Você está na página 1de 11

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

COLONIZAÇÃO, ALIMENTAÇÃO, SOBREVIVÊNCIA E CULTURA. A DIETA ISLANDESA DURANTE A ERA VIKING (C. 800-1066)

Renan Marques Birro 1

De acordo com a literatura islandesa medieval, os primeiros colonizadores da Islândia foram

nobres proprietários de terra que deixaram a Noruega para escapar da tirania do rei Haraldr inn

hárfagri. A escassez de terras na região de Vestlandet (Noruega Ocidental) foi um importante

fator para a migração. Além disso, a expulsão dos vikings de Dublin (c. 900) forçou alguns

escandinavos assentados nas ilhas britânicas a procurar uma nova terra para emigrar 2 .

Por sua vez, as pesquisas arqueológicas indicam uma pobreza material singular nos séculos IX-X,

que sugerem que a ilha não foi colonizada diretamente por nobres noruegueses. Além disso, a

dimensão das casas islandesas de “nobres” imigrados não chega à metade da dimensão das

residências nobiliárquicas norueguesas daquele tempo 3 .

Ademais, de acordo com o Landnámabók (Livro dos assentamentos, séc. XII) e as sagas, a

colonização da Islândia partiu da costa ocidental e do sudoeste da Noruega, ao contrário das

evidências arqueológicas. A maior parte dos especialistas prefere não especular sobre a origem

desses colonizadores 4 .

Seja como for, as façanhas dos primeiros habitantes sedentários do lugar foram transmitidas

oralmente, e transformadas séculos depois em grandes histórias conhecidas como

Íslendingasögur (Saga dos islandeses). Uma das mais proeminentes é a Egils saga, escrita entre

1220 e 1230, provavelmente composta pelo poeta, historiador, literato, lögsögumaður e goði

islandês Snorri Sturluson (1178-1241) 5 . Ela concentra a narrativa na vida do poeta-guerreiro Egill

Skalla-Grímsson, que viveu durante os séculos IX e X.

Kveld-Úlfr, o avô de Egill, era um rico fazendeiro e um homem de posição em Firðir, na

Noruega. Seu filho, Skalla-Grímr, se tornou o inimigo mortal de Haraldr inn hárfagri

Hálfdanarson (c.850-933) 6 da Noruega. A rivalidade se tornou tão grande que o outro filho de

Kveld-Úlfr, Þórolfr, foi assassinado pelo rei e seus homens 7 .

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

Muito tempo depois, o filho de Skalla-Grímr, Þórolfr (provavelmente uma homenagem ao tio morto), se tornou amigo íntimo do jovem rei da Noruega, Eiríkr blóðøx (c.895-954) Haraldsson 8 . Porém, o destino não pretendia unir as duas famílias: em sua primeira viagem, Egill, o outro filho de Skalla-Grímr, contraiu uma rixa com o rei Eiríkr, e depois de alguns anos o sentimento se tornou tão forte que o monarca o tornou um proscrito. Para se vingar, o herói da saga eliminou um dos filhos do rei, além de alguns parentes e amigos da família real. Para selar o azar do monarca, o irmão de Eiríkr, Hákon góði (c. 920-960), reclamou o trono e expulsou seu irmão da Noruega, e assim se tornou o governante de todo Norðvegr 9 .

Enquanto isso transcorria na Noruega, Egill fixou residência em Borg, na Islândia, como um pacífico fazendeiro. O escritor dedicou uma parcela da narrativa para demonstrar a habilidade do herói em defender os interesses familiares nas querelas entre os colonizadores da Islândia. Mas isto não impediu que vez por outra Egill se envolvesse em uma aventura distante 10 .

Além de hábil político e poeta, Egill reunia características interessantes: era “assustadoramente” alto, forte e versado na magia rúnica. Porém, ele às vezes se manifestava de forma intempestiva, sovina, e, como a própria saga descreve, era incrivelmente feio como seu pai e avô 11 . De acordo com o cronista, “Grímr var svartr maðr ok ljótr, líkr feðr sínum bæði yfirlits ok at skaplyndi” (“Grímr era um homem moreno e feio, e parecido com o pai na face e na cabeça”) 12 .

