Você está na página 1de 13

GERENCIAMENTO DA FERTILIDADE DO SOLO UTILIZANDO TÉCNICAS DE

GEOPROCESSAMENTO

R. V. O. SACRAMENTO(1); W. L. C. DUETE (2) & R. R. C. DUETE(3)

RESUMO

Os atributos do solo apresentam grande variabilidade em razão dos processos naturais de formação
e das técnicas de manejo. O conhecimento dos padrões de variabilidade permite identificar no
campo zonas homogêneas de manejo, visando o uso racional dos insumos agrícolas e a otimização
da produção. O presente trabalho teve como objetivo definir taxas variáveis para aplicação de
calcário e adubação com P e K em um pomar cítrico, utilizando técnicas de geoprocessamento em
comparação com o método convencional. O estudo foi realizado na Fazenda Menezes, localizada no
município de Sapeaçú, Recôncavo Sul da Bahia, em um Latossolo Amarelo cultivado com citros.
As amostras de solo para definição das taxas variáveis foram coletadas numa malha de 100 x 120
m2, com pontos georreferenciados, eqüidistantes de 20 e 10 m, nas entrelinhas do pomar, na
profundidade de 0 a 20 cm. Para recomendação com base no método convencional, coletou-se
aleatoriamente na malha, 15 amostras simples para formar uma amostra composta. Determinou-se
pelo método da Embrapa (1997) pH, P, K, Ca, Mg, Na, Al+3 e (H+ + Al3+), calculando-se os valores
de soma de bases, CTC total, saturação por bases e saturação por alumínio. Aos dados dos atributos
químicos do solo aplicou-se inicialmente a estatística descritiva e posteriormente a geoestatística
para análise da dependência espacial e elaboração dos mapas utilizando o SIG Arc GIS 9.0.
Considerando a variabilidade espacial dos atributos analisados, as doses variaram de 1,5 a 6,9 t ha -1
para calcário, 50, 100 e 150 g/planta para P e 0, 50 e 100 g/planta para K. Pelo método de
amostragem convencional as doses foram de 3,9 t ha-1 para calcário e 150 g/planta para P, não sendo
recomendada adubação com K. A comparação entre os dois métodos demonstrou que, pelo método
convencional 24,56% e 20% da área estariam recebendo doses de calcário abaixo e acima
respectivamente, das reais necessidades; as doses de P apresentaram um erro de 50 a 100 g/planta
acima da necessária em 33,3% da área e a ausência da adubação potássica causaria um déficit de 50
a 100 g/planta em 57,95% da área.

Termos de indexação: variabilidade do solo, agricultura de precisão, SIGs.

GERENCIAMENTO OF FERTILITY SOIL USING TECHNIQUES OF


GEOPROCESSAMENTO
________________
(1)
Doutoranda em Energia e Ambiente, Universidade Federal da Bahia – UFBA, CEP.: 40.170-115, Salvador-BA. E-mail:
rozilda@ufba.br. Tel.: (75)3424-1892. * Autor para correspondência
(2)
Professor Doutor do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas – UFRB, Caixa Postal 82, CEP 44.380-000, Cruz das
Almas-BA. E-mail: wlcduete@ufba.br. Tel.: (75) 3621-2160
(3)
Pesquisador Doutor da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agropecuário – EBDA, CEP 44.380-000, Cruz das Almas-BA. E-
mail: rrcduete@yahoo.com.br. Tel.: (75) 3621-5185
2

