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A IDEOWGIA BIPAKFIDA DOS AMERÍNDIOS

A mitologia das duas Américas não é certamente a única em que a gemelaridade tem papel de destaque. Pode-se dizer o mesmo

dos mitos do mundo inteiro. A Índia védica coloca em cena gera- ções sucessivas de gêmeos, a religiãõde-toro~jtro baseia-se no par antitético formado por Ormuz e Arimã, sem mencionar a rica mito- logia da gemelaridade revelada por Griaule e Dieterlen entre os 120- . gon do Mali, em tudo conforme às crenças relativas aos gêmeos ob- servadas em toda a África. Entretanto, é preciso distinguir duas fórmulas. Às vezes de sexos opostos, os gêmeos estão destinados ao incesto, que já prefi- gurava sua promiscuidade no seio materno. Esse casal em geral

filhos meninos e meninas: de sua união, igualmente inces-

tuosa, nascerá a primeira humanidade. Embora seja encontrado também na América, deixei de lado esse tema mítico porque res- ponde a uma questão específica: como produzir a dualidade (a dos sexos e aquela subseqüente, que a aliança matrimonial impli- ca) a partir da unidade ou, mais exatamente, a partir de uma ima- gem bastante ambígua da unidade para que se possa conceber que a diversidade dela emerja? O Rigveda apresenta um primeiro exem- plo com o hino ( x . 10) em que dialogam Yama e Yami, ou seja, "Gêmeo" e "Gêmea", ele dizendo as estrofes pares, ela as ímpa- res; ambos nascidos de uma gêmea, esposa do Sol, de quem pro- cura fugir, em vão, por não suportar-lhe o calor (comparar supra:

139 n .). Contudo, por obra do Sol ela teria gêmeos, os Asvin, por sua vez progenitores de outros gêmeos. O texto não diz clara- mente que Yami consegue convencer Yama a unir-se a ela; mas, na antiga mitologia japonesa, a gêmea primordial, também por de-

procria

2 0 4

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mais ousada (daí um primeiro filho malsucedido), conta em sua des- cendência vários pares de gêmeos. * A outra fórmula, que faz gêmeos do mesmo sexo - masculino ou feminino -, responde à questão inversa da precedente. A,. dua- lidade pode ser reabsorvida na imagem aproximada da unidade pe~

Ia qual é representada, ou apresenta um caráter irreversível, a pon- to de a distância mínima entre seus termos dever fatalmente alargar- se? Entre essas soluções extremas, os mitos concebem toda uma sé~ rie de intermediários. lrredutível, a dualidade assumirá a forma da antítese, um gêmeo bom e o outro mau; um associado à vida, o ou-

tro à morte; um ao

céu, o outro à terra ou ao mundo subterrâneo.

Seguem sistemas em que a oposição entre os gêmeos perde seu cará- ter absoluto em benefício de uma desigualdade relativa: esperto ou

tolo, jeitoso ou desajeitado, forte ou fraco etc. Os mitos america- nos apresentam uma boa amostra dessas soluções gradiadas, desde

o par antitético formado pelo bom e pelo mau demiurgo nos mitos

da Califórnia do Sul I até os gêmeos respectivamente benfazejo e

malfazejo dos Iroqueses, passando pelos ilustrados num mito dos

Coeur-d'Alêne. Esse mito conta que uma mulher surpreendeu os fi- lhos gêmeos quando estes discutiam às escondidas. Um dizia: " É melhor estar vivo", e o outro: melhor estar morto". Ao notar

a presença da mãe calaram-se e, desde então, de tempos em tempos,

as pessoas morrem. Sempre há uns que nascem e outros que falecem no mesmo instante. Se, sem ser vista, a mulher tivesse deixado os filhos terminarem sua discussão, um dos gêmeos teria vencido e não haveria vida, ou não haveria morte. Um outro mito salish, mas da costa, trata o tema dos gêmeos numa veia pitoresca: dois irmãos sia- meses estavam colados pelas costas de modo que um deles tinha de andar para trás quando o outro andava para a frente; armados de arcos e flechas, eles sempre atiravam em direções opostas." Na América do Sul, companheiros, gêmeos ou não, desigual-

mente dotados física ou moralmente, vivem as mesmas aventuras

e cooperam entre si. O mais inteligente ou mais forte conserta os

(*) Izanagi e Izanarni uniram-se depois de lerem contornado, ele pela esquerda

e ela pela direita, o pilar celeste, encontrando-se do outro

teu o erro de falar primeiro em vec de deixar a iniciativa a seu parceiro masculino.

Belo paralelo num mito chilcotin: "Eles viajaram e chegaram ao pé de uma montanha alta. O irmão disse à irmã que eles deviam se separar e contornar a mon-

lado. Mas a mulher come-

tanha, ele por um lado e ela pelo outro; e que se dessem um com o outro iriam casar-

se, senão não poderiam fazê-lo" (Farrand

2: 22).

