Varal do Brasil março - 2013

Literário, sem frescuras!
ISSN 16641664-5243

Ano 4 - Abril de 2013— 2013—Edição no. 22
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LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, primavera de 2013 No. 22

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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL NO. 22 - Genebra - CH - ISSN 16641664-5243 Copyright Cada autor detém o direito sobre o seu texto. Os direitos da revista pertencem a Jacqueline Aisenman. O VARAL DO BRASIL é promovido, organizado e realizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com Textos: Vários Autores Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman Ilustrações: Vários Autores Foto capa: ©-goccedicolore---Fotolia.com Contracapa: Varal Antológico 3 Muitas imagens encontramos na internet sem ter o nome do autor citado. Se for uma foto ou um desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente e teremos o maior prazer em divulgar o seu talento. COLUNAS: A VIDA IMITA A ARTE Cíntia Medeiros AEROPORTO DE IDEIAS: CULTURA NA HORIZONTAL Paulo Roberto Antunes ARTES NA VISÃO DE Jacob B. Goldenberg CENAS COTIDIANAS Danielli Okamura CINEMA & CINÉFILOS Pauline Herbach CONVERSANDO COM Clara Machado CULTíssimo Ana Rosenrot FALANDO DE CULTURA Marluce Alves Ferreira Portugaels HISTÓRIA DOS PROFISSIONAIS DA INFORMÁTICA Sheila Ferreira Kuno INSTANTES CIRCUN (ESCRITOS) Fátima Diógenes

LITERATURA COM Isabel C. S. Vargas LUPA CULTURAL Rogério Araújo (ROFA) NO UNIVERSO DE Guacira Maciel OUTRAS DIREÇÕES Kaz Martinelli REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS Júlia Rego. VOX POPULI, VOX DEI, CRÔNICAS DO FOLCLORE BRASILEIRO Mario F. C. de S. Santos A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A revista está gratuitamente para download em seus site e blog. Informações sobre o 27o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra e sobre o stand do VARAL DOBRASIL: varaldobrasil@gmail.com

Edições anteriores? Leia em nosso blog ou nosso site! Ou peça no nosso e-mail.

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Há alguns meses, desde dezembro, estamos realizando a revista mensalmente para dar oportunidade a mais e mais pessoas que chegam para escrever conosco.

autores que lá estarão para autografar e conversar com o público. Você, leitor, terá a grata surpresa de encontrar autores estreantes lado a lado de autores de renome nacional: isto é o VARAL, onde Para nossa surpresa, o fato de ser men- todos estão juntos e desta forma camisal não diminuiu as participações, pode- nham sempre mais longe! mos dizer que elas aumentaram. Serão mais de vinte autores autografando, mais de cem títulos expostos em Muitas novidades: agora temos várias colunas assinadas por voluntários entu- nosso stand D426 . Você vai, com certesiastas que, desde o mês passado, che- za, se encantar. garam para contribuir com o Varal do Brasil, enriquecendo nossa leitura com arte e cultura sob diversos pontos de vista. Variamos também nesta edição que, com tema livre, abriu a imaginação dos nossos autores! Então, não esqueça: Durante os primeiros dias de maio (de 1° a 5) estaremos no PALEXPO esperando você que estará aqui na Suíça, na França vizinha ou mesmo que virá de outros países. Tenha certeza: valerá a pena! Aproveite bem a leitura que nos oferecem os tantos escritores inscritos nesta edição.

Nosso I PRÊMIO DE LITERATURA, o concurso que lançamos no mês passado, tem alcançado um excelente público Você vai adorar a variedade de assunque dará, certamente um grande traba- tos e estilos que o tema livre oferece! lho e um grande prazer à Comissão Jul- Boa leitura e até a próxima edição. gadora encarregada de ler e escolher os vencedores. As inscrições continuam abertas até 30 de abril. Jacqueline Aisenman E por falar em abril, neste mês que aponta, mês de primavera, sairá o nos- Editora-Chefe so CATÁLOGO OFICIAL DE LIVROS VARAL DO BRASIL PARA O 27o SALÃO INTERNACIONAL DO LIVRO E DA IMPRENSA DE GENEBRA. Neste catálogo, constarão alguns dos livros que estarão em nosso Stand e os
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ANA HELOISA MAUX ANA ROSENROT ANGELA RAMALHO ANNA RIBEIRO ANTONIO FIDELIS BERTOLINA MAFFEI CARLOS ALBERTO BARRETO CARLOS ALBERTO OMENA CARMEN DI MORAES CINTIA MEDEIROS CLARA MACHADO CRISTINA CACOSSI DANIELLI OKAMURA DEIVISON BARRETO DULCE RODRIGUES ELÂINE FERNANDES ELISE SCHIFFER EMANUEL MEDEIROS VIEIRA EMÉRITA ANDRADE ÉRICA GONÇAVES ESTHER ROGESSI EVANISE GONÇAVES BOSSLE FÁTIMA DIÓGENES FERNANDA F. BONDAN NOCOLODI FLÁVIA ASSAIFE GAIÔ GERALDO SANT’ANNA GERMANO MACHADO GILDO P. OLIVEIRA

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GIRLENE MONTEIRO PORTO GISELE SHRUVER GRAÇA CAMPOS GUACIRA MACIEL HEBE C. BOA-VIAGEM A. COSTA HELENA AKIKO KUNO HELENICIE MARIA REIS ROCHA HILTON LEAL INÊS CARMELITA LOHN ISABEL C. S. VARGAS ISADORA CRISTINA ALVES DA SILVA IVANE LAURETE PEROTTI JACOB B. GOLDENBERG JACQUELINE AISENMAN JEANNE PAGANUCCI JÔ MENDONÇA ALCOFARADO JOSÉ CAMBINDA DALA JOSSELENE MARQUES JULIA HEIMANN JULIA OLIVEIRA GODOY JÚLIA REGO KAZ MARTINELLI LENIVAL NUNES ANDRADE LEOMÁRIA MENDES SOBRINHO LEONIDAS GREGO LU TOLEDO LUIZ CARLOS AMORIM LY SABAS MAGNO DE OLIVEIRA MARCELO MARTINS DE MARTINS
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GILBERTO NOGUEIRA DE OLIVEIRA ∗

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MARCIA TIGANI MARCOS MAIRTON MARIA JOSÉ VITAL JUSTINIANO MARIA LINDGREN MARIA SOCORRO SOUSA

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ROZELENE FURTADO DE LIMA SANDRA NASCIMENTO SELMO VASCONCELLOS SHEILA FERREIRA KUNO SILVANA BRUGNI VALDECK ALMEIDA DE JESUS VALENTINA VALQUÍRIA GESQUI MALAGOLI VALQUIRIA IMPERANO VARENKA DE FÁTIMA ARAÚJO VERA SALBEGO VÓ FIA VOVÓ GILDETE WALNÉLIA CORRÊA PEDERNEIRAS YARA DARIN

MARIANE EGGERT DE FIGUEIREDO ∗ MARILU F. QUEIROZ MARINA GENTILE MÁRIO F. CAVALCANTI S. SANTOS MARIO REZENDE MARLENE CERVIGLIERI MARLUCE ALVES F. PORTUGAELS MARLY RONDAN MARTA CARVALHO MAURÍCIO ANTONIO V. DUARTE MIRIAN MENEZES DE OLIVEIRA MAURO DEMARCHI NERI BOCCHESE NORÁLIA DE MELLO E CASTRO ONÃ SILVA PAULINE HERBACH ROBINSON SILVA ALVES RAFAEL ZEN RAI D’LAVOR RAQUEL ROCHA RAQUEL SIMBALISTA RENATA IACOVINO RO FURKIM ROGÉRIO ARAÚJO (ROFA) ROSSANDRO LAURINDO
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REGULAMENTO DO CONCURSO CULTURAL "1º PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA - 2013", PROMOVIDO PELA REVISTA VARAL DO BRASIL 5.

suam conteúdo partidário político, religioso, racial ou outro e textos que contenham pornografia de qualquer espécie serão desclassificados deste concurso sem mais. Cada candidato poderá concorrer nas três categorias com um trabalho em cada uma delas no máximo. Para cada categoria o candidato deverá fazer uma inscrição separada e enviar também separadamente, o material a ser avaliado no concurso. A inscrição dos originas deverá ser realizada no período entre 1º de fevereiro e 30 de abril de 2013, mediante o pagamento de uma taxa de inscrição e do envio dos originais a serem avaliados para o e-mail varaldobrasil@gmail.com nas condições abaixo discriminadas. O valor da taxa de inscrição fica estabelecido em: CHF 25,00 (vinte e cinco francos suíços) para a Suíça; BRL 45,00 (quarenta e cinco reais) para o Brasil e EUR 20,00 (vinte euros) para todos os demais países. O valor deverá chegar ao VARAL DO BRASIL isento do pagamento da taxa de transferência bancária ou depósito bancário. As coordenadas bancárias para o pagamento da taxa de inscrição deverão ser solicitadas através do email varaldobrasil@gmail.com

A finalidade do presente concurso é a divulgação da Língua Portuguesa e da arte literária mediante premiação das melhores obras literárias dentro do proposto no regulamento a seguir:

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Poderão participar do concurso pessoas maiores de 18 anos que sejam brasileiras ou estrangeiras e que escrevam na Língua Portuguesa. Serão consideradas três categorias: contos, crônicas e poemas. Os originais deverão ser inéditos e escritos em Língua Portuguesa. Os contos, crônicas e poemas não poderão ser traduções de originais de outros idiomas e não poderão ter sido publicados anteriormente em nenhum meio de comunicação, impresso ou virtual, e poderá ser chamado às vistas da lei. O conteúdo dos originais seguirá o critério seguinte: o tema é LIVRE, ou seja, o autor poderá escrever sobre o assunto de sua escolha. Os textos não deverão trazer temática partidária, seja ela política, religiosa, racial ou outra. Textos que pos-

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Os interessados preencherão a ficha de inscrição que será enviada junto do texto (folha separada) e comprovante de pagamento da taxa de inscrição. Uma foto de rosto deverá ser enviada junto ao restante do material solicitado.

vogável. E para a decisão não cabe nenhum tipo de recurso ou medida judicial. A inscrição no concurso implica na aceitação de todos os itens deste regulamento. 17. A escolha das melhores obras literárias será publicada no mês de junho de 2013 no site e blog do VARAL DO BRASIL (www.varaldobrasil.com e www.varaldobrasi.blogspot.com) e divulgada amplamente. 18. Os vencedores em cada categoria receberão certificado do I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA, além da quantia de CHF 500,00 (quinhentos francos suíços) e a participação como convidados no livro VARAL ANTOLÓGICO 4 a ser editado em 2014. 19. Os detentores do segundo lugar em cada categoria receberão Menção Honrosa, mais a quantia de CHF 300,00 (trezentos francos suíços) e a participação como convidados no livro VARAL ANTOLÓGICO 4 a ser editado em 2014. 20. Do terceiro ao décimo lugar: Menção Honrosa e possibilidade de participar do livro VARAL ANTOLÓGICO 4 (mediante pagamento de inscrição com valor privilegiado) 21. A nominação e comunicação dos premiados será feita por e-mail.

10. As inscrições serão realizadas apenas online, por intermédio do email varaldobrasil@gmail.com e o autor deverá utilizar um pseudônimo que estará presente na ficha de inscrição. 11. As crônicas e os contos deverão ser enviados em formato A4, letra Arial 12. Os contos deverão ter no máximo duas páginas e as crônicas no máximo uma página. 12. Os poemas deverão ser enviados obedecendo às mesmas condições dos itens 10 e 11, mas contendo no máximo 1 página. 13. Não serão considerados válidos textos que vieram colados no corpo do e-mail nem textos que vierem sem o comprovante de pagamento da taxa de inscrição. 14. Não serão considerados válidos textos que vieram colados no corpo do e-mail nem textos que vierem sem o comprovante de pagamento da taxa de inscrição. 15. Para seleção das melhores obras o VARAL DO BRASIL formará uma Comissão Julgadora que estará apta a avaliar os originais enviados de acordo com os critérios editoriais, criatividade e estilo para desta forma escolher os vencedores do presente Prêmio. 16. Toda e qualquer decisão tomada pela Comissão Julgadora será irre-

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22. Fica autorizada a publicação pelo VARAL DO BRASIL na revista VARAL DO BRASIL, no livro VARAL ANTOLÓGICO 4 e nos blog e site do VARAL DO BRASIL de todos os textos inscritos, sejam eles selecionados ou não. Os candidatos autorizam o uso e a veiculação do seu nome pelo VARAL DO BRASIL ou por terceiros por ele autorizados, inclusive para fins comerciais. 23. A apresentação dos originais para concorrer ao I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA implica expresso acordo às normas apresentadas no presente Regulamento. 24. Os prêmios são pessoais e intransferíveis e não poderão ser trocados por quaisquer outros produtos ou serviços. 25 Todos os casos não previstos nas normas deste Regulamento serão resolvidos diretamente pelo VARAL DO BRASIL. 26. A organização do VARAL DO BRASIL se reserva o direito de recusar qualquer candidatura que acredite não respeitar as normas deste Regulamento ou por outros motivos que a organização do I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA achar pertinente.

DO OUTRO LADO DA VIDA
Por Gilberto Nogueira de Oliveira

Do outro lado da vida, Reina o anarquismo. Não tem governo, Também não tem desgoverno. Tem conselheiros Mas não tem conselhos, Porem, as pessoas São livres até para errar. Quem governou a terra, Lá, é um mero participante Da vida anárquica e livre. Quem fez o mal na terra, Também fará do outro lado, Porque pensa que o lado de lá Tem os mesmos costumes Que o lado de cá. Mas o tempo vai passando E as pessoas vão se moldando. Uns melhoram e evoluem, Outros pioram E continuam corrompendo. Do outro lado da vida As pessoas se ajudam Porque não existe dinheiro.

Em Genebra, 24 de janeiro de 2013

As pessoas se completam Porque são livres para amar As pessoas são felizes Porque tem tempo para pensar. O outro lado da vida É o outro lado da morte.

Jacqueline Aisenman Editora-Chefe do VARAL DO BRASIL Coordenadora do I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA

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LIVRO: MÍDIA, BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO ISBN: 978-85-62685-67-5 PÁGINAS:96 EDITORA: Quártica Premim AUTOR: ROGÉRIO ARAÚJO (ROFA)
"A obra de Rogério tem uma estrutura introdutória de cada mídia, com abordagem histórica, conceitual, interpretação bíblico-teológica e suas considerações sobre quando se torna bênção ou maldição". Silvino Netto - Pastor, doutor em Educação, professor e poeta "(...) o texto de Rogério Araújo nos convida a pensar se a TV e as demais mídias e ferramentais de comunicação são uma bênção ou maldição nas vidas daqueles que foram chamados a testemunhar o amor de Deus ao mundo".

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Alô, alô Marciano!
Por Raquel Rocha

Dizem, os entendidos, que E.T’s costumam vir à terra para analisar essa máquina chamada Homem e o comportamento humano. Sendo assim, nada melhor do que um curso intensivo no planeta azul! Porque E.T. que se preze tem mais é que matar sua sede insaciável de conhecimento insaciável. Deixando a máquina e falando de comportamento, há décadas temos notícias de que esses “voyeurs” rondam o nosso planeta deixando suas marcas, sinais do tipo: Eu estive aqui! Tantas idas e vindas justifica-se afinal, o ser humano é bichogrilo e sua analise requer estudos e pesquisas profundas. . . Imagine quantas dificuldades “nossos estudantes” têm sofrido? Já pensou? A cada regresso uma surpresa! São tantas mudanças de comportamento capaz de deixar qualquer E.T, no mínimo, confuso. O que é já não é mais, o que Era agora é! Vai entender! Roupas surradas, manchadas, rasgadas, era coisa de pobre, miserável, pelo menos até a última “visita”, agora é sinal de status, jovialidade, gente antenada, sintonizada com a moda (e como é cara essa moda, meu Deus!), coisa que pobre não pode dar-se ao luxo! Talvez da última vez em que “passaram” por aqui a pedida fosse segurar o tchan! Xiiii, já era! Agora quem segura, solta, estica e puxa é o tal do Funk, que se antes era discriminado, hoje é o rei da festa da garotada e... das Glamourosas é claro! E por falar em Glamourosas, como será para “eles” analisar o comportamento feminino? Esse ser de mistérios indecifráveis chamado Mulher. . . Será que lá no planeta vermelho (ou verde, ou roxo, ou sei lá o quê) existe um curso específico para estudar o sexo frágil? Que os céus os ajudem! Terra, humanos, são tantos pormenores. . . EVOLUÇÃO, OVULAÇÃO, REVOLUÇÃO, EBULIÇÃO e coisa e tal. . . Nem com todo o avanço tecnológico é possível decifrar seres tão inusitados! Será que esses E.T’s estão certos na escolha de estudar o comportamento humano? Não teria nada mais simples, ou, menos complicado? Vejamos. . . O quê? Política? Psiu! Melhor pular esse assunto, dá muito pano (superfaturado) pra manga!
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MATA Por Selmo Vasconcellos Hoje me matas violentamente com este machado. Mas, amanhã, das minhas flores te farão uma coroa, do meu caule tua urna mortuária. Aí sim, irás ao encontro da minha raiz. Eu te esperarei lá embaixo.

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TRIBUTO A MEMÓRIA VIVA DE

vil; Dionísia Gonçalves Pinto. Nasceu no “sitio FLORESTA, encravado no Município de Papari no Rio Grande do norte em data de12 de outubro 1810, de propriedade de seus pais o Português Dionísio Gonçalves Pinto, o qual chegando ao Brasil casou-se com a brasileira Antônia Clara Freire, mãe de Nísia, tendo batizado a filha como Dionísia Gonçalves Pinto. Mulher de vida intelectual intensa , ostentava vasta cultura humanística. Manteve relações literárias com figuras de relevo da intelectualidade europeia, como, Augusto Conte, Alexandre Herculano, Georsand entre outros.

1810-1885 Por Ana Heloisa Rodrigues Maux

Para os costumes da sociedade brasileira , na época , suscitou algumas críticas relacionadas a sua pessoa .Ela adiantou-se ao seu tempo. Possuía um arraigado sentimento religioso desde tenra idade, foi mãe, esposa, educadora, escritora, poetisa, revolucionária, jornalista e defensoras das mulheres e dos oprimidos. A estrada percorrida pela ilustre escritora começou em 12 de outubro de 1810, com o seu nascimento ocorrido no citado sitio distante 23 km ao sul de Natal/RN, que para orgulho dos seus conterrâneos Papari passou a chamar-se Nísia Floresta, em homenagem a ilustre cidadã. Considerada a pioneira do feminismo brasileiro, a primeira mulher a romper as barreiras limítrofes da nossa pátria amada , iniciando seus primeiros passos na vida literária com publicações de textos em jornais cariocas quando a imprensa nacional ainda engatinhava. Posteriormente, a família passou a residir em Olinda/PE, cidade em que seu pai foi assassinado, e onde a autora conheceu Augusto, o amor de sua vida, mudando-se depois para Porto Alegre/RS. Com a eclosão do movimento revolucionário da guerra dos Farrapos, ela já tendo enviuvado, retornou a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro e lá funda os Colégios Brasil e Augusto, ambos sob sua direção, com ensino revolucionário e médio de alto nível, ambos totalmente voltados para a educação feminina, cujo objetivo premente era o exercício da militância em prol da luta por uma educação igualitária para que as mulheres saíssem dos seus afazeres domésticos e ingressassem no mundo dos conhecimentos literários, científicos, entre outros.
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É de Destouches: “ A mulher é o tempo médio entre Deus e o Anjo”. Nossa ilustre Nisia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra”..( Frase do nosso Escritor Verissimo de Melo em seu livro Patronos e Acadêmicos referente às personalidades da Academia Rio-grandense de Letras. Falar nas mulheres do UNIVERSO não é tarefa fácil de escrever especialmente, quando viajamos no tempo e trazemos para o agora a brasileira NISIA FLORESTA, ela, a defensora intemerata dos direitos da Mulher, liderou, com rara competência, o Movimento de sua emancipação inclusive a equivalência intelectual entre os dois sexos, a filogenia. Tal preconceito havia existente há milênios na história do nosso universo feminino. Nisia floresta é o pseudônimo do seu nome ci-

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Em sua trajetória como escritora, esta, resolveu prestar homenagem ao sitio em que nasceu adotando o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira, floresta, porque nasceu dentro de uma delas, Brasileira, como símbolo de sua pátria e Augusta, em homenagem ao seu segundo esposo cujo enlace aconteceu no ano de 1928, dessa união, nasceu sua única filha do sexo feminino LIVIA FLORESTA., a qual foi posteriormente, responsável pelas tradução dos livros de sua mãe, publicados no Exterior. Nísia, apesar de nascida no inicio do século dezoito, transformou-se em uma das maiores escritoras de seu tempo, fez história, viveu sua existência terrena muito além de seu tempo, de sua era e porque não dizer, do seu século. Conhecida na época como defensora das mulheres, dos índios e dos escravos, por levantar sua bandeira em defesa do trinômio (MULHER, INDIO E ESCRAVOS), todos juntos e misturados mas totalmente diferentes entre si. Em sua trajetória de lutas e lida literária escreveu sobre as causas em que acreditava, e procurou mostrar também em seus escritos as riquezas e belezas naturais da nossa fauna brasileira, tornando-se assim, uma das maiores autoras de seu tempo. No Brasil, estreou sua vida em obras literárias ao escrever seu primeiro livro “ DIREITO DAS MULHERES E INJUSTIÇA DOS HOMENS”, focado no feminismo brasileiro, cuja obra deu a autora o titulo de a “PERCUSSORA DO FEMINISMO”, transpondo fronteiras internacionais, precisamente na América Latina. Focando a importância da educação feminina para a mulher e especialmente para a sociedade brasileira publicou em 1842, CONSELHOS A MINHA FILHA; em 1853 OPÚSCULO HUMANITÁRIO, e em 1859, a MULHER. Nísia, a Jornalista, no ano de 1831 hasteou sua bandeira em defesa da mulher brasileira, quando inicia seus primeiros passos nas letras com publicações em jornal pernambucano “Espelho das Brasileiras”, com vários artigos dedicados as madames em respeito a condição feminina. Assim, a escritora deu o primeiro gol em defesa do movimento feminino pela valorização da mulher, pasmem vocês leitores, tudo isso ainda ano século XVIII, o que devemos considerar que Nísia Floresta ´foi responsável pela ascensão e vitória

da mulher do século 18 e do nosso século em todos os aspectos literários, científicos, econômicos, entre tantos outros conquistados no decorrer de sua existência como mulher brasileira. Empreendeu viagem aos países : Portugal, Bélgica, Alemanha, Grécia, Inglaterra, Itália, fixando-se mais na França. Para ela, tiro o meu chapéu e registro o meus agradecimentos pelas vitórias que conquistei durante a minha vida em época que a mulher s e encontra por demais valorizada em relação aos homens.. Foi essa notável MULHER quem deu o primeiro gol de partida em prol do resgate a cidadania do sexo feminino a qual conquistamos no decorrer dos séculos.. .. . Não soa ruim afirmar que a nossa escritora NISIA FLORESTA foi a primeira percussora que se posicionou em favor da luta pelo reconhecimento, pela dignidade e pela cidadania da Mulher. Nísia foi mais longe, na luta pelos escravos ela assim se posicionou: “e lamentosa do infeliz escravo quase exausto de forças obrigado ao trabalho de cavoqueiro debaixo de um sol abrasador e sobre a pedra ardente que na sua velhice é condenado a desprender do rochedo” “do seu enfraquecido peito mais de uma vez tenho ouvido saírem do peito as seguintes estrofes que me pungem a alma e me arrancam preces ao eterno pela regeneração dessa infeliz raça a quem a mesma velhice nao dar direito ao repouso! É sempre um velho que as canta, e traz a cotejo a segui cantoria daqueles pobres e despratriados infelizes” Comovida com o sofrimento dessa classe por demais humilhada e oprimida resgatou a sua dor escancarando a situação de tristeza da época da escravatura, assim s expressando: “Assim, canta o pobre escravo resignado à sua miséria no meio da magnificência esplêndida desta riquíssima natureza, no meio de um grande povo tão ufano de suas livres instituições.do homem arrebatador e estupendo quadro que jamais mão de artista conseguirá reproduzir em toda a plenitude !(Nísia Floresta).

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“Feliz na minha cabana/ Sombreadas de pal- mento. meiras,/Eu vivia em terras d! África /Minhas terras tão fagueiras./Lá deixei mulher e filhos/ Meu trabalho, o meu porvir/A esses bens me arrancaram /Para um mau senhor seguir. Desde então só estas vozes? Escuto de humanidade;/Trabalha, trabalha negro;/O chicote, e a eternidade./Já curvado sob os anos/Oh! Meu Deus forças me dá !/Trabalha, trabalha negro/ A morte te espera lá”. No encerramento do ano letivo do Colégio Augusto, ocorrido em 18.12.1847, a autora fez um discurso recheado de conselhos as alunas, o qual foi publicado em um pequenino opúsculo intitulado ‘A LÁGRIMA DE UM CAETÉ”, no ano de 1849, no Rio de Janeiro, pela Tipografia de L. A. F. Menezes. Nessa obra supra citada, a autora demonstra a sua irresignação com sua situação de subjugado contra o pensamento dos escritores do Romantismo e em seu poema contendo setecentos e doze versos, Nísia traçou um paralelo entre a opressão do império aos nacionalistas e o sofrimento vivenciado pelos índios brasileiros após a colonização portuguesa. Assim agindo, demonstra a sua característica de rompimento com a estética romântica que retrata a figura do índio. No entanto, no século XIX, Nísia se viu moralmente atacada pela sociedade envolvendo-a numa campanha da difamação e calúnia, expondo sua vida e honra a comentários maldosos , desprezíveis, recheados de escárnio e dúvida, os quais os norte-riograndenses lamentavelmente também se envolveram. Em consequência disso, por muito tempo ela foi motivo de vergonha para aos próprios moradores. Foto do Túmulo de Nísia Floresta. Seus restos mortais foram trazidos da França , no ano de 1954, para o Brasil. Seu ossos repousam no mausoléu construído pela Academia de Letras/RN, na cidade de Mísia Floresta no Rio Grande do Norte.

Vale registar que a obra mais completa biografia sobre o fenômeno Nísia Floresta – em Vida e Obra – escrita pela grande escritora Constância Lima Duarte, a qual em 1991 havia sido apresentado como Tese de Doutoramento em Literatura Brasileira pela citada autora, na USP. Infelizmente, a falta de divulgação da obra de Nísia tem sido responsável pelo enorme desconhecimento de sua vida singular e de seus livros considerados de grande valor”. Em 2010, a FARN – Faculdade de Natal/RN, prestou homenagem com uma exposição fotográfica de Nisia Floresta, com organização da escritora Constância Lima Duarte em FLORESTA, Nísia. Passeio ao aqueduto da carioca In: Inéditos e dispersos de Nísia Floresta. Organização: Constância Lima Duarte. Natal: EDUFRN: NCCEN, 2009. P , em cuja obra me serviu entre outras, para a pesquisar a vida e a obra dessa mulher Norte Nísia faleceu acometida por uma pneumonia rio-grandense no escrito destas linhas literána cidade de Rouen, na França, aos 75 anos, rias por ter se projetado internacionalmente, a no dia 24 de abril de 1885, sendo enterrada escritora Nisia Floresta Brasileira Augusta no cemitério de Bonsecours. Em agosto de consagrou-se nesse meio milênio de história, 1954, quase 70 anos depois, seus despojos e no dizer dos intelectuais brasileiros como foram transladados para a cidade de Nísia uma das individualidades do Rio grande do Floresta no Rio Grande do Norte e depositaNorte como a mais notável mulher de letras dos na Igreja da Matriz, anos depois, transferi- do Brasil e das mais notáveis da nossa vida dos para seu Tumulo localizado na entrada intelectual”. da cidade a qual que foi berço do seu nasciwww.varaldobrasil.com 17

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BOBÓ DE CAMARÃO

Kg de camarões frescos sal 3 dentes de alho picados e amassados suco de 1 limão pimenta do reino 1 Kg de mandioca ( prefira as que já vem embaladas e descascadas, é mais prático) 1 cebola cortada em rodelas e 2 cebolas raladas 1 folha de louro 6 colheres de sopa de azeite de oliva 2 vidros de leite de coco 1 maço de cheiro verde picado 2 latas de molho pronto de tomate 2 pimentões verdes bem picadinhos 2 colheres de sopa de azeite de dendê Lave os camarões e tempere com sal, alho, pimenta e limão Deixe marinar Pegue uma panela com água e cozinhe a mandioca em pedacinhos com louro e cebola em rodelas Quando estiver mole acrescente um vidro de leite de coco, deixe esfriar um pouco e bata no liquidificador Esquente o azeite de oliva, junte a cebola ralada e deixe dourar Acrescente os camarões e frite Adicione as 2 latas de de tomate, o cheiro verde, o pimentão e deixe cozinhar por alguns minutos Junte na mesma panela a mandioca batida no liquidificador, outro vidro de leite de coco e o azeite de dendê, deixe levantar fervura e está pronto

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SENTIDOS PERDIDOS
Por Jacqueline Aisenman Buscava os sonhos, mas eles não vinham. Nem o trem de passageiros que o levava para lá aparecia: o sono tinha desaparecido por completo já há alguns dias. Tinha estado naquele lugar por segundos ou horas e agora queria, precisava voltar. Porque a memória, a traiçoeira, o enganava misturando cenas e personagens. Até o ponto em que ele não conseguia mais saber se tinha vivido, sonhando, pensando, imaginado. Queria mesmo era dormir. Pegar o trem do sono e partir. Voltar seria uma questão de tempo. Ou de tento.

BRIGA DE FOICE
De Jacqueline Aisenman
O livro Briga de Foice, ediçã o de 2012, está disponı́vel no Brasil pela Design Editora e Livrarias Catarinense e Curitiba (lojas e site). O livro foi apresentado em 2012, em Salvador (Bahia), em Brumadinho e Belo Horizonte (Minas Gerais) e em Florianó polis, SC. Para mais informaçõ es: coracional@gmai.com
“Briga de Foice é meu segundo livro de histórias curtas. Mas desta vez, estes contos diferentes e que gosto tanto de escrever, vêm entremeados de frases que vão passeando entre os textos, falando deles ou de outros momentos e outras vidas. As histórias têm personagens reais ou imaginários vivendo momentos que também foram imaginados ou realmente aconteceram (na minha mente ou na realidade?). “

Imagem de Mick Rooney

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GRATIDÃO AO MEU DEUS
Por Rai d’ Lavor

Sou grata ao meu Deus Por tudo que eu tenho E principalmente Pelo meu desempenho. Deus me mostrou Coisas tão lindas Que eu não sabia, O grande talento De escrever poesias. De hoje em diante Vou realizar. Vou fazer tudo Que meu Deus mandar. Santificar minha vida No seu altar. Obrigada meu Jesus Por me dar tantas Alegrias. Obrigada meu Jesus, Quero mais sabedoria. Quero sempre te louvar Mesmo em forma de poesia.

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NORDESTINAMENTE BRASILEIROS
Por Lenival de Andrade Primeiramente a lua nos iluminou Numa noite pra lá de boa E não foi à toa A galera baiana gostou Bastante à vontade estou Sinto-me iluminado Alegremente apaixonado Vi pequenas embarcações E Ouvi musicas com participações Desse povo arretado

Gente da gente é o nosso Brasil Um povo igual ninguém viu Alegres, laboriosos e hospitaleiros Lampião entre outros justiceiros O que é bom não sai nem com balas de fuzil.

Obs.: Extraído do livro NORDESTINAMENTE BRASILEIRO e poesia premiada com menção honrosa no Concurso internacional de Aracaju SE

Da orla de Juazeiro Vi a igreja de Petrolina Olhei lá de cima O rio São Francisco divide altaneiro ETA povo hospitaleiro Porém a ponte une Juazeiro a Petrolina como de costume Nordestinamente Brasileiros Não existem mais cangaceiros O rio sobrevive, também o cardume
wilson-junior.viagensmil.com.br

Falo tudo romanticamente A Bahia tem swing, merengue e quebradeira Precisamos valorizar a região Nordeste por inteira Honesto e trabalhador valente O homem nordestino é crente e decente
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Escolhas...
Por Danielli Rodrigues Ser Maria, Madalena ou Eva? como era mais fácil como era mais simples como era mais prático ficou no passado. Ser Amélia é difícil agora é impossível agora é inacreditável agora é inaceitável neste tempo moderno. Ser Macabéa é humilhante uma possibilidade repugnante uma possibilidade horrorizante um verdadeiro limbo no inferno. Do passado, do presente, do futuro, escolhas e mais escolhas... As mulheres surgem e ressurgem o tempo não muda o homem não muda a mulher não muda só mudam os nomes e as escolhas...

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BRANDO SONHO
Por Isadora Cristina Alves da Silva

No limite do tempo, O adeus... Os olhos pelo sono, aprisionados. A alma pelo sonho, alforriada. Nada mais pode ver Só o despertar para um encantado, eterno, novo viver... Aqui não há mais temores Lagrimas ou dores. Nações unidas estão Em uma só oração. Curvados a majestosa natureza Venerando todas espécies belezas. Todos em respeitoso, caridoso, generoso acalento. Em bonança, abastança, esperança. Pastos esverdeados Pássaros libertados. Desenhando na futura geração a nova lição Respeito e mesura A nossa civilização. Meus olhos irão despertar? Não. Eternamente jaz. Sonho, mas... Fidedigno desejo de um alvorecer em paz.

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A cicatriz e a pérola
Por Silvana Brugni

Ao brilho da pérola não há quem não se encante da Joia apreciada que adorna e embeleza com sua forma redonda, lisa e brilhante! Um colar de pérolas em colo de mulher seduz e o brinco delicado torna adorável seu semblante. Pérolas são originadas da dor e obtidas da ferida ensejada e nascida de um grão de areia corpo estranho, parasita... que na ostra se instalou, Invadindo-a se sentiu ferida e incomodada pela dor. Reagindo, trava longa luta em seu interior, ansiando por expulsar o intruso e amenizar o sofrimento, foi amoldando camadas e camadas ao longo do tempo arrimo para não perecer de agonia e desalento. Revestindo o intruso de madrepérola ou nácar que aos poucos se volvia em forma arredondada, em sua luta e resistência contra a dor continuava até por fim transformá-la em redonda pérola, a tal joia valiosa e adorada. E assim é que às vezes como pérolas se nos machucam quão o fazem às ostras, aproveitemos a lição com elas criando camadas de ajuste e proteção pois quando por fim a pérola estiver formada, como elas seremos belas cicatrizes curadas.

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SE VOCÊ NÃO PODE ADOTAR OU AJUDAR FINANCEIRAMENTE, TENTE AJUDAR INDO AO LOCAL E OFERECENDO SEU TEMPO, SEU CONHECIMENTO, PARA AJUDAR ESTES ANIMAIS. HÁ CADA VEZ MAIS ANIMAIS NECESSITADOS POR CAUSA DA IGNORÂNCIA HUMANA. NÃO SEJA MAIS UM A IGNORAR, SEJA MAIS UM A AJUDAR!
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INUSITADO CANTO DE CRIANÇA
Por Érica Gonçalves

Criança maliciosa
Amiga do cão Que na surdina, Maltrata o irmão. Criança que o mundo A vida ensina E, que a elas fascina, Que a pipa empina Criança, carícias adora Criança dengosa Faz birra, faz prosa Se agita, se espicha e chora Criança que estuda Criança que canta Que vive feliz Que não se espanta Criança esperta Criança audaz Criança que sonha Que pode voar

Criança pedinte Rogando atenção Criança carente Te pede a mão Criança rancheira Que abre a porteira Que finge crescida Que só quer alegria Criança sapeca Levada da breca Brinca e dança Com uma boneca Criança da roça Planta bananeira Vira cambalhota Criança da grota Criança cansada Banho não quer tomar Come com sono E não quer ir deitar

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Quiche Royale
3 xícaras de chá de farinha de trigo 200g de manteiga sal a gosto 1/4 de xícara de água

Massa:

Recheio:
4 ovos 1 lata de creme de leite, pode ser light sal a gosto 100g de champignon 50g de tomate seco 4 fatias de presunto royale picado (pode ser qualquer outro presunto) 50g de queijo ralado

Massa:
Misture a farinha de trigo com a manteiga até fazer uma farofa Acrescente a água e misture até formar uma massa homogênea Forre uma forma de fundo removível com essa massa

Recheio:
Bata os ovos com um batedor de arame como se tivesse fazendo omelete Misture o creme de leite e sal a gosto Coloque a mistura sobre a massa da forma distribua sobre o recheio o presunto, o champignon, o tomate seco, faça que esses ingredientes fiquem cobertinhos pelo recheio salpique por cima o queijo ralado Leve para assar em forno pré-aquecido, em temperatura média por aproximadamente 40 minutos ou até dourar http://tudogostoso.uol.com.br/

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PARIS FRANÇA DE GERTRUDE STEIN LINGUAGEM SEM EXCESSO
Por Jeanne Paganucci

extensão em sua biografia e questionamentos os quais somente uma mulher instigante conseguiria lançar e saber atuar, talvez tenha sido uma das mulheres mais importantes para a construção do que seria o século XX. Sua frase a rose is a rose is a rose é uma das frases mais marcantes por conta da ruptura com o século passado e a proposta do novo, da sintaxe livre, sem interrupções, adentrando o século XX com a sagacidade de autoria feminina objetivamente singular. A biografia de Gertrude Stein fez o seu nome alcançar o mundo, além das barreiras da escrita, aponta então o novo modo de dizer/escrever e pensar. A autonomia do verbo em Stein desgoverna a escrita. Assim, a fragilidade humana aparece na sintaxe e semântica porque o mundo fecha as portas para os conceitos ultrapassados e inaugura novos caminhos em que a linguagem torna-se princípio, função e não transcende porque acontece. A arte moderna é então em Stein um antídoto contra a ilusão.
Eu tinha apenas quatro anos na primeira vez em que estive em Paris e falei francês ali e fui fotografada ali e fui para a escola ali e tomei sopa no café da manhã e almocei pernil de carneiro com espinafre, sempre gostei de espinafre, e um gato preto pulou nas costas da minha mãe. (STEIN: 2007,33)

O objeto da arte moderna transfere-se para ela mesma. Assim, Gertrude Stein é supostamente a pensadora/escritora que aparece na arte moderna com lucidez em meio aos escritores de ficção e prosa. Gertrude seguiu um caminho diferente dos autores de sua época porque transferiu para a escrita a (des) ilusão

Observa-se em Stein a ruptura com o

da arte moderna em linguagem. Desfez o pa- século passado, de forma que a sintaxe já toma drão da escrita, inaugurou novas maneiras de uma forma mais próxima da fala e não o formatransmitir sentimentos e conseguiu imprimir em to padrão da escrita culta. Essa característica palavras o que os quadros de Picasso transpor- será notada em todo o texto do livro Paris Frantavam por meio das pinceladas. Contudo, a lin- ça, além de apontar para a particularidade da guagem verbal não poderia ser igualada as vida da autora, do seu tempo, da construção de obras dos pintores famosos, visto que ela deu um novo século (o XX), dos amigos e conhecium salto na escrita. dos os quais estavam inseridos em sua idealização do que este século poderia trazer ou Relatos, obras biográficas e demais construir. (Segue) escrituras a respeito da autora, apontam uma
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Paris França destaca a fusão do eu interior de tem grande responsabilidade no que diz respeiGertrude com a (des) construção de paradig- to ao desenvolvimento do que pode ser e que mas e formas de viver a vida os quais poderiam virá a ser. Revela que a moda não para nem ser observados sem a pretensão de se ocupar mesmo em meio á guerra, que as crianças são com o cânone, com o passado, com o padrão, educadas em Paris como em nenhuma parte uma travessura de Stein. “Uma das coisas mais do mundo e os homens são eternos bebês para agradáveis que fazemos nós que escrevemos e suas mães. pintamos As reflexões de Stein modificaram o rio.” (p.36) Stein acreditava que não havia nada modo de pensar, de escrever, de entender o pronto porque presenciava a mudança e obser- mundo, que, de algum modo parece chocar vava que até mesmo os velhos costumes de aqueles que têm forma fixa e padrões estabeleum país estavam sujeitos à transformações, cidos. Neste aspecto, vale destacar que em por conta da guerra, dos novos tempos, das tempos de inúmeras regras estabelecidas e excrianças, da sociedade. cessos nos modos de escrever, Stein não soO assunto em Paris França poderia ser breviveria. Sem excessos. um simples garfo, uma personagem balzaquia- REFERÊNCIA: na, um cão, a neve, a língua inglesa, o francês, STEIN, Gertrude. Paris França. Tradução de o homem enquanto homem – menino, a natureSônia Coutinho. – Rio de Janeiro: José Olymza da mulher, enfim, não estabelecia ordem ou pio, 2007. objeto específico para ser tratado, porque se tratava de Paris França e não poderia ser diferente, afinal, as coisas podem ser muitas e muitas e muitas para Stein.“Alice Toklas disse, a mulher do primo da minha avó me contou que a filha dela casou-se com o filho do engenheiro que construiu a Torre Eiffel e o nome dele não era Eiffel.” (p.41) Esse período indica uma semelhança com a fala espontânea, denota então a necessidade de Gertrude de produzir uma escrita liberta das regras impostas não só pela gramática, mas também pelos escritores tradicionais. Stein observa que as máquinas ocupam os lugares do homem no século XX, mas considera que há uma promessa de grandes saltos da ciência, da cultura, do ser humano a partir disso, entende que o novo século abandona as formas do século passado e que Paris
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é

experimentar

o

milagre

diá-

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A AVENTURA DO TIO FRANCISCO
Por Vera Salbego

Era uma vez, numa pacata cidadezinha perdida no meio das montanhas, com apenas 500 habitantes. Pessoas simples, de hábitos rústico. Vivem felizes, da Pecuária e Agricultura. Lá existem poucas lojas , para dizer apenas um mercado, uma loja de vestuário, e uma farmácia. Este é o comércio do local. Os moradores se conhecem, e vivem tranquilamente, deixando suas casas e carros abertos, pois não existe violência. Existe honestidade naquele local. Numa fazendinha próxima da cidade vive um homem sozinho e sempre bem humorado, que todos respeitam e admiram. Tio Francisco era amado pelas crianças e adultos daquela localidade, que o chamavam assim num tom bem familiar, por considerá-lo como membro da família, pela simpatia. Em sua fazenda havia uma pequena floresta de árvores nativas, e uma cachoeira. Ele contava várias histórias, que aconteciam por ali, como a do Lobisomem e da mula sem cabeça, mas a população não acreditava, apenas ria. Certo dia, um grupo de alunos da Escola da cidade vieram juntamente com a professora de ciências, para visitarem a floresta, e estudarem as plantas, que existia ali. Os alunos e a professora, radiantes estavam, ao entrar entre as árvores juntamente com Tio Francisco, para o passeio. Foram caminhando e entrando naquele vasto paraíso da natureza notando assim a beleza das árvores, e dos animais, muitos deles raros. Iam à frente a professora e Tio Francisco explicando sobre a fauna e flora daquela região. Os estudantes entusiasmados vão adentrando a floresta e sentindo os aromas da mata e vendo o colorido das flores. De repente se deparam com seres de outro mundo (duendes: seres pequenos que só fazem o bem) e ficam boquiabertos com aquela situação. Ficam perplexos com a situação. E correm entre as árvores vendo aqueles seres pequenos e risonhos que estão por ali. Tentam se comunicar, mas não conseguem, até que Tio Francisco intervém, para alivio dos alunos. Tio Francisco parece falar com aqueles seres e sentem que há cumplicidade entre eles. - Crianças, vocês não podem espalhar na cidade sobre nossos amiguinhos, porque eles precisam de paz e harmonia para viver. As crianças excitadas ficam paradas vendo Tio Francisco conversando numa língua diferente com aqueles seres iluminados. Eles não entendiam, mas percebiam que a comunicação estava fluindo bem. Eles sentem, um grande carinho que emana dos duendes e percebem o valor desse afeto para a natureza. Os duendes unem as mãos e irradiam um facho de luz azul em direção as plantas doentes, que aos poucos iam se revigorando . A professora e os alunos sensibilizados com todo aquele amor pela natureza resolveram se comprometer mais na recuperação das plantas, e cuidarem da natureza. Assim sendo voltaram, para a escola, e criaram um Projeto de Preservação da Natureza e todos se comprometeram a ajudar e também a guardar o segredo sobre os duendes. A história termina com o segredo preservado, e Tio Francisco e a população do lugar vivendo felizes para sempre.
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O terceiro volume de nossas coletâneas VARAL ANTOLÓGICO chegará em breve! Será lançado dia 03 de maio no 27éme Salon International du Livre et de la Presse de Genève (Genebra/Suíça) e em agosto em Florianópolis, SC. Conheça todos os participantes do livro nas páginas de nosso site! www.varaldobrasil.com

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Por Julia Heimann
Poeta, tens o Universo! Desperta tua coragem, nas linhas frágeis de um verso manda do amor a mensagem! Ele pensa e metrifica, são diamantes que ele apara, o poeta modifica pedra bruta em joia rara!
edcloud100yrs.wordpress.com

VENDER ANIMAIS QUANDO TANTOS PASSAM FOME E VIVEM PELAS RUAS SUJEITOS À VIOLÊNCIA, É CRIME!