SUMMARY

The attributes of soil present great resulting variability of natural processes of formation, also
influenced by the handling techniques. The knowledge of variability patterns allows to identify in
the field heterogeneous areas, defined this way, homogeneous zones of handling, seeking the
rational use of agricultural input and the otimização of production. This way, the present work had
as objective to define variable rates for application (VRT) of calcareous and adubação with P and K
in a citric orchard, using geoprocessamento techniques in comparison to the conventional method.
The study was accomplished in Fazenda Menezes, located in the municipal district of Sapeaçú,
South Recôncavo of Bahia, in a Yellow Latossolo cultivated with citrus. The soil samples for VRT
were collected in a mesh of 100 x 120 m 2, with points georreferenciados, halfway of 20 and 10 m,
in the among-lines of orchard, in the depth of 0 to 20 cm. Para recommendation with base in the
average, for the conventional method, aleatoriamente was collected in the mesh, 15 simple samples
to form a composed sample. In the chemical analysis they were certain pH, P, K, Ca, Mg, Na, Al
and (H+ + Al+3) for the method of Embrapa (1997), being calculated the values of sum of bases, total
CTC, saturation for bases and saturation for aluminum. To the data of chemical attributes of the soil
it was applied the descriptive statistics initially and later on the geoestatística for analysis of space
dependence and elaboration of maps for the method of krigagem, using SIG Arc GIS 9,0. The
appraised attributes presented degree of space dependence moderated to fort, with exception for
total CTC and (H++Al+3) which presented aleatory distribution. The definition of VRT starting from
SIG was shown efficient, facilitating the rationalization of use of input.

Index terms: variability of soil, agriculture of precision, SIG

INTRODUÇÃO

A determinação da quantidade de nutrientes que se encontram no solo em forma disponível


para as plantas permite interpretar o nível de fertilidade do solo e conseqüentemente proceder à
recomendação de uso de corretivos e adubos. Dessa maneira os campos são tratados de forma
homogênea. A aplicação de fertilizantes, calculados com base em índices médios de fertilidade, é
feita uniformemente em toda a área. Como decorrência, áreas com maior nível de fertilidade são
adubadas em excesso e áreas mais pobres não são corrigidas.
De acordo com Coelho (2004), o gerenciamento de forma homogênea de extensas áreas,
com aplicação de corretivos e fertilizantes em doses únicas, tem contribuído para aumentar a
variabilidade já existente, quer seja devido aos fatores e processos de formação do solo, conforme
relato de Cambardella et al. (1994) e/ou pela ação antrópica na prática da agricultura.
A heterogeneidade é uma propriedade inerente do solo que tipifica sua anisotropia. Numa
paisagem natural o solo apresenta ampla variabilidade dos seus atributos, tanto no sentido
horizontal como no vertical.
3

Para que a amostragem do solo represente, com exatidão, a sua fertilidade, é necessário o
conhecimento dessa variabilidade, pois só assim as recomendações de calagem e adubação não
estariam comprometidas (Silveira et al., 2000).
Conforme Reichardt et al. (1986), duas formas principais de amostragem experimental
podem ser utilizadas: a inteiramente casualizada, na qual cada observação é independente das
demais, e a regionalizada, em que a coleta é feita de acordo com um plano espacial determinado.
Teorias como a geoestatística, disponibilizada por Matheron (1969), podem ser empregadas no caso
de amostragem regionalizada, tendo como resultado a descrição da variabilidade espacial, a partir
de correlogramas e semivariogramas, que definem o grau de dependência no espaço da grandeza
medida e o alcance de cada amostragem. Conforme Cahn et al. (1994) a geoestatística consiste de
análise variográfica e krigagem. A análise variográfica utiliza o semivariograma para modelar a
variância espacial dos dados, ao passo que a krigagem usa a variância modelada para estimar
(inferir) valores.
Diferentes estudos realizados no Brasil, à exemplo dos desenvolvidos por Silva et al. (2003),
Araújo & Oliveira (2003) e Vieira (1997), comprovaram a dependência espacial de alguns atributos
químicos do solo, cujas variabilidades apresentam-se de baixa a alta, diferindo das demais
características. De acordo com Vieira (1997), a amostragem do solo ao acaso falharia em detectar a
grande variabilidade e, por isso, esconderia a realidade.
Weirich Neto et al.(2006) observaram grandes diferenças nas necessidades de nutrientes e
calagem entre os 60 pontos estudados, demonstrando haver diferenças dentro do talhão analisado,
originalmente considerado como área homogênea. Com base em diferentes sugestões de fórmulas e
doses que se adaptassem a essas necessidades, pôde-se concluir que, no geral, foram aplicados
138,9 kg de K2O a mais que o requerido, assim como se deixou de aplicar 175 kg de P2O5 e 7,84 Mg
de calcário.
Montezano et al. (2006) concluíram que os atributos de fertilidade do solo apresentaram de
baixa a alta variabilidade para a área de estudo, entretanto, correlações lineares daquelas
características com a produtividade de milho foram baixas, uma vez que não foi possível isolar
todos os fatores envolvidos.
Através da técnica de krigagem indicatriz, Motomiya et al. (2006) definiram regiões com
diferentes níveis de fertilidade em Latossolos cultivados com cana-de-açúcar; naquelas condições
os teores de matéria orgânica e de K do solo apresentaram um arranjo de distribuição com maior
variabilidade espacial, tendo a variável K apresentado a maior descontinuidade espacial entre as
demais variáveis estudadas.
4

