Havia algo muito errado com as garotas que eu conhecia. E começou a passar o dedo no vidro embaçado de uma forma lenta e triste.

demonstrava claramente possuir uma característica forte e magnética. — Você não tem que ir para a aula? Esperava conseguir um passe livre da secretaria. Mas isso não me incomodou. correndo como se estivesse em perigo. alcançando os meus dedos. parou de sorrir. Já havia percebido isso quando conversamos no banheiro. Spencer. tinha uma missão. ou se fosse punida por me meter onde não fui chamada. e uma névoa densa pairava no ar. A maioria das ―Rosstitutas‖ já estava lá. ainda teria valido a pena. Foi então que apareceu. Não era do tipo ―Rosstituta‖. por sua vez. Por isso. Suas risadas e gritos ecoavam pelo corredor. Tolkien 12. intervir era uma necessidade. Ouvi sua voz antes mesmo de vê-la. Quando me viu. O chão estava repleto de folhas escorregadias caídas das árvores. tenho todo o tempo do mundo. A secretária chamou uma por vez. e na segunda-feira o dia parecia triste e desanimador. Percebi que sempre deixava o exemplar aberto e em cima do colo durante as reuniões do conselho estudantil. estudiosa e obcecada por J. – Para você. Spencer chegou por último. Nenhuma delas olhou para mim. R. Quieta. — Precisamos conversar – disse. Depois do primeiro sinal. segundos antes do término da primeira aula. R. 12 Autor da saga O Senhor dos Anéis. exceto Susan Choi. que simulou um sorriso meigo. Mas mesmo que não conseguisse. esperando para ouvir o veredito. mas movendo-se como se não quisesse escapar. pisando a grama e sentindo a umidade infiltrar em meus sapatos. Susan parecia uma boa menina. fui direto para a diretoria e sentei no banco do lado de fora da sala do diretor Hurley. Mal podia esperar para chegar à escola.Capítulo 12 C hoveu o fim de semana todo. 62 . Ela se escondeu a maior parte do tempo atrás de um exemplar volumoso de O senhor dos anéis. Spencer. o qual não retribuí. Coloquei o cabelo para trás e caminhei pelo quintal.

quando fui chamada com o resto do time de decatlo13 acadêmico para tirar uma foto com o troféu que ganhamos. e Susan Choi saiu. e rápido. – Sei que você deve estar brava comigo. sei tomar conta de mim mesma. e me desculpe por isso. Esperava remorso ou. medo de uma punição iminente. pesado e quente. não um sutiã. provavelmente na esperança de tornar o que era uma cela de prisão em algo mais aconchegante. Uma que realmente pareça sincera. fotos. – Ela nem imaginava que ia acompanhá-la. Não me convenci com suas explicações.. talvez fosse expulsa da escola. Mesmo estando lá por um motivo positivo. não fiquei. para ser publicada no jornal da escola. o que você está fazendo? O governo afirma que tomará medidas drásticas para garantir que nenhum brasileiro vá para a cama sem comer: Vai recolher todas as camas! Estou livrando a sua barra – disse. Talvez o corredor não fosse o local ideal para trocar de roupa. Spencer. – Você precisa pensar em uma desculpa melhor. nenhum outro tipo de 13 É uma competição de atletismo composta por dez provas. Se a Spencer tentasse se explicar para o diretor Hurley e a Srta. Você entende o tamanho da encrenca que arrumou? – Meus olhos recaíram sobre ela. — Era brincadeira! – esperou que me convencesse disso. Susan nunca havia tirado menos do que A antes. repreendendo-a -. Tinha visto a sala do diretor Hurley apenas uma vez. mas foi exatamente o que fiz. ainda assim senti um calafrio na barriga. — Não se preocupe comigo – disse ao levantar-se -. enxugava os olhos vermelhos com um lenço de papel todo amassado. e muito menos recebido uma semana de suspensão. O maiô que usei durante a aula de natação. mas continuei firme. Senti um aperto no estômago. daquelas bem grandes! A porta do diretor abriu-se. Era o meu maiô. – Uma encrenca enorme – disse. Não havia plantas. 63 . A secretária espiou pela porta aberta e chamou seu nome. como quem diz: ―Está vendo? A coisa é séria‖. Sem tom desafiador me pegou de surpresa. – Tudo bem. Com os óculos sobre a testa. Mas ainda acho que estão fazendo uma tempestade num copo d’água.Spencer deu de ombros e sentou-se no banco ao meu lado. Uma prostituta? Para o time de futebol? Fala sério. – Natalie – sussurrou -. A sala cheirava como o mês de agosto. Mas Spencer estava mais interessada em passar maquiagem na ―zona T‖ do rosto. As paredes de concreto foram pintadas de bege claro. quadros. – Aquelas camisetas eram muito ofensivas. juro. Olhei para Spencer. Bee desse jeito. – No meio do corredor! — Não. pelo menos.. tomando a frente. — Você ficou só de sutiã! – não consegui me segurar. mas não fiz nada errado.

Peguei na mochila o panfleto que a Srta. seria mais como uma atividade noturna. O rosto do diretor enrijeceu. Bee. – O que aconteceu sexta foi terrível. Ignorei os dois e sentei-me em uma daquelas cadeiras estofadas de couro. um simpósio de delegação de poder. Mas se punirmos e isolarmos essas garotas. pelo menos dez minutos na frente do espelho do banheiro. algo que seria benéfico a todas as garotas da escola. escorada em um conjunto de armários majestosos. . como seus objetivos. perderemos a chance de transformar esse acontecimento em um aprendizado verdadeiro. Tive de pensar rápido. Faríamos workshops e debates e arrumaríamos patrocinadores para cada uma das horas que ficássemos acordadas. sem saber exatamente o que dizer. O incidente com as camisetas foi exatamente isso. Seria um Encontro Feminino. Ficou surpresa ao me ver. — A população feminina da Academia Ross obviamente está seguindo o caminho errado. As garotas estão satisfeitas em serem rotuladas como objetos sexuais. — Diretor. O comportamento dessas calouras foi de extremo mau gosto. Natalie. e facultativo para todas as alunas da escola que quisessem participar. Natalie – a Srta. Censurei-a com o olhar. Deixando escapar um sorriso tímido. Bee tinha me entregado. seus cérebros e não apenas por seus corpos – acho que meu discurso pareceu ensaiado. provavelmente contrariando sua intuição. Precisava fazer com que o diretor Hurley me levasse a sério. Em vez de abafarmos esse incidente. É como se não acreditassem que podem ser reconhecidas por outras coisas. um apelo desesperado para serem notadas. bem em frente à mesa do diretor. – Passe na minha sala mais tarde e então conversamos. abriríamos um diálogo sobre ele. – Um seminário? Isso não me parece uma punição apropriada.Um o quê? – Spencer perguntou. Com certeza uma atitude ousada. feita de algodão especial e com as letras bordadas à mão. — Sim. O diretor Hurley olhou para a Srta. A Srta. ela disse: — Continue. mas a verdade é eu ensaiei mesmo. tenho algo a dizer – ele entrelaçou os dedos e acenou positivamente com a cabeça para que eu continuasse. mas precisava me mostrar confiante. doando todos os ganhos a uma instituição de caridade ou abrigo feminino. — Esta é uma reunião particular – disse o diretor Hurley. queria que ele soubesse que pensei no assunto de maneira cuidadosa. Quero que nossas 64 . Está mais interessada em obter a atenção da população masculina do que em suas próprias realizações. Bee estava em pé em um canto da sala. — Acho que seria uma ótima oportunidade para discutirmos os acontecimentos recentes e talvez aprendermos comportamentos e estratégias melhores para o futuro. Seria obrigatório para as garotas em questão. Bee acrescentou. – Na verdade. — Gostaria de organizar um seminário para abordar esse problema.decoração além de uma faixa enorme da Academia Ross.

faria com satisfação. seria uma punição perfeita. Decidi fazer o mesmo. ou a qualquer outra pessoa da escola. E se pudesse ajudá-las. Gostaria que Spencer me ajudasse. Percebi que o diretor estava pensando no assunto enquanto me observava fixamente. A primeira aula já havia começado. 65 .garotas saibam que são muito mais do que meras mercadorias sexuais. Parte de mim queria voltar e pegar outro caminho. — Certo — disse o diretor com um suspiro. Sabia que. contudo ainda se oferece para ajudar as garotas da Academia Ross a encontrar um novo caminho. Mesmo não fazendo a coisa certa. continuei andando calmamente. De repente. e de repente não conseguia organizar meus pensamentos. diretor Hurley. que precisam ter objetivos e aspirações mais altos. Preocupava-me muito com essas garotas. A Srta. Natalie está se mostrando uma verdadeira líder. que não fazia a mínima idéia dos meus motivos. — Porque isso é importante para mim. e foi exatamente o que fiz. Spencer era pior do que uma irmãzinha travessa. Ao virar o corredor. Bee parecia estar muito orgulhosa. ela mostrou liderança na sexta. E não farei sozinha. Saí pelo corredor. vamos tentar o seu seminário. – Você está disposta a realizar tudo isso? Por quê? Não havia me preparado para essa pergunta. Ela colocou as mãos na cintura e disse: — Não sou tão burra quanto você imagina. sei o que estou fazendo. Gostaria de dar a ela a oportunidade de usar essa liderança para o bem. – Acho essa idéia fantástica. só para não cruzar com ele. um passo após o outro. Mas evitá-lo de propósito daria a ele controle sobre mim. Apressei-me até o laboratório de química. O diretor Hurley virou-se para mim. Spencer olhou para mim. Bee está de acordo. diretor Hurley. mostrou-se lisonjeada com meus elogios. mas se a Srta. — Acho essa idéia um tanto incomum. nem mesmo hesitei quando choramingou meu nome. E essa responsabilidade. ainda acho que não fiz nada de tão errado assim. Mas isso não era obstáculo para fazê-la me ouvir. Spencer encurralou-me imediatamente. lembrei-me dos chiliques que ela tinha quando criança. além de talvez uma semana de detenção. já que ela foi líder do incidente. E que a melhor forma de lidar com eles era virar as costas e sair andando. ou se sabia que ouvi tudo que disseram. Olhei para Spencer. avistei Connor Hughes curvado no bebedouro. Na hora. Ainda não tinha certeza se ele tinha me reconhecido na fantasia. O último ano é extremamente trabalhoso. — Só para constar. Fora da sala. Apensar de tudo. teria de mostrar determinação. fiquei muito nervosa. Então. se quisesse realmente organizar esse evento.

Eu sei – falou.Você retirou toda a madeira sozinho? – perguntei. O meu sentido de alerta guiou-me rapidamente pelo caminho. Estavam levemente sujas e calejadas. desnorteado. farpas profundas. ouvi-o dizer: . mais do que havia planejado. . Quem diria. . . acusatório. Então.Levantei cedo e recolhi a madeira da fogueira com meu caminhão. nunca havia sido tratado daquela maneira por uma garota. Foi só então que tomei consciência do meu andar (em marcha direta). Connor? Aí vai uma lição importante. Podem me custar o próximo jogo. . Com certeza. Acabei ficando com algumas farpas nas mãos. Sterling. estava longe de ganhar minha confiança.Olha só. Nem sempre conseguimos o que queremos. Connor me fazendo favores de repente? Mal podia acreditar. . amarelo. você não vai me agradecer? Se o ignorasse naquele momento. Embora ele tivesse dito coisas boas a meu respeito naquele dia. 66 . Estávamos sozinhos. parei. Connor sorriu. Ao passar por ele. isso sempre acontece quando estou sendo observada. não pedi para fazer isso. ainda molhados do banho matinal.Sabe de uma coisa. ficaria muito na cara. Meu pequeno evento? – Não precisava da sua ajuda – engrossei a voz.Por quê? – usei um tom defensivo.Não. peguei alguns garotos para ajudar.Ei. Como muitas coisas na vida. da temperatura do meu corpo (extremamente acima do normal) e da minha respiração (quase insuficiente). Nem mesmo garotos como você – enquanto me observava desaparecer pelo corredor. – Fiquei triste por seu pequeno evento ter dado errado. tirei o elástico do cabelo e deixei que caísse como uma capa sobre ele. Fiz isso para te ajudar – mostrou-me suas mãos. As salas de aula estavam todas com as portas fechadas. .Com o canto do olho. – Caramba! Só queria ouvir um obrigado. – Teria resolvido esse problema sozinha. vi que ele levantou a cabeça enquanto a água ainda jorrava do bebedouro. Quando senti que meu rosto começou a corar de vergonha. . Ele passou as mãos sobre os cabelos. provavelmente como se sentia em suas aulas de reforço de matemática. – As madeiras estavam molhadas e escorregadias. me fez muito bem ser a primeira.

a Srta. Bee. do tipo que tem uma foto na capa. você está livre para ser imprevisível. Bee me chamou na sala dela para conversarmos sobre o seminário.Srta. Cheguei até a tomar notas. que precisava perguntar para a Srta. E quando a chuva chegou. Sei que ainda estamos em outubro. enquanto narrava a viagem.Capítulo 13 N o fim de semana. A Srta. Bee pendurou seu casaco vermelho de casimira. Foi também a maneira perfeita de introduzir um assunto do meu interesse e disse: . Bee. como a venda das flores do outono e o baile de Halloween. As fotos mostravam um céu cada vez mais escuro. A Srta. para o qual precisaria de uma fantasia.. Bee deixou de ser uma professora e pareceu mais uma tia legal. e a sua aprovação foi tão boa quanto um abraço. – Minhas férias de verão. Tínhamos vários projetos programados. a senhora poderia escrever minha carta de recomendação para a Faculdade. mas gostaria de preparar tudo com antecedência. . do tipo que convence a sua mãe a deixar que você peça uma taça de vinho tinto em um restaurante elegante. – Quando você viaja sozinha – explicou com um piscar de olhos . Fiquei pensando se a Spencer deveria também fazer parte da conversa. A foto mostrava a Srta. com vista para o mar mais lindo que já vi. 67 . Contou que havia barganhado de dez euros para três em um mercado ao ar livre. Bee sentada em uma mureta cor de areia. na qual havia um álbum de fotos. Bee concordou com a cabeça. Recentemente havíamos feito uma reunião do conselho estudantil. decidiu ir a Milão. Sentei-me na cadeira em frente à mesa dela. Não usava uma desde os meus 13 anos. Balancei a cadeira em entusiasmo e disse à Srta. Havia algo importante. Bee que era exatamente assim que planejava viajar pela Europa antes de a faculdade começar. Falamos sobre os países e as possíveis paradas pelo caminho.Barcelona – disse. algo pessoal. Naquele momento. A Srta. – Fiquei surpresa quando ela abriu o álbum e me deixou olhar as fotos. mas na última hora decidi que não. Colocou os cabelos para trás e mostrou-me um par de brincos de ouro. quando vesti uma fantasia de DNA.

A união faz a força. porque ergueu as sobrancelhas. Essa não é a atitude de alguém que se arrependeu. é uma boa garota. estavam devagar. toda feliz com a fama que conseguiu. Natalie. Já havia escolhido para quais lugares iriam as doações e selecionado o cardápio para o seminário. seria uma honra poder escrever a carta de recomendação mais bela de todos os tempos. Bee compreendeu meus motivos. e tudo mais. sem falar dos preparativos para o SAT. – Menti. – Claro. Além disso. Baseei minha tese de mestrado nas obras de Simone de Beauvoir. Se a Srta. ainda não entendi por que você escolheu proteger alguém como ela. no fundo. Seus olhos moveram-se do meu rosto aos meus ombros. é um grande prazer tê-la em minhas aulas e trabalhar com você no conselho estudantil.Estou preocupada. E isso me lembra muito seu seminário. tentei mostrar serviço. Bee continuava satisfeita. Você ouviu falar da Ninety-Nines? . dando a elas diversas oportunidades. . Enquanto observava a pilha de livros no canto da mesa aumentar. – Portanto. Tive muita lição de casa naquela semana. fui babá de Spencer – expliquei. Isso até me ajuda. me sinto responsável por ela. Francamente. o meu serviço seria bem mais fácil. não demonstrou. Fiquei envergonhada. Uma linda garota adornava a capa.Bem. sorrindo ao vento. certo? Esse era o acordo. . . Vi Spencer andando pela escola. – Então. fiquei completamente assustada. tentei mostrar entusiasmo. como estão os preparativos para o seminário? Na verdade. puxando livros da estante. Fico atolada de trabalho com essas requisições em março. A Srta. Acho que você e Amélia têm muito em comum. e a culpa era minha. Acho que a Srta. nem sei como agradecer por toda a sua ajuda e atenção neste ano. Portanto. está te ajudando.Não. O título era East to the dawn: The life of Amélia Earhart. Eu sabia que Spencer iria me ajudar. Por que a Spencer só dificulta as coisas? – Há muito tempo. – Você precisa ler A mística feminina. E. – Peguei das mãos dela. . sem imaginar como era pesado. principalmente. Além 68 . Usava um boné de couro e exibia óculos de proteção sobre a testa. Natalie. Apenas não tivemos tempo de conversar ainda. Bee entendeu. – Espere! Esqueci o livro mais importante de todos. – Devorei esse livro durante as minhas férias. Alguns alunos deixam sempre para a última hora. – E a Spencer. Este é só para você. mas. tornando-se a sua primeira presidente. O mito da beleza. que será muito relevante para os seus debates.Ela sorriu.Sim. Mesmo assim. Bee. É verdade que está fazendo péssimas escolhas. na verdade. E um sorriso esperançoso floresceu do seu rosto em seguida. Amélia fundou a Organização Internacional de Aviadoras conhecida como Ninety-Nines. Se todos fossem responsáveis e atenciosos como você. Estava muito ocupada. Mas. Ah! Folheie também a Bíblia da mulher e O segundo sexo. Essa organização ajudou a legitimar mulheres que perseguiam carreiras tradicionalmente masculinas. – Quero te ajudar – disse. Obrigada.Srta.

minha querida.Estou orgulhosa por tudo o que você está tentando fazer aqui. e. Srta. é totalmente independente. colocando a mochila sobre os ombros. Outras garotas da sua idade.. bem.disso. Sorri. embora. . Natalie. pesasse muito menos do que a pressão escondida atrás do sorriso da Srta. me dá esperança de que o feminismo não morrerá com a sua geração. Tem inteligência. Pesava mais de mil quilos. honestamente. elas só pensam em garotos. francamente.. Você.Obrigada. 69 . Bee. . Bee. Sempre soube que você era especial. o número nove se encaixa muito bem nessa história.

Quem. não tenho – disse orgulhosa. você tem namorado? Autumn deu uma gargalhada que me deixou irritada. com a instrução de que deveríamos procurar citações ou mensagens inspiradoras para distribuirmos à população feminina da escola em forma de tiras de papel. – Não. Teria de ser útil algum dia. Ele provavelmente usa óculos.Não. Dividi o material de leitura da Srta. mesmo com aqueles 70 . De qualquer forma. Aqueles de metal fino que os modelos usam. . Autumn também compareceu. Bee com elas. Ooh! E aposto que ele é de outro país. Isso daria a Spencer uma oportunidade a mais de se gabar. A Lisa. E conversaríamos em francês o tempo todo. Ele estava livre para olhar para quem quisesse. infelizmente ela não entendeu.Aposto que você só namora universitários – Spencer desenhava corações em seu caderno. como aquelas dos biscoitos da sorte. por exemplo. . seria exatamente como Spencer havia descrito. mas isso não faz sentido. Não que isso me interessasse. Poderia facilmente ver você namorando um cara com sotaque. Ela não deveria ter deixado escapar sinais da minha inexperiência. Olhei para Spencer em reprovação. já estudava francês na escola há três anos. percebi que ele vinha me observando. – Natalie. não era da conta da Spencer. – Alguém que será um neurocirurgião brilhante ou um conselheiro de Estado. Pensei por um momento como ficariam surpreendidas em saber que Connor estava interessado em mim. – Bem. como a Inglaterra. Afinal. Spencer e eu marcamos uma reunião antes das aulas para finalizarmos nossos planos a respeito do seminário e prepararmos as fichas de inscrição e outros materiais. .E você Autumn? – Spencer continuou. Virou a cadeira na direção da Autumn. e sim de Paris. – Tem namorado? .Capítulo 14 N a semana seguinte. – Não vou discutir isso com você – disse. Exceto que não seria da Inglaterra. por exemplo. Desde a noite da fogueira. Parei de escrever. mas não do tipo nerd. E eu. Spencer mordeu a ponta da caneta que segurava. eu? – disse Autumn. Mas se eu quisesse namorar alguém. abaixando a cabeça. livre para ignorá-lo.

Fechei meu livro e olhei direto em seus olhos. Balancei a cabeça em reprovação. Mas isso não significa que não possa me divertir com eles enquanto estiver aqui.Eu. Autumn respirou fundo e fechou o livro à sua frente. Spencer.. Ouvi por acaso Mike Domski e outros rapazes dizendo coisas horríveis sobre você e as ―Rosstitutas‖.. . – Não acho que foi isso que a Natalie quis dizer. quer dizer. – Devíamos pegar o Chad Rivington e cortar as bolas dele. . é uma das garotas mais bonitas e legais da escola. Spencer era o oposto. Seu sorriso foi diminuindo cada vez mais. já tem namorado. eu sei que ninguém me merece nesta escola.Natalie – Autumn tentou me falar. Autumn mordeu os lábios e confirmou.Portanto.Oh. Spencer continuou não entendendo. Então. Autumn caiu na risada. – a pergunta da Spencer ficou no ar. Além disso. Era estranho vê-la contar tudo com tanto autocontrole. Mesmo assim. Você seria facilmente eleita como rainha de qualquer baile de formatura. o que vou te contar agora só não te contei antes porque não queria te magoar. . e tive de aceitar sua decisão. Fui obrigada a mudar o discurso. Além disso. . contou a ela sua história. – Querida. Nunca teria as notas que tenho hoje para me matricular em uma boa faculdade se isso não tivesse acontecido. tipo uma comida desagradável que melhora um pouco com ketchup? Autumn sorriu. nem nenhuma de nós. – Humm. tenho um histórico. Spencer via tudo de outra forma.. Nunca deveria deixar um idiota como esse fazer você se sentir mal consigo mesma. Autumn.Não há um único cara nesta escola que mereça. – Mas não faz mal. nadinha. Mas você... Quer dizer.. o seu último namorado.Como assim? Autumn e eu nos olhamos. afastar-se de garotos não é algo natural. – Autumn! Aquilo foi provavelmente a pior coisa que você já fez. após o incidente de sexta. parte de mim queria que ela se abrisse com a Spencer. que universitário me namoraria? Gente! Só tenho 14 anos e não quero cair nas mãos de um pervertido.. . – As palavras isca de peixe têm algum significado para você? Spencer parecia absolutamente confusa. quase sem emoção. sei que foi. por que os adolescentes têm tantos hormônios se não devem ser usados? – cerrou os dentes.. Ela não queria ser minha convidada de honra no seminário. Dei-lhe um beliscão amigável no braço para trazê-la de volta à realidade.dentes de vampiro. Spencer não entendeu nada. – Autumn não parecia muito convencida. . Deve ter sido para o meu bem. – Não! – gritou. 71 .

balançando o cabelo. tocávamos músicas de bandas antigas e dançávamos juntas por algumas horas. – O que. só que vestindo pijamas. Essa era a atitude correta que esperava dela. Apenas garotas. – Algo essencial. Todas deveriam usar calças de moletom e camisetas do tipo regata. Connor deixou bem claro que não estava nem um pouco interessado em você. mataríamos um bom tempo dessa maneira. alguém te chamou de stripper. – Tenho uma idéia. fizemos a lista de atividades para o seminário. Queria dizer a ela que o seminário era mais sobre aprendizado e menos sobre diversão. foi difícil para ela saber o que as pessoas pensavam a seu respeito. Além disso. Suspirei profundamente. Poderíamos fazer o mesmo. Reli rapidamente nossa lista. Spencer não se sentiu intimidada. fazíamos isso na escola de dança que eu freqüentava. mas também precisamos de diversão. certo? Então. Depois disso. Já não tinha sido fácil ouvir o que aconteceu com a Autumn. Spencer mostrou um de seus cachos com o dedo. a Spencer só queria ser útil e participar. Temos apenas uma hora.. E acho que foi o James quem disse que você nem era bonita. Ninguém precisava se preocupar com garotos ou com a sua aparência. Bee me deu. – Tudo bem. Por outro lado.Bem. Copiei a maioria delas da internet e do panfleto que a Srta. .. mas Autumn me interrompeu.Alguma diversão. Sabia que precisava apoiá-la. – A Spencer está certa – disse. – O quê? . Já o Mike alegou que você faria tudo o que ele quisesse. – Adorei! 72 . por exemplo? . Autumn aplaudiu. Convidávamos todas as garotas da escola para uma festa da nçante. .Bem.Falta alguma coisa – disse Spencer. precisamos dar a elas um bom motivo para passarem a sexta-feira à noite conosco. Natalie! Não tem nada de divertido nessa lista! Apontei para a atividade seis da lista. Devemos nos apressar se quisermos terminar tudo a tempo para as inscrições. – É por isso que o Mike Domski não larga do meu pé. – E o teste de confiança? Spencer fez uma cara engraçada. então que se prepare. A minha esperança era de que ela finalmente caísse na real e mudasse o seu comportamento. – Veja. – Você quer lotar o seminário de garotas da escola. Observei Spencer enquanto ela assimilava tudo.Inacreditável – disse. Chamávamos de ―dança do moletom‖. Uma das garotas ficava de DJ. Quando terminamos as citações. Tudo parecia estar dando certo. Se ele pensa que é meu dono. – Deve ser uma noite educativa. Com certeza. Está sempre passando pelo meu armário ou me encontrando por acaso. Qual é a sua idéia? . parecia estar tudo certo.No início. mas aquilo foi ainda mais doloroso.

Os alunos começaram a chegar à escola. arrancando a caneta da mão dele.Elas olharam para mim. – De fato.Confie em mim. A resposta de Mike? Ele mostrou o dedo do meio para a Spencer e foi embora. acho que vou infernizar a vida dele. pintinhos. e um grupo de garotas veio direto para nossa mesa. testículos. Defendendo-me daquela forma. e fiquei feliz por ser verdade. me desculpe.Chame como quiser.Ponto pra você. vários materiais de leitura e citações inspiradoras de mulheres famosas por sua habilidade de liderança. mas Spencer agiu primeiro. É isso mesmo. mas algumas garotas pareciam genuinamente interessadas nas citações que Spencer e o restante das ―Rosstitutas‖ estavam entregando. – Quero pedir desculpas pelo que aconteceu no dia de abertura dos jogos – disse em tom sério. Esse seminário de garotas é um decatlo vaginal. Todos os adjetivos que te descrevem muito bem! – disse. .Mas isso não é uma punição – expliquei. Em quinze minutos. chouriços. ela me surpreendeu.. já tínhamos 30 garotas inscritas. – Portanto. Spencer – sussurrei. mas o significado foi o mesmo. Garotos não entram.É isso que amigas fazem – foi a primeira vez que disse isso para alguém que não fosse minha melhor amiga. Em resposta.Você não precisa fazer isso – disse. parece que você não está convidado.Largue essa caneta – disse. – Uma punição seria a suspensão. agradeço de coração por tudo que você fez por mim na sala do diretor. Queria soltar os cachorros em cima dele. – Ah. Natalie. muito bem mesmo. esperando ouvir minha opinião. . Spencer insistiu em usar seu iPod para tocar músicas cantadas por mulheres. mas queria encorajá-la. Sorri. Nada de croquetes. – É uma ótima idéia. até que o Mike Domski pegou uma caneta e tentou colocar seu nome na lista de inscritos.Por quê? Só porque somos garotos? Isso não é discriminação? – tentei pegar a caneta de volta. . Colocamos uma mesa no corredor principal da escola com as fichas de inscrição. só porque eu posso. um toque especial. Sei como lidar com esses tipos – disse. Mike. . imbecis e idiotas.Sim. fomos forçadas a essa punição. . A atração principal era a ―dança do pijama‖. . Mike só entendia quando nos dirigíamos a ele como se tivesse 3 anos de idade. 73 . Em razão do meu comportamento. você é um gênio. mas isso não muda nada.. uma oportunidade. . – Claro que exagerei um pouco. preciso. mas ele não deixou. . Spencer. E. Tudo corria muito bem. Com certeza. Só por diversão. agora entendi. . Isso é um seminário. marcando um ponto no ar com os dedos.

mas porque Spencer finalemnte começava a me dar ouvidos. 74 . Não porque me importava com o jogo psicológico que ela planejava usar com o Mike Domski.Coloquei meus braços em volta dela.

– Acho que você pode começar.Natalie. – registrou minha presença. Se eu não ficar por aqui. Bee. gostaria que você fosse a mediadora hoje à noite. Vou pegar a Spencer e.Spencer Biddle – Srta.Natalie! – gritou. permitindo que uma das delicadas tiras de seu casaco caísse sobre o ombro. – Fiz uma lista com músicas incríveis para tocarmos hoje à noite! – Ela sacudiu um pouco o corpo. É você quem tem a experiência de liderança necessária. Estava com o casaco de lã aberto e a ponta do cinto deslizando pelo chão. talvez as garotas se sintam mais à vontade para conversar.Capítulo 15 D e jeito nenhum a Spencer usa isso para dormir. mas não consegui achar engraçado. Bee recitou sentada. Srta.Ótimo. com um laço branco onde as bordas apertavam suas coxas. riscando seu nome da lista de presença. se não fosse pela almofada decorada em baixo do braço e pelo saco de dormir pendurado nas costas. Sei que a Spencer ajudou no planejamento. Eu não quero que esta noite se transforme em um mero pernoite divertido. .Tudo bem. Natalie – disse a Srta. . mas acho que Mike Domski as assustou com aquelas piadas sujas. Ficarei trabalhando em minha sala. Mesmo assim. – Como poderíamos te esquecer? – senti que a Srta.. Você tem uma missão importante para cumprir. Esperava que mais garotas se inscrevessem. mas foi você que idealizou tudo. . como se estivesse usando um vestido de festa que fosse bonito demais para ficar escondido. . claro – concordei. Havia cerca de 50 garotas presentes.Sim. Foi isso que pensei quando ela apareceu vestindo aquela camisola baby-doll xadrez verde e azul. Bee? . Spencer apressou-se para alcançar suas amigas. 75 . . mais as ―Rosstitutas‖ e outras alunas do conselho estudantil convocadas por mim. Bee estava tentando fazer piada comigo.. fiquei satisfeita com o resultado. Talvez até se passasse por um.