Apesar da aparência e do espírito belicoso, Egill também se destacava na poesia. Ele foi o modelo ideal de poeta, ainda que sua personalidade flutuasse de um extremo a outro. Egill agiu algumas vezes sem pensar, ao matar inimigos que em tese não poderia e, ao mesmo tempo, demonstrou uma sensibilidade incomum para compor versos: em um capítulo, o herói se embebedou até vomitar na face de um rei, mas compôs um poema em homenagem ao filho morto poucos capítulos depois, versos considerados até hoje como uma das obras-primas da poesia escáldica 13 .

A Egils saga nos oferece, assim, um relato de época rico em detalhes. A preocupação do escritor em descrever com acurácia a geografia das regiões visitadas pelo herói merece menção. Os personagens também recebem muita atenção, pois são descritos de acordo com a aparência e a personalidade 14 .

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

*** Uma literatura tão rica em detalhes e produzida com tamanho esmero permite muitas abordagens pelos historiadores. A dieta dos colonizadores islandeses me atraiu sobremaneira, pois é objeto de poucos estudos nos países de língua inglesa, e uma área com poucos precedentes no Brasil. Com a exceção alguns comentários em trabalhos sobre a arqueologia da colonização, pouco se produziu sobre os hábitos alimentares daqueles homens. Este breve ensaio não será, contudo, meramente descritivo. Optei pela abordagem da Antropologia nutricional, ou seja,

o estudo dos alimentos na ecologia humana e na cultura. Ela tem início com as necessidades biológicas do organismo humano e pelo estudo da evolução humana e da pré-história, e progride em direção aos caminhos que os grupos humanos constroem suas vias alimentares culturais. Isto nos leva da relativamente simples e exigente necessidade de nutrientes requerida pelo corpo para os caminhos maravilhosamente diversos que as sociedades humanas encontram para obter aqueles nutrientes 15 .

Assim, a escolha dos alimentos não é guiada apenas pelo viés econômico, nutricional ou simbólico dos gêneros alimentícios, mas pela confluência destas três elementos, que tornam os víveres um dos meios mais significativos para expressar e comunicar uma identidade 16 . A partir dessas premissas, percebi que a Egils saga nos fornece relatos relevantes para um estudo da alimentação islandesa. Ao descrever a colonização empreendida por Skalla-Grímr, o cronista registrou que

Skalla-Grímr var skipasmiðr mikill, en rekavið skorti eigi vestr fyrir Mýrar. Hann lét gera bæ á Álftanesi ok átti þar bú annat, lét þaðan sækja útróðra ok selveiðar ok eggver, er þá váru gnóg föng þau öll, svá rekavið at láta at sér flytja. Hvalkvámur váru þá ok miklar, ok skjóta mátti sem vildi. Allt var þar þá kyrrt í veiðistöð, er þat var óvant manni. It þriðja bú átti hann við sjóinn á vestanverðum Mýrum. Var þar enn betr komit at sitja fyrir rekum, ok þar lét hann hafa sæði ok kalla at Ökrum. Eyjar lágu þar úti fyrir, er hvalr fannst í, ok kölluðu þeir Hvalseyjar.

Skalla-Grimr era um bom carpinteiro naval, e à oeste de Myrar não faltava madeira flutuante. Ele ergueu construções em Álftanesi, onde também ergueu casas. Ali ele fez um ponto de pesca, um ponto de caça a focas e de coleta de ovos. Em todos estes assuntos ele estava pleno de provisões, assim como de madeira flutuante, que era levada até ele [pela maré]. Baleias também iam para lá, e quem quisesse poderia atirar nelas. Todas estas criaturas estavam nesta região de caça, e elas não eram arredias ao homem. Ele construiu sua terceira casa no Oeste de Myrar. Este foi sem dúvida o melhor local para procurar por madeira flutuante. Ali ele teve também terras semeadas, que foram chamadas de

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

Ökrum. Nesta região havia ilhas, nas quais foram encontradas baleias; assim, elas [as ilhas] foram chamadas de Hvalseyjar [ilha das baleias]. 17

Neste cenário, a Islândia despontava como um ambiente aprazível e repleto de possibilidades. Skalla-Grímr agiu com esperteza para melhor aproveitar os recursos da ilha: tomou posse das regiões pródigas em carne e próprias para o plantio, além das regiões onde abundava madeira flutuante, material que se tornou raro pouco tempo depois 18 .