Com o uso do Sistema de Posicionamento Global (GPS) e o Sistema de Informações


Geográficas (SIGs) é possível a elaboração de mapas identificando a variação espacial do estado
nutricional das plantas, níveis de fertilidade do solo, bem como a correlação entre ambos,
possibilitando o uso eficiente e racional dos insumos agrícolas e a sustentabilidade da produção.
A partir da introdução dessas novas técnicas e ferramentas no campo, desenvolveu-se o
conceito de Agricultura de precisão, a qual Roza (2000) define como sendo uma filosofia de
gerenciamento agrícola que parte de informações exatas, precisas e se completa com decisões
exatas. A agricultura de precisão possibilita identificar a variabilidade dos diversos parâmetros de
produção, desenvolvendo técnicas de manejo diferenciadas para áreas heterogêneas.
Desta forma, a Aplicação a Taxa Variável (ATV), também denominada de “Variable Rate
Technology” (VRT) diminui os riscos de contaminação causados pela aplicação de alguns nutrientes
em doses acima da requerida pela cultura, e de ineficiência do insumo devido à aplicação de doses
abaixo da necessária. Para Mantovani et al. (1998), as técnicas de agricultura de precisão devem ser
compreendidas como uma forma de manejo sustentável, na qual as mudanças ocorrem sem
prejuízos para as reservas naturais, minimizando ao mesmo tempo, os danos ao meio ambiente.
Assim, o presente trabalho teve como objetivo definir taxas variáveis para aplicação de
corretivos e fertilizantes, em um pomar cítrico, utilizando a geoestatística e técnicas de
geoprocessamento, em comparação ao método convencional.

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho foi realizado em uma área de Latossolo Amarelo distrófico, cultivado com
citros, na Fazenda Menezes localizada no município de Sapeaçu, BA (Figura 1). O clima da região é
do tipo subúmido a seco, apresentando temperatura média anual de 24,2ºC e a pluviosidade média
anual entre 800 a 1.400mm, com um período chuvoso entre abril a junho. A vegetação varia entre
floresta estacional e floresta ombrófila densa, com domínios de pastagens e agricultura tradicional
de cultivo misto. A geomorfologia característica da área são os Planaltos Cristalinos Rebaixados
com altitudes entre 100 e 200 m, apresentando relevo bastante uniforme, com vertentes convexo-
côncavas e com topos abaulados (CAR, 2000)
As amostras do solo para VRT foram coletadas na profundidade de 0 a 20 cm numa
malha de 100 x 120 m2 com pontos eqüidistantes de 20 m, nas entrelinhas do pomar. No centro
superior da malha utilizou-se distância de 10 m entre os pontos, com o objetivo de detalhar o estudo
da dependência espacial dos dados para distâncias inferiores a 20 m, perfazendo um total de 58
pontos, os quais foram georreferenciados com GPS para obtenção das coordenadas em UTM Datum
5

SAD 69 (Figura 2). Para a recomendação com base no método convencional, coletou-se
aleatoriamente na malha, 15 amostras simples para formar uma amostra composta. Após coleta, as
amostras foram secas ao ar até atingirem 4-6% de umidade, passadas em peneiras com malhas de 2
mm de abertura.
Na análise química, determinou-se pH, fósforo disponível, potássio, sódio, cálcio, magnésio,
alumínio trocáveis (Al3+) e acidez potencial (H+ + Al3+), calculando posteriormente a soma de bases
trocáveis (S), capacidade de troca (T), saturação por bases (V%) e saturação por alumínio (m%),
conforme metodologia da Embrapa (1997).
As classes de interpretação de fertilidade do solo para os valores de pH, fósforo
disponível, potássio, sódio, cálcio, magnésio, alumínio trocáveis (Al3+) e acidez potencial (H+ +
Al3+), foram definidas segundo a Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais -
CFSEMG (1999).
Os dados foram inicialmente avaliados aplicando-se a estatística descritiva para obtenção de
valores médio, mediana, mínimo, máximo, coeficientes de variação, curtose e assimetria, utilizando
o software STATISTICA 6.0. A análise da dependência espacial foi avaliada por meio da
geoestatística, através do cálculo da semivariância, a qual é estimada por meio da seguinte
expressão:

em que N(h) é o número de pares de valores medidos Z(xi), Z(xi + h), separados por um distância h;
Z(xi) é o valor determinado em cada ponto amostrado; Z(xi + h) é o valor medido em um ponto mais
uma distância h .
A elaboração, ajuste e validação dos modelos de semivariogramas foram realizados
utilizando o software GS+ for Windows 5. Testaram-se semivariogramas do tipo esférico,
exponencial, linear, linear com patamar e gaussiano; a escolha dos modelos foi realizada
observando-se o maior valor do coeficiente de correlação obtido pelo método de validação cruzada
e menor SQR (soma de quadrado do resíduo). A validação cruzada é um meio para testar o modelo
de interpolação, onde cada um dos dados é removido da amostra individualmente, sendo seu valor
estimado pelos outros utilizando o modelo escolhido.
De posse dos valores de efeito pepita, patamar e alcance, para cada atributo analisado,
procedeu-se a krigagem, para elaboração dos mapas, utilizando a ferramenta Spatyal analyst do
6

software Arc Gis 9.0. Para definição das taxas variadas de aplicação (VRT) efetuou-se a operação
Raster calculator, permitindo o uso de fórmulas e operações matemáticas entre os mapas matriciais,
calculando as doses de calcário e fertilizante para cada pixel.
A partir dos valores dos atributos químicos analisados na amostra composta, calculou-se a
necessidade de calagem, doses de P e K, conforme método convencional. A recomendação de
calagem e adubação foi feita de acordo com a Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas
Gerais (1999), sendo a necessidade de calagem calculada pelo método da saturação por base,
procurando atingir 70% de saturação.
A diferença entre as doses obtidas a partir das técnicas de geoprocessamento e as
recomendadas pelo método convencional permitiu a elaboração dos mapas de erro para calagem e
adubação com P e K.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados estatísticos referentes aos atributos químicos do solo estudados, encontram-se


no quadro 1. Observa-se que o menor coeficiente de variação encontrado foi de 8,36% para o pH, e
o maior, de 89,06%, para m%. De acordo com o critério de classificação proposto por Gomes
(1984) para esta medida estatística de dispersão, seus valores apresentaram-se como: a) muito altos
(CV > 30%) para P, K, Ca, Mg, acidez trocável (Al3+), S, V% e m%; b) médio (10% ≤ CV ≤ 20%)
para acidez potencial (H+ + Al3+) e CTC total; c) baixo (< 10%) apenas para pH. Resultados
semelhantes para os atributos pH, P, K e CTC total foram encontrados por Souza et al. (1997)
estudando a variabilidade espacial das propriedades químicas e físicas de um Latossolo Amarelo
distrófico cultivado com citros, em Cruz das Almas-BA. Utilizando a classificação proposta por
Warrick & Nielsen (1980), os CV dos atributos avaliados seriam classificados como: baixos (CV ≤
12%) para pH e CTC, médios (12% < CV ≤ 52%) para Ca, Mg, (H+ + Al3+), S e V%; altos (CV >
50%) para P, K, acidez trocável (Al3+) e m%. Desta forma, os resultados deste trabalho
apresentariam maiores similaridades com os dados obtidos por Souza et al. (1997) para os atributos
pH, Ca, Mg, (H+ + Al3+), S e CTC total. Os maiores coeficientes de variação para P e K deve-se
provavelmente, à forma de aplicação localizada destes nutrientes ao solo.
Observa-se no quadro 1 que a maioria dos atributos não apresentaram ajuste a uma
distribuição normal. Entretanto, os atributos pH, (H+ + Al3+) e CTC total, apresentaram uma
tendência à distribuição normal, onde os valores das medidas de tendência central foram
praticamente iguais para estes atributos. A ausência de ajuste a distribuição normal era esperado,
7