205

_,.c

e rr os ou imperícias do ou t ro, e até o ressus c ita, se ele morrer vítima

d e s u a própria incapacidade : assim , Pud e Pudleré dos Krahô, Kéri

e Kamé dos Bakairi, Méri

na, Mak unaíma e Pia dos Carib etc . ' Mas, em geral, os mitos ame-

como se renunciassem a tornar os gêmeos de Cástor e Pólux, famosos por sua amiza-

de frater n a e até , como d i z Plutarco, "união indivisí v el que havia

ric anos param por aí, homogêneos à maneira

e Ari dos Bororo, Dyoi e Epi dos Tuku -

e

ntr e eles"; "par altamente igualitário" , sublinha Marcel Detien-

n

e ," ai n d a que gerado por pais diferentes, um humano e o outro di -

v

ino . Os Dióscuros anularam essa disparidade inic ial compartilhando

a

mo rtalidade - de um e a imortalidade do outro. No início, sua si-

t

u ação e ra , portanto, semelhante à dos "gêmeos" americanos, nas-

c

ido s de casais, ou no mínimo de pais, diferentes (supra: 53). Na

A mérica, contudo, a desigualdade se mantém e ganha progressiva-

mente todos os domínios : a cosmologia e a sociologia ind í genas lhe

de v em sua mola mestra. Em resposta ao problema da gemelaridade, o Velho Mundo fa -

v oreceu soluções extremas: seus gêmeos ou são antit é ticos ou são .

idênticos. O Novo Mundo prefere formas intermediárias, que os aI l - tigos c ertamente não ignoraram; nos termos em que Platão o narra

( Protágoras, 321 ) , o mito de Prometeu e Epimeteu poderia ser bra -

sileiro

permaneddü - bâ IX - o ü - ' i rei ldimento", por assim dizer, dessaf6r - mu - - -

Ia q u e c ons i ituiao contr á rio , uma espécie d~céhiT a g e rminarn _ ~ ~ L

tolog i a do Novo Mundo . * Dumézil insistiu longamente na igualdade, quando não indistin- ção , e ntre os gêmeos na tradição indo-européia. "Os hinos - - vé dic~;

tr at a m os A s vin ou Nãsatya como uma entidade; o M ã h ã bharata

faz d e s eus filhos gêmeos Nakula e Sahadeva personagen s modestas

Parece contudo que, na mitologia do Velho Mundo, tenha

(*) Se gund o C l . Vo i sena ; (L ' ho mm e, XXV III , I ) , a mit ologia g r e g a a s s o c iav a a

gerneia ri da d e à suj e i r a e a o e xcesso, c o n fe ri nd o -lhe ,

v a . Mas ded uz - se de s eu ar tigo qu e t a i s conot aç õ e s

partir de u ma l e i tura d a h is tó ri a

mito l ogia, e nã o o i n v er so. O caso d e Es pa r ta p ar e c e s er sign i f i cativ o .

portanto , uma acepção n ega t i -

s e e v iden c i a m pr incipalm e nte

a

d a polít ica sob r e a

P o i s é e v id e n te

"que nte ":

e f e itos r etroa t i v os

que a prát ic a d e u ma re a le za d ua llá o rigin ou, d e f o rma r e tro a t iv a , o mit o d e o r ig e m

("Lat r i a e A n axa ndra [

[Procles e Eur fs t e n es, tro nc o s d as dua s d in ast i as de E s pa r ta] , t a mbém gê m e o s, des p os ar a m -n a s", P a u sâ n ia s , I 1 I, I, 7; I 1I , XV I, 6) . Cer t a men t e n ão é o mito q ue, em Esparta em pa r t icul ar, se pr o l o n ga numa fo r ma d e o r ganiz a çã o polít ica d a qual são

G r éc i a ( Mi c hell, pp . 101 - 4) e e m o utr as re -

c on h e c idos

giões do mund o.

] era m gêmeas e, co n seq ü en tem e n t e , os f ilho s de Aris t od e rno

v á r ios exem p l os na pr ó p ria

2

06

q u e d e s e mp e nham um pap e l a pa ga do . Os a u tores d os h inos, n ota

Dumézil, intere ssav am -s e pou c o n a t e o l ogia dife re nci al ; t udo se pas sa

em s eguida como s e uma t e nd ê n c i a c on stan t e ti vesse l ev ad o o pen sa -

m e nto indo - europeu a apagar a diferen ça entre o s g êmeos , pois vá-

rio s indícios s uge r em que teri a si do m ais ma r c a da n a o r i gem . O c a so de Rômulo e Remo a testaria a persistência de con c epções antig a s , igu a lmente te s temunhadas, sob um a f o rma bastante enfraquecida , pelos talentos diversos atribuído s a Cá s tor e Pólux ( um e s pecial i sta em equ i tação e o outro em luta) e, num outro regi s tro, pelos a t r i buto s -respectivamente s abedo r ia e b e le z a - d os do is filhos do s A sv in . ' Tratando d e uma conjuntura idênti ca - um gêmeo mor t al re -

o outro, imort a l , re s ide no cé u s ob a forma d e

c e be sua sepultura ;

um astro _ ,6 o mito g r ego reje i ta e ssa disparidade e i g u ala a s dua s

condições , ao passo que o mito am eric . :a n o se ad a pt a a ela sem ac h ar

que de v a mudá - Ia . Em toda a Eu r op a,

aos gêmeos bordam sobre o tema de su a c om p let a i de ntidad e : fi s i -

came nte indistinguíveis um do outro a n ã o s er recorre ndo

cios cosméticos ou de v estuário , com o s m e smo s go st os , me s mos pen - samentos, mesmo c a ráter, apai x onado s pela me s ma mulher, ou tão idênticos que a mulher de um o con f und e com o irmão, doentes ao mesmo tempo, incapazes de sobreviv er um ao ou t ro etc. De s sas cren- ças, La Petite Fadette oferece uma espé c ie de ep í tome.