Apesar do cenário aprazível sugerido pela Egils saga, muitos dos primeiros assentamentos foram posteriormente abandonados, provavelmente pela escolha incorreta dos locais mais apropriados. Entre os sítios deixados à própria sorte, a maioria encontra-se em regiões onde o desmatamento provocou uma rápida erosão do solo 19 .

Estes relatos são vitais para compreender o estilo de vida dos colonos. Orri Vestéisson, um dos mais renomados arqueólogos do período da colonização, nos alerta para a fidedignidade das sagas, pois seu estudo deve ser cotejado com outras referências 20 .

No entanto, essa narrativa é bastante verossímil: foram encontrados recursos marinhos na região sudoeste de Háls, além de ossos de bacalhau em Granastaðir e restos de salmão e ovos de aves em Hofstaðir 21 .

A semeadura em questão era provavelmente de cevada (Hordeum vulgare), o único cereal plantado na Islândia e adequado à aridez do solo de origem vulcânica. Este alimento é rico em calorias, carboidratos e fibra, e era utilizado para a produção de mingaus, cervejas e pães 22 .

Neste ínterim, Vestéinsson sugeriu que a maioria dos primeiros colonos se uniu para habitar uma determinada região, visto que, em muitos assentamentos, há indícios de várias famílias de colonos que inicialmente viveram juntas e posteriormente formaram suas próprias fazendas 23 . Resquícios desse afastamento entre as famílias de colonizadores também pode ser encontrado na Egils saga:

Skalla-Grímr hafði ok menn sína uppi við laxárnar til veiða. Odd einbúa setti hann við Gljúfrá at gæta þar laxveiðar. Oddr bjó undir Einbúabrekkum, við hann er kennt Einbúanes. Sigmundr hét maðr, er Skalla-Grímr setti við Norðrá. Hann bjó þar, er kallat var á Sigmundarstöðum. Þar er nú kallat at Haugum. Við hann

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

er kennt Sigmundarnes. Síðan færði hann bústað sinn í Munoðarnes, þótti þar hægra til laxveiða.

Skalla-Grimr também enviou seus homens para subir os rios ricos em salmão para pescar. Ele determinou que Odd einbúa [Odd, o Solitário] fosse para o rio Gljúfrá e visse o salmão pescado que lá havia. Odd lá habitou sozinho. Por isto Einbúanes se chama assim. Sigmundr era o nome do homem que Skalla-Grimr determinou para Norðrá [o rio do Norte]. Ele habitou onde foi chamado posteriormente de á Sigmundarstöðar, hoje chamado de Hauga. Sigmundarnes recebeu este nome por sua causa. Ele posteriormente moveu sua casa para Munoðarnes, que se tornou um local mais conveniente para a pesca de salmão.

[

]

En er fram gekk mjök kvikfé Skalla-Gríms, þá gekk féit upp til fjalla allt á sumrum. Hann fann mikinn mun á, at þat fé varð betra ok feitara, er á heiðum gekk, svá þat, at sauðfé helzt á vetrum í fjalldölum, þótt eigi verði ofan rekit. Síðan lét Skalla-Grímr gera bæ uppi við fjallit ok átti þar bú, lét þar varðveita sauðfé sitt. Þat bú varðveitti Gríss, ok er við hann kennd Grísartunga. Stóð þá á mörgum fótum fjárafli Skalla-Gríms.

Como o rebanho de Skalla-Grimr multiplicou-se, o deixaram solto pelas montanhas. Além disso, ele percebeu que o gado enviado para os pastos distantes crescia melhor e ficava mais gordo. Isto também acontecia com os ovinos que invernavam nos vales montanhosos, e que eles permaneciam todo o inverno na montanha. Assim, Skalla-Grimr ergueu uma construção, e fez uma casa ali, onde mantiveram suas ovelhas guardadas. Gríss era o “capataz” desta fazenda, e após sua morte ela [a fazenda] foi chamada de Grísartunga. Portanto, a riqueza de Skalla-Grimr apresentava muitas pernas para se manter de pé 24 .