uma vez que, a camada de solo utilizada para amostragem é a mais afetada pelo processo de
mecanização, práticas de manejo das culturas e erosão.
Os teores médios dos atributos foram classificados, de acordo com a CFSEMG (1999)
como: muito baixo para m%; baixo para acidez trocável, P e V%; médio para Ca, S e CTC total;
bom para os teores de Mg e K e alto apenas para acidez potencial. O valor médio do pH, 5,3 foi
classificado como baixo, caracterizando um solo de acidez média. Os baixos teores de pH,
associado a elevada acidez potencial indicam a necessidade de correção do solo, uma vez que o pH
é um dos fatores que interfere direta e indiretamente na disponibilidade de nutrientes e
consequentemente na produtividade. Ressalta-se também que os citros é uma planta calcífera e
nestas condições o adequado suprimento de cálcio é essencial durante todo o ciclo da planta, sendo
recomendada pela CFSEMG (1999) saturação por base de 70% para esta cultura. Os resultados
obtidos neste trabalho indicam saturação por base média de 33,3% reforçando a necessidade de
calagem.
A análise geoestatística, efetuada por meio do semivariograma mostrou que todos os
atributos do solo estudados apresentaram dependência espacial, com exceção para a CTC total e (H +
+ Al3+) os quais apresentaram efeito pepita puro, o que determina uma distribuição aleatória dos
seus dados (Quadro 2). A similaridade entre os atributos H + Al e CTC total foi observada por
Salviano et al. (1998) avaliada exclusivamente através do alcance, sendo respectivamente de 25 e
32 m (1,3 vezes maior). Neste trabalho a similaridade se fez presente na ausência de dependência
espacial, devendo-se ainda considerar que, nas condições do solo estudado, o valor médio de (H +
Al) representa 66,58% da CTC total. Em relação à dependência espacial pode-se verificar que o pH,
P, K, Al, soma de bases e saturação por bases, apresentaram forte dependência espacial, enquanto
que para Ca, Mg e m% a dependência espacial foi moderada. Os resultados obtidos evidenciam a
importância de se utilizar a krigagem como método de interpolação, uma vez que esta considera as
informações do variograma, transformando distâncias geométricas em distâncias estatísticas
(covariâncias), permitindo estimativas não tendenciosas.
A partir dos resultados da análise da amostragem convencional (Quadro 3), calculou-se a
necessidade de calagem correspondente a 3,9 t ha-1 para toda a área de estudo, para incorporação
aos 20 cm de profundidade. Com base no mapa de variabilidade espacial dos valores de saturação
por bases (Figura 3) elaborou-se o mapa de recomendação para calagem, apresentando doses de
calcário variando de 1,5 a 6,9 t ha-1, o que indica que a dose de 3,9 t ha -1 estaria acima da real
necessidade em alguns pontos e abaixo em outras áreas (Figura 4). A diferença entre as doses
estimadas no mapa e a calculada pelo método convencional permitiu elaborar o mapa de
erro_calagem (Figura 5) indicando que 24,56% da área estariam recebendo doses com 0,5 a 2,2 t ha-
8