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HOSPITAL DE LAGUNA Faça do Hospital de Laguna a sua causa, colabore! www.hospitallaguna.com PROJETO LUZ Ilumine esta ideia! Como você deseja que o Hospital de Laguna seja? Bom? Muito bom? Ótimo? Qual o seu desejo? Com quanto você pode contribuir, na sua conta de luz, para o Hospital ser assim, do jeito que você quer? Você pode! O prêmio maior é a vida. Com certeza o seu maior desejo! CARTÃO DE BENEFÍCIOS O Cartão de Benefícios proporciona a usuários e dependentes descontos nos serviços de internação e de urgência/emergência oferecidos pelo Hospital de Laguna e pela rede de estabelecimentos e profissionais credenciados (visite no site o link do Cartão de Benefícios). Os descontos variam de 10 a 50%, podendo chegar a 90% nas farmácias. procure o representante do hospital no horário comercial. TORNE-SE UM ASSOCIADO Para tornar-se um associado do hospital, basta preencher o formulário que se encontra no site e encaminhá-lo à direção do hospital. O valor da mensalidade e de apenas R$ 10,00. Todo associado poderá usufruir das vantagens do cartão de benefícios sem pagamento adicional.

http://www.hospitallaguna.com.br/
Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos R. Osvaldo Aranha, 280, Centro Cep: 88790-000, Laguna SC Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 / DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644-0728

Fotos Históricas do Hospital

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VIDA NO ESPELHO
Por I nês Carmelita Lohn

Diante do espelho Viu marcas da distância Recordou da infância Dos sonhos vividos E dos adormecidos Nos braços da esperança. A imagem retratava Um rosto já vivido Mesmo sendo homem Mostrava-se menino Livre como um pássaro Libertou-se das amarras Com as boas lembranças Saciou seu coração E alimentou a sua alma. A imagem do espelho O homem já conhecia Alguns cabelos brancos E um brilho no olhar De quem trilhou caminhos Por onde andou um sábio Uma beleza artística Que não é pintada em quadro.

Pintura de AuroraInk
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NEURÓTICO?
Por Marcos Mairton - Acho que você está ficando meio neurótico. Foi o que minha mulher disse enquanto eu empurrava as nossas malas para dentro do elevador. Não havia qualquer agressividade em sua voz. Ao contrário, até percebi que ela teve certo cuidado ao falar, como se tentasse evitar que eu tomasse aquilo como uma ofensa. Foi exatamente isso que me deixou preocupado. Estivéssemos em meio a uma discussão, tudo bem. Dizem-se muitas coisas nessas horas, às vezes sem pensar, às vezes de caso pensado, só para atingir o outro. Mas, daquela forma, e naquele momento, quando nos encaminhávamos ao aeroporto para uma viagem de férias? … Ela estava realmente me achando um tanto neurótico. E, se falou “meio”, é porque pensou “muito”. Não respondi. Apenas apertei o botão que faria o elevador descer ao térreo do nosso prédio, onde o táxi aguardava para nos levar ao aeroporto. Enquanto descíamos, olhei mais uma vez o relógio. Faltavam quatro horas para o voo. Teria sido esse o motivo para ela dizer que sou neurótico? Porque gosto de sair cedo de casa quando vamos viajar? “Calma” – pensei – “ela não disse que sou neurótico, disse que estou ficando neurótico. E não há nada de errado em sair de casa para o aeroporto com quatro horas de antecedência”. Certo, o voo era nacional e eu havia feito o check-in pela Internet dois dias antes, mas é preciso despachar as malas, passar a bagagem de mão pelo raio X, nunca se sabe o quanto isso vai demorar. E tem o problema do trânsito até o aeroporto. Quem sabe os obstáculos que surgirão no caminho? Não, não deve ter sido isso. É mais provável que ela tenha achado que exagerei no conteúdo da mala. De fato, minha mala estava meio grande. Não que eu leve muita roupa nessas ocasiões, mas tem umas coisas que gente não pode prescindir. Por exemplo, tripé para máquina fotográfica. Se viajamos só nós dois, é chato ficar pedindo a pessoas desconhecidas para nos fotografar. Melhor usar uma máquina automática em um tripé. E tem outras coisas como lanterna, pilhas, fita adesiva, tesoura, canivete, GPS, barbante, luvas, adaptadores de tomadas e extensão para o fio da tomada, de preferência daquelas que transformam uma tomada em três. Objetos úteis, que talvez a gente não precise, mas é bom saber que eles estão ali, à disposição.

Uma coisa posso garantir: minha mala não estava fora do limite de peso. Pesei tudo com muito cuidado. E mais de uma vez. É, acho que pesei minha mala umas três vezes, talvez quatro. Aliás, outra coisa que eu sempre levo em viagens de férias é uma balança, porque os souvenirs sempre deixam a mala mais pesada na volta e não gosto de pagar excesso. A vida é assim mesmo. A gente vai ficando mais velho, mais experiente, e passa a ter alguns cuidados. Por exemplo: desde que derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, nunca mais saí de casa sem uma garrafa d’água e umas barrinhas de cereal na mochila. Uma medida simples dessas pode ser a diferença entre sair vivo ou morto do desabamento de um prédio. Lembrei-me disso já dentro do táxi e cheguei a pensar se não é pelo fato de eu ser um pouco prevenido que minha mulher possa achar que estou ficando neurótico. Mas, logo reconsiderei. Não é para tanto. Resolvi não pensar mais nisso e aproveitar as férias. “Se um dia ela tocar novamente no assunto, voltarei a me preocupar. Agora não” – disse eu, em pensamento, para mim mesmo. Acho que foi uma decisão acertada. Durante todo o restante das férias ela não falou mais de neurose. A viagem foi ótima. Diversão, descanso, uma verdadeira recarga das energias. Só não aproveitei melhor as férias porque passei a viagem inteira com a impressão de haver esquecido de trancar a porta do apartamento. Na verdade, tive essa impressão antes de entrar no táxi para ir ao aeroporto. Voltei para verificar e estava tudo em ordem. O problema foi que, no dia seguinte, já no hotel, acordei com a nítida sensação de que, ao verificar a porta, havia me atrapalhado e aberto o que já estava trancado. Só me tranquilizei depois que voltamos para casa e vi que havia sido apenas impressão minha. Mas, agora, isso já não importa. Depois dessas férias, sinto que estou pronto para mais um ano de trabalho. Com a vida estressante que se tem hoje, se a gente não faz um recesso desses de vez em quando, aí sim, acaba mesmo ficando neurótico. Deus me livre!

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ARCANJO MIGUEL
Por Emanuel Medeiros Vieira PARA O MEU IRMÃO E AMIGO CHICO (E PARA OS MEUS AMIGOS)

São as asas que aspiro: cumpro-me, Arcanjo Miguel. És proteção. Tua misericórdia – argila. Guerreiro: nessas lidas, nesta caminhada – breve sopro. “São muitas a ciladas, Emanuel”, me advertes. E como são tantas, Arcanjo! (Perdoa a auto piedade.) Anjo agregador, aplaca a ansiedade, dissipa a névoa, edifica a paz, e não te esqueças de todos aqueles que não têm voz, os escondidos, os pobrezinhos, os nãocélebres, os humildes, os tantos franciscos despojados. Tanto me salvaste. se não for pedir demais, continua a me salvar até a hora de atravessar a ponte. Não quero ser mero pedaço – fragmentos que nada unificam, Oferece a Luz da totalidade (Pedi muito?) Intercede, não permite que a vela se apague. Assim sigo: Blindai- me e aos que amo, meus irmãos, minhas irmãs, os lucas, as clarices, as célias, meus amigos – e guardai os tantos que já se foram. És nossa couraça, Arcanjo. Mede na ampulheta minha finitude: existirá o tempo? Serei – quero ser. Sinto o roçar de asas amadas

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SINCERAS DESCULPAS
Por Robinson Silva Alves

MINHAS SINCERAS DESCULPAS PARA QUEM FOGE A LUTA ESQUECE DE SONHAR

NÃO SABE QUE NESTA VIDA É PRECISO GRITAR

AMAR. OUSAR. O MUNDO LIBERTAR

MEUS LAMENTOS PARA QUEM NÃO OUVEM O VENTO NÃO VOAM NAS ASAS DO PENSAMENTO

MINHA MELANCOLIA PARA TODOS QUE NÃO DESCOBREM A POESIA

NO POEMA RAIAR DO DIA MINHAS SINCERAS DESCULPAS.

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O conto da Cotovia Encantada
Por Vovó Gildete

onde só se via a fumaça que saia da lareira, confundindo-se com a neve. Ali morava a feiticeira Ala. Que do alto observava tudo que se passava no castelo e na fazenda do lavrador. Uma vez por mês nos dias de lua cheia ela pegava a vassoura e sobrevoava toda região e fazia os rituais de magia lá no fundo azul das noites na floresta, onde corujas e sacis obedeciam às ordens da feiticeira Ala. Como é sabido na Europa o clima é muito frio e cai muita neve, que passa a metade do ano, chove, cai neve, e o frio é insuportável, mas para quem nasceu lá, acha o frio suportável.

Voltando ao castelo e ao rei perverso, ele chamava-se Astofo. O rei Astofo tinha dois aniEm tempos passados, muitos e muitos anos, e mais de estimação, um coelho muito esperto e existe ainda hoje em pleno século XXI, em um um papagaio que era muito sábio. Os dois fideterminado cantão europeu, um castelo da lhos do rei um chama-se Samuel e o outro ZaEra Medieval, construído todo feito de pedras, queu. Os três filhos do lavrador o mais velho com torres muito altas no formato da coroa do chama-se Christoph e o do meio Romeo, e a rei, que reinava naquele cantão, as paredes filha Gabriela. também de pedras formava o muro e dentro Certo dia o filho do rei chamado Zaqueu saiu deste muro era a cidade, onde tem dois portões, um de entrada e o outro é o da saída. O passeando a cavalo nas terras do pai e sentiu o desejo de se aproximar das terras do lavrarei era um homem muito orgulhoso, perverso e dor para apreciar as macieiras arrogante. E lá no alto da montanha morava carregadas, seu perfume enchia o ar de um um senhor lavrador, dono de muitas terras on- delicioso aroma junto com as uvas, que já esde cultivava um enorme parreiral de onde co- tavam para ser colhidas. O Zaqueu avistou ao lhia as uvas para fabricação de vinho, e possu- longe uma figura de mulher sentada na varanda, era a Gabriela, que estava bordando uma ía muitos animais, onde os leites que eram orlinda toalha com fios de ouro, cabisbaixa ela denhados das vacas eram transformados em não percebeu a presença do príncipe Zaqueu, manteiga, queijo etc. que curioso foi se aproximando mais e mais até conseguir ver e admirar a beleza da GabriVoltando ao rei, ele tinha dois filhos muito boela, e logo ficou apaixonado, todo dia saia em nitos e muito educados em nada parecia com direção a fazenda do lavrador a fim de vê a o pai, eram caridosos, por onde passavam Gabriela. O príncipe Zaqueu era prometido à chamavam atenção pelo porte elegante, nada princesa Irina que morava em outro castelo bem distante do castelo do rei Astofo. Em uma orgulhosos, simpáticos e sempre procurando manhã de primavera o príncipe Zaqueu passeajudar os mais necessitados, que moravam ando no jardim do castelo, estava meditando e fora da fortaleza do castelo. falando alto : _ Há como estou apaixonado pela filha do lavrador, como será o nome dela? O lavrador tinha três filhos, dois rapazes e uma moça, muito, muito bonita era o xodó dos _Que eu faço para me encontrar com ela? irmãos e do pai. Nunca havia deixado a cida- Responda-me papagaio real, você que tem resposta pra tudo, me diga agora o que faço? de, foi educada em casa e era muito prendaO papagaio real falou: da. Ela se chamavas Gabriela. Além da mon(Segue) tanha lá no mais alto, existia uma choupana
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_ “Mande o coelho real ir bisbilhotar na fazenda até ouvir o nome da sua adorável criatura”. O príncipe Zaqueu da ordem ao coelho para descobrir o nome da garota. O coelho muito esperto chega pulando a casa do lavrador e se esconde embaixo da escada e fica bem quietinho, ouvindo atento a qualquer som. O relógio cuco anuncia a hora da refeição, a mãe da jovem a chama: _Gabriela venha almoçar, que hoje pela primeira vez seu pai e eu vamos levar você pra conhecer a cidade e passear no lago para você conhecer os cisnes e patos que vivem por lá. A Gabriela saiu pulando de alegria, e o coelho também partiu aos pulos pela montanha abaixo e foi todo feliz contar ao príncipe Zaqueu o nome da jovem. Chegando ao castelo ficou surpreso com a movimentação dos criados. Pergunta o coelho real ao papagaio real: _ Que se passa aqui? Por que tanta pressa dos criados que estão a correr de um lado para outro? O papagaio real respondeu: _ Está chegando à comitiva real trazendo a princesa Irina para conhecer o príncipe Zaqueu, pois ela foi prometida a ele, desde que nasceu acordo dos pais, sabe como são, eles os reis casam os filhos com quem eles querem e por interesse financeiro. Nesse momento entra o príncipe Zaqueu, apressado, nem viu o coelho e este gritou: _ Ai meu Deus que jovem lindo! _ Príncipe Zaqueu não quer saber o nome da E o príncipe também ficou com a imagem da jovem filha do lavrador? Ele respondeu: _ Quero sim! Como se chama aquela linda cria- Gabriela na mente. Falando sozinho: _ Meu Deus que jovem linda, pele macia, cabetura? O coelho real respondeu: los longos e negros que molda o rosto, dentes _ Chama-se, esqueci, parece que é gazela, perfeitos, sorriso encantador, educada, simpátinão! Tarantela! Há lembrei é Gabriela! ca, há! É como ela que quero casar! Vou falar Neste momento tocam as trombetas reais com os pais dela. Voltou ao castelo e não foi anunciando a chegada da comitiva real. conhecer a Irina O papagaio real ouviu quando o coelho falou para o príncipe Zaqueu o nome da jovem e fi- (Segue) cou falando, andando de um lado para outro:
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_ Gabriela, Gabi, Gabriela. O príncipe Zaqueu não estava nem um pouco interessado na visita da princesa Irina. Seu pensamento era na plebeia Gabriela. Na chegada da comitiva real ao castelo, a princesa Irina que era muito interesseira, procurou logo conhecer as dependências do castelo e tudo quanto se encontrava ali dentro, chegando à varanda viu o papagaio que estava ainda falando, Gabriela, Gabi, Gabriela. A princesa se aproximou da gaiola e perguntou: _ Papagaio real quem é essa Gabriela, Gabi, Gabriela? O papagaio respondeu: _ Você não sabe? É a jovem de quem o príncipe Zaqueu está apaixonado e pode tirar seu cavalinho da chuva que ele não vai casar com você! E tenho dito é isso ai e pronto! A princesa Irina ainda não tinha conhecido o príncipe Zaqueu, e saiu correndo pela escadaria do castelo. Encontrando a sua ama, contou o que o papagaio real havia falado pra ela e a ama respondeu: Vamos dá um jeito nisso, conheço alguém que pode resolver tudo. _ Mande chamar o bobo da corte, ele vai levar um recado à amiga Ala, a feiticeira do pico da montanha. E assim foi feito. Imediatamente a feiticeira se virou numa gralha e foi ao castelo ao encontro da amiga Ama. A família do lavrador desceu a montanha e ia estrada a fora, quando um cavaleiro se aproximou e cumprimentou a todos, então a jovem Gabriela viu aquele belo rapaz, os olhares se cruzaram e ela sentiu o seu coração pulsar forte e ficou congelada. Não se interessou em conhecer a cidade nem o lago, só pensando no rapaz que se apresentou dizendo só seu nome Zaqueu. Aquele nome cravou em seu pensamento que ela passou o resto do dia só pensando e suspirando Zaqueu. Nunca tinha visto rapaz tão belo, moço fino, educado, calmo, um sorriso lindo, dentes perfeitos, alto e esbelto, suspirando falou:

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Na cozinha do castelo a Ama da princesa Irina, conversava com a feiticeira Ala, transformada numa gralha (ave de cor preta que vive sobrevoando os cantões europeus e dizem que é ave de mau agouro). A Ama estava dando ordens, mandadas pela princesa, para a feiticeira Ala descobrir quem era essa Gabriela e enfeitiça-la. Ao sair do castelo a feiticeira Ala transformada numa gralha, saiu voando em direção a casa do lavrador. O príncipe Zaqueu no segundo dia desceu do seu quarto para conhecer a princesa Irina. Nem um pouco interessado nela, mas muito educado, cumprimentou os pais dela e deu as boas vindas a todos, pediu licença a todos e se retirou. O príncipe Samuel segundo filho do rei não gostou da princesa Irina e ouviu quando a Ama estava dando instruções à feiticeira Ala para por feitiço na jovem Gabriela, correndo com estilingue tentou acertar a gralha malvada, atirou a pedra mais não acertou, aquele pássaro malvado. O príncipe Samuel era muito criança tinha só nove anos. O Zaqueu saiu do castelo sem ninguém notar e foi à cidade procurar pelos pais da Gabriela. Encontrou-os no lago, e se identificou quem era ao mesmo tempo em que pediu a mão da Gabriela e o consentimento de visitá-la. Os pais dela ficaram cismados mais consentiram na visita e falaram que na visita iriam conversar a respeito do casamento. Os dias que a princesa Irina passou no castelo só viu o príncipe Zaqueu duas vezes. Isso a deixou irritada e queria logo se vingar da jovem por nome Gabriela. O lavrador com a família estava voltando do passeio à cidade, quando em frente ao castelo do rei Astofo apareceu a Irina que estava passeando no jardim, quando avistou o Christoph filho mais velho do lavrador, foi ao encontro dele e se apresentou, mas não conheceu Gabriela, pois vinha dentro da carruagem com sua mãe. Daquele momento em diante Irina, já mudou o pensamento e ficou perturbada com a beleza do Christoph, mas queria se vingar do Zaqueu pelo desprezo que foi dado a ela, e através da Ama dela planejou e mandou a feiticeira Ala jogar um feitiço na Gabriela. No dia determinado da visita do príncipe Zaqueu a casa do lavrador, a Gabriela estava radiante de felicidade aguardando a chegada do seu amado. Em frente à casa do lavrador existia uma árvore frondosa, e ali estava entre as folhagens a feiticeira Ala, transformada na ave gralha, ob-

servando tudo.

Quando vem chegando o príncipe Zaqueu no seu cavalo e sendo recebido a porta pelo lavrador. Pedido feito, pedido aceito. Ao se despedir do lavrador e se encaminhando a porta, o pai da Gabriela consentiu que ela acompanhasse o príncipe, feliz e de mãos dadas, saíram à varanda, quando de repente a feiticeira Ala transformada no pássaro gralha, voa em direção aos noivos e joga a porção mágica que trazia em um vidrinho preso as suas garras atingindo Gabriela em cheio, e coitada desmaiou e se transformou em uma cotovia, um pássaro. Esta ave é tida como “anjo da primavera” que voa alto nos céus da Europa, seu canto é melodioso, o seu voo é de amor, chova ou faça sol está ela a cantar. E foi voando para árvore em frente à casa do seu pai, onde em criança brincava, em sua sombra com os irmãos. O príncipe Zaqueu, em pânico sai desesperada a procura da ave, que já estava a cantar partindo o coração do príncipe. Que prometeu procurar sem descanso uma maneira de quebrar aquele feitiço, e sai feito louco pelo os cantões europeus procurando quem pudesse desfazer aquele mal que transformou sua amada em uma ave. Os irmãos da Gabriela, Christoph e Romeo, sabendo que fora a gralha a causadora do problema; pegaram seus estilingues e saíram à procura da gralha para matá-la. Não demorou e encontraram a ave toda feliz batendo as asas e dando aqueles gritos roucos característicos da espécie. O Romeo atirou uma pedra com o estilingue, que atingiu a asa, não podendo voar, ela cai e o Christoph segurou-a e ela foi se transformando na feiticeira Ala, que toda amarrada e sem os poderes mágicos, confessou que fora mandada por Irina para tirar Gabriela do caminho do príncipe Zaqueu (Segue)
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E a quebra do feitiço só seria possível se o príncipe Zaqueu, entre milhares de aves da espécie cotovia, encontrasse um alfinete na cabecinha de uma delas que seria a sua Gabriela. Os irmãos levaram a feiticeira Ala, amarrada para dentro de casa e foram à procura do príncipe Zaqueu, que ninguém sabia do paradeiro dele. O lavrador foi até o castelo contou toda história Irina foi correndo atrás de Christoph, que também não quis saber dela e obrigou a feiticeira Ala a fazer um feitiço, e a Irina foi transformada em uma ratazana selvagem, que desapareceu pela floresta a dentro.

de todos estavam embevecidos com o canto da cotovia Gabriela. A família do lavrador ao ver o príncipe Zaqueu, contaram tudo o que a feiticeira havia falado para eles e o fim da Irina. Foi quando a fada dos sonhos falou: _Vamos até a árvore onde está à cotovia Gabriela. Chegando lá a ave se pôs a cantar e o príncipe Zaqueu desmaiou ao ouvir o tão suave e melodioso canto. Ao desmaiar a fada o transformou em outra cotovia, e lá entre as folhagens a cotovia Gabriela viu o seu amado transformado, voou imediatamente ele começou a cantar e ela o acompanhou. Foi aquela alegria tanto no castelo quanto na casa do lavrador. Procuraram a fada dos sonhos e ela já havia partido. No castelo já estava a maior festa, aguardavam a entrada triunfal do casal real. Mas para surpresa de todos não aconteceu. O casal de cotovia preferiram viverem juntos, cantando e voando livremente pelos cantões europeus até os dias de hoje. A fada dos sonhos sempre se encontra com eles voando e cantando o cântico melodioso, o anjo da primavera, que chova que faça sol, estão os dois a voar o voo do amor. Sempre acompanhada do seu amado. Essa história não termina como tantas outras que sempre o final é o casamento e o O príncipe Zaqueu após andar tanto sem su“ viveram felizes para sempre”; não esta histócesso, parou em uma choupana abandonada ria. É sim com um casal apaixonado existente em uma clareira e amarrando o cava- voando no mais alto do céu e levando o seu lo, sentou para descansar, dormiu um tempicântico harmonioso a todas as pessoas, as fanho, quando acordou estava em sua frente zendo amarem e se sentirem amadas. uma jovem bem bonita, vestida de azul e uma luz brilhando ao redor dela. O jovem se assustou e perguntou: _Quem é você? E a jovem respondeu: _ eu sou a fada dos sonhos que vem te seguindo e te trouxe até aqui para você descansar e vou te levar para recuperar a sua tão querida Gabriela. Ele perguntou: _ Como você ficou sabendo do nome dela e de tudo que aconteceu? E a fada respondeu: _ Eu sei de tudo que se passa e procuro ajudar as pessoas do bem, e você é uma dessas, estou aqui para te ajudar. Vamos embora que você vai quebrar o feitiço de sua amada. A feiticeira Ala mentiu, quando falou que tem que procurar, entre tantas cotovia a que tenha um alfinete na cabeça, é mentira. Sua amada vai despertar do feitiço ouvindo outra cotovia cantar, então ela irá acordar. E levou o príncipe para a casa do lavrador onwww.varaldobrasil.com 43

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Canja de galinha
Ingredientes

500 g de peito de frango 2 l de caldo de galinha (se for usar cubos, dissolva apenas 2) 2 xícara (chá) de cenouras em cubos 2 batatas 1/2 xícara (chá) de arroz branco 1 pitada de noz-moscada sal e pimenta-do-reino a gosto

Modo de preparo Coloque o arroz numa peneira, lave bem e deixe escorrer a água Reserve. Corte os legumes em cubos Retire uma fatia fina da lateral da cenoura Apoie a cenoura sobre uma tábua com a lateral cortada voltada para baixo Agora retire fatias finas de cada lado, transformando a cenoura num retângulo Corte o retângulo em fatias (1 cm); as fatias em tiras (1 cm) e as tiras em cubos (1 cm) Repita o procedimento com a batata. Numa panela, coloque o caldo de galinha, tampe e leve ao fogo médio até ferver Em seguida, abaixe o fogo, acrescente o peito de frango e deixe cozinhar por 40 minutos. Retire o peito de frango da panela e reserve Acrescente o arroz, a batata e a cenoura ao caldo da panela e deixe cozinhar por 10 minutos. Enquanto isso, desfie o frango com a ajuda de uma faca e de um garfo. Coloque o frango desfiado na panela com o arroz, a batata e a cenoura Tempere com noz-moscada, sal e pimenta-do-reino Deixe cozinhar por mais 10 minutos. Transfira a canja para uma sopeira Sirva quente. http://www.almanaqueculinario.com.br/

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VEM, MUSA...
Por Emérita Andrade Estrelas cintilam, Sombras, solidão... Ouço a voz do vento Livre n’amplidão Vem, musa, embalar Meu triste cantar! Sinto a melodia Das etéreas plagas... Corações navegam Da ilusão nas vagas... Vem, musa, embalar Meu triste cantar! Volúpias, desejos, Amores, paixões... Lembranças de beijos, Doces sensações... Vem, musa, embalar Meu triste cantar! Brilho cintilante Vem da alva lua... Lume fascinante Da beleza tua... Vem, musa, embalar Meu triste cantar! Tua languidez... Teu jeito de amar... Tua doce tez... És meu céu, meu ar... Vem, musa, embalar Meu triste cantar!

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passarinho
Por Rafael Zen tem dias que tudo é um tédio e eu me sinto invariavelmente sozinho pego todos os fios de cabelo pela casa, construo um barco a vapor que funciona à cachaça, e do resto que sobra construo um ninho e dali pode nascer, pra gente, um sonho aceitável ou passarinho

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Raso
Por Valquíria Gesqui Malagoli

Nível do chão Pensamento raso Limite ao contrário Avesso do acaso Máxima altura Perfeito alcance Da coisa certa Do alto lance Nível do chão Pensamento raso Limite ao contrário Avesso do acaso

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O ENCONTRO
Por Carlos Alberto Omena
A noite chegara e os termômetros teimavam em mostrar a queda brusca na temperatura. Estava assim desde o inicio do inverno e segundo as previsões o frio iria continuar castigando a região. Mas apesar do frio intenso e o vento gelado cortante, a noite estava clara, sem nuvens e com uma bela lua cheia lançando sua luz brilhante e prateada por sobre o lago sereno refletindo assim a sua imagem e dando forma a uma paisagem mágica e digna de qualquer moldura de pintor famoso. Às margens desse lago destoando daquele visual deslumbrante encontrava-se Sérgio aguardando ansiosamente sua querida amada Vilma. Sérgio mal podia acreditar que finalmente sua adorada viria ao seu encontro. Iria furar o cerco e a vigilância severa de seu pai, Dr. Marcelo. Dr. Marcelo era um homem muito rico e poderoso na região, possuidor de um ciúme muito grande de sua filha Vilma e não admitia de maneira alguma qualquer contato com Sérgio. Era um homem muito conservador, preconceituoso e rancoroso capaz de qualquer coisa em prol de sua família. Sérgio, coitado, um rapaz honesto, trabalhador mas pobre. Trabalhava como Office boy num escritório da cidade fato este que impedia por parte do Dr. Marcelo o namoro dos jovens enamorados. Mas como no coração ninguém manda, os dois jovens se apaixonaram e começaram a se encontrar às escondidas. Eram encontros curtos, rápidos mas muito intensos e todas as vezes que Dr.Marcelo ficava sabendo castigava com severidade a pobre moça e ameaçava o rapaz. Porém naquela noite seria diferente. Vilma resolveu dar um basta na situação e desafiar uma vez por todas as atitudes de seu pai. Vilma e Sérgio combinaram que durante a noite, após todos se recolherem, ela pularia a janela de seu quarto e iriam se encontrar às margens do lago e teriam finalmente a tão sonhada noite de amor. Por isso Sérgio estava lá, no lago sem se incomodar com o frio intenso que se abatera naquela noite. A cada minuto que se passava, mais aumentava a angustia de Sérgio e ele pensava: “Será que ela vai ter coragem de vir ou vai desistir na última hora?” Ao meio desses pensamentos e incertezas, fi-

nalmente surge dentre as arvores, sua amada. Estava linda, maravilhosa. Ela com seus cabelos negros longos e soltos, tendo a claridade da lua penetrando sobre suas vestes causando uma transparência que mostravam todas as suas lindas e perfeitas formas. Sérgio ficou extasiado. Sem trocar uma só palavra, os dois se abraçaram e tiveram a noite perfeita com anuência somente da lua como testemunha. Pura magia. Já eram quase sete da manhã, o sol meio tímido devido ao frio, já marcava sua presença e Sérgio acordava assustado. Levanta-se, meio atordoado ainda, não vê sua amada e imagina apenas que ela para que seu pai não desconfiasse de sua fuga noturna, voltou para casa ao meio da madrugada. O rapaz não se continha com tanta felicidade. Afinal teve sua amada em seus braços uma noite inteira. Parecia ter sido um sonho a não ser o lenço que Vilma trazia envolto ao pescoço que esquecera na cama improvisada de palha e pelo suave perfume que usava e que ainda estava presente no ambiente. O rapaz se recompõe e cantarolando feliz da vida volta à cidade. Mas nem tudo é perfeito nessa vida e às vezes o destino brinca com nossas vidas e a alegria de Sérgio se transforma em agonia quando ao passar em frente da casa de Vilma vê uma multidão em sua porta. Seu coração dispara e uma sensação de medo e angustia se instala acompanhada de forte arrepio. Sérgio, ainda com o lenço que Vilma esquecera na noite anterior, em suas mãos para diante da casa e pergunta a um grupo de pessoas o que acontecera. Estarrecido Sergio desmaia quando lhe relatam o ocorrido: - Foi a Vilma. Ela se matou ontem no começo da noite. Dizem que seu pai a flagrou tentando pular a janela para se encontrar com o namorado...

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PELAS FÍMBRIAS
Por Carlos Alberto Barreto Dizes que não sou de nada Que não me envolvo contigo Que sou suscetível às coisas Triviais do nosso cotidiano Que só caminho pelas orlas Num repto de aparente repulsa A todas malemolências do amor. Teu estro folgaz te deixa cega Numa carapaça de gélida apatia Achando a minha evasiva conduta De busca a um nada periférico D’uma filosofia vã e obsoleta Estátua de pedra, sempre pedra. Ora, ora, minha escorregadia amante Se deslizo orlando a existência Pelas periferias, pelas laterais, Dos sonhos, dos paixões imperceptíveis Abra então a guarda que estou avançando Até as negras fímbrias dos teus cabelos...

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CÂNTICO DE AREIA Por Márcia Tigani Não cantes da tua vida as viagens, nem as navegações em mar aberto, e o dia que se despe ,resoluto para a noite que chega perto... Não cantes... Não cantes o teu poder absoluto, em terras por ti conquistadas, onde espalhastes sementes de tua colheita rica e farta... Não cantes... Em tempos de antigamente, também eu sonhei com o mar, com suas aguas solenes e sereias a enfeitiçar... Não cantei tuas cantigas, nem desbravei tuas terras, em meus sonhos fui artista hoje sou pedra antiga... Do mar sobraram-me búzios de meus sonhos de menina, e poemas sem uso, de um reino impreciso. Por isso não cantes da vida a certeza: sei que é tudo precário belo, manso e perdido sem qualquer sentido ou razão... Só é certo o poema, a areia e a solidão...

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O Leão e a Gazela

Por Maria Socorro Sousa

Toques refinados, elegantes, passos seguros asseguravam o trono em meio a um harém de gazelas. Para distingui-las não era necessário esforço algum, todas estavam enfeitiçadas pelo porte de senhor e o queria conquistá-lo. Desvendar os mistérios da galáxia do pântano em crepúsculo seria alcançar a luz de uma super estrela em noite de luar ou um vôo de uma águia em renovo no meio ao revoar das aves no horizonte em prisma ao entardecer. O leão como senhor e rei sempre cativava com desdém e manobrava com perspicácia e inteligência. A quem diga que se sentia feliz em seu altruísmo de poder. Nada poderia sua caça. Sua meta ultrapassaria seus limites para ter seu âmago regozijado. A sua alma em ânsia em busca de uma gazela que seria amada o deixava energizado. A sua primícia seria escolhida naquela noite. Sentia-se como preso no pântano. O sol já se escondia. Uma gazela captada pelo radar chamava a atenção não pela beleza mais pelas fotos conquistadas a distância em tão raro bioma, tesouros geológicos, mata branca, riquezas de diversidades faziam um espetáculo fantástico daquele planeta. Registrada a gazela em chama fugaz de ternura seria preciosa aos olhos do rei. A doçura sublime fazia sutil frenesi ao exímio do leão. Sedutora, frágil, porém altiva, apresentar-se de vestes finas para o rei temia a gazela por não conhecer o desejo do amado. O coração e a paixão genuína e natural faziam a espera pela luz do amanhecer. O leão e a gazela instalados pelo olhar, amor em promessas se fez. Fascinava-se pela formosura e expressão de amor. O amor, o amor maior. Amor como a macieira, paixão, amando… . No jardim privado do pântano à luz do sol brilhava. O raio desbravou o coração… Não houve palavras… Silêncio. Silêncio se fez…

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TRADUÇÃO Luiz Carlos Amorim Pra que traduzir em palavras o que o coração bate forte e os olhos dizem tão bem? Não é preciso palavras quando estamos nós dois, quando estamos nós, a sós, nós, como um só, mais ninguém. Emoções não são palavras, sentimentos, muito menos. Os olhos, sim, dizem tudo, têm a linguagem perfeita. E quando a emoção, o amor, comandam o coração, aflorando aos nossos olhos, não é preciso mais nada. É deixar o coração comandar nossos sentidos, deixar falar nossa pele, nossos olhos, nossos corpos. Há discurso mais bonito?

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A mulher
Por Neri Bocchese

Mulher, o relicário da sensibilidade, Mulher, o fascínio da sensualidade, Mulher, a sedutora. Dos seres vivos um dos mais importantes. Ou a importância está em SER, um vivente? A mulher, o ninho da Vida, mas a Vida precisa do primeiro instante, a semente para ser gerada em campo fértil. A mulher responsável pelo aprendizado de fazer o fogo. O fogo, calor necessário para a vida perpetuar-se. O calor transmitido ao pequenino ser entre seus braços a fez descobrir a importância de um fogo aceso o tempo todo. A carne cozida, alimento favorecendo a inteligência. O fogo, a luz, o calor, o cozer, o falar, amar-se, a sociabilização, surgidos em volta da fogueira primitiva. A mulher responsável por curtir o couro, o agasalho para o corpo que precisa de carinho, de proteção. Corpo criado por ela, necessita de condições para a sobrevivência. A mulher descobriu a importância de um barro preparado com as mãos, às ervas preparadas para curar feridas. Ela, a Senhora da Vida, sempre soube, é preciso não só dar a Luz, mas cuidar para a vida continuar. A mulher descobriu a agricultura, ela amamenta a criança. Para a sobrevivência, com a observação, cultivou o alimento para a Humanidade. Com a agricultura aconteceu afixação ao solo, a evolução, o desenvolvimento das civilizações. . A mulher, a primeira a existir, um ser às vezes muito especial, outras ocasiões se torna um tanto complicada. Conduz-se por sentimentos nem sempre os mais nobres. Deixou-se dominar, por ser frágil. Para viver busca a companhia de um homem. Precisa de carinho. Com pouca força física, trás a energia da vida em suas mãos. Mulher um ser que se contorce em dores e, sorri ao recém nascido. Mulher tantas vezes ultrajada, morta sem piedade, mas a escolhida para a Mãe de Deus. Mulher na história relegada a planos inferiores, porém foi ela a ensinar ao companheiro fazer amor olho no olho, sentindo o corpo do outro. Trouxe assim o Bem Querer. Mulher, um ser um tanto peculiar, a mãe de todo o homem, a primeira educadora.

