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UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO

UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO Psicologia Social Serviço Social GERSON HEIDRICH DA SILVA

Psicologia Social

Serviço Social

UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO Psicologia Social Serviço Social GERSON HEIDRICH DA SILVA

GERSON HEIDRICH DA SILVA

UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO Psicologia Social Serviço Social GERSON HEIDRICH DA SILVA

UNISA – UNIVERSIDADE DE SANTO AMARO

MATERIAL DIDÁTICO do CURSO SERVIÇO SOCIAL – EaD

Disciplina: Psicologia Social

GERSON HEIDRICH DA SILVA

APRESENTAÇÃO

Esta apostila, que corresponde à disciplina Psicologia Social, foi criada especialmente para o curso Ead - Serviço Social da UNISA – Universidade de Santo Amaro. Elaboramos um material didático que, com linguagem acessível, ilustrações e indicações de fontes de pesquisa, busca oferecer aos alunos informações e oportunidade de discussões temáticas que, sem dúvida alguma, contribuirão para a formação profissional de Assistente Social.

SUMÁRIO

Introdução …………………………………………………………………………

3

Cap. I – Recordando………………………………………………………………

7

1.1-

O símbolo da Psicologia…………………………………………

7

1.2-

Uma breve introdução à ciência da Psicologia………………

7

1.3-

O Behaviorismo……………………………………………………. 13

1.4-

A Gestalt……………………………………………………………. 14

1.5-

A Psicanálise………………………………………………………

17

Cap. II – Próximos passos ……………………………………………………… 20

2.1- A Psicologia Social: breve histórico……………………………… 21

Cap. III – A Psicologia Histórico-Cultural ou Sócio-Histórica……………

25

3.1- Uma visão de homem………………………………………………

27

Cap. IV – O processo de construção de identidade (s)……………………. 34

4.1- Um pouco de história………………………………………………

4.2- Nos dias de hoje……………………………………………………… 37

4.3- As identidades compondo uma noção de território de exclusão

social……………………………………………………………………. 43

35

Cap. V - Família: uma reflexão sobre sua constituição atual……………… 51

Cap. VI- O trabalho socioeducativo: uma possibilidade de intervenção

54

Cap. VII – Uma experiência para pensarmos a condição humana………

59

Cap. VIII – Considerações finais………………………………………………

63

8.1- Subjetividade e contexto social…………………………………… 63

Referência Bibliográfica…………………………………………………………

Bibliografia complementar………………………………………………………. 66

65

Fontes de consulta temática……………………………………………………

66

Filmes sugeridos………………………………………………………………… INTRODUÇÃO

66

Neste novo módulo, apresentaremos uma das áreas de estudo, pesquisa e intervenção da ciência da psicologia, voltada para o trabalho social, buscando contribuir, da melhor maneira possível, com a formação profissional do Assistente Social. Propomos, então, uma reflexão sobre a área da Psicologia Social. Para tanto, analisaremos as diversas vertentes dessa área, através da disciplina Psicologia Social. Esta reflexão nos parece muito importante e, portanto, indispensável, ao considerarmos que uma sociedade só se constitui como tal a partir das múltiplas relações nela estabelecidas. Neste sentido, a psicologia apresenta-se como uma área que se dedica ao estudo da complexidade dessas relações, investindo na busca de conhecimentos sobre o processo que permeia essas múltiplas relações. Isso porque, na constituição de uma sociedade deparamo-nos com as mais diversas formas de situações, levando-nos a diversas formas de reações e manifestações de comportamentos que, por sua vez, determinam o funcionamento de uma sociedade. Aproximarmos dessa complexidade passa a ser um caminho para a ampliação da consciência dos indivíduos que se inscreveram (e continuam se inscrevendo) para o desenvolvimento de uma tarefa não muito simples, mas de necessidade inquestionável: assegurar o direito de todos à cidadania. O que implica, necessariamente, pensarmos nas diversas possibilidades de se construir uma sociedade mais justa, digna e respeitosa para com todos os seus cidadãos. Como forma de contribuição propomos, através dos estudos da Psicologia Social, estabelecer um diálogo com a área do Serviço Social. Assim, apresentaremos uma noção sobre a história do desenvolvimento da Psicologia Social, bem como sua contribuição para o entendimento da complexidade humana na constituição de uma sociedade. Antes disso, entretanto, faremos uma breve atualização do que foi discutido no módulo anterior na disciplina Psicologia Geral. Essa retomada parece-nos importante, porque servirá de base teórica e conceitual para as

discussões que serão desenvolvidas ao longo deste módulo, na disciplina Psicologia Social. Buscamos, com a releitura das principais noções conceituais estudadas sobre a Psicologia Geral, solidificarmos um norteador para o nosso curso. Retomaremos, então, a trajetória da psicologia a partir da Filosofia até ela se tornar ciência, consolidando, dessa maneira, algumas de suas abordagens. Dentre elas, o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise, por exemplo. Daremos ênfase, no entanto, na abordagem da Psicologia Histórico- Cultural (ou Sócio-Histórica), uma vez que sua visão de homem será a base norteadora deste nosso estudo. Ainda, com o propósito de oferecer subsídios para a reflexão e construção de metodologias de trabalho, apresentaremos possíveis aplicabilidades dos instrumentais construídos pela Psicologia Social, contribuindo, assim acreditamos, com a formação profissional do Assistente Social.

Para tanto, discutiremos uma noção de construção de identidade, perpassando pelo processo que leva à constituição de uma identidade profissional. Isso requer uma aproximação da noção do conceito de subjetividade, tanto na perspectiva individual quanto social, o que faremos ao longo deste material, justamente pelo fato de que a subjetividade caracteriza o indivíduo em sua singularidade. Necessário colocar que o conceito de subjetividade constará mais especificamente no final desta apostila, pelo fato de o considerarmos fundamental para um possível entendimento do conteúdo implícito no processo de construção das ações a serem desenvolvidas e, portanto, vivenciadas em seu amplo sentido no exercício da prática cotidiana. Ampliando esta possível contribuição, apresentaremos uma noção de território de exclusão social (ou de altíssima vulnerabilidade social), com suas identidades sendo construídas, uma vez que é nesse território que grande parte dos Assistentes Sociais desenvolve seu trabalho. Um território que suporta um grande número de famílias em situação de extrema privação. Apresentaremos, também, uma noção do conceito de família. Isso porque, na atualidade, esse conceito tem sido muito discutido e uma noção

deste faz-se necessária para que o trabalho possa ser desenvolvido dentro de pressupostos teórico-metodológicos. Apresentaremos, também, uma noção conceitual de trabalho socioeducativo, uma das funções que o Assistente Social tem exercido na sua prática profissional. Principalmente, quando este está vinculado a programas sociais de atenção à população em situação de altíssima vulnerabilidade, ou seja, em situação de risco e exclusão social. Por fim, mas sem esgotarmos nossa discussão, traremos um pouco de José Saramago, escritor português que, em sua obra Ensaio sobre a cegueira,

retrata de forma peculiar arranjos e desarranjos do cotidiano social. Seu olhar crítico e atual para as questões sociais parece desembrulhar um pacote onde podemos encontrar aspectos rudimentares da condição humana. O que nos leva a pensar as relações de convívio, de necessidades, de ambigüidades afetivas caracterizando nossa subjetividade.

É com imenso prazer que iniciamos nossa trajetória. Contamos com a

participação de vocês, prezados alunos, para essa nova construção. Afinal,

pensando a Psicologia Histórico-Cultural, o indivíduo se constitui mediante um processo dinâmico, uma construção contínua que implica, necessariamente, a relação com o outro.

O convite está feito.

I - Recordando

1.1 - O Símbolo da Psicologia:

I - Recordando 1.1 - O Símbolo da Psicologia: Este símbolo, aprovado em 31 de Ma

Este símbolo, aprovado em 31 de Março de 2006 pelo Conselho Federal de Psicologia – Resolução CFP nº 002/2006, foi projetado e criado pelo psicólogo Alex Sandro da Silva. É representado por duas serpentes que significam os saberes sobre a ciência Psicologia, dois Ramos de Louros que, classicamente, significam a glória, a honra, o orgulho, o triunfo, a vitória, a homenagem. Ainda, completando o símbolo da psicologia, contamos com a 23ª

letra do alfabeto grego “Ψ Psi”.

1.2 - Uma breve introdução à Ciência da Psicologia

O termo psicologia é, então, originário do grego psyché e logos. O significado do termo psyché é alma. O significado do termo logos é razão. Dessa maneira, em sua etimologia (na sua origem), a palavra psicologia significa o estudo da alma, ou seja, o estudo de um campo composto pelos sentimentos, afeto, desejos, emoções, além dos pensamentos, das sensações, das percepções. Isso significa dizer que, a psicologia, principalmente no campo das ciências humanas, estuda o ser humano em sua totalidade. Como campo das ciências humanas e biológicas, a psicologia é a ciência que estuda, além do desenvolvimento dos processos mentais e o comportamento do ser humano, o comportamento e processos de desenvolvimento dos animais. É, por assim dizer, uma ciência que vai além daquilo que é observável e mensurável (medido) pela razão. Busca, em certo

sentido, também explicar a complexidade dos fenômenos, a subjetividade, a singularidade das pessoas que, numa linguagem psicológica são considerados indivíduos ou sujeitos. E isso começou há muito tempo. A primeira tentativa de sistematização da psicologia deu-se na Grécia antiga, considerando o pensamento de alguns de seus filósofos.

considerando o pensamento de alguns de seus filósofos. Ruínas de Partenon – Grécia (séc. 5 a.C)

Ruínas de Partenon – Grécia (séc. 5 a.C) 1

Dentre esses filósofos, destacamos Sócrates (469-399 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.). Estes filósofos especulavam o homem e seu interior. Sócrates, por exemplo, preocupava-se com o limite que separava o homem do animal. Para ele, a principal característica humana era a Razão, que se sobrepunha aos instintos. Considerado “um parteiro das idéias” (maiêutica), lhe foi atribuída a autoria da frase “só sei que nada sei”.

atribuída a aut oria da frase “só sei que nada sei”. Sócrates 1 Figura das Ruína

Sócrates

1 Figura das Ruína de Partenon copiada do site: http://pegue.com/artes/partenon.htm - em 18/05/2008.

Assim, 2300 anos antes da psicologia se tornar científica, os gregos formularam duas teorias psicológicas: a platônica (acreditava na dicotomia entre corpo e alma e na imortalidade da alma) e a aristotélica (contrariava a dicotomia corpo e alma de Platão. Na filosofia de Aristóteles, a alma humana era dotada de mortalidade).

de Aristótele s, a alma humana era dotada de mortalidade). Platão 2 Aristóteles Para Platão ,

Platão 2

s, a alma humana era dotada de mortalidade). Platão 2 Aristóteles Para Platão , o homem

Aristóteles

Para Platão, o homem era dividido entre corpo e mente, isto é, matéria e alma, razão e emoção. A cabeça seria o lugar onde se encontrava a alma do homem, que era ligada ao corpo pela medula. Essa visão dicotômica levava Platão a acreditar que, na morte do homem, seu corpo (matéria) desapareceria enquanto sua alma ocuparia novo corpo. Aristóteles, por sua vez, mesmo tendo sido discípulo de Platão e considerado um dos mais importantes filósofos, considerava que alma e corpo não eram dissociados. Para ele, todo ser vivo possuía a sua própria psyché, a sua própria alma. A do homem abarcava a alma vegetativa (função de alimentação e reprodução), a alma dos animais (vegetativa e sensitiva, cuja função era a de percepção e movimento), além da alma racional que lhe atribuiu a função do pensamento. Com o surgimento do Império Romano, a história tomou um novo rumo. Houve o desenvolvimento do cristianismo que se tornou a principal religião da Idade Média. A psicologia, então, devido o poder econômico e político da Igreja Católica, foi relacionada ao conhecimento religioso. Destacaram-se, nesse

2 Figuras de Platão e Aristóteles copiadas do site: www.suapesquisa.com/platao/aristoteles - 17/05/08.

período, dois filósofos: Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino

(1225-1274).

Inspirado em Platão, Santo Agostinho acreditava na dicotomia entre corpo e alma. Havia, no entanto, uma diferença: para ele, a alma era imortal e ligava o homem a Deus. Já São Tomás de Aquino, apoiado em Aristóteles, pensava que o homem, na sua essência, buscava a perfeição através de sua existência. Mas, como também era ligado aos pressupostos da igreja, considerava que a busca de perfeição pelo homem nada mais era senão a busca de Deus. No Renascimento, ocorrem várias transformações. Há grande avanço das ciências. Em 1543, o polonês Nicolau Copérnico (astrônomo, matemático, Cônego da Igreja Católica, médico…) mostrou que a terra não era o centro do universo, e sim o sol. As experiências de Galileu Galilei (filósofo italiano, físico, matemático e astrônomo, considerado o pai da ciência moderna) com a física, propiciaram o início da sistematização do conhecimento científico.

o início da sistematização do conhecimento científico. Copérnico ( 1473-1543) Galileu (1564-1642) Ainda, o

Copérnico ( 1473-1543)

do conhecimento científico. Copérnico ( 1473-1543) Galileu (1564-1642) Ainda, o filósofo e matemático

Galileu (1564-1642)

Ainda, o filósofo e matemático francês René Descartes, conhecido como autor da frase “penso logo existo” ou "Eu duvido, logo penso, logo existo". Ao duvidar da própria existência e comprová-la, atribuindo-lhe a condição de pensamento, afirmou a dicotomia entre mente (alma, espírito) e corpo. Um dualismo que propiciou o avanço da Anatomia e da Fisiologia, isto é, o estudo do corpo humano morto (não mais tido como sagrado).