Spencer – puxei-a para perto e sussurrei. Foi tempo suficiente para que Spencer tomasse minha frente.Necessidades sexuais? Você está falando sério? Você só tem 14 anos. Aqui não haverá julgamentos ou críticas. dando às garotas algum tempo para que se acomodassem. um pouco magoada. – Não se preocupe. Andei calmamente até as arquibancadas. 76 . – Spencer. Gostaria que todas você se sentissem seguras em compartilhar seus sentimentos e pensamentos. .Tenho uma declaração a fazer antes de começarmos. que costumava ser marrom. – Viram? Esse é o problema. estava vestindo algo que realmente usava para dormir.Acho que a melhor forma de começarmos a noite de hoje é discutindo o que aconteceu no corredor da escola duas semanas atrás.Não acredito que aquilo tenha sido sensual – falei para Spencer. um moletom de capuz e zíper bem largo e as minhas pantufas. somos proibidas de ter necessidades sexuais. A calça hospitalar do meu pai. ao contrário da Spencer. – Acredito que muitas de vocês tenham pensamentos e opiniões diferentes e quero ter certeza de que todas terão uma oportunidade para falar – Spencer começou a balançar o corpo e a abanar a mão desenfreadamente. Você disse que não haveria críticas ou julgamentos hoje. Olhei por sobre seus dedos.Atravessei o ginásio até onde todas estavam reunidas. – Oi. Com o queixo indiquei a ela um assento vago na arquibancada. Natalie. . gostaria de explicar algumas coisas – respirei fundo e sorri. . por que não começa? Spencer levantou-se e encarou as participantes. pessoal. – Vocês só queriam chamar a atenção. parecia ressentida. obrigada pela presença.Tudo bem. mordendo os lábios. Bee que estava saindo do ginásio. Senti-me estranha de pijama. da forma mais gentil possível. Por que as garotas não têm permissão ou não são encorajadas a mostrar a sua sexualidade? . Sorri para a Srta. – Estou sentindo muita negatividade vinda de coe. – Mal havia terminado de falar quando Spencer levantou a mão. Spencer sorriu. mas que ficou cor-de-rosa depois de tantas lavagens. Mas nós. Temos muitos lanches e salgadinhos para servir mais tarde. Primeiro. – Por que você não me deixa começar e depois assume? – Spencer ficou confusa. uma camiseta branca do tipo regata. porque Spencer e eu éramos as únicas alteradas. e talvez. . Quanto mais eu a ignorava. É isso que deveríamos discutir hoje! Os garotos podem fazer de tudo sem qualquer punição. – Muito bem colocado. mais ela queria ser notada. Spencer sentou-se ao lado de Autumn. vamos nos acalmar – o que soou ridículo. . – Devo dizer que fiquei surpresa com a reação das pessoas por causa das camisetas. especialmente porque. garotas.A minha idade não tem nada a ver com isso – disse Spencer.

Seja como for. Arrastei-a até as portas. longe dos ouvidos. cruzando os braços. Francamente. mas não parece – retrucou. – Escute. deveríamos mandar todos aqueles que nos julgam para aquele lugar. é você quem manda. – Meu irmão descobriu que masturbei um de seus amigos. incluindo Marci Cooperstein. Uma sorriu para a outra. ela estava sentada ao lado da Spencer. Vou apenas ficar aqui e ser a garota malvada que está aqui para ajudá-la. Se ela pudesse fazer alguma coisa. Eu a vi apertar levemente os ombros de Autumn. Mas também preciso que siga a minha liderança. Parece que esta escola tem um grande problema com esse tipo de coisa. ok? Spencer olhou diretamente nos meus olhos.. Eu estava perdendo o controle da situação. Afinal de contas. Melissa Sanchez levantou a mão e Spencer deu-lhe a palavra. As garotas se dividiram em grupos. Natalie.. que se virou surpresa. e eu queria vomitar. . que direito tem alguém de dizer o que eu posso ou não posso fazer com o meu corpo? Não vou me sentir culpada só porque gosto de ser sensual. É que temos muitas coisas planejadas e pouco tempo para realizá-las. Mas tudo o que fez foi olhar para Spencer e sorrir. – Spencer olhou fixamente para Autumn. Qualquer coisa que você quiser.. – Isso está errado! Aposto que o seu irmão gostaria que uma garota fizesse isso para ele. Não ficarei envergonhada. e todas perceberam. Mas.Sim. – Gostaria que vocês recortassem quaisquer imagens femininas positivas ou negativas que encontrarem. Realmente quero que você sinta que tem todo o direito de se expressar. . – Não deveríamos fazer isso juntas? . vamos iniciar nossas atividades com a divisão de grupos – coloquei algumas revistas femininas sobre a mesa. que estava sentada bem atrás de Autumn. Tenho certeza de que ela me viu. Spencer jogou as mãos para o ar. então anunciei rapidamente: Agora que resolvemos isso. não faço nada que me deixe desconfortável. e agora ele nem olha mais para mim.Não é isso que está acontecendo – disse. Algumas garotas concordaram. Ninguém quer nos ver discutindo. Spencer marchou até mim. .Olha só. – Tudo bem. agora você não presta mais. sinto muito se te interrompi.Entenderam agora o que eu quis dizer? – indagou Spencer. 77 . Por que a Spencer estava tornando tudo tão difícil? Nem tudo gira em torno dela. – Forçar as garotas a ficar envergonhadas por terem comportamentos que são naturais é um preconceito ridículo. por ser irmã dele. – Por que você me interrompe cada vez que abro a boca? Estava dizendo coisas importantes. qualquer coisa. mas você precisa expressar suas opiniões de forma que sejam benéficas ao grupo. Estou sempre no controle.Bem. Olhei para Autumn como que pedindo ajuda.

– Autumn pareceu-me sincera. Suspirei. logo presumimos que está sendo vitimada ou abusada. . Fiquei ao seu lado para que pudesse intervir facilmente se ela dissesse algo de errado. Bem que você poderia ter me ajudado antes. – Acho essa foto muito preconceituosa.O que você quer dizer com isso. Olhei a figura novamente. Vamos começar com esta imagem.Mas você não acha que ela detém o poder nessa situação? Os garotos estão literalmente se jogando aos seus pés.Acha mesmo? – perguntou Spencer. Depois de alguns minutos. na verdade. não tenho a mínima idéia. passando os dedos pelo cabelo. – Mas pensei que fosse exatamente isso que você queria com este evento. com alunos rastejando pelo chão. não. – Spencer mostrou parte de um ensaio com tema ―volta às aulas‖ em que a professora personificava uma mulher fatal.Não estou! – disse. Ela não tinha a Srta. mas mesmo assim disse: . exatamente? 78 . Fala sério.. vestindo meia arrastão e salto alto. Não pude acreditar. . .Alguém gostaria de comentar? Ninguém levantou a mão. Apertei os lábios com toda força. Como a Spencer não conseguia enxergar a grande oportunidade que havia recebido? . Talvez a Spencer até tivesse razão.O que está acontecendo? – perguntou Autumn.Honestamente.Como você quiser – falou e depois saiu. somos nós quem controlamos a situação.Veja. implorando sua atenção. você pode conduzir o próximo debate. se não estivesse ocupada fazendo as pazes com a Marci. Bee fungando em seu pescoço. porque a Autumn não conseguia entender. .Ah. Em que momento o tópico da noite passou a ser: como a Spencer adquiriu o direito de se prostituir? Autumn levantou a mão: . Ela estava em cima da mesa. quando. portanto eu mesma fiz o comentário. . . Quando uma mulher ousa mostrar seu poder sexual. É visível que esta mulher está sendo tratada como um objeto. O que foi aquilo? .Viram! Isso é exatamente o que eu quis dizer. – Ela está tumultuando tudo. sim. Spencer reuniu todos novamente nas arquibancadas.Na verdade. – Por que você está maltratando a Spencer? .

Estava tão brava que nem enxergava as palavras. Encontrei um lugar na arquibancada e fiz de conta que estava lendo um artigo de uma das revistas que ninguém se preocupou em pegar. Você já se sentiu querida alguma vez? Um cara olhou para você tão fixamente que se esqueceu de piscar? Dei de ombros. o que você quer. Você precisa saber quem você é. Com o Connor. . Spencer continuou falando sobre como é bom termos o controle da nossa sexualidade e como usar esse poder para fazer com que os garotos nos venerem. Resmunguei. mesmo sabendo que a resposta era sim. apenas os espaços em branco entre as linhas. Foi naquele momento que compreendi que a Spencer nunca iria mudar. Michelle Heller contou que induziu um rapaz a comprar seu vestido da festa de formatura porque ele queria desesperadamente ser seu par. fui burra ao tentar.Confesse. e então usar seus poderes femininos para dominar os meninos. Natalie. – Tudo é uma questão de confiança. foi algo que eu tentei ignorar.Spencer sorriu e começou a oferecer os seus conselhos. Mas não foi algo que eu tivesse sob controle. 79 . Spencer pediu que todas as garotas presentes dessem uma calorosa salva de palmas a Michelle.

Não porque o seminário não tivesse sido um grande sucesso. Bee? — Ela está dormindo no sofá do escritório do ginásio. Não tinha certeza de quando peguei no sono. Bee retomou ao ginásio. Mas porque não participei dele. — Natalie? Abri os olhos e vi a Susan Choi agachando para falar comigo. — Sim? — perguntei com voz sonolenta. Se ao menos a Spencer não tivesse. Natalie. é melhor você ir buscálas antes que a Srta. entrei no meu saco de dormir m protesto. foi. ainda há pouco vi a Spencer sair do ginásio. Tecnicamente. Mas quando ela foi se deitar. basicamente. incluindo a Autumn. Quando a Srta. Outras garotas dormiam à minha volta. para a qual não fui convidada a posar. e depois mais duas garotas. Como se não bastasse. Ela foi a DJ da ―dança do pijama‖ enquanto eu recolhia as embalagens e os restos de comida do chão. senão seremos todas expulsas! 80 . Ela organizou uma sessão de maquiagem enquanto eu recolhia as bolas de algodão e os cotonetes usados. Bee acorde. uma de cada vez. — Acho que a Spencer deixou alguns dos jogadores de futebol entrar — Susan sussurrou. que dividia o travesseiro comigo. — Onde está a Srta. tentei mostrar um semblante de alguém que estivesse no comando. — Quê? Quando? — Shhhh — sinalizou Susan —. deixando-me apenas a incumbência de manusear 15 câmeras de celular diferentes.Capítulo 16 A lguém me acordou. — Fiquei acordada em silêncio. improvisou uma sessão de fotos das garotas de pijamas. era minha função fazer com que pelo menos uma garota ficasse acordada durante a noite para que ganhássemos doações pelo nosso pernoite. mas isso não fazia nenhuma diferença. arruinado a minha noite.

Mas sabia que não ia conseguir. Connor desceu. Uma silhueta enorme. Segurei uma das garotas pela alga da camisola até que parasse. Sombras se mexiam do outro lado do quadro de avisos e das fileiras de armários. Passei pela ala de matemática. Vários garotos desapareceram escada abaixo. Ele não esperava que fosse eu a segui-lo e. Sterling. — Deixe suas desculpas ridículas de lado. — Ei! Cuidado — gritou. silhuetas de pessoas correndo. definitivamente de um garoto. — Deixe disso. — O que você está fazendo aqui? — perguntei com reprovação. Eram todas ―Rosstitutas‖. mas mudou de ideia ao ver meu olhar enfurecido. parecia estar um pouco assustado. Sem falar no diretor Hurley. Se a Srta. — Vocês querem realmente arrumar mais problemas para o seu lado? — perguntei. Parecia o ambiente assustador e perigoso de um filme de terror. — Já — rezei para que ela realmente me atendesse. Você e os outros garotos precisam ir embora imediatamente antes que todos nós sejamos expulsos. Bee descobrisse. As três voltaram tristes para o ginásio. — Esqueci de pegar um livro. Três garotas estavam atrás deles. Mesmo assim. excitada e envergonhada por ter sido pega.Minha vontade era virar para o lado e deixar a Spencer se dar mal. com os pés estalando no chão. vestindo jeans. Entrei no corredor. realmente. Uma abriu a boca para dizer alguma coisa. Os estalos fizeram com que rissem e gritassem ainda mais alto. A lua brilhava majestosa pela janela. movendo-me o mais cuidadosa e silenciosamente possível em minhas pantufas e seguindo as risadas e gritos travessos que vinham do laboratório de ciências no fim do corredor. — Volte para o ginásio — disse a ela o mais firme possível. salvo por algumas luzes de emergência próximas às escadas e a iluminação azul das telas dos monitores e televisores que não foram desligados para o fim de semana. fugiu para o banheiro feminino que ficava no meio do corredor. 81 . Tirei as pantufas e corri atrás delas o mais rápido possível. camisa de flanela e uma jaqueta de linho verde-escura. Se eu colocasse tudo a perder. nunca mais me respeitaria novamente. Os corredores estavam escuros. poderia ser suspensa junto com a Spencer. Sua feição mudou quando me viu. Estamos apenas nos divertindo. temi que a camisola rasgasse em minhas mãos. As outras garotas pararam e me olharam irritadas. e a iluminação era suficiente para mostrar Connor Hughes em cima do aquecedor. Virei-me e abri a porta do banheiro.

estou falando sério. camuflando a minha inexperiência com entusiasmo. E então ele me beijou. Sterling? Gostava quando Connor me chamava pelo sobrenome. cruzei os braços e cheguei ainda mais perto. Não podia deixar que escapasse. menos convencer a mim a deixá-lo ficar ali. vindo em minha direção. Agarrou-me e me beijou. Mas. e todo o corpo dele ficou tenso logo em seguida. Gargalhei. Ele esperava que eu desmaiasse ou algo parecido? Dei um passo na direção dele também. juntei algumas palavras e disse calmamente. fechando o espaço que havia entre nós. Naquele momento. quando ele se afastou. Foi uma atitude ousada dele. Queria beijá-lo outra vez. Não havia necessidade de permissão. me beijar sem nem ao menos pedir primeiro. Mesmo assim. Mas eu não. Ele sorriu sem graça. e uma sensação estranha tomou conta de mim. em vez disso. Bee. não conseguia pensar em outra razão para ele me dizer aquilo além da de querer me convencer a não chamar a Srta. — Tudo bem — ele disse. Quis acreditar que ele estava sendo sincero. abrindo um espaço entre nós. Ele mostrava confiança. Bee. definitivamente.disse a ele. — Connor. Portanto. — Gostei do seu pijama — ele disse. indo embora. — Você não faria isso — disse. aproximei-me e o beijei com mais força ainda. precisava acontecer. Poderia convencer uma garota a fazer qualquer coisa. — Agora faça o que mandei e saia daqui. Foi quando ele deu um passo para trás. entendi o poder verdadeiro que alguém como Connor possui. era totalmente seguro de si. — Fique quieto — respondi. fazendo com que uma covinha aparecesse na face esquerda. Senti a temperatura do corpo esfriar. Algumas garotas ficariam insultadas. começou nas pontas dos pés e depois espalhou-se por todo meu corpo. resolvi dar outro passo à frente e colocar as mãos na cintura. Portanto. Precisava mostrar ao Connor que não cairia a seus pés como as outras garotas da escola. — É mesmo? Então pague para ver. porque é assim que os garotos tratam uns aos outros. Quando nos separamos. — Você não tem ideia de como sou durona . Considerei aquilo um elogio. A forma como ficava tão relaxado e casual. meu coração disparou loucamente. Ou você vai embora agora ou vou chamar a Srta. A forma como sorria para mim com o canto dos lábios. Foi um beijo ardente. E também a palavra durona. não é mesmo. 82 .Observei o seu jeito de agir. — Você é bem durona. Por alguns segundos nos entreolhamos. Ele deu outro passo. da mesma forma como foi naquele dia no banco de reservas. Bem grande.

Senti uma paz estranha carregando esse enorme segredo. pois sabia que ninguém no ginásio acreditaria. havia acabado de beijar. — Até mais tarde. vi Spencer deitada em seu saco de dormir com os olhos fechados. Um único momento tomava toda a minha mente. reunindo os outros garotos e dizendo: — Vamos embora! Atrás de mim. Connor Hughes. todo o meu corpo: eu. Dei uma última volta pelos corredores da escola. para ter certeza de que não havia mais ninguém. Connor já estava no fim do corredor. Natalie Sterling. Ao voltar ao ginásio. Nem eu mesma conseguia acreditar. 83 .Fiquei imóvel por alguns segundos. Estava fingindo. Tinha um enorme sorriso idiota no rosto. zombando. Natalie — disse. e dispensar. ouvi uma porta se abrir. Quando saí do banheiro. mas resolvi não dizer nada. Quando virei. vi Mike Domski saindo do laboratório de Ciências e correndo para junto dos outros garotos.

começamos a colidir um com o outro bastante. Ou talvez tivesse percebido mais a presença dele.Capítulo 17 P osso falar com você um minutinho? — Spencer praticamente me encurralou em meu armário. — Excelente. Natalie — disse. De qualquer forma. Sua figura se destacava por causa das proteções que usava para o futebol. aquele tipo de riso travesso cheio de segredos. A maioria dos carros estacionados entre os nossos naquela manhã já tinha saído. Aí tentei tirá-los de lá. não foi? Foi. trabalhando nos enfeites para o baile de Halloween e esperando por Autumn. Bee lhe disse alguma coisa? — Não. eles simplesmente apareceram. na secretaria. então tá tudo bem — sorriu Spencer.. Ficamos apenas ele e eu... A Srta. Felizmente.. Connor olhava para mim e começava a rir. — Quero que você saiba que não convidei aqueles caras para a escola. Ela parecia mais interessada em achar água quente para o seu chá do que em falar comigo. — A Srta. já que vinha do treino. — Acho que não. — Foi excitante. Ela parecia estar falando a verdade. Fiquei fora até mais tarde. colocando uma das mãos sobre o brasão da Academia Ross em seu uniforme de moletom. foi. Eu nunca faria nada que pudesse te causar qualquer tipo de problema. a irritação dela era resultado de uma noite mal dormida no sofá do escritório do ginásio. que deixou um livro em seu armário. depois daquela noite no banheiro. É. Bee tinha sido fria comigo na manhã após aquele pernoite... Um dia nos esbarramos no estacionamento após a escola. por quê? Você acha que ela sabe? Tinha minhas suspeitas. 84 . Fiquei olhando para a Spencer. Comecei a ver o Connor com mais freqüência. — Juro. na lanchonete. Parecia que estávamos brincando nos salões. e eu o ignorava o mais rápido possível.

Um fofo. Sinto muito — falei com sarcasmo. Mas Connor obviamente nem imaginava que eu era uma das melhores debatedoras na Academia Ross. furiosa. Sua voz estava engraçada. apoiar os times da escola. pois não disse mais nada.ele disse. Ele sorriu. — Isso não faz parte das minhas atribuições. Escutei uma das pesadas portas metálicas da escola se abrir. . vi Connor praticamente em cima de mim. — Temos uma ótima chance nas eliminatórias. isso não faz parte das atribuições como presidente do conselho estudantil? Você sabe. no porta-malas. — Mas não é delas que eu gosto — disse. eu sempre iria rebatê-lo. Quando levantei o olhar. — Você vem ao jogo desta sexta-feira? Virei-me para olhar melhor para ele e tive que proteger meus olhos do por do sol. simplesmente voltou para o carro. de verdade. Sterling — disse Connor. minha temperatura subiu. tomando Gatorade e molhando os lábios que eu tinha beijado. — Tenho certeza de que não faltarão lindas fãs — tentei ficar calma e olhando para o chão. ele estava lindo. Até podia ter entrado no meu carro. achando que estava conseguindo me convencer. Ele também deve ter visto a Autumn. 85 . Não respondi. E aí. com os olhos fixos nos meus. mas aí não teria graça. venha ao jogo! Fechei o porta-malas. estufando o peito. De qualquer forma. boa sorte! — falei sem emoção. — Por que eu faria isso? — Porque vou jogar . Ele estava sentado no pára-choque. Apesar das manchas da grama e do suor e toda aquela sujeira. como se estivesse conversando e gemendo ao mesmo tempo. — Então.E. — Poxa. Ele levantou e deu uns passos em minha direção. de qualquer forma. — Tenho de ir — disse depressa e passei por baixo do braço de Connor. Não consegui saber se estava tirando uma com a minha cara ou se estava se achando ridículo pelo que tinha acabado de confessar. um a um. por mais que ele tentasse defender seu ponto de vista. Meu coração parou.— Ei. Então passei a colocar os livros. Era Autumn.

— Não vejo fantasias para adultos . Autumn disse: — Não acredito que a gente não tenha ido a um único baile sequer juntas. Autumn lhe perdoou. — Não ficaria muito entusiasmada com esse baile — disse. Mas por algum motivo. e não ia permitir que Marci ficasse entre nós. Autumn era minha melhor amiga. e que tem cheiro de chulé. parecia mais um aniversário estranho que nos fazia lembrar de tudo o que aconteceu. Sem falar que organizar um baile dá uma tonelada de trabalho. — Tudo é para crianças. — Espero que a gente consiga encontrar roupas iguais — disse Autumn.T. Parece até que estudamos em casa e nem vamos à escola! O fim do namoro de Autumn com Chad foi um pouco antes do baile de Halloween. Agora que as duas tinham feito as pazes. Mais alegre. queria ter certeza de que Marci não viesse com ideias. Uma luz rósea e fluorescente vinha daquela sala. entrando em outro corredor. — Você é muito negativa. portanto nem fomos. Santo Graal ou Santo Gral é uma expressão medieval que designa normalmente o cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia. quando éramos calouras.exclamei com cautela. Nos anos seguintes. Desde o seminário. (N. Autumn entrou e fui atrás dela. não quero que você se decepcione. como um baile escolar pode ser tão bom assim? Vamos estar no ginásio. fazíamos o nosso próprio programa. Autumn estava agindo de forma diferente. Ela fez uma cara feia e perguntou: — Por quê? — Bem. onde fizemos exercícios e suamos.Achar uma roupa legal para o Halloween pareceu mais difícil do que encontrar o Santo Graal14. acho. — Pelo jeito você encontrou a sessão de adultos.disse. não havia muita escolha.retrucou Autumn. Natalie. E para um lugar que anunciava ser uma espécie de Halloween megastore. Sabia que deveria ficar feliz por ela. — Nem tudo . — Muito bem . Ela estava dedilhando uma enorme cortina feita de contas como se fosse um violão gigante.) 14 86 . só para completar todas as minhas outras obrigações de sempre. Nesse dia. — Eu também — falei e pensei em Marci Cooperstein. isso me dava mal-estar. Quer dizer. mas isso não significava que elas pudessem retomar do ponto em que haviam parado antes daquela coisa toda da isca de peixe.

— Vamos embora — disse. Mas eu não estava nem aí. dizendo: — Os irmãos Ringling15 dizem que sou uma garota muito má! Passamos os dez minutos seguintes morrendo de rir daquelas roupas de extremo mau gosto: várias roupas pareciam feitas para vagabundas e outras para seres andróginos. devo confessar que nós estávamos praticamente gritando. Mal conseguimos sair desde a eleição e o baile é na semana que vem. — Não. Ela puxou um verdadeiro arco-íris de tubinhos da prateleira e pôs na sua frente.. — Uma prostituta palhaça? Quem é que vai comprar uma coisa dessas? Mordi o dedo. Era uma rede solta e havia estrelas-do-mar cor-de-rosa e cavalosmarinhos verdes colados a ela. — Autumn segurava um vestido cintilante com um colorido azul e verde. (N.. Parecia um tanto grudento. — Você não vai ter tempo. — Vamos fazer nossas próprias fantasias. Fiquei chateada. Havia um gostinho de passado. você está procurando algo do tipo mocinha francesa. — Excelente! Então posso ser uma prostituta nojenta ou uma vagabunda de peitos grandes. ou quem sabe. Eu não estava nem perto de encontrar uma roupa e isso me deixava louca. — e riu tanto que quase perdeu o fôlego. — Deixa para lá.T. Honestamente. estava tão na cara. — Autumn colocou subitamente uma peruca longa e loira e amarrou um Xale em volta dos ombros. vestindo uma roupa feita de filé-mignon. Alguns dos outros clientes pareciam estar irritados com a gente.. com uma voz amarga. Em sua defesa. — Mas você está superocupada com as tarefas do conselho estudantil — lembrou-me. — Tudo bem — ela disse.. Será divertido. — É uma fantasia de sereia! O que você acha? Não é legal? — Autumn. — não sabia o que dizer. — O quê? — perguntei.. pendurando de volta no cabide. Esse aqui é até bonitinho.. mas pelo menos era longo. — Espere um pouco. — Apresentadora de programa de televisão? — tentei adivinhar. das épocas em que nós duas parecíamos tolas e não nos importávamos com isso. — Então.Autumn deu uma olhada nas prateleiras. chegando até o chão. mas por que a Autumn estava me culpando por mostrar o óbvio? Que tipo de amiga seria se a deixasse usar aquela fantasia.) 15 87 . especialmente porque ela estava tão desesperada para se divertir no baile? Seria como entrar na cova do leão. Sete irmãos que transformaram sua companhia de teatro no maior circo dos Estados Unidos no fim do século 19.

Soube imediatamente: não ia bancar a prostituta ou algo do tipo no Halloween. quando vi um boné marrom imitando couro e grandes óculos de proteção. pelo menos até sairmos da loja. — Então. pois essa era minha maior preocupação em setembro. 88 . — Vou dar um jeito. Eu iria de Amélia Earhart. Mas já era tarde para tanto. o que seremos? Será que ainda dá para fazer duas fantasias que combinem? Eu disse que sim. e era por isso que eu queria que Autumn tivesse aceitado ser a minha vice-presidente.Fiquei incomodada. E era a minha vontade. prometo.

pois eu estava em pé dentro de um avião de papelão preso aos meus ombros por suspensórios. Apesar do meu machucado. Havia abóboras delimitando a área de dança do restante do ginásio e o DJ que contratamos trouxe as luzes piscantes e a máquina de fumaça. — Não tive tempo de fazer a minha — admitiu Autumn. então peguei emprestado da minha mãe para ficar mais autêntico. A Autumn veio correndo em minha direção. Cacheei as pontas do cabelo e prendi tudo pra cima em um coque. — Só batom. Os corrimãos das arquibancadas estavam cobertos de teias de aranha. Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa. Autumn estava usando a fantasia de sereia que vimos na loja. mostrando como meus dedos estavam feridos por cortar o papelão com uma tesoura cega. Não acredito que você mesma fez. Tinha uma blusa de seda creme que comprei para usar nas entrevistas para a faculdade e calça marrom com a barra enfiada dentro das botas de couro. mas tudo estava muito melhor no escuro. dizendo: — Finalmente você chegou! — Não acreditei no que vi. — Ah — não sei o que ela queria que eu dissesse. olhando para a sua fantasia justa. Autumn chegou mais perto e disse. estava amando a fantasia de Amélia Earhart. E ainda estava com chapéu e óculos de piloto de avião. ela me deu o maior abraço. mal consegui acreditar na beleza que contemplava. como os olhos arregalados: — Você está usando maquiagem? Dei de ombros. Já tinha ficado bonito quando terminei de decorar depois da aula. Ela já sabia que achava aquilo uma má ideia. 89 . O ambiente todo estava no meio da névoa. Mas o avião impedia meus movimentos — devia ter feito asas mais curtas. o maior abraço que ela conseguiu dar. — Mas custou caro — disse. Não dava para ver a marcação das quadras no chão nem os colchonetes e tudo o mais. quer dizer. Acho que Amélia teria usado. a alegria de Autumn me deixava constrangida.Capítulo 18 ssim que pisei no ginásio na noite de Halloween. Os túmulos de papelão que havíamos feito na semana passada pareciam reais à meia-luz. — Sua fantasia está maravilhosa.

— Queria que as outras meninas seguissem seu exemplo. vestindo suas fantasias. Olhei em volta. Bee não conseguisse se vestir dessa forma mesmo que quisesse. O diretor Hurley e eu estamos pensando na possibilidade de criar regras para uso das fantasias no ano que vem. — Eu sei. O diretor Hurley estava totalmente adequado com sua fantasia de oficial do exército e as botas pretas brilhantes. usava botas de amarrar de salto alto no estilo Timberland. Não sabia se as músicas seriam ―legais o bastante" para eles. — Quer beber alguma coisa? — gritei novamente. Não conseguia parar de pensar se Connor iria notar. — Não acredito que todas essas pessoas estejam dançando — gritei. com todo cuidado. por alguma razão. Mas gostei de usar a cor vermelhocereja e depois. de deixar a marca de batom no papel higiênico. Os olhos dela se iluminaram quando me viu. senti um pouco de pena dela. mas nada tão dramático. E apesar de fazer com que todos os outros parecessem idiotas. A saia chegava bem embaixo do bumbum e quando ela se abaixava com a música. mas. pois não dava para falar com o barulho da música. Natalie! Adorei sua fantasia! Prometa que vai tirar uma foto comigo antes de a noite acabar — seu sorriso virou uma careta quando olhou por detrás dos meus ombros. mas o modelo era como um espartilho. Ela concordou e fomos juntas até a mesa de bebidas. Como se. Era bem provável que só estivessem lá por causa da comida. Ela trajava um minivestido justo em um corte de macacão. Era lá que todos os professores estavam. Bee. Um colete justo da mesma cor estava jogado de forma displicente em seus ombros.Não era verdade. Alguns dos jogadores de futebol também estão aqui. Era uma imensa multidão de garotos e garotas pulando para cima e para baixo. estava difícil identificar as pessoas. Só gloss. Já esperava que sua fantasia fosse meio exagerada. dava para Ver pedaços de um calção laranja brilhante. para finalizar. Usava uma regata branca por baixo. Imaginei que o armário de Spencer provavelmente tinha uma loja inteira de fantasias de Halloween. com o formato de um beijo Nunca tinha usado batom antes. a Srta. bem amarradas. — Oh. E — vai saber onde ela arrumou aquilo —. os garotos do futebol tinham vindo. se é que ele tinha se dado ao trabalho de usar uma. Queria ver qual seria a fantasia de Connor. Mas sua fantasia não parecia barata nem de plástico como as fantasias prontas que se compram em lojas de fantasia. A única professora sem fantasia era a Srta. da fumaça e das fantasias. Amélia fazia o tipo andrógino. deixando os peitos explodindo para fora. com certeza era uma de suas fantasias de apresentações de dança passadas. Usava capacete de peão de obra e um cinto cheio de ferramentas de plástico. por causa das luzes. e com certeza ela tinha se transformado em uma vagabunda da construção civil. E não tem só garotas. Virei-me e vi Spencer. Autumn pegou na minha mão e me arrastou para o meio do ginásio. 90 . Era bem feita. Então.