Além da agricultura e da coleta, os novos moradores da Islândia também se lançaram à pecuária e

à

pesca. Com a progressiva queda da qualidade do solo, os alimentos marinhos logo se tornaram

o

complemento alimentar na dieta islandesa. O salmão (fam. Salmonidae e, no caso islandês, da

espécie migratória Salmo salar), por exemplo, é rico em proteínas, ômega 3 (ácidos graxos) e vitamina D 25 .

Além desta espécie de peixe, o bacalhau (Gadus gadidae) era muito apreciado. Assim como o salmão, o bacalhau também é rico em vitamina D. A importância desta vitamina para a população islandesa está na posição geográfica da ilha em relação ao globo: como a Islândia está próxima ao círculo polar ártico, a incidência solar é reduzida, e a incorporação do bacalhau e do salmão à dieta foi vital para o correto desenvolvimento físico dos islandeses.

Quanto à criação de gado bovino, equino, caprino e ovino, a queda da qualidade do solo foi preponderante para que a pecuária ultrapassasse a agricultura em importância, fato recorrente até

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

os dias de hoje. A carne e o leite desses animais são ricos em proteína, e eles também fornecem montaria, peles e chifres, que serviam para o cotidiano, vestuário e utensílios domésticos. Algumas espécies de quadrúpedes se tornaram únicas na Islândia. Um bom exemplo foi a proibição da importação de novas espécies de cavalo para a ilha imposta pelo Allþingi 26 em

892 27 .

O cavalo ainda guarda outras peculiaridades junto à história islandesa. Utilizado como principal

meio de transporte terrestre, a escolha do local da assembleia geral islandesa ocorreu em grande parte por ser uma região plana e propícia para o deslocamento de equinos, pois em época os

ferreiros ainda não aplicavam ferraduras aos cavalos 28 .

Vale também ressaltar a frequente ingestão de carne equina pelos islandeses durante a Idade Média, considerado o único tabu alimentar permanente da Igreja Católica durante o período. Entre os povos de origem indo-europeia, o cavalo estava intimamente ligado à Oðinn graças ao cavalo desta deidade, Sleipnir. Nesse ínterim, o deus muitas vezes foi representado montado ou junto ao seu cavalo 29 .

Como ressaltei em trabalhos anteriores, a prática de tomar o sangue ou ingerir a carne dos inimigos fazia parte de uma tradição antiga: o vencedor recebia assim as qualidades da vítima. Em algumas culturas, a ingestão de carne e o sangue dos homens mortos inspiravam a coragem, a sabedoria e outras qualidades que se destacassem naqueles homens 30 . No caso escandinavo, encontrei referências da ingestão de sangue na Nibelungenlied (c. 1190) e na Saxonis Gesta Danorum (séc. XII) de Saxo Gramático 31 .

Por analogia, a ingestão da carne de cavalo seria um tributo a Oðinn. Este hábito de origem mágica visava à ampliação do poder do indivíduo, fosse à força ou ao conferir-lhe novas e maravilhosas habilidades 32 .

As autoridades cristãs, assim que perceberam o hábito e sua importância entre os pagãos, trataram de condená-la com rigor. O Papa Gregório III (690-741) 33 denunciou a prática tão logo recebeu a informação de seus bispos e missionários na Germânia:

Inter caetera agrestrem caballum aliquantos comedere adjunxisti, plerosque et domesticum. Hoc nequaquam fieri deinceps, sanctissime frater, sinas, sed quibus potueris Christo juvante modis per omnia compesce, et dignam eis impone

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

poenitentiam: immundum est enim atque exsecrabile.

Tu sabes, entre outras coisas, que alguns comem cavalos selvagens e domésticos. Em hipótese nenhuma permita que isto ocorra novamente, santíssimo irmão, mas suprimas isto em cada possibilidade com a ajuda de Cristo, e lhes imponha uma penitência adequada: este é um costume imundo e execrável 34 .