O pensamento ameríndio, por sua 'fez, recu s a essa noção de gê - meos entre os quais reinari a urna perfeita identidade . Pais dos me s-

mos gêmeos (como Zeus e T í ndaro dos Dió s curos) , * Lince e Coiot e foram originár i a ou temporariamente idênticos segundo um mi t o já citado (supra: 54) . Convém acrescentar que povos tão di v e rs os pela língua e a cultura como os Kutenai, o s Wi c hit a e os Sia contam esse mito nos mesmos termo s , não obstan t e a distância que separa o Mon-

t an a tanto do No v o M éx i c o como de

e ncontram - se , no inter v alo , n u me r o s as ver sõ e s aparentadas . L in ce,

que tinha diferenç a s com Coiote , e s ti c ou o foc inho, as orelha s e as

p atas do inimigo. Em repr e s á l ia, Co i o te af un d ou o focinho, as o re-

lh a s e o rabo de Lin ce, raz ã o pe la qu al ess e c a ní d eo e ess e f el i n o se pare c em t ã o pou c o hoj e em di a. ** Ta l vez f o ssem e l es i g u ais o u -

a s id é ias popu l ares r e lativa s

a arti f í -

O kl ahom a e do Texas :? ma s

(*) S em esq u ecer q u e em outras tradiç õ es

e l es são filhos ape n as d e Zeus,

ou

de u m pai de dup la n at ur eza ,

ao m esmo temp o di v i na e humana.

(

0 0) Num estil o um p ou c o d ife r ente,

o s Kaska, peque n o p ovo a th apaskan

d o

Norte da Colú m b ia B ritâ ni ca,

re d e d e g elo (T eit 8 : 4 5 5 ) . H ab i tantes de um vasto territór i o em t o rn o do l ago Supe-

rior, a m eio ca m in h o e ntr e o At l â n t i co e o Pacífico (be m a leste, portanto,

d a região

c o ntam que Lince amassou o próp r io na ri z n u ma pa -

207

tr o r a , ou o tenham s ido durante es s e curto mome nto em que, so-

f r e ndo transformações em sentidos inversos , seus resp e ctivos físi-

c o s c oincidiram . E m amba s as hipóteses, a identidade constitui um est ado revogável ou provisório ; não pode durar.

O pe nsamento ameríndio d á assim à simetria um v alor negati - vo, mal é fico at é . Discuti em L ' homme nu a conotação sinistr a do s

p a r é li os, que os mitos rela c ionam a histórias de gêmeos, muitas ve - zes s aídos de uma pe r sonagem cortada ao meio no sentido vertical,

e que se tornam incest uo s os. * Quando

pitado, dizem os Haida, a cabeça e o corpo voltam a se unir; mas ,

se f or f endido verticalmente e se c olocar uma mó entre as metades ,

o s er sobrenatural mói a si mesmo e se reduz a pó. Esse é o único

p r oce d i m e nto capa z de destruir um ser sobrenatural."

um ser sobrenatural é deca -

F in a lmente , é digno de nota que, na América , um dos gêmeo s

q u ase sempre o c upe o p o sto de deceptor: o princ í p i o do desequil í -

br i o e s tá situado no interior do par . Na Grécia antiga, que faz rei-

n ar a harmonia entre os Dióscuros, o princípio do desequil í brio só

pod e

s e encontrar no exterior. O papel de deceptor cabe a uma ter -

c

e i ra pers o nagem, Eu r imas ou Eurimnos , qualificada por Ferecides

c

omo diábolos (que traduz bastante bem deceptor), acerca da qual

n ã o SI.! sabe infelizmente quase nada , a não ser que Pólux matou-a

c om um soco porque ela tentava jogá- lo contra o lrm ã o.l? Por consegu i nte , a inda que os indo-europeus tenham tido uma concepção arcaica da gernelaridade, próxima da dos ameríndios,

afa sta r am-na pro gr essi v amente. k diferença dos índios e como di-

men f ilosófi c o p a r a qu e e m to d o e q u a l q u e r setor C:o cosmos ou da

s o cie dade as c o is as n ã o p e rman eçam e m seu esta do i n i c i a i e g , u :, de um dualismo in s t áv el em qualqu e r nível que s e o a preen da, ~ em -

p re re sulte um outro dualísmo i nstá v e l . E ss a fi lo s o f ia a c ompanhou- nos em todo o percur s o das duas v i as paral e las qu e segu i mos neste

liv ro, e que desembo c aram no t e ma da i mposs ív el gemelar id ade : a

dos índios e brancos de um lado, do ne v oeiro e do vento do outro . Convergência de doi s itinerários cuja prov a seria forne c ida pelas construções formalmente hetero g ênea s d e um mito s obre a origem do ne v oeiro , que reflete como um m icroc o sm o o u ni v e rs o da mito- logia ameríndia, e de mito s sobre o r e gi m e do s ve nt os qu e c onden-

s am tudo o que o s í ndio s c onhe cia m d o f ol c lo re eu ro peu ( s upr a: 18 3 ).