Como se aquilo não tivesse nada a ver com Diana. — Diana puxava a barra da saia e dançava conforme a música. Mas a fantasia dela apertava em lugares estranhos do corpo. Primordial. Alguns garotos estavam sentados em uma pilha alta de colchonetes. Dava para ver que o Mike estava ligadão na Spencer. que não usava fantasia.. Foi então que vi Connor Hughes. vendo Diana dançar. — Eu também — não entendi o que estava acontecendo. mas não consegui. Ri tanto que quase derrubei meu copo. apertando-a no meio deles. uma garota que faz aula de francês avançado comigo. Atrás dela.. Bobby Doyle sussurrou alguma coisa no ouvido de Connor. Tá. com um par de algemas soltas se agitando em seu pulso. — Olha só para ela. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Ocorreu-me que talvez estivéssemos tendo algum tipo de conversa secreta. Diana era uma garota bonita e cheia de curvas. percebi que Diana Berry estava dançando. tentando manter o traseiro coberto. Depois que Autumn e eu estávamos longe do alcance de audição da Srta. pensei que ela fosse mais esperta. Ela parecia bem mais bonita usando o uniforme escolar. e então danço no seu colo! Pala sério. fumando cachimbo. Como se não tivéssemos feito exatamente essas mesmas piadas semana passada. Parecia que ela estava se divertindo como nunca. só uma enorme peruca afro. usando um uniforme de listras brancas e pretas de presidiário. Meu coração se despedaçou. Balancei a cabeça e perguntei: — O que isso tem a ver? — Ela só está se divertindo — respondeu como se tivesse jogando na minha cara. pensei. Mas senti-me 91 . Os dois se empurravam para cima de Spencer. E o outro cara que completava o sanduíche de Spencer era Paul Zed. — Parece mesmo que ela está se divertindo? Ou parece que está desesperada querendo a atenção de qualquer um? Autumn torceu o nariz e questionou: — Você vai agir dessa forma a noite toda? — Dessa forma como? — Nenhuma. Deixa para lá. Ela usava um espartilho xadrez com meias arrastão brancas e mocassim de salto alto. Como não? Era praticamente instintivo. disse: — A Diana está usando a versão piranha de Sherlock Holmes? Ooooh! Resolvo mistério. Tentei desviar o olhar.Ela parecia uma stripper de verdade. — A Diana é uma garota legal — disse Autumn. Bee. Estava dançando no meio de dois jogadores de futebol. também vestido de presidiário. mas o que quer que ele estivesse ouvindo não era tão interessante a ponto de desviar o olhar de Diana. Um deles era Mike Domski. Só quero me divertir. Não existe imunidade a peitos e bundas para adolescentes. É claro que garotos como Connor vão prestar atenção em garotas seminuas dançando na frente deles. Autumn praticamente bloqueou minha passagem quando tentei andar e sei que ela estava tentando arrumar briga por causa da fantasia da Diana.

arrastando seus saltos pelo caminho. — Vamos. — Dei um passo para trás e ela fez uma careta. Talvez nem um segundo. — Eu estou bem. Natalie. — Dance comigo. tentando pegar meu braço novamente. procurando um guardanapo para tirar o batom. A música recomeçou. Estúpida. Não com aquela fantasia ridícula. Usada. A mesa está meio bagunçada. — Ela começou a se mexer no ritmo da música. Pois. Queria contar para ela sobre essa história toda com Connor. mas ele sempre estava fazendo isso. Será que tinha imaginado as coisas com Connor? Sei que nos beijamos. Odiava a forma como estava me sentindo. Connor desviou o olhar para dar uma geral no ginásio. Autumn olhou feio para mim. Vai lá. E estou me sentindo um pouco mal por te chegado atrasada. procurando uma pessoa invisível no meio da multidão. — Venha. Acho que vou ajudar. sabia que não devia fazer isso. Todo mundo curtiu.completamente idiota por ter passado batom. Mas isso não significa que não podemos dançar. Ficasse em mim da mesma forma que tinha ficado em Diana. — Autumn retrucou e carregou sua cauda de peixe para longe. Respirei fundo e olhei por detrás dele. Na verdade. Até Autumn. Era quase tão constrangedor quanto dançar. Começaram a dançar. Marci Cooperstein já estava na pista. 92 . Queria que o olhar dele congelasse em mim. Não ouvindo um rap ridículo na potência máxima. — Por favor! — Autumn implorou. girando e fazendo movimentos coreografados e engraçados que o pessoal inventava o tempo todo. mas não conseguia. Insegura. mas senti. Autumn segurou minha mão dizendo: — Nem eu. Ela acenou para Autumn e elas praticamente se abraçaram quando Autumn correu em sua direção. Uma sensação terrível se alojou na boca do meu estômago. Estava morrendo de ciúmes. Fez com que me sentisse tão desesperada quanto Diana e todas as outras garotas. Vamos dançar! — Não sei essa coreografia — disse. Ela me conhecia muito bem. a fantasia dela era um lápis dançarino. — Então. na verdade. Tudo aconteceu muito depressa. não dava nem mesmo para ter certeza se ele tinha me visto. Diana foi para a arquibancada. Soltei minha mão e falei: — Acho que vou só ficar por aqui. tá. Fez com que sentisse raiva de mim até mesmo por ter tentado. Tentei não sentir ciúme. balançando o meu braço. Talvez tenha sido só uma ousadia. Foi aí que ele me viu. Quando a música acabou. não quero deixá-la aqui sozinha. Mas só chamei a atenção dele por um segundo. Ou talvez meu beijo seja muito ruim.

fazendo-me perceber o quanto estava inapropriada para a ocasião. você tem um corpo tão bonito. só para parecer que estava fazendo alguma coisa. Quando não havia mais nada a fazer. Spencer veio até a mesa de petiscos. — Você pode ter o cara que quiser daqui se você se soltar só um pouquinho. Por cima do ombro.. — Implorei. obrigada — minha fala parecia tudo. Ouvi Connor vindo por detrás de mim. — Só tome cuidado. mesmo sendo mais alta que ela. ouvia a galera gritar o tempo todo a cada nova música. dançava com a escola inteira — meninos e meninas. — Sabe. E ela tinha que tomar cuidado com o quê? Connor atravessou o ginásio e veio para perto de mim. era exatamente onde meusolhos iam parar. Está se divertindo? 93 . Suas amigas foram ao banheiro. Pois eu já tinha o cara que queria. menos um agradecimento. arrumar o cabelo e a maquiagem. — Não dá para entender você — Spencer virou e se apoiou na mesa. Mas Spencer não me ouviu. Tentei sair de perto dela. Ela sorriu e disse convencida: — Fácil demais.Passei a me ocupar imediatamente. mas ele não me queria mais. Ela não dançava somente com um ou doiscaras. elegante — foi a palavra que ela decidiu usar. Antes de me dar conta do que estava fazendo. Era quase fácil demais. Ela pegou uma lata de Sprite da geladeira e a esfregou no rosto. Sterling. — Você estátão. Ela já estava pulando no meio da pista de dança. — Então. por que não está dançando? Quer que te ensine uns passos rápidos no corredor? — Estou bem. Em um intervalo entre as músicas. tirei o avião de papelão e o chutei para debaixo da mesa. irritada. Aquilo fazia com que me sentisse inacreditavelmente solitária. Sua bunda fica linda com essa calça. Spencer ficou ao lado do meu avião de papelão e mordeu os lábios. como se estivesse decidindo dizer ou não uma coisa para mim. A testa dela estava toda suada. Apesar de todos os meus esforços.. mesmo estando totalmenteridícula com aquela fantasia. certificando-me de que os petiscos estavam sendo servidos e de que tínhamos gelo o suficiente na geladeira. incluindo Connor. Por que você esconde isso de todo mundo? Não gostava da sensação de ser avaliada por Spencer. Fazia com que me sentisse pequena. — Oi. E então comecei a arrumar coisas que nem precisavam ser arrumadas. — Não estou escondendo nada. toda vez que tentava não olhar em sua direção. — Parece que você está com Mike Domski aos seus pés. seguida de várias amigas. — Obrigada pelo conselho — disse. Todo mundo olhava para ela. Spencer se aproximou de mim e sorriu para a minha fantasia. fiquei observando Spencer. Os movimentos dela eram suaves e autoconfiantes. mostrando ainda mais os peitos. Natalie. mas bati nela com uma das minhas asas. Eu vi.

resmungou. — Nada. Fez aquilo como se fosse um mágico escondendo uma bola de espuma vermelha nas mãos para um truque. Senti minha voz presa na garganta quando disse: — Não fique se gabando. Spencer. — Veja você mesma. — Não estou interessada. Não estava nem tentando. A arrogância dele me dava nó no estômago. Connor deu um passo em minha direção. Pelo menos achei que fosse pegálos. E depois foi embora. Estava agindo como louca e não achava que conseguiria me controlar. Ele pegou a minha mão e a fechou com o número de telefone dentro. e quando ele esticou o braço para pegar um M&M's. Ela tinha o seu número na estúpida camiseta de ―Rosstituta‖. Olhei bem para ele. Como ousava resmungar de mim! Como se eu fosse uma pessoa impossível? O olhar dele era sonolento e suave. — Por que você é tão ruim comigo? — Porque não confio em você — o que era verdade. deu para ele chegar bem perto. Virei-me para encará-lo e perguntei: — O que é isso? — apesar de já saber a resposta. Tenho certeza de que adoraria ficar com você. — Sterling — ele riu a princípio. Perto o suficiente para perceber que ele tinha feito a barba e tinha um pequeno corte onde o queixo se encontrava com o pescoço. E então. — Por que você não dá isso para uma das piranhas que estava olhando? Tipo sei lá. Ele não disse mais nada. A mão dele me deixou quente como carvão. vi um pedaço de papel no meio da palma. E quando ele abriu a mão. — Tome — tirei o papel do bolso e tentei devolver a ele. Como não estava mais usando o avião. Ele esticou a mão imediatamente para pegá-los. — Não vou pegar um pedaço de papel imundo da sua mão. quando viu que não estava brincando. mas sua beleza não diluía minha raiva. E por mais que soubesse disso. a agitação que sentia quando conseguia a atenção de Connor ainda me fazia sentir embriagada.Ri. Mas a mão dele parou bem acima da tigela. — Pega isso. para ter certeza de que ia segurá-lo. Sabia. 94 . Perto o suficiente para poder sentir o cheiro de plástico da fantasia dele. — Então você está me observando? — Ele piscou tímido e ao mesmo tempo arrogante. — Não tanto quanto você. tinha certeza de que a tigela ia derreter. tá bem? Cruzei os braços. — Disse e senti o bafo de cerveja na mesma hora. mas não conseguia acreditar. então fiquei de costas para ele e despejei um saco de M&M’s numa tigela. então Connor enfiou o papel dentro do meu bolso. Vi você babando por todas as garotas do ginásio.

Mas Connor tinha feito uma jogada. Estava em minhas mãos. Nossa paquera no corredor ou naquela noite do banheiro não iria muito longe. ou eu começava a jogar ou era fim de jogo. 95 . Não era um truque. E percebi o que tinha acabado de acontecer.Abri a mão e vi o papel.

conversando com Marci e umas outras garotas. o que me dava ódio.. e não eu. não parei de tocar em meu bolso para sentir o papel. só havia umas poucas pessoas por lá e eu era a única que estava trabalhando de verdade. E aí? — Então. como se precisasse ter certeza de que aquilo não era um sonho. o conselho estudantil teve de retirar toda a decoração e recolher as sobras de comida. Queria tanto dizer a ele que tinham sido seus adorados atletas que tinham decidido jogar doce uns nos outros. Aquilo não era um convite. mais tempo demoraríamos para voltar para casa. Não a garota que estava limpando a sujeira feita pela brincadeira de todo mundo. Quanto mais eu ficasse ali. Estava exausta e imaginava o quanto Autumn devia estar cansada. Estava com raiva por ela não estar ajudando a limpar. e os encontrões e tropeços deles tinham espalhado refrigerante por toda a parte. apontando para os doces amassados e as manchas grudentas no chão. Autumn estava sentada na arquibancada. No máximo por uma hora. Ainda mais quando ele passou por mim na porta sem ao menos lançar um olhar. Você quer vir comigo? — Pensei que você fosse dormir na minha casa — dava para sentir a mágoa em minha voz. como a Cinderela. — Tá.Capítulo 19 Q uando o baile acabou. só parou depois da última música. vou dar uma passada lá. O técnico Fallon ia me dizendo o que fazer. Depois que Connor saiu do baile. — E vou. praticamente fui ignorada a noite toda. Era uma humilhação.. A maioria dos alunos já tinha ido embora. Bem. — Tem uma galera que vai para a casa de Bobby Doyle. pois assim que me largou para dançar com a Marci. Acho que realmente o constrangi. — Oi — disse Autumn atrás de mim. Só vou fazer um pequeno desvio primeiro. 96 .

mas lentamente. Apesar de ela ter basicamente partido meu coração. Não queria que parecesse que eu estava correndo atrás dele. Sem ao menos se despedir. Fechei os olhos. Mas não conseguia. mas acordada. Autumn veio atrás. O avião de Amélia Earhart havia colidido e incendiado. virei-me e fui me distanciando dela. Não estava a fim de arruma aquilo.Olhei por cima do ombro dela e vi Marci e as outras garotas. Em seguida. — Onde está Autumn? — Ela passou mal — menti e fui para o meu quarto. Ponto final. Papai estava dormindo e a mamãe aninhada nos braços dele. Não ia facilitar as coisas para Autumn. olhou atrás de mim um pouco surpresa. — Como foi o baile? — Ela sussurrou. Já passava da meia-noite. — Meu Deus. Deixei meu celular ao lado do travesseiro. Marci Cooperstein traiu você e agora você está me largando para ir a uma festa cheia idiotas que tiraram sarro de você — disse tudo isso. ainda me preocupava com ela. Olhavam para nós. Mesmo estando brava com Autumn. caso ela me telefonasse chorando. Especialmente sabendo que ficaria ali sozinha a noite toda. Natalie! É só uma festa. indo em direção ao armário de materiais. ou atrás do que quer que fosse que Autumn estava. esperava que ninguém tirasse sarro de Autumn. — Marci pediu desculpas. Ela não ia perder essa oportunidade. Imaginava se ela estava se divertindo. Abri meu telefone e escrevi uma mensagem. mas eu não estava nem aí. Estava deitada. Uma hora mais tarde. E não estou largando você. Estaria pronta para dar meu apoio a Autumn. Era provável que estivesse falando de mim. Deus sabe que Marci não iria defendê-la. mas não podia. Era óbvio que eu estava atrasando os planos delas. imaginando Autumn na festa. Você pode fazer o que você quiser. Era bem provável que sim. E foi exatamente o que Autumn fez. então juntei tudo no chão. — Vou para casa. Abri o armário e enfiei a vassoura lá dentro com tudo. Aposto que Marci estava fazendo questão de ajudá-la na diversão. A mamãe e o papai estavam na sala. Joguei o avião de papelão na lixeira que ficava em frente à minha casa. como uma criança a sendo arrastada por uma loja de departamentos. Tentei dormir. como sempre estava. sem mim. Achei o número do telefone de Connor amassado no bolso da minha calça. 97 . pensando em Autumn naquela festa. Quero que você venha junto — Autumn abaixou a cabeça e disse. dizendo a Autumn que ela fez a coisa certa me deixando sozinha. apaguei a luz e me joguei na cama. Então. meio impacientes. mas não estava nem aí. — Não entendo — disse assim que estávamos sozinhas —. mesmo sabendo que uma parte de mim queria ir. Havia pedaços de papelão e materiais de arte por todo o meu quarto. Eu lhe perdoei. parei o carro na garagem.

Talvez ele tivesse aberto o telefone para mostrar para todo mundo. estava saindo escondida do meu quarto. Um troféu da minha humilhação completa. Venha aqui. Meu telefone vibrou. 98 . ou. E quando dei por mim. sentindo-me tonta e patética. quem sabe estivesse na festa.Oi Então esperei pelo que parecia uma hora.

poderia dizer que tinha decidido não ir. A casa de Connor ficava no pé de uma montanha — era enorme. Um constrangimento profundo começou a percorrer meu rosto como fogo. ele estava ali. VISITE-NOS NA PRIMAVERA. Havia abóboras enormes com cabos cheios de folhas em cada degrau. Se Connor visse minha mensagem só no dia seguinte. Ele ia ficar sabendo que estive lá e voltei para casa. já que era óbvio que estava bebendo desde antes da festa. Respirei bem fundo. Os faróis piscavam para as várias placas de boas-vindas pintadas à mão. mas fechei logo em seguida. Eu estava ali. Caminhava lentamente. parecia ter saído de uma pintura. Ignorei a entrada do estacionamento de visitantes. Desliguei o motor e os faróis. Isso arruinaria o restante do meu último ano na escola. eu ia morrer. EXPERIMENTE O CREME DE ABÓBORA! Elas davam a impressão de mau agouro no meio da noite. continuei dirigindo até chegar à entrada da casa dele. moletom com capuz azul-marinho e um gorro de lã cinza. Ou talvez tivesse desmaiado. O tipo de história da qual as pessoas gostam de rir para sempre. Foi aí que o vi sair de dentro da casa. com exceção de uma suave luz na cozinha fazendo sombra para um fogão com uma chaleira vermelha brilhante. e todas as probabilidades apontavam para o fato de que íamos ficar juntos.Capítulo 20 D irigi pela longa estrada particular que levava à Fazenda Hughes de Árvores de Natal. As janelas eram escuras. presas a postes de madeira a cada 50 metros ao lado da tubulação de esgoto. Tudo bem. pensei em um plano — se não mandasse nenhuma mensagem para ele. Então. Ele tinha trocado seu uniforme de presidiário por calça jeans. confiante. em estilo vitoriano. A porta da frente tinha uma daquelas telas que sempre fazem barulho quando batem. Estava mesmo acontecendo. Tirou a mão do bolso e acenou para mim. Que eu tinha dado o cano nele. com persianas de madeira brancas em todas as janelas e uma cobertura na varanda. mesmo eu tendo vindo logo em seguida. PASSEIOS DE CARROÇA. pois percebi que talvez Connor tivesse caído no sono. tão quente que abri um pouco a janela. pois não ia andar naquela escuridão sozinha de jeito nenhum. Em vez disso. O cenário não parecia real. junto com pacotes de feno arrumados de forma perfeita. Abri meu telefone para mandar uma mensagem para Connor. pois não estava acordado. Por mais 99 .

comecei a pensar nas coisas que ela tinha dito na noite das garotas. Ele não era grande coisa. rezando para que Connor se apaixonasse por mim. uma à direita e uma na montanha. Então. Talvez ela soubesse mesmo do que estava falando.. Queria companhia. Qual é? — Tá bom.uma à esquerda. Ele se virou. como se não fosse grande coisa. saí do carro e recostei-me na porta como quem não quer nada. seguro de si: — Eles não vão acordar. e eu fiquei ali sozinha. animado e disse: — Olha só. Estávamos em um impasse e a questão era a seguinte: eu não queria ir para casa. qual era o problema de estar ali? Não era uma romântica inveterada. espere aqui. Atrás de mim. tive uma ideia. — Você veio. Mas permiti a mim mesma afastar essa sensação. Vi enfeites 100 . mas pareceu mais que estava perguntando. — Pensei que você estivesse na festa do Bobby. — Eca. Ele olhou para o banco de trás do meu carro e propôs: — Podíamos ficar no seu carro. Assim que pensei em Spencer. Não conseguia parar de pensar em todas as outras garotas que ele já devia ter levado lá. Talvez para as outras garotas da escola. — Então. não queria nada nem perto disso. Havia três miniflorestas nos arredores da casa de Connor . Balancei a cabeça e respondi: — De jeito nenhum. Então. Havia pinheiros enfileirados milimetricamente. parecendo cansado subitamente. você quer entrar? Revirei os olhos e disse: — Não vou entrar na sua casa. para garotas como Spencer. — Vim — disse olhando para a escuridão. — Tudo bem — respondi. tá bom — disse. Na verdade.. Porque não era mesmo. E se seus pais acordarem? Ele afastou as pernas mudando o peso do corpo. como plantação de milho. Esperei que ele viesse até mim. Eu sabia que queria Connor naquele momento. Mas saí quando você me mandou a mensagem — ele sorriu e senti todo o meu corpo tencionar. Ele correu de volta para casa. contanto que não estivesse procurando nada além de uma distração. Algo ao longe chamou a atenção dele. Queria esquecer Autumn. — Oi — ele sussurrou. A solução estava em deter o poder. mas não para mim. falando. o momento ainda me parecia completamente surreal. pois queria parecer relaxada. — Eu fui lá.verdadeiro que fosse. havia uma lojinha construída de forma a parecer um depósito. Usá-lo para conseguir o que eu queria. Provavelmente porque não fazia a mínima ideia do que ele tinha na cabeça.

mas algumas tinham a minha altura. Derrubei alguns nos chão. Mas me senti exposta. Entrei atrás dele. macias. — Está ficando tarde — disse impaciente. pagava-se pela experiência. iluminando os primeiros pinheiros de natal ao nosso redor. Havia um cobertor em seus ombros e uma lanterna nas mãos. Connor abriu o cadeado. ao girar a chave. Sterling — disse. Aqui. Estendi a mão e toquei nas folhas. Esperei atrás dele. Dava para ouvir a minha respiração.de natal pendurados lá dentro. Duras. Assustadoramente silencioso. Minha família nunca havia comprado uma árvore de natal ali. — Venha. Não conversamos. a luz da lanterna vagava pelas paredes do depósito. Estava bem frio ali. bem propensos a causar um acidente. O depósito tinha cheiro de pinho. E era muito silencioso. Só em dezembro — ele explicou. Um ruído interrompeu o silêncio. pois já era madrugada e estava cada vez mais difícil controlar o impulso de não me virar e sair correndo para pegar o carro. 101 . Parecia uma casa de boneca. ninguém ia nos encontrar ali. geleias caseiras e mantimentos. Garanti a Connor que estava bem e lembrei a mim mesma que estava no meio da mata e que ninguém tinha ouvido aquele barulho. As dobradiças de metal rangeram como se fossem cordas de violino fora do tom. Ao lado da loja havia uma horta de tamanho considerável. Muitas das árvores eram enormes. provavelmente porque fiquei o tempo todo um pouco atrás dele. — Você está bem? — Ao meu lado havia uma prateleira cheia de serrotes velhos de metal. Ele xingou baixinho. acho. mas ela não abriu. Segui no meio da escuridão e bati o joelho em alguma coisa. Não conseguia parar de olhar ao redor. — Vamos dar um passeio. mas ela ficou presa dentro da fechadura. empilhados um em cima do outro. oleosas. Pequenos pedaços de feno tinham sido colocados ao redor de cada uma das árvores. Connor voltou. Connor destravou o cadeado e a porta se abriu. que também eram de vários tamanhos. Bem no limite da propriedade. Era tão intenso que fiquei tonta. — Não usamos muito esse depósito. e velas aromáticas em pequenos recipientes. havia estrelas tão pequenas que pareciam poeira. tentou empurrar a chave. Empurrou a porta com força. apontando para a mata à esquerda. Então. Connor apontou a lanterna na minha direção. Todas elas custavam 20 dólares. Clique. Eu o segui pela trilha estreita de pinheiros. para mantê-las aquecidas. com as mãos bem enfiadas nos bolsos da calça jeans. chegamos a um depósito com telhas de madeira e teto inclinado. um aroma doce e esverdeado. O céu estava carregado de um milhão de estrelas que jamais havia visto da minha casa. fomos a uma loja de departamento que montava um quiosque de venda de árvores no estacionamento. Depois de uma longa discussão sobre se poderíamos justificar as repercussões ecológicas de comprarmos uma árvore. pois eram caras demais.

Imediatamente comecei a tremer. Fiquei cheia de dúvida. É claro que devia saber o que aconteceria em seguida. Ele colocou as mãos em meus ombros. deixando meu cabelo cair na frente de nossos rostos. nos pressionando. nos movendo. e abriu o cobertor no pequeno espaço que tinha arrumado. me abaixei no meio da sombra para pegar o que tinha derrubado. Dava para perceber tudo que estava se passando na mente dele. E aí ele me beijou. achando que Connor fosse tentar levar as coisas para além do que eu queria. Ele me perguntou sete vezes se eu queria água e eu acabei aceitando. inclinei-me e o beijei rapidamente. falei para ele deixar para lá. um carrinho de mão. Estava nervosa. Natalie! Volte para o carro!‖ Então Connor tirou meu cabelo da frente do rosto e os colocou atrás da orelha. e foi aí que nos deitamos. Sabia que Connor estava percebendo que eu estava nervosa. enrolando-o em nós. e ele abaixou a mão. na verdade. empilhando novamente alguns sacos de semente e rolos de tecido. Estava com ódio da respiração forte dele. pois parecia o tipo de informação que se deve saber sobre alguém com quem você está se agarrando. Minha mente se fechou completamente e parecíamos peças de um motor: circular. mas. Meus pensamentos gritavam em minha mente. preciso e perfeito. com a luz da lanterna bem em cima de mim. nos virando. mas ele não fez isso. Connor prendeu a lanterna em um prego acima da porta. e eu liguei e fui lá. Dessa vez com os lábios abertos. deixando uma ínfima luz em um ambiente repleto de coisas. Estava tão quente e estávamos um em cima do outro. Essa era a parte que menos gostava. trenós. Ele mudou algumas coisas de lugar. ―Levante. Meu corpo todo se dobrava de calor. colocando os dedos dentro da camisa dele. Só que estava hesitando. Descobri que ele tinha três irmãs 102 . Finalmente sentei-me ao seu lado e estiquei as pernas. soltando pequenas nuvens de fumaça no ar. Ele tinha me dado seu número de telefone. mas antes que me desse conta. Ele ficou bem perto do meu rosto. trazendo-me mais perto. quando percebi que ele tinha de ir até a casa dele para pegar. Está vamos cozinhando lá dentro. Vi mais equipamentos — várias luzes de natal. Os movimentos dele eram mais suaves e mais lentos que os meus. Connor parou de me beijar e segurou as pontas do cobertor. Ele não sabia o que fazer ou dizer. Ele tirou meu cabelo da frente antes que tivesse chance de abrir a boca. Só parávamos de nos beijar para recuperar o fôlego. Ele estava quente — ardente. como se estivesse sussurrando em minha boca. seus olhos eram escuros. Então. Em algum momento perguntei para Connor se ele tinha irmãos.vulnerável. mas brilhantes como dois lagos em um dia de inverno. Ele se sentou. fazendo perna de índio. Envolvi minhas mãos em seu pescoço. Fechei os olhos e tentei acompanhar o ritmo do momento. Pressionei meus lábios contra os dele. e estendeu a mão para mim. Connor e eu éramos forçados a conversar para preencher as lacunas de estranhamento.

esqueci imediatamente os nomes delas. E então ele me segurou e me puxou para perto dele. — Não quero ser sua namorada ou algo do tipo — me arrependi do que disse na mesma hora. Mal podia acreditar como um simples gesto como aquele podia me fazer sentir. Consegui esquecer todos os meus problemas por um tempo. Apesar de nada disso ter acontecido. Depois de um tempo. juntos. não o começo de alguma coisa novamente. — Aqui está — ele foi até um canto escuro e pegou o meu casaco. Estar ali era como passar a noite presa em um sonho. Quando o peguei. perguntando-me se ela teria ido para casa depois da festa. com o símbolo do futebol da Academia Ross bordado no centro. os beijos diminuíram. Ele tinha a expressão de quem estava tentando entender se eu estava brincando ou não. Estava meio empoeirado e eu o sacudi. Só que estava começando a acordar. E aí fui sozinha até o meu carro. dizendo: — Você é engraçada. Não pensei na minha briga com Autumn desde que tinha entrado no carro para ir até lá. 103 . Connor era o caçula. Era lá que aquilo pertencia. tudo parecia tão perfeito. como se minhas veias subitamente bombeassem eletricidade em vez de sangue. Deixei o passado dentro daquele depósito. Ele parecia orgulhoso disso. como se não tivesse entendido. não porque não quisesse ter dito aquilo. Sterling. Uma parte bem pequena de mim queria que um milagre acontecesse. certo? — ele fez uma careta. Mas estava pensando nela agora. Não ia fazer parte do restante da minha vida. mas tinha certeza de que todos começavam com a letra C. — Depois inclinou-se para me beijar e eu correspondi. mas porque pareceu muito presunçoso. quando ele me tocava. mas em vez disso acabei dizendo — Ninguém pode saber que estive aqui. minha cabeça aninhada em seu peito. e só ficamos ali. — Acho melhor ir embora — disse e comecei a olhar ao redor à procura do meu casaco. para trancar tudo. mas foi o último beijo. o que achei estranho.mais velhas. Porque. deixando Connor para trás. no qual Connor se afastasse dos meus lábios para dizer algo profundo ou poético e belo. ou se teria dormido na casa de Marci. quis dizer obrigada. Levantei a cabeça e olhei para a jaqueta de Connor. permiti a mim mesma saborear a forma como deslizava as mãos pelo meu cabelo.