A partir deste breve histórico, chegam os à origem da Psicologia como ciência. Com o

A partir deste breve histórico, chegamos à origem da Psicologia como ciência. Com o advento do capitalismo (séc. XIX), o processo de industrialização exigiu novos conhecimentos sobre o homem, no sentido de se manter a nova ordem econômica e social. Na sociedade feudal, o homem tinha seu lugar social definido a partir de seu nascimento. Sua subsistência advinha da terra como principal fonte de produção. Era uma sociedade estática, que foi posta em movimento pelo capitalismo. Assim, os trabalhadores produziam cada vez mais para suprir o mercado, tornando-se, também, consumidores do que produziam. As hierarquias foram questionadas, desestabilizando a nobreza e o clero. O capitalismo trouxe movimento, possibilidade de mudanças, a impressão da igualdade de condições, produzindo não só mercadorias, mas, principalmente, necessidades.

Surgiu a burguesia (nova classe econômica e social), que propagava a emancipação do homem e a exploração da natureza em busca de matéria- prima. A ciência, então, enquanto possibilidade de desvendar a natureza e suas leis pela observação objetiva, tornou-se necessária.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, apontou para a importância da História na compreensão do homem. Charles Robert Darwin, naturalista britânico, apresentou sua tese sobre o evolucionismo, que

se dava por meio de uma seleção natural e sexual, a partir de um ancestral comum. Fato que lhe rendeu críticas e a caricatura abaixo.

3
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Darwin (1809-1882)

Para conhecer melhor o homem e seu psiquismo, foi preciso compreender seus mecanismos de funcionamento e seus pensamentos, mediante estudo de seu cérebro (Fisiologia, Neuroanatomia, Neurofisiologia). Daí, então, “libertando-se” da filosofia, a psicologia foi se constituindo como ciência. Considerado o pai da Psicologia Científica, Wilhelm Wundt (1832-1926) criou o primeiro laboratório de experimentos na área de Psicofisiologia, na Universidade de Leipzig (Alemanha) em 1875. O comportamento, a vida psíquica e a consciência foram definidos como objetos de estudo da psicologia. Preconizava a idéia de uma Psicologia “sem alma”, ligada à Medicina. Sugiram, assim, as primeiras abordagens em psicologia: o Funcionalismo (William James – 1842-1910), cujo funcionamento da

3 Caricatura publicada na revista Hornet, onde Darwin é retratado como um macaco. Fonte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin -acesso: 27/10/2008.

consciência era a preocupação central - “o que fazem os homens” e “por que o fazem”; o Estruturalismo (Edward Titchner – 1867-1927), preocupado com a compreensão da consciência como estruturas do sistema nervoso central; o Associacionismo (Edward L. Thorndike – 1874-1949), preconizava que a aprendizagem parte de um processo de associação das idéias mais simples às mais complexas. E, mediante algum tipo de compensação, tende-se a repetir determinado comportamento. No Século XX, surgiram importantes abordagens teóricas da ciência psicologia: o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise.

1.3 – O Behavirorismo

O Behaviorismo, com John B. Watson, tem o comportamento como objeto de estudo. Essa Psicologia estuda as interações entre o indivíduo e o meio no qual está inserido, atentando para as ações do indivíduo (respostas) motivadas pelo ambiente (estimulações). Como sucessor de Watson, B.F. Skinner (1904-1990) é considerado o mais importante Behaviorista. Desenvolveu o conceito do comportamento operante (representado pelo paradigma R S), isto é, operar sobre o mundo no qual o indivíduo vive, comportando suas ações e reações.

paradigma R → S ), isto é, operar sobre o mundo no qual o indivíduo vive,

Skinner nos apresentou as noções de reforço positivo e/ou negativo. Chama de reforço positivo quando se tem aumentada a probabilidade da resposta que o produz, ou seja, um certo condicionamento à resposta esperada. Por outro lado, chama de reforço negativo quando se tem aumentada a probabilidade da resposta que remova ou atenue determinado comportamento, ou seja, a possibilidade de extinção desse comportamento. Um exemplo clássico do behaviorismo é o experimento da Caixa de Skinner, como vimos no módulo anterior na disciplina Psicologia Geral, quando explicamos o processo de condicionamento de um rato de laboratório. Sugerimos que retomem esse experimento e outros exemplos da apostila em referência, no sentido de re-atualizarem as informações disponibilizadas.

1.4 – A Gestalt

A Gestalt, representada inicialmente por Max Wertheimer (1880-1916), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941), estuda os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, ou seja, quando o sujeito percebe um estímulo físico como forma diferente da realidade. Dessa maneira, a percepção é considerada aspecto fundamental para os gestaltistas, porque entre o estímulo do meio e a resposta do indivíduo há o processo de percepção. Este processo é singular, o que significa dizer que é próprio de cada indivíduo. A percepção é norteada no sentido de se alcançar o fechamento, simetria e regularidade constituintes de um objeto, ou seja, sua boa-forma. Importante colocar que esse processo é mediado pela interpretação do conteúdo percebido pelo indivíduo, o que, não raramente, favorece a ilusão de ótica. Esta, por sua vez, também deve ser superada para que a boa-forma seja alcançada. Além disso, quanto mais clara a boa forma for para o indivíduo, maior lhe será a noção entre a relação figura-fundo, o que implica privilegiar, frente a um contexto de percepção, alguns aspectos em detrimento de outros. No cinema, por exemplo, é comum fixar o olhar nos atores principais, desprestigiando tudo mais que compõe o campo de observação, isto é, o cenário a ser observado. Os atores principais, neste sentido, são percebidos

como figuras e o que complementa o cenário como fundo, uma vez pouco destacado pela percepção de do sujeito expectador.

Quadros e fotografias também servem de exemplos. Há, sempre alguma coisa (estímulo) que chama mais atenção do que outra. Dificilmente percebe-se

o todo. E, o que é percebido como figura por alguém, não necessariamente é

correspondido por outra pessoa. Isso porque, como foi colocado anteriormente, cada sujeito é único em sua singularidade. Portanto, também único em sua percepção.

Exemplos ilustrativos 4 da noção de boa-forma e de figura-fundo:

1º) Na figura abaixo a percepção é de que uma reta é maior do que a outra. Na realidade, ambas são idênticas.

maior do que a outra. Na realidade, ambas são idênticas. Exemplos de figura-fundo podem ser apreciados

Exemplos de figura-fundo podem ser apreciados nas figuras abaixo, apresentando-nos o fenômeno denominado insight: quando o indivíduo olha para uma figura que, inicialmente, não lhe faz sentido algum. Mas, de repente,

a relação figura-fundo torna-se clara e o indivíduo percebe a figura ali existente.

a) Jovem e velha

indivíduo percebe a figur a ali existente. a) Jovem e velha 4 Tanto a figura ilustrativa

4 Tanto a figura ilustrativa 1 (da noção de boa-forma), quanto as figuras a e b (noção figura-fundo) e as figuras de proximidade, semelhança e fechamento, são originárias da seguinte fonte internet:

www.ufrgs.br/faced/slomp/edu01135figuras.htm

b) velha e jovem

b) velha e jovem A Gestalt fala, ainda, na noção de campo psicológico , entendido como

A Gestalt fala, ainda, na noção de campo psicológico, entendido como um campo de força que leva o indivíduo a procurar a boa-forma. É um processo que ocorre mediante três princípios: o da proximidade, da semelhança e o do fechamento. Para relembrarmos:

que ocorre mediante três princípios: o da proximidade , da semelhança e o do fechamento .
que ocorre mediante três princípios: o da proximidade , da semelhança e o do fechamento .
que ocorre mediante três princípios: o da proximidade , da semelhança e o do fechamento .

Para Kurt Lewim, a realidade fenomênica da teoria de campo está vinculada à maneira como o indivíduo interpreta determinada situação, a partir de sua percepção, abarcando as características de sua personalidade, suas emoções, seu espaço de vida.

1.5 – A Psicanálise

Sigmund FREUD, médico vienense, considerado o pai da psicanálise, desenvolveu uma teoria de grande valor para a humanidade. Nas próximas linhas, discutiremos alguns aspectos relevantes desta abordagem da ciência da psicologia chamada de Psicanálise.

abordagem da ciência da psicologia chamada de Psicanálise. Freud (1856-1939) 5 Quando se fala em psicanálise,

Freud

(1856-1939)

5

Quando se fala em psicanálise, fala-se em uma ciência que investiga os processos do psiquismo humano, considerando, sobretudo, as fantasias, os sonhos, os esquecimentos, ou seja, os aspectos que compõem a instância psíquica que Freud chamou de inconsciente.

5 Foto copiada do site: http://educacao.uol.br/biografias/ult1789u287.jhtm - 18/05/2008.

6 A figura de um iceberg, conforme re tratada acima, pode ser vista como uma

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A figura de um iceberg, conforme retratada acima, pode ser vista como uma representação simbólica do psiquismo humano. A parte superior, que está acima do nível do mar, representa a instância psíquica do consciente. Já a parte inferior, infinitamente maior e imersa nas águas do oceano, representa os conteúdos do inconsciente que poderá se manifestar ou não. Isso porque, segundo a psicanálise, as forças do inconsciente “regem”, em certo sentido, as condutas do ser humano. Enquanto teoria, a psicanálise é vista como conjunto de conhecimentos sistematizados que busca dar um sentido, ou, de certa forma, explicar o funcionamento da vida psíquica. Enquanto método de investigação, a psicanálise utiliza-se da interpretação para significar e dar sentido às manifestações do inconsciente, isto é, uma forma de análise do material manifesto por meio dos sonhos, associações livres de idéias, atos falhos etc. Neste sentido, as ações e as palavras são muito importantes para o processo de investigação da psicanálise, uma vez que, de certa forma, “materializam” o conteúdo que está “oculto”, tornando-o consciente. No caso da prática profissional, a psicanálise utiliza a análise como forma de tratamento. Busca, dessa maneira, a cura do sujeito mediante processo de autoconhecimento, o que, necessariamente, perpassa pelo campo

6 Figura copiada do site WWW.wikipedia.org – acesso em 17/11/2008.

dos afetos, sentimentos, emoções que, no contexto das relações sociais podem se tornar geradores de sintomas. Os sintomas, enquanto manifestações geralmente físicas, anunciam que alguma coisa não vai bem com o sujeito. Podem ser percebidos em várias situações da vida cotidiana, principalmente relacionados a “doenças” diagnosticadas, com grande apelo ao senso comum, como de “fundo emocional”. As doenças do coração ganham destaque: taquicardia, palpitações, falta de ar (levando a um mal estar generalizado). Freud chamou de resistência a força psíquica que não permite um pensamento se tornar consciente. E, de repressão o conteúdo insuportável e doloroso que o sujeito deseja encobrir, ou seja, não quer que faça parte de sua consciência, localizando-se no inconsciente. Assim, a psicanálise é um método de investigação capaz de trazer à luz da consciência os conteúdos reprimidos pelo sujeito, levando-o à possibilidade de supressão de um sintoma. Em outras palavras, a possibilidade de cura. No tratamento individual, a psicanálise utiliza-se de um “divã” que é usado pelo paciente, ou seja, o analisando. Busca-se, dessa forma, um lugar que acomode o paciente, para que ele sinta certo conforto e possa manifestar conteúdos de sua vida a serem analisados.

possa manifestar conteúdos de sua vida a serem analisados. Divã de Freud 7 7 Foto copiada

Divã de Freud 7

7 Foto copiada do site: http://pt.wikipedia.org/wiki/sigmund_freud em 19/05/2008.

A psicanálise tem sido muito utilizada, também, para a análise e compreensão dos fenômenos sociais. Seu aporte teórico vem sendo usado como referência para a análise das diversas formas de sofrimento psíquico do sujeito. Neste sentido, destacamos a violência e sua banalização, as situações de pobreza e suas implicações na vida do sujeito e na sociedade na qual está inserido, a qualidade dos vínculos sociais, o individualismo, característica do sujeito da contemporaneidade e, muito discutida, a “crise de identidade”, retratando o sujeito cindido, fragmentado e, consequentemente, adoecido. A psicanálise busca entender como se processa os fenômenos sociais, para então, a partir desse entendimento, fazer uso de seus instrumentos e metodologias com a finalidade de contribuir para a possível minimização do sofrimento humano.

II - Próximos passos

Apresentaremos, a partir dessa atualização, breve histórico sobre o surgimento da Psicologia Social, destacando sua importância e relevância para o entendimento do contexto social. Em seguida, apresentaremos a visão de homem da Psicologia Histórico-Cultural, uma vez que ela é a base norteadora para nossas discussões. Ainda, discutiremos alguns conceitos que perpassam a intervenção profissional, buscando maior aproximação ao processo de construção de metodologias para o desenvolvimento da prática profissional do Assistente Social.