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Suflê de chocolate com calda quente
Ingredientes .2 colheres (sopa) de manteiga .2 colheres (sopa) de farinha de trigo .4 ovos (claras e gemas separadas) .1 lata de leite condensado .3 colheres (sopa) de chocolate em pó .1 pitada de sal Calda de chocolate: .3/4 de xícara (chá) de leite .1 colher (sopa) de manteiga .2 colheres (sopa) de chocolate em pó .2 colheres (sopa) de açúcar Modo de preparo Em uma panela, derreta a manteiga, junte a farinha de trigo e mexa até dourar. Retire do fogo, acrescente uma a uma as gemas e continue mexendo rapidamente. Misture o leite condensado e o chocolate em pó. Bata as claras em neve com o sal e incorpore delicadamente ao creme de chocolate. Distribua a massa em refratários individuais, untados com manteiga. Asse no forno preaquecido a 180ºC durante cerca de 35 minutos. Calda: em uma panela, misture o leite, a manteiga, o chocolate e o açúcar. Deixe ferver em fogo brando até dar ponto de calda. Sirva o suflê quente acompanhado com a calda. Dica: se preferir use um refratário grande. http://mdemulher.abril.com.br/

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Trabalhador braçal das obras
Por Marina Gentile

Sou um trabalhador braçal, Das mãos calejadas, Corpo empoeirado, suado, Por não ter estudo, faço de tudo. Preparo a massa, o traço, Amarro o estribo com arame recozido. Preparo as colunas para o concreto, Corto e moldo ferro. Sou o ajudante, pião auxiliar, Da arte da laje armar, Preparo as estroncas, Do escorar. Carrinhos de areia, pedras, cimento, Transporto e arrumo tudo no lugar, Blocos, pisos, revestimentos, Muita cautela para não quebrar. Sou a força bruta das obras, Vítima frequente de acidente, Sou o pião do mandado, Nem sempre valorizado... Oh trabalhinho duro!

Foto de Davi Moreno, Holanda 2009

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Tráfico de Vidas
Por Flávia Assaife Diariamente está nos jornais e nas televisões notícias de tráfico de drogas, de crianças, de mulheres, enfim, de vidas. São reportagens pesadas retratando a triste realidade em que vivemos. Sonhos roubados sem pena, famílias desestruturadas, vidas dilaceradas. O número de delitos desta ordem cresce em progressão geométrica e o dever de proteção se perde a cada milésimo de segundo numa corrida sem precedentes. São pais órfãos de filhos, filhos órfãos de pais, uma sociedade órfã de justiça e paz.

A violência impera sem dó, matar passa a ser um ato comum, roubar torna-se normal, bater, atirar, machucar em prol de objetivos descabidos já faz parte do dia a dia. Ninguém está livre, todos são alvos fáceis, na rua, na escola, no clube, no shopping, no cinema, no teatro, no Não sei se posso dizer que se trata de uma cocarro, na condução, em casa... Todo e qual- ação de valores e de vítimas, apropriação indébita da liberdade alheia visando ganhos e exquer lugar pode ser alvo! ploração, apenas me sinto pequenina diante da Os sentimentos e pensamentos são diversos: complexidade da questão. Sinto-me um grão alguns não possuem clemência e torcem pela de areia numa imensa praia, apenas mais um pena de morte, pela prisão perpétua e por pe- na multidão, sem ação, sem saber o que é posnas menos brandas; outros se preocupam com sível fazer... É muito triste constatar que no séos sentimentos de todos os envolvidos e acre- culo XXI uma prática errada da antiguidade ainditam que todos merecem uma nova oportuni- da se mantém “viva” alimentando redes internadade. Difícil não é mesmo? Não sei ao certo cionais e quadrilhas especializadas e cruéis por onde me enquadro. Ao mesmo tempo em que ser, infelizmente, um negócio lucrativo... O não comungo da pena de morte, me questiono mais desesperador é que ocorre em todo o se ocorresse com meu filho, mãe, marido, ir- mundo, em nações ricas e/ou pobres. mão, etc, se manteria a mesma opinião... Acho que não! É um assunto complexo e muito deli- Lanço mão da única arma que possuo: a escrita. Quem sabe possa fazer um eco de socorro cado. em auxílio a um dos maiores e desoladores Penso que há uma enorme desproporção na problemas da humanidade: o tráfico de vidas. aplicação das leis, punindo-se com rigor pequenos delitos, ao mesmo tempo em que muito pouco ou nada se faz para delitos graves e hediondos. Aqueles que não possuem boas condições financeiras sofrem austeras punições independentes do grau de delito, enquanto, os que as possuem, são abrandados em suas condenações. Injustiça ou resultado de valores desequilibrados de uma sociedade desconexa do certo e do errado? Não sei, apenas é fato que 70% da criminalidade está vinculada direta ou indiretamente ao tráfico, seja de drogas, de mulheres, de crianças, de vidas. No Brasil, o tráfico de
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pessoas é a maior fonte de renda com tráficos, superando o tráfico de drogas e o tráfico de armas movimentando, aproximadamente, 32 bilhões de dólares por ano, segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). São na maioria das vezes mulheres e crianças, levadas para fora do país, aonde são prostituídas, violentadas e vendidas por preços altos como se fossem simples objetos. Outra questão do problema se faz presente através do turismo sexual e do embarque de mulheres dos países de origem para os países receptores em busca de oportunidades de trabalho em casas noturnas e boates, há ainda a venda de órgãos, adoção ilegal, pornografia infantil, às formas ilegais de imigração com vistas à exploração do trabalho em condições análogas à escravidão, ao contrabando de mercadorias, ao contrabando de armas e ao tráfico de drogas. São tantas que meus pensamentos se perdem em tentar compreender o que me parece incompreensível. Que sociedade é esta? Que mundo é este?

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Este ano o stand do VARAL DO BRASIL acolherá uma exposição de pinturas do artista RICHARD CALIL BULOS. Richard, também conhecido como Chachá, nasceu no Rio de Janeiro e radicou-se após em Laguna, SC, onde viveu até seu falecimento em 2007. Filho de um libanês e de uma suíça nascida em Genebra, o artista já teve suas obras expostas por três vezes nesta cidade (duas vezes na OMC e uma vez na OMPI). Artista plástico, caricaturista, jornalista, Richard dedicou sua vida a retratar e defender os cidadãos mais simples da região de Laguna, cidade que amou e pela qual zelou com palavras, tintas e pincéis. Suas obras estão espalhadas pelos cinco continentes.
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não está em maus lençóis. Se bem produzidos (como livro, como produto editorial), ou bem traduzidos, e bem trabalhados pelas próprias editoras, os livros contam com um público fiel e numeroso. Claro, é gênero de multidinhas, não de multidões. Mesmo assim, as vendas de Por Angela Ramalho bons livros de poesia são constantes, atravesSou apaixonada por poesia e isso não é de ho- sam os anos.” je. Tenho dois livros publicados e já estou com o terceiro pronto, faltando apenas editar. Já me Saber que não estamos em maus lençóis e que disseram que poesia não vende e eu não dei mesmo não sendo considerado “gênero de bola. Continuo amando poesia, escrevendo po- multidões” ganhamos cada vez mais espaços é esia, divulgando poesia e organizando livros de animador. Recentemente foi fundada em Salto (SP) a ANLPPB – Academia Nacional de Letras poesia. Sei que o gênero é pouco vendido e olhado do Portal do Poeta Brasileiro (da qual faço parcom desdém por editores e livreiros. Algumas te), composta de poetas representantes da editoras nem aceitam receber originais para maioria dos estados da federação. Um dos objetivos da instituição é colocar a poesia no paanálise de livros de poesia. tamar de destaque que ela merece no cenário A terceira edição da pesquisa Retratos da Lei- nacional e lutar pela valorização do poeta vitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró- vo, uma vez que a maioria dos poetas Livro em 2011 coloca a poesia em sétimo lugar “consagrados” do grande público já se foram. Reconhecemos o valor dos imortais da poesia no ranking de preferência dos leitores. brasileira e sabemos que seus poemas serão Mas me parece que a poesia começou a respi- sempre lembrados, de geração a geração. Torar novos e bons ares, tanto de popularidade davia, precisamos observar com atenção o surcomo de recepção dentro das editoras, haja gimento de novos poetas e dar-lhes o devido vista a reedição das obras de Carlos Drum- crédito. mond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Outro fato que me faz acreditar na importância Meireles e Mario Quintana. Nomes contempo- da poesia enquanto gênero literário e na consorâneos como Fabrício Corsaletti, Paulo Henri- lidação do seu espaço no mercado editorial ques Britto, Ana Martins Marques e Antonio Ci- brasileiro foi o convite recebido pela Presidente cero despontam no cenário nacional. Ainda não da Academia Nacional de Letras do Portal do descobriram uma tal de Angela Ramalho, mas Poeta Brasileiro Aline Romariz e o Diretor Cultural da mesma instituição Teco Seade. Amisso é apenas uma questão de tempo (risos). bos serão homenageados na Feira Literária Questiono porque a poesia - que para mim é de Frankfurt 2013, o maior evento literário do absolutamente popular - ainda não ocupa lugar mundo, realizado na Alemanha. O convite parde destaque na literatura nacional? Porque ela tiu da Agente Cultural da Embaixada Alemã no não é tão lida como os contos e romances? Brasil Nicole Witt que fundamentou a escolha Particularmente considero romances e contos dos dois poetas “pelos relevantes serviços bem mais difíceis de ler, demandam mais tem- prestados à Poesia Brasileira”. po e são raros os que mexem com a minha O patinho está deixando de ser feio. Talvez ainemoção, como faz a poesia. da não seja tão bonito quanto o bando de cisTalvez estejam faltando bons poetas. Pegar um nes, mas não está mais sendo desdenhado por papel e nele rabiscar algumas bobagens qual- ser diferente. Permaneceu por um longo tempo quer pessoa faz. Daí a dizer que isso é poesia tristonho, suportou as zombarias e enfrentou tem uma distância muito grande. Mas não se sozinho o “frio do inverno”. Mas está prestes a pode generalizar e dizer que ninguém presta. É dar a volta por cima. preciso que os poetas contemporâneos sejam Não é à toa que as histórias de superação são lidos, analisados, comparados e esse processo as minhas preferidas! resultará na separação do joio do trigo. Leandro Sarmatz, que cuida da reedição da obra de Drummond, manifesta-se otimista em relação ao espaço da poesia no mercado. “A poesia pode até ser considerada o ‘patinho feio’ em termos de divulgação e mercado, mas ela

A POESIA É O PATINHO FEIO DA LITERATURA?

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lado minuto a minuto, jamais. Queria mostrar arte; é o que a B. faz, obras de um lúdico delicadamente revelador, acima de qualquer suspeita. Mabu como até sabe fazer alguma coisa, Por Ro Furkim abriu uma página de face book, e postou absolutamente nada, sequer uma foto de qualquer “Vou cortar o cabelo”, Mabu pensou, coisa sua no perfil. Enquanto a foto no perfil de vendo a B. zanzar entre os comensais, de ca- B. é de uma peça que puxa o navegante da rebeleira crespa e curta a refletir a luz alaranjada de para a página, onde a enorme coleção de dessa manhã de junho. “Ela não tem idade, e outras peças o mantém de olhos pregados na não precisa de simetria nem magreza. Sabe tela até que o mouse lhe seja arrancado da usar de naturalidade como ninguém, cultivar a mão. liberdade, priva de criatividade fora de série _ A coleção que Mabu fez é de meninas, sua arte é muito visitada nos seus álbuns virtuuma diversidade de idades, exigentes como ais. E tem um marido bom de beijar. Nem meselas só, foram pontuais em alertar sobre seu mo vê o perigo de um marido bonito; a B. é súbito ganho de peso, e agora: “Mãe!, o que ‘cê completa em si mesma”. fez com o cabelo...?!” Mabu é escrava do alisante, aliás artificiApoio unicamente daquele lá: “Achei lealidade imperativa em tudo, uma filharada, um gal, amor, seu pescoço assim descoberto. É a marido tolo e esse cansaço injustificado. minha moleca”. O tolo, a alegria de sempre por Não nesse dia, pois a festa se estendeu todos os poros. até depois do poente, mas na tarde seguinte, tão logo se liberou do que chama “a primeira etapa do trabalho escravo diário”, correu a esconder-se no seu cabeleireiro, de lá saindo tosada. Passava a mão na nuca, estranhando o vazio. Não voltaram os caracóis de nascença, devido aos alisamentos consecutivos, mas um arrepiado, um punk que para ser aceito careceria da liberdade tão ensaiada e jamais concretizada. A irritação que todo mundo sempre lhe provocou é um timer da sua condição de prisioneira, não podem olhá-la de esguelha, que já levam um desaforo nas fuças, e depois ela tem de arcar com a mortificação resultante de sua falta de compostura. Enquanto a B. parece não enxergar em redor expressão ou sugestão crítica. “O mundo dela ninguém invade!”, falou consigo e sempre consigo, contendo um estremecimento raivoso, a vislumbrar o mundo almeja“Se ela não vier, melhor”, B. avaliou, um do, a redoma onde a B. exibe suas qualidades segundo antes de avistar Mabu. E caiu numa e alegria de viver, por nada atingida, nenhum disposição bem diversa da possível na ausência da outra. Teria sido serenidade. A serenidaacidente de percurso; parece comprar pouco em realizações e o troco em satisfação é imen- de de girar no próprio eixo, no automático. Mas agora... B. desgosta dessa espécie de febre da so. primavera que ora a toma. Mabu não vê mesmo o que mostrar, detesta qualquer reality show, não pretende viver (Segue) um, fotos pessoais na Internet, cotidiano reve-

ORGULHO E VAIDADE

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Que todas as vezes a toma, pondo-lhe anseios irrealizáveis. Então seria mais feliz com nádegas retas? _ dentre tantas belezas da terra-mãe, tinha de herdar a bunda!, que repuxa os panos, deformando a modelagem mais impecável. Em Mabu a saia lápis faz jus ao nome, sem abaulado extra, e os peitos não ficam a empurrar ferozmente o mundo. Sobre a roupa para ir a um casamento, dispensa a dúvida: saco de batata ou vestido evasê de seda? Quem notará a diferença? Ao que parece a vida ia transcorrer em perfeita ordem caso tivesse o DNA dessa que diria “mestiçagem pura” _ mãe negra pura com pai branco puro, resultando no nariz perfeito a centralizar o rosto de harmonia impossível. Os dentistas sempre afirmam que as de Mabu são as arcadas dentárias ideais. Na cabeça nada de garranchos, nascem-lhe espirais bem feitas _ B. se lembra dela apelidada Princesa Sissi na infância, devido ao aspecto de antiga boneca de porcelana, mas de língua afiada e expressiva como boneca alguma tem e não convém a princesas. Quando surgiu de mechas alisadas parecendo seda pura, B. quase correu atrás do mesmo resultado, mas contando até três optou por opor-se: o habitual. Não se pode com ela se juntar-se a ela. Ok, não ser protagonista, o que se há de fazer?, antagonista tem seu valor. Usar da diferença é a solução para não ser sombra. Procura valorizar seu african style e evidenciar seu cotidiano de mordomias, única vantagem advinda de só precisar cuidar de si. Diante de uma crítica ao temperamento de Mabu, pois é comum tacharem-na de arrogante, trata de reforçar com dissimulação. Mas com empenho. É como uma campanha terrorista, daqueles muçulmanos radicais travestidos de estadunidenses vivendo belamente em condomínios e fabricando bombas no subsolo _ com Mabu por alvo. Outra fantasia é fazer como no filme A Chave Mestra, sobre a lenda de New Orleans, em que a velha toma o invólucro da moça, deixando o espírito novo preso no corpo atrofiado pelo derrame cerebral, ficando o espírito antigo no corpo tenro, forte e bonito. B. costuma ser caridosa, simbiótica com os fracos. Mas Mabu não é fraca. Mabu é uma ameaça.

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Torta de goiabada quente
Ingredientes Massa · 200 g de ricota · 1 e 3/4 de xícara (chá) de farinha de trigo · 1 xícara (chá) de manteiga · 2 colheres (chá) de açúcar · 1 pitada de sal · 1 colher (chá) de fermento em pó Recheio · 400 g de goiabada cascão na temperatura ambiente · 6 colheres (sopa) de água morna Modo de preparo Massa Misture bem todos os ingredientes até formar uma massa lisa. Embrulhe em filme plástico e leve à geladeira, por 2 horas. Abra a massa bem fina e forre o fundo e as laterais de uma fôrma de aro removível. Cubra com filme plástico e leve à geladeira por mais 30 minutos. Reserve uma parte da massa para a decoração. Retire o filme plástico e cubra com papel-alumínio. Asse em forno médio preaquecido até dourar a massa. Reserve. Recheio Dilua a goiabada com a água morna, se necessário. Faça uma camada de goiabada sobre a massa e por cima desenhe um xadrez com tirinhas da massa reservada para decorá-la. Leve ao forno médio preaquecido até dourar o xadrez. Sirva quente.

http://mdemulher.abril.com.br/

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NUM REPENTE ...
Por Cristina Cacossi

tritos ali depositados, vão rolando, rolando ... No mangue, a cada segundo os caranguejos entram e saem de suas tocas. Eu me pergunto : estão com medo ou o quê?

A garoa fina continua caindo em meio a essa natureza esplendorosa. Momentos preciosos em que passa um pássaro vermelho. Dependura-se numa folha molhada, porém voa rápido, deixando-me boquiaberta. Uma garça branquinha pousa suavemente num galho baixo, virando a cabeça para cima. Só agora percebi o porquê. Num galho mais alto, já está olhando de soslaio, uma ave negra. Não deu para perceber se está brava ou incomodada com a visita. Só sei que a garça se equilibra, meio sem jeito, sem tirar os olhos lá de cima. Há uma dúvida : se a ave é um urubu ou outra mais, digamos mais, mais ... Não sei. Enquanto a examino, a garça bateu asas e se foi. Mas a ave sem nome continua parada que nem uma estátua. Com um movimento rápido, subindo para alcançar galhos mais altos, um macaquinho se esconde, não antes de deixar seu rabinho para ser visto. Caem folhas secas a todo instante. Nesse barulhar, um passarinho amarelo se assusta e voa para longe de meus encantados olhos. Uma profusão de belas flores, quietas, pois o vento não compareceu, observam tudo junto comigo. Nessa quietude, o rio tenta empurrar suas águas, que com dificuldade, por causa dos de-

Bem. Penso que sair do ninho, do habitat, do interior, pode ser perigoso mesmo. É ter de enfrentar a vida como ela é. - E aí “carangas”, com tantas pernas, vão recuar? Minha observação ou mais que isso, minha interação com toda essa natureza, num repente, é rompida por vozes humanas, que sem perceber o que percebo, vêm reclamar da chuva. Oh! Nem notei que aquela garoa engrossou! É, com essa chuva branca, perpendicularmente ereta, enfumaçada que agora cai, a natureza esplendorosa ficou escondida. Para a toca dos meus pensamentos então eu entro.

Foto de M. Tomé

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ninos. Eles tudo podiam! Lendo os jornais soube da morte de Madame Curie. Por que ela era importante? Depois de muitas perguntas o médico da cidade me esclareceu. Com espanto fiquei sabendo que ela era uma cientista que Por Hebe C. Boa-Viagem A. Costa muito fizera pela medicina. Então as mulheres também tudo podiam? Fiquei a procura de outras que tinham saído dessa atitude subalterDespertei ao som das doze badalana. Descobri a poeta Zalina Rolim, a médica e das do velho relógio da família. Há muito tempo deputada Carlota Pereira de Queiroz... Tamnão experimentava essa sensação. Agora ela bém tinha um exemplo em casa: minha mãe! levava-me a viajar pelo tempo e a figura da meComo ela era? Pelo menos diferente das nina de seis anos ganhava contornos definidos. pessoas da minha pequena cidade natal.. Ela O que lhe dizia esse som? era uma mulher atuante, com ideias pelo meNaquele tempo os adultos gostavam nos cinquenta anos à frente do seu tempo. Isso de amedrontar as crianças. Contavam estórias ela demonstrou quando nos enviou para outra sobre a Morte que vinha buscar as pessoas na cidade para continuarmos nossos estudos. Não calada da noite. E às doze horas eram as prefomos para internatos, estudávamos em escoferidas para o exercício dessa tarefa. Quem oulas públicas e morávamos em pensões. Lembro via essas doze badaladas sabia que ela estava -me de suas palavras: rondando sua casa. Outro sinal era a coruja pi“Sempre sejam responsáveis, estudem e ando... não façam coisas que me obriguem a trazê-los Lembro-me de quanto isto me agonide volta para casa. Aqui vocês não terão o que ava. Quem seria levado pela Morte? Meus esperam da vida. Suas possibilidades serão pais? Meus avôs velhinhos? Meus irmãos? O muito reduzidas e creio que não é isso que vorecém nascido? Eu? Diante desses pensamencês querem. Nossa situação econômica não tos encolhia-me na cama, cobria a cabeça esnos permite fazer de outro modo. Tenho de perando que novamente chegasse o sono e me confiar em vocês. A mesada que posso lhes livrasse desse fantasma. dar é só essa. Aprendam a dividi-la por trinta, Sorrindo afastei essas lembranças e pois não haverá dinheiro extra”. espantei o sono enfocando os momentos feliNo 1º. Ano ginasial fiz grandes descoberzes da minha infância. As brincadeiras com tas. Morar numa cidade grande me surpreendia meus irmãos, com outras crianças da vizinhancom uma quantidade enorme de novidades. ça, as descobertas, por conta própria, de tantas Saudades de casa, do carinho da mãe permeacoisas que me chamavam atenção e que os vam a preocupação e o encantamento ao enadultos dessa época não se preocupavam em frentar tantas situações novas. Eu tinha onze esclarecê-las! Foi assim que entendi os mistéanos e gostava de desafios. rios da numeração. Sabia contar até trinta. E O tempo foi passando e eu progredia depois? Sem ajuda percebi que podia contar indefinidamente... Era tão fácil! Lembrei-me nos estudos. . Detive-me numa data especial com alegria do encantamento que tive ao domi- quando minha mãe me visitou e me presenteou nar a leitura! Graças a ela poderia obter res- com um vestido novo e um anel com uma pepostas para muitas de minhas perguntas sem dra vermelha. Ah! O abraço apertado, o carinho da mãe, que maneira linda de comemorar quinprecisar recorrer aos adultos. ze anos! Mas, o que ler? De início contenteiDuas badaladas despertaram-me desme com os almanaques dos laboratórios farmacêuticos.. Na minha casa havia estantes com sas recordações. Transcorrera todo esse tempo muitos livros de medicina, romances e poesias. e eu nem percebera as outras badaladas. Vou Muitos, em outras línguas. Para criança, entre- interromper essas divagações. Para cobrir os tanto, nenhum! Uma jovem professora me meus oitenta anos teria que ouvir outra vez as aproximou deles .Até hoje penso nela com ter- doze badaladas e, quem sabe, até mais outras. nura. Cinderela, Branca de Neve, a revista Ti- Vou tratar de dormir. Quando me levantar cerco-tico e especialmente os livros de Monteiro tamente me deliciarei ao escrever essas lemLobato passaram a fazer parte do meu imagi- branças. Boa noite! nário..

O mágico poder das doze badaladas

A leitura livrou-me de invejar os mewww.varaldobrasil.com 66

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A ESSÊNCIA DA VIDA
Por EstherRogessi

tar crescido, não quer ser visto pelos colegas, em minha companhia, ou, em companhia da mãe; não permite abraços, diz não querer “pagar mico,” devemos isso à modernidade, não é mesmo? Isso me entristece... Porém, algo tem mexido comigo: observo, sempre, um jovem, mais ou menos da idade do meu filho, que todos os dias, sentado na murada perto do portão de entrada da escola; quieto e solitário, nos olha de um jeito... Se o olhar insistente do garoto chama-me a atenção, mais ainda, é o fato de ele entrar, logo após o Marcos. Imagine que, ontem, quando fui buscar o meu filho, à saída da escola, encontrei-o com um olho roxo. Fui à secretaria me informar sobre o ocorrido, a diretora falou-me: – Na hora do intervalo, um coleguinha do Marcos perguntou-lhe o motivo de ele se esquivar dos pais e, entrar apressadamente na escola... Ele respondeu-lhe que não era criança, que os seus pais eram “um saco...” O garoto respondeu ao seu filho: – Bem que eu queria os dois sacos que você joga fora todo dia! Queria ser abraçado, beijado; não andar tantos quarteirões, pra chegar à escola; você não merece os pais que tem! – Ouvi em silêncio o desabafo daquele senhor... Enfim, falei: amanhã é um novo dia, espero que o garoto esteja no mesmo lugar...

Medito sobre o que vejo a minha frente, pouco distante, um pé de cajá, aparentemente sem vida; desfolhado completamente; galhos retorcidos - denodo de morte. O que mantém aquela árvore viva, são às suas raízes, adentraram à terra; canais de alimento, e, sobrevivência da mesma, tal ruptura seria morte iminente. O pé de cajá está firmado nelas - as raízes -, no tempo determinado morrerá, em pé. A preservação das nossas raízes – a ética e a moral –; o respeito concernente ao alheio evidencia a essência da vida, vital para um mundo melhor – o amor. Dele surge a multiplicidade de sentires – raízes fluentes de uma maior. A ruptura desses marcos antigos¹, ou, raízes, evidenciados, através da “educação” moderna, constrange-me. A abertura demasiada que os jovens vivem nos dias atuais, tende a degenerar-lhes o caráter. A moderação traz o equilíbrio, em todas as áreas de nossas vidas. Fui partícipe de um diálogo, há pouco tempo, com um senhor desconhecido, até então, mas que estava sedento por um desabafo; estávamos em um consultório médico – na sala de espera – quando, aquele pai iniciou a conversa: – Comumente, levo o meu filho, Marcos, ainda adolescente, à escola; moramos distante, temos que usar o nosso carro; continuamente escuto as suas murmurações – finjo não entender o óbvio – tentando-me convencer a deixá-lo seguir, precocemente, só. Pensa es-

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Amor
Por Silvio Parise Amor... Quem consegue te descrever? Pois vejo animado quadros muitas vezes até engraçado desse sentimento revelado Amor, para alguns um dote de fato. E assim seguimos nesse verbo apaixonado, beijando e sendo beijado em relações de paixões que nunca nos deixa envergonhado. Porque o Amor é assim, espontâneo mas real e, se alguém tem dúvida desse verso, peço para não ficar perplexo e discretamente observar o Amor reinando em todo lugar pois não tem complexo. E então, logo verão, como é profundo o enigma dessa emoção que, verdadeiramente todos sentem daí, abraçarem carinhosamente esse elo que significa união.

coisasincriveisqueamamos.blogspot.com

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CULTíssimo
Por @n[ Ros_nrot
Na revista anterior eu disse que filmes Cult podem se transformar em enormes sucessos de bilheteria e até mesmo mudar a forma de ver e fazer cinema, talvez o maior exemplo disso seja o filme sobre o qual falarei hoje: Psicose (Psyco), filmado em 1960 pelo incrível diretor britânico Alfred Hitchcock e baseado no livro homônimo de Robert Bloch que por sua vez foi baseado na história real de Ed Gein, um dos serial killers mais conhecidos e imitados até hoje (entre eles O Massacre da Serra Elétrica e O Silêncio dos Inocentes). ro, comparado a outros filmes que consumiam milhões, foi completado em apenas três meses e filmado por uma equipe de T.V., mas compensou pelo faturamento de US$ 50 milhões nas bilheterias, revolucionou o gênero terror e o cinema em geral, que nunca mais foi o mesmo. No filme, Marion Crane é uma secretária interpretada por Janet Leigh, que está em fuga por roubar 40 mil dólares do seu chefe; o destino à leva a um hotelzinho sinistro de beira de estrada o Bates Motel, de propriedade de Norman Bates, encarnado brilhantemente pelo ator Anthony Perkins, e sua querida mãe. Após se instalar no aconchegante quarto, Marion é assassinada no chuveiro, logo no começo do filme (o que em si já era revolucionário), em uma das cenas mais violentas já feitas e em particular a mais assustadora.

O filme foi rodado nos Estados Unidos, totalmente em preto e branco por opção do próprio Hitchcock, para diminuir o impacto do sangue nas telas e “acalmar” os censores, que implicaram e discutiram muito sobre a cena em que um bilhete é jogado no vaso sanitário, pois eles achavam que a água girando no vaso em close -up, nunca antes mostrada em um filme era “chocante demais” para a época (que puritanos). O orçamento de apenas US$ 800 mil era mísewww.varaldobrasil.com 69

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A cena do chuveiro é fortíssima, com a inesquecível música composta por Bernard Hermann, que até hoje ao tocar lembra violência e medo, durou somente 45 segundos e levou sete dias para ser filmada, precisou de mais de 70 posições de câmera e ao invés de usar um torso artificial com o sangue (na verdade era calda de chocolate) que deveria jorrar pela faca, preferiram contratar uma dublê de corpo Myra Jones (que como a vida imita a arte foi assassinada por esfaqueamento 28 anos depois de filmar Psicose) e o som horrível do facão sendo fincado no corpo de Marion é, na realidade, o som de um facão encravando em um melão. Mas o pior mesmo, para mim, é a sombra de Bates na cortina (nunca consegui usar uma dessas sem tremer desde que vi o filme)com a faca na mão, copiada incessantemente em filmes, quadrinhos, desenhos e por engraçadinhos em geral.

nhuma igualou-se à original Se você ainda não assistiu Psicose está perdendo tempo: escolha uma noite chuvosa (com trovões de preferência), arranje uma boa companhia para os momentos mais aterrorizantes e não esqueça: tome banho primeiro. Isso vale também para quem for revê-lo. Até a próxima.

Para contato e/ou sugestões é só mandar uma mensagem: anarosenrot@yahoo.com.br

“Psicose” foi indicado ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, melhor fotografia, direção de arte e direção, mas como quase sempre acontece com o gênero de terror, não levou nenhum dos prêmios. Ganhou em 1961 o Prêmio Edgar (Edgar Allan Poe Awards, EUA). Desprezado pelos críticos durante os anos 60 e 70, mas com aprovação de 98% dos que já assistiram, Psicose é o clássico dos clássicos, revolucionando o modo de fazer terror, é também o predecessor do subgênero de horror “slasher”, caracterizado por histórias (reais ou não) envolvendo assassinos seriais que trucidam suas vítimas em cenas de extrema violência, gerando filmes bem-sucedidos e fãs amedrontados, enlouquecidos e fiéis. Psicose teve três sequências e uma refilmagem, mas newww.varaldobrasil.com 70

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Se...
Por Elâine Fernandes

Se sentir todas estas coisas estranhas dentro de mim é normal, então os outros é que são loucos por não senti-las; Se querer incondicionalmente o desconhecido não é loucura, então só pode ser irreal; Se buscar soluções para arrefecer uma saudade inexplicável de algo que nunca foi meu é normal, então, certamente, o mundo em si seja anormal; Se desejar estar distante de mim pra estar junto de outro não é loucura, então é sonho; Se sorrisos involuntários colorem meus lábios pela simples lembrança de um sorriso distante, isso tudo só pode ser loucura; Se uma lágrima vem junto com um sorriso só por lembrar alguém distante, há algo acontecendo por dentro; Se o desejo de um beijo é incontrolável, tem algo por dentro, que antes não existia; Se esperar algo que não foi prometido não é loucura só pode ser algo diferente a acontecer; Se antes não havia essa esperança crescente que não se arrefece deve ser algo muito especial; Se o agora tenta alcançar incansavelmente o amanhã certamente lá deve haver promessas indizivelmente belas; Se sentir cheiros nunca sentidos não é fora do comum Se saber texturas jamais tocadas é normal Se entregar-se sem contestações a um sentimento Provavelmente haja delírios que sejam fruto daquilo que muitos procuram... São delírios arrebatadores que me fizeram perceber que o que tanto se buscou chegou.

Foto de SandyManase
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LITERATURA COM
Isabel C. S. Vargas
POESIA EM FORMA DE CONTO
Desejo partilhar o encantamento com a leitura de um livro de Mia Couto. São vinte e nove contos escritos com habilidade e com a magia característica de quem tem o dom de criar palavras (neologismos) e com elas brincar, tecendo histórias de vidas e de sonhos. Alguns trechos me faziam lembrar de minha professora de literatura, ao dizer, parafraseando Schopenhauer, que literatura boa é aquela que não se esgota em uma leitura, mas sim a que a cada leitura descobrimos algo novo. Em outras me faz lembrar minha amiga Estrella, cujas palavras são sempre envoltas numa aura poética que só aqueles que veem o mundo com olhos diferentes conseguem transcrever e por isto mesmo são pura magia. Percebem poesia em cada olhar, em cada momento do cotidiano. Em meio a comoventes histórias (como a do menino que queria morrer e por isto propôs ao avô trocar de lugar com ele), descobrimos lições como as que abaixo transcrevo: -“Criancice é como amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com o miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecer ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo. Esse é o milagre que um filho oferece – nascermos em outras vidas”. Em outro conto sobre a avó que não entendia a viagem do neto para viver em um hotel onde aqueles que o acompanhariam no dia a dia eram meros desconhecidos, sem saber o nome de quem lhe prepararia o alimento, temos uma visão poética do cotidiano: “Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros.”... Para esta avó um país estrangeiro começa onde já não reconhecemos parente. Sobre o menino que fazia versos e não era compreendido, motivo pelo qual foi levado ao médico como se enfermo fosse retiramos o diálogo abaixo: Ao ser inquirido pelo doutor sobre se algo lhe doía responde: -Dói-me a vida, doutor. -E o que fazes quando te assaltam essas dores? -O que melhor sei fazer, excelência. -E o que é? - É sonhar. Na epígrafe deste conto, temos o verso do menino que fazia versos: De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menor do que o que sonhei? Nas palavras de Mia Couto percebe-se ritmo, como no primeiro parágrafo do conto Meia culpa, meia própria culpa: “Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.” De história em história vamos descobrindo encontros e desencontros, dores e alegrias, sonhos e realidade, numa forma característica do autor, que retrata a fala do homem da sua terra natal, Moçambique, revelando entre os erros e acertos de cada personagem a humanidade de todos nós.

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ANA, CHEIA DE GRAÇA
Por Mário Rezende

pela orla da Cidade. Uma estrelinha derradeira, assim como seu nome:

Ela veio do Norte enfeitar o circuito da corrida, bela mulher lá de Belém. Na Praia do Pepê encheu os olhos do Rio. Bem que as ondas queriam beijá-la no alto do Joá e o sol veio ao seu encontro em São Conrado. Subiu garbosa a Niemayer e desceu de peito aberto para encontrar o mar do Leblon. Em Ipanema se mostrou outra garota que Copacabana, para sempre, vai querer bem. Em Botafogo vieram felizes recebê-la os barquinhos que coloriam a enseada. Também foi ao cume o bondinho do Pão de Açúcar para espiar aquela que do Rio enfeitou o postal. Uma garota deslumbrante mostrou sua beleza

cheia de graça, enfeitou a manhã domingueira, desfilou com elegância. Menina de pé no chão, persistente e confiante, esgotada, mas determinada. No limite das suas forças, mas resistente como rocha, VITORIOSA! E tornou-se, de repente, personagem relevante no coração carioca.

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FIM DE TARDE
Por Graça Campos Um talvez na agonia das horas A palavra “NUNCA” será dita A atitude ”BASTA” inflama E queima as projeções Persuasivas... Uma música! “Do you understand? Não, ainda não entendo... Mas, é preciso vestir-me de coragem Encarar a noite escura Embora todas as luzes já se acendam O escuro, a nuvem plúmbea visita a imagem E torna-se cúmplice de minha paisagem... Um cachecol meio tecido em preto e branco Amarras de agulhas da cor rosa Dali a pouco estará perfeito Para aquecer a pele fria do meu colo nu... Um ontem em noite de brilho Um hoje se vai para a vida por um fio E a sede de calor invade a sede de um colo amigo E a sede das verdades transborda em vias A inundar o olhar amedrontado Banhando-me a face que tanto sorria

Quem sabe, o mirar-se na perdição do tempo Abra uma fenda do entendimento Enquanto vou bebendo da ânsia Renasce a gota que faltava E invade-me a esperança De uma senhora noite de luzes De abraços, nos braços da música Nas mãos que desenham caminhos Rendados de sonhos de amor...

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A BENZEDEIRA
Por Geraldo Sant’Anna

O caminho para chegar ao casebre era íngreme, de terra, serpenteando até o alto do morro, com muitos seixos espalhados, troncos e valas produzidos pelas enxurradas que eventualmente desciam nos dias de chuva, incontroláveis. De carro o trajeto era impossível, era preciso insistir em uma longa caminhada, a menos que fosse a cavalo; mesmo uma carroça enfrentava suas dificuldades. Mas o esforço era válido, Dona Merenciana era benzedeira conhecida. Moravam sós no topo do morro, ela e a filha. A filha também já demonstrava os sinais da idade e havia ficado solteira. Era retraída, esguia e mais afeita a cuidar da casa, dos animais e da pequena horta enquanto a mãe atendia umas dezenas de pessoas ao longo do dia. Com um ramo verde que colhia no arbusto em frente à casa, Dona Merenciana abençoava, tirava o mau olhado, quebrante, cobreiro, dores de barriga, bicheira, espinhela caída, entre tantas outras que fomentavam o sofrimento das pessoas. Também recebiam receitas de banhos, chás, unguentos que renovavam aqueles que a procuravam. “Seu” Natal era assíduo frequentador da casa e já presenciara fatos incríveis das conversas que Dona Merenciana tinha com as almas. Ele mesmo recorrendo ao auxílio daquela senhora já havia vivido situações que ninguém acreditaria. Certa vez, indo em visita a sua irmã Adelina, em uma cidade longínqua e na qual nunca havia estado, percebeu que havia esquecido o endereço em cima da cômoda logo ao pisar na rodoviária. Decidiu, então, seguir para a esquerda intuitivamente e quando encontrasse alguém iria se informando pelo caminho. Numa fração de segundos pediu que Dona Merenciana o iluminasse. Ao chegar em uma esquina deparou-se com uma moça e perguntou se ela conhecia fulana de tal e explicou que não sabia como encontrá-la. A moça, muito atenciosa e simpática, para surpresa do “Seu” Natal esclareceu que a conhecia e estava indo próximo a casa dela e que não ficava distante dali. Foram conversando ao longo do caminho quando viu sua irmã, enxugando as mãos no avental, em frente a casa. Aliviou-se. Sem qualquer reflexão e preso pela saudade correu ao encontro dela. Notou, então, sua indelicadeza com a moça que o conduzira. Não estava mais ali, correu até a esquina, olhou aos arredores...e nada ! - Preciso agradecer a moça, comentou indignado e envergonhado consigo mesmo. A irmã sorridente o interpelou esclarecendo que ele vinha caminhando sozinho, não havia ninguém com ele. Ela o estava observando desde longe...e pensando: que bom que ele encontrou minha casa ! Assim era a velha senhora. Em seu silêncio se traduzia. Para ela não havia dia e nem hora, exceto a segunda-feira quando dizia ser proibida de atender quem quer que fosse. Certa tarde enquanto fazia compras no Peg-Pag do “Seu”Bento, a filha ouviu nitidamente Dona Merenciana chamá-la. - Lena !, por três vezes o chamado. Um arrepio e um vácuo. Dona Merenciana se despedia.