S em dú v ida, a i mportâ n c i a

que os p c v o s d e ssa região da.Amé-

~

r i ca

vas.

penetr am no cora ç ão das montanha s, dotada de um clima ameno e de chuvas abundantes, o nevoeiro s e impõe como um dado da e x - periência. O que também se aplic a , ainda que em menor medida, ao planalto interi o r, onde a barreira formada p e la c adeia costeir a impede o ar marí t imo de penetrar. Reina ali um clima semidesértico (a média anual de precipitações é de 25 em r . o v ale do rio Thompson contra 275 em na costa ocidental da il ha V an c ou v er) , com grande s

atribuem ao nevoeiro e a o v en t o se ex plica p or razões obje ti - Na zona marítima, cortada po r e s tre i to s, golf os e fiordes que

r

i a Dumézil , dela "não tiraram uma explicação do mundo" ; '! Pa -

v

ariações de temperatu r a entre

o v erão e o i n v e r no . Indo do inte-

r

a os i ndo-europeus, o ideal de uma gemelaridade perfeita podia

rior para a costa , a média anual dos dia s de n ev oeiro denso ele v a- s e

r

ealiza r- se, a de s p e ito de condições iniciais desfa v oráveis . ** No . pen-

de uma vintena para mai s d e 45, cor a dois perío d o s m áx imo s em

sa mento dos ame r índios, parece indispens á vel uma espécie de clinâ-

março e outubro . "

Os meteorologi s tas

Esses ne v oei r o s n ã o sã o t odos do mesmo tipo .

 

,

c

di s tingu e m v ár i o s, d e irra dia ção, d e adv e c çã o ,

a que este livro se circunscreveu), os Ojibwa explicam por uma queimadura sofrida

que ele mesmo enfiou para dentro do corpo, são hoje em dia pouco visíveis como

r i os , quente s etc . S e Linc e s u sc it a u m nevoei ro ínvernal qu e i mpo s-

f

por Lince o fato de ele ter a cara feia, achatada e enrugada; e por que seus testículos,

os do gato (W. Jones: 11, 125 ,70 5 ; Radin: 3 7 ; Speck: 67-8) . Por esse fíSICOintrover-

s

n as o s irmãos Cãe s, d en tr e tod os os anim a i s, t i ve r am o p od er mági-

ib i l i ta a caça e causa f om e (s up ra : 1 9), seg undo out r os m i t os ap e-

tido, Lince se opõe a Coiote, que possui um físico extrovertido.

c o de pôr ter m o ao s rigores d o inverno e à fa l t a de a l i m e n to: " S e

Uma última observação quanto à morfologia do Lince: se o Velho Mundo lhe atribui visão aguçada, na América do Norte os Ojibwa dizem-no estrábico desde que

co n s e g uirmo s" , d iz e m, " qu an d o vier a auror a co rt in a s d e bru m a

s u bi r ã o par a o s pic os; a ne ve e o ge l o derreterão, a terra se aquecerá ,

 

tentou

abarcar com o olhar um panorama

extenso demais (W. Jones: 11, 1 3 1 ).

(0 ) Um mito chinês segue o caminho inverso. Fala de irmãos incestuosos que morrer aru e ressuscitaram na forma de uma personagem única dotada de duas cabe- ças, quatro mãos e quatro pés. 8 (00 , Os Dióscuros gregos tiveram ao mesmo tempo como dublês e adversários

um par de irmãos, seus primos patrilai erais, chamados Idas e Linceu

O fato de, na

208

América, uma personagem

os gêmeos levarem a uma personagem cujo 1I0me deriva

um desses acasos de que a mitologia comparada fornece outros exemplos sem que

se possa, no mais das vezes, extrair disso nada além de satisfação poética.

chamada Lince nos ter levado a gêmeos e de, na Grécia,

da palavra lince constitui

209

a

chuva cairá e os cervídeos descerão para os vales. Teremos muito

o

que comer, ninguém mais terá fome, será a primavera ". ' ! A mu-

dança de estação, do tempo ameno ao frio ou do frio para o tempo ameno, diz respeito, pois, a personagens - Lince de um lado, Cães do outro -, protagonistas de mitos cujas respectivas estruturas tam- bém são, como vimos, correlatas e opostas (supra: capo 14) . Quanto aos ventos, sua importância no pensamento indígena

se mede pelo fato de os Twana de Puget Sound, por exemplo, defini-

rem as direções do espaço em termos da rosa-das-ventos: "Num uso extensivo, esses termos designam os pontos cardeais; mas é evidente que se referem inicialmente aos ventos" .14 Povos dessa região con- tam vários mitos acerca da guerra dos ventos, principalmente entre

o

do Nordeste e o do Sudoeste, um frio e o outro quente (cf. L ' hom -

m

e nu , M754' M 7W M780' M78J' M78J OS

índios do cabo Flattery,

"admiráveis meteorologistas que prevêem a tempestade 011 acalmaria

com a precisão de um barômetro ou quase", distinguem seis ven-

tos: do Norte, do Sul, do Leste, do Sudeste, do Oeste, do Noroes-

te . " Nos relatos míticos os ventos constituem uma família. A dama

Vento-da-Oeste e o senhor Vento-da-Leste têm dois filhos, Venta- do-Norte e Vento-da-Sul (supra: 124); ou ainda, Vento-de-Chuva

(o do Sudoeste) casa-se com a filha de Vento-Frio (Norte), que mata

o genro. Vento-de- Tempestade, filho do morto, irá vingá-Io.P

O vento do Sudoeste, chamado chinook (do nome de um povo

do estuário do rio Colúmbia), provém, como sugere seu nome, do oceano. Tempestuoso e carregado de chuva " quando chega em janeiro-fevereiro à costa, perde sua umidade ao ultrapassar as bar- reiras montanhosas formadas pela cadeia costeira e pelas Cascades, depois pelas Rochosas. Transformado num vento quente e seco, so- pra violentamente nas Planícies e provoca altas de temperatura es- petaculares, que já se fazem notar entre as Cascades e as Rochosas. Um observador do início do século descreveu-as em termos líricos na região antigamente chamada de território do Oregon (que com- preende os atuais estados de Oregon, Washington, ldaho e parte de Montana), de onde provêm vários dos mitos que utilizamos:

É difícil imaginar em toda a natureza um espetáculo de um pitoresco mais arrebatador do que o devido ao chinook. O termômetro pode

ter caído a quase zero [Fahrenheit], a terra pode estar sepultada sob

um pé de neve, sufocada pelo abraço mortal de um nevoeiro denso; repentinamente, como que sob o efeito de uma poderosa aspiração, o nevoeiro se desagrega, revelando os cumes já em parte livres de ne- ve. Então, surdo e sibilante, o quente vento do Sul investe c0Il!0 um

2 10

exército. A neve começa a derreter como uma esponja serrada, o ter- mômetro pula para sessenta, e em menos de duas horas é o clima da Califórnia do Sul. Não é de espantar que os índios personifiquem esse vento. Nós mesmos o personificamos. I ?

Para os povos pescadores da costa, o vento do Sul era, no en- tanto, amedrontador. Contam que os animais lhe moveram guerra

e o venceram. Mas não o mataram, por isso ele sopra apenas du-

rante alguns dias seguidos, depois se acalma. 18 Segundo um outro mito, o demiurgo teve de intervir para que cessasse a guerra entre

os irmãos Ventos-da-Nordeste e os irmãos Chinook. Moderou uns

e outros, mas deixou em vantagem os Chinook.

E assim, hoje em dia, no perpétuo fluxo e refluxo dos oceanos celes-

tes, quando o vento do Norte se desencadeia, varrendo tudo em seu caminho desde o Canadá setentrional até a bacia do Colúmbia, seu domínio é apenas transitório. Pois, transcorridas algumas horas ou no máximo alguns dias, uma linha azul-escura aparece no horizonte pelo sul. Rapidamente os picos se desnudam da neve que os cobria. e é a libertação: na manhã seguinte, poderoso e ruidoso, o chinook abençoado chega do Sul e o domínio gelado do Norte funde como que sob o sopro de uma fornalha. A luta é breve e a vitória do chinook, certa. 19

guerra do vento quente contra o vento frio corresponde ri-

gorosamente, num outro registro, à dos terráqueos contra ° povo

fogo (cf', '''L ' homme nu, 7 ~ parte, II) : com

efeito, se o vento quente do Sudoeste vem do mar, ou seja, de bai- xo, o vento frio do Nordeste mora no céu. 2o O paralelismo fica evi- dente numa versão shuswap. Outrora, os animais sofriam de frio [em vez de falta de fogo]. Lebre e Raposa partiram em expedição para o Sul, onde viviam os senhores do vento chinook e do tempo quente. Lá chegando, furaram o saco que continha o vento. O po- vo do Sul tentou barrar-lhes a fuga provocando um calor abrasador que se espalhou por todo o país, mas os dois heróis correrarn mais depressa. "Doravante os ventos quentes soprarão até o Norte, fa- zendo derreter a neve e secando a terra. O povo do frio não mais mandará sozinho no tempo e seus rigores atenuados não farão os humanos sofrerem demais. "21 Contudo, à diferença do outro ciclo, de onde resulta uma conse- qüência irreversível, a ruptura da comunicação entre os dois mundos, aqui o combate termina num acordo. Nenhum dos lados obtém uma vitória decisiva, o vento frio e o vente quente irão alternar-se. Os

A

celeste pela conquista do

2 11

Coeur-d' Alêne podem descrever a chegada do bom tempo em ter- mos categóricos: "Assistimos ao assassinato do Frio por seu ir-

mão

primavera't.ê-

"; limitam em seguida a fórmula esclarecendo"

a cada

Essa noção fundamental de um dualismo em perpétuo desequi-

líbrio não transparece apenas na ideologia. Seja na América do Norte

ou na América do Sul,

reflete-se também na organização social de vastos grupos de popu- lações. As tribos da família lingüística lê e outras, suas vizinhas no

Brasil Central e oriental, ilustram-no. Uma obra coletiva recente, cujos autores tiveram o generoso pensamento de me dedicar (assim como à memória de W. H. R. Ri- vers, o que constitui uma honra ainda mais opressiva), traz vários fatos novos e análises penetrantes acerca do dualismo. Um dos res- ponsáveis pelo volume ao lado de Uri Almagor, David Maybury Le- wis, desenvolve, acerca da organização social dos Jê,visões que só posso considerar judiciosas:

(onde a evidenciei entre os Winnebagoj-'

) constituem teorias so-

ciais g lob a is (comprehensive social theories) unindo o cosmos e a socie-

dade [ ) que não são part ic ularmente dependen t es de nenhuma institui-

ç ão. Elas são capazes de gerar novas formas institucionais (new insti-

tutional arrangements) quando e onde isso se re v ela necessário.ê"

A s organizações dualistas do Brasil Central [

O estranho é que o autor dessas linhas acredita afastar-se de mim quando, há mais de quarenta anos, acerca das organizações dualis- tas em geral e do Brasil Central em particular, não tenho dito ou escrito senão exatamente isso.

