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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO PROFISSIONAL INTEGRADA À

EDUCAÇÃO BÁSICA NA MODALIDADE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

A LITERATURA ERÓTICA COMO FORMA DE EDUCAÇÃO SEXUAL NO PROEJA

JEANE RODRIGUES NUNES ORIENTADOR: profª Dra Tania Beatriz Iwaszko Marques

PORTO ALEGRE

2009

FICHA CATALOGRÁFICA

N972l

Nunes, Jeane Rodrigues A literatura erótica como forma de educação sexual no PROEJA / Jeane Rodrigues Nunes ; orientadora Tânia Beatriz Iwaszko Marques . – Porto Alegre, 2009. 13 f.

Trabalho de conclusão (Especialização) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Curso de Especialização em Educação Profissional integrada à Educação Básica na Modalidade Educação de Jovens e Adultos, 2009, Porto Alegre, BR-RS.

1. Educação. 2. Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. 3. PROEJA. 4. PROEJA – Educação sexual – Literatura erótica. I. Marques, Tânia Beatriz Iwaszko. II. Título

CDU 374.7

CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação. (Jaqueline Trombin – Bibliotecária responsável - CRB10/979)

A LITERATURA ERÓTICA COMO FORMA DE EDUCAÇÃO SEXUAL NO PROEJA

RESUMO: Este artigo propõe uma forma de trabalhar a sexualidade interior, através da literatura erótica, nas aulas de PROEJA. O seu objetivo é proporcionar reflexões acerca da própria sexualidade subjetiva, visando trabalhar a formação integral do aluno, como consta no documento base desta modalidade de ensino.

PALAVRAS-CHAVE: PROEJA; Educação Sexual; Literatura Erótica.

Introdução

A educação, além de trabalhar o conhecimento, abrange os aspectos sociais

e psicológicos do ser humano, dentro destes aspectos está a sexualidade, que

interfere na vida e na interioridade do homem, enquanto ser racional e afetivo. Por

estes motivos pensamos na possibilidade de proporcionar ao aluno do PROEJA um

espaço para debate, troca de idéias e de experiências acerca da sexualidade.

A educação sexual, neste trabalho, está no sentido de despertar um meio,

ou vários meios, de identificação de caminhos para uma vida sexual mais feliz e

satisfatória, de acordo com o que seria melhor para cada um dos alunos. O foco não

é trabalhar os aspectos físicos e biológicos da sexualidade e, sim, os aspectos

íntimos e psicológicos.

Inicialmente, debatemos o conceito de Educação Sexual, os motivos e

importância para ser trabalhada na escola, dentro de uma proposta mais voltada

para o público do PROEJA. Em seguida, expusemos os conceitos de Erotismo e de

Literatura Erótica, para depois apresentarmos a proposta de trabalho da sexualidade

subjetiva para o PROEJA, através de uma aula realizada com turmas de EJA.

1. A Educação Sexual

A questão do trato da sexualidade varia de acordo com o tempo. Na Idade

Antiga, o ato sexual era livre por ser importante para a perpetuação da espécie,

muitas mortes ocorriam por guerras e grande mortalidade infantil. Apesar deste aspecto de liberdade, o ato sexual seguia um certo padrão de sociedade. Conforme explica a historiadora Jehmy K. Walendorff, para o povo Hebreu a poligamia era permitida para os homens somente depois do casamento. Em relação aos Gregos, estes separavam o ato sexual para procriação e para prazer, sendo que a mulher sofria restrições, devendo não questionar. É claro que estes aspectos refletem uma certa regra para o ato sexual no que diz respeito à sua finalidade, sendo que para a mulher a restrição é bem acentuada. Com os Romanos, a sexualidade assume um aspecto de maior liberdade, vindo então a noção de culpa e de pecado:

Os romanos, teoricamente, era liberais, sendo sua cultura considerada até sádica e cruel. Com a iniciação dos filhos na atividade sexual, o pecado vai ser um instrumento para a

conscientização de que o sexo desenfreado não é correto. [

entanto, seu sadismo estava estreitamente associado à culpa sexual, e na cultura deles podemos ver os primeiros lampejos de um conceito novo: o pecado (WALENDORFF, 2007).