Apesar desta e de outras exortações eclesiásticas, a carne equina continuou a ser ingerida na Escandinávia, região onde o cristianismo ainda era incipiente e a vida essencialmente rural e pastoril era uma realidade pujante. Os escandinavos conheciam a religião cristã por meio de suas navegações e incursões à Europa Ocidental, mas mantinham a adoração aos antigos deuses em concomitância com o “deus pregado”, ou optavam pela manutenção da religião de seus pais.

Quando perceberam isso, os clérigos mudaram o discurso e tornaram Cristo e Þórr (principal deidade islandesa) irreconciliáveis, ou seja, não era possível acreditar em ambos. Além disso, segundo eles, Jesus foi um poderoso rei em Roma que havia conquistado todo o mundo conhecido, enquanto Þórr não conseguiu o mesmo. Qualquer outra comparação com Jesus poderia ser apenas desfavorável aos deuses nórdicos 35 .

Certa passagem do Livro dos Islandeses (Íslendingabók, séc. XII) 36 mostra o grau de resistência de algumas famílias islandesas dos sécs. X-XI ao tabu alimentício e às imposições religiosas da Igreja Católica.

Ari fróði (1068-1148) 37 , o cronista, narrou da seguinte forma: os líderes cristãos islandeses batizados navegaram para Oeste e prometeram ao rei norueguês que converteriam o restante da ilha. Contudo, segundo a reunião de 999 (ou 1000) da assembléia geral islandesa (Allþingi), o acirramento de opiniões foi tão grande que cristãos e pagãos declararam que não viveriam juntos sob as mesmas leis (Íslendingabók, 7). Quando chegaram a um consenso, a lei foi estabelecida da seguinte forma:

Þá var þat mælt í lögum, at allir menn skyldi kristnir vera ok skírn taka, þeir er áðr váru óskírðir á landi hér. En of barnaútburð skyldu standa in fornu lög ok of hrossakjötsát. Skyldu menn blóta á laun, ef vildu en varða fjörbaugsgarðr, er váttum of kæmi við. En síðar fám vetrum var sú heiðni af numin sem önnur.

Então foi declarada a lei que toda a pessoa deveria ser cristã e aceitar o batismo, inclusive quem não fora batizado nesta terra. Mas, da antiga lei, o abandono de

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

crianças e a ingestão de carne de cavalo deveriam ser mantidos. As pessoas teriam que fazer sacrifícios em segredo caso quisessem evitar o banimento por três anos, o que aconteceria caso fossem descobertas. Alguns anos depois, aquela prática pagã foi abandonada, assim como as demais (Íslendingabók, 7).

O excerto do Íslendingabók demonstra como a carne de cavalo adquiriu um forte caráter cultural e simbólico entre os escandinavos. A exasperação entre os colonos islandeses denota também um princípio de identidade local e forte apego às tradições. Diferente do que prega a teoria socioeconômica desse hábito, que vela pela utilidade do animal como motivação para a formação do tabu, os escandinavos continuaram a ingerir a carne equina para reforçar seus laços com o passado 38 .

***

Como é possível notar, os alimentos na Islândia rapidamente adquiriram importância social e cultural. Durante a colonização, os melhores pontos de pesca, agricultura e pecuária foram disputados pelos novos habitantes da ilha, e se tornaram um motivo de prestígio e orgulho em relação aos demais, alardeadas nas tradições familiares e posteriormente transpostas à literatura.

Ademais, alguns víveres se tornaram tão ligados às antigas divindades que o cristianismo teve grande dificuldade para convencer os escandinavos a abandonar esses hábitos. A observância parcial aos preceitos religiosos, como no caso da carne equina, demonstra como a religião cristã passou por fases de transição com a religião antiga até que o rito católico “padrão” fosse completamente incorporado. As provas desse embate podem ser encontradas na literatura e na arqueologia da época 39 .

Assim, o estudo da alimentação, exercício corriqueiro dos seres humanos independente da época, serve como um privilegiado campo de estudo da colonização, religiosidade e identidade dos islandeses durante a Era Viking, e permite identificar pontos de formação de cultura e noções de alteridade e identidade sob uma abordagem diferenciada.