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@RTES N@ VISÃO DE
J@COB B. GOLDEMBERG

O MESTRE O ritmo parece lento, embora na medida certa, para o intenso embate psicológico dentro de um tema complexo; as cenas e ações entrecortadas exigem do espectador atenção redobrada para não se perder dentro da trama, no presente e nos pretéritos: assim transcorre a obra, um filme daqueles que marcam presença, agora e como referência para sempre. Direção segura e atuação primorosa do trio central de atores deixam o espectador, no final, ao acender das luzes, com aquela sensação esdrúxula: será que gostei?, é bom, é ótimo ou uma porcaria? Saindo, os pares olham um para o outro à espera de quem falará primeiro, quem se atreverá a emitir uma avaliação? — aí é mais fácil discordar, ou concordar; mas, porém, todavia, contudo, e por aí vai...

pela atualidade do tema e pela mensagem subliminar. Acabamos por perceber o quanto é perigoso o radicalismo e a ortodoxia quando nas mãos de um inescrupuloso ou de um “iluminado”; sem contestação, sem o confronto, o céu é o limite , a fonte da iluminação e do poder do ungido e seus acólitos: então o poder espiritual e material sobre os seguidores, fragilizados por falta de conhecimento, cultura e dificuldades diante da vivência no mundo terreno.

Não é um filme que se possa ver sem sair mobilizado. E, quanto mais se fala, mais se entende, mais se posiciona e mais se gosta. Se séria, a troca de ideias, pouco a pouco, aumenta a admiração pelo cinema, pelo roteiro,

Não nos atenhamos — e nem essa é a intensão dos autores — às religiões universais, às seitas originadas ou as fabricadas por demiurgos ou desequilibrados mentais: tudo a ver com ideologias, partidos, discursos e a natureza das ações políticas que nos assolam, no dia a dia — salvo honrosas exceções, quando e se existem. (Segue)
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Ver para crer, e principalmente para pensar. Não perca. Título: O Mestre (The Master) USA, 2012,144 min. Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson Atores: Joaquim Phoenix, Philip Seymor Hoffman, Amy Adams Fotografia: Mihai Malaimare Jr. Música: Jonny Greenwood Quer conversar com o autor? Escreva aqui: jbgoldemberg@gmail.com

FIQUE ATENTO! NOSSAS PRÓXIMAS EDIÇÕES:

Até 25 de abril estarão abertas as inscrições para a revista de junho com o tema SEGREDOS E PECADOS; Até 25 de maio estarão abertas as inscrições para a revista de julho/ agosto com tema livre. Inscreva-se através do e-mail varaldobrasil@gmail.com Os textos devem ser enviados em anexo ao e-mail juntamente com o formulário de inscrição. Escreva em verso ou em prosa, deixe o seu talento fluir no Varal do Brasil! Inscreva-se!

I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA 2013

CATEGORIAS CONTOS CRÔNICAS E POEMAS

Leia o regulamento nesta revista ou peça pelo nosso e-mail varaldobrasil@gmail.com

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AS LÁGRIMAS

Por Maria José Vital Justiniano Gotículas amargas Gotículas incolores Gotículas ... apenas gotículas...

Lágrimas... Quem não as conhece? São companheiras no sofrimento

Se são companheiras, Por que as recusa? Elas incomodam porque espalha na face aquilo que é mais íntimo em ti. Sua própria miséria. “Quão mísera me sinto quando vejo as estrelas” As estrelas são longínquas, tanto quanto aquilo que lhe fez chorar Receba-as com alegria

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BARCO
Por Marly Rondan Pinto Foi feito pra navegar, levar e trazer saudades, criado para enfrentar maré alta e tempestades. Em porto seguro, tolo! Prefere assim ficar ... Não afundar é um consolo, mas feito pra navegar. Quem sabe desapareça, solto no mar à deriva, sua preservação esqueça. Pode naufragar! Faz parte, é a sua vida ativa... Foi feito pra navegar.

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AOS AIS DO MEU CORAÇÃO
Por Girlene Monteiro Porto Aos ais do meu coração A doçura era sedução Ao ver o clarão da lua Me vinha inspiração Que pena toda minha vida De tanta poesia ser ilusão O desejo que realizava em um beijo Fazia palpitar no peito o coração Era sonho? Eu não dormia Ébrio então, Me deixou a paixão. E que noite! Que luar E que sonho! Que sonhar A brisa que vinha do mar Parecia suspirar sentimento. Sonhando sua imagem era nítida E teu perfume eu sentia Eram momentos de melodia E quando do sonho despertei Percebi a ilusão De acreditar que podia Conquistar seu coração E no fim da noite ainda sentia seu perfume...

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MULHER DE TEMPERO FORTE
Por Gisele Schruver

O Português não aguentou. Distribuiu a filharada entre patrícios, até conseguir raciocinar. Velha Coroca de sete aninhos e a caçula de cinco, foram para a casa da madrinha que tinham em comum.

Sob os cuidados de madrinha, bem de mansinho, Velha Scoroca tornou-se aprendiz da arte Senhoras e Senhores, respeitáveis leitores. É culinária, de acordo com séculos de tradição com prazer que reúno estas letrinhas para lhes Portuguesa. Ainda pequenina, tinha percebido apresentar uma mulher e tanto, cozinheira de a importância de cada passo no preparo de um mão cheia, que temperou a vida com plenituprato digno. Caprichou, aperfeiçoou e, voilà! de, desfrutando do melhor ao seu alcance. ImSeu refogado de base: Força. placável, ignorou o ranço dos óleos, o machuDepois de alguns anos na escolinha da Tia cado das frutas e os legumes murchos que Anita, foi pro colégio interno. As freiras lhe cruzaram seu caminho. adoravam. Não porque fosse aluna estudiosa, Tudo começou com o Português, apaixonado mas por admiração à espoleta. A menina não por Isabel, mocinha que vivia num orfanato. fazia o que lhe era mandado, somente o que Com carinho e respeito, deram à luz a meia lhe dava na telha. Miύda, de personalidade teidúzia. Bela canalhada! Em 1923, Paraíba do mosa e indomável, Velha Scoroca trazia em si Sul, nasceu Velha Coroca, a penúltima da pro- a semente de um tempero que usou como carle. ro chefe: Audácia. Cresceram felizes numa grande chácara. Plantação, galinhas, árvores frutíferas, de tudo um pouco. Nada de essencial lhes faltava. Mas Isabel andava cansada, fraca. Sendo assim, amigos do Português lhe ofereceram hospedagem, para que ela repousasse, longe da conturbação do dia-a-dia. As saídas do colégio nos finais de semana, eram conquistadas através de bom comportamento. Muito atrevida, raramente ía pra casa. ‘Brincar de faz-de-conta era espetacular. Tomávamos o vinho da missa na surdina dos dormitórios. A bebida sagrada era nosso sumo proibido. Delícia!’

Um mês? Um ano, quem sabe? ‘Arrumem-se!’ ‘Ah, ninguém podia comigo! Um dia, não estaordenou a empregada Balbina. ‘Daqui há pouva a fim de lavar os pratos do jantar. Não tive co Sr.Bernardino vem buscar vosmecê.’ dúvidas, peguei a pilha inteira, quando as freiAlvoroço total. Passear no carro do amigo do ras não estavam olhando, espatifei tudo no Português era festa. Cabiam todos no Ford Bi- meio da cozinha. Fiquei de castigo. Mas, como gode. Gritinhos, tagarelice, puxa e empurra. As disse, não lavei nada.’ crianças se aboletaram umas sobre as outras. ‘E na época de chuva? Os quintais inundavam ‘Vamos ver mamãe!’ sempre, pois engenhosamente, nós entupíaA familiar casa de Dna.Diná estava repleta de mos as canaletas com farrapos. As poças convidados. Correram pelo quintal da frente e, eram verdadeiras piscinas!’ na pressa, um engavetamento. Amontoados Em contra partida, não havia peça de teatro ou na porta da sala, deram-se com o ambiente festividade no colégio, para a qual as freiras formado. não requisitassem sua participação. Seu espíA enorme mesa de jantar estava forrada com rito sapeca e exuberante ocupava um espaço uma toalha de renda branca, caída até o chão. precioso na rígida instituição. ‘Me lembro como se fosse hoje. Colocaram a (Segue) porta em cima da mesa, para sustentar o caixão. Lá estava minha mãe, morta. Essa foi a única imagem dela que guardei na lembrança.’
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Quando tinha permissão para sair, e também durante as férias, Scoroca e a caçula iam pra casa da madrinha, onde se ocupavam com os afazeres do lar: bordados, costuras e claro, o preparo de iguarias.

so: Perseverança.

A toalha de renda branca fervia em seu coração. O pior que poderia lhe acontecer era perder uma de suas filhas. Assim, para o resto da vida, suas preces jamais deixaram de incluir o Formou-se no ano em que completou quinze pedido mais importante entre os pedidos: anos. Em sua despedida, Madre Superiora ten- ‘Jamais sobreviver a morte de uma de minhas tou aconselha-la: ‘Não se esqueça de comun- filhas, Pai.’ gar, minha filha.’ Ao que a jovem Scoroca resO Português olhava para o meio quilo de carne pondeu: ‘Esquecer, não esquecerei, Madre. humana, aconchegado na caixa de sapato, forMas ir confessar são outros quinhentos. Nunca, rada com algodão e balançava a cabeça: ‘Não ninguém se interessou em perguntar minha opipercas tempo com isso. Vais ver, isso não vinnião. Fui obrigada a comungar. De agora em ga!’ diante, sou eu e Ele, da nossa maneira. Ele é Mas vingou. Contudo, seu parceiro de estripulimeu amigo, me escuta. Está sempre comigo, tendo ou não comungado. Isso é exercício irre- as eróticas, como era o costume então, não estava nada satisfeito com mais um bebê do sexo levante, pois eu já saio do confessionário pefeminino sob suas asas. ‘Vamos continuar, até cando. Só penso besteira, não adianta, não tu me dares um varão!’ tem como comungar.’ Mal sabia o gajo que, a habilidade da Scoronga no uso da Irreverência e da Autoconfiança, já superava a imaginação de qualquer mané de botequim. Coronga encontrou um médico que concordou em lhe operar. Aprendeu cedo que, Mocinha, Scoroca, foi cuidar da casa do Portu- no frigir dos ovos, a responsabilidade pelas meguês. Esmerou-se no preparo das refeições, ninas, sempre cairia, exclusivamente, sobre sempre testando novidades. Baseando-se na seus delicados ossos. O malandro-agulha nunForça, Audácia, Autoconfiança e Fé, estava ca entendeu como a fonte secou... pronta pro próximo passo: seguir sua natureza livre e, ao invés de aceitar convenções impos- Bordando, costurando, fazendo seu pé-demeia, sonhando, a vida seguiu seu curso. Sem tas, aderir ao uso de gosto picante: Irreverênluxo, mas abundância de amizades e compacia. nheirismo da família. No início dos anos 50, era perigosíssimo uma jovem dar vazão às curiosidades sexuais e di- Quando estava com duas mocinhas em casa, vertir-se. Fora de cogitação para as chamadas rodou a baiana pra cima do marido, que nunca celebrou suas vitórias. Ele não tinha pretensão ‘moças de família’. Scoronga não só experimentou, como foi até o fim da receita, esperan- de melhorar na vida, e tão pouco queria ver a dela indo de vento em popa. Na cabeça do mado sua primeira filha. cho alfa, ela tinha que aceitar as dificuldades Claro, nem pensou em envolver a Igreja nessa como boa esposa obediente, de braços cruzahistória. Tinha valores bem delineados. ‘Comi a dos e sem expectativas. merenda antes do recreio. Vai ser casamento Boas lições que havia tomado em sua jornada no civil, e olhe lá!’ O escândalo inaugural na família foi amenizado pelo fato de os nubentes vieram à tona. A infusão dos temperos tomou conta de Coronga. Ela jamais aceitaria tal peterem se casado. quenez. De cabeça erguida, com o cintilar de A segunda filha também nasceu em casa, no uma modernidade inconcebível na sociedade sexto mês. Bebê prematuro sem unhas, pesta- da época, optou pela separação. nas ou cabelos. Era Scoronga e Ele que, na(Segue) quela época, lhe abençoou com tempero valioSua mão na cozinha atingia níveis espetaculares. Passou a acrescentar dois temperos de sublime sabor: Autoconfiança e Confiança Nele, Fé.
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A família virou-lhe as costas, condenando mãe e filhas ao isolamento. Primas que cresceram juntas, como irmãs, não as olhavam mais. Irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas lhes viravam o rosto. De repente, foi como se os valores das três mulheres tivessem evaporado. Foram ventos tempestuosos, mas a calmaria voltou a reinar. E ela salpicou tudo com a mágica da Misericórdia. D..Dalva foi mulher de mil apelidos. Apelidos costurados na bainha dos laços de seus relacionamentos. Outrora, organizadora fiel das feijoadas e cozidos na vila aos domingos, dava conta do recado, chaoalhando quem viesse com ‘corpo-mole’ e tendência para se encostar. Presença indispensável nas rodas de samba, cervejinha em punho. O remelexo da morena de pernas bem torneadas e cintura marcada pelos vestidos da moda, queimava uma chama inesquecível. A máquina de costura tornou-se ganha-pão. Seu canto entusiasmado e melodioso enchia a sala, lotada de costureiras subcontratadas. Saco de algodão alvo dentro do bule, pronto para passar café fresquinho e dar as boas vindas aos muitos que, por sua inebriante companhia procuravam no correr do dia. Cuidou dos amigos com pitadas de Carinho e Gratidão. Hoje, seu corpinho frágil de noventa anos não suporta os baques com o mesmo afinco. Depois de dois anos de muita pena, despediu-se da filha que vingou por sessenta e poucos anos. Mesmo nunca tendo esquecido de fazer seu pedido, dessa vez Ele não pode lhe atender. A chama incandescente de Dna.Dalva está se apagando. Ele tem suas razões. A vida lhe foi gentil? Alguns dizem: ‘Nem tanto’. Mas pensamento negativo, auto piedade, desesperança ou fracasso nunca entraram em seus pratos. Cozinhou para a família, serviu às filhas. Para cada neto, ofereceu um quitute especial. Cozinhou seus desejos e aflições. Do refogado de base aos temperos rebuscados, completou sua viagem, finalizando pratos com um molho especial, o qual tornou tudo perfeito: seu Amor. Ela cozinhou sua vida. Cozinhou até 2012, quando a partida da filha lhe trouxe o derradeiro condimento: Resignação. Cozinhou com amor, por amor, e em nome dele. Seus temperos ensinaram, divertiram, e semearam inspiração. Agora é nossa vez.

Sentiu como é bom ler um texto original, bom, bem feito? Você também pode criar! Escrever seus próprios textos. Mas atenção:
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KAZ MARTINELLI

EXPRESSANDO UMA EXPRESSÃO
Respirar arte. Ouvir arte. Ver arte. Tocar arte. Engolir arte. São odores, sonoridades, imagens, formas e sabores. Inalamos, escutamos, assistimos, pegamos e saboreamos. Carregadas de informações as artes transformam. Desenvolvem papéis diferentes durante a história sendo responsável por manifestações e pacificações. Libertadora, suas formas deram fim a guerras, separaram e uniram nações, mudaram continentes, intensificaram sociedades e transformaram culturas e gerações. É ação continuada. Conjugada em passado e futuro. O momento não a prende. A arte esteve e estará, não está. A arte foi e será, não é. Não existe tempo presente, porque a arte é a expressão do presente. Tão bem contemplada após passar ou antes de vir. Tendência é um de seus tantos nomes. Em várias direções inova ou recicla. Sempre com a intenção de mudar: pessoas e o mundo. Posso perder o ponto de vista, mas o objetivo é sempre mudá-lo; e é exatamente isso que a arte faz. MUDAR! Um cotidiano ou uma vida. Uma época ou um mundo. Seu universo é tão abrangente, separadas ou integradas, de efeito variante e distinto que me perco em um segmento só. Mas me encontro fácil na junção de suas vertentes. A arte é movimento, integrada é ritmo. Fortes e fracas alternadas num compasso harmonioso. Agradável aos cinco sentidos humanos dependendo de sua disponibilidade! E ao sentido humano ou ao humano sentido. Sensibilidade em todas as formas. É fisiológica: são células especializadas em captar os estímulos sobre o meio externo . Terminações nervosas, quando livres se ramificam na

derme, atravessam uma treliça de macromoléculas e penetram as células epiteliais; ou seja, através delas sentimos a intensidade da dor, do frio... Intensidade esta, medida pela arte: especializada em recolher, transformar e expressar estímulos . Ela é mais complexa nos discos de Merkel – que envolvem o tacto e a pressão superficial – pois precisa ser interativa; exige além da biologia a física: inércia, atrito, ação e reação! Trata-se do toque: como tocar e ser tocado. Escutando, inalando, vendo, saboreando. Seu resultado é percebido no arrepio causados pelos órgãos terminais do pelo (receptores dos folículos pilosos) extremamente sensíveis. Um superficial não muito discriminativo, mas positivo. Resolvido pelos corpúsculos de Meissner, distribuídos pelas áreas particularmente sensíveis ao toque como a palma da mão, ponta dos dedos, nos lábios, na lingua, na face, na planta do pé. Os poetas são especialistas em manifestar esse sentimento de forma elegante! Personificação recebida pelo corpúsculo de Krause que respondem a essas pressões na pele. A arte são os exteroceptores da alma. Os mesmos receptores cutâneos presentes no olfato, audição, visão, tato e paladar: Faz o encaixe perfeito de agradar e comover, como o sistema chave-fechadura no qual “as moléculas de substâncias específicas se encaixam em proteínas receptoras existentes na superfície da membrana celular”. Auxilia o nosso corpo a perceber o que nos cerca independente se a estrutura é profunda (como os proprioceptores ou interceptores) ou não. Da mesma maneira que informamos o sistema nervoso central sobre a posição e movimento do corpo, o grau de estreitamento ou força de contração muscular; o artista
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move, equilibra e desequilibra, excede seus limites de estritamento e força de contracção muscular; auxilia o nosso corpo a associar à pele a flor da pele. Percebem condições internas e externas do corpo permitindo consciência para receber e compartilhar impressões de qualquer sentido ou sentimento! Como os receptores, as artes nos incitam a ter frio, calor, fome, sede. Tristeza, alegria, prazer. Cansaço do trabalho e cansaço da vida. Energia do trabalho e energia da vida. Precisam se apenas de incentivo. Mesmo com terminações nervosas irregulares, as artes alteram os receptores ou migram de estímulo. Completam o que está incompleto, produzem o improdutivo, satisfazem o insatisfeito. Consertam! Reconhecem a palavra deficiência como adquirida, diferente da visão dos direitos humanos – que abrange faculdades físicas ou intelectuais como deficiências sensoriais, cognitivas, físico-motora e múltiplas – pois vê características que nasceram com o ser humano como mutáveis (e possíveis). Simbolizam a cegueira, surdez, mudez e etc., como intencional. Por exemplo, pessoas que têm dificuldade em realizar tarefas visuais, não por característica fisiológica, mas por preguiça. Afinal, tapar a visão é mais confortável do que encarar cores ou a falta delas. São caracteres que o individuo não possuía e que o meio fez surgir: barulhos, ares poluídos, violência física e psicologia. Traumas que geram a tal da preguiça! Assim o homem pode ser “cego dos ouvidos”, “mudo dos olhos” ou “surdo da fala” (melhor surdo de palavras). Pode não enxergar o que ouve, ter perdido a expressão do olhar que fala ou não dizer o que precisa escutar. A informação sensorial é rica ao interpretar experiências da percepção direta. Ambígua como as artes e suas percepções indiretas! Brevemente ou degradada, ajuda a sobreviver e integrar o nosso “mundo” com influências e outras expressões, que repercutem e convertem. A arte é a profissão de outras artes. A profissão é uma arte de outras artes. Modificam a realidade por muitos motivos generalizados, mas em especial: metamorfose. Pessoal e comunitária. A arte expressa política, sociedade, o meio influenciando e o meio sendo influenciado. Expressadas por todas as partes, en-

cantadoras em cada região e personalidade. São artes e artistas, pintores e pinturas... O objetivo de escrever sobre música ganhou uma nova intenção: atar obras. Explico; conjunto de expressões de ideias e ou ideais. A música muda o humor, o dia e o clichê. Está em todos os lugares traçando linhas históricas. A interdependência está no organograma da geopolítica: movimentos sociais, artísticos e literários; barroco, romântico; clássico, moderno. Sempre uma expressão expressando outras expressões! Sim, a repetição e o ritmo. Sonoridade! Podemos medir a diferença de uma trilha sonora em um filme, o momento de tensão na ópera ou a comoção de um espetáculo. Vide a popularidade do cinema mudo: a animação, fotografias se deslocando. Pinturas em ação. Na sequência o som agitando as imagens em um novo ponto de vista sincronizado. A união de modos habilidosos que permitem Humberto Gessinger citar maravilhosamente Miguel de Cervantes. A UNESCO homenagear o jazz como força de paz e cooperação entre povos. O Grito do Rock relembrar a revolução existencial constante. Vejo assim, a palavra tem a força de mudar, a música tem a força do diálogo entre "quaisquer" (derruba barreiras). Agrada a ideia de expor mudança e diálogo, celebrando a música de e da arte. Obrigada Varal do Brasil!

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ARROZ DE CARRETEIRO
Ingredientes:
- 1 kg de charque; - 4 cebolas médicas picadas em cubos pequenos; - 2 dentes de alho; - 3 colheres de sopa de óleo; - 1 litro de água; - 4 xícaras de arroz (de preferência agulhinha); - tempero verde a gosto.

Modo de fazer:
- primeiro prepare a carne do charque para tirar o seu sabor forte. Corte a carne de charque em pedaços mais ou menos do mesmo tamanho, não precisa ser muito pequenos. Lave bem essa carne e escorra. Deixe a carne de molho em um recipiente por cerca de 3 horas, trocando a água de hora em hora. Depois em uma panela coloque o litro de água no fogo, quando estiver fervendo coloque o charque e deixe ferver por cerca de 5 minutos, escorra a água e repita a operação e escorra bem. - em uma panela larga e rasa, de preferência que seja de ferro, coloque o óleo e doure a cebola com o alho, então acrescente o charque e refogue tudo por algum minutos em fogo alto, coloque o arroz e deixe fritar, sempre mexendo. Acrescente água fervendo que cubra o arroz até cerca de 1 cm, então tampe a panela e deixe levantar a fervura, então mexa novamente, tampe a panela, baixe o fogo e deixe o arroz aprontar. Se a panela for de ferro o ideal é que seja servido na própria panela, acrescentando por cima do arroz de carreteiro o tempero verde bem picadinho.

Dicas:
- quanto mais maturado o charque, ou seja, mais tempo ele tem, mais acentuado seu paladar característico; - quem não aprecia muito o gosto do charque ou prefere que seu sabor fique mais suave deve ferver como indicado na receita, já aqueles que preferem o sabor original do charque devem somente passar em 3 ou 4 águas quentes sem levar ao fogo. - o sal do carreteiro deve ser regulado no final, pois com o arroz e a fervura seu teor pode se alterar, dependendo também do charque. - querendo aumentar a receita siga as seguintes proporções: para cada ½ quilo de charque 2 xícaras de arroz, duas cebolas e um dente de alho. http://culinaria.culturamix.com/

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A Oração do Silêncio e o silêncio em Oração
Por Germano Machado

Se não me falas, mesmo que eu tanto Te fale, colocarei meu coração e minha mente em teu silêncio e a oração do silêncio será o silêncio da oração.

Imagem by deadlybuterfly

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SOS Arreth
Por Leônidas Grego

- Quando eu cheguei por estas bandas, as cobras já estavam aqui, na verdade, eu é que sou o intruso - justificou tio Juca de forma ecológica. - Olhem, vamos cancelar esse banho de rio. Eu não quero servir de almoço para uma cobra sucuri. Dizia Salsicha, com medo. - Bobagem, não é preciso ter medo, as cobras só aparecem nas rochas escuras, devem ter ninho por lá. Além do mais, você é muito magrinho para despertar o apetite de uma cobra sucuri, não acha? - brincou tio Juca. Todos riram pra valer da brincadeira, Salsicha ficou emburrado. Gordo, que estava sempre calado e comendo algo, pela primeira vez, falou deixe de ser medroso Salsicha, se fosse perigoso nadar no rio, tio Juca seria o primeiro a nos proibir, não acha? - Gordo tem razão. Vamos fazer um piquenique.

Juquinha convidou seus melhores amigos e foram passar as férias escolares na fazenda Rio Bonito, propriedade do tio Juca. Naquela tarde quente de verão, Juquinha fez o seguinte convite para os amiguinhos:

Falou Juquinha. - Vai entrar em ação a TURMA DA ALEGRIA,gritou Andréa, com satisfação.

- “Seu” Juca, “seu” Juca venha ouvir o que tá dando no rádio em cadeia nacioná gritava Zé - Vamos nadar no Rio Bonito? Antônio, o administrador da fazenda. Todos - Vamos! - responderam todos. correram para ouvir o rádio. Dizia o locutor, Tio Juca concordou, porém, como bom conse- com voz trêmula: lheiro falou: - Um pequeno disco voador apareceu nos céus - Tomem cuidado, não nadem no fundo do rio, de vários países: em Londres, na Inglaterra; banhem se na beirada, e não se aproximem Paris; na França; em Bonn, na Alemanha; em Otawa, no Canadá; em Tókyo, no Japão e em das rochas escuras. New York, nos EUA. Então, foi perseguido peSalsicha, o magrelo da turma, perguntou: - por los aviões-caça da Força Aérea norteque, não? americana, conseguindo o mesmo escapar ileTio Juca lhe respondeu: so, graças a uma supervelocidade desenvolvi- Nadar no rio é perigoso para qualquer pes- da, jamais alcançada pelas aeronaves terrenas. soa, os que sabem nadar são os primeiros que - Ora, isso deve ser mentira, coisa do rádio pase afogam, e lá nas rochas escuras aparecem ra reconquistar audiência. às temidas cobras sucuris, aquelas grandes, Duvidava tio Juca. com mais de doze metros de comprimento. - Ora, tio Juca, será que estamos sozinhos no - Cobras sucuris? Aquelas cobras grandes que Universo? Será que não existem seres inteliengolem um boi inteirinho? gentes em outros planetas? - Rebateu a meniIndagava Salsicha, com voz trêmula. na Andréa. - Isso mesmo, aquelas danadas têm me dado - É isso mesmo. Eu também acredito em disco prejuízo. Algumas reses se perderam por àque- voador. Ora, num Universo tão grande, com las bandas e foram devoradas pelos bichos. bilhões e bilhões de estrelas e planetas, não teria lógica, a terra ser o único planeta habitado - Por que o senhor não dá conta delas? - reforçou o menino Juquinha . (Segue) Perguntou Andréa, a sapeca do grupo.
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Uma imagem não foi narrada pelo noticiário ra- - Vejam que lindas ovelhas. - Apontava Salsidiofônico: um pequenino disco voador foi per- cha. dendo velocidade, o seu motor pifou e este caiu - Pegue aquela pequenina pra brincar comigo na águas de um rio. durante o piquenique. Ela é tão bonita. Após o noticiário, a turma da alegria aparelhaPedia a menina Andréa. Salsicha ágil deu um da com um farto lanche, água potável, boias, salto da carroça e pegou a ovelhinha nos brabaldes e toalhas preparam a carroça com o juços. mento Xôxo e seguem para o esperado piquenique à beira do Rio Bonito. Todos estavam - Cuidado, Salsicha, - berrava Gordo. O pai da alegres e cantarolavam. A carroça seguia fa- ovelha, furioso partiu pra cima de Salsicha e, zenda adentro, Juquinha, orgulhoso mostrava PIMBA! Salsicha foi ao chão feito uma jaca moos animais em extinção que o tio Juca criava le. A gargalhada foi geral. Enquanto Salsicha com a devida autorização do Ibama. Tinha ali o corria feito louco do pai da ovelhinha, Andréa lobo Guará, o tamanduá Bandeira, mico leão pegou-a nos braços, era a sua mascotezinha e colocou-a na carroça. Ágil, feito um malabarista dourado e muitos outros. de circo, Salsicha pongou na carroça, deixando - Até onde os olhos podem ver, são terras do o seu furioso perseguidor para trás. tio Juca, mas são terras produtivas que dão o alimento para centenas de famílias de agricul- - Ha, ha, ha, ha, ha. Você ficou engraçado cortores. O tio Juca produz leite, requeijão, queijo, rendo daquela ovelha furiosa - ria a garota Andréa, com deboche. frutas diversas, cereais e cria muitos animais. - É, Juquinha, é coisa feia terra improdutiva nas mãos de gente que veio ao mundo sem nada e acha que a terra criada por Deus lhe pertence disse Gordo. - Bah, mulheres, só dão trabalho para nós, homens.

Andréa nada disse, estava muito à vontade fazendo carinhos na mascotezinha. A cadelinha - Terra é pra plantar e pra colher - reforçou a Xuxa demonstrava ciúme, rosnando. menina Andréa, a sapeca. TCHIBUUMMM!!!!!! - O titio me prometeu um potro de presente de Gordo estava adorando se banhar nas águas aniversário cristalinas e límpidas do Rio Bonito. Andréa se divertia com a sua mascote e com a cadelinha - falou Juquinha. Xuxa. Salsicha comia, comia e a sua fome ja- Eu adoro cavalos Juquinha! Eu gostaria tanto mais passava e nunca engordava. Gordo se de poder montar no seu potro... - pedia a menidividia entre um farto lanche e um refrescante na. banho. Juquinha ficava ao sol, beliscava algo e - Será um prazer, Andréa. Dividir é o melhor se banhava nas águas frescas do rio. Era uma caminho para a felicidade de todos. tarde agradável para a turma da alegria. - Eu trouxe a minha máquina fotográfica - disse - Tenho uma sensação estranha de que estaa menina mostrando-a aos amiguinhos. mos sendo espionados - observou Andréa. - Ótimo, vamos tirar muitas fotos, de lembran- - Bobagem, deve ser o pai da ovelhinha atrás ça, observou Juquinha. do seu filhote. - Primeiro eu, adoro ser fotografado, que tal ti- - observou o menino Juquinha. rar uma foto minha aqui na carroça? - Pedia Andréa não se convenceu e insistia em dizer Gordo. que estavam sendo observados. Será? Quem - Não dá aqui balança muito. A foto sairia fora poderia ser? de foco, além do mais você está muito gordinho - Vamos tirar umas fotos? - falou Gordo. para sair numa foto de apenas dez centíme-Faça uma pose - disse Andréa. Várias fotos tros . foram tiradas da turma da alegria. Andréa, saBrincou, Salsinha, devolvendo a brincadeira tisfeita, tirou várias fotos com a ovelhinha e feita pelo tio Juca, que havia feito Gordo se com a ciumenta cadelinha Chucha. desmanchar em risos. Dessa vez todos riram inclusive Gordo que há tempos vem prometendo um regime. A carroça seguia viagem, afas(Segue) tando - se cada vez mais da sede da fazenda.
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- Que tal se fôssemos nas rochas escuras foto- Um raio vermelho atinge a cabeça da cobra. grafar as cobras gigantes? -Indagava Gordo Esta se assusta e volta para o fundo do rio. Encom entusiasmo. tão, um novo susto. Quem seria aquela criatu- Você ficou doido? É muito perigoso! Disse razinha miúda, de rosto verde, vestido como um astronauta e tendo na sua mão direita um Salsicha, com medo. disco fumegante? - Não vamos sair daqui. São ordens expressas do tio Juca e eu, como líder da turma da ale- Todos gritaram em uníssono: Um ET! gria, digo que ninguém deverá afastar-se da- - Olá, o meu nome é Markhol, venho do planeta qui. Arreth e sou um visitante de paz do espaço si- Eu sinto que estamos sendo observados a deral. minha intuição feminina não falha - insistia a A turma da alegria nada disse. Tinham ainda menina Andréa. as bocas abertas e os olhos arregalados pelo - Será que não é uma das cobras gigantes que choque causado por aquele contato imediato quer nos devorar? - Brincava o menino Gordo. de primeiro grau. Perguntavam-se: “quem era aquela criatura estranha, o que queria?” - Ei, olhem aqui o que saiu na foto instantânea que eu tirei do rio! - apontava Andréa com es- Era de verdade ou uma brincadeira? Não se manifestavam, estavam atônitos e não desgrupanto. davam os olhos do menino ET. Juquinha é o Então, todos puderam ver, com surpresa, o pe- primeiro a se recompor do susto, é quem priquenino disco voador flutuando nas águas cris- meiro fala: talinas do rio Bonito. - Olá, eu me chamo Juquinha, é a primeira vez - Nossa! Temos um registro histórico! É um dis- que tenho contato com um ser de outro planeco voador, e de verdade, que sensacional! - ta. Nossa como você é diferente - observava. Falou Juquinha, eufórico. - Muito prazer, vocês também são engraçados - Vocês são covardes. Não tem perigo algum - disse. nas rochas escuras. Vamos tirar algumas fotos das cobras gigantes. Já imaginaram que su- - Você fala a nossa língua! - observou Andréa. cesso não vai ser no retorno às aulas? - Eu aprendo com facilidade, o meu povo é Num golpe ligeiro, Gordo tomou a máquina das muito inteligente. mãos da menina e saiu correndo na direção - O QUE VOCÊS QUEREM? Têm outros por das rochas escuras. Todos saíram correndo aí, não é? Vocês estão invadindo a terra? - inatrás do levado, com desespero. A cadelinha dagava Salsicha, amedrontado. Chucha latia pra valer, parecia pressentir o pe- Não estou invadindo o planeta de vocês e eu rigo. estou sozinho. Sou apenas um visitante, como - É um disco voador mesmo. - observou Juqui- os de outrora. nha olhando para a foto. - Hein? Quer dizer que outros ETs nos visita- É o mesmo disco voador que foi noticiado pe- vam? - Indaga a menina Andréa. lo rádio. - reforçava Salsicha. - Ora, desde a época das cavernas que muitas - Será que vão acreditar em nós? - Perguntava civilizações interplanetárias visitam este pequeAndréa. nino planeta azul, chamado Terra. - Psst, não façam barulho, as cobras gigantes - Nossa então é verdade, não estamos sozipodem nos descobrir. E esqueçam esta foto, nhos no Universo - observava Gordo já refeito deve ser um aeromodelo pilotado à distância do susto. com um controle remoto, alguém deve tê-lo perdido. Discos voadores, ETs, essas coisas - O que quer de nós terráqueos, vai nos abdunão existem de verdade, é coisa do cinema e zir? - pergunta Salsicha demonstrando ter certo da televisão. Estavam amedrontados e Salsi- conhecimento a respeito dos ÓVNIS. cha tremia feito uma vara verde: - vamos sair daqui... Ficaram em silêncio à espreita, Gordo tinha a máquina fotográfica em ponto de bala. Aguardaram por minutos e mais minutos. Foi quando: TCHIBUM!
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- Não, o meu povo faz uma longa viagem interplanetária. O meu disco voador se desgarrou da nave mãe, então eu me perdi e como conheço a rota sideral para o planetinha azul, a Terra, cheguei até aqui para socorrer o meu disco voador. Estou com um probleminha para poder seguir viagem. - Você falou que o seu povo viaja? Isso quer dizer que todos os habitantes do seu planeta estão viajando pelo espaço sideral numa nave mãe? - observou Juquinha.

voador, só havia espaço para mim. Ele e minha mãe foram vítimas da poluição, eu os perdi. - Vocês não estão pensando em invadir a terra e... Perguntou Salsicha, com preocupação. - Não, é triste ter que dizer isso a vocês, mas o planeta terra não serviria para o povo de Arreth. - Por que não? - falou a menina Andréa, interrogativa.

- Sim, há muito tempo atrás éramos um povo - Porque já é um planeta habitado, e além do rico e alegre. Tínhamos tudo: comida em abun- mais está MORRENDO também. dância, paz e harmonia. O nosso planeta era - MORRENDO! - pergunta, em uníssono, a turfarto em riquezas e vida. ma da alegria. - E o que aconteceu de tão grave? - Indaga - É, antes de vir parar aqui na fazenda, eu anAndréa. dei por toda a terra e pude ver isso. O homem - Ganância, ganância, ganância. Os grandes está cometendo todo tipo de violência ecológilíderes da economia planetária Arreth começa- ca contra o planeta terra. As florestas estão ram a destruir o nosso planeta. O verde foi sen- sendo queimadas, as árvores são cortadas pado devastado para se construir grandes cida- ra o comércio da madeira. Os rios e os mares des para abrigar os turistas siderais. Grandes estão cada dia mais poluídos e o nível de poluifábricas poluíram os nossos rios e mares, de- ção atmosférica cresce a cada dia, deixando o vastaram muitas espécies de animais e vege- ar irrespirável e vai adoecendo as pessoas, tais nativos. O ar foi aos poucos sendo poluído principalmente, os idosos e as crianças. Breve, pelas chaminés das fábricas interplanetárias. vocês não vão ter água potável, nem ar para Sacrificaram a natureza do planeta em nome respirar. Fora isso, muitas espécies da fauna do progresso. Foi o que fizeram. estão sendo extintas, causando assim, grande - Quer dizer que o seu povo, apesar de ser desequilíbrio ecológico. No nosso planeta Armuito inteligente, destruiu os mares, os rios as reth, começou assim. - Relatava o garoto ET, florestas, a fauna e a flora e deixou o ar do pla- com lágrimas nos olhos. neta poluído? - Dizia Salsicha. - Diga-me uma coisa, Markhol, o que busca na - Sim, perdemos tudo, tudo, tudo: a fauna, a flora, rios e mares. Toda forma de vida. Como poderia um povo viver sem água, sem ar puro, sem vida alguma? - Falou o menino ET, com lágrimas nos olhos. fazenda Rio Bonito? - Indaga Juquinha. - Eu viajei por toda a terra em busca do combustível ideal para o motor do meu disco voador. Quando passava por aqui, o meu motor pifou e onde eu caí? Dentro do rio Bonito. A sua água pura e cristalina é ideal para o motor - Mas, isso é horrível! -observou Andréa. do meu disco, um golpe de sorte.- Quer dizer - Mas ninguém fez nada para buscar uma soluque a sua potente aeronave é movida à água? ção antes do caos total? - indaga Gordo. Pergunta Andréa. - O nosso povo estava ocupado demais pen- Sim, mas a água tem que ser pura, límpida e sando no lucro e mais lucro. Só pensavam em cristalina, desprovida de qualquer tipo de poluacumular riquezas todos pensando em si e nos ente. E olhe, foi difícil encontrar! seus negócios. Quando o caos se instalou por completo, era tarde demais para se buscar uma - Hum a coisa é séria mesmo... Precisamos fazer alguma coisa para proteger o nosso planetisolução, o planeta Arreth estava morto. nha azul, a Terra, da destruição. Eu não quero - E o que aconteceu em seguida? - Perguntou ficar sem ter o rio Bonito para beber da sua Juquinha. água pura e cristalina. E nas tardes quentes de - Os líderes que sobreviveram organizaram a verão, como é ficar sem um refrescante banho? expedição SOS POVO DE ARRETH, a nossa Falava Gordo com preocupação. fuga de emergência. Estamos à deriva na vasti- Vejam, é o meu disco voador. - apontava o ET dão do Cosmo em busca de um novo planeta para o seu disco. (Segue) para morar. O meu pai construiu o meu disco
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- Nossa como é bonito! - elogiou Andréa.