2.1- A Psicologia Social: breve histórico

2.1- A Psicologia So cial: breve histórico 8 Quando nos referimos à psicologia social, inevitavelmente estamos

8

Quando nos referimos à psicologia social, inevitavelmente estamos falando sobre os arranjos construídos para o bom funcionamento de uma sociedade. Neste sentido, a interação social, a interdependência entre os

indivíduos que compõem determinada sociedade e o encontro social destacam- se como objetos de estudo da psicologia social (Bock,2005).

A partir dessa forma de olhar os fenômenos sociais, apresentaremos

alguns conceitos que fundamentam esta perspectiva. Esta discussão será embasada no capítulo 9 do livro de Bock (2005). Neste, ela nos traz os conceitos de percepção social, a importância da comunicação, noções sobre atitude, o processo de socialização, grupos sociais e papéis sociais. Fala,

ainda, em uma nova psicologia social a partir da atividade, da consciência e da identidade.

A percepção social é entendida como um processo motivado por um

estímulo que, por sua vez, é significado pelo indivíduo. São elementos sociais que o indivíduo organiza em sua consciência, buscando sua compreensão e determinações. A comunicação é um processo que implica, necessariamente, a codificação e decodificação de uma mensagem. Essa mensagem pode ser verbal ou não verbal (gestos, desenhos e outros tipos de expressões que

8 Fernando Botero: Baile-2002 – Copiado site: http://oseculoprodigioso.blogspot.com-21/11/08.

buscam alguma forma de comunicação). Assim, pensando seus aspectos psicológicos, faz parte do s estudos da psicologia social “o processo de interdependência e de influência entre as pessoas que se comunicam” (Bock, 2005, p.136). Já as atitudes são vistas como “informações com forte carga afetiva, que predispõem o indivíduo para uma determinada ação”, o que chamamos de comportamento, além de contribuir para “certa regularidade na relação com o meio.” Dessa maneira, “nós não tomamos atitudes (comportamento ação), nós desenvolvemos atitudes (crenças, valores, opiniões) em relação aos objetos do meio social” (Bock, 2005, p.137). No que se refere ao processo de socialização, estamos considerando o engajamento do indivíduo nas crenças, nos valores, nas regras que compõem as significações sociais construídas no sentido de manter o funcionamento social mais próximo de certa harmonia. Entre a amplitude social e o indivíduo estão os grupos sociais (entendidos como pequenas organizações de indivíduos com objetivos comuns) que atuam como mediadores dessa socialização. Há, ainda, quando pensamos o funcionamento de uma sociedade, os papéis sociais prescritos, ou seja, o comportamento que se espera de determinado indivíduo em determinada posição; e o papel desempenhado, que pode ou não estar de acordo com o comportamento esperado, isto é, com o que está prescrito socialmente. Espera-se, por exemplo, de um aluno, quando falamos em papel prescrito, que ele leia os textos indicados, estude, faça as tarefas acordadas com o professor, pesquise e se responsabilize pela construção de sua identidade profissional. Porém, quando tratamos do papel desempenhado, nem sempre corresponde ao esperado, ou seja, ao papel prescrito. Isso porque, considerando o papel prescrito do aluno, nem sempre ele lê os textos indicados, acarretando certo despreparo para as discussões. Além disso, prática comum nas salas de aula, as conversas paralelas desviam a atenção do grupo, tornando, muitas vezes, as aulas cansativas e desprazerosas. Por outro lado, quando pensamos um professor que não se dedica à pesquisa, à leitura, por exemplo, seu repertório fica muito abaixo do esperado,

comprometendo a qualidade de suas aulas que, muito provavelmente, não se diferenciará de um discurso calcado no senso comum. Isso, de certa forma, favorece a dispersão do grupo, o desinteresse pelo tema discutido e, por assim dizer, o desprazer em aprender. Importante colocar que um papel prescrito, quando desempenhado na relação com o outro, favorece a aprendizagem de um papel complementar, como nos diz Bock (2005,p.140):

[…] quando aprendemos um papel social, aprendemos também o papel complementar, isto é, quando aprendemos a nos comportar como alunos, desde o início de nossa vida escolar, estamos também aprendendo o papel do outro com quem interagimos – o papel do professor.

Bock nos traz, também, um olhar sobre uma nova psicologia social. Esta nova psicologia busca romper com o modelo norte-americano pós-guerra que, com seu método descritivo, preconizava a construção de instrumentos e metodologias de intervenção no sentido de resultados imediatos, contribuindo para a manipulação e massificação social. Esta nova psicologia social busca, ainda, aprofundamento na investigação do psiquismo humano, considerando as relações sociais como base para a constituição do indivíduo a partir apropriação dos significados culturais construídos pelo próprio homem, como veremos na discussão sobre a abordagem da Psicologia Histórico-Cultural. Neste sentido, o mundo objetivo com o qual nos deparamos é visto como fator constitutivo da subjetividade do indivíduo. Isso porque, segundo Bock, “a subjetividade humana surge do contato entre os homens e dos homens com a Natureza, isto é, esse mundo interno que possuímos e suas expressões são construídas nas relações sociais” (p.141). Esta nova psicologia social propõe a atividade, a consciência e a identidade como conceitos básicos a serem analisados dentro de um contexto social. A atividade é concebida como o meio que favorece a apropriação dos significados culturais pelo homem. Isso significa dizer que o homem, ao atuar na sociedade, constrói o seu mundo interno ao mesmo tempo em que transforma o mundo no qual está inserido.

A consciência, também construída a partir da relação com o outro, norteia a relação do homem frente às experiências da vida cotidiana. Enquanto produto das relações sociais estabelecidas pelos homens, ela (a consciência) depende do mundo externo para se desenvolver, ou seja, das condições externas como o trabalho, a vida social e a linguagem, para então se constituir como um produto subjetivo da apropriação das significações culturais construídas pelo próprio homem. Completando os conceitos básicos da nova psicologia social, falamos em identidade enquanto “representações e sentimentos que o indivíduo desenvolve a respeito de si próprio, a partir do conjunto de suas vivências. […] é a síntese pessoal sobre o si-mesmo” (Bock,2005,p.145). Mais adiante, neste material, faremos uma discussão um pouco mais ampliada deste conceito, quando apresentaremos uma reflexão sobre a construção de identidade profissional. Para a nova psicologia social, portanto, “o homem é um ser social, que constrói a si próprio, ao mesmo tempo que constrói, com os outros homens, a sociedade e sua história” (Bock,p146). Assim, não há como estudar o homem em sua totalidade sem considerarmos o contexto no qual a história de determinada sociedade vem sendo construída, considerando, inevitavelmente, as relações estabelecidas, criadas, desenvolvidas e transformadas ao longo de um processo dinâmico e contínuo. Daí, então, a importância de atentarmos para o encontro.

então, a importância de atentarmos para o encontro . 9 9 Fernando Botero: Hombre y Mujer-2001

9

9 Fernando Botero: Hombre y Mujer-2001 -site: http://oseculoprodigioso.blogspot.com-21/11/08.

III - A Psicologia Histórico-Cultural ou Sócio-Histórica

III - A Psicologia Histórico-Cu ltural ou Sócio-Histórica VYGOTSKY (1896-1934) Lev Semenovich VYGOTSKY , nascido em

VYGOTSKY (1896-1934)

Lev Semenovich VYGOTSKY, nascido em Orsha – Bielarus, desenvolveu sua teoria buscando entender o funcionamento psicológico do ser humano, considerando seus aspectos biológicos e culturais. Em sua abordagem psicogenética, preocupou-se com a gênese do desenvolvimento psicológico humano, apontando para a transformação, mudança, emergência do novo para o indivíduo. Dessa forma, em uma perspectiva Histórico-cultural, aponta para duas pertinências humanas: materialidade do corpo, que é biológica e base material do funcionamento psíquico (destaca o cérebro e sua flexibilidade) e materialidade do histórico, que se dá culturalmente. Assim, podemos considerar três pilares básicos do pensamento de Vygotsky. O primeiro diz que as funções psicológicas têm suporte biológico: o cérebro; o segundo diz que o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, desenvolvendo-se num processo histórico; por fim, o terceiro pilar diz que a relação homem / mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos, sendo a linguagem o marco da humanidade.

Neste sentido, falamos em mediação simbólica no processo de aprendizagem, isto é, a idéia de algo interposto entre uma coisa e outra. A relação do homem com o mundo não é direta e sim mediada, pois inclui elementos do processo psicológico superior, tipicamente humano. Há algo

dentro do indivíduo (sistema psicológico) codificado, que está no lugar do conceito. Não nasceu com ele, é de origem cultural. Isso o leva a uma representação mental (que é simbólica) de um objeto qualquer. Ex.: carro. O indivíduo não precisa, necessariamente, ver um carro. A palavra carro o leva a imagem / representação de carro, uma vez já conhecido tal objeto.

Estes conceitos são importantes para nos aproximarmos da visão de homem da psicologia Histórico-Cultural. Visão esta que servirá de base norteadora das nossas discussões ao longo do curso, reafirmando a idéia de construção do indivíduo mediante certo controle dos instintos.

idéia de construção do indivíduo mediante ce rto controle dos instintos. 10 1 0 Yellow: por

10

10 Yellow: por Eliane Aguiar/2008

3.1 - Uma visão de homem

Desde a antiguidade, o homem tem sido objeto de observação e de estudos do próprio homem. Busca-se, de certo modo, entender o funcionamento dessa espécie que, pela diversidade de perspectivas e formas de se olhar para esse ser, tem sido estruturada a partir de uma visão dicotômica entre corpo e alma, razão e emoção. Amparada pelo caráter científico de algumas abordagens teóricas 11 , cuja contribuição para o desenvolvimento da psicologia como ciência é de valor inestimável, essa dicotomia entre razão e emoção, corpo e mente, corpo e alma, psíquico e somático também tem respaldado o senso comum. Um exemplo disso são as expressões usadas no dia-a-dia, diagnosticando ou explicando o que se passa com o outro: isso é emocional; ele (a) está estressado(a); ele(a) é racional ao extremo, parece que não tem emoção; ele (a) é neurótico, deprimido (a); você está (ou é) histérica etc. Essas e outras tantas expressões retratam um uso muitas vezes não apropriado de alguns conceitos científicos. É uma forma de popularização que, de certa maneira, parece reforçar um olhar reducionista sobre o homem e seu desenvolvimento. Afinal, estudar esse ser tão complexo significa ter de olhar para si mesmo, com certo rigor, capacidade de discernimento, critica apurada e bom senso. Além disso, para que seja possível entender o desenvolvimento de seu semelhante, o que deve se dar a partir de sua gênese, de sua historicidade, faz-se necessário manter certo distanciamento do objeto estudado. Isso porque, como dito anteriormente, é o homem estudando o próprio homem, fato que interfere na forma de olhar, de sentir e pensar o outro. Como dizem Bock, Furtado & Teixeira (2005, p. 21),

] [

inserido na categoria a ser estudada. Assim, a concepção de homem que o

o objeto de estudo da Psicologia é o homem, e neste caso o pesquisador está

11 O Behaviorismo ou Psicologia Comportamental, por exemplo, que pensou o homem como produto de condicionamentos, a Gestalt valorizou as experiências vividas e a Psicanálise enfatizou as forças que o homem não domina e não conhece, mas que o constituem. (Bock, 2001, p.16).

pesquisador traz consigo ‘contamina’ inevitavelmente a sua pesquisa em Psicologia. Isso ocorre porque há diferentes concepções de homem entre os cientistas (na medida em que estudos filosóficos e teológicos e mesmo doutrinas políticas acabam definindo o homem à sua maneira, e o cientista acaba necessariamente se vinculando a uma dessas crenças).

O senso comum, entretanto, construído a partir das relações cotidianas que permeiam o conhecimento espontâneo da realidade, é essencial para o desenvolvimento do conhecimento científico. É do cotidiano que emergem os fenômenos estudados pela ciência que, por sua vez, procura elucidá-los, compreendê-los, para então intervir nesse cotidiano e ser capaz de transformá- lo. Bock, Furtado & Teixeira (2005, P.16) colocam que

Quando fazemos ciência, baseamo-nos na realidade cotidiana e pensamos

sobre ela. Afastamo-nos dela para refletir e conhecer além de suas aparências. O cotidiano e o conhecimento científico que temos da realidade aproximam-se e se afastam: aproximam-se porque a ciência se refere ao real; afastam-se porque a ciência abstrai a realidade para compreendê-la melhor, ou seja, a ciência afasta- se da realidade, transformando-a em objeto de investigação – o que permite a construção do conhecimento científico sobre o real.