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

Notas

1 Renan Marques Birro é bacharel em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). E-mail: rmarquesb@gmail.com. Agradeço a Rebeca Alvarenga Marques Birro, bacharel em Nutrição pela Faculdade Espírito Santense (FAESA) pelas relevantes informações nutricionais, além de me ajudar a deduzir a importância dos alimentos no contexto islandês.

2 SIGURÐSSON, Jon Viðar. Iceland In: BRINK, Stefan; PRICE, Neil (Ed.). The Viking World. London: Routledge, 2008, p. 571.

3 VÉSTEINSSON, Orri. Archaeology of Economy and Society In: MCTURK, Rory (org.). A Companion to Old Norse-Icelandic Literature and Culture. London: Blackwell, Publishing, 2005, p. 10-13. 4 Ibid., p. 4-5.

5 O lögsögumaður era um recitador das leis que presidia o þingi (assembléia local) e o Alþingi (assembléia maior que reunia os representantes das assembléias locais). Este título foi introduzido na Islândia em 930 (BYOCK, Jesse L. Alþingi. In: PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Medieval Scandinavia: an encyclopedia. Oxford: Routledge, 1993, p. 11). Os goðar faziam parte do modelo singular de governo adotado pelos islandeses. Os bónði (fazendeiros) elegiam um goði (líder) para o þingi. Apenas os goði tinham direitos ao voto nas assembléias e os bónði podiam escolher outro representante com certa liberdade. Os goðar não se limitavam a critérios territoriais e influenciavam bóndi relativamente distantes uns dos outros. Entre estes havia outros bóndi sob a influência de outros goðar. (HAYWOOD, John. The Penguin Historical Atlas of the vikings. London: Penguin Classics, 1995, p. 92).

6 Haraldr inn hárfagri (Haroldo dos Belos Cabelos) (c. 850-933) foi o primeiro rei da Noruega, e prosseguiu com a tarefa de seu pai, Hálfdan svarti (Hálfdan, o Negro) (c. 820-860 d.C.), que desejava unificar todos os nobres noruegueses sob um mesmo comando (BOYER, Regis. Norway In: PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Medieval Scandinavia: an encyclopedia. Oxford:

Routledge, 1993, p. 1030).

7 Egils saga, cap. 1-23.

8 Eiríkr blóðøx (c. 895-954) ou Eric do machado sangrento, foi o filho mais velho de Haraldr inn hárfagri. Ele ficou conhecido assim por ter assassinado seus irmãos para se manter como rei da Noruega, além de governar seu reino de forma despótica. Hákon góði (c. 920-960), meio- irmão de Eiríkr, destronou-o em 934. Eiríkr fugiu então para as ilhas britânicas, e se colocou sob os serviços do rei inglês Athelstan (c. 895-939) (DAPHAE, L. Davidson. Hákon góði In:

PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Medieval Scandinavia: an encyclopedia. London:

Routledge, 1993, p. 257-258).

9 A palavra Norðvegr (pl. Norðvegar) significa “o caminho do norte” (a variável Norðweg também é admissível). Este era um dos sinônimos da Noruega durante a Era viking (Norðvegar In: CLEASBY, Richard; VIGFUSSON, Gudbrand. An Icelandic-English Dictionary. Oxford:

Clarendon Press, 1874, p. 457; Norðweg In: BRIGHT, James W. An Anglo-Saxon reader. New York: Henry Holt & Co., 1912, p. 336); Egils saga, cap. 28-54.

10 Egils saga, cap. 55-74. Todas as traduções deste trabalho são minhas.

11 Egils saga, cap. 10.

12 Egils saga, cap. 1.

13 Egils saga, cap. 81. 14 ÓLASON, Vesteinn. Íslendingasögur In: PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Medieval Scandinavia: an encyclopedia. London: Routledge, 1993, p. 333-335. 15 ANDERSON, E. N. Explaining It All: Nutritional Anthropology and Food Scholarship In:

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

Everyone eats: understanding food and culture. New York: New York University Press, 2005, p. 236.