No

]

Com o advento do Cristianismo, o aspecto romano da noção de sexo desenfreado como pecado assume um teor maior e normativo. A Igreja Católica passa a pregar que o sexo e outros aspectos da sexualidade é exclusiva forma de procriação, noção que ainda perdura. Logicamente, diante desta ótica, a sexualidade constitui um tabu, pois o sexo e todas as formas que remetem à sensualidade pela busca do prazer, sem o fim exclusivo da procriação, são errados e vergonhosos. Não é à toa que a expressão “vergonhas” foi utilizada para designar os órgãos sexuais. Já que a sexualidade era um tabu, pouco ou quase nada desse tema era comentado na educação dos filhos, alguns acontecimentos geraram preocupação. Assim surgem os debates de Educação Sexual, no século XVIII, na França e Suécia, como forma de, principalmente, conter o aborto e as doenças sexualmente transmissíveis. No Brasil, esses debates começaram a ocorrer no século XX. De acordo com a sexóloga Marta Suplicy (1983, p.51), em resposta à pergunta “O que é Educação Sexual”, esclarece:

Um grande número de pais acredita que educação sexual seja sentar-se e dar uma aula sobre anatomia ou fazer um discurso sobre

os perigos do sexo.

Duplo engano, primeiro porque a educação sexual ocorre desde que a criança nasce, através de todas as ações que presenteia ou que é sujeita, mesmo que os pais ou outros não tenham consciência de que estejam educando. Serão essas ações, na maioria indiretas, que determinarão no indivíduo a vivência psíquica e prática da sexualidade e a percepção da sexualidade em geral. Não é possível não educar porque o não fazer é transmitir alguma coisa. Então, essa é uma responsabilidade que cabe aos pais e eles exercem quer queiram ou não. Advertir sobre os perigos do sexo não ajuda a criança, somente transmite ansiedade, medo e o germe da culpa. É tratar o sexo de forma pouco sadia e digna e que não propicia desenvolvimento.

Vemos que o esclarecimento sobre os aspectos físicos da sexualidade e os riscos decorrentes do ato sexual, como então marcava o início dos debates de Educação Sexual, foi transformado por uma nova abordagem na contemporaneidade, em que entram os aspectos comportamentais. Todas as ações dos pais que refletem, de alguma forma, a sexualidade, já é educação sexual; a criança e o adolescente irão absorver o modelo de concepção da sexualidade dos pais. Daí decorrem a continuidade dos tabus e a visão da sexualidade fechada em paradigmas sociais e culturais. Para ressaltar a importância da sexualidade no homem e suas conseqüências psicológicas, vale a pena relembrar a teoria de Sigmund Freud. Para

ele, a vida sexual é um elemento diferente de outros na personalidade e, devido ao tabu de não poder comentar ou desabafar esse tema, gera traumas. Podemos associar tais traumas à visão anti-natural dada à sexualidade, no momento em que ela é reprimida pela sociedade e pela família.

A abordagem da sexualidade como um aspecto natural do ser humano é

fundamental para a Educação Sexual, ainda nos dizeres de Marta Suplicy (1983,

p.51):

A atitude de carinho entre os pais e o respeito mútuo e a igualdade entre o homem e a mulher no lar também exercerão enorme influência no comportamento sexual dos filhos. Assim como também

a naturalidade e a maneira positiva de responder ou falar de assuntos sexuais.