Structures élementaires de Ia parenté eu refutava a tese

(a qual me foi atribuída) de que as sociedades dualistas seriam re-

de metades, e estes a um meio de garantir o

equilíbrio das trocas matrimoniais:

dutíveis aos sistemas

Já nas

) .

É, a nt es de m ais nad a, um ~ r i I !< : í p j o d e org a niz açã o , capa z de re c eber aplicaçõ es muit o d iversas e so b re tud o mais ou meno s a v ançada s. E m certos cas o s, o pr i n cí p io a pl ica-se so m ente às c ompe t i ç õe s esp o r t i vas;

em o u tros e s t en d e-se à vi d a p o l í t ica

) ; e m out ros c aso s a i n d a a pl ica - se

à v i da r e l igi o s a e cerimon i al . É possíve l e n fim esten d ê -I o aos si st e mas

A organização d u alis t a nã o é, p ois, p rimei rame n te uma i nstitu i ç ã o [

de c asamen t o . [P . 11 4 da edição brasi l eira , t rad . Ma riano F e r r e i r a , Petrópolis-São Pa ul o, Vozes-Ed u s p , 1 97 6)

212

Do mesmo modo, quando Maybury Lewis escreve que "a hie- rarquia não é incompatível nem lógica nem sociologicamente com uma organização dualista sólida e duradoura (thoroughgoing and persistent)" , 2 5 concordo ainda mais com ele na medida em que num texto (ausente de sua bibliografia, assim como, aliás, o de J. Christopher Crocker, escrito, como precisa seu autor, em prolon- gamento do meu) eu havia colocado o problema da relação entre reciprocidade e híerarquía.ê'' Mostrava então que, se entre os Bo~ roro a.:: metades estão ligadas por toda uma rede de direitos e de obrigações recíprocas, encontram-se, no entanto, em desequilíbrio dinâmico uma em relação à outra. * Eu sublinhava também que as metades sul-americanas não são "em nada comparáve's aos siste- mas australianos, já que no primeiro caso jamais um par de meta- des desempenha o papel de classes matrimoniais" (p. 268). Final- mente, eu avançava as reflexões de Maybury Lewis ao escrever, ain- da no mesmo texto:

Uma anál i se t alvez unilateral da o r g an ização

a vançou o princíp i o da recipro c idade como s ua c au sa e se u pr i n ci pal

resultado [

tades pode e xpressar não apenas mecanismo s de re c ipro c id a de, ma s

também relações de subordinação . "

Mes mo n essas rela ç õe s de s u -

du a li s t a m u it a s v e zes

) Contudo, não s e deve e s que c e r q ue u m s i stema de m e -

bord i nação , c ontudo , o prin c ípio de re c ip roc idad e es t á operando ; p ois

a subordinação

z i a num plano a conce d e à m e t a de op os t a num o u t r o .

é ela me s ma re cí proc a: a me tade qu e ga nha a pr ima-

(.) Fui acusado (Maybury Lewis, pp. 110-3) de ter dito que o dualisrno diame- tral era por essência estático, Mas é justamente por tê-I o demonstrado com base em

argumentos de ordem formal ( A n t h r opo l og ie s truc t urale, p. 168; Ant hrop o l og i e struc-

turale d e u x, p. 91) que pude concluir, contrariamente às visões de meus predecesso- res, que o dualismo diametral não constituía por si só um modelo adequado para compreender o funcionamento das organizações dualistas, cujo dinamismo exige que se recorra a outros princípios. Todo o meu texto de 1944 já demonstrava que, em meu pensamento, uma sociedade como a dos Bororo tira seu dinamismo do jogo entre a reciprocidade e a hierarquia, ( •• ) Seria, contudo, ingênuo restringir ao Brasil Central I ) alcance de tais con- siderações. Estando em 1983 em ilhotas do arquipélago das Ryúl.yü, observei os mes- mos desequilfbrios alternados entre as metades, uma associada ao Leste, aos homens, ao mundo profano, e a outra ao Oeste, às mulheres, ao sagrado, Na ordem política e social, a superioridade cabe ao princípio masculino; cace ao princípio feminino na ordem religiosa, Nas aldeias que visitei, o rito de luta da corda, no qual as duas metades se opõem, inspirava sentimentos ambíguos, A superioridade do time do Leste era reconhecida, mas a vitória do time do Oeste era considerada benéfica para a fe- cundidade humana e para a prosperidade das plantações (LS 1 5 : 25-6; cf. Yoshida:

213

Eu concluía: " É possível que os sistemas com múltiplos pares de metades que se entrecortam, típicos da organização dualista na Amé- rica do Sul, se expliquem como uma tentativa de superar tais con- tradições" (p. 268). Por conseguinte, num vasto conjunto de povos sul-americanos, uma organização social "em estreita correspondência com as idéias metafísicas" (ibidem) parece ser ela também concebida nos moldes de um desequilíbrio dinâmico entre termos - seres, elementos, gru- pos sociais .- que seria tentador repartir em pares, pois que, à pri- meira vista, e considerados dois a dois, parecem equivalentes, iguais, às vezes até mesmo idênticos. Reencontramos assim o tema desen- volvido ao longo de todo este livro. É fato que, entre as culturas chamadas "baixas" da América do Sul, esse tipo de organização social parece ser próprio apenas dos lê . Seeger notou com humor:

A p r imei r a reação de v ários etnó g ra f os que trabalham nas terras ba i - xas d a América do Su l é di z e r que o dualismo tal como foi descrito

e ntre o s não s e aplica ao grupo estudado pelo próprio etnógrafo :

" Is s o não é tupi " ,

objeta ele . As s im que alguém propõe um quadro

ge

r a l para analisar um grupo de s oc i edades, um outro antropólogo salta

e

p ro c lam a que nada de semelhante existe em algum out r o lugar (no

B

r asi l, esse grupo inclui as famílias lingüísticas Tupi , Arawak e Carib) .