Food Is Culture. New York: Columbia

University Press, 2006, p. xi-xii.

17 Egils saga, 29.

The

history of Iceland. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000, p. 48-50.

19 VÉSTEINSSON, op. cit., p. 15, nota 3; KELLER, Christian; MCGOVERN, Thomas H.; VÉSTEINSSON, Orri. Enduring Impacts: social and environmental aspects of Viking Age Settlement in Iceland and Greenland In: Archaeologia Islandica, 2. Reikyavík: Institute of Archaeology, 2002, p. 7.

20 Ibid., p. 4-6.

21 Id.

22 O nome científico da cevada denota seu uso popular. Plínio o velho (23-79 d.C.) identificou alguns a dieta dos gladiadores com este alimento, chamando-os de hordearii (“comedores de

cevada”, Naturalis historia, XVIII, 72). Bærlic, a palavra anglo-saxônica que corresponde à cevada, é do período das expansões escandinavas em direção à Britannia, e apresenta um som muito semelhante a sua versão em nórdico, bygg. Esta palavra se tornou o radical de várias palavras que estão ligadas a ocupação de determinada região para habitação e cultivo

(SIMPSON, J & WEINER, E. Barley In:

Clarendon Press, 1989; bygg In: ZOËGA'S: A Concise Dictionary of Old Icelandic. Toronto:

Toronto University Press, 2004, p. 80; McGee, Harold. On Food and Cooking: The Science and Lore of the Kitchen. New York: Scribner, 1986, p. 235).

23 VÉSTEINSSON, op. cit., p. 12-17, nota 3.

24 Egils saga, cap. 29.

25 Fish, salmon, Atlantic, farmed, cooked, dry heat In: USDA National Nutrient Database for Standard Reference. Disponível em http://www.nal.usda.gov/fnic/foodcomp/search/ Acesso em 3 set 10.

26 O Allþingi foi a assembléia legislativa e judicial “nacional” da Islândia Medieval. O thing (assembléia votiva de homens livres) foi uma instituição governamental largamente usada pelos povos germânicos. Durante o início da Era Viking (c. 800-1066) havia vários things pela Escandinávia, e os colonizadores nórdicos freqüentemente estabeleciam essas assembléias nas novas terras assentadas. No entanto, o Allþingi islandês era incomum, já que unia todas as regiões da ilha sob leis e uma justiça comum sem depender de um poder executivo superior, como monarcas ou governantes regionais. O Allþingi foi estabelecido em 930: porém, a maioria das sagas menciona a assembléia apenas após as reformas que ocorreram em 960 (BYOCK, Jesse L. Alþingi. In: PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Scandinavia Medieval: an encyclopedia. Oxford: Routledge, 1993, p. 11).

27 The History of Icelandic Horses In: The Icelandic horse Society of Great Britain. Disponível em http://www.ihsgb.co.uk/breed_history.htm Acesso em 3 set 10.

28 ÞORLÁKSSON, Helgi. Historical background: Iceland 870-1400 In: MCTURK, Rory (org.). A Companion to Old Norse-Icelandic Literature and Culture. London: Blackwell, Publishing, 2005, p. 141.

29 GARMONSWAY, G. N. The Battle God of the Vikings. Monograph Series. New York:

University of New York Press, 1971, p. 1-27.

30 FRAZER, James George. The golden bough: A study in a magic and religion. London: Penguin

16 MONTANARI, Massimo. Introduction In:

18 KARLSSON, Gunnar. Colonization and Commonwealth, c. 870-1262 In:

Oxford English Dictionary. 2. Ed. Oxford:

ANAIS DO VIII ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ANPUH - Espírito Santo. História Política em debate: linguagens, conceitos, ideologias. VITÓRIA – 2010. ISBN: 978-85-99510-93-3

Classics, 1996, p. 598-599; BIRRO, R. M. A imagem dos guerreiros odínicos na literatura

germânica e escandinava In:

Egils saga (c. 1220-1230). Vitória: Dephis, 2009, p. 88-99; BIRRO, R. M.; FIORIO, J. M. Os Cynocephalus e os Úlfheðnar: a representação do guerreiro canídeo na Historia Langobardorum (séc. VIII) e na Egils saga (c. 1230) In: RUIZ-DOMÈNEC, José Enrique e COSTA, Ricardo da (coords.). La caballería y el arte de la guerra en el mundo antiguo y medieval, Mirabilia 8, dezembro 2008, (www.revistamirabilia.com).