A abordagem da Educação Sexual recai, principalmente, nas crianças e

adolescentes, para a formação de adultos mais conscientes e críticos a respeito das

práticas sexuais. Apesar disso, podemos abrangê-la para jovens e adultos, pois a sexualidade está presente em todas as fases da vida e com diversos aspectos:

falar de Educação Sexual, nos remete ao tema sexualidade, e

este também constituem os significados de coerção, domínio, preconceito, embargo ao indivíduo, anseio, amor, prazer, vida, morte,

autoridade, gênero, perversidade, opção sexual e construção de papéis sexuais. Por fim, todas as representações sociais que giram em torno dela na sociedade (WALENDORFF, 2007).

[ ]

De acordo com o documento-base do PROEJA, a educação deve ter uma condição humanizadora, com uma perspectiva de formação na vida e para a vida. Assim sendo, esta modalidade de ensino visa à formação integral do aluno, incluindo seu bem-estar afetivo e sexual, visto que este influencia a vida profissional. A Educação Sexual para o público-alvo do PROEJA pode dar-se na ênfase aos relacionamentos conjugais e visões sexuais coletivas, já que os alunos têm mais experiência de vida. As reflexões pessoais sobre a própria sexualidade e as influências culturais ao longo da vida podem propiciar autoconhecimento, ocasionando melhora nos seus aspectos sexuais e, conseqüentemente, no seu todo íntimo.

2. O Erotismo e a Literatura Erótica

Segundo a etimologia, erotismo (erot + ismo) significa amor lúbrico, sensual, sendo que erótico advém de erotikós (relativo ao amor) e deriva de Eros, o deus do amor dos gregos. Pela definição de erotismo, podemos entender dois aspectos essenciais: o sentimento e o prazer. O sensual marca o prazer e o amor o sentimento. Esses dois aspectos são importantes para a vida do ser humano, pois justamente fazem parte do seu todo essencial. Muitas vezes, o erotismo é associado à pornografia, tanto que as duas palavras costumam ser usadas para um mesmo significado ou concepção. Apesar de terem relação, uma distingue-se da outra. Pornografia deriva do grego (pórne) e é a representação da prostituta; tem a finalidade de expor práticas sexuais diversas, instigando a libido. Como pode-se notar, a pornografia enfatiza o ato sexual em si, podendo envolver também o

sentimento e a fantasia, porém, o sexo é o principal agente. Já para o erotismo, o principal agente não é o ato sexual, mas o prazer associado ao sentimento, em suas múltiplas formas.

Antes de tudo, o erotismo é exclusivamente humano: é sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens. O erotismo é invenção, variação incessante; o sexo é

Em todo encontro erótico há um personagem

invisível e sempre ativo: a imaginação, o desejo (PAZ, 1994, p.16).

sempre o mesmo. [

]

De acordo com Octávio Paz, o sexo é sempre o mesmo, ou seja, a busca

do prazer pelo ato sexual, a sexualidade está restrita dentro da prática sexual. O erotismo transforma a sexualidade/prática sexual, pois envolve a vontade, a invenção e o desejo, elementos que não se restringem ao sexo. Em vista disso, o prazer erótico pode estar apenas num simples olhar, na apreciação da escrita descritiva de um pôr-do-sol, no andar de mãos dadas por dois apaixonados, no jogo de sedução por vaidade ou poder. Na ótica da pornografia, o sexo deveria estar sempre envolvido.

A Literatura Erótica vem a ser a literatura dirigida para a expressão do

desejo sensual ou amor sensual. Há também a chamada Literatura Pornográfica, em que a licenciosidade é mais forte e mais descritiva, enquanto a Erótica é menos descritiva e menos licenciosa. Tais definições ocorreram porque há

escritos literários em que a essência é mais própria da pornografia, com a finalidade de provocar o prazer sexual, e é assim com certos escritos literários de Anais Nin, por exemplo. Diante disso, preferimos trabalhar com o conceito de Literatura Erótica, expressão de amor sensual menos descritivo e menos licencioso, até porque queremos trabalhar o lado interior/íntimo do ser humano.