- Eu estou de partida. Não posso ficar nem mais um segundo. Captei um sinal da nave - Querem entrar? - Convida o menino ET. mãe. A expedição SOS POVO DE ARRETH - NÃO, PODE SER PERIGOSO - temia Salsi- está me aguardando alguns anos-luz da terra, cha. avisava Markhol para os novos amiguinhos. - Não tem perigo, vamos entrar sim. - Afirmou Quando o pequenino disco voador alçou vôo, Gordo. os grandes olhos negros do menino ET inundaA turma ficou maravilhada com a parafernália ram-se num convulsivo mar de lágrimas. eletrônica. Centenas de botões e luzes colori- Markhol tinha no peito a incerteza do amanhã para o seu povo, e levava consigo saudades das piscavam sem parar. dos pacíficos amiguinhos conquistados no pla- Segurem- se. Vamos dar um passeio. Avisava netinha azul, a Terra. Markhol. - Eu curti muito esse passeio de disco voador. O disco voador alça vôo, passam-se alguns se- Vocês ouviram os conselhos de Markhol, temos gundos e... que dar a nossa parcela de contribuição para que todos passem a cuidar bem do nosso pla- Onde estamos? - Perguntou Juquinha. neta, a Terra. - Veja pela janelinha. - Disse Andréa. - Eu mesmo não vou deixar mais uma torneira - Mas aquela é a torre Eiffel, estamos em Paris, pingando e vou reduzir o meu tempo no banho. na França. A água é um bem esgotável. Vocês sabiam que apenas 10% de toda água do planeta é potável, - Falou Salsicha, com espanto. ou seja, serve para consumo humano. É muito - É fantástico, em questão de segundos atra- pouco, avisava Andréa. vessamos mares e continentes. Como uma aeronave pode ser tão veloz? até parece um so- - Eu nem acredito que viajamos num disco voador, eu nem acredito que tudo isso foi real, ainnho! Dizia Juquinha. da bem que temos a foto para provar quando - Em poucos minutos estaremos em outros paí- voltarem às aulas. Vou matar os meus colegas ses. Antes de sair daqui, vou mostrar como es- de sala de inveja, dizia Gordo. tá a França. É um país sem verde. Todo o verde foi sacrificado para favorecer o modernismo. - O nosso planeta é a Terra. É aqui que moraOs rios poluídos e o mar a caminho de uma mos, é a nossa casa. A Terra não tem luz própria, a luz e o calor que precisamos recebemos breve morte, dizia Markhol. do sol. A Terra está solta no espaço sideral, e - Ei, onde estamos agora? Nos EUA? Aquela e fica sempre em movimento. A terra é formada a Estátua da Liberdade, disse Andréa. por partes sólidas, que são os continentes e as - Agora estamos na Itália, onde dentro de trinta ilhas, e por partes líquidas, que são os oceaanos não se terá água potável para beber. Os nos, mares, rios e lagos. A maior parte da Terra rios foram sacrificados pela indústria, apontava é formada por água. A terra precisa ser preservada, pois é nela que encontramos tudo o que o menino ET. precisamos para viver: os animais, as plantas, O planeta terra está morrendo. Em todos os o ar que respiramos o solo e a tão preciosa e cantos do mundo a natureza está sendo destru- escassa água - disse Juquinha para a turma de ída, venham. Voltemos ao Brasil. As queima- coleguinhas. das e derrubadas estão destruindo a floresta Amazônica. A caça predatória ameaça de ex- - A coisa é muito séria. Na vastidão do cosmo tinção várias espécies, como o jacaré. Tem em há um povo perdido no espaço sideral, buscanoutras regiões, o lobo Guará, a Ararinha azul, o do um novo lar. Não sabemos se eles enconMico-Leão de cara dourada, as borboletas. Na trarão um novo planeta para morar, vamos torÁfrica os elefantes correm riscos de extinção. cer que sim. Será que num futuro próximo, se o Ou o homem pára com esta destruição ou o homem continuar a tratar a natureza de forma planeta Terra morrerá em breve. Avisava voraz, não vamos viver esse mesmo drama do povo do planeta Arreth? - Observava Andréa. Markhol para a turma da alegria. Quando Gordo caiu no rio, por sorte, conseguiu salvar a máquina fotográfica. - Vamos tirar algumas fotos com Markhol, convidou Juquinha. Várias fotos foram tiradas.
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- Vamos pedir para que as mãos dos homens sensatos se levantem em defesa dos bichos, das plantas, rios, lagos e mares. Que a terra seja bela para sempre, falou Salsicha, com entusiasmo. O piquenique foi encerrado com uma última sessão de fotos. A carroça era puxada vagarosamente pelo jumento Xôxo em direção à sede da fazenda. A turma comentava a respeito de uma nova visita de Markhol à fazenda Rio Bonito, da possibilidade de usar esse contato de primeiro grau para desenvolver uma campanha pelo bem do planeta. O sol estava baixo no horizonte anunciando o fim de tarde e daquela aventura de outro mundo. Andréa escreveu no verso da foto tirada do menino ET: “O FUTURO PERTENCE ÀQUELE QUE CUIDA DO PRESENTE”.

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SURPRESA
Por Mário Filipe C. de S. Santos

Hoje olhei aquele menino da foto... Álbum antigo, baú de espantos... Menino peralta, macacão vermelho gritando alegrias...

Olhei tão feliz menino indagando os porquês de felicidades tamanhas. Vir ao mundo? Ah, menino tolo, nada sabes do mundo! E além do mais, não é para tanto o mundo!

E disse àquele menino da foto: “sossega, pequeno, o mundo é oco!” E aquele menino respondeu-me Com risos ainda maiores...

Aquele menino da foto Depois soube era eu...

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Tantos Mimos, Flor aos Domingos.
Por Gaiô

Nosso amor não envelhece! Por mais longe que caminhe anos a fio de esperança, se tropeça não se cansa, logo adiante recomeça... Flor aos domingos! Enche os olhos de encanto, de frescor, tantos mimos! Se desafina exercita em convivência amorosa de carinho tão gostoso, brincadeiras, olhos ternos longe de ser moderno. O rosto pousa no colo, ao toque de nossas mãos, colados, nos salvam os dias, com truques de acolhimento reinventando a poesia. Nosso amor é pura Arte, canta alegre o coração, de sonhos realizados, tocados a intuição...

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EM UMA TARDE SEM SOL
Por Ivane Laurete Perotti Baseado nas falas de uma grande e eterna amiga, distinta senhora da cor do pecado

Séria é a forma como ela me diz isso tudo e ainda não me dá qualquer resposta. _ Minha alma está obscurecida pelo... pelo... sei lá! Por qualquer coisa que eu não percebo? _ Não sei! _E desde quando “não sei" é resposta? _ Desde quando você mesma precisa encontrá-la Ai! Essas conversas sem pé nem cabeça me fazem lembrar que o dia hoje não está muito claro.

Não gosto de chuva, de tempo franzino com cara de emburrado, de nuvens grossas, de vento sem cor. Não gosto da cara fria dos dias em que o sol se encolhe. Gosto de deixar o sol arder em minha pele besuntada de filtro e mais filtro e outros cremes prescritos pelo dermatologista que não aprova minha conduta. Gosto de pensar que os raios amarelados entram por baixo do que me cobre, penetram poros adentro e inundam a minha alma. Quem me ouve ou vê deve pensar que sou algum ser destituído de juízo, de informações e pouco preocupada com a saúde. Nada! Sou narcisista, saudável, tranquila e continuo não gostando de dias apagados. Devo ter uma cruza com lagartos, lagartixas, crocodilos e outros animais que se refestelam ao calor do sol. Gosto de caminhar pensando que a ardência dos raios em meu corpo funciona como pequenos carinhos que recebo do alto. Que ninguém duvide da quantidade de miolos que possuo embaixo do chapelão que cobre 99% de meu rosto e ainda projeta uma sombra que se adianta a minha frente. Não sou estulta, apenas gosto do sol. Tenho uma amiga que se dispõe a pensar até no que não existe (ou não!). Ela pensa que pensa o que a gente pensa. Já disseram que esse caminho é perigoso... mas! Ela costuma fazer alusões sobre o que eu digo. Nas palavras dela, a minha quase obsessão pelo sol deve refletir alguma necessidade de minha alma. _ Sério? Para ela é uma possível leitura da leitura que estou fazendo sobre “euzinha”!Tem a ver com essa conversa demasiadamente subjetiva de alguma coisa pode significar outra. _ Sério?

Minha amiga pensa! Ela só pensa. Não gosta de sol. E só pensar sem gostar do sol é uma grande perda de tempo e criatividade e... para mim, grande perda de momentos aquecidos e iluminados. Minha amiga já fez correções altruísticas: _ Eu gosto do, /do/, “do” sol, mas não gosto de, /de/, “de” sol... entendeu? Para mim é tudo a mesma coisa: de, do, tanto faz. Desde que tenha o sol depois. Vi com o canto dos olhos o meneio repetido que a cabeça à frente fazia: _ Você, talvez, precise enfrentar alguma escuridão interior e... está fugindo. _ Hã?! _... _ Como assim: escuridão? _ Bem, talvez não seja exatamente “escuridão", mas alguma carência, alguma resolução pendente... _ Ei! Você está falando de mim ou de você? _ ... _ Falando sério! Você está precisando tomar sol sem chapéu, minha amiga. _ Veja, você negou muito rápido o que eu tentei dizer... _ Claro! Agora, além de pensar você também fala bobagens!!! _ ... _ E ainda silencia para me fazer pensar que está com razão! (Segue)

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Ai!!! Peguei o jeito dela. Preciso de sol, do sol! _ E não estou na escuridão, não! Minha amiga! Não gosto de deixar ácaros pululando em mim, feito você que só procura a sombra. _ Ácaros? _ Ácaros de pele! _ ... e isso existe? _ Sei lá! Mas que você tem, tem! _ ... _ Colônia deles... _ ... _ ... muitos deles! _ ... _ Está cheiiiiiiiiiiiinha deles subindo pelo seu pescoço, pelos seus braços e até descendo para a sua... _ Cruzes! Para que já estou toda arrepiada! Que nojo! _ Não sei a razão! Ácaros são invisíveis a olho nu... _ Sim, mas... _ O sol mata todos eles!!! _ ... _ Todinhos... _ ... _ ... um por um!!! _ ... Na dúvida!? Por Helenice Maria R. R. Brasil

Mulher

Unidiverso em estações lunares sabendo à grito ,canto e canção quando as águas sobem e o sol se pacifica múltiplas florações de símbolos menarca, defloração, maternidade, menopausa entrevárias se perfila única nas filas das escolas buscando vagas para os filhos leoa trazendo a caça em homenagm ao rei menina negando fogo para dormr mais um pouquinho que a vida urge e o lanche dos meninos e meninas não tarda mas a noite vem e a leoa menina beijja o amadoamante

PROTEJA OS ANIMAIS! SEJA HUMANO!
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e dorme com todos os seus sonhos

Foto de Lammoca
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DEIXA A CHUVA CAIR...

Por Marta Carvalho

Ó céus! Deixa a chuva cair no sertão, Pra ter trigo, pra ter pão.

Deixa a chuva cair no cerrado, Pra ter leite, pra ter gado.

Deixa a chuva cair semana inteira, Pra florir minha jardineira.

Deixa a chuva cair com calma, Pra lavar minha alma.

Deixa a chuva cair, sem alagar, Pra deixar meu amor chegar.

Deixa a chuva cair...

Foto de Vijana

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Agonia Só
Por Valdeck Almeida de Jesus Vivi, vivi, vivi, vivi Festa, solidão, alegria, tristeza, Alegria, alegria, Bebi, bebi, bebi, bebi, Procurei Jesus, Sofri, sofri, sofri, sofri, Tudo o que fiz, me arrependi, Sofri, sofri, sofri, sofri, Fiz de novo, fritei ovo, Comi jaca, sofri de novo, Vivi, vivi, vivi, vivi Casado, dormi. Sofri, vivi, sorri, de novo. Procurei Ele, e nada, Só pedrada, sorri. Que nada, vida é viver Vivi, vivi, vivi, vivi, Nada de arrependimento, Nada de sofrimento, Amanhã me confesso, confesso. Depois, resta-me o universo, Viverei, sofrerei, chorarei, e nada, Sexo, sexo, sexo, sexo Dez, vinte, duzentos, Até quanto não sei se aguento, Mil, cinco mil, de novo, de novo, Ai, que bom. Viver é que é bom. É sempre Natal, São João, Carnaval, Páscoa...

Imagem by Sh4dyJ0lk4
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ZÉ PREQUETÉ
Por Vó Fia Figura fácil e por demais conhecida na cidade de Beira Rio, Zé Prequeté não fazia mal a ninguém, morava em um barraco muito pobre com sua mãe e uma irmã um tanto amalucada; a mãe era lavadeira, mas o lugar era pequeno e as donas de casa faziam todo seu serviço, poucas pagavam a lavagem de suas roupas, o que trocado em miúdos quer dizer que a mãe do Zé quase nada ganhava e ele tinha de se virar para não morrer de fome. O coitado tinha uma perna mais curta que a outra e andava com uma certa dificuldade, na base de um passo raso e outro fundo, se apoiava numa manguara feita de um pedaço de madeira, manguara é a prima pobre da bengala; ele saia de manhã com suas roupas velhas bem limpinhas e apoiado em sua manguara ia mancando pelas ruas da cidade pedindo ajuda de porta em porta, a tardinha voltava para casa com o pouco que conseguia e junto com o pouco que a mãe ganhava preparavam a pobre e única refeição do dia, comiam rezavam pedindo proteção a Deus e dormiam. Essa rotina simples foi mantida por anos e anos tudo na paz de sempre; Zé com sua manguara e carregando um samburá velho e encardido para guardar a ajuda que recebia, um pouco de fubá, de arroz, de feijão ou qualquer coisa que lhe dessem e lá ia o Zé Prequeté como sempre com um passo raso e outro fundo, com a alegria no rosto e o espírito pacificado; mas tudo nesse mundo acaba por ter mudanças, mesmo um coitado como ele pode mudar de atitude e mudou de repente, a causa foi um simples versinho inventado em má hora por um gaiato qualquer. O tal versinho era mesmo assim: Zé Prequeté, tira bicho do pé, pra bebê com café e quando ouvia esse versinho, Zé se enfurecia, gritava palavrões e avançava em cima do engraçadinho desferindo porretadas com sua inseparável manguara, essas cenas se repetiam constantemente e as pessoas sensatas do lugar tentavam controlar os moleques que arreliavam o infeliz, mas era em vão porque os versinhos continuavam a serem cantados e os escândalos eram cada vez piores. O tempo foi passando e nada mudava, ele se consolava com os carinhos da velha mãe, mas até isso ele perdeu com o falecimento da coi-

tada; a irmã foi internada em um asilo para doentes mentais e ele ficou só perambulando pelas ruas, ouvindo o tal versinho ele foi se desesperando e ninguém percebeu o perigo daquilo terminar em tragédia, porque na realidade ninguém se importava com o que viesse a acontecer com o pobre Zé Prequeté. Por fim não aguentando mais o sofrimento, resolveu acabar com aquilo e terminou da seguinte maneira: certa tarde de domingo depois de mais uma vez ouvir e se desesperar com o maldito versinho, ele subiu em uma arvore que havia no meio da praça da igreja, colocou uma corda no pescoço e amarrou a mesma em um galho da arvore e esperou a missa terminar na igreja, quando a praça se encheu de gente ele gritou : sou pobre, manco e preto, mas sou limpo e não tenho bicho de pé; se atirou da arvore se enforcando com a corda na queda. As pessoas correram em seu socorro, mas era tarde porque ele estava morto; brincadeira de mau gosto devia ser considerada crime hediondo porque o ser humano é instável e uma bobagem qualquer pode matar; os moleques que atormentavam o pobre Zé se encheram de remorsos, mas com o passar do tempo suas consciências se acalmaram e conseguiram viver muito e viver bem, porque estavam vivos e sempre existe uma segunda chance, mas não para o Zé, porque ele não recebeu da vida nem a primeira chance; estava morto e para isso não existe volta, pois a vida só dá uma safra.

Manguara: espécie de bastão que engrossa na base, próprio para ajudar a marcha em terreno escorregadio.

Foto: http://marisa.andrade.zip.net/
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LUPA CULTURAL
Por Rogério Araújo (Rofa)
Vícios modernos (2)
O poder viciante dessa “droga” chamada tecnologia é muito grande. Ela é capaz de causar problemas físicos e psicológicos. Algumas experiências foram feitas com jovens que ficaram “de jejum” de internet por uma semana. Nos primeiros dias não é nada fácil, pois um vazio enorme parece tomar conta do interior da pessoa. Depois passa um pouco, mas a sensação de abstinência, de que falta algo fica sempre presente. E o que fazer, então, para viver sem que os “vícios modernos” nos dominem e nos façam mal, ao invés de ser um grande beneficio para nossa vida? Não pode faltar equilíbrio. Viver 24 horas por dia sob intensa tecnologia sem aproveitar as coisas básicas da vida não é algo sensato e nem faz bem. A família fica em frente ao computador ou TV e não conversam. O filho não pode nem contar o que lhe aconteceu na escola porque está na hora na novela, noticiário, jogo de futebol ou acesso às redes sociais. O que é mais importante? Cada um vive isolado do outro e isso causará problemas sem precedentes num futuro próximo. Tudo na vida é uma questão de equilíbrio. Viver mais na “real” e não somente no virtual. É necessário crer nas coisas reais e que estão à nossa frente, fisicamente e de carne e osso, e não apenas no vimos na telinha do computador ou dos tablet, iphones, smartphones... que estão nos dominando, em muitos casos. Sendo assim, as tecnologias serão complementos e não permearão a vida da pessoa como um todo. Aproveitar sem esquecer o que importa. Tudo que existe no mundo em termos tecnológicos é muito bom para facilitar a vida. Mas nenhum relacionamento on line se compara a um relacionamento pessoal. Um abraço entre duas pessoas pode fazer bem à mente e coração, o que não pode acontecer pela internet que é algo frio. Vícios modernos X Vida de verdade. Quando uma compulsão em, por exemplo, acessar a internet impede de realizar algo por falta de tempo, essa está em estado avançado e precisa ser tratada. A ciência provou que crer em Deus faz bem ao cérebro que tem a sensação de bem-estar intenso. A grande questão é exatamente essa: crer no que não vemos, mas sentimos. Será que isso também ocorre no âmbito da internet e nossos “relacionamentos virtuais”? Fazer amigos através de comunidades virtuais; entrar em contato via internet com parentes e conhecidos de longe; ler notícias sobre tudo que acontece no país e no mundo; saciar curiosidades sobre assuntos que sequer foram mencionados um dia. Muitos recursos podem ser acessados pelo computador para facilitar nossa vida. Tudo isso é mais válido do que nunca. Mas é preciso que não se discrimine quem não está nessa “onda tecnológica”, até mesmo por opção. O filme “Tempos modernos”, de Charlie Chaplin, de 1936, já falava sobre o domínio do homem pela máquina que ele mesmo inventou, em pleno cinema mudo. E quantos anos já se passaram e a situação piorou e, muito, porque a suposta evolução ampliou horizontes e mudou tudo radicalmente, seja para o bem ou para o mal. Que o nunca o “pessoal” não seja substituído pelo “virtual”. Vamos refletir: como temos lidado com as tecnologias que chegam e evoluem de forma assustadora? Temos equilibrado nossas ações? Será que os elementos que mais importam na vida têm sido deixados de lado por causa de excessos cometidos no uso dos “tecno-apetrechos”? Um forte abraço do Rofa!
* Escritor, jornalista, autor do livro “Mídia, bênção ou maldição?” (Quártica Premium), dentre participaçoes em diversas antologias no Brasil e exterior, vencedor de prêmios literários e culturais. O que achou da coluna “Lupa Cultural” e deste texto? Contato direto: rofa.escritor@gmail.com
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INSPIRAÇÃO

Por Walnélia Corrêa Pederneiras

... É como se acendesse um luz Tradutora de sentimentos, emoções... Vem... Transforma-se em palavras E também proporciona felicidade, paz... Registra-se em textos, versos e frases Depois segue em frente sem olhar pra traz. Não deixa saudade porque sempre retorna Quando chega é forte, bela e renovada! Quase que mediúnica, novamente me diz!

Quando se despede, me chama de poeta...

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h!p://janedoerecovery.com

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CEN@S COTIDI@N@S
por ^[ni_lli ok[mur[

bém que comparam as lembranças com o índio e fazem isso para homenageá-lo confirmando a competência da cidadania tão praticada pelos homens. Dessa forma, esse local magnífico é O homem, ser de uma inteligência inigua- uma atração turística com vários visitantes que lável, tem um comportamento exuberante dian- valorizam o desenvolvimento da cultura e da cidadania. te do seu meio.

Homenagem ao índio

Essa tal inteligência garante a aptidão para realizar diversas construções como casas, prédios e indústrias. E ainda foi mais além, munido pela sua sensibilidade humana também fez reservas ambientais, bosques e praças... tudo para alegrar a sua paisagem magnífica e lisonjeira. É importante ressaltar que os locais construídos para lazer receberam nomes, mas não é um nome qualquer e sim nome de alguém importante, ou melhor, de alguém que lutou pelos direitos do povo... Ah! Tudo isso de fato ocorre porque o homem acredita e faz homenagens para as pessoas que lutam pelos seus direitos... afinal ele reconhece um cidadão ativo na sociedade. Veja hoje a Praça Ângelo Cretã, construída desde 14 de março de 1991, é uma área de três alqueires na região Norte de Londrina, praticamente um bosque coberto de matas nativas, no qual é visitada por várias pessoas que passeiam e se maravilham com tamanho e encantamento do lugar. Essa praça recebeu esse nome devido à homenagem ao cacique Kainkang Ângelo Cretã, da reserva Mangueirinha (no sudoeste do Paraná), que morreu em uma emboscada porque lutava pelos direitos de seu povo a terra, sendo um dos líderes das rebeliões indígenas de Rio das Cobras (PR) e todos da região tem conhecimento sobre essa história. Ah! O índio é tão lembrado que todos deixam lembranças eternas na praça, às vezes, acredito que são presentes representando a solidariedade do povo. No entanto, penso tam-

E por fim meu caro leitor, a natureza retribui os presentes com uma paisagem inigualável como à inteligência do homem... e os dois caminham juntos “de mãos dadas” nesta praça, neste caminho, nesta vida, ... eternamente.

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Uma fada feminista

É agora a vez do marido. A fada faz a mesma pergunta. O homem hesita e o seu rosto crispa-se, deixando transparecer uma terrível

Por Dulce Rodrigues

luta de consciência... finalmente, volta-se para a esposa e diz-lhe : « Sei que é um momento muito romântico… Espero que me perdoes pelo que vou dizer, mas uma oportunidade como esta não acontece senão uma vez na vida de um homem… podes acreditar que tenho muita pena, minha querida, mas a carne é fraca e o desafio demasiado grande. » E, dirigindo-se à fada, o marido diz : « Gostaria de ter uma mulher 30 anos mais nova do que eu. » A coitada da esposa sente o coração despedaçar-se ao ouvir estas palavras da boca do marido… ainda por cima no dia em que faziam 25 anos de casados! Desgraçado! Mas um voto é um voto… A fada faz um sorriso malicioso, agita de novo a sua varinha mágica, pronuncia algumas palavras misteriosas e… de repente… o marido tem 80 anos! O seu pedido acabava de se tornar realidade : tinha agora uma mulher mais nova do que ele 30 anos ! Calculo que alguns de vós direis : « Esta fada era uma feminista… » Posso estar de acordo convosco, mas… não podemos esquecer que as fadas também são mulheres… E se me permitem que vos diga « Há alguns homens

Escrevi esta historieta inicialmente em francês, mas traduzo-a agora para todos os meus amigos e conhecidos portugueses. Até vem a propósito do Dia dos Namorados e outros apaixonados. Não posso acreditar que haverá muitos homens capazes de pensamentos inconfessáveis como os do homem de que fala esta historieta, mas... Que isto vos sirva, contudo, de lição se verificarem que, no fundo de vós mesmos, escondem ideias tão feias. A historieta é a de um casal com 25 anos de casados. No dia em que vão festejar essa data inesquecível, eis que lhes aparece uma fada muito simpática que lhes diz : « Vós fazeis hoje 25 anos de casados, o que nos tempos que correm é uma proeza cada vez mais rara, por isso, decidi conceder a cada um de vós um dom, como recompensa. Comecemos pela senhora. Diga-me, minha querida senhora, o que é que lhe daria prazer? Seja o que for, o seu pedido tornar-se-á realidade. »

A mulher não perdeu sequer um segundo a que são também uns bons malandros, não pensar, respondeu logo : « Gostaria de dar a acham? » volta ao mundo com o meu marido e companheiro de todos estes anos de felicidade. » A fada agitou a sua varinha magica, pronunciou algumas palavras ininteligíveis e, eis que os bilhetes de avião e os vales de hotel apareceram por magia nas mãos da mulher.

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CONVERSANDO COM CLARA MACHADO
Crescer para Ganhar
novo (a) namorado (a).

Percebeu que tudo está arquivado nas suas memórias, que o pensamento ruim, vem de Você já parou para pensar que tudo o que te dentro de você, e o bom também, e que a chaacontece de bom e de ruim na sua vida, esta ve para a sua cura é você ter consciência desrelacionado com a sua Mente? Mesmo que se ses pensamentos e ser o seu grande vigilante, hoje esta se sentindo derrotado, perdedor, aza- pois quanto mais vigiar seus pensamentos, rado. mais você vai se sentir capaz, de doutrinar e transformar, pois saiba que quem manda na Saiba que tudo isso é fruto criado por você sua mente é você e não a sua mente que te mesmo. E que a única saída da sua situação manda. de vida, esta dentro de você, que todos os seus tesouros estão ai , bem mais perto do que Agora que você aprendeu o grande segredo você imagina, é isso mesmo, entender que pa- para a sua felicidade e para se tornar um granra você ser um ganhador é preciso crescer e de vencedor e ganhador, não espere por mais se conhecer antes. tempo e comece a fazer a sua grande transformação interna na sua vida agora, pois só você Para que você possa transformar tudo isso, é capaz, de se tornar um Vencedor. vou te dar umas dicas: Se você esta pensando. -Nossa tá tudo errado na minha vida, hoje, acordei de mau-humor. Pensa. Na mesma hora. Alerta, Alerta, Alerta, e muda o teu pensamento. -Que maravilha, acabei de acordar, estou respirando e saudável. Vamos a outro Pensamento. -Estou perdido, devendo no banco e não sei como pagar. Pensa na mesma hora. Alerta, Alerta, Alerta. E mude o seu pensamento. -Estou bem, sei que devo no banco, mais sinto que sou capaz de fazer uma renegociação com meu gerente e que tenho competência para ganhar mais no meu trabalho. Vamos a outro Pensamento. -Acabei de me separar, minha vida não tem mais sentido, agora só penso em morrer. Pensa na mesma hora. Alerta, Alerta, Alerta. E mude o seu pensamento. -Acabei de me separar, minha vida era muito ruim, eu era uma pessoa infeliz, Agora estou solteiro (a) e tenho todas as chances de me conhecer melhor, de me curtir e de arrumar um
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Até mais. Um abraço com carinho. Clara Machado. www.claramachado.com.br

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Três realidades
Por Norália de Mello Castro Em fevereiro de 2012, todos os olhos do mundo estavam voltados para o Japão e o que acontecia lá: um grande terremoto, abalando principalmente a região de Fukushima, destruindo parte de seu reator atômico. Centenas de mortes ocorreram e as ameaças do reator se destacaram. O mundo acompanhou este fato, sobressaltado. Pouco a pouco, o Japão foi se recompondo. Reflexões sendo feitas dos riscos e perigos do uso da energia nuclear, da qual esta nação depende para sua sobrevivência. Acompanhei as notícias com um nó no coração: muitas mortes, muita destruição. Até que veio uma notícia que levantou a moral. Para recompor o país, velhos acima de 60 anos de idade se uniram para uma grande ação: engenheiros, técnicos e operários idosos, se apresentaram como voluntários para trabalhar em Fukushima, para evitar que jovens corressem mais riscos de vida e de contágio da radioatividade. Objetivavam que jovens, com maior expectativa de vida do que eles, corressem risco de câncer e fossem maior transtorno para o país. Não se denominavam kamikazes, aqueles homens preparados para o suicídio em prol da vitória do país, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, como veteranos hábeis, poderiam ser mais úteis ao país. Assim, se organizaram como força tarefa para aquela situação de urgência, com o objetivo de salvar a continuidade de seu povo. Esta notícia me tocou sobremaneira. Que patriotismo! Que amor ao próximo desses velhos aposentados! Fez voltar-me à memória um filme que vi sobre os esquimós: A estrada é gelo puro. A noite escura. O vento sopra violentamente. Ela abre a porta do iglu e segue pela estrada. Está coberta de vestes negras e leva uma trouxinha nas mãos. Sai sem mais olhar o iglu, naquela noite no Ártico. Despede-se do filho e vai sozinha com sua trouxa minúscula. Para onde? Nem mesmo ela sabe; só sabe que caminha para sua própria morte. Fatalmente encontrará o seu final, seguindo assim sozinha dentro de gelos. Vai firme, resoluta. Precisou mesmo fazer essa caminhada, para não ser mais peso para a família de seu filho e netos: Naquelas terras geladas, sua família não sobreviveria com ela, agora um fardo inútil, sem trabalhar. Ela ia firme no seu propósito, pois os amava demais. Por amor a eles, se despedia da vida para que eles pudessem sobreviver. A câmara para. Luzes se acendem e lá estou eu, sentada ainda, em prantos, tal a tristeza que me invadiu, diante de tamanha solidão humana. Enquanto eu refletia sobre tudo isto, me deparo com parte de nossa realidade brasileira: uma senhora de 58 anos de idade, que odeia a sua velhice, agora inútil por não poder mais trabalhar na roça... Odeia seu corpo e a limitação imposta por um grave acidente. Odeia a si mesma por não saber ler nem escrever e ter que enfrentar a velhice sem trabalho. Nosso País nos propicia tudo: terra fartas, clima ameno, sem tsunamis. Mas estamos na cartilha do pré-primário de como respeitar os nossos velhos, pois o desrespeito começou lá no princípio, com muitos analfabetos ou semianalfabetos, produzindo velhos que têm de enfrentar a velhice a duras penas: o respeito à velhice entre nós tem de começar na infância. Temos muito que aprender, quando outros gestos nos mostram um amor maior pela perpetuação da espécie e nos possibilitam a chance de nos tornarmos mais humanos. Tratar a infância com gentilezas é tratar bem a velhice.
*Foto: http://www.apollonia-art-exchanges.com/ www.varaldobrasil.com 109

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FLORIANÓPOLIS
Por Fernanda Bondan Nocolodi Ilha do meu Coração Brisa Envolvente Céu Fascinante Morros Insinuantes Águas Refrescantes Povo Querido, Amigo Ilha do meu coração Quero Conhecer cada Pedaço Seu Mergulhar em Suas Paisagens Enamorar em Seu Luar Me Contentar na Luz do Verão Ilha do Meu Coração Para Sempre te Amarei

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ANOTAÇÕES:
Por Evanise Gonçalves Bossle Anotar lembranças, recados rápidos. Não esquecer... Ah! Quase ia esquecendo das últimas anotações de ontem. Lembrar de pagar a conta do telefone, de comprar o pão e o leite. Lembrar para não esquecer. Organizar as fotos por datas, separar os poemas misturados, reescrevê-los todos, apagar tolas repetições, descontar despesas, somar amores... Não esquecer de por o sal no feijão e de juntar as migalhas de textos caídos ao chão.

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CINEMA & CINÉFILOS
com

PAULINE HERBACH

Essa coluna começa hoje e é para quem gosta mesmo de cinema, seja um lançamento, um filme candidato a todos os prêmios internacionais, seja um filme que quase ninguém conhece e está ali num canto da locadora, pronto para ser um sucesso na sua vida. Por que o cinema tem o poder de tomar você pela mão e viajar por outros universos, realizar os feitos mais impossíveis, fazer você sorrir, chorar, ter novas ideias, se inspirar. E veja, aqui não faremos crítica, boa ou má. Mas comentários sobre algum filme que mereça o nosso olhar, a nossa atenção, que tenha um tema interessante a ser debatido. Então, pegue a pipoca e se ajeite. A sessão já vai começar.

SONHOS ROUBADOS, 2009 Direção de Sandra Werneck Com: Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias). Nelson Xavier, Marieta Severo, Daniel Dantas e Lorena Cruz. Quem já não teve um sonho roubado? Talvez você já tenha tido um sonho roubado. Se isso aconteceu, voltou a sonhar com alguma outra coisa, por que sem sonhos ninguém consegue nem dormir. Nem viver. Mas ter todos os sonhos roubados, é o que pode acontecer com meninas de periferia, quando vivem sem recursos para estar na escola, sem cuidado da família, sem assistência social . Meninas que precisam se prostituir para comprar um xampu ou um refrigerante, uma saia barata, para ter roupa nova. Ou simplesmente para comer e ajudar a sustentar a casa. Meninas que tiveram gravidez precoce e que e na adolescência já tem outras meninas para criar . Meninas molestadas e silenciadas por medo e pela própria necessidade de amparo, mesmo que seja um amparo cheio de perversão. Meninas assim, estão no filme” Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck. ( a mesma diretora de Cazuza, o tempo não pára”) e de uma extensa e bonita filmografia que inclui diversos documentários importantes, como o próprio “Meninas” que trata da gravidez adolescente.

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É com esse olhar quase jornalístico e um tanto poético, que Sandra Werneck cria essa atmosfera dura e lírica , ao focalizar meninas de subúrbio descobrindo a vida de um jeito que não gostaríamos para as nossas crianças.

possível fazer uma substituição do que não se teve, por aquilo que dá para agarrar no aqui e agora.

Nanda Costa está excelente como “Jéssica”, adolescente-mãe, prostituta eventual, batalhadora por um lugarzinho ao sol, à sua maneira. Tão excelente que dá para desconfiar das línguas ferinas que não a aceitam como protagonista da novela das 21h de Gloria Perez. Parece despeito, ou quem sabe, orgulho das veteranas- o lugar não pode ser de uma menina que acabou de chegar? Nem tão verde. Ela mostra segurança e firmeza ao tomar pela mão o desamparo de Jessica e transformá-lo em valentia, quando faz dele, nada de dramas, apenas a vida para levar. Inocência perdida, mas nem tanto, é a de Daiane, a excelente Amanda Diniz, abusada desde sempre, pelo marido da tia que a acolheu. Uma menina que quer realizar a tão sonhada festa de 15 anos, para dançar a valsa com pai que ela conhece, mas que até então, nega essa paternidade. E para completar o trio, a intensa Sabrina, de Kika Farias. No fim tudo há de dar certo, por que tanta juventude ainda por desabrochar, é força vital. E tende a superar a realidade tão dura. Quem pode tomar um sorvete e sorrir como se o momento fosse eterno, é capaz de aliviar marcas profundas. A receita de felicidade pode estar no carinho das amigas, e na mão amiga de uns e outros na comunidade, quando é

Marieta Severo, como sempre faz, da um show de humanidade no papel da cabelereira, Nelson Xavier brilha só de entrar na tela, Daniel Dantas encarna o ingrato personagem do molestador. Aquele que já ganha antipatia de primeira. E Lorena Cruz , é precisa na sua interpretação. Que elenco mais lindo.

O filme, de 2009, é posterior ao documentário “Meninas”, também de Sandra Werneck. . E certamente que leva essa olhar experiente de quem sabe contar as coisas do jeito que elas são. Sem chocar , sem maltratar mais do que a vida já se encarrega. É cativante cada sorriso desse enredo. Assista sim . E prestigie um filme brasileiro na locadora mais próxima. Pegue na estante: “Sonhos Roubados”. O cinema nacional precisa da nossa atenção e da nossa importância, para conseguir mais verbas, para produzir mais , para brilhar como merece. E ver seus sonhos realizados.
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Ficha Técnica: SONHOS ROUBADOS, 2009 Direção de Sandra Werneck Com: Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias). Nelson Xavier, Marieta Severo, Daniel Dantas e Lorena Cruz.

man, os dois estão morrendo e finalmente decidem aproveitar a vida.” Primeiro filme que assistiu no cinema: “Ah lembro... “Ao mestre com carinho”, com aquele homem lindo( Sidney Poitier) . Gosto muito dele. Sou negra, e amo a minha mãe preta”. ( Tiça é loura de olhos claros, mas quem há de questionar o DNA de um brasileiro?) Atriz preferida: Fernanda Montenegro e a Gloria Pires. Ator preferido: Antônio Fagundes, Tony Ramos. Al Pacino e Woody Allen... Diretor que mais assiste: “O que trabalha com Marcos Prado. “ ( José Padilha , de “Tropa de Elite”, um grande sucesso)

Nossa Cinéfila de estreia: Tiça Magalhães é uma das Chefs mais requisitadas no cenário brasileiro, seja para fazer grandes jantares , para dar aulas ou para fazer o que ela gosta mais ainda- “abaixa tia”, e ela atende para levar um beijinho. Há pouco mais de dois anos, todas as segundas-feiras, Tiça recruta seis voluntários ( em geral “gente rica”) para ajudar em uma atividade gastronômica no “Solar Meninos de Luz” http://www.meninosdeluz.org.br/ , na favela do Pavãozinho. Ali ela ensina às crianças a gostarem de comida vegetariana. Uma excelente pedida para quem não pode ter carne todo dia na mesa. Um excelente pedido: preservem a natureza. É por que comemos carne, que mais árvores são derrubadas para virar pasto... Assim gira o mundo , ou deixa de girar. Nossa entrevistada morou anos no Havaí e conhece os quatro cantos do planeta, tem sete livros de gastronomia contemporânea publicados pela Paz e Terra. O oitavo está a caminho. E a renda? Vai em grande parte para” os meninos do Solar”. E combina com o filme de estréia dessa coluna: Tiça dá de si, para que tenhamos um país menos carente de recursos, de informação, de formação. Aí vão suas preferências de cinéfila: Filme preferido: “ São tantos, mas tem um, que um dia fui fazer um cardápio e fiquei assistindo : “Antes de Partir” com Jack Nicholson e Norman Free-

Cenário em que gostaria de ver rodado o roteiro da sua vida: Na Bahia entre Ilhéus e Salvador, Maraú. Aquela região, é meu Havaí atualmente. Com qual diretor? “Marcos Prado. Ele não é só fotografo de cinema, é também diretor” Par dos seus sonhos: “Fagundes não é ligado a esporte....Marquinhos Palmeira... , Rodrigo Santoro tem tudo que eu gosto !!!!( babo por ele)” Recado para o cinema brasileiro: “Estou muito feliz que o Brasil voltou a fazer filmes muito bons. Tá numa fase legal, indicado a Cannes, antigamente só esse falava em pornochanchada. Agora tem muitos filmes de qualidade. As pessoas olham já o Brasil com outro olhar. “ Gostaram? Então voltem para o filme do mês que vem no Varal. E vá pensando em cinema. A próxima entrevista pode ser com você.

Pauline Herbach é Psicóloga Clínica, Socióloga e Pesquisadora e Escritora. Autora do livro "Mulheres Sem Prazo de Validade", escreve há 9 anos no blog "Camélia de Pedra" com o nome de "Camille". ( cameliadepedra.blogpost.com)

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O POETA DE HOJE
Por Varenka de Fátima Araújo A criança no berço segue com seus olhos atentamente, a pessoa que esta perto, imagens em sombras ou objetos com ritmo. Depois do choro, vem a imitação, o adulto nos seus gestos para a criança seguir e firmar suas linguagens. É certo que todo ser humano é um imitador. Tudo começou com o ponto, surge a linha. Na época das cavernas, os homens desenhavam os animais, pura imitação. Uma pessoa imita outra. As letras são repetidas milhões de vezes a cada hora. O poeta surge na sua imitação. Pode imitar a si mesmo, como pode imitar o outro, na prosa ou no verso. Para ser poeta basta ser criativo, e imitar personagens bons ou maus, depende do que vai no seu intimo. Já a poesia posta como obra de arte, tem de provocar uma emoção de ordem estética. A arte que se faz com palavras escrita é uma obra literária. Todos nascemos poeta e fica incubado, na escolha solta a língua pátria, leia bastante e seja um destemido. Põe a língua para mexer e manda tua poesia. Todo dia é dia do poeta.

Desenho de madha!er penguin

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Nas Entrelinhas
Por Leomária Mendes Sobrinho

Piso nas entrelinhas dos meus passos. Reflito muitos momentos e fatos. Deito-me então nessas marcas, Onde o chão com o tempo descarta Com chuvas, poeiras ou trombadas. Vestígios que o homem desmata. Nas entrelinhas da memória, Penso primeiro na vitória. Aperto o meu peito com as mãos. Prefiro um livro aquecer No calor dos meus órgãos sãos. Assim minha história posso rever

h!p://approachanxiety.com/

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Eu
Por Magno Oliveira Eu fico parado, o tempo passa. Você não. As pessoas vivem no vai e vem Não percebem a sua beleza, nem a tristeza da solidão. Não querem o mal, mas não lutam pelo bem. São tratados como gados e aceitam a situação Eu não sou diferente ás vezes isso acontece comigo também. Mas luto contra conchavo e qualquer tipo de conspiração. Não vendi a minha alma, nem a venderei. Tenho ainda coração, Tenho esperança seu sorriso a mantém Não irei me render, que caia o inimigo então...