] [

Compondo um conjunto de conhecimentos sobre os aspectos da realidade cotidiana, a ciência caracteriza-se, principalmente, por determinar um objeto de estudos. Utiliza-se de técnicas e métodos específicos, juntamente com uma linguagem rigorosa, o que a diferencia do senso comum. Há o sentido de continuidade, ou seja, parte de algo já desenvolvido com intuito de ampliação de conhecimento. É, portanto, um processo que aspira à objetividade. Mesmo aspirando à objetividade, historicamente a compreensão científica de um fenômeno psicológico dá-se de forma incompleta. Referindo-se a Wundt (1832-1920), que em 1875 apresentou a Psicologia como uma ciência a partir das perspectivas mecanicista (por pressupor uma regularidade no humano) e determinista (por pressupor causas para o ‘efeito homem’ que observamos), também pensando o desenvolvimento das várias abordagens teóricas, Bock (2001,p.17) diz:

[

]

em qualquer dos lados do pêndulo, a compreensão do fenômeno psicológico é

incompleta, pois fica sempre faltando um lado. Esses aspectos não podem mais ser vistos como oposição um ao outro. Esses elementos são a contradição presente do fenômeno psicológico; enquanto não assumirmos esse movimento existente no interior do próprio fenômeno, não avançaremos na sua compreensão.

Como possibilidade de avançar na compreensão de um fenômeno, pensando na superação das visões dicotômicas que se têm do homem, Bock (2001) apresenta a Psicologia Sócio-Histórica que, por seus fundamentos epistemológicos e teóricos, tem a possibilidade de crítica, além de incentivar a produção de uma Psicologia dialética. Segundo essa autora, a Psicologia Sócio-Histórica - que toma como base a Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski (1896-1934) -,

Fundamenta-se no marxismo e adota o materialismo histórico e dialético como filosofia, teoria e método. Nesse sentido, concebe o homem como ativo, social e histórico. A sociedade, como produção histórica dos homens que, através do trabalho, produzem sua vida material. As idéias, como representações da realidade material. A realidade material, como fundada em contradições que se expressam nas idéias. E a história, como movimento contraditório constante do fazer humano, no qual, a partir da base material, deve ser compreendida toda produção de idéias, incluindo a ciência e a psicologia (p. 17 e 18).

Neste sentido, o homem é considerado como sujeito da própria história social, ao fazer história mediante sua relação com a natureza e com as outras pessoas (indivíduos) em condições já dadas, isto é, já existentes. Assim, a história é construção objetiva de homens concretos (síntese das múltiplas determinações) em determinadas situações objetivas, cujo conhecimento dela (história) ilumina o presente e aponta para novas tendências. Na produção social, o homem entra em relações determinadas que implica um certo grau de desenvolvimento de suas forças materiais de produção – considerada como estrutura econômica – base sobre a qual se eleva a superestrutura que corresponde à determinada consciência social, isto é, jurídica e política. Nesta forma de pensar, não é a consciência do homem

que determina sua existência e sim a existência social que determina sua consciência. Nessa dialética, o mundo não pode ser concebido como um mundo de coisas acabadas. Nada existe de definitivo, de absoluto. Tudo implica em movimento, que é o modo de existência da matéria. Dialética é, então, ciência das leis gerais do movimento, tanto do mundo exterior quanto do pensamento humano, é, por assim dizer, metamorfose. Na produção social de sua existência, o homem estabelece relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade. São relações de produção que correspondem a um dado grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais, determinadas pela produção social (relações de produção, forças produtivas, divisão social do trabalho etc.). Em síntese, nas palavras de Bock (2001, p.34), o materialismo histórico e dialético pode ser considerado como

uma concepção histórica, segundo a qual só é possível compreender a

sociedade e a história por meio de uma concepção materialista e dialética; ou seja, segundo a qual a história deve ser analisada a partir da realidade concreta e não a partir das idéias, buscando-se as leis que a governam (visão materialista); por sua vez, as leis da história são as leis do movimento de transformação constante, que tem por base a contradição; portanto, não são leis perenes e universais, mas são leis que se transformam; não expressam regularidade, mas contradição (visão dialética); nesse sentido, as leis que regem a sociedade e os homens não são naturais, mas históricas; não são alheias aos homens, porque são resultado de sua ação sobre a realidade (trabalho e relações sociais); mas são leis objetivas, porque estão na realidade material do trabalho e das relações sociais; entretanto, essa objetividade inclui a subjetividade porque é produzida por sujeitos concretos, que são, ao mesmo tempo, constituídos social e historicamente.

] [

Retomando, historicamente, com o advento do capitalismo, surgiu a burguesia com uma perspectiva liberal que se opôs ao sistema feudal até então existente. Na ordem feudal, predominava uma hierarquia no universo, isto é, um mundo tido como “estável, ordenado e organizado pela vontade divina” (Bock, 2001), e cujas verdades, idéias e valores estavam prontos para serem

adotadas pelos homens, determinando, inclusive, o lugar que deveria ser ocupado por ele desde o seu nascimento. Não havia individualidade. Era um mundo sem movimento. Nascido com a revolução burguesa, a perspectiva liberal do capitalismo passa a valorizar o indivíduo como ser único, dotado de livre-arbítrio e com direito à segurança, liberdade, igualdade e à propriedade. Ao necessitar do individuo como ser produtor e consumidor, uma vez que explorava a natureza em busca de matérias-primas e então dessacralizá-la, o capitalismo dá o sentido de movimento para o mundo. As certezas e verdades pré-concebidas deixaram de ser únicas. O mundo passou a ser um mundo de possibilidades, permitindo ao homem o sentido de ser, pensar e agir, isto é, a noção de eu individual, capaz de escolhas. Assim, segundo Bock (2001, p.19),

A noção de eu e a individualização nascem e se desenvolvem com a história do capitalismo. A idéia de mundo ‘interno’ aos sujeitos, da existência de componentes individuais, singulares, pessoais, privados toma força, permitindo que se desenvolva um sentimento de eu. A possibilidade de uma ciência que estude esse sentimento e esse fenômeno também é resultado desse processo histórico. A psicologia se torna necessária.

Neste sentido, a Psicologia Sócio-Histórica passa a pensar o homem a partir de sua realidade social, econômica e cultural. Busca, ainda, romper com a idéia de homem cindido, cuja dicotomia entre corpo e alma, razão e emoção preponderava. Assim, para essa psicologia, há o fenômeno psicológico que se

natureza Humana; não é

desenvolve ao longo do tempo e não pertence à “[ pré-existente ao homem”. Para Bock (2001, p.22),

]

Falar do fenômeno psicológico é obrigatoriamente falar da sociedade. Falar da subjetividade humana é falar da objetividade em que vivem os homens. A compreensão do ‘mundo interno’ exige a compreensão do ‘mundo externo’, pois são dois aspectos de um mesmo movimento, de um processo no qual o homem atua e constrói/modifica o mundo e este, por sua vez, propicia os elementos para a constituição psicológica do homem.

A concepção de homem para esta disciplina é, portanto, a da perspectiva crítica da Psicologia Sócio-Histórica (Histórico-Cultural), uma vez

que esta propõe pensar o homem a partir da realidade social na qual se está inserido, isto é, não devemos pensar a realidade econômica, social e cultural como algo externo e não pertencente ao homem. Em síntese, apontamos esse homem visto por Bock,Furtado & Teixeira (2005, p.22,23),

] [

cercam. [

comportamento) e as invisíveis (nossos sentimentos) as singulares (porque somos o que somos) e as genéricas (porque somos todos assim) – é o homem-corpo, homem-pensamento, homem-afeto, homem-ação e tudo isso está sintetizado no

termo subjetividade. [

a subjetividade é a síntese singular e individual que cada

é o homem em todas as suas expressões, as visíveis (nosso

como ser datado, determinado pelas condições históricas e sociais que o

]

]

um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos

que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social.

Contrapondo a idéia de um desenvolvimento natural do ser humano, a Psicologia Sócio-Histórica (Histórico-Cultural) de Vygotsky fala em conquistas, isto é, um trajeto construído socialmente pelo homem no desenvolvimento de atividades que, ao se consolidarem como possibilidades a outros seres da mesma espécie, passam a ser reconhecidas como elementos sociais e culturais do conhecimento, essenciais na constituição do ser humano. Como exemplo, podemos citar a linguagem escrita e falada, características essencialmente humanas, adquiridas - mediante possibilidades cognitivas - quando inserido em um contexto social e cultural. Diz Bock

(2001,p.29),

] [

desenvolvimento humano em uma certa direção. As estimulações, as referências, os modelos e os instrumentos da cultura direcionam o desenvolvimento humano para aquele determinado fim. E nós, seres plásticos, nascidos candidatos à humanidade, pouco a pouco nos conformamos a essa imagem, a esse modelo

humano.

se não tivermos acesso a essas ‘estimulações’, a esses

a cultura, as relações sociais e as atividades humanas apontam para o

[

]

‘treinamentos’, poderemos não apresentar todas as características que a

tudo o que apresentamos como humano, embora

certamente implique a existência de um corpo com determinadas características

humanidade conquistou; [

]

da espécie animal à qual pertencemos, é obtido nas relações sociais, nas atividades e na cultura.

Para a psicologia Histórico-Cultural há dois tipos de mediadores: os instrumentos ou ferramentas e os signos. Os instrumentos ou ferramentas são elementos mediadores entre o homem e o mundo, de forma direta, concreta. É visível por estar fora do corpo do homem. É uma mediação que se dá pela técnica e regula as ações sobre o objeto. Exemplo: a faca corta melhor do que

a mão. Já os signos apresentam a idéia de representação. São externos e há materialidade, mas a função é simbólica e o significado, bem como sua função,

é atribuída pelo próprio indivíduo. Exemplo: “amarrar fio no dedo para lembrar

de algo”. Os signos regulam as ações sobre o psiquismo humano e, enquanto criações culturais externas são internalizados, tornando-se conteúdos mentais, isto é, passam a ser uma representação. Importante colocar que tanto os instrumentos quanto os signos ampliam

e potencializam a capacidade humana. No signo, o alargamento é psicológico. Neste sentido, aprendemos e nos desenvolvemos, uma vez que não nascemos com conteúdos prontos e sim com potencialidades. O indivíduo só aprende quando em contato com certo ambiente cultural, valorizando, assim, o papel do outro social no seu desenvolvimento. É a partir da relação estabelecida com o outro, portanto, que o indivíduo vai se constituindo como indivíduo social, afirmando suas diferenças e, inevitavelmente, construindo sua (s) identidade (s).

IV - O processo de construção de identidade(s)

IV - O processo de constr ução de identidade(s) 12 Quando se fala em identidade, gera

12

Quando se fala em identidade, geralmente a primeira imagem que vem à cabeça é a da carteira de identidade, destacando um nome próprio, sobrenome (indicando a família a qual se pertence), a naturalidade e a nacionalidade, além do estado e cidade de emissão do documento. Estas informações são condensadas em um número de registro geral (o RG) que, em diversas situações, é o que identifica o sujeito. No entanto, anterior ao RG, há a certidão de nascimento. Oficialmente, é a partir dela que o sujeito passa a ser reconhecido como cidadão, nomeado e devidamente registrado em um cartório, o que podemos considerar como sua primeira identidade. Segundo Ciampa (2005, p.138), “a questão do nome não se restringe à relação com a família. Refere-se também à nossa localização na sociedade, totalidade da qual a família é parte, mediação entre indivíduo e sociedade”. Por isso, o registro de nascimento habilita o sujeito à aquisição da carteira de identidade, com a qual se identifica e pode ser identificado como um cidadão capaz de autonomia. O que temos observado, no entanto, é que um registro de nascimento, uma carteira de identidade, um nome e tudo mais que advém dessa prática social não garantem ao indivíduo o status de cidadão. Afinal, são tantas pessoas que, mesmo portadoras de carteira de identidade, continuam

12 Modelo site HTTP://portal.rpc.com.br – acesso: 12/11/2008

anônimas e afastadas do acesso aos seus direitos à saúde, à educação, ao trabalho, ao lazer etc. Isso nos atualiza a idéia de que uma identidade é muito mais do que um documento que informa sobre o indivíduo. É, por assim dizer, a complexidade da constituição de um indivíduo que, para ser compreendida, segundo Ciampa (2005,p.139), “precisamos captar os significados implícitos, considerar o jogo das aparências. A preocupação é com o que se oculta, fundamentalmente com o desvelamento do que se mostra velado”. Propomos, então, uma discussão sobre a construção de identidades e sua complexidade, pensando a construção de identidade profissional do Assistente Social.

4.1 - Um pouco de história

Hall (2005) apresenta-nos uma discussão muito interessante sobre o conceito de identidade. Alerta-nos, entretanto, para o fato de que não está oferecendo afirmações conclusivas sobre o tema em questão, atribuindo-lhe complexidade e necessidade de ampliação e desenvolvimento de estudos que possam elucidar e enriquecer as noções desse conceito. Inicia, assim, seu livro A identidade cultural na pós-modernidade dizendo que, devido a um processo de mudança responsável por afetar algumas estruturas sociais que davam certa estabilidade aos indivíduos, estamos vivendo, provavelmente, uma “crise de identidade”. Diz ele:

[…] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social (p.7).

Situando-nos historicamente, Hall (2005) fala em três concepções de identidade: a do sujeito do Iluminismo, a do sujeito sociológico e a do sujeito

pós-moderno. A concepção do sujeito do Iluminismo era “individualista”, isto é,

a de um indivíduo usualmente masculino, centrado e unificado, privilegiado

pela razão. Emergia em seu nascimento um centro que, ao longo de sua vida, permaneceria o mesmo. Dessa maneira, “[…] o centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa” (p.11). Na concepção de sujeito sociológico também há um núcleo, um centro,

uma essência interior. No entanto, ele é formado e se modifica na relação com

o universo cultural exterior aos sujeitos. Assim, a identidade é construída a partir da ‘interação’ entre o eu e a sociedade, contrapondo-se à idéia de autonomia e auto-suficiência do núcleo interior do sujeito. Neste sentido, segundo Hall (2005, p.12),

[…] O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.