Nunca havíamos nem brigado antes disso. mas sempre parava no meio do caminho. não desse jeito. Não queria falar sobre a minha briga com Autumn. e ele também não teve notícias minhas. mas esperava o telefonema de Autumn. Os lençóis eram extraordinariamente confortáveis e macios comparados ao cobertor de Connor. comecei a perder o apetite. Até peguei o telefone algumas vezes para ligar para ela. Fiz das minhas lembranças dos momentos com Connor o meu néctar do dia. Não tive notícias dele durante todo o fim de semana. senti-me como se tivesse mergulhado em uma floreira. A sensação me acompanhou durante todo o dia. Pareceu-me uma punição adequada. Deveríamos nos acostumar em passar um tempo separadas. e ia tomando pequenos goles.Capítulo 21 Q uando acordei. Meu corpo doía por ter rolado para lá e para cá no chão de madeira implacável do depósito. Afinal de contas. Na verdade. por volta do meio-dia. Tinha de fazer lição de casa e me preparar para o SAT. afastando meus pensamentos da briga com Autumn. Na verdade. Imaginei que fosse apenas questão de nós duas precisarmos de um tempo para acalmar os ânimos. Também não me senti mal por assistir a ele sem a Autumn. Ela teria gostado. Então. colocar minha vida em ordem. Ao perceber que ela não ligou no domingo à noite. E o filme era bom. apenas o suficiente para saciar a minha sede. esperando um telefonema dele. Precisava tomar muito cuidado para não acabar com tudo antes de conseguir mais. mas convidei minha mãe para assistir comigo a Cantando na chuva em meu quarto. O 104 . fiquei. limpar meu quarto e meu banheiro. traziam comida e bebida e o primeiro caderno do jornal de domingo. éramos melhores amigas. Mas minha mãe e meu pai estavam desconfiados. era uma preparação para o que ia acontecer na faculdade. Sabia que íamos resolver as coisas. também. o próximo filme da lista da AFI. Romântico e água com açúcar. Mesmo com o rosto enterrado no travesseiro. era possível sentir o perfume extremamente doce. Eles subiam o tempo todo para dar uma olhada em mim. Mas a dor era boa e secreta. era só uma pausa entre nós. não estava com medo. Não fiquei com o celular nas mãos o tempo todo.

pensando em como seria na escola no dia seguinte. Ela finalmente chegou quase um minuto antes do último sinal tocar. Estava com um colete vermelho de nylon e seu gorro predileto de lã. feito pela sua avó assim que ela iniciou o ensino médio. um lembrete ameaçador de que o inverno não tardava a chegar. Sentei-me rapidamente em meu lugar. Não fazia ideia do que fazer assim que parei o carro no farol vermelho no fim do quarteirão. A ida à escola acabou sendo bem mais curta por não ter que cruzar a cidade para apanhar Autumn. olhando para a rua vazia à esquerda até que outro carro parou atrás de mim. Viraria à direita para pegar Autumn. E nem estava tão frio para um gorro daqueles. Devia ter ido buscá-la. Tinha que mostrar algum autocontrole. um de cor marfim com cobertura para as orelhas. algo que um pastor sueco usaria para entoar suas canções. mesmo sem falar com ela desde o dia do baile? Ou Viraria à esquerda. Mas por dentro. Como seriam as coisas quando visse Autumn? Como deveria agir quando visse Connor? Não tinha precedente algum para nenhuma das duas situações. Dez minutos em vez de vinte e cinco. Por causa do frio e do nervosismo. O vento frio penetrava de forma cortante em minhas meias de lã. pois temia que as respostas fossem sim. mas desisti da ideia. mas não lhe perdoaria. ao lado das cortinas cor de ameixa de sua mãe. em disparada pelo corredor até seu armário. Não mesmo. eu a ouviria. números e valores e X e y giravam em minha cabeça. e sempre que possível dava uma olhada para o armário de Autumn no corredor.que eu ia dizer? Divertiu-se na festa sem mim? Ficou feliz por me deixar sozinha? Não queria fazer essas perguntas. Mal consegui dormir no domingo à noite. rolei na cama durante horas. Pelo menos. Decidi que se Autumn tentasse falar comigo. Quando saí do carro. depois de tudo que havia acontecido na sexta e do silêncio que se instalou logo em seguida? Será que ela esperava que eu fingisse que estava tudo bem? Não podia fazer isso. Não queria parecer desesperada. abri meu caderno e fingi estar estudando equações de cálculo que já havia memorizado no fim de semana. Autumn precisava saber que havia me magoado. Até pensei em mandar uma mensagem para Connor para ver se ele estava acordado. Fiquei o tempo todo na porta. tremia. Sempre achei aquele gorro meio tolo. Segunda-feira foi o primeiro dia de extremo frio da estação. não logo de cara. Mas será que Autumn realmente esperava por isso. — Oi! 105 . Ficava imaginando-a no centro da enorme janela da sala de estar. indo direto para a escola? Fiquei ali alguns segundos. olhando o tempo todo para a direita para conseguir me ver parada no farol.

Olhei para cima assim que Autumn passou por mim e foi se sentar com outras garotas no fundo da classe. Uma dor terrível penetrou meu estômago quando percebi que Marci não era uma delas e eu já estava ficando sem pessoas a quem culpar. 106 .

Depois. Não que as outras garotas estivessem olhando. e. Um segundo a mais e o bojo do sutiã ficaria úmido até depois do almoço. Disse a mim mesma que ela não estaria lá. que comportava o esforço extra. Primeiro. como se estivesse usando um modelo tomara que caia. assim que o abotoava. Sabia que não ia cair. 107 . Ele acelerou o passo até ficar ao meu lado. E ela não estava. O sinal tocou. Depois disso. Continuei andando. sem que ninguém tivesse visto nada.Capítulo 22 N o primeiro ano do ensino médio descobri um jeito de tirar o maiô de natação sem ter que jamais ficar completamente nua. caminhei lentamente até as escadas do corredor dos calouros. Essa era a parte mais difícil — mover-me rapidamente para evitar que a água da piscina molhasse o algodão. então colocava a saia. tirava as alças do maiô para fora. Mas me especializei nisso. conseguia fazer mais rápido do que qualquer garota do vestiário. Havia espaço livre suficiente para evitar que parecêssemos estar juntos. colocava a camisa de botão e os fechava. mas uma habilidade que atendia às minhas necessidades. o que era tão desconfortável quanto parece. Não era exatamente o tipo de talento que se observa nas inscrições da faculdade. Dava para ver que tinha percebido minha presença pela forma como ergueu o canto da boca. Ele estava recostado no enorme corrimão de madeira. Então. Usava um maiô azul-marinho da Speedo. discretamente trocava o maiô pela calcinha e pela bermuda de lycra. A dança complicada não era graciosa e certamente faria com que Spencer caísse na risada. onde Autumn normalmente esperava por mim. como veterana. abaixava o maiô até o umbigo. Connor se afastou de seus amigos. Mas não comigo. conversando com dois rapazes. colocava o sutiã por cima do maiô. e agora. e ignorei os cabelos louros e trancados de Autumn saltitantes descendo as escadas em direção à próxima aula. Mas Connor estava. Também ergui o meu. mas mantinha os cotovelos presos do lado.

há um boato maluco espalhando por toda a escola sobre algo chocante que aconteceu neste fim de semana. Disse que devia parar de enrolá-lo. Spencer ficou de braços dados comigo. Ele ligou para ela. estava desconfiado e maroto. Vou andando com você até a sala de aula. — Sua avó não morreu? — perguntei. Eles tinham que sair juntos. Mas antes que eu pudesse responder. Tinha certeza de que ela ficaria orgulhosa pela maneira como estava tratando Connor. Mike conseguiu o telefone de Spencer. mas que esse encontro seria um jantar na casa da avó. Empurrei Spencer para um canto e perguntei: — O quê? O que aconteceu? — Venha. — O tom de sua voz. dizendo: — Então. Mike chegou cedo. — Espere aí. Estava todo arrumado. Então sorri para ela. pipoca. Faltando cinco minutos para as 20 horas. E pelo caminho vou te contar a história milagrosa da garota que humilhou Mike Domski. normalmente agudo. Pediu a Mike para entrar no cinema e ir guardando lugar. Spencer ligou e disse que estava presa no trânsito. por detrás dos ombros de Spencer.— Você está quebrando as regras — sussurrei. Ela não queria perder nada da história e dessa forma ele poderia contar tudo para ela. achando que Connor tinha deixado algo escapar. — Natalie! Passei o fim de semana todinho louca para falar com você. Ela disse a Mike que se encontrariam no cinema às 20 horas. Ficou esperando lá fora. Por um segundo fiquei preocupada. — Quando posso ver você de novo? — ele sussurrou para mim. — Se você não sair de perto de mim. pretzel com recheio de queijo. que todo mundo já estava sabendo. — Oi — disse e vi. pensando no meu segredo. Mike comprou os dois ingressos e deixou o de Spencer na bilheteria. Spencer disse sim. A história se espalhou rapidamente: no domingo. nunca. fazendo um convite para ir ao cinema. então comprou vários tipos — chocolate. Estou até começando a sentir pena dele — disse. Spencer apareceu na minha frente. Connor desaparecer pelo corredor. Ele não sabia quais petiscos Spencer gostaria. Spencer piscou. E a sensação boa que senti há um minuto evaporou. A forma como ela havia se esfregado nele no baile de Haloween e o flerte na festa de Bobby Doyle foram suficientes para deixá-lo maluco. 108 .

. O sinal tocou e fui correndo para a aula de filosofia oriental. — Como você sabia que ele ia fazer isso? — Porque nas últimas três semanas tenho feito com que ele pense que o nosso flerte ia acabar em algum tipo de relação nefasta. Agachei-me e fui atrás do gerente para que ele soubesse que havia um cara de calças arreadas no cinema 12. segurando a alça que prendia os livros com os punhos fechados. E acho que com certeza dei uma lição nele. decidiu apenas expulsar o cara. eu e umas garotas estávamos escondidas na última fila. o que parecia algo estranho de se dizer. disse. — Não acredito! — Acho que o gerente queria chamar a polícia. — Eca! Ele não fez isso! Spencer mal conseguia controlar o riso. Tenho que ir. Spencer mandou uma mensagem de texto para ele dez minutos depois. Vejo você mais tarde. Continue. — Tudo bem. — Estou orgulhosa de você — disse a ela. esse é o cara que destruiu o seu cartaz. Mike Domski vinha no corredor na outra direção. épico. e dava para ver o cara todo agitado na poltrona.. Foi. mas estava chegando.. Isso lhe faria muito bem. mas quando viu as garotas rindo. 109 . parecia mais bravo do que nunca. Ele merecia ser humilhado. a raiva voltou. ficando pronto para mim. — Tudo bem. dentes cerrados. — Então. — Disse a ele para ir tirando a calça.. que. Natalie.— Lembre-se. que invadiu a noite das garotas. Não senti pena dele. E então acrescentou mais uma coisa. Cara fechada. O trânsito não anda. mas era isso que sentia. Ele respondeu dizendo que eu era uma garotinha safada.

alcançou a porta e brincou com o cadeado. Assim que saí do carro. Connor aceitou o desafio. Connor rolou no chão. apesar de não estar. Fiquei surpresa e ao mesmo tempo não me surpreendi. então me virei e corri para a mata. O caminho todo até o depósito foi um flerte só. Senti-me embriagada. conseguindo ficar longe do alcance dele correndo em círculos e me escondendo atrás dos pinheiros. Ele chegou mais perto para me beijar e. ele pegou minha mão. olhando para ele ao mesmo tempo em que saí de cima para deitar-me ao seu lado no chão.Capítulo 23 C onnor me mandou uma mensagem depois da meia-noite na sexta-feira. suas mãos agarraram minhas roupas. soltando fumaça pela boca por causa do frio. tive a chance de me soltar novamente. envolveu os braços ao meu redor e nós dois estávamos ofegantes. Eu comecei a recuar o passo. E ao mesmo tempo em que corria dele. Não consegui chegar lá rápido o suficiente. Ele estava esperando na entrada de carros quando estacionei. Deixei que tirasse o meu casaco e continuei. senti suas mãos no meu casaco. Ele ligou uma pequena lanterna e em seguida nos jogamos no cobertor de lã. fazendo-me ficar em cima dele. Nós dois estávamos rindo e nem mesmo paramos para pensar que alguém pudesse nos ouvir. quando fechou os olhos. Ele veio por trás de mim. Levantei e perguntei: — O que você está fazendo? — Ãh? — as bochechas de Connor estavam vermelhas e ele estava sem ar. Connor me pegou em seus braços. Estavam tão frias que fiquei chocada. — Nada. Suas mãos escorregaram para dentro da minha blusa. Por quê? — Que bom — disse cautelosamente. desafiando-o de forma silenciosa a vir me pegar. aproximava-me cada vez mais do depósito. 110 . Ele logo chegou em mim.

mesmo com essa sensação concreta. Ele balançou a cabeça.Ele deitou de lado. todo mundo sabia que Connor tinha bebido todas e transado com Bridget Roma no carro da irmã dela na véspera do Ano Novo. No pescoço. Não quero — disse com firmeza. E em segundo. de um jeito suave e doce. — Ouça. Estava em algum lugar entre flutuar e cair. mas como Connor continuava rindo. tentando abri-lo. Rir mesmo. dizendo: — Você não é de que tipo? Sentei-me e cruzei as pernas. Sei que venho aqui escondida no meio da noite nesse depósito imundo para ficar com você. perdi o senso de gravidade. Parecia estranho saber como os cabelos dele eram espessos. bem atrás da orelha. não consegui evitar. Não estou tentando forçá-la a fazer nada que não queira. Dei de ombros. Seus dedos penetraram as alças do meu sutiã e foram até o fecho. Com certeza. mas não sou como as outras garotas da escola. Em primeiro lugar. As coisas vão acontecer no meu ritmo. — De que outras garotas você está falando? — Não banque o inocente comigo — ia reprimir meu próximo comentário. mas não de vergonha. Então. Connor franziu a testa. Você não quer? — Não. como se eu tivesse passado dos limites e disse: — Não sei o que isso tem a ver com a gente. os garotos viviam se gabando desse tipo de coisa. Connor. E verdade. Olhos bem abertos e rindo como um tolo. Fechei os olhos e deslizei as mãos pelos cabelos ondulados dele. tirando meu cabelo da frente do rosto. 111 . Entendeu? Esperava evitar esse tipo de conversa. — Que foi? Sinto muito. — Sei que você perdeu a virgindade no oitavo ano. Achei que você fosse capaz de entender como me sinto e assim poderíamos nos divertir juntos sem que o clima ficasse pesado. Connor começou a rir. Ele olhava para mim. mostrando que não me importava e disse: — Muitas pessoas. Mas. começou a me beijar novamente. seus lábios mal tocavam minha pele. sentindo-me ao mesmo tempo assustada e maravilhada. — Quem te falou isso? — ele parecia irritado. não é? Connor ficou vermelho. Era irritante. Connor me colocou em cima dele e suas mãos deslizaram pelas minhas costas novamente. Não vou me deitar aqui e deixar você fazer o que quiser comigo. — Não sou desse tipo. ou não vão acontecer. Saí de cima dele e disse: — Sério. o que me deixou confusa.

nem tanto. Talvez em uma pousada ou em um quarto legal de hotel. pensei. A maldita entrou bem no meio do algodão. Sabia que ia acabar acontecendo um dia. Meu ego. Sentei-me rapidamente e estava pronta para dizer algo perspicaz e afiado quando. senti o lado esquerdo do meu bumbum queimar forte o suficiente para me fazer perder o fôlego. meu bumbum ficou melhor. Está bem fundo — ele procurou um canivete suíço no bolso. — Vem cá. — Respire fundo. Respirei — e logo acabou.— Que bom — me arrependi de ter tocado no assunto. mas que escolha eu tinha? — Você vai ter que tirar a calça. Quase engasguei. Só que ele se afastou. — De que outro jeito vou ver o que aconteceu? — ele levantou e pegou a lanterna que estava pendurada em nossas cabeças. Senti o calor. Talvez colocar um remédio ou algo assim. — Sabe de uma coisa? — falou —. — Tudo bem — não tinha imaginado minha noite terminando exatamente assim. Connor aproximou a lanterna. — Ai. Jamais tinha tirado a roupa na frente de um garoto antes. Deixe-me ver — disse Connor. deitei-me novamente e tentei trazê-lo para perto de mim. a pinça. — É melhor você ir para casa para cuidar disso. — Nossa — falou. Relaxe. Meu coração acelerou até perceber que não pegou a lâmina. dói pra caramba. Mas definitivamente nunca em um lugar como esse. Connor! Olhe para esse lugar! — Acho que era o meu castigo. — Ele pegou o elástico da calcinha e abaixou só um pouquinho. 112 . Assim que ele removeu a farpa. Não em um dormitório. para que não pegue uma infecção. e. — De jeito nenhum. Abri o zíper e abaixei as calças. subitamente. Agh. mas precisava ter certeza de que Connor me respeitava. Seu tom era sério o bastante para me assustar. Connor percebeu. são nojentos. — Tudo bem. — O que aconteceu? Apertei meus olhos de dor. Lá se vão os limites. — Você está sangrando. não sei se consigo voltar ao clima tão rápido assim. — É tão difícil de acreditar? Olhe onde estamos. Vou ter que levantar a sua calcinha só um pouco para ver melhor. Connor trouxe a pinça até meu rosto para me mostrar como o pedaço de madeira era grande. Era completamente humilhante. Agora que tudo parecia resolvido. Já vi. sim. Fiquei de joelhos e levantei o bumbum. — Acho que foi uma farpa! — Você está brincando? — Connor tentou abafar o riso.

Andei um pouco na frente para esconder o fato de que ainda estava corando. Não demos as mãos. 113 .Connor foi comigo até o carro. Mas deixei que ele me desse um beijo de boa noite.

sérias. parecia aqueles antigos protetores de pescoço. eu merecia. a Presidente Chupão. 114 . Afinal de contas. Só quando acabei de me enxugar e comecei a escovar os dentes que o vapor do espelho secou o suficiente para que visse o que magicamente tinha aparecido da noite para o dia. Isso. Realizadas. Primeiro achei que fosse uma espinha. E quando finalmente consegui sair da cama. Mas estava totalmente plano. Seria para sempre lembrada como a piranha. Seria imortalizada na parede da biblioteca. Era um castigo que. Corri para o quarto antes que minha mãe e meu pai pudessem ver. Bem onde Connor tinha me beijado na noite anterior. Tentei deixar dois botões abertos. mal tive tempo de tomar uma ducha. pouco mais de um centímetro do meu colarinho. Mas a chupada brilhava como um farol de luz vermelha no meio do pálido mar da minha pele. Era o dia da foto do anuário. esperando sentir o calombo ou algo que pudesse espremer para que desaparecesse até a hora das fotos. Uma chupada. Havia passado as últimas três noites com Connor. a minha foto não iria ficar somente no anuário. O colarinho apertava. Mas a única forma de esconder completamente a chupada era deixando todos os botões fechados. E então eu. e a privação de sono estava definitivamente mexendo comigo. além do fato de que já fazia dez dias que Autumn não falava mais comigo. As pessoas no futuro iriam supor que eu tivesse dormido com vários para conseguir ser presidente do conselho estudantil. Estava bem no meio do meu pescoço. Aquela marca havia chupado toda a dignidade das minhas realizações. e bati a porta. Pensei no meu retrato de veterana pendurado na parede da biblioteca. Depois um. assim como a jovem Srta. número nove. Uma enorme chupada no meu pescoço no dia da foto do anuário. talvez do tamanho de uma moeda e havia vários pontinhos roxos. Só que não parava de apertar o botão soneca.Capítulo 24 A cordei tarde na segunda-feira de manhã. e eu deveria ter levantado da cama assim que o despertador tocasse. Todas aquelas garotas de olhar poderoso. Bee. Passei os dedos de leve. Coloquei uma camisa de botão e a abotoei da forma que todas as garotas da escola faziam — deixando os três botões abaixo do colarinho abertos. mostrando os capilares estourados. de alguma forma. esforçando-me para ficar pronta.

mas duvidava totalmente disso. que fez o mesmo. dois. isca de peixe! A forma como me senti foi puro reflexo. A luz pulsava o tempo todo. mostrando os ácaros que voavam pelo ar pelos feixes projetados na cortina de veludo azul. Não teria prestado atenção em nada que ele tivesse dito se ele não tivesse falado: — Oi. — Tive que fazer isso. Não quero a sua marca em lugar nenhum do meu corpo.. Amaldiçoei a mim mesma por não ter levantado cedo para me arrumar direito. Mas ou ela fingiu que não me viu ou não viu mesmo. e parecia estar dizendo a verdade. Agora. E meu cabelo ainda estava molhado por causa do banho.. Você me deu uma chupada ontem à noite. remexendo na bolsinha de maquiagem umas das outras. Éramos chamados por série. Marci Cooperstein estava atrás de Autumn. Só que Marci nem precisava defender Autumn. traçando o perímetro do ginásio. Um pouco abotoada demais. Autumn não tinha apenas perdoado Marci. quando um cão faz xixi na árvore para marcar o território com o seu cheiro. Marci passou um brilho rosa em seus lábios e o deu para Autumn. mas agora respondia quando chamada de isca de peixe? Olhei para ela. Fui parar a dois passos de Mike Domski. a cabeça inclinada para o lado desfazendo a trança. Seu cabelo tinha o ondulado perfeito. Luzes fortes estavam em cima dos altos tripés. Três. dois. pop! Autumn estava do outro lado do ginásio. Um careca com cara de artista. porque ela se virou. fingindo ler os avisos do quadro e disse: — Você está bonita. sorriu e disse: — Oi. Recostei-me nos colchonetes de ginástica. Não pertenço a você. Mike Domski passou por nós e tanto Connor como eu ficamos em silêncio. um. Uma das assistentes do fotógrafo bateu palmas e nos reuniu nas arquibancadas. Não estava usando maquiagem. Domski. Era tudo que precisava para completar meu dia: que alguém nos visse conversando e então percebesse a minha chupada e somasse dois mais dois.O ginásio virou um estúdio fotográfico. aproximei-me de Connor novamente. um. — Sinto muito. Mas estava tão brava que saí de perto. pop! O fotógrafo gritava: ―Próximo!". Marci se importava demais com o que caras como Mike Domski pensavam dela. Juro que não fiz de propósito — respondeu. junto com outras garotas. só o gloss de sempre. Três. Alguns alunos do ensino fundamental caminhavam pela beira da quadra. ficava com o rosto pressionado na câmera. São como. — Vamos precisar que todos vocês usem a roupa designada aos veteranos — ela pegou várias tiras de tecido de dentro do avental e falou: — Gravatas e paletós são obrigatórios para os rapazes. Mas assim que Mike estava fora de alcance. — Chupadas são absolutamente nojentas. meu retrato de veterana ficou arruinado. então se você não está com os dois por aí. Fiquei imaginando se Marci iria defender Autumn como eu costumava fazer. e a fila dava um passo à frente. Sem falar no fato de que estava marcada. Não acreditei. Connor saiu do vestiário masculino. vestindo calça de lã. venha falar comigo — e foi para trás das cortinas 115 .

As lágrimas começaram a escorrer. Bati os dedos no pote. Minhas mãos tremiam. tornando impossível respirar. Ouvi a porta abrir. Outras garotas do meu lado já foram colocando e desabotoando as camisas. Tinha me esquecido completamente de que era aquilo que as meninas usavam no retrato de veterano. Pui até a assistente. usam os próprios uniformes. estava muito chateada. os garotos. — Eca! Dissequei um sapo na última aula e apesar de ter me lavado centenas de vezes ainda sinto o cheiro do formol. com abertura na cabeça em decote V. distraída. peguei minha beca e corri para o banheiro. Natalie! — disse. Enquanto todo mundo entrou na fila. Ela se aproximou com um pedaço de papel molhado e a bolsa de maquiagem debaixo do braço. Os ombros ficavam totalmente descobertos. — Oi. 116 . Infelizmente. Tem. Tinha roubado um pouco de base da minha mãe antes de sair de casa. — Mas este é o uniforme que uso há quatro anos. — Ela se virou para mim e percebi seus olhos se estreitando em meu pescoço. E subitamente a realidade da situação apertava em meu peito. tire isso do rosto. enchendo-os do líquido espesso e aveludado. essencialmente. — Com licença.pegando uma caixa grande de papelão arrastando-a até nós. Queria saber se posso tirar o retrato usando meu uniforme. temo que isso não seja possível. — Uau! Quem fez isso em você? — É uma picada de inseto — disse. — Então. tentei maquiar as marcas de forma mais leve nos cantos e mais intensa no meio. Ela sabia exatamente o que era aquilo no meu pescoço. procurando algo na bolsa —. acabava chamando ainda mais atenção. Olhei para o papel molhado que fazia uma poça no chão e disse: — Estou bem. Fui até a caixa e peguei uma das becas. Obrigada. — Tenho becas pretas para as. Não tinha tempo para explicar nada. Por favor. secamente. — Você é veterana? — Sim. indo para a pia. Uma picada de inseto. mas a assistente do fotógrafo riu de mim. — Certo. Spencer entrou. Em vez de esconder a chupada. Em novembro — disse. valor sentimental! Além do mais.. a pele da minha mãe era alguns tons mais escura que a minha. Tentei parecer séria. Então. Ela me lançou um olhar estranho. isso acontece o tempo todo. — Vamos. meninas. Dava para perceber o tom de sarcasmo de Spencer. graças à minha avó siciliana. A marca oval arroxeada agora tinha se transformado em alaranjada. coloquem-nas e verifiquem se a alça do sutiã está aparecendo. Era como um poncho. É sexismo não poder usar o meu..

apesar de nem conseguir olhar para ela. Três minutos mais tarde havia me transformado em uma boa garota.. — O amarelo faz com que sua pele pareça menos vermelha. vi Connor olhando para mim. pop! 117 . como Spencer tinha me orientado. certificando-me de que meu queixo estava abaixado. E estava mesmo agradecida. dois.— Natalie. — Procure posar com o queixo um pouco para baixo — ela me instruiu. Vou colocar isso primeiro. ótimo. um. A Srta. observando. Passei por ela.. — O que é isso? — perguntei. Voltei para o ginásio usando a beca e segurando a camisa nas mãos. Se não. No fim de tudo. Pare de ser tão orgulhosa e me deixe ajudá-la. — Ela tirou meu cabelo dos ombros para Ver melhor e perguntou: — Quem é o sortudo? Peguei o papel-toalha com força e esfreguei meu pescoço rapidamente. — Obrigada — disse. está bem? Se você quer me ajudar. Do canto do olho. — Não se preocupe. A garota de quem eu costumava ser babá tinha livrado a minha barra. — começou a remexer a bolsa de maquiagem e continuou. Três. uh. A menos que você queira uma enorme chupada bem no meio do seu retrato de veterana. isso é uma picada de inseto. Spencer passou uma última camada de pó no meu pescoço dizendo: — Pronto. caia fora daqui. — Vou passar um pouco de pó. Você e eu temos quase o mesmo tom de pele. — Ela também me emprestou um pouco de batom e colocou minha cabeça debaixo do secador de mão ao mesmo tempo em que penteava meus cabelos molhados com as mãos. estava quase decente. tirou a tampa de um lápis amarelo brilhante. e então. mas deixou para lá e inclinou minha cabeça delicadamente. tirando meus cabelos dos ombros. a picada de inseto sumiu. Spencer parecia querer dizer alguma coisa. depois uma camada de base. Natalie. Então. — Olha só. Bee estava por lá com outra professora. Você está bem bonita.

— Foi a melhor solução que encontrei já que você se recusa a entrar na minha casa. — Isso é da sua mãe? — perguntei envergonhada. pegou algumas velas no bolso do agasalho e as colocou em cima de uma viga. eu mudasse de ideia. A camiseta saiu junto e ele jogou os dois em um carrinho de mão vazio. no depósito. fazendo com que parecesse uma catedral. O cobertor que pinicava estava dobrado ao meio no chão. Nas últimas duas vezes estava tão frio que perdi a sensibilidade nos dedos. sexta vez. Connor havia varrido o chão. Secretamente. Sétima. — as palavras dele flutuavam no ar. Então. mas em dias letivos também. Ao lado dele havia um saco de dormir macio. Olhei para baixo. A luz tremeluzia pelos cantos do depósito. Já tinha sujado um pouco. ondulando até a cintura das calças de nylon. Mas. Tentei tirar um pouco da poeira. Tentei não ficar olhando. depois tirou o agasalho. Não havia nenhuma serragem. Na oitava vez. Não sei a razão. Tinha que manter a perspectiva. já que está ficando bem frio aqui — o que era verdade. nenhuma poeira — Você não precisava ter feito tudo isso — murmurei. Connor abriu a porta e me deu a lanterna.Capítulo 25 C ontinuamos nos encontrando não só nos fins de semana. já estava me sentindo bem confortável no depósito. pois não podia perdê-la de vista. Não era nenhum chalé romântico na floresta e Connor não era meu namorado.. Nem vai perceber — Connor pendurou meu casaco num prego. apesar das circunstâncias. ficando somente de calção e meias brancas que suspendeu até o joelho.. esperando que. aberto o suficiente para deixar à mostra o interior feito de lã. O abdômen dele era trabalhado e bem definido. levantando-o do chão. É claro que havia gostado do esforço dele. mas ele queria que eu entrasse primeiro. 118 . — Ela tem um armário cheio deles. Havia um travesseiro encostado numa caixa de papelão e os cantos tinham fitas nos ilhoses. que por sinal ele também tirou. — Achei que podíamos usar uma cama mais quente. talvez. O perfume de sabonete na pele dele era intenso. — De nada — Connor sorriu. Pela quinta vez.