A Literatura Erótica trabalha com aspectos importantes do ser humano: a

incompletude, a constante insatisfação e a solidão. Segundo Nunes (1997, p. 26), “o homem é um ser desejante, constantemente sedento e quase sempre

insatisfeito. Nada há no universo que o preencha ou complete”. O homem usa a razão e o sentimento para a realização de seus desejos ou prazeres, embora não consiga concretizar tudo o que deseja, pois sempre estará em busca de algo a mais e de mais um prazer. O desejo humano, diferente do desejo instintivo dos

outros animais, assume formas variadas com diferentes finalidades; o Erotismo e a Literatura Erótica é uma faceta do desejo humano. A Literatura Erótica pode ser um meio para a reflexão da sexualidade subjetiva e interior dos alunos do PROEJA, pois lança questões como busca de satisfação, procura de completude e fim da sensação de solidão, assim como sentimento, desejo e aspectos conjugais.

3. Proposta de Aula de Literatura Erótica

Tendo como problema de pesquisa a seguinte questão: “É possível proporcionar, em sala de aula, através da Literatura Erótica e debates, auto-reflexão para melhorar a vida íntima sexual?”, resolvemos aplicar uma aula de Literatura Erótica para turmas de PROEJA. Refletimos como seria o formato da aula e realizamos a busca de material. A aula teria três momentos: no primeiro, seria dada uma rápida explicação acerca do conceito de Erotismo e de Literatura Erótica, após a leitura de cinco poemas eróticos: Puxei a manga da camisa, de Martha Medeiros, Elogio do pecado, de Bruna Lombardi, Fascínio, de Affonso Romano de Sant”Anna, Oração dos casais, de Carlos Lúcio Gontijo e Sexualidade, de Cristiane Neder; no segundo, seria aberto um espaço para debate e troca de idéias acerca dos assuntos e temáticas sexuais que envolviam os textos, para que os alunos pudessem fazer suas reflexões e auto- reflexões, relatadas ou não; no terceiro, resposta escrita à seguinte pergunta: “No que esta aula contribuiu para suas reflexões acerca da sua própria sexualidade?”, mais resposta de dados pessoais: sexo, idade, estado civil e filhos. As dificuldades para marcar e realizar essa aula com turmas de PROEJA foram grandes, então resolvemos aplicá-la para alunos de EJA, já que o perfil dos alunos desta modalidade de ensino é semelhante ao perfil dos alunos do PROEJA, conseguindo nosso intento. Deixamos nossa pesquisa e resultados como proposta de trabalho para o PROEJA. A aula foi aplicada na escola E.E.E.F. Frantz Machado Charão, no município de Gravataí, e agradecemos a hospitalidade. Contamos com o número de 12 alunos, 10 mulheres e 2 homens, entre as fases T3, T4, T5 e T6, do Ensino Fundamental. As idades, na faixa de 30 a 60 anos. A maioria tem cônjuge e filhos.

4. Apresentação dos Resultados

Para que possamos apresentar os resultados, faz-se necessário a descrição do relato de observação da aula, contendo as atitudes comportamentais e pessoais dos alunos envolvidos. Após a explanação do conceito de Literatura Erótica, bem como a leitura dos poemas apresentados, os alunos tiveram dificuldade para iniciar o debate e suas

reflexões. Pairou um clima de timidez e constrangimento no ambiente, o que revelou

o

tabu que envolve o tema da sexualidade. Com o objetivo de dar início ao debate, foi necessário comentar brevemente

o

assunto de um dos poemas. Fascínio foi o poema escolhido, em que o fato de uma

pessoa estar casada não a impede de admirar a beleza de outras, o que pode, entretanto, suscitar ciúme. Tal comentário foi o estopim para as reflexões, ao que ao passo de uma hora, os alunos não queriam parar de fazer seus comentários, baseados em suas próprias vivências. Dentre os vários assuntos abordados, podemos destacar alguns deles, tais

como:

ciúme exagerado e posse: algumas alunas relataram o sentimento de

posse em relação aos ex-maridos, em que o ciúme exagerado e controlador não

trouxe benefícios ao relacionamento. Uma delas afirmou que o ex-marido sentia ciúmes até mesmo da família, em especial dos irmãos dela. Tinha de medir palavras

e sempre estar atenta a qualquer atitude, pois de tudo ele desconfiava.