Isso introduz a caracterização de uma concepção atualizada de um indivíduo, cuja identidade é construída e transformada num processo contínuo

e dinâmico de interação social. Destitui-se, assim, a noção de identidade fixa, essencial, unificada, permanente. Definida historicamente, as identidades de um indivíduo são diversas, contraditórias e apontam para várias direções e objetos diferentes. Há, conforme Hall (2005,p.13), uma “pluralização de identidades”:

[…] Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa do eu” […] à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.

São essas identificações que caracterizam as identidades de um indivíduo, compondo sua singularidade mediante as relações estabelecidas ao longo de sua vida, o que configura seu “estar” no sentido de pertencimento à dinâmica constituinte de determinada sociedade.

4.2 - Nos dias de hoje

Se nas sociedades tradicionais as experiências de gerações eram perpetuadas, considerando a existência de um centro como princípio articulador e organizador único, nas sociedades modernas as mudanças rápidas e contínuas, além do apreço às diferenças, são fatores preponderantes na constituição do indivíduo. Esses fatores são, muitas vezes, geradores de tensão até para o indivíduo que se vê motivado por sua capacidade reflexiva de vida, por caracterizar um processo que implica movimento e transformações contínuas. Entre diferenças, fragmentações, rupturas e descentrações apontadas por Hall (2005), uma característica de identidade evidencia-se nas relações sociais: a da descontinuidade. Isso porque, se antes, pensando o evolucionismo, a história podia ser contada como “enredo”, isto é, dotada de uma seqüência lógica e organizada, hoje esse enredo não mais se sustenta em princípios unificadores de organização e transformação. Dessa forma, o que era pré-concebido já não é mais sabido de antemão, principalmente pelo advento de uma interconexão que abarca os “quatro cantos do mundo”, chamada de globalização, oferecendo ao indivíduo o acesso a uma amplitude de informações, de imagens, de diferentes culturas, levando-o a possibilidade de novos conhecimentos. A globalização, como universo ampliado e dinâmico colocado à disposição do indivíduo, propicia-lhe repensar sua própria história, pluralizar seu enredo e renovar suas possibilidades, potencializando a construção de novas identidades dentro de um mesmo contexto social. Por ser um fenômeno que favorece a aproximação de comunidades, povos, culturas, no sentido de divulgação de diferenças e semelhanças, do que

não existia e passou a existir, do que era apenas fruto do imaginário e agora se apresenta como não imaginável, a globalização pode ser vista como fator causador de tensões. Uma dessas tensões manifesta-se entre o “global” e o “local”, entre o “espaço” (que está ao alcance do sujeito, principalmente via meios e veículos de comunicação) e o “lugar” (que permanece fixo, é concreto, específico, familiar, delimitado: “o ponto de práticas sociais específicas que nos moldaram e nos formaram e com as quais nossas identidades estão estreitamente ligadas […]” (Hall, 2005, p. 72). Essa tensão influencia a história do sujeito e, conseqüentemente, a construção de suas identidades. Como nos diz Hall (2005,p.74,75):

À medida em que as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural. (…) Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicas parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentro as quais parece possível fazer uma escolha.

Sawaia (2002), refletindo o uso do referencial da identidade na dialética inclusão/exclusão, coloca que a autonomia das escolhas pode ser favorecida com o enfraquecimento da tradição, desde que acompanhada de atitude reflexiva. O impedimento da reflexão pode causar “sofrimento de diversas ordens e mecanismos defensivos, fundamentalistas e apartheid, sendo um dos mais comuns a busca de parâmetros fixos de identidade” (p.121). Aponta Sawaia, dessa maneira, para um “subtexto paradoxal” ao se referir à identidade como tema recorrente nas análises dos problemas sociais:

Numa visão aparencial, a explicação dos paradoxos pode estar na existência de duas concepções antagônicas de identidade: a identidade transformação/multiplicidade e a identidade permanência/unicidade e a concepção de que um é modelo de normalidade e outro de patologia. Ledo engano. Uma

concepção não anula a outra, e uma não é melhor que outra, ao contrário, a tensão entre ambas permite conceber a identidade como “identificações em curso”, isto é, identidade que, ao mesmo tempo que se transforma, afirma um “modo de ser” (p.121).

A possibilidade de fazer escolhas também sugere tensão, mesmo respaldado por uma possível busca de parâmetros fixos de identidade, porque coloca o sujeito na condição de responsável por cada uma delas. Responsabilizar-se significa assumir as implicações oriundas de suas ações, ou mesmo de sua passividade, de seu estar no mundo, porque à responsabilidade “[…] não comporta somente a intencionalidade do sujeito, mas também os efeitos que nossa ação produz nos sistemas de relação aos quais pertencemos e os vínculos que destes recebemos” (Sawaia, 2002, p. 67, 68) e cujas mudanças parecem anteceder o imaginário. Neste sentido, contribuindo para ampliação da nossa consciência, as palavras de Melucci (2004, p.60,61) são ecoadas:

Encontramo-nos, pois pertencendo a uma pluralidade de grupos gerada pela multiplicação dos papéis sociais, das redes associativas e dos grupos de referência. Entramos e saímos desses sistemas com mais freqüência e rapidez do que no passado (…). Participamos, na realidade e no imaginário, de uma infinidade de mundos (…). Isso comporta uma pressão constante à mutação, à transferência, à tradução daquilo que éramos um segundo atrás para novos códigos e novas formas de relações. (…) O ritmo da mudança sofre uma aceleração extraordinária. A multiplicação das nossas participações sociais e a quantidade excessiva de possibilidades e de mensagens ampliam desmedidamente o campo de nossa experiência.

Ao ter o campo das experiências ampliado, cujo ritmo acelerado exige do sujeito, freqüentemente, um fôlego muito maior do que sua capacidade, não há como se manter estável em suas determinações. Isso, no entanto, “não descarta a necessidade de unidade, a procura de permanência na mutação” (Melucci, 2004, p.68). Se a questão que se coloca aqui é como manter a própria unidade sem deixar de acompanhar esse processo acelerado de transformação, o próprio Melucci (2004,p.69) diz que

[…] a única saída é aprender a abrir e fechar, a participar e subtrair-se ao fluxo das mensagens, à chamada dos possíveis e às exigências dos afetos. Torna-se, dessa maneira, vital para cada um de nós descobrir um ritmo de entrada e de saída das relações que nos permita dar e receber informações sem perder o sentido da comunicação e sem que se esvazie o ato de comunicar.

Nos dias de hoje, portanto, ainda segundo Melucci (2004,p.70),

[…] a continuidade da experiência individual não pode mais ser confiada a uma identificação estável com um modelo, um grupo, uma cultura – e talvez até mesmo com uma biografia. […] A nossa identidade deve ser radicada no presente, para poder fazer frente às transformações e para atravessar as metamorfoses que

caracterizam o curso da vida.

Podemos dizer, então, que a construção de identidade está vinculada às determinações sociais, aos vínculos estabelecidos entre os indivíduos. É a partir da relação que o indivíduo habilita-se a fazer escolhas que acompanharão o percurso de sua vida, influenciando sua conduta nas esferas privada e social. O que prevalece, neste sentido, é o processo, a dinâmica, o movimento. Dessa maneira, vivenciar esse processo é, talvez, como diz Silva (2008), “suportar a inevitável descontinuidade sem se colocar à deriva”. Ciampa (2005), também contribui com nossa discussão. Em um ensaio de psicologia social, oferece-nos um estudo cuidadoso sobre a identidade como metamorfose, isto é, como processo inexorável (implacável e inflexível) ao qual, consciente ou não, o indivíduo vê-se submetido a transformações permanentemente. Para esse autor, uma identidade deve ser vista como questão social e política, não se restringindo às questões acadêmicas e científicas, uma vez que ela (identidade) “concretiza uma política, dá corpo a uma ideologia” (p.127). Defende a tese de que “identidade é metamorfose. E metamorfose é vida” (p. 128) e que cada indivíduo

[…] encarna as relações sociais, configurando uma identidade pessoal. Uma história de vida. Um projeto de vida. Uma vida-que-nem-sempre-é-vivida, no emaranhado das relações sociais. […] No seu conjunto, as identidades constituem

a sociedade, ao mesmo tempo em que são constituídas, cada uma por ela (p.

127).

No campo das relações sociais, as múltiplas identidades do indivíduo manifestam-se a partir do contexto vivenciado e dos propósitos a que se destinam. Em uma atuação profissional, por exemplo, o indivíduo não se vê livre de seus papéis de pai, marido, filho, mulher, homem etc., o que pode interferir no exercício da sua prática profissional de forma não apropriada. Assim, se não houver um preparo para lidar com as diversas situações de sua prática, muito provavelmente, algumas identidades se confundirão, fazendo com que o profissional identifique-se com a situação vivenciada, não se diferenciando e, portanto, distanciando-se de sua função de agente facilitador da transformação da realidade na qual intervém. Por fim, há, talvez, um grande desafio na constituição da identidade profissional do Assistente Social. Ao estudar a religião no Serviço Social, Simões Neto (2005) diz que a gênese das práticas da assistência social no Brasil dá-se a partir da iniciativa da Igreja Católica, que tem como pressuposto a ação voluntária exercida na fé e na esperança, preconizando a igualdade de condições entre as pessoas como princípio básico para se estabelecer uma sociedade “justa”. Assim,

[…] os assistentes sociais brasileiros entendem a ajuda social como forma verticalizada de utilização do poder profissional, para a correção das injustiças sociais, não na sua fonte (o que seria ideal, no entendimento dos próprios), mas nos seus resultados (p.102).

Simões Neto (2005) ainda fala em certo “imobilismo metodológico” do assistente social, uma vez que seu “projeto profissional” está focado na sociedade, isto é, baseado em afirmação de valores, tais como: “sociedade justa”, “por valores democráticos” e por “igualdade”, o que pode ser “[…] lida como uma conotação religiosa” (p.151,152). Afirma ainda que, na prática social, ao não se estabelecer uma metodologia interventiva, cria-se “uma lacuna para que recursos como a intuição e o senso comum, aliados a outros procedimentos, estranhos à finalidades profissionais, sejam utilizados no cotidiano de trabalho” (p.152).

Uma identidade profissional, portanto, independentemente da fé e da esperança, pressupõe um contexto teórico no desenvolvimento de competências específicas para determinada atribuição. A academia (a universidade) apresenta-se, dessa maneira, como um espaço privilegiado para a construção de saberes norteadores da prática cotidiana. O sentido que prezamos, pensando a construção de identidade profissional do Assistente Social, não é o da formatação de condutas ou a simples transmissão de conceitos e metodologias a serem aplicadas e replicadas no dia-a-dia. Ao contrário, uma formação profissional que lhe assegure o desconstruir para re- construir, o significar e o ressignificar como processo dinâmico de constituição de uma nova identidade (Silva, 2008).

de constituição de uma nova identidade (Silva, 2008). 13 1 3 Modelo site: http://pt.wikipedia.org - acesso

13

13 Modelo site: http://pt.wikipedia.org - acesso em 12/11/2008.

4.3 - As identidades compondo uma noção de território de exclusão social

compondo uma noção de território de exclusão social 14 15 1 4 Favela de Heliópolis –

14

compondo uma noção de território de exclusão social 14 15 1 4 Favela de Heliópolis –

15

14 Favela de Heliópolis – SP. 15 Favela Jardim Edith – SP.

Além da privação de educação, trabalho, saúde, lazer e a precariedade de infra-estrutura, obrigando famílias quase sempre numerosas a viverem em casas pequenas e desconfortáveis, cômodo e banheiro, barraco ou qualquer outro tipo de alojamento, muitas vezes, essas mesmas famílias sofrem com a necessidade de ter de pagar aluguel e, não raramente, pagar também por segurança. Algo que chama nossa atenção nesses territórios considerados de altíssima vulnerabilidade e de exclusão social é o número muito grande de mulheres exercendo o papel de chefe de família. Na sua condição de desempregado, o homem se desqualifica como provedor e, com muita freqüência, abandona a família. Em outros casos, entrega-se à bebida, tornando-se extremamente agressivo e um grande peso para a família que, cansada dessa situação, expulsa-o de casa. Dessa forma, já sobrecarregada de seus afazeres, a mulher também assume a responsabilidade do sustento da família. Sustentar uma família nessas condições de precariedade exige demais desses homens e dessas mulheres. Às vezes, não há como suprir as necessidades materiais básicas e, muito menos, responder aos pedidos dos filhos quanto à vontade de comer um doce, tomar um iogurte, ter uma boneca que aparece na televisão, roupa, calçado e outras tantas coisas desejadas. Mas, pela real impossibilidade de aquisição, vários objetos de desejos são considerados, por muitas dessas pessoas, como “supérfluos”. Uma outra forma de viver nesses territórios é fechar os olhos ao domínio do tráfico, principalmente o das drogas, que impõe seu poder e submete a população aos seus caprichos. São crianças, jovens, adolescentes e adultos prestando algum tipo de serviço para o tráfico que, em contrapartida, oferece um rendimento financeiro que, muitas vezes, serve para compor ou é a única fonte de renda familiar. O tráfico, considerado uma força paralela a do Estado, supre, freqüentemente, algumas das necessidades básicas dessa população carente de atenção: remédios, cestas básicas, segurança etc. Subverte, dessa maneira, a moralidade do cidadão que não é reconhecido e também não se reconhece como sujeito de direitos.