Talvez tivesse sentido mais vergonha. mas ainda estava usando a legging e o sutiã e dentro do saco de dormir não dava para ver nada. Definitivamente. Connor não parecia se importar. vesti para combater o frio. — Não. -— Não acho que caibo aí dentro. E. Só levou um minuto para a minha temperatura corporal elevar. sorrindo. quando chegasse a época de natal haveria pessoas trabalhando o tempo todo por ali por causa dos suprimentos e clientes andando por todo o nosso labirinto particular de pinheiros à procura da árvore de natal perfeita. — Bem. chocolates quentes e fitas de veludo. E. — Tire — disse ele. mas sentia-me triste também. não tinha a vida social de Connor. moletom. Na verdade. não tinha mais como Connor e eu nos encontrarmos ali. As mãos dele tocavam meu corpo todo. Era perto demais para ficar olhando um para o outro sem sentir dor de cabeça. Connor riu. Logo ficaria frio demais. mas acho que você vai se sentir mais quente se ficar de roupa. geralmente fico com a Autumn — procurei em minha mente outras coisas para dizer a ele. Estávamos tão apertados que nossas testas e as pontas dos narizes se tocavam. — Durmo — disse. 119 . mas só havia um vazio. Se você não tirar a roupa. mas seus olhos não viam nada. pelas canções de Natal e pela busca para o melhor presente possível para Autumn. todas as camadas de roupa que. Tirei a minha primeira camada de roupas. dois pares de meia. A regata por baixo também foi junto. camiseta e regata. A probabilidade de não trocarmos presentes este ano era mais real do que queria que fosse. — Subitamente. Um vazio patético. vai morrer de suar. apesar de estar molhada de suor. arrancando a minha roupa térmica. Sempre esperava ansiosamente pelo inverno. apesar da fazenda estar tranqüila agora. deixando as velas ainda mais trêmulas. ainda não tinha ficado completamente sem roupa na frente de Connor. — O que você faz quando não está aqui comigo? — perguntou. Ele entrou no saco de dormir e disse: — Venha. inteligentemente. Foi meio trabalhoso sentir-me confortável ao lado de Connor. Nós nos beijamos um pouco e suas mãos deslizaram suavemente pelas minhas costas. não havia quase lugar. com ou sem saco de dormir. Foi então que percebi que. Olhei para o sorriso em seu rosto. e pendurei junto com o casaco. pareceram me sufocar. Sterling. pelas luvas e luzes coloridas. de verdade. As perguntas dele me deixavam ansiosa. O vento lá fora penetrava pelas telhas de cedro.— Pode me chamar de louca. Parte de mim estava aliviada por ter essa data de validade se aproximando claramente. a calça jeans e o moletom. — Você tá brincando? Esse saco de dormir é para ser usado a 10 graus abaixo de zero. Usei quando meu pai e eu fomos pescar no gelo no inverno passado. então fechamos os olhos. roupa de baixo térmica. — Tem espaço suficiente para nós dois -— ele foi mais para lá. batendo com a mão no espaço vazio ao seu lado.

— Ela é legal. Eu a tenho visto por aí ultimamente. Por que você não vai às festas com ela? Virei para lá e para cá, tentando ficar confortável. — E claro que ela é legal. Por que não seria? — Sabia que Autumn queria ser mais sociável, mas não sabia que ela tinha voltado à cena completamente. — Não... não quis dizer nada com isso. — Para seu conhecimento, as coisas que Chad Rivington disse não eram verdadeiras — disse, tentando tirar os braços para fora. — E para responder a sua pergunta, Autumn e eu não vamos a festas porque estamos brigadas — e quase acrescentei: ―E é por isso que venho aqui ver você‖, mas não fiz isso. Não era com Connor que estava brava, era com Autumn e um pouco comigo também. — Por quê? O saco de dormir tinha virado um forno de micro-ondas. — Podemos abrir essa coisa, estou sufocando. Connor livrou os braços e abriu o zíper. Senti-me como se tivesse recuperado o fôlego depois de voltar à tona do fundo da piscina. — Desculpe. Não quis... — Tudo bem. Só me sinto melhor se não ficar pensando nisso. — Tudo bem. Vou mudar de assunto. Você vai fazer alguma coisa na sexta? Apertei os olhos. Será que ele estava brincando? — Não. O SAT é no sábado de manhã. Connor deu de ombros. — Espera aí. Você não vai fazer? — Não. — Mas, e a faculdade? — Não vou para a faculdade. — Connor deve ter percebido a surpresa no meu rosto, pois começou a balançar a cabeça como se eu tivesse entendido tudo errado. — Espere, não é bem assim. Vou fazer alguns cursos na faculdade pública daqui. Mas daqui a um ou dois anos vou assumir os negócios da família e meu pai vai se aposentar. — Legal — disse, mas meu tom não era convincente. Assumir uma empresa como a Fazenda Hughes de Árvores de Natal era impressionante, mas isso significaria ficar em Liberty River para o resto da vida. O que, para mim, parecia a pior coisa possível.

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Tentei pensar em uma maneira graciosa de mudar de assunto com Connor e comecei a beijá-lo novamente. Era como se, no fundo, nenhum de nós quisesse admitir como éramos diferentes. Então, não admitíamos. Em vez disso, nos agarrávamos um ao outro como se fôssemos duas cobras deslizando no saco de dormir. Um pouco mais tarde, Connor levantou para pegar água de uma jarra na prateleira. Quando ele voltou ao saco de dormir, sua pele estava congelada. Ele se agarrou a mim para se aquecer e disse: — Gosto de ficar com você — virou para o lado e começou a olhar para o teto, como se estivesse vendo as estrelas e não um punhado de sacos de semente presos entre as vigas. Como não falei nada, Connor me puxou para cima dele e perguntou: — Você gosta de vir aqui? — Não estaria aqui se não gostasse — respondi. Não era exatamente uma declaração de sentimentos, mas era tudo que podia dar a ele.

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Capítulo 26

A

o voltar para casa naquela noite, decidi que era hora de conversar com a Autumn. Já tinha dado a ela o tempo que queria, talvez até demais. A questão era como me aproximar dela sem que Marci estivesse por perto.

Autumn deve ter sentido a mesma coisa porque na sexta, depois da aula, encontrei-a do lado de fora da biblioteca com uma pilha de livros nas mãos, um dos joelhos encostado na parede. Sabia que ela estava esperando por mim, pois, pela primeira vez desde o baile de Halloween, ela olhou nos meus olhos. Eu havia deixado de ser invisível, o espectro da amiga que ela costumava ter. — Oi. Podemos conversar? -— questionou. Olhei o relógio.A reunião do conselho estudantil começaria em cinco minutos. Por mais que quisesse que isso acontecesse, havia muitos alunos passando por nós na biblioteca. E não queria parecer que estava com pressa. Tínhamos muito que falar. — Você pode esperar até a reunião acabar? Posso levar você para casa. Ou podemos ir a algum lugar e comer alguma coisa — muitas possibilidades passavam pela minha mente. Poderíamos jantar em nosso local predileto, resolver finalmente as coisas e depois voltamos para minha casa. Ainda estava com o DVD do Cantando na chuva a que assisti com a minha mãe só de raiva. Fingiria não ter assistido e ter esperado por ela. Ela balançou a cabeça. — Não vai demorar muito. O chão se abriu à minha frente, não dava para acreditar nela. Ela finalmente tinha decidido que devíamos conversar e eu tinha que deixar tudo de lado? Agora, definitivamente não queria falar sobre isso antes da reunião, pois já estava sentindo minha garganta apertar. — Não sei o que você precisa me dizer tão subitamente. Você deixou claro que não quer mais ser minha amiga — tentei falar baixo, mas senti-me como se estivesse gritando. — Vou sair do conselho estudantil — disse, levando a mão à boca para morder as unhas, mas abaixou rapidamente.

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Mas nunca tentei fazer com que ela se sentisse mal consigo mesma só para ficar comigo. não percebe. E o conselho não foi uma coisa ruim para você. Vou recuperar o tempo perdido antes que o ano acabe. É como se você tivesse passando por uma crise de meia-idade. — Também não quero me arrepender. — E de todos os comitês dos quais você participa? Vai simplesmente fugir de todas as suas responsabilidades? — Minha falta de dedicação não é justa com ninguém — sentia que era doloroso para ela ter que se explicar. Agora sei por que você queria que eu me sentisse tão mal comigo mesma. — Não faça parecer que você era uma santa. Marci fez uma lavagem cerebral completa contra mim. você não teria tido amigo algum.disse —. teríamos deixado de ser amigas há muito tempo. Era uma droga. Natalie. — Julgar você? Eu fui a única pessoa na escola inteira que não julgou você! Você acha que era fácil para mim ser sua amiga? Ter sempre que protegê-la? Não era. Então. Não quero que você faça algo de que vai se arrepender depois. Ninguém nemgostava de você! Você anda pela escola com o nariz empinado. 123 . nunca achei que você fosse estúpida o bastante para cometer o mesmo erro terrível de novo. na verdade. Sim. Foi a gota d'água. mas você sempre deu boas ideias. tudo bem. — E pare de se sentir tão chocada. pensei. Mas em vez de fazer com que seu rosto ficasse vermelho. Marci Cooperstein. — Você percebe o quanto está sendo tola.Balancei a cabeça. retrucando: — Não estou cometendo erro nenhum. tão mais inteligente. Se isso não tivesse acontecido. Ninguém queria ter amizade com você. E por isso que quero passar o último ano do ensino médio fazendo outras coisas. — Você não entende. fiz com que perdesse a cor. — Uau . ―Uma boa amiga que não merece ser tratada dessa forma‖. Como vai ficar a sua inscrição para a faculdade se você desistir do conselho no último ano? — joguei as mãos para cima. sempre me preocupei com a ideia de Autumn se afastar de mim. Autumn. Autumn não recuou. — Isso não tem nada a Ver com você. Sem mim. ―Sou uma boa amiga‖. ou ninguém. Não consegui evitar o riso. Só não quero mais fazer parte do conselho. ou Marci. isca de peixe? Queria que Autumn ficasse com raiva. nos observando. Como pedir a Connor para colaborar com a fogueira e participando da noite das garotas. três anos da nossa amizade foram tempo perdido? Por detrás dos ombros de Autumn vi alguém esticando a cabeça no corredor. mas aparentemente estava enganada. tão melhor do que todo mundo. — Talvez não. Você sabe que nunca me interessei muito pelo conselho. com tanta raiva quanto eu estava. Autumn estava genuinamente irritada. — O quê? Por que você faria uma coisa dessas? Você me odeia tanto assim? Meu Deus. E nem ouse me julgar.

Ela o humilhou na frente de todo mundo. Autumn falou isso como se fosse algo fácil. Estou numa nova fase da minha vida. me lembrando de uma coisa estúpida que fiz há três anos. Mike Domski. chama você. jamais pensei que você fosse dizer isso para mim — ela respondeu. Não conseguia parar: — Mas este é o seu nome. e talvez fosse para ela. as pessoas falaram mal de mim. Afinal de contas. porque os outros riem de mim. tinha ficado ao lado dela em todas as suas choradeiras. Como eu não deveria ser amiga de mais ninguém além de você. Não preciso mais de você fazendo com que sinta pena de mim mesma. — Você foi uma boa amiga para mim. Bem. Pala sobre como eu devia contar isso para as outras garotas. Dei muito poder a elas. Mas. E você deveria fazer o mesmo. Mas não preciso mais que você me proteja. Afinal de contas.— Nunca. Sabia que tinha que calar a boca. Cheguei a pensar que Autumn iria me abraçar. e enxugou seu próprio rosto. Especialmente. Jamais devia ter deixado uma coisa tão ridícula me afetar como afetou. mas não podia. estou cansada disso! Então. Tinha enxugado suas lágrimas milhares de vezes. certo? É como o seu amigo. não estou dizendo que não foi. quando não era nem verdade. para que elas pudessem aprender com seus erros. que também estava coberto por lágrimas. Mas ela estava do outro lado da fronteira invisível. chorar sozinha no corredor parecia algo completamente impossível. Uma fumaça negra soprava dentro de mim. Tudo o que conseguia fazer era chorar. 124 . Natalie. Ou pelo menos se desculpar quando percebesse o quanto estava me magoando. Autumn? Você não tem respeito próprio? — Era isso o que devia esperar de você. e agora você está do lado dele? Que é isso. — Senti pena de Mike depois do que Spencer fez com ele. é você quem faz com que me sinta a pior das pessoas! Você constantemente traz à tona essa história da isca de peixe. para mim. — Você tá brincando? Mike sempre tentou dificultar nossas vidas. queria engolir as palavras de volta. As palavras dela eram tão claras que não conseguia dizer nada em defesa própria.

Então fui para casa. Mesmo deitada o mais quieta possível. Quando saído banho. Virei-me para ver a 125 . Era ansiedade. sentei na ponta da mesa e presidi a reunião do conselho estudantil enchendo quatro páginas do caderno com ações a serem tomadas e discussões de projetos e pensamentos para a pauta da próxima semana. repassei todos os itens da redação e arrumei a mochila com o essencial para o dia de provas — duas barras de proteína. sentia estar na posição fetal. Tentei assistir à televisão. Passei uma hora revisando listas de vocabulário. e era assim que me sentia mesmo. vi minha silhueta no vapor do espelho. Quase instantaneamente os pontos negativos sobressaíram. Ainda dava para sentir o gosto sujo das palavras em minha boca. Ainda não conseguia acreditar que tinha chamado Autumn de isca de peixe. Meu corpo queimava energia que eu nem sabia que conseguia armazenar. Uma força desconhecida controlava meu corpo enquanto. até que fui tomar banho com a água mais quente possível. Usando a ponta da toalha. por dentro. não importava o quanto minha vida estivesse confusa agora. ler um livro. os meus eram bem pequenos. Não podia estragar isso. As cicatrizes da mordida que o cachorro da vovó me deu faziam parecer que eu tinha sentado no cascalho. Enxuguei as lágrimas e recuperei o controle. Mas fiquei rolando na cama pelo que pareciam horas. Entrei na biblioteca. Em algum momento nas últimas duas semanas eu havia me tornado noturna. Faltavam só algumas horas para o SAT. a prova mais importante da minha vida. comi o macarrão que minha mãe havia preparado e me arrastei pela escada. todos os meus órgãos e músculos chiavam como uma locomotiva.Capítulo 27 L iguei o piloto automático. Qualquer chance que tínhamos de resolver as coisas tinham sido completamente arruinadas por mim. O telefone tocou dentro da mochila. E então tentei dormir. limpei o vapor do vidro. Não podia encontrá-lo. Queria tanto me retratar que até doía. Virei de lado e olhei para as coxas. mas sabia que não conseguiria. Olhei para ver quem era. Espantei os pensamentos de Connor da minha cabeça para manter o foco. apreensão. isso seria bom para mim. mas não conseguia responder. tristeza. algumas lapiseiras favoritas e um elástico de cabelo. hoje não. Queria ter seios maiores. Parecia um fantasma.

que era tão projetado para fora da barriga que parecia um terceiro mamilo. mas senti que merecia aquilo. Enrolei-me na toalha novamente. contudo. na escuridão. Nunca mais Autumn. Não. Mais sombras.. Parecia alguém. Desprezava a garota que me olhava. Então desliguei a luz do banheiro e acendi uma vela que ficava na pia. Ele escreveu: Por favor? Duas palavras e lá fui eu. A luz do banheiro era cruel. Pois. As marcas da coxa desapareceram. Tirei a toalha da cabeça e deixei os cabelos caírem nos ombros como volumes frios. de fato. com fome. Ele me apertava com muita força. A garota de quem ninguém gostava. sempre me tocando. Parecia que eu sabia o que estava fazendo. Inclinei-me para frente. 126 . a coisa toda era estúpida e estava prestes a explodir na minha frente. mais curvas apareceram. Peguei o telefone. com certeza.marca de nascença no quadril e depois para ver o umbigo. naquele depósito. Pois não entendia como estar com Connor parecia tanto ser a coisa certa em um momento e tão sem propósito no outro. na verdade. Suas mãos estavam sempre deslizando em mim.. como se tivesse medo que eu desaparecesse se me desse algum espaço para respirar. Não que isso importasse. planejando escrever para ele que não iria até lá hoje. por alguém que a fizesse sentir-se bem consigo mesma. Tudo ficou mais suave. Autumn. Não tinha mesmo nenhuma outra forma de isso terminar. era óbvio que não sabia. Faminta por afeição. Não conseguia olhar para ela. apaguei a vela e caminhei nas pontas dos pés pelo corredor até o meu quarto. O telefone estava tocando de novo. Connor. Não parecia eu mesma. Aquela era a garota que Autumn odiava. Estava vivendo a vida em momentos. Pensei: ―É isso o que Connor vai ver se eu ficar nua na frente dele?‖ Sabia que ele gostava do meu corpo no escuro. colocando as mãos no beiral da pia.

no fim das contas. E a verdade era que me sentia cansada. a ideia de chegar atrasada para o SAT era uma piada. Além disso. A Srta. passando todo o conhecimento recebido no curso de verão e em todos os manuais que tinha lido. junto com o fato de que Autumn e eu não seríamos mais amigas. Cheguei à escola em cima da hora. era a minha passagem para fugir de Liberty River. Olhava para o meu futuro. ignorei meu libreto e comecei a olhar para a cabeça de Autumn. Bee entregou os libretos do teste. Temos que começar. Era um grande tapa na cara. Fui praticamente sua professora particular. Mas essa era a minha vida. evitando olhar para mim. estava em pé na porta da sala. Se poderíamos nos reinventar como pessoas totalmente desconhecidas. — Não há tempo. Precisava tirar tudo isso da minha cabeça e levar a sério. mas por dentro perguntava-me se realmente conseguiria agir dessa forma um ano inteiro. Será que ela pensava nisso? Passei por ela sem chorar nem dizer nada.Capítulo 28 P ara mim. Isso. ela se inclinou na mesa e começou a revirar sua mochila. não deveria estar chocada. Então. cavando buracos em seu crânio. Bee. mas. Assim que entrei na sala. dessa vida que tinha destruído subitamente. O último lugar vago na classe era bem atrás da minha ex melhor amiga. Pensei em um milhão de desculpas num milésimo de segundo. ou que eu passaria as noites no meio do mato. Se Autumn ficou preocupada por eu não ter chegado na hora. a fiscal da minha sala. Já a tinha visto brava antes. ela balançou a cabeça e apontou para dentro. Tinha ido à casa de Connor na noite passada e o beijei com tanta força que mal conseguia respirar. sua expressão era um misto de alívio e desapontamento. quando abri a boca para falar. Natalie. Havia trabalhado bastante e por muito tempo me preparado para este dia. o aquecedor estava muito forte 127 . Quando olhou para cima e me viu correndo pelo corredor. no fim. fazendo careta para o relógio. tentando pensar no que poderia estar se passando na mente dela. Só que quando a prova começou. uma página cheia de círculos vazios. considerando que Autumn provavelmente não teria feito sequer um curso preparatório se não fosse por mim. mas nunca diretamente. A Srta. não demonstrou. há algumas semanas.

128 . Enxuguei o rosto molhado. Bee usou a minha mesa para se equilibrar. ainda me sentia um fracasso absoluto. — Desculpe-me — disse a Srta. Ela tirou o sapato e se inclinou um pouco para examinar o dedo do pé. pois tinha dado uma topada tão forte na minha mesa que meu lápis caiu e saiu rolando pela sala. O olhar que ela me lançou ao retornar para frente da sala era inconfundivelmente de desapontamento propositado. Mesmo assim. Bee. Olhei para cima. Recompus-me e completei tudo o que consegui no teste. mas não havia nada que pudesse fazer com a marca transparente de baba bem no meio do libreto. A Srta. todo mundo na sala olhou. a temperatura seca e o chiado do aquecedor tomavam o ambiente perfeito para uma soneca. Não me lembro de ter dormido.na sala. só do terremoto que me acordou. como se tivesse sido um acidente.

por favor. — Então tá. Mas não vou ficar me agarrando com você vendo que está desse jeito. Virei de costas e afundei o rosto no travesseiro. — Connor. — Da para perceber que você está chateada. — Qual é o problema? Era uma pergunta direta. Connor parou de me beijar e começou a pensar. — Em quem você votou na eleição para presidente do conselho estudantil? De repente. — Isso não é invasão de privacidade do eleitor ou coisa assim? — Então você votou em Mike — puxei com força o cobertor para ficar com um pouco mais. — Muito obrigado. mude de assunto. Connor era daqueles que pegam todo o cobertor. não quero falar sobre isso agora. — Você sabe o que quero dizer. Connor pareceu desconfortável. — O que você está fazendo? — perguntei quando ele se afastou no meio do beijo. mas as respostas no meu cérebro estavam todas bagunçadas e não estava com vontade de organizá-las. — Já sabia. Sterling — Connor saiu de perto de mim e perguntou. então tá. — Por que não? Pensei que os garotos sempre estivessem a fim. — Isso faz com que me sinta um troglodita. comum sorriso bem doce e fingido. Levantei a cabeça e olhei para ele. 129 .Capítulo 29 E m algum momento no meio da nossa sessão de pegação. — Tudo bem. — Não sou idiota. Isso era exatamente o que vinha tentando evitar. — Não estou. Tenho uma pergunta para você — disse.

Connor pegou a ponta do meu rabo de cavalo e desenhou um círculo na palma da mão. eu não conhecia você na época. Ele deu um suspiro profundo e cansado. Senti um aperto na garganta. — Connor sentou-se e falou: — Mas eu não sou o Mike. sem falar na longa história de garotas com quem já tinha ficado. Enrubesci. e não posso culpá-la por isso. só deixa as coisas piores. — Pode ser que não conheça você. o que era uma estupidez. Votaria em você agora. não sabe? — Talvez — queria acreditar que Connor era mais esperto. no fundo. Connor aninhou-se em mim dizendo: — Se valer alguma coisa. — Sério? Isso não melhora nada? Nem um pouquinho? Olhei com raiva para a escuridão. mas gostaria que fosse. Afastei-me. Você ainda não foi a nem um dos meus jogos de futebol. mesmo não sendo exatamente isso o que eu queria. mais doce do que originalmente pensava. Quando vi que ele estragou o seu cartaz de campanha. Você sabe disso. Talvez porque. com raiva de mim mesma por ter tocado no assunto para começo de conversa. — Você fez isso? — Por favor. — Você também não é especialista em mim.— Mike é meu amigo. fiquei com tanta raiva que eu mesmo o tirei de lá. Quero entender você. Mas também não podia ignorar completamente a verdade. mas obrigada mesmo assim. — Sei que você tem problemas com os meus amigos. Tinha de ser cuidadosa. como se fosse um pincel. Sterling. como se não houvesse nenhuma possibilidade de ele votar em mim. — Não. Sabia por quê. — Não vale. especialmente Mike. Connor tinha alguns amigos bem questionáveis. é claro que votei nele — disse como se eu tivesse obrigação de saber a resposta. Ele não tem muita noção das coisas. — Por quê? 130 . Senti bem nas minhas costas. — Olha só. tenho irmãs. Sabia todas as razões de Connor. acho que você está fazendo um ótimo trabalho como presidente. Connor. — Talvez você não devesse fazer isso. — Odeio dizer isso a você. mas estou tentando. sem falar dos outros caras do seu time. e se um cara escrevesse uma coisa dessas sobre elas. mas você ainda não me conhece. esperava que Connor tivesse secretamente votado em mim. Não sabia por que era tão doloroso. ficaria louco. — Odeio futebol. Mike não pensa às vezes.

Procurei as meias no chão. Era bem possível que estivesse tão confuso quanto eu. Será que ele iria confirmar os meus mais profundos temores. Deixei que Connor me abraçasse. Por sorte.— Porque não é assim que deve ser. andando na ponta do pé no meio da escuridão de um chão congelante. partes independentes que completavam o todo. Connor não disse nada. E então senti que estava sendo virada. que a nossa relação era puramente física? Ou ele me diria que tinha sentimentos verdadeiros em relação a mim? Qualquer resposta me deixaria assustada. Foi então que percebi que nunca tínhamos oficialmente nos abraçado antes. fiquei preocupada com o que Connor iria dizer em seguida. Assim que disse. Aproveitei o silêncio e levantei. Connor envolveu os braços ao redor do meu corpo. Havíamos tocado em muitas partes diferentes um do outro. De um jeito estranho. 131 . Ouvi Connor levantar-se. e acho até que o segurei ainda mais forte. Apesar de sentir necessidade de afastá-lo. isso era reconfortante. mas nunca algo assim tão abrangente. — É melhor eu ir — comentei. não fiz isso.

Capítulo 30 — P ercebi que você anda. Movimentei o corpo na cadeira e fiquei olhando para os sapatos de salto alto da Srta.. distraída. cruzando os braços ao redor do corpo para se aquecer. — Natalie. e se ela quisesse me repreender milhares de vezes. apesar de não haver folhas nos galhos das árvores. levando a xícara de chá à boca com força demais e algumas gotas do líquido marrom escaparam de seus lábios. Bee. entrar em contato com o abrigo local. Ela não estava usando casaco. Precisamos começar a fazer os anúncios para que os alunos tragam doações de alimentos. Bee estreitou os olhos. — Natalie. repetidas vezes. Tinha acabado de ligar o carro quando Spencer bateu na janela. claro. era bem provável que concordasse com ela. Aquilo me pegou completamente de surpresa. peguei o casaco e saí de lá o mais rápido possível. sinto muito. Minha culpa era enorme. Ela não estava animada. Esse é o problema dos segredos. você está me ouvindo ao menos? — questionou. Ver quantas famílias. não me obrigue a revisá-la. Por favor. Será que a Srta.. — Já terminei um rascunho da sua carta de recomendação para a faculdade... Bee faria mesmo uma coisa daquelas? Será que a boa reputação para qual tinha trabalhado tanto para conseguir estava em risco? Concordei. porque estava pensando demais nele. A Srta. você não pode se explicar. Era óbvio que precisava diminuir o tempo que passava com Connor. Era a segunda-feira depois do SAT. 132 . — Eu sei. — Sim. me desculpei incisivamente. mas o seu comportamento atual me preocupa. E o tempo em que passava pensando nele. sei que você tem trabalhado muito e que tem muitas responsabilidades. A única coisa que podia dizer era desculpe. O dia de Ação de Graças será nesta semana e você está completamente despreparada para montar as cestas de alimentos.

— Oi, Natalie. Você acha que pode me dar uma carona para casa? Minha mãe ficou presa no trabalho, e o próximo ônibus não vai passar antes de uma hora. — Claro — disse e me inclinei para abrir a porta do passageiro. Esse gesto trouxe à tona uma triste lembrança sensorial. Parecia um século que havia feito aquilo para alguém. — Obrigada — Spencer entrou e fechou a porta do carro. Seus dentes batiam, e ela começou a esfregar as pernas nuas. Liguei o aquecedor e apontei todas as passagens de ar para ela. — Te devo uma — agradeceu. Depois do sermão da Srta. Bee, não estava a fim de conversar. Por sorte, Spencer estava a fim de falar por nós duas e ficou fazendo fofoca sobre várias pessoas e me dando instruções para chegar ao apartamento dela. Então, eu não precisei falar muito. Em seguida, olhou para o meu pescoço e me provocou: — Então... tem levado muitas picadas de inseto ultimamente? Era estranho. Em vez de ficar na defensiva, pensei em contar tudo a Spencer. E teria contado, se não fosse Connor a pessoa quem estava beijando. Em primeiro lugar, Spencer já tinha gostado de Connor. Ela tinha escrito o nome dele na camiseta de ―Rosstituta‖. Não achava que ela ainda tivesse sentimentos por ele, mas não tinha certeza a respeito. Além disso não confiava muito na discrição de Spencer. Tudo que ela precisava fazer era contar para uma pessoa apenas, e meu segredo já era. Eu ficaria sendo a maior hipócrita do mundo, o que acho que era mesmo. Mas então lembrei-me do que Autumn tinha dito a mim no corredor. Ela tinha seguido em frente, feito novos amigos. Por que eu queria tanto manter Spencer distante? Ela tinha provado que queria ser minha amiga algumas vezes. E, gostando ou não, Spencer entendia os garotos de um jeito que eu não conseguia. — Tudo bem. Estou saindo com alguém — disse, casualmente. E rapidamente acrescentei. — Ninguém daqui. Se não fosse o cinto de segurança, Spencer teria voado do assento. — Eu sabia! Ah, meu Deus, me conte tudo. Ele é bonito? Aposto que ele é bonito. Virei-me para ela e sorri. Tantos adjetivos encheram a minha boca. Mas dava para ver o prédio de Spencer se aproximando e não queria parar para deixá-la em casa. Era tão bom ter uma amiga. Por que não havia feito isso semanas atrás? Então, quando brequei no farol, me virei para ela e perguntei: — Você quer comer alguma coisa? Estou convidando. Spencer sorriu de orelha a orelha. Ela parecia tão agradecida como se tivesse a maior sorte de ter recebido um convite meu. Fomos ao lugar que costumava ser o preferido de Autumn e meu, um trailer de aço antigo com várias mesas e uma placa de neon cor-de-rosa. Estava bem vazio, pois faltava muito para a hora do jantar. A garçonete nos deixou escolher nossos lugares, e Spencer decidiu pela última cabine à direita. De lá dava para ver o estacionamento e tínhamos o nosso próprio tocadiscos individual, cheio de música antiga. Spencer procurou moedas para ligar o som. 133

Pedimos Coca-Cola e sopa com cobertura de queijo borbulhante e dividimos um prato de batatas fritas perfeitamente crocantes, cheias de molho. Sentia-me incrivelmente feliz. Felizmente, Spencer me deixou falar de todos os detalhes da minha versão levemente alterada de Connor. Não modifiquei a maior parte. Falei de como ele era bonito, de como tal rapaz se sentia atraído pelo fato de eu ser uma garota tão inteligente e tão forte. A única coisa que havia mudado eram os detalhes de como tínhamos nos conhecido: meu namorado novo tinha sido meu tutor numa aula preparatória para o SAT, um brilhante calouro de faculdade. — Então, qual é o problema? — Spencer perguntou. — Isso tudo parece maravilhoso. Ouvi-la dizer aquilo feriu meu coração. Connor e eu estávamos tão próximos da perfeição e ao mesmo tempo tão distantes. — É que somos pessoas muito diferentes. — E? — E nada. Não vejo futuro para nós. É como se nós dois estivéssemos perdendo tempo. Havia uma ruga de preocupação no rosto de Spencer. — Como assim, futuro? Você não é daquelas garotas que pretende se casar aos 18, é? — O quê? — disse, pegando um guardanapo. — Não! Claro que não. — Bem, então de que tipo de futuro você tá falando? Pensei no nosso depósito frio. — Ele vai mudar de faculdade depois do Natal. E não quero me prender a ele. Spencer mergulhou a batata numa poça de ketchup e disse: — Você não vai se prender — disse, objetivamente. — Não vou? — Não. Porque você já sabe que não pode. E um fato, Natalie. Você não pode se apegar, então não se apegue. Simples assim. — Ah. — Aproveite o máximo que puder. Quer dizer, se passar o tempo com ele te faz feliz, então passe. Não pense demais nas coisas. Lembre-se, o poder está com você. Ele quer ficar com você, é você quem manda. De alguma forma, consegui mover a cabeça. Era óbvio que Spencer tinha controle sobre sua sexualidade. Ela podia ligar e desligar os botões, dependendo do que ou de quem ela quisesse. Não sentia que era eu quem mandava. Mas também não achava que Connor mandasse em alguma coisa também. Era a imprudência que mandava em nós. — Não fique quieta comigo, Natalie. Quero detalhes! 134

— Tipo 0 quê? — Você sabe! — disse Spencer mexendo o dedinho para mim. — O que isso quer dizer? — Você não viu todas as garotas fazendo isso no corredor? — ela mexeu o dedinho novamente, mas eu ainda não fazia a mínima ideia. — Inventei esse gesto para Mike Domski. Significa pinto pequeno e está bombando na escola. Pisquei, surpresa. — Ah, Deus! — É, eu sei. Sempre suspeitei, e a pegadinha no cinema só comprovou que estava certa. É triste, mas faz todo sentido, se você pensar bem. Quer dizer, Mike tem o maior SUVW 16 do estacionamento da escola — deu risada e então apontou para seu colo. — Então, seu namorado é bom lá embaixo? Fiquei desconfortável na cadeira. — E. Quer dizer, não sei. Acho que é normal. — Bem, ele é bom de cama? — Quê? Spencer cerrou os dentes. — Não seja modesta comigo. Não sou mais criancinha. — Spencer, não estou dormindo com ele — ela ficou me encarando como se eu estivesse mentindo. — Sou virgem — disse e olhei para procurar a garçonete. Afinal de contas, nem estávamos mais comendo. Só conversando. Spencer parecia confusa. — Totalmente virgem? Ou virgem só no sentido de penetração direta? Porque eu também não transei completamente com ninguém, mas já fiz várias outras coisas. Peguei o copo de refrigerante. Estava vazio, mas mesmo assim chupei todo o gelo derretido porque não queria mais falar sobre aquilo. Estava imaginando Spencer com sua camiseta de ―Rosstituta‖, com a fantasia do Halloween e com qualquer outra coisa que tenha usado para convencer Mike Domski a abaixar as calças no cinema. E não queria ser aquele tipo de garota. Mudei de assunto para o conselho estudantil e a pressão que estava sofrendo para montar as cestas de Ação de Graças. Estava me sentindo muito estressada. Spencer ouviu tudo com a mesma atenção dispensada à conversa sobre sexo, o que me deu certo alívio.