1
de calcário abaixo da necessária enquanto 20% estariam com 0,5 a 2,5 t ha-1 de calcário acima da
necessidade real. Convém ressaltar que a supercalagem pode reduzir a disponibilidade de alguns
nutrientes, a exemplo do P, o qual em condições de pH elevado e alta concentração de cálcio, pode
precipitar na forma de fosfato tricálcio, reduzindo sua disponibilidade para as plantas.
Observa-se na figura 6 a distribuição espacial dos teores de P, sendo possível identificar
áreas nas quais os teores desse elemento encontra-se abaixo do nível crítico (12 mg dm-3) conforme
indicação da CFSEMG (1999). Considerando tais variações, as doses de recomendação para
adubação de fósforo variaram de 50 a 150 g/planta (Figura 7). Com base nos teores médios de 4,89
mg dm-3 obtidos na amostragem convencional (Quadro 3) a recomendação seria de 150 g/planta
para toda área, representando um erro de 50 a 100 g/planta, conforme figura 8.
Desta forma, seria adicionado 50 e 100 g/planta a mais, em uma área equivalente a 29,3% e
4% do total respectivamente, numa relação de 27,8 kg ha-1 de P acima da real demanda da cultura.
Apesar desse elemento possuir baixa mobilidade no solo, pode ocorrer perdas pelo escoamento
superficial, resultando num sedimento rico em fosfato, aumentando o risco de eutrofização de rios
e lagos.
Os teores de potássio obtido nas análises, conforme amostragem convencional, foi de 0,36
cmolc dm-3 (Quadro 3), valor classificado como muito bom pela CFSEMG (1999). Nestas
condições, não haveria recomendação para adubação com este elemento, sendo estas previstas
apenas para as classes baixa, média e boa. Entretanto, observando o mapa de distribuição espacial
dos teores desse elemento (Figura 9), percebe-se áreas com baixa concentração, podendo ser um
fator limitante a produção. Considerando esta variabilidade, o mapa da figura 10 indica a
necessidade de reposição desse nutriente, equivalente às doses de 50 e 100 g/planta, para uma área
de 6.494 m2 e 460 m2 respectivamente. Evidenciando que os teores obtidos a partir das subamostras
para compor uma amostra composta não são representativos para as condições locais, em função da
dependência espacial apresentada por este elemento.

CONCLUSÕES

1. Os atributos de fertilidade do solo apresentaram variabilidade baixa a alta, com grau de


dependência espacial moderado a forte para pH, P, K, Ca, Mg, Na, Al3+, S, V% e m%.
2. A recomendação de calagem e adubação pelo método convencional, para os atributos com
moderada a forte dependência espacial pode ocasionar erros, reduzindo a produtividade do sistema.
3. A definição de VRT para calagem e adubação, utilizando sistema de informações
geográficas mostrou-se eficiente para identificação de zonas homogêneas de manejo.
9

LITERATURA CITADA

ARAÚJO, P. M. D. B de. & OLIVEIRA, M de. Variabilidade espacial de cálcio, magnésio, fósforo
e potássio em solos das regiões Oeste e do Baixo Açu, Estado do Rio Grande do Norte. Caatinga,
16: 69-78, 2003.

CAHN, M.D.; HUMMEL, J.W. & BROUER, B.H. Spatial analysis of soil fertility for site-specific
crop management. Soil Science Society of America Journal, 58:1240-1248, 1994.

CAMBARDELA, C. A., MOORMAN, T. B., NOVAK, J. M.; PARKIN, T. B.; KARLEN, D. L.;
TURCO, R. F. & KONOPKA, A. E. Field-scale variability of soil properties in Central Iowa Soils.
Soil Sc. Soc. Am. J., 58:1501-1511, 1994

COELHO, A. M. Agricultura de precisão no gerenciamento da fertilidade do solo sob plantio direto


no cerrado. Sete Lagoas, Embrapa Milho e Sorgo. 2004. 3p. (Comunicado Técnico, 112).

COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO DO ESTADO DE MINAS GERAIS – CFSEMG.


Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais. 5ª aproximação.
RIBEIRO, A .C.; GUIMARAES, P. T. G.; ALVAREZ V., V. H. (eds.). Viçosa, MG, 1999. 3559 p.

COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO E AÇÃO REGIONAL – CAR(BA). Recôncavo Sul:


perfil regional; Programa de Desenvolvimento Regional Sustentável – PDRS; Salvador, 2000.
(Série Cadernos CAR, 25).

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUARIA – EMBRAPA. Manual de métodos


de análises do solo. 2. ed. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura e Abastecimento, 1997. 221 p.
GOMES, F. P. Estatística experimental. Piracicaba: ESALQ/USP, 1984.

MANTOVANI, E. C.; QUEIROZ, D. M. & DIAS, G. P. Máquinas e operações utilizadas na


agricultura de precisão. In: SILVA, F. M. da. (Coord.). Mecanização e agricultura de precisão. Poços
de Caldas: UFLA/SBEA, 1998, p. 109-157.