Participar do tráfico significa, também, uma forma de se fazer existir, mesmo que por curto espaço de tempo, porque, freqüentemente, encontra-se a morte antes dos vinte e cinco anos de idade. Isso não parece ser um fator tão preocupante para uma parte significante dessas pessoas, uma vez que, além de garantir o sustento da família ou complemento de renda, adquirem, mesmo que por vias tortas, visibilidade, algum respeito e certo status de pertencimento (Silva, 2008). Há, no entanto, entre as vielas, pinguelas, panelas quase vazias e animais em grande número (que nem sempre são de estimação), muito mais do que as mazelas comuns aos territórios de altíssima privação e de exclusão social. Com certo cuidado no olhar e disponibilidade de enfrentamento dessa situação que se apresenta tão desfavorável à condição humana de viver com alguma dignidade, o Assistente Social pode descobrir dados importantes da constituição de determinado território, evidenciando suas potencialidades e às de quem nele vive. Uma forma de ajuda à população em situação de risco e exclusão social, segundo Silva (2008), dá-se mediante programas sociais oriundos de políticas públicas, cujo caráter esbarra em uma visão quase sempre assistencialista. É um modo de atuação do Estado que, de certa maneira, mantém a inércia de boa parte dessas pessoas que, habituadas ao descompasso, assumem um compasso de espera. Ao se falar em algum tipo de atenção voltada à população em situação de risco e exclusão social (considerando, como exemplo, o município de São Paulo), a indicação dos territórios que devem ser assistidos consta, invariavelmente, do Mapa da vulnerabilidade social no município de São Paulo 16 . Buscou-se, dessa forma, identificar as diferentes carências sociais da

16 Construído em 2002/2003 - Parceria da SAS (Secretaria de Assistência Social) com o CEM (Centro de Estudos da Metrópole) e CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o Mapa da vulnerabilidade social no município de São Paulo advém da identificação dos distritos que apresentam maior grau de exclusão social, conforme pesquisa do Mapa de exclusão /inclusão social da cidade de São Paulo – 2002, produzida pelo Núcleo de Seguridade e Assistência Social da PUC/SP, em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Instituto Pólis, sob coordenação da Profª Drª Aldaiza Sposati. O Mapa de exclusão /inclusão social da cidade de São Paulo aponta para uma divisão geográfica de território, denominando as áreas demarcadas de distritos, cujos recursos de infraestrutura básica praticamente inexistem, além da carência de uma rede de serviços e apoio à população. (KOGA,D. e RAMOS, F. Territórios e políticas públicas. (In: WANDERLEY,M.B. e OLIVEIRA,I.I. de M. C. Texto 5 – 2004).

população, mediante análise da distribuição da estrutura socioeconômica no espaço urbano, dando visibilidade à precariedade de lugares ocupados por muitas pessoas, denunciando a falta de recursos de infra-estrutura básica, bem como à carência de uma rede de serviços de apoio à população. Mais do que isso, procurou-se atentar para as necessidades dos territórios enquanto áreas de potencialidades, uma vez que a possível noção de materialidade colada à palavra território, reforçando a condição de lugar onde se pisa, onde se vive em determinado espaço físico, também abarca o lugar onde o sujeito sonha, emociona-se, e busca seu pertencimento. Mesmo que, num primeiro momento, um território pareça absorver um amontoado de pessoas, é importante que se tenha a clareza de que cada pessoa é um indivíduo e possui uma história que abarca as frustrações, mas não ignora os sonhos. Assim, qualquer tipo de intervenção requer uma aproximação que deveria se dar aos poucos, cuidadosa e respeitosamente, tendo na qualidade de escuta o instrumento principal para conhecer as histórias individuais que se inter-relacionam, formando as identidades de um lugar (Silva, 2008). Um território é mais do que um pedaço de terra, aparentemente despotencializado, inserido em um mapa. Com a intervenção de quem nele vive, um território sofre transformações e também propicia a transformação das pessoas que nele investem energia e afeto. Uma história é construída, significada e ocupada de detalhes que escapam ao imediatismo de quem, em certo sentido, invade um lugar, um espaço, um território com idéias de intervenções já prontas. Pensando a atuação do Assistente Social como agente de transformação, há uma necessidade, assim nos parece, de ampliação de seu olhar, principalmente para uma noção de território que não se limitasse às divisões estáticas apresentadas nesses mapas. Nessa reflexão, atentamos para o fato de que a noção de território dá-se a partir de uma dialética entre o território vivo (com suas potencialidades) e a complexidade de seus atores. Diz Santos (In: Koga, 2003):

O território em si, para mim, não é um conceito. Ele só se torna um conceito utilizável para a análise social quando o consideramos a partir de seu uso, a partir

do momento em que o pensamos juntamente com aqueles atores que dele se utilizam. (p.35)

O espaço de vida, nesta forma de pensar o território, abarca as práticas

cotidianas dos atores sociais em relação ao território vivido (moradia), os locais freqüentados (trabalho, escola, lazer, saúde etc) e o território sonhado, desejado, ou seja, aquele que se dá a partir da falta. É, de certa forma, o que

diz Di Méo (In: Koga, 2003, p.37) ao fazer uso de um verbo:

Territorializar é construir e reconstruir sem cessar pelo comportamento do ator social, materialmente e em suas representações: pelo indivíduo e seu grau de poder ou de influência; para o indivíduo é uma alquimia entre o pessoal e o coletivo, onde nosso aparelho cognitivo não pode inventar tudo.

Podemos pensar em apropriação de determinado território a partir da intervenção de seus atores, bem como as relações estabelecidas entre os

mesmos, num constante criar, recriar, significar e ressignificar. Isto é, uma conjuntura de relações, condições e acessos. Para que isso seja possível, qualquer forma de intervenção, considerando aqui, principalmente a do Assistente Social, deveria, além de outras tantas possibilidades, encarar a realidade dessa população enfatizando a necessidade do despertar para as potencialidades ambientais, individuais e coletivas, evitando privilegiar a carência instaurada em suas vidas.

É neste sentido que se faz necessária a busca pela história do território,

sua subjetividade e identidade construída mediante as diversas relações nele estabelecidas ao longo do tempo. A capacidade de se dar escuta às vozes dos inúmeros atores que o compõe é, então, de extrema importância ao se pensar

a noção de território enquanto lugar dinâmico que propicia relações,

significações e ressignificações. Ao Assistente Social caberia, neste contexto, atuar junto dessa população como agente facilitador da ressignificação da história do território vivido, em suas versões individuais, familiares e grupais, aproveitando o que o território, o chão e o ambiente têm para oferecer, mediante as relações de potencialidades entre seus atores e as suas dimensões indissociáveis, isto é, a econômica,a geográfica, a ecológica, a cultural e a social.

É justamente a partir do conhecimento da identidade de um território, evidenciada mediante diálogo das relações, que se pode praticar experiências de mudanças, de transformação. Dessa maneira, o território também é visto como um “ator”, portador de uma identidade em construção, cujos colaboradores, ou seja, os atores que se constituem nesse e desse processo, evocam a idéia de identidade e pertencimento a um lugar que possui uma história a ser revelada. Diante das noções trabalhadas até agora, podemos inicialmente pensar o território como espaço físico, solo, terra, dotado de potencialidades. No entanto, para se constituir como tal, há a necessidade de intervenção de um outro (aqui consideraremos o homem) que, no mínimo, o nomeie. Ao dar um nome a determinado espaço de terra, o sujeito passa a interferir na história natural desse lugar, levando-o à constituição de um lugar também ator e passível de identificações (Silva, 2008). Em vários casos, determinado lugar é conhecido não só pelo nome, mas também por um apelido que, de certa forma, evidencia alguma característica do território vivido e, muitas vezes, do sonhado. Estabelece-se, então, um campo de relações que realça as necessidades, as faltas sentidas e vivenciadas pelos seus atores, como também as possibilidades de pertencimento a um lugar em contínua construção. Diz Melucci (2004, p.39):

Cada vez que damos um nome àquilo que provamos, cada vez que definimos uma necessidade, estabelecemos uma ponte entre a experiência subjetiva profunda, principalmente sensorial, e uma rede de relações sociais à qual pertencemos e na qual buscamos as palavras para dar nome àquilo que nos acontece. […] impossível falar de necessidades em termos puramente naturais; não existe necessidade biológica que não esteja já organizada dentro de uma linguagem e de relações sociais. Cada necessidade humana foi transformada em uma construção interpessoal e social que exprime, pela linguagem, a percepção da falta e a tensão para superá-la.

Nessa relação mediada entre o sujeito, o outro e o meio sócio-cultural, destituindo o inatismo e reforçando a idéia de processo na sua constituição, o indivíduo reafirma sua condição humana e passa a dar sentido à construção de sua própria história. Uma história que se personifica quando sua digital passa a

compor as características de um lugar, de um território nomeado por quem nele vive, compartilhando e organizando regras e formas de pertencimento. Em seu aspecto materializado, esse reconhecimento parte das digitais no papel que legitimam a existência do indivíduo, mas não lhe garante o sentido de pertencimento se ele não se inscrever e escrever sua própria história

(Silva,2008).

Podemos considerar que as digitais dos indivíduos singulares, marcando a ocupação, o uso de um lugar, são um passo muito importante na constituição da história e da identidade de determinado território. Isso se dá quando ele (o indivíduo) se inscreve como indivíduo de um lugar, contribuindo para o desenvolvimento das potencialidades lá existentes. É na relação com o outro que há as transformações, respaldando tantas histórias de um território onde, por razão qualquer, uma população de atores escolheu viver, mesmo não se sentindo, muitas vezes, pertencentes a um lugar sonhado. Há uma troca de necessidades, de faltas, de desejos entre os vários atores e a noção de território sujeito (também ator), permeando a capacidade de se constituir na busca de uma identidade. Caracteriza-se, assim, um processo dialético a partir da idéia de condição humana, uma vez que o indivíduo possui a capacidade de construir formas de satisfazer suas necessidades, principalmente na relação com o outro, definindo uma identidade calcada nas múltiplas relações sociais e culturais que compõem as histórias dos indivíduos em um determinado lugar. Dessa maneira, as digitais são estampadas, borradas nos documentos de identificação dos indivíduos, assim como as dos territórios estão nos mapas, assegurando uma idéia de existir e de pertencimento que nos parece, muitas vezes, propositadamente um pouco reducionista. Um número de identidade, juntamente com uma foto e a mancha de um polegar, dá ao indivíduo o direito legal de pertencimento a uma sociedade que nem sempre o reconhece como alguém dotado de direitos. Quando falamos na historicidade de um território, pensando sua identidade, trazemos a idéia da relação deste com os diversos atores que nele vivem, sonham e se emocionam. Não o consideramos, apoiados em Melucci (2004), como dotado de uma somatória de identidades agregadas, ou seja, de identidades individuais sem diferenciação.

Dessa forma, adotamos a idéia de identidade coletiva, que pressupõe um sistema de relações diferentes, as quais não se fundem por si só em objetivos comuns. Não é a racionalidade do custo-benefício; é algo mais que não se caracteriza por essência, ou seja, por algo dado. É uma construção simbólica do indivíduo mediante suas experiências. É interativa, compartilhada, construída em um processo contínuo, permanente e inegociável na ação de sentidos, afastando, assim, a idéia de que um território é composto por um amontoado de pessoas com causas e objetivos comuns. Essas contribuições, portanto, destacam que qualquer intervenção nesses territórios de altíssima vulnerabilidade e de exclusão social deveria levar em conta a cultura local, a linguagem construída a partir das relações de quem nele vive. Além disso, pensar a noção de território como um lugar de potencialidades a serem reconhecidas e desenvolvidas; como um processo que está sempre em construção, abarcando as pessoas que nele se inscrevem. Afinal, como diz Silva (2008), o que dá sentido e ajuda a compor a história de um território é o ser que nele vive, que nele ama, que nele se emociona e, com dignidade, constrói seu pertencimento.

se emociona e, com dignidade, c onstrói seu pertencimento. Favela situado no Morumbi, bairro nobre de

Favela situado no Morumbi, bairro nobre de São Paulo.

V- Família: uma reflexão sobre sua constituição atual

V- Família: uma reflexão sobre sua constituição atual 17 Ao longo da história da humanid ade,

17

Ao longo da história da humanidade, a família vem sofrendo mudanças no que se refere à sua constituição. Nossa pretensão aqui não é apresentar as mudanças históricas e conceituais de família. Propomos uma discussão sobre o quadro atual da família brasileira, em especial a família pobre, pertencente às camadas populares da nossa sociedade. Por camadas populares estamos nos referindo a uma noção conceitual que abarca a situação financeira dessas famílias, bem como um estilo de vida norteado pela apropriação dos elementos simbólicos construídos socialmente. Objetos de políticas públicas de assistência social, as famílias das camadas populares trazem características específicas, como veremos ao longo desta apresentação. Porém, parecem acatar e atualizar constantemente, pelo menos no seu imaginário, um modelo de família que, na prática, mostra-se distante da realidade vivida. O modelo de família considerada ideal, criado pela ala dominante da sociedade, é conhecida como família monogâmica ou nuclear, cuja composição corresponde a seguinte forma: o pai, a mãe e os filhos. O pai, como provedor, é responsável pelo sustento da família. A mãe, “dona de casa”, responsabiliza-se

17 Fernando

Botero:

Família/1989.