31 Saxo Grammaticus (também conhecido como Saxo cognomine Longus, c. 1150-1220) foi um culto clérigo dinamarquês sob os serviços de Absalon (c. 1128-1201), arcebispo de Lund. Saxo foi o primeiro a redigir uma história completa da Dinamarca (DUMÉZIL, Georges. Do Mito ao Romance. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 1-18).

32 DUMÉZIL, G. Do mito ao Romance . São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 55-56.

33 Gregório III (690-741), sírio de nascimento, tornou-se papa de 731 até a sua morte. Ele esteve envolvido na controvérsia iconoclasta que envolveu o Império Bizantino. Para fazer frente ao poder oriental, Gregório pediu ajuda a Carlos Martel (688-741). Ele também apelou ao líder

The one year

book of saints. Huntington: Our Sunday Visitor, 1989, p. 171; TATCHER, Oliver. The Pope,

Gregory III, asks aid of the franks against the Lombard, 739. A Letter of Gregory III to Karls

Martel In:

the History of Europe in the Middle Age. London: Read Books Design, 2010, p. 101-102; EL- HAYEK, E. Gregory In: MARTHALER, Berard ET ALLI. The New Catholic Encyclopedia. Vol.6. Farmington Hills, 2003, p. 476-477). 34 SANCTUS GREGORIUS III. Epistola Prima. Gregorii papae III ad Bonifacium archiepiscopum In: Patrologia Latina, vol. 89, 577B-577C.

35 ÞORLÁKSSON, op. cit., p. 145, nota 28.

36 O Íslendingabók (c. 1122-1232) é uma curta história da Islândia, de 870 a 1118, a primeira composição de uma história local redigida em língua vernacular. Ele trata do assentamento da Islândia, o desenvolvimento dos códigos de lei e “administrativos”, a descoberta e o assentamento da Groenlândia. Porém, a maior parte da obra é dedicada à conversão da Islândia ao Cristianismo, além da história dos primeiros tempos da Igreja islandesa. Ari se refere às suas fontes orais, a maioria composta de pessoas idosas, porém confiáveis (HOLMAN, Katherine. Historical Dictionary of the Vikings. Historical Dictionaries of Ancient Civilizations and Historical Eras, No. 11. Oxford: Scarecrow Press,2003, p. 50).

A Source Book for Medieval History - Selected Documents Illustrating

franco contra os Lombardos (STEVENS, Clifford. St. Gregory III In:

A guerra e a imagem do guerreiro escandinavo na

37 Ari Þorgilsson, ou Ari fróði (Ari, o Sábio, 1069-1148), foi o primeiro cronista de destaque na história islandesa. Ele estudou na escola de Haukadalur como aluno de Teitur Ísleifsson (filho de Ísleifur Gissurarson, o primeiro bispo da Islândia). Os textos remanescentes de Ari nos sugerem que ele conhecia as crônicas latinas, embora também tenha sido influenciado pela tradição oral islandesa. Ele redigiu o Íslendingabók, narrativa em nórdico antigo sobre as várias famílias que se assentaram na Islândia (BENEDIDIKTSSON, Jakob. Íslendingabók In: PULSIANO, Phillip; WOLF, Kirsten. Medieval Scandinavia: An Encyclopedia. Oxford: Routledge, 1993, p. 332-333).

38 SUCHER, Kathryn & KITTLER, Pamela Goyan. Cultural Controversy – meat prohibitions In:

Food and culture. Belmont: Cengage Learning, 2006, p. 101.

39 Para mais informações sobre a transição entre o paganismo e o cristianismo na Islândia, ver:

BIRRO, Renan & COSTA, Ricardo. Os ricos proprietários rurais e a cristianização da Islândia (sécs. IX- XIII). Brathair 9 (1), 2009: xx-xx (http://www.brathair.com).