No Brasil, atualmente, também se fala SUV (sport utility Vehicle - veículo utilitário esportivo) para os carros tipo van. (N .T.)

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Depois que terminamos de comer. Parte de mim achava que Spencer era uma garota inteligente e outra parte achava que ela era uma ―Rosstituta‖ de 14 anos que sabia muito menos que eu. levei Spencer de volta para casa. — Estou do seu lado. Mas Spencer e eu não íamos mais ter esse tipo de conversa novamente. Agradeci apenas porque precisava da ajuda dela com as cestas. 136 . me procure. Natalie — ela disse quando parei na frente do prédio. — Se precisar de uma ajuda extra com as cestas ou somente conversar.

Capítulo 31

N

aquela noite estávamos bem próximos do depósito quando me virei e comecei a andar na direção oposta.

Não sei por quê. Sabia que não tinha todo o tempo do mundo. Meus pais tinham ido dormir tarde, o que me impediu de sair escondida em uma hora respeitável. E eu não podia ficar muito tempo, tendo uma prova enorme de trigonometria no dia seguinte para a qual mal havia estudado. Precisava de uma noite decente de sono, falei exatamente isso a Connor pelo telefone. Talvez pudesse ficar no máximo uma hora, nem valeria a pena. Ele pediu que eu fosse de qualquer jeito. Então eu fui. E, apesar de saber que hoje seria corrido, Connor não disse nada sobre o fato de eu não querer ir direto para o depósito. A primeira vez que tinha ido a fazenda a noite tudo parecia bem assustador, a escuridão, os estranhos barulhos na mata. Mas agora sentia-me confortável ali, andava por lá como se fosse dia. Meus olhos quase não precisavam de tempo para se adaptar à noite depois que eu apagava os faróis do carro. Estávamos próximos a lojinha, então resolvi ir até lá. Sempre quis dar uma olhada de perto. — A mamãe mandou fazer há dois anos. Ela achou que seria bom vendermos lembrancinhas. Na verdade, foi ideia dela mantermos a fazenda aberta o ano todo em vez de apenas no Natal. Ela tem uma mente bem empreendedora — disse Connor, recostando-se no gradil da varanda. — Você iria gostar dela — acrescentou. Ouvir aquilo me deixava feliz. Mas só por um segundo, pois não tinha certeza se a Sra. Hughes também ia gostar de mim. Não se ela soubesse quantas noites tinha entrado escondida na propriedade dela para me agarrar com o Connor enquanto ela e o marido dormiam. Nenhuma mãe em juízo perfeito iria gostar de uma garota assim. Essa era a pior parte de tudo: saber que era errado, mas fazer mesmo assim, não me importando com o quanto aquilo ia profundamente contra o tipo de pessoa que eu era. 137

Coloquei as mãos nas laterais dos olhos para olhar para as prateleiras pela vitrine. Vários potes estavam perfeitamente enfileirados. Etiquetas escritas à mão marcavam geléia de morango, pasta de maçã e torta de abóbora numa caligrafia encantadoramente perfeita.Todas possuíam uma tira de tecido retorcido ao redor da tampa.Algodão vermelho, como as toalhas de mesa de piquenique no verão. — Ela faz tudo sozinha, com ingredientes frescos do jardim. Uma padaria elegante na cidade começou a vender os produtos dela — disse Connor, que estava atrás de mim bloqueando o vento frio da noite com o corpo. Seu queixo estava apoiado em meu ombro e ele também olhava lá para dentro. Nossa respiração embaçava o vidro. - Você não vai acreditar no quanto algumas pessoas se dispõem a pagar por essas coisas. Uma ideia passou pela minha mente, uma ideia enorme. Virei o corpo para ficar de frente para ele. — Connor! Sabe de uma coisa? A sua família poderia doar algo para as minhas cestas de Ação de Graças! Só precisamos de 20 potes. Talvez 30, se vocês puderem. Até quartafeira. Connor começou a beijar meu pescoço; eu fechei os olhos e respirei fundo. Ele fez a barba um pouco antes da minha chegada. Sabia porque sua face estava inacreditavelmente macia. Por isso, e pelo cheiro de pós barba, um perfume de madeira picante e aconchegante. Depois de alguns beijos, me abaixei para me soltar dele. Não podia me desviar do assunto. As coisas com as cestas de Ação de Graças estavam indo devagar, aliás, tudo estava nesse compasso. - É verdade, Connor. Você está me ouvindo? — Estou bem distraído — disse, aproximando-se. Levei as mãos à cintura. — Há muitas famílias em Liberty River que não têm nada. Elas não podem pagar por um peru de Ação de Graças, muito menos por todas essas geleias chiquérrimas. Você não acha que deveria doar algo aos menos afortunados que você? Não seria a coisa certa a ser feita? Ele apontou o queixo em direção ao depósito. — Vamos, Sterling. Está muito frio. Não saí do lugar. E não estava com frio, estava começando a ferver. — Sabe, seria muito legal se você pudesse me ajudar. Honestamente, é o mínimo que você pode fazer. Ele colocou o capuz e perguntou: — O que isso quer dizer? — Bem, vamos ver — disse em um tom sarcástico —, não é você quem atravessa a cidade de carro todas as noites. Você só levanta da cama e me encontra bem aqui, esperando. Suas notas não estão sofríveis. Você não precisa se preocupar com o fato de cair no sono no meio da aula. — Só o fato de ouvir a mim mesma dizendo tudo aquilo me deixava ainda mais com raiva. Connor olhava para mim com cara de quem não estava entendendo nada, como se nada daquilo tivesse passado pela cabeça dele antes. Apontei o dedo para ele e falei — Você não tem trabalho nem faz esforço nenhum nesse nosso trato. Connor esfregou as mãos. As pontas dos dedos estavam ficando avermelhadas de tanto frio. — Você está dizendo que tenho que ir para sua casa? 138

— Não, Connor! — essa era a última coisa que eu queria, estar com ele num lugar em que realmente poderíamos ser pegos. Connor não pensava nessas coisas, ele não precisava pensar. — É diferente para você. Você não tem que se preocupar com a faculdade, em manter boas notas. Estou bem estressada com essa captação de alimentos. Coisas assim não acontecem como que por magia. Demandam muito tempo, trabalho e esforço. E preciso que as pessoas me ajudem — sei que para ele parecia que estava irritada com ele, mas por que Connor não podia concordar em doar algumas coisas para as cestas? Será que ele não queria me ajudar? Ele balançou a cabeça, magoado. — Então, basicamente, tenho que dar a você uns potes de geleia porque você vem aqui para ficar comigo? Como se fosse um pagamento? — O quê? Não! Não é isso que estou falando! — apesar de que talvez fosse. Todos os meus músculos ficaram tensos, dos dedos do pé até o maxilar. — E não gosto nada do que você está insinuando. Não sou uma piranha da escola. Você não pode me comprar com geléia. — Talvez seja melhor você ir embora — disse, desenhando curvas no cascalho com a ponta do tênis. — Pode me chamar de louco, mas não consigo imaginar a gente se divertindo hoje. Queria dar um soco nele. — É engraçado! Porque há uma hora eu disse que não devia vir hoje, mas você me convenceu. — Eu não a convenci de nada, Sterling. Essa é uma habilidade que eu realmente não tenho. — Ãh? O que você quer dizer com isso? — perguntei. E depois pensei melhor e disse: — Quer saber? Deixa para lá. Vou embora — gritei como se não me importasse. Raiva pura e simples. Mas assim que fui em direção ao carro, comecei a me sentir mal. Connor me deixou ir, ele me deixaria ir embora, não tentaria me impedir. Queria me virar, queria pedir desculpas, mas era orgulhosa demais para fazer isso. Estava procurando a chave do carro quando o ouvi atrás de mim. — Sinto muito. Estou muito estressado também. As eliminatórias serão na quarta-feira e nosso treino está um lixo — ele suspirou profundamente. — Não vamos brigar. — Acho que está meio tarde para isso, né? — Senti-me tão tola, desesperada e imatura que minhas mãos começaram a suar. Tentei mudar o tom rapidamente para limpar a barra, para esconder o fato de que esperava que Connor se importasse comigo e com os problemas do meu conselho estudantil. — E não estava tentando me aproveitar de você, a propósito. Achei que seria uma boa propaganda para a sua família. O jornal local vai mandar um fotógrafo para tirar fotos da montagem das cestas. Eu colocaria os potes em evidência, e a sua família teria uma menção especial no artigo. Esperei que Connor fosse dizer alguma coisa, mas ele ficou quieto. Um silêncio extremamente doloroso. 139

e então não ouvíamos mais nada.E então. mas vou pedir. Subitamente. como comentei. virei-me para ele e coloquei meus dedos na alça da calça dele. Mas nós dois fomos para o depósito mesmo assim. a que estava presa à calça dele. são produtos caros. está bem? Não posso prometer nada. Mal consegui mover a cabeça para concordar. — Vou falar com a minha mãe. — Está ficando tarde — falou. Nossos sapatos arrastavam no cascalho em sincronia até começarmos a pisar na serragem caída das árvores. Connor pegou minha mão. — Tentei dizer obrigada. mas minha garganta fechou. a ponto de me dar tudo o que eu pedisse. pois. queira muito que ele me desejasse a ponto de fazer qualquer coisa por mim. 140 . e a colocou dentro do bolso do casaco. antes de perceber o que estava fazendo. Era esse o tipo de poder que queria exercer sobre Connor Hughes.

— Meninos! — gritei do outro lado da biblioteca. Quase todas as doações dos alunos estavam empilhadas em colunas em cima da mesa deles. riam como hienas. abaixando a cabeça. Ricky e Phil tinham construído um forte com latas de geléia de amora. antes de atirar uma bola de papel para o alto. Lembrei-me da minha primeira reunião e de como minha liderança era clara. creme de milho e de espinafre. havia perdido o controle sobre o conselho estudantil. era exatamente o oposto. de alguma forma. Bee veio de seu escritório. Mas. A Srta. que tentavam se proteger das bombas com seus enormes livros-texto. gritou: — Foi isso que ela disse! Os garotos. Eles se escondiam atrás da parede de lata a cada segundo para lançar ataques em uma mesa de garotos vulneráveis do outro lado da biblioteca. — Parem! Enquanto eu estava ocupada tentando organizar as cestas.Capítulo 32 O dia de montar as cestas de Ação de Graças chegou rápido demais. Era para ter sido uma coisa fácil. Sabia que ela iria me dar mais um sermão. como todos me respeitavam. Você tem um plano para hoje à tarde? Ou está voando conforme o vento? — sua boca contorceu com a pergunta. mostrando seus sorrisos travessos nos rostos oleosos. — As coisas parecem estar meio devagar por aqui. como ninguém ousaria falar a menos que eu permitisse. um dos representantes dos calouros. 141 . Phil. transformando-as em munição. — Fogo! — gritou Ricky. Rasgaram mais duas páginas do caderno. Atualmente. era véspera de feriado e todo mundo estava animado com o fato de ficar de folga da escola por alguns dias. até temiam. sentados juntos numa cadeira de mogno da biblioteca. Claro. E. Só que aparentemente eu era a única que estava levando a coisa a sério. irritada com o barulho. senti que merecia. Outro representante. mais uma vez.

Bee. Se a minha cesta de Ação de Graças fosse feita com as coisas de que dispunha. — Sério mesmo. Mas a minha caligrafia era horrível. — Vai ser o bastante — disse. Nesse momento Dave veio correndo e comentou: — Devo fazer todo mundo começar a repartir a comida? — Sim — eu e a Srta. especialmente quando devia ter comprado mais alimentos para as cestas. como aquelas que vemos nas revistas elegantes. Queria muito dar às pessoas uma cesta de Ação de Graças bem legal. Natalie — disse a Srta. mas logo em seguida toda a sala estava abafando o riso. pessoal? — Spencer falou do outro lado da sala. repreendendo-a. Precisávamos de vinte cestas e o que tinha ali mal dava para dez. Mas o que eu podia fazer? Fiz o que pude para lembrar os alunos de trazer as latas. Foi ela quem escreveu a maioria dos meus cartazes de campanha. até lá já teriam virado pedra. não sentiria muita vontade de comemorar. Por mais que apreciasse o que Spencer estava tentando fazer. apesar de estar olhando diretamente para a Srta. — Isso não está lindo. A vista era decepcionante. Foi ideia da Natalie. Um suspiro me fez ver que foi um acidente. que já estavam amanhecidos. Gostaria que as minhas cestas fossem bonitas e especiais. você é um cretino. — O tecido realmente dá o maior realce. — Spencer! — disse. mas dava para ver. Bee estava do outro lado da sala. Sentei-me ao lado de Spencer e. Phil. — Não me deixe atrasá-la. A caneta começou a falhar. Uma que fosse memorável. pois o rosto dele era o mais cotado de todos. Basicamente ameacei a mercearia da cidade a doar perus.— Estou tentando. A Srta. Bee secamente. Pedi que alguém arrumasse outra. o que me deu vontade de matar quem quer que tivesse feito aquilo. Fiquei tão feliz quando convenci a padaria a doar pão. Ela olhou ao redor da sala e eu tentei não olhar para ela. quando fui buscá-los hoje de manhã. Bee dissemos ao mesmo tempo. Se Autumn estivesse ali. cortando pedaços de algodão vermelho para acolchoar as cestas feitas de salgueiro. Olhei ara os garotos e decidi que o agressor em questão tinha sido Phil. mesmo sabendo que não seria. tentando mostrar a melhor caligrafia possível. teria feito muito melhor. escrevi Feliz Dia de Ação de Graças em pequenas etiquetas com formato de folhas de árvore. O dia de Ação de Graças era amanhã. sentia-me idiota por ter gasto dinheiro com as cestas e com o tecido. — Shh! 142 . — Isso é tudo que você tem? — questionou. Ela estava sentada. Foi nesse momento que uma bola de papel pegou bem no meu rosto. — Vá em frente. Seria bem provável que tentaria me matar.

— Estou aqui para tirar umas fotos para o jornal. Spencer se aproximou de mim e apertou meu braço. Connor colocou sua caixa na mesa e pegou um dos potes. derrubando somente uma das torres. — Onde coloco? — ele perguntou. meu Deus! — gritei. Será que é melhor. abobrinhas e cenouras com cabos longos e cheios de folhas. Bee esticou o pescoço do outro lado da biblioteca para ver. — Natalie! Você precisa tomar a liderança! — Com licença. Uma lata de batatas abriu espalhando flocos brancos por toda a parte. Outros cinco jogadores uniformizados apareceram atrás de Connor. também carregando caixas. — E era verdade. dizendo: — Não fui eu. tirando uma foto. — Ah. Foi preciso muito autocontrole para me impedir de me jogar nos braços de Connor e enchê-lo de beijos. Queria chorar novamente. alguns amassados. Foi o Rick! Rick correu para mesa e respondeu: — Mentiroso! Não venha querer me meter em encrenca! Rick tentou lutar com Phil por detrás do forte. Fiquei de joelhos para recolher a sujeira que vazava das minhas mãos como areia. Um jovem com uma câmera no pescoço olhou para mim. lembrando-me que devia responder. As latas começaram a cair pelo chão fazendo o mais inacreditável dos ruídos. Senti o rosto corar. Havia latas por toda a parte. A Srta. recheios de torta e legumes frescos da nossa fazenda. Enormes abóboras. — Em qualquer lugar — disse. mas dessa vez era de alívio. — Meninos! — a Srta. usando o uniforme de futebol sujo de terra que parecia não ter sido lavado uma única vez durante a temporada toda. Rótulos rasgados. qualquer lugar está ótimo. tentando fazer com que o maremoto de latas parasse. 143 . As caixas estavam absolutamente cheias. Bee correu para mim.Phil apontou o dedo para o ar. voltar mais tarde? Mordi os lábios e segurei as lágrimas enquanto levantava. — O que tem dentro delas? — perguntou o repórter. não se dirigindo a ninguém em particular. uh. — Você não precisava ter feito tudo isso — sussurrei quando consegui ficar próxima o bastante. casualmente —. senhorita? Olhei para cima. — Há geléias. Nesse momento Connor apareceu na porta. carregando uma enorme caixa de papelão.

O local estava cheio apesar de estar absolutamente frio lá fora. você fez demais — por mais animada que estivesse. Dei um enorme passo para trás e disse de maneira tensa e formal. Ou se algumas famílias são judaicas ou sei lá. — Connor. Depois que as cestas estavam prontas. Ele estava sorrindo quando me deu uma pilha de envelopes verdes.Bee estava olhando para mim. A Srta. não são cupons para árvores caras. Você não precisa usá-los. Uma ponta de preocupação passou pelo meu rosto. fui ao jogo de futebol. Havia pelo menos várias centenas de dólares em mercadoria ali. tudo bem. Afinal de contas. Sabia que Spencer estava olhando. Avistei-a toda enrolada em uma coberta com outras garotas quando fui até a grade que cercava o estacionamento. mas eu não conseguia rir. São desse tamanho — disse. Se você acha que não combina com Ação de Graças.— Eu sei disso — Connor sussurrou também. mas em vez disso perguntou: — Você vai ao jogo? Hoje é dia de campeonato. Só das de 20 dólares que vendemos às pessoas que moram em apartamentos. eu o tinha praticamente forçado a fazer isso por mim. Ou talvez apenas confuso. A família de Connor gastou muito dinheiro com aquelas coisas. — Queria ajudá-la. quando os jogadores mais novos saíram. Bee se aproximou toda contente: — Essas coisas são maravilhosas — mas então olhou para mim e argumentou de forma implacável: — Aquele garoto te salvou — ela não estava feliz com isso. Não tive tempo de me sentir culpada. Por favor? — Olhei por cima do ombro dele. Antes que me desse conta. — Falei para minha mãe do seu projeto e ela quis ajudar. aproximei-me para abraçá-lo. vai indo — disse Connor. colocando a mão na frente do meu nariz. — O que é isso? — Cupons para árvores de natal gratuitas. Mas parei porque a Srta. pensei que quisesse um beijo. — Muito obrigada. Então. Connor chegou mais perto. Brincalhão e meigo. Sabia que Autumn estava lá. Gostamos muito da sua ajuda. sabia que estavam vendo. E também sussurrou —. Ela queria que eu tivesse me salvado. Achei que você pudesse colocá-los nas cestas. Um jogador de futebol veio por trás de mim. Abotoei o casaco e enfiei os braços dentro para 144 . mas ele sorriu e disse: — Queria que você ganhasse alguma coisa do nosso acordo — era brincadeira. Connor pareceu magoado por um segundo. Mas ele se virou e foi embora. — Não temos que voltar ao vestiário antes que o treinador Fallon nos faça dar voltas extras no campo? — Claro. Soltei os braços. Apesar do restante dos alunos estarem descarregando as coisas das caixas. Ela não tinha tirado os olhos de Connor desde que ele havia chegado. sentia-me um pouco culpada. Já estava escuro e os holofotes iluminavam o campo.

— Não pensei que você gostasse de futebol. Bee já está suspeitando de alguma coisa. — Você não está me vendo aqui. Parecia que estava muito marcado. Não havia como negar o que Spencer tinha visto na biblioteca hoje. Mantive o olhar no campo. Ninguém sabe de nada. — Desculpe falar. Eu gosto de todo mundo. — Natalie. E quando as pessoas começam a falar não param mais. Virei-me para ver Spencer segurando duas xícaras de cidra de maçã fumegantes. deixando apenas os olhos de fora. Natalie. mas não tem como Connor saber que você está aqui. mas como Connor jogava na defesa. O chão congelava de forma dura e implacável. Era muito longe para conseguir ver todo mundo. falando sério. morrendo de tédio e quase congelando? Spencer riu. Peguei uma e comentei: — Não gosto. então escolhi uma delas aleatoriamente. Eu sei. Acredite em mim. Spencer olhou para mim como se eu fosse louca e comentou: — Não seja paranóica. — Por que você não me contou naquele dia? Havia várias razões. Além do mais. Ela riu. — O vento ficou mais forte e Spencer colocou o capuz do casaco por cima dos cachos. Spencer? Desse um beijo apaixonado nele? Oferecesse a ele uma masturbação gratuita? Se tivesse tratado Connor de forma diferente de todo mundo que doou alimentos. fazendo-me recuar o tempo todo. O cachecol estava enrolado no meu rosto. — Claro que não. Sou ótima para me apaixonar. Olhei pelo buraco da grade como se fosse um telescópio e disse: — Connor sabe. A Srta. — O que você esperava que eu fizesse. Ele sabe que estou aqui. Não conseguia sentir os pés. mas estava absolutamente congelante. Mas. — Pensei que você gostasse dele. por favor. 145 . Você está praticamente no estacionamento. E tudo o que estou tentando dizer é que você deveria fazer algo legal para ele. — Por favor.me aquecer. nem se aproximou da arquibancada. as pessoas iam começar a falar. estávamos perdendo. — Assistiria até a uma competição de xadrez se Connor Hughes estivesse participando. Queria assistir ao jogo todo por Connor. dava para vê-lo. E feio. Você não está torcendo por ele. não conte para ninguém. o que Connor fez hoje não foi brincadeira — ela bateu o dedo no meu peito e lembro — E você mal agradeceu! Senti a raiva tomando conta de mim.

E quanto mais pensava naquilo. menos convencida ficava também.Spencer não parecia convencida. A única coisa certa era que o frio subitamente tinha ficado mais forte. 146 .

soltando fumaça pelo nariz como se fossem balõezinhos de pensamento vazios. Senti-me exatamente como na primeira noite: com tontura. — O quarto dos meus pais — sussurrou. excitada. A casa inteira tinha um perfume doce e apimentado. Olhei para a casa dele ao longe. Connor apontou para o corredor. Passamos pela cozinha e pela sala de jantar com uma enorme mesa de madeira pintada de branco e um lustre de ferro com pequenos abajures de linho. Nunca mais vou jogar futebol novamente. Principalmente porque mal podia esperar para ver a reação de Connor. — Tem certeza de que não vamos ser pegos? — estava nervosa. não jogo mal como hoje — disse. Envolvi minhas mãos com as luvas de lã nas dele e o fiz parar. Ele apertou a minha mão e recomendou: — Fique perto de mim. Abriu a boca só um pouco e falou — Sério? — Está muito frio — disse. — Não acredito que a temporada acabou. 147 . mas sorrindo apesar disso. Fomos de fininho até a lateral da casa e entramos por uma porta dos fundos que dava para uma despensa cheia de sacos de arroz. E estava mesmo. Normalmente. — Que batalha. suspirando. rindo. assustada. nervosa. Connor ficou me esperando lá fora. Ele não me desapontou. — Quê? — por essa eu não esperava. E fez sinal para que eu subisse nas costas dele. Connor virou-se para olhar para mim.Capítulo 33 N aquela noite. hein? — Engraçado que no único jogo que você aparece nós perdemos. como uma torta de abóbora com cobertura extra de noz-moscada e cravo. Saí do carro e comecei a caminhar em direção ao depósito pisando a terra congelada do caminho. massa e potes de vidro com legumes enormes e vivos mergulhados em um líquido amarelo.

provavelmente estava no ensino fundamental II. Parecia uma linha do tempo. Ao lado. ajudando a mãe na cozinha. Seus passos eram leves e nada desajeitados conforme subíamos para o segundo andar. na neve. Acho que saíram para se encontrar com os amigos do ensino médio. o que por sinal não tinha nada de gracioso. Connor ficava mais velho. Depois Connor ficou mais velho. uma foto em que ele estava de avental. Só pode ter o barulho dos meus passos. — Carlie e Corinne estão em casa para o feriado de Ação de Graças. havia uma foto recente de Connor. Subi nas costas dele da forma mais graciosa possível. típico dos garotos — roupas espalhadas pelo chão. segurando a corda de um trenó antigo. — Você está bem? — Sim. empurrando duas de suas irmãs. Ele era um bebê de olhos vivos. passando em ritmo acelerado até aquele momento. Apesar dos machucados. queria admirar cada uma das fotos. a força de Connor me deixou surpresa. Você nunca pensa no quanto é pesada até alguém te carregar nas costas. Finalmente. as outras que ele havia carregado nas costas. Connor respirou fundo. ao lado do pai. uma pilha de revistas de esportes. apesar de tentar afastar esses pensamentos da cabeça. Quando chegamos ao topo da escada. Tapetes trançados cobriam o chão de madeira. — Parece que as suas irmãs aprontavam muito com você — sussurrei no ouvido dele. — Meus pais não conseguem ouvir a gente agora — disse com tanta convicção que não consegui evitar pensar nas outras garotas que ele tinha levado para o quarto. desci das costas dele. os dois segurando um machado nos ombros.— A escada é velha e barulhenta. Depois era um garoto de cara fechada. Apoiei o rosto na camisa de flanela dele e olhei para todas as fotos de família penduradas na parede. Rapidamente imaginei um quarto bagunçado. que eram bonitas. Ele agachou. É que judiaram bastante de mim hoje — Connor colocou os braços atrás das costas para fazer apoio e deixar o peso mais estável. 148 . — É. usando vestido e maquiagem. mas é melhor a gente ficar em silêncio. Queria ir devagar. talvez com 7 anos. Quando Connor colocou a mão na maçaneta. A cada retrato. rodeado por quatro meninas mais velhas que pareciam estar se divertindo muito. Ajudou. com uma cabeleira castanha que mais parecia um topete. percebi que não tinha pensado muito na aparência do quarto dele. talvez um pôster de carros de corrida ou de uma mulher de seios fartos segurando dois copos de cerveja nas mãos. daquele Connor que estava me carregando. Senti-me como um saco de batatas. Elas me forçaram a ser a Barbie delas durante anos. Mas o quarto de Connor não era nem um pouco assim.

As prateleiras não contavam com livros. E quando o toquei. mas impecável. nem como uma cantada ou uma mentira ou qualquer outra coisa que teria suposto na primeira vez em que ficamos juntos.As coisas estavam diferentes agora. forte. ele não ficou bravo. Eu tirei a mão dele. Frágil. Precisava estar com Connor. Senti um aroma de frescor. Dava para ver que Connor me viu exatamente da forma como queria ser vista. orçamentos. Não estava com medo da luz. Arrependi-me de ter dito isso. Tirei o casaco e pendurei na cadeira da escrivaninha. Não dava para senti-lo o bastante. Eu estava diferente. senti que minhas mãos eram pequenas demais. mas troféus de vários tamanhos. Não estava planejando transar com ele. coxas. Havia uma pilha de papéis — folhas espalhadas com números e cálculos mais difíceis do que os do meu livro de cálculo avançado. Também tirei a roupa de Connor. O espelho não possuía mancha alguma. Connor esticou a mão para desligar o abajur. mas estava confiante de uma forma como nunca tinha estado no depósito. projeções para o ano que vem — Connor sentou na cama e eu me sentei ao lado dele. Nenhuma luz. O corpo dele estava machucado. Olhou fundo em meus olhos e comentou: — Nunca uma garota como você. mas agora era tudo o que eu queria. do que Connor iria ver. — O que é isso? — perguntei. Estava apaixonada por ele. Ele arregalou os olhos sem acreditar no que estava vendo quando tirei a camiseta e a calça. Eles brilhavam sem poeira alguma. lábios. Não havia medo nem constrangimento.Era limpo. peito. Não queria espaço algum entre nossos corpos. só um vácuo. O momento era bem diferente do que havia imaginado. confiava nele me surpreendeu de forma acolhedora. nenhum ar. Fiquei em cima dele e deixei a gravidade pressionar nossos corpos um contra o outro. E não soou piegas. Não só limpo. Porque não queria pensar em Connor com outras garotas e por causa da forma como tinha ficado bravo quando falei sobre como ele havia perdido a virgindade. A percepção de que eu. entretanto. Dessa vez. Pensei que ficaria nervosa. Meu corpo. Bonita. como roupas que acabaram de sair da secadora. minha mente e tudo em mim gritava que essa era a coisa certa a ser feita. Ferido. Deitei-me ao lado dele e o toquei com muito cuidado. o tapete bege havia sido aspirado. segurar sua pele o bastante. implícita e incondicionalmente. 149 . — Não acredito que você está aqui — disse. Não queria mais me esconder. pronta para aceitar Connor pelo que ele realmente era — um bom rapaz que não faria nada para me magoar. Era pura liberação. apesar de todas as roupas dele estarem guardadas. — Planos de negócios. — Por quê? Você já trouxe muitas outras garotas aqui antes. abdômen. Desabotoei o sutiã e tirei a calcinha. mas tinha que tocá-lo.