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do

site:

http://oseculoprodigioso.blogspot.com

19/11/2008.

pelo cuidado da casa e pela educação dos filhos que, por sua vez, devem respeitar os pais. Embora este modelo seja o predominante no imaginário da maioria das famílias, não há como negar as mais diversas formas de constituição familiar nos dias de hoje, ou seja, novas modalidades de arranjos familiares. Devido a uma série de fatores, dentre eles o aumento do desemprego de seus maridos, muitas mulheres se tornaram “chefes de família”. Assim além da responsabilidade dos afazeres domésticos, essas mulheres também se responsabilizam pelo sustento da casa, conforme discutimos no item anterior:

“As identidades compondo uma noção de território de exclusão social”. Há, portanto, de se atentar às diversas configurações de família da

contemporaneidade. Uma forma que nos parece mais apropriada, em se tratando da temática na prática cotidiana, é perguntar para as próprias famílias (a um representante da família) como elas são constituídas, ou melhor, como essas famílias estão constituídas. Isso porque, pensando a Psicologia Histórico-Cultural, essas famílias não são estáticas, elas estão em constante movimento e transformação, o que implica, necessariamente, em novas modalidades de arranjos familiares. Neste sentido, muito embora haja a predominância do modelo nuclear de família, a configuração de uma família corresponde ao que é considerado pela própria família. Há, então, um cuidado a ser tomado quando se propõe algum tipo de intervenção junto às famílias pobres: a idéia de que o meu modelo de família (considerando o olhar profissional) não é, necessariamente,

o modelo de família do outro. Apesar dos diversos modelos, no geral a função social de uma família é

a de assegurar os padrões pré-estabelecidos pela ala dominante, buscando

manter a hegemonia dos valores e condutas que norteiam a convivência em sociedade. Dessa forma, a família tem como responsabilidade a transmissão cultural da sociedade na qual está inserida. Atua, por assim dizer, como mediadora entre a criança e as construções sociais que deverão ser apreendidas por esse novo indivíduo. A família, embora passível de questionamentos, uma vez que a violência doméstica tem ganhado espaço, principalmente na mídia, ainda é concebida como um lugar de proteção e de cuidados, principalmente para as crianças.

Pelo menos é o que está colocado no artigo 6 da Declaração dos Direitos da Criança – 20/11/1959 – referindo-se ao direito e a importância de se ter uma família:

Princípio 6º Para o desenvolvimento completo e harmonioso de sua personalidade, a criança precisa de amor e compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, aos cuidados sob a responsabilidade dos pais e, em qualquer hipótese, num ambiente de afeto e de segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não será apartada da mãe. À sociedade e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem famílias e àquelas que carecem de meios adequados de subsistência. É desejável a prestação de ajuda oficial e de outra natureza em prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas (In:Bock,2005,p.256).

O trabalho a ser desenvolvido com as famílias de camadas populares requer, dessa maneira, considerando o que foi discutido até o presente momento, uma abordagem que deve, segundo Guimarães e Almeida (2003, p.

131),

[…] afastar a idéia de que o trabalho com famílias pode ser conduzido de maneira pragmática, aleatória e voluntarista. É necessário compreender, também, que o fato de as pessoas ou famílias estarem juntas não concretiza, per se, um procedimento grupal que possa conduzir seus membros a processo de autonomização e mudanças da realidade familiar e social.

18 É preciso considerar, por tanto, que as famílias das camadas populares compõem a sociedade

18

É preciso considerar, portanto, que as famílias das camadas populares compõem a sociedade como um todo. Mesmo enfrentando maiores dificuldades, tendo de lidar constantemente com adversidades de todos os níveis, essas famílias contextualizam o que chamamos de sociedade. Dessa maneira, deveriam gozar de tudo a que têm assegurado como direito, para então, no exercício de sua humanidade, reafirmarem seu direito à saúde, à educação, à cultura, ao lazer, ou seja, à dignidade.

VI - O Trabalho Sócio-Educativo: uma possibilidade de intervenção

Um campo de trabalho para o Assistente Social é o que pode ser desenvolvido junto à população pobre, que se encontra em situação de risco e exclusão social, principalmente com famílias vulnerabilizadas que, geralmente, buscam se engajar em programas sociais advindos do Poder Público. Nestes programas de atenção a essas famílias, freqüentemente encontramos a denominação de trabalho socioeducativo como principal atribuição dos profissionais responsáveis por implementar e desenvolver tais programas.

18

Fernando

21/11/2008

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Nic/2001

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O que temos constatado, considerando a prática cotidiana, é a falta de

conhecimento do que significa trabalho socioeducativo. Neste sentido, essa tarefa, que não é fácil, complica-se ainda mais para o profissional que busca, mediante seus esforços, desenvolver atividades que possam respaldar essas famílias em sua dignidade. O que se tem claro, num primeiro momento, quando se pensa em trabalho socioeducativo, é que há pessoas necessitadas de cuidados especiais, de “ajuda”, por se encontrarem em situação de extrema precariedade material, isto é, desprovidas de condições básicas para viver com

certa dignidade e humanidade, o que lhes afeta, sem dúvida alguma, seu estado emocional.

A falta de clareza do que fazer, como e porquê, certamente, leva o

profissional, aqui pensando o Assistente Social, muitas vezes, a tentar encaixar

o

que ele “acha” que será bom para essas pessoas. Há, inegavelmente, ilusão

e

esperança de contribuir para que essas famílias, objeto de seu trabalho e de

sua dedicação, iniciem ou reiniciem um processo de adaptação, integração e participação social, assegurando, assim, a condição de inclusão social. Neste sentido, técnicas e dinâmicas de grupos são “aplicadas” na prática cotidiana sem objetivos bem definidos, gerando uma certa falta de sentido nos encontros. Este fato parece atualizar, por um lado, o descompasso entre o

querer, o poder e o ter condições de desenvolver esse trabalho. Por outro lado,

o das famílias assistidas pelos profissionais, parece levá-las a duvidarem do

merecimento dessa atenção, desse cuidado que nem sempre corresponde a suas expectativas, mas que, quase sempre, apesar das adversidades, despertam-lhe alguma esperança (SILVA, 2008). Apesar da pouca literatura sobre o tema, encontramos, nos livros Trabalho com famílias: 1- Metodologia e monitoramento e 2- Textos de apoio, escritos a partir do trabalho socioeducativo desenvolvido no Programa Fortalecendo a Família (PFF) 19 , uma definição do que foi considerado trabalho socioeducativo.

19 O conteúdo desses livros é resultado de uma construção coletiva de seus vários atores, mediante convênio estabelecido entre a Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP (em parceria com as universidades UNISA – Universidade Santo Amaro e UNICSUL – Universidade Cruzeiro do Sul) e a Secretaria de Assistência Social – SAS, da Prefeitura do Município de São

No texto 4 – Ações socioeducativas em programas de transferência de renda 20 , por exemplo, MIOTO (2004,p.50) fala em ‘ações de natureza socioeducativa’, destacando duas perspectivas. A primeira

[…] concentra suas ações nos processos familiares. A finalidade disso é fortalecer

as possibilidades de gerência da família sobre os seus recursos (materiais e

imateriais), e otimizar o processo redistributivo desses recursos no interior dela

mesma ou de sua rede primária (parentes, vizinhos). Nesse sentido podem ser

consideradas herdeiras da educação disciplinadora. O trabalho está centrado em

mudanças dentro da família, nos ‘seus’ problemas e a participação coletiva está

orientada para a troca de experiências e pelas possibilidades de apoio e ajuda

mútuas.

A segunda perspectiva, também apontando para as finalidades em

programas de transferência de renda, direciona as ações socioeducativas para

a

] [

participação coletiva, de forma que as famílias se percebam como sujeitos na

sociedade onde estão e com direitos de usufruir dos bens (materiais e imateriais)

nela produzidos. Dessa forma, a dimensão educativa nos programas de

transferência de renda busca fortalecer as famílias na sua capacidade de

estabelecer pautas de negociação no seu interior, com as instituições e o poder

público. A participação coletiva orienta-se para a democratização das relações e

construção de uma agenda pública, que permita a melhoria de suas condições e

de sua qualidade de vida (p.50).

construção de um processo de emancipação. Isso é feito através da

No Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA 21 também nos deparamos com o conceito de medidas socioeducativas, que poderão ser aplicadas ao adolescente quando verificada a prática de ato infracional. Não

Paulo, com o objetivo de implementar e desenvolver o Programa Fortalecendo a Família na cidade de São Paulo – PFF/SP/SP (2002 e 2003), idealizado pela Drª Aldaíza Sposati.

20 Texto escrito por Regina Célia Tamaso Mioto, Professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina, no livro Trabalho com famílias / 2 – Textos de apoio. 21 Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA – LEI Nº 8.069, de 13 de Julho de 1990.

encontramos, no entanto, a definição desse conceito. Podemos constatar tal situação mediante exposto no CAPITULO IV do ECA:

CAPÍTULO IV – Das Medidas Sócio-Educativas; SEÇÃO I – Disposições Gerais;

Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá

aplicar ao adolescente as seguintes medidas: I – advertência; II – obrigação de

reparar o dano; III – prestação de serviço à comunidade; IV – liberdade assistida;

V - inserção em regime de semi-liberdade; VI - internação em estabelecimento

educacional; VII – qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI.

Apesar disso, como nos coloca BERDET, muito provavelmente foi a partir do ECA que o termo socioeducativo passou a ter lugar de destaque junto às políticas públicas de atenção à população em situação de risco e exclusão social, ganhando espaço nos discursos dos profissionais responsáveis pela elaboração e prática de ações voltadas ao atendimento dos pobres. Em seu texto Elementos para Reflexão da Sócio-Educação, BERDET 22 (1999) diz que a socioeducação é uma “proposta pedagógica sócio-educativa”, que apresenta algo de novo e, devido suas diversas possibilidades de apresentação, esbarra em uma certa imprecisão conceitual, uma vez que O ‘sócio-educativo’ se refere a uma “proposta pedagógica sem estabelecer nenhum diálogo com o campo de saber pertinente, a educação”. No ECA Comentado 23 , encontramos a denominação medidas socioeducativas justificadas como forma de intervenção no processo de desenvolvimento do adolescente infrator, objetivando uma melhor compreensão da realidade por parte desse, levando-o à efetiva integração social. Diz OLYMPIO SOTTO MAIOR 24 (1992,p.340):

O educar para a vida social visa, na essência, ao alcance de realização pessoal e

de participação comunitária, predicados inerentes à cidadania. Assim, imagina-se

que a excelência das medidas sócio-educativas se fará quando propiciar aos

22 Marcelo Berdet, sociólogo da Assessoria de Planejamento e Pesquisa/FEBEM – RS. Escreveu o texto ELEMENTOS PARA A REFLEXÃO DA SÓCIO-EDUCAÇÃO, Dezembro de 1999. Disponibilizou-nos este material via contato pela internet, em Janeiro de 2006.

23 Estatuto da Criança e do Adolescente , com comentários jurídicos e sociais. Coordenadores Munir Cury, Antônio Fernando do Amaral e Silva e Emílio Garcia Mendes e colaboradores. São Paulo: Malheiros Editora, 1992.

24 Olympio Sotto Maior, Ministério Público do Paraná, é comentador do ECA Comentado, 1992.

adolescentes oportunidade de deixarem de ser meras vítimas da sociedade injusta em que vivemos para se constituírem em agentes transformadores desta mesma realidade.

Diante do apresentado até o momento, apontamos uma aproximação do que consideramos trabalho socioeducativo. Pretendemos, dessa maneira, disponibilizar uma noção de trabalho socioeducativo que possa servir de norteadora para refletirmos a construção de identidade profissional do Assistente Social, pensando sua prática cotidiana. Um trabalho sócio-educativo, então, abarca ações e/ou práticas que devem ser cuidadosamente desenvolvidas, com muita clareza nos objetivos,

nos meios (percurso) e no que se espera alcançar, justamente para que se possa assegurar um certo aprimoramento das condições de vidas das famílias (pessoas atendidas), tanto no que se refere aos aspectos material quanto emocional, em busca de inserção ou re-inserção social no sentido mais amplo de se reconhecerem e serem reconhecidas como sujeitos de direitos capazes

de autonomia (SILVA, 2008).