Sem dúvida, prossegue Seeger,

o arg umento "is s o não é t u pi " est á p e rfe i t a mente

acen tu a r as di s tinções , os Tup i tendem a neg á -Ias e un i r o s contrár i os. Não s e e ncontram, entre o s Tupi da f lorest a, formaç õ es soc i ais com -

p l exas e q u e se e ntrecorta r n ,

disso, e s píri tos (cen t enas d e l es ) qu e n ã o e s t ão necess ariamen te orde -

na d os de um modo binário . 2 7

cor r eto . Em v e z de

co m o s e ob se r v am entre o s Jê ; em vez

65,6). Na i l ha mais me r idio n a l

contradições

c orda po rqu e não c o n seg u i am

d uas equipes, t alvez p o rqu e a e q u i p e d o Lest e t i nh a p o r s ímbolo o so l , e a d o Oe ste,

s up e rior ao seg u ndo. ( Co s mos , 5 , 19 8 9 ) e v i d en c i a b e m ,

a lu a, sendo qu e o p r i me i r o

(pp. 26, 34, 1 37) n ot ou

d as Ryükyü, C. O u weh and

a n á l o g as,

in er en tes

ao s i stem a . T e ria m inclus ive d es i s tid o

d a luta d a

de uma das

c he ga r a um ac ordo qu a nt o à p ri o r id ad e

ast r o era co n si d era do

Um a rti g o de T . Yo s h i da e A . Duf f - C o o p er

tan t o em Okinawa como em v a l i, as re l aç õ es dia l é j i cas entre s is t e m as d e op~ s iç~~s -

No r te/ Sul, Oeste / L este . iemin in o / m asc ul ino,

mar / m on t an h a,

e xter n o / i nt e rn o

etc.

-

e m que o s v alo r e s relati v o s a t r i bu ído s

aos t e rm os d e c ad a p ar s e in ver tem quand o

se

pas s a da esfera d o sag r ado à d o profa n o,

d o m undo d o s v i v o s a o mu ndo do s m a r,

tos e t c . Al i , co m o a l hure s ,

a re c iprocidade e a h i er a rqui a .

o duali s mo se traduz por u m movim ento

214

pen dul ar en tr e

Tudo isso é verdade. Mas se os Tupi não deram lugar ao dualis- mo ne-fi'em sua organização social, nem em seu panteão, é o dua-

Iisrno que ordena sua mitologia. Demonstrei-o no capítulo 4 e no final do capítulo 5. Quanto a isso, os Arawak t OS Carib, que tam- bém possuem o ciclo dos gêmeos, em nada diferem dos Tupi; e vi- mos (cap. 5) que é possível passar por transformação da mitologia dos Tupi para a dos l ê. Finalmente, a organização social das civili- zações andinas apresentava, na época da descoberta, analogias no-

táveis com a que ainda não desapareceu entre

Contrariamente ao que Seeger irnagina.ê? não vejo na organi- zação dualista um fenômeno universal resultante da natureza binária do pensamento humano. Apenas constato que povos que ocupam

uma área geográfica certamente imensa, mas circunscrita, escolhe- ram explicar o mundo pelo modelo de um dualismo em perpétuo

desequilíbrio,

os Bororo e os l ê . 28

cujos estados sucessivos se em butem uns nos outros:

li dualismo que se expressa de modo coerente, ora na mitologia, ora !. na organização social, ora em ambas.

Uma ilustração esquemática dessa forma particular de dualis- mo me foca fornecida pelo-contraste entre os Dióscuros da tradição greco-rornana e os gêmeos ameríndios. Desiguais pelo nascimento nos dois casos, os primeiros conseguiram tornar-se e permanecer

iguais; os outros, durante

toda a sua vida terrestre e além, dedicam-

se a aumentar a distância que havia entre eles. Inferir-se-a daí que, no tocante à gemelaridade, sociedades quentes podem se contentar com uma filosofia fria e que sociedades frias - talvez por serem-no

- sentem necessidade de uma filosofia quente? Eu não iria tão longe,

mesmo porque há muitas razões para crer que, em outros aspectos, os mitos iriam contradizer a hipótese. Nesse domínio ininterrupto que constitui idealmente a mitologia geral, formando uma rede co- nexa demais para que significações dela se desprendam, às vezes acontece de um cruzamento brilhar com uma fosforescência fugi- dia. Ela surpreende, paramos, lançamos um olhar curioso, tudo se extingue e passamos. A mitologia dos gêmeos oferece um terreno propício a esse tipo de ilusão. Entre os seus atributos sagrados, os Dióscuros possulam.uma planta, o Sil p h i on ." à qual os antigos atribuíam virtudes extraor- dinárias. Da Líbia, onde crescia em estado selvagem, importavam- se carregamentos dela para consumo alimentar e para diversos usos medicinais, Era considerada tão preciosa que, quando César se apo- derou do tesouro público de Roma, foram encontradas enormes

215

quantidades de Silphion em conserva. Desde pelo menos o século

no território em que

crescia espontaneamente (nunca se conseguiu cultivá-Ia), foi subme- tida a regras severas. Quando, por volta do final do século I a.C., os administradores locais relaxaram o controle por negligência ou interesse, a espécie, sobreexplorada, desapareceu em cinqüenta

anos. ! ' No inicio da era cristã os romanos só a conheciam de nome

e de reputação.F

• VI antes de nossa era a colheita do Silphion.,

O Silphion não era o peucédano oficinal, conhecido e utilizado

Antiguidade (supra: 108 n.), mas, segundo L.