Arte de Two-Tickets

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Escreveria
Por Maurício Duarte Escreveria mil tratados de filosofia, dois mil manuscritos de teologia, cinco mil grimoires de magia, sete mil cadernos de matemática. Escreveria dez mil pergaminhos de ciência, vinte e cinco mil papiros de ética, quarenta mil escrituras de letras, cinquenta mil projetos de arte, se soubesse o segredo da vida. Alertou-me o sábio: Nem uma linha do que queres escrever pode se equivaler ao segredo que buscas. O segredo está em todos os corações sinceros e inocentes que já nasceram na face da Terra, mas nem uma linha do que queres escrever pode decifrá-lo.

Desenho de ##avanbeugen
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NO JARDIM DA LUZ
Por Jacob B. Gondenberg A tarde, indiscutivelmente, era bela; se existe um Criador — onipresente e onitudo, como se alardeia por aí —, desta ele poderia se orgulhar. Os verdes, rasteiros, arbustivos e arbóreos, resplandeciam iluminados, aqui e acolá, por um sol que se esgueirava pelas fendas que a poluição, distraída, lhes permitia. O Jardim da Luz aconchegava os transeuntes que, mesmo os que adentravam céleres, flanavam por suas alamedas, que a isso convidavam. Pelos bancos, onde babás se descuidavam de seus lourinhos assépticos, deixavamse ficar os leitores de jornais e os que, diligentemente, assistiam à passagem do tempo. Aqui e ali, os sem-teto, os sem-emprego, os sem o que fazer. Para todos e tudo, a tarde era calorosa. No bistrô da Pinacoteca debruçado sobre a Luz, sob os ombrelones das mesas externas, o casalzinho se esfregava languidamente; álacres senhorinhas, de seios fartos, bem-vestidas fora de moda, atracadas a bolsas, pastas e sacolas, balançavam o indefectível crachá, orgulhosamente pendurado no pescoço — vindas de um seminário, um simpósio ou, mais em voga, uma palestra motivacional proferida por algum mago da autoajuda, detentor do Segredo, do “querer é poder”, tiravam fotos, muitas fotos, cheese!, com suas maquinetas digitais; e outros, e por entre todos, os garçons automáticos que iam e vinham com seus pedidos, sempre demorados, alguns deles trocados. Uma típica tarde urbana, pra paulista nenhum botar defeito: nem mesmo os cariocas, com todo o preconceito de curtição — mais de farra, tal qual com os argentinos; afinal, ambos para o Rio são gringos... Parecia ter saído das telas de um Kurosawa. Silenciosamente, vagarosamente, surgido e percebido sem início nem fim, vinha andando concentrado: velho, cabelos e barbicha muito compridos, bem grisalhos e amarrados com uma fita, quase um rabo de cavalo, e uma gravata. Um velho mandarim?! Certamente, não: pela roupa mais do que simples, a calça cinza disforme e camisa social branca, ou que deveria um dia ter sido branca e social. Seguia olhando fixamente para o chão à sua frente, o corpo vergado para diante, indicando, pela acentuada dobra na região de sua cintura, que sua coluna já não sustentava nada, a não ser

a mochila surrada que trazia equilibrada às costas. Também do nada, para os que ali se encontravam, surgiu e plantou-se à frente do velho um jovem. Mediocremente vestido, barba por fazer, não demonstrava riqueza ou pobreza, apenas desleixo. Impedia-lhe a passagem. Com exceção do casalzinho, chamou a atenção de todos; deu até para se ouvir algo como uma ameaça, um sussurrar de “passa pra cá o dinheiro e a mochila, mano!” O velho mandarim quase atropela o obstáculo surgido. Para, levanta a cabeça, os olhos mais puxados ainda e, com uma destreza própria de um guerreiro, dá um passo atrás e se apruma completamente, a coluna em ação, bons tempos, outra vez! Puro instinto. O assaltante se assusta. Não esperava, nem desejava, certamente, tal ou qualquer outra reação; e muito menos a plateia ao lado. O mandarim, em movimentos titubeantes, mas coreográficos, vai assumindo a posição do gafanhoto ou similar — de acordo com a memória dos que acompanhavam a série Kung-Fu, um sucesso televisivo dos anos 70: o braço esquerdo estendido, o punho dobrado, a mão espalmada para cima; o braço direito em ângulo, a mão, qual garra, recolhida. Olha diretamente para o contendor, a perna direita dobrada, elevada, com a sola do sapato à mostra, enquanto a esquerda faz base e planta o pé firmemente no solo. Ou assim pretendera, pois, fosse pela prática há muito abandonada, fosse pela idade ou, mesmo, pelo peso da mochila, a base começou a tremer; ainda pretendeu um brado de guerra, mas não o completou, nem sustentou a posição, caindo para trás, sentado, já sem pose ou dignidade marcial. Ante tal cena, o assaltante reagiu de modo inesperado e inadequado a seus propósitos iniciais: teve um ataque de riso, um gargalhar irrefreável, que contagiou os circunstantes; o que o manteve no local, indefeso devido à distração, pelo tempo necessário para que dois guardas, atraídos para a cena pelo brado marcial, acudissem o mandarim e agarrassem o assaltante, que a essa altura nem à prisão reagia. Foi conduzido, ainda às gargalhadas, para um posto policial do outro lado da praça. O velho guerreiro oriental custou a levantar-se e também a se recompor. Os fregueses do bistrô, cada um à sua maneira, fingiram não ter visto nada; nada acontecera, era o melhor para a dignidade ferida. (Segue)
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O mandarim retomou seu caminho, novamente curvado, mais dobrado ainda. Silenciosamente. Vagarosamente. Os comes e bebes retomaram seus ritmos. No Jardim da Luz, um friozinho paulistano começava a dar o ar de sua graça. Comentários afirmavam que as artes marciais do Oriente seguiam firmes, eficientes; cada qual à sua maneira. Não importa como. A coisa funciona.

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V Encontro Brasileiro na Suíça – “Redes Sociais e Integração”

Sábado, 25 de maio de 2013 - Aula Rämibühl, Rämistrasse 56, 8001 Zurique As redes virtuais como o Orkut, Facebook, E-mails, Blogs, dentre outros, inauguraram uma nova era no campo das comunicações e desempenham um papel importante na vida cotidiana da maioria das pessoas, especialmente quando se mora longe da família. Apesar isso, todas essas formas de “estar conectado” com o mundo não substituem o encontro pessoal e presencial com outras pessoas. Para nós, o termo “Redes Sociais” refere-se a uma teia multifacetada de relações (presenciais e virtuais), que vão desde o pequeno círculo familiar até as relações estabelecidas no ciberespaço. Todas as relações estabelecidas entre pessoas, de forma presencial e/ou virtual, criam importantes contatos, de diversas naturezas. No contexto multicultural da Suíça, as redes sociais são uma chave importante para a integração. É na construção e no interior dessas redes sociais que a integração se concretiza, passo a passo. A ideia deste Encontro é debater sobre os papeis que essas redes sociais podem representar, assim como sobre as chances e os desafios do mundo ligado em rede. O público terá a oportunidade de interagir ativamente durante o evento, tanto na troca de experiências com os outros participantes, como no contato com os participantes da mesa redonda. Reservem a data, façam sua inscrição e sejam bem vindos para debater conosco e com nossos convidados sobre esse tema, que além de interessante, é também muito atual! Coordenação do CBS (Conselho Brasileiro na Suíça) Patrocínio: Integrationskredit des Kantons Thurgau Fachstelle Integration des Kantons Basel-Landschaft Integration Basel Amt für öffentliche Sicherheit – Abt. Lotteriefons/Solothurn Migroskulturprozent Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Segue)

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Programa
9:30 Chegada, inscrição 10:15 Abertura e Saudação 10:35 Introdução ao tema 10:50 Palestra: “Redes Sociais: Chances e desafios do mundo ligado em rede”, por Alexander Thoele (jornalista da Swissinfo, criador do Blog “Do topo dos Alpes” e do “Fórum Brasil-Suíça”) 11:30 Dinâmicas para troca de experiências 12:00 Espaço Cultural 12:15 Almoço 14:00 Mesa Redonda com participação de: Meire Yamaguchi (psicóloga, naturopata e escritora), Jacqueline Aisenmann (escritora, editora do site e da revista eletrônica “Varal do Brasil”) Vicente Luis de Moura (psicólogo). Moderação: Sandra Rodrigues Urech (mestre em educação, membro da diretoria do CBS) 15:40 Pausa 16:10 Conclusão do tema, com apresentação de links úteis 16:30 Reflexão final 17:00 Encerramento com música Formas de acesso ao Local: Aula Rämibühl, Rämistrasse 56, 8001 Zurique (Entrada na Steinwiesstrasse/ Steinwiesplatz) / Trem: Da estação principal de trem de Zurique pegar o bonde (Tram) Linha 3/8 direção Klusplatz, descer no “Hottingerplatz”, descer a rua e virar a primeira à direita. Inscrições online: www.encontro-brasileiro.ch ou www.conselho-brasileiro.ch Até 10 de maio de 2013

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Recordações da Pré
Por José Cambinda Dala

Pusera-me a força na sala E aguardava-me lá fora Para juntos Tal com chegamos Regressarmos a casa

Pré-cabunga Era o nosso alcunho Na iniciação escolar Era numa época Em que tínhamos merenda E materiais de borla Recordações que guardo Na mente Que nunca esquece… Pão com leite Tomávamos na escola Na hora do recreio Pelo menos, Aquele dia De estreia na escola nº 136 – 4 de Fevereiro Onde chorei! Pois, Não queria entrar na sala Tinha vergonha Era tímido Olhava nova gente Negros e mulatos E com bastante emoção Embora todos miúdos como eu, Estavam melhor apresentados Arrumados e aprumados Com roupas e mochilas lindas Recordo-me de alguns colegas Amigos que ganhei. Valeu a pena estudar Ir a escola Limpo ou sujo Rasgado ou não… Portanto, Hoje que sou crescido Faço um balanço positivo

Me sentia pobre Como se fosse o único… Mas, não! Havia mais compatriotas

Era miúdo E atendendo a distancia da escola Tinha um guia Que nesse dia, Primeiro de aulas
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Carná chegando
O Rio de Janeiro continua lindo.../ Em fevereiro, tem carná...1 Por Maria Lindgren

tras, por impingido à turma de qualquer jeito. Ah, Heidegger de minhas insônias! Grande animadores do Carnaval os do rádio daquele tempo. Valia o momento em que se vivia a felicidade. Coisa ruim, só para fazer gozação. Grupos de músicos de fama ou mesmo desconhecidos do grande público surgiam daqui e dali. Melodia e letra aprendidos, ainda que, em criança, nem sempre entendêssemos as mensagens: elogios políticos Bota o retrato do velho, outra vez/ bota no mesmo lugar.... : racismo óbvio O teu cabelo não nega, mulata...; capitulação à beleza: Branca é branca, preta é preta/ mas a mulata é a tal.../ ; situação financeira precária remediada pela cachaça: Ei, você aí, me dá um dinheiro aí...; preconceito disfarçado contra os homossexuais masculinos: Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é/ será que ele é...e tantas outras, inspiradas no cotidiano. Mistério para nossas mentes, alegria para vozes e ritmos infantis.

Ouço ao longe a charanga meio desafinada e o típico rufar dos tambores pacíficos (?) do Carnaval do Rio. Meu corpo responde, nem sei bem porque, com um arrepio de outrora. Parece que me vejo faceira a remexer os quadris no meu quintal de menina, em fantasia de baiana, em homenagem à Carmen Miranda, uma das precursoras das marchinhas carnavalescas com Taí, dos anos 30.

Da porta da cozinha, mamãe bate palmas de aprovação, em riso aberto, enquanto minha irmã assiste sem grandes entusiasmos. De tardinha e à noite, choro e ranger de dentes porque meu pai, católico fanático, detestava a manifestação dos pouco ou nada religiosos: Carnaval é coisa do diabo. - Depois, a gente confessa, retrucava mamãe. À mãe e à filha mais nova somente importava a excitação do samba e das marchinhas no rádio, decorados meses antes, com a atenção dada aos livros herméticos de filosofia que, aliás, aprendi a odiar na Faculdade de LeO resto eram marchas-rancho, trégua ao cansaço dos foliões: A Estrela Dalva, no céu desponta... / Um pequenino grão de areia/ que era um pobre sonhador.../ Bandeira branca, amor, não posso mais...
1 Extrato de Aquele Abraço, samba composto e cantado por Gilberto Gil, no auge da fama, em 1972.

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Será que se acabaram os compositores carnavalescos ou foi a qualidade das mídias que deu na desgraça que deu. Ou ainda, será minha rabugice de gente velha, que não acompanha o “evoluir” do mundo? E o samba-enredo das escolas, minha gente. Era calmo, bem compassado, ritmado sem grandes pressas, dava tempo dos passistas e da bateria exibirem seus dotes. Autênticos, saídos às vezes de pobres com falhas de dentes, e de seus amigos próximos, choravam as mágoas ou o bom da vida, em plena Praça Onze ou na Avenida Presidente Vargas, sob os aplausos delirantes da plateia, atrás dos cordões de isolamento, onde coubesse mais um corpo cheio de remelexo. Nada de camarotes especiais para gente endinheirada e turistas idem, que estes tinham os grandes bailes onde se exibir. O mais famoso, o do Teatro Municipal, sem dúvida, com passarela e tapete vermelho tipo Oscar do cinema hollywoodiano, para os plebeus apreciarem de cá de baixo, no chão da Cinelândia, o desfilar das fantasias da elite. Não falo aqui do que viveu minha família materna, por antigo demais. Acho que os carros alegóricos de hoje devem ter sido inspirados nos desfiles do Corso em carros abertos, assistidos por minha mãe, boquiaberta pelas fantasias, pelos frascos de lança-perfume, pelo confete e pela serpentina. Ou, mais certo ainda, vieram das endiabradas Sociedades Carnavalescas, frequentadas por meus tios “da fuzarca”, como dizia minha mãe. Relembro os blocos de rua a que assisti desde muito nova, pela mão materna, na Avenida Rio Branco, vindas de barca lá do outro lado da Baía, onde morávamos. Escolhíamos

as imitações mais grotescas: figuras fantasiadas de Carlitos, homens-homens vestidos de mulheres com a roupa das irmãs, caricaturas dos políticos da época, jovens bem barrigudas vestidas de noiva... Imitação irônica do que sobressaía no cotidiano do povão carioca de meus amores. E muito mais tarde, casada e com filhos crescidos, nos anos de 1980, me dá dor a lembrança da participação fantasiada e tudo, no bloco do Clube do Samba, de João Nogueira, em vários carnavais, junto com meu companheiro carnavalesco e outros amigos, bem chegados aos pulinhos, pulões, requebrados etc., compartilhando o Carnaval com Elisete Cardoso ou Bete Carvalho, para minha grande emoção.

Ou do dia em que, no Sambódromo ainda de arquibancada improvisada, nos atiramos à passarela, arrebatados pela Verde e Rosa, Mangueira querida, gritando com Jamelão o samba-enredo vencedor, aos saltos de satisfação pela grande vitória. (Segue)

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De lá pra cá, quase nada. Um ou outro samba e enredo por acaso prestados à atenção na correria com que têm que passar os sambistas, a bateria e os carros alegóricos descomunais, devido ao crescimento das Escolas, entupidas de celebridades e gente de fora. Muito bloco de maioria jovem, nas ruas dos bairros da Zona Sul, que não posso usufruir bem sem o gosto tão saboroso da mocidade; o desfile na TV até meia-noite, uma hora, ou no dia seguinte, se o desfile avançar manhã a dentro, como é habitual. E só. Ai, meu Carnaval tão querido!

CONSTELAÇÕES MULTICORES
Por Mirian Menezes de Oliveira

Do universo misterioso, nascem estrelas multicores. O céu se faz na terra, nas estrelas-pentagrama, em que vítreas borboletas imprimem um beijo de amor...

Fotografia: Gilmar Garcia Dueñas
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A História de Giovanni Bragolin
Por Leônidas Grego Matéria especial sobre o polêmico pintor italiano Bruno Amadio, conhecido pelo pseudônimo de Giovanni Bragolin, que ganhou destaque pelas suas macabras pinturas conhecidas como "Os Quadros das Crianças Chorando".

posto pacto. Entre outras versões, o boato sustenta que o próprio, há alguns anos atrás, pediu para quem tivesse esse algum quadro seu em sua casa poderia queimá-lo pois ele estava farto de ver desgraças da vida dessas pessoas, deixando o ambiente pesado. Aparentemente, Bruno Amadio foi elaborado como um soldado no exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial. É durante essa experiência quando você vê o sofrimento das crianças de várias aldeias e cidades por causa da guerra. Esta divisão da imagem perturbadora na sensibilidade do artista e, em seguida, marca o seu trabalho de forma significativa.

Bruno Amadio, ou "Giovanni Bragolin" (19111981), foi um pintor italiano que ficou famoso entre as décadas de 1970 e 1980 ao pintar quadros de crianças chorando que foram vendidos em vários lugares do mundo inclusive no Brasil. Também era conhecido como Franchot Sevilha, Bragolin e J. Bragolin. As pinturas apresentam uma variedade de crianças chorosas olhando melancolicamente para a frente. Eles são chamados "Gypsy Boys", embora não há nada especificamente que os ligue ao povo Romani. Bruno Amadio, era um pintor de formação acadêmica, e trabalhou na Veneza pós-guerra, produzindo pinturas para os turistas. 27 pinturas dos "Crying Boys" foram feitas sob o nome de Bragolin, e suas reproduções foram vendidas no mundo inteiro. Na década de 1970 ele foi encontrado vivo e ativo, ainda pintando em Pádua. Alguns atribuem a seus quadros, principalmente os das crianças chorando, à mensagens subliminares ligadas ao satanismo ou a um su-

Após a guerra, ele se mudou para a Espanha e se instalaram na cidade de Sevilha. Mais tarde, aparentemente, reside em Madrid. Bruno Amadio iria usar um pseudônimo para assinar suas pinturas. "Giovanni Bragolin" É nesta nova era da sua vida, onde aparentemente ele começou a pintar uma série de pinturas conhecidas hoje como "As crianças chorando, mostrando fotos de crianças na parte superior do rosto e do busto, que mostra com grande carranca visíveis as lágrimas escorrendo pelo rosto. Estas pinturas foram reproduzidas em folhas de papel e cartão e amplamente comercializado por muitos países ao redor do mundo, especialmente durante os anos 1970 e 80. Atualmente ainda deve vender algumas reproduções. (Segue)
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Bruno Amadio voltou para a Itália em 1970 e se estabeleceu em uma casa na cidade de Pádua. Alguns dizem que há algum tempo pintava quadros para turistas na cidade e em Florença. Em 1979, ele continuou a pintar, segundo testemunhas e morreu em Pádua em 1981. Outra teoria para que Giovanni Bragolin tenha pintado crianças deste modo,seria para lembrar o sofrimento delas na segunda guerra mundial. Muitas destas imagens podem responder eficazmente a uma estética que se encaixa com esta teoria: roupas danificadas, atmosfera cinzenta, paredes derrubadas, ansiedade, sensação de sujeira e escuridão, incompreensão e tristeza O grande peso emocional dessas figuras tornaram muito populares e são liberados para o público em forma de tabelas e planilhas que foram vendidos por centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, tornando-se popular na Inglaterra, América do Sul e até Turquia. Seria colocar estes pontos de vista; bem decorando áreas comuns das casas, ou para decorar quartos de crianças. São frequentes os comentários de pessoas que tem ou já tiveram um desses quadros em sua casa, as crianças têm causado diversos sentimentos e emoções. Enquanto algumas crianças sentiram uma certa tristeza ao verem as pinturas, outros dizem que as crianças que se apresentam nas imagens fizeram com que eles se sentissem bem e que foram "partilhar dos seus segredos e tristezas. " Porque, certamente, estas Pinturas de Bruno Amadio (Giovanni Bragolin) tem um grande impacto emocional. Veja agora as pinturas denominadas "Gypsy Boys":

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As duas pinturas de Bruno Amadio a seguir, são as que mais sugerem que os boatos obscuros sobre sua arte sejam verdadeiros. Vejam as analises e tirem suas próprias conclusões.

ombros. Já na parte número 2 percebe-se que o braço da menina deveria ser demasiadamente grande para encontrar-se com seu cotovelo, visto que o antebraço se posiciona de forma totalmente incoerente. Após estas avaliações, infere-se que esta menina esteja esquartejada e que seu braço esquerdo esteja jogado por sobre seu corpo. Outro detalhe de grande importância é que poucas das crianças chorosas pintadas por Bruno Amadio olham diretamente para nós. E esta por ter o olhar para o vazio confirma a hipótese de que foi pintada morta.

Esta é a mesma imagem da menina acima. Agora invertida verticalmente, percebe-se que um longo braço (destacado pela luz) ergue-se em direção ao seu pescoço. Agora sim, parece que entendemos o motivo do choro. Esta por sua vez é ainda mais perturbadora. Na parte iluminada número 1 podemos ver claramente a falta do braço direito, sutilmente disfarçado pelo pano carmim que lhe cobrem os
Fonte: galleryofthesilence.blogspot.com wikipedia.org

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Insaciável
Por Mariane Eggert de Figueiredo

passos e compassos executar para impressionar Ela está lá, interditada... Contemplando aquele pássaro lá longe rodeado por umas passarinhas que desconhe-

Pousados nos galhos um bando de bicos desafia seu cândido olhar de passarinha a procurar o escolhido para as quimeras das primaveras de amar O canário com seu ouro e seu canto encantador A saíra e seu tesouro de cores O uirapuru e o sangue de boi: oi... O sanhaçu todo amores Há o gentil bem-te-vi desde sempre por ali E apaixonado e calado, o colibri A coruíra esperta, flerta Tal a saíra, alerta, chamando sua atenção todos querem seu carinho. Até já lhe fez o ninho o pardal o que em si é já bom sinal... O rouxinol entoando seu canto, leva ao pranto mais de uma E a apiúna para de se plumar só para escutar a melodia que o outro tão orgulhoso cria aos ouvidos dela Mas ela, que faz? Entre toda a passarada tão bem intencionada tão empregada em cantar, emplumar e dançar,

ce... Tão entretido... tão envolvido... Que pássaro é? Que nome tem? O que procura? Por que não vem?

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VOX POPULI, VOX DEI,
CRÔNICAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

Por Mario F. C. de Souza Santos

ESSE TAL DE CARNAVAL
No Brasil o ano de 2013 finalmente começou, isto porque já terminou o carnaval! Por isso é com muita saudade e vontade de revivê -lo que a crônica desta edição da coluna “Vox Populi, vox Dei, crônicas do folclore brasileiro”, traz a você, leitor, o elogio do carnaval brasileiro! A festa mais rica de nosso folclore! Preste sentidos! * Dizem que o carnaval começou na Grécia antiga em forma de bacanal, Dionísio, ou Baco, como queira, o deus de todas as alegrias e de todos os vinhos, gostava tanto da festa que o povo fazia pra ele, que todo agradecido dançava nu com as musas todas. Hoje, não há dúvidas: o carnaval é brasileiro, muito embora o Deus da gente não goste muito dele, ainda assim, é bom dançar

nas ruas com pouca ou nenhuma roupa, muita bebida e as musas todas, jogando confete e cantando a modinha com os olhos virados: “A minha fantasia de diabo Só falta o rabo, só falta o rabo Eu vou botar um anúncio no jornal: Precisa-se de um rabo Pra brincar no carnaval Já comprei lança Carapuça, comprei tudo Até o pé de pato E capa de veludo Mas, que diabo! Puxa, puxa, que diabo! Depois de tudo pronto Eu notei que falta o rabo!”

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Digo que o Deus da gente não gosta muito dele, pois os descendentes do Lutero e do Calvino andaram espelhando que o carnaval é abominação, e que nos dias de suas festas, quatro dias de folia, os religiosos salvos, deveriam abandonar as ruas e se esconder nuns tais de retiros! Ora, me parece mais que esse Deus tem inveja de Dionísio, dançando nas ruas, trançado nos cabelos das musas todas, e da tal morena que a modinha canta: “Ai morena, Seria o meu maior prazer, Passar o carnaval contigo, Beijar a tua boca e depois morrer. Morena nem queira saber, Se um dia isso acontecer, Serás uma rainha, mais rainha do que és, E o Rei Momo beijará teus pés!”

tanto que virou, ao final, festa garantida antes do tempo dos peixes, da páscoa, do bom Jesus no mal. E o folião vai às ruas pedir dinheiro com a La Ursa pra ver se sobra um níquel pros peixes da páscoa comprar, ou será pra mais bebida tomar?: “A La Ursa quer dinheiro, Quem não dá É pirangueiro!” “Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí! Me dá um dinheiro aí! Não vai dar? Não vai dar não? Você vai ver a grande confusão Que eu vou fazer bebendo até cair Me dá me dá me dá, ô! Me dá um dinheiro aí!”

O fato mesmo é que entre carnavalizar, com caboclinhos, La Ursas, Papangus, maracatus, frevos, sambas, reis Momos e todo um séquito de musas belas e seus blocos, nas ladeiras de Olinda, nas Ruas do Recife Antigo, no calor do Galo da Madrugada em sábado de Zé Pereira, ou nos sambódromos do Rio, de São Paulo, de Santos e de tantos outros lugares, enfim, entre tudo isso e ficar se purificando

Foto: http://www.brasilescola.com/ Mesmo o Vaticano não sabia o que fazia com esse tal de carnaval, se deixava, se empancava, até que foi bancar o pudico, proibiu e se deu mal. E o povo todo pediu, clamou

num retiro de santificação em pleno calor do verão, prefiro essa fé burra renegar, por que no fim das quantas, fez não Deus o homem pra ele ficar só e triste, fez mesmo à alegria, e alegria mesmo é o que se tem no carnaval!
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Mas se acaso, seja fato que Deus não queira, rogamos a Alah, do outro lado do mundo, o clamor da modinha, em plena festa: “Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô Mas que calor, ô ô ô ô ô ô Atravessamos o deserto do Saara O sol estava quente Queimou a nossa cara Viemos do Egito E muitas vezes Nós tivemos que rezar Allah! allah! allah, meu bom allah! Mande água pra ioiô Mande água pra iaiá Allah! meu bom allah”

to o ser que todas as manhãs, deita à bacia os excrementos de cada dia. “Allah-lá-ô,ôôôôôô Mas que calor, ô ô ô ô ô ô”!

Foto: http://jornalocotidiano.com

Assim, com o perdão de gregos e romanos, ainda mais com o perdão dos santos puros, o carnaval é brasileiro, e não tem Veneza que consiga a beleza de Olinda! O Brasil é, sim, país do carnaval, e pecado, pecado mesmo, “queiram ou não queiram os juízes”, é deixar de confraternizar, carnavalizar, com o povo todo de um país inteiro, por conta e causa de uma mania besta e tão antiga quanto retrógrada de querer tornar sanwww.varaldobrasil.com 133

Foto: http://caiobraz.com.br/

Foto: www.photorkut.com

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O JACARÉ VOADOR

com uma criatura imóvel no chão, próxima a uma árvore do jardim. Não tinha mais que dez centímetros de comprimento, pele úmida e ru-

Por Raquel Simbalista

gosa, com a carapaça em tom verde-musgo, olhar fixo – em mim, pensei – e desafiador. Oh, não! Era um jacaré! A bem da verdade, um protótipo de jacaré. Um filhote desgarrado, pequeno, mas nem por isso menos ameaçador. Mil perguntas surgiram em meu pensamento. Onde estará a mãe? E se ele se embrenhasse pelo matagal que crescia com a chuva no fundo do quintal? Matagal este que eu estava há semanas mandando meu marido cortar, justamente para evitar a proliferação de animais... Mas mato alto dá jacaré também? Por onde ele veio então? Entrou pelo portão? Subiu o muro? Tocou a campainha e a empregada não percebeu sua entrada? Fiquei muda diante do pequeno réptil. Tive medo até de gritar e espantar o bicho para sei lá aonde. Não encontra-lo era pior que ficar ali em sua companhia. Saí correndo para chamar o homem da casa, o cavaleiro de armadura que poderia dominar aquele quase dragão. - Querido, tem um jacaré no quintal. - Como assim, um jacaré?

Havia uns quinze dias o sol não aparecia e as chuvas torrenciais que caíam sobre a pequena cidade onde eu morava fizeram transbordar o rio que cortava a região. A chuva era tanta, que diariamente víamos o noticiário relatar vários acontecimentos, alguns corriqueiros, como canais transbordando e ilhando moradores em diversos pontos da cidade, e outros inusitados e de veracidade duvidosa, como o aparecimento de um jacaré em um dos córregos do centro. Como assim, um jacaré? De onde ele veio? Nem sabia que tinha jacaré na Bahia...

O limo acumulava-se sobre o piso de cimento do quintal e o cheiro de umidade impregnava toda a casa. Minha labrador então com seis anos de idade e na sua primeira e única gestação ressonava na varanda de lajotas brancas que fazia fronteira com o jardim. Era um dia de sábado e eu e o meu marido aproveitávamos para colocar em dia alguns serviços domésticos pendentes. Eu caminhava pelos fundos do quintal, quando me deparei
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- Bem que eu te falei para aparar a grama... - E por acaso jacaré dá em mato, mulher? - Então ele veio por onde? - Só pode ter vindo pelo rio, sei lá... Onde ele está? (Segue)
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Sorrateiramente meu digníssimo aproximou-se do bicho, que continuava inerte, olhos estáticos, boca entreaberta em um quase sorriso de superioridade. Meu marido então teve uma ideia brilhante para capturar a besta-fera. Pegou o limpador da piscina, daqueles que têm uma redinha na ponta e posicionou-se, pé ante pé, atrás da criatura. Redinha em uma das mãos, vassoura na outra... - Cuidado! Não fique muito perto ou ele pode te morder... - Mô, e se ele correr para o mato? Não o acharemos mais... E se atacar a nossa cachorra grávida? E se crescer e comer os filhotinhos? - Silêncio! Silêncio total. Nem mesmo nossa respiração era audível. Somente os batimentos dos nossos corações, ao mesmo tempo ansiosos e nervosos... Tun, tac, tun, tac... Nos posicionamos estrategicamente para o ataque final, que deveria ser preciso. Qualquer movimento em falso e o monstrinho poderia escapar. Armas em punho - além da redinha e da vassoura, também um ancinho. Luvas de borracha e o capacete da bicicleta. Tinha até um planejamento estratégico de toda a empreitada, com rota de fuga e tudo. - No três! - Um... Dois... Três! Captura perfeita! Digna de um programa da National Geographic. O animal jazia lá na cestinha. Mas... Ainda imóvel e ao mesmo tempo de olhos abertos? Ao nos aproximamos para estudar melhor o nosso prisioneiro, simplesmente não pudemos acreditar em nossos próprios olhos: o jacaré, o perigoso filhote de jacaré, era na verdade um brinquedinho de plástico, provavelmente arremessado por um dos filhos do vizinho. Nos entreolhamos, meu marido furioso por ter-se deixado enganar – e talvez mais furioso ainda por ter ficado com medo do suposto animal – e a mim só restou dizer: - Mas como esses brinquedos estão evoluindo, não é mô?

F I

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PARA IMPRIMIR E COLORIR!

Fontes dos desenhos de jacaré euriscoerabisco.blogspot.com e h!p://galeria.colorir.com/
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Sem amor e sem carinho; Só a saudade vem nos procurar...

A VELHICE NÃO É TRISTE
Essa diferença de amor... É que nos pesa... Que nos tira a vontade de viver... E nos mata... a cada dia de tristeza... Não é a velhice que nos faz sofrer... E sim, a ingratidão... Que nos faz *fenecer... A velhice não é triste... triste... É a indiferença daqueles... A quem amamos... é triste... Isso sim... é triste mesmo...

Por Carmen Di Moraes

Foto: h!p://drpinna.com/

Porque essa tristeza no olhar... Quando a velhice vem nos procurar? - Não é pelo tempo que passou... Nem pela juventude Que também findou... - É pelo abandono... Daqueles que ao chegarem... Receberam tanto amor... Quando nós estamos quase indo... Recebemos só tristezas... sem amor... Ontem... quando pequeninos tão amados... Estávamos lá, para protegê-los... Para que nada lhes faltasse, E ninguém os molestasse... Hoje... somos nós os pequeninos. Tão pouco amados... Sem ter alguém... para nos proteger, Para nada nos faltar... E ninguém nos molestar...
Foto: h!p://www.justrec.com/

Foto: h!p://www.justrec.com/

Agora... que estamos velhinhos... Tão frágeis... e tão sozinhos... Deixam-nos a margem do caminho...
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O pote azul

Por Ly Sabas

O pote azul estava bem ali, na borda da banheira, entre a vela de canela e o cálice de vinho tinto. Laivos vermelhos da chama no azul. Bastaria esticar o braço, retirar a tampa e sentiria o perfume almiscarado. No gesto reviveria a maciez do creme passando de suas mãos para as pernas musculosas que não mais teria entre as suas. Nunca mais ter o corpo enlaçado por elas, a pele arranhada em fricção alucinante. Não mais as usaria de travesseiro em momentos ternos, nem de apoio nos de paixão. Bastaria abrir o pote para mascarar o cheiro de abandono. Não faria isso, nem ficaria eternamente na água gelada, não esperaria o apagar da vela, mas beberia o vinho e brindaria o fim da longa espera.

através da cortina desenha o sol colcha de luz

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Mulheres, vá entender...
Por Júlia Rego Ao longo das nossas vidas nos deparamos com situações bastante inusitadas. Ouvi uma história deveras interessante que me deixou a refletir, mais uma vez sobre o comportamento humano. Contava ele que conhecera uma mulher em uma determinada ocasião. A princípio, nada lhe chamara à atenção, digamos, a ponto de deixá-lo encantado, mas como era homem, não poderia deixar a oportunidade de tirar uma casquinha, afinal, segundo ele, ela era, até, engraçadinha. Além do mais, estava de férias na cidade e precisava de diversão. Trocaram telefones e saíram algumas vezes antes que ele voltasse para sua terra. Passaram-se alguns anos até que ele fizesse novo passeio à cidade. Já nem lembrava mais daquela mulher, nesse meio tempo conheceu várias outras pessoas que lhe interessaram bem mais e, até, travara breves relacionamentos. Quando menos esperava, recebeu uma ligação e não é que era a tal de anos atrás. Ficou surpreso com o fato de ela ainda ter seu número de telefone e, mais ainda, de saber que estava na cidade. Como antes, marcaram um encontro e foram à diversão. Não se sabe como ela encontrou o endereço de onde estava hospedado, o fato é que, depois de passar o dia fora, chegou em casa e se deparou com a moça, de vassoura em punho, fazendo faxina. Entre estupefato e chateado, adentrou a casa, questionando-a, primeiro, por estar ali sem ser convidada e, depois, pelo despropósito de estar limpando a casa de um estranho. A bela se fez de desentendida, ou melhor, entendera ela que estavam namorando e, sendo assim, era perfeitamente normal ir esperá-lo em casa, e dar uma mãozinha no recinto que, para ela, carecia de limpeza, ainda que essa casa não fosse a dele. Embora contrariado, deixou-a ficar mais por educação do que por aquiescência. Vendo que ela não desistia da sua sanha de limpeza,

a essa altura já percebera que havia algum problema de TOC naquela pessoa, convidou-a para ir à praia, tencionava conversar com ela e esclarecer o mal entendido que, claramente, tinha-se instalado entre eles. Lá chegando, ele pediu uma cerveja para quebrar a tensão. Conversa vai, conversa vem, ele tomou coragem e iniciou o assunto, dizendo que ela era uma pessoa interessante, mas que não existia nenhum compromisso estabelecido entre eles. Aparentemente, ela não fica chateada, disse que lamentava, mas continuou tentando acarinhá-lo, com palavras e gestos, sinalizando que ainda tinha esperanças de se entenderem. Como o calor estava grande, ele resolveu dar um mergulho e quando voltou, ela já estava na mesa ao lado conversando, animadamente, com um homem que lhe foi apresentado como um advogado. Ele mal acreditava no que estava vendo e, meio deslocado, disse-lhe que precisava ir embora, pois tinha um compromisso. Ela prontamente o atendeu, não sem antes trocar telefones com o dito doutor. Fez silêncio no caminho de volta para casa, mas, num dado momento, ela começou a exaltar as qualidades do homem que acabara de conhecer, mostrando-se bastante entusiasmada com a nova aquisição. Ele, calado estava, calado ficou, determinado em sua intenção de se ver livre o mais rápido possível daquela louca. Quando, afinal, chegaram, pediu que arrumasse suas roupas, sim, ela havia levado uma sacola de roupas, já que pretendia dormir por ali mesmo. No auge do quase desespero, ele reagiu firmemente, dizendo-lhe que a colocaria num táxi, imediatamente, tentando fazê-la perceber a inconveniência do seu comportamento. Enfim, conseguiu convencê-la de que teria que deixar a casa, já que precisava ir ao hospital visitar um amigo que estava muito doente. Diante da insistência, deixou-a tomar um banho antes de ir, afinal por questões de humanidade não poderia negar água a ninguém, mesmo que fosse para se banhar. (Segue)
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E pôs-se a se arrumar também para sair, mas nada da moça sair do banheiro. Armando-se de indiscrição, bateu forte na porta do banheiro e para sua surpresa, ela abriu a porta, nua, de balde, vassoura e material de limpeza em punho. Estava lavando o banheiro.

Procuro o adulto
Por Helena Akiko Kuno Procuro o adulto Que é alegre Que vê o lado bom das coisas Que põe vida no que é morto, dando alegria Que as flores, faz reviver As plantas também Que sabe cuidar Não só dos seres vivos Como também dos seres não vivos Que sabe a história de todos Levando alegria para crianças e adolescente Que a fantasia de criança ainda é grande Aquele que não quer crescer.