Para tanto, é preciso a clareza de que o trabalho socioeducativo é uma metodologia construída na prática cotidiana. Isso, de certa forma, destitui a criação de um “manual de intervenção socioeducativa” e o espontaneismo tão comum no exercício dessa prática que requer, dentre tantas coisas, criatividade, implicação e responsabilidade pelo trabalho desenvolvido. Parece-nos, portanto, que há muito a ser feito ao se pensar que

qualquer tipo de intervenção ou ação que vise oportunizar a realização pessoal

e a participação coletiva do indivíduo em prol da comunidade, quando

descontextualizada, possa ser considerada de caráter socioeducativo. Há, de certa maneira, a necessidade de se compartilhar as responsabilidades frente às adversidades advindas da prática cotidiana, principalmente ao considerarmos, entre outros aspectos, que o trabalho socioeducativo deve ser entendido como um processo dinâmico, um direito e uma construção coletiva e contínua que, além da necessidade de um respaldo

teórico, metodológico e científico, abarca ansiedades, medos, expectativas,

desejos, frustrações, sonhos, esperanças

(Silva, 2008).

VII - Uma experiência para pensarmos a condição humana

A jornada vivida por uma personagem do romance Ensaio sobre a Cegueira, de JOSÉ SARAMAGO (1995), a mulher do médico, a partir de uma

tal “cegueira branca” , mostra-se relevante para pensarmos a condição humana

a partir das relações de necessidades. Consideramos que a atuação da mulher do médico diante de uma realidade retratada com extrema pertinência por SARAMAGO, cujo contexto evidencia alguns arranjos e desarranjos da vida social, apresenta-nos várias características que acreditamos desejadas (ou esperadas) na prática profissional do Assistente Social, diante de uma realidade marcada por adversidades. Destacamos dessas características a polivalência, a perseverança, a criatividade, o responsabilizar-se por ações otimizadoras e transformadoras da realidade vivenciada, conforme apresentaremos na síntese do livro mencionado. Em um dia aparentemente normal, uma “cegueira branca”, considerada uma epidemia pelo governo ( a ‘treva branca’), espalhou-se incontrolavelmente

pela cidade. Arthur Nestrovski, na orelha do livro Ensaio sobre a Cegueira, diz:

“[…] uma multidão de cegos precisará aprender a viver de novo, em quarentena. ‘Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.’ E, de fato, o que se verá é uma redução da humanidade às necessidades

e afetos mais básicos, um progressivo obscurecimento e correspondente

iluminação das qualidades e dos terrores do homem. (E das mulheres também, de maneira especial.) […] é uma visão das trevas, uma viagem ao inferno, e a história de uma resistência possível à violência de tempos escuros”. Ao acompanhar seu marido (que foi levado ao ‘manicómio’ porque cegara), a mulher do médico assumiu o papel de líder, organizadora, provedora e “cuidadora” de um pequeno grupo formado no manicómio, composto por seu marido (o médico dos olhos), a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta, o rapazinho estrábico, a mulher do primeiro cego e alguns agregados. Por razões que só ela poderia dizer, buscou respaldar, e assim o fez, as necessidades desse grupo, responsabilizando-se, principalmente, por

assegurar o mínimo de dignidade humana dentro de um cenário que evidenciaria um quadro de extrema privação.

De fato, com o passar dos dias e a escassez de produtos básicos de higiene e água (inclusive a potável), a sujeira fez-se presente pelo olfato. A mulher do médico, em conversar com seu marido, disse: “Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou […]” (p. 135).

A falta de alimento e remédios (também responsabilidade do Governo)

acirrou os ânimos e desânimos dessas pessoas. O manicômio foi palco de disputa de poder e a irracionalidade preponderou na busca pela sobrevivência. Favores sexuais, lutas, assassinatos, mortes, sujeira, fome, sede etc. compunham um cenário de degradação humana. Um incêndio e, entre atropelos, pisoteamentos e muitas quedas, algumas pessoas sentiram-se livres daquele lugar ao atravessarem os muros que a cercavam e, supostamente, as protegiam. Mas, a sensação de abandono, de desamparo não os abandonou. Foi minimizada, um pouco, quando a mulher do médico reafirmou seu papel de liderança, servindo-lhes de guia, de provedora de alimento e segurança. Mal sabiam, ou não faziam questão de saber, que a mulher do médico, há pouco tempo, foi flagrada, pela rapariga dos óculos escuros, a chorar:

[…]Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos […] (p.100, 101).

A realidade fora do manicômio parecia pior, se é que fosse possível, e o

era. Preocupada em encontrar um lugar, um sítio para abrigar os que vieram com ela e, sozinha, buscar comida, água e vestimentas, dirigiu-se para o centro da cidade. Deparou-se com lojas arrombadas, saqueadas e algumas ocupadas por cegos. Muita sujeira nas ruas, pessoas mortas e os corpos sendo devorados por animais. As pessoas caminhavam em busca de comida, esbarrando uma nas outras. A chuva, providência divina, ofereceu água. Durante o percurso até alcançar sua casa, a mulher do médico constatou a falta total de energia elétrica, de abastecimento de alguma espécie,

de governo: era o caos. O lixo era muito, dejetos retratavam um esgoto a céu aberto. Corpos caídos e sem vida, servindo de alimento aos irracionais, aumentavam a cada esquina, a cada rua, a cada olhar. Como a falta de comida era cada vez maior, a mulher do primeiro cego ofereceu-se, juntamente com seu marido, para acompanhar a mulher do médico na busca por alimento. O que tinham na dispensa, considerado luxo enquanto durar, eram “[…] umas compotas, uns frutos secos, açúcar, algum resto de bolacha, umas quantas tostadas secas […] um copo de água […]”. Regressaram com alimento para três dias. À noite, leu, para todos, algumas páginas de um livro que conseguiu na biblioteca. No dia seguinte, quando foi buscar mais comida para o grupo, a mulher do médico avistou uma igreja. Buscando recuperar as forças, pediu ao marido que lhe ajudasse a vencer os seis degraus que a separava das portas entre abertas. Disse ao marido:

Não me acreditarás se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja estão com os olhos vendados, Que estranho, por que será, Como hei-de eu saber, pode ter sido obra de algum desesperado da fé quando compreendeu que teria de cegar como os outros, pode ter sido o próprio sacerdote daqui, talvez tenha pensado justamente que uma vez que os cegos não poderiam ver as imagens, também as imagens deveriam deixar de ver os cegos, As imagens não vêem, Engano teu, as imagens vêem com os olhos que as vêem, só agora a cegueira é para todos, Tu continuas a ver, Cada vez irei vendo menos, mesmo que não perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque não terei quem me veja, (p. 302)

Voltaram para casa. Alimentaram algumas bocas também sedentas. Dormiram. À noite, apenas o rapazinho estrábico recebeu um pouco do que tinham para comer. Para os outros, a mulher do médico leu um pouco mais do livro:

[…] ao menos o espírito não poderá protestar contra a falta de nutrimento, o mau é que a debilidade do corpo levava algumas vezes a distrair a atenção da mente, e não era por falta de interesse intelectual, não, o que acontecia era deslizar o cérebro para uma meia modorra, como um animal que se dispôs a hibernar, adeus mundo, por isso não era raro cerrarem estes ouvintes mansamente as pálpebras,

punham-se a seguir com os olhos da alma as peripécias do enredo, até que um lance mais enérgico os sacudia do torpor, quando não era simplesmente o ruído do livro encadernado ao fechar-se de estalo, a mulher do médico tinha destas delicadezas, não queria dar a entender que sabia que o devaneador estava a dormir (p.305, 306).

Aos poucos os cegos voltaram a enxergar. A mulher do médico perguntou a seu marido: “[…] Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te digas o que penso, Diz, Penso que não cegamos, pensamos que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem (p.310).

Essa trajetória vivida pela mulher do médico nos mostra semelhanças entre o vivido por ela e a realidade encontrada nos territórios de altíssima privação, onde pessoas esperam ser ajudadas. Podemos considerar que sua atuação diante de um quadro tão desfavorável à dignidade humana, carregou algumas características esperadas de um profissional, neste caso o Assistente Social. Em síntese, um profissional reflexivo, criativo, perseverante, prospectivo, proativo, otimista… mas realista, que se responsabiliza pelas suas ações e reconhece seus próprios limites e que, independentemente de sua crença religiosa, supere a expectativa de que alguma divindade agirá em seu lugar.

Para superar as adversidades, a mulher do médico, por exemplo, mesmo submetida à mesma situação de altíssima privação, buscou recursos internos e externos, procurando manter um certo estado de consciência que lhe assegurava o sentimento de indignação e o desejo de superação. É esse algo mais que se espera de um profissional Assistente Social na sua prática cotidiana, diferenciando-se dos demais, isto é, enxergar o que os outros não têm condições ou, por razão qualquer, não querem ver.

VIII - Considerações Finais

8.1 - Subjetividade e o contexto social

Finais 8.1 - Subjetividade e o contexto social 25 A psicologia social tem como pressuposto o

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A psicologia social tem como pressuposto o estudo dos fenômenos sociais, considerando a perspectiva da subjetividade. Isso significa dizer que a psicologia social direciona sua atenção para as relações estabelecidas entre o indivíduo e a sociedade na qual ele está inserido. Neste sentido, pensando a psicologia Histórico-Cultural, a relação entre o indivíduo e a sociedade é dialética. Assim, o homem é concebido como um ser social, ativo e histórico. Social, porque o trabalho se realiza em sociedade; ativo porque o homem age na sociedade mediante o trabalho; histórico, porque sua ação na sociedade transforma a natureza e a si mesmo, dentro das condições sociais determinadas. Dentre essas mediações, marcando a constituição de um sujeito que se objetiva em sua subjetividade, a linguagem é o principal signo e instrumento

25 Copiado site www.fotocomedia.com – 21/11/2008.

que simboliza o salto para a humanização. Isso se dá mediante o processo de apropriação do significado social e da atribuição de sentidos pessoais às construções sociais. Dessa forma, objetividade e subjetividade integram um mesmo processo histórico, constituindo o psiquismo do indivíduo a partir de sua relação com

esse mundo objetivo, social, coletivo e cultural, unificando as dimensões afetiva

e cognitiva do funcionamento psicológico. Assim, segundo Bock (2005,p. p.23),

a subjetividade é

[…] a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Esta síntese – a subjetividade – é o mundo de idéias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais.

A subjetividade, portanto, é fundamental para o nosso estudo porque, como dimensão psicológica contém os sentidos que o indivíduo atribui às significações culturais. Nesse processo de apropriação das significações culturais, o indivíduo compartilha com outros indivíduos um núcleo relativamente estável de compreensão de determinado conceito. Assim, ao atribuir às significações culturais de uma sociedade um sentido mais individual, motivado por suas experiências pessoais, o indivíduo passa a construir sua subjetividade, sua síntese pessoal, sua singularidade como uma dimensão psicológica que comporta as emoções, os sentimentos, os afetos. Isto é, como um campo compreensível, mas não totalmente compartilhado (Silva, 2008). Chamamos a atenção, então, ao sentido que você atribui e atribuirá à sua formação profissional, à sua prática cotidiana, à sua condição humana. Lembramos que, em todos os sentidos, você é responsável pelas próprias escolhas.

Referência Bibliográfica

BOCK,A.M.B. et al. PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: uma perspective crítica em psicologia. São Paulo: Cortez, 2001.

PSICOLOGIAS: uma introdução ao estudo de psicologia / Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado, Maria de Lourdes Trassi Teixeira. 13ª edição. São Paulo: Saraiva, 2005.

CIAMPA, A.da C. A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo:

Brasiliense, 2005.

GUIMARÃES, R.F. e ALMEIDA,S.C.G. “Reflexões sobre o trabalho social com famílias”. In: “Família: Redes, Laços e Políticas Públicas”. Ana Rojas Acosta, Maria Amalia Faller Vitale (organizadoras). São Paulo: IEE/PUC-SP, 2003.

KOGA,D. MEDIDAS DE CIDADES: entre territórios de vida e territórios vividos. São Paulo: Cortez, 2003.

MELUCCI, A . O JOGO DO EU: A mudança de si em uma sociedade global. São Leopoldo ( RS): Editora Unisinos, 2004.

SARAMAGO, J. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras,

2001.

SAWAIA, B. B. (org.). AS ARTIMANHAS DA EXCLUSÃO: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. 4ª ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1999.

SILVA,G.H.da. “A construção de identidade do educador social na sua prática cotidiana : a pluralidade de um sujeito singular”. Gerson Heidrich da Silva; Dissertação de Mestrado - orientação Marta Kohl de Oliveira. São Paulo :

FEUSP, 2008.

SIMÕES NETO, J. P. Assistentes sociais e religião: um estudo Brasil/Inglaterra. São Paulo: Cortez, 2005.

WANDERELY, M.B. e OLIVEIRA, I.I. de M.C - (orgs.). Trabalho com famílias:

Metodologia e Monitoramento. (v.1). São Paulo: IEE - PUC – SP, 2004.

Trabalho com famílias:

Textos de apoio.(v.2). São Paulo: IEE – PUC – SP, 2004.

Bibliografia complementar

DEMO, P. “ESTUDAR NÃO É TER AULAS”.

http://www.quadrante.com.br/Pages/serviços02.asp?id=290&categoria=Educac

ao

Fontes de consulta temática: Internet WWW.wikipedia.org

Filmes:

“MACHUCA”, de Andrés Wood – 2004 – DVD vídeo / VIDEOFILMES

“Elsa & FRED um amor de paixão”, de Marcos Carnevale – Imagem Filmes.