falta de diálogo na relação: as alunas comentaram suas experiências

conjugais passadas, em que sentiram sua voz abafada pelas determinações dos ex- maridos. Algumas deixaram de trabalhar porque os ex-cônjuges não apreciavam o trabalho feminino fora do lar. Uma delas disse que o ex-marido não gostava que ela tomasse pílula anticoncepcional. Estes aspectos fizeram com que elas acabassem por “viver a vida deles e não a delas”, valorizando e participando mais das atividades deles, em contrapartida, deixando em segundo plano suas metas e aspirações.

o amadurecimento pessoal: algumas alunas disseram que casaram cedo,

assim como seus ex-cônjuges, numa fase ainda imatura da vida. As brigas eram constantes e só depois dessas experiências aprenderam a conversar e a dialogar. É de uma delas a seguinte afirmação: “Numa relação, é fundamental conhecer um ao outro”.

o casamento há algum tempo atrás: dentro deste tema, houve o primeiro

comentário de um dos alunos, até então quietos, só ouvindo e observando. Um deles, ao ler o poema Oração dos casais, relembrou o sexo no casamento anos atrás, em que deveria ser praticado com a luz apagada, também da dificuldade em relação às particularidades das roupas íntimas femininas. Mais de uma aluna comentou a visão social de que o homem casado podia sair e se divertir, enquanto a mulher deveria ficar em casa cuidando do lar e dos filhos. Uma delas fez um comentário de sua vivência bem interessante: vizinhas diziam onde seu marido estava e ela dirigia-se ao local. Certa noite, estava ele bebendo cerveja com os amigos, ela foi ao bar e disse: “adoro cerveja”. Outra noite, quando ele estava jogando sinuca, ela fez a seguinte afirmação: “gosto de jogar sinuca”. Interrompendo o relato, outra aluna afirmou que a atitude da colega foi ótima, mas não pôde fazer o mesmo, pois tinha filhos pequenos para cuidar.

liberdade da mulher: embasadas na leitura do poema Elogio do Pecado,

alunas comentaram que, atualmente, as mulheres podem expressar suas opiniões e viverem suas próprias vidas, fruto de lutas crescentes para maior liberdade feminina. Em contrapartida, também comentaram que essa liberdade causou a banalização do sexo em muitas mulheres jovens. Foi marcante um dos comentários: “a mulher transformou o homem”. Dentre os relatos que aludiram gostos, anseios e atitudes pessoais, podemos destacar:

conversar, sair junto com o(a) parceiro(a);

olhares sedutores;

parceiro(a) que seja compreensivo(a);

uma das alunas fez uma revelação marcante: disse que foi acordada, pela

madrugada, com gestos um tanto bruscos do marido, ao que rematou: “Não me acorda assim! Nunca mais me acorda assim, me acorda com um beijo.” Como se pode perceber, os poemas eróticos suscitaram recordações e vivências dos alunos, em que vários assuntos foram tratados de forma alegre e descontraída, depois do estímulo inicial. Dentre os assuntos, nota-se um eixo principal: a importância do viver a vida sexual, adquirindo experiência e autodescoberta. Só conseguimos melhorar a vida mediante os aprendizados que obtemos nos erros e na própria vivência. Os alunos

demonstraram que, ao longo dos relacionamentos que tiveram na vida, foram

obtendo caminhos e formas para mudar de atitude e, conseqüentemente, ter

relacionamentos futuros melhores. Fica claro que a repressão sexual não

proporciona a educação da sexualidade, pois tolhe o indivíduo no seu exercício de

autodescoberta; o debate de experiências serve ao propósito dessa educação, pois

faz a pessoa refletir espontaneamente.