Hahn, provavelmente uma peucedânea.P de qualquer modo, uma umbelífera de um gênero vizinho, produtora de um suco resinoso. Por detrás da crença que associa o Silphion aos Dióscuros, talvez não haja senão uma alusão à passagem dos dois heróis por Cirene,

na Europa desde a

cidade de onde se exportava o Silphion (a menos que essa visita tenha sido inventada para dar mais corpo à própria crença). E dedicaremos um interesse sobretudo anedótico à reutilização do termo Silphium, que ficara disponível (já que não se sabe qual a planta que designa-

va outrora), para nomear em linguagem científica uma composácea

americana que secreta uma goma (nomes populares: Rosinweed, Compass Plant).34 Sem saber, Lineu reproduzia nessa escolha, res- trita à nomenclatura, * a escolha, feita pelos índios, de uma compo-

sácea de um gênero vizinho, dotada da mesma propriedade, para substituir no ritual uma peucedânea ausente de seu território (su- pra: 109). Coincidência picante na qual seria possível perceber um sinal de que o espectro do Silphion ronda pelas paragens

Finalmente, se retivermos o valor tanto

alimentar como mágico

e religioso atribuído no Noroeste da América do Norte a peucedâneas (também diferentes de Peu c edanu m officinale L.), o uso obrigatório

( * ) " [

] o verdadeiro s ilph i um , cujo nome Lineu talvez tenha se equivocado

1 0 atribuir a um gênero da família das corimbíferas, originário da Louisiana, por

ambérn apresentar folhas aproximadas e até unidas por baixo" (Dictionnaire des

art.

'Silphium ", Paris-Estrasburgo, Levrault, 1827). Mas não havia uma certa arnbigüi- lade terminológica no espírito dos índios entre umbelíferas do gênero Peucedanum = Lomat i um e uma composácea, vizinha do gênero Si/phium (cf. supra: 109 n.)? Uma espécie (Silphium lacinatum L.) era reverenciada pelos Omaha e pelos Pon- a, índios de língua siouan habitantes da região do Missouri. Eles evitavam acampar nde a planta crescia, pois, segundo eles, ali caíam raios freqüentemente. Por outro Ido, acreditavam poder afastá-Ios com a fumaça de um fogo feito com as raízes .cas. Os Winnebago da região dos Grandes Lagos empregavam Si lp h i um pe r fo t ia -

ciences naturelles [ ] par plusieurs p rof ess eurs des jardins du roi etc., t. X L IX,

t m como ernético para fins de purificação ritual (Gilmore: 80).

2

1 6

de uma tal umbelífera, ou da composácea supracitada, para o pre- paro ritual do primeiro salmão e principalmente a assimilação, fei- ta pelo pensamento indígena, entre gêmeos e salmões, é difícil evi- tar uma certa perturbação. Tanto mais que, segundo os Kwakiutl, os grãos de Peuc e danum mascados e cuspidos afugentavam os mons- tros marinhos e, segundo os Thompson, dissipavam o vento e a tem-

pestade; ou seja, as mesmas virtudes que os antigos atribuíam aos Dióscuros. Na América do Norte, o emprego de plantas resinosas na culinária ritual se explica provavelmente por referência implícita ao fogo primordial (supra: 111). Os antigos também relacionavam

Dióscuros ao fogo " e, como se sabe, a meteoros luminosos. A aparente coerência de todos esses fatos levaria a crer c,ue, por razões que nos escapam, tanto no Velho quanto no Novo Mun- do fazia-se uma associação entre certas umbelíferas e gêmeos. Cer- tamente isso não passa de uma ilusão de ótica. Mas as ilusões têm seu charme e é perdoável que não se permaneça insensível a elas, contanto que se saiba onde parar. Seria possível que, em raras ocasiões, esse poderoso instrumento que é a análise estrutural consiga romper os limites de nosso mundo próximo, e discernir na parte mais longínqua do céu da mitologia algo que, emprestando do vocabulário dos astro físicos, chamaríamos de singularidades? Estas não teriam mais relação com as semelhanças superficiais com que se satisfazia a antiga mitologia comparada do que a que existe entre os objetos misteriosos revelados pelos radio- telescópios e os corpos celestes que os primeiros astrônomos obser- vavam a olho nu. Diante dos fatos do gênero desses que evoquei, as categorias habituais do pensamento vacilam. Já não se sabe o que se busca. Uma comunidade de origem, indemonstrável já que tão tênues são os vestígios que poderiam atestá-Ia? Ou uma estrutura, reduzida por generalizações sucessivas a contornos tão evanescentes que perde- mos as esperanças de apreendê-Ia? A menos que a mudança de es- cala permita entrever um aspecto do mundo moral no qual, como dizem ClS físicos acerca do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, o espaço, o tempo e a estrutura se confundem: mundo do qual deveríamos nos limitar a conceber a existência de muito longe, abandonando a ambição de penetrá-Io.

os

1%9-90

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