Finalmente. por alguma razão. Tinha deixado Connor tão distante de mim por tanto tempo que ele não tinha a mínima ideia do quanto eu gostava dele. O mundo inteiro desmoronou e só havia Connor e eu. 150 . Só que agora. — Espere aí — ele afastou meus cabelos para que caíssem apenas sobre um dos ombros. Connor perguntava baixinho se estava tudo bem. por conceitos clínicos. — Você tem algo que podemos usar? — sussurrei. — Você não está fazendo isso por causa de hoje. as ações que fisicamente aconteceriam entre nós. Poderia ter chorado. as aulas de saúde fornecem livros com ilustrações das partes e dos procedimentos. A euforia absoluta de saber que Connor e eu não tínhamos como ficar mais próximos fisicamente um do outro. Sexo é algo que aprendemos de forma abstrata. mas dava para ver que o que estávamos fazendo era diferente do que ele já tinha feito com outras garotas. Era a única coisa que queria. Senti-me tomada por essa liberdade de expressão dos sentimentos que tinha tentado esconder de toda forma. As camisinhas vêm com instrução. Parecia que estava mais inseguro do que eu. Meus sentimentos estavam trancados naquele depósito porque estava com medo demais de expressa-los. Parei de tentar me impedir de algo que queria desesperadamente. — Não é por isso.E a clareza desse fato impulsionou uma avalanche. suas mãos trêmulas segurando-se em mim como se estivesse sem equilíbrio. não estava com medo de mostrar a ele o que sentia. Ele era mais experiente. está? Das cestas de Ação de Graças? Porque não quero que seja por isso. Sabia como deviam ser as coisas.

Capítulo 34 A cordei com o sol da manhã no meu rosto e o braço de Connor por cima do meu peito. Eu já estava de pé. xingando baixinho. Connor vestiu uma calça de moletom e uma camiseta. Connor abriu um pouco a porta do quarto. A calcinha e o sutiã estavam gelados por terem passado a noite no chão. Ele parecia cansado demais para falar e eu estava acordada demais para conseguir encontrar o que dizer entre as milhares de palavras que rodeavam a minha cabeça como um alarme. Então vou entrar na cozinha e distrair a minha mãe enquanto você sai pela porta da frente. Não era arrependimento. colocando as roupas. Agora. Era dia de Ação de Graças. olhou para o relógio. Como vou sair daqui? — Sabia que falava como uma louca em pânico. Meu coração estava apertado. E então me levantei. Precisava voltar para minha casa antes que meus pais percebessem que não estava lá. mas a mamãe sempre acordava mais cedo para fazer uma torta. desconfortável demais. Connor levantou a cabeça. Era frio demais. Talvez tinha razão de ser assim. Vamos fazer o seguinte. Droga. Um acidente como esse jamais teria acontecido no depósito. Absolutamente. E era mesmo. Sentiu o aroma que vinha do corredor — Minha mãe já está Cozinhando. 151 . como costumava ser quando nos escondíamos no depósito. Mas todos os sentimentos maravilhosos da noite anterior tinham sido substituídos por medo. — Tenho que sair daqui. — Preciso ir. pareceu-me a melhor coisa do mundo. Geralmente íamos para casa da tia Doreen. Mal conseguia olhar para Connor. Não falamos um com o outro. Connor levantou as mãos para o alto e disse: — Tudo bem. não exatamente. Por um segundo. Vou te levar no colo até lá embaixo. Aquilo não era nem um pouco divertido ou excitante.

— Senti o cheiro da comida. Meu carro estava coberto. fui na ponta dos pés e abri a porta. quando saio da casa de Connor. Saí e fechei a porta atrás de mim com mais força do que pretendia. depois o empurrei para a cozinha. Saí correndo em direção ao carro. Connor me pôs no chão quando chegamos ao pé da escada. Pensei que talvez fosse Connor. A porta da frente estava logo ali. Meu celular tocava. fazia meus tornozelos queimarem. Verifiquei minhas chamadas perdidas. tentei. O frio me atingiu como um tapa. o rosto. estou acabando de fazer panquecas. — Você acordou cedo. Ouvi passos na escada atrás de mim. Ou pelo menos.. Então. Connor desapareceu e eu fiquei parada até ouvi-lo conversar com a mãe. Hughes estava na varanda. Tentei centenas de combinações com o fecho e não parava de empurrar com toda a força. A Sra. — Escuta. — Bem. — Mando uma mensagem para você mais tarde — sussurrei também. O branco refletia por toda a parte.. — Sim. A trava finalmente abriu e puxei a porta. mamãe. 152 . Mas estava trancada. A neve molhava as minhas pernas. liguei o carro e acelerei. Minha mão estava fria e úmida na maçaneta de metal. Tinha nevado bastante durante a noite. vendo-me ir embora. eu. sinto-me melhor do que quando chego. Então entrei com tudo. Geralmente. Mas dessa vez não. deixando marcas de sapato na neve. olhei para a casa. Quando estava saindo. — Tudo bem — ele sussurrou. onde as irmãs de Connor deveriam estar dormindo. A maçaneta enroscou.Dava para ouvir a mãe de Connor com as panelas da cozinha chiando quando ele me carregou para baixo. provas por todo o caminho. Ele e a claridade. — Connor? — ela chamou. estava tudo vermelho em mim. Lá em cima. Ele parou e senti como se o ritmo dos nossos corações acelerados fosse um só. mas eram os meus pais. Vá acordar suas irmãs e seu pai. Ouvi o barulho de descarga. Enfiei as mãos dentro do casaco e limpei apenas o suficiente para enxergar. E aparentemente ela também conseguia ouvi-lo. O número da minha casa apareceu inúmeras vezes desde as cinco da manhã. as mãos.

Ela não estava acreditando exatamente em mim. Tentei pensar em um plano.Estacionei no acostamento. — Estava na casa da Autumn e peguei no sono. mas estava. Porque estava mentindo e porque queria que a minha mentira fosse verdadeira. Minha mãe estava chorando. estava pensando nas mentiras para acobertar o fato de que aquilo tinha acontecido. E Autumn me convidou para ir até a casa dela para que pudéssemos conversar pessoalmente. Meu pai estava tenso. — Sinto muito — disse. mas dava para ver que queria acreditar. Eles exigiram saber onde eu estava. Se jogando em mim. Como os tinha decepcionado. Não sabia se estavam procurando por algo do tipo ―Notícia Urgente: garota da região encontrada morta em uma vala‖ Eles pareciam mais pálidos. E eu estava com sorte: por causa da minha briga com Autumn. Liguei para ela ontem à noite para finalmente conversarmos. — Achei que você não estivesse conversando com a Autumn — a voz da mamãe estava estranha. Eu só pensava no que tinha feito com Connor. assistindo a um daqueles canais 24 horas de notícias. Choramos muito. limpei o restante do pára-brisa e deixei o aquecedor ligado. foi exaustivo e acabei dormindo por lá. Sinto muito mesmo. A forma como olhavam para mim me dava vontade de vomitar. Mas em vez de curtir as lembranças. Meus pais estavam sentados no sofá. — Nós fizemos as pazes. com lágrimas nos olhos. Eles me deram mais um abraço antes de me colocar de castigo. vislumbrava o toque da pele e o calor aconchegante. 153 . Os dois vieram correndo até mim. mais velhos do que jamais os tinha visto. A alegria por simplesmente saberem que estava viva rapidamente desapareceu. me abraçando e me olhando todinha. Não tinha percebido que estava chorando. aparentemente a mamãe não tinha telefonado para ver se eu estava lá. Como pareciam terrivelmente preocupados.

Primeiro eram mensagens de desculpa e preocupação. parecendo levemente mais desesperado a cada mensagem. Queria poder me desligar também. E bravo. Todas as outras pessoas na minha vida faziam com que minha relação com Connor desestabilizasse. Onze no total. O tom era diferente a cada uma delas. perceber o quanto as outras pessoas julgariam o que eu havia feito estragava tudo. Eu era uma péssima mentirosa. no início das aulas. Estava tudo bem no depósito. Havia muitas mensagens de texto de Connor. Por mais certo que o fato de dormir com Connor tivesse parecido no momento. escondida no quarto de Connor.Capítulo 35 C onnor me mandou várias mensagens durante todo o feriado de Ação de Graças. Que outra escolha podiam fazer? Não queriam pensar que a filha deles era capaz de fazer as coisas que fez. mas tinham engolido a história. como desculpe e seus pais estavam acordados? Escrevi de volta: Estou bem. Não liguei o telefone novamente até segunda-feira. Não depois de ter mentido para eles com tanta facilidade. Mal conseguia olhar para os meus pais. Só que na vida real não existe um lugar assim. Nem eu mesma queria pensar que era capaz de fazer essas coisas também. onde éramos só nós dois em um local livre de julgamentos. Minha caixa de mensagens de voz tinha várias ligações interrompidas. Absolutamente. Por que você está me ignorando? E na defensiva. Só me diga se você está bem. Eu não fiz nada! Ele estava certo. 154 . E desliguei o telefone. Não tinha feito mesmo.

Entretanto. conseguia ver o corredor em que Dipak. você quer que a gente junte as mesas ou quer fileiras? — Qualquer coisa — disse. então me concentrei no bigode do Martin para tentar ler os lábios dele. Na oitava aula. Só que dessa vez não estava sendo paranóica. Essa percepção fez 155 . transcendendo grupos e panelinhas. um olhar de quem sabia de alguma coisa. levantando os pés para que pudesse ver por cima da cabeça dela —. pode escolher. quando Walter Desmon teve uma ereção na aula de natação e se recusou a sair da piscina por quinze minutos. Era mais um olhar de confirmação. Não era exatamente um olhar de raiva. Dei uma olhada na biblioteca. Martin e David estavam reunidos. mas não dava para acreditar que ele faria algo assim. parcialmente embrulhada nas dobras de uma enorme bandeira dos Estados Unidos. Marci e mais umas outras garotas estavam cochichando na maior agitação. As lâmpadas de aquecimento não adiantavam nada. pois subitamente três cabeças jogaram-se para trás. — Tudo bem! A Natalie disse que podemos arrumar as mesas hoje. Só temos literalmente cinco minutos para comer a fatia. Os garotos gritavam ―Uau!‖ e tomavam fôlego entre as risadas. que vai estar no máximo morna. pois estava muito irritada com a minha pizza que esfriava. Estavam tão compenetradas que nem perceberam que bloqueavam os caixas totalmente.Autumn parou de cochichar e me lançou um olhar. como punição por não ter respondido às mensagens dele? Sabia que ele estava bravo comigo. aparecendo bem à minha frente — Ah. foi totalmente desnecessário. Então vocês querem votar? Agora tinha conversa demais na biblioteca para que pudesse ouvir o que falavam. que se virou para os demais alunos que vieram à reunião. — Natalie? — disse Susan Choi. Fiquei bufando e reclamando enquanto me apertava para passar no meio delas para chegar ao caixa. — Legal! — disse Susan. Meu estômago revirou. Como se eu estivesse envolvida. Parecia o tipo de fofoca que literalmente pega fogo. de alguma forma. Passou disso. Nunca dá para comer pizza quente na escola. já era.Percebi que as pessoas estavam comentando sobre alguma coisa na hora do almoço. Cheguei até a dizer ―com licença‖ de um jeito bem arrogante. Passei o restante do dia observando as pessoas e os seus comentários. Será que Connor tinha contado aos outros o que tínhamos feito. cochichando. Se esticasse a cabeça até doer o pescoço. Claro que tinha esses ataques de pânico desde que havia começado a ficar com Connor. Autumn. Ao passar por elas. na história que elas estavam contando. Foi então que comecei a ficar nervosa. Estava na fila da lanchonete. Fiz tanto esforço para ouvir o que falavam que meus ouvidos até zumbiram. era óbvio que o assunto de toda a Academia Ross era algo extremamente apimentado. O mesmo que tinha acontecido ano passado.

de alguma forma.A menos que ela faça esse tipo de coisa o tempo todo — o significado das palavras dela pairava no ar. Balancei a cabeça. Decepção. tomar uma decisão estúpida. vai ser difícil descobrir .retorceu os lábios e completou —. logo vai saber. Olhei para Susan. me mostrou — ela falou como se tivesse orgulho de ter visto. milagrosamente tinha escapado ilesa dessa vez. — A Spencer sabe disso? — perguntei. contudo. Senti muitas coisas diferentes. Eu a vi sentada no colo de um garoto do segundo ano na hora do almoço. — Posso falar com você um segundo antes da reunião? — Que foi. Lembrei-me do momento em que Autumn me contou sobre ela e Chad Rivington. é realmente desagradável. Que. Não podia acreditar em meus ouvidos. já que são amigas.com que minhas pernas tremessem ao ver os garotos vindo para a biblioteca. — É meio tarde para isso. é provável que você seja a única pessoa da escola que não tenha visto. — Se você quiser ver. Vergonha por Spencer. Susan voltou e disse: — Natalie? — ela mordeu os lábios e olhou ao redor. Susan balançou a cabeça e falou: — Não tenho certeza. E dava para perceber que nenhum dos três queria olhar nos meus olhos ao passarem por mim. 156 . uma foto da Spencer nua está circulando entre os celulares de todo mundo. — Queria saber se ela sabe quem tirou a foto. senti o maior alívio por saber que não era de mim que as pessoas estavam falando. Susan? — Tem uma coisa que preciso te contar — respirou fundo e arrumou a franja —. Raiva. pode pedir para o Dipak. Ele tem no celular. Só é preciso errar uma vez. é com essa rapidez que a percepção das pessoas muda. No fim da reunião. Por outro lado. Mas se ela não sabe. pegando pimentão do sanduíche dele. Ela estava julgando de forma bem incisiva para alguém que idolatrava Spencer completamente há algumas semanas. quando não consegui acreditar que uma amiga minha pudesse fazer algo tão estúpido. — Acho que foi encaminhada e reencaminhada muitas vezes a essa altura. Susan deu de ombros e respondeu: — Talvez. Mais do que qualquer coisa. —Você tá brincando? Susan sorriu e comentou: — Achei que quisesse saber. em dúvida. E também não quero que as outras pessoas fiquem olhando. O telefone de todo mundo tem a foto. — Não quero ver uma foto de Spencer nua.

Ficamos ali. por um só momento. Não conseguia olhar para mim e eu também não levantei meu olhar em sua direção. Então. suspirando. No meio de tudo isso. Já era o nosso depósito. mas ele atendeu no segundo toque. Parece um retomo. — Por onde você andou? Telefonei para você o fim de semana todo. olhando para os pés um do outro. à esquerda. Eu. Em como eles eram felizes. E então. na neve. Durante toda a reunião. que ficou pior quando saí do carro. não sei. Não fiquei surpresa. tudo virou vergonha. então a gente só conversa quando você quer conversar? — ele estava muito bravo mesmo. Tive um pressentimento ruim no caminho. Senti a reprovação no silêncio dele que em seguida desligou o telefone. — Precisamos conversar. Não conheciam nada além da alegria. Estava com certo medo de que ele não fosse atender. Abrimos para o Natal um dia depois da Ação de Graças — disse. Tudo estava arruinado. Ele pegou o telefone e começou a gritar comigo. subitamente. como se esperassem receber a foto. Silêncio. — Ah. lembrando da mãe dele olhando para mim da varanda. Mas não pegou bem. Deu para ouvi-lo pensar alto. — parei de falar e perguntei: — Onde podemos nos encontrar? — Alguns clientes estão na fazenda agora.. Senti como se um esparadrapo tivesse sido arrancado com tudo. fui direto para o meu carro e telefonei para Connor. Pode ser que eles nem soubessem o que estava acontecendo. — Não achava que fosse possível nossos encontros ficarem ainda mais sombrios — falei brincando já que as coisas entre nós estavam estranhas e queria deixá-las menos tensas. veio a hesitação. — Desculpe. as pessoas ficavam olhando no celular. — Há uma estradinha de terra antes da minha casa. mas necessário. 157 . resolvi ser a primeira a dizer. Chego lá em dez minutos. brincando nus pelo jardim. acabei pensando em Adão e Eva.. Dava para sentir que ele estava tentando juntar coragem para dizer alguma coisa. — Tive que guardar o saco de dormir e todo o resto. Estranhamento. Connor estava encostado no pára-choque da caminhonete dele. — Não quero ir à sua casa — falei. E então.Spencer não apareceu na reunião do conselho estudantil. Cruel. Depois da reunião.

Me deixa ver! — Por que você quer ver? — Porque ela é minha amiga. mas ele esticou o braço lá no alto. mas isso só me deixava triste. dava para ver tudo. você viu? Ele estava completamente confuso. pingando e implorando por um picolé foi que percebi. Os cachos. 158 . toda molhada. Nada podia ter me preparado para ver Spencer daquele jeito em uma minúscula tela de pixel. os seios nus bem na frente do fotógrafo. Ela não era poderosa. Uns garotos do bairro vieram brincar também. — Vai. Ela não era nada do que achava que fosse. Spencer tinha um tecido preso atrás do pescoço. O único que não estava sujo era o do verão passado quando Spencer era bem menor. — Vi o quê? — A foto da Spencer. então disse para vestir o maiô. Minha mente viajou até o verão em que fui sua babá. Só quando Spencer se aproximou de mim. E. Tentei pegar. Você só viu ou tem a foto? Ele tirou o telefone do bolso. Senti meu coração partir e implorei: — Mostra para mim. As crianças eram inocentes naquela época. Ela queria dançar no meio dos jatos de água do jardim. A não ser que isso me deixe ainda mais encrencado. As alças estavam curtas. Mal cobria o corpo dela. — Então é melhor você não ver. Não notaram nem ligaram. Reconheci na hora: era a camisola xadrez. Spencer se achava sexy. Mas fiquei incomodada. Dei um tapinha no braço dele dizendo: — Não tem graça. Corri para dentro de casa e fiz Spencer colocar uma camiseta por cima. — Talvez. E então descobri quem tinha tirado a foto. Não tinha o controle das coisas. Atrás dela havia várias bancadas de laboratório. Forcei-me a olhar para a foto novamente.— Então. ao fazer isso. parecia que estava tirando algo dela em vez de cobri-la. Ele apertou uns botões e me passou o telefone. um armário cheio de tubos de ensaio. toda a frente estava curta demais. Ia devolver o telefone quando percebi uma coisa. os lábios retorcidos. porque sabia que não estava certo.

Spencer vai fazer o que tiver que fazer. Não seu. — Olha só. Porque Spencer já sabia que isso ia acabar acontecendo depois do que ela fez com ele no cinema? Porque Spencer pode fazer o que ela quiser? Porque não é da sua conta? Não dava para acreditar que Connor estava dizendo aquilo. Era como se tivesse tirado a máscara que sempre suspeitei que estivesse usando. — Quem falou? — virei-me e fui voltando para o carro. Posso proteger a mim mesma. não se envolva. E fofoca. Pode ser que você nem ligue. Você não é dona dela. E culpa. — Quê? — Mike tirou essa foto. como se não fizesse a mínima ideia do que eu estava falando.— Mike Domski. — Por que não? Ele deixou a cabeça cair para trás. — Você não pode contar isso para ninguém. Isso só gerou confusão. vi Mike saindo do laboratório com aquele sorriso nojento. Posso entender isso. — Por favor. Se ela quiser contar para alguém. é problema dela. Como mágoa. Estou cansada de me divertir. — O que você quer dizer com isso? Não preciso que você me proteja. Olhei para Connor e disse: — Como foi que nunca vi que você é tão cretino quando Mike Domski? — Você está com raiva. nem quando tenho que desistir da minha vida para poder ficar com você. Sei que foi ele. Estou tentando proteger você. Na noite em que dormimos na escola. — Você está brincando comigo? — Sério. Connor? Estamos nos divertindo. — Sei lá. — Sabe o que eu acho? Que você está usando Spencer com uma desculpa para não ter que lidar com o que está acontecendo entre nós. Connor olhou para mim sem entender nada.não dá para ver? — Devolvi o telefone dele dizendo: — Deixa de ser divertido e se transforma em outras coisas. Porque é isso o que acontece . Mas não desconte em mim. certo? Bem. — O que está acontecendo entre nós. Connor segurou meu braço. Não quando tenho que mentir para os meus pais. E mau juízo. quer saber de uma coisa? Não estou mais me divertindo. E Deus sabe que 159 . Sterling.

não. 160 .Mike Domski não está nem aí. — Sterling. E de qualquer forma.. Suas palavras atingiram as minhas costas. mas sabe de uma coisa? Sinto que esperei por esse momento a vida toda. pois fui embora. era tarde demais para não. Mas eu me importo. Porque nosso não já havia acontecido. Sei que você não quer que eu o confronte diretamente..

Fui direto ao estacionamento. Spencer não olhou para mim e respondeu: — Estou bem. mas eu não me importava. — Com licença? — disse à secretária com o tom de voz mais educado possível. mas a encontrei a alguns quarteirões da escola. Quando cheguei à escola no dia seguinte. Parei o carro e arrisquei dizendo. pensando no que ela havia feito com Mike Domski. fui para o meu carro. 161 . Tive que dirigir um pouco. conversando com a secretária. E. esperando para atravessar a rua. — Quando? — Há uns quinze minutos. ao ver que Spencer não estava lá. Droga. Só que ela não apareceu. — A secretária se aproximou da pequena samambaia que ficava em sua mesa e comentou: — O diretor Hurley ficou sabendo da foto. Fui até o escritório principal. mas não consegui me lembrar qual era o edifício em que a havia deixado. Fui para aula de química avançada. — Mas você poderia me dizer se Spencer Biddle veio hoje? Eu tenho que dar a ela um recado especial do conselho estudantil e não consigo encontrá-la. Era bem de frente para a sala em que Spencer tinha tirado a famigerada foto. Quinn? Posso ir ao banheiro? Ele pareceu irritado com meu pedido repentino. Fui de carro até o condomínio dela. Sentei-me no chão até tocar o sinal da primeira aula. — Vamos. O diretor Hurley estava lá. — Sr. Esperei para falar com ela assim que ele entrou no escritório e fechou a porta. — Spencer foi suspensa hoje de manhã. Obrigada mesmo assim.Capítulo 36 S pencer não atendeu a nenhum dos meus telefonemas. Era óbvio que estava me evitando. Entre. Senti-me mal ao olhar para o espaço aberto. mas acabou me dando um passe para o corredor. montei acampamento no armário dela. Sabia que ela não iria falar comigo sobre isso.

162 . Spencer! Eu vi quando ele saiu de fininho do laboratório. Acho que deve ter sido a gota d'água. não seria justo? Ele se aproveitou de você. — Vai ser quando você começar a procurar uma faculdade! Quer dizer. está bem? Porque não estou nem aí. não seja infantil. fique fora desse assunto. — Olha. Ele não me forçou. — Foi sim. — Não foi — ela disse. então ele também deveria. Spencer. Um calouro fez ontem de manhã. acho até engraçada a maneira como todos estão se movimentando por causa disso. — Natalie.Todo mundo tá fazendo. Foi a primeira vez que vi a garotinha. O ar de ousadia se esvaiu na hora. Eu estava soltando fogo pelas ventas. — E isso dá a Mike total liberdade para te explorar? Spencer. Só quero ir embora. Sei que foi Mike Domski. Era óbvio que ela estava fazendo cena. foi o que me disse. mas os garotos também. Não só as garotas. acabou. eu ainda sinto medo do C+ que tirei em economia doméstica no segundo ano. — Eu quis posar para a foto. Ela penteou os cabelos para trás. e achei que Mike fosse explodir. — Se você vai se encrencar por causa disso. — Engraçada? Suspensão é engraçada? — Uma semana de suspensão não é nada. Deixe-me levá-la para casa. você está acobertando ele? — A foto era apenas parte do meu plano para que ele abaixasse as calças no cinema. não é? Quer dizer. Por que você fez uma coisa tão idiota? E por que. pensei que ele tivesse apagado a foto. — Você sabia que Mike Domski era um canalha. Ele só fez isso para se vingar de mim. aquela de quem costumava ser babá. — Sei quem tirou a foto.— Spencer. mas aí. — Então. Entregue-o. Mike e eu estamos quites.. Honestamente.. se vingue dele. você se deu mal por causa do que ele fez. E você tá de pijama na foto. em nome de Deus. Tive que fazê-lo pensar que estava interessada. Pensei que já tivesse passado. — O quê? — Aquele aceno do dedinho que inventei. não tenho planos de ir para Harvard. Honestamente. — Bem. Pelo menos. — Queria vomitar ao pensar nela com ele. Spencer. Depois de um longo suspiro ela veio até o cano e se inclinou na janela: — Não quero que você me dê sermão. então está tudo bem. ugh.

Spencer passaria a ser a vítima. Porque geralmente os Mike Domskis da vida sempre ganham. mais tarde naquele dia. — Adoro a forma como você está basicamente me chamando de piranha. — Ir embora? Você passou na mão da escola toda! Você não tem respeito próprio? — Claro que tenho — disse. problema dela.Eu ri. E então. Agora o meu tom é que estava afiado. Ou você está usando ele. De uma forma ou de outra. do nada. E esse era um papel que ela não queria desempenhar. delatando-o por ter feito isso. você é uma grande farsa. Mas acusando Mike. é bem melhor que eu. Eu tinha mesmo que voltar para a escola. mas você está fazendo exatamente a mesma coisa com Connor. sabia que tinha que fazer a coisa certa. E tinha que ter esperança de que Spencer me agradecesse por isso mais tarde. Entretanto. entendi por que Spencer não ia dizer nada. deixaria claro que realmente tinha um problema com ele. Talvez Spencer não tivesse coragem de enfrentar Mike Domski. — Você está deixando Connor Hughes usar você. De súbito. viveria muito bem com a história da foto sem roupa. ` De qualquer forma. — Não sou nem um pouco igual a você. Ou então era algo ainda mais simples. — Que pena! Você parece estar precisando de uma! Para mim bastava. Spencer! Ela começou a rir. vi Mike Domski na hora do almoço dando o maior sorriso quando as pessoas vinham pedir para ver seu celular. e ela foi logo ter raiva de mim. Se ela conseguisse manter Mike fora disso. Spencer. Você age como se fosse boa demais e só porque você namora Connor às escondidas. Você não é mais a minha babá. — Não é a mesma coisa. É mais fácil mesmo ficar brava comigo do que com você mesma. Acelerei o carro e prometi a mim mesma que não ia mais me envolver. — Você não aprendeu nada do que te ensinei? Sei que você consegue entender. Nem um pouco. 163 . incisiva. Spencer que voltasse para casa no frio que eu não estava nem aí. Com tantas pessoas para ficar com raiva. Se Spencer queria destruir sua vida. — Me deixe em paz.

. Ele tirou a foto. claro. fui ao escritório do diretor Hurley. — Vou ter uma conversa com ele — disse o diretor Hurley —. — Não estou dizendo que o senhor deveria fazer isso. colocando o telefone no gancho. dizendo: — Foi a Spencer quem quebrou as regras.. mas a ignorei e abri a porta mesmo assim. Eu mal conseguia ficar sentada.. — Então é isso? O senhor vai suspender Spencer. — Certamente não vou conduzir uma caça às bruxas para tentar descobrir todos os envolvidos. mas. — Sim. Foi Mike Domski. Fui logo dizendo: — Sei quem tirou a foto de Spencer nua. aproximando-se de mim e disse naquele seu tom tão indefeso que chegava a ser ridículo para um diretor: — E o que você sugere que eu faça? Não era óbvio? Mike deveria receber o mesmo que Spencer tinha recebido. apesar de duvidar que ele confesse.. foi Spencer quem se expôs dentro do ambiente escolar. — Talvez ele tenha tirado. Uma semana de suspensão. Bem. você precisa de um passe para voltar para a aula? — Não precisava de um 164 . A secretária disse que ele estava ocupado.Capítulo 37 A ssim que acabei de comer. — E tenho certeza de que Mike Domski não foi o único a encaminhar a fotografia. não haveria nenhuma foto a ser tirada. já que Spencer se recusa a envolver o fotógrafo. — Sim. Nem dei chance de ele perguntar o que eu estava fazendo lá. — Ligo para você depois — ele disse. Se ela não tivesse feito isso. mas. Mas como acabei de dizer. foi Mike Domski quem começou tudo isso. E de qualquer forma. mas Mike só vai receber um tapinha na mão. Mas será a sua palavra contra a dele. Ele se inclinou na mesa. O diretor Hurley balançou a cabeça. Foi ela quem tirou a roupa.