Podemos apresentar os resultados desse trabalho mediante a exposição de

alguns dos relatos escritos, em resposta à pergunta já mencionada:

“Contribuiu para a reflexão do meu querer, na minha satisfação como mulher e foi ótimo debater diversas experiências no momento em que foram expostas pelos demais. A sexualidade tem outras formas de serem vividas e divididas com os nossos sentimentos.” (sexo feminino, 42 anos, separada)

“Proporcionou um conhecimento melhor para mim em relação aos poemas

que lemos. Para mim ficou que tudo que se faz com amor é bom e tudo de

erotismo numa mulher é lindo (

)”

(sexo masculino, 60 anos, casado)

“Isto me proporcionou um conhecimento, porque às vezes não nos conhecemos totalmente. É bom conversar, adquirir outras experiências, com várias pessoas. Gostei do assunto abordado, acho que deveria ter mais aulas assim.” (sexo feminino, 34 anos, casada)

“Para mim, no meu ponto de vista, o relacionamento entre duas pessoas influi muito. O casal deve ser carinhoso, amoroso. Para não ficar na rotina devem passear, jantar fora, eu adoro sair para passear. Gosto de ir para o motel com meu esposo, sempre tentando descobrir novidades.” (sexo feminino, casada)

“Que minha sexualidade está meio retraída, pois não me entendo com meu par, pois casamos muito cedo. Agora não nos entendemos mais, pois vivemos muito calados um com o outro, não temos mais diálogo, nossa vida virou um marasmo.” (sexo masculino, 34 anos, casado)

“Proporcionou um alto conhecimento na relação, o que queremos e o que gostamos. Um beijo é tão importante, o estar junto, uma palavra de carinho. Isso tudo faz parte de um conjunto para a felicidade a dois.” (sexo feminino, 39 anos, viúva)

As reflexões apresentadas mostram a importância da sexualidade na vida e,

por isso, deve ser trabalhada na escola e na sala de aula. A sexualidade bem vivida

é capaz de estimular o ser humano para a busca da alegria e da satisfação; o erotismo dá um tom diferente a ela, incorporando o sentimento, a união, a originalidade de cada pessoa, a imaginação criativa. A troca de experiências com a temática apresentada foi de profundo valor na ótica dos alunos, pois cada um pôde falar e ouvir um tema de grande importância e ainda tão pouco abordado no meio educacional. Cada um falou e escreveu as várias facetas que tem a sexualidade e, quando abordada pelo erotismo, não é apenas sexo e suas conseqüências, mas também o bem ou o mal estar num relacionamento conjugal, a conquista da liberdade e do fazer diferente, um caminho de autodescobertas e auto-afirmações. Não podemos deixar de expor um comentário de Edgar Morin (2000, p.52), que parece englobar o sentido dos relatos dos alunos:

O ser humano é um ser a um só tempo plenamente biológico e plenamente cultural, que traz em si a unidade originária. É super e hipervivente: desenvolveu de modo surpreendente as potencialidades da vida. Exprime de maneira hipertrofiada as qualidades egocêntricas e altruístas do indivíduo, alcança paroxismos de vida em êxtases e na embriaguez, ferve de ardores orgiásticos e orgásmicos, e é nesta hipervitalidade que o homo sapiens é também homo demens.

Para este autor, a educação deve ser vista de modo amplo e num todo formativo, abarcando a consciência humana e planetária. Como deixar de tratar a sexualidade no ambiente escolar se ela faz parte de todo o ser humano e está para o todo planetário? Pelos relatos escritos dos alunos, fica evidente que a Literatura Erótica, através da leitura de poemas eróticos, é capaz de pôr a sexualidade em debate de forma natural, proporcionando reflexões e auto-reflexões a caminho da realização.

5. Considerações Finais

Trabalhar a sexualidade na educação é primordial para a formação integral do aluno, porque faz parte da vida do ser humano. Como esse tema ainda continua sendo um tabu, não é por acaso que encontramos dificuldades em realizar este

trabalho. O modelo de nosso trabalho com alunos de EJA é perfeitamente cabível de

ser aplicado com alunos de PROEJA, visto a semelhança de público.