MATHERON, G. Principles of geostatistics. Economic Geology, 58:1246-1266, 1969.

MONTEZANO, Z. F.; CORAZZA, E. J. & MURAOKA, T. Variabilidade espacial da fertilidade do


solo em área cultivada e manejada homogeneamente. R. Bras. Ci. Solo, 30:1-9, 2006.

MOTOMIYA, A. V de A.; CORÁ, J. E. & PEREIRA, G. T. Uso da krigagem indicatriz na


avaliação de indicadores de fertilidade do solo. R. Bras. Ci. Solo, 30:1-12, 2006
REICHARDT, K.; VIEIRA, S. R. & LIBARDI, P. L. Variabilidade espacial de solos e
experimentação de campo. R. Bras. Ci. Solo, 10:1-6, 1986.

ROZA, D. Novidade no campo: Geotecnologias renovam a agricultura. Revista InfoGEO, n 11 –


jan/fev. 2000. Disponível na Internet. http://infogeo.com.br/ acesso em 20/11/2006.
10

SALVIANO, A. A. C.; VIEIRA, S. R. & SPAROVEK, G. Variabilidade espacial de atributos de


solo e de Crotalaria juncea L. em áreas severamente erodida. R. Bras. Ci. Solo, 22:115-122, 1998.

SILVA, M. A. G da.; MUNIZ, A. S.; SENGIK, E.; MATA, J de D. V da.; CARISSIMI, C. &
CEGANA, A. C. Amostragem e variabilidade nos atributos de fertilidade em um Latossolo sob
plantio direto em São Miguel do Iguaçu, Estado do Paraná. Maringá, 25:243-248, 2003.

SILVA, V. R.; REICHERT, J. M.; STORCK, L. & FEIJÓ, S. Variabilidade espacial das
características químicas do solo e produtividade de milho em um Argissolo Vermelho-Amarelo
distrófico arênico. R. bras. Ci. Solo, 27:1013-1020, 2003.

SILVEIRA, P. M da.; ZIMMERMANN, F. J. P.; SILVA, S. C. da. & CUNHA, A. A da. Amostragem
e variabilidade espacial de características químicas de um Latossolo submetido a diferentes sistemas
de preparo. Pesq. agropec. bras., 35:1-12, 2000.

SOUZA, L. da S.; COGO, N. P. & VIEIRA, S. R. Variabilidade de propriedades físicas e químicas


do solo em um pomar cítrico. R. Bras. Ci. Solo, 21:367-372, 1997.

VIEIRA, S. R. Variabilidade espacial de argila, silte e atributos químicos em uma parcela


experimental de um Latossolo Roxo de Campinas (SP). Bragantia, 56:1-15, 1997.

WARRICK, A. W. & NIELSEN, D. R. Spatial variability of soil physical properties in the field. In:
HILLEL, D., ed. Applications of soil physics. New York, Academic Press, 1980. cap. 13, p. 319-
344.

WEIRICH NETO, P.H.; SVERZUT, C.B. & SCHIMANDEIRO, A. Necessidade de fertilizante e


calcário em área sob sistema plantio direto considerando variabilidade espacial. Revista brasileira
de Engenharia Agrícola e Ambiental, 10:1-9, 2006.
11

Quadro 1 – Medidas estatísticas descritivas dos atributos químicos do solo estudado.

Variáveis Média Mediana Mínimo Máximo C.V% Assimetria Curtose


pH 5,33 5,29 3,35 6,18 8,36 -1,27 5,74
P mg kg -1
6,52 5,83 1,76 22,58 62,40 1,94 5,51
K cmolc dm-3 0,29 0,26 0,09 0,86 52,64 1,44 2,78
Ca cmolc dm -3
1,30 1,20 0,60 3,50 42,19 1,62 3,79
Mg cmolc dm-3 1,01 0,90 0,50 2,30 38,75 1,12 1,36
H + Al cmolc dm -3
5,38 5,40 2,10 7,95 19,52 -0,49 0,68
Al cmolc dm -3
0,27 0,25 0,00 0,90 83,08 0,97 0,60
S cmolc dm-3 2,70 2,38 1,32 6,35 35,30 1,51 2,96
CTC cmolc dm -3
8,08 8,24 6,10 10,30 11,73 -0,41 0,54
V% 33,35 31,19 17,74 75,14 31,36 1,27 3,08
m% 10,49 8,53 0,00 36,35 89,06 1,08 0,86