Talvez a Srta.passe. Cuidei disso sozinha. Tinha que defendê-la. Parecia que apenas tinha conseguido protelar a chateação dela. Ela franziu a testa. Respirei. — Alguns rapazes entraram escondido na noite das garotas. — Natalie. Ela foi suspensa. E dá para ver que a foto foi tirada no laboratório de ciências. A senhora poderia dizer a ele que Mike deveria ser responsabilizado da mesma forma que Spencer. Ele a ouviria. volte imediatamente para a aula ou vou ter que te dar uma advertência. — Natalie. Mas temo que dessa vez ela vai ter que sofrer a punição. — Fiz o que ela mandou. — Ah? Você cuidou? — disse a Srta. A Srta. depois que a senhora foi dormir. seja qual for a decisão do diretor Hurley — disse. E isso é completamente. respire. — Natalie. que pareceu chocada com a minha interrupção. Bee fechou a porta da sala. estava dando aula. e eu a apoiei nisso. Mas isso não vai livrar a barra da sua amiga. Você tentou ajudá-la depois daquele episódio ridículo da camiseta ―Rosstituta‖. E então percebi que também ia ficar encrencada. totalmente injusto. Você tem que ajudá-la. você tem sorte de não ter sido oficialmente envolvida nisso. E então repeti tudo devagar. Agora. 165 . — Não estou entendendo — mas ela estava entendendo. Fui direto ao escritório da Srta. Quando terminei de contar. para dizer o mínimo. Não queria chateá-la. Andei pelos corredores e finalmente a vi em uma das salas. ela perguntou: — Como você sabe que foi ele? — Porque Spencer estava usando o pijama que ela trouxe para a noite das garotas. — Sim? — Mike Domski enviou uma foto de Spencer nua. Fiz com que fossem embora. — Por favor. — O que eu tenho de fazer é voltar para a minha aula. — Certamente. Bati na porta e chamei por ela. e foi exatamente lá que encontrei Mike Domski escondido. Domski será investigada. Mas ela não estava lá. Bee. Agora diga o que está acontecendo. Bee tivesse razão. mas Spencer era minha amiga. — A senhora tem influência sobre o diretor Hurley. verificarei se a participação do Sr. mas nada aconteceu com ele. Bee balançando a cabeça. uma pessoa como Spencer tem de aprender que suas ações têm conseqüências. enxugando uma gota de suor da testa. Pode ser que o diretor Hurley a suspenda também. Sei que sim.

já tinha visto isso acontecer antes com a Autumn. naquele momento. era impossível determinar de onde havia sido originada. E sobre o que você fez com Connor. Não havia saída digna para isso. sabia que eu estava envolvida. por deixar os garotos participarem da noite das garotas. O diretor Hurley deve ter mencionado o fato de haver uma testemunha. pior ainda. o diretor Hurley cumpriu sua palavra. E ele não quis perder tempo em se vingar de mim. é claro. sai correndo. Mas levei até a metade da quarta-feira para perceber que todo mundo estava falando de Mas. Afinal de contas. joguei meus livros no chão e corri. Nunca tive medo de Mike Domski antes. na verdade. Bee achava que eu era uma idiota por apoiar Spencer e. Quem sabe? Mas ele chamou Mike em seu escritório para uma conversa difícil. pois. Estava guardando meus livros depois da aula quando Mike veio direto ao meu ouvido e sussurrou: — Sei tudo sobre você. Já tinha desistido de ter esperança de que haveria algum tipo de justiça para Mike. provavelmente jamais falaria comigo novamente. ualquer um pensaria que eu teria percebido as coisas rapidamente. — Não sei do que você está falando — consegui dizer. E nenhum dos garotos da escola iria entregar Mike Domski. quando Mike saiu do escritório. Então. Contudo. E apenas dois dias antes com a Spencer. A Srta. E sabia que assim que Spencer tivesse descoberto que eu havia metido o nariz onde não fui chamada. estremeci. E a minha amizade com a Autumn parecia uma lembrança distante. Você acha que ele não me contou tudo? Praticamente sei como você é pelada. então achou melhor se envolver na história antes da polícia. vaca. 166 . estava totalmente confusa. Deixei a porta do meu armário aberta. como a história poderia ser provada?A foto foi enviada para tantos telefones celulares.Capítulo 38 Q mim. — Ele é meu melhor amigo. sua ninfomaníaca idiota. com certeza. Talvez ele tenha percebido que tirar fotos de garotas menores de idade nuas era ilegal. Sei desde a primeira vez que você foi até a casa dele. Connor e eu não estávamos mais nos falando. Mike negou tudo. E. Mas.

Eu também joguei na dele. — O quê? E que o quê? — Veja. Acho que até mais brava. e você não deixou. — Você é inacreditável — disse. foi exatamente o oposto. Como eu não estava lá. Parecia que ele nem tinha dormido. — Nunca quis nada disso. Confiei que você fosse deixar isso entre nós. Sua foto nua só foi motivo de vergonha por aproximadamente 48 horas e então a tocha passou para a minha mão.. Mas também queria que você não protegesse Mike e queria que a escola inteira não pensasse que sou vulgar.. mas ele tinha chegado mais cedo ainda. acabei salvando Spencer.. Nada. Você deixou todo mundo penetrar em nosso mundo particular. jogando na minha cara. da mesma forma que eu estava arrasada. sendo bem sarcástico na última frase. então a errada aqui sou eu? Mike tira fotos nuas de uma garota de 14 anos e eu fiz a coisa errada? — Não. Pensei que você se importasse comigo para nunca deixar que isso acontecesse. É que. Sterling. nesse momento quero matar o Mike. assim como eu também não tinha dormido. 167 . você foi logo contar para o Mike? — Mike é o meu melhor amigo. — E eu queria que Spencer tivesse mantido seus malditos seios cobertos. Era a primeira vez que o via tão bravo. Fiquei em casa doente no dia seguinte. Pode acreditar em mim. Não quero que ninguém veja a gente conversando. ninguém precisou cochichar.. — Ah. nunca quis ter nada a ver com você! Sabia que você. — Já te falei que não queria que ninguém soubesse o que estávamos fazendo! E. — Por favor — disse a ele —.De certa forma. Ele dava a impressão de estar bravo. — Me poupe. Ele estava apertando as mãos. achando que isso acalmaria um pouco as coisas. Começou com Connor vindo ao meu armário. me deixe em paz. Sexta-feira foi o pior dia de toda a minha vida. O cenho estava todo enrugado e uma veia estava bem proeminente. Ele não falou nada sobre o assunto até você o meter em encrenca! Falei para você não se envolver. Cheguei à escola bem cedo para evitar as pessoas. Na verdade. verdade. Mas estava tão brava quanto ele. do mesmo jeito que eu. queria que ele não tivesse feito isso. Ele parecia assustado. de todas as pessoas. Não vou forçá-la a se rebaixar ao meu nível — disse. mesmo.

Chorei bem ali. — Você só marcou mais um ponto. até mexer as pernas era difícil. está bem? Gostei de você desde o começo. Pareciam olhares bem pesados mesmo. Só quando ele foi embora é que comecei a chorar. de como as pessoas podiam ser terrivelmente cruéis. Então não venha querer fazer com que eu sei a malvada aqui. Mas eu. Senti-me patética. Mas eu gosto de você. Só quando todo mundo começou a chegar à escola é que me senti completamente sozinha. na frente da pia. Mas você não consegue perceber que a culpa é sua? Eu ri e disse: — Você é ótimo em animar as pessoas. Muito obrigada por fazer com que me sinta melhor. pois. — Porque você não deixaria chegar a algum lugar. Talvez você ainda pense assim. Permiti a mim mesmo sentir algo por você apesar de não saber como tudo acabaria. a presidente do conselho estudantil que virou vagabunda. 168 . o peso do olhar de todo mundo estava sobre mim. Ele se virou como se estivesse indo embora. sei que você não acredita que as coisas sejam assim nem por um segundo. — É tarde demais porque você está dizendo que é tarde demais. Mas sabe de uma coisa? Gostei de você mesmo assim. E pode interpretar a história da forma que quiser. sei que você tem um milhão de razões. Como é que Connor não conseguia ver? Ele tinha escapado da história toda ileso. tremia. por algum motivo. Olha. — É tarde demais — sussurrei. Foi a minha reputação que ficou manchada. não de você! — eu gritava. já sei. A maioria delas é verdadeira. Era perfeito demais. — Nunca chegaria a lugar nenhum. mas então voltou e disse: — Cansei de tentar convencê-la de quem eu sou e por que sou digno de você. Todo mundo está rindo de mim. Vá em frente e faça de mim o cara malvado para que você seja a boazinha.— Falei para você que precisava deixar as coisas em sigilo desde o começo. Mas não fazia ideia de como era de fato. É bem provável que depois da formatura não sejamos mais um casal. acha que não sou bom o bastante para você. ruins e cheias de julgamento. Corri para o banheiro feminino perto da sala dos professores para fugir. em como a havia protegido disso tudo. eu sou a piada. Sei que está tudo uma droga para você agora. Era uma loucura. Você vai embora de Liberty River e eu vou ficar aqui. Só que lá no fundo. Repeti: — É tarde demais. Pensei em Autumn. — Você é a única que fez com que parecesse que estávamos fazendo uma coisa errada. — Sinto muito. Para ele? Para mim? Nem sabia dizer. o tipo de história que todo o mundo adora contar. já entendi.

Bee dando um profundo suspiro de dor. Como é que podia achar que os professores não ficariam sabendo disso também? Afinal de contas. Fechei os olhos para parar de sentir o banheiro girando. Sabia muito bem que não devia ter me envolvido com alguém como Connor. Achei que ela fosse especial. — Não achei que ela fosse esse tipo de garota — corri para o respiro e me estiquei para escutar. — Ouvi duas das minhas alunas falando sobre ela na primeira aula ontem. — E de todas as pessoas. — Eu sei disso. Dediquei muito tempo e atenção a ela — disse a Srta. era minha culpa por estar nessa situação. essa é a pior parte. Queria me defender. a escola toda estava comentando. A Srta. Bee. Peguei um papel-toalha para enxugar o rosto. Jamais pensei que Natalie fizesse algo assim. Meu rosto todo estava vermelho e inchado. Bee estava certa.Tinha de aceitar. Tinha de sair do banheiro senão ia vomitar. Abaixei a cabeça para lavá-lo. Por mais que quisesse culpar Mike e Connor e Spencer. Estava áspero como uma lixa. Tinha noção dos riscos. só que não sabia. Devia ter sido mais esperta. 169 . ela vem aprontando demais. Outra professora concordou: — Natalie sempre me pareceu uma garota tão boa. Mas eu sou uma boa garota — tive vontade de gritar. Só que o que todo mundo pensava de mim nem chegava perto do quanto eu mesma me via com maus olhos. Eu sempre achei que soubesse que tipo de garota eu era. Pensei que ela fosse mais esperta. mas sabia que a Srta. Contudo. sendo amiga daquela Spencer. Sinto-me desolada com essa história toda. Connor Hughes. mas fiz mesmo assim. Quando fechei a torneira. devia ter sido várias outras coisas. ouvi uma voz inconfundível pelo respiro acima da minha cabeça.

passei mal. Depois da aula. Abri meu coração completamente. Bee os tinha imprimido. Com toda razão. Na segunda-feira. A pauta da reunião de hoje do conselho estudantil era finalizar os planos para a cerimônia em que meu retrato seria pendurado na parede da biblioteca. No primeiro rascunho. assim o evento poderia ser cancelado. Estava me humilhando para conseguir seu perdão. espero que considere minha demissão efetiva imediatamente. — Que diabo é isso. Atenciosamente. Bee. O próximo rascunho resumiu-se em apenas uma longa frase. fechei a porta do meu armário e lá estava Spencer. Estava dando desculpas quando na verdade a única culpada por tudo era eu mesma. Bee também pensaria da mesma forma. Natalie? — Onde você pegou isso? — perguntei. as pessoas ainda estavam falando de mim. mas não fez. Estava sendo infantil e sabia que a Srta. Coloquei a carta debaixo da porta dela. Naquele dia. Peguei os livros. acho. segurando a minha carta de demissão. Contei toda a longa e triste história entre mim e Autumn. Eu havia renunciado bem na hora.Capítulo 39 T inha esperança de que o fim de semana fizesse tudo desaparecer mas é claro que isso não aconteceu. A Srta. rascunhando minha carta de demissão para a Srta. Como tinha estragado tudo com Connor. junto com os preparativos de envio dos convites. Dava para ver isso pelas marcas das lágrimas e pela terrível caligrafia. Apesar de ter sido um prazer trabalhar com a senhora. arrancando das mãos dela. depois da aula. Natalie Sterling. fui até meu armário. o que eu precisava fazer ficou óbvio. falei demais sobre como estava decepcionada comigo mesma. 170 . Fiquei no carro na hora do almoço. Só que quando a reli. Pensei que a demissão faria com que me sentisse melhor.

E de forma extrema. — Então o problema é esse? Não é o sexo? Tive que pensar nisso um minuto. a realidade de que todo mundo na Academia Ross estava me julgando pelo que havia feito com Connor era horrível. Queria fingir que não me importo. Vamos ver. Bee.— Onde você acha? Fui até o escritório da Srta. Com Autumn. Você é a presidente! — Claro que posso — disse e saí com raiva pelo corredor. de pensar nas provocações de Mike Domski e no olhar de confiança dos 171 . de me preocupar em deixar a Srta. E fez a mesma coisa por Autumn. Spencer veio atrás de mim. E você sabe disso. por magia. Graças a Deus tirei isso de lá antes que ela visse. está bem? Almejei patamares altos demais para mim e fracassei. Bee orgulhosa de mim. Como. Spencer pegou a minha carta de demissão e a rasgou ao meio. Natalie. E era tudo verdade. ouvi a Srta. Respirei fundo para dizer algo. Bee. contanto que esse seja o seu julgamento de si mesma e não o dos outros. as lágrimas saltavam dos meus olhos. — Não. Tudinho. Com você — apesar de estar tentando ser sarcástica. Estraguei tudo com Connor. E sabe de uma coisa? Antes de você. mas desisti. O que me faz perguntar: quando é que você vai começar a apoiar a si mesma? Balancei a cabeça. você estava certa. preocupando-me apenas com o que penso de mim mesma. — Não é assim tão fácil. eu não teria me importado. — Você tem ideia do que fez? Eles vão enviar os convites da cerimônia do retrato hoje. Tinha vontade de estrangulá-la. naquele momento parei tudo. vou esquecer que a escola toda pensa que sou uma piranha hipócrita. não é o sexo — suspirei. Na verdade. Parei de pensar no que o restante da escola estava pensando. — Tudo bem. Spencer. — E tem mais uma coisa que eu sei — ela segurou meu braço e me fez olhar para ela. quem dirá para todos os outros da escola. Na verdade. Pare de sentir pena de si mesma! — Sinto mesmo pena de mim mesma! Você estava certa. — Você me apoiou quando ninguém mais o fez. Decepcionei todo mundo. Humm. Mas agora eu me importo. — Não é verdade. Com a Srta. Bee para deixar as lições que fiz durante a minha suspensão. — Então. — Você não pode sair do conselho estudantil. tá. — Natalie. Claro. Spencer! Nem consigo olhar para a Srta. Mas não era isso que estava me deixando de coração partido. — É o fato de ter magoado as pessoas que amo. Agora vou parecer ainda mais irresponsável por nem aparecer por lá! Spencer não saiu do lugar. — Não vou deixar você desistir de algo que sei que é importante para você. Bee no banheiro dizendo coisas terríveis sobre mim. O que fiz com Mike foi estúpido. — Fico muito feliz por você.

172 . Desliguei todo aquele barulho para me fazer uma simples pergunta: O que realmente importa para mim? E foi respondendo a essa pergunta que descobri a resposta.meus pais em relação a mim.

Era cruel viver um momento como os que costumavam ser a nossa amizade. Era como andar contra o vento espesso e pesado. e o aperto que sentia no corpo não foi embora. Tossi. Tentei ser corajosa e coloquei um pé na frente do outro. Autumn e eu sentamos uma de cada lado da cama. sorrindo. Ela ainda se importava comigo. Parei em frente ao pára-choque. pois não conseguia me segurar. Apoiei-me nela com todo o peso do meu corpo. Autumn procurava a chave extra que abria a porta dos fundos de casa. mas não consegui ouvir por causa dos meus soluços. Não conseguia respirar. Chorei porque não queria acordar. esperando que Autumn ainda não tivesse ido embora da escola. — Vou levar você para casa — disse Autumn ao sentar no banco do motorista. Um lembrete de que eu tinha realmente estragado tudo. um esforço. Ou talvez tenha se despedido. como se o vento gelado estivesse me congelando de dentro para fora. sentada no capô do carro com Marci e outras garotas. Autumn não se despediu de suas amigas. como uma balança ou uma gangorra. as coisas ficaram bem Como se eu tivesse chegado aonde precisava. Autumn me ajudou a sair do carro e caminhou comigo até a entrada. Quando não tinha mais lágrimas. Estavam com os vidros abertos para ouvir música. assistindo à minha luta. Os faróis estavam acesos e estreitei os olhos diante da luz. levantando-se. Chorei o caminho todo. Juntei fôlego suficiente para dizer — Isso está se transformando no pior pedido de desculpas — Nesse momento. O vento do inverno levou meus cabelos à boca quando a abri. Parecia um sonho. Percebi a preocupação em sua voz. Todo mundo percebeu que me aproximava.Capítulo 40 C orri para fora. Cada passo. — Está tudo bem — E o milagre foi o seguinte: assim que ela disse isso. Ela estava feliz. não que eu merecesse. um sonho muito bom para o pesadelo que estava vivendo. Ainda estava tentando organizar o que dizer bem no momento em que ela jogou o peso para o meu lado. Ela me fez entrar no carro e vi suas amigas indo em outra direção. Encontrei-a no estacionamento. 173 . Ficaram quietas. — Natalie — disse Autumn.

Mas estava tão envolvida com tudo. com o fato de como um garoto de quem gostava fazia com que me sentisse. ou como eu. que eu não era uma pessoa ruim. porque eu sou a rainha das decisões acertadas. Falou que não deveria mais me conter. Acho que e por isso que fiquei brava com você. era minha. havia uma vozinha na minha cabeça que me dizia para não ir. que achei que estivesse apaixonada por ele. Ele não se arrependia. Ele era exatamente o oposto de alguém como Chad Rivington. Porque a voz finalmente voltou e me disse que eu era superior à isca de peixe. E que você estava fazendo com que eu me sentisse uma pessoa ruim.. Não devia ter culpado você. E essa era a verdade nua e crua. Apesar de ser uma acusação amarga vinda da raiva de uma pessoa. — Eu sei. — Sim. talvez nada daquilo tivesse acontecido comigo. não iria ignorá-la. Estava brava por você se deixar magoar. mas não é impossível. — Não estou dizendo isso para ser maldosa. Nunca consegui entender como ele sempre estava seguro de si. Pensei em Connor e nas últimas palavras que ele me disse. — Eu sei. O que torna o que aconteceu ainda mais estranho — disse. mas não consigo acreditar que você tenha transado com Connor Hughes. Se tivesse ouvido aquela voz. não tinha como você saber que. E também não era a primeira vez que não a ouvia.. É mais difícil. você é uma garota inteligente. suspirando. mas agora conseguia. mas acho que lá no fundo sabra que Chad não era boa coisa. pois sempre agia com o coração. Era porque Connor realmente sabia a pessoa que era. Confio que tomará as decisões certas para si mesma. a forma como for dita soava como palavras calculadas por um advogado. — Eu quis — disse à Autumn. Os lábios dela começaram a tremer. quando na verdade eu era apenas uma garota que havia cometido um erro estúpido. e isso não era culpa sua. Concordei. — E eu costumava deixá-la bem perto de mim. Houve outras vezes. — Já pensei nisso um milhão de vezes. Não tinha outros amigos. Não foi sua culpa. 174 . Então prometi a mim mesma que se a ouvisse novamente. Um fato indicutível. Nunca fui boa em me abrir com as pessoas. mas não a ouvi.— Você nunca me perdoou pelo que aconteceu com Chad. Autumn pegou na minha mão. Como eu conseguia fazer com que as coisas fossem da forma que eu queria. — Mas Autumn. Era muita culpa para carregar por cima de tudo. — Bem. Natalie. — Viu?A melhor coisa em se tomar decisões erradas é que isso não a proíbe de acertar depois. Ela respirou fundo e tentou se recompor — Quando fui me encontrar com Chad no vestiário naquele dia.

175 .O tempo tinha ensinado a ela. E agora ela estava ensinando a mim.

posso falar com você? — Agora não posso. ajoelhou-se e começou a cortá-la. Sterling. A maioria deles eram minivans ou SUVs. Fui até ele e perguntei: — Por favor. parecendo pequenos flocos de confete. Mas não chegava nem perto do arrependimento bombástico que esperava sentir. Connor pegou o machado. 176 . Eu estava protegida pela minha parca e perguntava-me como ele não estava congelando quando percebi que uma das pessoas do grupo tinha escolhido uma árvore. por favor. Havia trânsito até a entrada para a casa. Estava magoada por ter estragado um momento bonito. As famílias esperavam pela sua vez de caminhar por entre as árvores. Percebi seus músculos flexionarem A árvore caiu na neve. A família aplaudiu. cheios de gente com gorros e cachecóis de lã. trabalhando duro. Ele só usava um casaco e um chapéu de esquiador. Vi Connor levar uma família de quatro pessoas pela neve. Um homem segurando uma lanterna orientava os carros no estacionamento. Connor prendeu uma corda no tronco e a arrastou pela neve para eles. A neve caía forte enquanto eu ia de carro até a casa de Connor. homens fortes empunhavam machados. Havia até uma rena em uma área cercada e as crianças a alimentavam com ração. Esperava que ele viesse falar comigo. Meu limpador de pára-brisa movimentava-se pelo gelo como um metrônomo. para ver o ato como algo compartilhado entre duas pessoas que se gostavam muito. crianças se vestiam de elfos. Um rapaz orientava o trânsito. mas desviou o olhar e continuou atendendo a família. estava confusa demais para ver as coisas boas que tínhamos feito juntos. A lojinha tocava músicas natalinas e havia uma mesa arrumada do lado de fora onde se podia comprar chocolate quente ou cidra quente de maçã para se manter aquecido. fazendo um som incrível. — Connor. A Fazenda de Árvores de Natal estava cheia de gente.Capítulo 41 E stava arrependida por ter transado com Connor? Um pouco. For aí que ele me viu. Lá estava ele no chão.

— Mesmo? — Mesmo. Mas não conhecia. estava concentrado nas pegadas que havíamos deixado na neve. — Porque isso tem sido a pior parte de tudo. — Não posso ficar com alguém que não me aceita pelo que sou. Fomos até a mesa da cidra. — Tudo bem — disse. da música festiva que tocava ao longe. Não sei se me reconheceu do Dia de Ação de Graças. Estava com medo de me envolver com você. éramos o centro do mundo. Já passei por isso antes. das árvores caindo. Estava com medo do julgamento das pessoas. Não entramos na casa. Pensar que você me odeia pelo que aconteceu. Dessa vez. Apesar de ter colocado toda a honestidade possível em minhas palavras. Connor e eu caminhamos. Deu para ver as lágrimas em seus olhos. quando tentei pegar sua mão. não mesmo. Ouvi sua mãe chamá-lo e ele também escutou. nos envolvemos antes de nos conhecermos. — E então. como meu namorado. Connor ainda parecia inseguro. o nosso silêncio era abafado pelos sons das famílias. com Bridget Roma. — Você tem que entender. — Mãe. como ficamos agora? — perguntou.Tenho certeza de que ele percebeu a dor em meu tom. E ele não olhava para mim. com chantili caseiro por cima. Ele não ergueu o olhar. vou fazer um intervalo rápido. eu achava que conhecia você. — Quero que você vá comigo na cerimônia do retrato. Ela olhou para mim. A lua estava baixa no céu e quase não havia luz para enxergarmos. mas ele não deixou. isso não chega nem perto do que aconteceu com a gente. E foi horrível — a voz dele ficou presa na garganta e ele inclinou a cabeça para trás. sem saber ao certo se era o que precisava dizer. Ficamos na mata e eu disse a ele o que precisava dizer. ele deixou. mas me ofereceu uma xícara de cidra e chocolate quente a Connor. onde a mãe dele estava sentada. Ficamos assim por um tempo. — Você se arrepende do que fizemos? — perguntou. sentindo o frio penetrante. não queria admitir que gostava de você. — Connor. Ele estava tremendo. Quer dizer. 177 . Não fomos para o depósito. — Quero me desculpar pela forma como agi. isso é novo para mim. E nós dois agimos errado. Tentei pegar na mão dele.

a garota que conta tudo para os pais ou a garota adorada pelos professores. a garota que tem o retrato na parede da biblioteca.— Vá — disse a ele. — Tem certeza? — Claro. 178 . Pareceu tão fácil e mesmo sabendo que nem sempre seria. a garota que entra na melhor faculdade. Tinha percebido isso agora e ia continuar percebendo pelos anos que vinham: não importa se eu for a garota que faz sexo. aos meus pensamentos. vá. Ouvi as vozes das pessoas ao longe. fiquei na mata. Ligo para você mais tarde. Mas principalmente estava atenta à minha respiração. Eu não fui embora logo em seguida. Só preciso ficar bem com todas as garotas que são como eu. Senti o frio em minha pele. ao meu passado. presente e futuro. pelo menos íamos tentar.

Todos do conselho estudantil apareceram. No fim das contas. Enquanto isso. Tinha de acreditar que a amizade entre eles ia acabar terminando mesmo. A forma como ela se orgulhava de mim era incrivelmente doce. Vi Connor ao lado da parede em que ficavam os retratos. Não sabia se algum dia eles conversariam novamente. Ela comprou uma toalha de mesa bonita. ainda sentia o peso do término de uma amizade por conta do segredo que havia tentando esconder. ocorreram outras discussões antes de mim. era isso o que Connor dizia sempre quando eu mencionava Mike. só que nenhuma tão séria assim. pois as coisas tinham definitivamente ficado tensas no círculo de amizades de Connor. transformando-se na líder do comitê de decoração. precisava confiar que Connor faria o que fosse melhor para ele. sabendo que em algumas semanas eu receberia notícias de alguma faculdade. Por mais que odiasse Mike e jamais fosse perdoar-lhe pelas suas atitudes comigo e com minhas amigas. Spencer tinha se colocado à frente. Talvez Connor dissesse isso para fazer com que me sentisse melhor. Mike também não falou mais com ele. Ainda dava para perceber algumas pessoas sussurrando. David e Dipak. De qualquer forma. o diretor Hurley. 179 . como uma irmã mais nova. mas isso não importava. Meus pais. simplesmente amávamos um ao outro. Estava sozinho agora. Os rapazes ainda saem juntos. mas antes estava animadamente conversando sobre jogadas de futebol com Martin. cortou o queijo em pequenos quadrados perfeitos e deixou a cidra no gelo.Epílogo A biblioteca estava bonita. jogam pingue-pongue na hora do almoço e se encontram para beber na casa de Bobby Doyle. Era legal ver isso. Mas fiquei sabendo que já tinham brigado antes. E ele teve a mesma cortesia comigo. Mas Connor parecia em paz com a forma como as coisas tinham se resolvido. Mas Connor não falou mais com Mike desde que decidimos resolver as coisas.

— Parabéns! — falou a número sete.— Você está bonita — disse Connor olhando para o meu retrato. Mas tudo aquilo tinha mudado agora que Connor e eu assumimos. — Natalie. Ela havia me entregado a carta de recomendação a faculdade há uma semana. a Srta. Sabia que ela estava desapontada comigo. número nove. Bee. Bee me levou até elas e exclamou: — Apresento-lhes Natalie Sterling. Bee que se aproximava e nos viu de mãos dadas. — Lembrarmos de toda a confusão que costumávamos causar. Bee e eu fomos para o outro lado da sala sem conversarmos uma com a outra.disse a Srta. mas pela forma que vinha agindo. apertando a minha mão. Bee corar. pois logo acrescentou — Qualquer faculdade terá sorte se aceitar você. Afinal de contas. Bee tinha escrito algo desagradável sobre mim. dizendo: — Já volto. Nunca tinha visto a Srta. Acho que ela deve ter percebido a minha cara. nosso relacionamento tinha mudado. jamais tinha visto a Srta. Dei a elas o meu melhor sorriso. Irresponsável. Bee ia acabar percebendo isso. Foi um enorme alívio. Sinto-me realmente honrada. subitamente. em meio às fotografias. conforme o procedimento-padrão. Ela não precisava formar uma opinião sobre o que fiz ou deixei de fazer com a minha vida pessoal. Todas as senhoras tinham crachás de identificação presos aos vestidos. apontando para a Srta. fiquei preocupada se a Srta. Estava em um envelope lacrado. Era difícil aceitar como. Por um segundo. você poderia vir comigo um minuto? . A Srta. Bee de outra forma que não fosse a postura perfeitamente ereta. — Muito obrigada por terem vindo. Nossa. — Está brincando? Isso é a maior diversão para velhas senhoras — disse a número cinco. Ele se aproximou e sussurrou — E nem dá para ver a chupada. Havia vários deles espalhados na mesa. E talvez nem fosse por causa de Connor. Três mulheres mais velhas estavam perto da prateleira que continha os anuários da Academia Ross. Eu havia voltado para o jogo e a Srta. — Como você é bonita! — disse a número seis. A Srta. mas em vez de nomes havia números escritos. 180 . Bee não era a minha mãe. — Estamos tão orgulhosas — completou a número cinco. — Nada comparado ao que a número quatro aqui fazia — disse a número sete. Der um beijo no rosto dele na frente de todo mundo. Estranha.

A mudança não era mais algo a ser temido. novos namorados. Segurei o braço dela e disse: — Gostaria de apresentar--lhes Spencer Biddle.Spencer perambulava com um saco de lixo. Não tenho dúvida de que daqui a três anos seu retrato também estará nessa parede. Não importava o que o futuro trouxesse — novos amigos. Bee quase engasgou. recolhendo guardanapos sujos e copos vazios. A Srta. a maior de todas era que Autumn e eu éramos amigas novamente. — Eu também — disse e nos abraçamos bem forte. Fim 181 . Autumn apareceu e me fez virar. uma das representantes dos calouros deste ano. comentando: — Estou tão orgulhosa da minha melhor amiga. De todas as coisas que podiam me fazer feliz. não me importava nem um pouco com a forma com que seria lembrada. E apesar de o meu retrato estar pendurado na parede. Contanto que nunca me esquecessem. Spencer sorriu: — Podem me chamar de Perfeito Dez. novos caminhos — sabia que estaríamos na vida uma da outra para sempre.

SIOBHAN VIVIAN nasceu na cidade de Nova York. em 1979. Trabalhou como editora em muitos romances e best-sellers do The New York Times. e como roteirista para o canal da Disney. 182 . mas cresceu em Nova Jersey. Ela estudou na Universidade de Artes e é graduada em Escrita para Filmes e Televisão. Atualmente é professora na Universidade de Pittsburgh. onde se envolveu em encrencas na escola.

183 .

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