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Por Sheila Ferreira Kuno
A Documentadora Maluca

Quando conheci Sirlene, tive a impressão que ela era uma pessoa simpática, do tipo que agita a empresa onde trabalha, promovendo eventos. Ela sempre se mostrava alegre e disposta a ajudar, mas tinha um problema: ela enlouquecia se recebesse alguma critica. Com este comportamento, ela passou a colecionar várias inimizades dentro da empresa e a maioria das pessoas a evitava. Sirlene costumava se atrasar todos os dias e muitas vezes, atrapalhava o andamento do projeto, quando necessitávamos de sua presença. Um dia, no horário do almoço, eu e meu amigo Antenor, comentamos com ela este fato e, imediatamente, ela enlouqueceu, ficou super vermelha e começou a gritar, foi o maior vexame no restaurante. A partir daquele dia, não almoçamos mais com a Sirlene e passamos a evitá-la, mesmo assim, ainda passei por uma situação complicada com ela: uma vez, quando eu entrei na sala onde ela trabalhava, presenciei uma briga feia entre ela e uma garota. Para não continuar a briga, a garota se retirou da sala, deixando-a mais nervosa, ela então começou a pular e gritar: “- Eu não aguento mais, todo mundo briga comigo.” Um detalhe importante, é que ela estava com uma goiaba madura na mão. Eu me aproximei para tentar acamá-la, quando ela começou a pular mais alto e arremessou a goiaba em minha direção, quase me acertando. Aprendi uma lição: nunca mais me aproximo de pessoas em crise.
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Clara e Bela
Por Sandra Nascimento A manhã inventava desejos E impetuosa ela se pôs a dançar Feito Ginger Rogers Com seus vestidos esvoaçantes De noites de estreias Bailava na Terra Bailava no Céu! Sentia-se vaidosa Parte do Cosmo Seguia a intuição E seu amor fazia-se interplanetário Cismando sonhos que a levavam Pelas galáxias sem limites... Mas o tempo passava e ela não percebia Bailarina em criação ainda não via Que seus trajes já eram rasgados Pelos cristais das estrelas Que agora já iluminavam a sua nudez Ou o pulsante coração que amava Ora a vida, a alegria Ora a morte, a solidão Sim, ela amava e porque amava O Universo se alinhava para torná-la clara e bela Enquanto sonorizava notas Que mansamente despertavam Um pouco de lucidez E outra vez a manhã

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MEU MESTRE, MEU AMIGO, MEU ‘SAMBÊRO
Por Lu Toledo

a fio ao lado dele lá na unidade de atendimento emergencial, a despeito de isso ser proibido em uma situação de internação tipo que aguarda vaga nos centros de terapia intensiva. Quando a descobriram lá, já haviam se passado mais de 30 horas. Ela precisava dormir. Se recompor. No caminho de sua casa, tínhamos conversado sobre como seria quando o Jonas saísse do hospital... Pensei na bronca que daria nele. Eu sempre fazia isso. Sempre puxava a sua orelha quando sabia que ele estava se excedendo, quando ficava sabendo que não estava se cuidando direito. Ela me contou que eles haviam brigado há meses e fizeram as pazes na noite de Natal, quando ela o procurou. A Flávia dizia que não daria pra ele continuar morando lá naquele beco da favela da Serra... Foram horas para a ambulância conseguir ter acesso a sua casa o que fez demorar muito para que o levassem ao hospital. Horas essas, que depois fiquei sabendo, seriam cruciais para que ele tivesse maiores chances de vida. No dia seguinte, naquela manhã, quando tudo parecia melhorar, aquela voz insistindo, me assustando, me angustiando... Intuição? Não sei. Nunca soube. Só sei que me levantei correndo da cama e fui buscar o “Sambêro”, o CD do Mestre Jonas... Queria ouvir a sua voz, só para abafar aquela outra que insistia em dizer que ele havia morrido. Queria sentir que ele ainda estava aqui por perto. Peguei o estojo com seu rosto lindamente pintado pela Loló. Aquele rosto gordinho e pretinho, que sempre tinha um sorriso bondoso para nos receber. Mas ao abrilo me deparo com o vazio... Um terrível sentimento de perda irreparável foi me tomando... Senti pânico, dor... “Meu Deus, perdi o Jonas”! O que eu mais temia enfrentar havia se confirmado??? Ainda era a voz, a intuição... O fato é que não encontrava aquela bolachinha que ouviria e me aliviaria o mal estar... Fiquei umas duas horas procurando o disco em outros estojos... Não encontrei... Não encontrei a sua mão gordinha e pretinha, também arte da Loló, no branco daquela esfera... Meu Deus, ele não podia ir embora assim... Logo agora... Logo agora que a gente tinha se reaproximado, depois de um tempão. Coisas da vida. Ele lá, inquieto, buscando novas parcerias, novos amigos, gravando CD, indo cantar lá fora, pensando em casar, brigando com a Flávia, depois voltando... Nós aqui, eu indo pra Cuba fazer mestrado, ficando anos sem escrever uma linha poética, só escrita acadêmica. Depois tentando voltar para música, gravando CD...
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Naquele 30 de dezembro de 2011, acordei sobressaltada lá pelas seis da manhã, com uma voz, que insistia na minha cabeça: “O Jonas morreu... O Jonas morreu... O Jonas...” “Não!!!!??” Respondia também insistentemente a ela, o meu coração... – “Ele está bem... está melhorando... você está se esquecendo das notícias de ontem? Ele vai se salvar...” Eu insistia comigo mesma. É que no dia anterior havíamos ido ao pronto socorro onde nosso amigo, o músico, compositor e poeta Mestre Jonas estava internado, depois de ter sofrido um AVC uns dois dias antes. Queríamos saber de seu estado... Queríamos nos consolar junto com os tantos outros que ali foram... Queríamos estar mais perto dele. Estávamos muito aflitos. Ficamos esperando ansiosos e com um aperto forte no peito, as notícias da Flávia, sua companheira, depois de ouvir os detalhes da médica que o acompanhava na UTI. Flávia desceu animada com as notícias... Ele havia apresentado melhoras em seu quadro... Ainda inspirava cuidados. Havíamos que esperar um pouco mais para saber qual seria o alcance e as sequelas daquela hemorragia... Mas, para todos naquele momento, ele sobreviveria... Era nisso que acreditávamos com todas as forças. Conversamos mais animados com os amigos que também estavam lá à espera de notícias... Conversamos com a sua família, seus irmãos, sua mãezinha que não teve coragem de ir lá ver o filho naquele estado, com esperança de abraça-lo aliviada após aquele pesadelo... Essa esperança todos sentiam naquele momento. Ofereci para levar a Flávia em casa. Ela precisava descansar um pouco. Tinha ficado horas

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Estávamos também um pouco ressentidos com seu afastamento. Sentíamos-nos um pouco abandonados. Demoramos anos pra entender que o Jonas era de todo mundo. Ele era disperso, desorganizado... Volúvel... Quando compreendemos isso, o deixamos livre, para voltar quando quisesse. Lembrava sempre do autor Rubem Alves, que diz que amar é ter um pássaro pousado no dedo... A qualquer momento ele pode voar. A amizade e o amor só se concretizam na liberdade. É na liberdade que permanecemos encantados para quem amamos. E era só ele ligar, era só ouvir aquela vozinha meiga e meio gaguejante, dizendo estar com saudade da gente, que tudo se dissipava. Foi assim quando o reencontramos por acaso no Parque Municipal, no “Conexão Vivo” de Música. Fiquei tão feliz quando o vi com a Flávia. Finalmente uma mulher que o amava do jeito que ele era: negro, gordinho, pobre, morador de favela. Uma mulher que acreditou piamente nele e no seu potencial. Que largou tudo para trabalhar apenas em sua produção, auxiliando-o e organizando seus shows, sua agenda, seus cachês... Dando a ele o carinho feminino que ele merecia e tanto buscava. Lembro muito das conversas que tínhamos sobre isso há anos atrás. Aquela manhã de domingo foi tão gostosa. Conversamos tanto. Matamos um pouco a saudade. E ele dizendo do quanto gostava da gente, do quanto sentia a nossa falta. Marcamos um jantar em nossa casa. Era costume meu, que morava sozinha quando os conheci – o Jamil, o Tadeu e o Jonas – e fazia muitos encontros em meu apartamento. Fazia umas comidinhas gostosas que eles adoravam... Vinham sempre outros amigos mais antigos e alguns mais novos. Compartilhávamos músicas, poesias, sonhos. E naquele dia era como se não tivesse passado tempo algum. Era como se fosse sempre. Lembro-me que foi naquele dia que ele, com aquelas mãos gordinhas e pretas nos presentou com seu primeiro CD – o “Sambêro” - que estava no stand do Edu Pampani. Quando vi aquele encarte, aquela arte, as fotos com as texturas de paredes antigas, do reboco, logo nos lembrando de onde o Mestre Jonas veio. Percebi que tinha encontrado o que estava procurando para o meu próprio CD. Aquela coisa delicada, linda, tão sensivelmente pensada pelas mãos da artista Loló e do Julio, da “Jiló Design”. O Jonas me deu o telefone deles na hora.

Em casa, no dia seguinte, ouvi sem parar as canções do CD... Algumas delas, ouvi muitas vezes. A que leva o nome do Cd “Sambêro”, ouvi umas cem vezes. Adorei tudo. Os cantores convidados, a voz poderosa do Sergio Pererê junto com ele na propria “Sambêro”... Desde sempre gostei, amei as letras rebuscadíssimas do Mestre Jonas. E os arranjos?! O João Antunes, tão jovem tinha arrebentado! Enviei um email falando disso tudo para ele... Depois vi que um email era pouco. Liguei: “Jonas, seu CD está liiindooo!” Foi uma das melhores coisas que ouvi nos últimos tempos aqui em BH! E ele tão modesto: - “que bom que você gostou, Lu!... você sabe que é importante pra mim a sua opinião, sei o quanto é exigente”... Eu, exigente? Ele é que tinha sido meu Mestre!? Ele é quem tinha me feito despertar minha sensibilidade musical, que me estimulou a desenvolvê-la... E falamos de varias das canções, da interpretação dos cantores convidados, da própria voz dele que tinha dado um toque tão original, tão bacana... Dos arranjos, do instrumental luxuoso do Rafael Martini e dos outros músicos...

O Jonas estava alçando voos... Altos. E ele merecia muito. Merecia muito ser reconhecido, merecia muito mudar de vida... Ele sempre me falava que não se considerava um compositor de samba... E eu também achava isso... As canções dele têm elementos do samba, mas não se limitam só a eles. Por isso “Sambêro”. Eu não sou crítica de música para saber dizer tecnicamente o que acho das canções do Mestre Jonas. Só as sinto. Lembrei-me de “Caçadores de Tesouro e a ira do mar”. Essa não está no Sambêro. Ela foi parar em Risco, o meu CD. Quando preparava a canção com a Regina, minha professora de canto e amiga, ela me chamou a atenção para a letra: “lírios, cansados dos campos”... – “como pode, Lu, os lírios ficarem cansados dos campos”!?
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As letras do Mestre Jonas, são sempre muito fortes, falam de suas angústias, de sua inquietação, da busca constante de si mesmo, falam da fé, do sincretismo religioso, o afrobrasileirismo, da vida no morro... “sabe como é, nos olhos só lamentação”... Esse “Cotidiano” está lá em Sambêro. E foi parar no meu ‘Risco’ também. Depois dessa nossa conversa, acertamos o nosso encontro, o nosso reencontro, como nos velhos e bons tempos, no meu apartamento. Falei que só acreditaria que ele viria, quando o visse ali na minha frente... Ele já havia nos dado tantos bolos... Mas ele foi... Com a Flávia. O velho amigo Tadeu, seu parceiro também apareceu. Foi como nos velhos e bons tempos. Fiz massas, tomamos vinho, conversamos, ouvimos juntos o “Sambêro”. Falamos de tanta coisa... Depois eu mostrei a ele o meu CD, que ainda estava em estado bruto, ainda não havia sido masterizado... Mas queria também a opinião dele. Era muito importante para mim, saber o que ele achava. Sempre foi. Desde a primeira canção que fiz... Só tinha coragem de mostrar para ele. Ele sabia fazer as críticas, mas com muito carinho, muita meiguice, muito cuidado.

Naquele dia 30 de dezembro de 2011, era isso que eu buscava, quando me levantei, para lutar contra aquela voz... E não encontrei o seu CD, a sua cantoria. Só o estojo vazio de Sambêro... A confirmação da perda do meu amigo veio umas duas horas depois, quando eu ainda estava procurando alucinadamente a bolachinha: era a voz do Tadeu no telefone, chorando: “Lu... o Jonas morreu...” Ele havia voltado de sua viagem na praia no mesmo dia em que liguei para ele, dando a triste notícia de que nosso amigo agonizava no hospital. Tínhamos combinado que ele ligaria, assim que chegasse para irmos juntos lá saber notícias. Ficar mais perto dele. Nunca pensei que fosse doer tanto assim a perda de um amigo que foi embora tão precocemente... Aliás, nunca chorei tanto... Chorei horas... Desabei. O Jamil não conseguiu me abraçar... Ele também estava sofrendo. Fiquei muitas horas ali, completamente desamparada. Completamente sem chão. Doía tudo, doía a minha alma. Chorei em silêncio por um ano. Quando contei a história do Cd para o Tadeu e a Carla, ele me consolou, levando outro CD para mim lá no velório. Ele levou também a cachaça para consolar o pranto tão doído de ver, do nosso outro amigo músico ‘Nego Veio’, amigão nosso e do Mestre Jonas, que estava inconsolável. Todos nós estávamos. Nunca vou me esquecer de agradecer ao Tadeu pelo consolo. E nunca vou deixar de agradecer ao Nêgo, que esqueceu a sua própria dor por um momento, o mais difícil momento, quando me faltou chão ao me deparar com a triste imagem do Jonas... Foi ele quem me amparou... Sinto seu abraço até hoje, o seu conforto amigo. Foi uma madrugada e um dia 31 de dezembro muito chuvoso, muito choroso... E o ano que se seguiu àquele dia foi todo assim... Com muitas perdas, muitos lutos, muito choro, doía tudo – corpo e alma. O meu CD saiu logo depois do Carnaval de 2012, mas não consegui me alegrar com o feito. Sentia-me culpada... Não me sentia no direito, se o Jonas, que era muito mais talentoso e merecia muito mais que eu, não estava ali, nem mesmo para compartilhar comigo aquele sonho realizado. E sempre voltava para aquele estojo de Sambêro vazio... Era tudo silencio e vazio. Não me sentia mais capaz de fazer música, nem de pegar no meu violão. (Segue)
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Ele não chegou a ver, nem a ouvir meu CD pronto. Esse foi meu maior pesar. Mas deu tempo de poder agradecer isto a ele... Deu tempo de falar do quanto nos sentíamos orgulhosos e felizes de saber que ele estava alçando voos cada vez mais altos... Deu tempo de dizer o quanto estávamos felizes com esse reencontro. Deu tempo de abraça-lo e sentir aquele corpo gordinho e macio de amigo querido... De apertar aquela mãozinha pretinha e macia... De saber que ele estava amando e sendo amado...

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Tinha me escondido o ano inteiro na escrita acadêmica, tinha me esquecido da poesia, não conseguia ouvir música... Não me permitia. Bom, mas aos poucos, temos que ressurgir das cinzas, superar as perdas, ajuntar os caquinhos... Faz parte da vida, essas coisas que sempre nos dizemos para tentar nos consolar... Lembrei-me da canção do Renato Russo: “já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim”... E foi assim... Aos poucos senti que aquele ciclo estava se encerrando, fui tomando coragem de fazer as primeiras incursões para apresentar a minha música, pelo menos aos meus amigos... Fui querendo me reanimar, lutando contra toda aquela dor que me corroia por dentro. Fui tentando enterrar meus lutos... O fato é que passado pouco mais de um ano, exatamente no dia 09 de fevereiro de 2013, depois da noite anterior passada com nosso amigo Tadeu, por ocasião de seu aniversário... Noite na qual, para variar, falamos do Jonas quase todo o tempo... Das nossas histórias vividas com ele... Resolvi procurar novamente a bolachinha perdida entre os estojos dos meus CDs. Tirei todos da estante para começar a busca e, de repente, por acaso estava com o CD do Luiz Melodia na mão. Lembrei-me na hora: abri o estojo. Lá estava a mão pretinha do Jonas. Tínhamos ouvido o Melodia também, naquela noite, tempos atrás, no nosso reencontro... Chorei muito... Mas agora era um choro diferente. Tinha reencontrado o Jonas, meu tão jovem Mestre, meu amigo querido. Ele ressurgia para me mostrar que eu estava pronta, que estava reencontrandome nas suas e minhas melodias. Nas maravilhosas canções cubanas de meu Silvio Rodriguez, também tanto tempo esquecido... Estava agora me reencontrando nas histórias de canções do meu mais novo e querido amigo (essa é uma outra história). Estava sentindo já que um novo ciclo se iniciava. Sentia-me mais leve. Peguei o estojo de Sambêro, senti novamente as mãos pretinhas e gordinhas do Mestre Jonas me entregando aquela bolachinha para guardar naquele belo estojo com seu rosto pintado lindamente por Loló, o seu lugar. Mas antes a ouvi sem parar. Era uma manhã ensolarada e alegre de carnaval...

Final de semana em que o samba de Minas reencontrou com o samba da Bahia. Noite especial da música brasileira. Mariene de Castro e seu caminho defini#vo no hall das grandes cantoras do nosso cancioneiro. Força, suingue e ancestralidade. Essa moça tem fundamento... Texto e foto acima : h!p://mestrejonasmestre.blogspot.com

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VIDA
Por Anna Ribeiro Vida no avesso... As quantas a vida vai?! Enquanto a vida não se apagar Vivo o resto que me engana a ilusão! Em linhas e entrelinhas Vou escondendo minha solidão! Em noites de inverno No descer da neblina... Coração dorme na orbita da saudade.

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FALANDO DE CULTURA
Marluce Alves Ferreira Portugaels
É uma imensa felicidade assinar uma coluna numa revista tão prestigiosa quanto a Varal do Brasil, sobretudo quando se deseja divulgar as várias faces culturais de um povo criativo e festeiro como o brasileiro. Tudo começou com um convite lançado pela Jacqueline Aisenman, nossa querida Editora-Chefe, ao qual atendemos com alegria, pensando na maravilhosa oportunidade de espalhar pelos varais do mundo aquilo que o Brasil tem. Caberia, então, além de abordar cultura de um modo geral, mostrar as várias tendências artístico-culturais desse país fascinante que está sempre buscando superar-se em muitos domínios. Neste primeiro contato, escolhemos explicar aos leitores como funcionará a coluna, com que frequência aparecerá, e o que os leitores poderão esperar de seu conteúdo. ”Falando de Cultura” aparecerá mensalmente, tratando de cultura em geral, e mostrando os aspectos pitorescos dessa diversidade cultural tão própria do Brasil, seja no domínio do folclore como em qualquer outra forma artísticocultural-literária, mas abrangendo sempre as diferentes regiões que formam esse grande país. Como língua e cultura estão intimamente relacionadas, buscar-se-á mostrar essa ligação de modo que o leitor possa fazer uma leitura divertida e até certo ponto realista desse Brasil que faz sonhar aqueles que ainda não tiveram a chance de visitá-lo e conhecê-lo. É com esses leitores sonhadores, assim como com os demais que gostaríamos de compartilhar esta coluna. Antes, porém, gostaríamos de fazer uma pequena incursão nos termos cultura e folclore, uma vez que eles estarão muito presentes nesta coluna.

A primeira definição de cultura foi-nos dada pelo antropólogo britânico, Edward Tylor (1871), segundo o qual cultura é todo comportamento aprendido pelo ser humano como membro de um grupo social, independente de caracteres inatos, e que inclui conhecimentos, crenças, códigos morais e leis, hábitos e costumes, e outras manifestações sociais. A criança desde o nascimento aprende sobre a cultura do grupo social em que vive, incorporando os valores próprios daquela comunidade. Mais recentemente, o linguista J. R. Schmitz (1995), da Unicamp, se refere à cultura como o modo de vida de determinado grupo, sociedade ou nação, com ênfase no padrão de comportamento de uma comunidade linguística, assim como na maneira como as pessoas se cumprimentam, se vestem, se alimentam, em que valores elas acreditam, como elas pensam e falam.
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Cultura, continua Schmitz, são os blocos de cimento que mantêm coeso um grupo social. Assim, as manifestações socioculturais de um grupamento humano são praticamente o que mantém aquele grupo unido, sendo a língua um elemento cultural determinante, uma vez que língua e cultura estão intimamente relacionadas. O folclore, por sua vez, estuda as manifestações coletivas da cultura popular, conservadas pela tradição, abrangendo o estudo dos usos, costumes, superstições, crendices, adivinhações, provérbios, contos, lendas, fábulas, canções, tradições, festas populares transmitidos por imitação e via oral de geração em geração. Pode-se dizer que todo povo tem o seu folclore, o qual está ligado a sua tradição. No Brasil, temos um folclore muito rico, cujas manifestações foram imortalizadas na obra gigantesca do grande folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).

Câmara Cascudo

Concluímos esta coluna inaugural com uma citação de João Ribeiro (1860-1934), mestre da língua, da história e do folclore: “O folclore é, pois, uma pesquisa de psicologia dos povos, das suas ideias e seus sentimentos comuns, do seu inconsciente, feito e refeito secularmente, e que constitui a fonte viva donde saem os gênios e as individualidades de escol.” E acrescentamos que o folclore com sua riqueza fornece matéria prima para outras manifestações artísticas, dentre elas a literatura que nos alimenta a alma.

A colunista nasceu em Eirunepé, Rio Juruá, e viveu parte de sua infância no Seringal BomJardim, onde aprendeu a ler e a contar as histórias que ouvia dos mais velhos nos serões para a debulhada do milho. Licenciou-se em Filosofia e Letras pela Univ. Federal do Amazonas onde se tornou professora de língua e literatura inglesa. Fez Mestrado e outros cursos de pósgraduações nos EUA e na Europa. Atualmente, apresenta seminários sobre ensinoaprendizagem de línguas, e escreve contos, poemas, crônicas, ensaios, etc. para publicação em jornais, revistas e antologias, tendo recebido alguns prêmios. É colaboradora do Jornal do Comércio do Amazonas.
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A esquina da Ave-Maria
Por Marcelo Martins de Martins

Exatamente porque o objetivo parecia tão próximo, estávamos sempre muito desconfiados. A coisa toda tinha ares de jogo e o vento trazia propostas sussurrantes tão malévolas quanto benevolentes. Ninguém se decidia. Porém não demorou até que o primeiro – tomado de credulidade e esperança – se atirasse em correria louca rumo àquilo que seria o quê? A liberdade? Não. Sem tempo foi aniquilado. Nos separamos. Meia-volta para a solidão. Outra vez as ondas de desvarios sóbrios, outra vez as insuportáveis fantasmagorias do impossível. Abriu-se então uma janela curiosa, mas não havia nem céu azul nem sol nem arco-íris. Era um passeio extravagante por corredores baixos e estreitos, as veias pulsantes de um circo de maravilhas. As mais vulgares maravilhas. O desfile de todas as coisas tediosas e corriqueiras: palhaços embriagados que nunca acertam seu número, bolas de cristal de futuros encardidos e panos puídos para encobrir o passado. Malabaristas descuidados derrubando e deixando se espatifar inocentes espíritos embrionários sobre o tapete vermelho. Mais tarde, quando a noite se puser a correr pelo vasto campo onde ardem as fogueiras espalhadas, as crianças perdidas, e as adivinhações frementes de perigo mostrarem que já a morte não é apenas certa, é imediata, e ainda se o fim for essa tristeza, essa multidão de acenos antigos e o medo como um vício, de novo irei até ti. E te pedirei outra vez que me aqueça e me proteja dessa exatidão congelante. E agarrarei a generosidade infalível de tuas mãos elegantes, para que me carregues pelo tempo que resta. Ainda que nada reste. Porque tu és a lua, as calçadas, o destino.

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Viver direitos em poetrix
Por Onã Silva Qual é o seu direito? Selecione: privacidade, sigilo, defesa, proteção, segurança, alimentação, exames, reprodução, concepção, amamentação.

Eu...........gente Você..........tribo Nós..........galera Todos......povo ATENÇÃO! O L H A Direito! O seu direito de ter direitos. Viver Direito Olhe bem, direito Você tem: direitos Todos os direitos Carregando... FUNDAMENTAL SOCIAL CONSUMIDOR E TRABALHISTA REPRODUTIVO HUMANO OUTROS Direitos? Clique aqui: Saúde, lazer, cultura, moradia, emprego, renda, respeito, vida, saneamento.
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T O D O S Têm direitos: Gente grande e pequena Individual e coletivo.

Eu, você, nós Únicos e singulares Diferentes Mas, = iguais = Quando é questão de direito. Viver direitos: é direito humano! Viver Direitos Que desafio! Há iniquidades mil Pergunta: Há equidade no Brasil?

A V E S S O DO DIREITO: - Homofobia - Intolerância - Preconceito -Discriminação. NÃO! (segue)

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MAS, Tod@s em comunhão Pró-direito integral Também às coisas do coração: Beijo, abraço, Felicidade, Afeto, FÈ, É Assim, é direito. Viver direitos Luta diária Então: eu, você, nós, grupos, tribos, comunidade, sociedade Rede humana Vamos exercer a Ci Da Da Nia. CO PY RIGHT Todos os direitos reservados a você: Viva seus direitos!

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Surdos de alma
Por Renata Iacovino

Estamos surdos. Ando relutando para aceitar essa tola constatação. Mais um atributo advindo destes estrangeiros tempos atuais. Tudo hoje é fabricado para poupar nosso tempo, para que precisemos utilizar minimamente nossas mãos, nossas pernas e infeliz e consequentemente, nossas mentes. Andamos emburrecendo por conta da tecnologia. Parece papo de quem está envelhecendo, mas é algo menos simplista do que isto. Por que “simplificar” também é uma característica desta era. A simplificação é tanta, tanta, que nos reduzimos, por vezes, a seres ininteligíveis, que agem por automação, ou por pura lógica, sem aventar qualquer possibilidade crítica. A crítica – a que nos faz refletir e nos abrir para um mundo diverso, e não a que nos acomete de arrogância, fazendo-nos pensar que somos donos da verdade – é a mãe do pensar e da maturidade intelectual. Mas a crítica se dá se nos relacionamos com o mundo, se participamos de situações que nos proporcionam experiências diversas, se atuamos em debates presenciais... Se nossa relação for com máquinas, tudo indica que nos tornaremos, igualmente, máquinas. E a surdez tem a ver com isso. A relação com as máquinas e toda comodidade que ela nos oferece, nos afasta de quem não é máquina. E vamos nos voltando cada vez mais para nós mesmos; não queremos a companhia do outro... Vamos ficando surdos diante de outrem e daquilo que ele tem a nos expor. Conversas são, boa parte, à distância. Esta modalidade prática nos faz abreviar, cortar, eliminar... E quando o encontro é presencial, tendemos a fazer o mesmo. Isso quando não preferimos continuar com os olhos pregados em alguma máquina enquanto o outro tenta inutilmente um mínimo de nossa atenção. Nosso ouvido, a princípio, se torna seletivo, escutando apenas aquilo que nos interessa por alguma razão mesquinha. Num segundo momento, apanhamos a informação que nos é útil, dita por quem monologa conosco, e o interrompemos, utilizando a informação para enaltecer nossos dotes ou vender nosso peixe (seja ele qual for). Assim, torna-se reduzida a chance de, por um breve momento, concluirmos alguma história, algum raciocínio... E o que prevalece é sempre o mínimo eu – ansioso! – buscando abafar uma tentativa de diálogo. A necessidade de sobressair-se se sobrepõe a um mísero espírito de amizade, palavra esta em extinção.

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Além da imaginação
Por Josselene Marques

Era uma tarde de sexta-feira. Início da primavera. Helena, uma dinâmica mulher, acabara de chegar a sua casa, após cumprir uma cansativa agenda. Estava muito fatigada. Realmente, o dia não fora fácil. Tomou uma ducha, alimentou-se e resolveu repousar o corpo. Pretendia apenas dormitar, pois ainda tinha outras tarefas a realizar. Em poucos minutos, sem se dar conta, caiu em sono profundo e um estranho sonho passou a povoar sua mente. Encontrava-se em um quarto enorme, na companhia de pessoas desconhecidas deitadas em espaçosas camas. Tinha o aspecto de uma enfermaria na qual homens e mulheres pareciam recuperar-se. Embora não interagisse com eles – apenas os observava com atenção – sentiu-se acolhida. Eles conversavam entre si e pareciam felizes. De repente, sua atenção foi desviada para uma espécie de chamada telefônica – ela não usava nenhum aparelho, mas ouvia, perfeitamente, uma voz bastante conhecida. Do outro lado da “linha” estava uma de suas primas, por quem ela sempre teve especial apreço. O motivo da “ligação” era inteirar a sua quase irmã de que a mesma – Helena – havia sofrido um acidente fatal no qual tivera parte de seu rosto deformado – inclusive, perdera a orelha direita, justamente a do ouvido que estava sendo utilizado para receber a mensagem. A princípio, Helena achou que tudo não passara de uma brincadeira de mau gosto da prima, apesar de este proceder não ser de seu feitio. Sentia-se bem, inteira e sem dor alguma. Esta informação não podia ser verdadeira. Certamente, fora um engano, um trote ou algo parecido. Em seguida, a comunicação foi interrompida e Helena repetiu a “notícia” para os seus companheiros de quarto. Comentou sobre o absurdo do que lhe fora transmitido. Para seu espanto, nenhum deles fez comentário algum. Limitaram-se a olhá-la inexpressivamente. Sem encontrar apoio, levantou-se e abriu a porta do quarto. Ao erguer a vista, teve uma visão que a fez gelar e sentir uma emoção indescritível. À sua frente, sentada em uma cadeira de balanço, sorrindo para ela, estava a sua amada avó, falecida há 29 anos. Diante dessa evidência, Helena não teve outra alternativa senão aceitar “a realidade”. Infelizmente, não deu tempo de conversar com sua avó, pois sua mãe, intrigada com o seu demorado descanso, a despertou.

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Amor: Presença e Solidão
Por Jô Mendonça Alcoforado

mento de amor fica como cicatrizes que muitas vezes nos impede de senti-lo em toda a sua intensidade e plenitude. Amor também é doação, é relegar os sentimentos e deixar ele apenas existir. O amor não é perfeito, é imperfeito.

Ele vem cheio de manobras que devemos pasO amor é presença porque ele está em sear e entender o que está acontecendo. Ele todos os lugares, coisas, pessoas. Está no nos prega peças, nos faz acreditar em mentinosso olhar, no altar do mundo, acima de tudo, ras, cheio de jogos, estratégias, posturas, perna forma de enxergar a vida. Na natureza, na formances, muitas vezes até teatral com muitas beleza do beija-flor beijando a flor, no pingo de representações, aí ele se torna traiçoeiro. Peruma gota d'água cristalina, na lágrima quando de sua pureza, deixa de ser genuíno. Amamos com sinceridade, se diz, eu te amo. Num sorri- quem não merece ser amado, somos amados so jogando beijos ao vento, na alegria quando por quem não queremos partilhar nosso amor e se vê a pessoa amada, no frescor e na carícia companhia, damos o nosso amor e muitas vedo vento quando pousa em corpos saciados de zes não recebemos de volta para nos alimentar amor amor, desse sentimento tão complexo. Ao mesmo na prece quando rezamos, no nosso DEUS, na tempo em que trás satisfação, gozo, encantatroca de olhares e na nossa vida gerando mui- mento, também trás insatisfação. tas outras coisas. O amor é polivalente, é união, é separação, nos faz feliz, cura, embevece, maltrata e está enraizado com muitos outros sentimentos. Amor é solidão quando não extravasamos esse amor, é platônico, sente-se sozinho, não há exposição desse amor e um retorno do amor sentido. O amor mata? Mata sim! Tem gente que morre por amor, ou por falta de amor, ou mata por amor, ou vive por amor. Amor é também desespero quando se sente rejeitado. É raiva, é solidão. Porque o amor está exposto ao egoísmo, ao querer de exclusividade, o amor traz a fome do querer, do ver, do sentir, do ouvir, do estar perto, da presença, ele quer reinar sozinho, mais vem causando há séculos, tantos sentimentos e pensamentos que vive correndo sempre o perigo de definhar, acabar, ter um ponto final feliz e muitas vezes trágico sem querermos. O amor também é dúvida, sofriO amor está rodeado de atitudes, comportamentos, que tanto pode fazê-lo crescer, como definhar e acabar. E aí, o amor fica perdido no tempo, no espaço, nas histórias, nas novelas, nos filmes, em fotografias que envelhecem com o tempo e se renovam através dos tempos no teatro da vida. O amor é velho, antigo e tem milhões de anos e ainda não se tem uma explicação para esse sentimento tão grande!
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acabando

de

fazer

Pintura em tela de Jô Mendonça Alcoforado

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Nasce, cresce, reproduz, morre e se renova a cada dia. Amor é lembrança. É um circulo vicioso que nunca acabará. Sabemos apenas que se chama AMOR. Amor é o início, é o meio e é o fim. Quando morre, tentamos substituir por outro e canalizar para outras coisas, pessoas, passamos a amar de diversas formas. E tudo aquilo que brotou puro na fonte dos sentimentos e desejos se esvai, ficando a angustia ou recordação do que poderia ser feito para que ele não fosse embora. Momentos vividos de pura felicidade ou infelicidade. Amor é OPOSTO! São os sentimentos opostos se encontrado, se vendo, se conhecendo, se esbarrando, querendo fazer o amor ser amor. Ele é tão forte e querido que viveremos na busca e atrás dessa sensação tão prazerosa para que impere a felicidade tão sonhada. Felicidade para viver melhor! Seja para namorar, casar, construir uma família, ter filhos ou simplesmente ter a sua companhia constante. Porque viver com AMOR é ser amoroso sempre! Precisamos do oposto. O amor é solidão, pois, precisamos dele para realizações, como acalanto, nas horas de alegrias e de tristezas, porque o amor nesse momento tem uma importância fundamental para o equilíbrio emocional, pessoal, profissional, mental e espiritual. Precisamos dele hoje, amanhã e sempre! O amor rege a vida. Mas, na minha visão o seu reinado é plenamente dos OPOSTOS. Enxugue todas essas lágrimas Se há roubos, também existem dádivas Seus motivos são mais do que cem Mas problemas quem é que não tem? Texto escrito em João Pessoa, 28 de agosto de 2011. Não chore, não chore, amor Não chore, te peço um favor Há problemas maiores que os teus Todos eles menores que Deus
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PRA NÃO CHORAR
Por Deivison Barreto Procure enxergar de uma forma diferente Os problemas que te cercam e te fazem descontente Se eles existem, não há somente um motivo Se eles têm um lado mau, podem ter um positivo Há males na vida, que vêm para o bem Pode ser que os seus problemas sejam assim também Não chore, não chore, amor Não chore, te peço um favor Se acha enorme a tua dor Saiba que ela não é a maior que existe

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PALCO DA VIDA
Por Valentina Logo à noite quando abrirem-se as cortinas vermelhas serei mais um palhaço no palco enganoso da vida! Esconderei a lágrima no bolso furado do velho paletó ensurdecerei o mundo louco com a minha falsa gargalhada. Logo à noite, sim, logo à noite, escondido nas cores da máscara esquecerei a partida eterna da minha amada e fingirei para alegrar a plateia sedenta de risos e diversão! Mais tarde, pela madrugada, ao chegar à casa solitária encontrarei a alcova vazia e a cama fria e nem olhos dela estarão fitos na porta a me esperar... Mergulharei um punhado de dor no cálice do tinto que me entorpece até que o sono me domine, na certeza de que comigo ela estará nos meus sonhos e delírios...

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Não deixe a solidão destruir seus sonhos
Por Bertolina Maffei Como é grande o universo, o infinito não tem fim, nós somos grãozinhos de areia em meio a imensidão do oceano, somos tão pequenos que na areia da praia, sentimos o quanto Deus é bom, Ele criou todas as belezas para nós, olha a grandeza do mar, como é lindo o vai e vem das ondas do mar molhando nossos pés. Viemos a este mundo sem nada e partimos sem nada, o que temos é emprestado, não somos dono de nada, tudo pertence a Deus nosso criador. Sorrir, sorrir feito criança, brincar, correr, cantar sem medo de ser feliz! Esta é a receita para uma vida saudável e feliz. Em meio a tudo e a todos, não devemos esquecer do mais sagrado: Deus nosso pai que criou todas coisas, visíveis e invisíveis para nós seus filhos. Em meio as tristezas esquecemos de viver, o que é mais belo nesta vida, o nosso próprio viver, a própria nossa vida, cuidarmos de nós mesmos, cuidarmos de todos e esquecermos de nosso ser, cuidarmos da nossa saúde, da nossa aparência, do nosso bem estar e nos livrarmos do estresse da vida moderna. Abra a janela de sua vida, deixe ventilar o rancor, a tristeza, a raiva de sua alma, comece com uma faxina em todos os males que afeta sua vida e verás que um dia melhor ira clarear o seu ser. Viva cada momento como se fosse o último, com paz amor e felicidade!

Imagem de thefantasim

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Que princesa, que nada!!
Por Marilu F Queiroz

queria estar ali com aquela roupa e nem com a bolsa que me sujava as mãos e o rosto de pó de metal. Meu irmão corria para todos os lados me provocando. A vontade que eu tinha era de correr atrás dele e espantar as borboletas que pousavam de flor em flor, como num baile de cores e alegria. Da vontade passei a ação. Corri como se estivesse fugindo do grito da minha mãe que ecoava ao longe. - Menina, para de correr, você vai sujar o vestido! Desse jeito vai cair, tropeçar. Nem escutei o que ela gritava só queria correr por entre os canteiros floridos, tamanha alegria e sensação de liberdade. Corria e ria o tempo todo até que num escorregão pousei sobre a grama molhada, feito as borboletas que tanta admirava e espantava das flores. Meu vestido se abriu como um guarda chuva sobre o verde úmido de orvalho. Só escutava a voz da minha mãe muito brava que falava e gesticulava ao mesmo tempo: - Que vergonha! Agora vamos voltar para casa com você toda suja! Levanta daí logo, vamos ver o estrago. Quando levantei com a ajuda do meu pai, foi uma surpresa... O vestido se sujara somente por baixo de toda aquela saia rodada Por cima estava tão limpo como quando cheguei. Foi só lavar as mãos e o rosto e pronto. Limpinha e princesa de novo. A única coisa que não estava bonita era a cara feia que a minha mãe me fazia toda vez que olhava para ela. É... de princesa quase virei um sapo do brejo!!!!

Quando se é criança, o maior prazer da vida é brincar. É a melhor maneira de se divertir, conhecer limites e desafiar o desconhecido. Correr, subir em árvores, andar de bicicleta e quase se arrebentar na moita de espinhos são algumas das atividades que faziam parte do meu dia a dia. Minha mãe gostava de me vestir de princesa com vestidos muito rodados, plissados, cheio de florzinhas e enfeites e grandes laços na cabeça. Era vesti-los e virar estátua. Não pode isso, não pode aquilo, senão suja o vestido. É muito feio uma menina sair correndo como um moleque, precisa ser educada, dizia ela. Era um horror, uma prisão em forma de vestido. As pessoas me viam e falavam da beleza da roupa e me chamavam de princesinha. Que princesa, que nada, eu queria era brincar, ter liberdade para me soltar, correr, me sujar como toda criança normal. Não era fácil ficar quieta vendo tanta coisa legal para se fazer. Parece que a vida fica muito sem graça sem poder brincar por causa de roupa. Foi num dia de passeio assim, que fomos ao Jardim Botânico. Com um vestido claro todo plissado e cheio de babados, sapatos e meias brancas com detalhes de rendinha. Nas mãos uma bolsinha com fecho de metal que eu abria e fechava o tempo todo de tão encabulada que estava com os olhares das pessoas. Não

Ilustração de Estevan Fernandes Queiroz
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Era vidro e se quebrou
Por Yara Darin

O cristal se quebrou O encanto acabou A paixão ofuscou O amor terminou O beijo esfriou A fonte secou A noite chegou A lua minguou Você silenciou Desencantou Desapareceu.! O dia amanheceu Nada aconteceu O sol não nasceu A roseira não floresceu... Água doce caiu do céu Molhou meu chapéu Fiquei ao léu.! Pensei te esquecer Cansei de perder Não queria sofrer Quero renascer... E agora, que faço eu?

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NO UNIVERSO DE GUACIRA MACIEL

(Des)ordem

Venho buscando explicar a mim mesma as coisas que percebo ao meu redor, a forma como as compreendo, ou seja, como elas se mostram a mim, à minha sensibilidade, ao meu universo íntimo, de acordo com essa percepção e por que o fazem...ou seria o contrário?...na verdade, isso é muito difícil de ter um ordenamento linear; elas também poderiam evidenciar a percepção que tenho das coisas, de acordo com a sensibilidade...até achei melhor assim...a minha percepção é desencadeada pela minha sensibilidade. É isso aí, acho...vê-se, dessa forma, como não existe uma única ordem na complexidade do Universo. Vê-se como não existe certo e errado, a não ser em universos pessoais, que partem de valores e conceitos específicos nos quais também não se pode interferir, mas que deverão se abrir à luz da consideração dos opostos complementares (mecânica quântica). Cada um que ler este e, talvez, todos os meus textos, vai achar que a ordem poderia ser outra, e a intenção é esta mesmo: rever conceitos...a minha compreensão é a de que, qualquer que seja essa ordem, significa que uma possibilidade não exclui a outra, e que a cada nova incursão teríamos outras tantas a considerar... (Segue)
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Existe uma dimensão que é desconhecida por quem lê a obra de um autor, que é o processo da criação... o momento primeiro, quando as ideias vão surgindo por qualquer motivo; este momento tem uma nuance de caos, em consequência da velocidade com que os pensamentos brotam; da forma incontrolável com que chegam à mente e vão estabelecendo vínculos entre si, ainda que pareçam totalmente incoerentes ou sem elos entre si. Se fosse escrever nessa não ordem quase absoluta, seria impossível a compreensão daquilo que preciso dizer. Entretanto, o fato de tentar estabelecer alguma coerência não deverá tirar o que existe de melhor na criação, que traduz a beleza dessa aparente desordem, ou mesmo incoerência, que a mim se configura o verdadeiro encanto de escrever. Até porque, o próprio mundo parece ter-se desvinculado de qualquer vislumbre dos anteriores paradigmas e entrado numa vertiginosa busca, não por uma, mas novas ordens, novas pedras filosofais... muito embora isso não seja novidade, mas um acontecimento recorrente na trajetória da humanidade.