A resposta para o problema de nossa pesquisa é positiva, pois a Literatura

Erótica proporcionou debate e, através dele, os alunos refletiram sobre suas próprias

sexualidades subjetivas. A reflexão faz a pessoa encontrar caminhos para melhorar

sua sexualidade, em busca de satisfação e realização.

Referências Bibliográficas

ALEXANDRIAN, A Literatura Erótica. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Porto Alegre: L&PM, 1987.

DURIGAN, Jesus Antônio. Erotismo e Literatura. São Paulo: Ática, 1986.

LOMBARDI, Bruna. O Perigo do Dragão. Rio de Janeiro: Record, 1987.

KUPFER, Maria Cristina. Freud e a Educação. 11ª Ed. São Paulo. Scipione, 2006.

MEDEIROS, Martha. Poesia Reunida. Porto Alegre: L&PM, 1999.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2ª Ed. Cortez:

São Paulo, 2000.

NUNES Filho, Nabor. Eroticamente Humano. Piracicaba: Unimep, 1997.

PAZ, Otávio. A Dupla Chama. São Paulo: Siciliano, 1994.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poemas Escolhidos. L&PM: Porto Alegre, 1991.

SUPLICY, Marta. Conversando sobre sexo. 21ª Ed. Vozes: Petrópolis, 2000.

Sites

GONTIJO, Carlos Lúcio. - http://www.carlosluciogontijo.jor.br/literarias.html

NEDER, Cristiane. - http://neder.utopia.com.br/

WALENDORFF, Jehmy Katianne. Educação Sexual – Sexualidade: Antes e Depois -

http://www.webartigos.com/1489/1/educacao-sexual---sexualidade-antes-e-

depois/pagina1.html

Anexo

Puxei a manga da camisa

puxei a manga da camisa um pouco pra cima

perto do cotovelo, e abri o botão calmamente como se fizesse isso todo dia na tua frente não te olhei como amiga nem professora

e não liguei para a pouca idade que tinhas eu era mais madura e você mais coerente tinha certeza de tudo mas não se mexia passei a mão no teu cabelo te beijei na testa, no queixo beijei tua nuca e tua boca

e fui a primeira mulher nua da tua vida

Elogio do pecado

Martha Medeiros

Ela é uma mulher que goza celestial sublime isso a torna perigosa

e você não pode nada contra o crime dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la tachá-la, matá-la se quiser

retalhar seu corpo, deixá-lo exposto pra servir de exemplo.

É inútil. Ela agora pode resistir

ao mais feroz dos tempos

à ira, ao pior julgamento

repara, ela renasce e brota nova rosa

Atravessou a história foi queimada viva, acusada

desceu ao fundo dos infernos

e já não teme nada

retorna inteira, maior, mais larga

absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi

Fascínio

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis. Não deveria, dizem. Me esforço. Aliás, já nem me esforço.

Abertamente me ponho a admirá-las. Não estou traindo ninguém, advirto. Como pode o amor trair o amor? Amar o amor num outro amor é um ritual que, amante, me permito.

Affonso Romano de Sant'Anna

Oração dos casais

Meu bem, sei que Deus protege os casais Semeia trigais de ternura na pele Para que o amor sele as marcas da procura Então, na hora em que a gente for dormir Façamos jus aos cuidados do Senhor Por favor, acenda-me quando apagar a luz!

Carlos Lúcio Gontijo

Sexualidade

Eu sou heterossexual sou roxo. Eu sou homossexual sou cor de rosa. Eu sou bissexual sou violeta neon. Eu sou trissexual abro meu leque na mão. Eu sou quadrissexual sou amarelo ? limão. Eu sou quinssexual sou laranja ? dourado. Eu sou seis vezes a cor do pecado. Vou mudando de cor até chegar no estado puro dos tons. Sou branco virgem na tonalidade assexuada.

Cristiane Neder