Quadro 2 – Parâmetros dos modelos dos semivariogramas ajustados aos dados de variabilidade dos
atributos químicos do solo.
Dep.
Variável Co (Co + C1) Co/(Co + C1) Alcance R2 Modelo
Espacial
0,035 0,989 Forte
pH 4 0,2158 0,164 76 Exponencial
0,920 0,968 Forte
P 0 20,700 0,044 32 Exponencial
0,006 0,960 Forte
K 7 0,0271 0,247 65 Exponencial
0,134 0,970 Moderad
Ca 0 0,4750 0,282 89 a Exponencial
0,059 0,936 Moderad
Mg 6 0,2032 0,293 51 a Exponencial
H + Al - - - - - - Pepita puro
Al 0,0116 0,0518 0,224 198 0,975 Forte Esférico
0,330 0,963 Forte
S 0 1,8280 0,180 127 Exponencial
CTC - - - - - - Pepita puro
49,70 0,982 Forte
V% 0 245,300 0,203 304 Esférico
32,70 0,980 Moderad
m% 0 65,410 0,499 72 a Gausiano

Quadro 3 – Análise química das amostras do solo pelo método convencional.

pH P K Ca Mg Na H + Al Al S CTC V m
mg dm-3 ......................................... cmolc dm-3 ............................................. ........ % ........
5,44 4,89 0,36 1,10 1,60 0,08 5,10 0,10 3,14 8,24 38,10 3,08
12

39°14'21"W 39°10'57"W 39°7'33"W


ba
lu
m "

12°38'58"S
12°38'58"S
P
LAGOA DO
CEDRO

da
i
ar
iv

h.
Cap La. da

Rc
MURICI
Tábua La. da Pumba

LAGOA

o
GRANDE

Ri
COVA DA MESA

PUMBA
La IMBIRA
Petim Lagoa Tiririca Tir irica REBOUÇAS

" LAGOINHA

BRITO
Lagoa Redon da

r r. BOCA DA MATA
ENGENHO
AL TO DA IMBIRA SANTANA
e B r it o
Sítio Menezes m

12°42'22"S
12°42'22"S
la Lago a Inácio
Ve

CARANGUEJO !!!!!!!!!

Rio
do C ed
ro

SUÇUARANA

"
SAPEAÇU
"

d
Araçá

C
" Baixa da Palmeira

órr
" Água Branca

.
Ba
Canabrava
"

rra
Tu

Ri o
im

12°45'46"S
12°45'46"S

Rc h.
GAMA

CANABRAVA

CONCEIÇÃO DO ALMEIDA
Pilões

O
ro
Laranjeiras" "

Rch.
" Valente
" Novo Pilões
Paraíso " São Francisco da

39°14'21"W 39°10'57"W 39°7'33"W

Figura 1 – Localização da área de estudo.

39°12'4"W 39°12'2"W 39°12'0"W 39°11'58"W

12°42'9"S 12°42'9"S

12°42'11"S 12°42'11"S

12°42'13"S 12°42'13"S

39°12'4"W 39°12'2"W 39°12'0"W 39°11'58"W

Figura 2 – Malha de amostragem para coleta de solo.


13

Figura 3 – Variabilidade espacial dos teores de Figura 4 – Recomendação para calagem em


saturação por bases na camada de 0 a 20 cm. um Latossolo Amarelo cultivado com citros.

Figura 5 – ErroFigura 6 – Variabilidade


de calagem espacial dos teores
em um Latossolo
de fósforo
Amarelo cultivado na camada de 0 a 20 cm.
com citros.

Figura 7–
9 –Mapa
Variabilidade espacial dos
de recomendação para teores
P em Figura 810– Mapa de de
– Mapa errorecomendação
para adubaçãopara
com K
P
de potássio
um naAmarelo,
Latossolo camada de 0 a 20 cm.
cultivado com citros. em um Latossolo Amarelo, cultivado com
citros.

Interesses relacionados