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Não me proponho a dizer nenhuma verdade; neste momento penso desta forma, mas, à medida que vou vivendo, aprendendo, estudando, me relacionando, também vou incorporando outras visões, ampliando ou mudando as que já expus aqui ou em qualquer outro lugar, podendo reescrever tudo a partir de uma nova ordem, inerente àquele momento, reconstruída ou elaborada nas interseções, uma vez que o todo não representa, apenas, as partes, mas também um terceiro espaço (ou outros mais...). Aliás, vou logo avisando, porque pode ocorrer que um desses textos seja lido em outro lugar e contexto, com outras análises e proposições. O mais importante para mim é expor essa inquietação e reafirmar a inexistência de uma verdade imutável e única. Tudo é fruto das elaborações de um íntimo e desconhecido universo pessoal, inerente a cada ser (cada observador), estimulado pelas vivências, buscas, interesses, emoções e estados de espírito momentâneos, que na dinâmica da vida quase sempre são representados sob diferentes linguagens e nuances novas. Em sendo assim, vou liberá-los para as suas...

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Ausências...
Marlene B. Cerviglieri

Ali repassando as páginas já sem cor, De um passado distante e vibrante Registrando eventos importantes, De vidas cheia de amor! Emaranhando entre os teus dedos, As folhas de papel de seda já amarfanhada Pelo tempo que passou, Pelo muito que foram usadas. Paro na página e você no tempo. O olhar perdido distante, Já não estas mais comigo Perco-te por instantes. Mas como um relâmpago no céu, Voltas e com os olhos vibrantes Chamando-me como só você sabe faze-lo A pergunta vem então, Onde estavas? Procurei-te tanto? Nossas mãos entrelaçadas, com emoção... Novamente estas comigo. Abraço-te com carinho. Voltastes, sei que talvez por minutos. De tuas escapadas, Mas, procurando por mim, No tempo, na página virada.

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REFLEXÕES COMTEMPORÂNEAS
JÚLIA REGO

Amar ou Adquirir?
É fato que a contemporaneidade nos trouxe novos conceitos, novos valores, novas tecnologias e, como se ouve irrepetidas vezes, uma nova ordem mundial. Essa nova ordem abalou as estruturas familiares e sociais, criando parâmetros de comportamento antes inimagináveis, se levarmos em consideração a opressão, principalmente religiosa, a que eram submetidos os indivíduos na Idade das Trevas. Acreditar que ainda deveríamos viver e pensar segundo, e seguindo, os ditames da Igreja, seria até um contrassenso. Visualiza-se, entretanto, atualmente, um panorama cujas características, fruto das profundas transformações ocorridas no mundo em todas as áreas do conhecimento, suscitam questionamentos passíveis de serem discutidos do ponto de vista das perdas e dos ganhos. Nem sempre positivas, do ponto de vista humanístico, essas transformações intensificaram-se com o advento da Revolução Industrial e o crescente avanço da tecnologia que trouxeram novas formas de pensar e, consequentemente, de viver em sociedade, ressaltandose a desenfreada busca pela ascensão social e acúmulo de riquezas materiais. Os interesses coletivos e individuais tomaram novas configurações e o capital passou a ser o objeto de desejo na maioria das nações que se tornaram extremamente consumistas, no que foram incentivadas e financiadas pelos meios midiáticos, agora denominado de quarto poder. Um aspecto curioso e preocupante nessa conjuntura é a forma como as pessoas se comportam diante das relações amorosas. Num contexto freneticamente materialista e, portanto, desprovido da necessidade de se de manter uma relação baseada, principalmente, na afeti-

vidade descamba-se para um extremo tal que priorizar as necessidades emocionais fica em segundo plano. Se antes o Amor era idealizado e envolto numa áurea mágica, em que o “felizes para sempre” predominava nos desejos dos mais românticos, hoje se observa uma tendência para as relações fugazes e superficiais, prevalecendo os interesses financeiros comuns e os contratos sociais que privilegiam as “afinidades” econômicas e a extensão da rede de relacionamentos de cada parceiro. Circunstâncias relevantes no projeto capitalista de alavancar a carreira ou contribuir para a permanência na casta social de origem. Homens e mulheres, ou quaisquer outras formações possíveis e passíveis de se relacionarem amorosamente entre si, continuam em busca de um parceiro que os façam felizes, entretanto essa felicidade está atrelada a uma linguagem extremamente prática que impede o indivíduo de pensar duas vezes antes de decidir pelo término da relação, se essa não caminhar em direção ao padrão social imposto nos dias de hoje. Em um contexto no qual predomina, primeiramente, o desejo de ascensão pessoal, a realização do amor constitui-se numa troca de favores, traduzida através de uma linguagem que transforma o, antes, sincero ato de agradar o outro com os mimos decorrentes de um querer real e desinteressado, em uma verdadeira batalha para ver quem traz mais vantagens a quem. Sublima-se, então, ainda que de forma inconsciente, algo essencialmente necessário ao ser humano desde tempos imemoriais. As relações afiguram-se entre duradouras e descartáveis a depender do quanto ela pode oferecer material e financeiramente às partes,
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numa visível banalização de um sentimento que, se aflorado, deveria servir de sustentáculo para o estabelecimento de uma nova ordem, inclusive, social. Observa-se uma generalização de comportamentos quando se trata de escolher o parceiro ou parceira com quem vai se relacionar, visto que os critérios de escolha parecem perpassar quase que, unicamente, pelas inúmeras vantagens que o outro puder lhe proporcionar. Outrossim, esse comportamento contemporâneo é passível de comparação com épocas em que os pais escolhiam os maridos para suas filhas, baseados na origem social a que eles pertenciam, visando a união de fortunas e sobrenomes importantes, entretanto, hoje, não há mais a imposição de outrem nas escolhas amorosas, e sim a imposição de um sistema capaz de transmutar valores e sentimentos de tal forma que a essência humana sucumbe em nome do Capitalismo Selvagem. Como não considerar a atual falta de espontaneidade nos relacionamentos uma perda, se o que se constata é o aumento de pessoas solitárias e deprimidas enclausuradas em seus lofts sofisticados. Assim, desejam-se os objetos e não os sujeitos. Agregam-se status e não sentimentos. Dispensam-se problemas e adquirem-se facilidades. A ordem é conquistar o projeto de vida que mais se aproximar do modelo midiático em voga, em detrimento do olhar que desarma, do toque que arrepia, do beijo que faz suar, a não ser que, afortunadamente, se possa conciliar tudo isso em um protótipo bem-sucedido. Aí sim, as relações serão duradouras e felizes. * Gostou? Quer conversar com a colunista, sugerir um assunto? Escreva para o Varal!

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Ainda não estás nua!
Por Rozelene Furtado de Lima

Tu és dádiva, deusa generosa Árvore frondosa onde preparei o ninho da minha família Mata virgem onde abrigo meus sonhos no final da trilha Floresta densa enredada em cipós na proteção do meu reinado Tens tantos poderes, tantos recursos, tantos segredos guardados Infelizmente à mercê de inconsequentes bandidos criminosos Impunes sem noção do que fazem, enriquecem e se tornam poderosos Goteja a seiva avermelhada ou leitosa como prova de crimes de toda sorte Morrem flora e fauna e o planeta azul passa a ter a cor da morte Salvar-te é salvar a mim, se tu morreres morrerão meus rebentos E o meu fim voará junto com o meu teto faminto, sedento É em todas as fêmeas que germina a vida Que gera florestas e famílias, não podem ser destruídas Sou mulher, sou brasileira, sou corredeira, sou água pura Como mulher grito, como brasileira suplico, como corredeira choro Como água pura sem vegetação ciliar com risco de secar, imploro Sou Amazônia, sou rios cristalinos, sou indígena, sou arara bela Sou Pátria amada, sou céu estrelado, sou verde amarela Sou pássaro, sou canto do sabiá, sou orquídea em flor Sou nacional, sou futuro, és mãe terra, sou tua filha num parto de dor Proteção ao planeta, às mulheres, às florestas e a toda natureza Para no futuro continuar espelhando tua grandeza Acorda povo! Desperta gigante! Não te entregues a falsos amantes Não te iludas com grandes promessas Luta pelo que é teu, ecoa teu lamento, dá-te pressa Expulsa os destruidores do teu berço esplêndido no quarto da lua Ainda tens dois terços, protege teu ventre, ainda não estás nua!

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Noiro, o Viajante
Por Elise Schiffer Litoral do sol poente era um paraíso de beleza exuberante, lugar pacato e aconchegante onde o céu e o mar se fundiam em azuis indescritíveis. as praias cintilavam pontos de luz enquanto a espuma das ondas invadiam as intimidades secretas da areia. Junto ao mar ficava a aldeia de pescadores e um velho caís com seus barcos ancorados aguardando tripulantes famintos por aventura. Neste paraíso vivia Noiro, um jovem solitário que sentia se um peixe fora d'água. ... Noiro ficava diariamente sentado na areia da praia admirando o retorno dos anjos. Todos os dias quando o sol fazia a água o mar fervilhar com suas cores, centenas de anjos partiam da terra em direção a linha do horizonte. O jovem não entendia o que via, mas fica perplexo com a beleza que somente ele conseguia enxergar. Todos da aldeia de pescadores chamavam Noiro de louco. Noiro costumava narrar a todos da aldeia a beleza e a felicidade que sentia quando todos os anjos voam juntos formando uma estrada de anjos em direção ao horizonte. A solidão castigava o coração de Noiro, já que ninguém o aceitava com suas diferenças e o jovem não se sentia amado. Cansado da solidão um dia o jovem tentou seguir os anjos e correu como um louco na areia da praia, correu até a exaustão quando de repente surgiu a sua frente uma enorme parede verde. Noiro parou surpreso sem medo. O jovem estendeu o braço e tocou a parede gelatinosa a sua frente, seu braço atravessou a substancia permitindo lhe sentir um grande prazer do outro lado. Surgiu no peito do Jovem a certeza de que poderia atravessar a parede e encontrar outro lugar. Neste exato momento faltou-lhe coragem para prosseguir e Noiro recuou. A parede verde gelatinosa se desfez. O jovem voltou a ficar diariamente na praia admirando a estrada de anjos e chorando de saudade de algo que não podia definir, suas tardes eram só lágrimas e saudades. Noiro amava sem saber o que. O sol castigava a todos com sua fúria,

apenas Noiro continuava com sua pele branca como leite, os cabelos negros como a noite e os olhos azuis como o céu. O povo da aldeia possuía a pele avermelhada pelo sol, os cabelos queimados num tom amarelado e olhos negros. A diferença fazia Noiro sofrer... Numa tarde de verão, uma grande tempestade assolou toda a costa da terra onde Noiro vivia e mesmo assim o jovem seguiu para a praia sentando se no mesmo lugar de observação. As lágrimas de Noiro misturavam-se com as gotas de chuva sendo levadas pelo força do vento, quando uma gigantesca nuvem desceu dos céus e parou sobre as águas agitadas do mar, do centro da nuvem surgiu um homem brilhante com a mesma aparência de Noiro, pele branca como leite, olhos azuis como o céu e cabelo negro como a noite. Este homem levitou em direção ao jovem. Sem nenhuma palavra os dois se abraçaram e o jovem descobriu que não havia mais solidão em seu peito. O homem brilhante levantou seu braço sinalizando para uma nave inter estrelar em forma de um grande cone brilhante que desceu do imenso céu azul. Uma porta se abriu na nave e Noiro pode ver dezenas de pessoas iguais a ele. Neste exato momento o Homem Brilhante que abraçou Noiro pensa e ele compreende que todas aquelas pessoas estão retornando, após suas missões estrarem cumpridas. Noiro pensa. Eu tenho uma missão? Qual será? Imediatamente a resposta vem em sua mente. Ter amado e ensinado sua aldeia o respeito pelas diferenças. O Homem Brilhante convidou Noiro a retornar com todos, mas o jovem não aceitou, resolvendo ficar para surpresa do Viajante. O Homem brilhante aceitou orgulhoso a decisão de Noiro, os dois se abraçaram e logo após um painel com botões abaixo do mar foi acionado pelo Viajante, alguns códigos foram acionados e a nave parte em direção aos céus com todos que já estavam a bordo. Noiro fica e uma nova etapa tem inicio na aldeia dos pescadores. Noiro não mais esperava ser amado, apenas amava e era feliz...

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Cotidiano Fragmentado
Por Rossandro Laurindo

Partem-se e repartem-se as imagens Refletidas nos globos oculares das faces Fulguras emoções dos que contemplam a metrópole Cotidiano humano sagaz neste cenário Areópago das circunstâncias vivenciadas ardilosamente Torres de concreto como testemunhas dos atos vários Desvairados habitantes dos castelos de aço e vidro Os olhares encontrando-se com o vazio diariamente Espelhos de almas abatidas, distorcidos seres refletem Perdidos completos entre as paredes dos labirintos leitos Os sonhos estilhaçados pelas pressões e cobranças Das obrigações, embriagam-se naturalmente sem pudor Sorvem o sabor do fel que flui Vorazmente garganta abaixo Entre festas e baladas intermináveis Sanguessugas de espíritos exaustos Gastos como assoalho amadeirado Família deturpada por mídias infinitas de profunda depravação Primo campo de batalha da sociedade urbana Palavras ofensivas e comportamentos agressivos têm jorrado Como correnteza arrastando, arrasando corações parentescos Metamorfoseando essas águas com sabor amargo lacrimal Corta-se e recorta-se o caráter, denigra-se comportamento Ampliando a decadência dos corações petrificados Pela empedernida selva cinzenta como este céu penumbro Param e reparam-se as aparas, as arestas das carnes Fere a cândida derme e inunda-a com o veneno musgo Infla os pulmões com poeira tóxica, atmosfera contaminada Ocultando a pulsante dor efêmera dos conflitos internos O silêncio que reina neste instante Demonstra a quietude passageira das altas noites de tormenta Falta pouco, quase nada para o recomeço da jornada Dependência eterna do fazer, produzir Tudo que há para que nada tenha utilidade Para a totalidade da prisioneira perpétua humanidade

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A VIDA IMITA A ARTE
Cintia Medeiros

Oi pessoal do Varal, boa tarde! Ou aí seria boa noite?! Quem sabe não seja bom dia! Enfim, desejo que seja doce...muito bom estar novamente com vocês, compartilhando temas relacionados à arte!! A gente pensa que não, mas tudo envolve arte...só que não nos damos conta às vezes. Fazer o outro rir é uma arte, e não pode ser considerado um termo irrelevante! Digo isto, por exemplo, próprio, é muito difícil eu rir de uma piada...meus amigos ficam frustrados. Não sei, elas não têm muito efeito sobre mim...mas em compensação dou risada fácil, gosto de perceber os gestos das pessoas, às vezes quando a empolgação da outra parte é grande, acabo rindo da maneira que me foi contada...dos gestos, poses, caras e bocas! Devo dizer que “dos meus”... àqueles piadistas do almoço de domingo, ou do churrasco com os amigos, pai, mãe, irmãos, primaiada, papagaio...todos, sem exceção, riem do meio da piada para o final...e isso é regra!! Aí acabo rindo, o riso é contagioso...principalmente se for aquela risada gostosa, sincera...ou aquela gargalhada de som estranho...enfim, não há como não rir, diria que rir gera o chamado efeito dominó. E notem que, geralmente quem conta a piada é o primeiro a rir...é ou não é?! Gente, sabe essas pessoas...esses loucos felizes, que tornam nossos dias melhores, eles são d+!! Hoje eu queria dedicar essa coluna a um carinha muito legal, que influenciou gerações. Alguém ai já ouviu falar no Charles Chaplin, o mestre do cinema mudo? Quem não imagina logo um homenzinho magro, branco, de bigode, cartola e bengala na mão?! Ou ainda um trapalhão sempre feliz?! Então, pra quem não conhece esse rapazinho, só tenho elogios a ele. Foi um grande artista para sua época, e até hoje. Gostava de encenar por mímicas, mas seus personagens eram cheios de expressão...dificilmente você irá assistir um filme dele e não rir ou se emocionar, e olhe que até onde

eu tenho conhecimento, foram gravados apenas em preto e branco, não foram produções caríssimas como vemos hoje, mas estão ai a décadas e não são esquecidas.

Mas além da referência do cinema mudo, alguém sabe dizer quem foi Charles Chaplin?! Bem, é interessante observar como sua trajetória de vida e arte se confundem. Chaplin nasceu no meio artístico já, tanto sua mãe quanto seu pai tinham carreira musical e cênica, ou seja, um cenário perfeito para o nascimento de um grande artista. Mas quem pensa que essa história teve final feliz...não, não teve. Chaplin conviveu muito pouco com os pais, e fora criado em abrigos infantis, ou seja, sofrimento não faltou...mas mesmo assim, ele foi capaz de superar as mágoas do passado, batalhar e vencer...e sempre sorrindo, costumava dizer que “um dia sem sorrisos é um dia perdido”. Penso que ele tenha escolhido fazer os outros rirem, pra esquecer o sofrimento. Chaplin decidiu-se pela alegria, pela felicidade...tal qual o personagem principal do filme “O amor é contagioso”, cujo reitor da universidade em que estudava queria impugnar sua matrícula no curso de medicina, com o argumento que tinha “excesso de felicidade”. E desde quando ser feliz é ruim? Desde quando expressar felicidade ao outro é crime?
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Ui, acho que se fosse assim, muitos de nós pegaríamos prisão perpétua...ufaaa!! Mas voltando a Chaplin, se observarmos bem, todos os seus filmes trazem algum tipo de denúncia social...e isso é o mais legal nele; vemos pobreza, amor entre ricos e pobres, mecanização da mão-de-obra, desemprego, perseguições raciais...e tudo sempre com ar cômico, buscando levar informação mas também levar irreverência, alegria. Em minha opinião, ele foi um grande agente social, seus filmes tratam das condições de vida das pessoas, e buscam mostrar o seu valor independente de bens ou coisas. Seu personagem mais famoso é um vagabundo, homem pobre e simples, mas de bom coração; fico me perguntando, não teria o Vagabundo um pouco do Chaplin e vice-versa?! Diria que Chaplin sempre foi artista, ao tempo que na sua obra, sempre foi humano e isso é o que torna tão especial. Deixo vocês com o texto “O último discurso”, de sua autoria, que foi exibido durante o filme O grande ditador; acho que diz muito sobre o que penso a seu respeito, e sobre o que não apenas eu, mas todos desejamos para este mundo!! bjinhos, e até a próxima ;)

“Sinto

muito, mas não quero ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não quero governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria apenas de ajudar: judeus, não judeus, negros ou brancos. Todos nós desejamos ajudarmo-nos uns aos outros. São assim os seres humanos. Queremos viver para o bem do próximo e não para o seu infortúnio. Por que razão nos havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Há espaço

para todos neste mundo. A Terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza! Porém, perdemo-nos. A cobiça envenenou a alma dos homens, fez erguerem-se no mundo as muralhas do ódio, e tem-nos feito marchar a passos largos para a miséria e para a morte. Criámos a era da velocidade, mas sentimo-nos aprisionados dentro dela. A Máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. O nosso conhecimento, transformou-nos em cépticos; a nossa inteligência, fez-nos duros e cruéis. Pensamos muito e sentimos muito pouco. Muito mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Muito mais do que de inteligência, precisamos de afecto e de ternura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido. A aviação e a rádio aproximaram-nos mais. A sua própria natureza é um apelo eloquente à bondade do homem. Um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Neste preciso momento a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo fora, milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir, eu digo: “ Não desesperem! A desgraça que se abateu sobre nós não é mais do que o fruto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores caem e o poder que arrebataram ao povo, ao povo háde regressar. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses brutais que vos desprezam, que vos escravizam, que controlam as vossas vidas, que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado e vos usam como carne para canhão. Não sóis máquinas! Homens é que sóis! E com o amor da humanidade nas vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos! Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do Homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vós! Vós, o Povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de a tornar uma maravilhosa aventura. (Segue)
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Portanto – em nome da Democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um Mundo Novo, um Mundo Bom que a todos assegure uma oportunidade de trabalho, um futuro para a juventude e a segurança à velhice. É com estas promessas que gente perversa tem subido ao poder. Mas só para abusar da vossa credulidade. Não cumprem o que prometem. Nunca cumprirão! Os ditadores libertam-se, escravizando, porém, o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, derrubar as fronteiras nacionais, pôr fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um Mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam a prosperidade de todos. Soldados, em nome da Democracia, unamo-nos! Hannah, estás a ouvir-me? Onde estiveres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol começa a romper as nuvens que se dispersam! Estamos a sair da treva para a luz! Começamos a entrar num mundo novo – um mundo melhor, onde os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e começa, afinal, a voar. Voa para o arcoíris, para a luz da esperança. Ergue os olhos Hannah! Ergue os olhos!” Referências: http://canaldepoesia.blogspot.com.br/2011/10/charliechaplin-o-ultimo-discurso-de-o.html

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Um velhinho de mais de 260 anos, cheio de história para contar!
Por Mauro Demarchi Há gente por aí que não gosta de conversar com pessoas de mais idade. Os pensamentos estão meio embaralhados, as vistas já não enxergam mais e o exterior está todo enrugado. De vez em quando converso com um velhinho que tem mais de 261 anos… é isso mesmo! Você não leu errado e eu não escrevi errado! Talvez seja o mais velho aqui da nossa região. Poucos o conhecem e menos ainda se interessam por ele. Pelo exterior você vê que ele não é novo, mas não lhe dá tanta idade, e pelo interior é impressionante a conservação e a quantidade de informações que transmite. Ele frequentou palácios quando mais novinho, andou por lugares que a gente nem imagina. Durante a fatídica Revolução Francesa ele ficou escondido em algum lugar até que o colocaram num navio e veio parar aqui no Brasil. Quando veio para cá? Ninguém sabe, nem mesmo ele. Parece que é a sina de todos nós quando ficamos velhos: só nos lembrarmos de nossa infância e ele também. Só lembra daqueles primeiros anos. Mas não faz mal, o que ele me conta é tão interessante! Uma vez perguntei a ele: O que é a Física? Ele me respondeu: “C’est l´étude & la contemplation de la nature, ou plus proprement, la science des Corps” Ah! me desculpe. Esqueci de dizer que ele só fala francês e dos tempos em que era menino, por volta de 1752. Encadernado em couro e impresso em folhas feitas de trapo ou de casca de arroz, o livro mantem toda sua forma e beleza. Os livros são como pessoas. Elas congelam em suas páginas uma parcela do tempo e ali fixam o conhecimento e as histórias de uma época. O que tenho em mãos, como disse é de 1752. Foi comprado por um professor de um francês, que morava no interior de São Paulo. Como era apenas um volume de uma coleção de 8, não interessava ao professor que me perguntou se eu queria. Claro que aceitei. Não tanto pelo valor monetário do livro, que é pequeno, mas pelo valor histórico do mesmo. “La Science des Personnes de Cour, D´épée et de robe, du Sieur de Chevigni”. Antigamente davam títulos grandes para os livros, hoje, quanto menor mais sucesso fazem, por que será? Mas o título, para quem não sabe francês, quer dizer: O conhecimento das pessoas da Corte, de espada e de beca, do Senhor de Chevigni. Esse velhinho de 261 tem tanta coisa para contar… e não apenas o que ele fala, mas o que ele permite conhecer através de pesquisas levantadas por suas palavras. Um dia, quem sabe, falarei sobre elas. E, para aqueles que gostam de coisas antigas, abaixo vão duas ilustrações do livro.

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e o que daí advém; E´ o virar-se do avesso, no bom sentido da palavra! Por Gildo P. Oliveira Por isso , nesta época da alma da consciência o plano Pelos caminhos vou perdendo caminhos!... Homenagem a Rudolf Steiner, fundador da An- Espiritual não influencia o homem a tomar a decisão; troposofia, ciência espiritual, por ocasião do Ele deve estar maduro o suficiente para poseu aniversario, 27 de fevereiro. der processar No íntimo as forças poderosas, grandiosas desta sublime metamorfose! Confiada `as mãos do homem, A luz para tal mister vem da rica colaboração Com muita sapiência e amor, altruísta no campo social. O destino de sua vida Quem só acolhe as sofisticações da técnica e E´ a Pedra de grande valor! da informática, e trabalha apenas Voltara´ ao mundo espiritual Com dados virtuais, afasta-se com certeza da Conscientemente , por outras vias, verdade. Não as “ricas” e incessantes produPor uma maestria ímpar, ções virtuais, não os multifacetados e exatos Uma vontade poderosa; aparelhos , mas as Uma grande metamorfose! Mudanças verdadeiras e inspiradoras na perAbrem-se as portas sublimes sonalidade `a luz do espírito e´ o que conta, Para este acontecimento maior! levando o homem, consequentemente, para a E´ o desafio angular do nosso tempo, sublime metamorfose maior, conduzindo-o para O confronto do homem consigo mesmo o encontro com o Cristo. Na alma da consciência; Tão atual e necessária como nunca eis a esUma vitória sobre as limitações impostas. sência da metamorfose no íntimo do homem! Assim, a grande peça escultural sublime E humana poderá ser esculpida, tal qual a figu- Não e´ uma questão de praticidade, mas, sim, de espiritualidade no sentido mais ra Grandioso do termo! Do Representante da Humanidade, o Cristo, Tão magistralmente esculpida por Rudolf Stei- Enquanto o ser que dá vida `a borboleta vai perdendo formas, o homem vai perdendo ner Caminhos até tornar-se o próprio caminho! E Edith Maryon. Infeliz o homem que procurasse adiantar as fases PS: O representante da Humanidade, o Cristo, Do desenvolvimento de uma futura borboleta; escultura em madeira elaborada por Rudolf Ele não lhe traria benefício algum, Steiner e Edith Maryon, em torno de 1918, no Ao contrário, mutilaria suas partes, Impedindo-lhe de percorrer o desenvolvimento Goetheanum, Escola Superior Livre de Ciência do Espírito, Dornach, Suiça, a partir da Antrosalutar. posofia. A borboleta não viria a ser o que de fato e´ Na plenitude e beleza que o criador lhe conferiu. Os jardins, os prados, os bosques e as florestas Não seriam enfeitados pela beleza das nossas Queridas borboletas, lindíssimas! a borboleta se desenvolve instintivamente, leis especiais a regem no cosmos. Só o homem promove mudanças internamente: A metamorfose consciente, sábia , contínua e bela , Baseada na renúncia, sacrifício fiel , coragem E amor desinteressado em prol da causa humana carente; E´ a complementação salutar, a plena espiritualidade alcançada ;

METAMORFOSE

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DESABAFO, UM CONSOLO
Por Antonio Fidelis

Em meio a tantas decepções Alguma coisa me abranda Com tal força, que não reconheço Minhas ações. É! Não me reconheço Sou tão ríspido, tão seco Mas, ao mesmo tempo Tão suave tão amável Como pode um ser, Ser desse jeito? É?! Tão assim... até parece que Vivem dois dentro de um... É! Mesmo assoberbado de Sentimentos e pensamentos Tão difusos Sei que algumas coisas podem e Devem ser diferentes Sei que não estou aqui por acaso, Também sei que é apenas Uma passagem. Mas posso Transformar essa passagem na Mais bela melodia, mesmo Com decepções de ideias fracassadas Ou acepções de ideias inovadoras e Essas me darão fôlego Para amenizar as dores Deixadas pelas decepções da vida. Imagem de ChegaDeSuede

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INST@NTES CIRCUN(ESCRITOS)
Fátim[ Diòg_n_s

A segunda metade

Ao me aproximar de meio século de vida, que eu considerava cheia de realizações – tinha três filhos, estava casada com um homem que eu amava, gozava de boa saúde e usufruía de sucesso profissional - comecei a ter momentos de depressão, disfarçados de cansaço...Acordava irritada e usava como desculpa o fato de não ter dormido bem porque meu filho mais novo havia ficado zanzando pelo apartamento até meia-noite, eu tinha tomado café após o jantar e coisas do tipo...Buscava uma justificativa...Meu trabalho sempre fora uma fonte de prazer e parecia inesgotável... Sentia orgulho em dizer que não havia diferença entre a segunda-feira de manhã e a sexta à tarde e que o ˝plin plin˝ do Fantástico anunciava uma nova e alegre semana...Consideravame profissional liberal, vivendo do que eu criava ou produzia, apesar de ser sócia de uma empresa... Poucas vezes trabalhei pensando em quanto iria ganhar, pois dinheiro para mim era simplesmente uma consequência das minhas realizações... Nos últimos anos, no entanto, comecei a me dar conta de que eu estava restringindo minhas atividades profissionais... Não sentia vontade de aceitar novas propostas e algumas significavam um peso e não mais um prazer... Dizia para mim mesma que era cansaço... O trabalho individual era o único espaço onde eu realmente mantinha meu entusiasmo...O entusiasmo - o estar cheio de Deus- continuava em minha cabeça, mas já

não morava no meu coração... Apenas pousava vez ou outra... Eu tinha vontade de gostar, de me entusiasmar, de sentir o mesmo calor de antes em relação às minhas atividades e à vida em geral... Meus amigos diziam que meu entusiasmo contagiava a todos, que eu fazia as coisas acontecerem... Eu concordava com eles e sentia saudade de mim mesma... Busquei ajuda na meditação, na terapia individual e na expressão através do desenho de mandalas e principalmente através da escrita...Tudo foi de fundamental importância para que eu deixasse de procurar as justificativas fora de mim...E chegaram meus 50 anos, festejados numa simples e bonita reunião com familiares e amigos muito queridos...Olho então para o tempo que passou e tenho clareza de tudo que criei, produzi e realizei... Reconheço que fiz algumas coisas boas: criei meus filhos, fiz amigos, facilitei muitos processos individuais e grupais, ajudei muita gente a desatar nós e a encontrar o próprio caminho...Eis agora a minha questão existencial: qual é o meu novo caminho... Levando em conta a média de vida dos brasileiros e a longevidade de minha família, sei que já vivi a primeira metade da minha vida...Por vezes isso me assusta: tenho no máximo cinquenta anos pela frente. ..Que coisa mais estranha!!!...Como meio século é pouco!... E nesta segunda metade de vida, não dá para fazer as mesmas coisas, pois não me perdoarei pelos mesmos erros... (Segue)

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Perdoar-me-ia por outros por isso tenho que aprender coisas novas...Seria mais fácil começar uma nova vida se eu fosse forçada a fazê-lo, se tudo estivesse ruim, se nada desse certo, se eu tivesse me aposentando ou qualquer outro ˝ se ˝...Não aconteceu nenhuma tragédia - graças a Deus - e nem estou pedindo que aconteça...Continuo com boa saúde, amando meu marido, meus filhos estão criados e bem encaminhados nas próprias vidas, tenho projeção profissional... Mas não me sinto feliz e não tem nada errado na minha vida...Romper com tudo o que já está estabelecido, firmado e nos lugares certos é muito difícil... Porque não tem lógica, não existe uma razão plausível... Ninguém vai entender a mudança de rumo... Eu mesma me pergunto: e se não der certo?... Descubro, ou redescubro, que eu necessito urgentemente de uma paixão... Não mais uma paixão que me tire do ar, que me faça cometer loucuras e coisas absurdas, embora as que vivi tenham sido maravilhosas...Quero me apaixonar novamente por um ideal, por algo que me faça acordar toda manhã cheia de entusiasmo para viver cada dia... A diferença entre a paixão por algo e apaixonar-se por uma pessoa é que, na primeira eu tenho a possibilidade da escolha...E escolha implica em responsabilidade, em ser capaz de responder às demandas do ambiente... Já tenho algumas ideias: voltar aos estudos e fazer um Mestrado, abrir um negócio inteiramente novo, me dedicar a um trabalho comunitário, estudar e trabalhar com artes, incluindo escrever, viver noutro país. Nossa!!!...Tanta coisa que eu posso fazer para me apaixonar...Dei o primeiro passo: sei que não estou satisfeita comigo nem com a vida que estou vivendo (embora, repito, não tenha nada de errado com ela)...Não vou colocar a culpa em ninguém nem procurar justificativas...Preciso apenas (só?) de coragem para dar o segundo passo: escolher um novo caminho e pagar para ver aonde ele vai me levar.

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Sibulino
Por Julia Oliveira Godoy Pés descalços corriam no quintal de terra batida. Sob seus olhos infantis, o minúsculo quintal parecia do tamanho do mundo. Era o seu mundo. Uma imensa galinha amarela com manchas negras e olhos vermelhos e furiosos devorava as inúmeras baratas que, desesperadas, corriam pela terra, enfiando-se nas fendas do solo. Tudo em vão. A galinha, caçadora experiente, cravava, sem piedade, suas ferozes garras nos insetos castanhos e penetrava sua comprida língua em seus esconderijos subterrâneos, buscando, não apenas as baratas, mas também, suculentos vermes brancos e cegos. O garoto perseguia a galinha, percorrendo círculos invisíveis pelo quintal e gargalhando muito. Era o seu jogo favorito. Prisioneira daquela casa, sua mãe cozinhava batatas velhas e verrugosas em uma panela escura, cuja superfície estava coberta de fuligem. Picotou alguns aspargos que secavam nos buracos da parede de barro, protegidos pelas divindades enfileiradas em um precário altar de cera. Os fungos que se formavam na escuridão daqueles buracos proporcionavam um sabor especial à refeição. Era dia de São Salafrânio e, por isso, a mãe se empenhava especialmente naquele almoço. Nem se importava com o som do galope do menino lá fora, que chegava aos seus ouvidos sensíveis como o estrondo do martelo de Thor, nem com seus agudos ganidos, que secavam seus tímpanos como ameixas deixadas ao sol. Sonhava com o dia em que seu filho mais novo teria idade suficiente para deixar a casa materna, como fizeram todos os outros antes dele. Já o havia suportado por sete anos e meio, muito mais do que lhe obrigava sua condição de mãe (era o que diziam as vizinhas, aquelas velhas mexeriqueiras), mas ela era uma mulher condescendente, aprendera a ignorar as anciãs do vilarejo, que perfuravam suas têmporas com seus olhares inquisidores, e tinha pena daquela criança louca com passos desequilibrados de tro-

vão. Por isso o mantinha ali, apesar da idade avançada, fingindo não notar os imensos buracos que o menino, em suas sandices, fazia pelo chão do barraco. Agora, uma insuportável cacofonia se somava aos ruídos produzidos por seu filho: era a procissão dos devotos de Salafrânio que se aproximava, sendo seguida pela banda local. O ribombar dos tom-tons e a vibração das pandeiretas destoavam do som abafado do antigo flugelhorn em forma de meia-lua. Nada era harmônico na desafinada bandinha formada por adolescentes espinhentos, gordas solteironas e velhos senis do pequeno vilarejo camure. Como mandavam as tradições locais, as criancinhas que corriam aos berros atrás da banda distribuíam fitinhas coloridas em todas as casas por onde passava a procissão e recebiam, em troca, umbus e seriguelas maduros. As crianças que não haviam se comportado bem durante o ano, ganhavam, em vez das suculentas frutas, nacos de carne podre enrolados em barbante, que deveriam ser enterrados ao pé de uma jaqueira virgem (o que era cada vez mais difícil de encontrar, pois a promiscuidade se espalhava como um câncer entre árvores da região). Acreditava-se que esse ritual traria juízo àquelas pequenas cabeças imundas por onde corriam piolhos displicentes. Sibulino nunca participava das procissões e outros eventos, na verdade ele raramente saía de casa. A mãe já se acostumara com a presença a cada dia mais invisível de seu filho, sempre entre as paredes do casebre, enfiandose escorregadio pelos buracos onde cresciam trufas almiscaradas e fungos de cores vivas e exuberantes. “Não coma os fungos”, ela dizia sem muita convicção. Não acreditava que o garoto pudesse entender qualquer palavra que ela dissesse. As palavras escapavam de sua boca mecanicamente, como um resmungo. Qual um verme, ele devorava ruidosamente o barro e tudo o que nele habitava. Saciado, dormiu pesadamente, enrodilhado como uma criatura comprida e cheia de pernas, semelhantes a pequenos pelos pretos, por toda a extensão do seu corpo esguio.
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Ainda assim, a mãe encaixou uma batata fumegante em um dos buracos do barro. O cheiro penetrou pelos seus poros, despertando-o aos poucos. Movimentou lentamente o seu corpo pesado, que já não cabia naquele túnel estreito, o que fez surgirem crepitantes rachaduras na velha parede. Afrouxando as longas pálpebras, exibiu dois pontinhos negros e brilhantes. Seriam olhos? Esticou uma boca segmentada, estendendo seus anéis viscosos, e sugou a imensa batata, destruindo-a em segundos. “Estava muito gostoso, mamãe. Obrigado!” Por um instante, a mãe vislumbrou o sorriso inocente do seu pequeno anjinho, emoldurado por bochechas rosadas. Recobrando a pouca razão que lhe restava, lembrou-se que o menino há vinte anos já não habitava mais aquela casa. Num lampejo, destruiu a vassouradas furiosas o monstro que se escondia na parede.

Do outro lado da rua
Por Hilton Leal Elas estão por aí deslizando suaves, com seus longos, leves vestidos, dizendo coisas engraçadas e exigindo tão pouco. Em algum lugar em algum momento olhando para alguém virando a página de um livro com dedos mágicos e uma ansiosa vontade de ser diferente. Posso vê-las, com os olhos luzindo os lábios famintos a cintura inquieta e alguma capacidade de amar. Sim, eu tenho certeza que elas estão por aí. Talvez bebendo em bares que eu não frequento conversando com amigos que eu não conheço assistindo filmes que não sei que existem indo a shows enquanto eu fico em casa. Perdido para todas elas, com minha cerveja, meus males, tantos e inúteis poemas. enquanto elas estão por aí em algum lugar pelo qual eu jamais passarei....

Imagem: Slen#vy

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Abraço, uma terapia que arrepia...
Por Rogério Araújo (Rofa)*

Existe na vida um valioso gesto Ele é capaz de uma vida mudar Estou falando de um abraço Que une dois seres em um Num momento para lá de sublime Por muitos experimentados Desde pai, mãe e filhos, Amigos, namorados e casados. Todos demonstram sentimentos Pela especial pessoa amada Seja um abraço bem dado Ou mesmo meio desconcertado Importa é que ele seja realizado Para que da vida faça parte Assim como uma obra de arte. O abraço é demonstração de sentimento De duas pessoas como um delicioso alimento; Pode ser quase por obrigação Ou mesmo por uma grande paixão, Mas o que ele não pode é estar ausente Porque na vida é um precioso presente Que é por um e outro oferecido E também por ele recebido. Não importa a ocasião: abrace à vontade E saiba que não tem idade Para abraçar e ser abraçado. Tem gente que diz que dele não precisa... Só pode estar mentindo. O ser humano nasceu para abraçar E ao mundo todo sempre amar. Abrace muito, mesmo do seu jeito... Você descobrirá todo o seu efeito Em sua vida e na do outro Como uma grande terapia que arrepia!

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REPRESENTAÇÕES SUÍÇAS NO BRASIL

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Consulado no Rio de Janeiro
Consulado geral da Suíça Rua Cândido Mendes 157 11° andar 20241-220 Rio de Janeiro / RJ Brasil Fones: • 0055 21 38 06 21 00 0055 21 38 06 21 40 (Visa) Fax • 0055 21 38 06 21 20

Consulado em São Paulo
Consulado geral da Suíça Av. Paulista 1754, 4° andar Edifício Grande Avenida 01310-920 São Paulo / SP Brasil Fone: 0055 11 33 72 82 00 Fax • 0055 11 32 53 57 16

E-Mail rio.vertretung@eda.admin.ch visto.rio@eda.admin.ch (Visa) Website http://www.eda.admin.ch/riodejaneiro

E-Mail sao.vertretung@eda.admin.ch Website http://www.eda.admin.ch/saopaulo

Consulado em Salvador
Consulado da Suíça Rua Lucaia 281 Edifício WM, Sala 104 Rio Vermelho 41940-660 Salvador / BA Brasil Fone: 0055 71 33 34 16 71 (Tel. + Fax) Fax • 0055 71 33 34 16 71 (Tel. + Fax) E-Mail salvador@honrep.ch Website http://www.eda.admin.ch/riodejaneiro
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Varal do Brasil março - 2013

VARAL DO BRASIL POR TODOS OS LUGARES, PARCERIAS VENCEDORAS!

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Varal do Brasil março - 2013

Revista Varal do Brasil A revista Varal do Brasil é uma revista bimensal independente, realizada por Jacqueline Aisenman. Todos os textos publicados no Varal do Brasil receberam a aprovação dos autores, aos quais agradecemos a participação. Se você é o autor de uma das imagens que encontramos na internet sem créditos, façanos saber para que divulguemos o seu talento!

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Varal do Brasil março - 2013

DIA 3 DE MAIO, NO PALEXPO—GENEBRA

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